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Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano &
Rosangela Formentini Caldas (Org.)
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Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano
Rosangela Formentini Caldas
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Marília/Oficina Universitária
São Paulo/Cultura Acadêmica
2026
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano
Rosangela Formentini Caldas
(Organizadoras)
Editora afiliada:
Cultura Acadêmica é selo editorial da Editora UNESP
Oficina Universitária é selo editorial da UNESP - campus de Marília
Copyright © 2026, Faculdade de Filosofia e Ciências
Ficha catalográfica
I43 Informação, conhecimento e inteligência organizacional : novas abordagens / Marcia Cristina de
Carvalho Pazin Vitoriano, Rosangela Formentini Caldas (organizadoras). – Marília : Oficina
Universitária ; São Paulo : Cultura Acadêmica, 2026.
293 p. : il.
Inclui bibliografia
ISBN 978-65-5954-675-6 (Impresso)
ISBN 978-65-5954-676-3 (Digital)
DOI: https://doi.org/10.36311/2026.978-65-5954-676-3
1. Ciência da informação - Pesquisa. 2. Direito à informação. 3.Gestão do conhecimento. 4.
Competência informacional. 5. Ciência da informação – Inovações tecnológicas. I. Pazin, Marcia. II.
Caldas, Rosangela Formentini. CDD 020.7
Telma Jaqueline Dias Silveira –Bibliotecária – CRB 8/7867
Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives
4.0 International License.
Diretora
Dra. Ana Clara Bortoleto Nery
Vice-Diretora
Dra. Cristiane Rodrigues Pedroni
Conselho Editorial
Mariângela Spotti Lopes Fujita (Presidente)
Célia Maria Giacheti
Cláudia Regina Mosca Giroto
Edvaldo Soares
Franciele Marques Redigolo
Marcelo Fernandes de Oliveira
Marcos Antonio Alves
Neusa Maria Dal Ri
Renato Geraldi (Assessor Técnico)
Rosane Michelli de Castro
Câmpus de Marília
Imagem capa: https://stock.adobe.com/br - Arquivo "AdobeStock_336485112 e AdobeStock_290613359". Acesso em 11/03/2026.
Parecerista
Profa. Dra. Heloá Cristina Camargo de Oliveira
Professora adjunta na Universidade Federal de Rondonópolis (UFR), no Instituto de Ciência Humanas e
Sociais (ICHS)
O conhecer para um saber
O saber para um inovar
O inovar para um crescer
O crescer para um (se) desenvolver
...
Àqueles que abriram o caminho na trajetória da pesquisa e com deter-
minação enfrentaram desafios, criaram oportunidades, ensinaram e deixaram
um legado referencial na grandeza do ser.
7
Sumário
P ..................................................................................................... 9
Barbara Fadel
A............................................................................................. 15
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas
Parte I – Pesquisa & Ciência da Informação
T    C  I:  
     G, M  U 
I  P  P-G  C 
I  U    2020  2024 ................................. 21
Claudia Barbosa dos Santos de Souza, Irailton Melo Souza,
Fábio Éder Cardoso e Taciana Maria Lemes de Luccas
O    :     ........ 41
Rafaela Carolina da Silva
C     :    
  .................................................................................................... 59
Cristina Marchetti Maia e Marta Lígia Pomim Valentim
A C  P-A   G  D 
 I  O ........................................................... 83
Fernanda Furio Crivellaro e Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano
8
Parte II – Informação & Sociedade
D  C  D  I:  
  ................................................................................ 113
Henrique E. C. França
R F  P   OPNS:
F  I    .................................... 129
Luana Maia Woida
E  :       
  .......................................................................... 157
Beatriz de Oliveira Benedito e Luana Maia Woida
I A: M   C T ........ 181
Rúbia Martins
Parte III – Gestão na Contemporaneidade
G      I A: A
  C R  P I 
I .................................................................................................... 205
Elaine da Silva, Rosangela Formentini Caldas, Edberto Ferneda,
Fábio Éder Cardoso e Bárbara Benati Luvizotto
R H  G  C: U 
   B P RH .......................................................... 225
Vanessa Aparecida Dias Ferreira e Ieda Pelógia Martins Damian
P      
   .................................................................... 249
Joana André Machuza Matenga e Tamara de Souza Brandão Guaraldo
A C I      
 ,      ............. 267
Irailton Melo Souza
9
Prefácio
Quando fui gentilmente convidada a escrever o Prefácio do livro
Informação, Conhecimento e Inteligência Organizacional: Novas aborda-
gens”, imaginei se não estaria concorrendo com uma série de outros traba-
lhos já realizados. No entanto, ao recordar das amáveis palavras ditas no
convite, lembrei de toda a minha trajetória na UNESP, campus de Marília.
Nessa perspectiva e com esse pensamento, decidi escrever os caminhos per-
corridos como passos que se desdobram, revendo a minha trajetória que
compreende um olhar sobre o ontem e a expectativa de contextualizar um
esboço do que me marcou positivamente em tudo o que adquiri e contri-
bui para o crescimento da área.
Memória... ah as nossas memórias... segundo N. Bobbio “somos
aquilo que recordamos”. As nossas memórias fazem de cada um de nós o
que somos, nos diferenciando de qualquer outro indivíduo. A memória
é a evocação de informações daquilo que foi aprendido. Só lembramos
aquilo que foi significativo para nos. Assim, através de minhas memórias,
consigo resgatar lembranças de apreço.
O primeiro emprego
Meu primeiro emprego foi na cidade de Franca, numa biblioteca
que continha apenas um pequeno acervo. A unidade possuía um curso
superior e, atualmente, é o Centro Universitário Municipal. Na ocasião,
sentindo a necessidade dos alunos e professores por mais leitura e busca de
https://doi.org/10.36311/2026.978-65-5954-676-3.p9-13
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
10
informações especificas e atualizadas, fui atrás de materiais que pudessem
suprir aquela procura. Ao mesmo tempo, busquei aprimoramento na mi-
nha formação e tive a oportunidade de trabalhar e pesquisar em bibliotecas
de grande porte, como as da USP e da UNESP. Em cada momento viven-
ciado, percebia que a informação era a chave que guiava para o conheci-
mento e o desenvolvimento de estudos em diferentes áreas, sendo a chave
para o progresso das pesquisas e das organizações.
A docência
Ao assumir a docência no Departamento de Biblioteconomia da
UNESP, na cidade de Marilia, percebi que cada disciplina por mim mi-
nistrada mostrava que a organização e a administração de uma unidade de
informação eram importantes para o oferecimento de serviços de qualida-
de para o leitor. O contato com os colegas do Departamento e suas visões
múltiplas sobre a área e os serviços prestados por unidades de informação
enriqueceram, cada vez mais, minha visão e o que ela representava para a
sociedade em geral e, principalmente, a acadêmica.
O primeiro Grupo de Pesquisa
Busquei a criação de um grupo de pesquisa capaz de desenvolver
estudos e discussões na área da Administração e de suas diversas facetas.
Assim, no ano de 1995, nascia o Grupo de Pesquisa “Administração em
Unidades de Informação”, inscrito na Plataforma CAPES e formado por
docentes, profissionais e alunos de pós-graduação e graduação.
Naquele período, os temas que mais suscitavam interesse e busca
por pesquisas estavam relacionados aos recursos humanos das Unidades
de Informação e a formação e o preparo de profissionais aptos a nelas
trabalharem.
A organização de evento / CD-ROM
Temas como a capacitação profissional, a mediação da informação,
a gestão de pessoas e a inteligência competitiva também começaram a ter
destaque no Grupo de Pesquisa. Assim, foi organizado, pelo referido grupo,
no ano de 2002, um evento, no auditório da UNESP, campus de Marília,
denominado “A Informação nas Organizações Sociais: desafios em face de
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
11
multiplicidade de enfoques”, com destaque a temáticas como: tecnologia,
redes eletrônicas e gestão da informação. Vale lembrar que contamos com
a participação de renomados nomes da área, que apresentaram conferên-
cias sobre temas que muito beneficiaram as pesquisas em andamento pelos
membros do Grupo. Esse evento resultou na publicação de um CD-ROM
que teve ampla distribuição. (ISBN 85.98176-01-X)
O despertar para os novos focos de pesquisa na área da informação,
incluindo o uso de tecnologias, apresentava um enfoque multidisciplinar
que mostrava a importância e o poder desse suporte, pois permitia por
exemplo, a acessibilidade a informação com rapidez, independente de li-
mites e fronteiras.
O Programa de Pós-Graduação da UNESP (PPGCI)
Com a implantação do Programa de Pós-Graduação em Ciência da
Informação, o destaque foi para a gestão. Fazer pesquisa na área de gestão
era uma novidade. Em tempos de acirrada competição organizacional, era
necessário prover recursos que subsidiassem o interesse e a importância da
gestão da informação para as organizações. Há de se ressaltar, inclusive,
que, nos cursos de Biblioteconomia existentes, a aceitação do papel de ges-
tão ainda era restrito, pois prevalecia um pensamento preso às técnicas da
profissão. A gestão competitiva e os processos decisórios provocaram mu-
danças nas informações e comunicações, gerando uma transformação, por
meio das tecnologias, no conhecimento que se fazia necessário para a ino-
vação e a competitividade das organizações e seu destaque nos mercados.
Para alcançar as novas abordagens que se revelavam no campo do co-
nhecimento, fazia-se necessário fomentar estudos de cultura organizacio-
nal em prol do compartilhamento do conhecimento gerado naturalmente
pelas pessoas.
A gestão do conhecimento e a cultura organizacional possuem es-
treita relação e são interdependentes. Lembro-me de uma frase de Moacir
Reis “a cultura é a nossa vida e o nosso oxigênio, a única coisa que pode mudar
o mundo” e isso me fez refletir sobre a significativa importância do estu-
do da cultura organizacional, que se torna uma ferramenta tanto para ser
usada nas organizações, como para entender a sua dinâmica e as possíveis
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
12
atualizações de seus valores, possibilitando uma efetiva participação nos
mercados e a busca por inovação.
O Grupo de Pesquisa Informação, Conhecimento e Inteligência
Organizacional (GICIO)
Com a integração de novos membros com larga experiência em ges-
tão, no Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação, encerra-
mos as atividades do Grupo de Pesquisa “Administração em Unidades de
Informação” e propusemos um novo Grupo, mais adequado às propostas e
necessidades de pesquisa que se faziam naquele momento. Assim, o Grupo
de Pesquisa “Informação, Conhecimento e Inteligência Organizacional” foi
criado com pesquisadores que, para além das temáticas de administra-
ção, atuavam em: Inteligência Competitiva Organizacional, Mediação da
Informação, Competência em Informação, Cultura Organizacional e que,
sobretudo, estavam interessados em construir conhecimento científico e
modelos aplicados.
O novo grupo, tinha a missão de desenvolver pesquisa básica e
aplicada, atividades de ensino e extensão, objetivando contribuir para a
construção e consolidação da área da Ciência da Informação, com grande
inserção no mundo acadêmico e, por meio de vários eventos, congressos
e reuniões, foram produzindo variadas publicações, sendo que uma delas
se destacou pela ampla repercussão, tornando-se uma obra tão requisitada,
que foi realizada uma segunda edição. O livro “Informação, Conhecimento
e Inteligência Organizacional” foi organizado pela professora Marta Lígia
Pomim Valentim e apresentava temas que ofereciam ao leitor uma visão
holística dos fundamentos da inteligência competitiva e da gestão da in-
formação, das características da cultura organizacional, da comunicação
organizacional e do monitoramento informacional.
Na continuidade dos trabalhos realizados pelo Grupo, a qualida-
de e a produtividade de pesquisa foram fundamentais para a inserção do
PPGCI da Unesp no cenário brasileiro e no exterior, apresentando novos
focos de pesquisa e novas tecnologias, provocando mudanças no pensar da
gestão que vai ao encontro das necessidades da sociedade.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
13
Novos Temas, novas abordagens: O Grupo de pesquisa GICIO
em ação
Fechando o ciclo de um pensar nas evoluções dos temas que o gru-
po de pesquisa GICIO alcançou, minhas memórias me levam a perceber
que o atual livro “Informação, Conhecimento e Inteligência Organizacional:
Novas abordagensreflete os desafios que a sociedade brasileira enfrenta em
busca de um desenvolvimento social e econômico que nos leva a repensar
o nosso Brasil.
Entendo que este novo momento do Grupo de Pesquisa, ao orga-
nizar esse novo livro, não o faz somente como uma reedição do anterior.
Desde a publicação do CD-ROM e, posteriormente, o primeiro livro até
o presente momento, ocorreram algumas importantes mudanças nas te-
máticas que acompanham o grupo, tanto do ponto de vista experimental,
quanto do conceitual. No acompanhamento de tais mudanças, houve a
necessidade de atentar e acolher os anseios da sociedade e este livro reflete
a preocupação sempre constante dos pesquisadores do grupo, com olhar
crítico e acuidade, nos 30 anos dedicados aos estudos desta importante
área de pesquisa.
Aqui, nesta publicação, o leitor certamente encontrará conhecimen-
tos relevantes e significativos para a importância da informação e a necessi-
dade de abrir caminhos para os desafios que a sociedade brasileira enfrenta
em busca de um desenvolvimento social e econômico.
Barbara Fadel
14
15
Apresentação
Informação, conhecimento e inteligência, são os pilares na estrutura
das organizações, uma vez que: Ao se tratar de “informação”, podemos
estar realizando a colocação da interpretação de dados, por meios de seus
significados na relação com o contexto apresentado; o “conhecimento
compreende a informação obtida na trajetória dos indivíduos, quer seja
por meio de estudos, práticas e aprendizados, ocasionando resultados para
a sua execução; e a “inteligência” sendo a capacidade da integração e con-
sequentemente da intersecção, do limiar e das trajetórias firmadas entre a
informação e o conhecimento.
O livro Informação, Conhecimento e Inteligência Organizacional:
Novas abordagens, tem por finalidade, apresentar as temáticas desenvol-
vidas no âmbito do grupo de pesquisa Informação, Conhecimento e
Inteligência Organizacional (GICIO) por meio de estudos realizados,
ao longo das trajetórias profissionais, de seus membros. O GICIO, tem
em seu escopo, desenvolver pesquisa básica e aplicada, atividades de ensi-
no e extensão, contribuindo para a construção e consolidação da área da
Ciência da Informação.
Há 20 anos, o nosso grupo de pesquisa, lançava o seu primeiro volu-
me intitulado: Informação, Conhecimento e Inteligência Organizacional
e organizado pela Profa. Dra. Marta Lígia Pomim Valentim, idealizadora
e líder do grupo entre os anos de 2004 e 2023. Naquela ocasião, a obra
alcançou tamanha procura, que acabou tendo uma segunda edição.
https://doi.org/10.36311/2026.978-65-5954-676-3.p15-17
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
16
Desde então, o grupo continuou se reunindo e seus membros pro-
duzindo textos que foram destaques em variados fóruns de pesquisa, even-
tos, artigos, inclusive coletâneas premiadas nacional e internacionalmente.
Entretanto, todo o material produzido, não foi específico da organização
do GICIO. Havia um interesse na continuidade de realização de uma ou-
tra obra do grupo, que pudesse reunir novamente em um único volume,
as pesquisas de seus membros. Assim, neste ano, tivemos a iniciativa de
realizar um outro volume, mas contendo novas abordagens.
Assim, temos a grata satisfação de apresentarmos, a concretização de
nossos objetivos em congregar uma nova publicação do grupo de pesquisa
GICIO.
O livro foi dividido em três partes, de acordo com as propostas das
pesquisas realizadas por seus membros.
A primeira parte do livro denominada Pesquisa & Ciência da
Informação, apresenta um levantamento das tendências de pesquisas rea-
lizadas na área da Ciência da Informação, por meio das temáticas identifi-
cadas pelas produções do Programa de Ciência da Informação da Unesp.
Destacamos ainda estudos sobre o plágio e a antiética, a competência para
citação de dados no contexto da ciência aberta e referente à metodologias
e práticas organizacionais, apresentamos a pesquisa-ação.
Na segunda parte do livro – Informação & Sociedade, cuidamos de
oferecer um conteúdo convergente entre tópicos relacionados à fenômenos
que perpassam a necessidade de processos que valoram a melhoria de vida
em sociedade, por meio da informação. Para tanto, a leitura abrange as-
pectos do direito enquanto uma emergência urbana para o acesso cidadão
na sua completude de entendimento para as práticas de melhorias do coti-
diano, os espaços de representação da mulher nas mais variadas esferas da
sociedade e uma visão da informação ambiental e seus impactos no debate
internacional.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
17
A terceira parte do livro – Gestão na Contemporaneidade, integra
processos e práticas do conhecimento nas ações das organizações em prol
de resultados que possam apresentar a ciência como forma de gerar ino-
vação e otimização de recursos. Abrimos um diálogo para a aplicação da
inteligência artificial, da gestão de conhecimento em recursos humanos,
das práticas informacionais para o enfrentamento à infodemia e a cultura
informacional enquanto um olhar diferencial na diversidade do trabalho.
Esperamos que a leitura por meio dos conteúdos e das pesquisas
aqui apresentadas, possam ser um diferencial e um celeiro para novos pen-
samentos e entendimentos sobre o contributo que a ciência pode gerar
condizente ao desenvolvimento de uma sociedade mais consciente e cog-
noscente que prospera a novos conhecimentos alcançando novas práticas
rumo à excelência no cotidiano de suas populações.
Marília/SP, Junho de 2025
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano
Rosangela Formentini Caldas
18
Parte I
Pesquisa &
Ciência da Informação
20
21
Tendências em pesquisas de Ciência da
Informação: um estudo temático sobre as
produções em Gestão, Mediação e Uso da
Informação do Programa de Pós-Graduação em
Ciência da Informação da Unesp no período de
2020 a 2024
Claudia Barbosa dos Santos de Souza
Irailton Melo Souza
Fábio Éder Cardoso
Taciana Maria Lemes de Luccas
1 INTRODUÇÃO
A produção acadêmica constitui um dos pilares fundamentais de
sustentação e desenvolvimento da Ciência da Informação no Brasil. Ao
longo das últimas décadas, programas de pós-graduação têm consolidado
espaços de reflexão e inovação teórica e prática no campo, em especial nos
temas que envolvem as dinâmicas sociais da informação. Neste contex-
to, o Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação (PPGCI)
da Universidade Estadual Paulista (UNESP)1 – Marília destaca-se pela
abrangência temática de suas pesquisas, pela contribuição contínua para
o avanço da área e por sua excelência, reconhecida pelo conceito 7 (sete)
atribuído pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível
Superior (CAPES).
O Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação da Universidade Estadual Paulista (UNESP)
possui três linhas de pesquisa: Linha 1 – Informação e tecnologia; Linha 2 – Produção e Organização da
Informação; Linha 3 – Gestão, Mediação e Uso da Informação (UNESP, 2025).
https://doi.org/10.36311/2026.978-65-5954-676-3.p21-39
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
22
O presente estudo propõe uma análise sistemática das dissertações
e teses defendidas no PPGCI-UNESP entre 2020 e 2024, com ênfase
na produção vinculada à linha de pesquisa “Gestão, Mediação e Uso da
Informação” (Linha 3). Esta linha concentra investigações que exploram
as práticas informacionais, o acesso e o uso da informação, as políticas pú-
blicas e a mediação em distintos contextos sociais.
O recorte temático e temporal do trabalho justifica-se por duas
razões principais. Em primeiro lugar, a intensificação das transformações
sociais, políticas, culturais, tecnológicas e informacionais no período re-
cente tendo impactado diretamente o campo da Ciência da Informação,
o que se reflete nas temáticas desenvolvidas pelos pesquisadores do pro-
grama. Em segundo, observa-se uma demanda crescente por estudos que
problematizem o papel da informação como elemento mediador nas re-
lações sociais contemporâneas.
A delimitação do período de 2020 a 2024 permite observar as ten-
dências mais recentes da produção, bem como identificar as lacunas e os
movimentos temáticos em curso. Ainda que o recorte principal seja este,
serão feitas referências pontuais à produção desde 2004, ano de início das
atividades do programa, com o objetivo de ampliar a contextualização his-
tórica da linha analisada.
O objetivo geral da pesquisa é mapear, sistematizar e analisar as te-
máticas predominantes na produção acadêmica vinculada à Linha 3 do
PPGCI-UNESP, destacando tendências, lacunas e possíveis contribuições
para o desenvolvimento do campo da Ciência da Informação. Objetivos
específicos incluem: a) identificar os principais temas recorrentes nos re-
sumos das teses e dissertações; b) observar a evolução quantitativa da pro-
dução por ano; c) relacionar as temáticas encontradas com as demandas
sociais e científicas contemporâneas.
Este trabalho encontra respaldo em uma abordagem qualitativa, que
combina métodos de análise estatística descritiva com técnicas de minera-
ção textual. Para isso, foram utilizados métodos como a extração de pala-
vras-chave, análise de tópicos (LDA) e visualização gráfica de dados. Os re-
sumos das teses e dissertações constituem o corpus documental principal.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
23
A estrutura deste trabalho compreende cinco seções principais.
Após esta introdução, apresenta-se o referencial teórico, no qual se
discutem os fundamentos epistemológicos da Ciência da Informação
(CI), as abordagens sobre mapeamentos temáticos e o papel do grupo
de pesquisa “Informação, Conhecimento e Inteligência Organizacional
(ICIO) no fortalecimento da linha analisada. Em seguida, detalha-se a
metodologia adotada, com ênfase nas técnicas de análise de conteúdo
e modelagem de tópicos. A seção de resultados e discussão expõe os
principais achados quantitativos e qualitativos, e as considerações finais
sintetizam as contribuições do estudo, bem como suas limitações e su-
gestões para pesquisas futuras.
2 REFERENCIAL TEÓRICO
A Ciência da Informação se constitui como um campo interdiscipli-
nar que busca compreender os fenômenos relacionados à informação em
suas múltiplas dimensões: produção, organização, circulação, uso e impac-
to social. Seu desenvolvimento teórico e metodológico está intrinsecamen-
te ligado aos contextos históricos, políticos e tecnológicos que moldam as
formas de lidar com a informação ao longo do tempo.
Segundo Capurro (2003), o campo da Ciência da Informação ca-
racteriza-se por sua abertura epistemológica, dialogando com áreas como
Filosofia, Biblioteconomia, Comunicação, Computação, Administração
e Ciências Sociais. Essa complexidade epistêmica permite abordar a in-
formação não apenas como objeto técnico, mas como fenômeno social
e cultural. Dessa forma, compreende-se a informação tanto em sua ma-
terialidade documental quanto em seu papel simbólico e mediador nas
práticas humanas.
No Brasil, autores como Valentim e Belluzzo (2020) e Le Coadic
(2004) defendem a consolidação de uma perspectiva crítica da Ciência
da Informação, que vá além dos limites tecnicistas e se comprometa com
as transformações sociais. Nesse contexto, a competência em informação
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
24
assume papel estratégico na mediação crítica entre sujeitos e seus contextos
informacionais, reforçando o caráter emancipatório e formativo do campo.
Essa abordagem implica reconhecer o papel da informação como um di-
reito fundamental e como instrumento de cidadania, ampliando a atuação
do campo em questões como inclusão informacional, políticas públicas e
mediação do conhecimento.
O mapeamento temático da produção científica tem se mostrado
uma estratégia eficaz para compreender a evolução do campo. Estudos
como os de Dudziak, Ferreira e Ferrari (2017) demonstram que a análi-
se das tendências na área da Ciência da Informação permite identificar a
emergência de novos temas, a consolidação de abordagens e até mesmo a
obsolescência de determinados enfoques. Os autores destacam, por exem-
plo, a crescente relevância de temas como competência informacional e
midiática, alfabetização crítica, ética da informação e o papel das tecnolo-
gias digitais nos processos de acesso e mediação da informação, indicando
um movimento de adaptação da área às transformações sociais e tecnoló-
gicas contemporâneas.
No contexto da pós-graduação brasileira, os programas da área da
Ciência da Informação têm desempenhado papel central na constituição
da agenda científica do campo. O PPGCI da UNESP Marília, criado em
2004, possui uma trajetória consolidada e diversificada, com três linhas
de pesquisa que abrangem aspectos distintos e complementares da infor-
mação. Dentre essas, a linha “Gestão, Mediação e Uso da Informação
destaca-se por incorporar uma visão ampliada da informação como prática
social e cultural.
A Linha 3 do programa busca investigar os modos pelos quais a
informação é mobilizada em contextos sociais diversos, considerando
seus processos de mediação, apropriação, circulação e uso. Temas como
práticas informacionais, cultura informacional, políticas públicas, inclu-
são digital, mediação da leitura e formação de usuários são centrais nessa
linha. Essa abordagem reconhece que a informação é inseparável das es-
truturas de poder, dos dispositivos de controle e das condições de acesso
que a sociedade estabelece.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
25
Segundo Castells (2009), vivemos em uma sociedade em rede na
qual a informação ocupa papel estratégico na constituição das relações so-
ciais e econômicas. Essa concepção é particularmente relevante para a linha
3, pois exige uma análise crítica dos fluxos informacionais, dos meios de
mediação e das políticas que regulam o acesso e uso da informação. Assim,
os estudos dessa linha têm potencial para contribuir com diagnósticos e
propostas voltadas à democratização da informação e à justiça social.
Uma das contribuições mais significativas para o fortalecimento
da Linha 3 no PPGCI-UNESP vem do Grupo de Pesquisa “Informação,
Conhecimento e Inovação Organizacional (ICIO)”, que tem atuado de
maneira ativa na formação de pesquisadores e na articulação de proje-
tos interdisciplinares. O grupo reúne docentes, discentes e pesquisadores
que compartilham o interesse pelas dinâmicas informacionais nas orga-
nizações e nas políticas públicas, com ênfase na gestão da informação e
do conhecimento.
O grupo ICIO se destaca também pela produção voltada à avaliação
da inovação, ao uso de dados abertos, à relação entre ciência e sociedade e
à aplicação de tecnologias de informação na gestão pública. As pesquisas
desenvolvidas no grupo abordam, por exemplo, o uso de dados para pre-
venção de crimes, a governança informacional em ambientes públicos e o
papel da inteligência artificial na produção acadêmica, demonstrando a
interface entre tecnologia e mediação.
Conforme discutem Vieira e Araújo (2024), os sistemas de inteli-
gência artificial, como os chatbots, revelam diferentes níveis de acessibilida-
de informacional e desempenham papel estratégico no enfrentamento das
desigualdades no acesso à informação. Essa perspectiva reforça o compro-
misso da Linha 3 com um desenvolvimento do conhecimento socialmen-
te referenciado, voltado à mediação crítica e ao uso ético das tecnologias
informacionais em contextos comunitários e institucionais. Além disso, o
grupo ICIO tem desempenhado papel importante na formação de redes
de colaboração com outras instituições nacionais e internacionais, o que
amplia a circulação dos saberes produzidos no programa. A internaciona-
lização da pesquisa é um dos eixos estratégicos da pós-graduação brasileira
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
26
e tem sido incentivada por agências como CAPES e CNPq, sendo que o
ICIO tem conseguido se posicionar nesse cenário de forma qualificada.
Assim, a análise da produção acadêmica da linha 3 do PPGCI-
UNESP não se limita a um exercício de diagnóstico estatístico, mas repre-
senta também uma oportunidade de refletir sobre o lugar da informação
nas transformações contemporâneas. Ao investigar o que se tem produzi-
do, sobre quais temas e com quais abordagens, busca-se contribuir para o
fortalecimento crítico e inovador da área.
3 MÉTODOS E TÉCNICAS DE PESQUISA
Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa de natureza qualitati-
va, de caráter documental e bibliográfico. Adota-se uma abordagem explo-
ratória e descritiva, orientada pela análise de conteúdos extraídos de docu-
mentos acadêmicos publicados entre os anos de 2020 e 2024 no âmbito
do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP,
campus de Marília. A escolha metodológica combina o rigor da análise
estatística com a interpretação qualitativa, permitindo tanto a identificação
de padrões temáticos quanto a compreensão das nuances discursivas da
produção acadêmica.
A pesquisa documental, segundo Cellard (2008), constitui-se na
análise sistemática de registros que não foram produzidos com a finalidade
explícita de pesquisa, mas que oferecem dados valiosos para investigações
científicas. No caso em questão, os documentos analisados foram as disser-
tações e teses defendidas no programa, disponíveis no repositório institu-
cional da UNESP. Trata-se, portanto, de um corpus composto por produ-
ções textuais científicas finalizadas e submetidas à avaliação acadêmica, o
que confere confiabilidade e representatividade ao material.
A delimitação do corpus teve como critério central a vinculação dos
trabalhos à linha de pesquisa “Gestão, Mediação e Uso da Informação”,
identificada oficialmente como Linha 3 do programa. Essa escolha justifi-
ca-se pela relevância dessa linha na problematização das práticas sociais da
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
27
informação, bem como por seu alinhamento com as transformações sociais
e tecnológicas contemporâneas. Embora o recorte principal contemple o
período de 2020 a 2024, foram consideradas referências desde o ano de
2004, início do funcionamento do PPGCI, com o objetivo de contextua-
lizar a trajetória da linha.
O repositório institucional da UNESP foi a fonte primária de dados.
A coleta dos documentos foi realizada manualmente, a partir da identifi-
cação dos trabalhos defendidos entre os anos delimitados. Foram extraídas
as seguintes informações: título, resumo, ano de defesa e tipo de trabalho
(tese ou dissertação). Essas informações foram organizadas em uma plani-
lha eletrônica e, posteriormente, submetidas a procedimentos de análise
textual e estatística.
A técnica central foi a análise temática de conteúdo, conforme pro-
posta por Bardin (2016), combinada com métodos automatizados de
mineração de texto. Inicialmente, foi realizada uma leitura flutuante dos
resumos, seguida da identificação de palavras-chave e termos recorrentes
por meio de vetorização e uso de frequência de palavras. Em seguida, apli-
cou-se o modelo Latent Dirichlet Allocation (LDA), uma técnica de apren-
dizado de máquina não supervisionado utilizada para descobrir tópicos
latentes em grandes conjuntos de documentos.
A Latent Dirichet Allocation (LDA) é uma técnica probabilística am-
plamente utilizada na modelagem de tópicos em grandes volumes de texto,
sendo particularmente útil para identificar temas latentes em corpus de
dados não estruturados. Conforme descrito por Blei, Ng e Jordan (2003),
a LDA assume que cada documento é uma mistura de tópicos e que cada
tópico é uma distribuição sobre palavras.
No contexto desta pesquisa, a aplicação da LDA permitiu agrupar os
documentos acadêmicos em conjuntos temáticos coerentes, revelando pa-
drões semânticos que não seriam facilmente detectados por análise manu-
al. Os dados textuais foram processados om o auxílio da biblioteca Scikit-
Learn, em ambiente Python, que possibilita a aplicação de modelos de
vetorização, análise TF-IDF (Term Frequency-Inverse Document Frequency)
e modelagem de tópicos. Além disso, foi gerada uma nuvem de palavras a
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
28
partir dos resumos para visualizar graficamente os termos mais recorrentes,
e gráficos de barras foram utilizados para a distribuição temporal e temá-
tica de produção.
Para fins de interpretação e validação dos temas extraídos, foi ado-
tado um procedimento de leitura crítica dos tópicos gerados automa-
ticamente, associando-os a descritores já consolidados na literatura da
Ciência da Informação. Essa triangulação metodológica garantiu maior
consistência analítica, ao evitar dependência exclusiva de critérios técni-
cos automatizados.
A análise também considerou a distribuição dos trabalhos por tipo
(tese ou dissertação) e por ano, com o objetivo de identificar padrões e
tendências longitudinais. A abordagem qualitativa, nesse caso, permitiu
observar o volume de produção, enfatizando a concentração de determi-
nados temas e possíveis descontinuidades temáticas ao longo do tempo.
Por fim, os resultados foram sistematizados em tabelas e gráficos que
representam as temáticas predominantes, a frequência de termos relevantes
e a associação dos tópicos com os eixos teóricos da Linha 3. Esses achados
são discutidos à luz do referencial teórico apresentado anteriormente, com
o intuito de compreender a contribuição da produção analisada para o
campo da Ciência da Informação e para o próprio PPGCI-UNESP.
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise dos dados revelou um panorama amplo e diversificado
da produção vinculada à linha de pesquisa “Gestão, Mediação e Uso da
Informação” do PPGCI-UNESP, especialmente no recorte temporal de
2020 a 2024. A partir da extração dos títulos e resumos, foram identifica-
das tendências temáticas, recorrências de conceitos e lacunas que permitem
reflexões aprofundadas sobre os rumos da pesquisa na área.
Em termos quantitativos, observou-se uma constância na produção
acadêmica ao longo do quinquênio, mesmo com as adversidades impostas
pelo cenário da pandemia de COVID-19 a partir de 2020. Esse dado é
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
29
indicativo de que o programa manteve sua vitalidade científica, asseguran-
do a continuidade das pesquisas, muitas das quais trataram, inclusive, dos
efeitos informacionais da pandemia na sociedade.
O primeiro nível de análise foi baseado na frequência de termos
e expressões extraídas dos resumos. Termos como “informação”, “uso”,
mediação”, “conhecimento”, “acesso”, “práticas informacionais”, “polí-
ticas públicas”, “inclusão digital” e “comunidade” apareceram de forma
recorrente, o que evidencia a aderência da produção aos eixos centrais da
linha 3. Esses termos foram visualizados por meio de nuvem de palavras,
conforme ilustra a figura 01, permitindo identificar visualmente os focos
semânticos mais densos.
Figura 1 – Nuvem de palavras com os termos mais recorrentes
Fonte: Autores (2025)
A nuvem de palavras destaca os principais termos e expressões re-
correntes nos resumos das dissertações e teses vinculadas à Linha 3 do
Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP –
Marília. A predominância da palavra “informação” é esperada, dado o foco
do campo, mas é complementada por termos como “uso”, “mediação” e
conhecimento”, que evidenciam o interesse recorrente pelas dinâmicas
de apropriação e circulação da informação em contextos sociais diversos.
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
30
A presença de expressões como “práticas informacionais” e “comu-
nidade” indica a ênfase em estudos empíricos voltados à observação de
comportamentos informacionais em ambientes específicos. Já os termos
políticas públicas” e “inclusão digital” apontam para uma dimensão críti-
ca e social da pesquisa, voltada para a equidade no acesso à informação e à
tecnologia. Essa configuração lexical reafirma o compromisso epistemoló-
gico da linha com a mediação da informação em contextos marcados por
desigualdades e pela necessidade de intervenção social informada.
Com o uso do modelo LDA (Latent Dirichlet Allocation), técnica de
modelagem de tópicos amplamente utilizada na análise de grandes volu-
mes de texto, os resumos foram agrupados em três grandes tópicos. O LDA
parte do princípio de que cada documento é composto por uma combina-
ção de tópicos latentes, e que cada tópico é definido por um conjunto de
palavras com alta probabilidade de ocorrência conjunta. Essa abordagem
permite identificar padrões semânticos recorrentes e extrair estruturas te-
máticas ocultas nos textos analisados.
O primeiro tópico reuniu trabalhos com ênfase em gestão da infor-
mação e análise de dados aplicados a contextos sociais. O segundo agregou
produções voltadas à mediação, práticas culturais e leitura. O terceiro con-
templou temas relacionados à informação em ambientes organizacionais
e comunitários, com foco em inclusão informacional e políticas públicas.
O tópico que concentrou a maioria das dissertações e teses foi o da
gestão e análise da informação, conforme ilustra a Figura 02. Isso indica
que a Linha 3 tem incorporado discussões oriundas da administração pú-
blica, da ciência de dados e da gestão do conhecimento, alinhando-se a
tendências contemporâneas que valorizam a análise crítica da informação
para apoio à tomada de decisão.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
31
Figura 2 – Distribuição temática por Tópico (Modelagem LDA)
Fonte: Autores (2025)
Entre os trabalhos analisados, muitos discutem a informação como
instrumento de cidadania e como direito social, alinhando-se à perspectiva
defendida por Costa e Farias (2019), para quem a informação mediada
favorece processos de transformação social, especialmente em contextos
de mediação cultural e comunitária. Essa abordagem aparece em pesquisas
sobre políticas de acesso à informação, gestão documental no setor público
e inclusão digital em comunidades vulneráveis.
A segunda tendência identificada refere-se às práticas de mediação
informacional em ambientes educativos e culturais. Há uma significativa
quantidade de estudos que investigam a atuação de bibliotecas públicas,
escolares e comunitárias como espaços de mediação do saber. Essas pesqui-
sas resgatam a importância da leitura, da formação de leitores e da constru-
ção da autonomia informacional dos sujeitos.
Autores como Freire (1996) e Chartier (1990) são frequentemente
citados nesses trabalhos, o que denota uma inspiração nas abordagens crí-
ticas e socioculturais da informação. O conceito de mediação, nesse con-
texto, é expandido para além da transmissão de conteúdos, sendo compre-
endido como processo dialógico e emancipador.
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
32
A terceira linha temática refere-se ao uso da informação em políti-
cas públicas. Dissertações e teses investigaram a implementação da Lei de
Acesso à Informação (LAI), os desafios da transparência na administração
pública, os portais de dados abertos e o papel das tecnologias de informa-
ção na prestação de contas à sociedade. Esses estudos mostram a interseção
entre informação, governança e cidadania, destacando a importância da
gestão informacional para a efetivação dos direitos sociais.
Embora a análise tenha evidenciado uma boa diversidade temática,
também foi possível identificar lacunas. A presença de termos relacionados
à ética da informação, inteligência artificial, desinformação, algoritmos e
vigilância informacional foi pouco significativa. Considerando o contexto
atual, em que a sociedade é impactada intensamente por essas temáticas, a
ausência de maior número de estudos nesses campos indica uma oportuni-
dade de aprofundamento.
Outro ponto relevante diz respeito à distribuição entre teses e disser-
tações. Observou-se que os trabalhos de mestrado apresentaram maior va-
riedade temática e exploraram com mais frequência questões relacionadas
à cultura informacional e mediação da leitura. Já as teses, em sua maioria,
concentraram-se em tópicos voltados à gestão informacional e análise de
sistemas. Isso pode evidenciar uma especialização dos doutorados em pro-
blemáticas mais aplicadas, mas também pode sugerir uma menor inserção
de abordagens críticas e socioculturais no nível de doutoramento.
Os trabalhos vinculados ao grupo ICIO apresentaram coerência te-
mática com a proposta da Linha 3. Muitos deles dialogam diretamente
com a gestão do conhecimento em organizações públicas e com o uso de
dados informacionais para inovação social. Ademais, o ICIO também tem
promovido discussões sobre avaliação da inovação, indicadores informa-
cionais e inteligência organizacional, expandindo os limites da linha 3 para
temas de alta complexidade contemporânea.
Constatou-se que a linha 3 tem sido um campo fértil para pesquisas
que promovem articulação entre teoria e prática. Vários trabalhos analisa-
dos apresentaram estudos de caso em instituições públicas, escolas, biblio-
tecas, organizações sociais e comunidades periféricas. Essa conexão com o
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
33
mundo real é um diferencial da linha, reforçando seu compromisso com a
transformação social.
Observa-se ainda a presença frequente da expressão “formação de
usuários”, o que evidencia o interesse continuado da linha por práticas
educativas voltadas ao desenvolvimento de competências informacionais.
Este conceito, embora presente desde os primórdios da área, ganha novos
contornos nos trabalhos recentes. Os resumos indicam uma preocupação
em formar sujeitos críticos, capazes de lidar com o volume e a complexida-
de informacional do presente, o que se aproxima das propostas de literacia
informacional defendidas por Pinto, Cordón e Gómez (2010).
A presença de estudos sobre memória, identidades e acervos também
foi verificada. Nesses casos, a abordagem da informação articula-se com a
história oral, a construção de narrativas coletivas e a preservação de saberes
locais. Tais pesquisas ampliam a visão da informação como fenômeno vivo,
dinâmico e situado socialmente.
O uso da tecnologia, embora presente, aparece frequentemente como
instrumento e não como objeto central de investigação. Poucos trabalhos
problematizaram criticamente os impactos dos sistemas informacionais
nas dinâmicas de exclusão, vigilância ou reprodução de desigualdades. Isso
sugere que a linha 3 ainda pode avançar em pesquisas mais densas sobre
ética digital, regulação de algoritmos e justiça informacional.
Também foi identificado um conjunto de dissertações e teses que
abordam a mediação informacional em tempos de crise. A pandemia de
COVID-19, por exemplo, estimulou pesquisas sobre o papel das institui-
ções de informação no combate à desinformação e na promoção da saúde
informacional. Esses estudos demonstram a relevância da linha 3 em mo-
mentos críticos, nos quais a informação se torna questão de vida ou morte.
A análise longitudinal apontou que a Linha 3 tem consolidado suas
áreas de interesse, mas ainda há espaço para renovação. As tendências
mais antigas, como mediação da leitura e formação de usuários, seguem
presentes. Contudo, as temáticas emergentes2, como dados abertos, in-
Entendemos como “temáticas emergentes” aquelas consideradas em evidência e em ascensão, seja por
questões sociais, políticas, culturais e principalmente informacionais, que no âmbito da Ciência da
Informação visam análise de seus fluxos, implicações e até mesmo possível proposição de soluções.
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
34
clusão informacional algorítmica e inteligência artificial ética, ainda são
pouco exploradas.
De modo geral, a linha 3 do PPGCI-UNESP, por meio dos seus
grupos de pesquisa, apresenta uma produção acadêmica robusta, crítica
e conectada às transformações sociais. Seus trabalhos demonstram preo-
cupação com a realidade brasileira, com a promoção da cidadania infor-
macional e com a formação de sujeitos capazes de compreender, usar e
transformar a informação em diferentes contextos.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise desenvolvida neste trabalho evidenciou a riqueza e a com-
plexidade temática da produção científica vinculada à linha “Gestão,
Mediação e Uso da Informação” do Programa de Pós-Graduação em
Ciência da Informação da UNESP – Marília. Ao investigar o conteúdo de
dissertações e teses defendidas entre os anos de 2020 e 2024, foi possível
mapear tendências, identificar recorrências e sinalizar lacunas na aborda-
gem dos fenômenos informacionais contemporâneos.
Uma das principais constatações foi o predomínio de três grandes
eixos temáticos nos resumos analisados: gestão informacional em contex-
tos organizacionais, mediação cultural e formação de leitores, e políticas
públicas de acesso à informação. Esses temas demonstram a diversidade de
objetos e métodos que compõem o escopo da linha 3, além de evidenciar o
seu potencial de diálogo com outras áreas do conhecimento.
Constatou-se, também, que a produção acadêmica da linha tem
buscado, em grande parte, uma conexão entre teoria e prática. Muitos
trabalhos propõem soluções para problemas reais, realizam diagnósticos
em instituições específicas ou avaliam políticas públicas. Isso revela uma
postura de engajamento social e de compromisso com a aplicabilidade do
conhecimento produzido, o que está em consonância com os princípios da
Ciência da Informação como campo interdisciplinar e interventivo.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
35
Outro aspecto relevante é a manutenção de temas clássicos da área,
como a mediação da leitura, a formação de usuários e a atuação de bi-
bliotecas públicas e escolares. Esses temas, embora já consolidados, são
revisitados à luz de novos contextos e desafios, como a pandemia, a digita-
lização de acervos, as práticas de leitura em ambientes digitais e a cultura
da desinformação.
A pesquisa também apontou algumas lacunas que merecem atenção.
Apesar de vivermos em uma era marcada pela ubiquidade da informação e
pela intensificação dos fluxos digitais, poucos trabalhos abordaram direta-
mente os impactos da inteligência artificial, dos algoritmos ou das platafor-
mas digitais no uso e mediação da informação. Essas temáticas, amplamen-
te discutidas em foros internacionais (Floridi, 2010; O’Neil, 2016), ainda
carecem de maior presença na produção local.
Além disso, a questão da ética informacional, embora tangenciada
em alguns trabalhos, não apareceu como tema central em nenhuma das
dissertações ou teses analisadas. Em tempos de vigilância algorítmica, va-
zamentos de dados e manipulação da informação, esse é um campo que
demanda atenção urgente por parte dos pesquisadores da área.
No que tange ao uso de métodos e abordagens, verificou-se um pre-
domínio de estudos qualitativos com base em análise de conteúdo, en-
trevistas e estudos de caso. Esse perfil metodológico é coerente com os
objetos investigados, que frequentemente exigem compreensão profunda
de práticas e contextos. Contudo, a ampliação do uso de métodos mistos,
bem como a incorporação de abordagens computacionais, como minera-
ção de dados e análise de redes, pode enriquecer ainda mais as investiga-
ções futuras.
A atuação do grupo de pesquisa ICIO também se destacou como
força propulsora de parte significativa da produção na Linha 3. O grupo
tem contribuído para a inserção de temas inovadores, como a análise de
dados abertos, o uso de inteligência artificial na avaliação da produção
científica e a gestão da informação em políticas públicas. Essa contribuição
evidencia o papel dos grupos de pesquisa na consolidação temática e me-
todológica da pós-graduação.
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
36
A internacionalização ainda é um desafio a ser ampliado. Embora
haja referências pontuais a autores estrangeiros e aproximações teóricas
com correntes internacionais, poucos trabalhos indicaram vinculação dire-
ta com redes globais de pesquisa ou com projetos em parceria internacio-
nal. Fortalecer essas conexões é fundamental para posicionar o programa
em um cenário científico globalizado e dinâmico.
Com base nos achados deste trabalho, sugere-se que o PPGCI-
UNESP possa considerar o fortalecimento da Linha 3 em torno de quatro
direções principais. A primeira é o incentivo à problematização crítica das
tecnologias informacionais contemporâneas, especialmente no que tange
aos algoritmos, à ética da IA e aos sistemas de recomendação. A segunda
é o estímulo à pesquisa sobre desinformação e literacia midiática, temas
urgentes frente aos desafios democráticos atuais.
A terceira direção seria o reforço da interdisciplinaridade, buscan-
do parcerias com áreas como Direito, Ciência Política, Saúde Coletiva,
Comunicação e Computação. Tais interfaces podem ampliar o escopo da
linha e proporcionar abordagens mais complexas e integradas. A quarta e
última recomendação é o fortalecimento da articulação com políticas pú-
blicas, organizações da sociedade civil e movimentos sociais, ampliando o
impacto da produção acadêmica sobre a realidade concreta.
Do ponto de vista metodológico, recomenda-se a continuidade do uso
de técnicas como LDA, TF-IDF e visualização de dados em futuras análi-
ses de tendência, além da adoção de ferramentas de ciência aberta e repro-
dutibilidade. Essas práticas não apenas ampliam a robustez analítica, como
também contribuem para a transparência e compartilhamento dos achados
científicos, conforme orientações de organismos como a UNESCO (2021).
O presente estudo possui algumas limitações. A principal delas diz
respeito ao foco exclusivo nos resumos dos trabalhos, o que, embora efi-
ciente para mapeamentos iniciais, não substitui a leitura integral das disser-
tações e teses. Futuras pesquisas podem se beneficiar de análises mais apro-
fundadas dos textos completos, especialmente das introduções e capítulos
de fundamentação teórica. Além disso, a classificação automatizada dos
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
37
tópicos, embora metodologicamente consistente, depende da qualidade da
redação dos resumos, o que pode interferir nos agrupamentos temáticos.
Ainda assim, os resultados aqui apresentados oferecem subsídios rele-
vantes para a avaliação da produção científica da Linha 3, permitindo identifi-
car padrões, destacar contribuições e propor caminhos para o futuro. Trata-se
de uma análise que combina rigor técnico com sensibilidade crítica, respeitan-
do a pluralidade epistemológica que caracteriza a Ciência da Informação.
Ao concluir este trabalho, reitera-se a importância da linha “Gestão,
Mediação e Uso da Informação” como espaço privilegiado para o enfren-
tamento dos grandes desafios informacionais do presente. Ao investigar os
modos como os sujeitos produzem, acessam, compartilham e se apropriam
da informação, essa linha contribui para a construção de uma sociedade
mais justa, democrática e informada.
Nesse sentido, é fundamental que o PPGCI-UNESP continue a in-
vestir no fortalecimento dessa linha, ampliando sua visibilidade, estimu-
lando sua renovação temática e incentivando a produção de conhecimento
socialmente engajado. A produção analisada neste estudo demonstra que
há solidez teórica, compromisso ético e capacidade de inovação no interior
da linha, o que constitui um ativo valioso para o programa como um todo.
Este trabalho, ao mapear a produção acadêmica recente da Linha 3,
pretendeu não apenas oferecer um diagnóstico, mas principalmente pro-
vocar reflexões, inspirar novos projetos e colaborar para a consolidação de
uma ciência informacional crítica, plural e socialmente relevante.
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40
41
O plágio e a antiética: combatendo a
desonestidade acadêmica
Rafaela Carolina da Silva
1 INTRODUÇÃO
Com as transformações da sociedade e, consequentemente, a inser-
ção das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) no cotidiano
das populações, o acesso à informação se proliferou, facilitando o dia a dia
das pesquisas acadêmicas, ao passo em que o conhecimento passou a ser
compartilhado em infinitas redes e plataformas. As publicações de acesso
aberto e a internet, que visam ampliar a visibilidade dos conteúdos de au-
torias variadas, são exemplos dessa rede de partilha de conhecimento.
Assim como em todos os espaços de vivência, em prol do bem co-
mum, é preciso que o ser humano tenha condutas éticas, que não firam a
moral do outro e que preservem a integridade física e intelectual dos indi-
víduos nesses ambientes. Mas o que é ser ético?
De acordo com Clotet (2003, p. 185), a ética é uma filosofia moral
que consiste no “estudo da conduta humana na medida em que ela pode
ser chamada de boa ou má”. A ética é uma ação que “[...] todo ser racional
deve fazer” (Chauí, 1995, p. 345). Em face da racionalidade, é atemporal,
mas válida diversificadamente em diferentes contextos histórico-sociais.
https://doi.org/10.36311/2026.978-65-5954-676-3.p41-58
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
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O “[...] respeito à autonomia e à dignidade de cada um é um impe-
rativo ético e não um favor que podemos ou não conceder uns aos outros
(Freire, 2011, p. 58). Logo, quando alguém se apropria do conhecimento
de outrem e o toma como se fosse seu, copiando-o sem dar os devidos
créditos ao autor, está tomando uma atitude antiética, uma conduta não
adequada, má, passível de punição jurídica. Trata-se do plágio.
O combate ao plágio é um objeto de estudo para a Ciência da
Informação, uma vez que promove a credibilidade da comunidade cien-
tífica e a honestidade intelectual. Ao combater o plágio promove-se a ori-
ginalidade na produção de conhecimento, o que é essencial para o avanço
científico (Alves, Casarin, Fernandéz-Molina, 2016).
O objetivo deste estudo é refletir sobre a prática antiética do plágio,
suas tipologias e possibilidades de combate em âmbitos nacional e inter-
nacional. Para tanto, foi feita uma revisão de literatura nas bases de dados
Web of Science, Scopus e Google Scholar, além da análise documental de leis
brasileiras de direito autoral, discorrendo-se considerações acerca do assunto.
A prática do plágio não é nova. Conforme McCormick (1989), a
história do plágio remonta à época da escravatura, em que o plagiador
era o indivíduo que roubava e escravizava pessoas livres. No século V a.C,
em Roma, no contexto dos concursos públicos de poesia, ocorreram casos
de plágio, uma vez que alguns participantes foram acusados de copiarem
textos da Biblioteca de Alexandria (Mateus; Silva; Silva, 2020). O termo
deriva de “plagiarius, sequestrar e significa quebrar uma conexão entre o
autor e a obra” (Krokoscz, 2014, p. 55, grifo do autor).
O plágio é caracterizado pela apropriação inadequada de ideias, pa-
lavras e frases, sem devida referenciação. A sua complexidade decorre das
dificuldades para identificar e qualificar o plágio, bem como a falta de
punição para os contestados. Essas premissas prejudicam a sua inibição e,
portanto, a decorrência de uma honestidade acadêmica.
Para manter a ética no âmbito acadêmico e de produção de conte-
údo, existe o Direito Autoral, que teve a sua primeira lei, a Copyright Act,
promulgada em 1710, na Inglaterra, de modo a proteger obras literárias
a partir da criação da imprensa de Gutenberg. Daí surge a expressão que
utilizamos até os dias de hoje: copyright.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
43
No Brasil, a primeira lei referencial ao Direito Autoral data de 1827,
doravante a criação do curso de Ciências Jurídicas, em São Paulo, e de
Sociais, em Olinda (Moraes, 2003). Especificamente em 1988 foi criada
a Lei n. 496, denominada Medeiros e Albuquerque. Em 1916, o Direito
Autoral se tornou disciplina do Código Civil e, atualmente, existe a Lei n.
9.610, que entrou em vigor em 1998.
2 CONTEXTUALIZANDO O PLÁGIO: UMA ABORDAGEM
PARA A CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO
Na literatura, o plágio é descrito como fraude intelectual, estupro in-
telectual e pirataria literária (Posner, 2007; Sutherland-Smith, 2008). “[...]
É uma apropriação indevida de criação literária, que viola o direito de
reconhecimento do autor e a expectativa de ineditismo do leitor” (Diniz;
Munhoz, 2011, p. 14).
Para o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico (CNPq, 2011), o plágio consiste na apresentação de resulta-
dos ou conclusões obtidas pelos estudos de outro autor, como se fossem
de autoria do copista, sejam eles como textos integrais ou de parte subs-
tanciais. Para mais das cópias de textos já publicados, “comete igualmente
plágio quem se utiliza de ideias ou dados obtidos de projetos ou manuscri-
tos não publicados aos quais teve acesso como consultor, revisor, editor, ou
assemelhado” (CNPq, 2011).
Como destaca a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São
Paulo (FAPESP, 2011, p. 10), o plágio define a utilização de ideias “[...]
ou formulações verbais, orais ou escritas, de outrem sem dar-lhe por elas,
expressa e claramente, o devido crédito, de modo a gerar razoavelmente a
percepção de que sejam ideias ou formulações de autoria própria”.
Mesmo que não se trate de uma cópia fidedigna do texto original,
mas de uma transcrição escrita por sinônimos (paródia) ou de maneira
diferente (paráfrase), pode ocorrer o plágio se a fonte original não for apre-
sentada. A mudança na forma de apresentação de um conteúdo é insufi-
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
44
ciente para caracterizar originalidade, já que “[...] na essência, a ideia que é
explicitada com outras palavras apenas transmite a mensagem de um jeito
diferente, mas o conteúdo é o mesmo” (Krokoscz, 2012, p. 43).
Podemos dizer que plágio é a imitação fraudulenta de uma obra,
protegida pela lei autoral, ocorrendo verdadeiro atentado aos
direitos morais do autor: tanto à paternidade quanto à integridade
de sua criação. Não é exagero adjetivar o plagiário como malicioso,
disfarçado, astuto, hábil, dissimulado. O plagiador (ou plagiário)
costuma não confessar o ilícito. Por isso, empenha-se em disfarçar
o assalto, evitando deixar vestígios. (Moraes, 2003, p. 5).
Segundo Wachowicz e Costa (2016, p. 42-43), “falsificar mono-
grafias, teses, artigos, livros, trabalhos, provas ou outras tantas formas de
expressão de pesquisa acadêmica parece ser o âmbito típico do plágio”.
Para o autor, um plagiador se beneficia das vantagens de participar da co-
munidade acadêmica, mas não contribui para com a sua legitimidade. Do
contrário, a ameaça, pois está preocupado em obter vantagens para si.
A expropriação do texto de outro autor e a apresentação desse
texto como sendo de cunho próprio caracterizam plágio e, segundo
a Lei de Direitos Autorais, 9.610, de 19 de fevereiro de 1998, é
considerada violação grave à propriedade intelectual e aos direitos
autorais, além de agredir frontalmente a ética e ofender a moral
acadêmica (Fonseca, 2004).
No Brasil, o plágio é considerado crime quando praticado com obras
que possuem direito autoral e concordante com a Lei expressa acima. A
prática viola o direito autoral do autor e está descrita no artigo 184 do
Código Penal, que “[...] impõe a pena de três meses a um ano de prisão,
ou multa, uma vez que ferem os direitos morais e patrimoniais do legítimo
autor da obra” (Krokoscz, 2014, p. 36).
De qualquer modo, todo tipo de plágio repercute negativamente na
identidade individual do autor e caracteriza uma ação antiética. “No caso
de não haver direitos autorais envolvidos, o principal dano do plágio é
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
45
moral: há uma identidade entre criador e criatura que o plagiador covarde-
mente rompe” (Diniz; Munhoz, 2011, p. 23).
As causas do plágio podem estar ligadas, como afirmam Austin e
Brown (1999), Stebelman (1998) e Gibelman, Gelman e Fast (1999), às
páginas que vendem trabalhos acadêmicos prontos, disponíveis na inter-
net; ao não saber parafrasear (Eco, 1994); à não valorização do autor em
relação ao seu trabalho, no que diz respeito ao merecimento de proteção
intelectual (Wood, 2004); à incapacidade de análise crítica das informa-
ções acessadas na internet (Graham; Metaxas, 2003); à falta de conscien-
tização do plágio nos ensinos fundamental e médio (Garschagen, 2006);
à facilidade de acesso a programas de tradução (Stebelman, 1998); e ao
desconhecimento das regulamentações existentes (Austin; Brown, 1999).
Essas ações colocam os sujeitos em consonância com práticas equivocadas
de construção e partilha de conhecimentos, culminando no plágio.
A Ciência da Informação, como área que tem por objeto o fenôme-
no informação, gerindo os seus meios e canais de processamento, dissemi-
nação, uso e reuso da informação, “não pode, portanto, somente enfatizar
ou sequer restringir-se à punição do plágio, precisando de focar-se na pro-
moção dos comportamentos desejáveis” (Terra; Moreira; Gomes, 2021, p.
748). A intervenção de profissionais da informação, com sugestões, aná-
lises e práticas para fomentar o respeito aos princípios de autoria, priva-
cidade, responsabilidade social alicerça a dimensão ética, conscientizando
sobre razões intencionais de plágio.
3 METODOLOGIA
O presente estudo é de natureza qualitativa e do tipo descritivo. A
pesquisa qualitativa parte da observação do mundo real e de teorias que
podem já existirem ou surgirem durante a própria pesquisa; depende de fa-
tores como a natureza dos dados coletados, extensão da amostra e os pres-
supostos teóricos que norteiam a investigação (Gil, 2002). De acordo com
Chizzotti (2006): “o termo qualitativo implica uma partilha densa com
pessoas, fatos e locais que constituem objetos de pesquisa, para extrair des-
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
46
se convívio os significados visíveis e latentes que somente são perceptíveis
a uma atenção sensível”. A pesquisa descritiva objetiva descrever caracterís-
ticas de determinada população ou fenômeno. Com base em Gil (2002),
este estudo foi caracterizado como descritivo pelo objetivo de identificar os
tipos de plágios e a suas possibilidades de combate.
Para a etapa de coleta de dados, optou-se por uma revisão de litera-
tura sobre a temática em bases de dados de abrangências nacional e inter-
nacional, que indexam uma ampla gama de artigos científicos, auxiliando
na propagação da informação científica. Realizou-se a busca pelos termos
plágio”, “direito autoral”, “plagiarism” e “copyright” na Web of Science,
Scopus e Google Scholar, sem nenhuma delimitação e/ou exclusão. Os ter-
mos também foram buscados no plural, considerando que as bases fazem
diferenciação entre plural e singular. O Quadro 1 sintetiza o protocolo de
revisão de literatura utilizado no estudo.
Quadro 1 - Protocolo Revisão de Literatura
Objetivo Refletir sobre a prática antiética do plágio, suas tipologias e
possibilidades de combate em âmbitos nacional em internacional.
Fontes de
Informação Web of Science, Scopus e Google Scholar
Período Todo o período coberto pelas fontes de informação supracitadas.
Critério de
inclusão Artigos acadêmicos que tratam sobre “plágio” e “direito autoral”.
Artigos em português e inglês.
Critério de
exclusão Outros tipos de documento que não fossem artigos acadêmicos.
Artigos em outros idiomas.
Palavras-chave
“Plágio
“Plágios
“Direito autoral
“Direitos autorais
“Plagiarism
“Copyright
Estratégias de
busca
Os termos foram, a priori, pesquisados de maneira individual em
cada base de dados; a posteriori, utilizou-se os operadores booleanos
da seguinte maneira: “plágio” AND “direito autoral”, “plágio” OR
plágios”, “plagiarism” AND “copyright”. Nas bases de dados Web of
Science e Scopus utilizou-se, também, o filtro por tipo de documento,
optando por “revistas acadêmicas.
Fonte: Elaboração própria (2025).
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
47
4 TIPOS DE PLÁGIO
Como destacam Sanchez e Innarelli (2012), existem quatro tipos de
plágio, ou seja, o autoplágio, autoria fantasma, plágio literário e plágios de
conteúdo. No autoplágio, o autor apresenta, de uma maneira diversa do
original, o seu próprio trabalho, sem referencia-lo. Na autoria fantasma,
sujeitos que não participaram efetivamente da condução do trabalho são
inseridos como autores, recebendo as mesmas recompensas dos que con-
duziram a publicação.
Os plágios literários são caracterizados pela cópia integral, ou
parcial, de textos, com a substituição de palavras. Já nos plágios
de conteúdo as ideias originais de autores são apresentadas sem
reconhecimento da origem (Sanchez; Innarelli, 2012).
De acordo com Krokoscz (2012), o plágio integral ou direto ocor-
re quando há cópia, palavra por palavra, de uma ideia ou texto de outro
autor, sem identificação da fonte original. O plágio consentido (conluio)
é concebido quando trabalhos cedidos por outras pessoas como fonte de
leitura são representados como sendo próprios. O conluio se estende à es-
fera comercial, com a compra de trabalhos acadêmicos. O plágio indireto
se refere ao plágio literário de Sanchez e Innarelli (2012), que pode ocorrer
de maneira intencional ou não.
O plágio mosaico reproduz fragmentos de diferentes fontes de infor-
mação, misturadas em frases, parágrafos e conjunções, a fim de dar sentido
para o texto. O plágio de fontes expressa o uso de frases de efeito elabora-
das por outros indivíduos ou de citações de outro autor sem indicação de
citação de citação.
Krokoscz (2012) também menciona o plágio conceitual, em que o
plagiador utiliza o texto, ou ideia, de outro autor sem referenciá-lo. No
plágio às avessas, decorrente das TIC, é possível atribuir a obra de um
autor a outro de prestígio em determinada área de conhecimento. No plá-
gio invertido um sujeito retira seu nome do texto e o atribui a um autor
mais reconhecido, em prol de validar seus argumentos. E no plágio de
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
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encomenda uma celebridade que deseja ter sua história retratada pede que
outra pessoa a escreva para ela. A Figura 1 representa os tipos de plágio
apresentados até o momento:
Figura 1 – Reconhecendo os tipos de plágio.
Fonte: Elaborado pela autora (2025).
Importante ressaltar que o plágio pode ser intencional, quando a
pessoa sabe que o está cometendo, e mesmo assim o pratica; ou não in-
tencional, em que há desconhecimento, por parte do autor, sobre o ato
(Green, 2002). Esse último caso geralmente ocorre em populações com
pouco acesso à informação ou com indivíduos que não receberam alerta
sobre a conduta do plágio.
Os tipos de plágio apresentados nesta seção podem ser resumidos, de
acordo com Chowdhury e Bhattacharyya (2016), em sete tipos. A saber:
plágio clone: cópia das palavras escritas por outrem em nome próprio, sem
referir o autor original; plágio em paráfrase: uso das ideias de outrem dis-
farçado por meio da combinação de vários trabalhos de diferentes autores;
plágio com metáforas: em que são usadas imagens ou metáforas criadas por
outrem sem referenciação; plágio de ideias: apropriação de uma solução
sem citação da fonte; auto-plágio ou reciclagem: uso de um trabalho prévio
para publicar um novo trabalho, sem referenciação a ele; plágio decorrente
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
49
de fonte inválida: citação de referências erradas intencionalmente; e plágio
de retuitar: quando um autor cita a fonte correta, porém sua formulação é
igual ao conteúdo.
5 AÇÕES PREVENTIVAS E DE DIMINUIÇÃO DO PLÁGIO
Para se prevenir o plágio é preciso divulgar e estabelecer regras cla-
ras sobre as suas definições por parte das entidades educacionais, no que
diz respeito à administração e às disciplinas ministradas (Brown; Howell,
2001). Além disso, torna-se necessário desenvolver políticas de combate à
violação do direito autoral em meio público.
Segundo Tibúrcio (2013), há 13 dicas para se identificar o plágio:
1. nível de escrita do texto superior à capacidade do autor, nesse caso, é
preciso conhecer a sua escrita; 2. mudança de estilo e de qualidade no
texto; 3. análise de dados referentes a um período de tempo, mas sem ex-
plicação plausível, 4. citações de fontes de difícil acesso; 5. inexistência de
vínculo entre as partes do texto; 6. citações defasadas; 7. traduções literais
de citações; 8. temas pouco usuais na literatura, que podem representar a
tradução de um artigo em outra língua; 9. gráficos com baixa resolução; e
10. formatação diferente de regras pré-estabelecidas.
Para Gibelman, Gelman e Fast (1999), ao analisar os trabalhos em
escolas e universidades, o docente necessita realizar uma leitura atenta dos
padrões e variações entre parágrafos. A análise deve ser feita da parte para
o todo, ou seja, não se deveria analisar somente o trabalho final, mas esta-
belecer rotinas intermediárias, com acompanhamento próximo ao aluno.
Ferramentas de busca, como o Google, ou softwares gratuitos e pa-
gos para a detecção de plágio podem ser utilizados para comparar trechos
escritos nos textos. Exemplos são o Plagius, Turnitin, Farejador de Plágio
e Copyspider.
Como destaca Barbastefano e Souza (2007), “[...] mudanças abrup-
tas no texto podem ser indicativos [de plágio]. Um texto narrativo, mu-
dando para um texto que conversa com o leitor revela, no mínimo, que
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
50
o autor demanda orientação quanto à redação”. Outro indicativo de plá-
gio é o contraste entre construções linguísticas sofisticadas e simplórias
(Stelbeman, 1998).
Fazer o registro de obras em órgãos competentes auxilia na segu-
rança do autor sobre a sua propriedade intelectual. É o caso do Instituto
Nacional da Propriedade Industrial (INPI, 2023), órgão brasileiro respon-
sável pelo aperfeiçoamento, disseminação, gestão e garantia de direitos de
propriedade intelectual e industrial no país.
A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior
(Capes) recomenda, com base em orientações do Conselho Federal da
Ordem dos Advogados do Brasil (OAB),
que as instituições de ensino públicas e privadas brasileiras adotem
políticas de conscientização e informação sobre a propriedade
intelectual, adotando procedimentos específicos que visem coibir a
prática do plágio quando da redação de teses, monografias, artigos
e outros textos por parte de alunos e outros membros de suas
comunidades (CAPES, 2011).
O uso de citações e referências, de acordo com normas técnicas na-
cionais e internacionais, expõe razões éticas e jurídicas ao ato de citar. No
Brasil, a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) instituiu as
normas de citação (NBR 10520: 2002) e de referência (NBR 6023:2002),
que garantem o crédito de uma obra a determinado autor quando utiliza-
das em um texto.
A transcrição ao pé da letra do conteúdo de um documento cha-
ma-se citação direta; quando há mudança de palavra, paráfrase ou ape-
nas a menção à ideia, trata-se de uma citação indireta. Ambas precisam
seguir padrões normativos de citação e referência. Também há a citação
de citação, que deve ser evitada, pois, as informações em primeira mão
necessitam ser priorizadas (Burke, 2003).
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
51
5.1 INOVAÇÃO E PROPRIEDADE INTELECTUAL
A inovação, entendida como a “[...] implementação de um produto
(bem ou serviço) novo ou significativamente melhorado, ou um proces-
so, ou um novo método [...]” (European Statistical System; Organização
Para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, 2005, p. 11) foi ra-
tificada com o lançamento do Manual de Oslo, na década de 1990. Tal
documento dedica-se à mensuração e interpretação de dados sobre a ci-
ência e a tecnologia.
De acordo com a lei brasileira número 10.973, de 2004, alterada
pela Lei 13.243 de 2016, a inovação pressupõe a
[...] introdução de novidade ou aperfeiçoamento no ambiente
produtivo e social que resulte em novos produtos, serviços ou
processos ou que compreenda a agregação de novas funcionalidades
ou características a um produto, serviço ou processo já existente
que possa resultar em melhorias e em efetivo ganho de qualidade
ou desempenho (Brasil, 2004).
As pesquisas científicas e tecnológicas são promotoras da inovação,
propiciando a vantagem competitiva no âmbito das organizações, além
do desenvolvimento econômico e social do contexto regional, nacional ou
global em que as instituições se inserem. Ambientes geradores de conhe-
cimento como, por exemplo, as universidades e os programas de pós-gra-
duação desenvolvem pesquisas que “[...] buscam propor soluções para a
melhoria de vida da sociedade, nos seus mais diversos segmentos” (Caldas;
Valentim; Silva, 2021, p. 27).
Ao levar em consideração a informação como valor econômico, de-
ve-se partir da ideia que esta surge de uma visão da reciprocidade de mo-
delos jurídicos em diferentes instâncias econômicas” (Sousa; Dias, 2017,
p. 42). Reconhece-se que a ideia de valor deve ser analisada por meio das
trocas dos objetos úteis em sociedade. Logo, a informação tem poder, na
medida em que ela pode ser concebida como conhecimento amplamente
disseminado. O seu valor está condicionado à possibilidade de proporção
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
52
de um conhecimento novo ou à mudança de estado de conhecimento no
indivíduo que, ao construir um conhecimento a partir do acesso a uma
informação, juntamente com os seus conhecimentos prévios, lhe concede
o caráter de valor (Choo, 2003).
Ressalta-se a importância dos registros de propriedade intelectual
para a proteção dos interesses dos indivíduos no uso de suas criações em
sociedade. Por isso, a necessidade de se criar normas e regulamentos volta-
dos aos ativos intangíveis de propriedade intelectual (Tidd; Bessant; Pavitt,
2008), em prol da sua valorização econômica e social.
De acordo com a Organização Mundial de Propriedade Intelectual
(OMPI, 2021), propriedade intelectual está ligada ao reconhecimento de
autoria e proteção legal de uma produção intelectual, abrangendo obras de
arte, invenções, programas de computador, marca e outros sinais comer-
ciais. A propriedade intelectual se divide em duas categorias principais, isto
é, propriedade industrial (patentes para invenções, desenhos industriais,
marcas e indicações geográficas) e direto de autor/diretos conexos (obras
literárias, artísticas, científicas, interpretações, execuções e radiofusores).
No Brasil, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI)
é o órgão responsável pelo aperfeiçoamento, disseminação, gestão e ga-
rantia de direitos de propriedade intelectual e industrial, possibilitando
cinco tipologias de cadastro: 1. marca (uso de nomes de serviços, produ-
tos ou logotipos), 2. patente (invenção e/ou melhorias em tecnologias e
objetos de uso prático), 3. desenho industrial (proteção aos aspectos apa-
rentais de um objeto), 4. programa de computador (versões atualizadas
de softwares) e 5. transferência de tecnologia (licenciamento de direitos
de propriedade intelectual).
As universidades, enquanto organizações que concentram a pesquisa
e a inovação, tem papel primordial no trabalho com a propriedade inte-
lectual, uma vez que, ao tomarem iniciativas e estabelecerem parcerias que
visam a garantia do direito de autoria, tendem a incentivar os autores a
serem mais produtivos e a inovarem em suas pesquisas, o que impacta no
desenvolvimento social, econômico e cultural.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
53
6 CONCLUSÕES
A prática do plágio está presente na sociedade desde tempos remo-
tos, mas aumentou significativamente com a proliferação do acesso à infor-
mação trazido pelas TIC e internet. A evolução tecnológica tem por base
o ser humano, que a programa e executa e, de práxis, se usada com ética
serve para o bem comum e informatização dos cidadãos, já que, quanto
maior o acesso ao conhecimento, maior a capacidade do indivíduo em se
capacitar e criar pensamentos críticos, o que alimenta o ciclo de geração e
disseminação de conhecimento.
Ações não éticas trazem problemas para o convívio social, e o plágio
se caracteriza por ser uma fraude às obras intelectuais, atentando aos direitos
morais do verdadeiro autor. O desrespeito ao direito autoral potencializa a
desinformação, mesmo que o plágio ocorra de maneira não intencional.
Por isso, é necessário que as organizações ligadas à publicação de
materiais, assim como de ensino, consigam identificar e coibir o plágio.
Principalmente, as instituições de ensino devem deixar claro as regras para
se escrever trabalhos científicos, além das normas técnicas a serem seguidas,
pois elas têm a função social de facilitar o acesso preciso às fontes primá-
rias, originárias de um conteúdo.
No âmbito da esfera pública, políticas de combate ao plágio e regis-
tros de patente podem auxiliar na segurança dos direitos autorais. Em casos
mais graves, a Lei n. 9.610, de Proteção ao Direito Autoral necessita ser
acionada (Moraes, 2003).
Por fim, destaca-se que a tolerância ao plágio é uma maneira de não
incentivo à produção intelectual e à partilha de conhecimentos, ou seja, um
retrocesso às oportunidades que as TIC e a internet trouxeram para o mun-
do global. Quanto mais ações antiéticas as organizações institucionalizadas
deixarem passar desapercebidas, maior será o montante de autores que irão
se fechar em sua criatividade, ao serem desestimulados a produzirem novas
obras, o que interfere não somente no seu destaque enquanto sujeito, mas
também no recuo de informações acessíveis para o bem comum.
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
54
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Competência em dados e ciência aberta: os
desaos da citação de dados
Cristina Marchetti Maia
Marta Lígia Pomim Valentim
1 INTRODUÇÃO
No contexto da Ciência Aberta as pesquisas devem estar acessíveis
a todas as pessoas, garantindo sua reprodutibilidade e a reutilização dos
dados coletados e analisados. Nessa perspectiva, os conjuntos de dados têm
ocupado uma posição de evidência e importância para a contribuição in-
telectual em diferentes campos científicos, fator determinante que suscitou
a discussão acerca da citação de dados de pesquisa, uma vez que devem ser
citados como qualquer outro tipo de material.
A citação de documentos é uma prática consolidada no âmbito aca-
dêmico-científico, porquanto é uma maneira de atribuir crédito aos auto-
res que desenvolveram estudos anteriores, bem como é um modo de vali-
dação do pensamento crítico. De acordo com o DataCite ([202-], tradução
livre), “[...] a citação de dados significa referenciá-los da mesma maneira
que os pesquisadores fornecem rotineiramente uma determinada referên-
cia bibliográfica para outros tipos de recursos acadêmicos”.
https://doi.org/10.36311/2026.978-65-5954-676-3.p59-81
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
60
Entretanto, no que concerne aos dados, são necessários padrões es-
pecíficos visando boas práticas nas citações deste tipo de objeto, visando
contemplar seus elementos essenciais e, assim, possibilitar sua correta iden-
tificação e recuperação. Silveira et al. (2020, p. 24) destacam que existe
um esforço da comunidade científica para viabilizar a citação de dados por
meio da automatização, assim como aplicações para sua análise.
Segundo Cunha et al. (2024, p.3)
Em 2004, [a] Organisation for Economic Co-operation and
Development (OECD) [elaborou] princípios e padrões de
tratamento de dados de pesquisa que garantissem sua usabilidade
de forma maximizada, congregando questões legais, éticas, de
gestão e sustentabilidade.
Algumas iniciativas surgiram nos últimos anos com o objetivo de
estabelecer diretrizes para a correta citação de dados. A DataCite, uma or-
ganização global sem fins lucrativos, desempenha um papel fundamental
ao fornecer identificadores persistentes para dados de pesquisa, facilitan-
do o arquivamento e possibilitando sua descoberta e recuperação efetivas.
Além disso, a DataCite colabora com a Make Data Count, uma iniciativa
global que visa desenvolver métricas abertas para avaliação de dados de
pesquisa, sendo uma parceria entre a California Digital Library, Crossref,
DataCite, DataONE, ScholCommLab, University of Ottawa e ZBW –
Leibniz Information Center for Economics (DataCite, ([202-]).
Nesse contexto, destaca-se a “Declaração Conjunta de Princípios de
Citação de Dados”, publicada pela Force 11, que define 8 (oito) princípios
orientadores para se realizar uma citação de dados adequada, considerando
o propósito, a função e os atributos das citações. Os referidos princípios
enfatizam que os dados devem ser reconhecidos como produtos de pesqui-
sa legítimos e passíveis de citação (Data Citation Synthesis Group, 2014).
Esse tipo de iniciativa contribui para a disseminação da prática de
citação de dados, contudo, em muitos casos, ainda ocorre de maneira in-
formal, pois os autores não creditam na lista de referências os conjuntos de
dados que utilizam em suas pesquisas (Park; Wolfram, 2019).
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
61
De acordo com a ALA (2023), os profissionais da informação traba-
lham com recursos informacionais que são constantemente remodelados
nas bibliotecas, uma vez que estão em constante evolução e cujas práticas
abrangem uma variedade de recursos. Entre as suas atribuições atuais, o
profissional deve ter a preocupação de incluir formatos e tipos emergentes
de recursos de informação como, por exemplo, os dados, e entender como
podem se relacionar com as novas demandas informacionais do seu públi-
co usuário.
Uma das estratégias que pode ser adotada para fomentar a citação
dos dados de pesquisa é o desenvolvimento da competência em dados que
é definida pela ACRL (2013) como a “[...] habilidade de identificar, en-
tender, comunicar e usar dados”. Dessa maneira, esta pesquisa objetiva
compreender como encontrar e avaliar dados, dando ênfase a versão do
conjunto de dados e questões relacionadas a ética no uso de dados, sendo
aspectos primordiais para a tomada de decisão.
A problemática identificada no contexto acadêmico-científico reside
na hipótese de que muitos dados potencialmente reutilizáveis, não rece-
bem a devida citação com a mesma frequência e rigor que suas respectivas
publicações. Os dados, muitas vezes ao serem negligenciados nas práticas
de citação, enfrentam a possibilidade de não receberem o devido crédito,
e tal discrepância em comparação com a citação dos resultados publicados
reflete uma lacuna no reconhecimento adequado da contribuição dos da-
dos para o avanço da pesquisa no âmbito da Ciência Aberta.
Sendo assim, é necessário estabelecer práticas e a ampliação de dis-
cussões que equiparem a citação de dados à importância concedida a cita-
ção de publicações, promovendo uma cultura acadêmica mais abrangente
e justa em relação à produção e compartilhamento de dados científicos.
A ausência de uma cultura consolidada dessa prática representa uma
oportunidade para a competência em dados, ou seja, trata-se de uma estra-
tégia para capacitar os profissionais da informação e a comunidade científi-
ca na compreensão e promoção da citação de dados. O reconhecimento da
evolução constante dos recursos de informação, incluindo dados, destaca
a relevância dos bibliotecários para atuarem na facilitação dessa transição.
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
62
Nesse contexto, esta pesquisa busca contribuir para o desenvolvimento da
citação de dados no contexto da Ciência Aberta, reconhecendo sua impor-
tância para o avanço da pesquisa e do conhecimento.
A partir do exposto objetiva-se compreender como a competência
em dados pode auxiliar a superar os desafios enfrentados no âmbito da ci-
tação de dados. Para alcançar este objetivo pretende-se explorar a literatura
e apresentar diretrizes existentes, bem como refletir sobre algumas possibi-
lidades que promovam a citação em dados, reconhecendo a função e res-
ponsabilidade dos bibliotecários na educação e suporte aos pesquisadores.
Esta pesquisa possui natureza qualitativa, é do tipo descritiva-explo-
ratória. Para responder ao objetivo supracitado, realizou-se uma revisão
bibliográfica em bases de dados nacionais e internacionais, visando explo-
rar a literatura sobre a temática abordada de modo a nortear a discussão e
estabelecer conexões entre os conceitos apresentados.
2 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Conforme anteriormente mencionado a pesquisa é de natureza qua-
litativa, do tipo descritiva-exploratória. Na pesquisa descritiva apresenta-se
o objeto de pesquisa, a fim de descobrir características do fenômeno e suas
conexões, como é o caso da abordagem da competência em dados na pers-
pectiva da citação de dados (Barros; Lehfeld, 2007). O estudo exploratório
busca um aprofundamento de conceitos e proporciona o levantamento de
informações sobre o objeto estudado, ao utilizar-se de conteúdos publi-
cados em documentos (Michel, 2005). Para atingir o objetivo proposto,
optou-se pela revisão bibliográfica que, por sua vez, foi realizada em fontes
de informação online.
A revisão bibliográfica seguiu as etapas propostas por Gil (2010).
Desse modo, realizou-se um levantamento preliminar para fixar a estra-
tégia de busca adotada e definiu-se os temas principais que se referem a
competência em dados e a citação de dados. Nessa perspectiva, definiu-se
as seguintes fontes de informação: Portal de Periódicos CAPES; Base de
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
63
Dados em Ciência da Informação (Brapci); Web of Science (WoS); Library,
Information Science & Technology Abstracts (LISA); e Emerald.
No que tange a escolha das fontes, foram adotadas as mais conheci-
das e relevantes do ambiente acadêmico-científico no campo da Ciência da
Informação, abrangendo fontes nacionais e internacionais, multidiscipli-
nares e específicas. Em virtude da escolha das fontes, utilizou-se a seguinte
expressão de busca, com termos em português e inglês: (“competência de
dados” OR “competência em dados” OR “data literacy” OR “data compe-
tency” OR “data Information literacy”) AND (“citação de dados” OR “data
citation”). A busca foi realizada nos campos título, resumo e palavra-chave.
Após a busca nas fontes de informação supracitadas realizou-se a
leitura do material, cujos conteúdos foram organizados logicamente para a
construção da discussão e proposição das diretrizes.
3 COMPETÊNCIA EM DADOS
A seguir são apresentados os resultados divididos em três seções: a
primeira trata da competência em dados; a segunda sobre a citação de da-
dos e a terceira aborda a discussão acerca da promoção da competência em
dados com foco na citação de dados.
A temática ‘dados de pesquisa’ no meio científico tem gerado uma
demanda crescente por serviços de sensibilização e formação oferecidos
pelas bibliotecas universitárias. Os serviços emergentes desempenham um
papel crucial para a conscientização de pesquisadores e estudantes sobre a
importância dos dados de pesquisa e na promoção de boas práticas durante
o desenvolvimento de pesquisas.
Nessa perspectiva, a competência em dados é essencial, pois segundo
Santos (2021) os pesquisadores necessitam de assistência das bibliotecas
para compreenderem os processos relacionados aos conjuntos de dados
e os aspectos envolvidos como, por exemplo, questões interrelacionadas
a propriedade intelectual, direitos autorais e licenciamento, portanto os
bibliotecários precisam estar bem-preparados para atuarem nesse campo
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
64
específico. Desenvolver serviços e produtos com uma abordagem educa-
cional contribui para a formação de uma comunidade acadêmica mais
consciente e competente no que se refere a manipulação e compreensão
dos dados de pesquisa.
Desse modo, a competência em dados surge com foco na forma-
ção para lidar com dados, ou seja, consiste em um conjunto específico de
conhecimentos, habilidades, aptidões e atitudes que possibilitam a trans-
formação de dados em informação e, posteriormente, em conhecimento.
Esse processo envolve o desenvolvimento de hipóteses, a identificação de
problemas e a interpretação de dados. Diferentes características da compe-
tência em dados se entrelaçam à competência em informação, que compre-
ende habilidades para reconhecer a necessidade de informação, identificar,
localizar, avaliar e usar informações para resolver problemas específicos
(Koltay, 2017).
Para Oliveira et al. (2022, p. 1)
[...] existe uma ausência significativa de trabalhos na América
Latina concernente à teoria da citação de dados, ao mesmo tempo
em que foram identificados trabalhos que, embora não se refiram
a uma teoria propriamente, oferecem contribuições significativas
para a temática de citação de dados de pesquisa [...].
Considerando o âmbito acadêmico-científico, é crucial que estu-
dantes, docentes e profissionais sejam competentes em dados, desenvol-
vendo e possuindo conhecimentos, habilidades, aptidões e atitudes para
realizar atividades práticas que envolvam os dados de pesquisa em distintas
disciplinas.
Lau (2007) destaca o compromisso pedagógico das bibliotecas, enfa-
tizando que os bibliotecários devem promover ações voltadas ao desenvol-
vimento da competência em dados, que pode ocorrer de diversas formas
como workshops, sessões one-shots em sala de aula a partir de um estabe-
lecimento de parcerias com docentes, bem como o desenvolvimento de
materiais instrucionais e didáticos. De acordo com Steinerová e Ondrišo
(2018), a maioria das pessoas está interessada em treinamentos formais no
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
65
que diz respeito ao gerenciamento de dados de pesquisa, enfatizando espe-
cialmente o planejamento da gestão de dados e estilos de citação de dados.
Para Gebre e Morales (2020) a competência em dados apresenta
quatro áreas que necessitam de atenção: 1. organização e acessibilidade dos
dados; clareza e integridade; utilidade e precisão; e linguagem (ortografia
e gramática). Nesse sentido, enfatizam que os provedores de dados devem
fazer mais para resolver esses problemas.
Diante da crescente demanda por profissionais qualificados em da-
dos, surge o bibliotecário de dados que, de acordo com Koltay (2017),
precisam estar preparados para novas funções visando apoiar os sistemas
científicos complexos, oferecendo serviços e produtos voltados aos dados
de pesquisa, entre eles fornecer suporte de referência para encontrar e citar
um determinado conjunto de dados. Dentre os papeis do bibliotecário de
dados destacados pelo autor supracitado, pode-se destacar: coleta de requi-
sitos para gerenciamento de dados de pesquisa; planejamento de Gestão
de Dados de Pesquisa (GDP); assessoria técnica sobre formatos de dados;
metadados; e citação de dados.
É fundamental que os bibliotecários estejam capacitados para atuar
nessas atividades, ajustando suas funções ao contexto em que estão inseri-
dos. Isso envolve compreender as necessidades da comunidade e empreen-
der esforços para educar os usuários no universo da pesquisa, assumindo
uma posição protagonista nessa frente. Koltay (2017) complementa, evi-
denciando que os profissionais da informação têm o potencial para colabo-
rar com os pesquisadores, promovendo a adoção de padrões para a citação
de dados.
Costal, Sales e Zattar (2020, p. 52) explicam que os bibliotecários
devem trabalhar de modo interdisciplinar com a Ciência de Dados, de
modo a compreenderem “[...] o percurso e as infraestruturas digitais cabí-
veis a cada contexto disciplinar em que os dados de pesquisa forem gera-
dos”. Além disso, evidencia-se que “[...] os currículos dos cursos, creden-
ciados pelo MEC, apresentam de forma incipiente disciplinas relativas à
competência em informação e à GDP” (Costal; Zattar; Sales, 2021, p. 10).
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
66
Nesse contexto, é importante que os bibliotecários cumpram seu
papel educativo e promovam iniciativas para o desenvolvimento da com-
petência em dados nas instituições em que atuam, sejam elas de ensino e
pesquisa, empresariais ou de outra natureza.
3.1 CITAÇÃO DE DADOS
O movimento referente a abertura de dados surge no contexto da
Ciência Aberta cuja proposta “[...] é tornar a pesquisa científica cada vez
mais acessível para todos. Na prática, significa eliminar obstáculos artifi-
ciais, especialmente os editoriais, legais e econômicos, à livre circulação do
conhecimento científico” (Fiocruz, [202-]). Nos últimos anos, as pesquisas
têm originado conjuntos de dados cada vez maiores e difíceis de preservar e
discussões sobre a importância de compartilhá-los têm se tornado centrais.
Dessa maneira, a Ciência Aberta compreende um conjunto de ações
que visam aumentar a replicabilidade, robustez e acessibilidade da pesquisa
e contempla várias fases no processo de pesquisa e publicação que se inicia
com o planejamento da pesquisa até a publicação dos resultados e sua ava-
liação por pares, o que inclui a citação de dados (Bornmann et al., 2021).
Segundo Sanches, Antunes e Lopes (2020), a Ciência Aberta en-
globa duas dimensões essenciais: (a) a divulgação e compartilhamento de
resultados de pesquisa, abrangendo desde publicações até dados de inves-
tigação; (b) a abertura dos próprios métodos e ferramentas de pesquisa,
estabelecendo processos abertos e colaborativos desde o início e buscando,
quando apropriado, a participação de outros interessados além da comuni-
dade científica, incluindo a prática de Ciência Cidadã1.
“[...] nas duas primeiras décadas do Século XXI as concepções de ciência cidadã emergem assumindo
múltiplas vertentes, estas fortemente influenciadas por duas raízes. A primeira, apresentada por Irwin
(1995), traz a concepção de que a ciência cidadã representa uma abordagem, que apoiar uma ciência
mais democrática e participativa, diante da qual fluem conceitos de cidadania científica, salientando a
necessidade de ampliar para a sociedade os processos de política científica. A segunda, apresentada por
Bonney (1996), traz a ciência cidadã como uma ferramenta aplicada pelos cientistas através da qual os
cidadãos voluntários, componentes da sociedade participativa contribuem para a produção da ciência por
meio da coleta de dados” (Oliveira et al., p. 10, 2023).
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
67
A Ciência Aberta proporciona benefícios tanto para a Ciência quan-
to para a sociedade, graças à rápida disseminação dos resultados de pes-
quisas finalizadas, bem como de parte de pesquisas em andamento, na
forma de dados que podem ser reutilizados não apenas pela comunidade
científica, mas também por toda a sociedade. Assim, a Ciência Aberta é
caracterizada pela abertura, acessibilidade e compartilhamento do conhe-
cimento, por meio de redes colaborativas ou cooperativas. Os princípios
fundamentais da Ciência Aberta incluem valores como inclusão, justiça e
equidade na condução da pesquisa. Ademais, busca transformar a maneira
como a pesquisa é conduzida, quem está envolvido e como é valorizada.
Para auxiliar na descoberta e reutilização de dados foram desen-
volvidos os Princípios FAIR – acrônimo dos termos em inglês [Findable,
Accessible, Interoperable, Reusable], em português [Encontrável, Acessível,
Interoperável, Reutilizável]—, visto que “[...] obtiveram reconhecimento
internacional assumindo o papel de referência mundial das boas práticas
de gestão de dados” (Sales et al., 2021, p. 15).
Tais princípios visam orientar pesquisadores no desenvolvimento de
boas práticas referentes a gestão de dados científicos de modo que os dados
possam ser reutilizados por máquinas e humanos, sendo aplicáveis a dife-
rentes tipos de conteúdo e, portanto, são fundamentais para dar visibilida-
de aos dados, exigindo o uso de identificadores persistentes, indexação em
diferentes mecanismos de busca, máxima descrição dos metadados, uso de
vocabulários controlados, atribuição de licenças de uso, links e, por fim, a
publicação dos dados.
Para Silva e Rodrigues (2021) os Princípios FAIR visam a padroni-
zação de técnicas, a gestão e a curadoria de conjuntos de dados científicos
que, por sua vez, envolvem processos de organização do conhecimento e
de preservação no longo prazo.
Para garantir a reprodutibilidade das pesquisas e a reutilização dos
dados, a prática da citação de dados é uma das formas adotadas. De acordo
com o DataCite ([202-], tradução livre), a citação é importante, pois pro-
picia o “[...] acesso, transparência, reprodutibilidade, reutilização, crédito
aos pesquisadores e visibilidade aos repositórios que compartilham dados”.
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
68
Silvello (2018) também ressalta a importância central das citações de
dados, destacando sua influência na disseminação do conhecimento, ava-
liação da qualidade da pesquisa e orientação de investimentos em Ciência.
Koltay (2017) afirma que a prática de citar dados está estritamente
ligada ao ato de compartilhar dados. Além disso, formas padronizadas de
citação de dados são de suma importância, pois podem servir como uma
motivação significativa para que os pesquisadores compartilhem e publi-
quem seus dados. Essa prática não apenas representa uma possível fonte de
reconhecimento, mas também pode se tornar uma maneira de recompen-
sar os pesquisadores. Contudo, o autor supracitado observa que há diver-
gências de opinião, alguns dos quais consideram que a citação de dados,
ainda, não é um comportamento normativo na escrita acadêmica, enquan-
to outros acreditam que essa prática está se disseminando rapidamente.
A citação não apenas valida a autoria dos dados, mas também de-
sempenha um papel crucial na medição do impacto da produção científica,
a partir da contagem de citações, destacando a necessidade de métricas
específicas. Uma das maneiras de viabilizar tal medição ocorre por meio
do identificador persistente atribuído ao conjunto de dados, de modo a
combinar conjuntos de dados ou sugerir o formato a ser utilizado em uma
lista de referências (Bornmann et al., 2021).
Diversas iniciativas e organizações são importantes para a promo-
ção e aprimoramento de diretrizes, visando a correta citação de dados.
Em 2012, a Ligue des Bibliothèques Européennes de Recherche – Association
of European Research Libraries (LIBER) [Associação das Bibliotecas de
Pesquisa Europeias] propôs 10 (dez) recomendações para a integração
do gerenciamento de dados no currículo acadêmico (Koltay, 2017). A
Clarivate Analytics lançou o Data Citation Index [Índice de Citação de
Dados], abrangendo 14 (quatorze) milhões de conjuntos de dados de 450
(quatrocentos e cinquenta) repositórios (Clarivate, c2023).
A Declaração da International Council for Science (Codata, [202-])
indica vários aspectos importantes que requerem a atenção da comunidade
científica internacional, entre eles a necessidade de obter padrões nos for-
matos de citação dos dados, cuja declaração serviu de base para a elabora-
ção da Joint Declaration of Data Citation Principles da FORCE 11.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
69
Os 8 (oito) princípios apresentados pela FORCE 11 (Data Citation
Synthesis Group, 2014) são amplamente difundidos e fortalecem a prática
da citação de dados. São eles:
1. Importância: enfatiza que os dados resultantes de pesquisas de-
vem ser reconhecidos como produtos legítimos e passíveis de
citação;
2. Crédito e Atribuição: destaca a importância das citações de da-
dos para atribuir crédito acadêmico de maneira normativa e legal
a todos os contribuintes dos dados. Reconhece a necessidade de
flexibilidade nos estilos de atribuição;
3. Evidência: sublinha a prática de citar dados sempre que uma
afirmação na literatura acadêmica depender desses dados, refor-
çando a importância de uma base de evidências;
4. Identificação única: indica que uma citação de dados deve in-
cluir um método persistente de identificação globalmente re-
conhecido, acessível por máquina e amplamente utilizado pela
comunidade científica;
5. Acesso: destaca que as citações de dados devem facilitar o acesso
aos dados, metadados, documentação, código e outros materiais
associados, sendo acessíveis tanto para humanos quanto para
máquinas;
6. Persistência: enfatiza a necessidade de identificadores únicos e
descrições de os metadados persistirem além do tempo de vida
dos dados que descrevem;
7. Especificidade e Verificabilidade: destaca que as citações de da-
dos devem propiciar a identificação, acesso e verificação dos da-
dos específicos que sustentam os resultados de pesquisa;
8. Interoperabilidade e Flexibilidade: evidencia que os métodos de
citação de dados devem ser flexíveis para acomodar práticas va-
riantes entre comunidades, sem comprometer a interoperabili-
dade entre as citações de dados.
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
70
O Open Citation Corpus (OCC) é um repositório de dados de ci-
tações acadêmicas codificado como Linked Data que segue os Princípios
FAIR e da Ciência Aberta. Ele é mantido pelo Open Citations ([2022]),
uma organização sem fins lucrativos que defende a abertura de dados bi-
bliográficos e de citações, contribuindo para a iniciativa de citações abertas
e promovendo identificadores globais únicos e persistentes.
O Grupo de Trabalho CODATA ([202-]) visa promover princípios
de dados abertos, avançar na ciência de dados e melhorar os sistemas cien-
tíficos, especialmente em países de baixa e média renda. A International
Association for Social Science Information Services & Technology (IASSIST)
(2012), organização internacional de profissionais de tecnologia da infor-
mação e serviços de dados para o campo científico de Ciências Sociais, for-
nece instruções de estilos de citação que destacam a importância de incluir
informações suficientes para reconhecimento e recuperação da fonte de
dados. Essas iniciativas coletivas fortalecem a infraestrutura de citação de
dados e promovem a transparência e acessibilidade da pesquisa científica.
Os elementos propostos para a citação de dados pela IASSIST
(2012) são:
1. Autor: Indivíduo(s) ou entidade organizacional responsável(is)
pela criação do conjunto de dados;
2. Data de Publicação: ano em que o conjunto de dados foi divul-
gado ou publicado;
3. Título: título completo do conjunto de dados, indicando a edi-
ção ou versão, se aplicável;
4. Editora e/ou Distribuidor: organização que disponibiliza o con-
junto de dados, envolvendo arquivamento, produção, publica-
ção e/ou distribuição;
5. Localização Eletrônica ou Identificador: endereço da Web ou
identificador global, persistente e exclusivo para localizar o con-
junto de dados (como, por exemplo, o Digital Object Identifier
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
71
(DOI)2). Data de acesso se o título e o identificador não forem
específicos para a instância exata dos dados utilizados.
O Projeto RECODE (RECommendations for Open Access to Research
Data in Europe) [Recomendações para o Acesso Aberto a Dados de
Pesquisa na Europa] (CORDIS, 2016) aborda as barreiras existentes ao
acesso aberto a dados de pesquisa, incluindo questões técnicas, éticas e
legais. O RECODE busca criar um espaço colaborativo para as partes eu-
ropeias interessadas resolverem essas questões, por meio de estudos e com-
partilhamento de boas práticas.
Por outro lado, a iniciativa brasileira, denominada ‘Guia de citação
de dados de pesquisa’, lançado pela rede Scientific Electronic Library Online
(SciELO) em 2020, destaca a importância de orientar sobre a citação ade-
quada de conjuntos de dados em pesquisas científicas. Baseando-se nos 8
(oito) princípios da ‘Declaração Conjunta dos Princípios da Citação de
Dados’, o guia enfatiza os seguintes elementos essenciais (SciELO, 2020):
1. Autoria- pessoal ou institucional;
2. Data de depósito dos dados de pesquisa;
3. Nome do repositório;
4. Identificador eletrônico - Link DOI ou Uniform Resource Locator
(URL)3 dos dados de pesquisa;
5. Qualificador [dataset];
6. Título dos dados de pesquisa;
7. Outros identificadores.
Digital Object Identifier (DOI) [Identificador de Objeto Digital] - é um identificador digital de um objeto,
qualquer objeto — físico, digital ou abstrato. Projetados para serem usados por humanos e máquinas, os
DOI identificam objetos persistentemente. Propiciam que os objetos sejam identificados e acessados de
modo confiável (tradução livre). Fonte: https://www.doi.org/. Acesso em: 19 fev. 2025.
Uniform Resource Locator (URL) [Localizador Uniforme de Recursos] - é um tipo específico de Universal
Resource Identifier (URI). Uma URL normalmente localiza um recurso existente na Internet e é usada
quando um Web client faz uma solicitação a um servidor para um recurso (tradução livre). Fonte: https://
www.ibm.com/docs/pt-br/cics-ts/6.x?topic=concepts-components-url. Acesso em: 19 fev. 2025.
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
72
Destaca-se a necessidade dos repositórios e editores científicos ga-
rantirem que os dados estejam formatados para sua devida citação, incluin-
do o uso de DOI e metadados consistentes. Ambas as iniciativas visam
promover o acesso aberto e a citação adequada de dados de pesquisa.
No ecossistema da Ciência Aberta, os pesquisadores produzem, uti-
lizam, compartilham e reproduzem dados de pesquisa abertos em grandes
quantidades e, portanto, faz-se necessário aprimorar a competência desses
profissionais para que o processo ocorra de maneira satisfatória.
A discussão acerca da Ciência Aberta e dos dados científicos no cam-
po da Ciência da Informação tem sido proeminente sob diversos aspectos,
sendo realizadas diversas pesquisas e projetos em torno do assunto, por
meio do engajamento dos programas de pós-graduação, bem como dos
cursos de graduação. Por outro lado, a competência em dados é uma temá-
tica ainda pouco investigada, sendo que pesquisadores de países da Europa
e da América do Norte abordam a temática de modo mais pontual, em
virtude da grande quantidade de dados disponíveis atualmente (Balbinotti
et al., 2022). Sendo assim, a competência em dados torna-se fundamental,
pois aumentam as chances de os dados serem citados e reutilizados e, as-
sim, serem úteis para a Ciência e sociedade.
3.2 COMPETÊNCIA EM DADOS COM FOCO NA CITAÇÃO DE DADOS
Silvello (2018) defende a necessidade de uma teoria compartilhada
de citação de dados para evitar danos ao ecossistema emergente, enfatizan-
do a necessidade de métodos automáticos e ferramentas fáceis de usar. Esta
autora, ainda, propõe um formato de citação de dados {R, C, D}, onde R
é o artigo de referência, C é a citação e D é o conjunto de dados. Ela tam-
bém identifica 6 (seis) motivações principais para citar dados: atribuição;
incentivo ao compartilhamento; conexão entre artigos e dados; facilitação
da descoberta; promoção do compartilhamento; e medição de impacto.
No que tange aos princípios de citação, a autora supracitada separa
em 2 (dois) grupos: o primeiro focado na função da citação de dados; o
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
73
segundo, na metodologia/sistema de citação. Tais princípios abordam a
importância de dar crédito, evidência, verificabilidade, interoperabilidade,
identificação única, acesso, persistência e especificidade (Silvello, 2018).
Ademais, Silvello (2018) evidencia a falta de um protocolo comparti-
lhado para citação de subconjuntos, destacando a necessidade de pesquisas
mais aprofundadas sobre esse aspecto, bem como em relação a importância
de um sistema ideal de citação que identifique exclusivamente conjuntos
de dados e seus subconjuntos, e a necessidade de enfrentar desafios com o
uso de identificadores persistentes como o DOI, além das infraestrutu-
ras de dados como Dataverse4, FigShare5, Dryad6, Mendeley Data7,
Zenodo8,
Dataverse - é um aplicativo da Web de código aberto para compartilhar, preservar, citar, explorar e analisar
dados de pesquisa. Facilita a disponibilização de dados para outros e possibilita a replicação da pesquisa
de outros com mais facilidade. O repositório hospeda vários arquivos virtuais, sendo que cada coleção do
Dataverse contém conjuntos de dados, e cada conjunto de dados contém metadados descritivos e arquivos
de dados (incluindo documentação e código que acompanham os dados) (tradução livre). Fonte: https://
dataverse.org/about. Acesso em: 19 fev. 2025.
Figshare - é um provedor de infraestrutura de repositório de pesquisa aberta. Visa ajudar organizações e
pesquisadores a compartilhar, exibir e gerenciar seus resultados de pesquisa de forma detectável, citável, reportável
e transparente. Existem atualmente em torno de 8 milhões de resultados de pesquisa que foram disponibilizados
abertamente (tradução livre). Fonte: https://info.figshare.com/about/. Acesso em: 19 fev. 2025.
Dryad - é uma plataforma de publicação de dados abertos comprometida com a disponibilidade e a
reutilização de dados de pesquisa. Apresenta atualizações regulares sobre política de dados abertos, dicas
e recursos, conjuntos de dados em destaque, entre outros serviços (tradução livre). Fonte: https://blog.
datadryad.org/about/. Acesso em: 19 fev. 2025.
Mendeley Data - é um repositório comunitário gratuito e seguro baseado na nuvem, em que se pode
armazenar os dados de pesquisa, garantindo que sejam fáceis de compartilhar, acessar e citar (tradução
livre). Fonte: https://data.mendeley.com/. Acesso em: 19 fev. 2025.
Zenodo - Construído e desenvolvido por pesquisadores, para garantir que todos possam participar da Ciência
Aberta. Na vanguarda dos movimentos de acesso aberto e dados abertos na Europa, foi encomendado
pela Comunidade Europeia para dar suporte à sua política de Dados Abertos, fornecendo um repositório
abrangente para pesquisas. Desenvolveu ferramentas para gerenciamento de Big Data e recursos estendidos
de Biblioteca Digital para Dados Abertos (tradução livre). Fonte: https://about.zenodo.org/. Acesso em: 19
fev. 2025.
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
74
DataHub9, DANS10 e EUDat11.
Com base na literatura apresentada, pode-se identificar os seguintes
desafios relacionados à citação de dados: necessidade de conscientização e
motivação dos pesquisadores; falta de uma teoria consolidada no que tange
a citação de dados; uso de identificadores persistentes; protocolo compar-
tilhado para citação de subconjuntos de dados; entendimento de infraes-
truturas de dados.
Refletindo sobre a competência em dados, acredita-se que ela pode
auxiliar ao propor ações, conforme segue:
1. Necessidade de conscientização e motivação dos pesquisadores: vale
destacar o papel da competência em dados na conscientização
acerca da prática da citação de dados, abordando a relevância
das citações na disseminação do conhecimento e estimulan-
do discussões e reflexões para o aprimoramento desta prática.
Trabalhar a motivação, destacando a importância da atribuição,
conexão, descoberta, compartilhamento, impacto e reprodutibi-
lidade das pesquisas.
2. Falta de uma teoria consolidada referente a citação de dados: dian-
te desse desafio, promover a formação a respeito das diretrizes
existentes, pode contribuir para educar a comunidade a respei-
to da necessidade de uma abordagem unificada na citação de
dados, promovendo uma prática mais consistente na citação.
DataHub - Projetado para simplificar o gerenciamento de metadados, a descoberta de dados e a governança
de dados. Possibilita que usuários explorem e entendam os dados de modo eficiente, rastreiem a linhagem
de dados, criem perfis de conjuntos de dados e estabeleçam contratos de dados. Esta plataforma extensível
de gerenciamento de metadados é construída para que os desenvolvedores dominem a complexidade de
seus ecossistemas de dados (tradução livre). Fonte: https://datahubproject.io/docs/features. Acesso em: 19
fev. 2025.
10 DANS (Data Archiving and Networked Services) - repositório de dados de pesquisa holandês. Visa apoiar
pesquisadores a disponibilizar os dados de pesquisa para reutilização. Propicia que pesquisadores usem os
dados em novas pesquisas e torna a pesquisa publicada verificável e reproduzível. Possui mais de 300 mil
conjuntos de dados e uma equipe de 60 pessoas, o DANS é um dos principais repositórios da Europa
(tradução livre). Fonte: https://dans.knaw.nl/en/about/. Acesso em: 19 fev. 2025.
11 EUDat - Collaborative Data Infrastructure - é uma das maiores infraestruturas de serviços e recursos de
dados integrados que propiciam suporte à pesquisa na Europa. É sustentada por uma rede de mais de 20
organizações de pesquisa europeias, centros de dados e computação. Essa infraestrutura e seus serviços
foram desenvolvidos em estreita colaboração com mais de 50 comunidades de pesquisa (tradução livre).
Fonte: https://www.eudat.eu/eudat-cdi. Acesso em: 19 fev. 2025.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
75
Neste caso, o bibliotecário de dados deve atuar no treinamento
em formatos de citações de dados, considerando os guias já de-
senvolvidos, incluindo orientação sobre as políticas de editoras
científicas em relação às citações de dados. Pode-se realizar exer-
cícios práticos para aplicar esse formato em cenários específicos,
garantindo compreensão e aplicação prática.
3. Uso de identificadores persistentes: o uso de identificadores per-
sistentes é essencial para a citação de dados, no entanto pode
apresentar desafios, especialmente em relação a algumas especi-
ficidades de seu uso e que envolvem, especialmente a atribuição
em subconjuntos. Os bibliotecários de dados podem contribuir
para a resolução de desafios relacionados à implementação eficaz
e na participação de discussões acerca do uso de identificadores
persistentes e controle de versionamento dos arquivos, garantin-
do maior precisão e rastreabilidade nas citações.
4. Protocolo compartilhado para citação de subconjuntos de dados: a
falta de um protocolo compartilhado para a citação de subcon-
juntos pode criar lacunas na abordagem de citação. A competên-
cia em dados pode promover a colaboração para o desenvolvi-
mento de protocolos compartilhados e ampliação neste debate
que ainda é incipiente.
5. Entendimento de infraestruturas de dados: com o surgimento de
diversas infraestruturas de dados, como os citados anteriormente
pode exigir abordagens específicas de citação. Os bibliotecários
de dados devem estar familiarizados com algumas dessas infraes-
truturas como os repositórios e bases de dados de citações de da-
dos, para que possam utilizar em suas atividades diárias e orientar
seu uso de maneira adequada, alinhado aos princípios FAIR, em
diferentes contextos para um adequado armazenamento, gestão
e acesso aos diferentes recursos e conjuntos de dados.
Em vista disso, a competência em dados desempenha um papel
fundamental na superação dos desafios relacionados à citação de dados,
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
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garantindo eficácia, consistência e transparência no processo de gestão e
compartilhamento de dados de pesquisa no meio científico. Ao fornecer
serviços especializados em dados, os bibliotecários podem ocupar uma
posição de destaque na criação de uma cultura de citação de dados em
suas instituições e na promoção de boas práticas em toda a comunidade
acadêmica.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Objetivou-se compreender de que maneira a competência em dados
pode auxiliar a superar os desafios interrelacionados a citação de dados.
A prática da citação de dados tem ganhado destaque com o movimen-
to da Ciência Aberta que propõe uma abordagem inclusiva e acessível à
pesquisa, destacando a importância da reprodutibilidade e reutilização de
dados. Nesse contexto, os conjuntos de dados emergem como elementos
fundamentais para a contribuição intelectual, levantando discussões sobre
a citação adequada dos dados, a fim de garantir seu devido reconhecimento
e reforçar boas práticas de pesquisa.
Conforme foi discutido ao longo do texto, a citação é uma prática
consolidada para artigos e trabalhos acadêmicos, entretanto carece de nor-
mas específicas que contemplem a singularidade dos conjuntos de dados.
Adotar padrões claros de citação é essencial para possibilitar a compreensão
tanto por humanos quanto por máquinas, possibilitando assim a correta
identificação e recuperação dos dados que permeiam uma determinada
pesquisa.
A partir dos resultados apresentados, entende-se que a competência
em dados pode auxiliar não apenas na disseminação de diretrizes existentes
voltada ao incentivo da prática de citação, uma vez que bibliotecários e
pesquisadores competentes em dados podem liderar esforços para estabe-
lecer padrões e práticas comuns de citação, promovendo a consistência e
facilitando a compreensão. Ao proporcionar um avanço na implementação
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
77
eficiente de identificadores persistentes, fica assegurada a unicidade das
citações e acesso aos dados.
Os profissionais competentes em dados também podem atuar cola-
borativamente em uma lacuna que é a citação de subconjuntos, que con-
tém características específicas e requer práticas mais robustas. Além disso,
considerando que a citação de dados também depende de uma gestão efe-
tiva de infraestruturas de dados, pesquisadores capacitados estarão aptos
a lidar, efetivamente, com diversos sistemas e repositórios alinhados com
os Princípios FAIR, garantindo uma abordagem adequada em diferentes
contextos.
Desse modo, é essencial compreender como aplicar e promover as
melhores práticas na citação de dados, alinhando-se às necessidades emer-
gentes no cenário científico e de pesquisa. Em pesquisas futuras, sugere-se
um aprofundamento acerca da criação de um protocolo compartilhado
para a citação de subconjuntos de dados, bem como refletir sobre soluções
específicas para os desafios relacionados ao uso de identificadores persisten-
tes, especialmente em relação à citação de subconjuntos.
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82
83
A Contribuição da Pesquisa-Ação para a Gestão de
Documentos e da Informação nas Organizações
Fernanda Furio Crivellaro
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano
1 INTRODUÇÃO
Ao longo do século 20, o aumento exponencial de informações e do-
cumentos produzidos pelas organizações e a percepção de que se tratam de
ativos institucionais relevantes para as administrações vêm demonstrando
a importância da gestão da informação e da gestão de documentos para as
instituições.
Neste contexto, entende-se que os documentos produzidos ou acu-
mulados pelas organizações se configuram como registros da informação
organizacional, ou seja, se constituem em um meio físico ou digital que
contém e registra uma informação, garantindo que ela possa ser acessada,
compartilhada e preservada ao longo do tempo.
Moreno (2008) defende que a gestão de documentos se desenvol-
veu a partir do desafio de gerenciar esse número cada vez mais expressivo
de informações registradas. Como elemento da gestão da informação,
a gestão de documentos envolve desde a produção até o arquivamento
dos documentos, analisando-os para que seja definida a sua destinação,
https://doi.org/10.36311/2026.978-65-5954-676-3.p83-109
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
84
seja a eliminação ou o recolhimento para guarda permanente (Padilha;
Spudeit, 2014).
Portanto, a gestão de documentos, é um processo que garante que a
informação esteja no local certo, na hora certa, para a(s) pessoa(s) certa(s),
com o menor custo possível. Para Moreno (2008), a informação constitui-
-se como elemento indispensável às sociedades, é considerada um recurso
estratégico fundamental para o desenvolvimento de todo tipo de atividade,
sendo que sua ausência, insuficiência ou abundância, em que não exista a
gestão, podem ocasionar graves danos aos que dela dependem.
Contudo, a organização de documentos é um dos maiores desafios
da Arquivologia, visto que com a tecnologia e a evolução dos processos,
atualmente, há produção em massa de documentos nas organizações, exi-
gindo planejamento e estratégias específicas para lidar com essa situação.
Portanto, encontrar ferramentas e instrumentos que auxiliem esse processo
de acordo com as necessidades organizacionais, possibilitam uma gestão
eficaz e eficiente.
Nesse contexto, a construção de pesquisa científica que embase ações
relevantes de gestão de documentos pode ser uma alternativa satisfatória
para lidar com a realidade dos diversos universos existentes dentro do am-
biente organizacional, visto que cada instituição pode depender de condi-
ções específicas para uma gestão de documentos adequada.
Dentre os métodos existentes de pesquisa, a pesquisa-ação se destaca
por ser um método de pesquisa que visa a intervenção prática e a resolu-
ção de problemas reais. Para iollent (1985) a pesquisa-ação é um tipo
de pesquisa social que é realizada em estreita associação com uma ação ou
com a resolução de um problema coletivo, onde pesquisadores e os par-
ticipantes representativos da situação se envolvem para testar hipóteses,
implementando e acessando as mudanças de um cenário real, de modo
cooperativo ou participativo. Este método surge como uma abordagem
inovadora para otimizar processos e práticas, permitindo que, ao longo
do processo investigativo, os participantes envolvidos na gestão de docu-
mentos atuem diretamente na implementação de mudanças e melhorias.
Assim, o foco não está apenas em compreender o fenômeno em questão,
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
85
mas também em promover transformações concretas e positivas na realida-
de organizacional, permitindo adaptação contínua das soluções às necessi-
dades e especificidades de cada organização.
Diante do exposto, surgiu a problemática desta pesquisa: Como a
abordagem metodológica da pesquisa-ação pode contribuir para o proces-
so de gestão de documentos nas organizações? Para responder a essa ques-
tão, este estudo teve como objetivo analisar o impacto da pesquisa-ação
na melhoria da gestão de documentos, a partir da análise dos resultados
de uma pesquisa realizada dentro de uma organização de ensino superior.
Entende-se que a pesquisa-ação permite avaliar não apenas as mu-
danças nos processos de armazenamento, organização e recuperação de
informações, mas também como os efeitos dessa metodologia impactam
na cultura organizacional e na eficiência dos colaboradores. Esta aplicação
pode resultar em práticas mais dinâmicas e eficientes na gestão de docu-
mentos, promovendo uma maior fluidez no fluxo de informações e con-
tribuindo para a redução de erros e desperdícios dentro das organizações.
2 GESTÃO DE DOCUMENTOS E GESTÃO DA INFORMAÇÃO
Entende-se que a informação é insumo básico para qualquer ação,
seja no âmbito acadêmico ou empresarial. A informação está ligada à ge-
ração de conhecimento e compreender que a informação é base para ações
estratégicas e de planejamento que resultarão no desenvolvimento de uma
organização é o primeiro passo para perceber a dependência existente e a
correta relação que se deve manter entre informação e gestão (Fadel et al.,
2010).
Para Cianconi (1999), a informação deve ser utilizada como diferen-
cial competitivo, um elemento estratégico à organização que reduz as in-
certezas e, por esse motivo, deve ser tratada como um recurso e gerenciada
igualmente como ocorre com recursos humanos, financeiros e materiais.
Diante desta importância surge a discussão quanto à informação registra-
da, o Documento.
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
86
No ambiente organizacional, documento é a informação orgânica
registrada; aquela produzida ou recebida no início, condução ou comple-
mento de uma atividade institucional, que compreende informações que
evidenciam e dão suporte à execução de demandas necessárias ao funciona-
mento da organização. Refere-se a memória coletiva da organização, criada
por registros preciosos e confiáveis que é fornecido por sua vez para auxiliar
na execução e solução de demandas de forma ágil (Rousseau; Couture,
1998; Aramide et al., 2020).
Entende-se como documento um conjunto de informações
referentes às atividades desenvolvidas pela organização, registrado
em um determinado suporte. Logo, o documento torna-se um
instrumento imprescindível à organização para desenvolver suas
funções e atividades, alcançando por meio desses, seus objetivos
(Almeida, 2018, p. 42).
Ao concretizar a informação, o documento cria a possibilidade de
que ela seja arquivada, gerida e utilizada, oficializando o fluxo informa-
cional dos processos organizacionais e mantendo a informação fixa em
um suporte para que seja utilizada em momento oportuno. Como lembra
Almeida (2018), considerando os documentos como informação registra-
da, entende-se que a ausência de gerenciamento adequado sobre os docu-
mentos pode atingir a capacidade de gestão das informações, afetando o
processo decisório, com o aumento de falhas, ou mesmo reduzir a percep-
ção de oportunidades. Nesse contexto, a Gestão de Documentos (GD),
que auxilia no controle pleno dos documentos, desde sua produção até sua
destinação final, ganha nova dimensão para além da preservação e manu-
tenção dos arquivos.
Assim como no resto do mundo, no Brasil, as definições evoluíram
ao longo dos anos, incorporando a discussão sobre diferentes aspectos. A
GD é compreendida como o conjunto de medidas e rotinas que garantem
o controle dos documentos, desde sua produção até a destinação final, seja
a eliminação ou a preservação permanente, com o intuito de organizar e
racionalizar o processo administrativo, promovendo eficiência e, também,
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
87
a preservação dos documentos de valor permanente para atendimento de
demandas da sociedade (Bernardes, 1998).
A norma ABNT NBR ISO 15.489-1:2018 (ABNT, 2018, p. 3),
indica que a Gestão de Documentos contempla:
a) produção, captura de documentos de arquivo para cumprir
requisitos de prova da atividade de negócio; b) adoção de medidas
apropriadas para proteger sua confiabilidade, integridade e
usabilidade conforme seu contexto de negócios e requisitos para
gestão de mudanças ao longo do tempo.
Apresenta, portanto, duas dimensões da Gestão de Documentos:
uma ligada à criação de documentos autênticos e outra que diz respeito à
manutenção das condições necessárias para que o documento produzido
seja preservado como fonte de prova em longo prazo. Do ponto de vista
gerencial, este processo assegura que os documentos sejam organizados de
maneira eficiente e eficaz para que sejam rapidamente localizados não ape-
nas durante o uso do documento, mas também durante o período em que
aguardam cumprimento de prazos, seja no arquivo corrente, intermediário
ou permanente. (Bernardes; Delatorre, 2008)
A Gestão de Documentos é um processo arquivístico que, com
menor custo e maior eficiência e eficácia, busca intervir no ciclo
de vida dos documentos, visando reduzir, seletiva e racionalmente,
a massa documental a proporções manipuláveis até que a ela
tenha destinação final (expurgo ou recolhimento aos arquivos
permanentes) (Medeiros; Amaral, 2010, p. 298).
Além do controle documental, a GD contempla o ato de adminis-
trar toda a produção de documentos, desenvolvendo um planejamento
que tenha como objetivo organizar, registrar, facilitar o acesso e reduzir
custos arquivísticos de toda a informação registrada dentro de um am-
biente. Falhas no sistema de controle de produção ou tramitação dos do-
cumentos, acumulação de documentos de forma desordenada e falta de
procedimentos para lidar com os documentos comprometem a qualidade
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
88
das atividades diárias, dificultam o acesso à informação, oneram espaço
físico e aumentam custos operacionais (Bernardes; Delatorre, 2008).
Assim, implantar um projeto de GD garante que as instituições
tenham controle sobre os documentos que recebem ou produzem, bem
como que reduzam custos operacionais para mantê-los arquivados, além
de diminuir a massa documental e otimizar a guarda de documentos ana-
lógicos e digitais. Além disso, o acesso à informação qualificada, em tempo
hábil, de maneira segura, é um elemento que demonstra a importância da
Gestão de Documentos para o tratamento integral da informação.
A GD exige um vasto conhecimento legal e de processos, já que, por
meio das legislações e normas, são desenvolvidas ações que devem indicar
prazos de guarda e destinação final, além de todos os requisitos necessá-
rios para o desenvolvimento de ações que serão implantadas, considerando
tanto a preservação dos documentos quanto as necessidades dos usuários.
O processo implica a realização de diversas etapas que possibilitem
a compreensão e codificação dos documentos em diversos níveis,
desde seu reconhecimento (diagnóstico da Produção Documental),
passando pela inclusão de cada tipo documental numa lógica de
organização (Classificação), até o estabelecimento de critérios de
valoração, visando determinar a preservação ou a eliminação dos
documentos (Avaliação) (Pazin, 2005, p. 5).
Para Bernardes e Delatorre (2008), existem algumas etapas e ativi-
dades a serem desenvolvidas para Gestão de Documentos, como demons-
trado no Quadro 1.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
89
Quadro 1 Etapas e atividades da Gestão de Documentos
ETAPAS ATIVIDADE A SER
DESEMPENHADA COMO A ATIVIDADE É
DESENVOLVIDA
RECONHECIMENTO
Produção de
documentos
Analisar os documentos produzidos,
identificando seu surgimento e
desenvolvendo a padronização na
elaboração de documentos.
Utilização dos
documentos
Identificar quando e quem utiliza os
documentos, tanto documentos correntes
quanto documentos arquivados.
Tramitação Estudar, organizar e definir o fluxo
documental, deixando-o padronizado
desde sua criação até a guarda.
CLASSIFICAÇÃO
Classificação Classificar tipos e séries documentais,
desenvolvendo um plano de classificação.
Organização e
arquivamento
Organizar e arquivar os documentos, de
acordo com as normas desenvolvidas na
classificação.
AVALIAÇÃO
Avaliação Identificar o valor e o ciclo de vida de
cada documento, estabelecendo seu prazo
de guarda.
Reprodução
Reproduzir documentos quando houver
a necessidade tanto por preservação
do documento original para guarda
permanente quanto para substituição do
papel para microfilme.
Destinação de
documentos
Garantir que os documentos sejam
descartados ou guardados, após seu
uso, aplicando sempre o critério de
temporalidade.
Fonte: Crivellaro (2023), adaptado de Bernardes e Delatorre (2008)
A primeira etapa da gestão de documentos, denominada
Reconhecimento, corresponde ao diagnóstico da produção documental,
em que se faz necessário desenvolver as atividades de estudar os documen-
tos que são produzidos, entender quando acontece sua utilização e de-
terminar qual o fluxo do documento dentro da organização. O intuito é
tornar claro como ocorre o surgimento de cada documento, padronizando
seu percurso e sua criação.
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
90
A segunda etapa, chamada de Classificação, é o momento de de-
finir o tipo documental buscando uma lógica para sua organização, em
que se encontram duas atividades, a de tipificar o documento, codifican-
do e organizando a forma de guarda, para desenvolver uma estratégia de
arquivamento.
A terceira e última etapa é a de Avaliação, que visa preservar e des-
cartar documentos. Ela prevê o desenvolvimento de atividades para com-
preender o valor do documento e o seu ciclo de vida, definindo o prazo de
guarda, bem como a reprodução de documentos para que não se percam
e deteriorem informações e garantir que os documentos sejam descartados
ou permaneçam guardados quando necessários.
A partir das etapas e atividades citadas no quadro, com o objetivo
de desenvolver uma percepção sistemática sobre a GD, Crivellaro (2023)
desenhou algumas etapas que devem ser seguidas para gerir os documentos
de forma eficiente:
1. identificação dos documentos e análise de seu uso;
2. estudo das leis regem os tipos de documentos estudados;
3. estudo sobre o fluxo documental, desde sua criação até destina-
ção final;
4. estruturação de um plano de classificação, com tipos e séries;
5. identificação de valor e ciclo de vida do documento;
6. elaboração de uma tabela de temporalidade de documentos, com
a atribuição de códigos, prazos de guarda e de arquivamento que
devem ser aplicados a cada documento;
7. reprodução e preservação dos documentos;
8. organização e arquivamentos dos documentos;
9. criação de estratégias para que os documentos sejam eliminados
e/ou preservados.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
91
Ao analisar todo esse ciclo, percebe-se a importância do planejamento
de cada fase. Identifica-se, também, a importância de compreender o víncu-
lo arquivístico, “a rede de relacionamentos que cada documento tem com
outros documentos pertencentes ao mesmo conjunto” (Duranti, 1997, p.
216). Considerando-se que a realização das funções e a produção documen-
tal ocorrem no âmbito dos processos organizacionais, depreende-se que a
origem do vínculo arquivístico está inserida no âmbito dos processos admi-
nistrativos e técnicos necessário para a realização das atividades.
Percebe-se, então, que uma das principais características dos docu-
mentos de arquivo é a articulação e a conexão natural entre as partes de
um processo, suas atividades e os documentos. Carucci (1987) afirma que
existe uma conexão lógica e formal entre as atividades executadas e os do-
cumentos produzidos que são ligados entre si por esse vínculo necessá-
rio. Essa relação entre atividade e documento é denominada organicidade,
uma das características essenciais dos documentos de arquivo.
Por sua característica aplicada, percebe-se que a pesquisa necessária
ao desenvolvimento de modelos e métodos de trabalho de gestão de do-
cumentos pode se beneficiar fortemente da metodologia da pesquisa-ação.
3 A PESQUISA-AÇÃO
Toda pesquisa surge pelo reconhecimento de um problema e da for-
mulação de hipóteses. Para ser qualificada cientificamente, a pesquisa pres-
supõe sistematização, especificidade de métodos e técnicas que interajam
com a realidade empírica, problematizando-a, discutindo-a e indagando-a,
num processo permanente. Em sua realização, relaciona-se teoria e prática,
ou seja, pensamento e ação.
Como toda atividade racional e sistemática, a pesquisa exige
padronização das ações que serão desenvolvidas ao longo de seu processo,
para que sejam efetivamente planejadas. Para Gil (2018), a pesquisa
concretiza-se mediante a elaboração de documento que explicita as ações
que serão desenvolvidas ao longo do processo, este documento especifica o
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
92
problema de pesquisa, a construção de hipóteses, os objetivos de pesquisa,
a justificativa e operacionalização de conceitos, a modalidade de pesquisa,
definição do universo de pesquisa, procedimentos de coleta e análise de
dados, e cronograma da execução da pesquisa.
Figura 1 – Etapas de pesquisa
Fonte: Adaptado de Gil, 2018.
Conforme demonstra a figura 1, algumas etapas precisam ser se-
guidas para estruturar uma pesquisa, porém cada pesquisa pode ser estru-
turada de acordo com sua necessidade, não é um caminho engessado, o
pesquisador que define a estrutura e limites de seu planejamento. A função
disto é auxiliar o pesquisador a compreender os caminhos e refletir sobre
o problema a ser investigado, garantindo embasamento teórico, compre-
ensão e clareza do objetivo com o intuito de promover resultados positivos
ao tema estudado.
Por meio disto, faz-se necessário a escolha de um método, que é o ca-
minho para alcançar a informação íntegra e tempestiva, garantindo a orga-
nização do conhecimento. O método orienta e traça um roteiro construin-
do diversas fases e caminhos que deverão ser percorridos, enquanto neste
caminho o pesquisador é um interprete da realidade estudada (Ramos,
2009). Para um caminho assertivo, a escolha de método é essencial, a fim
de garantir que a pesquisa não perca e ainda organize seus dados.
A Pesquisa-ação é um método de pesquisa que surgiu na área da
saúde, partindo da necessidade de não apenas estudar um problema in loco,
mas também participar do problema, convivendo com a dor dos sujeitos,
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
93
visando compreender clinicamente o seu problema, observando, descre-
vendo, analisando e desenvolvendo a escuta na busca do conhecimento
(Melo; Maia Filho; Chaves, 2016).
Na pesquisa-ação, o processo de pesquisa acontece simultaneamente
ao aprimoramento da prática. Para isso, desenvolve-se um ciclo de plane-
jamento, implementação, descrição e avaliação, dentro do processo de pes-
quisa, tanto a respeito da prática quanto da própria investigação cientifica
(Tripp, 2005). É um tipo de pesquisa com base empírica realizada com o
intuito de agir para solucionar um problema coletivo, onde o pesquisador
e os participantes da pesquisa estão envolvidos de modo cooperativo e par-
ticipativo (iollent, 1985).
Neste sentido, a pesquisa-ação contribui para a ação social, possui ob-
jetivo de trazer resultados práticos relacionados ao problema estudado, bus-
cando este objetivo por meio do envolvimento do pesquisador com os par-
ticipantes que estão sendo estudados. Conforme demonstrado na figura 2.
Figura 2  Processo de pesquisa-ação
Fonte: Tripp, 2005.
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
94
Esta metodologia vem emergindo para a intervenção, o desenvol-
vimento e a mudança no âmbito organizacional e da comunidade; é uma
modalidade de pesquisa que tem como propósito adquirir conhecimentos
claros, precisos e objetivos que auxiliam no diagnóstico de problemas e
situações específicas, com vista a alcançar resultados práticos, não visa ob-
ter enunciados científicos generalizáveis, apesar de poder contribuir para a
generalização (Gil, 2018).
Gil (2018) cita que a principal diferença entre a pesquisa-ação em
relação aos outros métodos existentes, além de possuir uma flexibilidade
na execução, ela envolve a ação dos pesquisadores e de grupos interessados
em todos os momentos da pesquisa. Portanto, na pesquisa-ação, as fases de
execução podem ter mudanças constantes devido a dinâmica do relaciona-
mento entre os pesquisadores e a situação pesquisada.
Como o desenvolvimento da pesquisa-ação é executado com o en-
trosamento dinâmico entre o pesquisador e os pesquisados - apesar de ha-
ver planejamento de execução da pesquisa -, os caminhos podem ir e vir de
acordo com a necessidade de mudança de uma ação que venha a ocorrer
de fato em sua execução, ou seja, esse método não engessa a forma de rea-
lização das etapas da pesquisa.
Conforme demonstrado na figura 3, o método se divide em dois ci-
clos; o primeiro é o momento de identificação, reconhecimento de teorias,
embasamento para estruturação de ação, composto pela fase exploratória e
coleta de dados até o diagnóstico. E o segundo ciclo, a prática da pesquisa,
com a aplicação de todas as informações que foram levantadas, dividido
em plano de ação, implementação e avaliação e divulgação do resultado.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
95
Figura 3  Etapas desenvolvidas na pesquisa-ação
Fonte: Crivellaro, 2023.
Em concomitância à construção das etapas, apresentadas na figura 3,
Gil (2018) indica a realização de seminários, que são consideradas reuniões
estruturadas com a equipe de pesquisadores, membros interessados e par-
ticipantes especialistas que podem contribuir com a discussão e aprovação
das diretrizes de pesquisa e de ação em todos os momentos da pesquisa.
3.1 1º CICLO DA PESQUISA-AÇÃO: FASE EXPLORATÓRIA, COLETA DE
DADOS E DIAGNÓSTICO
A fase exploratória é demarcada pelo reconhecimento do ambiente
em que a pesquisa será aplicada, levantando informações que levem à uma
imersão no universo de pesquisa, trazendo maior clareza sobre problemas
e objetivos que precisam ser alcançados.
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
96
Após este levantamento, e para embasar a construção diagnóstica
do problema, é necessário a busca por dados que auxiliarão na construção
do método que irá solucionar a demanda levantada. Para Gil (2021), os
dados são peças fundamentais na construção de qualquer pesquisa, sejam
eles números ou palavras, para o autor, o planejamento rigoroso sem coleta
de dados adequada afeta diretamente o resultado da pesquisa. A coleta de
dados deve ser entendida como um processo, que seleciona diferentes pro-
cedimentos que irão auxiliar na determinação de questões e na orientação
de obtenção de dados, desde a definição da estratégia para amostragem até
a permissão e meio de preparação e registro destes dados, que serão utiliza-
dos pelo pesquisador como instrumento para o alcance dos seus objetivos.
Os dados podem ser percepções, conceitos, crenças, processos e vi-
vências que serão coletadas de maneira individual, grupal ou coletiva. Esses
dados são úteis para capturar e entender motivos e significados que irão
possibilitar a compreensão da pesquisa e gerar conhecimento. (Sampieri;
Collado; Lucio, 2013)
Uma pesquisa sólida preza pela utilização de múltiplos procedimen-
tos para coleta de dados e leva em conta o objetivo na escolha dos instru-
mentos adequados. Os mais usuais são: questionário, entrevista, observa-
ção, análise documental, história de vida e grupos focais (Gil, 2021). O
uso de mais de um método de coleta de dados garante que a informação
seja checada e até mesmo muitas vezes testada, quando existe a possibili-
dade de comparação, oferecendo maior riqueza, amplitude e profundidade
do processo (Sampieri; Collado; Lucio, 2013; Gil, 2021).
Por fim, inicia-se a elaboração do diagnóstico, a última etapa a ser
construída do primeiro ciclo de pesquisa. Para Lewin (1978), é por meio
deste que se tem conhecimento necessário para orientar a solução do pro-
blema através de uma ação planificada que será conduzida pelo grupo.
Melo; Maia; Chaves (2016) acreditam ser nesta fase, que a análise dos da-
dos que foram observados, descritos e posteriormente discutidos em gru-
pos servirá de alicerce para produzir um planejamento de ação, onde novas
compreensões e conhecimentos sobre o problema poderão gerar mudanças
aos sujeitos participantes.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
97
Para o desenvolvimento da pesquisa-ação, Lewin (1978) propõe
a criação de “laboratórios sociais” — seminários em que grupos reúnem
dados que servirão como diagnóstico do problema investigado. A partir
dessas informações, são realizadas reuniões para discutir o problema e ela-
borar métodos que visem à sua solução, com o processo sendo registrado e
monitorado durante a execução das ações.
3.2 2º CICLO DA PESQUISA-AÇÃO: PLANO DE AÇÃO, IMPLEMENTAÇÃO,
AVALIAÇÃO E RESULTADO
O plano de ação é o direcionamento de atitudes da organização
em relação ao seu objetivo que proporciona a previsão de ações acerca do
futuro da empresa, ou seja, é a ação administrativa que define a melhor
direção que a empresa deve seguir com o intuito de otimizar seus proces-
sos e desempenhar suas atividades de maneira inovadora e diferenciada.
(Oliveira, 2004)
Segundo Oliveira (2004), para um desenvolvimento eficaz de um
plano de ação, faz-se necessário:
1. Explicar e estudar como a instituição se encontra;
2. Determinar a razão do plano de ação;
3. Indagar a situação /momento vivenciado;
4. Estruturar as ações a serem realizadas detalhadamente, inclusive
com uma programação específica;
5. Criar formatos para avaliar e controlar tais ações.
Por exemplo, para planejar uma situação de pesquisa-ação, faz-se
necessário: Entender o objetivo do estudo, a sua problemática, reconhecer
e analisar a situação e responder: “Qual(is) fundamento(s), recursos e ca-
racterísticas a situação atual traz?”.
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
98
Ao se compreender com aprofundamento o campo estudado, há
uma melhor garantia da estruturação de ação passível à execução deste mé-
todo. Os dados coletados dentro do campo de estudo, garantem a elabora-
ção de estratégias em ciclos e cada ciclo traz mais dados que dão suporte ao
ciclo de ações seguinte (Tripp, 2005).
Após o planejamento, inicia-se a implementação do plano e nesta
etapa, as ações são colocadas em prática. Após o diagnóstico e o planeja-
mento, essa fase marca o início da execução efetiva das estratégias, métodos
ou mudanças propostas. É uma etapa dinâmica, pois pode envolver ajustes
contínuos com base nos resultados observados.
A avaliação é a etapa que acompanha constantemente a implementa-
ção que verifica: aplicação prática das estratégias planejadas, o engajamento
dos participantes ou da comunidade envolvida; o registro e monitoramen-
to contínuo do que está sendo feito; os ajustes e correções durante o pro-
cesso, conforme necessário e a avaliação preliminar dos efeitos das ações.
Para finalizar a pesquisa, apresenta-se o resultado obtido, por meio
de um relatório final, que conforme defende Tripp (2005), possibilita me-
lhor organização e compreensão do resultado, o relatório deve ser estrutu-
rado contendo as seguintes informações:
a. Intenção inicial do pesquisador;
b. informações úteis quanto a investigação no trabalho de campo da
situação, dos participantes e das práticas profissionais;
c. informações sobre a execução do planejamento, as necessidades de
mudança de percurso, a implementação das atividades (atribuições e
responsáveis pela execução)
d. resultados obtidos, o que funcionou e o que não funcionou e por
quê;
e. em que medida o embasamento teórico foi útil no processo de
pesquisa;
f. melhorias alcançadas;
g. recomendações para a execução do mesmo trabalho no futuro.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
99
O relatório garante a divulgação e a sistematização das informações
junto aos envolvidos, permitindo a construção de novos conhecimentos
e a identificação de caminhos alternativos para aprimorar atividades já
desenvolvidas pela instituição. Esse processo contribui para melhorias no
desempenho e na execução das atribuições diárias. Além disso, o relatório
serve como fonte de conhecimento para outros pesquisadores interessados
na mesma área, ampliando o alcance e o impacto da investigação.
A pesquisa-ação se distingue de outros métodos por estruturar pro-
cessos participativos, nos quais uma comissão envolvida na investigação
analisa e aprova ações com base nos conhecimentos obtidos. Essas ações
são aplicadas e monitoradas ao longo da execução, sendo constantemente
ajustadas conforme os resultados observados na prática. Por esse motivo,
seus desdobramentos não são pré-definidos, pois dependem do desenvol-
vimento do próprio processo. (Tripp, 2005)
4 APLICAÇÃO DA PESQUISA AÇÃO NA GESTÃO DE
DOCUMENTOS
Como universo para aplicação da pesquisa-ação no contexto da
Gestão de Documentos, foi utilizado uma Instituição de Ensino Superior
- IES mantida por uma fundação pública com personalidade jurídica de
direito privado, sem fins lucrativos, religiosos ou político-partidários, lo-
calizada no interior de São Paulo, criada 1966 por meio de legislação es-
pecífica (Crivellaro, 2023). Atualmente a IES conta com oito cursos de
Bacharelado e um de licenciatura, seis turmas ativas cursos de pós-gradu-
ação lato sensu e um curso técnico, contando com cerca de 1.300 alunos
ativos. A pesquisa-ação foi selecionada como método para subsidiar a re-
gulamentação do processo de gestão de documentos visando implantar no-
vas exigências legais solicitadas pelo Ministério da Educação (MEC), que
determinou a conversão digital de todos os documentos de alunos ativos e
egressos, o chamado acervo acadêmico, com a aplicação da temporalidade
conforme as regras de instituição de ensino superior e a transformação
digital dos processos relacionados aos alunos.
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
100
Nesse contexto, estratégias e novas estruturas seriam necessárias para
uma Gestão de Documentos que cumprisse os requisitos exigidos pela le-
gislação e considerando que a IES, obrigatoriamente, precisava manter a
maioria dos documentos - como o histórico escolar, o registro do diploma,
distinções, méritos e penalidades sofridas presentes no prontuário - perma-
nentemente ou por, no mínimo, 100 anos.
A pesquisa-ação surgiu como uma ferramenta necessária de investi-
gação que se concentra em resolver problemas práticos através da ação e
da reflexão coletiva. Por este motivo a pesquisadora responsável envolveu
todos os participantes do processo documental da IES, para fazer parte
dessa análise, verificação e desenvolvimento de processos e metodologias
que seriam aplicados para cumprir com a nova legislação.
Foi constituído um comitê gestor para elaborar e implementar as
ações voltadas ao acervo acadêmico. Esse comitê era composto pela Direto
Geral da IES, a coordenadora da Secretaria, quatro funcionários da secre-
taria e a pesquisadora, e todas as estratégias criadas garantiam confiabilida-
de, autenticidade, integridade e durabilidade de todas as informações dos
processos e documentos originais.
A pesquisa-ação foi estruturada nos dois ciclos previstos: 1º)
Compreensão da situação e estruturação do Diagnóstico; 2º Plano de ação
para implementação e monitoramento. Os ciclos foram divididos em cin-
co fases, para que pudesse compreender a necessidade do campo de pesqui-
sa, analisar as exigências legais e criar procedimentos para execução desta
ação, sendo estruturado da seguinte forma:
1ª fase - reconhecimento inicial do campo a ser estudado (conheci-
mento do ambiente organizacional e da legislação que rege os documentos);
2ª fase - levantamento de dados relativos a informações institucio-
nais quanto a estrutura organizacional, atividades executadas como subsí-
dio à 3ª fase;
3ª fase - planejamento, com estruturação dos planos de ação para
execução de cada uma das etapas do projeto.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
101
4ª fase - implementação e avaliação das ações planejadas, monito-
rando e controlando a execução, de modo que o processo se mantivesse em
continuidade e que as falhas e obstáculos fossem resolvidos antes de afetar
o rendimento do trabalho.
5ª fase - divulgação dos resultados, com ações padronizadas e a exe-
cução de acordo com o planejado e estruturado. Nesta fase é elaborado um
relatório final com a descrição das ações e ocorrências do projeto, soluções
apresentadas e benefícios da execução.
Do ponto de vista da execução, a pesquisa-ação ocorre em uma se-
quência temporal determinantes para a efetividade das ações propostas.
No caso estudado, as etapas foram construídas conforme linha do tempo
da figura 4.
Figura 4  Linha do tempo da Pesquisa-ação
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
102
Fonte: Elaborada pela autora, 2022
Cada fase foi essencial para construir caminhos a serem seguidos e
planejados. Em todas elas o comitê gestor foi responsável por discutir e
trazer informações relevantes.
Por meio das discussões junto ao comitê responsável pela realiza-
ção do plano de ação para o processo de conversão digital, foi possível
compreender a realidade atual e traçar planos para a realidade ideal. O
cumprimento das etapas de Gestão de Documentos seguiu as fases da pes-
quisa-ação, de acordo com os ciclos propostos. Em cada caso, foi possível
identificar um conjunto de benefícios de aplicação, conforme indicado no
quadro 2.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
103
Quadro 2  Fases e benefícios da pesquisa ação aplicadas na IES
Ciclos Fase da pesquisa-
ação Etapas da GD para
documento digital Benefícios do mapeamento
no processo da GD
1º ciclo
Exploratória
Conhecer o objeto de
estudo e sua estrutura
operacional
- Definição de processos por
setores;
- Compreensão de atividades
por setores;
- Identificar a interligação de
tarefas entre setores;
- Identificação dos
documentos e sua guarda;
- Forma de operacionalizar o
arquivo;
Conhecer o arquivo e
como os documentos são
geridos atualmente
Estudar a legislação
que abrange esta
documentação;
Coleta de dados e
diagnóstico
Levantar e conhecer
documentos que são
constituídos pela
organização;
- Identificação do fluxo
documental;
- Reconhecimento do destino
destes documentos;
- Percepção se os percursos
dos documentos eram eficazes
na solução de demandas;
- Reconhecimento de prazos
e necessidade de uso do
documento;
- Verificação da necessidade
de produzir um documento
ou não;
- Definição de guarda de
acordo com a necessidade de
uso;
- Delimitação dos
documentos da IES que
contemplas a normativa;
Identificar o uso
documento, quem são os
usuários, quando utilizam
e qual o período de
utilização;
Identificar o valor e o
ciclo de vida de cada
documento, estabelecendo
seu prazo de guarda;
Estudar o fluxo
documental;
Definir o sistema a ser
utilizado;
Desenvolver uma tabela
que concilie classificação
de documentos e
temporalidade;
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
104
Ciclos Fase da pesquisa-
ação Etapas da GD para
documento digital Benefícios do mapeamento
no processo da GD
2º ciclo
Elaboração do
plano de ação
Classificar tipos e
séries documentais,
desenvolvendo um plano
de classificação;
- Estruturação da tabela de
documentos por destino final;
- Compreender se está sendo
colocado o documento na
pasta final adequada para
facilitar o processo de gestão
documentos;
- Identificar os documentos
para montar o sumário do
prontuário;
- Definir ações para aplicar a
temporalidade, restaurar os
documentos permanentes e
descartar documentos que já
cumpriram prazo de guarda;
- Estruturar ações assertivas
para o alcance do objetivo
da IES
Mapear, organizar e definir
o fluxo documental;
Desenvolver ações de
gestão documental;
Implementação e
avaliação
Garantir que os
documentos sejam
descartados ou guardados;
- Redução do espaço físico do
acervo;
- Eliminação de documentos
que já cumpriram prazos;
- Padronização de ação para
execução das tarefas;
- Agilidade para digitalização;
- Delimitação de documentos
que seriam anexados ao
Sistema de Gerenciamento de
Documentos (GED);
- Redução de custos para
memória do GED;
- Possibilidade de colocar
estagiários auxiliando no
processo;
- Melhoria na disposição dos
documentos para facilitar
descarte futuro;
- Redução de custos para
a IES que pode executar o
trabalho sem terceiros;
- Padronização de ação para
execução das tarefas vários
funcionários
Organizar e arquivar os
documentos;
Reproduzir e preservar os
documentos;
Fonte: Elaborado pelas autoras com base em Crivellaro, 2023.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
105
Os benefícios apontados correspondem também à sistematização de
ações técnicas, realizadas em cada fase / etapa. A utilização da pesquisa-ação
possibilita a estruturação do processo e a visualização por todos os envolvidos,
desde a pesquisadora responsável, até o comitê gestor e a equipe de execução,
resultando em impactos positivos pela implementação de procedimentos de
Gestão de Documentos. O quadro 3 apresenta um resumo do impacto da
pesquisa-ação em vários aspectos das atividades da IES.
Quadro 3  Impacto da pesquisa-ação na realidade da Gestão de
documentos na IES
Antes da pesquisa-ação Após a pesquisa-ação
Boa estrutura física, departamentos bem
divididos, profissionais capacitados para suas
funções.
Esses funcionários foram chaves essenciais
para o andamento de todo o processo
Havia uma necessidade de adquirir recursos
físicos (scanner, computadores) e uma sistema
operacional específico para gestão documento
em meio digital;
Aluguel de 2 scanners, direcionamento de 2
computadores, definição uma sala arquivo e
aquisição de um sistema de gerenciamento de
documentos
Poucos funcionários para auxiliar no processo
de conversão digital, já que os mesmos teriam
que cumprir com as demandas já existentes;
Contratação de um funcionário responsável
pelo arquivo, que iria operacionalizar a
organização e limpeza dos documentos e
contratação de estagiários que seriam escalados
no processo de digitalização;
Não havia profissional responsável para
acompanhar a legislação de acervo e
criar estratégias para cumprir os prazos
exigidos para conversão digital, visto que as
legislações mudam com frequência e devem
ser acompanhadas para que não se perca
regulamentos que precisam ser cumpridos
Composição do comitê, responsável em
acompanhar todas as exigências legais, criar
planos de ações e monitorar e controlar cada
processo para que alcance o objetivo final e
cumprissem requisitos legais
O arquivo era organizado com base no uso dos
documentos, sem seguir etapas da GD. Aplicação das técnicas de gestão de
documentos: reconhecimento, classificação e
avaliação, para identificar, classificar, organizar
e estruturar os documentos, possibilitando
entender o seu caminho e definindo melhor
forma de guarda e aplicação de métodos de
restauração e descarte quando necessário
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
106
Antes da pesquisa-ação Após a pesquisa-ação
Não havia técnicas de restauração documental As técnicas planejadas incluem desde cuidado
e limpeza destes documentos, materiais
utilizados para guarda documental para
manter a qualidade dos documentos até
deixá-los preparados para o processo de
digitalização, já que alguns documentos
podiam, se não houvesse cuidado no momento
da digitalização, ser ainda mais prejudicados
devido o tempo de vida.
Não havia classificação por tipo e série
documental; plano de classificação de
documentos; identificação do ciclo de vida de
cada documento; aplicação da temporalidade
dos documentos para eliminação
A partir da portaria que prevê os documentos
existentes em Instituição de Ensino Superior
Público que rege também às instituições de
ensino privadas, foi possível identificar quais
os documentos que são produzidos por uma
IES, a temporalidade que deve ser aplicada
nestes documentos, tanto para arquivo quanto
para descarte e os códigos que devem ser
utilizados para cada documento, com isso
foi estruturada uma tabela individual para a
instituição, identificando quais documentos
são produzidos pela instituição para,
consequente entender o fluxo dos mesmos.
A IES possuía aproximadamente 1.200 caixas
que somam aproximadamente um milhão
de documentos individuais para serem
digitalizados
Cerca de 90% dos documentos organizados
e restaurados e aproximadamente 50% já
digitalizados, o que já significava que a lei
vigente estava sendo contemplada em tempo
hábil
Não havia Secretaria Acadêmica Digital e nem
planos de incluir uma Processo de contratação de um siste.ma que
abrangesse a Secretaria Digital
Não existia um plano de desenvolvimento
institucional sobre o acervo, que é uma
exigência legal
Foi criado um Projeto que está no Plano de
Desenvolvimento Institucional - PDI da
instituição, já que estas ações podem modificar
os processos internos da instituição de ensino
e por se tratar de exigências legislativas que
precisam ser cumpridas. Este projeto do
acervo acadêmico teve o intuito de justificar
o motivo desta conversão de documentos,
desenvolvendo cronograma e planejamento
das ações que seriam executadas no curto e
médio prazo.
Não havia um plano para digitalização Foram estruturadas estratégias voltadas ao
processo de digitalização dos documentos,
criando padrões neste processo e assim
deixando a equipe capacitada e capaz de
cumprir o prazo legal
Fonte: Crivellaro, 2023.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
107
No caso estudado, a implantação da pesquisa-ação na IES resultou
em situações concretas como: para o acervo físico, a redução de 35% das
caixas de documentos; para o custo da digitalização, redução de 50% do
valor em relação à opção de terceirização de serviços; para o cumprimento
do prazo de digitalização, permitiu a aplicação simultânea do processo,
reduzindo o tempo de 21 para 06 meses. No tempo total do processo, per-
mitiu a redução do prazo total do processo de 21 para 11 meses.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A abordagem metodológica da pesquisa-ação demonstra grande po-
tencial para contribuir significativamente com o processo de gestão de do-
cumentos nas organizações. Por seu caráter participativo e reflexivo, essa
metodologia permite que os envolvidos na prática documental  gestores,
arquivistas, técnicos e demais colaboradores  atuem como agentes ativos
na identificação de problemas, no desenvolvimento de soluções e na apli-
cação de melhorias contínuas.
Ao integrar teoria e prática, a pesquisa-ação favorece a construção
coletiva do conhecimento, promovendo o engajamento dos participantes e
garantindo que as ações implementadas estejam alinhadas com a realidade
institucional. Isso torna os processos de gestão documental mais eficazes,
dinâmicos e adaptados às necessidades específicas da organização.
Além disso, o ciclo contínuo de diagnóstico, ação, avaliação e repla-
nejamento, típico da pesquisa-ação, contribui para o aprimoramento sis-
temático das práticas de produção, uso, organização, preservação e acesso
aos documentos. Assim, a metodologia não apenas auxilia na resolução de
problemas pontuais, mas também fortalece a cultura de gestão documen-
tal dentro das organizações, promovendo maior eficiência, transparência e
responsabilidade na administração da informação.
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
108
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110
Parte II
Informação &
Sociedade
113
Direito à Cidade e Direito à Informação:
equivalências e emergências urbanas
Henrique E. C. França
Maio de 1968, Paris em ebulição. Nos corredores do Campus
Nanterre, dois professores que marcariam em definitivo a história da so-
ciologia militam por liberdade e somam-se ao icônico coro revolucionário
"é proibido proibir". Henri Lefebvre (19011991), nascido em território
francês fronteiriço à Espanha, e Manuel Castells (1942-), espanhol exilado
em França, têm em comum, além da curiosidade das fronteiras geográficas
e do marxismo como base ideológica em seus estudos, um objeto de pes-
quisa de inegável importância na configuração social moderna: a cidade.
Cada um a seu modo, não raro discordantes na acepção dos estu-
dos sociais sobre o espaço (ou a sociedade no) urbano, Lefebvre e Castells
trabalham para esclarecer como as estruturas (capitalistas) de poder se per-
petuam num continuum, e ainda para apontar possíveis propostas de revo-
lução social a partir da conquista ou apropriação de ações emancipadoras
da/na sociedade, cada um a seu tempo - seja o pós-industrial de Henry
Lefebvre, seja o pós-digital de Manuel Castells. Este ensaio percorre os
trilhos abertos por esses autores - ainda que não se baseie exclusivamente
neles - para propor aproximações entre o Direito à Cidade e Direito à
Informação como clareiras para o exercício da cidadania e o consequente
fortalecimento da democracia nas cidades.
https://doi.org/10.36311/2026.978-65-5954-676-3.p113-128
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
114
DIREITO à CIDADE E DIREITO à INFORMAÇÃO: IDEAIS
COMPLEMENTARES
As aproximações entre os pressupostos dos direitos à informação e à
cidade são dignas de uma observação inicial: diante de uma associação tão
natural, é curioso que esse encontro não tenha sido promovido antes  ou
pelo menos que não se tenha feito conhecer amplamente.
Em contexto informacional, o acesso à informação como direito fun-
damental remonta à Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão, em
1789, sendo ainda referendada em cânones como a Declaração Universal
dos Direitos do Homem (1948), Convenção Europeia sobre Direitos
Humanos (1950), Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos
(1966), Convenção Interamericana de Direitos Humanos (1969) e Carta
Africana sobre os Direitos Humanos e dos Povos (1981), além de marcar
constituições de vários países (Canela; Nascimento, 2009). Interessante
notar que, diferente da diversidade de vozes em torno do 'direito à infor-
mação', o termo 'direito à cidade' foi cunhado por Henri Lefebvre, em
livro homônimo de 1968.
Martins e Reis (2014) pontuam para essa precedência informacio-
nal, ao anunciarem que "a mobilização pelo acesso à informação pública
parte do entendimento de que o direito à informação se configura como
um direito social, ou um direito que antecede os demais e que subsidia o
exercício dos direitos políticos ou sociais". A diferença de quase três sé-
culos entre esses conceitos, porém, não invalida a complementariedade e
os pontos de convergência entre eles. Ao contrário  e mais ainda hoje,
diante de uma 'explosão' demográfica urbana e informacional sem pre-
cedentes -, o encontro entre essas duas ideias reforça a possibilidade de
acesso à cidadania na sociedade predominantemente urbana  seja nos
novíssimos sistemas urbanos (smart cities), seja nos sistemas informacionais
(hiperdigitalizados).
Em seu texto de apresentação da edição portuguesa de O Direito à
Cidade (Lefebvre, 2012), Carlos Fortuna aponta para o (re)nascimento
da reflexão urbanística a partir de três atos/períodos distinguidos por
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
115
Lefebvre: 1) A industrialização selvagem que toma de assalto e destrói
a realidade urbana não capitalista; 2) A intensificação da condição ur-
bana (ou a expansão do urbanismo); e 3) A reinvenção urbanística do
urbano  entre outras coisas, com a mudança do "centro de decisão"
nesse contexto. Uma convergência com o aspecto informacional, aqui, se
apresenta viável, quando:
1. O processo de industrialização apontado por Lefebvre pode
ser comparado ao processo de digitalização que toma de assal-
to a dinâmica social sob o rótulo da denominada Sociedade da
Informação como novo modelo de organização social, a partir
do uso das Tecnologias da Informação e Comunicação  TIC
(Pinochet, 2014). Esse novo dinamismo imposto por bits e bytes
deforma, destrói (ou ao menos suprime, em grande medida) as
interações não-digitais.
2. A intensificação da condição urbana ganha equivalente infor-
macional diante da expansão dos chamados "espaços de fluxos"
na "sociedade em rede" (Castells, 2002) que subverte o espa-
ço-tempo do urbano para consolidar a "cidade informacional"
(Castells, 1992).
3. Por fim, a mudança do "centro de decisão" do poder que contri-
bui para a reinvenção urbanística do urbano pode ser equipara-
da  pôde inclusive ser experimentada e relatada, sob o aspecto
informacional - aos movimentos sociais que abalaram governos
como dos Estados Unidos, Tunísia, Espanha, Islândia, entre
outros, iniciados nas redes sociais digitais, sem lideranças esta-
belecidas ou formalizadas, em uma sucessão de ações oriundas
do que o sociólogo espanhol denominou "redes de indignação e
esperança" (Castells, 2013).
Tomando os três pontos anteriores como balizadores deste argu-
mento ensaístico, propomos uma leitura primeira, mas longe de exaustiva,
do que chamamos "paralelos convergentes"  a saber: Industrialização/
Digitalização; Tecidos Urbanos/Redes Sociais como ágoras da Autogestão/
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
116
Autocomunicação; e o Tripé do Direito à Cidade sobre Base Informacional
com vistas à "revolução" social.
INDUSTRIALIZAÇÃO E DIGITALIZAÇÃO
Henry Lefebvre vê a cidade como a maior das obras civilizatórias,
"a obra das obras". Ele entende que a cidade tanto reflete como cria uma
sociedade. Diz que os espaços urbanos são moldados pelo Estado, para
servir aos interesses das empresas poderosas e do capitalismo; e afirma que
as partes das cidades refletem a luta de classes. Por isso é tão importante
compreender sua problemática, sua complexa dinâmica.
Em O Direito à Cidade (Lefebvre, 2012), o ponto de partida para
apresentar a "problemática urbana" é o processo de industrialização, que,
segundo o autor, tornou-se o motor das transformações sociais há pelo
menos um século e meio (à época da publicação). "A industrialização ca-
racteriza a sociedade moderna" (Lefebvre, 2012, p. 17). Lefebvre diz que
as cidades foram assaltadas pela industrialização, e enfatiza que "dizer que
esse foi um processo natural, sem intenções, seria uma visão incompleta"
(Lefebvre, 2012, p. 27). Assim, as estruturas de poder passaram a ser (re)
produzidas na engrenagem industrial, fabril, das/nas cidades. Lefebvre ad-
mite que a aceleração do processo industrial pavimentou o caminho para
as condições e meios da sociedade urbana, mas pondera que, apesar disso,
a vida urbana não pode ser subordinada à industrialização, como uma de-
vedora do sistema que a caracterizou.
De forma elucidativa e ponderada, Lefebvre diz que a industriali-
zação produz a urbanização, em primeiro lugar, de forma negativa (com
a explosão da cidade tradicional, da antiga cidade, sua morfologia).
Posteriormente, a relação entre industrialização e urbanização se transfor-
ma e a cidade deixa de ser receptáculo passivo dos produtos e da produção.
O Direito à Cidade, assim, "não pode ser concebido como um simples
direito de visita ou retorno às cidades tradicionais. Só pode ser formulado
como direito à vida urbana, transformada, renovada" (Lefebvre, 2012).
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
117
O processo de industrialização descrito por Lefebvre pode ser tão
naturalmente equiparado ao da digitalização, a partir do uso das TICs, que
não seria exagero dizer que a releitura do texto canônico do autor francês
pode ser feita, com efeito potencial, se fosse substituído o termo "indus-
trialização" por "digitalização". Afinal, assim como no primeiro momento
histórico para as cidades, a sociedade urbana que foi 'tomada de assalto'
pela digitalização viu-se diante de um bezerro de ouro e pés de barro. Isso
porque, diferente do que se possa celebrar, "em nenhum momento a socie-
dade da informação pretendeu ser responsável pelo conhecimento gerado
na sociedade. Foi sempre uma tecnoutopia e nunca uma utopia para um
conhecimento social ampliado" (Barreto, 2007).
A Sociedade da Informação seria assim uma utopia de realização
tecnológica, que continuou reproduzindo, em ampla medida, os sistemas
de poder  assim como sua equivalente, nesse exercício de argumentação:
a industrialização. Desse modo, assim como enfatizou Lefebvre sobre o
movimento do estado social passivo em direção a uma reformulação do
"direito à vida urbana, transformada, renovada", Castells (1992) retirou o
véu de uma possível ingenuidade quanto à passividade das cidades diante
de uma 'digitalização selvagem': "é um raciocínio pouco provável aquele
que se alimenta da perspectiva de que as cidades permaneceriam alheias a
tantas transformações".
As cidades, principal complexo social dos nossos tempos, têm sido
fortemente marcadas e moldadas pelas possibilidades da Tecnologia de
Informação e Comunicação (TIC), favorecendo inclusive a gênese de uma
nova dinâmica urbana, que se caracteriza pelo predomínio de uma infini-
dade de outras formas, onde a informação e o acesso a ela são seus princi-
pais pilares (Castells, 2013). O autor espanhol aponta que, nesse contexto
de digitalização/informatização,
as cidades não só desenvolvem novas dinâmicas como criam uma
nova forma urbana: a cidade informacional, que é a cidade do espaço
de fluxos, na qual uma série de transformações sociais, econômicas
e políticas, potencializadas pelas tecnologias de informação e
comunicação, têm prenunciado novas formas de interação do
cidadão com o espaço urbano (Castells, 1992, tradução nossa).
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
118
Na urbe dos espaços de fluxos, espinha dorsal da chamada "cidade
informacional" de Castells, as transformações sociais apontam para um
modo de vida mediado pelas redes digitais  afetando relações de tra-
balho, consumo e cultura -, além de um espaço urbano fragmentado e
criador de uma dualidade social através do acesso ou à exclusão aos fluxos
de informação, à participação (ou não) das decisões via redes digitais de
comunicação. Do mesmo modo, as transformações econômicas e políti-
cas são evidenciadas pela associação de valor e poder à capacidade pro-
dução, circulação e controle da informação (para muito além dos bens
materiais), tornando o espaço urbano um campo de disputa simbólica e
comunicacional, onde a medida de poder está no controle da informa-
ção. É no contexto das redes sociais, que proporcionam os 'espaços de
fluxos' de Castells, que vislumbramos uma perspectiva dialógica com os
'tecidos urbanos' descritos por Lefebvre.
TECIDOS URBANOS E REDES SOCIAIS
O tecido urbano, segundo Lefebvre, “constitui o suporte de uma
forma de vida’ mais ou menos degradada: a sociedade urbana” (Lefebvre,
2012). Para o autor de O Direito à Cidade, trata-se de uma espécie de
"proliferação biológica e uma espécie de rede e malhas desiguais, deixan-
do escapar setores de tamanhos mais ou menos considerável: povoados e
aldeias, regiões inteiras" (Lefebvre, 2012, p. 24). Apesar disso, Lefebvre
aponta que o tecido urbano interfere diretamente no campo, afetando es-
truturas agrárias antigas, conduzindo ao despovoamento e à "descampo-
nização" das aldeias que permanecem rurais mas perdem características da
vida camponesa antiga: o artesanato, o pequeno comércio local. Segundo
o autor, esses antigos costumes, rituais, são reduzidos a "folclore" pela in-
fluência do tecido urbano.
Curiosamente crítico à ideia de pensar a dinâmica urbana como um
'sistema'  o autor posiciona-se contrário a esse pensamento, em prólogo
do livro, por considerar que todo sistema tende a fechar a reflexão, quando
seu objetivo era o de "abrir" o pensamento a "possibilidades" -, Lefebvre
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
119
afirma que "o tecido urbano pode ser descrito mediante a utilização do
conceito de ecossistema, unidade constituída em torno de uma ou várias
cidades, antigas ou recentes" (Lefebvre, 2012, p. 24). Nessa analogia bio-
lógica e sob perspectiva sistêmica, o tecido urbano parece atuar como um
"fungo" que se espalha transportando valores, objetos, características do
urbano para (ou por sobre) o campo. Em geral, de acordo com Lefebvre,
cabe aos jovens do campo o papel de assimilar os pacotes de coisas e valores
nessa enxurrada de influências transportada pelo tecido urbano.
Em perspectiva comparativa, sob a dinâmica informacional, apon-
tamos aqui a emergência das redes sociais (mais especificamente aquelas
digitais) como um possível "suporte" a uma nova dinâmica social urbana,
marcada pela transgressão do tempo-espaço e pela assimilação de objetos
e valores das comunidades "virtuais" - ainda que tais comunidades não
estejam necessariamente no campo físico geográfico comum a todos os
membros dessa rede. Como um "manto" social sem fronteiras físicas, as
redes sociais chegam a cobrir até mesmo sociedades onde o acesso à pró-
pria internet seria proibida aos habitantes das cidades. Caso, por exemplo,
da Coréia do Norte, que há alguns anos se abriu para as redes sociais,
permitindo ao Facebook a transmissão de telejornais e difusão da rede es-
tatal de TV, ao vivo, mesmo diante de uma web controlada pelo governo
(Pinochet, 2014).
Aparentemente, ninguém está imune a seu efeito e qualquer um
pode fazer parte da rede, em um rito democrático e acessível a um clique.
O aparente poder descentralizador e agregador das redes sociais, porém,
deixa de reluzir como tal quando suas configurações são ajustadas para
incentivar um comportamento consumista baseado em preferências e a
busca por aprovação social. Basta conferir o documentário "O Dilema das
Redes" (2020) para entender como as estruturas de poder seguem firmes
no objetivo de manterem privilégios e mecanismos de controle social. O
filme alerta que na aparente gratuidade de acesso às redes sociais está um
produto em fluxo: o próprio utilizador. Assim, se a industrialização se apro-
priava da classe operária para manter o status quo dominante, fenômeno
semelhante se dá nas redes digitais, não estranhamente criadas e mantidas
por conglomerados empresariais de comunicação e tecnologia.
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
120
Além do caráter empresarial e capitalista das redes sociais, faz-se in-
teressante notar seu caráter potencialmente paralisante, alienador, quando
"O Dilema das Redes" revela as sutilezas do uso de algoritmos para gerar
cada vez mais informação em harmonia com o que agrada ao utilizador
do sistema, que busca cada vez mais conexão para consumo informacional
(Ribeiro, 2017). Evidentemente, como anteriormente apontado, o acesso
à informação é a base do Direito à Informação  e este se coloca como
campo fértil para a consolidação da cidadania plena. Afinal, em uma pre-
missa lógica, a sustentação da cidade informacional está no acesso à infor-
mação  sendo esse um direito fundamental para a manutenção do Estado
Democrático (Ferrari; Siqueira, 2016). E o não cumprimento de direitos
que fortaleçam o Estado Democrático  seja o direito informacional, seja
o direito à cidade  resulta em uma cidadania fragilizada.
O que se coloca, aqui, é o oposto à escassez informacional, pois tam-
bém o excesso de informações pode obnubilar aquela possível 'força de
trabalho' das redes sociais marcadas por essa 'digitalização selvagem' que
toma a sociedade de assalto. Harari (2018) aponta que "as pessoas já têm
informação demais, agora elas precisam da capacidade de extrair sentido
dessa informação, para perceber o que é ou não relevante". O imenso vo-
lume de informação gerada e recebida por esse 'prossumidor'  aquele
que supera a condição passiva de consumidor para a dupla condição de ser
também produtor daquilo que é consumível (Tofler, 1981)  resulta em
fenômenos como a infodemia, que é o aumento exponencial do volume
de informação sobre um determinado assunto em alta velocidade de dis-
seminação (OPAS, 2020), terminando por sobrecarregar, gerar ansiedade,
exaustão ou mesmo tornar as pessoas "incapazes de responder às demandas
que se apresentam" (Garcia; Duarte, 2020).
Em parte, os resultados dessa avalanche informacional digital, com
seu extensor social a priori festejado, mas seguido do nocivo fenômeno
da infodemia social, faz lembrar a emergência da chamada 'atitude bla-
' apontada por Simmel, que "resulta em primeiro lugar dos estímulos
contrastantes que, em rápidas mudanças e compressão concentrada, são
impostos aos nervos" agitando-os "até seu ponto de mais forte reatividade
por um tempo tão longo que eles finalmente cessam completamente de
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
121
reagir". Nessa oscilação pelo estiramento dos nervos em uma e outra dire-
ção, "surge assim a incapacidade de reagir a novas sensações com a energia
apropriada" (Simmel, 1967). Daí o interessante paralelo entre a 'atitude
blasé ' de Simmel, onde o excesso de estímulos gerados pela/na cidade (in-
formacional) é capaz de promover um estado não reativo, passivo, agora
também identificado pela sobrecarga seguida da incapacidade de respostas,
consequência do fenômeno da infodemia.
Porém, assim como Lefebvre vê na industrialização uma espécie de
força que pode e deve ser utilizada para a mudança social, Castells (2013)
compreende que as transformações sociais podem e devem ter como pal-
co as redes digitais. Isso se dá por duas vias de pensamento (tratados na
próxima seção): enquanto Henry Lefebvre vê o direito à cidade a partir do
processo por ele considerado como 'autogestão', Manuel Castells denomi-
na de 'autocomunicação' o fator de transformação social. Novamente, as
perspectivas (e termos) para a emancipação social sobre o poder estabele-
cido se encontram quase em uníssono  e através delas ambos se tornam
signatários de uma utopia rumo à revolução da sociedade, como veremos
a seguir.
UTOPIA EXPERIMENTAL E UTOPIA EM REDE
Para Lefebvre, os elementos do direito à cidade devem ser pensados
como utopias experimentais e hipóteses estratégicas. Nesse sentido, a ci-
dade como objeto da ciência exige novas abordagens  além de um novo
humanismo para o qual "devemos tender e esforçar-nos, isto é, para uma
nova práxis e um outro homem, o da sociedade urbana". (Lefebvre, 2012).
Segundo o sociólogo francês, esse novo humanismo subjacente ao direito à
cidade se dá através da autogestão.
Essa autogestão seria a base de sustentação dessa utopia experimental
e implica no uso social ou uso ótimo das técnicas trazidas pela industria-
lização como pavimento do caminho para uma reforma urbana, para o
direito a cidade. Vale ressaltar que esta 'utopia' defendida por Lefebvre
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
122
não lida com o imaginário, o inalcançável  antes pelo contrário, é uto-
pia porque propõe algo novo, um modo de recriar a realidade, e faz-se de
forma 'experimental' porque se realiza no presente, no contexto das lutas
urbanas, dos movimentos sociais, das experiências comunitárias. É preci-
so, portanto, redirecionar e usar a potencialidade da industrialização para
o bem comum, não para perpetuar sistemas de exploração. E isso requer
participação coletiva, democrática, nesse processo que Lefebvre denomina
"autogestão" estendida ou generalizada  o que pressupõe autonomia dos
que habitam as cidades.
Portanto, a autogestão se beneficia do uso ótimo das técnicas, da au-
tomação, garantindo que trabalhadores tenham mais tempo livre e contro-
le sobre seu próprio tempo. Essa autogestão transforma os espaços sociais e
os sujeitos envolvidos. E à cidade confere espaços moldados pela demanda
desses cidadãos e cidadãs, pelo uso (não pela troca, pelo simples consumo),
de forma cada vez mais orgânica. Inicialmente mantenedora dos sistemas
de poder, a industrialização agora - através dessa dinâmica de autogestão
 pode e deve ser usada como libertadora. "Numa sociedade e numa vida
urbanas liberadas dos antigos limites  da escassez e do economicismo 
as técnicas, a arte, os conhecimentos passam a estar a serviço da cotidiani-
dade, a fim de metamorfoseá-la" (Lefebvre, 2001).
No mesmo fundamento transformador da autogestão, Castells apon-
ta o fenômeno da "autocomunicação" como emancipador social das cida-
des informacionais a partir do uso ótimo das ferramentas de Tecnologia da
Informação e Comunicação.
Nos últimos anos, a comunicação em ampla escala tem passado
por profunda transformação tecnológica e organizacional, com a
emergência do que denominei autocomunicação de massa, baseada
em redes horizontais de comunicação multidirecional, interativa,
na internet; e, mais ainda, nas redes de comunicação sem fio,
atualmente a principal plataforma de comunicação em toda parte.
Esse é o novo contexto, no cerne da sociedade em rede como nova
estrutura social, em que os movimentos sociais do século XXI se
constituem (Castells, 2013, p. 158 ).
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
123
Já aqui é possível perceber que tanto Castells quanto Lefebvre des-
tacam a trajetória de mudanças pela "autocomunicação" e "autogestão" à
partir da organização dos movimentos sociais.
Quanto à "autocomunicação", Castells (2013) esclarece que a emer-
gência desse fenômeno se dá porque existe autonomia na produção da
mensagem, autodirecionamento na definição de quem a recebe e autosse-
letividade na recuperação dessa mensagem da rede. Trata-se de um modelo
de comunicação de difícil controle por parte de governos e empresas e
permite fluxos alternantes de troca de mensagens, de caráter multimodal
com agilidade necessária. "A autocomunicação de massa fornece a plata-
forma tecnológica para a construção da autonomia do ator social, seja ele
individual ou coletivo, em relação às instituições da sociedade" (Castells,
2013, p. 10).
Assim como a industrialização em Lefebvre, com o uso ótimo das
técnicas para a autogestão, o uso da plataforma informacional digital para
Castells que resulta na autonomia dos grupos sociais está centrada na auto-
comunicação de massas. "A partir dessa autonomia, as palavras, as críticas
e os sonhos do movimento se estendem à maior parte da sociedade"(Cas-
tells, 2013, p. 180). Toda essa dinâmica se dá, segundo o autor, no que ele
denomina 'espaço de fluxos', ou seja, vias partilhadas de comunicação que
permitem troca de mensagens simultâneas em espaços geograficamente
distantes  muitos impossíveis de serem transpostos sem essa base tec-
nológica digital. É no espaço de fluxos que se dá a troca, o cruzamento,
por vezes o embate ou o despiste entre diferentes grupos que integram as
redes  sejam a elite financeira, sejam governos, sejam movimentos sociais,
sejam observadores atentos. Essa organização espacial de reorganização e
dinâmica flexíveis (no âmbito info-digital) é o que caracteriza as cidades
informacionais não como uma forma, mas como um processo assente so-
bre as estruturas do espaço de fluxos (Castells, 2002).
Ao escrever sobre o espaço dos fluxos, em fins do Séc. XX, Castells
ainda não vislumbrava a dinâmica das redes sociais em toda sua plenitude,
mas pôde se antecipar à possibilidade de participação ampliada e decisiva das
classes não-dominantes e movimentos sociais nesses 'nós' da rede e os pos-
síveis desdobramentos que isso poderia causar. Foi na primeira década dos
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
124
anos 2000 que o sociólogo espanhol pôde contemplar a materialização de
sua tese  e voltar às manifestações de rua, após 40 anos do movimento estu-
dantil iniciado no Campus Nanterre, presente ou representado fisicamente
ou digitalmente  o relato desse retorno às manifestações populares está em
Redes de Indignação e Esperança (Castells, 2013). O também professor Henri
Lefebvre não assistiu à materialização da "utopia experimental" proposta por
ele, mas influenciou mentes e corações rumo a um novo humanismo para o
qual "devemos tender e esforçar-nos, isto é, para uma nova práxis e um outro
homem, o da sociedade urbana" (Lefebvre, 2012). Ambos prenunciadores
de um potencial processo de revolução social, à partir da mobilização popu-
lar/proletária, com ênfase na autogestão ou na autocomunicação.
CIDADE, INFORMAÇÃO E DIREITOS AS BASES DA REVOLUÇÃO
Se o objetivo do livro Direito à Cidade foi fazer com que as ques-
tões do urbanismo adentrassem na consciência e nos programas políticos,
como afirmou o próprio autor, seu dardo motivador rumo a uma estratégia
urbana democrática e equilibrada acerta em cheio a classe operária como
suporte social e de forças políticas capaz, somente ela, "de pôr fim a uma
segregação dirigida essencialmente contra si" (Lefebvre, 2012). Isso não
significa, porém, que há papel exclusivo nessa nova configuração social
urbana, mas sem ela seria impossível a concretização do direito à cidade.
Não se trata, porém, de uma revolução de força bruta, de resistência
física. Lefebvre defende a participação da classe operária em um movimen-
to dialético entre ciência e força política. E acrescenta a essa dialética a arte,
como forma de apropriação do tempo (música) e do espaço (escultura,
pintura). Ele delega à força social da classe operária a incumbência de tor-
nar eficaz a síntese entre arte, técnica e conhecimento. Lefebvre está tratan-
do de uma ciência analítica da cidade ainda em esboço, em vistas de uma
"teoria integral da cidade e da sociedade urbanas utilizando os recursos da
ciência e da arte". E nessa missão, segundo o autor, "só a classe operária
pode se tornar o agente, o portador, dessa realização" (Lefebvre, 2012).
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
125
Na prática, Lefebvre defende o direito à cidade a partir de um tripé
de revoluções: a revolução econômica, orientada para as necessidades so-
ciais; a revolução política, a partir do controle democrático e participativo
do Estado e da autogestão generalizada; e a revolução cultural permanente,
remontando à condição no espaço de uso e não dirigido por trocas pura e
simplesmente. Não estava sob as lentes de Lefebvre um recorte específico
aos aspectos informacionais. Porém, à luz da sociedade contemporânea,
marcada pela centralidade da informação como recurso econômico, políti-
co e cultural, o tripé de revoluções proposto por Henri Lefebvre no Direito
à Cidade adquire novas camadas interpretativas, onde a informação pode
ser tomada como fator subjacente elementar  e que também dialoga di-
retamente com os escritos de Manuel Castells.
A revolução econômica voltada às necessidades sociais, por exemplo,
aponta para a reorientação à chamada Economia da Informação  em
que dados e conhecimento tornaram-se os principais meios de produção
(Castells, 2002; Drucker, 1993)  para finalidades coletivas e não exclusi-
vamente mercadológicas. Do mesmo modo, a revolução política, sustenta-
da por Lefebvre no controle democrático e na autogestão, demanda a de-
mocratização do acesso e da governança da informação, condição essencial
para a efetivação da participação cidadã em um contexto urbano (Castells,
2015; Harvey, 2014). Por fim, a revolução cultural permanente, entendi-
da como a produção de um espaço de uso e não de mera troca, encontra
paralelo no desafio contemporâneo de apropriar-se socialmente dos fluxos
informacionais e simbólicos que estruturam a vida urbana digitalizada, em
especial pela força das redes sociais na configuração de tendências e cultu-
ras (Floridi, 2014). Nesse sentido, o direito à cidade, na era da informação
e do conhecimento, só se realiza plenamente quando o direito à informa-
ção  em sua dimensão econômica, política e cultural  é igualmente
reconhecido e assegurado.
Retomando: tanto para Lefebvre quanto para Castells essa nova con-
figuração social, esses caminhos de revolução, são potencializados e leva-
dos a cabo pela via dos segmentos de indivíduos que sustentam a base da
pirâmide social nas cidades. Talvez essa revolução operária ainda esteja à
espera, talvez em curso, em andamento. Basta analisar o prisma das dinâ-
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
126
micas sociais e vislumbrar os novos operários das atuais cidades informa-
cionais levados à atitude blasé pelo excesso de informação, pela não condi-
ção estrutural, financeira, temporal, de analisar, selecionar e utilizar bem
o que chega nessa enxurrada de mensagens  especialmente digitais. Se a
industrialização em Lefebvre sufocava o uso das cidades como obra, como
espaço de vivência e não produto, a hiperconexão em Castells é capaz de
alienar e confundir os que vivenciam as cidades informacionais.
Mas, e se colocarmos sob esse tripé a dinâmica da autocomunica-
ção, a dinâmica agregadora das redes sociais, a dinâmica dos fluxos in-
formacionais que resultam em manifestações nacionais e até mesmo in-
ternacionais, não teríamos aí um novo contexto de busca e conquista de
direitos? Lefebvre e Castells traçam assim dois caminhos que concorrem
para aplacar o rolo-compressor da estrutura de poder estabelecida, através
do acesso livre à informação e ao espaço urbano, a partir da inclusão e
participação das pessoas na construção e nos rumos da dinâmica social.
Um deles combate a exclusão social, o outro alerta para os riscos da ex-
clusão informacional. Para ambos, mais do que viver na cidade, é preciso
viver a cidade; para além de estar na cidade, é necessário ser a cidade.
Para Castells, que mais de três décadas após a morte de Henry Lefevbre
continua testemunhando, estudando e vivenciando as dinâmicas urbanas,
podemos estar somente diante de um "Prelúdio à Revolução" (Castells,
2013). A provocação está posta.
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TOFLER, Alvin. A terceira onda. Rio de Janeiro: Record, 1981.
129
Representação Feminina na Publicidade sugerida
ao OPeNS: Formação e Informação para os
consumidores 1
Luana Maia Woida
[ ] entre a polaridade da razão e emoção, está instalado o desejo, o
grande operador da sedução. Enquanto a sugestão habita a incerteza
do possível e a persuasão caminha pelos trilhos do argumento, a
sedução fala por meio da corporeidade, da captura do receptor
nas malhas do desejo. Enquanto a sugestão aciona a capacidade
de sentir e a persuasão agrada ao pensamento, a sedução cativa os
sentidos. Não é por acaso que um dos aspectos mais criticados da
publicidade reside na sedução que suas mensagens exercem sobre
nós (Santaella, 2012).
1 INTRODUÇÃO
A presença das mídias no cotidiano e seu uso promovem debates e
despertam a necessidade de discutir problemas em diferentes áreas, como
quando envolvem competências críticas para compreensão, para atuação
cidadã e para o exercício da democracia frente as informações que são vei-
culadas (Torusdağ, 2023).
Financiamento CNPq/MCTI/FNDCT nº 18/2021 - Faixa A - Grupos Emergentes. Processo:
407055/2021-5
https://doi.org/10.36311/2026.978-65-5954-676-3.p129-156
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
130
A publicidade, que tem como uma de suas funções centrais fornecer
informação (Malmelin, 2010, p. 133), acaba ganhando atenção por possuir
grande alcance e capacidade de veiculação de informação, de manipulação
e persuasão. Possui impacto sobre a população, registra a memória social
de um determinado momento e influencia preferências de consumo e de
compreensão sobre variados elementos de uma sociedade, uma vez que, de
acordo com Torusdağ (2023), moldam e refletem ideologias da sociedade,
ou como argumentam Fernandes e Pinheiro (2018), representam identida-
de e memórias coletivas, pois são um meio de circulação dessas memórias.
No contexto das estratégias de sugestão como mote da produção da
comunicação publicitária, Chiachiri (2010, p. 25) prefere compreender
que a publicidade "está inserida no universo sociocultural, podendo ser
vista inclusive como um sintoma deste universo, apresentando ardis que
ultrapassam, de longe, a simples venda de produtos, uma venda, de resto,
que, sem esses ardis, não teria tanta eficácia". A publicidade, portanto,
mantém vínculo com o contexto de produção da mensagem, refletindo,
necessariamente, os valores e preferências instituídos nele.
Recio, Vigil e Fuentes (2005, p. 79), sugerem que "Porque a pu-
blicidade é, antes de tudo, informação, pois fornece ao consumidor as
vantagens de um produto, dados sobre o preço, local de produção e
até mesmo os defeitos que alguém que não utiliza aquele produto pode
ter". Para além dessa função mercadológica, os autores assinalam que
"ao mesmo tempo, a publicidade cumpre uma função social, pois sua
mensagem molda a sociedade.", reservando a ela um espaço em que vai
além de difundir mensagens, induzindo determinadas formas de pensar
e se comportar. Partindo-se disso, Santaella (2012, p. 138) explica que
"é preciso educar os jovens, desde cedo, para o desenvolvimento de uma
visão crítica e consciente dos recursos que são utilizados pela linguagem
publicitária e que certamente nos afetam psiquicamente, sem que esteja-
mos atentos a isso". A autora chama a atenção para criar a capacidade de
ler a imagem publicitária. Para ela,
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
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Muito mais do que podemos conscientemente nos dar conta,
a publicidade não apenas molda desejos, mas sobretudo,
responsabiliza-se por grande parte de nossas formações cognitivas
ao determinar até certo ponto o perfil daquilo que pensamos e
sentimos sobre as coisas, guiando consequentemente o modo como
agimos e o que buscamos (Santaella, 2012, p. 139).
A informação da publicidade tem um papel central para a sociedade
e a forma como ela é difundida, com espaços e liberdade, lhe confere espe-
cial efeito de aderência à cultura, transferindo para o comportamento dos
sujeitos, padrões de consumo e de pensamento. Para isso, a manipulação
e a persuasão são estratégias aplicadas pela publicidade. Para Dijks (2006
apud Torusdağ, 2023, p. 288), há uma importante distinção entre a persu-
asão e a manipulação quando aplicada na publicidade.
Na persuasão, os interlocutores são livres para acreditar ou não,
como bem entenderem, nos argumentos do persuasor durante
a manipulação, eles são normalmente mais passivos e vítimas
da manipulação quando ficam incapazes de compreender a real
intenção do manipulador. Manipulação é uma prática ruim
porque quebra as normas sociais. Isso não significa que o anúncio
não deva ser feito, mas o deve ser com argumentos e fatos, ou
seja, através de informação e persuasão adequadas, não através de
manipulação, omissão de informações importantes, mentira ou
distorção dos fatos.
Considerando essa explicação, a manipulação via publicidade é algo
bastante comum nas diferentes sociedades, o que requer atenção e práticas
para formar e para assumir uma postura crítica frente à mensagem recebida
e interpretada, uma vez que ela não é proibida e tem potencial de aplicação
contra as pessoas. Para isso, os indivíduos precisam de uma educação po-
lítica, voltada a despertar o poder que podem exercer ao serem capazes de
observar, desnudar e criticar as estruturas de poder, as informações enviesa-
das e os sentimentos e desejos despertados nos enquadramentos ofertados
na publicidade. É interessante que uma das cinco variáveis relevantes cita-
das na pesquisa IBOPE Inteligência (Como [...], 2009, p. 16) revela que
"As mulheres são mais receptivas, avaliam melhor, se sentem mais influen-
ciadas que os homens" pela publicidade. Nesse caso, mesmo constituindo
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
132
alvo constante de violência e de estereótipos, parecem apreciar positiva-
mente as mensagens. Para Hooks (2019, p. 144), "As mulheres, em grande
parte, não se dão conta das formas de poder a elas disponíveis. Precisam de
educação política para perceber que são capazes de exercer algum tipo de
poder", incluindo o que assumem no papel de consumidoras.
Essa formação para desenvolver a crítica é inerente à alfabetização
publicitária e à alfabetização midiática. Arbaiza, Robledo-Dioses e Lamarca
(2024) apresentam uma revisão sistemática de literatura de caráter descri-
tivo sobre a alfabetização publicitária e mostram as diferentes linhas de
investigação no campo das Ciências Sociais. Ademais, discutem a relação
entre a alfabetização midiática e a alfabetização publicitária, sugerindo que
a discussão contribui diretamente para a construção de programas de al-
fabetização publicitária. Os autores Arbaiza, Robledo-Dioses e Lamarca
(2024, p. 167), sustentam que
A alfabetização midiática é necessária para desenvolver a capacidade
crítica e reflexiva dos indivíduos em resposta às mensagens
publicitárias, para que eles possam identificar os recursos e estratégias
de persuasão dos anunciantes, avaliar adequadamente o conteúdo
publicitário e seu impacto na sociedade e, principalmente, tomar
decisões informadas sobre seus hábitos de consumo.
Por sua vez, Rosendaal et al. (2011, p. 334) consideram que a
Atual conceituação da alfabetização publicitária precisa ser estendida
com duas dimensões importantes. Primeiro, o desempenho de
alfabetização publicitária, que leva em consideração o uso real do
conhecimento conceitual da publicidade enquanto exposto a ela e,
em segundo lugar, a alfabetização publicitária atitudinal, que inclui
mecanismos atitudinais de baixo esforço que podem ser eficazes na
redução da suscetibilidade das crianças à publicidade.
Portanto, o estudo desses autores, dedicado ao público infantil, mos-
tra limitações e lacunas que ainda precisam ser estudadas. Mesmo que a
imaturidade possa afetar o pensamento crítico desse público, ações podem
ser realizadas para auxiliar na formação dessa criticidade. Na medida em
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
133
que as pessoas passam por processos de socialização e aprendem, podem
desenvolver a capacidade de leitura dos diferentes símbolos e sinais que são
usados nas formas de comunicação, como a publicidade. Assim, para com-
preender a representação contida nas informações de uma publicidade,
requer-se alfabetização publicitária.
Arbaiza, Robledo-Dioses e Lamarca (2024), compreendem que a
alfabetização publicitária é parte da alfabetização midiática, e esta, é um
conceito amplo, tratando-se de um grupo de competências aprendidas so-
bre manejo, apropriação e crítica sobre a informação.
Cabe ressaltar que a publicidade é uma variável fundamental
na alfabetização midiática, pois representa uma forma de
comunicação que influencia as atitudes e os comportamentos dos
indivíduos e está constantemente presente  e com intensidade
crescente  em seu cotidiano, promovendo valores culturais,
estilos de vida e padrões de consumo (Arbaiza; Robledo-Dioses;
Lamarca, 2024, p. 167).
É esse intuito de educar que a alfabetização publicitária assumiu nos
últimos 30 anos (Arbaiza; Robledo-Dioses; Lamarca, 2024). Malmelin
(2010, p. 133), em artigo que objetiva desenvolver o conceito de alfabeti-
zação publicitária, sugere que esta se divide em quatro dimensões: alfabeti-
zação informacional (foca em fontes de informação), alfabetização estética
(foca em estética, design e entretenimento), alfabetização retórica (foca em
meios e táticas de persuasão) e alfabetização promocional (foca em funções
comerciais e parcerias financeiras na mídia). Assim, um consumidor crí-
tico deveria ser alfabetizado nessas dimensões, isto é, capaz de identificar
as fontes usadas para disseminar as informações, a estética, as táticas de
persuasão e as relações comerciais que a publicidade possui com a mídia.
Propaga-se a imagem de mulheres como objetos na publicidade
desde seu início (Hernández-Willoughby; Lázaro Pernias, 2023, p. 45).
Indícios dessa situação podem ser constatados no fato de que elas estão em
publicidades direcionadas tanto ao público feminino como ao masculino.
Isto é, mesmo não constituindo o público-alvo, elas são usadas, desde mui-
to tempo, para atrair e instigar os interesses masculinos com a mensagem
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
134
da publicidade. Portanto, a publicidade vem, há décadas, promovendo
uma representação distorcida e inapropriada das mulheres.
Consumidores críticos precisam de formação e de informação para
identificarem a representação atribuída às mulheres na publicidade. Dada
a situação, o Observatório da Publicidade Não-Sexista (OPeNS), instalado
na Faculdade de Tecnologia de Garça, promoveu atividades junto a seu
alunado e realizou publicações nas redes sociais no perfil de uma das pes-
quisadoras que compõe o grupo, a fim de obter sugestões de publicidades
junto à população. Com essa ação, obtiveram-se publicidades denunciadas
e que pudessem servir para serem analisadas, adotando-se, para isso, as
diretrizes do OPeNS, adaptadas para analisar as publicidades de um ponto
de vista prático e objetivo para a própria população. Tal procedimento
simula o que ocorre em outros observatórios com enfoque semelhante, os
quais atuam por demanda no formato de denúncias.
Pensando nesse contexto, o problema de pesquisa do presente capí-
tulo foi: Qual a representação das mulheres nas publicidades denunciadas
ao OPeNS?, Existem elementos de misoginia e sexismo na publicidade
denunciada ao OPeNS?, As informações percebidas na publicidade carac-
terizam a presença de misoginia e sexismo, ou outra classificação prevista
pelas diretrizes do OPeNS? Como promover o comportamento de críti-
ca em consumidores, quando o tema é a representação de mulheres na
publicidade?.
Nesse sentido, o objetivo geral do capítulo foi analisar qual a repre-
sentação feminina na publicidade denunciada considerando-se as diretrizes
do OPeNS.
A publicidade está presente no cotidiano das pessoas, em diferen-
tes mídias e formatos de comunicação. Com grande alcance e capacidade
de adaptação às diferentes formas de comunicação, torna-se um dos ins-
trumentos mais significativos para a sociedade, em especial considerando
a capacidade de produzir e usar comunicação como um meio de persuasão.
Uma comunicação que cria e dissemina a informação, também pode refor-
çar ou instigar determinados valores, perpetuar e promover ideias equivo-
cadas, preconceituosas e danosas contra determinados grupos de pessoas.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
135
O potencial obtido com a formação de pessoas para serem consu-
midores críticos com capacidade de ler imagens (Santaella, 2012) publi-
citárias, tem potencial para mudar a forma como a publicidade é perce-
bida. Em uma pesquisa realizada pelo Ibope Inteligência (Como [...],
2009), várias informações importantes sobre como o brasileiro avalia
a propaganda foram identificadas. Destacam-se duas delas: a) a função
principal da propaganda na percepção dos brasileiros envolve três papéis:
informativo (66%), persuasivo (25%) e econômico (10%). A publicida-
de, tratada na pesquisa do Ibope com o termo propaganda, é considerada
uma fonte de informação. Criar, melhorar e aplicar processos que trans-
formem essa percepção de confiabilidade da publicidade é urgente, uma
vez que elas podem, também, sugerir informações falsas, equivocadas,
violentas, e prejudiciais sem serem notadas pela população, já que esta a
percebe como informativa.
Eisend (2009) em um estudo de meta-análise aplicando análise de
conteúdo em 37 manuscritos contendo 64 estudos referentes à represen-
tação dos papéis de gênero na publicidade, revelou que os estereótipos de
gênero são prevalentes na publicidade, em especial o de status ocupacional
e que o grau de estereotipagem vem diminuindo ao longo dos anos, com
resultados mais expressivos em países com alta masculinidade. Destaca-se
entre os resultados que os estereótipos de gênero na publicidade sugerem
que esta reflete a presença da (des)igualdade de gênero da própria sociedade
e não o contrário. Nesse caso, a publicidade adotaria e demonstraria dife-
renças em termos de estereótipos de gênero, conforme o grau de igualdade
de gênero já preexistente na sociedade. Nessa mesma lógica, Santoniccolo
et al. (2023, p. 4) concordam que "Várias análises de programas de tele-
visão também mostraram como as representações de homens e mulheres
são muitas vezes consistentes com estereótipos de gênero". Para Hooks
(2019, p. 125), "A televisão diz que a mulher libertada é uma exceção,
que ela é primeiramente uma mulher focada em sua carreira profissional"
e que além disso, "Muitos comerciais de TV reafirmam que a dedicação
à carreira não impedirá a mulher de incorporar o papel estereotipado de
objeto sexual que lhe foi atribuído na sociedade da supremacia masculina".
Nesse caso, a mensagem é usada para que, mesmo na representação de uma
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
136
mulher empoderada pelas conquistas profissionais, esta não consiga se des-
vincular do papel de subalterna e de objeto sexual.
Nesse caso, torna-se necessário explicar o que é violência. Hooks
(2019), importante autora que discute o feminismo, em especial o femi-
nismo do ponto de vista das mulheres negras, argumenta que a violência é
um importante ingrediente, uma vez que naturaliza o poder e as relações
violentas e justifica a opressão direcionada às mulheres. Para ela,
Ao se tornarem reféns das premissas da ideologia sexista, as mulheres
aparecem nessas discussões mais como objetos do que como sujeitos.
Somos descritas não como trabalhadoras e ativistas que, assim
como os homens, fazem escolhas políticas, mas como observadoras
passivas que nunca foram responsáveis pela manutenção do sistema
de valores dessa sociedade, o qual, por sua vez, proclama que a
violência e a dominação constituem as ferramentas mais efetivas da
comunicação nas interações humanas, um sistema de valores que
advoga e faz a guerra (Hooks, 2019, p. 188).
Santoniccolo et al. (2023, p. 1) defendem que "A ubiquidade da mí-
dia, a cronicidade da exposição dos indivíduos a ela e seu papel na for-
mação de crenças, atitudes e expectativas a tornaram objeto de atenção
científica", justamente por ser uma importante fonte de influência sobre
a vida das pessoas. Além disso, os autores explicam que a objetificação é
quando uma pessoa é tratada como objeto. Reconhece-se, portanto, que
objetos são corpos inanimados ou sem vontade própria, sem pensamento e
sentimento, sem reação ou lugar de fala, sendo por isso usados para deco-
rar, ilustrar ou tornar concreta uma ideia. "Devido à difusão do clima cul-
tural, a objetificação pode ser difícil de detectar ou evitar, e as experiências
de objetificação podem ser percebidas como normativas" (Santoniccolo et
al., 2023, p. 2).
A objetificação e a sexualização são formas de explorar a imagem de
pessoas. Para isso, aplica-se um recorte ou ênfase sobre determinadas par-
tes do corpo, ou mesmo de poses, captura de gestos ou feições que façam
referência à submissão ou apagamento da pessoa enquanto um ser humano
completo, mostrando-o como um objeto a ser usado e apreciado como
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
137
uma parte ou extensão do produto. Nesse caso, o fato de desconsiderar
ou mesmo ignorar a presença de sugestões e informações que produzam
imagens de pessoas coisificadas na publicidade, releva a necessidade de de-
senvolvimento de habilidades críticas nas pessoas.
Segundo Malmelin (2010, p. 43), a educação midiática, necessária
para capacitar a população a ser crítica com relação às mídias, em especial
quando se trata da publicidade, ainda recebe pouca atenção. A educação
midiática ou alfabetização publicitária, consiste na "[ ] capacidade pessoal
do indivíduo de entender diferentes tipos de sinais e sistemas simbólicos
e, por outro lado, a capacidade de produzir diferentes tipos de mensagens
usando esses sistemas simbólicos" (Malmelin, 2010, p. 131).
A mídia representa a transmissão de informação por meio de televi-
são, rádio, redes sociais, canais na internet, páginas on-line, etc, enquan-
to a publicidade são as formas pagas destinadas a divulgar informações a
um público-alvo (Malmelin, 2010), adotando-se um sistema simbólico,
e usando-se as mídias para serem difundidas. Assim, para compreender
as informações disseminadas pela publicidade, é necessário ser capaz de
gerar interpretação do sistema simbólico da sociedade, situação que, para
Malmelin (2010, p. 132), exige a formação de habilidades específicas para
gerar essa interpretação das mensagens e das representações, que significa
"[ ] a capacidade de reconhecer, avaliar e entender anúncios e outras men-
sagens comerciais" (Malmelin, 2010, p. 130).
Nesse caso, a publicidade é relevante pelo alcance, por ser inquestio-
nável, por estar em diferentes lugares, assumindo-a como um ente inofen-
sivo, por isso encontrada em diferentes lugares. Permite-se sua presença,
sem questionar sua capacidade de difundir informações que são interna-
lizadas pelas pessoas como verdadeiras, constituindo uma função prática
que supera o ato de expor produtos, serviços e ideias.
Assim, uma análise persistente da publicidade brasileira, buscando
identificar informações que revelem misoginia e sexismo é urgente, na me-
dida que a publicidade representa os valores de uma sociedade, como um
documento que guarda memórias e difunde novas ideais em um curto
período, com intuito de instigar o surgimento e continuação de desejos de
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
138
consumo. Portanto, não é um suporte inofensivo, uma vez que é público,
acessível e com baixo potencial de ser criticado pela população.
O Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária
(CONAR), órgão autorregulamentador da propaganda brasileira, deixa
evidente a ausência de categorias destinadas à denúncia sobre misoginia
e sexismo, o que seria de grande importância para pressionar as marcas a
construírem publicidade adequada. Marcon et al. (2024, p. 119) argumen-
tam que mesmo existindo dispositivos de regulamentação da publicidade,
como o Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária, essa regu-
lamentação parece não existir sobre as questões envolvendo gênero e sexis-
mo, constituindo-se mais como medidas não específicas e inócuas. Ainda
assim, Marcon et al. (2024, p. 131) sustentam que
Houve um acréscimo considerável do número de denúncias
sobre sexismo na propaganda, o que pode demonstrar uma maior
conscientização dos consumidores nesse sentido. Ao mesmo tempo,
também aumentou o número de sustações determinadas pelo
CONAR. No entanto, é notável que a quantidade de arquivamentos
desse tipo de denúncia ainda predomina, principalmente sob o
fundamento de que a queixa não se enquadra em nenhuma infração
prevista pelas normas da instituição.
O estudo apresentado neste capítulo contribui em termos práticos
ao propor que a publicidade se insere livremente na sociedade e com infor-
mações que guardam potencial danoso a determinados públicos, como o
feminino, constituindo um problema que precisa ser discutido. Em termos
teóricos, aproxima a alfabetização publicitária da Ciência da Informação,
pois considera a publicidade um produto que porta diferentes informa-
ções implícitas e explícitas, devendo manter concordância com os padrões
éticos adotados pela sociedade. A publicidade, portanto, constituiria um
disseminador de informações de largo alcance, longe do radar social, uma
vez que lhe é atribuída confiança, cuja veracidade recebe poucos questio-
namentos, o que gera potencial de prejuízos frente à representação das
mulheres na publicidade.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
139
2 PUBLICIDADE E REPRESENTAÇÃO DAS MULHERES
A transmissão de informação pela publicidade é sua principal fun-
ção, cuja "prática discursiva usada para persuadir, informar ou chamar
a atenção" (Martínez Lirola, 2022, p. 338) demanda esforço dos con-
sumidores para compreender como a ideias e informações podem ser
usadas estrategicamente para evitar rejeição ou indiferença por parte do
público-alvo. Também pode ser compreendida como "uma estratégia
de comunicação que atua em escassos segundos (Recio; Vigil; Fuentes,
2005, p. 84). Para Malmelin (2010, p.133, 130), a publicidade invoca
atenção e pretende gerar imagens positivas junto a determinado público,
bem como está bastante presente na vida da sociedade ocidental, a pon-
to de se considerar sua presença saturada na vida dos consumidores. O
mesmo vale para as sociedades do sul global, como o Brasil. Publicidades
são comuns e acessíveis às pessoas em qualquer idade e local, haja vista
que 69% dos respondentes à pesquisa IBOPE Inteligência (Como [...],
2009, p. 15) declararam que estão expostos à propaganda de produtos ou
serviços, sempre ou com frequência.
O fato da mensagem propagada pela publicidade chegar ao públi-
co-alvo não significa que esta repercuta em comportamentos de compra
(Hernández-Willoughby; Lázaro Pernias, 2023, p. 45), outros comporta-
mentos também podem resultar desse contato com a mensagem. Na ver-
dade, pode ter o efeito contrário, impossibilitando vendas e qualquer ação
que instigue desejo de um público-alvo pelo produto, na medida que a
informação disseminada por esse veículo é rechaçada e motivada pela falta
de identificação do público-alvo com a mensagem. Nesse caso, pode haver
necessidade pelo produto ou serviço, no entanto, o público-alvo é incapaz
de identificar que a representação adotada pela comunicação da publici-
dade buscava aproximação a seus interesses. A falta de compreensão desse
público interfere diretamente na capacidade de despertar nele o desejo pela
oferta comunicada.
Assim, a representação também pode ser usada nas mídias como um
mecanismo, que além de convencer, pode ser perverso, porque representa
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
140
uma versão distorcida do que são as mulheres, determinando papéis de gê-
nero e reforçando e direcionando violência contra elas (Santoniccolo et al.,
2023, p. 4). Nesse caso, é bastante comum que as mulheres estejam repre-
sentadas "[...] como objetos sexuais, donas de casa ou como adornos depen-
dentes e insignificantes para os homens" (Martínez Lirola, 2022, p. 339).
Entre as consequências e agravantes da representação das mulhe-
res aplicada pela publicidade, Santoniccolo et al. (2023, p. 45) sugerem
que representações objetificantes de mulheres podem gerar propensão ao
estupro e à agressão sexual; mas também, que a internalização de deter-
minados papéis de gênero causa depressão; sem esquecer de mencionar
a própria presença da objetificação sexual nas mensagens; bem como, a
tolerância ao assédio sexual com associação direta às imagens sexualiza-
das e expostas na publicidade.
Por outro lado, também recorre-se às mulheres para gerar a figura
de objeto de apoio, algo decorativo em uma imagem (Santoniccolo et al.
(2023). Sob essa mesma ótica, Matínez Lirola (2022, p. 339) observa que
na publicidade,
[ ] as mulheres têm que agir como objetos decorativos cujo propósito
principal é serem usados como alegações publicitárias; elas têm
que cumprir as expectativas sociais de beleza e ser o mais perfeitas
possível, o que é um exemplo de violência simbólica. Na verdade, as
mulheres representadas contribuem para os estereótipos de gênero.
Retratar sensualidade, sexualidade e desejo é uma estratégia clara
usada para apresentar mulheres a serviço do produto.
Adicionalmente, "A exposição a representações estereotipadas, obje-
tificantes e sexualizadas parece estar consistentemente ligada a consequên-
cias negativas na saúde física e mental, bem como ao fomento do sexismo,
da violência e da desigualdade de gênero" (Santoniccolo et al., 2023, p.
4). Seguindo tal lógica, Matínez Lirola (2022, p. 339) sustenta que "[ ] os
corpos das mulheres são usados como reivindicações publicitárias sem que
se tenha consciência dos efeitos sociais que essas representações podem ter
e sem analisar possíveis formas de violência de gênero".
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
141
Ainda que a representação enviesada para objetificar as mulheres es-
teja cada vez menor, a cultura sexista ainda se apresenta resistente e uma
ameaça para que as mídias transmitam informações mais positivas e repre-
sentativas em relação a temas como a igualdade de gênero. Trata-se de um
jogo de relações de dominação. Nesse caso, persiste uma cultura em que
preconceitos prevalecem, reforçam e são reforçados pela mídia.
Certamente, muitas influências além das representações da mídia
estão em jogo a esse respeito, mas seu efeito no bem-estar foi
considerado generalizado e consistente. Apesar das atitudes positivas
generalizadas em relação à igualdade de gênero, a persistência de
representações estereotipadas, objetificantes e sexualizantes pode
sugerir a existência contínua de uma cultura sexista arraigada
que pode se traduzir em preconceitos, discriminação e danos
(Santoniccolo et al., 2023, p. 4).
Embora prevaleça uma abordagem objetificante e de uso da imagem
da mulher com sentido decorativo, uma parte dos esforços de representação
parece incorporar um olhar mais crítico, evitando associações prejudiciais,
enviesadas, que as descaracterizem ou incidam em violência. Trata-se da
abordagem do femvertising, que surge em 2014 (Hernández-Willoughby;
Lázaro Pernias, 2023, p. 46-47), que tem como objetivo a reconstrução da
imagem das mulheres na publicidade e propõe
[ ] parar de fomentar estereótipos e atitudes negativas que retratam
as mulheres como fracas, dependentes e submissas, além de denegrir
sua integridade. A publicidade tradicional é substituída por uma
que promove a igualdade entre mulheres e homens e representa as
consumidoras de forma positiva e realista (Hernández-Willoughby;
Lázaro Pernias, 2023, p. 47).
Colocar o femvertising em prática demanda atenção com a forma
como a representação deve ser empregada. Evitar estereótipos e o uso sexu-
al da imagem da mulher, são fundamentais. No entanto, a representação
real de mulheres se mostra um desafio para a publicidade, considerando
que não se trata apenas de desconstruir a imagem tradicionalmente propa-
gada, mas sobretudo, construir e mostrar uma representação real.
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
142
A forma de representação das mulheres na publicidade constitui uma
das principais aplicações das teorias feministas. Os questionamentos se dire-
cionam para os estereótipos e papéis de gênero empregados na publicidade.
Além de levantar fortes críticas às relações sociais baseadas na
desigualdade de gênero, uma das principais aplicações das teorias
feministas no campo da publicidade é a visibilidade da forma como
tem utilizado as mulheres, expressando severas críticas à forma
como são representadas, bem como aos estereótipos e papéis que
lhes são atribuídos nas mensagens publicitárias, buscando que a
imagem projetada delas seja mais realista e menos estereotipada,
defendendo seus direitos e interesses. As teorias feministas fornecem
uma perspectiva crítica à pesquisa, partindo do contexto histórico
que permite visualizar a representação da mulher na publicidade
ao longo dos anos (Hernández-Willoughby; Lázaro Pernias, 2023,
p. 50-51).
De acordo com Hernández-Willoughby e Lázaro Pernias (2023,
p. 45), a reatância psicológica explica a resistência e rejeição à persuasão
que usa mensagens que ameacem a liberdade de decisão do consumidor.
Quando a persuasão perde o efeito positivo e capacidade de convencimen-
to, demanda-se adotar como estratégia o desenvolvimento de maior nível
de identificação com os consumidores para melhorar suas atitudes de com-
pra. A abordagem do femvertising proporciona esse movimento de aproxi-
mação com a representatividade, melhorando a percepção de realismo da
mensagem destinada ao consumidor.
Para Chiachiri (2010, p. 14),
o poder sugestivo que uma comunicação publicitária exerce
pode levar o receptor a negligenciar a verdadeira razão de ser do
próprio produto", como exemplo, o autor traz que "Algumas
marcas de cerveja no Brasil, em suas peças publicitárias, têm como
protagonistas lindas mulheres e, o próprio produto, a cerveja,
como coadjuvante.
Nesse caso, o que predomina na mensagem são as ideias sugeridas e
não o produto.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
143
A literatura discutida na seção 2 indica a presença de temas como
a sexualização e a objetificação das mulheres nas pesquisas de alfabetiza-
ção publicitária, femvertising e leitura de imagem publicitária, no entanto,
não incluiu abordagens sobre o tratamento dado ao envelhecimento e à
'obrigatoriedade' das mulheres se manterem joviais, à ausência de 'von-
tade' própria e à dependência, ao desnaturalizar as questões biológicas da
mulher, e à beleza como condição de sucesso. Esses temas são apresentados
nos critérios adotados pelo OPeNS para analisar as publicidades denun-
ciadas. Além dos critérios, outras categorias e formatos são observados na
seção 3 deste capítulo.
3 DIRETRIZES DE ANÁLISE OPENS E COMPONENTES
DA ALFABETIZAÇÃO PUBLICITÁRIA
A análise da publicidade requer capacidade de reconhecimento e de
crítica. Conforme discutido na seção anterior, cabe à alfabetização publi-
citária a tarefa de formação dos indivíduos. Uma análise individual das
publicidades demanda capacidades em diferentes frentes. Compreender
quais são seus componentes ou categorias permite verificar se as diretrizes
do OPeNS incluem o que é necessário para realizar essa análise pelos indi-
víduos frente à publicidade que usa informações e imagens de mulheres,
em especial as sexistas e misóginas. Desse modo, a presente seção se dedica
à identificar as categorias ou componentes adotados pela literatura que
permitem compreender a publicidade e suas informações de um ponto de
vista crítico, porém, prático.
Importante figura política brasileira, Manuela D'Ávila (2018), dis-
parou em rede social em 2018, "Como saber se é uma publicidade sexista?
Coloque um homem no lugar de uma mulher e se parecer ridículo, é sexis-
ta!" e expôs imagem simples e prática. Mesmo não constituindo material
acadêmico, trata-se de uma sugestão didática sobre o tema.
López, Gracia e Lajo (2004) desenvolveram instrumentos para ava-
liar a publicidade em três frentes: imagem, som e escrita. Em relação aos
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
144
resultados deduziram que há um avanço no tratamento da publicidade
com relação à mulher, uma vez que 70% dos anúncios disponibilizados
na imprensa e 44% na TV não são sexistas. Eles também destacam que
52,4% dos anúncios da TV podem ser classificados como sexistas, sobre o
que, 83,8% deles possuem o sexismo na imagem, 52% no áudio e 8% no
texto. Esses números variam quando se trata de materiais impressos como
jornais e revistas, na medida que o texto é o que mais apresenta sexismo,
o que fica claro quando os autores identificam que "quando o protago-
nismo está em um casal, o texto faz referência a uma pessoa apenas e não
está redigido no plural". Além disso, os autores obtém como resultados
importantes, além dos instrumentos, os diferentes tipos de estereótipos,
ligados à características de personalidade ou de papéis, entre os quais: a) a
mulher como especialista das tarefas do lar; a mulher no âmbito público
assumindo profissões ou posições de menor relevância social, em especial
de subordinação ao homem; c) a mulher como valor estético e/ou sexual,
associando a beleza ao êxito profissional.
No que diz respeito aos modelos de mulher (estereótipos) ligados às
características de personalidade, López, Gracia e Lajo (2004) encontraram
representações que indicam: a) uma mulher oportunista ou frívola que usa
seus atributos para despertar os desejos dos homens; b) uma mulher doce,
natural e terna, assinando um padrão exclusivamente feminino; c) uma
mulher independente, sozinha e que tem tempo para cuidar de si; uma
mulher indefesa, que destaca a feminização da pobreza, a marginalização
e a doença.
Katz e Wang (2019 apud Arbaiza; Robledo-Dioses; Lamarca, 2024),
organizam a alfabetização publicitária em três componentes: a alfabetiza-
ção de conteúdo, de gramática e de estrutura. De acordo com Hudson e
Hudson (2016 apud Arbaiza; Robledo-Dioses; Lamarca, 2024, p. 168),
La alfabetización de contenido implica una comprensión de los
mensajes y temas transmitidos por la publicidad, mientras que la
alfabetización de gramática se enfoca en las técnicas visuales y otras
estrategias persuasivas utilizadas por los anunciantes. Finalmente,
la alfabetización de estructura implica una comprensión de los
factores económicos y sociales más amplios que influyen en la
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
145
producción y distribución de la publicidad, tales como los modelos
de propiedad y de ingresos.
O artigo de Sherman, Allemand e Prickett (2020) investiga a exis-
tência da sexualização e da objetificação em publicidades de fantasias de
Halloween. Para isso, apresentam um quadro teórico e análises que dis-
cutem a sexualização e a objetificação, bem como adotam um padrão
conservador para codificar 'gênero'. Estabelecem parâmetros sobre o que
consideram ser uma imagem publicitária que sugere sexualização. Entre as
descobertas, destaca-se que as publicidades de fantasias para e com mode-
los mulheres e adolescentes do sexo feminino possuem alto teor de sexua-
lização. Nas publicidades voltadas para e com modelos do sexo masculino,
essa sexualização possui níveis baixos, assim como para as crianças. Parte
dos procedimentos metodológicos adotados pelos autores para definir ima-
gens neutras, sexualizadas ou hipersexualizadas foram:
O texto que acompanha a imagem foi codificado como não
relacionado a sexo ou sexualidade (codificado como 0) versus
referências implícitas ou explícitas a sexo ou sexualidade (codificado
como 1). Como não há consenso sobre a operacionalização da
hipersexualização, criamos uma medida de hipersexualização nas
imagens publicitárias, somando as pontuações para sexualização de
figurinos, sexualização de modelos e texto sexualizado (Sherman;
Allemand; Prickett, 2020, p. 7).
Por sua vez, Malmelin (2010) discute sobre a alfabetização publici-
tária considerando-se parte da alfabetização midiática. O autor sugere um
modelo em que é possível compreender o consumidor ou público-alvo
como provável detentor de habilidades de alfabetização publicitária, divi-
dindo-a em três tipos: informacional, visual/estética, promocional.
Como ele trata a alfabetização publicitária como uma capacidade
individualizada e que evolui conforme o sujeito interage com novas infor-
mações sobre as marcas, resta às empresas adotar uma dinâmica de comu-
nicação flexível e adequada em resposta a essa capacidade crítica evolutiva
dos consumidores. Para isso, a "alfabetização publicitária é dividida em
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
146
quatro dimensões: alfabetização informacional, alfabetização estética, alfa-
betização retórica e alfabetização promocional" (Malmelin, 2010, p. 132).
A alfabetização informacional trata da capacidade de obter informa-
ções da mídia e de avaliar sua confiabilidade; a alfabetização estética, exige
capacidade de interpretação e de compreensão de anúncios, considerados
aqui como uma fonte de prazer estético e de entretenimento, compreen-
dendo e apreciando significados culturais, referências e elementos intertex-
tuais; na alfabetização retórica, a comunicação persuasiva é aplicada para
ser mais manipuladora e persuasiva, dando enfoque nos meios utilizados,
como em mensagens subliminares, avalia-se criticamente o tipo de tons
e expressões visuais; e, por fim, a alfabetização promocional, que requer
habilidade de identificar as formas de comunicação.
Em se tratando de observar as estratégias de sugestão dadas pela pu-
blicidade na mídia revista, Chiachiri (2010, p.15, 45) expõe como a análi-
se semiótica contribui com o conceito de signo icônico, pois "constitui um
valioso instrumento para a apreensão do poder sugestivo das mensagens" e,
fundamenta-se em três aspectos do signo: no caráter qualitativo que são os
quali-signos, no caráter existencial que são os sin-signos; e no caráter geral
que são as leis e normas ou legi-signos. De acordo com Chiachiri (2010,
p. 4), esse formato de análise baseado na teoria semiótica é importante
para compor a mensagem publicitária "[...] na conquista de seu consu-
midor, estudando o grau de influência da iconicidade nestas mensagens e
as associações mentais que o receptor está apto a realizar por meio desses
processos sugestivos". No entanto, mesmo sendo esta uma das teorias e
técnicas mais citadas na literatura sobre análise de publicidades, adotou-se
o próprio grupo de diretrizes do OPeNS.
As diretrizes adotadas pelo OPeNS para analisar as publicidades de-
nunciadas incorpora parte do que foi mencionado na literatura revisada,
mas nota-se que a alfabetização não trata apenas de analisar imagens e
informações de uma publicidade, e sim de avançar, de maneira prática,
para a capacidade crítica, para a identificação de mensagens intertextuais
e suas intenções. Assim, as diretrizes do OPeNS são uma ferramenta para
iniciar o desenvolvimento dessas capacidades, os quais incluem verificar a
presença de informações sobre (OPeNS, 2025):
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
147
Usar ou justificar a violência contra mulheres em propagandas.
Usar padrões e estereótipos sobre as mulheres e os homens.
Usar elementos que atribuam inferioridade e dependência à mulher.
Sugerir que mulheres são dependentes sob qualquer aspecto.
Sugerir que mulheres são emocionalmente instáveis.
Sugerir que mulheres não possuem desejos próprios, devendo se
submeter às vontades de terceiros.
Sugerir padrões de beleza feminina inalcançáveis e que signifiquem
sucesso.
Usar padrões de beleza únicos, omitindo a diversidade de pessoas.
Coisificar o corpo da mulher.
Usar linguajar e imagens que discriminem a mulher por qualquer
condição.
Sexualizar a imagem da mulher.
Sexualizar a imagem de meninas.
Desconsiderar a diversidade sexual, de gênero e familiar.
Ignorar e desvalorizar as mulheres pretas e dos povos originários.
Essas diretrizes incorporam parte dos problemas que aparecem nas
publicidades com mulheres, mas podem, e devem, receber modificações
nos próximos anos.
Arbaiza, Robledo-Dioses e Lamarca (2024, p.176) argumentam que
"[ ] falta acentuar el fortalecimiento de las bases teóricas del tema, especial-
mente debido a los constantes cambios en el ecosistema mediático y en los
perfiles de los consumidores a causa de la acelerada transformación digi-
tal". Diante da observação desses autores, nota-se que os critérios adotados
pelo OPeNS, deverão ser adaptados conforme a evolução da sociedade, das
mídias e da capacidade crítica do consumidor.
A evolução das mídias, da publicidade e do público-alvo, transforma
o cenário publicitário e torna o ato de persuasão muito mais difícil, pois os
consumidores se acostumaram a ignorar os anúncios e suas respectivas in-
formações (Malmelin, 2010, p. 132). No entanto, deve-se combater o ato
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
148
de ignorar os anúncios, e sim treinar o consumidor para colocar em prátia
sua criticidade sobre a informação proferida na publicidade.
4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Para atingir os objetivos propostos foram realizadas buscas nas ba-
ses de dados, em especial usando a plataforma Scispace. Nesta, artigos,
capítulos de livro, teses e dissertações podem ser acessadas, desde que
disponibilizadas em outras plataformas ou repositórios ou sites acadê-
micos. O acesso promovido por esta plataforma permite que materiais
produzidos no leste-europeu, ásia e demais regiões do mundo fiquem
visíveis para o pesquisador. Assim, os textos foram lidos e analisados bus-
cando-se compreender sexismo, estereotipia, alfabetização publicitária,
representação da mulher na publicidade. Para isso, a busca foi realizada
adotando-se os termos de busca 'estudo', 'publicidade', 'sexista' e 'alfa-
betização publicitária', bem como adotando-se como critério de inclusão
de textos os de acesso aberto publicados preferencialmente entre 2022
e 2024 e que tivessem como proposta central discutir a alfabetização
publicitária com os sentidos: conceituação de alfabetização publicitária,
vínculos com o femvertising, e com discussões voltadas ao universo da
publicidade com mulheres ou que abordavam o sexismo, a violência e
estereótipos. Adotou-se Lima e Mioto (2007) como parâmetro para a
leitura e organização da revisão de literatura.
Além disso, também foram inseridos livros que abordassem a te-
mática, como o de Santaella (2012) e de Chiachiri (2010). No que diz
respeito à coleta das publicidades, foi realizada pelo OPeNS, a partir de
denúncias realizadas ao longo do ano de 2024.
Para a análise buscou-se aplicar as diretrizes do próprio OPeNS, in-
clusive para testar e verificar a necessidade de futuras adequações a elas.
Desse modo, as publicidades denunciadas foram agrupadas e analisadas
qualitativamente, associando-as às diretrizes.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
149
5 RESULTADOS FRENTE àS DIRETRIZES DO OPENS
Foram obtidas pelo OPeNS desde de 2024, 28 sugestões de publi-
cidades inseridas pela população, diretamente no link 'https://forms.gle/
Laniq35XRMXbE8Jk8'. Não se trata de uma amostra da publicidade
brasileira, uma vez que obteve as informações por sugestão e não por
coleta, seguindo o padrão de atuação de outros observatórios ibero-ame-
ricanos de publicidade não-sexista. Além disso, trata-se de uma análise
com objetivos acadêmicos.
A maioria das sugestões de publicidade recebida visava vender ideias
ou produtos. Cinco dessas sugestões de publicidade não puderam ser aces-
sadas e por isso, foram descartadas, em relação ao que, uma delas fazia re-
ferência a um creme ('vacina') anti-idade e outra a um site de jogos e outra
referente à uma imagem exposta em um catálogo de produtos cosmético.
Outra teve seu conteúdo vinculado ao racismo, mas não a uma violên-
cia específica voltada as mulheres, bem como era estrangeira. Mais onze
das sugestões também eram estrangeiras, com uma delas recebendo duas
sugestões para avaliação. No entanto, por serem estrangeiras, não foram
incluídas no enquadramento das diretrizes expostas na seção 3.
Quatro das sugestões, apesar de brasileiras, datavam de mais de dez
anos, descartando-as por serem antigas, e se distanciarem temporalmente
do atual contexto e da ampla circulação na mídia. E, uma delas, também
brasileira, não permitia o acesso no momento da análise.
Uma outra, não pode ser classificada conforme as diretrizes, pois
não gerava sugestão de violência, sexismo, etc, e, sim, buscava alertar para
os riscos de meninas realizarem rituais de 'skincare'. Conforme Chiachiri
(2010) alega, uma publicidade precisa trazer sugestões ao indivíduo, que
na presente análise, devem sugerir elementos presentes nas diretrizes do
OPeNS. Considerando o contexto de análise, esta foi descartada.
Em relação às demais, uma da marca Veja, uma do perfume Her
Code do Boticário, uma de roupa de banho, uma da marca Sculptra e
uma da marca Wepink. Todas essas foram sugeridas pela população por
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
150
conterem informações, que na percepção das pessoas que indicaram tais
publicidades, envolvem algum tipo de violência contra a mulher, seja pela
objetificação ou coisificação da mulher, seja ao relegar à mulher determina-
dos estereótipos, seja estabelecendo padrões de beleza inatingíveis.
No caso da sugestão obtida sobre a marca Veja, trata-se de uma pu-
blicidade no formato de vídeo divulgada nas redes sociais, em que uma
mulher preta, identificada como Ana Paula Xongani aparace argumentan-
do que 'casa foi feita para usar' e 'viva sua casa, veja depois'. Aparece apenas
essa mulher, mas um diálogo é mantido com um interlocutor homem,
sem imagens associadas a ele. Com sua voz, ele instiga a mulher que faça
uma massa caseira na cozinha de sua casa, logo, a cozinha é mostrada suja.
Depois disso, a mulher aparece limpando o local com o produto divulga-
do. Sobre a cena da peça publicitária, cabe um questionamento: por qual
motivo mostraram uma mulher limpando a sujeira e não um homem? Não
se tem uma explicação para isso, levando o receptor da mensagem da pu-
blicidade à visitar categorias já consolidadas, que neste caso, são os estere-
ótipos vinculados à mulher. A mulher e sua responsabilidade de cuidar da
casa. A mensagem é direcionada para não se preocupar com a sujeira, para
curtir a casa, mas, não se pode ignorar que colocam uma mulher para reali-
zar essa limpeza. Tal especificação pode sugerir 'Usar padrões e estereótipos
sobre as mulheres e os homens', mas também, 'Sugerir que mulheres não
possuem desejos próprios, devendo se submeter às vontades de terceiros',
uma vez que em um trecho da peça, a mulher alega que nunca faz massa
caseira e ao ouvir o homem perguntar se ela tem 'coragem de fazer uma
agora?', ela muda de opinião imediatamente e aceita fazer a massa moti-
vada pelo fato de ter sido instigada pelo interlocutor, tudo encenado com
feições que remetem à coragem de executar tal ato, que claro, é sujar a casa.
Mas, porque isso seria um ato corajoso? Por que alguém terá que 'lutar' e
se dedicar para limpar novamente. Uma persistência de representações es-
tereotipadas que põe a tona a cultura sexista (Santoniccolo et al., 2023, p.
4), na qual a mulher é responsável por determinadas tarefas.
Sobre a publicidade do Her Code da empresa Boticário, teve-se aces-
so a uma peça formada apenas por imagem e outra no formato de vídeo
encenada pela atriz Luana Piovani, atriz conhecida por participação em
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
151
produções televisivas e cinematográficas, bem como várias publicidades
ao longo de décadas, mas também por se posicionar em relação à temas
como relacionamento, envelhecimento, separação, filhos, nas redes sociais.
Na publicidade baseada apenas na imagem, em preto e branco, a mulher
aparece de roupa íntima visível 'abrindo' o código do perfume  também
sugerindo constituir seu próprio código, que é uma senha que deve ser
usada para destravar o cadeado e a própria mulher  lançando mão de seu
aparelho celular para executar tal tarefa. Enquanto no vídeo, a atriz está
sob uma cama, sem vestimentas, mas cobrindo partes de seu corpo com
um lençol branco. Os gestos e feições das mulheres são sensuais. Nesse
caso, a diretriz usada para descrever ambas peças é 'Sexualizar a imagem
da mulher' na publicidade. As sugestões são claras e estão acompanhadas
de informações objetivas (nudez, lençol, cama, cadeado e senha etc.). Para
Martínez Lirola (2022, p. 339) trata-se de adotar uma estratégia em que a
mulher é apresentada a serviço do produto.
No que diz respeito à publicidade da marca Sculptra, ela é com-
posta por um vídeo em que se encena um estúdio de gravações, em que a
apresentadora Sabrina Sato se destaca, acompanhada de uma equipe que
registra suas imagens. Esta, veste roupa de banho de cores fortes, ficando
visíveis partes de seu corpo. Poses sensuais e movimentos são adotados para
enfatizar aspectos físicos da apresentadora, que ao apresentar o produto,
discorre sobre seus benefícios, esbanjando simpatia e sorrisos. Em relação
às diretrizes adotadas, nota-se a presença de 'Usar padrões de beleza únicos,
omitindo a diversidade de pessoas', e, também, 'Coisifica o corpo da mu-
lher', na medida que o enfoque permite compreender que um padrão de
corpo é apresentado, constituindo o padrão a ser conquistado com o uso
do produto sugerido na publicidade. A coisificação do corpo da mulher
também está presente, considerando-se não ser necessário a exposição das
partes mostradas do corpo da atriz, algo que poderia ter sido substituído
com a própria opinião da atriz sobre o produto, evitando mostrar seu cor-
po. Sherman, Allemand e Prickett (2020) corroboram o argumento de
que é comum tornar a mulher um objeto ou coisa em publicidades, com
uma maior chance de que elas sejam expostas em imagens sexualizadas, em
comparação aos homens.
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
152
Por sua vez, o perfume Red da marca Wepink também foi enviado
como sugestão ao OPeNS. No caso dessa peça publicitária, têm-se a pre-
sença da influenciadora Virgínia Fonseca com vestimentas que remetem
as usadas por mulheres islâmicas. Possui uma conotação religiosa, sugere
associação com o oriente médio, mas se afasta ao mesmo tempo, ao pre-
ferir um tecido transparente em que é possível notar as roupas íntimas da
influenciadora e um acesso com associação incomum ao corpo da mulher
quando usa tal vestimenta específica. Além disso, são adotadas poses e fei-
ções sensuais. Esta peça publicitária recebeu diversas críticas na internet
por realizar tal associação religiosa com o formato da vestimenta e o que
ela sugere. Evidentemente, essa publicidade apela para imagem sensual e
coisifica o corpo da mulher.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os impactos da publicidade sobre as mulheres extrapolam o contex-
to comercial, entre os quais, há a presença de informações, muitas vezes
enviesadas, que reforçam estereótipos e prejudicam a condição das mulhe-
res na sociedade. Persuadir, convencer e também mudar a forma de pensar
sobre algo, incluem-se como objetivos da publicidade. Para isso, adotam-se
estratégias intensamente visuais e sonoras, com informações culturais valo-
rizadas ou com potencial de serem valorizadas. É necessário ganhar a aten-
ção, despertar o desejo e obter a ação do consumidor. Por isso, insiste-se,
deveria ser tratada com a mesma atenção que o é tantos outros fenômenos
de uma sociedade, uma vez que afeta, inclusive, a saúde e o bem-estar das
mulheres na relação que estabelecem com os produtos e serviços que com-
pram, consomem e apreciam.
Diante dessa perspectiva de manipulação psicológica, econômica e
social dos consumidores e consumidoras e da livre circulação de deter-
minadas informações nas peças publicitárias, percebe-se como urgente o
desenvolvimento de competências publicitárias. A abordagem do femver-
tising deve ser vista como uma aliada para a alfabetização publicitária, pois
propõe desenvolver um olhar crítico em que a publicidade deve manter o
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
153
respeito, a dignidade das mulheres, evitando em todo caso, qualquer tipo
de violência direcionada a elas. Nesse sentido, informações devem ser usa-
das para divulgar o produto, estimular sua compra, mas não para nutrir
preconceitos e estereótipos. Informação, é portanto, primordial para esta
discussão, uma vez que publicidade também pode induzir a erros já que é
capaz de influenciar as formações cognitivas, sentimentos e pensamentos
sobre as coisas, conforme assinala Santaella (2012).
A representação das mulheres nas publicidades denunciadas ao
OPeNS, sinaliza a presença de elementos que sugerem coisificar ou obje-
tificar a mulher, bem como a colocam dentro de um estereótipo. As infor-
mações percebidas nas publicidades revelam, portanto, violência, estereó-
tipos e hipersexualização da mulher, caracterizados por mostrar mulheres
em nudez ou seminudez, com poses sensuais, com gestos e feições, adotan-
do comportamentos contraditórios porque são mostradas desprovidas de
manterem a própria vontade e opinião.
Olhar e não perceber, talvez seja esse o comportamento do consumi-
dor das mensagens publicitárias. Mesmo vendo, não percebe ou não se im-
porta com a situação na qual a mulher é relegada na mensagem. Um com-
portamento de crítica, envolveria, portanto, em primeiro lugar, perceber
que informações são usadas, se são fidedignas, representativas, ou seguem
uma tendência oposta a isso. Ser crítico é perceber o contexto de produ-
ção da mensagem, os recortes feitos, e os desejos que se quer despertar no
consumidor. É perceber os argumentos, mas também, as emoções que são
despertadas. Então, educar, formar, criar hábitos e novas percepções po-
dem ser promotores desse comportamento de crítica do consumidor. Mas,
sem a participação direta de órgãos como o CONAR e legislação sobre o
tema, os efeitos não serão duradouros e não envolverão os responsáveis
pela criação e disseminação das publicidades.
As limitações associadas à pesquisa exposta neste capítulo se dão so-
bre as propagandas recebidas da população pelo link disponibilizado no
OPeNS. Conforme explicado anteriormente, esta população participante
ficou restrita ao ambiente acadêmico, consistindo de alunos e alunas de
graduação que contribuíram fornecendo suas sugestões de publicidade. As
repercussões disso são que as publicidades que já tiveram alguma exposição
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
154
crítica na mídia foram, em grande parte, identificadas pelo alunado como
as que cumpriam com parte das diretrizes. Isto pode sugerir que foram
induzidos por discussões lançadas de antemão. Por outro lado, tentaram
identificar informações e sugestões declaradamente violentas, sexistas, es-
tereotipadas sobre as mulheres.
Nesse sentido, a princípio, ainda que essas publicidades tenham va-
lidade para uma observação acadêmica, porque promovem um processo
de reflexão e um exercício de desvelar preconceitos e estereótipos, elas au-
xiliam apenas parcialmente no desenvolvimento do OPeNS, na medida
que as publicidades precisam estar na mídia para serem avaliadas frente a
elementos como sugestões, persuasão, informação e cultura atual. Além
disso, se atuais, podem ser denunciadas pelo OPeNS ao CONAR, se anti-
gas, não, pois já não estão em circulação intencional e paga. Também de-
ve-se considerar que os alunos que participaram fornecendo suas sugestões
foram sensibilizados com relação aos objetivos do OPeNS e as diretrizes.
Assim, conseguiram observar as publicidades após essa indução, não sendo
possível definir se apresentaram comportamentos de alfabetização publi-
citária. Recorda-se que não foi intenção desta pesquisa, avaliar se aqueles
que contribuíram com as publicidades consolidaram a alfabetização publi-
citária, isto é, se estão aptos a avaliar a publicidade em diferentes frentes
ou dimensões.
Com base nessa constatação, este capítulo finaliza a discussão com-
preendendo ser necessário desenvolver um programa entre universidades
e escolas, visando incluir a alfabetização publicitária dentro do escopo de
atuação de combate à publicidade sexista. Compreender o conteúdo das
mensagens, as técnicas visuais e o contexto econômico e social da publici-
dade é fundamental para gerar comportamentos de resistência à persuasão,
aos sentimentos e impulsos que a publicidade desperta. Por fim, trata-se
de levar o consumidor a manejar as informações que entram por seus sen-
tidos, criando percepções mais críticas e memórias mais revisadas sobre a
representação que a publicidade adota sobre as mulheres.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
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157
Elas na política: barreiras de acesso à informação
vivenciadas por mulheres parlamentares1
Beatriz de Oliveira Benedito
Luana Maia Woida
1 INTRODUÇÃO
Por razões de construções sociais e culturais, as mulheres foram con-
dicionadas à subjugação do domínio patriarcal, às opressões e múltiplas
formas de violências, excluídas das decisões públicas, bem como dos car-
gos representativos. Apesar disso, elas trilharam vários percursos em busca
de melhores condições de sobrevivência, conquistaram direitos, romperam
com obstáculos legais e culturais e modificaram o contexto da vida cotidia-
na, acessando espaços inimagináveis, antes proibidos à elas.
A equidade de gênero tornou-se uma dimensão específica de grande
relevo para as sociedades, tal como configura-se como um indicador de
"[...] quão democrático é um sistema político" (Matos, 2020, p. 109),
no entanto perduram ainda inúmeros cenários de desigualdades que por
intermédio de barreiras retardam e muito a trajetória profissional de mu-
A presente pesquisa é um recorte da dissertação de mestrado. A pesquisa foi realizada com o apoio
da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (Capes) – Código de
Financiamento 001.
https://doi.org/10.36311/2026.978-65-5954-676-3.p157-180
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
158
lheres, tratando de impedir e garantir o acesso desigual delas nos espaços
de poder.
A ausência de mulheres na política é um traço persistente em diver-
sos países, para não dizer em quase todos, os dados do Inter-Parliamentary
Union  IPU-Parline (c2025) mostram que: Ruanda (63,8%), Cuba
(55,7%), Nicaragua (55%) e México (50,2%) são os países que apresentam
as maiores porcentagens de mulheres no parlamento. No Brasil, a sub-re-
presentação de mulheres na política é eloquente e, o desempenho do país
é o pior nas Américas. Globalmente a média de representação política de
mulheres é de 27,2% e das Américas é de 35,4% (a maior porcentagem de
representação parlamentar de mulheres no mundo) e, o Brasil encontra-se
na 133ª posição do ranking do IPU-Parline: somente 18,1% de mulheres
ocupam assentos na Câmara dos Deputados e, 19,8% do Senado é com-
posto por mulheres (IPU-Parline, c2025). Além disso, dentre as 39 pessoas
que ocuparam a presidência, apenas uma mulher assumiu a posição de lí-
der do país, sendo ela a representante política mulher que mais sofreu com
a violência política feminina (VPCM) tanto por parte da estigmatização
dos meios de comunicação em massa, quanto da população brasileira.
De acordo com Biroli (2018) e Miguel (2014), a baixa participação
de mulheres nos cargos eletivos pode ser explicada por fatores ideológicos:
a naturalização baseada em estereótipos de gênero sobre o que é imposto
socialmente como habilidade e competência de mulheres e homens, tal
como fatores de recursos: a expropriação de tempo e energia das mulhe-
res e seu acesso desigual à remuneração. Araújo (2016) e Sacchet (2020)
acrescentam que esse cenário desigual é também fundamentado nos fatores
institucionais: o uso da lista aberta no sistema eleitoral de votação é carac-
terizado como uma variável desfavorável para os países que adotam as cotas
de gênero e, a distribuição desigual dos recursos financeiros de campanhas
entre homens e mulheres.
Assim sendo, o mote desta pesquisa está na ideia de desigualdade e
de barreiras, por isso detém-se a olhar os obstáculos vivenciados por mu-
lheres na política, buscando responder às seguintes questões norteadoras:
quais são as situações diretas, desrespeitosas e violentas que as representan-
tes eleitas para um cargo público enfrentam por estarem em uma posição
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
159
de poder? E de que forma esse contexto se transforma em obstáculos de
acesso e de participação das mulheres políticas no fluxo de informação e
de comunicação?
Deste modo, o objetivo geral consiste em analisar as situações de vio-
lência vivenciadas por mulheres no espaço político, de modo a identificar
as barreiras de acesso e de participação no fluxo de informação.
Considera-se que a relevância da discussão proposta se deposita so-
bre o fato de o sistema político ser um espaço de poder composto por uma
minoria política muito fechada e super-representada por segmentos sociais
específicos, geralmente são homens brancos, heterossexuais, de meia idade
e classe média alta. Desta forma, compreende-se que as pessoas que não se
enquadram a este padrão social privilegiado, sobretudo mulheres, minorias
étnicas e sexuais, trabalhadores etc., são barradas de todas as formas pos-
síveis, uma vez que é necessário proteger os limites e os privilégios desse
poder a um único grupo.
A relevância está na hierarquização e assimetrias de acesso ao espa-
ço e à informação. Quando se observa o acesso das mulheres na política,
embora seja desigual, nota-se que elas estão adentrando um território "[...]
hierarquizado, que produz assimetrias e exclusões" (Miguel, 2010, p. 45),
é o espaço do outro determinado socialmente, portanto, a entrada de mu-
lheres nesse espaço se trata de uma quase invasão de território. Nesse sen-
tido, tanto a candidatura no processo político-eleitoral quanto sua atuação
como parlamentar são marcadas por dificuldades e efeitos muitos específi-
cos, já que na maior parte da história verifica-se uma preservação simbólica
da política abaixo do domínio masculino. Ou seja, há mecanismos impedi-
tivos mais enfáticos para elas, do que os parlamentares homens, até mesmo
quando as mulheres se tornam representantes políticas.
2 MULHERES NA POLÍTICA: UMA INTRODUÇÃO
Ao longo da história, as mulheres trilharam diversos percursos em
busca de melhores condições de sobrevivência na sociedade. Elas reivin-
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
160
dicaram direitos, se rebelaram contra sua condição (confinadas aos limites
dos arranjos domésticos e familiares), lutaram por liberdade e, romperam
com impedimentos legais e culturais, desafiando os princípios impostos
pela sociedade em geral. De alguma forma, todas essas mobilizações mo-
dificaram as feições da vida cotidiana, tratando de garantir o acesso das
mulheres à direitos e espaços antes proibidos à elas.
Ainda assim, contextos de desigualdades permanecem como marcas
profundas. O escancaramento da falta de mulheres na política continua
sendo uma realidade muito presente em diversos países. Em 31 eleições
presidenciais realizadas pelo mundo em 2024, somente cinco mulheres
foram eleitas como chefes de Estado: Islândia, Moldávia, México, Namíbia
e Macedônia do Norte. No âmbito legislativo, a representação política de
mulheres permaneceu estagnada em 2024, com 27% dos assentos ocupa-
dos por esse grupo (Apenas [...], 2024). De acordo com o World Economic
Forum - WEF (esing, 2023) Entre os 7 países economicamente avança-
dos (o G7) apenas a França apresenta um contexto favorável, com 37,3%
de mulheres ocupando os assentos parlamentares.
A baixa participação de mulheres na política leva a entender que
há uma imposição desvantajosa das instâncias políticas, que (re)produzem
condições "mais enfáticas" e "alternativas sempre mais onerosas" para a
mulher, do que para o homem (Miguel, 2010, p. 45). Desta forma, pode-
-se dizer que há determinados entraves em vigor que afetam o acesso do
público feminino ao jogo político, deixando-as sub-representadas neste es-
paço de decisões públicas e, ao mesmo tempo, que mantêm, efetivamente,
a presença dominante do sexo masculino nesse universo de poder.
Sobre isso, Biroli (2018) e Miguel (2014) compreendem que o aces-
so desigual das mulheres na política está associado aos fatores ideológicos/
simbólicos e materiais/de recursos. Os fatores que se pode entender como
ideológicos dizem respeito às construções sociais sobre o que é dito como
feminino ou masculino. Desde os primeiros passos das crianças, quase
sempre, as pessoas ensinam ou educam meninas e meninos de formas dis-
tintas, diferenciando-os entre si, tanto no que se refere aos tipos de com-
portamentos, quanto ao que a sociedade espera de cada grupo.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
161
Esses modos diferenciados de tratamentos entre os gêneros, refor-
çam padrões estereotipados e sexistas, trazendo à tona a naturalização de
comportamentos, atitudes e habilidades vistas como típicas ou apropria-
das para homens e mulheres, circunscrevendo também o que é âmbito
feminino ou masculino. Nesse viés, ao considerar o estereótipo social do
significado de ser mulher ou homem, verifica-se que a entrada de mulheres
na política é afetada pelos "[...] padrões diferenciados de tratamento entre
os gêneros e a construção social da política como esfera masculina inibem,
entre as mulheres, o surgimento da vontade de participar" (Miguel, 2014,
p. 94), uma vez que o espaço privado e suas atividades prevalecentes foram
associados a elas desde os primeiros passos, quiçá antes de nascer.
Os fatores de recursos, por sua vez, são oriundos da divisão sexual
do trabalho e suas principais implicações: o acesso desigual das mulheres
a tempo livre e renda. A divisão sexual do trabalho determina a repre-
sentação da família e os cuidados não remunerados, enquanto tarefas da
esfera privada socialmente construída para a mulher, assim como, reforça
a exploração do trabalho, a expropriação de tempo e energia das mulheres.
Por outro lado, as dimensões da esfera pública e do trabalho produtivo
continuam evidenciando sua caracterização como de domínio masculino,
bem como atividade mais importante (Pinheiro, 2007; Biroli, 2018).
Desta forma, entende-se que para homens, o acesso ao âmbito polí-
tico é facilitado, pois as cargas das atividades domésticas se concentram nas
mulheres. Portanto, eles detêm mais tempo livre para se dedicarem às can-
didaturas, carreira política e atuação legislativa. Por outro lado, a situação
da mulher é sobrecarregada pela sua posição na relação familiar. Dito isso,
a mulher tem menor disponibilidade de tempo, já que precisa conciliar as
atividades domésticas e de cuidados, com a candidatura, a carreira e atua-
ção política (Biroli, 2018; Sanchez, 2017).
Para além desse contexto, há consideráveis desigualdades no aces-
so à renda, uma vez que a concentração da mulher nas atividades do lar,
como os trabalhos de cuidados (cuidar dos filhos e de outros adultos da
casa), tende a caminhar pela subalternidade social, isto é, "[...] tende a ser
reduzido  e amiúde subvalorizado" (Silva; Jorge; Queiroz, 2012, p. 2).
Nesse sentido, pode-se dizer que o trabalho do homem é valorizado (tem
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
162
mais valor agregado e prestígio do que o trabalho da mulher), a esfera do-
méstica é ausente de políticas públicas, bem como periférica e marginal,
tanto do ponto de vista econômico quanto social. Ou seja, compreende-se
que o acesso desigual à renda se caracteriza como um obstáculo no acesso
das mulheres na política, pois as mulheres se concentram em setores que
oferecem menores rendimentos, enquanto os homens monopolizam os
segmentos que oferecem maiores remunerações. Sabe-se, que os recursos
econômicos são importantes para financiar as campanhas eleitorais, garan-
tindo ao candidato maior visibilidade (Democracia [...], 2021).
Ademais, o acesso das mulheres na política é afetado também pe-
los fatores institucionais, constituídos pelo tipo de lista eleitoral para
votação de candidatos e o financiamento desigual das campanhas entre
homens e mulheres.
Sobre o primeiro obstáculo institucional, o tipo de lista eleitoral ao
ser associado à aplicação de políticas de cotas de gênero, pode se tornar
uma variável preponderante no aumento de mulheres na política. A aplica-
ção de uma lei deste tipo no processo político-eleitoral, tem como objetivo
romper com as desigualdades de gênero no âmbito legislativo, bem como
assegurar os direitos políticos das mulheres (Martelotte, 2016). Dito isso,
Araújo (2016) evidencia que as cotas têm maior eficácia nos modelos de
lista fechada, os eleitores votam em um partido e, cada organização parti-
dária exerce o papel de mediador desses votos, determinando a ordem dos/
as candidatos/as em que o voto será distribuído.
No entanto, a autora destaca três requisitos centrais para garantir a
eficácia da política de cotas em sistemas de lista fechada: legislações inteli-
gíveis que possam evitar que os partidos políticos realizem interpretações
diversas previstas na lei sobre suas obrigações no cumprimento dos percen-
tuais mínimos; "[...] definição de alternâncias na ordem de apresentação
dos nomes nos sistemas de lista fechada", organizando para que os "[...]
nomes das mulheres não fiquem entre aqueles de quem não se espera su-
cesso eleitoral, e legislações punitivas nos casos de não cumprimento de
alguns dos requisitos anteriores" (Araújo, 2016, p. 40).
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
163
Por outro lado, o sistema eleitoral de representação proporcional
com lista aberta é problemático para países que utilizam as cotas de gênero
como estratégia eleitoral para aumentar o número de mulheres no espa-
ço legislativo. Nicolau (2006, p. 692) explica que o modelo de votação
utilizado no Brasil é a lista aberta, aqui os eleitores votam no candidato
ou em uma legenda (partido) e, segundo o autor "[...] o voto de legenda
é contado apenas para distribuir as cadeiras entre os partidos, mas não
tem nenhum efeito na distribuição das cadeiras entre os candidatos". Para
Araújo (2016, p. 42) "a lista aberta pode garantir a cota mínima de candi-
daturas, mas não assegura relações de causa e efeito entre maior número de
candidatas e maior número de eleitas".
Desse modo, Sacchet (2020) assinala que há um processo de indivi-
dualização no processo político-eleitoral, ou seja, a competição pelos car-
gos eletivos é centralizada no candidato/candidata e, suas oportunidades
eleitorais dependem do apoio político dos partidos, bem como distribui-
ção dos recursos financeiros. Aqui entra o último obstáculo institucional:
a distribuição desigual dos recursos financeiros, sendo que os recursos eco-
nômicos são importantes para financiar as campanhas eleitorais.
Pinheiro (2007, p. 42) afirma que "[...] se mulheres "políticas" es-
tão em uma situação de menor status no campo político, é porque detêm
menor acúmulo do tipo de capital que ali mais interessa", o recurso econô-
mico. Isso se estende para os grupos de minorias sociais, que são afetados,
invariavelmente, pela hierarquização de classe e raça. Geralmente, para
atingir maiores níveis de renda, a mulher (casada e com filhos) precisa dei-
xar seu(s) filho(s) em creches ou recorrer a outros tipos de redes de suporte
(Biroli, 2018). Apesar disso, as organizações partidárias tendem a destinar
maiores quantias de recursos financeiros para segmentos sociais super-re-
presentados na política: homens brancos, heterossexuais e de classe média
e alta (Democracia [...], 2021).
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
164
3 NOTAS SOBRE BARREIRAS DE ACESSO à
INFORMAÇÃO
É indiscutível a alegação de que a informação é um elemento essen-
cial no cotidiano da espécie humana, bem como há um entendimento de
que ela é considerada um item básico para a realização de qualquer ativi-
dade, simples ou complexa. Indo além, compreende-se que a informação
é um elemento propulsor, obviamente um diferencial, que tem presença
dominante em múltiplos espaços e, portanto, o valor que ela detém é po-
tencialmente relevante para a sociedade contemporânea.
Por entender que a informação é um insumo estratégico presente em
todos os processos organizacionais, Yafushi (2015) explica que a disponi-
bilização da informação pelos diferentes níveis hierárquicos é essencial. Da
mesma forma que, saber interpretar as informações, de modo a permitir a
atribuição de significados é também primordial para a sobrevivência das or-
ganizações no mercado contemporâneo e suas imposições mercadológicas.
Mas, ainda assim, há, uma dificuldade: as informações têm rápida
circulação, em excesso e algumas vezes são imprecisas ou erradas. O desafio
neste caso é justamente mensurar quais informações são mais apropriadas
para as atividades organizacionais.
Nessa perspectiva, para o provimento da informação dentro da
organização Valentim (2010) estabelece um diálogo com os fluxos de
informação, pois as formas de acesso e manejo da informação nesse
contexto, se destacam como condições fundamentais em todos os níveis
organizacionais e, portanto, a informação filtrada precisa fluir, ser de fácil
acesso e, eliminando quaisquer tipos de barreiras que impedem as pessoas
de acessá-la. Nesse sentido, Inomata e Varvakis (2016), compreendem que
o fluxo de informação corresponde ao ciclo que a informação percorre
de ponto a ponto pelos canais de comunicação. Nesse processo de
como as informações são transmitidas, envolvem-se pessoas, tecnologias
e, especificamente, o modelo de negócio da organização (atividades
desenvolvidas, arquitetura informacional etc.).
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
165
Quanto aos tipos de fluxos de informação, Valentim (2010) destaca
dois: estruturado (formal) e não-estruturado (informal). Os fluxos formais
referem-se aos resultados inerentes aos afazeres e tomada de decisão do âm-
bito organizacional. Há, aqui, maior visibilidade, uma vez que esse fluxo
é o reflexo natural das próprias ações desenvolvidas pela organização. Já os
fluxos informais, se configuram pelas relações entre sujeitos, o que envolve,
todo seu contexto sociocultural, suas pluralidades, bem como a "[...] carga
de subjetividade, efemeridade e imaterialidade que envolve a informação
nesse contexto" (Barboza; Almeida Júnior, 2017, p. 59). Desse modo, os
fluxos informais não são estruturados, pois advêm das experiências, apren-
dizados e conhecimentos adquiridos e gerados pelos indivíduos que atuam
no cotidiano das organizações.
Observa-se, nessa discussão, a necessidade de gerenciar, mapear e
tratar adequadamente (Santarém; Vitoriano, 2016) a lógica de funciona-
mento dos fluxos de informação, fazendo-se compreender os caminhos
que a informação percorre ao longo de sua transmissão, uma vez que se-
gundo Nascimento, Moro-Cabero e Valentim (2015, p. 4) "[...] é possível
compreender de que maneira os processos e atividades organizacionais se
alimentam de informações, ou seja, efetivamente se conhece como a in-
formação pode gerar diferenciais competitivos para subsidiar a tomada de
decisão", de modo eficaz, preciso e inteligente.
Assim sendo, compreende-se que os fluxos de informação são prin-
cípios essenciais para qualquer tipo de organização (social, política, empre-
sarial etc.), porém destaca-se que a dinâmica da circulação da informação
está suscetível a algumas barreiras, compreendidas como obstáculos para a
obtenção e transmissão da informação (Inomata; Varvakis, 2016).
Nesse pensar, entende-se que a cultura organizacional representa a
força que orienta a dinâmica de circulação de dados e informação, com o
intuito de proporcionar cenários positivos para a construção de conheci-
mento (Valentim, 2010). A necessidade de construir e/ou proporcionar um
ambiente favorável para a socialização do indivíduo torna-se cada vez mais
fundamental para o fortalecimento das relações existentes entre os colabo-
radores e, ao mesmo tempo, no processo de comunicação da informação,
podendo evitar a presença de barreiras de acesso à informação. Segundo
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
166
Inomata e Varvakis (2016, p. 132) "[...] é no processo de comunicação
da informação, especificamente, na transmissão de uma mensagem, que
formam barreiras ou ruídos que se alocam entre emissores e receptores em
forma de problemas para o uso eficiente dos recursos da informação".
Desta forma, a má comunicação e a exclusão política de grupos se
caracterizam como barreiras de acesso à informação, uma vez que interfe-
rem direta ou indiretamente na transmissão de uma mensagem ou infor-
mação. Para Starec (2006), a má comunicação se associa tanto à falta de
diálogo, quanto à imprecisão de uma informação, ou seja, quando a men-
sagem interna não é precisa, objetiva, concreta, falta credibilidade naquilo
que está sendo transmitido, o que impossibilita a verdadeira apropriação
da informação e, consequentemente, a construção de conhecimento.
A exclusão política de grupos se consolida na dificuldade de acesso e
participação aos espaços formais e informais da organização que determi-
nado grupo enfrenta, em especial as minorias sociais e mulheres, justamen-
te pessoas que buscam desafiar as estruturas hierárquicas do preconceito,
discriminação e exclusão. Como consequência, têm-se o impedimento da
ascensão profissional e a inacessibilidade da informação, tal como ressal-
tam Jamon (2014) e Woida e Oliveira (2018).
Outros exemplos de barreiras são: a deslegitimação de ideias ou pro-
postas de determinados grupos; a falta de confiabilidade entre os colabo-
radores. A primeira é uma forma de repreender a circulação ou o com-
partilhamento da informação, restringindo a participação do sujeito no
processo de comunicação; qualquer ideia ou proposta advinda de grupos
específicos é ignorada, a menos que seja algo de extremo interesse para a
organização (Jamon, 2014).
Quanto à falta de confiabilidade entre os colaboradores, destaca-se a
ausência de condições que facilitem as interlocuções de socialização e com-
partilhamento de vivências e experiências, uma das maneiras de fortalecer
o relacionamento humano e proporcionar laços de confiança na organiza-
ção. A partir do momento em que não há confiabilidade entre os colegas
de trabalho, inclusive entre o líder do setor ou diretor da organização, "[...]
não existe confiança necessária sobre a informação e sobre as pessoas para
efetivar o fluxo de informação informal" (Woida, 2010, p. 96).
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
167
Uma outra forma de observar as barreiras de acesso à informação
é a partir da perspectiva social. Paes (2016) traz à tona o reflexo da falta
de acesso à informação na vida de mulheres. A autora compreende que
a informação é um direito humano e um dos principais indicadores de
boa governança, sendo responsabilidade dos órgãos ou agentes do Estado
tornar as informações produzidas pelas organizações governamentais dis-
poníveis em um formato aberto e acessível democraticamente, contendo
uma linguagem precisa, objetiva e compreensiva pelas partes interessadas.
Contudo, cumpre ressaltar que nem todos possuem as mesmas con-
dições ou oportunidades de acesso. Ou seja, o direito à informação não é
plenamente exercido por todos os cidadãos, uma vez que segundo a autora
os grupos sociais mais vulneráveis, com destaque as mulheres "[...] são
afetadas pela falta de informação de forma desproporcional". Além disso,
muitos desconhecem ou "[...] sequer sabem que podem buscar e deman-
dar informações de interesses públicos, e onde essas informações estariam
disponíveis" (Paes, 2016, p. 7), reduzindo o acesso delas à saúde, educação
e trabalho; consequentemente, crescem os índices de desigualdades desse
grupo populacional no país.
Toma-se como exemplo, o cenário vivenciado pelas mulheres de bai-
xa renda e vítimas de violência sexual, que engravidam em decorrência de
um estupro. A Conferência Internacional de Direitos Humanos, realizada
no Teerã, em 1968, determina que é direito das pessoas receber educação e
informação sobre seus direitos reprodutivos e sexuais. Contudo, no Brasil,
considera-se que o aborto é um procedimento legal somente em três qua-
dros: "[...] quando a gravidez é decorrente de estupro, quando há risco de
morte para a mãe ou se o feto é anencéfalo" (Paes, 2016, p. 16-17).
O problema associado a esse contexto é que muitas mulheres de
baixa renda, sequer sabem que podem solicitar, acessar ou obter a infor-
mação pública; nem ao mesmo sabem que a informação é um direito, que
pode ser demandada, nem "onde essas informações estariam disponíveis".
Ademais, soma-se também a essa discussão o fato de que "[...] muitas mu-
lheres que engravidaram após terem sido vítimas de violência sexual não
conseguem ser atendidas em hospitais destinados a realizar aborto legal,
pois não existe uma lista pública dos hospitais que realizam o procedimen-
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
168
to"; inclusive muitos profissionais ou servidores do atendimento da saúde
"não conhecem a legislação que permite que o procedimento seja realiza-
do" (Paes, 2016, p. 16) afetando, assim, a saúde da mulher.
Santos et al. (2021), por outro lado, discutem sobre as barreiras de
acesso à informação a partir da falta de acessibilidade, um problema en-
frentado pelas pessoas surdas (minorias linguísticas). Diferentemente dos
ouvintes, os surdos buscam com menor proporção e frequência os serviços
de saúde, uma vez que encontram barreiras comunicacionais nos aten-
dimentos do sistema (e em outros). Afinal, pouquíssimos profissionais
possuem conhecimentos na Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS). Dessa
forma, um dos principais motivos para esse contexto é o "medo por não
serem compreendidos" (Santos et al., 2021, p. 3).
Sendo assim, a barreira de acesso à informação está na disponibiliza-
ção da informação em língua portuguesa, difícil de ser compreendida pelos
surdos sem o auxílio de um intérprete. O obstáculo torna-se maior, na
medida em que "existem poucas informações visuais" (Silva et al., 2017),
resultando na compreensão fragmentada ou parcial de determinada infor-
mação. Outros tipos de barreiras são: a linguística, que se refere ao desco-
nhecimento de outra língua, o que impossibilita o indivíduo compreender
uma informação específica (Jesus, 2015); e o analfabetismo, um dos eixos
de exclusão do país, que também dificulta o acesso e a apropriação da in-
formação (e Center Carter; Irish Aid, 2015).
4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Esta pesquisa é essencialmente de natureza qualitativa, pois detém-
se a olhar um fenômeno social que envolve pessoas e problemas a serem
compreendidos, de modo a extrair os significados das ações, sentidos etc.
(Minayo, Deslandes, Gomes, 2009).
Desse modo, sua característica é do tipo descritiva, por descrever e
caracterizar as informações do objeto de estudo, no intuito de construir
inferências inerentes às situações de violências vivenciadas por mulheres
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
169
ao longo de sua atuação como parlamentar. Além disso, verifica-se ainda
que a pesquisa é também do tipo exploratória, por oportunizar o desbra-
vamento de uma discussão que é pouco abordada no campo da Ciência da
Informação (CI) (Gil, 2002) e, isso diz respeito tanto para a participação
de mulheres nos cargos eletivos, quanto a presença de obstáculos respalda-
dos em atos misóginos que afetam o acesso dessas parlamentares à infor-
mação e sua participação nos fluxos de informação.
Para a coleta de dados foram utilizadas notícias, encontradas após a
realização de uma busca assistemática no google, cuja busca adotou as se-
guintes palavras-chave: mulheres na política, violência política de gênero e
silenciamento da voz feminina Os procedimentos de seleção, pautaram-se
nos seguintes critérios: a menção/descrição do fato ocorrido, quais pessoas
envolvidas e o porquê esse fato aconteceu. Nesse sentido, cinco notícias
foram localizadas nos sites: Metropoles (Lorran, 2021; Rodrigues, 2022),
O Globo (Marzullo; Noia, 2023), Claudia (Mulheres [...], 2021) e CNN
Brasil (2025). As matérias de García Martínez (2016), El País (Juana [...],
2024) sobre a política Juana Quispe e de Maldonado (2016) sobre a pre-
feita de Chenalhó foram incorporadas a partir de uma leitura realizada no
livro 'Cuando hacer política te cuesta la vida: estrategias contra la violencia
política hacia las mujeres en la América Latina' (2017), no qual apresen-
ta temas e alguns casos pertinentes para a compreensão do objetivo que
orienta esta pesquisa. A seguir o Quadro 1 apresenta uma breve descrição
das notícias selecionadas:
A seguir o Quadro 1 apresenta uma breve descrição das notícias
selecionadas:
Quadro 1  síntese sobre as notícias obtidas
Qual é o fato? Onde e quando
aconteceu? Quais são as pessoas
envolvidas? Código de
Referência
Microfone de vereadora
é arrancado durante
sessão.
Câmara Municipal de
Pedreiras, em 2021 Katyane Leite (PTB) e
Emanuel Nascimento (PL) Not01
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
170
Ao defender a presença
de mais mulheres na
política, vereadora teve
sua fala interrompida
pelo Presidente da
Câmara.
Câmara de Aparecida
de Goiânia, em 2022 Camila Rosa (PSD) e André
Fortaleza (MDB) Not02
Mulheres
parlamentares são
alvos de interrupções,
durante as Comissões
de Inquéritos
Parlamentares (CPIs):
do Movimento dos
Trabalhadores Rurais
Sem Terra (MST) e
ataques golpistas de 8
de janeiro
Senado e Câmara dos
Deputados, em 2023 Eliziane Gama (PSD) e
Sâmia Bonfim (PSOL) Not03
A exclusão de
parlamentares mulheres
na CPI da Covid-19
Senado, em 2021 Integrantes da CPI da
COVID-19 e Bancada
Feminina do Senado
Not04
Ministra do Meio
Ambiente e Mudança
do Clima foi alvo de
falas desrespeitosas
durante sessão no
Senado.
Senado, em 2025 Marina Silva (Ministra do
Meio Ambiente e Mudança
do Clima);
Plínio Valério (Partido da
Social Democracia Brasileira
do Amazonas - PSDB -AM);
Marcos Rogério (Partido
Liberal de Rondônia - PL
-RO) e Omar Aziz (Partido
Social Democrático do
Amazonas - PSD- AM).
Not05
Magistrada foi
impedida de acessar
informações e
documentações
inerentes ao exercício
de sua função.
Tribunal Superior
Eleitoral de San Luis
Potosí (SLP), entre
2014 e 2015.
Yolanda Pedroza Reyes;
Oskar Kalixto Sánchez e
Rigoberto Garza de Lira.
Not06
Vereadora é assassinada
e durante sua liderança
política foi alvo de
diversos atos de
violência
Município de
Ancoraimes, em
2012
Juana Quispe; Félix Huanca
(ex-prefeito do município
de La Paz de Ancoraimes);
Pastor Cutile (ex-presidente
do Conselho Municipal);
Basilia Ramos (ex-secretário
de Conselho) e Exalta
Arismedi.
Not07
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
171
Prefeita é pressionada a
renunciar cargo ao qual
foi eleita
Município de
Chenalhó, em 2016 Rosa Pérez Pérez; Miguel
Sántiz Álvarez e empresários
da construção civil.
Not08
Fonte: Elaborado pelas Autoras com base nos dados encontrados (2025).
Conforme resultado obtido, é importante salientar e justificar a
opção em analisar tais notícias, pois todas descrevem como determinada
situação de violência se perpetuou na atuação da mulher política como
parlamentar, por serem mulheres, indicando as barreiras informacionais
impostas a elas em sua atuação, considerando que sua participação em
fluxos de informação.
Mediante isso, o método adotado foi a Análise de Conteúdo (AC),
que segundo Bardin (2016) consiste em:
[...] conjunto de técnicas de análise das comunicações visando
obter por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do
conteúdo das mensagens indicadores (quantitativos ou não) que
permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de
produção/recepção (variáveis inferidas) dessas mensagens (Bardin,
2016, p. 48).
Nas palavras da autora, a análise de conteúdo é um conjunto de téc-
nicas de análise de dados que permite o desbravar dos significados contidos
em falas, comunicações verbais ou não verbais, documentos, mensagens,
imagens etc. Desta forma, busca-se novas formas de compreensão, basea-
das na interpretação crítica e produção de inferências. Para tanto, Bardin
(2016) sugere alguns passos: seleção e organização do material, acompa-
nhado pela leitura flutuante; organização do material coletado, seguido
pela definição de categorias e unidades de recortes, as quais podem ser:
temas, frases, palavras ou trechos retirados do material submetido a análise
e, por fim a produção de inferências. Para esta pesquisa, adotou-se como
unidades de recortes as situações de violência direta ou indireta vivenciadas
por mulheres políticas no espaço parlamentar e, as unidades de registros
(UR) são os trechos que demonstram ou que caracterizam o ato de violên-
cia, os quais foram recortados das notícias supracitadas no Quadro 1.
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
172
Finalmente, destaca-se que os dados coletados foram analisados por
meio da Análise Categorial, com categorias estabelecidas a priori, ou seja,
importadas e adaptadas para a presente pesquisa, sendo todas provenientes
do Violentómetro desenvolvido pelo Observatório de Participación Política
de las Mujeres en México e o Instituto Nacional Electoral – INE (2015).
Dito isso, as categorias adaptadas para barreiras de acesso à informação são:
1. Restringir a participação, o uso da palavra para proferir ideias e
informações e da voz em sessões ou assembleias;
2. Humilhação em público (ridicularizar, desqualificar e atos
desrespeitosos);
3. Exclusão de mulheres políticas de comissões e tomada de decisão e,
4. Impedir/dificultar o desempenho de funções, tal como o acesso
a documentos, profissionais ou pessoas que possam conter infor-
mações relevantes.
Com base nessas quatro categorias, a seção 5 apresenta a análise de
dados e discussão.
5 ANÁLISE DE DADOS E DISCUSSÃO
A leitura flutuante das notícias revelou a presença de unidades de re-
corte referentes às 4 categorias adaptadas. Nesse caso, revelam os diferentes
tipos de violência, de barreiras de acesso à informação e de participação nos
fluxos de informação. São mecanismos violentos e longe de serem velados.
O mais comum nessas notícias é que falas dirigidas à dignidade e violência
física, incluindo assassinato, sejam adotadas.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
173
Quadro 2  Unidades de recorte localizadas
Categoria Unidades de registro (UR) Código de
referência da
notícia
1"vereadora [...] teve seu microfone cortado durante sessão
ordinária [...] ao retrucar fala do presidente da Câmara local e
defender a presença de mais mulheres na política [...].
[...] Deu-se início a uma discussão calorosa entre os dois, até
que o vereador determinou que fosse cortado o microfone dela:
"corta o microfone dessa vereadora para mim. Agora"".
Not02
"[...] parlamentares mulheres que integram o colegiado foram
interrompidas, média, quatro vezes por sessão [...]. Duas
reuniões foram realizadas Comissão que investiga os ataques
golpistas, nas quais a relatora Eliziane Gama somou oito
interrupções [...].
[...] Samia Bomfim (PSOL) teve a fala interceptada 14 vezes
e o microfone cortado pela mesa diretora em três ocasiões
[...]"
Not03
"[...] mais cedo, Marina havia entrado em conflito com o
presidente da comissão. Ao responder falas do também
senador Omar Aziz (PSD-AM), a ministra teve o microfone
silenciado por Marcos Rogério, que afirmou: "essa é a educação
da ministra Marina Silva. Ela aponta o dedo e...", disse o
senador".
Not05
2"[...] Emanuel acusou a vereadora de não ter votado a favor do
PL, enquanto Katyane disse ter apenas pedido vistas sobre o
projeto e exigiu respeito por parte do colega [...].
"A vereadora está falando de respeito. Ora, ora. Olha quem fala
de respeito. Você não tem respeito com ninguém 'só ', muito menos
comigo. Ora, rapaz, me compra um bode", disparou Emanuel, com
a máscara no queixo" [...] Katyane voltou a ligar o microfone
para rebater as acusações, mas Emanuel se levantou da mesa e
retirou o equipamento da coleta"
Not01
"[...] O embate com Valério, no entanto, começou assim que
o senador passou a fazer uso da palavra: "Ministra, que bom
reencontrá-la. E ao olhar para a senhora, eu estou vendo uma
ministra. Eu não estou falando com a mulher. Eu estou falando
com a ministra", iniciou o parlamentar.
Ainda com o microfone desligado, Marina rebateu: "Eu sou as
duas coisas. O senhor está falando com as duas coisas."
Foi então que Valério declarou: "Porque a mulher merece
respeito, a ministra, não".
Not05
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
174
3"No dia 27 de abril, as investigações da Comissão Parlamentar
de Inquérito (CPI) sobre a Covid-19 foram iniciadas [...].
Os partidos não indicaram nenhuma senadora para as 18
vagas  de titulares e suplentes  na CPI. A bancada feminina
conseguiu, por meio de um acordo na comissão, que uma
representante do grupo possa fazer perguntas aos convidados e
convocados para a investigação.
No entanto, as senadoras não poderão apresentar nenhum
requerimento nem votar, ações permitidas somente para
integrantes da CPI. "A bancada feminina se faz presente sim nesta
comissão mesmo sem direito a assento", finalizou a parlamentar".
Not04
4"[ ] A decir de la magistrada, sus dos compañeros la violentaron
y el año pasado le impidieron ser presidenta del órgano
jurisdiccional. En su denuncia, Yolanda Pedroza denunció
la falta o retraso de convocatoria a sesiones, el ocultamiento
de información, supuestos bonos por productividad a sus
compañeros que ella no recibe, y la revisión de su computadora
sin su consentimiento, entre otros actos [ ]"
Not06
"[…] en el camino tuvo que atravesar una serie de trabas
y hostigamiento de Huanca y sus excolegas –todos del
Movimiento Al Socialismo (MAS) – que la impidieron ejercer
su cargo.
La concejala de 42 años había denunciado que era presionada
para renunciar, práctica que en Bolivia se conoce como
"compromiso forzoso de la gestión compartida". Seis meses
antes de ser asesinada, Quispe advirtió que recibió amenazas
de muerte. "No me he rendido, tomé fuerzas y dije no voy a
hacerlo, si es posible mátenme, estoy dispuesta a morir", manifestó
la concejala.
Not07
"[ ] Rosa Pérez pidió licencia indefinida al cargo después de que
el presidente de la mesa directiva del Congreso local, Eduardo
Ramírez Aguilar, y el diputado del Partido Verde, Carlos
Penagos, fueron secuestrados por pobladores de Chenalhó el 25
de mayo para forzar su licencia […].
Cuando la alcaldesa le dijo que no entregaría el recurso,
entonces el síndico encabezó un movimiento y con
"engaños", llamó a pobladores y caciques del PRI quienes
ahora exigen su renuncia"
Not08
Fonte: Elaboração própria (2025).
Tomando esse quadro em análise, pode-se afirmar que os casos ca-
tegorizados revelam que o espaço da política é composto por uma série de
condições marcadas por violência, as quais além de serem notórias, tratam
de subordinar e ridicularizar a mulher política através de atitudes desres-
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
175
peitosas, falas estigmatizadas e comportamentos misóginos bastantes vio-
lentos. O que acontece é que todos os casos supracitados possuem um vio-
lador comum: os homens políticos e, para Matos (2020) a perpetuação de
diferentes formas de violência contra a mulher política traz à tona a preser-
vação do campo político como uma reserva masculina. Quer dizer, mesmo
rompendo com os paradigmas, muitas vezes a voz da mulher acaba sendo
silenciada pelas violências presentes na sua atuação enquanto parlamentar.
Destaca-se como um dos casos mais recentes o ocorrido pela Ministra
do Meio Ambiente, Marina Silva, no dia 27 de maio de 2025, pois ilustra
parte do que ocorre com mulheres e líderes quando proferem falas pú-
blicas em ambientes políticos com a presença marcada pelas assimetrias,
silenciamentos e insistentes exclusões. A fala exposta pela ministra seria
sobre a exploração de petróleo em margem equatorial, mas foi interrom-
pida. Vários senadores, como Plínio Valério e o presidente da comissão
mostraram comportamentos e proferiram falas violentas e desrespeitosas
como 'coloque-se no seu lugar' e 'eu respeito você como mulher, não como
ministra', são falas que insinuam que naquele contexto, existia uma des-
consideração pelo fato de ela estar no cargo de ministra, representante do
governo e uma mulher em situação de poder.
Além do que fica explícito em termos de barreiras destinadas ao aces-
so e de difusão de informação por parlamentares mulheres, deve-se ques-
tionar se há uma escalada dos níveis de violência contra essas mulheres,
isto é, parece haver um procedimento padronizado em que, em primeiro
lugar, busca-se mostrar que as informações advindas delas não podem ser
proferidas, explicando o ato de cortar o acesso ao microfone. Depois, em
termos de escalada de violência, parte-se para agressões contra a parlamen-
tar, declarando que ela não pode ser respeitada e que não apresenta condi-
ções profissionais de atuar no campo político. Por fim, como último recur-
so, sua vida é ameaçada. Esses níveis de violência observados nos recortes
também sugerem que, a depender do posto ocupado pela parlamentar ou
política, poderão ser adotadas algumas barreiras públicas contra ela, como
corte de microfone, mas de maneira menos provável, receberá ameaças de
assassinato como no caso de Maria Silva, supõe-se por se tratar de uma
ministra. Outras práticas, como assassinatos de representantes políticas,
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
176
ocorreriam sem a participação pública e explícita dos interessados pelo si-
lenciamento, ficando subentendido os motivos para tal violência.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O silenciamento é uma prática direta, desrespeitosa e violenta dire-
cionada e praticada contra as representantes eleitas para cargos públicos
em posições de poder. Seu significado central é promover a incapacidade
de proferir e difundir informações advindas das parlamentares e políticas
mulheres. As notícias identificadas e analisadas se centram na aplicação do
silenciamento, mas não mostram diretamente práticas de impedimento de
acesso à informação. A aproximação a isso é o impedimento para exercer
o cargo de parlamentar ou representante política, o que incluiria ações
inerentes de acesso à informação cotidiana realizadas por essas mulheres. A
ausência de notícias sobre isso pode indicar que a atenção sobre as barreiras
de acesso e o silenciamento são tratados de maneira desigual pela mídia e
pelo interesse da população. As barreiras de acesso, que tomam a forma de
exclusão de fluxos de informação e incentivo ao afastamento do exercício
do cargo pela representante política, provavelmente são consideradas como
algo natural para o contexto de trabalho das mulheres em determinadas
sociedades, como a brasileira e, por isso, não se destacariam ou seriam
percebidas como relevantes para a sociedade, explicando o motivo de não
se tornarem notícia. Nesse caso, há tolerância com relação a alguns tipos
de violência e de barreiras impostas, de preferência as que coincidem com
práticas comuns e desrespeitosas aplicadas e aceitas pela sociedade. Ideia
reforçada pelo fato de que a violência é amplamente praticada contra as
representantes políticas, com pouca ou nenhuma forma de punição contra
seus agressores, em geral representantes políticos homens.
Esse contexto de atuação, repleto de obstáculos de acesso e de parti-
cipação das mulheres políticas no fluxo de informação e de comunicação
não é composto apenas pela cultura das organizações e da esfera política. A
cultura nacional, a valorização de padrões misóginos e sexistas da sociedade
se somam e encontram representação e condições para existir nesse am-
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
177
biente político. O que elas enfrentam em termos de violência na sociedade,
também enfrentam em sua atuação política. A violência e as barreiras são
claras e o silenciamento inclui assassinato como uma reprodução do que a
sociedade impõe sobre as mulheres, ainda que em cargos eletivos.
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181
Informação Ambiental: Marcos legais e
Conuências Teóricas
Rúbia Martins
1 INTRODUÇÃO
A problemática ambiental se apresenta atualmente como uma das
principais temáticas investigadas em nível global. Cientistas de diversas
áreas discutem, de modo interdisciplinar, diferentes maneiras de enfrenta-
mento do que vem sendo chamado de encruzilhada civilizatória.
Nesse contemporâneo e urgente cenário é importante que discuta-
mos no interior da Ciência da Informação formas colaborativas de gover-
nança ambiental, aspectos includentes e participativos de monitoramento
e informação ambiental, instrumentos informacionais de prevenção a de-
sastres, etc.
A partir desse contexto a informação ambiental tem papel funda-
mental na garantia dos direitos socioambientais e constitui categoria in-
formacional estratégica na medida em que se refere ao acesso, circulação,
produção e uso de dados, registros, conhecimentos e documentos relacio-
nados ao meio ambiente natural e às ações humanas que sobre ele incidem.
Sua emergência enquanto categoria jurídica, política e epistemológica está
vinculada ao contexto das transformações globais ocorridas nas últimas
https://doi.org/10.36311/2026.978-65-5954-676-3.p181-201
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
182
décadas do século XX, quando a crise ecológica se consolidou como pauta
de ordem mundial.
Sendo assim, objetivamos no presente capítulo analisar a proeminên-
cia da Informação Ambiental enquanto elo interdisciplinar entre Ciência
da Informação e Direito. Para tanto, identificamos os fundamentos histó-
ricos, conceituais e normativos da informação ambiental, com foco em sua
interação com a Ciência da Informação e o Direito a partir de documentos
normativos no âmbito do Direito Ambiental (nacional e internacional)
que versam sobre acesso à informação; informação ambiental; participação
pública na tomada de decisão; e acesso à justiça em matéria ambiental.
Parte-se da compreensão de que a informação ambiental, longe de ser neu-
tra ou meramente técnica, é atravessada por disputas políticas, interesses
econômicos, assimetrias de poder e desafios comunicacionais que deman-
dam abordagens interdisciplinares.
A partir de pesquisa teórica, descritivo-exploratória, de tipo docu-
mental (primária e secundária) verificamos que a informação ambiental
tem se consolidado como elemento central para a promoção de uma go-
vernança socioambiental democrática, fundamentada no direito à infor-
mação, na transparência dos atos públicos e na participação cidadã. No
contexto da crise ecológica global e da busca por modelos alternativos de
desenvolvimento, a informação sobre o meio ambiente se apresenta não
apenas como subsídio técnico-científico, mas também como direito fun-
damental, instrumento de controle social e condição para o exercício pleno
da cidadania.
Dessa forma, neste capítulo, buscamos evidenciar como a informa-
ção ambiental emergiu, inicialmente, sob uma perspectiva normativa no
âmbito internacional, para, em seguida, examinar sua incorporação e de-
senvolvimento no ordenamento jurídico brasileiro. Por fim, procuramos
identificar de que maneira a informação ambiental vem sendo caracteriza-
da, conceituada e difundida de forma interdisciplinar, a partir dos princi-
pais documentos normativos, tanto nacionais quanto internacionais.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
183
2 EMERGÊNCIA DA INFORMAÇÃO AMBIENTAL NO
CENÁRIO INTERNACIONAL
A constituição da informação ambiental como campo específico do
conhecimento e da normatividade internacional está intrinsecamente re-
lacionada ao surgimento da "questão ambiental" no plano global a partir
da década de 1970.
A Conferência de Estocolmo sobre o Meio Ambiente Humano
(ONU, 1973) é reconhecida como marco inaugural da preocupação am-
biental em escala global, tendo sido responsável por inserir de forma defi-
nitiva a temática ambiental como pauta da agenda política internacional.
Ainda que não utilizassem formalmente o termo "informação ambiental",
os princípios norteadores da Declaração de Estocolmo (ONU, 1973) já
indicavam a informação enquanto instrumento eficaz de governança local
e global em matéria ambiental. Além disso, podemos verificar a inserção de
aspectos concernentes aos meios de comunicação em massa e a informação
enquanto caráter educativo e participativo da sociedade civil:
Princípio 19
É indispensável um esforço para a educação em questões ambientais,
dirigida tanto às gerações jovens como aos adultos e que preste
a devida atenção ao setor da população menos privilegiado, para
fundamentar as bases de uma opinião pública bem informada, e
de uma conduta dos indivíduos, das empresas e das coletividades
inspirada no sentido de sua responsabilidade sobre a proteção e
melhoramento do meio ambiente em toda sua dimensão humana.
É igualmente essencial que os meios de comunicação de massas
evitem contribuir para a deterioração do meio ambiente humano
e, ao contrário, difundam informação de caráter educativo sobre
a necessidade de protege-lo e melhorá-lo, a fim de que o homem
possa desenvolver-se em todos os aspectos
Princípio 20
[...] o livre intercâmbio de informação científica atualizada e de
experiência sobre a transferência deve ser objeto de apoio e de
assistência, a fim de facilitar a solução dos problemas ambientais.
As tecnologias ambientais devem ser postas à disposição dos países
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
184
em desenvolvimento de forma a favorecer sua ampla difusão, sem
que constituam uma carga econômica para esses países (ONU,
1973).
Já na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e
Desenvolvimento, a Rio 92, a Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e
Desenvolvimento (ONU, 1993) - um dos principais documentos produ-
zidos durante a reunião1 - foi ainda mais enfática ao consagrar em seu
Princípio 10 que o meio mais adequado de tratar as questões ambientais
é assegurar a participação de todos os cidadãos interessados. Para tanto, o
acesso à informação é essencial.
Princípio 10
A melhor maneira de tratar as questões ambientais é assegurar
a participação, no nível apropriado, de todos os cidadãos
interessados. No nível nacional, cada indivíduo terá acesso
adequado às informações relativas ao meio ambiente de que
disponham as autoridades públicas, inclusive informações acerca de
materiais e atividades perigosas em suas comunidades, bem como
a oportunidade de participar dos processos decisórios. Os Estados
irão facilitar e estimular a conscientização e a participação popular,
colocando as informações à disposição de todos. Será proporcionado
o acesso efetivo a mecanismos judiciais e administrativos, inclusive
no que se refere compensação e reparação de danos (ONU, 1993).
Podemos afirmar que o Princípio 10 da Declaração do Rio contem-
pla três aspectos fundamentais associados à informação ambiental: a par-
ticipação popular, o acesso à informação e o acesso à justiça ambiental.
Tais aspectos consubstanciam a chamada tríade procedimental, substrato
da Convenção de Aarhus de 1998 (UNECE, 2014) e do Acordo de Escazú
de 2018 (ONU; CEPAL 2018), importantes documentos internacionais
no que se refere à informação ambiental. Vejamos.
Os documentos produzidos durante a Rio 92 foram: Declaração Do Rio Sobre o Meio Ambiente
e Desenvolvimento; Agenda 21: estratégias para o desenvolvimento sustentável; Carta da Terra;
Convenção sobre a diversidade Biológica; Convenção sobre Mudanças Climáticas; Declaração de
Princípios sobre as Florestas.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
185
A Convenção de Aarhus, oficialmente denominada Convenção so-
bre o Acesso à Informação, Participação Pública no Processo de Tomada de
Decisão e Acesso à Justiça em Matéria Ambiental, foi assinada em 1998 no
âmbito da Comunidade Europeia e entrou em vigor em 2001. Esta con-
venção internacional é amplamente reconhecida como um marco jurídico
fundamental, por consagrar e promover a chamada tríade procedimental
(ou direitos processuais ambientais) acima citada, que passou a ser reco-
nhecida como fundamento essencial tanto do Direito Ambiental contem-
porâneo quanto da efetivação do direito humano à informação. Haja vista
que seu objetivo é promover a transparência, a responsabilização e a par-
ticipação cidadã como mecanismos fundamentais de proteção ambiental.
Nesse sentido, a Convenção estrutura-se, portanto, em um tripé, qual seja:
a) acesso à informação ambiental; b) participação pública nos processos de
tomada de decisão; c) acesso à justiça.
O acesso à informação ambiental preconizado pela Convenção asse-
gura que qualquer pessoa possa obter informações ambientais em posse de
autoridades públicas, sem a necessidade de justificar a motivação do pedi-
do. Tais informações, segundo a Convenção, devem ser disponibilizadas ao
público respeitando-se a legislação nacional de cada país (UNECE, 2014).
Importante verificarmos que informação ambiental, segundo o Artigo 2º
da Convenção de Aarhus, é considerada de maneira ampla e inclui dados
sobre o estado de elementos ambientais, fatores que os afetam, medidas ad-
ministrativas, bem como políticas e legislações atinentes ao meio ambiente.
Artigo 2.º
Definições
[...]
3) Entende-se por «informação em matéria de ambiente» qualquer
informação disponível sob forma escrita, visual, oral, electrónica ou
de qualquer outra forma sobre:
a) O estado dos elementos do ambiente, tais como o ar e a atmosfera,
a água, o solo, a terra, a paisagem e os sítios naturais, a diversidade
biológica e as suas componentes, incluindo, genericamente,
organismos modificados e a interação entre estes elementos;
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
186
b) Fatores, tais como substâncias, energia, ruído e radiação, e
atividades ou medidas, incluindo medidas administrativas, acordos,
políticas, legislação, planos e programas em matéria de ambiente
que afetem ou possam afetar os elementos do ambiente, no âmbito
do acima mencionado subparágrafo a), e custo-benefício e outros
pressupostos e análises económicas utilizados no processo de
tomada de decisão em matéria de ambiente;
c) O estado da saúde e da segurança do homem, as condições de
vida humana, os sítios culturais e estruturas construídas, tanto
quanto sejam ou possam ser afetados pelo estado dos elementos do
ambiente ou, através desses elementos, pelos fatores, atividades ou
medidas acima mencionados no subparágrafo b);
[...] (UNECE, 2014).
Já a participação pública nos processos de tomada de decisão esta-
belece que a sociedade deva ser oportunamente informada e que tenha
o direito de participação na elaboração de programas, planos, políticas
e atos normativos e/ou administrativos que possam impactar o contex-
to ambiental (cultural, econômico, social). Verifica-se que a possibilidade
de participação transcende a consulta formal e implica em mecanismos
que possibilitam ao grupo interessado (comunidade local, organização
não governamental, sociedade civil possivelmente atingida por transfor-
mações ambientais) influenciar o processo decisório de forma significativa
e transparente. Dentre os mecanismos de participação pública previstos
pela Convenção podemos destacar a audiência pública, que caracteriza
momento ímpar de participação popular em momentos decisórios e pre-
coniza fundamento de democracia participativa.
O terceiro elemento constituinte do tripé procedimental, o acesso à
justiça, garante ampla e irrestrita legitimidade para que indivíduos e orga-
nizações (representantes da sociedade civil) acionem instâncias judiciais e/
ou administrativas a fim de garantir o cumprimento dos direitos de acesso
à informação e participação, bem como para contestar atos ou omissões
que violem normas ambientais. Desse modo, o acesso à justiça é tido como
direito subsidiário, pois ele somente será acionado caso haja violação ou
ineficiência do direito de acesso à informação e do direito de participação
pública em processos decisórios,
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
187
Ao institucionalizar tais prerrogativas processuais, a Convenção de
Aarhus não apenas reforçou os princípios da transparência e da responsa-
bilidade na gestão ambiental, mas também contribuiu para a expansão do
arcabouço normativo internacional voltado à promoção do que podemos
chamar de democracia ambiental participava e do fortalecimento dos me-
canismos de tutela jurisdicional dos direitos difusos e coletivos relaciona-
dos ao meio ambiente.
A Convenção de Aarhus legitima a informação ambiental como
bem público e como instrumento de empoderamento social, aproximan-
do a esfera da informação da efetivação de direitos humanos. Ao atribuir
deveres proativos de coleta, organização, disponibilização e difusão de da-
dos ambientais pelos Estados, institui padrões mínimos de governança in-
formacional que se tornaram referência internacional.
Nesse sentido, o Acordo de Escazú  Acordo Regional sobre
Acesso à Informação, Participação Pública e Acesso à Justiça em Assuntos
Ambientais na América Latina e Caribe - (ONU; CEPAL, 2018), primeiro
tratado ambiental da América Latina e Caribe, tornou o direito à informa-
ção ambiental juridicamente vinculante, estabeleceu obrigações claras para
os Estados signatários e reconheceu a informação como condição para a
participação pública e para o acesso à justiça ambiental.
O Acordo, inspirado na Convenção de Aarhus, é voltado a regu-
lamentar o Princípio 10 da Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e
Desenvolvimento (ONU, 1992) que, conforme acima citado, estabeleceu
que a forma mais adequada de se tratar questões ambientais é garantir à
sociedade civil (diretamente interessada) o direito à participação, ao acesso
à informação ambiental e a mecanismos efetivos de acesso à justiça. Nessa
perspectiva, no Artigo 1º, o Acordo afirma que:
El objetivo del presente Acuerdo es garantizar la implementación plena
y efectiva en América Latina y el Caribe de los derechos de acceso a la
información ambiental, participación pública en los procesos de toma
de decisiones ambientales y acceso a la justicia en asuntos ambientales,
así como la creación y el fortalecimiento de las capacidades y la
cooperación, contribuyendo a la protección del derecho de cada persona,
de las generaciones presentes y futuras, a vivir en un medio ambiente
sano y al desarrollo sostenible (ONU; CEPAL, 2018, p. 14).
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
188
Já o instituto da informação ambiental, bem como o acesso à essa
informação estão assim definidos:
Artículo 2
Definiciones
[...]
c) por "información ambiental" se entiende cualquier información
escrita, visual, sonora, electrónica o registrada en cualquier otro
formato, relativa al medio ambiente y sus elementos y a los recursos
naturales, incluyendo aquella que esté relacionada con los riesgos
ambientales y los posibles impactos adversos asociados que afecten o
puedan afectar el medio ambiente y la salud, así como la relacionada
con la protección y la gestión ambientales;
[...]
Artículo 5
Acceso a la información ambiental
[...]
2. El ejercicio del derecho de acceso a la información ambiental
comprende:
a) solicitar y recibir información de las autoridades competentes sin
necesidad de mencionar algún interés especial ni justificar las razones
por las cuales se solicita;
b) ser informado en forma expedita sobre si la información solicitada
obra o no en poder de la autoridad competente que recibe la solicitud; y
c) ser informado del derecho a impugnar y recurrir la no entrega
de información y de los requisitos para ejercer ese derecho (ONU;
CEPAL, 2018, p. 15).
Além da tríade procedimental também verificada na Convenção de
Aarhus, o Acordo de Escazu inova ao prever a proteção dos defensores
de direitos humanos em questões ambientais. Este Acordo é o primeiro
tratado internacional que contempla obrigações expressas de proteção
às pessoas e grupos que atuam em defesa de causas ambientais. Dado
importante, haja vista que a América Latina se consolida, de acordo com
o relatório 2023/24 da Global Witness, como a região mais perigosa do
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
189
mundo para quem atua na defesa ambiental. O Brasil aparece nessa lista
como o segundo país do planeta com mais casos de mortes de ambienta-
listas, mas o país apesar de ter assinado o Acordo de Escazú ainda não o
ratificou (Anfossi, 2025).
Importante salientarmos que o Acordo de Escazú estabelece obri-
gações específicas voltadas à criação e à manutenção de sistemas de in-
formação ambiental, bem como de diretórios atualizados das autoridades
competentes e registros relativos a emissões e resíduos. Além disso, prevê
mecanismos destinados à divulgação de informações de interesse coletivo.
Paralelamente, impõe aos Estados a adoção de medidas que possibilitem
e incentivem o exercício efetivo desses direitos, incluindo, por exemplo,
a oferta de assistência gratuita a pessoas em situação de vulnerabilidade
socioeconômica ou residentes em áreas rurais. O texto também incorpora
o compromisso com a transparência ativa, promovendo a utilização de
tecnologias da informação e de plataformas digitais com vistas a garantir o
acesso amplo, equitativo e democrático aos dados ambientais.
Segundo Ribeiro e Machado (2018, p. 253),
[...] o Acordo de Escazú contém disposições específicas para
acesso à informação ambiental por pessoas e grupos em situação
de vulnerabilidade, implicando assistência especial desde o
recebimento do pedido. Ao também estabelecer critérios gerais
para aplicação de teste do interesse público, o Acordo aumenta o
ônus do Estado para justificar uma negativa de acesso à informação
ambiental, em favor da máxima divulgação de informações. Essas
duas disposições podem operar uma verdadeira transformação
da lógica de acesso à informação em geral, na medida em que se
comportam como instrumentos de argumentação de alto impacto,
os quais podem ser extrapolados para justificar o acesso a outras
informações para além da matéria ambiental, inclusive.
Além de consolidar princípios do Direito Ambiental, o Acordo de
Escazú defende que a gestão da informação ambiental configura-se como
elemento central do Estado Democrático de Direito. O Acordo reconhece
a informação como um direito humano e como condição indispensável
para o exercício da participação pública e o acesso à justiça, e impõe aos
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
190
Estados a responsabilidade de promover políticas públicas voltadas à cria-
ção de sistemas informacionais abertos, interoperáveis e inclusivos, aptos
a mitigar desigualdades informacionais e a fortalecer a capacidade delibe-
rativa da sociedade civil. Assim, além de compromisso jurídico de alcance
regional, o Acordo de Escazú propõe-se a garantir a defesa de direitos fun-
damentais na América Latina e no Caribe.
Vejamos agora os a informação ambiental no cenário brasileiro.
3 MARCOS NORMATIVOS DA INFORMAÇÃO
AMBIENTAL NO BRASIL
Em âmbito nacional, a Constituição Federal de 1988 (Brasil, [2023])
considera, em seus artigos 5º, inc. XXXIII e 225, os direitos ao acesso à
informação e à proteção ambiental como direitos fundamentais.
Art. 5º [...]
XXXIII - todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações
de seu interesse particular, ou de interesse coletivo ou geral, que
serão prestadas no prazo da lei, sob pena de responsabilidade,
ressalvadas aquelas cujo sigilo seja imprescindível à segurança da
sociedade e do Estado; [...]
[...]
Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente
equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia
qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade
o dever de defendê-lo e preservá- lo para as presentes e futuras
gerações. [...] (Brasil, [2023]).
Importante frisarmos que a Lei nº 6.938 de 1981 (Brasil, [1981])
que instituiu a Política Nacional do Meio Ambiente, bem como a cria-
ção do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) e do Sistema
Nacional de Meio Ambiente (SISNAMA), já previa, ainda antes da
Constituição Federal de 1988, a divulgação de informações ambientais
como instrumento de gestão.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
191
Art 4º - A Política Nacional do Meio Ambiente visará:
[...]
IV - ao desenvolvimento de pesquisas e de tecnologias nacionais
orientadas para o uso racional de recursos ambientais;
V - à difusão de tecnologias de manejo do meio ambiente,
à divulgação de dados informações ambientais e à formação de
uma consciência pública sobre a necessidade de preservação da
qualidade ambiental e do equilíbrio ecológico; [...] (Brasil, [1981]).
Posteriormente, a Lei nº 10.650 de 2003 (Brasil, [2003]) discipli-
nou de forma específica o acesso a informações ambientais, estabelecendo
a obrigatoriedade de que os órgãos integrantes do Sistema Nacional do
Meio Ambiente (SISNAMA) disponibilizem publicamente os dados e do-
cumentos sob sua guarda, com vistas a assegurar a transparência e o con-
trole social sobre as questões ambientais. Além disso, carrega em seu bojo
a caracterização de informação ambiental e amplia seu conceito jurídico,
incluindo tanto dados puros quanto decisões administrativas ou estudos
relacionados ao meio ambiente.
Art. 2º [...]
I - qualidade do meio ambiente;
II - políticas, planos e programas potencialmente causadores de
impacto ambiental;
III - resultados de monitoramento e auditoria nos sistemas de
controle de poluição e de atividades potencialmente poluidoras,
bem como de planos e ações de recuperação de áreas degradadas;
IV - acidentes, situações de risco ou de emergência ambientais;
V - emissões de efluentes líquidos e gasosos, e produção de resíduos
sólidos;
VI - substâncias tóxicas e perigosas;
VII - diversidade biológica;
VIII - organismos geneticamente modificados.
[...] (Brasil, [2003]).
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
192
Em 2011, a Lei nº 12.527, Lei de Acesso à Informação (Brasil,
[2011]), trouxe diretrizes amplas para a gestão pública da informação,
aplicáveis também ao meio ambiente. Dessa forma, deliberou procedi-
mentos que garantem, de forma geral, o acesso a informações previstos
no inciso XXXIII do art. 5.º e no § 2.º do art. 216 da Constituição
Federal (Brasil, [2023]).
Art. 5º [...]
XXXIII - todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações
de seu interesse particular, ou de interesse coletivo ou geral, que
serão prestadas no prazo da lei, sob pena de responsabilidade,
ressalvadas aquelas cujo sigilo seja imprescindível à segurança da
sociedade e do Estado;
[...]
Art. 216
§ 2º Cabem à administração pública, na forma da lei, a gestão da
documentação governamental e as providências para franquear sua
consulta a quantos dela necessitem.
Esses instrumentos legais indicam uma progressiva incorporação da
informação ambiental ao ordenamento jurídico brasileiro, embora sua efe-
tividade dependa de fatores institucionais, culturais e tecnológicos.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
193
Figura 1  Marcos regulatórios relacionados à Informação Ambiental
Fonte: Figura de autoria própria.
4 INFORMAÇÃO AMBIENTAL: ABORDAGENS E
PERSPECTIVAS
Tendo em vista os marcos legislativos acima verificados podemos infe-
rir que informação ambiental é toda e qualquer informação (dados, registros,
documentos, representações, saberes) que versa sobre condições, processos e
impactos relativos ao meio ambiente natural e/ou construído. Ou seja, toda
e qualquer informação que versa direito ou indiretamente sobre o contexto
ambiental pode ser considerada enquanto informação ambiental.
No entanto, para que esta informação tenha fundamento normativo
e se caracterize enquanto informação consubstanciada pelo direito funda-
mental ela necessita apresentar três características que lhes são essenciais:
tecnicidade; compreensibilidade e tempestividade.
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
194
Para que uma informação ambiental seja reconhecida como de na-
tureza técnica, é imprescindível que ela esteja fundamentada em relatórios
técnico-científicos consistentes, elaborados com base em metodologias
rigorosas e dados empíricos verificáveis. Tais relatórios devem apresentar
uma análise articulada, que integre diferentes perspectivas disciplinares
 como ecologia, geografia, ciências sociais e econômicas  de modo a
evidenciar de forma clara, contextualizada e sistemática as condições e di-
nâmicas do ambiente a que se referem. Essa abordagem interdisciplinar
confere legitimidade e robustez ao conhecimento produzido, permitindo
que ele contribua efetivamente para o diagnóstico ambiental, a tomada de
decisão e a formulação de políticas públicas.
Tavares e Freire (2003, p. 209) destacam que "a informação am-
biental é um dos tipos da informação científica e tecnológica", situando-a,
portanto, no âmbito do conhecimento sistematizado, produzido com base
em métodos científicos e orientado à aplicação prática.
Nesse contexto, é possível afirmar que, enquanto categoria técnica e
especializada, a informação ambiental configura-se como um tipo especí-
fico de informação gerada por instituições de pesquisa, pela comunidade
científica e por órgãos gestores ambientais. Seu propósito fundamental é
subsidiar o monitoramento contínuo das condições do meio ambiente e
fornecer base empírica e analítica para a formulação de políticas públicas,
bem como para a tomada de decisões por parte dos diferentes segmentos
da sociedade  especialmente aqueles direta ou indiretamente impactados
por alterações nos sistemas ambientais. Essas alterações, sejam elas de ori-
gem natural ou decorrentes da ação antrópica, produzem repercussões que
transcendem o plano ecológico, afetando também as dimensões sociais,
econômicas e culturais. Assim, a informação ambiental técnica adquire
centralidade como instrumento de governança, planejamento e prevenção
de riscos, reafirmando seu papel estratégico na gestão sustentável dos re-
cursos naturais e na promoção da justiça ambiental.
Segundo Machado (2018, p. 95) "No geral, a informação ambiental
é composta de dados técnicos, onde estão presentes normas de emissão e
padrões de qualidade". O autor aqui evidencia seu caráter normativo e
científico. Nessa perspectiva, os dados técnicos que integram a informação
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
195
ambiental devem ser constituídos por registros atualizados, confiáveis e
metodologicamente validados, de forma a refletir com precisão a realidade
ambiental observada em determinado contexto espacial e temporal. Além
de contemplarem parâmetros de emissão, limites legais e critérios de quali-
dade ambiental estabelecidos por regulamentações nacionais e internacio-
nais, esses dados devem possibilitar análises comparativas e avaliações de
conformidade. Sua credibilidade decorre não apenas da qualidade técnica
intrínseca, mas também da transparência dos procedimentos de coleta, tra-
tamento e divulgação da informação, o que assegura sua utilidade para o
diagnóstico ambiental, a fiscalização, o controle social e a tomada de deci-
são fundamentada.
Compreensível é toda informação que, mesmo em sendo técnica,
deve ser inteligível aos receptores de maneira clara, objetiva e precisa.
A compreensibilidade é uma característica fundamental da informa-
ção ambiental, pois diz respeito à sua capacidade de ser entendida por
diferentes públicos, independentemente de seu nível de especialização téc-
nica. Essa qualidade exige que os conteúdos, mesmo quando originados
em estudos científicos complexos, sejam apresentados de forma clara, es-
truturada e adequada ao contexto sociocultural dos destinatários. Assim,
a informação ambiental deve ser organizada com precisão terminológica,
mas também com atenção à linguagem acessível e ao uso de formatos que
favoreçam a leitura, como resumos executivos, tabelas, gráficos e recursos
visuais que auxiliem na interpretação dos dados. A clareza na comunicação
torna-se essencial para que indivíduos e coletividades possam reconhecer
os impactos ambientais que afetam seus territórios e exercer seus direitos à
participação e ao controle social.
Além de facilitar o entendimento, a compreensibilidade fortalece a
credibilidade e a legitimidade da informação ambiental, pois permite que
seu conteúdo seja confrontado, verificado e discutido de maneira funda-
mentada. Quando a informação é apresentada de forma inteligível, tor-
na-se um instrumento efetivo para subsidiar decisões, orientar políticas
públicas e apoiar processos de educação ambiental. Dessa forma, a clareza
não se restringe a um atributo formal, mas constitui um requisito indis-
pensável para que o conhecimento produzido seja apropriado socialmente
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
196
e contribua, de modo efetivo, para a promoção da transparência, da res-
ponsabilidade e da participação democrática nas questões que envolvem a
proteção e a gestão do meio ambiente.
Já a tempestividade requer que os relatórios acima especificados se-
jam disponibilizados em tempo para possíveis tomadas de decisões por
parte das comunidades diretamente atingidas pro presumíveis transforma-
ções ambientais (sociais, econômicas e culturais).
A informação, para ser utilizável, deve ser rápida. Para isso, é
preciso que os emissores da informação estejam adequadamente
organizados, com pessoal e aparelhamento adequados. A presteza da
informação irá atestar um mínimo de eficiência de quem informa.
Os prazos podem diferir de um país para outro ou conforme
seja a convenção que rege a matéria. Contudo, o que tem sido
preconizado é que a informação não possa ultrapassar 30 dias.
(Machado, 2018, p. 96).
A tempestividade constitui um atributo essencial da informação
ambiental, pois diz respeito à necessidade de que relatórios, estudos e de-
mais documentos sejam disponibilizados em tempo hábil para subsidiar
processos decisórios. Quando a informação é divulgada de forma tardia,
seu potencial de prevenir, mitigar ou compensar impactos ambientais é
significativamente reduzido, comprometendo o direito das comunidades
potencialmente afetadas de acompanhar e intervir nos procedimentos que
envolvem alterações em seus territórios. Assim, assegurar a divulgação tem-
pestiva dos dados implica reconhecer que o conhecimento técnico não
pode permanecer restrito aos órgãos produtores, devendo circular de ma-
neira oportuna para permitir que diferentes atores sociais compreendam as
implicações das transformações ambientais, sejam elas de natureza ecológi-
ca, econômica, social ou cultural.
Ademais, a tempestividade da informação ambiental reforça a legi-
timidade dos processos participativos e fortalece a confiança da sociedade
nas instituições responsáveis pela gestão ambiental. Quando relatórios e
pareceres técnicos são apresentados antes da adoção de medidas que pos-
sam gerar impactos significativos, cria-se a possibilidade concreta de diá-
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
197
logo, contestação e aprimoramento coletivo das decisões. Dessa forma, o
caráter oportuno da informação não se limita a uma exigência procedi-
mental, mas se converte em condição indispensável para assegurar a efeti-
vidade do princípio da precaução, promover a justiça ambiental e garantir
que as comunidades envolvidas possam exercer, de maneira plena, seus
direitos à informação e à participação.
Dessa forma, vemos que a informação ambiental deve apresentar
três pressupostos inerentes, quais sejam: a) finalidade: partição ativa da
sociedade em um maior controle sobre práticas lesivas ao meio ambiente;
b) tomada de decisão: o direito fundamental à informação presume direito
à participação em tomadas de decisões em matéria ambiental; c) tríade
procedimental: acesso à informação, participação pública na tomada de
decisão e acesso à justiça em matéria ambiental.
O pleno e garantido acesso à informação ambiental: é pré-requisito
para a capacitada e efetiva participação pública em processos decisórios
sobre pautas ambientais; é componente essencial para o exercício pleno
da democracia participativa em âmbito ambiental; é pilar do princípio de
participação pública; e atribui poder aos particulares na esfera dos órgãos
deliberativos. Além disso, a garantia de acesso à justiça é pressuposto de-
mocrático do Estado de Direito (princípios constitucionais de ampla defe-
sa e de devido processo legal) e configura-se como poder de reivindicação
dos demais direitos ambientais procedimentais.
O pleno e garantido acesso à informação ambiental constitui requi-
sito indispensável para viabilizar a participação qualificada da sociedade
nos processos decisórios que envolvem questões ambientais. Sem o forne-
cimento tempestivo, claro e completo das informações pertinentes, não
há condições para que indivíduos, grupos e comunidades possam com-
preender os impactos potenciais de projetos, políticas e atividades sobre
seus territórios e modos de vida. Nesse sentido, a informação ambiental
não representa apenas um instrumento técnico, mas um direito funda-
mental que assegura transparência administrativa, possibilita o controle
social e contribui para prevenir arbitrariedades na formulação de decisões
que podem comprometer o equilíbrio ecológico e a qualidade de vida das
populações envolvidas.
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
198
Além de ser requisito para a participação informada, o acesso à in-
formação ambiental integra a própria concepção de democracia participa-
tiva aplicada à esfera ambiental. Trata-se de um componente essencial do
princípio da participação pública, ao conferir legitimidade às instâncias
deliberativas e aproximar os cidadãos dos processos de formulação, imple-
mentação e fiscalização de políticas públicas. Ao possibilitar que diferentes
setores da sociedade tenham conhecimento das bases técnicas e jurídicas
que sustentam decisões com implicações ambientais, esse direito fortalece
o diálogo entre Estado e sociedade civil e amplia a capacidade coletiva de
influenciar caminhos de desenvolvimento pautados em critérios de susten-
tabilidade, precaução e responsabilidade compartilhada.
Por sua vez, a garantia de acesso à justiça ambiental complementa
o direito à informação e assegura a efetividade dos demais direitos pro-
cedimentais. Esse acesso traduz-se na possibilidade de questionar atos e
omissões do poder público e de agentes privados, buscando reparação de
danos, correção de irregularidades e proteção de direitos coletivos. Trata-se
de pressuposto democrático do Estado de Direito, diretamente vinculado
aos princípios constitucionais da ampla defesa e do devido processo legal.
Ao reconhecer que a cidadania ambiental pressupõe não apenas o conheci-
mento das informações, mas também a existência de mecanismos jurídicos
eficazes para reivindicar e proteger direitos, consolida-se uma concepção
participativa de governança ambiental que valoriza a transparência, a justi-
ça e a corresponsabilidade social.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise desenvolvida ao longo deste trabalho permitiu evidenciar
que a informação ambiental, ao emergir no cenário internacional, consoli-
dou-se como elemento indispensável para a construção de agendas globais
voltadas à proteção do meio ambiente e ao fortalecimento de instrumentos
de governança ambiental. Documentos e declarações internacionais, como
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
199
a Declaração de Estocolmo, a Convenção de Aarhus e o Princípio 10 da
Declaração do Rio, foram fundamentais para afirmar a centralidade do
direito à informação como condição prévia para a participação social e o
acesso à justiça em matéria ambiental. Esse percurso histórico demonstra
que a informação ambiental não se configura como um recurso meramente
instrumental, mas como expressão de compromissos éticos e jurídicos as-
sumidos pelos Estados no âmbito da comunidade internacional.
No contexto brasileiro, a consolidação de marcos normativos espe-
cíficos, entre os quais se destacam a Política Nacional de Meio Ambiente
(Brasil, [1981]), a Lei de Acesso à Informação (Brasil, [2011]) e a Lei nº
10.650 de 2003 (Brasil, [2003]), reafirma a compreensão de que o acesso
pleno, tempestivo e compreensível às informações ambientais é um direito
do cidadão e um dever do poder público. A legislação brasileira avança ao
estabelecer padrões de transparência e mecanismos de disponibilização de
dados que visam assegurar a democratização do conhecimento ambiental e
permitir o controle social sobre ações potencialmente lesivas ao equilíbrio
ecológico. Ainda assim, persistem desafios relacionados à efetiva imple-
mentação desses dispositivos, especialmente no que se refere à superação
de barreiras técnicas, institucionais e culturais que limitam o exercício ple-
no do direito à informação.
Por fim, as abordagens e perspectivas contemporâneas sobre a infor-
mação ambiental indicam a necessidade de consolidar uma visão interdis-
ciplinar e integrada, capaz de articular fundamentos jurídicos, informacio-
nais e sociais. A produção, o tratamento e a difusão da informação devem
ser orientados não apenas pela observância de requisitos formais, mas pela
busca de práticas que promovam transparência, legitimidade e participa-
ção informada. Ao reconhecer o papel estratégico da informação ambiental
na prevenção de conflitos, na indução de comportamentos responsáveis
e na promoção de políticas públicas ambientais, reafirma-se a relevância
de seu fortalecimento como dimensão essencial da cidadania ambiental e
do compromisso coletivo com a preservação dos bens ambientais para as
presentes e futuras gerações.
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
200
REFERÊNCIAS
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ambientalistas no mundo. Diálogos do Sul Global, Santiago, 24 abr. 2025. Disponível
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BRASIL. Lei nº 12.527, de 18 de novembro de 2011. Regula o acesso a informações
previsto no inciso XXXIII do art. 5º, no inciso II do § 3º do art. 37 e no § 2º do art.
216 da Constituição Federal; altera a Lei nº 8.112, de 11 de dezembro de 1990; revoga
a Lei nº 11.111, de 5 de maio de 2005, e dispositivos da Lei nº 8.159, de 8 de janeiro
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202
Parte III
Gestão na
Contemporaneidade
205
Gestão da informação com aplicação da
Inteligência Articial:
A experiência do Centro Referencial de
Propriedade Intelectual e Inovação
Elaine da Silva
Rosangela Formentini Caldas
Edberto Ferneda
Fábio Éder Cardoso
Bárbara Benati Luvizotto
1 INTRODUÇÃO
A produção do presente capítulo foi motivada por três enfoques
que, para além se complementarem se retroalimentam. Assim, o potencial
inovador e registrável como propriedade intelectual de produções acadêmico-
científicas, e respectiva implementação de processos estruturados de gestão
da informação com a aplicação de inteligência artificial se constituem no
cerne desta pesquisa.
A busca por compreender a relação entre a produção acadêmica, o
respectivo potencial inovativo, e por conseguinte de registros de proprie-
dade intelectual na área de comunicação e informação da Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), órgão ao qual in-
sere-se o campo da Ciência da Informação, foi o fator instigador da criação
do Centro Referencial de Propriedade Intelectual e Inovação em Ciência
https://doi.org/10.36311/2026.978-65-5954-676-3.p205-223
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
206
da Informação (CERPII), idealizado com o propósito de atuar na identifi-
cação de inovações em textos acadêmicos do Programa de Pós-Graduação
em Ciência da Informação (PPGCI) da Universidade Estadual Paulista
(Unesp), campus de Marília com potencial de registro de propriedade inte-
lectual (PI) junto ao Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI).
Por conseguinte, se faz necessário refletir sobre a relevância da im-
plementação de processos de gestão da informação (GI) estruturados de-
dicados à identificação, seleção, coleta, tratamento e uso de informações
para desenvolver produtos e serviços de informação competentes para evi-
denciar o potencial de geração de inovações na produção de conhecimento
acadêmico científico passível de registros de PI junto ao INPI.
Nesse contexto, a utilização de inteligência artificial e sistemas mul-
tiagentes se revela como um caminho promissor na identificação de re-
quisitos informacionais para registros de propriedade intelectual, desta-
cando-se como uma ferramenta a ser agregada em processos de GI muito
competente na otimização resultados.
Nessa perspectiva, com o objetivo de demonstrar a viabilidade de
aplicação de multiagentes inteligentes em processos de gestão de informa-
ção para a identificação de possibilidades de registro de propriedade inte-
lectual, o presente capítulo, a partir da experiência do Centro Referencial
de Propriedade Intelectual e Inovação, lança luz a convergências possíveis e
necessárias entre gestão da informação, inteligência artificial, propriedade
intelectual e inovação.
2 GESTÃO DA INFORMAÇÃO NO CONTEXTO DA
PROPRIEDADE INTELECTUAL
A atual situação das nações é resultado da acumulação de descober-
tas, invenções e melhorias das gerações que viveram antes de nós, propor-
cionadas pelo desenvolvimento de processos criativos, que resultaram em
transformações e desenvolvimentos em âmbitos econômico, tecnológico,
cultural e social. O pressuposto supracitado não é algo novo, List (1885) já
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
207
o defendia no Século XIX, e estudos de Freeman e Soete (2008) no início
do presente milênio o ratificam, evidenciando o papel dos registros de co-
nhecimento e a respectiva gestão para o desenvolvimento da humanidade.
Concordando com os autores supracitados, destaca-se a importância
da propriedade intelectual, entendida como um fator decisivo para o de-
senvolvimento econômico, social e sustentável de um país, região ou seg-
mento, que tem como propósito proteger ideias e projetos, com o intuito
de garantir a autoria, o uso, e a exclusividade de exploração.
A propriedade intelectual (PI), de acordo com a Câmara de Comércio
Internacional (2017), se constitui numa criação do intelecto que pode ser
de propriedade de uma pessoa física ou de uma organização no setor pú-
blico ou privado. Por meio de diretrizes e processos específicos, o detentor
da PI pode escolher compartilhá-la com segurança de que seu direito será
preservado.
Considerando o exposto acima, é possível afirmar que a propriedade
intelectual diz respeito à proteção da criação intelectual humana com vistas
a gerir respectivos compartilhamento e uso respeitando os direitos do titu-
lar, e ao mesmo tempo promover o desenvolvimento da sociedade.
De acordo com o INPI ([202?]) e Barbalho (2022) é possível distri-
buir a propriedade intelectual em três grandes eixos:
Direito autoral: aplicável a textos de obras literárias, artísticas
ou científicas, conferências, programas de computador, desenho,
pintura, gravura, escultura, ilustrações, composições musicais,
obras audiovisuais, fotografias, projetos de arquitetura, obras
plásticas, engenharia, paisagismo, cenografia.
Propriedade industrial: conjunto de direitos exclusivos que uma
pessoa física ou jurídica pode ter sobre uma invenção, design ou
marca, entre outros produtos de sua criação.
Proteção sui generis: proteção de topografia de circuitos inte-
grados, protegendo o desenho, a configuração de circuitos; e
o aperfeiçoamento ou melhoramento genético, desenvolvido
por meio da pesquisa científica em plantas que resulta em nova
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
208
variedade, que é chamado de Cultivar e constitui o objeto da
proteção.
Ainda segundo a mesma autora,
A forma de proteger os direitos de propriedade intelectual varia
em função do objeto a ser resguardado. Contudo, seja qual for a
modalidade a ser eleita, o princípio básico envolve questões éticas,
sociais e políticas que estão relacionadas não só aos aspectos da
exploração comercial, mas também ao reconhecimento do ato
criativo que permitiu a composição do objeto (Barbalho, 2022,
p. 85).
Especificamente no que tange à propriedade industrial, foco de
atenção deste estudo, o Instituto Nacional de Propriedade Industrial
(INPI), uma autarquia federal brasileira, vinculada ao Ministério do
Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), se constitui
no órgão responsável pelo "[...] registro de marcas, desenhos industriais,
indicações geográficas, programas de computador e topografias de circui-
tos integrados, além da concessão de patentes e da averbação de contratos
de franquia e transferência de tecnologia" (INPI, 2025). Para além de ge-
renciar os registros de propriedade industrial, garantindo os direitos de
titularidade, o INPI se confirma como um importante agente no que tange
ao estímulo do desenvolvimento nacional, porquanto proporciona o com-
partilhamento de conhecimento científico, tecnológico e inovativo para a
implementação de novos produtos, processos, serviços.
Nessa perspectiva, destaca-se o potencial de processos de gestão da
informação (GI) aplicados ao contexto da PI, porquanto a GI, de acordo
com Valentim (2023), proporciona a implementação de processos para
prospectar, monitorar, coletar, filtrar, tratar, organizar e disseminar infor-
mações. Em complemento, Hoffmann (2016) ressalta a importância da
implementação de processos estruturados de GI, com o adequado empre-
go de tecnologias de informação e comunicação.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
209
Modelos consolidados de GI, tais como 'Quatro Passos do
Gerenciamento da Informação' de Davenport e Prusak (1998); e
'Atividades Base da Gestão da Informação' de Valentim (2008) partem do
pressuposto de que a GI é composta por processos estruturados e sistema-
tizados capazes de atuar desde a identificação de demandas e necessidades
de informação; passando por processos de seleção, coleta, aquisição e trata-
mento de informações; competentes para desenvolver produtos e serviços
de informação pertinentes.
Dadas a relevância da PI para o desenvolvimento, e as possibilidades
proporcionadas pela GI no que tange a identificar demandas informacio-
nais, promover a seleção, tratamento, disseminação e uso da informação,
com a aplicação de tecnologias apropriadas, tais como multiagentes es-
pecíficos de inteligência artificial, o Centro Referencial de Propriedade
Intelectual e Inovação (CERPII) busca identificar potenciais registros
de propriedade intelectual na produção científica do Programa de Pós-
Graduação em Ciência da Informação da Unesp.
3 CERPII: HISTÓRICO E RELEVÂNCIA NO CENÁRIO
NACIONAL
O Centro Referencial de Propriedade Intelectual e Inovação em
Ciência da Informação (CERPII) desde a sua criação, foi idealizado com
a pretensão de alcançar e quiçá preencher uma elevada lacuna existente
no registro da propriedade intelectual da área de comunicação e infor-
mação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior
(CAPES), órgão ao qual insere-se o campo da Ciência da Informação.
Assim, enquanto o Programa de Pós-Graduação em Ciência da
Informação (PPGCI) da Unesp crescia e se consolidava no cenário do en-
sino e da pesquisa, se observava este contexto e as possibilidades que se
engendravam para uma profícua contribuição, inovando com deferência e
um atento olhar às produções de conhecimento.
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
210
3.1 PROCESSO DE CONCEPÇÃO E IMPLEMENTAÇÃO
O CERPII é um órgão vinculado diretamente à Coordenação e
ao Conselho do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação
(PPGCI) da Unesp e tem por missão, ser um centro de referência em atu-
ações inovadoras e socialmente conscientes no âmbito da geração de infor-
mação, conhecimento e tecnologia.
Seu objetivo é analisar o potencial inovativo das teses e dissertações
defendidas no âmbito do PPGCI, a fim de realizar a interlocução entre
as pesquisas e a sociedade civil, bem como propor o registro da proprie-
dade intelectual existente quando identificado. Assim, possui uma proxi-
midade com instituições como o INPI e a CAPES ou ainda, um canal de
comunicação em ativo com a Agência de Inovação Unesp (AUIN). Sua
representação na universidade é relevante pois configura-se como o único
ambiente de inovação existente na Faculdade de Filosofia e Ciências da
Unesp (Figura 1).
Sua idealização e criação deu-se no ano de 2018 e desde então, o
Centro procura se integralizar ao cotidiano da universidade participando
de uma estrutura organizacional sólida e influente na área, como no caso
da AUIN ou da Rede Impacta que cuida de articular diferentes ambientes
de inovação da Unesp, gerando valor para estudantes, professores, empre-
endedores e membros da comunidade por meio de iniciativas, relaciona-
mentos, aprendizados e crescimento mútuo.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
211
Figura 1  Ambientes de Inovação da Unesp
Fonte: Elaboração pelos autores a partir de dados disponibilizado em: https://auin.unesp.br/.
Entende-se que, ao identificar no contexto brasileiro, locais que atu-
am com a inovação e, por conseguinte, promover estudos e ações sobre
temas de relevância para o constructo da ciência e tecnologia, seria possível
a criação de vínculos de incentivo à novas pesquisas, contribuindo com a
expansão de índices de inovação. Destacando tal premissa no campo da
Ciência da Informação e não se distanciando da importância que se dis-
tingue aos estudos de inovação, podemos inclusive, realizar projeções que
evidenciam a disseminação de excelência real da área diante de seu impacto
no cenário nacional e internacional.
Outro fator que se ponderou para a criação do CERPII, para além
dos que até aqui foram relatados, foi a inquietude sobre os dados disponi-
bilizados por agências referenciais para o fomento de pesquisas do Brasil,
como a CAPES, o CNPq e o Sistema Nacional da Pós-Graduação (SNPG).
De acordo com tais instituições, os programas de pós-graduação crescem
de forma exponencial e contínua, representando um aumento de mais de
25%. Atualmente, existem 4.486 (quatro mil, quatrocentos e oitenta e
seis) programas distribuídos entre os cursos de mestrado profissional, mes-
trado acadêmico e doutorado (CAPES, [2025]).
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
212
Dentre tais programas, existe uma avaliação quatrienal realizada pela
CAPES com a finalidade de manter os padrões de qualidade e desempe-
nho. As notas são representadas da seguinte forma: Nota 3, padrões míni-
mos de qualidade; nota 4, bom desempenho; nota 5, nível de excelência
nacional, o desempenho destaca-se entre bom e muito bom; notas 6 e
7, que são atribuídas a programas com desempenho de excelência e que
atendem aos padrões internacionais de representatividade. O PPGCI da
UNESP, possui nota 7, destacando-se tanto em desempenho de excelência
de suas produções, como nos padrões internacionais de qualidade para a
sua estrutura funcional.
Neste contexto, acredita-se que as pesquisas realizadas no âmbito do
PPGCI, muito tem a colaborar com a produção da propriedade intelectual
brasileira, desdobrando-se em registros que poderiam ser realizados junto
ao INPI, revelando a área de Ciência da Informação como um contributo
para o aumento dos índices de desenvolvimento, por meio da descoberta
de novas marcas e patentes.
3.2 CRONOGRAMA DE AÇÕES E RESULTADOS
A partir da criação do CERPII, iniciaram-se os trabalhos que pode-
mos dividir em três fases distintas.
Inicialmente, foram elaborados os documentos que serviriam para
apresentação do Centro e registro/coleta de dados. Portanto neste primei-
ro momento, se desenvolveu o regulamento, os termos de atividades da
equipe e de contato com os pesquisadores e as planilhas de coleta que
tornassem possível, posteriormente, a preparação do relatório descritivo
necessário para encaminhamento de pedidos de registro ao INPI.
Para uma segunda fase, foram levantadas as teses e dissertações entre
os anos de 2001 a 2020, que totalizaram 417 (quatrocentos e dezessete)
documentos entre os programas de mestrado e doutorado e ainda as pro-
duções realizadas pelos docentes do PPGCI em processo de livre-docência
e pós-doutorado.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
213
No período da pandemia de COVID-19, o CERPII suspendeu as
suas atividades retornando no ano de 2022, em uma terceira fase, com a
análise de mais de 118 (cento e dezoito) relatórios de pesquisa e com al-
gumas alterações no trabalho realizado, agora contando com ferramentas
tecnológicas mais avançadas.
No contexto da elaboração de uma ferramenta que pudesse auxiliar
na coleta dos dados, foram desenvolvidas planilhas com as informações re-
ferentes às dissertações e outra das teses produzidas pelo Programa de Pós-
graduação em Ciência da Informação da Faculdade de Filosofia e Ciências
e depositadas no repositório institucional da Unesp entre os anos de 2022
e 2024. As planilhas concentram dados como o nome do trabalho, autores,
orientadores, ano de defesa, palavras-chave, o texto e o resultado da análi-
se realizada por inteligência artificial, que recebeu treinamento de acordo
com os parâmetros do INPI para identificar o potencial de registro das
produções acadêmicas.
A análise foi realizada através da alimentação da IA com os textos
encontrados e o seguinte prompt: "Analisar documento em anexo e utilizar
5 agentes em 3 rodadas". Cada agente avaliou os diferentes aspectos de
propriedade intelectual, e a cada rodada, eram apresentados e revisados os
potenciais elementos de PI e inovação. Ao final, os relatórios da conclusão
da análise eram disponibilizados, com os aspectos encontrados, recomen-
dações e possibilidades de registro.
Ao todo, nesta terceira fase, foram encontradas 87 (oitenta e sete)
teses e 72 (setenta e duas) dissertações no repositório. No entanto, somente
66 (sessenta e seis) teses e 51 (cinquenta e uma) dissertações foram subme-
tidas à análise, pois trata-se dos trabalhos que possuíam disponibilização
online do material completo na base de dados consultada. Os relatórios
analisados foram divididos em três categorias: potencial de registro, sem
potencial e potencial parcial, como demonstrado no Gráfico 1.
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
214
Gráfico 1  Identificação dos relatórios analisados
Fonte: Elaborado pelos autores.
Dentre as produções com potencial de registro, a inteligência artifi-
cial sugeriu possibilidades de inovação em cinco tipos de registros de pro-
priedade intelectual diferentes: Programa de computador, patente, mar-
ca, desenho industrial e indicação geográfica, sendo que um mesmo texto
pode ter potencial para ser registrado em mais de uma categoria indicada.
Gráfico 2  Evolução e Identificação por áreas INPI das pesquisas do
PPGCI
Fonte: Elaborado pelos autores.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
215
O CERPII destaca-se assim como um centro de excelência, proje-
tando o seu crescimento (gráfico 2), alcançando os seus objetivos e tornan-
do evidente a importância da pesquisa e de seu impacto e resultados para
a área da Comunicação e Informação na CAPES, bem como da consolida-
ção de programas de pós-graduação referenciais em suas áreas de atuação.
Sua pretensão é a expansão destas ações para outras universidades e institu-
tos que atuem com a pesquisa no campo da Ciência da Informação.
4 USO DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E SISTEMAS
MULTIAGENTES NA IDENTIFICAÇÃO DE REQUISITOS
INFORMACIONAIS PARA REGISTROS DE PROPRIEDADE
INTELECTUAL: O CASO DO ANALISTA CERPII
A inovação advinda da pesquisa acadêmica desempenha um papel
essencial no desenvolvimento científico e tecnológico, impulsionando o
avanço do conhecimento e a criação de novas tecnologias. Contudo, um
desafio enfrentado por universidades e centros de pesquisa está na iden-
tificação de trabalhos acadêmicos com potencial para registro de pro-
priedade intelectual. Normalmente, essa análise é conduzida de forma
manual, exigindo tempo e recursos significativos. Esse processo manual
é moroso e sujeito a subjetividades (Moura; Russo, 2014). Dornbusch et
al. (2012) destacam que instituições acadêmicas frequentemente gastam
meses nesse trabalho, o que pode levar à perda de oportunidades impor-
tantes de inovação.
Com a crescente necessidade de otimizar a identificação de trabalhos
com potencial inovador, a aplicação de Inteligência Artificial surge como
uma alternativa promissora para automatizar e aprimorar esse processo.
O uso de modelos de IA permite a análise em larga escala de documentos
acadêmicos, possibilitando a extração de informações relevantes e a classi-
ficação automática de inovações de acordo com critérios estabelecidos pelo
Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI, 2023).
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
216
Algumas técnicas com uso da IA incluem tomada de decisão, reco-
nhecimento de padrões, compreensão de linguagem natural e aprendizado
contínuo. Desde suas origens, a IA evoluiu significativamente, impulsio-
nada pela disponibilidade de grandes volumes de dados, o aumento da
capacidade computacional e os avanços em algoritmos de aprendizado de
máquina (Russell; Norvig, 2021).
Neste sentido, uma das abordagens que se destaca pela eficiência na
solução de problemas complexos é a arquitetura multiagente. Trata-se de
um conjunto de agentes inteligentes que trabalham de forma colaborativa
e autônoma para alcançar um objetivo comum. Cada agente possui capaci-
dades específicas, agindo de maneira independente, mas cooperando entre
si para melhorar a precisão e a robustez das análises realizadas. No cenário
acadêmico e científico, onde o volume de dados cresce exponencialmente e
a necessidade de identificar elementos inovadores se intensifica, essa arqui-
tetura torna-se uma alternativa viável e eficaz (Bazzan, 2010).
O sistema multiagente, denominado como "Analista CERPII" foi
desenvolvido com base nesse conceito, utilizando IA e sistemas compostos
por entidades autônomas inteligentes para avaliar elementos inovadores
em trabalhos acadêmicos junto ao CERPII, vinculado ao Programa de Pós-
Graduação em Ciência da Informação da Universidade Estadual Paulista,
campus de Marília.
O sistema fornece recomendações estruturadas para adequação dos
textos ao padrão exigido para registro de propriedade intelectual, de acor-
do com as normas e procedimentos do INPI (INPI, 2023), aprimorando
significativamente o processo de análise de inovação acadêmica. A estrutu-
ra e o funcionamento do Analista CERPII foram concebidos para otimizar
a identificação de requisitos informacionais e melhorar a eficiência na aná-
lise de potenciais registros de propriedade intelectual.
A Inteligência Artificial aplicada nesse contexto pode ser compre-
endida como o desenvolvimento de sistemas que buscam simular aspec-
tos da inteligência humana, incluindo raciocínio, tomada de decisão e
aprendizado. Isso inclui subáreas como o Processamento de Linguagem
Natural (PLN) e o Aprendizado de Máquina (Machine Learning), que são
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
217
fundamentais para a compreensão e análise de grandes volumes de texto
acadêmico (Goodfellow; Bengio; Courville, 2016). O Processamento de
Linguagem Natural refere-se à capacidade dos sistemas de interpretar e
compreender textos escritos e falados em linguagem natural, possibilitan-
do a extração automática de informações relevantes. O Aprendizado de
Máquina, por sua vez, abrange algoritmos que aprendem a partir de exem-
plos e experiências anteriores, ajustando suas ações com base nos dados
coletados (Bishop, 2006).
Sistemas multiagentes têm sido aplicados com sucesso em contex-
tos similares, como a análise automatizada de sistemas de recomendação,
classificação automática de artigos científicos e gestão inteligente de conhe-
cimento organizacional (Gallardo; Ávila, 2008). Esses sistemas são uma
abordagem que permite a cooperação entre diferentes agentes inteligentes,
que atuam de maneira autônoma e colaborativa para resolver problemas
complexos. Cada agente tem características próprias, como autonomia
para agir sem intervenção direta, percepção do ambiente para captar in-
formações relevantes, raciocínio para tomar decisões com base nos dados
coletados e interatividade para se comunicar com outros agentes e otimizar
os resultados (Wooldridge, 2009).
No caso do Analista CERPII, a estrutura multiagente foi desenvol-
vida para que diferentes agentes executem tarefas específicas no processo
de análise de inovação no contexto da produção acadêmica. Cada agente é
identificado sequencialmente e atua de maneira autônoma, mas acessa as
contribuições dos demais para refletir e aprimorar suas próprias análises.
A arquitetura do sistema permite que o usuário configure a quantidade de
agentes e o número de rodadas de debate e refinamento, garantindo que o
resultado reflita uma visão integrada e colaborativa.
A criação de sistemas multiagentes requer o uso de modelos mate-
máticos e algoritmos que coordenam as ações dos agentes, assegurando
que as soluções propostas sejam otimizadas e coerentes. A implementação
pode ser feita por meio de frameworks e linguagens de programação que
suportam a modelagem de agentes, como Python, combinando técnicas de
aprendizado profundo e redes neurais (Russell; Norvig, 2021). No Analista
CERPII, os agentes foram configurados para atuar em etapas consecutivas,
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
218
desde a coleta de dados acadêmicos até a geração de relatórios com reco-
mendações estruturadas.
O impacto da utilização de IA multiagente no processo em questão
é significativo, pois permite uma análise detalhada e automatizada. A abor-
dagem multiagente aumenta a escalabilidade do sistema, possibilitando a
análise simultânea de grandes volumes de documentos, garantindo maior
precisão e eficiência na detecção de inovações com potencial para registro
de propriedade intelectual. Dessa forma, o sistema fortalece a gestão da
propriedade intelectual junto ao CERPII, promovendo uma cultura de
valorização do conhecimento produzido e incentivando a proteção de cria-
ções tecnológicas.
A aplicação da arquitetura multiagente permite a integração entre o
uso de técnicas de processamento de linguagem natural e aprendizado de
máquina, proporcionando um modelo replicável para outras instituições
interessadas na automação de processos de inovação. Dessa forma, o uso
da IA multiagente no Analista CERPII amplia a capacidade de análise,
bem como, oferece suporte informacional para a tomada de decisão sobre
registros de propriedade intelectual, contribuindo para o fortalecimento da
cultura de inovação no ambiente acadêmico.
4.1 REQUISITOS INFORMACIONAIS NA IDENTIFICAÇÃO DE INOVAÇÃO NA
PRODUÇÃO ACADÊMICA
A identificação de requisitos informacionais é uma etapa essencial
na gestão e organização da informação e do conhecimento, especialmente
quando aplicada ao reconhecimento de inovações em produções acadêmi-
cas (Choo, 2006). Para que um trabalho possa ser considerado inovador e
tenha potencial de registro como propriedade intelectual, é necessário que
ele atenda a critérios específicos, como os estabelecidos pelo INPI. Esses
critérios incluem a novidade, a atividade inventiva e a aplicação industrial,
sendo fundamentais para que uma inovação seja protegida legalmente
(INPI, 2023).
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
219
No contexto da análise de trabalhos acadêmicos, os requisitos infor-
macionais podem ser divididos em três eixos principais. O primeiro eixo
envolve a extração de elementos textuais dos documentos, incluindo pa-
lavras-chave indicativas de inovação, como "nova abordagem" e "método
inédito", além da análise de seções como resumo, introdução, metodologia
e resultados. O segundo eixo diz respeito à comparação da tese ou disser-
tação com bases de dados de patentes, permitindo a verificação da simila-
ridade entre o trabalho acadêmico e registros já concedidos, o que auxilia
na avaliação da sua originalidade (Geuna; Nesta, 2006). O terceiro eixo
compreende a classificação e recomendação do tipo de propriedade inte-
lectual mais adequado para cada trabalho analisado, como patente, marca
ou desenho industrial, além de sugestões automatizadas para adequação do
documento aos padrões do INPI.
A estruturação desses requisitos permite acelerar o processo de aná-
lise e aumentar a precisão na identificação de potenciais inovações. Ao in-
tegrar um sistema automatizado para essa triagem, é possível mitigar falhas
humanas e garantir maior eficiência na detecção de criações passíveis de
proteção intelectual (Choo, 2005).
4.2 ARQUITETURA DO ANALISTA CERPII E USO DE IA MULTIAGENTE
A Inteligência Artificial Multiagente é uma abordagem em que dife-
rentes sistemas interagem e colaboram para resolver problemas complexos
de maneira distribuída. O Analista CERPII adota esse conceito ao integrar
múltiplos agentes especializados na análise de inovação acadêmica. Esses
agentes trabalham de forma interdependente, processando informações
extraídas de teses e dissertações, refinando suas análises e aprimorando a
qualidade da avaliação (Russell; Norvig, 2021).
O funcionamento do sistema ocorre por meio de três etapas prin-
cipais. A primeira etapa corresponde à extração e estruturação dos dados,
em que o Agente Coletor acessa repositórios acadêmicos e recupera docu-
mentos para análise, enquanto o Agente de Análise Semântica emprega
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
220
técnicas de Processamento de Linguagem Natural (PLN) para identificar
elementos textuais relevantes. A segunda etapa envolve a classificação e
priorização dos trabalhos acadêmicos, em que o Agente Classificador ava-
lia o grau de inovação de cada documento, considerando os critérios do
INPI, e o Agente de Similaridade realiza comparações com bases de pa-
tentes (Cockburn; Henderson; Stern, 2018). Na terceira etapa ocorre o
refinamento e a geração de relatórios, em que o Agente de Recomendação
estrutura um parecer detalhado sobre o potencial de patenteabilidade do
trabalho, enquanto o Agente de Sugestões fornece ajustes para que a reda-
ção do documento esteja alinhada aos padrões do INPI.
A escolha das técnicas de PLN e aprendizado de máquina aplicadas
no Analista CERPII baseou-se em sua eficiência comprovada em trabalhos
anteriores (Goodfellow; Bengio; Courville, 2016; Bishop, 2006; Russell;
Norvig, 2021; Gallardo; Ávila, 2008) e na capacidade de integração com
bases de dados especializadas como as do INPI, possibilitando maior pre-
cisão e coerência na análise das informações extraídas.
Além das funcionalidades descritas, o Analista CERPII possui integra-
ção direta com bases de dados do INPI, permitindo buscas automatizadas
na Revista da Propriedade Industrial e em repositórios de patentes nacionais
e internacionais. Essa conexão possibilita uma análise da originalidade dos
trabalhos acadêmicos, reduzindo a incidência de recomendações imprecisas
e garantindo que as inovações identificadas sejam de fato inéditas.
O sistema proposto contribui diretamente para a gestão da infor-
mação e do conhecimento ao estruturar informações dispersas e poten-
cialmente inovadoras, facilitando sua conversão em ativos intelectuais
protegidos. Essa abordagem está alinhada à perspectiva sobre organizações
intensivas em conhecimento destacada por Choo (2005).
5 CONCLUSÃO
A utilização de IA multiagente na identificação de requisitos infor-
macionais para registro de propriedade intelectual representa um avanço
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
221
significativo na maneira como inovações identificadas em produções aca-
dêmicas são analisadas e protegidas. O Analista CERPII, ao automatizar
esse processo, contribui para a redução do tempo de análise e aumenta a
precisão na detecção de inovações, otimizando a gestão da propriedade
intelectual em universidades e centros de pesquisa.
A integração do sistema com bases de dados do INPI e sua capa-
cidade de fornecer recomendações estruturadas tornam essa ferramenta
um modelo replicável para outras instituições interessadas em aprimorar
seus processos de avaliação de inovação. Como perspectiva futura, reco-
menda-se a ampliação do escopo de análise do sistema para outras áreas
do conhecimento, além do aprimoramento do uso de IA generativa para
fornecer descrições mais detalhadas e contextualizadas sobre as inovações
detectadas.
A implementação da IA multiagente na análise de inovação acadê-
mica não apenas fortalece a identificação e proteção de criações originais,
mas também fomenta um ambiente de maior conexão entre o setor acadê-
mico e a indústria, impulsionando o potencial de transformação tecnoló-
gica e científica.
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224
225
Recursos Humanos e Gestão do Conhecimento:
Uma abordagem por meio do Business Partner RH
Vanessa Aparecida Dias Ferreira
Ieda Pelógia Martins Damian
1 INTRODUÇÃO
Em um contexto de transformações constantes, impulsionadas prin-
cipalmente pelos avanços tecnológicos e por um consumidor cada vez mais
exigente, as organizações contemporâneas precisam se reinventar e inovar
continuamente para manter sua competitividade.
Nesse sentido, Haskel e Westlake (2024) destacam que, na dinâmica
atual do mundo dos negócios, com tudo cada vez mais acessível ao consu-
midor final, uma diferenciação organizacional baseada exclusivamente em
ativos tangíveis já não é suficiente. Dessa forma, a integração e o fortaleci-
mento dos ativos intangíveis como o capital intelectual tornam-se fatores
estratégicos, uma vez que esses ativos possuem uma maior capacidade de
crescimento nas organizações.
Para Nonaka e Takeuchi (2008), o capital intelectual desempenha um
papel estratégico na evolução organizacional, configurando-se como uma
vantagem crucial para a sustentabilidade das organizações. Quando o co-
nhecimento passa de sua forma tácita para explícita, ou seja, quando se torna
https://doi.org/10.36311/2026.978-65-5954-676-3.p225-247
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
226
acessível e compartilhável no ambiente organizacional, se transforma em um
ativo fundamental para o desenvolvimento contínuo da organização.
Por se tratar de um recurso estratégico para a organização, a imple-
mentação da Gestão do Conhecimento, enquanto processo estruturado
voltado à identificação, organização, compartilhamento e aplicação do co-
nhecimento, torna-se fundamental para assegurar que o conhecimento que
gera valor ao negócio seja devidamente gerido e contribua para os objetivos
organizacionais. Hoffmann (2018) explica que gerenciar esse capital signi-
fica estabelecer conexões contínuas entre as pessoas, suas vivências e o meio
organizacional, impulsionando a troca e a construção do conhecimento.
Um setor que contribuir nesta conexão entre pessoas e objetivos or-
ganizacionais é o Recursos Humanos (RH). A área tem evoluído em sin-
tonia com as mudanças no ambiente organizacional. Segundo Chiavenato
(2025), o RH deixou de ter uma função predominantemente operacional
e administrativa para ocupar um papel estratégico, participando de fóruns
decisórios e tomada de decisões sobre o negócio.
Contribuindo para a transição estratégica da área de Recursos
Humanos, Ulrich (1998) propôs o modelo de atuação Business Partner de
RH. Essa abordagem visa fortalecer o papel estratégico da área nas organi-
zações, por meio da estruturação de subsistemas que possibilitam ao RH
atender, de forma integrada, tanto às demandas operacionais quanto às
necessidades estratégicas da organização.
Sendo assim, este estudo apresenta a seguinte questão de pesquisa:
Quais são os pontos de convergência entre a Gestão do Conhecimento e o
modelo Business Partner RH?
O objetivo geral deste estudo é identificar pontos de convergência
entre a Gestão do Conhecimento e o Business Partner RH. Entre os objeti-
vos específicos, pretende-se: 1) Descrever os principais conceitos da Gestão
do Conhecimento e sua relevância nas organizações e 2) Compreender o
modelo Business Partner de RH no ambiente organizacional.
A relevância deste estudo reside na necessidade contínua de identi-
ficar abordagens que contribuam para a sustentação da competitividade
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
227
organizacional em contextos marcados pela complexidade. Nesse cená-
rio, a Gestão do Conhecimento e o modelo Business Partner de Recursos
Humanos emergem como propostas que, ao atuarem sobre ativos intangí-
veis, podem agregar valor às organizações. Assim, este estudo propõe uma
revisão teórica dos fundamentos dessas abordagens.
2 O BUSINESS PARTNER RH
Na contemporaneidade, o departamento de Recursos Humanos tem
se tornado, cada vez mais, um pilar estratégico das organizações, à medida
que avançam no entendimento de que as pessoas são promotoras de inova-
ção e vantagem competitiva.
O modelo Business Partner de Recursos Humanos (BPRH) foi po-
pularizado pelo autor estadunidense Dave Ulrich (1998) como uma abor-
dagem estratégica para alinhar o RH aos objetivos organizacionais, estimu-
lando a construção de uma área que desenvolve e implementa políticas e
práticas com base nos desafios do negócio.
Ulrich et al. (2011) destacam uma abordagem de atendimento no
RH que garante que as atividades estruturantes da área sejam mantidas
e alinhadas ao papel do Business Partner RH que atua de forma proativa,
focando no resultado organizacional. Segundo os autores, o BPRH repre-
senta uma mudança significativa na forma como a atuação do RH é plane-
jada. Esse modelo é descrito como um processo de transformação da área,
redefinindo o seu papel dentro da organização.
Na implementação do modelo, são necessárias quatro etapas que
direcionam a área para um nível mais estratégico (Figura 1).
De acordo com a Figura 1, a fase "Contexto do Negócio" visa direcio-
nar o RH, através do conhecimento acerca das estratégias da organização e
de seus principais stakeholders como clientes, funcionários e investidores. A
área de RH se posiciona mais alinhada aos interesses da organização, além
de melhorar suas entregas, ou seja, para Ulrich et. al. (2011, p. 27), "[...]
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
228
quando ela se conecta com o contexto do negócio, é mais provável que se
sustente, porque responde às necessidades reais".
Segundo os autores, o Contexto do Negócio clarifica onde o RH
deve direcionar esforços de atuação e sua contribuição na organização.
Quando comparado ao RH tradicional, nota-se que a diferença é o pon-
to de partida da área na sua organização: enquanto o modelo BPRH
inicia sua modelagem, ou redesenho a partir da análise do negócio, o
modelo tradicional parte da sua própria necessidade para, então, se co-
nectar ao negócio.
Figura 1  Modelo de Transformação do RH
Fonte: Ulrich et al. (2011, p.22)
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
229
Neste processo de transformação do RH, um elemento-chave é a
fase denominada Resultado, que integra o modelo e representa o valor efe-
tivamente entregue pela área à organização, com foco em uma abordagem
alinhada às estratégias do negócio. Neste sentido, Armstrong (2014) desta-
ca a importância de o RH ter capacidade de gerar valor para a organização,
sendo visto como essencial na construção das estratégias.
Em decorrência disso, as etapas Redesenho do RH e Responsabilidades
de RH, destacadas por Ulrich et al. (2011), são moldadas pelas necessida-
des do negócio, influenciando diretamente a forma como são estruturadas
na organização.
Madsen e Slatten (2022) reforçam que o objetivo da transformação
do RH é aumentar a visibilidade da área, destacando sua relevância estraté-
gica, além de aprimorar a eficiência de seus processos, organizando ativida-
des rotineiras e dedicando mais tempo à discussão relacionada ao negócio.
A estrutura geral da área de RH, conforme o modelo da Transformação
do RH de Ulrich et al. (2011), é composta por cinco subsistemas: "Centros
de Serviço", "RH Corporativo", "RH Integrado", "Centro de Expertise" e
"Executores Operacionais". O primeiro subsistema, "Centros de Serviço",
é responsável pela padronização do RH. Esta unidade, segundo Ulrich et
al. (2011), é responsável por oferecer suporte padronizado em atividades
administrativas e operacionais do RH para toda a organização.
O segundo subsistema, "RH Corporativo", é definido pelos autores
como o canal responsável pela estratégia e governança da área de Recursos
Humanos. Gerencia as diretrizes do setor de RH, orientando o desenvolvi-
mento de políticas, práticas e demais soluções de RH alinhadas às deman-
das do negócio.
Já o subsistema "RH Integrado" refere-se à atuação de profissionais
generalistas de RH, que possuem conhecimentos abrangentes sobre todos
os subsistemas e suas interrelações. Esses profissionais, conhecidos como
parceiros de negócios, segundo Conforto (2019), trabalham diretamente
com os principais líderes e setores da organização, assegurando a integra-
ção das estratégias entre o RH e a organização.
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
230
O "Centro de Expertise", de acordo com Ulrich e Brockbank (2009),
é composto por equipes especializadas em áreas-chave do RH, como re-
crutamento e seleção, desenvolvimento organizacional, contribuições e
inovação em práticas de gestão de pessoas. Nessa estrutura, os especialistas
atuam oferecendo soluções alinhadas às necessidades do negócio.
Os “Executores Operacionais”, de acordo com Ulrich et al. (2011),
são responsáveis pelo cumprimento de processos administrativos e opera-
cionais do RH, garantindo eficiência, padronização e conformidade com
políticas internas. Atuam no suporte ao centro de serviços compartilhados,
gerenciam atividades como folha de pagamento, benefícios e admissões,
permitindo que os Parceiros de Negócio e os Centros de Expertise foquem
em questões estratégicas. Dessa forma, garantem o funcionamento contí-
nuo e estruturado da área de Recursos Humanos.
Para Stevens (2015), um aspecto fundamental nessa atuação do RH
mais alinhada ao negócio é a análise da estrutura organizacional, uma vez
que o desenho da área deve refletir as características da organização à qual
está inserido, considerando o tipo de negócio, seus objetivos e estratégias.
Holley (2015) complementa que o modelo Business Partner RH
adota abordagens inovadoras para o desenvolvimento da capacidade orga-
nizacional e do capital humano, promovendo a construção de estratégias
alinhadas ao desenvolvimento organizacional.
O mesmo autor indica que o diferencial do modelo BPRH de uma
abordagem tradicional de RH é o posicionamento consultivo, centrado no
negócio, atuando diretamente com a liderança organizacional, enquanto
no modelo tradicional a atuação é mais centralizada, operacional e deixa
lacunas em relação às necessidades da organização.
Para Ulrich et al. (2011), o papel do BPRH é atuar estrategicamente
nas discussões sobre o negócio, mantendo presença ativa junto às princi-
pais lideranças. Além disso, cabe a esse profissional representar os interesses
dos colaboradores em processos de mudança, selecionar práticas de RH
alinhadas à estratégia organizacional e acompanhar indicadores que ava-
liem os resultados dos investimentos realizados na área.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
231
Sendo assim, o papel do RH caminha junto à evolução das orga-
nizações, tendo em vista que a atuação como um parceiro de negócio, de
acordo com Chiavenato (2025), promove uma melhor integração do RH
no ambiente que está inserido. Nesse contexto, o conhecimento organiza-
cional desempenha um papel essencial, contribuindo com práticas e pro-
cessos que ampliam a capacidade do RH frente as necessidades estratégicas
da organização.
3 O CONHECIMENTO NAS ORGANIZAÇÕES
Atualmente, o conhecimento é reconhecido como uma vanta-
gem competitiva e um ativo intangível das organizações. Somado a isso,
Chiavenato (2025) enfatiza o papel das pessoas na construção do conhe-
cimento, destacando-as como promotoras de inovação. Quando aliadas às
tecnologias, as pessoas possuem a capacidade de garantir a sustentabilidade
dos negócios, enfrentando e superando os desafios ao longo dos anos.
O autor enfatiza que a diversificação de produtos e a exploração de
novos mercados depende diretamente do conhecimento das pessoas. Além
disso, o conhecimento é fundamental para embasar a tomada de decisão e
os avanços organizacionais.
Fadel et al. (2010) e Jorge (2013) colaboram na definição de co-
nhecimento, destacando que a base para sua formação nas corporações é a
informação, que representa um insumo fundamental para as atividades e
operações realizadas, independentemente de sua natureza e objetivos. Para
que essa informação se transforme em conhecimento, ela deve ser apreen-
dida pelo sujeito, que a processa em seu cognitivo.
Este processo de transformação da informação em conhecimento,
de acordo com Davenport e Prusak (2003), pode ser configurado atra-
vés de quatro elementos-chave: comparação, consequências, conexões e
conversações.
Segundo os autores, a comparação permite assimilar se a informação
do cenário atual já foi utilizada anteriormente, identificando suas consequ-
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
232
ências nos processos de tomada de decisão do ambiente onde está inserido.
Além disso, destaca-se a importância de questionar as conexões entre o
conhecimento atual e o previamente estabelecido. Por fim, ressalta-se a
possibilidade de conversações que identifiquem percepções entre o conhe-
cimento atual e a visão de outras pessoas.
Nonaka e Takeuchi (2008) colaboram no conceito de conhecimen-
to, destacando que o seu desenvolvimento só acontece quando os indiví-
duos participam ativamente da estruturação de sua construção. Os autores
destacam, em sua teoria, que a construção do conhecimento ocorre por
meio da conversão entre conhecimentos tácito e explícito, um mecanismo
fundamental para a criação do conhecimento organizacional. Este pro-
cesso é apresentado pelo modelo "SECI", um acrônimo para as etapas de
"Socialização", "Externalização", "Combinação" e "Internalização", con-
forme ilustrado na Figura 2.
Figura 2  Modelo SECI
Fonte: Nonaka e Takeuchi (1995, p. 24)
Para os autores, o conhecimento tácito é exclusivo ao indivíduo que
o detém, e o conhecimento explícito resulta da transformação do primeiro
e se torna acessível a todos. O conhecimento explícito é aquele que é or-
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
233
ganizado e disponibilizado, permitindo que seja acessado e compartilhado
por qualquer pessoa.
Ao detalhar o modelo SECI de conversão de conhecimento descrito
na Figura 2, Nonaka e Takeuchi (1995) definem "Socialização" como um
processo que ocorre através de trocas entre os indivíduos da organização,
em momentos que o compartilhamento de experiências promove diálogos
e aprendizados entre os membros da equipe. Na "Externalização", con-
cretiza-se e se estrutura de forma tangível o conhecimento. Já no processo
de "Combinação", a partir da percepção, cria-se uma apropriação, permi-
tindo uma estruturação para aplicação do conhecimento. Favorecendo a
"Internalização", que enriquece e mantém ativo o conhecimento tácito,
introjetado e combinado com emoções, crenças e vivências do indivíduo.
Choo (2003) reforça a importância da construção do conhecimento
de forma coletiva, em vez de individual, principalmente quando compre-
endida a importância do conhecimento explícito para o ambiente organi-
zacional, sendo que o conhecimento não é uma construção isolada, mas
resultado de um processo colaborativo entre membros internos e externos
à organização.
Ainda segundo o autor, a troca de informações, experiências e pers-
pectivas entre diferentes indivíduos e grupos contribui para a criação de
um conhecimento mais robusto e abrangente, essencial para a inovação e a
adaptação organizacional.
Assim, a implantação da gestão do conhecimento na organização é
essencial para que o conhecimento possa permanecer ativo e construtivo
para a estratégia do negócio.
4 GESTÃO DO CONHECIMENTO
No cenário contemporâneo, muitas mudanças adentram as orga-
nizações, sejam elas por fatores internos como redefinição de estraté-
gias ou por influência do ambiente externo, como política, economia,
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
234
os avanços tecnológicos e situações pandêmicas, como a COVID-19
(Muniz et al., 2021).
Dessa forma, nota-se que liderar uma organização em ambientes
cada vez mais incertos, exige que os melhores ativos sejam alocados na
construção de estratégias que aumentem a competitividade e a sustenta-
bilidade. Arora (2002) destaca o conhecimento como fundamental para a
evolução organizacional.
O conhecimento gerenciado pela organização favorece a adoção de
novas abordagens, práticas inovadoras e conexões estratégicas. Além de
mobilizar as pessoas para o sucesso organizacional, Valentim (2008) acres-
centa que a qualidade do ambiente organizacional é um facilitador para
que as atividades relacionadas à Gestão do Conhecimento contribuam
para o desenvolvimento e a evolução da organização.
Neves e Cerdeira (2018, p. 7-8) destacam que a Gestão do
Conhecimento,
[...] é um processo que promove o fluxo do conhecimento entre
indivíduos e grupos na organização, podendo ser descrito por
uma sequência de quatro grandes etapas essenciais: aquisição,
armazenamento, distribuição e utilização do conhecimento.
Concretamente, a Gestão do Conhecimento inclui o
desenvolvimento articulado de metodologias, ferramentas,
técnicas e valores organizacionais para promover o fluxo de
conhecimento entre os indivíduos e a recuperação, transformação
e utilização deste conhecimento em atividades de melhoria e
de inovação. Gerir o conhecimento numa organização permite
recolher o que os elementos coletivamente sabem, aprenderam e
se lembram do que correu bem, do que não resultou, das lições
aprendidas e a sua reutilização nas práticas diárias e futuras,
nomeadamente nos processos de tomada de decisão ou de
desenvolvimento de novos projetos.
Seguindo o raciocínio dos autores citados acima, percebe-se
que sem a presença das pessoas não seria possível instituir a Gestão do
Conhecimento, sendo que é por meio delas que todo o processo é consti-
tuído. Ao compreender tal dinâmica, Ottonicar et al. (2019) afirmam que
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
235
a Gestão do Conhecimento abrange diversas fases e ações que, quando
combinadas, ampliam a possibilidade de uso do conhecimento organiza-
cional, seja para a execução das ações rotineiras da organização, como para
a tomada de decisões estratégicas.
Sobre o processo de Gestão do Conhecimento, Teixeira Filho (2000,
p. 157) destaca que,
As principais atividades relacionadas à Gestão do Conhecimento,
em geral, são: compartilhar o conhecimento internamente;
atualizar, processar e aplicar o conhecimento para algum benefício
organizacional; encontrar o conhecimento internamente, adquiri-
lo externamente e reutilizá-lo; criar novos conhecimentos e
compartilhá-los com a comunidade externa à empresa.
Arora (2002) afirma que, ao se estabelecer a Gestão do Conhecimento
na organização, o conhecimento torna-se gerenciável e evolutivo, o que
contribui para mitigação do retrabalho e estimula a inovação e o fluxo
contínuo do conhecimento organizacional.
Nesta perspectiva, Terra (2005) enfatiza a necessidade de estabelecer
objetivos claros para a aplicação da Gestão do Conhecimento, garantindo
sua integração às estratégias organizacionais para promover a aquisição,
aplicação e desenvolvimento do conhecimento no ambiente corporativo.
O autor aponta que esse processo exige um compromisso contínuo com a
melhoria e a reavaliação dos processos organizacionais, além do monito-
ramento de elementos essenciais para a geração de valor ao negócio, como
dados, informações e conhecimentos chave.
Soriano et al. (2017) elucidam que um ambiente organizacional que
aplica a gestão do conhecimento resulta em uma melhoria organizacional,
além de promover a preservação e uso adequado do conhecimento gerado
e compartilhado internamente.
Hoffman (2016) complementa que, com a intenção de tornar fluído
o conhecimento na organização, amplia-se as possibilidades de trocas de
experiências entre as pessoas, fomentando ambientes favoráveis para a cria-
ção do conhecimento e da inovação.
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
236
Valentim (2007) ressalta que as organizações constantemente tomam
decisões, sendo estas cada vez mais rápidas e demandantes de informação e
conhecimento como elementos-chave neste processo. Outro fator relevan-
te, ainda segundo a autora, é que o conhecimento organizacional é mais
bem gerido por organizações que utilizam a GC como modelo de gestão.
A exemplo disso, Feng et al. (2022, p. 2) elucidam que,
[...] GC pode facilitar práticas inovadoras ao transformar ativos
de conhecimento em novos produtos e serviços com base em
uma série de atividades de gestão. Ela pode promover a troca e
o compartilhamento de conhecimento necessário para atividades
inovadoras, estimulando assim a geração de novas ideias e, em
última análise, melhorando o desempenho da inovação.
Considerando o potencial da Gestão do Conhecimento para im-
pulsionar práticas inovadoras e aprimorar o desempenho organizacional, é
pertinente compreender se há pontos convergentes entre GC e áreas que
lidam com ativos intangíveis como recursos estratégicos. Um exemplo rele-
vante é a área de Recursos Humanos, especialmente sob a ótica do modelo
de Business Partner de RH.
5 GESTÃO DO CONHECIMENTO E O MODELO BPRH:
PONTOS CONVERGENTES
Nas organizações, as pessoas são detentoras de um recurso essen-
cial para a inovação e a transformação organizacional: o conhecimento.
Segundo Chiavenato (2025), no entanto, esse conhecimento só se torna
um diferencial competitivo quando aqueles que o possuem estão dispostos
e têm condições de externalizá-lo, tornando esse ativo intangível acessível
e aplicável no âmbito organizacional.
De acordo com o mesmo autor, o RH é a área responsável pelo
gerenciamento de processos e atividades relacionadas às pessoas na orga-
nização, que busca, na atualidade, ampliar o repertório sobre as necessida-
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
237
des do negócio para, de forma intencional, integrar as pessoas à estratégia
organizacional.
Ao longo da história, a área de RH vivencia uma transição de estar
em uma posição de atividades funcionais, para exercer influência junto aos
líderes do negócio, na discussão dos objetivos estratégicos. Um modelo
que suporta esse posicionamento da área foi proposto por Ulrich (1998),
o Business Partner RH.
O modelo BPRH, segundo Ulrich et al. (2011), possibilita uma atu-
ação mais próxima às áreas de negócio, sem negligenciar a operação tran-
sacional da área, garantindo suporte aos profissionais que desempenham o
papel de BPRH.
Para os autores, compreender os desafios organizacionais e buscar so-
luções estratégicas para superá-los é essencial no modelo de BPRH. Nesse
sentido, abordagens como a GC podem aprimorar a contribuição ao mo-
delo de RH, favorecendo uma conexão mais efetiva entre a área e os obje-
tivos organizacionais.
Gloet (2006) explica que os estudos sobre a relação entre RH e GC
têm avançado nos últimos anos, reconhecendo que a GC pode fortalecer o
posicionamento do RH como uma área estratégica dentro das organizações.
Diante disso, Svetlik e Stavrou-Costea (2007, p. 201) reforçam que
RH e GC "compartilham atividades e objetivos comuns ao criar unidades
de trabalho, equipes, cooperação interfuncional, bem como fluxos de co-
municação, redes dentro da organização e através de suas fronteiras".
Gloet (2006) sugere uma relação entre GC e RH para que o conhe-
cimento tenha sua relevância destacada no RH, assim como possa ser sis-
tematizado para criação de valor. Em seu estudo, a autora organiza quatro
áreas que descrevem o papel do RH com as contribuições de GC, sendo:
Funções, Relacionamento, Foco Estratégico e Foco de Aprendizado.
Na seção Funções, a autora destaca as atividades descritas por Ulrich
(1998) e ressalta os múltiplos papéis do RH sugeridos pelo autor nas orga-
nizações. Para Ulrich (1998), o RH deve atuar como Parceiro Estratégico
na organização, aproximando-se do negócio para alinhar suas ações aos
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
238
objetivos organizacionais; como Especialista Administrativo, garantindo a
execução eficiente dos processos da área; como Defensor dos Funcionários,
compreendendo suas necessidades e mediando interesses com a organiza-
ção; e como Agente de Mudanças, respondendo rapidamente aos desafios
e influenciando a adoção das transformações organizacionais.
Ainda na seção Funções, Gloet (2006) não só destaca os múltiplos
papéis do RH descritos por Ulrich (1998), mas integra ao tema funções
do RH a visão de Lengnick-Hall e Lengnick-Hall (2003), que enfatizam
que o RH desempenha um papel essencial na construção e sustentação das
capacidades estratégicas.
Segundo Lengnick-Hall e Lengnick-Hall (2003, p. 188), a capaci-
dade estratégica é "obtida por meio de relacionamentos nos quais a criação
e troca de conhecimento constroem as capacidades individuais e organiza-
cionais necessárias para fornecer valor superior aos clientes".
Seguindo esta linha de raciocínio, os mesmos autores redefinem o
papel do RH na economia do conhecimento, ampliando sua atuação para
além das funções tradicionais, apresentando quatro novos papéis funda-
mentais para o profissional de RH: (1) Administrador do Capital Humano,
responsável por garantir que as competências organizacionais sejam forta-
lecidas através da prontidão das pessoas; (2) Facilitador do Conhecimento,
função que destaca a importância do RH na gestão assertiva do conhe-
cimento para a promoção do aprendizado e inovação; (3) Construtor de
Relacionamentos, reflete a importância do RH na relação entre indivíduos
e equipes, com foco na promoção da criação de comunidades e fortalecer
as trocas entre as pessoas da organização e (4) Especialista de Implantação
Rápida, tem o desafio de lidar com a complexidade de mercados dinâmi-
cos, onde a integração de informações, processos de negócios e estrutura
organizacional devem ser continuamente ajustados para oferecer soluções
ágeis diante das transformações organizacionais.
Na seção Relacionamentos, Gloet (2006) descreve a importância de
o RH construir relacionamentos em todas as esferas da organização, até
mesmo com ambiente externo, se for necessário, para a criação de valor
e capacidades organizacionais. A mesma autora destaca, na seção Foco
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
239
Estratégico, a necessidade constante de desenvolver o capital humano para
as necessidades do negócio, gerando vantagem competitiva. Da mesma
forma, a Seção Foco no Aprendizado promove, de forma intencional e
contínua, práticas para o desenvolvimento estratégico das pessoas.
Davenport e Prusak (2003) ressaltam que o conhecimento organi-
zacional não se limita à simples posse de informações, mas depende de sua
contextualização, interpretação e compartilhamento para gerar valor. Nesse
sentido, a Gestão do Conhecimento fornece os meios necessários para que
o BPRH capture, organize e dissemine conhecimento relevante, tornando
sua atuação mais integrada e alinhada às demandas organizacionais.
Hoffmann (2016, p. 36) compartilha alguns princípios de Gestão
do Conhecimento que corroboram para uma atuação diferenciada no mo-
delo de BPRH. A autora destaca como GC foca na utilização dos recur-
sos já existentes na organização, permitindo que as pessoas identifiquem e
apliquem as melhores práticas ao invés de desenvolverem algo que já existe.
Neste sentido, considerando que a relação entre conhecimento
e pessoas é inerente ao funcionamento organizacional, observa-se uma
convergência entre GC e BPRH, sendo que um dos papéis do BPRH,
segundo Miller (2017, p. 9), é "[...] fornecer as ferramentas, sistemas e
processos para permitir que os gerentes melhorem e obtenham o melhor
de sua equipe".
Outro fator de convergência entre o modelo de BPRH e a GC é o
foco no desempenho organizacional, uma vez que ambas as abordagens
atuam nesse pilar. Batista (2012, p. 32-33) indica que a GC é, "[...] um
método eficaz para melhorar o desempenho nas organizações".
Dessa forma, percebe-se que a atuação do modelo BPRH, ancorada
na GC, viabilizaria um ambiente de aprendizado contínuo e de inovação,
favorecendo a adaptação às transformações organizacionais e à otimização
do desempenho organizacional.
Importa destacar que o modelo de GC está diretamente ligado à atu-
ação da liderança. Segundo Terra (2005), o patrocínio da alta gestão é um
fator crítico de sucesso para a sustentação dos processos de GC. Da mesma
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
240
forma, a consolidação do modelo BPRH depende da atuação conjunta
com a liderança, que desempenha um papel essencial na legitimação e no
fortalecimento da abordagem.
Vale ressaltar que, no modelo BPRH, ajustar a atuação do profissio-
nal Business Partner para que ele se conscientize do seu papel como traba-
lhador do conhecimento fortaleceria sua performance. Davenport (2006,
p. 10) reforça que os "trabalhadores do conhecimento têm níveis elevados
de expertise, escolaridade ou experiência, e seu objetivo principal no tra-
balho envolve a criação, a distribuição ou a aplicação do conhecimento".
O autor ainda destaca que o trabalhador do conhecimento se po-
siciona de forma estratégica diante dos desafios, tomando decisões, pro-
pondo soluções e influenciando o ambiente organizacional. Para isso, esses
profissionais utilizam tanto o conhecimento adquirido quanto sua capa-
cidade contínua de aprendizado, garantindo que suas contribuições agre-
guem valor ao negócio.
Desta forma, observa-se uma correlação entre o trabalhador do co-
nhecimento e o profissional BPRH, uma vez que ambos desempenham
funções estratégicas nas organizações. Conforme apontam Alberton e
Mancia (2024), os profissionais Business Partner RH atuam no suporte
técnico aos líderes, contribuindo para potencializar a capacidade de entre-
ga da liderança na organização.
Sendo assim, ao explorar os pontos de convergência entre a Gestão do
Conhecimento e o modelo BPRH, observa-se que, para sustentar a atuação
do Business Partner como parceiro estratégico do negócio, os princípios da
GC tornam-se primordiais. Esses fundamentos contribuem para a tomada
de decisão, inovação, e a criação de valor no ambiente organizacional.
6 METODOLOGIA
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
241
Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa de natureza bibliográ-
fica, cuja finalidade é identificar pontos de convergência entre a Gestão do
Conhecimento e o modelo de atuação do Business Partner de RH.
Gil (2002, p. 44) descreve que a pesquisa bibliográfica "[...] é desen-
volvida com base em material já elaborado, constituído principalmente de
livros e artigos científicos".
A coleta de dados partiu de uma revisão bibliográfica, onde foram
empregados os descritores "gestão do conhecimento", "conhecimento or-
ganizacional", "modelos de gestão do conhecimento", "recursos humanos",
"modelo Business Partner RH" e "RH estratégico", todos estes descritores
também pesquisados em inglês para ampliar os resultados das buscas.
As bases de dados utilizadas para a revisão bibliográfica foram a Base
de Dados em Ciência da Informação (BRAPCI), Scientific Electronic
Library Online (Scielo), Elsiever, Proquest, Capes- Café e Plataforma
Sucupira, além de utilizar livros referências nos assuntos pesquisados.
A seleção das bases de dados foi fundamentada na relevância e quali-
dade das publicações e impacto significativo na área de estudo do presente
trabalho. Além disso, essas bases de dados abordam diretamente questões
relacionadas aos conteúdos desta pesquisa.
7 DISCUSSÃO
A revisão da literatura subsidiou a compreensão de que há pontos
convergentes entre a Gestão do Conhecimento e o Modelo Business Partner
RH. E que a GC é uma abordagem estratégica que colabora para uma área
de Recursos Humanos mais integrada ao negócio.
A composição dos pontos convergentes identificados neste estudo,
foram descritos na Figura 3.
Figura 3  Pontos Convergentes entre GC e BPRH
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
242
Fonte: Elaborado pelas autoras
A Figura 3 sintetiza os principais pontos de convergência entre a
Gestão do Conhecimento e o modelo de Business Partner RH, demons-
trando que ambos atuam em busca de contribuir com o desempenho
organizacional.
Primeiramente, destaca-se que as pessoas são reconhecidas como
recurso chave para a estratégia organizacional. Tanto a GC quanto o
modelo BPRH identificam o capital humano como diferencial competiti-
vo na organização, além deste ser fundamental na criação, uso e dissemi-
nação do conhecimento organizacional.
A busca pelo alinhamento com os objetivos organizacionais é um
princípio norteador tanto da GC quanto do BPRH. Ambas as abordagens
atuam para garantir que as ações derivadas de sua atuação, ocorram de
forma sinérgica com os objetivos estratégicos, visando a competitividade e
a sustentabilidade organizacional.
Outro aspecto relevante da relação entre GC e o modelo BPRH,
é a promoção do aprendizado contínuo e da inovação. Ambas as
abordagens buscam criar ambientes que favoreçam o desenvolvimento
de capacidades estratégicas, competências para responder com agilidade
às necessidades do mercado, mantendo-se, assim, competitivas. Neste
sentido, são subsídios para decisões estratégicas, sendo essencial para
que as respostas na organização sejam adequadas aos desafios, objetivos e
mudanças organizacionais.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
243
A promoção de ambientes colaborativos também é um elo im-
portante entre GC e BPRH. A colaboração é incentivada como meio de
potencializar a construção de conhecimento organizacional, ampliando es-
paços que promovam oportunidades de tornar o conhecimento explícito
e disponível a todos na organização. Nesse contexto, a liderança emerge
como fator crítico de sucesso, pois cabe aos líderes estimular a cultu-
ra de conhecimento, patrocinando a gestão do conhecimento e a discus-
são estratégica, incentivando as pessoas nas construções ou adequações
organizacionais.
Assim, a Figura 3 ilustra que a convergência entre a Gestão do
Conhecimento e o modelo Business Partner de RH direciona-se para um ob-
jetivo comum: a utilização do conhecimento como recurso essencial e estra-
tégico para a diferenciação organizacional. A articulação entre essas aborda-
gens suscita uma reflexão sobre as potencialidades que, ao serem exploradas
de forma integrada, podem gerar valor significativo para o negócio.
Além disso, na subseção "Gestão do Conhecimento e o Modelo
BPRH: Pontos Convergentes" deste estudo, ressaltam-se as contribui-
ções de Gloet (2006) e de Lengnick-Hall e Lengnick-Hall (2003), que
evidenciam a importância da interação entre Recursos Humanos e Gestão
do Conhecimento na construção de estratégias voltadas ao desempenho
organizacional. Os autores relatam ainda, a formulação da capacidade
estratégica e a necessidade de uma atuação dinâmica nas abordagens de
gestão, em resposta à crescente velocidade das transformações no am-
biente organizacional.
Destaca-se também a importância do papel do profissional Business
Partner de RH, que se posiciona como um trabalhador do conhecimento,
conceito desenvolvido por Davenport (2006), caracterizando profissionais
que atuam de forma ativa na criação, aplicação e disseminação de conheci-
mentos estratégicos dentro da organização.
Outra contribuição relevante apresentada na subseção “Gestão do
Conhecimento e o Modelo BPRH: Pontos Convergentes” é que, ao se
posicionar em sintonia com a Gestão do Conhecimento, o Business Partner
de RH colabora para que a organização aproveite e potencialize o conhe-
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
244
cimento já existente. Essa prática é reforçada por Hoffmann (2018), que
a aponta como essencial para evitar esforços redundantes e promover a
utilização eficiente dos conhecimentos organizacionais.
8 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Essa pesquisa teve como objetivo geral identificar pontos de con-
vergência entre a Gestão do Conhecimento e o Business Partner RH. Com
base nos resultados encontrados no desenvolvimento do trabalho pode-se
indicar que o objetivo proposto foi alcançado.
A convergência entre as abordagens destacadas pela Figura 3 per-
mite compreender como a articulação entre Gestão do Conhecimento e
Modelo Business Partner RH pode promover uma integração maior entre
pessoas, estratégia e conhecimento organizacional.
Conclui-se também que as funções do RH podem incorporar uma
abordagem mais orientada ao conhecimento. Essa perspectiva reforça o pa-
pel estratégico do RH na construção e disseminação do conhecimento orga-
nizacional, contribuindo para a inovação e a transformação organizacional.
Neste sentido, recomenda-se, ainda, que futuros estudos aprofun-
dem a análise dessa integração, investigando seus impactos em diferentes
contextos organizacionais e propondo novas práticas para fortalecer essa
relação. Além de incentivar a utilização de ambos conjuntamente.
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248
249
Práticas informacionais e competência em
informação no enfrentamento à infodemia
Joana André Machuza Matenga
Tamara de Souza Brandão Guaraldo
1 INTRODUÇÃO
Este estudo constitui parte do referencial teórico de uma pesquisa
mais ampla, desenvolvida como uma tese de doutorado defendida no
Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação na Universidade
Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp de Marília), que discu-
te as práticas informacionais e a competência em informação em tempos
de infodemia, em instituições do ensino superior e de pesquisa em saúde
de Moçambique.
Entretanto, pela natureza da pesquisa e a abordagem levantada sobre
as práticas informacionais, a competência em informação (CoInfo) e a in-
fodemia, viu-se a necessidade de explorar e discutir esses conceitos numa
visão geral e o seu entrelaçamento justificado pelo dilúvio informacional
verificado nas sociedades atuais, ocasionando a infodemia como reflexo
de uma sociedade da informação cada vez mais conectada e interligada
digitalmente, o que necessita de uma aprendizagem informacional para o
desenvolvimento de habilidades e práticas informacionais com visão mais
crítica, centrada na avaliação e no uso eficiente da informação.
https://doi.org/10.36311/2026.978-65-5954-676-3.p249-265
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
250
O estudo das práticas informacionais e da competência em informa-
ção são parte da Ciência da Informação (CI). As práticas informacionais
podem ser caracterizadas como uma das vertentes dos estudos de usuários,
e a competência em informação como aprendizagem necessária para lidar
com a informação na vida cotidiana, principalmente em contexto de info-
demia. Ambas são componentes essenciais na formação de uma sociedade
ativa, crítica, que exerce os seus direitos de cidadania (Matenga, 2025).
No contexto dos estudos desenvolvidos, sob a perspectiva das prá-
ticas informacionais, é preciso atentar para as ações, para aquilo que efe-
tivamente se faz, sobretudo no cotidiano. É na prática ou na ação do
sujeito na sociedade, que é possível perceber como ele compreende a in-
formação baseando- se tanto em sua experiência particular como em sua
experiência coletiva, ele atua na sociedade na medida em que a expres-
são de sua interpretação também altera o cenário no qual está inserido
(Ferreira et al., 2018).
Nessa perspectiva, destaca-se que "essas práticas não acontecem de
forma estanque ou sequencial. Elas permeiam as atividades cotidianas dos
sujeitos conectando-se em cadeias de ações e em projetos compartilha-
dos, que evolvem também a criação de conhecimento" (Itaborahy; Kafure;
Alvares, 2023, p. 7).
Aliado a isso, destaca-se o desenvolvimento de habilidades necessá-
rias para o uso da informação, envolvendo como pensar criticamente as
informações, além de um trabalho de pesquisa e desenvolvimento de uma
mente analítica, que devem ser sustentadas na CoInfo (Souza; Cavalcante;
Moraes, 2024), como um dos elementos fundamentais para o enfrenta-
mento à infodemia. A infodemia dificulta o acesso à informação credível
e fiável.
Neste prisma, a nossa pesquisa pretende discutir, a partir da litera-
tura, as abordagens que relacionam as práticas informacionais e a com-
petência em informação necessárias para o enfrentamento à infodemia,
estabelecendo uma possível relação entre elas, numa sociedade dominada
pelas mídias digitais e crescente disseminação da informação. Para tal, re-
alizou-se um estudo exploratório e uma abordagem qualitativa. Para a re-
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
251
colha de dados recorreu-se a uma revisão sistemática da literatura em bases
de dados da BRAPCI e Scielo br. que discutem as práticas informacionais,
a CoInfo e a infodemia no universo informacional. Assim, levanta-se a
seguinte questão de pesquisa: "Que práticas informacionais e competência
em informação são necessárias para o enfrentamento à infodemia, e qual a
relação existente entre elas?"
Estruturalmente, apresentamos neste estudo a introdução, que
traz uma breve contextualização do trabalho; o referencial teórico, ba-
seado nos conceitos de práticas informacionais e CoInfo, assim como
a infodemia; a metodologia; os resultados da pesquisa; as considera-
ções finais, e por fim, as referências usadas para a realização da pesquisa.
2 REFERENCIAL TEÓRICO
O nosso referencial teórico é fundamentado na abordagem das práti-
cas informacionais e CoInfo como subáreas da CI que estuda a informação
em todas as suas dimensões e possui interdisciplinaridade com as outras
ciências, e a infodemia, considerada a difusão massiva da informação sobre
um determinado assunto específico em mídias sócias sob a perspectiva da
infodemiologia, uma área da Ciência da Computação em Saúde (CCS).
2.1 PTICAS INFORMACIONAIS E COMPETÊNCIA EM INFORMAÇÃO
As práticas incorporam entendimentos, conhecimentos, identidades
e significados. Indicam formas de dar sentido ao mundo, de responder a
ações de outros e de provocar ações nos outros. Arranjos materiais com-
plementam as práticas, formando a arena onde pessoas, organismos, ar-
tefatos, coisas, leiautes, espaços etc. coexistem e se relacionam, ganhando
uma identidade, no caso das pessoas, ou um significado, para os demais
elementos (Itaborahy; Kafure; Alvares, 2023).
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
252
"A ideia básica da praxiologia é a de que o indivíduo é moldado pelo
meio social, mas também o molda por meio de suas práticas, numa relação
reflexiva" (Itaborahy; Kafure; Alvares, 2023, p. 5).
Entretanto, ancoradas na abordagem social dos estudos de usuários,
as práticas informacionais compõem uma linha de investigação mais socio-
lógica e contextual. Assim sendo, as configurações sociais, políticas, eco-
nômicas, culturais e informacionais participam dos processos de formação
dos significados socialmente partilhados, das fontes ou recursos disponibi-
lizados, das disputas existentes nas dinâmicas de produção, registro, disse-
minação e uso da informação e do conhecimento (Achilles; Rocha, 2025).
Nesse contexto,
[...] a perspectiva das Práticas Informacionais recusa, portanto, a
ideia de que a informação existe como objeto, independente do
sujeito, e que estaria apenas à espera de ser acessada e utilizada.
Pelo contrário, conforme esta abordagem é necessário que o sujeito
social esteja em ação ao (res)significar o mundo fazendo uso do seu
arsenal cultural. (Ferreira et al., 2018, p. 30-31).
O aspecto socioconstrucionista das práticas informacionais se so-
bressai pela acepção de que os sujeitos têm participação ativa e passiva na
configuração do contexto informacional, mediante interações sociais. A
ideia central é a de que em situações cotidianas, os sujeitos se envolvem na
busca de informações de acordo com as características e dinâmicas espe-
cíficas de seus grupos sociais, partilhando experiências, preferências, valo-
res e atitudes convencionais daquela comunidade na qual estão inseridos
(Achilles; Rocha, 2025).
Bruce (2008) corrobora que as diversas atividades acadêmicas, pro-
fissionais e cívicas realizadas num contexto informacional assumem as for-
mas de práticas informacionais, quer tomando decisões ou buscando novos
conhecimentos, etc. E nesse contexto, as práticas informacionais são ativi-
dades encontradas dentro de um contexto da aprendizagem informacional.
A aprendizagem informacional envolve tomar consciência das dife-
rentes formas de experimentar o uso da informação através do envolvimen-
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
253
to em práticas e reflexão de informação relevantes. Trata-se de um proces-
so que consiste em usar a informação, de forma criativa e reflexiva, para
aprender, baseando-se nas diferentes formas como utilizamos a informação
na vida académica, profissional e comunitária (Bruce, 2008).
Portanto, partindo desse pressuposto, destaca-se também a moti-
vação para a aprendizagem ao longo da vida, aliada à análise crítica das
informações que pode impactar inclusive na qualidade de vida e à criação
de significado a partir da informação, o que constituem elementos funda-
mentais da CoInfo. Esta abrange uma gama mais ampla de competências
do que apenas um ensino padrão de técnicas, uma vez que estamos imer-
sos em um conglomerado informacional complexo. No entanto, cabe ao
indivíduo ser capaz de processar a informação de forma individual e cole-
tiva, subjetiva e objetivamente, emocionalmente e analiticamente (Souza;
Cavalcante; Moraes, 2024).
A CoInfo "contextualizada em uma sociedade de alta produção de
informação, está cada vez mais centrado no sujeito/usuário do que propria-
mente na informação" (Souza; Cavalcante; Moraes, 2024, p. 2).
Na visão de Souza e Alcará (2023), a CoInfo tem entre suas carac-
terísticas a promoção do desenvolvimento das múltiplas habilidades infor-
macionais que compõem seu caráter de metacompetência,
A metacompetência exige um envolvimento comportamental, afeti-
vo, cognitivo e metacognitivo como um ecossistema da informação, am-
pliando a visão da CoInfo como um conjunto abrangente de capacidades
de consumir e criar a informação, podendo assim, participar com sucesso
em espaços colaborativos (ACRL, 2016). Neste processo, a CoInfo é vista
como o alargamento do processo de aprendizagem ao longo do percurso
acadêmico em convergência com outros objetivos de aprendizagem acadê-
mica e social, e acrescenta-se ainda o dinamismo, flexibilidade, crescimen-
to individual e aprendizagem comunitária.
A metacompetência "[...] é vista como um modelo abrangente para
o avanço da CoInfo pelo desenvolvimento do pensamento crítico e refle-
xão nas mídias sociais, ambientes de aprendizagem abertos e comunidades
online" (Jacobson; Mackey, 2013, p. 84), ao mesmo tempo em que há
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
254
mais espaço para se desenvolver habilidades, aparecem também as difi-
culdades que as pessoas têm de encontrar informações credíveis, há maior
propagação da infodemia, visto que todo o tipo de informação é dissemi-
nado nessas plataformas, desde a verídica, a falsa, a desinformação, etc.
2.2 INFODEMIA
Nos últimos anos, os fenômenos ligados à ampla circulação de in-
formações parcial ou totalmente falsas ganharam destaque em todas as es-
feras da vida das pessoas, com impactos na política, economia, cultura e
nas próprias práticas científicas e educacionais. Fenômenos ligados a isso,
como a infodemia, a desinformação, as fake news e a pós-verdade precisam
ser estudados e compreendidos (Oliveira; Araújo 2024).
Tratando- se de um fenômeno multideterminado e multifacetado, a
infodemia é definida por Gonçalves et al. (2024, p. 718) como
[...] uma superabundância de informações mais ou menos precisas,
imprecisas ou deliberadamente falsas sobre saúde, doenças e seus
tratamentos, que circulam em diferentes meios de comunicação, em
especial na internet  participando, assim, da economia da atenção
 e que, ao criarem incertezas e conflitos, podem comprometer os
cuidados individuais e coletivos em saúde.
Na mesma perspectiva, a OMS (2025) a caracteriza como o excesso
de informação, incluindo informações falsas ou enganosas, em ambientes
digitais e físicos durante um surto de doença.
A infodemia dificulta que as pessoas encontrem fontes e orientações
confiáveis quando precisam de informação, o que representa riscos para
a saúde global (Kalil; Santini, 2020). Para os autores, a infodemia é ca-
racterizada por uma quantidade e variedade excessiva de informações de
diferente qualidade e credibilidade.
Nesse sentido, verifica-se a tendência de compartilhamento de infor-
mações sem levar muitas vezes em consideração as fontes, tornando assim,
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
255
a propagação da desinformação ampliada, o que configura entre outros
aspectos o fenômeno da Pós- Verdade (Oliveira; Araújo, 2024).
Na pós-verdade há uma compreensão relativa da verdade que pode
ser diferente dependendo do contexto analisado, isto é, evidências têm
menor influência do que os apelos emocionais e crenças pessoais, fatos
objetivos podem ser refutados ou ignorados por convicções individuais
(Cavalcante et al., 2022).
Nesta pesquisa, a infodemia é vista sob a perspectiva da infodemio-
logia, uma área da Ciência da Computação em Saúde (CCS). Segundo
Wanden-Berghe e Sanz-Valero (2021) a infodemiologia (epidemiologia da
informação) é um campo da informática em saúde definida como a ciên-
cia da distribuição e determinantes da informação em meio eletrônico,
especificamente a Internet, ou em uma população, com o objetivo final de
informar sobre saúde e políticas públicas.
A infodemiologia monitora e analisa o comportamento baseado na
web para aprender sobre o comportamento humano real, a fim de prever,
avaliar e até prevenir problemas relacionados à saúde que surgem constan-
temente na vida cotidiana. Nesse contexto, conhecer a atividade de busca
de informações sobre saúde na Internet pode ser um passo importante no
planejamento de estratégias preventivas eficazes (Wanden-Berghe; Sanz-
Valero, 2021).
Termos como "dilúvio informacional", "explosão de informação" e
"sobrecarga informacional" são empregados para se referir ao excesso de
informações e mensagens emitidas, e que, possivelmente, foram expressões
conceituais que fomentaram os estudos de infodemiologia (Cavalcante et
al., 2022)
Nesta perspectiva, considera-se que o excesso de informação pode
ser, não benéfico para os indivíduos. Segundo Matenga (2025) quando fil-
trada e selecionada usando critérios de avaliação de credibilidade e fiabili-
dade, a informação se constitui num potencial em todas esferas, quer sejam
educacionais, culturais, políticas e econômicas, associado a ideia do poder
de tomada de decisões conscientes para o alcance dos objetivos. Porém,
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
256
contrariamente, pode significar um risco para a sociedade, aliado as possí-
veis Fake News e desinformação.
Assim, tem-se a necessidade de adoção de estratégias de enfrenta-
mento à infodemia e dotar os cidadãos de conhecimento, habilidades e
atitudes de reconhecer a informação necessária para o seu uso cotidiano,
como uma sociedade informacionalmente instruída.
3 METODOLOGIA
Esta pesquisa é caracterizada como estudo exploratório com uma
abordagem qualitativa. As pesquisas exploratórias "[...] têm como princi-
pal finalidade desenvolver, esclarecer e modificar conceitos e ideias, tendo
em vista a formulação de problemas mais precisos ou hipóteses pesquisá-
veis para estudos posteriores" (Gil, 2008, p. 27). E a abordagem qualitativa
exprime "[...] a qualidade como prioridade de ideias, coisas e pessoas que
permite que sejam diferenciadas entre si de acordo com as suas naturezas"
(Castilho; Borges; Pereira, 2017, p. 18).
Para a recolha de dados recorreu-se a uma revisão sistemática da li-
teratura (RSL) em bases de dados da BRAPCI e Scielo br no primeiro
semestre de 2025 tendo se encontrado um total de 1879 artigos publicados
entre 2010 a 2025, dos quais 1780 foram recuperados na BRAPCI e 99 na
Scielo br a partir das palavras chave descritas no quadro abaixo.
Quadro 1  Artigos recuperados a partir da RSL
Palavras-
chave
BRAPCI Scielo br
N° de
artigos
encontrados
N° de
artigos
usados
N° de
artigos
excluídos
N° de
artigos
encontrados
N° de
artigos
usados
N° de
artigos
excluídos
Práticas
informacionais 685 4 680 40 1 39
Competência
em informação 1000 4 994 35 2 33
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
257
Infodemia 99 2 96 24 1 23
Práticas,
competência
em informação
e infodemia
4 1 3 0 0 0
Fonte: Dados da pesquisa (2025)
Portanto, para a realização da pesquisa obteve-se uma amostra de 15
artigos, num total de 1879. Os critérios de seleção para a inclusão e exclu-
são circunscreveram-se nos seguintes critérios: a) idioma: tendo se utiliza-
do artigos majoritariamente em língua portuguesa, três em língua inglesa,
e um em espanhol; b) atualidade: artigos publicados de 2010 a 2025; c)
filtro pela área relacionada à pesquisa: a partir da lógica da leitura dos títu-
los e palavras-chave e também dos resumos para a verificação da aderência
com a pesquisa; e por fim, d) leitura e análise dos artigos completos, tendo
em conta os objetivos propostos.
4 ANÁLISE DE DADOS E DISCUSSÃO
Esta seção destina-se a apresentação e análise de dados a partir da
RSL, procurando estabelecer as relações e interconexões entre as práticas
informacionais e CoInfo no enfretamento à infodemia. Entretanto, olhan-
do-se para as práticas e CoInfo como subáreas da CI, que enquanto área
do conhecimento estuda as relações dos sujeitos com a informação apre-
sentando diversos prismas de investigação dessa relação (Oliveira; Araújo,
2024), essas estabelecem relações com outras ciências partindo do pressu-
posto da interdisciplinaridade da CI.
Nesse contexto, destacam-se as práticas informacionais como as
ações desencadeadas num universo informacional, que quando realizadas
frequentemente, podem conduzir à aprendizagem informacional aliada ao
desenvolvimento da CoInfo para o uso eficiente e ético da informação, a
partir da experiência adquirida. Porém, esta não significa uma condição si
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
258
ne quo non para tal, mas sim uma alternativa para a aprendizagem ao longo
da vida que acompanha a CoInfo.
Aliado a isso, o fato das práticas informacionais realizarem-se num
determinado contexto, denota-se que o mesmo contexto influencia posi-
tiva ou negativamente essas práticas, da mesma forma que a CoInfo pode
ser desenvolvida nesse mesmo meio a partir de uma aprendizagem infor-
macional com base nos recursos informacionais disponíveis. Com isso, nos
artigos analisados, se destaca a centralidade do contexto/meio social como
um fator determinante para a realização dos processos informacionais efi-
cientes, conforme é demonstrado na figura abaixo.
Figura 1  Mapa conceitual de práticas e CoInfo
Fonte: Matenga (2025)
Portanto, numa sociedade em que ter acesso à informação é uma
condição de sobrevivência, há uma necessidade urgente de realização de
processos informacionais eficientes aliando as práticas informacionais e
CoInfo para enfrentar a infodemia. Zattar (2017) explica que ter aces-
so às fontes de informações é uma tarefa diária e essencial na atualidade.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
259
Contudo, não basta que se tenha acesso a qualquer tipo de informação,
pois é necessário qualidade, relevância e veracidade nos mais diferentes
contextos, de forma que sejam evitadas desinformações e notícias falsas nos
meios em que estamos inseridos.
Nesse sentido, é evidenciado que "além da disponibilização e acesso
às informações, é importante refletir sobre as compreensões, análises críti-
cas e usos realizados pelos indivíduos" (Mata; Grigoleto; Lousada, 2020, p.
3). Essas constatações são reforçadas por Araújo (2021, p. 10) a convidar a
CI refletir sobre a sua possibilidade epistemológica:
O nosso futuro informacional, em ambientes cada vez mais
infodêmicos, se relacionará diretamente a capacidade dos sujeitos
cognitivos em ampliarem suas competências informacionais de
busca, uso e compartilhamento de informação. Da parte da Ciência
da Informação fica o desafio da reflexão sobre a "possibilidade
epistemológica" de que a informação tenha uma dupla natureza
onde a geração de conhecimento e as patologias informacionais
existam de forma simultânea.
A partir da abordagem acima, pode-se considerar um duplo sentido
da informação, por um lado a assimilação, a apropriação da informação
para a produção de conhecimentos e por outro, a epidemia da informação.
Ademais, parafraseando a natureza da CI enraizada na sua interdis-
ciplinaridade outras ciências, considera- se que as práticas informacionais
assim como a CoInfo, possuem em certa dimensão as mesmas caracterís-
ticas. Autores como Souza, Autran e Souza (2022) corroboram explican-
do que, o relacionamento da CoInfo com outras áreas do conhecimento
demonstra que sua prática é um processo interdependente, composto de
várias dimensões.
Nessa ordem de ideias, assume-se que as ciências que estudam os in-
divíduos ou o seu comportamento, a psicologia, e no contexto da pesquisa
a CCS (infodemiologia), têm uma relação mesmo que não direta com as
práticas informacionais, pois preocupam-se com as ações e os comporta-
mentos informacionais que os sujeitos realizam em diferentes ambientes,
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
260
e a CoInfo como uma competência transversal aplicável a todos os ramos,
pois todos devem saber fazer o uso eficiente da informação para buscar in-
formações fidedignas na realização de suas tarefas, diárias ou profissionais
(Matenga, 2025).
Assim, é necessário que estas duas ciências, a CI e CCS tomem me-
didas práticas para lidar com a informação em contextos infodêmicos, de
modo que não seja prejudicial para a sociedade. Para Matenga (2025) esse
processo pode ser possível se a CI e os seus profissionais de informação
trabalharem de forma direta com profissionais da computação em saúde,
especialmente no que diz respeito às práticas informacionais, mecanismos
de coleta, produção, classificação, uso e difusão da informação, além da
avaliação das fontes de informação, ou seja, gestão do fluxo informacional
por parte da CI e, criação de políticas públicas por parte da CCS, confor-
me ilustra a figura abaixo.
Figura 2  Proposta de estrutura para o alinhamento da CI com a CCS
Fonte: Matenga (2025)
A figura acima, apresenta uma proposta de alinhamento e suporte
entre a CI e a CCS em tempos de infodemia, visto que "[...] o futuro
informacional, em ambientes cada vez mais infodêmicos, se relacionará di-
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
261
retamente a capacidade dos sujeitos cognitivos em ampliarem suas compe-
tências informacionais de busca, uso e compartilhamento de informação"
(Araújo, 2021, p. 10).
Segundo a proposta, o sujeito informacional num determinado meio
social se relaciona e interage com o meio de forma direta, e por meio disso
surge uma necessidade informacional. Nesse contexto, ele é bombardeado
diariamente por diferentes informações de várias origens, formais ou in-
formais (destacando-se as mídias digitas com as diferentes redes sociais),
o que de certa forma, poderá impulsionar situações incômodas como a
ansiedade informacional ou desinformação causada pelo excesso de dados
ou informação.
Diante disso, os órgãos da CCS em coordenação com os seus
parceiros criam as políticas públicas que devem ser difundidas em canais
que sejam acessíveis para todos e procuram mecanismos de divulgação da
sua existência. Aliado a isso, a CI intervém no processo de gestão do fluxo
informacional, apoiando a CCS na gestão da informação organizacional
sobre a infodemia, assim como na conscientização e na capacitação dos
sujeitos em matéria de práticas informacionais e CoInfo, com vista a torná-
los agentes informacionais ativos, críticos e com habilidades de identificar e
selecionar informação verídica relevante em fontes de informação credíveis
e fiáveis (Matenga, 2025).
Desse modo, pode-se considerar que as práticas informacionais e a
competência em informação estão ligadas à infodemia pela componente
informacional, cabendo a cada uma das áreas envolvidas (CI e CCS) tomar
o devido posicionamento a fim de proporcionar ferramentas para que os
sujeitos saibam lidar e melhorar os processos informacionais em momen-
tos infodêmicos, contribuindo com a construção de uma sociedade da in-
formação mais capacitada, consciente e crítica no uso da informação para
a transformação do conhecimento, que constituem-se no "combustível"
da sociedade atual.
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
262
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esta pesquisa teve como foco discutir a partir da literatura, as abor-
dagens que relacionam as práticas informacionais e a competência em
informação necessárias para o enfrentamento à infodemia, estabelecendo
uma possível relação entre si, numa sociedade dominada pelas mídias di-
gitais e crescente disseminação da informação. A partir disso, procurou-se
responder a seguinte questão de pesquisa: "Que práticas informacionais e
competência em informação são necessárias para o enfrentamento à info-
demia, e qual a relação existente entre elas?"
A pesquisa revelou que a literatura aponta o meio social como um fa-
tor determinante para a realização dos processos informacionais eficientes,
a partir do entendimento das práticas informacionais que se realizam num
determinado contexto, sendo que esse influencia positiva ou negativamen-
te essas práticas; da mesma forma que a CoInfo pode ser desenvolvida
nesse mesmo contexto a partir de uma aprendizagem informacional com
base nos recursos informacionais disponíveis.
Portanto, para o enfrentamento à infodemia, constatamos que é
importante o desenvolvimento de práticas informacionais pautadas na
aprendizagem da competência em informação necessária para guiar as
práticas e lidar com esta (infodemia) como um fenômeno que dificulta a
localização da informação fiável e credível pela sua disseminação massiva
em diferentes mídias digitais, como um dilúvio informacional sobre um
determinado assunto.
Considera-se que as práticas informacionais e a CoInfo estão ligadas
à infodemia pelo componente informacional.
Assim, cabe a cada uma das áreas envolvidas, CI e a CCS tomar o de-
vido posicionamento com vista a proporcionar aos indivíduos ferramentas
de lidar e melhorar os processos informacionais em momentos infodêmi-
cos para a construção da cidadania.
Ademais, os profissionais de informação deveriam trabalhar de for-
ma direta com profissionais da computação em saúde no que diz respei-
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
263
to às práticas informacionais, tanto para coleta, produção, classificação,
quanto ao uso e difusão da informação, além da avaliação das fontes de
informação, com vista ao desenvolvimento da competência em informação
para o enfrentamento à infodemia.
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266
267
A Cultura Informacional e sua inuência na
percepção da incivilidade seletiva, mediada pela
diversidade no trabalho
Irailton Melo Souza
1 INTRODUÇÃO
Comumente, os ambientes de trabalho reúnem pessoas com trajetó-
rias, experiências e posições sociais diversas. Porém, a existência dessas di-
ferenças nem sempre se traduz em relacionamentos pautados pelo respeito
e aceitação do outro diferente; ao contrário, em muito contextos organiza-
cionais a diversidade é mais um elemento desencadeador de tensões e con-
flitos interpessoais, do que um fator de colaboração e sinergia (Robbins;
Judge; Sobral, 2011; Chiavenato, 2005; 2014).
Os conflitos fazem parte das interações humanas, não sendo exclu-
sivos do local de trabalho e podendo assumir condições variadas: negativas
ou positivas, destrutivas ou construtivas (Clegg; Kornberger; Pitsis, 2011).
O fato de existirem conflitos nas organizações não constitui, por si só, um
problema. O problema surge quando os conflitos são desencadeados por
sentimentos velados que se manifestam por meio de comportamentos sutis
de exclusão, desqualificação ou desrespeito direcionados a indivíduos em
razão de características pessoais ou sociais, configurando-se no que a litera-
https://doi.org/10.36311/2026.978-65-5954-676-3.p267-293
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
268
tura denomina de incivilidade seletiva (IS); isto é, uma forma de agressão
de baixa intensidade, frequentemente ambígua quanto à intenção de pre-
judicar, mas deliberadamente direcionada a indivíduos ou grupos específi-
cos com base em atributos identitários, como gênero, etnia ou orientação
sexual (Cortina, 2008; Kabat-Farr; Cortina, 2012; Cortina et al., 2013).
Estudos mostram que a IS produz efeitos que extrapolam a experiên-
cia individual da vítima, com impactos sobre saúde psicológica, satisfação,
desempenho e motivação, além de repercussões no clima, na cultura e no
desempenho organizacional (Cortina, 2008; Cortina et al., 2013; Kabat-
Farr; Settles; Cortina, 2020). Trata-se, portanto, de um fenômeno que de-
safia a compreensão das dinâmicas que estruturam as relações interpessoais
no dia a dia das organizações.
Além dos impactos individuais e organizacionais já apontados na
literatura, um dos principais desafios associados à IS reside na sua pró-
pria natureza sutil. Por manifestar-se, muitas vezes, de forma ambígua ou
naturalizada no cotidiano organizacional, sua identificação nem sempre é
imediata. Essa característica torna a percepção da IS uma etapa inicial de
um processo mais amplo de reconhecimento e interpretação das práticas
incivis (Cortina, 2008; Cortina et al., 2013).
A dificuldade de reconhecer comportamentos incivis reforça a im-
portância do contexto cultural e informacional em que as interações ocor-
rem. Quando determinadas práticas são normalizadas ou minimizadas,
sua interpretação como agressão depende da sensibilidade e das referências
simbólicas disponíveis aos indivíduos. Nesse cenário, a cultura informacio-
nal (CI) influencia os critérios pelos quais determinados comportamentos
são reconhecidos como oportunos ou incivis.
Perceber a IS nos espaços organizacionais requer olhar para além
das estruturas formais de gestão e examinar os fatores que o moldam. Para
tanto, a informação transmitida pela cultura organizacional (CO), e mais
especificamente pela CI, atua como importante vetor comportamental,
visto sua capacidade de influenciar as pessoas no contexto do trabalho, da
realização das tarefas diárias à busca por soluções para preocupações indi-
viduais (Cumbane; Woida; Borges, 2024).
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
269
A CI pode ter diversas representações, não sendo uma exclusividade
da organização. É possível que dentro da organização haja uma CI do in-
divíduo e da comunidade de indivíduos, bem como de um determinado
grupo, departamento ou setor. No nível individual, a CI pode atuar har-
monizando os valores intrínsecos do sujeito com os valores considerados
aceitáveis no contexto organizacional (Cumbane; Woida; Borges, 2024).
A literatura trata a CI como um fenômeno social responsável pela
alfabetização informacional e por fornecer as habilidades necessárias para o
desenvolvimento de novas competências em ambientes de abundância di-
gital como os de hoje (Poplavskyi; Oliinyk; Horban, 2024). Desse modo,
a CI assume um papel central tanto na circulação quanto no sentido da
informação nos espaços de trabalho.
É importante evitar o protagonismo absoluto da CI, como se to-
das as dinâmicas organizacionais existissem exclusivamente a partir dela.
Também não se deve atribuir à CI um juízo prévio de valor, positivo ou ne-
gativo, uma vez que seus efeitos dependem da orientação cultural adotada
pela organização, visto que, dependendo do contexto, a CI pode contribuir
para práticas inclusivas, colaborativas e éticas, como pode reforçar assime-
trias e exclusões, dependendo dos valores organizacionais que a sustentam.
Esses efeitos tornam-se particularmente visíveis quando a organiza-
ção é composta por sujeitos socialmente diversos. O contato entre indi-
víduos com diferentes identidades e posições faz os padrões informacio-
nais da organização ganharem concretude. Nesse sentido, a diversidade no
trabalho (DT) não é um fenômeno à parte da CI, mas o espaço em que
esses efeitos se manifestam com maior intensidade, assumindo condição
ambivalente em função do ambiente cultural e informacional em que está
inserida.
Quando a DT está articulada com uma CI orientada à inclusão,
o reconhecimento, aprendizagem e cooperação mútua são favorecidos.
Entretanto, quando a DT está inserida em contextos marcados por valores
assimétricos, pode intensificar tensões e contribuir para o surgimento de
comportamentos de IS (Schilpzand; De Pater; Erez, 2016). No contexto
deste capítulo, a DT é compreendida não apenas como dado demográfico,
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
270
mas como condição social cuja interpretação depende do contexto infor-
macional e cultural em que está inserida.
Este capítulo apresenta os resultados de pesquisa desenvolvida no
âmbito de tese de doutorado defendida em 2025, no Programa de Pós-
Graduação em Ciência da Informação da Universidade Estadual Paulista
(Souza, 2025), que investigou a influência da cultura informacional na
percepção da incivilidade seletiva, considerando a diversidade no trabalho
como variável mediadora.
A pesquisa articulou o campo da cultura informacional com a lite-
ratura sobre incivilidade seletiva e diversidade no trabalho, integrando três
construtos que, embora distintos, revelam forte interdependência quando
analisados no contexto organizacional. Ao aproximar esses universos teóri-
cos, buscou-se compreender como os modos de circulação, interpretação e
uso da informação influenciam o reconhecimento de práticas discrimina-
tórias sutis no ambiente de trabalho.
O estudo partiu do entendimento de que políticas de diversidade,
por si sós, não garantem ambientes inclusivos. A forma como as diferenças
são percebidas e interpretadas depende do contexto cultural e informa-
cional em que estão inseridas. Nesse sentido, a cultura informacional não
apenas organiza fluxos de informação, mas também molda a forma como
as pessoas identificam e compreendem comportamentos no trabalho.
A investigação combinou abordagens qualitativa e quantitativa e
utilizou a Modelagem de Equações Estruturais por Mínimos Quadrados
Parciais (PLS-SEM) para examinar as relações entre os construtos, ofere-
cendo evidências empíricas que fundamentam as análises apresentadas ao
longo do capítulo.
Nas seções seguintes, apresentam-se os fundamentos teóricos que
sustentam o estudo, os procedimentos metodológicos adotados e a dis-
cussão dos resultados, com ênfase nas implicações teóricas e práticas para
organizações interessadas em promover ambientes mais inclusivos e infor-
macionalmente conscientes.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
271
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1 CULTURA INFORMACIONAL (CI)
O termo cultura informacional (CI) nasce da junção de duas pa-
lavras-chave, cultura e informação, que carregam múltiplos significados
que tornam complexa e desafiadora a busca por uma definição de CI que
seja universalmente aceita (Martines; Woida; Almeida, 2021). Em termos
gerais, a CI é explicada como o conjunto de valores e práticas relacionados
à produção, disseminação e uso da informação, e sua influência na forma
como os indivíduos interpretam situações, reconhecem comportamentos
e atribuem sentido às interações no cotidiano organizacional (Ginman,
1987; Woida; Valentim, 2008; Choo, 2013). Trata-se de um conceito in-
tangível que foca em como as pessoas acessam, processam, utilizam e com-
partilham informações (Poplavskyi; Oliinyk; Horban, 2024).
A CI transcende a simples coleta e armazenamento de dados, repre-
sentando uma abordagem sistêmica que alinha dados e informações aos
objetivos estratégicos, facilitando a tomada de decisões, promovendo ino-
vação e melhoria contínua, e impactando diretamente o comportamento
organizacional (Woida; Valentim, 2008; Santos; Damian, 2017).
Adicionalmente, a CI é fundamental no desenvolvimento das com-
petências informacionais dos empregados, aprimorando sua capacidade de
processar informações e de compreender as percepções e atitudes que a
organização busca cultivar (Davenport, 1998; Choo, 2013).
Diversos fatores caracterizam o ambiente interno de uma organiza-
ção, sendo um deles a diversidade de pessoas e a multiplicidade de culturas
e subculturas (Robbins; Judge; Sobral, 2011). Nesse contexto de diversi-
dade de pessoas e culturas, a CI atua fazendo a interface entre o que a or-
ganização produz e difunde, em termos informacionais, e o que ela espera
ver refletido no comportamento organizacional e na atitude daqueles que
se relacionam com ela, seus stakeholders (Woida; Valentim, 2008).
Embora o estudo da CI desperte o interesse de diversas áreas do
conhecimento, é na Ciência da Informação que ela adquire caracterís-
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
272
ticas de metacultura, estabelecendo a interseção entre conhecimento,
processos e práticas organizacionais e informacionais (Martines; Woida;
Almeida, 2021).
Um ponto ainda em construção refere-se ao lugar da CI no contexto
organizacional. Existe a compreensão de que a CI é parte da cultura orga-
nizacional (CO) (Woida; Valentim, 2008; Fernández; Dante, 2014); ou
que é análoga à CO, isto é, compartilha características semelhantes, mas
se diferencia pelo foco específico na informação, no fluxo e no comporta-
mento informacional (Choo, 2013).
O ambiente interno das organizações é o habitat natural da CI. Em
razão disso, Ginman (1987) defendeu a necessidade de integrar a CI à CO,
visto que os pressupostos da CO (valores, rituais, crenças, normas, símbo-
los) dependem dos pressupostos da CI e da forma como as informações são
geradas, utilizadas e compartilhadas.
Um pensamento convergente em torno da CI diz respeito à sua es-
sencialidade para preservar a cultura, a experiência, a memória, os conhe-
cimentos e a inteligência organizacional, bem como para viabilizar seus ob-
jetivos, metas, planos e vantagem competitiva (Ginman, 1987; Fernández;
Dante, 2014; Sundqvist; Svärd, 2016).
A CI carrega aspectos objetivos e subjetivos. Objetivamente, a CI
disponibiliza a informação em documentos, regimentos e normas, inde-
pendentemente do suporte, físico ou digital; subjetivamente, possibilita
que as pessoas organizacionais percebam, acessem e interpretem adequa-
damente a informação.
A CI interage continuamente com todos os aspectos da organização,
gerando e sendo gerada pelos processos organizacionais (Cumbane; Woida;
Borges, 2024). Desse modo, a CI não deve ser compreendida como uma
entidade autônoma, isolada ou alheia à influência de outros elementos e
eventos organizacionais.
Woida e Valentim (2008) destacam que a CI orienta a produção, o
uso e a disseminação da informação entre os atores organizacionais, mas
também influencia os processos e as relações profissionais no ambiente
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
273
organizacional, além de capacitar os empregados para interagirem de ma-
neira consciente com os eventos que ocorrem nas organizações.
2.2 DIVERSIDADE NO TRABALHO
Diversidade é uma palavra abrangente, utilizada para indicar to-
das as diferenças, não uma característica específica, como, por exemplo,
a diversidade de gênero (Hebl; Avery, 2013). Nessa linha de raciocínio,
Diversidade no trabalho (DT) também resume o conjunto de identidades
(raça, etnia, gênero, idade, nacionalidade, religião, deficiência, orientação
sexual, status socioeconômico, educação, estado civil, idioma etc.) presen-
tes em determinados contextos, como o organizacional (Milliken; Martins,
1996).
Espera-se que as organizações, enquanto microcosmos da sociedade,
sejam caracterizadas pela diversidade; mais do que isso, que a promovam e
a defendam, não apenas pelos possíveis ganhos em vantagem competitiva,
mas por uma postura ética e pelos benefícios que uma cultura de diversi-
dade proporciona à construção de ambientes de trabalho mais equitativos,
inclusivos e saudáveis (Manoharan; Singal, 2017).
Evidentemente, os ganhos decorrentes de uma cultura de diversi-
dade não se produzem de forma imediata; são resultado de um processo
contínuo de conscientização e educação sociocorporativa. Pesquisas indi-
cam que, em muitos contextos organizacionais, a diversidade pode se mos-
trar mais ruidosa e conflituosa do que benéfica, favorecendo o surgimento
de comportamentos desviantes, como a incivilidade seletiva (IS), e outras
transgressões de valores e normas organizacionais (Pearson; Andersson;
Porath, 2000; Cortina et al., 2013; Schilpzand; De Pater; Erez, 2016).
Talvez por esses motivos, algumas organizações optem por evitar o enfren-
tamento direto dessa questão.
Segundo Kabat-Farr e Cortina (2012), a DT estimula a IS no tra-
balho à medida que, por seu caráter ambíguo, serve como um mecanismo
cognitivo eficaz para dissimular a discriminação e manter as atitudes pre-
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
274
conceituosas. As autoras destacam que a incivilidade seletiva decorrente da
diversidade deve constituir preocupação das organizações, dado o impacto
negativo que ela causa na construção e manutenção de uma cultura de
diversidade.
Oloruntola-Coates et al. (2020), em pesquisa realizada em sistemas
hospitalares norte-americanos, especialmente com enfermeiros, constaram
que a cultura de diversidade, quando sustentada por políticas intencionais
de inclusão, gestão da informação e preparação cultural sistemática, gera
valor organizacional, contribuindo para melhor cuidado e atenção ao pa-
ciente, maior engajamento profissional, fortalecimento da cultura organi-
zacional e desempenho institucional mais robusto.
Em síntese, a DT, quando intencional e sistematicamente sustenta-
da por políticas de inclusão e por culturas organizacional e informacional
que lhe sejam favoráveis, tende a produzir resultados mais consistentes e
benéficos para as organizações, além de aumentar sua prontidão para o
recrutamento e seleção de profissionais com diferentes perfis (Oloruntola-
Coates et al., 2020).
2.3 INCIVILIDADE SELETIVA PERCEBIDA
A compreensão da incivilidade seletiva percebida (ISP) demanda,
primeiramente, o entendimento dos conceitos de incivilidade e incivilida-
de seletiva (IS). De acordo com Cortina et al. (2013), incivilidade é uma
agressão sutil ou dissimulada desferida contra o outro, sem um motivo
ou justificativa aparentes. Em determinados momentos, chega a parecer
uma brincadeira inoportuna ou uma descortesia casual; porém, diferente
de brincadeira de mau gosto, o comportamento de incivilidade tem caráter
deliberado, intencional e, sobretudo, repetitivo. Para Schilpzand, De Pater
e Erez (2016), a incivilidade é uma violência de baixa intensidade, ambí-
gua quanto à intenção de ferir o outro, mas com potencial para fazê-lo.
Quando o ato de incivilidade passa a ter alvo definido, motivado
por preconceitos sociais, culturais, demográficos, ideológicos entre outros,
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
275
recebe a denominação de IS (Cortina; Areguin, 2021). A IS é uma infração
das normas sociais de convivência, respeito e aceitação do outro diferente.
Por ser insidiosa, nem sempre a vítima de ações de IS consegue perceber
a agressão e se reconhecer na condição de pessoa agredida. Para Cortina
(2008), a IS se apoia em uma distorção comportamental de falso senti-
mento de superioridade, sendo socioculturalmente construída e nutrida,
não vendo problema algum desrespeitar o outro em razão da cor da pele,
da raça, do gênero, da orientação sexual, da religião, da origem geográfica,
entre outros.
No contexto do trabalho, perceber a IS depende muito das carac-
terísticas da CO e da CI que podem reforçar, manter, validar, disseminar
ou combater o comportamento incivil. Cortina et al. (2013), Kabat-Farr,
Settles e Cortina (2020) e Woida e Souza (2024) chamam a atenção para
o fato de que o desconhecimento da IS e a escassez de informações sobre o
assunto explica por que muitas pessoas desconhecem a sua existência.
Por seu caráter seletivo, a IS geralmente ocorre em contextos carac-
terizados por sentimentos de superioridade, e não apenas por relações hie-
rárquicas de poder (Lim; Cortina, 2005; Cortina; Magley, 2009). Assim,
a IS pode acontecer em relações verticais (entre chefes e subordinados),
em relações transversais (clientes e empregados) e em relações horizontais
(entre colegas de trabalho).
Nas relações de trabalho, sabe-se que a IS pode afetar negativamente
a satisfação do empregado (Chen; Wang, 2019), sua motivação (Cortina et
al., 2013; Kabat-Farr; Settles; Cortina, 2020), seu desempenho (Cortina;
Magley, 2009) e sua intenção de permanecer no emprego (Cortina et al.,
2013). Entretanto, para que esses estragos sejam evitados, é necessário que
o comportamento de IS seja percebido, o que não acontece de manei-
ra automática, considerando a natureza sutil e ambígua da IS. Assim, a
percepção torna-se fundamental para a compreensão da IS, assim como é
para compreensão de todos os eventos que vivenciamos e para a própria
compreensão do mundo, conforme Démuth (2013). Para o autor, perce-
ber implica interpretar e atribuir sentido às informações captadas no am-
biente, de maneira particular, sendo, portanto, uma experiência carregada
de subjetividade.
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
276
Bruner e Goodman (1947) explicam que cada pessoa percebe a rea-
lidade de maneira única, dentro das possibilidades que lhes são oferecidas
pelo ambiente. Por inferência, pode-se afirmar que as informações se in-
cluem nessas possibilidades necessárias à formação da percepção. Mesmo
que a CO naturalize o comportamento de IS, se a CI do indivíduo, da
comunidade de indivíduos ou do grupo (Cumbane; Woida; Borges, 2024)
favorecer a percepção de comportamentos incivis, a IS será percebida.
Considerando que percepção é um fenômeno subjetivo e central para
o entendimento da IS (Cortina et al., 2013; Démuth, 2013; Cumbane;
Woida; Borges, 2024), este trabalho utiliza o termo Incivilidade Seletiva
Percebida (ISP), como forma de delimitar o foco desta pesquisa em com-
preender a influência da CI na percepção da IS em locais de trabalho ca-
racterizados pela diversidade. Em resumo, a ISP é a forma como a IS é
experimentada, percebida e interpretada.
3 MODELO TEÓRICO E HIPÓTESES
Assumindo que a CI é parte da CO, associada à maneira como as
pessoas pensam, produzem e socializam as informações, bem como aos
elementos que articulam os pressupostos da cultura organizacional, tais
como valores, crenças, normas etc. (Woida; Valentim, 2008; Choo, 2013;
Woida; Souza, 2024); assumindo ainda, a contribuição da CI para ISP, é
possível considerar que a CI pode desempenhar um importante papel so-
bre as relações interpessoais, inibindo ou estimulando determinados com-
portamentos no local de trabalho. Local este caracterizado, dentre outros
aspectos, por diversidades.
Admitindo que a promoção de relações interpessoais civilizadas
em ambientes organizacionais inclusivos e diversos seja um valor deter-
minante para o sucesso das organizações contemporâneas, a CI poderá
reforçar os valores da organização, capacitando informacionalmente os
sujeitos organizacionais para perceberem, evitarem e combaterem com-
portamentos de IS.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
277
A Figura 1 traz uma representação do objeto de estudo desta pesqui-
sa: verificar a influência direta e indireta da CI sobre a ISP, tendo a diversi-
dade no trabalho (DT) como variável mediadora.
Figura 1  Diagrama de Caminhos
Fonte: Elaboração própria.
Legendas: CI (cultura informacional); DT (diversidade no trabalho); ISP (incivilidade seletiva percebida).
O diagrama acima também apresenta, graficamente, quatro hipóte-
ses que esta pesquisa buscou comprovar, a saber:
H1 (CI ISP): A cultura informacional exerce efeitos diretos e
positivos1 na percepção dos empregados sobre a incivilidade seletiva.
Woida e Valentim (2008) observam que a cultura informacional
orienta não apenas o uso, mas também a produção e a disseminação da
informação entre os sujeitos que integram o ambiente organizacional. Esse
conjunto de práticas e valores molda os processos internos e influencia
diretamente as interações profissionais. Na mesma linha, Alves e Barbosa
Influências direta e indireta indicam os efeitos de uma variável em outra, com (direta) ou sem (indireta)
a mediação de uma terceira variável. Influências positiva/negativa indicam, respectivamente uma relação
diretamente ou inversamente proporcional; isto é, o aumento/força de uma variável representa a diminuição/
enfraquecimento da outra e vice-versa.
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
278
(2010) reforçam que a cultura informacional constitui um elemento cen-
tral para o êxito das organizações, funcionando como eixo articulador en-
tre conhecimento e desempenho institucional.
A CI atua como catalisadora dos fluxos de informação e conheci-
mento, modificando comportamentos, dinâmicas e crenças organiza-
cionais (Valentim, 2008; Choo, 2013; Woida, 2016; Cumbane; Woida;
Borges, 2024). Assim, pressupõe-se que, em organizações onde a cultura
informacional é suficientemente consolidada e reconhecida pelos colabo-
radores, há maior desenvolvimento de competências informacionais, o que
amplia a capacidade de identificar manifestações de IS, ainda que sutis ou
disfarçadas sob a aparência da normalidade.
H2 (CI DT): A cultura informacional exerce efeitos diretos e
positivos na diversidade no trabalho.
Lopatina e Sladkova (2012), ao investigarem a CI no contexto de
grandes centros urbanos, identificaram que a presença de trabalhadores
procedentes de diferentes regiões do mundo influencia diretamente as cul-
turas organizacionais locais. Essa diversidade sociocultural contribui para a
formação de um ambiente propício à valorização da pluralidade no traba-
lho, afetando não apenas as organizações, mas também o próprio processo
de desenvolvimento urbano. A partir dessa constatação, é possível pressu-
por que a cultura informacional exerce influência sobre a diversidade nas
organizações.
Neste estudo, parte-se da hipótese de que a cultura informacional
tem efeitos diretos e positivos sobre a diversidade no trabalho, na medida
em que favorece a institucionalização de práticas inclusivas e fortalece a
implementação de políticas de diversidade, promovendo ambientes orga-
nizacionais mais equitativos.
H3 (DT ISP): A diversidade no trabalho exerce efeitos diretos e
positivos na percepção dos empregados sobre a incivilidade seletiva
percebida.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
279
A diversidade no local de trabalho é reconhecida como um tema
central para a sustentabilidade das organizações contemporâneas (Herring;
Henderson, 2014), representando não apenas um imperativo ético, mas
uma condição estratégica para sua permanência e renovação (Manoharan;
Sardeshmukh; Gross, 2019). Quando legitimamente incorporada, a DT
fortalece ambientes criativos, abertos à inovação e pautados pela inclu-
são (Manoharan; Singal, 2017; Oloruntola-Coates et al., 2020; Van den
Oever; Beerens, 2021).
Hebl e Avery (2013) lembram que a diversidade transcende os limi-
tes de raça e gênero, englobando múltiplas dimensões identitárias e socio-
culturais, como idade, crenças, habilidades, aparência física, sexualidade,
origem social e escolaridade. Cox e Blake (1991) e Cox Jr. (2001) situam
a DT como variável fundamental para avaliar o impacto da inclusão tanto
no clima quanto no desempenho organizacional, entendimento reforçado
por Chiavenato (2014), quando aponta que uma força de trabalho plu-
ral deve ser reconhecida, estimulada e valorizada em todos os níveis da
organização.
Apesar dos avanços no reconhecimento de seus benefícios, a diver-
sidade pode também estar associada a tensões internas, como revelam es-
tudos de Hebl e Avery (2013), Cortina (2008), Gutiérrez e Saint Clair
(2018) e Kabat-Farr, Settles e Cortina (2020). Esses autores identificam
que, em certos contextos organizacionais, a presença da diversidade, quan-
do não apoiada por uma CO madura, pode intensificar atitudes discrimi-
natórias e comportamentos de incivilidade seletiva. Este estudo defende
que tal cenário pode ser revertido por meio da consolidação de uma CI
forte, que funcione como moderadora crítica das relações.
Neste estudo, compreende-se que embora a DT possa, em casos
específicos, intensificar tensões, também pode atuar como elemento me-
diador quando associada a práticas informacionais que promovam escuta,
respeito e senso de pertencimento. Parte-se, portanto, da hipótese de que a
DT pode exercer influência direta sobre ISP.
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
280
H4 (CI DT ISP): A diversidade no trabalho medeia
positivamente a relação entre a cultura informacional e a incivilidade
seletiva percebida.
O conceito de mediação, tal como utilizado na modelagem de equa-
ções estruturais, descreve o processo pelo qual uma variável exógena in-
fluencia uma variável endógena indiretamente, por meio de uma terceira
variável mediadora (Hair Jr. et al., 2021, 2022). A presença da mediação
indica que a variável intermediária transmite total ou parcialmente o efeito
da variável independente sobre a dependente, enriquecendo a compreen-
são sobre as dinâmicas envolvidas. No contexto da PLS-SEM, esse tipo de
análise complementa os testes de relação direta, oferecendo uma visão mais
aprofundada dos mecanismos causais (Hair Jr. et al., 2019).
A quarta hipótese deste estudo (H4) propõe que a relação entre a
cultura informacional e a incivilidade seletiva percebida é mediada posi-
tivamente pela diversidade no ambiente de trabalho (CI DT ISP).
Com a coleta de dados finalizada e em conformidade com as orien-
tações metodológicas da literatura, foi possível avançar para a etapa de
tratamento estatístico e análise dos resultados, apresentados na sequência.
4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Para a realização deste estudo optou-se por uma abordagem mis-
ta, quantiqualitativa, de caráter descritivo, não probabilística, de corte
transversal e por acessibilidade. A abordagem mista, conforme Creswell
(2010, p. 231, tradução nossa), decorre do processo evolutivo da meto-
dologia de pesquisa, que buscou obter "mais insights com a combinação
das pesquisas qualitativas e quantitativas do que com cada uma das for-
mas isoladamente".
A presente pesquisa foi realizada em cinco etapas principais: (1) re-
alização de um pré-teste com 28 participantes; (2) coleta de dados, entre
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
281
2021 e 2023, totalizando 385 respostas, das quais 338 foram consideradas
válidas; (3) tratamento estatístico por meio da PLS-SEM, apropriada para
investigar relações entre construtos, especialmente em modelos explora-
tórios e com dados não normalmente distribuídos (Hair Jr. et al., 2021;
2022); (4) análise dos dados; (5) discussão dos resultados.
As escalas utilizadas foram desenvolvidas ou adaptadas conforme
a natureza dos construtos. Não foram encontradas escalas validadas para
mensurar a CI, sendo, por isso, necessária a elaboração de itens com base
na literatura de referência e supervisão especializada. As escalas referentes
à ISP e à DT foram adaptadas de estudos anteriores (Cortina et al., 2021;
Gutiérrez; Saint Clair, 2018).
O Quadro 1 apresenta os construtos, indicadores e referências uti-
lizadas na construção do instrumento de pesquisa que foi disponibilizado
em plataforma online aos respondentes.
Quadro 1  Quadro de Construtos
CONSTRUTOS ITENS INDICADORES REFERÊNCIAS
Cultura
Informacional
(CI)
1
A minha organização possui um sistema
organizado de informação de combate à
incivilidade e respeito à diversidade no
trabalho.
Woida; Valentim,
2008; Woida,
2016.
2
Minha organização informa e conscientiza
permanentemente seus colaboradores a
respeito dos danos da incivilidade e da
necessidade de respeito às diversidades.
3
Minha organização elabora cartilhas,
mídias impressas e/ou digitais,
cartazes e outros documentos sobre
respeito às diversidades e prevenção a
comportamentos de incivilidade.
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
282
Incivilidade
Seletiva
Percebida (ISP)
4
Já presenciei comportamentos
desrespeitosos no trabalho direcionados a
pessoas em razão de características pessoais
ou sociais.
Cortina et al.,
2013
5
Minha organização monitora e avalia a
eficácia das ações informacionais voltadas à
prevenção da incivilidade e à promoção do
respeito às diferenças.
6Já fui alvo de comportamentos
desrespeitosos no trabalho em razão de
características pessoais ou sociais.
7
Quando ocorreram comportamentos
desrespeitosos relacionados a características
pessoais ou sociais, quais características
foram alvos (gênero, orientação sexual,
raça/cor, religião, origem geográfica,
pessoa com deficiência, outras).
Diversidade no
Trabalho (DT)
8Minha organização tem um ambiente
organizacional adequado para pessoas de
diferentes perfis.
Gutiérrez; Saint
Clair, 2018
9Minha organização usa o conhecimento
adquirido pela cultura de diversidade para
criar ou adaptar produtos e serviços.
10 Minha organização incentiva a contratação
de diferentes tipos de pessoas.
Fonte: Elaboração própria.
O tamanho da amostra foi determinado com o auxílio do software
G*Power®, utilizando a técnica de regressão linear múltipla. Foram defini-
dos os seguintes parâmetros: 95% de poder estatístico (1-β = 0,95) e 5%
de nível de significância (α = 0,05). Como o modelo possui apenas uma
variável preditora (CI), o G*Power® indicou um mínimo de 89 observa-
ções. Contudo, conforme recomendações metodológicas para pesquisas
com dados não normais e escalas tipo Likert (Hair Jr. et al., 2019; Bido;
Silva, 2019), o número de observações foi triplicado, o que resultaria em
uma amostra mínima ideal de 267. Como a presente pesquisa alcançou
338 respostas válidas, o estudo superou o critério sugerido na literatura,
garantindo a robustez estatística.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
283
5 RESULTADOS E DISCUSSÃO
5.1 ANÁLISE DOS DADOS
A análise dos dados foi realizada por meio do método PLS-SEM,
que estabelece uma sequência de etapas a serem rigorosamente seguidas.
Primeiro, foram verificadas a confiabilidade e validade convergente dos
dados da pesquisa, por meio da Análise Fatorial Confirmatória (AFC).
Em PLS-SEM, a confiabilidade é verificada pela observação de indi-
cadores estatísticos como Alpha de Cronbach, Rho_A e Rho_C, com valo-
res que podem variar de 0 a 1, e valores superiores a 0,7 sendo aceitos como
indicadores de confiabilidade dos dados. A validade convergente, que pro-
cura verificar em que medida as perguntas do questionário convergem para
o seu construto, é analisada pelas cargas fatoriais, com valores estatísticos
acima de 0,8, e pela Variância Média Extraída (AVE), apresentando valores
superiores a 0,5 (Hair Jr. et al., 2021). Os resultados mostraram que os três
construtos, CI, DT e ISP, atenderam plenamente aos critérios estatísticos
demonstrando confiabilidade e convergência, validando, desse modo, o
modelo de mensuração.
A análise dos dados também verificou a validade discriminante, que
procura constatar se as perguntas elaboradas, por exemplo, para mensurar
a DT são diferentes das perguntas utilizadas para mensurar ISP. Isso é par-
ticularmente importante porque, se as perguntas não guardarem diferen-
ças, haverá forte viés de pesquisa.
A validade discriminante foi examinada pelos critérios de Fornell-
Larcker e pela razão Heterotrait-Monotrait (HTMT). Os resultados con-
firmaram distinção clara entre os itens utilizados para mensurar CI, DT e
ISP, indicando que estão medindo conceitos distintos entre si.
Também foi verificada a matriz de cargas cruzadas para assegurar que
todos os itens possuem maior correlação com seus próprios construtos do
que com os outros, indicando não haver sobreposição conceitual entre as
variáveis e reafirmando a validade discriminante e o bom ajuste do instru-
mento de pesquisa.
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
284
Para as análises estatísticas dos dados foi utilizado o software
SmartPLS4®, que segue rigorosamente as premissas e os padrões indicados
na literatura especializada. Os resultados encontrados confirmaram a vali-
dade dos dados e do modelo proposto.
A análise dos dados também investigou a consistência da relação
entre as hipóteses teóricas e os construtos da pesquisa, também utilizando
a PLS-SEM via software SmartPLS4®, com aplicação do algoritmo PLS e
do procedimento de bootstrapping com 5.000 subamostras.
O bootstrapping é um método não paramétrico, que não exige dis-
tribuição normal dos dados, e permite testar a significância estatística de
indicadores como os coeficientes de caminho, valores t e p.
Nesta pesquisa, conforme ilustrado na Figura 2, os valores de R²
para os construtos diversidade no trabalho (DT = 0,566) e incivilidade sele-
tiva percebida (ISP = 0,665) demonstram um nível moderado a substancial
de explicação do modelo. A Figura 2 apresenta o diagrama de caminhos
com os resultados estatísticos obtidos.
Figura 1  Diagrama de Caminhos com Resultados Estatísticos
Fonte: Dados da Pesquisa tratados no SmartPLS4®. Nota: R2 é o coeficiente de explicação do modelo; *Nível
de significância p < 0,001 (valores entre parênteses). F² = tamanho do efeito. Cargas fatoriais: valores sobre
as setas que ligam construtos e indicadores. Sinal positivo (+): relação diretamente proporcional entre as
variáveis. Legendas: CI (Cultura Informacional); DT (Diversidade no Trabalho); ISP (Incivilidade Seletiva
Percebida).
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
285
Todos os coeficientes apresentaram significância estatística (p-valor
< 0,001), confirmando as hipóteses da pesquisa (H1, H2, H3 e H4). Os
tamanhos de efeito (F²), que mostram a magnitude do impacto entre va-
riáveis e ajudam a entender quão substancial é essa relação no mundo real,
também retornaram resultados de moderado a forte.
Segundo a literatura (Cohen, 1988), são considerados efeitos pe-
quenos (0,02 ≤ f² < 0,15), médios (0,15 ≤ f² < 0,35) e grandes (f² ≥ 0,35).
Os valores observados na pesquisa indicaram: H1 (CI ISP): f² = 0,336
(médio); H2 (CI DT): f² = 0,753 (grande); H3 (DT ISP): f² = 0,533
(grande); H4 (CI DT ISP): f² = 0,401 (grande).
O efeito indireto (mediação) CI DT ISP resultou em 0,753 ×
0,533 = 0,401, enquanto o efeito total (direto + indireto) foi de 0,336 +
0,401 = 0,737. Esses dados destacam o papel da DT como variável media-
dora, explicando mais da metade do efeito total de CI sobre ISP.
Além dos dados quantitativos, os participantes da pesquisa foram
solicitados a informar a percepção sobre comportamentos de IS no tra-
balho, a partir de uma lista previamente formulada. Os tipos de IS mais
percebidos foram relacionados a gênero e orientação sexual (77%), raça
(32%), religião (26%), aspectos físicos (25%), origem geográfica (20%) e
sociocultural (11%). Ao comparar os dados, nota-se que os principais fo-
cos de ISP coincidem com gênero e orientação sexual, evidenciando maior
recorrência e impacto percebido nessas categorias.
A amostra contou com 338 respondentes de variados perfis. Em
relação ao sexo, 172 se identificaram como mulheres, 127 como homens, e
39 não informaram. Quanto ao gênero, 139 eram mulheres cisgênero, 123
homens cisgênero, 1 mulher transgênero, enquanto 75 não informaram.
A orientação sexual predominante foi heterossexual (n = 259), seguida por
homossexuais (n = 20), bissexuais (n = 7), pansexuais (n = 3) e assexuais
(n = 1), com 48 respostas não informadas. Sobre a cor da pele, 151
respondentes se declararam brancos, 103 pardos, 25 pretos, 6 amarelos,
e 53 não informaram. 11 participantes declararam ter algum tipo de
deficiência, sendo 3 deficiência física, 4 deficiência visual e 4 com outras
deficiências não relatadas. 277 declararam não possuir deficiências.
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
286
Sobre a origem geográfica, 116 informaram ser do Nordeste, 108 do
Sudeste, 27 do Sul, 27 do Centro-Oeste, 16 do Norte e 43 não informa-
ram. Em relação à religião, 124 se declararam católicos, 82 evangélicos, 38
sem religião, 24 espíritas, 5 de matriz africana, e 65 não informaram. Em
relação à faixa etária, 83 declararam ter entre 31 e 40 anos, 77 informaram
ter entre 41 e 50 anos, e os demais não informaram.
Quanto à escolaridade, 100 respondentes informaram possuir es-
pecialização, 59 disseram ter graduação, 59 declararam ser mestres e 31
doutores. Acerca da situação profissional, 246 disseram estar empregados,
enquanto os demais se apresentaram como autônomos (n = 17), desempre-
gados (n = 9), estagiários (n = 8) e outras ocupações.
Sobre o segmento de trabalho, 118 declararam trabalhar no serviço
público, 54 disseram atuar na área da educação, 48 em setores de serviços
e tecnologia. Em relação à renda, 70 respondentes informaram ganhar aci-
ma de 10 salários mínimos, enquanto 48 respondentes disseram ter renda
entre 1 e 3 salários mínimos. O tempo de empresa para 102 respondentes
é superior a 10 anos e de até 1 ano para 32 respondentes; os demais parti-
cipantes não informaram o tempo de empresa.
5.2 DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
A hipótese H1 ("A cultura informacional exerce efeitos diretos e po-
sitivos na percepção dos empregados sobre a incivilidade seletiva") foi con-
firmada, com efeito médio e positivo, indicando que a cultura informacio-
nal (CI) contribui para a identificação de comportamentos de incivilidade
seletiva (ISP). O efeito positivo indica que, quanto mais consolidada a
cultura informacional, maior a competência informacional dos emprega-
dos para reconhecer comportamentos destoantes no ambiente de trabalho,
como a IS.
De acordo com Ginman (1987) e Choo et al. (2006), a CI contribui
para o desenvolvimento de habilidades críticas nos membros da organiza-
ção, tornando-os capazes de perceber, analisar e responder aos eventos or-
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
287
ganizacionais de forma consciente. Complementando, em ambientes com
cultura informacional forte, espera-se que as dinâmicas organizacionais
tornem mais visíveis as agressões sutis, como a IS.
A hipótese H2 propunha que a cultura informacional exerce efeitos
diretos e positivos sobre a diversidade no trabalho. Os dados confirmaram
essa relação, apresentando elevada significância estatística e tamanho de
efeito grande, em consonância com o que demonstra a literatura acerca
da capacidade da cultura informacional de influenciar múltiplos aspec-
tos do ambiente organizacional (Choo et al., 2006; Choo, 2013; Woida;
Valentim, 2008; Sundqvist; Svärd, 2016).
A hipótese H3 sugeria que a DT exerceria efeito direto e positivo so-
bre a percepção dos empregados acerca da ISP. Os resultados confirmaram
a hipótese, indicando efeito substancial. À primeira vista, esse resultado
pode parecer contraditório, uma vez que estudos anteriores (Kabat-Farr;
Cortina, 2012; Porath; Pearson, 2012) associam a DT ao aumento da IS.
Contudo, a presente pesquisa avança ao inserir a CI como variável que
influencia a DT. Ao considerar essa articulação, o estudo oferece nova in-
terpretação: quando inserida em contexto orientado por CI que reafirma
valores inclusivos e de respeito às diferenças, a DT amplia a capacidade dos
empregados de identificar comportamentos de IS.
A hipótese H4 propunha que DT mediava a relação entre CI e ISP.
A hipótese também foi confirmada, apresentando efeito robusto. Os resul-
tados demonstraram que a DT, quando influenciada pela CI, potenciali-
za o impacto desta sobre a percepção da incivilidade seletiva, produzindo
efeito indireto superior ao efeito direto da cultura informacional sobre a
variável dependente, na ausência da mediação.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este capítulo apresentou uma leitura hermenêutica e crítica de uma
pesquisa de doutorado realizada no ano de 2025, no âmbito do Programa
de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Unesp, câmpus de Marília,
Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano e Rosangela Formentini Caldas (Org.)
288
que investigou a influência da cultura informacional (CI) na percepção da
incivilidade seletiva (ISP), mediada pela diversidade no trabalho (DT). A
pesquisa partiu da premissa de que a CI influencia diretamente a ISP e,
indiretamente, por meio da mediação da DT.
A análise dos dados envolveu um estudo quantitativo, descritivo, de
corte transversal e por acessibilidade, com questionário aplicado online a
profissionais que declararam experiência de pelo menos seis meses em uma
mesma organização.
Com base em um modelo teórico testado por meio da Modelagem
de Equações Estruturais por Mínimos Quadrados Parciais (PLS-SEM), a
pesquisa confirmou as hipóteses formuladas, demonstrando que a CI exer-
ce efeitos diretos e positivos na percepção dos empregados sobre a ISP e
sobre a DT. Também ficou demonstrado que a DT exerce efeitos diretos
e positivos sobre a ISP. Por fim, evidenciou-se que a DT medeia positiva-
mente a relação entre CI e ISP.
A principal contribuição teórica deste estudo está na inclusão da
cultura informacional como variável independente, preditora; isto é, que
explica o comportamento de outras variáveis, chamadas dependentes. No
presente estudo, DT e ISP foram utilizadas como variáveis dependentes,
para sustentar a tese de que a CI pode exercer o papel de variável de impac-
to sobre outras variáveis no contexto organizacional.
Os resultados demonstraram que a CI é uma preditora relevante,
que contribui efetivamente para a construção de ambientes informacional-
mente eficientes e equitativos e para o desenvolvimento de competência
informacional nos atores organizacionais, permitindo-lhes perceber com-
portamentos desviantes, como a incivilidade seletiva.
Do ponto de vista prático, os resultados demonstram a importância
de compreender a CI como elemento fundamental para capacitar as pes-
soas organizacionais a perceber comportamentos de incivilidade seletiva,
visto que a negligência em relação a esse tipo de comportamento desviante,
pode comprometer o bem-estar, a motivação, a satisfação, o desempenho e
a retenção dos empregados, como corroborado pela literatura.
Informação, Conhecimento e Inteligência organizacional: Novas abordagens
289
Além disso, ficou demonstrado que a CI pode modificar o compor-
tamento da variável DT sobre a variável ISP. Considerando estudos como
o de Kabat-Farr e Cortina (2012) que apontou que a DT, quando consi-
derada isoladamente, favorece comportamentos de incivilidade, o presente
estudo evidenciou que a DT pode ser influenciada pela CI, e que seus efei-
tos podem ser amplificados produzindo competência informacional para a
detecção de comportamentos de incivilidade seletiva.
Como toda pesquisa, este estudo também apresenta limitações,
com destaque para: (1) o uso de amostragem não probabilística, que não
permite generalizações; (2) a aplicação de escalas adaptadas para verifica-
ção da CI, ainda que validadas por especialistas; (3) o corte transversal,
que caracteriza a pesquisa como retrato de momento. Desse modo, re-
comenda-se que pesquisas futuras adotem abordagem longitudinal, com
amostragem probabilística, e ampliem os esforços de validação e replicação
das escalas empregadas neste estudo, contribuindo para a consolidação de
instrumentos de mensuração da CI em diferentes momentos e contextos
organizacionais.
Que os achados desta pesquisa incentivem novos estudos dedicados
a ampliar a compreensão da relevância da cultura informacional, da diver-
sidade no trabalho e da percepção de comportamentos de incivilidade se-
letiva no contexto organizacional; que também motivem e fundamentem
pesquisas futuras, orientando práticas gerenciais que valorizem a gestão
estratégica da informação como elemento central para o fortalecimento
da cultura informacional, para a promoção de ambientes mais inclusivos
e diversos, para o enfrentamento de comportamentos desviantes, como a
incivilidade seletiva, e a construção de relações de trabalho mais saudáveis.
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93-115.
CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP)
Telma Jaqueline Dias Silveira
CRB 8/7867
NORMALIZAÇÃO
Laura Akie Saito Inafuko
CRB-8 9116
Ana Carolina Miguel Giometti
CAPA E DIAGRAMAÇÃO
Gláucio Rogério de Morais
PRODUÇÃO GRÁFICA
Giancarlo Malheiro Silva
Gláucio Rogério de Morais
ASSESSORIA TÉCNICA
Renato Geraldi
OFICINA UNIVERSITÁRIA
Laboratório Editorial
labeditorial.marilia@unesp.br
FORMATO
16 x 23cm
TIPOLOGIA
Adobe Garamond Pro
2026
SOBRE O LIVRO
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Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano &
Rosangela Formentini Caldas (Org.)
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Marcia Cristina de Carvalho Pazin Vitoriano
Rosangela Formentini Caldas
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