Maria José Vicentini Jorente | Dunia Llanes Padrón
Natália Marinho do Nascimento | Gabriela de Oliveira Souza
CAPES
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DRI
Maria José Vicentini Jorente | Dunia Llanes Padrón
Natália Marinho do Nascimento | Gabriela de Oliveira Souza
Contextos Paradigmáticos da
Ciência da Informação e as
transformações em suas práticas
Contextos Paradigmáticos da Ciência da
Informação e as transformações em suas práticas
Contextos Paradigmáticos
da Ciência da Informação
e as transformações em
suas práticas
Marília/Oficina Universitária
São Paulo/Cultura Acadêmica
2025
M J V J
D L P
N M  N
G  O S
(O)
Contextos Paradigmáticos
da Ciência da Informação
e as transformações em
suas práticas
Editora afiliada:
Cultura Acadêmica é selo editorial da Editora UNESP
Oficina Universitária é selo editorial da UNESP - campus de Marília
Copyright © 2025, Faculdade de Filosofia e Ciências
Ficha catalográfica
C761 Contextos paradigmáticos da ciência da informação e as transformações em suas práticas / Maria
José Vicentini Jorente ... [et al.] (organizadoras). – Marília : Oficina Universitária ; São Paulo :
Cultura Acadêmica, 2025.
319 p. : il.
Inclui bibliografia
ISBN 978-65-5954-649-7 (Impresso)
ISBN 978-65-5954-650-3 (Digital)
DOI: https://doi.org/10.36311/2025.978-65-5954-650-3
1. Ciência da informação – Inovações tecnológicas. 2. Sociedade da informação. 3. Letramento
computacional. 4. Cientistas da informação. 5. Prática profissional. I. Jorente, Maria José Vicentini. II.
Llanes Padrón, Dunia, III. Nascimento, Natália Marinho do. IV. Souza, Gabriela de Oliveira.
CDD 020
Telma Jaqueline Dias Silveira –Bibliotecária – CRB 8/7867
Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives
4.0 International License.
Diretora
Dra. Ana Clara Bortoleto Nery
Vice-Diretora
Dra. Cristiane Rodrigues Pedroni
Conselho Editorial
Mariângela Spotti Lopes Fujita (Presidente)
Célia Maria Giacheti
Cláudia Regina Mosca Giroto
Edvaldo Soares
Franciele Marques Redigolo
Marcelo Fernandes de Oliveira
Marcos Antonio Alves
Neusa Maria Dal Ri
Renato Geraldi (Assessor Técnico)
Rosane Michelli de Castro
Parecerista
Profa. Dra. Izângela Maria Sansoni Tonello de
Oliveira
Professora do Departamento de Ciência da
Informação da Universidade Estadual de Londrina
(UEL)
Câmpus de Marília
Imagem capa: Macrovector / Freepik; <a href="http://www.freepik.com">Desenhado por Macrovector / Freepik</a>.
Acesso em 01/10/2025.
5
S
PREFÁCIO ............................................................................................ 15
Carlos Guardado da SILVA
APRESENTAÇÃO | Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação
e as transformações em suas práticas ......................................................... 31
Maria José Vicentini JORENTE
Dunia Llanes PADRÓN
Natália Marinho do NASCIMENTO
Gabriela de Oliveira SOUZA
CAPÍTULO 1 | A formação curricular em arquivamento eletrônico:
proposta para o Espaço Europeu de Educação Superior (EEES)................ 57
María-Manuela MORO-CABERO
Kevin-Francisco León GAVILÁNEZ
CAPÍTULO 2 | Proposta de cenários formativos de alfabetização em
dados no contexto das Ciências da Informação ........................................ 87
Yolanda MARTÍN-GONZÁLEZ
Críspulo TRAVIESO-RODRÍGUEZ
CAPÍTULO 3 | Documentos Públicos Digitais em Blockchain:
Fortalecendo a Responsabilidade Democrática ......................................... 115
Danielle Alves BATISTA
Victoria L. LEMIEUX
6
CAPÍTULO 4 | A caminho de uma gestão eficaz no contexto de
avaliação e classificação da informação de arquivo na Administração
Pública Portuguesa ................................................................................... 139
Isabel Cristina Guerra Correia ROSTAMI
Maria Cristina Vieira de FREITAS
CAPÍTULO 5 | O autor é o indexador? A prática de indexação na
perspectiva das transformações da comunicação científica em
ciência aberta ........................................................................................... 177
Mariângela Spotti Lopes FUJITA
CAPÍTULO 6 | Pensamento complexo e a Ciência da Informação ........... 205
Mariana Rodrigues Gomes de MELLO
Marta Lígia Pomim VALENTIM
CAPÍTULO 7 | Macrobibliotecas: a contemporaneidade das bibliotecas .. 229
Rafaela Carolina da SILVA
Rosângela Formentini CALDAS
CAPÍTULO 8 | Estratégias Inovadoras para as Assessorias Jurídicas do
Distrito Federal sob a égide da Ciência da Informação .............................. 255
Natália NAKANO
Rosilene Paiva Marinho de SOUSA
Milton SHINTAKU
CAPÍTULO 9 | Transformações nas interfaces de interação de projetos
colaborativos de e-ciência de acordo com as atualizações de convergências
entre o Design da Informação e a Curadoria Digital na Web. ................... 273
Gabriela de Oliveira SOUZA
Maria José Vicentini JORENTE
7
LISTA DE FIGURAS
CAPÍTULO
Figura 1 - Abordagem holística da competência ....................................... 68
Figura 2 - Roteiro da Guia para a elaboração de um marco ...................... 72
Figura 3 - Marco DigCom, detalhe descritivo para competências da
cidadania ................................................................................................. 75
Figura 4 - Resultados de aprendizagem EQF ........................................... 81
CAPÍTULO
Figura 1 - Estrutura genérica de um blockchain ....................................... 120
Figura 2 – Arquitetura geral da Rede Blockchain Brasil ........................... 128
CAPÍTULO 4
Figura 1 - Esquema ilustrativo de todas as classes identificadas na LC ....... 161
Figura 2 - LC. Esquema ilustrativo das classes 100 e 200 e respetivas
subclasses.................................................................................................. 162
Figura 3 - LC. Esquema ilustrativo das classes 250, 300, 350 e respetivas
subclasses ................................................................................................. 163
Figura 4 - LC. Esquema ilustrativo das classes 350, 400, 450, 500 e
respetivas subclasses ................................................................................. 163
8
Figura 5 - LC. Esquema ilustrativo das classes 500, 550, 600 e respetivas
subclasses ................................................................................................. 164
Figura 6 - LC. Esquema ilustrativo das classes 650, 700, 710, 750 e
respetivas subclasses ................................................................................. 164
Figura 7 - LC. Esquema ilustrativo das classes 750, 800, 850, 900, 950 e
respetivas subclasses ................................................................................. 165
Figura 8 - LC. Esquema ilustrativo da classe 800, respetivas subclasses e
exemplos de processos de negócio ............................................................ 166
Figura 9 - Apresentação do motor de pesquisa usado para a consulta
da LC ....................................................................................................... 167
Figura 10 - Apresentação do menu inicial do processo de negócio
800.20.200, na LC ................................................................................... 167
Figura 11 - Campo Descritivo da Classe 800, relativo ao processo de
negócio 800.20.200 ................................................................................. 168
Figura 12 - Campo Contexto de Avaliação da Classe 800, relativo ao
processo de negócio 800.20.200 ............................................................... 169
Figura 13 - Campo Contexto de Avaliação da Classe 800, relativo ao
processo de negócio 800.20.200 ............................................................... 170
CAPÍTULO
Figura 1 - The revised UNISIST-model modified for the domain analytic
approach ................................................................................................. 185
CAPÍTULO
Figura 1 - Associação entre o conceito de hibridez, os tipos de bibliotecas
e o desenvolvimento na esfera pública ..................................................... 244
Figura 2 – Macrobiblioteca: a biblioteca na complexidade do futuro ........ 249
9
CAPÍTULO
Figura 1 - Elementos da Experiência do Usuário ....................................... 277
Figura 2 - Modelo do Ciclo de Vida da Curadoria Digital ........................ 279
Figura 3 - Página inicial do Club Lexic ..................................................... 285
Figura 4 - Mensagem de erro .................................................................... 286
Figura 5 - Página de apresentação do Microscopi ...................................... 288
Figura 6 - Apresentação de termo no Microscopi ...................................... 289
Figura 7 - Página de apresentação do COMJunts ...................................... 292
Figura 8 - Menu principal do COMJunts ................................................. 293
Figura 9 - Página inicial do Diximed para Pediatría .................................. 296
Figura 10 - Menu principal do Diximed para Pediatría ............................. 296
10
L  S
TIC – Tecnologias de Informação e Comunicação
CI – Ciência da Informação
ISO – International Organization for Standardization
UE – União Europeia
ODS – Objetivos de Desenvolvimento Sustentável
IFLA – International Federation of Library Associations and Institutions
CAPÍTULO
ETE – Ambientes de Trabalho Eletrônico
CLAV – Classificação e Avaliação de Informação Arquivística
GLAM – Galerias, Bibliotecas, Arquivos e Museus
CE – Comissão Europeia
EEES – Espaço Europeu de Educação Superior
INESC-ID – Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores
- Pesquisa e Desenvolvimento em Lisboa, Portugal
RIN – Research Information Network
HATII – Informação e Tecnologia Avançada em Humanidades da
Universidade de Glasgow
DigCurv – Digital Curator Vocational Education
DG EMPL – Direção Geral de Emprego, Assuntos Sociais e In- clusão
ESCO – European Skills, Competences and Occupations
AAF - Association des Archives Françaises
11
CAPÍTULO
CRUE – Conferência de Reitores das Universidades Espanholas
CAPÍTULO
DAOS – Descentralized Autonomous Organizations
DApps – Aplicativos Descentralizados
CB – Colúmbia Britânica, no Canadá
EMDT – Energy and Mines Digital Trust
TCU – Tribunal de Contas da União
BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social
SERPRO – Serviço Federal de Processamento de Dados
RBB – Rede Blockchain Brasil
CAPÍTULO
CIA – Conselho Internacional de Arquivos
MIP – Metainformação para a Interoperabilidade Semântica
RODA – Repositório de Objetos Digitais Autênticos
OAIS – Open Archival Information System
AP – Administração Pública
PAEIS – Programa Administração Eletrónica e Interoperabilidade Semântica
DGARQ – Direção-Geral dos Arquivos
DGLAB – Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas
MEF-ACE – Macroestrutura Funcional para a Administração Cen- tral do
Estado
LC – Lista Consolidada
ASIA – Avaliação Suprainstitucional da Informação Arquivística
CLAV – Classificação e Avaliação da Informação Arquivística
12
TS – Tabela de Seleção
PCA – Prazos de Conservação Administrativa
DF – Destino Final
CAPÍTULO
OAI – Open Archives Iniciatiative
BNB – British National Bibliography
PRECIS – PREserved Context Indexing System
KWIC – Key Word In Context
IRR – Information Representation and Retrieval
BVS – Biblioteca Virtual de Saúde
ENANCIB – Encontro Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em
Ciência da Informação
ANPED – Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em
Educação
LCSH – Library of Congress Subject Headings
Fiocruz – Fundação Oswaldo Cruz
INEP - Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais
DeCS – Descritores em Ciências da Saúde
CAPÍTULO 6
IIB – l’Institut International de Bibliographie
CAPÍTULO 7
BRAPCI – Base de Dados em Ciência da Informação
LISA – Library and Information Science Abstracts
WoS – Web of Science
13
SocINDEX – Database
MO – Missouri, Estados Unidos da América
KS – Kansas, Estados Unidos da América
CAPÍTULO 8
DF – Distrito Federal
PDOT – Plano Diretor de Ordenamento Territorial do Distrito Federal
AJL – Assessoria Jurídico-legislativa
SE GOV – Secretaria de Estado de Governo do DF
SEI – Sistema Eletrônico de Informações
IBICT – Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecno- logia
BDJur – Biblioteca Digital Jurídica
STJ – Superior Tribunal de Justiça
LAI – Lei de Acesso à Informação
TJDFT – Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios
CAPÍTULO 9
DI – Design da Informação
CD – Curadoria Digital
DCC – Digital Curation Centre
14
15
P
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón, Natália Marinho
do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza são as editoras do livro
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em
suas práticas, editado por Oficina Universitária e Cultura Acadêmica, por si
apresentado no capítulo 1. Um livro de 350 páginas, desenvolvido em 10
capítulos, assinados a título individual ou escritos em coautoria, com uma
Lista de figuras e uma Lista de siglas, ambos por capítulo, após o Sumário.
Nas últimas 14 páginas do livro, encontram-se (breves) “Biografias dos
Autores”, com os respectivos links para as plataformas do sistema de currí-
culos Lattes e/ou Orcid (Open Researcher and Contributor ID).
O primeiro capítulo, cujo título dá nome ao livro no seu todo,
“Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações
em suas práticas” (p. 39-66), que visa apresentar as problemáticas e algumas
sugestões de soluções e de trabalho, é da autoria de Maria José Vicentini
Jorente, Dunia Llanes Padrón, Natália Marinho do Nascimento e Gabriela
de Oliveira Souza, que partilham a autoria da edição. Desde logo, este tí-
tulo, quase todo ele escrito com termos grafados na forma do plural, reflete
o cada vez mais alargado campo da Ciência da Informação, os distintos
paradigmas que têm suportado a(s) comunidade(s) de cientista(s), objeto
de discussão teórica, bem como as comunidades de prática(s), que atu-
am na área científica, bem como nas subáreas aplicadas, designadamente
da Arquivística, da Biblioteconomia, da Documentação e da Museologia,
https://doi.org/10.36311/2025.978-65-5954-650-3.p15-30
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
16
entre outras. Um título que situa, na atualidade, o campo da informação,
que também se alarga em termos multi e interdisciplinar, tão lato quanto
o conceito de informação, ou seja, no âmbito das “ciências dedicadas ao
estudo da informação”. Um livro que sublinha, como reconhecem todos
quantos atuam na área da Ciência da Informação, o papel facilitador e,
sobretudo, transformador das Tecnologias da Informação e Comunicação
no acesso e na partilha de informação tendo como foco o indivíduo e as
comunidades de interesse, mas nem sempre no sentido da oferta de infor-
mação íntegra, fidedigna e autêntica, e de mais e melhor conhecimento,
onde, inclusive, se põe em causa o lugar do autor/criador, e por que não
dizer a autoria, o copyright e os direitos de autor.
No capítulo 1, as autoras convidam-nos a percorrer consigo o per-
curso da Ciência da Informação e, pela voz de Capurro e Hjorland (2007),
a partir do paradigma positivista para as acompanharmos do conceito tra-
dicional de informação documentada/registada ao conceito de informa-
ção como conexão e, por vezes, representação da realidade, proposto por
Harari (2024). São transformações epistemológicas e práticas, decorrentes
da sucessão e coexistência de distintos contextos paradigmáticos, a que
não são alheios os desafios que a Sociedade da Informação coloca de um
modo geral à Ciência, e em particular à Ciência da Informação, objeto
de uma invenção contínua da sua identidade. Outras designações para os
paradigmas da Ciência da Informação são trazidas, entre outros, por Silva
e Ribeiro (2020), reforçando a ideia de transição paradigmática, como se
os paradigmas se sucedessem e não coexistissem, como acontece.
Com o desenvolvimento das Tecnologias da Informação e
Comunicação, hoje, como não se verificou antes, exige-se um reforço da
dimensão ética e deontológica dos cientistas da informação, mas também
dos profissionais da informação. A estes, dados os desafios atuais e futuros
impostos pela Sociedade Digital, exige-se-lhe um reforço das suas com-
petências digitais, bem como uma resposta por parte da oferta formativa,
designadamente na (re)definição dos curricula da indústria da informação
referida em Tramullas Saz (2021) que respondam às estratégias nacionais
e europeias da transição/transformação digital, termo renovado para ‘des-
materialização digital’ ou digitalização da sociedade já presente em docu-
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
17
mentos normativos na década de 90, quer na União Europeia, quer em
distintos Estados-Membros, porém sob outra designação. Ao usar o ter-
mo indústria da informação, certamente por influência das Tecnologias
da Informação e Comunicação, Tramullas Saz (2021) aproxima o vasto
campo da informação dos campi das indústrias culturais e criativas.
No capítulo 2, “A formação curricular em arquivamento eletrônico:
proposta para o Espaço Europeu de Educação Superior (EEES)” (p. 68-
99), de María Manuela Moro-Cabero e Kevin Francisco León Gavilánez,
os autores apresentam uma proposta formativa em arquivamento eletrô-
nico para o Espaço Europeu de Ensino Superior, a partir do e-ARK da
Comissão Europeia, e tendo por base, como não poderia deixar de ser,
referenciais de competências (digitais), tão úteis às entidades formadoras,
aos formandos, bem como às entidades empregadoras.
Os autores acrescentam, face à proposta de evolução paradigmática
(três paradigmas) de Steve Bailey (2008), um quarto paradigma definido
por Moro-Cabero (2021), ampliado pelo uso de Tecnologias da Informação
e Comunicação mais recentes (Web 4.0) para a produção, a comunicação e
a reutilização de documentos. São paradigmas sobretudo sobre a gestão de
documentos, em que se sobrevaloriza o termo ‘documento’, registado sete
vezes, face ao de ‘informação’ com quatro referências (p. 73-74). Não são
paradigmas sobre a Ciência da Informação, como incidem os paradigmas
de Capurro (2007) e Silva e Ribeiro (2020), apesar da gestão de documen-
tos, epistemologicamente melhor designada por Gestão da Informação, ser
por nós considerado subcampo da Ciência da Informação. Quando do co-
mentário a este capítulo, as editoras do livro comparam, no capítulo 1, os
paradigmas apresentados por Steve Bailey (2008) e Silva e Ribeiro (2020)
(p. 27), procurando uma correspondência entre si, quando, parece-nos,
os paradigmas de Bailey, entendendo-se aqui paradigma como um modo
distinto de fazer técnica/ciência (Kuhn, 2021), incidem sobre a evolução
tecnológica e a sua influência transformadora na ‘gestão de documentos
nos arquivos, paradigmas técnicos distintos dos paradigmas da Ciência da
Informação quanto a um modo distinto de fazer ciência ou que caraterize a
evolução da disciplina de natureza marcadamente tecnicista para um esta-
tuto científico. Ou seja, numa comparação possível, é mais fácil identificar
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
18
os paradigmas de Silva e Ribeiro (2020), anteriormente reduzidos a dois,
com os três paradigmas de Capurro (2007) - físico, cognitivo e social –
que, certamente por influência daquele, bem como da evolução social e
da área científica, procuraram revisitar. Por outro lado, será possível uma
identificação mais estreita entre os paradigmas da gestão de documentos de
Steve Bailey (2008) com os paradigmas da arquivística de eo omassen
(1999): fase pré-paradigmática (séc. XIX, até 1898); Fase de paradigma
clássico ou moderno (séc. XX); paradigma pós-moderno ou pós-custo-
dial (séc. XXI), marcado pela revolução das Tecnologias da Informação e
Comunicação. Todavia, mesmo procurando-se a comparação entre estas
duas propostas, os paradigmas de Steve Bailey caberiam todos dentro dos
paradigmas clássico ou moderno e pós-custodial de eo omassen.
Voltemos à proposta das autoras para um a definição de um curricu-
lum para a arquivística em ambiente digital, isto é, suportado em compe-
tências digitais destinado à formação de arquivistas, os gestores de infor-
mação na Sociedade da Informação Digital. Reconhece-se na proposta a
ideia-chave de que as pessoas são o centro da qualidade, como defendera
Claus Møller (2004), devendo por isso apostar-se na sua formação, deseja-
velmente assente em referenciais de competências. Assim, ao invés do que
se observa, de que são exemplos os trabalhadores da Administração Pública
em Portugal, impõe-se a mudança de um paradigma de gestão de recursos
humanos centrado nas funções para o enfoque nas competências-chave
(core competences). Existindo um referencial de competências, tal implica: a
Identificação do portfólio de competências-chave transversais e específicas,
partindo da estratégia da organização; a definição operacional do portfólio
de competências-chave; a definição dos perfis individuais de competências
requeridas; e ligações e alinhamentos nas políticas e sistemas de gestão de
recursos humanos (Ceitil, 2006, p. 132-133). Deste modo, seguindo uma
abordagem sistémica, seria possível formar, recrutar e selecionar, avaliar e
gerir as carreiras dos arquivistas por competências ao invés da adoção de
modelos (de gestão e avaliação) assentes na definição de objetivos, que
servem a gestão de instituições e unidades orgânicas, bem como de proje-
tos, mas não a gestão de recursos humanos. Por outro lado, considerando
que, em termos internacionais, a Ciência da Informação tende a integrar a
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
19
Arquivística na sua área científica, talvez a proposta formativa de arquiva-
mento eletrónico para arquivistas devesse avançar no sentido da definição
de um curriculum formativo de referência no âmbito dos Sistemas Digitais
de Informação, com orientação GLAM/M, colocando o enfoque do digi-
tal nos sistemas e não na informação.
Se não há dúvidas quanto à necessária definição de um referencial
de competências para a gestão da informação em contexto digital, menos
ainda para a gestão e o (re)uso de dados no âmbito da Ciência Aberta,
exigente de competências no âmbito quer da literacia de dados quer da
literacia digital. Esta abordagem é-nos oferecida no capítulo 3, “Proposta
de cenários formativos de alfabetização em dados no contexto das Ciências
da Informação” (p. 101-128), grafando-se aqui a área científica no plu-
ral, por Yolanda Martín-González e Críspulo Travieso-Rodríguez. Na ver-
dade, enquanto María Manuela Moro-Cabero e Kevin Francisco León
Gavilánez nos propõem uma formação curricular para os arquivistas que
atuam em ambiente digital, Yolanda Martín-González e Críspulo Travieso-
Rodríguez apresentam uma proposta formativa em literacia de dados para
bibliotecários, sendo certo que também estes atuam no ambiente digital.
Todavia, partem da constatação de que os cursos de Ciência da Informação
em Espanha adotam ainda com frequência na sua designação os termos
Informação e Documentação, independentemente da maior ou menor
presença do digital em unidades curriculares ou em conteúdos de uni-
dades curriculares. Estes autores notaram a emergência do digital em al-
gumas designações, assim como de disciplinas como Business intelligence,
Repositórios e Preservação digital, Literacia digital, ou, como se oferece
em alguns curricula em Portugal, e-Business, Repositórios digitais, Projetos
digitais, Transformação digital, Curadoria digital. Por outro lado, cresce a
Gestão/Curadoria de dados, a visualização de dados, Data Governance, a
especialização do Bibliotecário de dados (formação sobretudo on job) por
influência do movimento da Ciência Aberta, exigindo-se a (re)definição
de novos curricula formativos e, naturalmente, novas subáreas na Ciência
da Informação, de que são exemplos a Literacia de dados, atestada em
novas unidades curriculares de cursos da área científica em Espanha (e
não só) como Ciência de Dados, Big Data, Dados Abertos, Mineração
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
20
de Dados, como bem notado pelas autoras do capítulo 1, que comentam
aqui os distintos estudos. A estas podemos acrescentar, a título de exemplo,
Repositórios Digitais, Inteligência Artificial, Gestão de dados de Ciência,
Comunicação da Ciência, Visualização de dados, mas também Estudos
críticos de Informação e Cultura, Culturas da desinformação, Cultura
Científica, e Media e Gestão Cultural, que permitem uma melhor perce-
ção do paradigma social, ou socio-crítico, se não individualizarmos ainda
um paradigma crítico, ou, o paradigma de transição político-ideológico e
sociocultural, assim designado por Silva e Ribeiro (2020), na Ciência da
Informação, mas que inclui o paradigma social de Capurro, bem como um
paradigma crítico emergente. Naturalmente, numa unidade curricular de
Repositórios digitais, os dados assumem algum protagonismo. Assumindo-
se a Literacia de dados como crítica, ela terá de emergir em diálogo com a
Literacia digital, reforçando os conteúdos das Tecnologias da Informação
e Comunicação nos curricula formativos dos profissionais da informação,
que tendem a distanciar-se da formação e da designação tradicional de ar-
quivistas ou bibliotecários para se aproximarem da designação de gestores
da informação, com uma formação sólida em Ciência da Informação capaz
de responder aos desafios da transição digital numa sociedade que se afir-
ma como digital, mas que faz ainda o seu percurso para que efetivamente
o seja. Um Ciência da Informação que, querendo ser social e humanista,
se aproxime em termos de alguns conteúdos, da Ciência da Informação
com uma matiz mais tecnológica, desenvolvida no contexto anglo-saxóni-
co (Silva, 2024).
No capítulo 4, “Documentos Públicos Digitais em Blockchain:
Fortalecendo a Responsabilidade Democrática” (p. 130-153), de Danielle
Alves Batista e Victoria L. Lemieux, as autoras discutem o papel das
Tecnologias da Informação e Comunicação no acesso à informação no
longo prazo, aos documentos digitais públicos em Blockchain como ga-
rantia da sua fidedignidade, autenticidade, confiabilidade, integridade
e imutabilidade, e sobretudo o facto de a sua preservação com estes re-
quisitos oferecer mais condições para o escrutínio da responsabilização
e da prestação de constas dos titulares dos cargos de gestão, dependente
do acesso à informação e, consequentemente, da transparência (passiva e
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
21
ativa) dos organismos da administração pública com vista à integridade
pública (Faben, Rodrigues, Silva, 2024). Este capítulo constitui-se como
um estudo sobre o reforço da responsabilização democrática, suportado
na tecnologia Blockchain, hoje mais abordado no âmbito das Políticas de
Integridade Pública, na sequência da Recomendação do Conselho da OCDE
sobre Integridade Pública (OCDE, 2017). Também a constatação de que a
o gestor da informação gere informação, e que o exercício de direitos de
cidadania depende do modo como se gere, usa e preserva essa informação.
Pois, o acesso à informação e a transparência já não são, hoje, suficientes,
exigindo-se uma atitude ética comprometida com o serviço público, os
cidadãos e as comunidades, sujeitando os interesses privados ao interesse
público. Assim se afirma, como qualidade e princípio ético, a integridade
pública. Contudo, estando esta dependente do acesso à informação e da
transparência, compreende-se a sua dependência da gestão de informação,
sendo também o arquivo um lugar para a sua promoção, bem como da
confiabilidade na administração pública e de reforço das democracias.
Todavia, de muito mais precisa uma administração pública para a
gestão eficaz e eficiente da informação que produz, contribuindo de modo
fulcral para isso as operações de classificação e avaliação promotoras da
interoperabilidade semântica e organizacional numa perspetiva supra-ins-
titucional e transversal a todos os organismos da administração pública,
independentemente da sua escala. Porém, essas operações devem ser enten-
didas de modo holístico, sistémico, isto é, em todo o ciclo de vida da in-
formação, independentemente do modelo de gestão em uso. Este é o tema
central do capítulo 5, “A caminho de uma gestão eficaz no contexto de ava-
liação e classificação da informação de arquivo na Administração Pública
Portuguesa” (p. 155-197), de Isabel Cristina Guerra Correia Rostami e
Maria Cristina Vieira de Freitas, tendo esta participado no projeto que
conduziu à definição de uma Macroestrutura Funcional e de uma Lista
Consolidada de Processos de Negócio para toda a Administração Pública
em Portugal, central, regional e local.
A classificação serve a Organização e a Representação da Informação
tendo em vista a recuperação da informação, ou seja, contribui para a pro-
moção do acesso à informação. Porém, tem também um importante papel
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
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de gestão, uma vez que é através da notação que, para além da definição de
perfis de gestão e acesso, se criam fluxos de informação, sugerem os proces-
sos de negócio em todo o ciclo de vida, incluindo as operações de avaliação,
seleção e eliminação quando as distintas materializações dos processos de
negócio não são alvo de preservação no longo prazo. Por sua vez, e a título
de exemplo, a avaliação da informação definida pelo novo paradigma de
gestão da informação da administração pública em Portugal responsabiliza
o dono do processo de negócio na preservação da informação, permitindo,
regra geral, aos demais participantes no processo de negócio eliminar re-
dundâncias de dados que não acrescentam informação.
Todavia, a abordagem funcional é muito anterior à norma ISO
15489-1: 2001, assim como ao contributo da norma UNE ISO TR/26122:
2008. Quando R. Schellenberg (1956) formulou um conjunto de princí-
pios para a classificação dos documentos norte-americanos, apoiou-se na
análise funcional, criando uma estrutura hierárquica de funções, ações e
transações. Considerou the action (a função) como o primeiro e mais re-
levante critério para a criação de documentos, uma vez que a maioria dos
documentos públicos é o resultado de uma ação, ou seja, de uma função,
pelo que devem ser classificados como tal (Schellenberg, 1956). A ideia
já não era original, encontrando-se em E. Campbell (1941) no contexto
dos Arquivos Nacionais dos Estados Unidos (Silva, 2016). No entanto,
apenas na década de 80 do século XX assistimos às primeiras tentativas
de classificação funcional em sistemas de classificação desenvolvidos para
promover a interoperabilidade, no âmbito do Administrative records classifi-
cation system (ARCS) e do Operational records classification system (ORCS),
nas províncias canadianas da British Columbia e da Nova Scotia, respeti-
vamente. Mantendo os principais objetivos da classificação da informa-
ção, independentemente de serem sistemas de classificação hierárquicos ou
enumerativos e multifacetados, os sistemas trouxeram alguns benefícios,
como a relação entre a classificação e a avaliação e a retenção, ao nível mais
baixo do plano de classificação, com a indicação dos prazos de retenção
administrativa e do destino final, de modo a favorecer a gestão do ciclo de
vida completo da informação. No final dos anos 90, os antigos Arquivos
Nacionais do Canadá iniciaram um novo projeto que visava rever o sistema
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
23
de classificação da informação com base numa metodologia de avaliação
funcional, conhecida como Macroavaliação, que levou à criação do sistema
de classificação da Business activity structure classification classification system
(BASCS). Como consequência, a informação passaria a ser organizada de
acordo com a estrutura da atividade (mencionada no acrónimo BASCS),
uma estrutura funcional concebida como um princípio de ordem original
através da decomposição de funções e atividades, hierárquica e sequen-
cialmente, até ao nível das transações que geram processos informacionais
(Foscarini, 2010). Efetivamente, estamos convencidos de que os novos
planos de classificação em implementação e uso na administração pública
portuguesa, elaborados conforme à Macroestrutura Funcional e concebi-
dos a partir da Lista Consolidada de processos de negócio, abrem caminho
à promoção de um novo paradigma na gestão da informação (da adminis-
tração pública) em Portugal, bem como são efetivamente instrumentos de
modernização administrativa e de gestão da qualidade das instituições.
No capítulo 6, “O autor é o indexador? A prática da indexação
na perspectiva das transformações da comunicação científica em ciência
aberta” (p. 199-228), Mariângela Spotti Lopes Fujita debruça-se sobre a
operação da indexação realizada pelo próprio autor, que hoje se verifica,
quer no âmbito da ciência aberta e da ciência cidadã, quer em contextos
distintos. Esta situação decorre do autoarquivamento e do autodepósito,
que implicam uma não (inter)mediação de editores e gestores de bases
de dados, abrindo o caminho a um novo paradigma no modo de editar e
comunicar em Ciência, em que o autor se firma também como mediador
entre o(s) seu(s) texto(s) e os leitores ou utilizadores dos sistemas tecno-
lógicos de informação, assumindo simultaneamente a função, parcial ou
total, de editor. Neste contexto, o autor do texto a publicar assume o papel
mediador atribuído tradicionalmente aos profissionais da informação ao
produzir os resumos e as palavras-chave, metainformação descritiva (de re-
presentação e recuperação da informação), indispensável para promover o
acesso à informação, como é hábito em plataformas de revistas científicas,
nos papers para encontros científicos, bem como nos repositórios científi-
cos/institucionais, em que assumem destaque as dissertações de mestrado
e as teses de doutoramento. Alteraram-se os modos, os suportes e os meios
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
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de publicação, e, com o movimento do open access, a ciência aberta con-
tribui para a emergência de um novo paradigma na forma de comunicar
ciência, anulando-se o papel, inclusive de filtro, do editor, em que o autor
assume o papel de editor na mediação entre a publicação e a divulgação,
bem como na representação da informação para promover o seu acesso, as-
sumindo-se, tendo ou não formação, como indexador. Por outras palavras,
o autor é também o editor (e-publisher) e o indexador das suas publicações,
cabendo em ambiente eletrónico o papel de mediação partilhado com os
repositórios científicos e as bases de dados, juntando-se aqui os editores das
revistas, porém não retirando aqueles papéis ao autor.
No capítulo 7, “Pensamento complexo e a Ciência da Informação
(p. 230-253), Mariana Rodrigues Gomes de Mello e Marta Lígia Pomim
Valentim, na senda de Edgar Morin, abrem a porta à complexidade dos
sistemas, bem como à inter e à transdisciplinaridade, que bem definem a
Ciência da Informação e o modo como este autor e a Carta da transdis-
ciplinaridade (Freitas; Morin; Nicolescu, 1994), também por si escrita e
assinada, são referência para este campo do conhecimento. A abordagem
sistémica, holística, totalizante tem sido a preferencial na abordagem no
planeamento, no desenvolvimento e na avaliação dos sistemas de infor-
mação, enquanto sistemas sociais abertos, vivos, isto é, necessariamente
alimentados do exterior (Morin, 2017). Se na base está a influência da
Teoria Geral dos Sistemas, de Ludwig von Bertalanffy (2013), a introdu-
ção da ‘complexidade’ nos sistemas é um contributo de Edgar Morin. Esta
abordagem introduz um novo paradigma na relação entre a Ciência da
Informação e Arquivística, a Biblioteconomia e a Museologia, permitin-
do à primeira analisar fenómenos que estão fora e além destas disciplinas
práticas, fazendo emergir do seu confronto um novo olhar da natureza e
da realidade, um olhar informacional (Araújo, 2013), paradigmático, so-
bre processos histórica e culturalmente construídos (Silva, 2024). Pois, a
mudança de paradigma impõe um novo modo de olhar, percecionando-se
um mundo diferente e, consequentemente, observando-se fenómenos dis-
tintos (Kuhn, 2021). Assim, afirma-se e amplia-se o objeto de estudo da
ciência da informação, a informação, seja enquanto processo, seja enquan-
to produto, e esbate-se o ‘culto’ do suporte (Cornelsen, 2013).
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
25
No capítulo 8, “Macrobibliotecas: a contemporaneidade das biblio-
tecas” (p. 255-280), Rafaela Carolina da Silva e Rosângela Formentini
Caldas propõem-nos um novo conceito de biblioteca a partir da sua na-
tureza híbrida (Sutton, 1996), assim como tem sido procurado sobretu-
do para os contextos das Bibliotecas Públicas e das Bibliotecas Escolares,
desde a segunda metade da década de 90 do século XX, mas também para
o contexto das Bibliotecas Académicas/do Ensino Superior, mais recente-
mente. Todavia, o termo biblioteca híbrida ficou, desde sempre e maiori-
tariamente, preso ao uso das Tecnologias da Informação e Comunicação
e à diversidade dos suportes das coleções. Por outro lado, em termos das
comunidades locais, o termo biblioteca híbrida não parece melhor respon-
der e permitir suplantar o de Biblioteca Pública, bem como, é certo em
contexto distinto, o de Biblioteca Comunitária. A proposta do conceito de
Macrobiblioteca, sendo instigante, procura responder à amplitude de uma
multiplicidade de fatores – gestão, missão, objetivos, coleções, suportes,
utilizadores, serviços, produtos, natureza do financiamento, mas, per se,
não contribui para definição da identidade da Biblioteca. Outras classifi-
cações foram propostas como a de ‘biblioteca fluída’ ou ‘biblioteca ramifi-
cada’ (Giurgevich; Leitão, 2016) para bibliotecas que, independentemente
de terem um espaço próprio, se multiplicam por outros espaços, interli-
gados entre si, sublinhando respetivamente a circulação do livro e a sua
desconcentração. Assim acontece com inúmeras bibliotecas de comunida-
des religiosas, como assim podemos olhar distintas Bibliotecas Públicas e
do Ensino Superior com uma distribuição espacial, em que a coleção e os
serviços se distribuem por distintos lugares, físicos e virtuais, e os utiliza-
dores acedem à biblioteca a partir dos diversos lugares físicos, mas também
através da Web. Assim acontece também quando se pretende estender uma
biblioteca escolar a toda a Escola ou ao Agrupamento de Escolas. Assim
acontece, ainda, quando se procura estender a Biblioteca Pública a toda a
cidade ou a todo o território municipal.
No capítulo 9, “Estratégias Inovadoras para as Assessorias Jurídicas
do Distrito Federal sob a égide da Ciência da Informação” (p. 282-299),
Natália Nakano, Rosilene Paiva Marinho de Sousa e Milton Shintaku dis-
cutem a inovação impulsionada pelo ato legislativo como fator de desenvol-
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
26
vimento económico e social. Sendo um princípio da gestão da Qualidade,
a inovação – ao nível de processos, serviços e produtos - deve ser olhada
a par da melhoria contínua (Leitão, 2018), visando a gestão da mudança
organizacional, social, paradigmática. Naturalmente, também se aplica à
modernização administrativa da Administração Pública, ao e-Government
e à implantação de e-services (Cardoso, 2018) com vista à transição para
uma sociedade digital.
As autoras colocam a inovação no lugar certo, isto é, no âmbito das
políticas públicas, que, sendo muitas vezes iniciadas com a publicação de
nova legislação, não se reduzem às leis. Pois as políticas públicas exigem
o seu desenvolvimento em programas e a sua materialização em projetos,
executados, com a afetação dos respetivos recursos materiais (incluindo os
equipamentos e as tecnologias), financeiros e humanos. Por outro lado, a
sua implantação implica uma abordagem sistémica, estando cada uma das
partes sujeita ao todo, um modo de ver tão caro à Ciência da Informação.
Não se confundindo o sistema de informação com o sistema tecnológico
de informação, as melhorias introduzidas neste refletem-se nos resultados
daquele, bem como em eventuais impactos sociais.
No capítulo 10, “Transformações nas interfaces de interação de
projetos colaborativos de e-ciência de acordo com as atualizações de con-
vergências entre o Design da Informação e a Curadoria Digital na Web
(p. 301-334), Gabriela de Oliveira Souza e Maria José Vicentini Jorente
discutem os papéis do Design da Informação e da Curadoria Digital na
construção de ambientes digitais colaborativos, tendo por base diversos
projetos no âmbito da literacia científica destinados a crianças e jovens.
Enquanto o Design da Informação permite pensar, planear e projetar so-
luções de apresentação da informação com o intuito de proporcionar uma
comunicação eficaz entre sistemas de informação e consumidores de infor-
mação, a Curadoria Digital pressupõe um alargamento na participação às
distintas comunidades de interesse com vista à obtenção de respostas úteis
para a solução de problemas identificados.
Estes são os estudos trazidos pelas mãos de vinte investigadores –
professores, tecnólogos e bibliotecários – que desenvolvem a sua atividades
maioritariamente em distintas universidades de Brasil (12), Espanha (5),
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
27
Portugal (2) e Canadá (1). Estudos que as editoras do presente livro, no ca-
pítulo 1, enquadram no âmbito do paradigma “político-ideológico e socio-
cultural” de Silva e Ribeiro (2020), mas que se entrevê, utilizando a clas-
sificação dos paradigmas na Ciência da Informação dos mesmos autores, a
presença dos paradigmas custodial, historicista e tecnicista, pós-custodial e
informacional e científico, e político-ideológico e sociocultural. Todavia, é
também possível identificar a interconexão dos distintos paradigmas epis-
temológicos da CI, inclusive numa mesma investigação.
Um livro que contribui para consolidar o entendimento epistemo-
lógico da Ciência da Informação, em que esta aparece sob diferentes en-
tendimentos, grafada no singular quer no plural, ainda que tendendo a
afirmar-se aqui, como internacionalmente, no singular, mesmo quando se
reconhece o seu uso quer na forma do plural em determinados contextos,
sobretudo em alguns dos países da América Latina espanhola.
Em suma, este é um livro que aborda distintos paradigmas de gestão
da informação, de comunicação da informação e de ciência da informação,
com uma tendência em afirmar os dados e a informação face ao docu-
mento, em afirmar a Ciência da Informação relativamente às disciplinas
aplicadas, com uma crescente preocupação de reforço científico da área, e
com uma tendência, não sem resistências e fatores contrários, para o acesso
aberto. Um livro que incita a diálogos, em distintos contextos, provocan-
do-os e convocando-nos para modos distintos de ver, agir, fazer, investigar
e comunicar, que definem novos paradigmas técnicos e científicos no cam-
po da Ciência da Informação.
Carlos Guardado da SILVA
Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Centro de Estudos Clássicos
carlosguardado@edu.ulisboa.pt
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
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31
APResenTAçãO
C  
C  I  
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Maria José Vicentini JORENTE
Dunia Llanes PADRÓN
Natália Marinho do NASCIMENTO
Gabriela de Oliveira SOUZA
No ambiente político-ideológico e sociocultural derivado das trans-
formações na comunicação da informação e do conhecimento, a sociedade
contemporânea se encontra em um momento de crise, que oferece perigos,
mas, também, oportunidades apresentadas e representadas no meio dígi-
to-virtual criado pelas transformações econômicas e tecnológicas. Neste
ambiente, estratégias para o acesso, o compartilhamento e a preservação da
informação emergem com papel significativo na criação de conhecimento.
Consolida-se uma nova era, na qual certos modismos podem nublar
realidades sócio-dinâmicas da história ocidental, como a faceta das relações
humanas envolvidas nos processos de transições tecnológicas. Nela, o mais
iridescente é a materialização pura e simples das tecnologias, em objetos
emblemáticos e suas imposições operacionais. Entretanto, no contexto da
nova realidade de inícios do século XXI,
https://doi.org/10.36311/2025.978-65-5954-650-3.p31-56
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
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[...] as mudanças nas práticas informacionais levantaram uma série
de problemas sobre a autoridade, a legitimidade e a confiabilidade
da informação depositada de pessoas para pessoas de uma forma
não hierárquica; sobre o papel dos pares institucionais e sobre o
papel da informação para a conexão de pessoas (Jorente; Nakano;
Padua, 2020, p. 26).
Encontram-se aí, novos cenários que exigem abordagens por meio
de pensamento complexo na formação e alfabetização em dados; de currí-
culos para a gestão eletrônica da informação; de registros públicos digitais
em cadeia; de administração pública regida por novos paradigmas; de inde-
xação colaborativa nos seus processos de comunicação; de criação de equi-
pamentos culturais e de ambientes e plataformas convergentes e interativas
com Design e Curadoria transformadores nas interfaces de interação.
A partir da verificação das mudanças efetivadas pela consolidação
da Internet, e nela, da Web, com consequente aumento exponencial do
acesso de pessoas e de comunidades de interesse à informação, apresen-
taram-se direcionamentos inéditos, sobretudo nas pesquisas relacionadas
com o desenvolvimento de softwares e com competências informacionais,
e também com as ciências dedicadas ao estudo da informação. Observa-se
nelas o deslocamento do foco para os sujeitos informacionais e para suas
necessidades individuais, bem como para as comunidades de interesse que
fazem uso das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), e para os
impactos neles causados.
As TIC, com articulação linguística e meios próprios, transformam a
informação durante seu processamento e modificam os produtos resultan-
tes. Modificam, ainda, outros aspectos da informação e da comunicação
ao interferirem na temporalidade e espacialidade quando da emissão, da
escalabilidade, do fluxo e dos estoques, e do compartilhamento da infor-
mação. Com a coletivização da autoria nas mídias veiculadoras dos produ-
tos informacionais, há um crescente questionamento quanto ao lugar do
criador ou emissor original, e da integridade de um produto midiático no
processo comunicativo das representações coletivas. As mutações impressas
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
33
pelos fatores tecnológicos são reconhecidas como inovações originárias da
hiper interatividade e da hiperconectividade.
Nesse cenário, o conceito de informação tem sido explorado por
várias disciplinas e áreas do conhecimento, como colocam Rafael Capurro
e Birger Hjorland em seu arrazoado epistemológico de 2007.
Os autores situam a definição da Ciência da Informação (CI) a partir
de um levantamento histórico das camadas de transformações que se se-
dimentavam naquele momento. Na discussão, afirmam que o conceito de
informação está muito mais relacionado às teorias sobre computação e con-
trole na contemporaneidade; e que talvez, por essa razão, haja “uma tendên-
cia problemática de considerar informação como uma coletânea de fatos ou
opiniões liberadas dos documentos” (Capurro; Hjorland, 2007, p. 182).
Capurro e Hjorland (2007) também questionam a tendência e
apontam que pesquisadores da CI atribuíam a criação de sistemas de re-
cuperação de fatos como objetivo final da CI e ligavam a definição a um
paradigma antiquado do positivismo do século XIX (Capurro; Hjorland,
2007). Citam o pesquisador Spang-Hanssen (2001) ao definir a informa-
ção como algo factual ou real; o que é encontrado escrito em documentos
ou oralizado em uma comunicação.
Na medida em que a informação é vista ou apresentada e
legitimada em termos de seu suposto conteúdo factual, fica
autorizada uma determinada visão do mundo - em vez de convidar
ao debate sobre a construção e relevância desta visão. Ao contrário,
na medida em que a informação é tratada como um produto de
atividades específicas de construção do mundo, isto convida ao
questionamento discursivo quanto a seu significado e relevância
(Capurro; Hjorland, 2007, p. 185).
A CI necessita, assim, desenvolver estratégias para enfrentar os pro-
blemas decorrentes das interações entre ciência, tecnologia e conhecimento
no final da modernidade. Deve, por meio de questionamentos constantes e
da construção de conceitos interdisciplinares, buscar ferramentas e conhe-
cimentos científicos para solucionar os desafios impostos pela Sociedade
da Informação.
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
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Na Ciência da Informação, desenvolvida sobre a base conceitual
da informação documentada, portanto, os questionamentos que
se colocam partem inicialmente da redefinição continuada do
conceito de informação que, nos processos comunicacionais,
muitas vezes mistura-se a esses últimos, consubstanciando-se no
ato da comunicação (Jorente, 2012, p. 26).
Como a CI se desenvolve sobre a base conceitual da informação
documentada, portanto, tem como uma de suas missões a preservação e o
acesso aos elementos fomentadores do conhecimento na sociedade. Neste
horizonte, a redefinição continuada do próprio conceito de informação
nos processos comunicacionais é parte dos questionamentos que a partir
dela se colocam.
Há assim na CI um metacampo transversal que reúne vários recortes
disciplinares para a análise da informação registrada e retida para
posterior acesso. Infere-se dessa maneira que, por meio de uma
visão sistêmica das configurações da informação e da própria CI,
podem-se estudar as intersecções que redefinem o conceito de
informação na contemporaneidade (Jorente, 2012, p. 11).
O filósofo Yuval Harari, em 2024, redefiniu a informação como
uma forma de representar uma realidade e conectar diferentes elemen-
tos em uma rede. Sua principal característica, de acordo com o autor, é
a conexão, ou seja, a capacidade de unir e criar novas realidades. Harari
(2024) afirma que é ingênuo considerar que os objetos sejam definidos
como informação no contexto da busca por verdade: “Algo é informação
se for usado pelas pessoas na tentativa de descobrir a verdade. Essa noção
liga o conceito de informação ao conceito de verdade e supõe que o papel
principal da informação é de representar a realidade” (Harari, 2024, p. 39).
Harari (2024) contesta, endossa Capurro e Hjorland (2007), e reafirma a
questão da conexão:
[...] o que a informação faz é criar novas realidades ao unir
coisas avulsas [...]. Seu traço definidor é mais a conexão do
que a representação, e informação é tudo o que conecta pontos
diferentes dentro de uma rede. A informação não necessariamente
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
35
nos informa sobre as coisas. Em vez disso, ela põe as coisas em
formação (Harari, 2024, p. 46).
O autor defende que a informação cria novas realidades ao conectar-
nos a uma rede de informação, o que, segundo ele, ainda inclui a noção de
informação como representação, embora a informação às vezes represente
e às vezes não represente a realidade: “Mas sempre conecta. Essa é sua
característica fundamental” (Harari, 2024, p. 51).
É no contexto da definição de Harari (2024) que podemos pensar
em modelos complexos dinâmicos na estruturação sintática e semântica
para estruturar discursivamente a informação. Tais modelos podem ser
pensados em termos de paradigmas.
Todas as áreas do conhecimento se baseiam em um conjunto de
paradigmas, que representam diferentes tempos e concepções nas ciên-
cias. Paradigmas, para Kuhn (1998) são “as realizações científicas univer-
salmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas e
soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência
(Kuhn, 1998, p. 13); modelos compartilhados por comunidades de inte-
resse de uma área do conhecimento científico. Capurro (2003) salientou
que, quando são identificados os limites de um paradigma, ocorre um
período de crise, que dá origem a um novo paradigma. O paradigma,
portanto, é algo que, assim como a sociedade, deve ser dinâmico, e na
CI, como em outras áreas do conhecimento, esses paradigmas se trans-
formaram com o tempo.
Armando Malheiro da Silva e Fernanda Ribeiro (2020) indicam que
a Ciência da Informação apresenta três paradigmas: o paradigma custo-
dial, historicista, patrimonialista e tecnicista; o paradigma pós-custodial,
informacional e científico; e o paradigma político-ideológico e sociocul-
tural. Para Silva e Ribeiro (2020), vivenciamos atualmente a passagem do
paradigma pós-custodial para o político-ideológico e sociocultural: “[...] o
paradigma pós-custodial, informacional e científico evidencia diferentes
características ajustadas às demandas da Era da Informação, em que esta-
mos imersos” (Silva; Ribeiro, 2020, p. 46).
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
36
Os autores elencam características do momento transacional na di-
nâmica paradigmática, encabeçadas pela valorização da informação como
fenômeno humano e social, cuja materialização é um derivado informa-
cional, um epifenômeno. Destacam em sua análise o dinamismo informa-
cional, em oposição ao imobilismo documental, e apontam a prioridade
do acesso à informação como justificativa única “pois só o acesso público
justifica e legitima a custódia e a preservação” (Silva; Ribeiro, 2020, p. 47).
Ao fazê-lo, Silva e Ribeiro (2020) invertem a ordem tradicional do pensa-
mento curatorial da informação, em que a preservação antecede o acesso; e
propõem a necessidade da dialogia com os conteúdos a serem trabalhados
pelos profissionais da informação,
[...] imperativo de indagar, compreender e explicitar (conhecer) a
informação social, através de modelos teórico-científicos cada vez
mais exigentes e eficazes, em vez do universo rudimentar e fechado
da prática empírica composta por um conjunto uniforme e acrítico
de modos/regras de fazer, de procedimentos só aparentemente
asséticos’ ou neutrais de criação, classificação, ordenação e
recuperação (Silva; Ribeiro, 2020, p. 47).
Ao fazê-lo, os profissionais da informação alterarão, para os autores,
o quadro teórico-funcional da CI, por meio de uma postura diversa
sintonizada “com o universo dinâmico das Ciências Sociais e empenhada
na compreensão do social e do cultural, com óbvias implicações nos
modelos formativos dos futuros profissionais da informação” (Silva;
Ribeiro, 2020, p. 47). Por fim, a substituição da lógica instrumental de
gestão de documentos e informação pela lógica, denominada pelos autores,
científico-compreensiva da informação”, conduzirá os profissionais da
informa- ção à compreensão do sentido de suas práticas a partir de modelos
teóricos mais adequados (Silva; Ribeiro, 2020).
Diante desse cenário de transição paradigmática, as dinâmicas so-
ciais demandam dos profissionais da informação novas competências digi-
tais, éticas e críticas, em um ambiente político-ideológico e sociocultural
em constante evolução. Cenário em que o livro Contextos paradigmáticos
da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas se organiza
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
37
para apresentar problemáticas e sugestões de soluções e de trabalho em seus
diferentes capítulos. Os profissionais desta área do conhecimento devem
adquirir as competências exigidas pelos novos ambientes de trabalho e pela
sociedade como um todo. Para isso, é necessário a aquisição de competên-
cias na utilização de linguagens de programação, na gestão de metadados,
na aplicação de normas internacionais de interoperabilidade, na segurança
da informação, na qualidade de dados, Big Data, Ciência de Dados, Web
Semântica, bem como nas capacidades estratégicas e éticas transversais aos
subsistemas emergentes dos encontros entre tais subáreas. Neste sentido,
desde o século passado, Shapiro e Hughes, em artigo de 1996, enfatizaram
a ética da informação. Nas discussões insistiram
[...] que o desenvolvimento de competências técnicas deve ser
acompanhado de uma compreensão ética a respeito da produção,
distribuição e utilização da informação, a fim de promover uma
sociedade mais equitativa e responsável (Shapiro; Hughes, 1996,
tradução nossa).
Espera-se que bibliotecários, arquivistas e documentalistas sejam
capazes de tomar decisões sobre quais informações preservar, como abordar
questões de privacidade, transparência e direitos autorais em ambientes
dígito-virtuais. Além disso, tais profissionais devem ser comunicadores
eficazes, capazes de liderar projetos interdisciplinares e colaborar com
comunidades diversas; isso inclui práticas para projetar espaços inclusivos,
tanto físicos quanto digitais, onde sejam incentivados a participação dos
cidadãos e o aprendizado colaborativo. Estas ideias provocam a reflexão
sobre a necessidade de criação ou atualização dos currículos dos cursos de
graduação em Ciência da Informação. As estruturas curriculares devem
formar os alunos com as competências exigidas, tanto pelo paradigma
pós-custodial, quanto pelo paradigma emergente político-ideológico e
sociocultural. Segundo Tramullas Saz,
[...] as mudanças científicas e técnicas produzidas nos diferentes
perfis profissionais do especialista em informação e documentação
devem estar presentes nas inovações dos cursos; os graduados/
as serão capazes de responder de forma mais eficaz e eficiente às
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
38
exigências emergentes do mercado de trabalho da indústria da
informação (Tramullas Saz, 2021, p. 2, tradução nossa).
Transformações curriculares já são uma prática em cursos universi-
tários vinculados à área. As seções que iniciam este livro demonstram isso.
No capítulo Proposta de cenários formativos de alfabetização em dados
no contexto da Ciência da Informação, Yolanda Martín González e Críspulo
Travieso Rodríguez abordam a alfabetização em dados como uma área
emergente e decisiva na Ciência da Informação, centrando-se na sua rele-
vância para profissionais e estudantes em um contexto altamente digitali-
zado e sociedade datificada. No texto, os autores descrevem e exemplificam
como diferentes universidades espanholas incluíram em seus novos pro-
gramas de formação disciplinas sobre Ciência de Dados, Big Data, Dados
Abertos, Mineração de Dados, entre outras relacionadas a este tema. Isso
coincidiu com aquelas universidades que não apenas reformaram seus pro-
gramas, mas também mudaram o nome dos cursos.
O capítulo apresenta os perfis vinculados aos dados e novas opor-
tunidades profissionais e outras funções são mostradas no mapa do mun-
do do trabalho: bibliotecários de dados, gestores de dados, especialistas
em Big Data, documentalistas e bibliotecários que participam de projetos
científicos para dar suporte à gestão e análise de dados são alguns deles.
Os autores descrevem as principais competências desses perfis: habilidades
interpessoais e de comunicação, domínio do ecossistema de pesquisa, ges-
tão e preservação de dados, habilidades no uso de ferramentas de análise,
visualização e processamento de dados e softwares especializados.
As considerações sobre as diversas abordagens pedagógicas para in-
tegrar a alfabetização em dados na Ciência da Informação, com o objetivo
de preparar os estudantes para utilizar, analisar e gerenciar dados em am-
bientes acadêmicos e profissionais, encerram este capítulo. São sugeridas
disciplinas específicas ou cursos transversais, bem como as competências
a desenvolver, o desenho das atividades pedagógicas, as metodologias de
ensino e os tipos de avaliações. O estudo demonstra que a atualização/
modificação dos programas de formação universitária não é uma opção,
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
39
mas um dever. As universidades devem estar cientes disso e atuar de acordo
com as novas demandas dos profissionais e da Ciência da Informação.
No capítulo Formação curricular em arquivamento eletrônico. Proposta
para o Espaço Europeu de Ensino Superior (EEES), de María Manuela Moro
Cabero e Kevin Francisco León Gavilánez, se analisa a viabilidade de pro-
mover um quadro curricular de pós-graduação na União Europeia para a
formação de arquivistas no contexto eletrônico.
O estudo parte de um exame minucioso das mudanças pelas quais
os arquivos e os arquivistas estão passando e da necessidade consciente
de abordar a profissão através dos novos prismas do ambiente eletrônico.
Temas como continuidade digital, repositórios, arquivamento web, arqui-
vamento por meio de computação em nuvem (cloud computing), formatos
de armazenamento e formatos de e-discovery, preservação, uso e reuso ao
longo do tempo, tanto de dados quanto de documentos, integração de
blockchain, serviços multicanal devem ser competências adquiridas por o
arquivista do século XXI.
Os autores defendem a ideia do arquivo no Paradigma IV, um novo
paradigma para a gestão de dados, onde se desenvolvem novos modelos de
armazenamento, descrição, organização, representação de dados interliga-
dos, metalinguagens, caracterizados pela padronização de todos os proces-
sos vinculados com o ciclo de vida dos documentos, entre outros aspectos.
Moro e León baseiam sua definição deste quarto estágio paradigmático na
teoria dos três paradigmas de Steve Baily sobre a evolução da gestão docu-
mental, Paradigma I: automação comercial, Paradigma II: surgimento da
Internet na década de 1990 como uma mídia e Paradigma III: surgimen-
to da redes sociais, ferramentas de distribuição e notificação, tecnologias
colaborativas e outras mídias multicanais baseadas na Web 2.0; Web 3.0.
Se analisarmos a proposta dos autores, algumas coincidências se estabe-
lecem entre os paradigmas propostos por Silva e Ribeiro (2020) para a Ciência
da Informação, conforme apresentado no quadro a seguir (Quadro 1).
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
40
Quadro 1 - Correspondências entre os paradigmas apresentados por
Steve Bailey (2008) e Silva e Ribeiro (2020)
PARADIGMAS NA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO
SEGUNDO OS AUTORES
Steve Bailey (2008) Armando Malheiro da Silva y
Fernanda Ribeiro (2020)
Paradigma I: automação comercial Paradigma I: custodial, historicista,
patrimonialista e tecnicista
Paradigma II: surgimento da Internet na
década de 1990 como meio de comunicação Paradigma II: pós-custodial, informacional e
científico
Paradigma III: surgimento de redes sociais,
ferramentas de distribuição e notificação,
tecnologias colaborativas e outras mídias
multicanais baseadas na Web 2.0; Web 3.0.
Paradigma III: político-ideológico e
sociocultural
Fonte: Elaborado pelas autoras.
Embora os autores denominem as dinâmicas paradigmáticas de for-
ma diversa, observa-se que nas duas situações o Paradigma I estava mais
preocupado com a natureza técnica da área, sem investigar as questões
tecnológicas ou científicas presentes no Paradigma II. Por sua vez, todos
concordam com uma terceira transição que implica na parte social.
A seguir, o texto estuda o conceito de competência digital a partir
da análise das definições de diferentes autores. De acordo com o Plano
de Digitalização da Espanha para 2021 (España, 2021), as competências
digitais são ferramentas que facilitam o aproveitamento de oportunidades
oferecidas sob diversas perspectivas, como econômica, social e ambiental.
Nesse contexto, também é importante identificar competências e habilida-
des associadas ao perfil do profissional da informação, pois disso dependerá
o sucesso das estratégias de reformulação das estruturas de competências.
Adquirir competência digitais é a resposta para enfrentar o traba-
lho em ambientes arquivísticos digitais. Para isso, é preciso mensurar as
competências profissionais e digitais, ou seja, quais capacidades digitais os
profissionais possuem? Como se capacitar? O que valorizar? As estruturas
para medir as competências digitais e os níveis de aptidão são responsáveis
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
41
por responder a essas questões. O Digcom e a UNE-EN-16234-1 E-CF na
Europa e SFIA no contexto global são alguns exemplos disso.
Como base para a proposta curricular desta investigação, traba-
lham-se diferentes quadros profissionais desenvolvidos no espaço europeu
(Suíça, Itália, França e Reino Unido), todos desenvolvidos a partir do Guia
EURBICA para o estabelecimento de um quadro de competências para o
arquivo. Também é fornecido um esboço de estruturas ocupacionais e de
competências, como a ESCO ou a estrutura de competências DigCom.
O capítulo toma como referência o trabalho realizado pelo e-ARK
(Electronic Archiving) da Comissão Europeia, grupo que se concentra na
preservação e acesso de longo prazo de arquivos eletrônicos. Seu principal
objetivo é desenvolver padrões e soluções práticas que permitam às insti-
tuições públicas e privadas gerenciar com eficiência documentos digitais,
garantindo seu acesso e reutilização futura; o e-ARK desenvolveu uma pro-
posta de modelo de currículo de e-archiving aplicável no Espaço Europeu
de Ensino Superior.
Moro e León, em consonância com a proposta formativa europeia
do e-ARK e com as necessidades identificadas no âmbito da transformação
digital, propõem o desenvolvimento de um plano de estudos de pós-gra-
duação em e-Arquivo para implementar o modelo de forma experimental
com o objetivo de observar sua viabilidade e verificar sua utilidade como
modelo para o EEES.
Este estudo de caso demonstra que as universidades podem liderar
treinamento para arquivamento digital dentro do EEES. A implementação
de um programa experimental não é apenas viável, mas necessária para
responder às demandas de arquivistas e profissionais da informação. Nos
contextos atuais, é urgente implementar planos curriculares deste tipo,
especializados e atualizados nos arquivos de ambientes eletrônicos. A co-
laboração entre universidades, profissionais, pesquisadores e organizações
profissionais é decisiva para definir padrões e garantir a qualidade dos no-
vos programas de formação.
Consequentemente, a constante construção teórica da CI e de sua
fundamentação prática, de acordo com as exigências do novo paradigma,
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
42
é uma necessidade para o desenvolvimento profissional. Nesta ciência, as
subáreas e as disciplinas que a fundaram, cimentam as teorias com práti-
cas biblioteconômicas, arquivísticas e museológicas ao aplicar as mudanças
conceituais sobre dados, informações, documentos e artefatos a partir do
conhecimento dos contextos e dos sistemas, bem como a sua avaliação e
melhora contínua, a partir do estudo das relações e das interfaces com os
sujeitos informacionais.
Os ambientes digitais são dotados de complexidades (autenticidade,
fidedignidade, metadados, interoperabilidade, segurança, integridade etc.)
que exigem a atenção dos profissionais que irão neles trabalhar, desde a
criação de informações nos meios dígito-virtuais até o seu acesso e compar-
tilhamento. É importante garantir o acesso ao longo do tempo e, para isso,
são necessários organização e tratamento apropriados para o armazena-
mento efetivo. Diante disso, observa-se na literatura uma quantidade sig-
nificativa de instituições que desconhecem a importância de cuidados para
que a informação seja acessível, e mantenham suas qualidades originais.
Levando em consideração os avanços tecnológicos, bem como, a
preocupação em como lidar com os documentos nesse cenário, com a ob-
solescência dos suportes, com a recuperação e preservação da informação,
além do acesso no âmbito da International Organization for Standardization
(ISO), normas são criadas para auxiliar os profissionais a lidarem com todo
este cenário. Alguns exemplos são: normas para controlar formatos, meta-
dados para documentos de arquivo, durabilidade do objeto digital, digi-
talização de documentos, repositórios, gestão de riscos para o sistema de
gestão de documentos, segurança da informação, etc.
Mesmo com os avanços e mudanças da área, o valor ainda é do docu-
mento como prova de ação ou referência; por isso, não importa o suporte
ou contextos em que esteja o documento de arquivo, ele deve ser preserva-
do de acordo com as suas necessidades específicas para garantir que sejam
acessados ao longo do tempo.
O capítulo Documentos Públicos Digitais em Blockchain: Fortalecendo
a Responsabilidade Democrática das autoras Danielle Alves Batista e Victoria
L. Lemieux aborda o impacto da tecnologia na sociedade destacando be-
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
43
nefícios e melhorias nos fluxos e processos de trabalho, porém trazendo
desafios, sobretudo em regimes democráticos.
A autenticidade agora não implica apenas em perceber os elementos
relacionados ao que está apresentado no próprio documento. Mas, tudo
o que o envolve. Os documentos são autênticos quando de fato “[...] dão
testemunho sobre si mesmos devido a intervenção, durante ou após sua
criação” (Duranti, 1995). Para tanto, os recursos tecnológicos são essen-
ciais ao garantir que o documento esteja seguro e protegido, por essa razão
fundamental precisam ser bem compreendidos pelos profissionais que li-
dam com informação registrada, uma vez que os documentos digitais se
constituem no seu objeto de trabalho.
O documento de arquivo que nem sempre pode ou deve ser ampla-
mente acessado, deve possuir as características de autenticidade, fidedigni-
dade, integridade etc. Nos suportes tradicionais este problema era resolvi-
do no momento de compartilhar fisicamente um determinado documento
para o acesso a um determinado sujeito, mas no contexto digital é preciso
ter outros cuidados, uma vez que se não estiver ‘devidamente’ protegido,
pessoas não autorizadas, mal intencionadas ou não, que tenham conheci-
mentos tecnológicos avançados podem acessar, visualizar e inclusive alte-
rar o documento, gerando problemas irreversíveis para as instituições. Um
exemplo nesse sentido, é a manipulação de propostas de licitações públicas
para favorecer participantes específicos.
Diferentes países já utilizam a tecnologia blockchain como ferramen-
ta estratégica para fortalecer a integridade, transparência e confiabilidade
dos documentos governamentais, por exemplo, Estônia, Canadá e Brasil.
Porém, é necessário alinhar as soluções blockchain com as teorias e padrões
arquivísticos para maximizar seu impacto. A tecnologia de blockchain está
associada à imutabilidade, que consiste na incapacidade de alterar os da-
dos que uma vez foram registrados no blockchain, para tanto existe um
histórico de transações permanente e à prova de adulterações. Tudo isso,
garantido graças aos hashes criptográficos.
Os documentos públicos são evidências de ações governamentais,
além do mais, a transparência pública auxilia a recuperar a confiança nas
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
44
instituições. Nesse sentido, o impacto científico e inovador do capítulo
consiste no fato de as autoras defenderem o blockchain como uma tecno-
logia que pode restaurar a base de evidências da sociedade, reforçando a
confiança democrática e accountability governamental.
O capítulo “A caminho de uma gestão eficaz no contexto de avaliação e
classificação da informação de arquivo na Administração Pública Portuguesa
das autoras Isabel Cristina Correia Guerra Rostami e Maria Cristina Vieira
de Freitas discute os desafios da gestão de documentos no contexto da
Arquivística Contemporânea, ressaltando a importância dos sistemas e
modelos que embasam essas atividades.
Os documentos constituem em evidências das atividades nas organi-
zações registrando a informação em suportes variados, por exemplo, o pa-
pel e os formatos digitais. No que diz respeito ao armazenamento, deve-se
mencionar que o meio digital resolve os problemas em longo prazo quando
comparados a grandes conjuntos de documentos arquivísticos em papel
(Interpares 2 Project, 2002-2007). Porém, está mais suscetível a manipu-
lações. Por isso, são várias as especificidades que envolvem o documento
arquivístico digital no que tange à sua fragilidade e complexidade, que
devem ser conhecidas pelos profissionais que com eles atuam, para que o
documento continue sendo acessível ao longo do tempo. A Arquivística
Contemporânea entende que não só a classificação e a avaliação, mas todas
as fases do ciclo de vida são importantes para que os documentos cum-
pram suas funções, permaneçam autênticos e estejam seguros e disponí-
veis. Nota-se esta evolução epistemológica entre os sistemas de informação
pela priorização do uso estratégico da informação pela Arquivística.
O texto também apresenta que a Classificação e Avaliação de
Informação Arquivística (CLAV) inspira-se nas normas internacionais
como a UNE ISO TR/26122:2008 e NP 4432-1-2:2005 que auxiliam na
aplicação da análise funcional e sequencial dos processos de negócio e são
facultativas. Porém, quando utilizadas impactam positivamente todas as
fases da gestão de documentos.
A gestão de documentos se constitui em ações a eles aplicadas por
meio da implantação de processos arquivísticos, que abrangem desde a
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
45
sua produção até a avaliação, tendo como centro as questões de memória.
Essas devem ser baseadas em teorias ou modelos que modificam o olhar
dado para estes documentos com o objetivo de garantir o acesso eficaz e
eficiente para auxiliar nas decisões.
Na Administração Pública existe maior complexidade e muitos de-
safios no tocante a classificação e avaliação. A Arquivística Funcional e a
Integrada ajudam a refletir e trabalhar com os documentos e informações,
adaptando-se às mudanças tecnológicas e administrativas, a fim de garantir
gestão, preservação e acesso no futuro. Sendo assim, o capítulo traz uma
combinação eficaz entre informações e documentos, aliada a uma postura
profissional adaptada às novas realidades, essencial, e fundamental no con-
texto da Arquivística Contemporânea. Uma gestão de documentos digitais
baseada em normas e em trabalho colaborativo auxilia os processos orga-
nizacionais, garantem eficácia e eficiência na recuperação dos documentos
para a tomada de decisão, e impacta consideravelmente, também, na pre-
servação dos documentos digitais que adquiriram o valor secundário.
Embora a Gestão Documental modifique suas ações em consequên-
cia do impacto de um objeto intangível em formato eletrônico, variações
e adaptações também ocorrem na área de Organização da Informação, em
decorrência das transformações digitais e da transição para um novo para-
digma na Ciência da Informação. Na descrição de recursos de informação,
as inovações são direcionadas para uma concepção pluridimensional da
descrição, e abandonam noções unidimensionais, focadas principalmente
no objeto (livro/documento de arquivo/objeto de museu). Como conse-
quência, a descrição não pode ser compreendida sem a ação direta de mo-
delos conceituais. Conhecer e aplicar esses modelos, regras de descrição,
padrões de metadados e formatos de codificação é fundamental nos con-
textos atuais.
Os modelos conceituais proporcionam uma estrutura completa para
a compreensão e execução adequada do processo de descrição, bem como
para a criação de sistemas de informação interoperáveis, atuando como
estruturas para a representação de informações. A criação de modelos e re-
gras de descrição não é evento isolado, ela está situada no contexto de uma
mudança de paradigma na Ciência da Informação. LRM, FRBR, RiC-
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
46
CM, CIDOC-CM, NEDA-MC, EBU-CCDM, ISBD, RDA, ISAD(G),
ISAAR(CPF), FIAF, CCO, entre outros, constituem experiências descriti-
vas padronizadas das diversas comunidades profissionais. Segundo Llanes
Padrón e Moro Cabero (2023), embora cada comunidade tenha uma com-
preensão diferente da natureza de seus recursos, é evidente que existem
conceitos e práticas comuns que precisam ser compartilhados.
Nesse cenário, os sistemas de informação devem ser interoperáveis
entre si e facilitar a troca de dados diretamente, sem restrições de acesso,
transformações de dados ou implementações específicas (Sheth; Arpinar;
Kashyap, 2003). A interoperabilidade leva à reutilização da informação
como requisito para acessar os dados ao considerar sua qualidade, utilidade
e licenças de uso e aumentar a capacidade de gerar e transformar dados,
conteúdo, conhecimento, produtos e serviços (Llanes-Padrón; Pastor-
Sánchez, 2017, p. 6). Para responder a esta demanda de troca de dados e
reutilização e aumentar a capacidade de busca de recursos de informação,
é importante implementar padrões de codificação, localização e identifi-
cação como DOI, URI, XML, EAD/ EAC, MARC, Bibframe, Z39 -50,
para citar alguns.
A aplicação e o uso de tecnologias baseadas em RDF Schema e OWL
permite a definição de esquemas de metadados e ontologias com classes,
propriedades e relacionamentos para criar descrições mais precisas e espe-
cializadas. Existem diversos formatos que permitem que instruções RDF
sejam codificadas: RDF/XML, Turtle, JSON-LD. Padrões de metadados e
ontologias também são essenciais para a interoperabilidade, pois fornecem
ferramentas descritivas públicas e compartilhadas (Pastor-Sánchez; Llanes-
Padrón, 2017, p. 296).
As ontologias oferecem uma grande capacidade de interoperabilida-
de semântica, ao permitir descrições complexas de entidades, e dos relacio-
namentos estabelecidos entre elas. Portanto, é importante ter não apenas
os modelos conceituais, mas também as traduções ontológicas desses mo-
delos, por exemplo: RiC-CM e RiC-Ontology.
Revendo essas lógicas, no início do século XXI, a descrição também
está vinculada aos metadados e seus padrões. Existem várias definições en-
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
47
contradas na literatura: “dados que definem e descrevem outros dados
(Guia de Aplicação do Padrão de Interoperabilidade Técnica - Documento
Eletrônico). “Informações estruturadas que descrevem, explicam, locali-
zam ou de alguma forma facilitam a recuperação, uso ou gestão de um
recurso de informação” (National Information Standards Organization,
2017). “Dados que descrevem o contexto, o conteúdo e a estrutura dos
registros e sua gestão ao longo do tempo” (ISO, 2001). Em síntese, me-
tadados são dados ou informações estruturadas ou semiestruturadas que
descrevem, caracterizam o contexto, o conteúdo e a estrutura de documen-
tos eletrônicos e, por sua vez, são componentes deles; facilitam a criação,
gestão, uso e conservação do objeto digital.
Existem várias categorias de metadados: metadados descritivos (aju-
dam a identificar o recurso), metadados administrativos (contexto técnico,
direitos e propriedade, requisitos de preservação), metadados estruturais
(relacionamentos de documentos) e metadados de uso (sobre ou de usuá-
rios do recurso). Para trabalhar com metadados é importante ter conheci-
mento de padrões nacionais e internacionais, que incluem a estrutura para
definição dos elementos de metadados, dos conjuntos de elementos de alto
nível e camadas de agregação, das diretrizes para desenvolvimento e cons-
trução de padrões de metadados e para sua implementação e uso (ISO,
2006). Existem diferentes padrões de metadados para uma ampla varieda-
de de agentes em bibliotecas, arquivos, museus, gerenciamento de docu-
mentos, descrição de fotografias: Dublin Core, METS, PREMIS, MODS,
VRA, CDWA, e-EMGDE. Cada instituição estabelece suas aplicações es-
pecíficas, de acordo com suas próprias necessidades de gerenciamento de
documentos que complementam a interoperabilidade.
Diante dessas questões, as transformações práticas do processo des-
critivo são indiscutíveis, e transitam entre padrões de descrição bibliográ-
fica/arquivística para modelos conceituais, padrões de metadados, padrões
de localização e identificação e ontologias da web. Esta jornada ainda não
acabou, o objetivo final é alcançar acesso distribuído e interligado ao patri-
mônio cultural mundial.
No contexto da análise de conteúdo, o processo de indexação sofreu
mudanças igualmente significativas. A indexação baseada em algoritmos de
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
48
aprendizado de máquina e processamento de linguagem natural facilitou a
geração automática de palavras-chave, resumos e classificadores temáticos,
embora os vocabulários controlados (tesauro, listas de cabeçalhos de as-
suntos) permaneçam a chave para a precisão. As palavras-chave atribuídas
pelos autores são integradas com termos padronizados para melhorar a
recuperação em sistemas de informação.
Neste livro, o capítulo: O autor é o indexador? A prática da indexação
na perspectiva das transformações da comunicação científica em ciência aber-
ta, de Mariângela Spotti Lopes Fujita aborda de forma exaustiva a indexa-
ção realizada pelo próprio autor como uma prática comum.
O texto aborda a transformação do papel do autor no processo
de indexação de publicações científicas no contexto da ciência aberta.
Tradicionalmente, os profissionais da informação gerenciavam a descri-
ção e a recuperação de documentos, mas o desenvolvimento de reposi-
tórios abertos transferiu essas responsabilidades aos autores. Os autores
não apenas criam conteúdo, mas também assumem tarefas de indexação
ao completar metadados (título, resumo, palavras-chave) nos repositórios
digitais. Palavras-chave são essenciais para a recuperação de informações
em sistemas de busca e, embora os autores sejam especialistas em sua área
de conhecimento, necessitam de treinamento específico sobre o processo
de indexação, o que afeta a precisão e a consistência na recuperação de seus
trabalhos de pesquisa.
Segundo a autora, essa situação traz certos conflitos para a indexa-
ção, pois os autores muitas vezes usam linguagem natural para atribuir
palavras-chave, mas isso gera problemas de ambiguidade e falta de controle
terminológico. Os sistemas híbridos combinam linguagem natural e con-
trolada, mas sua implementação requer orientação adequada.
Fujita propõe desenvolver políticas de indexação e manuais para
orientar os autores na seleção de palavras-chave e no uso de vocabulários
controlados; aponta que é crucial capacitar autores em análise de conteú-
do e estratégias de indexação para melhorar a visibilidade e o impacto de
suas publicações. Essa mudança de paradigma na indexação aumenta a
responsabilidade do autor pela representação temática de suas publicações,
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
49
o que pode beneficiar a ciência aberta ao incentivar uma recuperação de
informações mais precisa. O texto enfatiza a necessidade de treinamento
de autores como “indexadores especialistas” e defende a colaboração entre
eles e profissionais da informação para otimizar os sistemas de recuperação
no contexto da comunicação científica atual.
As transformações digitais descentralizaram o acesso à informação,
permitindo descrições mais desenvolvidas, integradas e interligadas. No
entanto, tais inovações também exigem a reconfiguração de competências
profissionais e uma abordagem ética para gerenciar os desafios decorrentes
do uso massivo dessas tecnologias.
O capítulo Pensamento complexo e a Ciência da Informação, das au-
toras Marta Lígia Pomim Valentim e Mariana Rodrigues Gomes de Mello,
discute como a abordagem do pensamento complexo contribui para uma
visão mais ampla e integrada da realidade. O texto destaca também a
interdisciplinaridade e transdisciplinaridade na Ciência da Informação.
Sendo que as autoras compreendem a Ciência da Informação como uma
Ciência que é oriunda da transdisciplinaridade e que, ao mesmo tempo,
atua inter e multidisciplinarmente: portanto, se alinha completamente
ao pensamento complexo. As abordagens foram resultantes de uma dis-
cussão teórica, com aspectos exploratórios da revisão bibliográfica de do-
cumentos nos campos da Ciência da Informação, Filosofia e Educação.
Para tanto, as autoras criticam a separação do conhecimento em dis-
ciplinas isoladas. As obras de autores como Bateson, Capra, Prigogine
e Morin são a base para a construção do pensamento complexo. Para
Morin, o pensamento complexo, vai além de certezas absolutas. Por isso,
na Ciência da Informação, o profissional ou pesquisador deve compreen-
der a informação não de maneira isolada, mas como parte de um sistema
complexo, integrado a múltiplos fatores.
Valentim e Mello trazem à tona a abordagem de Morin (1996; 1999;
2001; 2003; 2005), que compreende a “interconexão entre os fenômenos,
em contraponto a visão fragmentada tradicional”, além do mais o autor
propõe uma abordagem multidisciplinar e transdisciplinar para compre-
ender as realidades. Nesse sentido, os aspectos mais importantes do pen-
samento complexo seriam: 1) Interdisciplinaridade; 2) Dialogicidade; 3)
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
50
Recursividade; 4) Auto-organização; 5) Hologramaticidade; 6) Incerteza
e Indeterminação; 7) Contextualização; 8) Multidimensionalidade e; 9)
Causalidade Circular. Destacam que o pensamento complexo propicia
uma visão mais holística e integradora da realidade e que propicia a troca
de saberes que alimenta a construção de novos conhecimentos e o desen-
volvimento da sociedade.
A informação deve ser observada como elemento estratégico e de
diferencial competitivo, visto que, ela impacta consideravelmente os pro-
cessos e fluxos de trabalho e quando não é compreendida como tal existe
uma fragilidade que invade os fluxos informacionais resultando em inúme-
ros problemas na comunicação e na efetivação das atividades do dia à dia.
Enfim, em uma dinâmica de mudança e evolução tecnológica constante, a
área da CI e seus profissionais necessitam preparo para resolver os desafios
organizacionais contemporâneos, “o pensamento complexo reconhece a
necessidade de múltiplas perspectivas e a interdependência entre os ele-
mentos de um sistema”, finalizam as autoras.
No capítulo Macrobibliotecas: a contemporaneidade das bibliotecas, as
autoras Rafaela Carolina da Silva e Rosângela Formentini Caldas descre-
vem o conceito de Macrobibliotecas para definir “[...] um modelo de flexi-
bilização tanto da gestão quanto da estrutura física, design e arquitetura de
ambientes organizacionais complexos”. O texto parte de pesquisa acadêmi-
ca cujo objetivo foi propor um novo conceito para bibliotecas, a partir da
hibridez característica dos ambientes contemporâneos de bibliotecas, com
o levantamento da hipótese de um diálogo “[...] necessário entre informa-
ção, desenvolvimento e participação na gestão pública local”. O embasa-
mento do estudo se deu por meio de uma pesquisa de natureza qualitativa,
explicativa e exploratória, de caráter teórico-epistemológico e também de
campo, em que se utilizou o método de Análise do Discurso Multimodal.
A Teoria da Complexidade fundamenta todo o universo de traba-
lho das autoras, ao destacarem que a condição híbrida pode ser melhor
compreendida a partir da noção de complexidade desenvolvida por Edgar
Morin (2015). No contexto do último paradigma apontado por Silva e
Ribeiro (2020), o texto de Silva e Caldas dialoga com as decorrências ou
concorrências das diferentes facetas de tais instituições, estruturadas pelo
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
51
arcabouço conceitual da complexidade na sua emergência do paradigma
político-ideológico e sociocultural. Como nós da rede de autores estudados
pelas autoras, encontram-se também Sutton (1996), Orera-Orera (2007),
e Fowke (2018), que discutem a hibridez nos ambientes das bibliotecas
contemporâneas. O texto expande a análise da hibridez no ambiente da
biblioteca em si, para as significativas mudanças decorrentes, ou concor-
rentes, nas estruturas organizacionais em que se reorganizam os serviços
de informação. O impacto científico da pesquisa e do capítulo pode ser
percebido pela narrativa da estruturação de ambientes complexos, híbridos
e inovadores, ao contribuir para o encaminhamento de um novo entendi-
mento de biblioteca híbrida no campo da Ciência da Informação.
No capítulo Estratégias Inovadoras para as Assessorias Jurídicas do
Distrito Federal sob a égide da Ciência da Informação, Milton Shintaku,
Natalia Nakano e Rosilene Paiva Marinho de Sousa discutem o conceito
de inovação na perspectiva jurídica, ao apresentar conjunto de novas leis
que regulam questões referentes à inovação em âmbito nacional. Os auto-
res dispõem os avanços em diversos setores em relação à inovação, e desta-
cam que o Marco Legal da Ciência, Tecnologia e Inovação (Lei nº 13.243,
2016) no Brasil é referência no fomento à pesquisa e à inovação. Apontam
a Lei do Governo Digital (Lei nº 14.129, 2021), em seu artigo 14, que
estabelece que os serviços devem ser prestados por meio de tecnologias
acessíveis a toda a população, incluindo pessoas de baixa renda e aquelas
em áreas rurais e isoladas. Uma análise detalhada da lei elucida parâmetros
para o estabelecimento da condição de inovação de produtos e serviços,
pois desenvolve um modelo de integração dos serviços de Comunicação
Jurídica no Distrito Federal disponibilizado na íntegra em livro. O capítu-
lo descreve todo o percurso e apresenta as inovações propostas no projeto
“Comunicação Jurídica no Distrito Federal: proposição de modelo voltado
à Integração de Serviços”, que foi conduzido por meio de aplicação de
questionários centrados na análise do capital intelectual dos respondentes.
O texto expõe como a análise das respostas obtidas permitiu a iden-
tificação de desafios, necessidades e problemas, o que evidenciou as co-
nexões relativas à melhoria, desburocratização e acesso simplificado aos
serviços prestados pelas assessorias jurídicas das regiões administrativas do
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
52
Distrito Federal, que concordaram em participar do projeto de pesquisa.
As considerações apresentadas são relativas à melhor eficiência de um fluxo
de informação, que resulta em melhores decisões, agilidade e melhorias no
serviço público. Além disso, os autores apontam que a abordagem colabo-
rativa e o uso das tecnologias são fundamentais para enfrentar os desafios
identificados no projeto analisado e para promover um serviço público
mais eficiente e eficaz.
Finalmente, no capítulo Transformações nas interfaces de interação de
projetos colaborativos de e-ciência de acordo com as atualizações de convergên-
cias entre o Design da Informação e a Curadoria Digital na Web, Gabriela de
Oliveira Souza e Maria José Vicentini Jorente questionam como o Design
da Informação e a Curadoria Digital podem contribuir com a construção
de ambientes dígito-virtuais colaborativos. O texto apresenta a convergên-
cia entre o Design da Informação e a Curadoria Digital em ambientes dígi-
to-virtuais, que faz emergir possibilidades para aplicação dos conhecimen-
tos construídos de forma colaborativa; como consequência, permite uma
aproximação dos sujeitos informacionais de maneira geral. O uso de uma
linguagem mais próxima da linguagem natural aproxima as comunidades
de interesse do conhecimento científico, como foi possível observar nos
ambientes analisados no capítulo. As autoras defendem que construção co-
laborativa de ambientes dígito-virtuais, voltados para o compartilhamento
do conhecimento científico, deve ser realizada de modo convergente entre
o Design da Informação e a Curadoria Digital. A convergência garante que
os ambientes criados sejam eficientes, efetivos e eficazes, e proporcionam
o acesso a longo prazo, bem como a otimização do ciclo de vida da infor-
mação e a preservação.
A fim de exemplificar as significativas mudanças derivadas da hi-
pótese da convergência sugerida, as autoras analisaram os ambientes dí-
gito-virtuais resultantes dos projetos Jugando a definir la ciencia, Club
Lexic, Microscopi, Diximed para Pediatría e COMJunts, com o intuito
de comparar como as convergências entre o Design da Informação e a
Curadoria Digital podem beneficiar ambientes pós-custodiais de natureza
dígito-virtual colaborativa. A metodologia utilizada no capítulo é de na-
tureza qualitativa e caráter descritivo e exploratório, e o método aplicado
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
53
é o Design inking, enquanto as técnicas utilizadas para a coleta de dados
são a revisão de literatura e a observação participante. Adicionalmente, é
também aplicada a técnica do visual thinking, com a utilização de quadros
explicativos como instrumentos. A partir da análise dos ambientes dígi-
to-virtuais resultantes do projeto Jugando a definir la ciencia, as autoras
expõem como a participação da comunidade contribui de forma signifi-
cativa para o Design da Informação e a Curadoria Digital de ambientes
dígito-virtuais, e destacam a possibilidade da construção colaborativa de
tais ambientes por meio do harvesting - coleta e filtragem dos conteúdos
produzidos colaborativamente, de modo que tal coleta possa auxiliar na
construção de ambientes eficientes, eficazes e efetivos que atendam às co-
munidades de interesse.
Assim, cada capítulo que compõe esse volume apresenta facetas da
complexidade de que é composta a realidade da Ciência da Informação
no contexto contemporâneo, diante da emergência do novo paradigma
político-ideológico e sociocultural. É importante destacar, no entanto, que
um paradigma não é uma ruptura abrupta e total em relação à realidade
precedente de um modelo condutor de uma área do conhecimento e cam-
po científico, como a Ciência da Informação. Não é um tampão opaco que
encerra uma era e substitui todo um modo de pensar, mas sim uma nova
camada de questionamentos, preocupações, levantamento de hipóteses e
propostas para a solução de problemas.
O paradigma pós-custodial não oblitera as questões relativas à cus-
todialidade e custódia, que não podem e não devem ser esquecidas. Pelo
contrário, ele propõe e se ocupa de uma camada de comunicação das insti-
tuições e de compartilhamento da informação, no mundo em que a dígito-
-virtualidade ampliou sobremaneira as margens do que é informativo. Tal
paradigma considera que a informação deve ser comunicada para alcançar
um maior número de pessoas da sociedade na qual ela está inserida, como
um direito humano, tal qual a alimentação, a saúde, a educação, o bem-es-
tar social, entre outros.
O nascente paradigma político-ideológico e sociocultural sugere, por
sua vez, uma ampliação da pós-custodialidade tendo em vista a necessidade
de que o acesso seja calcado na conversação constante, no diálogo respeito-
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
54
so e na percepção que os indivíduos, sujeitos que constituem comunidades
diversas, devem ser vistos não de maneira igualitária, simplesmente, e sim
equânime. A articulação do conjunto de capítulos neste volume convida à
reflexão da comunidade de interesse da Ciência da Informação.
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57
CAPÍTULO 1
A   
 :
   E E
 E S (EEES)
María-Manuela MORO-CABERO
Kevin-Francisco León GAVILÁNEZ
Entender antes de actuar resulta vi- tal, pero en-tender sin actuar
en con- secuencia será un suicidio (Floridi, 2020).
1. A DAnçA DA MUDAnçA nO ARQUiVO e nO
ARQUiVisTA DO sÉCULO XXi
No final do século XX, a comunidade estadunidense de arquivistas
tomou consciência da necessidade de abordar a profissão diante dos “no-
vos” ambientes de trabalho eletrônico (ETE). Isso implicou refletir sobre
escritórios sem papel, documentos digitalizados, a gestão eletrônica de di-
versas atividades de gestão documental, bem como o arquivo patrimonial
digital para facilitar o acesso de usuários/administrados. A incorporação da
Internet ao ambiente de arquivo representou uma oportunidade de serviço
https://doi.org/10.36311/2025.978-65-5954-650-3.p57-86
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
58
por meio da abertura via correio eletrônico e da criação de sites web es-
táticos. Na comunidade profissional internacional, emergiu uma reflexão
coletiva sobre as consequências do novo modelo de trabalho, que gerou
mudanças significativas. Entre essas mudanças, destacam-se: A substancia-
lidade do objeto; A narrativa da sua organização e representação; A mu-
dança de enfoque nas funções tradicionais; A normalização de processos; A
criação de novos modelos de serviço para atender a uma ampla variedade
de necessidades dos usuários.
Dessa maneira, foi se expandindo o conceito de pós-arquivística
(objeto intangível, armazenamento digital, informação documentada,
metanarrativa e formato eletrônico) em oposição à arquivística tradicio-
nal (objeto tangível, armazenamento físico e formas/formatos controla-
dos). A comunidade de usuários começou a identificar o potencial da rede
Internet, derrubando os sólidos muros dos arquivos em prol de um serviço
glocal (local e global). No entanto, embora as mudanças no objeto, no seu
contexto, nos processos e nas necessidades de serviço fossem claramente
reconhecíveis, o modus operandi, como apontou acertadamente Bustos
Pretel (2020), permaneceu semelhante ao que já era adotado. Isso por-
que o documento digitalizado ou gerado eletronicamente acabava sendo
transformado em uma imagem Tiff ou PDF, formatos que reproduziam o
trabalho tradicional de arquivamento. Ou seja, o arquivista dispunha de
documentos eletrônicos que eram convertidos em papel ou em formatos
de imagem, sendo processados/servidos com, e muitas vezes a partir de,
uma mentalidade de trabalho similar à aplicada em documentos textuais.
Os constantes e rápidos avanços em hardware, software e ambientes de rede
não foram acompanhados por novas competências profissionais. O pro-
fissional, embora consciente das mudanças, passou a demandar formação
especializada para atuar nesses novos ambientes de trabalho.
No início do século XXI, conceitos como comércio eletrônico, ad-
ministração eletrônica, cidadania digital, interoperabilidade, segurança e
qualidade de dados, documentos e informações facilitaram a convivência
do digital — derivado de um processo de digitalização — com o eletrô-
nico, ou seja, documentos nascidos digitais. Essa convivência exige ga-
rantias que permitam administrações interoperáveis (objetos normalizados
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
59
para uso em/dentre diferentes administrações), com objetos de qualidade
e ambientes tecnológicos que proporcionem segurança suficiente frente
aos inúmeros riscos que tanto os objetos quanto os ambientes tecnológi-
cos apresentam. Surgiu e se difundiu internacionalmente a normalização
da gestão de documentos (normas ISO). Em cada país, foram aprovados
novos códigos legais para o arquivamento (regulamentos e legislações onde
os conceitos de eletrônico, digital e serviço eletrônico ou digital são regu-
lamentados em seus artigos). Também foram acordadas normas técnicas
com força de lei (relativas à interoperabilidade e segurança); emergiram
normas para descrever o documento, seu contexto (metanarrativa) e para
regular as funções a serem realizadas e já realizadas em um ambiente di-
gital. Além disso, novos modelos de armazenamento foram introduzidos,
acompanhados por demandas de serviço e disseminação de informações/
documentos sob medida.
Dos suportes tradicionais, evoluiu-se para uma categoria de docu-
mentos de enorme complexidade, cuja metamorfose os transforma em um
magma líquido, um objeto de uso, reutilização, exclusão ou nova criação
(e archive in times liquid). Contudo, em todos eles, identifica-se um
denominador comum: a necessidade de aprofundar o entendimento sobre
todo o seu ciclo de vida, desde a criação, captura, gestão, armazenamento
até sua eliminação ou preservação ao longo do tempo, acesso, uso e reuti-
lização. É evidente a necessidade de aplicar um controle sobre esses docu-
mentos para verificar sua autenticidade, integridade, confiabilidade e usa-
bilidade. Torna-se ainda mais clara a necessidade de fornecer informações
documentadas que sejam de qualidade, verdadeiras, completas, disponíveis
e seguras.
O peso da disciplina, fundamentada no respeito à proveniência e à
ordem original e que reconhecia três idades, desloca-se para a gestão nor-
malizada de sistemas de gestão de documentos eletrônicos. Isso valoriza
a continuidade digital dos ativos de dados e documentos, identificando
e controlando os contextos produtivos, de gestão, armazenamento e re-
presentação (repositórios, arquivamento web, arquivamento em compu-
tação na nuvem, formatos de armazenamento e formatos de e-discovery),
preservação, uso e reutilização ao longo do tempo, tanto de dados quanto
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
60
de documentos. Além disso, busca-se aprimorar a qualidade de ambos,
garantindo portabilidade, interoperabilidade, segurança, integridade, au-
tenticidade, confiabilidade e acessibilidade (no sentido mais amplo do
termo: identificável, localizável, acessível, inteligível e utilizável). Dados e
documentos não apenas “dançam” em um ciclo de vida “desfocado”, mas
seu movimento é autenticado pelo serviço multicanal que, deles próprios,
administradores e usuários realizam. Isso transforma o arquivo e o arqui-
vista, respectivamente, em um espaço e em um profissional que atestam a
legalidade e a qualidade de dados e documentos, algo imprescindível em
um universo de desinformação que molda uma sociedade (des)informada
sob o conceito produtivo conhecido como transformação digital.
Além disso, a cidadania digital, que consome diariamente uma mé-
dia de 18 horas e 14 minutos de informações digitais1, não está disposta
a abrir mão das vantagens de acessar informações a partir de uma pers-
pectiva GLAM (Galerias, Bibliotecas, Arquivos e Museus). Esse ponto de
vista permite que os horizontes informativos sejam ampliados a partir de
múltiplas posições, já que a mente digital dessa cidadania é poliédrica e
não mais se ajusta ao modelo bidimensional de documentos ou imagens
tradicionais. Suas necessidades informativas passam a ser delineadas sob
múltiplas perspectivas e abrangem todo tipo de informações úteis para a
vida: lazer, turismo, saúde, moradia, família, educação, viagens e trabalho.
Essa cidadania, acostumada à instantaneidade, exigirá serviços e atendi-
mentos bem informados, com dados e informações abertas e interligadas,
disponíveis no formato 24/7-365 (24 horas por dia, 7 dias por semana,
durante os 365 dias do ano).
Steve Bailey (2008) estabelece três paradigmas sobre a evolução da
gestão de documentos, remontando aos anos 1980 até 2008. Ele identifica
dois paradigmas no último quarto do século XX, marcados pela automa-
ção de escritórios (paradigma I) e pela aparição da Internet na década de
1990 como meio de comunicação (paradigma II). Nessa época, a produção
dos objetos arquivísticos era realizada com uma mentalidade tradicional,
enquanto as funções começavam a ser automatizadas. Ademais, Bailey
Digital 2023 Global Overview Report (January 2023) v01. Disponível em: https://www.slideshare.net/
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Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
61
identifica um terceiro paradigma no início do século XXI, em que o leque
de modalidades de serviço se amplia com o uso de redes sociais, ferramen-
tas de sindicância e notificação, tecnologias colaborativas e outros meios
multicanais baseados na Web 2.0 e Web 3.0 (paradigma III).
Moro-Cabero (2021), seguindo a lógica de Bailey, incorpora um
novo paradigma para a gestão de dados e documentos, mediado pela am-
pliação das categorias de documentos, pela normalização da produção,
captura, gestão, armazenamento, preservação ao longo do tempo e dispo-
nibilização para o acesso, uso e reutilização da informação. Esse paradigma
é modelado por uma administração tecnicamente normalizada em termos
de portabilidade, interoperabilidade, segurança, abertura e transparência;
em suma, em sua governança. É um paradigma no qual se desenvolvem
novos modelos de armazenamento, novos modelos de descrição, organiza-
ção e representação de dados, sejam eles interligados ou não. Também sur-
ge uma nova composição de metalinguagens que respondem às necessida-
des de comunidades de usuários previamente identificadas, onde os limites
multidisciplinares se dissolvem diante de uma nova concepção de arquivo.
Este último deve manter um diálogo direto com a cidadania, para que, por
meio da oferta de um serviço multicanal, a população reconheça e teste-
munhe sua função como garantidor de dados e informações de qualidade.
No Quadro 1, são apresentadas as características inovadoras deste pa-
radigma, considerando os elementos apontados por Baily para comparação.
Quadro 1 - Principais características do Arquivo atual: paradigma IV
Elementos de
comparação Paradigma IV
Alcance tecnológico
sobre as atividades de
negócio
Produção, comunicação e reutilização Web 4.0: interação entre
administradores/usuários em ambiente aberto.
Criação, captura, gestão e disponibilidade de dados, informações
e documentos em ambiente de nuvem distribuída.
Interação digital nos negócios: contratos digitais.
Armazenamento em “não-lugares”. Antropoceno.
Sustentabilidade.
Sociedade digital.
Data S. XXI: 2010 em diante.
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
62
Elementos de
comparação Paradigma IV
Arquivo Arquivo virtual ou digital. Arquivo vazio.
Serviços digitais por padrão.
Gestão integrada do Arquivo (Trajetória Década Digital 2030).
Ambientes de trabalho fluidos e híbridos. Arquivo aberto e
reutilizável.
Descobrimento de contêiner e conteúdos.
Objeto de trabajo Documento fluido autorizado.
Dados, informações documentadas. Diversidade de categorias de
conteúdos documentais reconhecidos ou não.
Documento elaborado por meio de técnica blockchain.
Não há interação homem-máquina.
Suportes não extraíveis ou virtuais.
Normalização Normalização de segurança, portabilidade e interoperabilidade,
armazenamento distribuído, uso e reutilização da informação em
aberto.
Novos modelos conceituais normalizados, de taxonomias e
ontologias para a web semântica (RiC-CM; RiC-O).
Consolidação da normalização da gestão de documentos.
Serviços ao usuário Sedes eletrônicas. Portais de transparência. Portais de dados
abertos.
Acesso ao próprio documento, com opções de reutilização.
Serviço via móvel e redes sociais.
Disposição semântica da informação: disponibilidade da
informação/documento juntamente com outros objetos de outra
origem (portais de arquivos como Europeana ou PAE - Portal de
Arquivos Europeus).
Serviços sob medida e sob demanda.
Fundamentos e
métodos Arquivologia integrada baseada no ciclo de vida. Arquivologia
computacional baseada na disponibilidade e reutilização do
recurso.
Arquivologia da interoperabilidade, segurança e confiabilidade
de arquivos e informações contidas no objeto de dados e nos
repositórios.
Preservação do documento magmático com armazenamentos
distribuídos.
Modelos Pós-custódia plena, preditiva e multidimensional, orien- tada
à usabilidade da informação, ao asseguramento da governança
e à memória cultural e social, identitária e inclusiva. Arquivo
antropocêntrico.
Fonte: Elaboração própria (2024).
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
63
Estabelecido um contexto justificativo do tema de estudo, passamos
a questionar e estabelecer os objetivos deste estudo.
2. QUesTiOnAMenTO e fORMULAçãO De OBJeTiVOs
Observa-se que as capacidades digitais são essenciais na atividade
cotidiana, tanto para a realização pessoal quanto profissional. Por conse-
guinte, entende-se que os nossos governos, interessados no comércio e nas
administrações eletrônicas, trabalham para o desenvolvimento de habili-
dades digitais na cidadania, sejam elas transversais (Espanha, Eixo 1) ou
específicas, para facilitar o desenvolvimento profissional (como os Eixos 2
a 5 na Espanha). Neste ensaio, diante da justificativa anterior, constatamos
o problema do desconhecimento sobre a formação curricular para o arqui-
vamento eletrônico.
As mudanças ocorridas nos últimos 40 anos foram de tal magnitude
que o incrível e enorme esforço realizado pelos arquivistas não foi acompa-
nhado, com a mesma velocidade, pela formação regulamentada disponível
na Espanha e na Europa. Por essa razão, estabelece-se o seguinte questio-
namento: Qual é a resposta apresentada para e a partir do espaço europeu
em relação à formação curricular do arquivista diante dos novos contextos
de trabalho do século XXI?
Para responder a essa questão, formulamos quatro objetivos:
Objetivo 1: Definir o conceito de competência digital a partir de
uma abordagem holística.
Objetivo 2: Identificar e comparar os marcos de competências exis-
tentes para a profissão no espaço europeu. Trata-se de verificar e ana-
lisar a existência de diretrizes e marcos de competências disponíveis.
Objetivo 3: Analisar as ações realizadas para promover um marco
curricular formativo para pós-graduação no espaço da UE, com o
objetivo de delimitar seu enfoque.
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
64
Objetivo 4: Estudar a viabilidade das propostas e, se for o caso, a
operacionalidade de realizar um plano de estudos para verificar sua
validade.
3. MeTODOLOGiA, ResULTADOs esPeRADOs e
esTRUTURA DO ensAiO
Para responder ao problema e alcançar os objetivos, aplica-se uma
metodologia de natureza descritiva e analítica, baseada na consulta de fon-
tes primárias (marcos de competências, agendas, planos, relatórios e nor-
mativas, sejam governamentais ou de associações e organizações da profis-
são) e estudos de especialistas na área (manuais, publicações seriadas e atas
de congressos).
Os resultados esperados são os seguintes:
1. Retrospectiva das mudanças na profissão.
2. Conceituação holística de competência e competência digital,
bem como de perfil profissional e marco de competências.
3. Identificação e análise das principais diretrizes e marcos de com-
petências no espaço europeu de educação, com comparativo de
conteúdos para destacar os modelos existentes.
4. Descrição das ações realizadas pela DG Connect da Comissão
Europeia por meio do grupo E-ARK.
5. Detalhamento descritivo da viabilidade elaborado por especia-
listas docentes da Universidade de Salamanca, Espanha, para a
implementação de um plano de estudos curriculares para arqui-
vamento eletrônico.
O ensaio está estruturado da seguinte forma: realizada uma re-
trospectiva sobre as principais mudanças experimentadas na disciplina
Arquivologia, útil para justificar o estudo (seção 1), o problema é defini-
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
65
do e os objetivos são formulados (seção 2), seguida da metodologia e dos
resultados esperados (seção 3). Em seguida, analisa-se a complexidade
do conceito de competência, bem como alguns dos principais marcos
de competências existentes no espaço europeu (seção 4), para então exa-
minar, na quinta seção, as ações promovidas pela Comissão Europeia e
sua DG Connect/E-ARK. Por fim, apresenta-se o estudo de viabilidade
elaborado na Universidade de Salamanca (seção 6) e estabelecem-se as
principais conclusões.
4. COMPeTênCiA DiGiTAL e MARCOs De COMPeTênCiA
Nesta seção, aborda-se a complexidade do conceito de competência
e define-se a competência digital. Além disso, identificam-se e analisam-
se os marcos de competência existentes no espaço europeu utilizados na
profissão.
4.1 COnCeiTOs De COMPeTenCiA e COMPeTenCiA DiGiTAL
O conceito de competência é holístico, conforme observado nas
propostas definidoras.
Em primeiro lugar, o guia EURBICA (Aneca, 2011, p. 37) a defi-
ne como: “combinação de conhecimentos, capacidades e atitudes que um
arquivista precisa para alcançar um nível reconhecido de desempenho pro-
fissional”. Ademais, o resultado (desempenho profissional) pode estar re-
lacionado a várias competências, e estas podem ser atingidas em diferentes
graus, reconhecidos como níveis de competência.
De modo semelhante, mas enfatizando a necessidade de verificação,
a norma italiana UNI (2014) define competência como: “Capacidade de-
monstrada de utilizar conhecimentos (3.12), destrezas (3.1) e habilidades
pessoais em situações de trabalho ou estudo e no desenvolvimento pro-
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
66
fissional e pessoal, podendo ser exercida com certo grau de autonomia e
responsabilidade”.
O referencial francês (2016), elaborado pela Association des Archives
Françaises, estabelece três elementos descritivos de cada competência pro-
fissional: savoir (conhecimento), savoir-faire (destreza) e savoir-être (res-
ponsabilidade ou atitude). Esse último conceito (savoir-être) gera maior
divergência nas definições. No referencial francês, o termo utilizado é ex-
pressivo. Embora se empreguem conceitos semelhantes, nem todos os mar-
cos competenciais coincidem nos elementos que integram a competência,
e menos ainda nos níveis de realização dessa competência. Nesse caso, são
reconhecidos cinco níveis de realização (de 0 a 4).
Para este estudo, além do guia EURBICA, utilizam-se os referen-
ciais da Suíça, França, Itália e ARA (Reino Unido/Irlanda), como exemplos
para destacar diferenças.
Quadro 2 – Detalhe descritivo de competência e níveis de realização
Estudos Pautas
EURBI- CA Suíça Itália França ARA EQF_ MEC
Detalhe
descritivo dos
elementos de
competência
Conhecimentos
Capacidades
Atitudes
Não detalha
(inclui
conhecimentos
específicos,
competência
profissional e
especializada).
Conhecimentos
Habilidades
Habilidades
pessoais
Saber
Saber- zer
Saber-ser
Não detalha
indiretamente:
Conhecimento
Aplicação
Inovação
Conhecimentos
Capacidades
Responsabilidade
e autonomia
(habilidades
pessoais, sociais e
metodológicas)
Número de
competências
propostas
Não detalha
Não detalha o
número, são
nu- merosas as
descrições
Número
elevado de
competências
vinculadas a 29
ativida- des
Elevado 39 ------
Níveis de
realização
8 níveis
Universidade:
5 a 8
Não detalha 5 níveis:
0 a 4
5 níveis:
0 a 4.
5 níveis:
1 a 5
8 níveis.
Universidade:
5 a 8
Fonte: Elaboração própria (2024).
O conceito de competência é contextualizado em relação ao número
de competências propostas, assim como em relação à sua orientação, seja
em termos de vinculação aos resultados ou à avaliação. Da mesma maneira,
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
67
considerando sua delimitação quanto ao grau de aquisição, é complexo,
holístico e nem sempre coincidente nos diferentes marcos competenciais,
objeto de análise deste ensaio. No entanto, para boa parte deles, reconhe-
ce-se como componentes os elementos que a seguir são enunciados:
a) Conhecimento: a norma UNE-EN16234-1 (2021) define-o no
seu glossário (entrada 3.6) como “acervo de fatos que podem ser
utilizados em um campo de trabalho ou estudo”. A meu ver, inclui
a capacidade de aprendizagem, assim como a oportunidade de utili-
zar essa aprendizagem (Know-Why; Know-at). Ou seja, responde
a perguntas como: o que sei em um contexto determinado, o que
devo aprender atendendo a contextos e circunstâncias, por que e
para que devo conhecê-lo. Está relacionado com teorias, princípios,
fundamentos, práticas, legislações do âmbito profissional, o próprio
campo profissional, entre outros conteúdos.
b) Habilidades-capacidades: a norma UNE-EN16234-1:2021 de-
fine habilidade como a “aptidão para desenvolver tarefas de gestão
técnica”. Trata-se de aprender a fazer ou como fazer (Know-how).
Este elemento inclui o conhecimento cognitivo, que exige certa ló-
gica intuitiva e pensamento criativo, e no qual se identifica, seleciona
e propõe, além do conhecimento aplicado, ou seja, o de dispor de
habilidades ou capacidades para aplicar a teoria, conhecer métodos,
materiais e ferramentas e saber como aplicá-los, até chegar à resolu-
ção de problemas ou desenvolvimento de situações.
c) O terceiro elemento é definido na França como “savoir-être”, sen-
do frequentemente conhecido como competência transversal, habi-
lidade pessoal ou social, competência especializada, responsabilidade
e autonomia ou até mesmo como atitude. Este elemento deve ser
percebido como a atitude humana ou o comportamento subsequen-
te para integrar de maneira bem-sucedida o conhecimento e as ha-
bilidades em um contexto de trabalho determinado. Ou seja, diante
de uma situação dada, uma pessoa dispõe de conhecimento e habili-
dades e deve integrá-los adequadamente.
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
68
A figura expressa o conceito de competência no Espaço Europeu de
Educação Superior (EEES). Nessa linha, todas as competências para qual-
quer ocupação ou perfil ocupacional devem ser definidas, com seus graus
de realização, considerando seus elementos integrantes:
Figura 1 - Abordagem holística da competência
Fonte: Elaboração própria (2024).
A competência deve ser compreendida a partir de uma abordagem
holística onde interagem de forma poliédrica fatores profissionais, forma-
tivos e socioeconômicos. Visualiza-se, neste enfoque, sociedade-cidadania,
formação-academia e profissão. Na figura, estão incluídos 3 elementos
componentes em um marco de competências, necessários para aplicar no
modelamento de perfis profissionais, considerando o tipo de perfil profis-
sional e as funções ou atividades profissionais que devem ser identificadas
para os postos de trabalho, atendendo ao perfil profissional e às atividades
vinculadas a ele.
Por outro lado, o grau de desenvolvimento da competência é conhe-
cido como nível de competência. É óbvio que uma competência pode exi-
gir determinado grau de conhecimento em relação a habilidades cognitivas
e aplicadas, assim como determinadas habilidades pessoais ou de atitude,
compromisso ou autonomia. Perfis profissionais e atividades vinculadas
aos mesmos exigirão um grau de realização de competência diferenciado,
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
69
no qual o nível de desenvolvimento de seus componentes será igualmente
variável. Até mesmo alguns dos elementos de competência podem estar
ausentes. Por exemplo, um nível básico pode exigir determinado nível de
realização de conhecimento adquirido (conhecimento de uma lei, de um
conjunto de requisitos, etc.) e não exigir, sobre esse conhecimento, a capa-
cidade de aplicação (aplicar a lei, selecionar os requisitos mais adequados
para consideração).
Baldomero Martínez (2022, p. 11) aponta que o conceito de com-
petência digital trata das habilidades que uma pessoa precisa para se
orientar, aprender e trabalhar em uma sociedade digital”. Essa definição,
que observamos ser geral, pode ser útil tanto para aplicar à cidadania, com-
petências digitais cidadãs, quanto a um profissional. A norma UNE-EN
16234-1:2021, que regula um marco de competências para o ambiente
especializado em TIC, inclui em seu glossário o conceito de competência
(3.5), definido como “capacidade demonstrada de aplicar conhecimentos,
habilidades e atitudes para obter resultados favoráveis”; do mesmo modo,
define os elementos mencionados de conhecimento (entrada 3.6), habili-
dades (3.7) e atitude (3.8).
Considerando as definições anteriores, o profissional de arquivo em
um ambiente de trabalho eletrônico ou de arquivamento eletrônico deve
dispor de conhecimentos, habilidades-capacidades e habilidades pessoais/
sociais para trabalhar com arquivamento digital, em um arquivo/organiza-
ção que deve ser administrado(a) de acordo com os princípios FAIR, e cujo
objeto informativo documental é nativo digital ou digitalizado e com uma
finalidade de serviço digital multicanal, aberto, acessível e reutilizável para
a cidadania e para o administrado digital. Em suma, o profissional deve ser
alfabetizado digitalmente para:
a) Administrar sistemas de informação, unidades de informação ou
serviços digitais abertos;
b) Processar dados/documentos desde sua produção até seu descarte,
modificação ou preservação permanente de maneira segura, portátil
e interoperável em um ambiente de trabalho digital;
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
70
c) Comunicar e fornecer informações, dados e documentos de qua-
lidade para as administrações e para a cidadania digital, as quais uti-
lizam meios digitais, por meio de meios telemáticos;
d) Inovar, criar, colaborar em redes, organizações e de maneira co-
laborativa, incluindo os espaços digitais (ambiente de nuvem, am-
bientes de sindicados de redes sociais, ambiente móvel, Tablet, etc.).
Essas funções do profissional devem ser compatíveis com os objeti-
vos da Agenda Digital Europeia e de sua Década Digital 2030. Assim, os
planos de digitalização para a transformação digital valorizam:
1. Serviços digitais acessíveis, seguros, confiáveis, eficientes, inclu-
sivos e proativos. Prioriza-se a qualidade e a melhoria nos proces-
sos e a proatividade nos serviços.
2. Uma Administração Pública – o que também se aplica à privada
– orientada por dados para gerar políticas mais precisas, o que se
categoriza sob o datacentrismo.
3. Uma democratização do acesso às tecnologias emergentes, o que
implica dar ênfase ao e-descobrimento. Ou seja, trabalhar a par-
tir de uma abordagem multicanal e de multidiversidade de in-
formações acessíveis, disponíveis, utilizáveis e reutilizáveis.
Em toda a UE, a Agenda Digital 2030 marca uma trajetória expan-
siva de transformação digital, utilizando múltiplos indicadores. No caso
da Espanha, o relatório sobre o estado da Década Digital (2024) a colo-
ca muito avançada em serviços públicos digitais (84,2%, contra a média
da UE: 79,4%), em registros de saúde (84,6%, contra a média da UE:
79,1%), em análise de dados (38,2%, contra a média da UE: 33,2%), em
competências digitais (66,2%, contra a média da UE: 55,6%), etc. O índi-
ce DESI de 2022 a coloca em 7º lugar entre os países da UE, considerando
indicadores como competências digitais básicas, conectividade, serviços
públicos e comércio digital.
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
71
A Década Digital 2030 pressupõe taxas de conquista sobre 100%
muito elevadas no espaço europeu. De fato, já são diversos os países da
União que se destacam na conquista dos objetivos dessa Agenda. Por essa
razão, é necessário que o profissional de arquivos seja alfabetizado digital-
mente. Veremos no próximo subcapítulo os avanços a esse respeito.
4.2 MARCOs COMPeTenCiAs PARA A PROfissãO nO esPAçO eUROPeU
Em 2006, o NARA, juntamente com a Associação de Arquivistas
Americanos, realizou seminários sobre as competências para a era digi-
tal em Washington (Weinstein, 2006). No mesmo ano, em 2006, na 7ª
Conferência Europeia realizada em Varsóvia, foi acordado iniciar um pro-
jeto conjunto entre o EURBICA e a seção de Associações Profissionais do
ICA, visando o futuro profissional do Arquivista na Europa, cujo resultado
foi apresentado em 2011 por meio de um manual-guia editado para facili-
tar às associações profissionais a elaboração de competências e perfis com-
petenciais. No primeiro capítulo, são apresentadas as razões e os benefícios
do uso de um marco de competências; o segundo capítulo é destinado à
definição de perfis profissionais, enquanto o terceiro foca no perfil compe-
tencial para tais perfis profissionais. Finalmente, o quarto capítulo aborda
a aquisição competencial por meio de modelos formativos e, logicamente,
o quinto detalha a avaliação do grau de aquisição competencial.
Esta guia, em teoria, facilita o desenvolvimento de um referencial ou
marco de perfis competenciais e sua influência é demonstrada nos marcos
competenciais analisados neste ensaio.
Como vemos na seguinte figura, perfil profissional, perfil competen-
cial, formação para perfis/profissionais-competenciais e avaliação do grau
de alcance de resultados competenciais seriam a proposta de roteiro espe-
cífico para a profissão de arquivista.
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
72
Figura 2 - Roteiro da Guia para a elaboração de um marco
Fonte: Elaboração própria (2024).
Como observaremos nos marcos de competências analisados como
exemplo, torna-se necessário definir o perfil profissional, já que este é a
base para o perfil de competências, conforme indicado na referida guia.
Nesse perfil, detalham-se as atividades e tarefas, bem como as responsabili-
dades que definem a profissão. A VSA-AAS, na Suíça, aponta como objeti-
vo do perfil profissional “estabelecer uma lista de atividades efetivas em um
serviço de arquivo” (VSA-AAS, 2012, p. 3). O perfil de competências deve
estar alinhado a esses perfis profissionais, considerando seu alcance e os re-
sultados competenciais. A norma italiana parte da missão do arquivo para
definir funções e atividades sobre as quais especificar os componentes da
competência, que denomina conhecimento, habilidades e competências.
Um marco ou repertório de competências é definido pelos arquivis-
tas franceses (AAF, 2016) como: uma lista de funções e competências de
uma organização ou grupo de organizações, que serve para gerir as compe-
tências. Considerando os postos de trabalho, bem como as funções e ativi-
dades desenvolvidas em uma organização, detalha-se um nível de compe-
tências diferenciado, levando em conta os níveis educacionais-profissionais
(desde pessoal de staff, técnico, especialista, até níveis mais ou menos avan-
çados). Por conseguinte, relacionam-se perfil/postos de trabalho, tarefas
vinculadas a esses perfis/postos e competências; e, considerando a categoria
do posto de trabalho, especificam-se níveis de alcance competencial.
A Guia EURBICA para o estabelecimento de um marco de compe-
tências para arquivos especifica níveis de responsabilidade e competência,
diferenciando entre básico, intermediário e avançado, além de combiná-
-los com o enfoque operacional, tático e estratégico.
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
73
Entre os marcos profissionais desenvolvidos no espaço europeu para
arquivistas, foram selecionados os seguintes: Suíça (VSA-AAS, 2012);
Itália (UNI, 2014); França (AAF, 2016); Irlanda-Reino Unido (ARA,
2017, em revisão) e; DigCurv, promovido pela Comissão Europeia para
a preservação digital, embora este tenha uma orientação mais específica e
não generalista.
No quadro a seguir, é apresentado o reconhecimento dos perfis e os
principais conteúdos organizacionais para os marcos analisados.
Quadro 3 - Análise de perfis e conteúdos organizacionais para um marco
de competências
Estudos Perfil
profissional
Conteúdos
organizacionais Observações
Pautas
Eurbica
Básico,
Intermediário
Intermediário
e vançado
Suíça Não detalha
Gestão Documental
(GD) e coleta
Tratamento
Conservação
Comunicação/mediação
Gestão de um serviço
de Arquivo
Redes
Baseia-se no ciclo de vida documental,
nas funções arquivísticas básicas — tratar,
conservar e servir —, bem como na
gestão administrativa do Arquivo como
unidade de informação. Inclui a dimensão
colaborativa.
Itália Não detalha Missão, 10 funções, 29
atividades
Baseia-se em 3 eixos da missão, com 10
funções relacionadas
à gestão do ciclo de vida dos documentos,
comunicação do serviço e administração
da unidade informativa.
França
Não detalha.
Presupõe
postos de
trabalho.
Gestão de documentação
ativa
Classificação e descrição
Conservação
Comunicação-
Valorização
Gestão do serviço de
arquivos
Baseia-se no arquivamento de escritório e
nas funções clássicas de arquivo: coleta,
organização, descrição, conservação e
comunicação. Inclui a gestão da unidade
informacional.
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
74
Estudos Perfil
profissional
Conteúdos
organizacionais Observações
ARA
Não especifica:
[sensibilização-
conhecimento/
operacional-
tático/
estratégico]
Organizacional Processos
Usuários e partes
interessadas
Baseia-se na função administrativa da
unidade, na gestão dos processos e no
atendimento aos usuários.
Digcurv
Executivo
Gerente
operacional
Pessoal técnico
Curadoria de conteúdos Baseia-se em 4 subdomínios e desenvolve
entre 55 e 69 competências.
Fonte: Elaboração própria (2024).
No espaço europeu, são identificados diferentes marcos competen-
ciais. O mais conhecido é o ESCO V.1.2 (European Skills, Competences and
Occupations)2 , que é a classificação europeia multilíngue de habilidades,
competências e ocupações. Ela inclui 3.039 competências e 13.939 quali-
ficações, sendo traduzida para 28 idiomas. A paternidade do ESCO per-
tence à Comissão Europeia, que é gerida pela Direção Geral de Emprego,
Assuntos Sociais e Inclusão (DG EMPL). Trata-se de uma classificação
multilíngue disponível em um portal online de consulta gratuita, cuja pri-
meira versão data de 2017, facilitando o intercâmbio profissional na UE.
No ESCO, para o âmbito profissional, são identificados os perfis profis-
sionais de Direção de Arquivos (código 13493), Arquivista (código 2621)
e Administrativo (código 4415). Este último corresponde ao trabalho de
gestão e informação documental em uma administração, enquanto o ar-
quivista inclui competências mais amplas, entre as quais se destaca o arqui-
vamento digital ou a gestão de arquivos digitais. Essa última competência
(gestão de arquivos digitais) é definida no ESCO como “criar e manter
arquivos informáticos e bases de dados, incorporando os últimos avanços
no armazenamento eletrônico de informações”.
Na Espanha, o Catálogo Nacional de Ocupações (CNO) reconhece
esses três perfis profissionais, identificando a direção de arquivo com o
Grupo A, o arquivista com os Grupos A, B e C/D para o técnico superior,
ESCO Disponível em: https://esco.ec.europa.eu/es/about-esco/what-esco
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
75
técnico médio e auxiliar de arquivo, respectivamente. Neste marco, o ar-
quivamento digital também está registrado.
Além desses marcos ocupacionais, que registram competências, qua-
lificações e conhecimentos básicos, existem também marcos competenciais
para o ambiente digital com duas orientações: 1- Orientação competencial
digital para a cidadania e 2- Orientação competencial para o especialista.
O marco competencial específico para a cidadania é identificado
como DigCom 2.1 (2017), onde são registradas 5 áreas principais com 21
competências e 8 níveis de aptidão, que variam de básico (níveis 1 e 2),
intermediário (níveis 3 e 4), avançado (níveis 5 e 6) a altamente especiali-
zado (níveis 7 e 8). Esses níveis correspondem a domínios cognitivos como
lembrar, compreender, aplicar, avaliar e criar, bem como a autonomia em
diferentes gradientes, como descrito na figura:
Figura 3 - Marco DigCom, detalhe descritivo para competências da
cidadania
Fonte: España, 2021.
Se observarmos as competências DigCom específicas de cada uma
das áreas e as recriarmos no ambiente profissional, seria possível aplicá-
-las a perfis profissionais. Este marco foi adaptado para algumas profissões
no ambiente da Saúde ou na Educação (exemplo, modelo IKANOS). Da
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
76
mesma forma, em nossa opinião, seria viável com algumas adaptações e
acréscimos para o profissional de Arquivo, a fim de realizar perfis profissio-
nais simples sobre avaliação competencial.
Na orientação para especialistas, identifica-se para o espaço europeu
a norma EN 16234-Parte 1:2019. Também mencionamos o marco SFIA,
que difere em sua origem.
A norma europeia EN 16234-1:2019 foi elaborada pelo CEN/
CT/428 Profissionalismo das TIC e das competências digitais. Esta nor-
ma está estruturada em 4 partes: Parte 1, marco; Parte 2, guia do usuário;
e Parte 3, metodologia. Estabelece-se uma Parte 4 - Estudos de caso. O
marco - Parte 1 - é independente das outras partes e nele estão incluídas
tabelas referenciais comparativas com outros grandes marcos ocupacio-
nais e competenciais, como o SFIA ou marcos relacionados, como EQF,
ESCO ou DigCom. Trata-se de um marco comum europeu para os pro-
fissionais das tecnologias da informação e comunicação (TIC). A Espanha
adota esta norma como UNE-EN 16234-1:2021 Marco de e-compe-
tências (e-EF), sendo elaborada pelo Comitê Técnico Nacional CTN 71
Tecnologias Habilitadoras Digitais. No entanto, como aponta o presidente
do Subcomitê 478 do CTN 71 (Peñarrubia, 2021), não se trata de uma
norma específica para profissionais TIC, mas pode ser aplicada a outros
profissionais que atuam em ambientes digitais.
Esta norma europeia identifica 5 áreas de competência: plane-
jar (concepção, design, etc.), desenvolver (construção, implementação,
etc.), operar (entrega, suporte, materiais), facilitar (criação de condições
de acesso) e gerenciar (direção, garantia), e define 41 e-competências
com 5 níveis de domínio (de 1 a 5), incluindo a compatibilidade com
o EQF (8 níveis) e com o SFIA. Inclui os seguintes aspectos transversais
significativos, como descritores adicionais complementares às competên-
cias: T1 Acessibilidade, T2 Ética, T3 Aspectos legais, T4 Privacidade, T5
Segurança, T6 Sustentabilidade e T7 Usabilidade. Todos eles, como se
observa, são específicos para a profissão de e-archiving. Refletindo sobre
as áreas, é tentador aplicá-las ao ambiente da profissão: planejamento de
sistemas de informação/documentação, serviços, design, desenvolvimento
e implementação, gestão dos recursos de suporte ou operacionais, gestão
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
77
do ciclo de vida, administração de unidades de informação, serviços ou
sistemas.
O marco SFIA baseia seu conteúdo na informação. Foi adotado
como marco competencial pelos arquivistas australianos e estabelece 7 ní-
veis de domínio. Esse fato, sua adoção pelo Arquivo Nacional Australiano,
com profissionais altamente destacados nos ambientes digitais, deveria ser
um fator muito determinante para examinar esse marco com detalhes, as-
sim como o marco referencial australiano da profissão. No entanto, cita-
mos-o, embora não nos aprofundemos nele, pois nos concentramos no
ambiente europeu.
5. AçÕes DA COMissãO eUROPeiA
Como foi mencionado, são variadas as iniciativas de criação e nor-
malização de marcos competenciais ou ocupacionais na UE, tanto para
facilitar o intercâmbio de profissionais (ESCO), como para orientar na
aquisição de competências digitais para a cidadania (DigCom), ou para o
setor de profissionais TIC (EN 16234-1:2017).
O referencial DigCurv (Digital Curator Vocational Education), espe-
cífico para a “curadoria” digital, deve-se à Comissão Europeia (CE). Não
se trata de um plano de formação específico, mas de um marco referencial
para 3 tipos de perfis profissionais, que surgiu promovido no Programa
Leonardo da Vinci, em 2011, com 30 meses de execução para analisar,
delimitar e estudar oportunidades, competências e habilidades formativas
necessárias para a conservação de objetos digitais, o que permitiria o desen-
volvimento de planos de estudo voltados para os conservadores desses ob-
jetos digitais a longo prazo, que são cada vez mais abundantes nas coleções
digitais GLAM. Portanto, sua orientação é voltada para coleções de biblio-
tecas, museus, galerias, arquivos, centros e, em suma, com patrimônio his-
tórico digital. Como indicam Molloy e Gow, da Universidade de Glasgow
(Molloy; Gow, 2012), as habilidades e competências surgem da análise de
taxonomias baseadas no RIN, Research Information Network, e das expe-
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
78
riências de grupos do Instituto de Informação e Tecnologia Avançada em
Humanidades dessa Universidade (HATII).
Neste marco foram considerados 3 perfis profissionais: operário ou
pessoal técnico staff (que exerce tarefas orientadas ao público e que neces-
sita de algumas técnicas, de modo individual ou grupal), gestor técnico
(responsável em áreas funcionais, serviços ou departamentos para garantir
e desenvolver projetos com sua equipe) e executivo-diretivo (no qual se
requer uma visão funcional ou de serviço, estratégica para compreender
mudanças e adotar decisões diante delas). Este marco também estabele-
ce 4 subdomínios: conhecimento, qualidades pessoais, conduta profissio-
nal e gestão de qualidade, nos quais são reconhecidas temáticas diversas
(conhecimento da profissão, marco legal e normativo, ética, princípios e
políticas, avaliação e seleção, estratégia de avaliação, habilidade em infor-
mação, habilidade em dados, gestão de recursos, gestão de riscos, auditoria
e certificação, responsabilidade perante a mudança, integridade, comuni-
cação e sensibilização) e são determinadas competências para cada perfil
que variam de 55 no perfil médio a 69 no superior e 59 no inferior. Essas
competências começam com verbos como: está ciente de, compreende,
conhece, entende, é capaz de. Oferece, além disso, exemplos de conteúdo
para cada temática, considerando o subdomínio e o perfil. Parte superior
do formulário
Nessa linha, a DGConnect da CE se propôs a criar um modelo de
currículo para o e-archiving, aplicável no Espaço Europeu de Educação
Superior. A proposta está sendo desenvolvida como serviço pelo e-ARK
e seu resultado é registrado no RELATÓRIO e-ARK D-CB3 e-Archiving
Course Curriculum (primeira versão) V.1. 2023 (Komisnski et al., 2023).
Constatando que na formação oficial universitária existe um nível
formativo de Graduação em Informação e Documentação, que varia de
acordo com a área científica, denominação, estrutura e nível formativo, no
espaço europeu, pretende-se criar uma proposta de conteúdos curriculares
mínimos a ser desenvolvida em pós-graduação. Esta proposta foi desenvol-
vida pelo e-ARK.
Os objetivos são os seguintes:
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
79
a) Criar um conteúdo curricular mínimo para o espaço europeu;
b) Validar a efetividade da proposta em uma universidade no nível
de pós-graduação e;
c) Avaliar os resultados e estabelecer o conteúdo curricular como
modelo de conteúdos mínimos.
O projeto foi realizado por meio do análise da viabilidade para o
estudo, baseado nos planos de estudo de pós-graduação, em uma entrevista
com especialistas e em um questionário online para que os profissionais
expressassem suas opiniões a respeito, com base em suas experiências.
A coleta de dados dos estudos existentes é fundamentada na fon-
te elaborada pelo INESC-ID (Instituto de Engenharia de Sistemas e
Computadores – Pesquisa e Desenvolvimento em Lisboa, Portugal), que
criou um mapa de estudos onde são oferecidos conteúdos digitais para
identificar existentes e lacunas. Trata-se de 89 instituições com pós-gra-
duação e que contêm 213 cursos de e-archiving, nos 27 países analisados.
Observa-se um baixo peso na estrutura modular dos pós-graduandos, sen-
do, em alguns casos, um módulo, sendo oferecidos predominantemen-
te nos seguintes idiomas: inglês, francês, alemão ou italiano. Além disso,
foram realizadas entrevistas com especialistas, como Jhon Sheridam, do
Arquivo Nacional do Reino Unido, com uma equipe de mais de 50 profis-
sionais. Também, a partir da entrevista com especialistas, foi elaborado um
questionário online com 15 perguntas semi-estruturadas, cujas respostas
vieram de 156 instituições. O questionário foi distribuído em seminários,
webinars e outros eventos da profissão.
No referido Relatório, foram registradas 3 orientações profissionais:
sensibilização (conscientizar e compreender), profissional (aplicar e anali-
sar) e de especialista (criar e avaliar), com o número de créditos variando
entre 3 a 5 para a primeira orientação e mais de 15 para a última. Propõe-
se uma estrutura modular de 6 semestres com as habilidades essenciais
(obrigatórias) em: 1- Princípios de gestão da informação; 2- Cumprimento
da legislação e normativas; 3- Métodos e suportes de armazenamento de
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
80
dados; 4- Codificação; 5- Métodos de preservação; 6- Segurança da infor-
mação e; 7- Gestão do acesso.
Também foram identificadas as seguintes habilidades básicas para
um ambiente de nuvem, agrupadas em categorias, conforme registrado no
Quadro 4:
Quadro 4 – Competências agrupadas em categorias para um ambiente de
nuvem
Categorías Relación de competencias Peso
Comunicación Comunicación eficaz, Negociación, Persuasión,
Redacción de casos empresariales, Redacción,
Consultoría
11
Gestión Gestión de proyectos -generales e informáticos-,
Colaboración interdisciplinar y multidisciplinar,
Gestión estratégica
8
Cognitivas Sentido común, Pensamiento analítico y lateral,
agilidad y Visiones e ideas. 7
Conocimiento
tecnológico Análisis de datos, Conocimiento de la tecnología
(y aplicaciones, CSIP, Selecciones, Conocimiento
de los datos).
7
Gobernanza,
Financiación y ética Gobernanza de datos, GDPR,
Presupuestos y finanzas, Ética
7
Fonte: Informe e-ARK (2023)
A partir dessas habilidades identificadas, serão fornecidos conteúdos
temáticos básicos, a título de exemplo, orientadores para a criação de um
plano de estudos. Considera-se a opção de estabelecer conteúdos mínimos
como obrigatórios e opcionais. Esta tarefa de estabelecer conteúdos encon-
tra-se em fase de desenvolvimento.
Em seguida, é fornecida informação sobre a resposta colaborativa
realizada na Universidade de Salamanca (Espanha) sobre a viabilidade de
desenvolver uma pós-graduação em e-archiving.
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
81
6. A UniVeRsiDADe De sALAMAnCA DiAnTe DA DAn-
çA DA MUDAnçA
No currículo educacional formal, a universidade espanhola segue os
resultados de aprendizagem por níveis para seus cursos, conforme o qua-
dro de qualificações acordado no EEES (Espaço Europeu de Educação
Superior). Nesse quadro, foram estabelecidos 8 níveis de resultados de
aprendizagem, dos quais 4 fazem parte do modelo educacional de Bolonha,
abrangendo os níveis 5 a 8. Os dois primeiros níveis estão vinculados a
diplomas de primeiro ciclo, o nível 8 a títulos de doutorado e o nível 7 a
pós-graduações ou títulos de 2º ciclo.
Esses resultados se materializam em competências que incluem 3
categorias: conhecimentos, capacidades e responsabilidade e autonomia.
A seguir, é apresentado o detalhamento descritivo dessas categorias para o
pós-graduação vinculado ao nível 7 do MEC.
Figura 4 - Resultados de aprendizagem EQF
Fonte: MECES (2024).
De modo semelhante, o MECES pré-Bolonha incluía para as suas
pós-graduações um nível 3, dentro de 4 níveis identificados, sendo o nível
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
82
2 correspondente ao Grau. O artigo 9.3 da LOSU (2023), sobre a estrutu-
ra dos cursos universitários, especifica o seguinte:
Os estudos de Mestrado Universitário têm como objetivo a forma-
ção avançada, de caráter especializado tematicamente ou de caráter mul-
tidisciplinar ou interdisciplinar, direcionada à especialização acadêmica
ou profissional, ou ainda voltada para a iniciação em tarefas de pesquisa.
Nesse sentido, o perfil profissional de uma proposta de curso de pós-
-graduação na Espanha deve ser considerado no nível de especialista, já que
é definido como “formação avançada” com enfoque inter/multidisciplinar
e com duas orientações claras: a profissão (requer tática e estratégia) e a
pesquisa (requer capacidade cognitiva e, no mínimo, estratégia).
O grupo de pesquisa Informação, Biblioteca e Patrimônio
Documental da Universidade de Salamanca tem se interessado pela pro-
posta formativa e-ARK e está em fase de elaboração de um plano de estu-
dos de pós-graduação para implementar o modelo de forma experimental,
com o objetivo de observar sua viabilidade e verificar sua utilidade como
modelo para o EEES.
O grupo realizou um projeto de inovação docente (Moro-Cabero,
2024) para estudar sua viabilidade na Universidade de Salamanca, consi-
derando que existem pós-graduações ativas voltadas para formar especia-
listas de mestrado profissional em Sistemas de Informação Digital. A me-
mória de resultados desse projeto foi apresentada em 30 de junho de 2024.
Nele, é demonstrado que é viável criar um título base e é determinada a
compatibilidade com determinados conteúdos que já são ministrados com
uma orientação multidisciplinar e especificamente GLAM.
Algumas modificações e implementações necessárias incluem:
1. Estabelecer cursos voltados especificamente para e-Arquivo (se-
melhantes aos cursos oferecidos com foco GLAM).
2. Contar com especialistas experientes para alguns dos conteúdos
de e-Arquivo.
3. Ampliar o número de horas dedicadas aos conteúdos informáti-
cos e de dados.
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
83
4. Contar com especialistas em preservação digital para categorias
documentais específicas, como audiovisuais, jornalísticas, do se-
tor de saúde, entre outras.
O GIR está elaborando uma proposta de plano de estudos adaptado
para pós-graduação.
7. PRinCiPAis COnCLUsÕes
A proposta da Comissão Europeia de criar uma base curricular para
o e-archiving é altamente relevante. O contexto de trabalho mudou, e os
estudos existentes no EEES não se orientam para o arquivamento digital
em número e importância, o que torna necessária a alfabetização profissio-
nal frente à transformação digital proposta pela Década Digital Europeia,
2030. Esta percepção coincide com o Relatório elaborado pelo e-ARK, no
qual se registra a opinião dos profissionais.
O estudo demonstra que a competência é um conceito holístico,
não necessariamente uniforme e frequentemente subjetivo em termos de
seu alcance e elementos constituintes. A proposta oferece uma definição
abrangente de competência digital, marco de competências e níveis de
competência, visando garantir a compreensão adequada das dificuldades
envolvidas na criação de um marco referencial.
A seleção de marcos referenciais europeus permite observar, na com-
paração, a diversidade de abordagens e também as analogias existentes,
especialmente no que se refere à gestão do ciclo de vida do documento,
comunicação e direção de unidades e serviços. A cronologia desses marcos
aprofunda as lacunas existentes para o ambiente digital.
Os marcos referenciais atuais para a profissão no espaço europeu
não atendem às novas necessidades formativas, o que torna necessária uma
proposta comum para toda a UE.
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
84
A proposta do DigCurv, embora a mais próxima do tema, é vista
como incompleta para todas as necessidades de e-archiving, possuindo uma
orientação GLAM e específica para a “curadoria” digital. Entende-se que
essa proposta é uma fonte valiosa para a nova configuração curricular, mas
não a única. Além disso, os resultados das entrevistas com especialistas
e questionários institucionais permitem identificar competências básicas
e conteúdos temáticos. A experiência dos docentes universitários na ela-
boração de planos de estudo é essencial para viabilizar uma proposta de
titulação bem-sucedida.
A implementação de um plano de estudos que atenda aos requisitos
propostos pelo e-ARK é viável na universidade espanhola e pode resul-
tar em um título de pós-graduação amplo na Universidade de Salamanca,
onde já existe um Mestrado oficial em Sistemas de Informação Digital com
orientação GLAM.
Atualmente, está sendo elaborado um plano de estudos que pode
ser aprovado para pós-graduação na USAL como uma proposta experi-
mental. A elaboração dessa proposta exige reflexão, crítica, sensibilização,
esforço e um cronograma detalhado para especificar o perfil profissional,
as competências a serem adquiridas e os resultados esperados. Também é
necessário realizar uma análise dos recursos disponíveis e dos necessários
para a implementação, bem como uma programação detalhada e um
estudo de compatibilidade. Nessa linha, continuamos a trabalhar para
dar continuidade a essa experiência que nos permite avançar na forma-
ção profissional. Agradecemos ao E-ARK pelo convite para colaborar em
uma proposta tão notável.
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87
CAPÍTULO 2
P   
   
   C 
I
Yolanda MARTÍN-GONZÁLEZ
Críspulo TRAVIESO-RODRÍGUEZ
1. inTRODUçãO
Nesta era digital e datificada, o papel desempenhado pelos profis-
sionais da informação passou por um notável processo de transformação.
Com o avanço da tecnologia e dos dados, surgiram oportunidades sig-
nificativas, mas também uma série de desafios, levando ao aparecimento
de novos perfis profissionais, como o bibliotecário de dados, o gestor de
dados, o curador de dados, o analista de dados, entre outros.
Consequentemente, a formação oferecida nos cursos universitários
em Ciências da Informação deve se adaptar às tendências atuais para aten-
der às demandas do mercado de trabalho. Nos últimos anos, o discurso
evoluiu de “a informação é poder” para a ideia de que “quem tem os da-
dos tem o poder” (Atenas, 2024, p. 368, tradução nossa). Desse modo,
os profissionais da informação não devem apenas dominar as habilidades
tradicionais relacionadas à gestão da informação, mas também se adaptar
https://doi.org/10.36311/2025.978-65-5954-650-3.p87-113
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
88
às novas tecnologias, métodos de busca e interpretação de dados” (Villegas-
Muro, 2023, p. 98).
A alfabetização em dados, vinculada a outras alfabetizações, como
a informacional e a digital, proporciona a capacitação necessária para esta
sociedade regida pelas tecnologias da informação e comunicação, abran-
gendo o descobrimento, a coleta, a preparação, o uso, a reutilização, a
gestão e a preservação dos dados.
A alfabetização em dados é considerada uma linha de pesquisa ino-
vadora (Raffaghelli, 2020) que empodera o cidadão (D’Ignazio, 2017;
Robertson; Tisdall, 2020) e facilita sua inclusão na sociedade datificada
e tecnologicamente avançada, pois lhe fornece a instrução e as ferramen-
tas necessárias para resolver problemas do mundo real (Papamitsiou et al.,
2021), além de possibilitar a tomada de decisões fundamentadas em dados
(Kippers et al., 2018). Ao mesmo tempo, trata-se de um campo emergente
e de rápido crescimento, especialmente no contexto do ensino universitá-
rio (Pinto et al., 2023).
Essa capacitação está alinhada às diretrizes estabelecidas pela
Conferência de Reitores das Universidades Espanholas (CRUE) para
a implementação da Agenda 2030 e o cumprimento dos Objetivos de
Desenvolvimento Sustentável (CRUE, 2020). Em particular, contribui
para a integração do ODS 4 – Educação de qualidade, promovendo uma
educação inclusiva e competências transversais para a cidadania global.
Além disso, responde à Estratégia Europeia de Dados (Comisión Europea,
2020) da Comissão Europeia, que reconhece que a formação nesse campo
favorece a integração e o empoderamento da cidadania em uma sociedade
digital altamente interconectada por meio de dados e algoritmos. Desde
2016, a alfabetização em dados também está incluída no Quadro Europeu
de Competências Digitais – mais conhecido como DigComp –, sob a
denominação Information and Data Literacy (alfabetização em informa-
ção e dados). Esse quadro compreende as seguintes áreas de competência:
(1) Navegar, buscar e filtrar informações, dados e conteúdos digitais; (2)
Avaliar informações, dados e conteúdos digitais; (3) Gerenciar informa-
ções, dados e conteúdos digitais.
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
89
A formação em dados requer uma abordagem interdisciplinar (Kuhn;
Raffaghelli, 2021), além da capacidade de projetar atividades de aprendiza-
gem que incorporem a coleta e a análise de dados, bem como a disposição
para fornecer feedback e avaliar a compreensão dos estudantes nesse campo
(Martín González; Iglesias Rodríguez, 2021, 2023). Professores universi-
tários bem capacitados em alfabetização em dados dispõem de uma ampla
variedade de ferramentas e técnicas para integrar dados ao ensino e adaptar
suas abordagens pedagógicas às necessidades e habilidades de seus alunos
(Unión Europea, 2022).
O medo inicial dos estudantes em relação aos dados desaparece
quando eles os utilizam para resolver problemas reais da sociedade (Atenas,
2024). No entanto, para que isso ocorra, é necessário propor, em sala de
aula, tarefas e trabalhos que sejam respondidos por meio dos dados. Isso
permite, ao mesmo tempo, incorporar os princípios da ciência aberta no
contexto do ensino, uma vez que o uso e a gestão de dados são pilares fun-
damentais nesse novo caminho para a geração de conhecimento.
Consequentemente, os cursos acadêmicos em Ciências da Informação
devem introduzir, na formação dos estudantes, conhecimentos, habilida-
des e recursos que lhes permitam gerenciar, analisar, recuperar, utilizar e
reutilizar, de maneira adequada, o conteúdo presente na dataesfera.
Como os egressos em Ciências da Informação deverão desempenhar
um papel fundamental no incentivo ao conhecimento e ao uso dos dados,
caberá a eles elaborar propostas de capacitação que possibilitem aos seus
usuários a aquisição de competências e habilidades para o acesso, análise,
reutilização e disseminação de dados, dentro de iniciativas ligadas à alfabe-
tização informacional e em dados. Além disso, esses profissionais deverão
atuar ativamente no assessoramento e na formação para a gestão eficaz de
dados de pesquisa, colaborando com cientistas de diversas áreas disciplina-
res, conforme exige a ciência aberta. Essa cooperação entre bibliotecários e
pesquisadores enriquecerá o processo investigativo, ao mesmo tempo que
garantirá a integridade, qualidade, acessibilidade e preservação dos dados
(Villegas-Muro, 2023).
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
90
2. inTeGRAçãO DA ALfABeTiZAçãO eM DADOs nOs
PLAnOs De esTUDO eM CiênCiAs DA infORMAçãO
A necessidade de incorporar competências relacionadas à alfabetiza-
ção informacional não é uma questão nova nem uma preocupação recente.
De fato, elas estão presentes, de forma explícita ou implícita, nos programas
de formação universitária em Documentação na Espanha há pelo menos
duas décadas. Nos últimos anos, essas competências também começaram
a ser incluídas nos planos de estudo de outras disciplinas, independente-
mente da área do conhecimento a que pertençam. Em muitas ocasiões, as
disciplinas que abrangem essas competências assumem a forma de cursos
introdutórios sobre o uso básico dos recursos de informação disponíveis
nas próprias instituições ou de disciplinas essencialmente instrumentais,
nas quais são fornecidas diretrizes para o uso de fontes de informação com
o objetivo de realizar trabalhos acadêmicos, o que frequentemente as po-
siciona nos últimos anos dos cursos de graduação. De qualquer forma, a
presença desse tipo de disciplina nos planos de estudo universitários tem se
tornado cada vez mais comum e numerosa (Merlo Vega, 2023).
No contexto espanhol, destaca-se como um documento de referên-
cia significativo aquele elaborado pela Rede de Bibliotecas Universitárias
(REBIUN, 2016), que consiste em uma versão revisada de um documento
anterior que já abrangia todos os países da União Europeia e que foi men-
cionado anteriormente: DigComp: e Digital Competence Framework for
Citizens (Vuorikari; Kluzer; Punie, 2022).
Independentemente de sua possível consideração na formulação de
planos de estudo regulamentados, sua importância reside no fato de servir
como um referencial para o adequado desenho de ações formativas con-
duzidas por outro pilar da alfabetização informacional em contextos aca-
dêmicos: as bibliotecas universitárias. Seus instrumentos de ensino estão
em constante evolução (Pinto et al., 2021; Rath, 2022) e complementam
– quando não assumem diretamente – a formação mais especializada nesse
campo, de acordo com a identificação de necessidades e a disponibilidade
de recursos das instituições que atendem.
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
91
Nesse contexto, no entanto, a introdução explícita de aspectos espe-
cíficos sobre alfabetização em dados ainda é incipiente nos planos de estu-
do universitários. Essa realidade já foi destacada em relatórios, como o ela-
borado por Tramullas Saz (2021), que buscam identificar tanto essa lacuna
quanto outras tendências ou blocos temáticos que precisam ser incorpora-
dos. Os fatores que explicam essa situação não estão apenas relacionados ao
fato de se tratar de uma área formativa relativamente recente, mas também
podem estar ligados ao longo tempo necessário para reformar e atualizar os
planos de estudo no ensino superior. Diante dessa realidade, muitas opções
formativas acabam sendo oferecidas em outros formatos didáticos, como
webinars, workshops, cursos voltados para públicos específicos ou outros
instrumentos de curta duração e aplicação pontual ou periódica.
Neste ponto, para entender melhor o panorama atual, conside-
rou-se conveniente realizar uma revisão dos planos acadêmicos das uni-
versidades que atualmente oferecem cursos relacionados à Informação e
Documentação na Espanha. O objetivo era verificar se existiam disciplinas
específicas ou partes relevantes dos programas que abordassem a alfabe-
tização em dados e analisar se era possível identificar alguma tendência
nesse sentido. Na época da realização deste estudo, até onze universida-
des espanholas oferecem cursos de graduação na área de Informação e
Documentação. A denominação desses cursos começou sendo uniforme
com a chegada do sistema europeu baseado em ECTS, mas atualmente há
uma maior heterogeneidade. A seguir, é apresentada a relação completa de
títulos para esse nível de estudos:
U. Carlos III de Madrid: Graduação em Gestão da Informação
e Conteúdos Digitais;
U. Complutense de Madrid: Graduação em Informação e
Documentação;
U. de Extremadura: Graduação em Informação e Documentação;
U. de Granada: Graduação em Informação e Documentação;
Universidade de León: Graduação em Informação e
Documentação;
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
92
U. de Murcia: Graduação em Gestão da Informação e Conteúdos
Digitais;
U. de Salamanca: Graduação em Informação e Documentação;
Universidade de Zaragoza: Graduação em Informação e
Documentação;
U. da Coruña: Gestão Digital de Informação e Documentação;
U. de Barcelona: Graduação em Gestão da Informação e
Documentação Digital;
U. de Valencia: Graduação em Informação e Documentação.
Como pode ser verificado, a opção majoritária continua sendo
“Graduação em Informação e Documentação”, mas houve algumas varia-
ções que indicam uma tendência a incluir explicitamente a referência ao
digital. Foi possível constatar que, para o tema que estamos abordando,
essa questão terminológica teve, de fato, uma certa relevância. Em vez de
apresentar aqui um repertório de disciplinas dos programas formativos,
que provavelmente teria um valor limitado ao longo do tempo, optou-se
por analisar de forma detalhada os títulos das disciplinas, consultando di-
retamente os conteúdos dessas matérias nos casos em que eram passíveis de
incluir aspectos relacionados à alfabetização em dados.
No que diz respeito à nomenclatura tradicional, a única disciplina
que incluía o termo “dados” em seu nome foi Dados e informação para
a empresa, disciplina optativa do curso de Graduação em Informação e
Documentação da Universidade Complutense. Ao aprofundar-se no pro-
grama dessa disciplina, verificou-se que realmente havia um tópico dedi-
cado à gestão de dados nas organizações, mas sob uma perspectiva não
exatamente alinhada com a alfabetização em dados. Para os demais cursos
que mantinham a denominação Informação e Documentação, não foram
encontradas disciplinas que abordassem de forma explícita, a partir da pró-
pria lista de disciplinas, o âmbito que estamos tratando.
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
93
Devemos destacar, no entanto, que essa abordagem dos planos de
estudo não implica que os respectivos docentes não incluam eventualmen-
te conteúdos relacionados à alfabetização em dados em suas disciplinas,
especialmente naquelas que são mais adequadas para incorporar esse tema,
como aquelas relacionadas às fontes de informação especializadas, à difu-
são e consumo da informação, à transparência e acesso à informação, ou
ainda aquelas relacionadas à gestão e avaliação da informação científica,
para citar algumas. Não podemos perder de vista que na própria essência
da alfabetização em dados está muito presente sua transversalidade. No
entanto, não deixa de ser sintomático para sua visibilidade o fato de não
aparecer de forma clara nas denominações das disciplinas ou nos blocos
principais em que elas são divididas.
Como mencionado, do título relativamente recente, mas na época
unânime, de Informação e Documentação, nos últimos anos ocorreram
variações quanto à própria denominação dos cursos. E são precisamente
aquelas universidades que mudaram sua denominação que de forma mais
direta incorporaram em seus programas formativos disciplinas com uma
clara referência aos dados. Exemplos disso são as seguintes disciplinas, que
agrupamos por proximidade temática:
Visualização de dados / Processamento e visualização de dados;
Dados abertos;
Big Data / Tratamento de dados massivos / Dados abertos;
Ciência de dados;
Web de datos;
Transparência e dados abertos;
Proteção de dados e segurança da informação;
Mineração de dados.
Além disso, foram identificadas outras disciplinas em que também
se refletia esse novo campo, embora de uma perspectiva mais tangencial,
como Alfabetização digital, Repositórios e preservação digital, Business in-
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
94
telligence, Habilidades informacionais e digitais, Comportamento informa-
cional. Em definitiva, podemos concluir que as reformas nos cursos – com
sua consequente atualização ou adaptação de conteúdos – também trazem
uma maior sensibilidade ao incluir de forma explícita aspectos relaciona-
dos à alfabetização em dados. Se os gestores e responsáveis pela coorde-
nação e planejamento dos cursos de graduação permanecerem atentos às
novas competências e desafios dos profissionais da área, é fácil prever que
essa tendência se acentuará e se tornará mais presente no design e planeja-
mento dos futuros cursos oficiais.
Outra das possíveis vias para adquirir as competências vinculadas
à alfabetização em dados é a formação contínua e a formação de pós-gra-
duação. Nesse caso, o leque de opções é muito mais amplo e pode abran-
ger diversas áreas. Em um estudo global, atualmente em andamento, de-
senvolvido na Universidade de Salamanca, dentro do projeto de pesquisa
ALFADATAUniv, os resultados iniciais apontam para uma constante pro-
liferação de iniciativas didáticas. Limitando a busca à oferta na Espanha,
foram localizadas até 37 propostas relacionadas à alfabetização em dados,
que estavam distribuídas da seguinte forma:
26 poderiam ser classificadas como título de especialista ou di-
ploma de especialização;
8 propostas correspondiam a cursos ou seminários;
3 eram webinars.
As áreas temáticas abordadas foram diversas, mas os conteúdos
mais frequentes estavam estreitamente ligados aos conceitos de Big Data
e Ciência de Dados, em contraste com outros menos comuns, como os
planos de gestão de dados, a preservação ou a descrição desses dados — as-
pectos que poderiam ser considerados mais característicos da área de docu-
mentação. Pode-se inferir, portanto, que a oferta formativa fora dos cursos
de graduação oficiais tem sido dominada por campos de conhecimento
mais próximos da Estatística do que da Ciência da Informação. Por fim,
vale destacar que a duração mais comum das atividades programadas va-
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
95
riou entre 7 e 12 meses, reforçando a ideia de complementaridade como
formação de pós-graduação para egressos de diferentes áreas.
3. PeRfis e COMPeTênCiAs PROfissiOnAis LiGADAs A
DADOs
A introdução dos dados como uma oportunidade de trabalho para
os egressos em Ciência da Informação não deve ser considerada um ele-
mento totalmente novo, pois sua aparição na bibliografia especializada
remonta, para alguns autores, à década de 1960. No entanto, há um con-
senso generalizado de que essa nova esfera de atuação profissional tende a
concentrar, em um curto prazo, uma parte significativa das oportunidades
de desenvolvimento para documentalistas e bibliotecários. Há alguns anos,
foi cunhado o termo “bibliotecário de dados” (data librarian) para se refe-
rir especificamente a esse perfil profissional.
Na prática, mais do que tentar identificar a origem desse tipo de
bibliotecário, costuma-se apontar quando essa demanda profissional foi
detectada nas unidades de informação. Embora atualmente a ideia mais
difundida seja a de que esse perfil surgiu genuinamente no contexto das
bibliotecas acadêmicas ou universitárias, algumas perspectivas também
destacam uma analogia importante com a tradição arquivística, maior até
do que com a biblioteconômica. Para sustentar essa afirmação, argumen-
ta-se que a gestão de todo o ciclo de produção dos dados, desde sua cria-
ção até sua disseminação, se assemelha ao trabalho dos arquivistas, que
se baseia na análise do ciclo de vida dos documentos desde sua origem
(Ashiq; Warraich, 2024). Outros autores veem esse perfil como herdeiro
das funções desempenhadas pelos bibliotecários médicos ou bibliotecários
da área da saúde (Luo; Tang, 2024). De qualquer modo, é inegável que
seu desenvolvimento foi impulsionado pela implementação de métodos
relacionados à ciência aberta e às novas formas de colaboração científica,
sendo as bibliotecas de instituições de ensino superior e de organismos de
pesquisa os principais promotores desse movimento.
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
96
A reutilização da informação na forma de dados de pesquisa vive
atualmente seu momento de maior impacto devido à expansão dessas no-
vas práticas colaborativas. E uma gestão adequada desses dados é a única
via plausível para alcançar o objetivo central da ciência aberta: reutilizar os
dados obtidos para a descoberta de novos conhecimentos. Desde as pri-
meiras fases do ciclo de vida dos dados de pesquisa (criação e depósito)
até a etapa de preservação e criação de catálogos e repositórios, os biblio-
tecários de dados e os administradores ou gestores especialistas em dados
(data steward) desempenham um papel fundamental no sistema. Um dos
aspectos que mudou foi a concepção desses profissionais, que já não são
vistos como auxiliares externos ao processo de pesquisa, mas como partici-
pantes ativos que orientam os próprios pesquisadores. De certo modo, essa
nova representação do profissional configura uma evolução da figura do
bibliotecário embutido ou integrado (embedded librarian) (Torres-Salinas,
2011), que surgiu na década anterior.
Na verdade, um dos aspectos-chave para caracterizar as funções dos
bibliotecários de dados é justamente a natureza diversa e a definição dos
próprios dados, que variam conforme as disciplinas e os campos do co-
nhecimento. Isso implica a necessidade, como alguns autores destacaram
(Palmer; Cragin, 2022), de que a formação em métodos e técnicas de pes-
quisa seja essencial para esses profissionais. Já não se considera aceitável
que o bibliotecário desconheça os meios de obtenção dos dados de pesqui-
sa e permaneça como um elemento periférico no processo, alheio a ele. A
tendência é que o próprio bibliotecário se especialize também de acordo
com a forma como os dados são gerados em um determinado campo do
conhecimento.
Vem se consolidando a ideia de que a curadoria e a gestão de dados
na área da Informação e Documentação deveriam expandir seu escopo,
visando uma compreensão mais consistente das dinâmicas de interdiscipli-
naridade no próprio processo científico. Em suma, trata-se de incentivar a
formação em metodologia da pesquisa como o caminho mais eficaz para
compreender as reais necessidades dos usuários de dados, suas exigências
em relação à preservação, descrição, uso e reutilização. Em outras palavras,
significa fortalecer a habilidade habitual dos bibliotecários e documentalis-
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
97
tas de antecipar as necessidades daqueles a quem atendem, proporcionando
um serviço mais eficiente e personalizado para pesquisadores e cidadãos.
Segundo Semeler e Pinto (2020), para ter uma visão integradora
das funções do bibliotecário de dados, é útil representar seus campos de
atuação em três esferas principais: a ciência da informação, a e-science e
a ciência de dados. Cada uma delas fornece um contexto que explica a
finalidade desse perfil profissional. No que diz respeito à primeira delas, é
inegável que as bases teóricas e metodológicas do bibliotecário de dados se
sustentam na Documentação, que, como é sabido, não se limita apenas à
descrição e recuperação posterior dos documentos, mas também à natureza
da própria informação que eles contêm e ao uso que as pessoas fazem dela,
sempre levando em consideração cada contexto. O caráter interdisciplinar
da Ciência da Informação fica aqui bem evidente e constitui um paradig-
ma a partir do qual as demais competências podem ser construídas.
Um segundo campo é o relacionado com a e-science, hoje mais re-
conhecível após a evolução para o termo ciência aberta, que implica uma
nova forma de obter e compartilhar conhecimento científico utilizando
tecnologias e recursos digitais que envolvem todo o processo. Quanto à
terceira esfera, a ciência de dados, que envolve a extração de dados – nos
contextos mais diversos – e a conversão desses dados em conhecimento
por meio de técnicas de representação, análise e visualização, é, em certa
medida, uma disciplina paralela à documentação, mas combinada com a
estatística e a informática.
A questão que nos ocupa, além da definição desses novos papéis,
é a configuração do conjunto de competências que um bibliotecário de
dados deve ser capaz de reunir. Nesse sentido, uma das propostas que mais
repercussão teve na bibliografia especializada foi a de Kennan (2016), que
distinguia quatro blocos de competências específicas:
a) Habilidades interpessoais e comunicativas – Incluem tanto a
capacidade de elaborar relatórios escritos, apresentar resultados e
estudos de caso, quanto a adaptação e flexibilidade em ambientes
multidisciplinares;
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
98
b) Domínio do ecossistema da pesquisa – Abrange tanto as caracte-
rísticas (já mencionadas) do processo de geração do conhecimento
científico quanto outros aspectos correlatos, como a publicação de
resultados, marcos legais e normativas sobre propriedade intelectual
e questões éticas, além das possibilidades de financiamento e o co-
nhecimento da estrutura científica do seu ambiente.
c) Conhecimento específico sobre gestão e preservação de dados, in-
dependentemente de sua natureza.
d) Domínio avançado de tecnologias da informação.
Esse esquema de competências também seria aplicável ao data
steward, embora essa função enfatize ainda mais a administração e gestão
de grandes conjuntos de dados, destacando a necessidade de habilidades
relacionadas à informática e até mesmo conhecimentos de programação
(Oladipo et al., 2022). No fim das contas, um bibliotecário de dados deve
ser capaz de converter dados em informação interpretável, reutilizável e
compartilhável, sem esquecer sua preservação para o futuro. Portanto, ele
deve ter conhecimento preciso sobre esquemas de metadados e suas opções
de interoperabilidade, o funcionamento dos repositórios institucionais de
dados e as políticas de cada organização, além de noções sobre alfabetiza-
ção em dados, para comunicar seu trabalho e função à equipe de pesquisa-
dores a quem atende.
De qualquer modo, apesar dos esforços para estabelecer as carac-
terísticas que definem o bibliotecário ou gestor de dados e o contexto de
sua atuação, ainda é preciso admitir que seu desenvolvimento real nas
organizações não se consolidou na prática. As razões para essa demora
estão ligadas a dois aspectos. Primeiro, não há um plano de formação
adaptado e amplamente disseminado no ensino superior, como mencio-
nado anteriormente, o que dificulta a descrição de suas funções e favore-
ce certa improvisação. Em segundo lugar, e talvez mais importante, ainda
não há um apoio institucional consistente por parte dos órgãos gestores
e suas lideranças. Com esse respaldo e o reconhecimento da importância
desse profissional, sua visibilidade aumentaria significativamente, o que
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
99
contribuiria para o aprimoramento das formas de aquisição dessas com-
petências e para uma melhor percepção de seu papel no meio acadêmico
e profissional.
Em outras palavras, a calorosa recepção que as políticas de acesso
aberto e os postulados da ciência aberta recebem ainda não se traduz di-
retamente – pelo menos não de forma tão clara quanto no mundo anglo-
-saxão – em iniciativas de formação do pessoal encarregado de gerenciar
os dados (Luo; Tang, 2024). Além da inclusão dessas competências nos
planos de estudo existentes ou da criação ad hoc de programas de formação
específicos para suprir essa lacuna, seja por meio de cursos de pós-gradua-
ção ou títulos de curta duração, outros autores, como Du e Lund (2023),
enfatizam que a melhor opção para formar bibliotecários de dados é mul-
tiplicar a oferta de estágios práticos em centros e organizações que geram
e gerenciam dados.
Por fim, não devemos esquecer dois cenários complementares ao
âmbito científico que também exigem a incorporação de especialistas em
dados e que reconhecem plenamente a importância dessa necessidade.
O primeiro refere-se a organismos e instituições públicas que gerenciam
dados abertos, nos quais as bibliotecas públicas desempenham um pa-
pel fundamental para a cidadania (Martín González; Travieso Rodríguez,
2019). A International Federation of Library Associations and Institutions
(IFLA, 2020) já ressaltava ao Alto Comissariado das Nações Unidas para
os Direitos Humanos que o papel das bibliotecas em todo o espectro en-
globado pelo conceito de governo aberto é essencial para o cumprimento
de seus objetivos. O segundo cenário que, quase urgentemente, demanda
profissionais com as competências atribuídas ao bibliotecário de dados é
o jornalismo e os meios de comunicação em geral (Feria Basurto, 2020).
Com a enorme quantidade de dados disponíveis e o perigo já evidente da
desinformação, torna-se uma necessidade crítica a atuação de documenta-
listas que possam fornecer a alfabetização em dados necessária para dife-
renciar informações confiáveis daquelas que não são.
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
100
4. CenÁRiOs De APRenDiZAGeM PARA
ALfABeTiZAçãO eM DADOs
Tendo em vista a necessária instrução que os profissionais biblio-
tecários de dados ou gestores de dados requerem atualmente, considera-
mos que a formação em dados, no ambiente universitário das ciências da
informação, pode ocorrer em diferentes contextos: (1) no contexto das
graduações oficiais em Informação e Documentação, seja no âmbito de
uma disciplina específica, seja como um curso introdutório que proporcio-
ne uma instrução transversal; (2) integrada ao programa de alfabetização
informacional oferecido pela respectiva unidade de informação ou serviço
bibliotecário.
No desenho dessas atividades, é essencial considerar as competências,
habilidades e destrezas descritas anteriormente, que os estudantes devem
adquirir; os conteúdos de aprendizagem; os recursos e materiais necessários
para a capacitação; e os critérios e instrumentos de avaliação. Em todos os
casos, o objetivo final será capacitá-los para a busca, uso, gestão, visualiza-
ção, disseminação e reutilização de dados, permitindo que, tanto em sua
vida acadêmica e/ou profissional quanto na pessoal, se sintam cidadãos
empoderados e incluídos em uma sociedade datificada e digital, capazes de
tomar decisões fundamentadas em dados (data-driven decisions).
No que diz respeito à capacitação em dados, Martín e Iglesias publi-
caram, em 2021, uma proposta de curso introdutório para o contexto uni-
versitário, na qual destacavam que a formação oferecida deveria abranger
uma série de questões fundamentais, tais como: a conceituação da alfabeti-
zação em dados, incluindo a definição do próprio dado; as competências e
habilidades envolvidas nesse processo; os conteúdos de aprendizagem, que
abrangeriam os principais princípios sobre uso, gestão e disseminação de
dados; além do incentivo a práticas acadêmicas baseadas em dados.
Nas próximas linhas, propõe-se um cenário formativo para a alfabe-
tização em dados no contexto específico das ciências da informação, descre-
vendo os principais elementos que deveriam ser considerados nesse modelo.
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
101
4.1 MARCO De COMPeTênCiAs
Como já mencionamos, a alfabetização em dados é um setor emer-
gente dentro da alfabetização informacional, que, por sua vez, está vin-
culada à alfabetização digital. Tanto é assim que, no Quadro Europeu de
Competências Digitais – mais conhecido como DigComp, publicado em
2013 pela Comissão Europeia, a alfabetização em dados foi incluída pela
primeira vez em sua versão de 2016, sob o título Information and data lite-
racy (alfabetização em informação e em dados). Essa área de competência
(Quadro 1) compreende, por sua vez, os seguintes aspectos (Vuorikari;
Kluzer; Punie, 2022):
Quadro 1 - Marco Europeu de Competências Digitais (DigComp)
Marco Europeu de Competências Digitais (DigComp)
Versão 1.0 (2013)Versão 2.0 (2016) e Versão 2.1 (2017)
Alfabetização em Informação Alfabetização em Informação
1.1 Navegar, buscar e filtrar informações 1.1 Navegar, buscar e filtrar informações
1.2 Avaliar informações 1.2 Avaliar informações
1.3 Gestão da informação 1.3 Gestão da informação
Fonte: Elaboração própria (2024).
O domínio dessa competência – Alfabetização em Informação e em
Dados – contribui significativamente para a aquisição, desenvolvimento e
aplicação de outras competências transversais (Martín González; Iglesias
Rodríguez, 2021), como o pensamento crítico e analítico, que permitirá
ao estudante identificar os diferentes tipos de relações existentes entre os
dados, agrupá-los para interpretar as informações, apresentá-las de forma
clara e organizada, elaborar um diagnóstico, tomar decisões ou oferecer
soluções para os problemas apresentados ou para os estudos realizados.
Além disso, coloca-se em prática o pensamento sistêmico, que possibilita
à pessoa interessar-se pela totalidade dos processos, enfrentando e com-
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
102
preendendo a realidade tanto a partir de uma dimensão produtiva (por
exemplo, construindo e comunicando os resultados por meio de um re-
sumo, um projeto, um design, uma teoria etc.) quanto de uma dimensão
receptiva, voltada para a compreensão da realidade ou da experiência. Da
mesma maneira, a competência em alfabetização em dados está relaciona-
da à alfabetização digital, uma vez que envolve a gestão da informação e
da comunicação apoiada em tecnologias acessadas por meio de dispositi-
vos móveis. Esses dispositivos oferecem múltiplas e variadas ferramentas e
ambientes de trabalho e aprendizagem, como a gestão de bases de dados e
arquivos, aplicativos, análises matemáticas, entre outras funcionalidades.
O domínio dessas ferramentas permitirá ao estudante atuar com segurança
e desenvoltura em diferentes situações e contextos, tanto acadêmicos quan-
to profissionais.
4.2 OBJeTiVOs
A formação em dados deve ter como objetivo principal a aquisição
e o desenvolvimento de habilidades na coleta, uso, representação, gestão,
difusão e preservação dos dados, especialmente dos dados abertos e dos
dados de pesquisa, de modo que sirvam como recursos para a geração de
conhecimento.
Este objetivo geral compreende, por sua vez, a realização dos seguin-
tes objetivos específicos:
Aprofundar na conceitualização da alfabetização em dados no
contexto da alfabetização informacional e digital;
Compreender a natureza dos dados, os contextos em que são
gerados e as características que lhes são próprias;
Conhecer as principais técnicas e ferramentas para a criação, des-
crição e curadoria de dados que assegurem sua qualidade;
Instruir-se na resolução de necessidades de informação por meio
do uso de dados abertos, de pesquisa, estatísticos, etc.
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
103
Praticar o manuseio das principais fontes que permitem a difusão,
recuperação e preservação de dados abertos e de dados de pesquisa;
Conocer los principales postulados y marcos normativos para el
uso ético y legal de los datos. Conhecer os principais pressupos-
tos e marcos normativos para o uso ético e legal dos dados;
Aprender como elaborar um plano de gestão de dados.
A inclusão deste último objetivo encontra sua justificativa na exigên-
cia, no contexto da ciência aberta, das agências financiadoras de pesquisa
de incluir, na proposta de projeto, um plano de gestão de dados, o que
torna o aconselhamento e a formação nesta área uma demanda cada vez
mais frequente por parte dos pesquisadores aos bibliotecários.
4.3 COnTeÚDOs De APRenDiZAGeM
Os conteúdos que serão trabalhados na disciplina ou no curso rela-
cionado à alfabetização em dados devem responder a todas as perguntas
que podem ser feitas sobre os dados, como: O que chamamos de dado?
Quais são os tipos de dados existentes? Como podem ser recuperados?
Estão acessíveis livre e gratuitamente? Em quais formatos são distribuídos?
Quais são as licenças de uso? São reutilizáveis? Quais requisitos os dados
devem atender para serem confiáveis e de qualidade? Onde posso depositar
os dados?, etc.
Além disso, deve ser fornecido treinamento no conhecimento e ma-
nuseio de diversas ferramentas, como:
Ferramentas para a localização de dados: repositórios de dados,
portais de dados abertos, fontes estatísticas, bases de dados, etc.;
Ferramentas para o processamento de dados: Planilhas do
Google, Open Office, Excel – com licença, etc.;
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
104
Ferramentas para a visualização de dados: programas Python, R
e Tableau, entre outros;
Ferramentas para a elaboração de planos de gestão de dados:
DM- POnline, DMP Tool, DSW Wizard, etc.
Assim, um programa de formação completo na área de dados deveria
contemplar, pelo menos, os seguintes conteúdos de aprendizagem:
1. A alfabetização em dados: marco conceitual, competencial e
programático;
2. Dados abertos e reutilização de informação no setor público;
3. Dados abertos de pesquisa;
4. O ciclo de vida dos dados;
5. Aspectos legais e éticos dos dados;
6. Análise e visualização de dados;
7. A citação de dados;
8. O plano de gestão de dados.
4.4 MeTODOLOGiA DOCenTe
Recomenda-se que a metodologia aplicada para a formação em da-
dos se baseie tanto no aprendizado orientado por dados (Data-driven le-
arning ou DDL) quanto no aprendizado baseado em evidências, onde o
estudante, a partir de dados reais:
[…] terá que colocar em prática estratégias indutivas (processos
de descoberta, observação e abstração), dedutivas (contratação,
demonstração e verificação), analíticas (descoberta das causas
e razões), sistêmicas (descoberta das interconexões e relações
de ordem), críticas (faz perguntas e busca razões, pressupostos,
condições, etc.), deliberativas (analisa critérios para tomar decisões)
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
105
e práticas (trabalha com informações prévias, dados, documentos,
fatos, permitindo-lhe resolver problemas e questões) para construir
seu próprio conhecimento de forma significativa (Martín González;
Iglesias Rodríguez, 2021, p. 326, tradução nossa).
Para alcançar esse objetivo, em primeiro lugar, serão ensinados os
fundamentos da alfabetização em dados, bem como os diferentes modelos
existentes; em segundo lugar, será dado ensino sobre os dados abertos e
suas possíveis formas de reutilização tanto no setor público quanto no con-
texto da pesquisa, de modo que os alunos aprendam a identificá-los e recu-
perá-los utilizando fontes oficiais e especializadas; em terceiro lugar, serão
abordadas todas as fases que compõem o ciclo de vida dos dados e que o
profissional da informação e documentação deve gerenciar, como a descri-
ção e documentação dos dados, seu armazenamento, difusão, curadoria e
preservação; em quarto lugar, através do uso de ferramentas como Excel
ou Tableau, entre outras, será ensinada a análise e visualização de dados;
em quinto lugar, serão discutidos os requisitos legais e éticos relacionados
à proteção e à privacidade dos dados. Por fim, por meio da elaboração de
um plano de gestão de dados, serão conhecidos os aspectos que esse plano
deve contemplar, bem como os recursos e modelos disponíveis para tal fim.
Em todos esses casos, a metodologia de ensino variará de acordo com
o objetivo a ser alcançado e os conteúdos de aprendizagem que devem ser
trabalhados em sala de aula. Assim, o aprendizado sobre os fundamentos
da alfabetização em dados ou os aspectos éticos e legais relacionados ao uso
de dados será baseado em sessões mais expositivas, enquanto a aquisição de
competências e habilidades relacionadas à análise e visualização, recupera-
ção de dados, bem como ao plano de gestão de dados, que serão adquiridas
por meio do uso de recursos e ferramentas específicas, se fundamentará em
uma metodologia mais prática.
4.5 TARefAs, ATiViDADes e ReCURsOs
As sessões expositivas, nas quais serão apresentadas as principais no-
ções conceituais e programáticas de cada um dos blocos temáticos, serão
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
106
acompanhadas de sessões práticas em que o estudante poderá adquirir, de
forma empírica, os conhecimentos relativos à gestão, visualização, curado-
ria ou difusão de dados, entre outros.
Nas linhas seguintes, propomos cinco tarefas vinculadas aos objeti-
vos e conteúdos de aprendizagem, baseadas em nossa própria experiência
como formadores em dados em disciplinas de graduação e pós-gradua-
ção na área de Informação e Documentação, mas também em diferentes
seminários e cursos ministrados sobre o tema e voltados à formação de
professores.
A primeira tarefa proposta visa o conhecimento e uso de dados aber-
tos tanto no setor público quanto na pesquisa, e mais especificamente, das
fontes e recursos que permitam sua localização e recuperação. Para isso,
seria proposta uma atividade prática, na forma de questionário, baseada
na metodologia de resolução de problemas que envolvem necessidades de
informação - hipotéticas ou reais - que devem ser resolvidas por meio da
busca e recuperação de dados disponíveis por meio da consulta de diferen-
tes fontes de dados.
Outra opção possível para trabalhar o tema do acesso aos dados seria
propor aos estudantes uma tarefa de pesquisa sobre um tema relacionado à
disciplina. Para isso, eles seriam incentivados a localizar e recuperar dados
confiáveis relativos ao tema de estudo, verificando previamente quais são
as agências e instituições envolvidas na produção de informação e dados
nesse campo. Uma vez identificadas essas fontes, os estudantes teriam que
analisar que dados elas geram, se estão disponíveis ou não, em que forma-
tos estão disponíveis ou se é possível acessá-los. Essa informação pode ser
localizada utilizando diversos tipos de recursos, como: (1) portais de dados
abertos, por exemplo, de caráter governamental, como o portal nacional
de dados abertos do seu país ou os portais de dados abertos de outras
administrações territoriais, mas também catálogos de dados de institui-
ções culturais, como o fornecido pela Biblioteca Nacional; (2) repositórios
generalistas de ciência aberta que facilitam o acesso a dados de pesquisa,
como Figshare, Data Search ou Zenodo, entre outros; (3) bases de dados
especializadas, como as fornecidas pelos organismos competentes em ma-
téria estatística (no caso da Espanha, por exemplo, o Instituto Nacional de
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
107
Estatística e o EUROSTAT na União Europeia). O uso e manuseio desses
recursos permitirá aos estudantes conhecer e avaliar os principais serviços e
funcionalidades oferecidos por essas ferramentas no processo de consulta e
recuperação de dados que cada uma delas disponibiliza.
A realização dessas tarefas favorecerá a aquisição da competência
em informação, bem como a compreensão do valor estratégico dos dados
como matéria-prima para a resolução de necessidades de informação que,
embora inicialmente acadêmicas, mais tarde poderão ser aplicadas em seus
respectivos ambientes profissionais.
Essas duas tarefas descritas poderiam ser propostas em disciplinas
relacionadas à alfabetização em informação ou às fontes de informação.
Uma vez que os estudantes tenham coletado ou, se for o caso, gera-
do dados suficientes sobre a questão proposta, poderão realizar diferentes
tarefas com esses dados: por um lado, documentá-los e curá-los para ga-
rantir sua qualidade; por outro lado, analisá-los e apresentá-los em forma
de tabelas, gráficos ou infográficos utilizando as ferramentas vistas durante
o curso.
Uma segunda tarefa seria aquela que permitiria aos estudantes com-
preender como os dados são gerados e, com base nisso, criar seus próprios
dados. Esta tarefa poderia ser proposta em disciplinas ligadas ao conheci-
mento das metodologias de pesquisa, elaboração de trabalhos acadêmicos,
análise de dados, representação de dados, entre outras, nas quais seria ex-
plicado previamente como elaborar uma pesquisa, bem como as ferramen-
tas existentes para isso, como o Google Forms. O objetivo é que o futuro
graduado compreenda o que é uma pesquisa, como é projetada, como é
realizada, como uma amostra é composta, mas, acima de tudo, que tipo de
informações podem ser extraídas dela, como os dados obtidos podem ser
analisados e interpretados, e suas possíveis formas de visualização e difusão.
Uma terceira tarefa que fomentaria o desenvolvimento do pensamen-
to crítico do estudante e a detecção de notícias falsas e desinformação por
meio do uso de dados consistiria em fornecer uma notícia publicada por
algum meio de comunicação ou criada por algum software de Inteligência
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
108
Artificial, como o ChatGPT, com o objetivo de verificar, por meio do uso
de fontes confiáveis, se os dados apresentados são reais e de qualidade.
Esse tipo de atividade poderia ser incorporado ao currículo de disci-
plinas relacionadas ao estudo dos aspectos deontológicos e éticos da infor-
mação e documentação.
Uma quarta tarefa compreenderia a elaboração de um plano de ges-
tão de dados e poderia ser integrada em disciplinas que ensinam sobre a
gestão de informações, dados de pesquisa e/ou ciência aberta. Para isso, o
estudante deverá elaborar, utilizando alguma das ferramentas ou modelos
disponíveis para essa finalidade, o plano de gestão de dados de uma pesquisa
que pode ser real ou fictícia, como, por exemplo, o Trabalho de Conclusão
de Curso ou, se for o caso, o Trabalho de Conclusão de Mestrado.
Com a quinta tarefa, pretende-se fomentar a reutilização tanto dos
dados de pesquisa quanto dos dados disponibilizados pelas administrações
públicas. Neste caso, será solicitado que o estudante identifique uma série
de conjuntos de dados relacionados a um tema específico e proponha pos-
síveis produtos, serviços ou aplicativos que podem ser gerados por meio
de sua reutilização, para o que também deverão estar devidamente citados.
Além disso, pode-se consultar o catálogo de produtos originados pela reu-
tilização de dados abertos e explorar qual é o conjunto de dados original,
quem gerou esses dados, quando foram publicados no portal, quais licen-
ças foram utilizadas para compartilhá-los, quais distribuições estão sob,
qual foi a data de criação, se estão atualizados, etc.
Essa tarefa se integraria em disciplinas relacionadas ao uso, consumo
e reutilização de dados, mas também em disciplinas sobre ciência aberta,
big data, open data, etc.
A tabela a seguir resume as atividades propostas, as disciplinas nas
quais cada uma delas poderia ser integrada e o instrumento de avaliação
que permitirá verificar se o estudante adquiriu a competência em alfabeti-
zação em dados correspondente a cada caso.
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
109
Essa tarefa se integraria em disciplinas relacionadas ao uso, consumo
e reutilização de dados, mas também em disciplinas sobre ciência aberta,
big data, open data, etc.
O quadro a seguir resume as atividades propostas, as disciplinas nas
quais cada uma delas poderia ser integrada e o instrumento de avaliação
que permitirá verificar se o estudante adquiriu a competência em alfabeti-
zação em dados correspondente a cada caso.
Quadro 2 - Tarefas propostas, objetivo almejado e disciplinas nas quais se
integram
Tarefa Objetivo da tarefa Disciplinas nas quais
pode ser integrado Instrumento de avaliação
1 Uso de dados abertos. Alfabetização em
informação e Fontes de
informação.
Exercícios para a resolução
de necessidades de
informação hipotéticas ou
reais.
2Criação, análise e
visualização de dados.
Metodologias de pesquisa,
Elaboração de trabalhos
académicos,
Análise de dados e
Representação gráfica de
dados.
Elaboração de um
documento em Excel ou
uma infografía.
3Uso de dados para
identificar fake news e
desinfor- mação.
Aspectos deontológicos e
éticos da informação.
Redação de um relatório
onde se analisem os erros,
falsidades ou lacunas
presentes nas informa-
ções geradas pela IA.
4Elaboração de um plano
de gestão de dados.
Gestão de informação
Ciência aberta Dados de
pesquisa.
Desenho de um plano de
gestão de dados.
5Reutilização e citação de
dados.
Uso e consumo de dados
Ciência Aberta
Big Data
Open Data.
Proposta de aplicativos,
serviços ou produtos
gerados com base na
reutilização de dados.
Fonte: Elaboração própria (2024).
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
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114
115
CAPÍTULO 3
D P D
 B: F 
R D
Danielle Alves BATISTA
Victoria L. LEMIEUX
1. inTRODUçãO
A tecnologia melhorou processos e fluxos de trabalho e tornou as
sociedades burocráticas mais eficientes com a possibilidade de reutilizar
e transformar informações. Por outro lado, essa evolução trouxe desafios
para as sociedades em geral, especialmente para os regimes democráticos,
onde a liberdade de expressão e o acesso à informação fazem parte da es-
trutura legal básica. Os documentos públicos como informações governa-
mentais também fazem parte do processo de reutilização e transformação.
Segundo Lemieux (2022, p. 10, tradução nossa),
[...] enquanto a capacidade de manipular documentos
transformando-os em novas formas de dados levou a grandes
inovações e avanços científicos, também minou a base de prova
social sobre eventos e ações passadas e, ao fazê-lo, contribuiu para
https://doi.org/10.36311/2025.978-65-5954-650-3.p115-137
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
116
o surgimento de uma era de desinformação [...]. Blockchain, um
tipo único de livro-razão, promete restaurar a base de evidências
da sociedade.
A crise da democracia e a polarização que vemos agora não são no-
vidades. A crise começou no início dos anos 2000 (Studebaker, 2023) e
foi agravada pela crise financeira de 2008. O rápido surgimento das mí-
dias sociais e a comercialização de dados pessoais por grandes empresas de
tecnologia para manipular a opinião pública e os processos democráticos
também contribuíram para a crise da democracia e a falta de confiança nas
instituições governamentais (Vale, 2024). Nesta nova realidade, os docu-
mentos arquivísticos são vitais para servir como evidência da atividade go-
vernamental e a transparência pública é fundamental para que as institui-
ções públicas possam recuperar a confiança do contribuinte. Este capítulo
discute a relevância dos documentos de arquivo para a confiança pública e
o fortalecimento da democracia e como blockchain pode contribuir para
esse processo de fortalecimento.
2. COnfiAnçA PÚBLiCA, BLOCKCHAin e
fORTALeCiMenTO DA DeMOCRACiA
O ano de 2012 marcou um declínio severo na confiança no gover-
no. O relatório do Barômetro de Confiança Edelman de 2012 mostra os
governos como as instituições menos confiáveis – principalmente devido à
crise financeira de 2008 – pela primeira vez desde a primeira edição do re-
latório em 2000. O cenário não mudou, e a confiança nos governos dimi-
nuiu de maneira global desde então. A confiança decrescente nos governos
é um fator crucial na crise da democracia. Como enfatiza Merkel (2018,
p. 6, tradução nossa), “se [o governo] não for capaz de resolver problemas-
-chave e não entregar o que os cidadãos esperam, a legitimidade de sua en-
tregas diminuirá e a estabilidade do sistema estará em risco”. Por exemplo,
no contexto brasileiro, um estudo do Banco Mundial baseado em dados
do Twitter (atualmente X) revelou que os gastos de Dilma Rousseff com
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
117
a Copa do Mundo atiçaram o senso de ‘disparidade relativa’ das pessoas
(Lemieux, 2015).
No Brasil, a mudança significativa começou com os protestos nacio-
nais de junho de 2013 contra o aumento das tarifas de transporte público
e rapidamente evoluiu para um “movimento reacionário contra a corrup-
ção e contra a política como tal” (Duarte, 2023, p. 68, tradução nossa).
Combater a corrupção e a falta de confiança no governo logo se tornou a
justificativa para várias manobras políticas para tirar o poder do Partido
dos Trabalhadores, o que resultou na vitória do candidato presidencial de
extrema-direita, Jair Bolsonaro. O movimento iniciado em 2013 permitiu
que influenciadores digitais espalhassem notícias falsas, conhecidas popu-
larmente como fake news, uma estratégia extremamente útil para partidos
de extrema-direita tomarem o poder em todo o país (Vale, 2024).
Vale (2024) afirma que a transição do Brasil para se tornar uma de-
mocracia digital começou imediatamente após os protestos de 2013, em
2014, com mais da metade da população tendo acesso à rede mundial de
computadores. De fato, segundo o autor,
[...] o maior acesso à tecnologia de informação digital significou
que os usuários da internet no Brasil ficaram mais expostos à
desinformação. Nesse contexto de polarização e antipartidarismo,
a mídia digital ajudou a produzir mudanças críticas na dinâmica
política, levando o Brasil a uma crise democrática (Vale, 2024, p.
83, tradução nossa).
Segundo Lemieux (2022, p. 47, tradução nossa),
Se o governo ou as autoridades públicas não forem vistos como
confiáveis (por exemplo, quando se percebe que os funcionários
públicos não seguem as regras ou que os mesmos instituem
políticas que, embora aparentemente visem proteger o interesse
público, na realidade só aumentam os poderes do governo), a base
para a confiança, especialmente a confiança nos governos para
cumprir fielmente suas missões, diminui. Em tais casos, os cidadãos
podem protestar contra as regras institucionais que os governos ou
autoridades públicas estabelecem ou aplicam [...], ou podem até
rejeitar as regras institucionais do governo completamente [...], o
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
118
que pode levar à formação de movimentos políticos subversivos.
Em outros momentos, os governos podem atuar como intermediários
de confiança para fornecer garantias de confiabilidade nas interações
entre indivíduos. Um exemplo disso é quando os governos emitem
licenças para restaurantes para sinalizar que um são locais seguros
para comer. Se a agência governamental emissora for vista como
não confiável, então os cidadãos também não confiarão que o
restaurante é realmente seguro.
Assim, os governos e as autoridades públicas desempenham funções
importantes em relação aos relacionamentos de confiança dentro
da sociedade, e o grau de confiabilidade percebida dos governos
importa, seja essa percepção em relação ao governo como um todo,
em relação a instituições específicas, braços do governo ou ainda,
em relação ao agente público de forma individuais.
A confiança pública está relacionada, entre outras coisas, à accoun-
tability, transparência e acesso a informações confiáveis. Blockchain é uma
tecnologia emergente com características que podem auxiliar no aumento
da confiança nos governos e instituições públicas, fornecendo aos cida-
dãos um ambiente confiável para armazenar dados imutáveis e divulgar
informações públicas fidedignas sobre governança, execução orçamentária
e atos administrativos.
Blockchain é uma tecnologia lançada em 2008 pelo pseudônimo
Satoshi Nakamoto como base para a criptomoeda Bitcoin (Nakamoto,
2008). Inicialmente, a tecnologia focava principalmente em resolver o
problema do gasto duplo com moedas digitais através de sua estrutura
descentralizada para validar transações de forma segura usando uma rede
peer-to-peer (P2P). A tecnologia evoluiu para incorporar processos amplos
e criação de documentos apenas com o surgimento dos contratos inte-
ligentes (smart contracts em inglês), habilitados pela segunda geração de
blockchains, como o Ethereum, criado em 2014. A tecnologia agora pode
criar e executar contratos inteligentes (Buterin, 2018), fornecer uma plata-
forma para aplicativos descentralizados (DApps) e organizações autônomas
descentralizadas (Descentralized Autonomous Organizations – DAOs em in-
glês), e produzir credenciais verificáveis (Sporny et al., 2024) para fins além
das transações de criptomoedas.
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
119
De acordo com Quiniou (2019), a blockchain é atualmente um
ecossistema de soluções de registro de transações e operações baseado em
dois eixos principais: descentralização e desintermediação. Quiniou aponta
que
[...] o surgimento do blockchain como tecnologia está mudando
significativamente o equilíbrio econômico de poder e a posição
central atualmente ocupada por intermediários (financeiros,
jurídicos, institucionais, editoriais, etc) (Quiniou, 2019, p. xiii,
tradução nossa).
Alguns autores, como Tapscott (2023), afirmam que o blockchain
é a tecnologia que possibilita a terceira era da Internet ao suportar a pro-
priedade digital, seguindo a lógica da propriedade e as mudanças sociais
do século XIX. Alguns dizem que o propósito do blockchain “é alcançar e
manter a integridade em sistemas distribuídos” com base em suas caracte-
rísticas de imutabilidade e “gerenciar a propriedade em um sistema pura-
mente distribuído peer-to-peer de livros-razão que opera em um ambiente
completamente aberto e não confiável” (Drescher, 2017, p. 58, tradução
nossa). Independentemente do caso ou do argumento, o fato é que a blo-
ckchain veio para ficar, e governos de todo o mundo estão estudando o
uso da tecnologia para promover transparência e responsabilidade, como
discutiremos na seção 4.
2.1 iMUTABiLiDADe e inTeGRiDADe
A imutabilidade é uma das principais características dos sistemas
de blockchain. Segundo Attaran e Gunasekaran (2019, p. 13, tradução
nossa), no contexto de blockchain, imutabilidade significa que “uma vez
que algo é registrado na blockchain, não pode ser alterado”. A capacidade
das blockchains de serem imutáveis depende da criptografia, especifica-
mente dos hashes criptográficos1. Em um sistema de blockchain, cada
A função hash (resumo) é qualquer algoritmo que mapeie dados grandes e de tamanho variável para
pequenos dados de tamanho fixo. Por esse motivo, as funções hash são conhecidas por resumirem o dado.
A principal aplicação dessas funções é a comparação de dados grandes ou secretos.
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
120
transação registrada em um bloco corresponde a um hash relacionado a
cada transação. Quando um bloco é assinado e adicionado à cadeia, ele
recebe um hash do bloco anterior. Esse mesmo hash é repetido no próxi-
mo bloco criado com novas transações, e esses links criptográficos conec-
tam cada bloco ao bloco seguinte, criando uma cadeia infinita. Alterar
dados em uma única transação significa que o hash de um bloco inteiro
não corresponde mais ao conteúdo do bloco, e essa única alteração im-
pactaria os links criptográficos entre os blocos anteriores. A estrutura
criptográfica dos blockchains “significa que os livros-razão e, portanto, o
histórico de transações, não podem ser alterados uma vez registrados na
cadeia” enquanto aceitam novas transações. O resultado é que o block-
chain é uma estrutura de dados apenas de acréscimo na qual “é possível
adicionar novas transações, mas é quase impossível alterar e apagar dados
que foram adicionados no passado” (Drescher, 2017, p. 60, tradução
nossa). A Figura 1 mostra a estrutura genérica de um blockchain com os
links de hash entre os blocos.
Figura 1 - Estrutura genérica de um blockchain
Fonte: Bashir, 2017.
Dessa forma, as funções hash são largamente utilizadas para buscar elementos em bases de dados, verificar
a integridade de arquivos baixados ou armazenar e transmitir senhas de usuários.
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
121
A integridade possui diferentes conceitos dependendo da disciplina.
Nos sistemas de blockchain, a integridade pode se referir à integridade do
sistema, dos dados ou dos documentos. Drescher (2017) menciona os três
componentes significativos da integridade do sistema como
[...] integridade dos dados – os dados usados e mantidos pelo
sistema são completos, corretos e livres de contradições [precisão
em diplomática]; integridade comportamental – o sistema se
comporta conforme o esperado e está livre de erros lógicos; e
segurança [confiabilidade em diplomática] – o sistema é capaz
de restringir o acesso aos seus dados e funcionalidades apenas aos
usuários autorizados (Drescher, 2017, p. 6, tradução nossa).
Embora o mesmo autor aponte que a integridade dos sistemas e dos
dados não é uma característica que apenas o blockchain pode resolver, ele
explica que o blockchain é uma tecnologia adequada para resolver proble-
mas de integridade em sistemas distribuídos P2P, especialmente aqueles
relacionados ao problema do gasto duplo2, dependendo do domínio de
aplicação (Drescher, 2017). Para esclarecer o problema do gasto duplo e
sua relação com o domínio de aplicação, Drescher (2017) explica
Gasto Duplo como um Problema de Cópia de Bens Digitais
No contexto da cópia de bens digitais, o problema do gasto duplo
refere-se ao fato de que dados em um computador podem ser
copiados sem limitações perceptíveis. Esse fato causa problemas
com dinheiro digital ou qualquer outro dado que deve ter apenas
um proprietário em um determinado momento. A cópia torna
possível replicar dados que representam pedaços de dinheiro
digital e usá-los mais de uma vez para fazer pagamentos. Isso é o
equivalente digital a replicar notas bancárias com uma máquina
de cópia. Além de ser tecnicamente possível, a cópia de dinheiro
digital viola o princípio central do dinheiro: uma peça idêntica de
dinheiro não pode ser dada a diferentes pessoas ao mesmo tempo.
A capacidade de copiar e gastar dinheiro digital várias vezes torna o
dinheiro inútil, daí o problema do gasto duplo.
O problema do gasto duplo é uma vulnerabilidade que pode estar presente em sistemas distribuídos P2P,
como o uso duplicado de dados que representam o mesmo token de dinheiro digital para duas ou mais
transações diferentes com destinatários diferentes.
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
122
Gasto Duplo como um Problema de Sistemas Distribuídos P2P
de Livros-Razão
Quando usado para descrever o problema de um sistema distribuído
peer-to-peer de livros-razão, o problema do gasto duplo refere-se ao
fato de que encaminhar informações para todos os elementos de tal
sistema requer tempo, portanto, nem todos os pares têm as mesmas
informações de propriedade ao mesmo tempo. Como nem todos
os pares têm informações atualizadas, eles são propensos a serem
explorados por qualquer pessoa que já tenha as informações mais
recentes. Como resultado, alguém pode ser capaz de transferir a
propriedade mais de uma vez, resultando em gasto duplo (Drescher,
2017, p. 51, tradução nossa).
A imutabilidade e a integridade são características do blockchain
que apoiam a confiança pública, pois dificultam a modificação de dados
públicos por agentes corruptos, dificultando também a alteração de do-
cumentos digitais públicos registrados na cadeia. O blockchain também
viabiliza verificações de integridade dos documentos públicos por meio de
seus hashes criptográficos como representações das impressões digitais de
tais documentos.
2.2 TRAnsPARênCiA e ResPOnsABiLiDADe
As plataformas blockchain são geralmente classificadas como pú-
blicas ou privadas. Para Morabito (2017), as blockchains públicas são a
alta capacidade de inovação da tecnologia, já que nesse tipo de plataforma
qualquer pessoa pode se juntar à rede sem aprovação de qualquer interme-
diário ou terceiro e pode criar, enviar e escrever transações no livro-razão
que é a plataforma. Segundo o autor, nas blockchains privadas, “apenas
participantes conhecidos e autorizados (usuários) podem incluir dados no
blockchain” e “blockchains privados não dão acesso de leitura nem de es-
crita a participantes desconhecidos” (Morabito, 2017, p. 8, tradução nos-
sa). A Tabela 1 apresenta a diferença entre blockchains públicos e privados.
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
123
Tabela 1 - Diferenças entre campos de blockchain público e privado
Blockchains Públicas Blockchains Privadas
Participantes não são necessariamente
identificados Participantes são conhecidos e confiáveis
Participantes não são necessariamente
confiáveis Participantes são confiáveis
Qualquer um pode acessar dados na rede
sem autorização de uma autoridade central Apenas participantes autorizados podem
acessar dados da rede
Qualquer um pode gravar dados na rede
sem autorização de uma autoridade central Apenas participantes autorizados podem
gravar dados da rede
Fonte: Morabito, 2017.
Os dados registrados na maioria dos sistemas de blockchain estão
disponíveis e abertos para os participantes da rede lerem a qualquer mo-mento.
Dependendo das decisões de design3 do desenvolvimento de um sistema de
blockchain, é possível identificar a autoria das transações nos blockchains.
A cadeia sempre fornecerá o histórico de transações e propriedade. Essa
característica também contribui para aumentar a responsabilidade das
instituições públicas, pois o blockchain permite acesso a transações, autoria
e propriedade.
2.3 DisTRiBUiçãO, DesinTeRMeDiAçãO e seGURAnçA
As blockchains são sistemas distribuídos peer-to-peer (P2P), especifica-
mente livros-razão distribuídos (Drescher, 2017). A arquitetura distribuída4
da blockchain proporciona uma rede que não possui um controlador especí-
fico ou autoridade central. Sua estrutura é distribuída entre nós responsáveis
por manter a rede ativa e em funcionamento. Segundo Drescher (2017, p.
Para mais informações sobre decisões de design de sistemas blockchain leia Lemieux; Feng, 2021b.
Sistemas distribuídos são aqueles em que não há um único componente que possa encerrar todo o sistema.
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
124
21, tradução nossa), “sistemas peer-to-peer têm o potencial de remodelar in-
dústrias inteiras com base em uma ideia simples: substituir o intermediário
por interações peer-to-peer”, ou seja, através da desintermediação. Como as
blockchains públicas, como por exemplo o Bitcoin, são uma categoria de
sistemas P2P distribuídos, seus nós têm direitos iguais sobre a rede, dispo-
nibilizam seu poder computacional diretamente para todos os outros nós, e
não há um ponto de coordenação central (Drescher, 2017).
Sem um ponto central de coordenação, não há um ponto central
de falha, então a característica de distribuição da blockchain proporcio-
na maior disponibilidade do sistema. Além disso, a distribuição fornece
uma plataforma sem poder concentrado em poucas mãos, dependendo do
design. Por exemplo, no caso dos governos, a desintermediação e a distri-
buição fornecem um ambiente em que a tomada de decisão pode ser feita
por meio de consenso de diferentes autoridades e entidades, dificultando
que um único agente corrupto execute ou conclua transações. Segundo o
Secretário de Tecnologia da Informação do Tribunal de Contas do Brasil,
uma das maiores vantagens dos governos ao usar blockchains é propor-
cionado por seu caráter descentralizado e transparente, culminando no
aumento da confiança dos cidadãos no sistema e nas instituições públicas
(Rede [...], 2024).
A distribuição e a desintermediação da blockchain contribuem para
o accountability e a confiança nas instituições públicas porque essas carac-
terísticas permitem a chamada ‘confiança sem confiança’ (Werbach, 2019).
Em blockchains a confiança é depositada no sistema como um todo e na
forma como o consenso é alcançado entre componentes descentralizados e
interativos. É uma “perspectiva de confiança focada na “estrutura profun-
da” (Wand; Weber, 1995) da tecnologia e em como os criadores de block-
chains e sistemas de livros-razão distribuídos buscam resolver problemas de
confiança entre atores sociais humanos” (Lemieux, 2022 p. 56), incluindo
agentes públicos. Consequentemente, a blockchain é uma tecnologia que
pode contribuir para o fortalecimento da democracia, proporcionando ca-
pacidades para fortalecer os cinco regimes de democracia embutida (estado
de direito) propostos por Merkel (2018), como a) o regime eleitoral de-
mocrático (aumentando a integridade do processo de votação), b) o regi-
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
125
me de direitos de participação política (aumentando a transparência e o
acesso à informação), c) o regime parcial de liberdades civis (aumentando
o acesso à informação), d) a salvaguarda institucional de restrições mútuas
e responsabilidade horizontal (fornecendo a base para o controle de partes
independentes e a participação da sociedade civil), e, e) a garantia de que
o poder efetivo de governar dos representantes eleitos democraticamente é
assegurado de jure e de facto” (Merkel, 2018, p. 7, tradução nossa).
3 BLOCKCHAin e DOCUMenTOs GOVeRnAMenTAis
Desde a sua criação em 2008, houve vários casos de uso bem-suce-
didos de blockchain por governos. Na Estônia, o Governo Federal criou o
Blockchain KSI, um projeto parte do e-Estonia. Ele usa tecnologia block-
chain escalável para “garantir a integridade dos dados armazenados em re-
positórios governamentais e proteger seus dados contra ameaças internas
(Cyber [...], 2024). O uso do blockchain é um meio de garantir uma es-
trutura completa de cibersegurança para processos de governo eletrônico.
O objetivo do blockchain KSI é mitigar ameaças de manipulação
interna de dados em seus documentos públicos, permitindo auditoria e
transparência em um sistema que pode ser verificado a qualquer momen-
to, mantendo um histórico de atualizações de documentos dos seguin-
tes bancos de dados estonianos: Sistema de Informação de Vigilância/
Rastreamento, Registro Oficial de Leis e Regulamentos, Anúncios Oficiais
do Es- tado, Registro de Saúde, Registro de Propriedade, Registro de
População, Registro de Empresas, Registro de Sucessão e Sistema Judicial
Digital (Guardtime [...], 2024). As razões por trás do uso do blockchain
como garantia da integridade dos dados governamentais, de acordo com
a Guardtime Technology (2024), são a capacidade de confiar 100% nos
dados governamentais em qualquer situação; a capacidade de impor a inte-
gridade dos dados governamentais mitigando ameaças internas focadas na
manipulação e abuso dos dados armazenados; e a capacidade de verificar
a integridade dos dados governamentais independentemente de seu banco
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
126
de dados de origem, em tempo real, permitindo a interoperabilidade dos
dados entre sistemas e além das fronteiras (Guardtime [...], 2024).
O governo da Colúmbia Britânica (CB), no Canadá, tem realiza-
do vários projetos usando tecnologia blockchain para apoiar processos
governamentais5. Existem três projetos em andamento usando tecnologia
blockchain e credenciais digitais verificáveis no que a província chama de
iniciativa Digital Trust (Confiança Digital em português). O primeiro de-
senvolvido e implementado usando Hyperledger Aries e Indy (Hyperledger
Aries; Hyperledger Indy, 2024) é o BC ORGBook. Neste serviço digital,
qualquer parte interessada pode verificar a autenticidade de documentos
emitidos pelo Registro Oficial de Organizações da Colúmbia Britânica
(órgão similar à junta comercial no Brasil), como o cadastro legal de uma
organização na província, seus números de registro (similar à inscrição es-
tadual de uma empresa) e a revogação de licenças. De acordo com o site
do OrgBook BC,
[...] ao fornecer fácil acesso aos documentos [do Registro Oficial
de Organizações da Colúmbia Britânica], os cidadãos podem
ter confiança em suas interações comerciais, as entidades legais
podem validar detalhes chave da organização, os departamentos
governamentais podem simplificar e agilizar processos, e as
organizações podem monitorar e avaliar atualizações como um
indicador de atividade econômica (British Columbia, 2023,
tradução nossa).
Outro projeto do BC Digital Trust é o Energy and Mines Digital
Trust – EMDT (Confiança Digital em Minas e Energia em português), um
serviço digital do governo da província que emite permissões de explora-
ção de minas de acordo com os regulamentos vigentes. O site do EMDT
afirma que “com credenciais digitais, os operadores de mineração e ener-
gia podem compartilhar dados confiáveis e verificáveis, permitindo que
eles concorram em mercados focados em sustentabilidade” globalmente,
um recurso habilitado pela infraestrutura blockchain (British Columbia,
2024). A plataforma usa os mesmos protocolos Hyperledger Aries e Indy
Mais detalhes sobre os projetos envolvendo credenciais verificáveis podem ser obtidas no sítio do projeto
BC Digital Trust: https://digital.gov.bc.ca/digital-trust/home/
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
127
usados no projeto OrgBook. Ela torna as permissões de mineração dis-
poníveis para verificação por qualquer parte ao redor do mundo, fortale-
cendo a confiabilidade dos negócios de exploração de minas nas terras da
Colúmbia Britânica.
No Brasil, existem vários casos de uso de blockchain pelo governo.
O Tribunal de Contas da União (TCU), em 2020, publicou dois docu-
mentos importantes para o Governo Brasileiro. Um forneceu uma lista de
aplicações de blockchain no setor público6 e entre os projetos citados nesse
documento estão: (1) uma plataforma de colaboração e troca de informa-
ções entre os países do Mercosul chamada bConnect, (2) uma plataforma
para disponibilizar para diversos órgãos públicos as bases de dados de re-
gistros de pessoas físicas e jurídicas da Receita Federal do Brasil chamada
bCadastro, (3) o projeto piloto em andamento do Real Digital (DRex) do
Banco Central do Brasil e diversos projetos envolvendo o Sistema Bancário
Público Brasileiro. Há também uma parceria importante entre o TCU, o
Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o
Serviço Federal de Processamento de Dados (SERPRO) para desenvolver a
Rede Blockchain Brasil (RBB)7.
A RBB é estruturada usando o Hyperledger Besu8, um cliente
Ethereum de código aberto que pode ser executado em redes blockchain
públicas e privadas. A escolha do Besu faz sentido porque 1) os governos
precisam de uma plataforma que forneça recursos e suporte para executar
redes públicas e permissionadas, e 2) o Besu fornece um ambiente para que
os governos adicionem diferentes camadas à rede blockchain com diferen-
tes regras e permissões para os participantes. A RBB foi construída para
permitir que entidades governamentais desenvolvam aplicativos descentra-
lizados e contratos inteligentes ou adicionem camadas para criar diferente
soluções governamentais usando tecnologia de livro-razão distribuído. A
RBB também foi projetada para considerar a necessidade de a sociedade
civil e organizações não governamentais relacionadas ao monitoramento e
Apêndice 1 do estudo sobre uso de blockchain no Brasil, intitulado Apêndice 1 – Aplicações
Blockchain no Setor Público do Brasil, disponível em https://portal.tcu.gov.br/data/files/58/02/CE/5E/
C4854710A7AE4547E18818A8/Blockchain_apendice1.pdf
Acesse a documentação da RBB em https://github.com/RBBNet/rbb
Para mais informações sobre Hyperledger Besu visite: https://besu.hyperledger.org/
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
128
controle do governo acessarem dados e informações governamentais trans-
parentes e confiáveis. Embora a RBB tenha sido lançada recentemente em
setembro de 2024, espera-se que entidades públicas se juntem à rede, im-
plementando diferentes projetos governamentais e criando e usando regis-
tros públicos digitais na plataforma blockchain.
A Figura 2 representa a visão geral da arquitetura da RBB, incluindo
seus stakeholders e seus privilégios.
Figura 2 – Arquitetura geral da Rede Blockchain Brasil
Fonte: Coutinho, 2023.
Outro projeto importante brasileiro usando tecnologia blockchain
implementado em setembro de 2023 é a Carteira de Identidade Nacional.
O Serpro, em parceria com a Receita Federal do Brasil, está usando o sis-
tema bCadastro para apoiar o processo de emissão de identidade nacional
por qualquer uma das 27 instituições emissoras de identidade dos estados
brasileiros. O objetivo é estabelecer um registro de identidade único para
os cidadãos, substituindo o sistema anterior em que cada cidadão pode-
ria solicitar um registro de identidade diferente nos 27 estados do país.
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
129
O bCadastro usa o Hyperledger Fabric e disponibiliza informações sobre
o registro de pessoas físicas dos cidadãos para que as agências estaduais
possam verificar o status dos cidadãos e atualizar suas informações em seu
registro ou emitir suas primeiras identidades. Tal projeto já usa tecnologia
blockchain para criar documentos públicos relacionados ao processo de
emissão de identidade governamental. O Presidente do Serpro, Alexandre
Amorim, destaca as vantagens percebidas do blockchain para a emissão de
identidades.
A tecnologia blockchain desempenha um papel fundamental
na proteção dos dados pessoais e na prevenção de fraudes,
proporcionando uma experiência digital mais segura para os
cidadãos brasileiros. O uso da plataforma blockchain b-Cadastros
é um grande diferencial para a segurança e a confiabilidade do
projeto da Carteira de Identidade Nacional [...]
As aplicações que utilizam blockchain podem contar com vantagens
como a imutabilidade dos dados, já que é praticamente impossível
alterar ou falsificar os dados registrados em uma rede blockchain
[...]
Outra vantagem é a descentralização, pois a tecnologia é distribuída
em várias máquinas e nós da rede, o que reduz a vulnerabilidade
a ataques cibernéticos, tornando mais difícil para invasores
comprometerem a segurança do sistema. O blockchain também
promove mais transparência, já que permite rastrear todas as
transações e atividades realizadas na rede, aumentando a confiança
dos usuários no sistema. (Brasil, 2023).
O blockchain é uma tecnologia promissora para a produção e manu-
tenção de documentos públicos, no entanto, existem algumas limitações
tecnológicas para garantir a confiabilidade e preservação de tais documen-
tos. É necessário estar em conformidade com a legislação vigentem a teoria
arquivística, normas internacionais (como a ISO 15489:2016 e a associada
ISO DTR 24322 Informação e documentação — Blockchain e tecnologia
de livro-razão distribuído) em relação a documentos oficiais, incluindo as
práticas de gestão documental e os sistemas de gestão arquivística de do-
cumentos digitais (ISO, 2025). De acordo com a discussão de Lemieux e
Feng (2020a), também é fundamental fazer as melhores escolhas de design
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
130
de sistemas ainda no momento de seu desenvolvimento. Para garantir a
criação e manutenção de documentos públicos confiáveis usando sistemas
de blockchain, devemos discutir a relação entre blockchain e a confiabili-
dade de documentos de arquivo.
4. BLOCKCHAin e COnfiABiLiDADe DOs
DOCUMenTOs
Como discutido na seção 2, a confiança pública depende de accou-
ntability, transparência e acesso confiável à informação, que são mantidos
por meio de documentos confiáveis que atendem aos requisitos de con-
fiança pública. Reconhecer blockchains como sistemas de criação e manu-
tenção de documentos é essencial para vinculá-las a conceitos arquivísti-
cos. Definir blockchains dessa maneira permite que sejam tratados como
uma única categoria; independentemente dos vários tipos de blockchain
e livros-razão distribuídos agora ou no futuro, todos compartilham as ca-
racterísticas fundamentais de um livro-razão (Lemieux, 2022) . Projetar
sistemas de blockchain e livros-razão distribuídos capazes de criar, capturar
e preservar evidências requer a aplicação de teorias, princípios, métodos e
práticas de gestão documental.
Pesquisas relacionadas a sistemas de blockchain e manutenção de do-
cumentos de arquivo até o momento envolvem: a proposição de uma tipo-
logia de sistema de blockchain de acordo com o local onde o documento é
armazenado com base em estudos de caso de uso de blockchain (Lemieux,
2017); críticas diplomáticas para avaliar a confiabilidade dos documentos,
baseadas em casos de uso de blockchain envolvendo documentos digitais
(Flores; Lacombe; Lemieux, 2018; Lemieux, 2016); e o estabelecimento
de uma metodologia para decisões de design sobre sistemas de blockchain
para melhorar seu desenvolvimento desde a concepção (Lemieux; Feng,
2021a). Esta seção utiliza críticas diplomáticas como uma ferramenta para
avaliar a confiabilidade dos registros em casos de uso de blockchain reali-
zados por Lemieux e estabelece uma metodologia para orientar decisões de
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
131
design para sistemas de blockchain desde o início, focando na melhoria da
confiabilidade dos documentos.
Em pesquisas anteriores, Lemieux explorou o potencial do block-
chain para criar e preservar documentos digitais confiáveis, ao mesmo
tempo em que considerava limitações, riscos e oportunidades (Lemieux,
2016). Sua pesquisa analisou o uso do blockchain para registro de títulos
de terras em Honduras como um estudo de caso, avaliando seus riscos e
a viabilidade de usar blockchain para fins de manutenção de documentos
íntegros. As descobertas destacaram questões como governança, confia-
bilidade dos documentos, autenticidade e a capacidade da tecnologia de
garantir a preservação a longo prazo de documentação em meio digital.
Especificamente, a solução hondurenha não atendia totalmente aos pa-
drões de confiabilidade e apresentava vulnerabilidades na autenticidade,
levantando preocupações sobre a preservação e acessibilidade a longo prazo
dos registros originais, já que o projeto autenticava registros armazenados
fora da cadeia blockchain (Lemieux, 2016).
Tabela 2 – Reflexões de Lemieux sobre a blockchain da criptomoeda
Bitcoin e as funções de gestão documental
1. A blockchain do Bitcoin funciona como um arquivo descentralizado, ar- mazenando
documentos originais de forma que possam ser acessados a qualquer tempo? Não.
Documentos originais não são armazenados na blockchain do Bitcoin, apenas hashes dos
registros originais.
2. É possível reproduzir um documento original a partir do seu hash armaze- nado na
blockchain do Bitcoin? Não. Não é possível fazer engenharia reversa de um hash para
reproduzir um documento.
3. O uso da blockchain do Bitcoin garante a confiabilidade dos registros? Não. A
confiabilidade só é garantida se os registros forem tanto fidedignos quanto autên- ticos.
As soluções de blockchain não abordam a confiabilidade dos documentos, e há muitas
características da blockchain do Bitcoin que podem afetar negativamen- te a autenticidade
das informações.
Fonte: Lemieux, 2016.
Análise adicional de um sistema protótipo de registro de terras em blo-
ckchain no Brasil, em colaboração com especialistas arquivísticos brasileiros
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
132
(Flores; Lacombe; Lemieux, 2018)9, identificou vários desafios na aplicação
do blockchain ao registro de terras, particularmente em relação à qualidade
das evidências e à acessibilidade ao longo do tempo. Usando padrões arqui-
vísticos alinhados com requisitos legais, as descobertas indicaram que falhas
de design poderiam reduzir a qualidade ou a acessibilidade dos documentos,
potencialmente minando a transparência, a responsabilidade pública e os
direitos de propriedade da terra. Abordar essas questões requer a adaptação
de estruturas legais, administrativas e procedimentais. Embora a tecnologia
blockchain ainda esteja evoluindo, a pesquisa visa destacar áreas para melho-
ria em soluções baseadas em blockchain para fortalecer a eficiência do setor
público, a responsabilidade e os processos democráticos, em vez de desenco-
rajar a adoção (Flores; Lacombe; Lemieux, 2018).
Apesar dos avanços desde esses primeiros estudos, os sistemas de blo-
ckchain ainda carecem de muitos recursos necessários para garantir total-
mente a fidedignidade dos documentos arquivísticos e alguns elementos
necessários para a autenticidade. Embora a tecnologia possa garantir a in-
tegridade dos registros armazenados na sua própria cadeia, ela permanece
limitada na capacidade de armazenamento de dados, mesmo para registros
PDF leves. A transparência entre os participantes da rede é uma caracte-
rística fundamental do blockchain, mas os dados armazenados na cadeia
são representados principalmente por hashes criptográficos, tornando-os
ilegíveis em sua forma bruta. Para informações sensíveis, essa transparência
também pode ser menos desejável.
5. MiTiGAçãO De fRAUDes eM DOCUMenTOs
A fraude em documentos ocorre sempre que peças são omitidas em
um procedimento documentado ou quando os documentos são adultera-
dos durante o desenvolvimento do procedimento. Por exemplo, em casos
de licitações públicas, quando um agente público modifica uma propos-
ta apresentada para favorecer qualquer participante, isso é um caso claro
ere is a Portuguese version of this report on https://blogs.ubc.ca/recordsinthe-chain/files/2018/01/
Versão-1.4-em-PT-BR-do-Projeto-Records-in-the-Chain_Final.pdf
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
133
em que ocorreu fraude em documentos para permitir a corrupção. Como
mencionado anteriormente, o blockchain pode potencialmente diminuir
as oportunidades de fraude em documentos, contribuindo para combater
a corrupção e aumentar a responsabilidade pública.
Um estudo sobre fraude em documentos de licitações públicas bra-
sileiras propõe uma taxonomia de fraude documental com base nos requi-
sitos de confiabilidade de documentos arquivísticos. Um artigo publica-
do na fase inicial da pesquisa analisa 217 Tomadas de Conta Especial do
TCU, lista as fraudes significativas detectadas e propõe uma taxonomia
relacionando os tipos de documento e irregularidades detectadas de acordo
com as principais categorias de fraude documental (Batista, 2024). O blo-
ckchain é discutido como uma solução para desenvolver aplicativos para
evitar as fraudes mencionadas naquela pesquisa.
Em relação à fidedignidade, blockchain pode ser essencial no con-
trole do procedimento de criação de documentos. Através de contratos
inteligentes, as entidades governamentais podem garantir que algumas
transações sejam executadas seguindo os passos necessários, e essas tran-
sações só são concluídas e registradas na cadeia se todos os passos forem
completados. Os contratos inteligentes podem, então, ser uma excelente
ferramenta para diminuir a oportunidade de omissão de documentos em
procedimentos específicos. A adulteração de documento públicos também
pode ser mitigada usando blockchains. De fato, documentos armazenados
fora da cadeia da rede não podem ter sua integridade garantida pelo blo-
ckchain. No entanto, devido à sua desintermediação, a tecnologia fornece
recursos para, pelo menos, verificar, por meio de criptografia, a integrida-
de dos documentos armazenados fora da cadeia. Por exemplo, credenciais
verificáveis emitidas por plataformas específicas de blockchain garantem a
proveniência do documento e contribuem para a manutenção do atributo
de autenticidade documental e da identidade do criador do documento.
Além disso, as credenciais verificáveis podem fornecer informações sobre
um indivíduo sem comprometer sua privacidade.
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
134
6. COnCLUsãO
Em resumo, este capítulo explorou o potencial transformador da
tecnologia blockchain em melhorar a transparência, a accountability e a
confiança nas instituições democráticas, particularmente na gestão de do-
cumentos públicos. Com sua imutabilidade inerente e design descentrali-
zado, blockchain oferece um mecanismo promissor para abordar desafios
persistentes na confiança pública, o que é crucial quando a responsabi-
lidade democrática é cada vez mais ameaçada pela desinformação e pela
desconfiança sistêmica nas entidades governamentais.
A análise ilustra como blockchain, aplicada em várias iniciativas go-
vernamentais globais e brasileiras, já é uma tecnologia usada para produzir
documentos públicos. No entanto, ainda há trabalho a ser feito para que
essa tecnologia garanta uma infraestrutura de manutenção de documen-
tos segura e transparente. Há potencial para blockchain ajudar a prevenir
fraudes em documentos e também possibilitar o que podemos chamar de
responsabilização pública verificável - um aspecto crítico para restaurar e
manter a confiança pública nos processos democráticos. Além disso, ao
aproveitar as capacidades do blockchain para integridade de dados e tran-
sações verificáveis seguras, os governos podem mitigar riscos de corrupção,
promovendo uma esfera pública mais resiliente e inclusiva.
Embora a promessa do blockchain em preservar a autenticidade e
a fidedignidade dos documentos públicos seja substancial, ainda existem
limitações tecnológicas, como a capacidade de armazenamento e os de-
safios associados à gestão de dados fora da cadeia. Abordar essas lacunas
por meio de escolhas de design direcionadas, alinhadas com a teoria e os
padrões arquivísticos, será essencial para maximizar o papel do blockchain
na governança pública. Em conclusão, a tecnologia blockchain representa
uma oportunidade crucial para melhorar a resiliência democrática, prote-
gendo os registros públicos contra fraudes e manipulações. Ao promover a
transparência, a desintermediação e uma abordagem descentralizada para
a manutenção de documentos, o blockchain pode contribuir significati-
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
135
vamente para fortalecer as estruturas democráticas e, em última análise, a
confiança pública.
RefeRênCiAs
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CAPÍTULO 4
A     
    
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   A
P P
Isabel Cristina Guerra Correia ROSTAMI
Maria Cristina Vieira de FREITAS
1. COnsiDeRAçÕes iniCiAis
Numa perspetiva contemporânea e sob o ponto de vista da
Arquivística, Oliver (2015 apud Borges e Freitas, 2020, p. 224), realça que
as atividades de gestão apoiam-se no trabalho conjunto e no uso de abor-
O presente capítulo é uma versão atualizada de estudos prévios, realizados para a elaboração do trabalho
de projeto de Mestrado em Ciência da Informação, defendido na Faculdade de Letras da Universidade de
Coimbra, e no projeto de intervenção desenvolvido no Arquivo da Universidade de Coimbra, concretizado
pela sua primeira autora. A segunda autora é, desde 2014, membro representante da Universidade de
Coimbra, no âmbito do Projeto de Gestão Documental nas Instituições de Ensino Superior portuguesas,
que visou produzir e aprovar dois instrumentos: uma Portaria de Gestão Documental [PGD-IES]e um
Relatório de Avaliação de Documentação Acumulada [RADA-IES]. Também foi nomeada por despacho
reitoral, em outubro de 2021, para coordenar uma equipa de trabalho constituída para desenvolver
instrumentos reguladores do processo de gestão de documentos e de dados pessoais, na Universidade de
Coimbra, cujos resultados foram entregues em outubro de 2022. Presentemente, é diretora do Arquivo da
Universidade de Coimbra e do Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra.
https://doi.org/10.36311/2025.978-65-5954-650-3.p139-176
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
140
dagens integradas, para tornar eficiente e eficaz o controlo dos documentos
e das informações vitais para a memória das organizações.
Como sabemos, eficiência e eficácia não são termos sinônimos, mas
correlacionados. Genericamente, o termo eficiência remete para o modo
como se obtém determinado resultado, isto é, para a melhor forma de se
atingir determinado objetivo. Por sua vez, o termo eficácia refere-se ao
facto de se atingir ou não o objetivo, sendo relevante, sobretudo, ao nível
institucional estratégico, importando, não só fazer bem aquilo que se faz,
mas também fazer aquilo que deve ser feito (Robalo, 1995).
Neste estudo, iniciamo-nos na busca de evidências da eficácia em
diferentes contextos da história intelectual recente da Arquivística nacional
e internacional, passando pela análise de documentos e de projetos técni-
cos enformadores das ações por trás da gestão da informação pública de
arquivo, em Portugal, tendo, para este efeito, sido consultados aqueles que,
pela relevância e pelos resultados obtidos, foram considerados essenciais
para o estudo. Como complemento, também foram consultados disposi-
tivos normativos nacionais ou internacionais, balizadores de ações nessas
matérias. Para melhor compreender e compor o quadro teórico-conceitual,
foram selecionados referenciais teóricos incontornáveis da Arquivística in-
ternacional, em cuja obra foram realizadas incursões. Para finalizar, foram
proporcionadas exemplificações da aplicação de instrumentos usados para
classificar e avaliar, na contemporaneidade, a informação pública de ar-
quivo produzida e acumulada pelas instituições da Administração Pública
[AP] portuguesa.
2. enTRe A ARQUiVÍsTiCA CLÁssiCA e A fUnCiOnAL:
DO PRiMADO DO DOCUMenTO AO PRiMADO DA
infORMAçãO, enTRe OUTRAs COnsiDeRAçÕes
COnCeiTUAis
Sendo uma área do saber, a Arquivística é o resultado do processo
histórico de transformações por que passou, relacionando-se com os
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
141
contextos sociais, políticos e económicos de onde emerge (Schmidt;
Mattos, 2020).
A tradição arquivística foi influenciada pelo positivismo historiográ-
fico, pelo racionalismo lógico e até mesmo pelo darwinismo, tendo estas
correntes ideológicas conduzido a uma visão dos arquivos como entida-
des estáveis, simples, incontestáveis e que refletem a realidade (Lane; Hill,
2010). Esta visão, suportada no princípio da proveniência, teve implicações
na forma como os arquivos eram tratados, arquivisticamente, no passado.
Não será excessivo recordar que a história intelectual da Arquivística
(cf. Ridener, 2009) inicia a sua jornada mesmo antes de se ter firmado en-
quanto disciplina técnica e científica (Duranti, 2005, apud Schmidt; Mattos,
2020, p. 29). Ao longo do século XX, consolidam-se, reforçam-se e moder-
nizam-se teorias, métodos e práticas de uma disciplina que caracterizar-se-ia,
na sua fase clássica, pelos novos usos para o documento de arquivo; pelo es-
tabelecimento do princípio de respeito pelo fundo; pela própria ideia de fun-
do; pelo princípio da proveniência e da ordem original; pelo sistema de re-
gisto; pela organicidade; pela custódia; pela ordenação e descrição (Schmidt;
Mattos, 2020). As abordagens modernas continuariam o seu percurso até a
década de 1980, introduzindo a gestão de documentos modernos; a teoria
das três idades; o ciclo de vida dos documentos; os valores dos documentos;
a avaliação dos documentos; a classificação funcional. Finalmente, na última
década do século XX, assistir-se-ia ao alvorecer das correntes contemporâne-
as da Arquivística (Schmidt; Mattos, 2020).
Entendemos que no seguimento do antes sustentado, os primeiros
manuais e iniciativas que denotam alterações na forma como se concebem
os arquivos surgem entre o final do século XIX e as primeiras décadas do
século XX. Assim,
[a]djetivos como “vivo”, “dinâmico” e “ativo” começam a ser usados
para apontar a direção de uma necessária mudança a ser operada
nos arquivos de modo a se combater sua inércia e seu fechamento
sobre si mesmo. O discurso da eficácia, o imperativo do retorno,
para a sociedade e as empresas, dos investimentos feitos foi um dos
motes dessa abordagem (Araújo, 2013, p. 65).
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
142
Neste conspecto, pode dizer-se que o caminho foi aberto no sentido
da problematização das funções dos arquivos. É nesse contexto que se de-
senvolveram as teorias funcionalistas da Arquivologia, ao longo do século
XX (Araújo, 2013, p. 65).
Consideramos que a dissolução da separação entre arquivos históri-
cos e arquivos administrativos se fez paulatinamente a partir do início do
século XX, aliada à questão das funções dos arquivos e da eficácia. Este foi,
contudo, um caminho conturbado e controverso, trilhado, não sem antes
se ter acentuado a diferenciação entre a visão “tradicional” da Arquivística,
no seu pendor histórico, e a gestão documental ou records management,
que procuraremos, ainda que a traços largos, referir.
Ao consultarmos a obra Archivistica, de Eugenio Casanova, com
data de 1928, consideramos que Araújo (2013) tem muita razão quan-
do interpreta que o autor não separa o arquivo administrativo do arquivo
histórico - porque entende ser o segundo uma consequência do primeiro.
Defende, porém, uma perspetiva tripartida da Arquivística, relacionada:
i) à administração das instituições arquivísticas; ii) à organização in-
terna dos documentos; iii) à natureza jurídica dos arquivos e aos serviços
(Casanova, 1928 apud Araújo, 2013, p. 66). O mesmo manual refere que
também é função dos arquivos, recolher, tratar e preservar os documentos
com um menor esforço, poupando trabalho, e utilizando com o máximo
de economia as instalações, o pessoal, o tempo e administrando os custos
(Casanova, 1928 apud Araújo, 2013, p. 66). Neste período, situado entre
a Primeira e a Segunda Grande Guerra, assistiu-se, como sabemos, ao au-
mento da produção de documentos e, consequentemente, da preocupação
com a avaliação documental, como necessidade imperiosa e inseparável da
questão da eficácia nas organizações. No entanto, como faz notar Araújo
(2013), esta atividade estava atribuída ao organismo produtor, não sendo
esta uma função do arquivista. T. R. Schellenberg, ao introduzir os con-
ceitos de valor primário e de valor secundário, também contribui para re-
forçar a ideia de conservação do máximo de informação com o mínimo de
documentos. Consequentemente, surge um novo campo da Arquivística:
a archival appraisal (Araújo, 2013). Decorre, ainda, da necessidade de con-
trolar o crescimento da produção documental o aparecimento do mode-
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
143
lo records management, isto é, a gestão de documentos arquivísticos com
a intervenção a iniciar-se logo na fase da produção e da tramitação dos
documentos nos serviços produtores/recetores. Tal modelo, está, por isso
mesmo, muito ligado à Administração, tendo marcado esta diferenciação,
não raro percebida como rutura, com a Arquivística, até então mais volta-
da para a documentação histórica (Freitas, 2024; Schmidt; Mattos, 2020;
Araújo, 2013).
Já em 1939, T. R. Schellenberg percebera as dificuldades em aplicar
a teoria e a prática arquivística europeia à gestão documental nos Estados
Unidos da América, no artigo European Archival Practices in Arranging
Records. Mas, é a sua obra intitulada Modern Archives: Principles and
Techniques, datada de 1956, que irá tornar-se o manual pelo qual os pro-
fissionais de arquivo norte-americanos passarão a pautar o seu trabalho.
A avaliação e a classificação são funções fulcrais no trabalho arquivístico
que o autor entende estarem correlacionadas. A classificação é para T. R.
Schellenberg (1996) basic to the effective management of current records (p.
52) [sublinhados nossos] e [i]f records are classified to reflect organization
and function, they can be disposed of in relation to organization and function
(p. 52) [sublinhados nossos]. Por conseguinte, the method of classification
provides de basis for preserving or destroying records selectively after they have
served the purpose of current business (p. 52) [sublinhados nossos]. Mais
recentemente, a norma NP4438-1-2:2005, define a gestão de documentos
de arquivo como o “campo da gestão responsável por um controlo eficiente
e sistemático da produção, recepção, manutenção, utilização e destino dos
documentos de arquivo, incluindo os processos para constituir e manter
prova e informação sobre actividades e transacções” (Instituto Português
da Qualidade [IPQ], 2005a, p. 10) [sublinhados nossos]. Nota-se assim a
presença de um léxico próprio a emergir e a aproximar o trabalho arqui-
vístico dos ofícios da administração de arquivos. De um tal léxico, natural-
mente, não se encontrariam apartados vocábulos como eficácia, eficiência,
atividades e transações.
Ao crescimento exponencial da produção de documentação e ao
desenvolvimento tecnológico juntam-se outros fatores que vão marcar as
formulações teóricas na Arquivística a partir da década de 80 do século
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
144
XX. Se as abordagens modernas se desenvolveram a partir do trabalho em
documentos modernos”, por oposição aos “documentos históricos”, mas
todos em suportes analógicos, com o surgimento de novos suportes do-
cumentais os desafios com que a Arquivística se depara multiplicam-se.
A Arquivística é confrontada com novos usos, valores e funções dos do-
cumentos. Tal como a sociedade, também a Arquivística se complexifica.
No Canadá, na década de 80 do século XX, surge a Arquivística
Integrada, que tem entre os seus principais representantes Carol Couture,
Jean-Yves Rousseau e Jacques Ducharme. Esta corrente propõe a superação
da divisão criada pela Arquivística moderna americana entre records e ar-
chives e pretende reconduzir a Arquivística a disciplina científica. Defende
que a gestão da informação deve subsidiar a gestão de documentos e a
união do valor primário e do valor secundário dos documentos, para uma
definição expandida de arquivo” (Tognoli; Guimarães, 2010, p.16). A
ideia do “salto paradigmático” (Taylor, 1987) entra na agenda teórica da
Arquivística, a partir deste ponto.
Em 2009, M. C. V. de Freitas dava conta da importância de interro-
gar “sobre o que de fato vemos transformar-se em face deste suposto novo
paradigma2, adiantando que “[s]egundo os seus intérpretes, alteram-se
sensivelmente as formas de relacionamento com um igualmente novo fator
de produção e, ao mesmo tempo, produto – a informação – que, junta-
mente com o conhecimento, passa a situar-se no centro de um eixo em
torno do qual se desloca toda a sociedade – a sociedade da informação
(p. 11), tendo os pilares da Arquivística “sido profundamente sacudidos e
abalados por estas transformações radicais (…).” (p.11). A este respei- to,
Corujo (2021) defende que a Arquivística de hoje, Contemporânea, é já o
resultado do salto epistemológico/teórico do primado do documento para
o primado da informação, ou, de outra forma, do analógico para o eletrô-
nico. De igual modo, Tognoli (2010, p. 57) refere que ali se verificou uma
mudança de paradigma no que concerne às perspectivas de organização do
conhecimento arquivístico, tendo o aparecimento da corrente Arquivística
A Logos – Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia, v. 3, p. 1332, faz referên- cia a “Paradigma” da seguinte
forma: “Em história da ciência o termo foi introduzido por T. Kuhn na obra A Estrutura das Revoluções
Científicas designando uma teoria ou sistema aceites por uma comunidade científica e que durante algum
tempo orienta a sua actividade. Inclui quer regras metodológicas, quer elementos axiológicos e metafísicos.
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
145
Funcional ou Pós-Moderna como objetivo “defender e repensar os princí-
pios, conceitos e métodos basilares da disciplina, para que possa adaptar-se
e sobreviver na contemporaneidade”.
É neste preciso sentido que caminha a acima referida corrente
Arquivística Funcional ou Pós-Moderna. Ela assume a influência do su-
jeito na produção documental e, por conseguinte, o documento deixa de
ser considerado um constructo imparcial e neutro, como a Arquivística
jenkin- soniana, de orientação positivista, no passado assim o quisera. A
análise funcional introduz elementos de mudança (Freitas, 2009) absolu-
tamente necessários. No comentário de Tognoli e Guimarães (2010, pp.
7-10), ela centra-se no processo de criação do documento e não no do-
cumento, considera o documento digital e as novas formas de produção
documental, propõe a macroavaliação e a análise do contexto de produ-
ção, torna o conceito de fundo mais dinâmico3. Resumindo as contas,
a Arquivística Funcional tem como antecedentes a redescoberta e rein-
terpretação da proveniência por arquivistas canadianos, tendo sido este
um processo “fundamental para a compreensão dos processos de criação
e organização dos registros, e para os contextos em que esses documentos
foram gerados” (Tognoli, 2010, p. 65).
Recorde-se, porém, o inevitável e nimiamente conhecido aponta-
mento de Peter Scott, que, já em 1964, propusera o abandono da aborda-
gem record group e a adoção do sistema de séries, por considerar que não
era capaz de refletir a realidade da criação e do uso de documentos em
ambientes com mudanças administrativas complexas, em que a múltipla
proveniência é um fenómeno frequente. Propusera, ainda, uma abordagem
da classificação que permitisse, através de estratégias de descrição, espelhar
a natureza dinâmica da criação de documentos e que qualquer conjunto
de documentos pudesse ser visto por várias vertentes contextuais (Schmidt;
Mattos, 2020). Ali, esteve presente a raiz do modelo intitulado Records
Continuum (Freitas, 2024; Cunningham, 2016). Recorde-se, ademais, que
a contestação ao princípio da proveniência ocorreu e acentuou-se com o
desenvolvimento tecnológico e informático e com as dúvidas e questiona-
mentos daí advindos (Ridener, 2009).
Terry Cook, Hugh Taylor e Tom Nesmith são alguns dos representantes desta corrente.
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
146
A questão do contexto de produção surge, assim, em nosso en-
tender, de forma inevitável, uma vez que os ecossistemas informacionais
contemporâneos são híbridos e por isso mais complexos. Levantam pro-
blemas de documentabilidade, autenticidade, fidedignidade, organicida-
de e interoperabilidade, exigindo intervenções pensadas de forma estra-
tégica (Freitas, 2009).
Relacionada com a necessidade de considerar o contexto em que a
produção de documentos surge na Arquivística Funcional e de atingir uma
maior eficácia, a macroavaliação, sendo o objeto de que aqui nos ocupamos
no âmbito da avaliação da informação de arquivo, aparece como a form of
functional analysis that seeks to enhance and ensure appraisal accountability,
compliance, and performance (measurable results against stated goals) and is
based on sound theory relevant for our time (Robyns, 2014 apud Society
of American Archivists [SAA], 2024). O mesmo Dictionary of Archives
Terminology define macroavaliação como an analysis of the functions of an
organization to determine the relative importance of those activities and set
priorities for documentation (SAA, 2024). Já bem antes, como reconhecido
e citado (SAA, 2024), Terry Cook (1996) entendera que:
[b]y concentrating on the functional and records universe as a whole
rather than on a portion of it, by advocating a top-down approach
based on functional analysis rather than a bottom up, empiricist
analysis based on the search for “value” in records, macro-appraisal
provides a sense of direction, a strategy, and a theoretical basis for
coping with the voluminous and very fragile records of complex
modern organizations.
Ainda, mais adiante, voltaria a referir-se à macroavaliação como:
[...] a combined theory, strategy and methodology for performing
archival appraisal. It was developed in the context of the challenges
of voluminous paper records of a modern, complex, heavily
regionalised national government and the crisis of preserving
electronic records, both in large database and automated office
formats (Cook, 2004 apud SAA, 2024).
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
147
Neste ponto de viragem, encontrar-nos-emos com uma Arquivística
em busca, não apenas de uma eficácia administrativa - marcada por tenta-
tivas muitas vezes drásticas de eliminação (in)justificada de documentos - ,
mas também com uma Arquivística votada à memória social, coletiva, que
pretende preservar porções cada vez mais expressivas e representativas da
Administração e da Sociedade, de uma forma efetiva, eficiente, ou seja, fa-
zendo mais e melhor, cumprindo os seus objetivos sociais e suportando-se
na abordagem considerada adequada para o fazer.
Dados os seus valiosos contributos, Anne Gilliland reconhece que
Terry Cook e os Arquivos Nacionais do Canadá, onde trabalhava, foram
pioneiros na aplicação da macroavaliação, na década de 90 do século XX
(2014 apud SAA, 2024). Na década posterior, no continente europeu,
onde, naturalmente, se inclui Portugal, encontramos fortes ecos de teorias
e práticas procedentes do modelo de macroavaliação canadiano, propostas
para serem aplicadas, sobretudo, ao contexto da AP.
3. QUADRO nORMATiVO, MODeRniZAçãO ADMinis-
TRATiVA e “MUDAnçA De PARADiGMA” nA
CLAssifiCA- çãO e nA AVALiAçãO DA infORMAçãO
eM PORTUGAL
Iniciando o percurso por aquele que viria a ser o campo norma-
tivo, constatamos a criação, pela mão da International Organization for
Standardization [ISO], em 1998, da comissão TC46/SC11 Archives
/ Records Management4, encarregue de elaborar normas técnicas na área
da gestão documental (Bustelo Ruesta, 2012). No entanto, a chegada da
gestão do- cumental àquela Organização foi considerada tardia, quando
comparada com outras áreas de atividade, especialmente se se considerar
a publicação da ISO 15489:2001 como marco inaugural. A normaliza-
ção não era, então, prioritária, tendo o trabalho arquivístico ficado muito
circunscrito às atividades de descrição arquivística e às regras emanadas
Consultável por aqui: https://www.iso.org/committee/48856.html
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
148
de documentos normativos publicados pelo Conselho Internacional de
Arquivos [CIA] (Bustelo Ruesta, 2012).
Assim, no âmbito da normalização internacional, na área dos ar- qui-
vos, a primeira orientação de peso emanada da TC46/SC11 terá sido defini-
da pela ISO 15489:2001, traduzindo-se esta pela ideia de inclusão, na gestão
documental, de processos e controlos documentais, logo desde a criação do
documento ou até mesmo antes da sua produção e tendo como principal ob-
jetivo la integración de la gestión documental en los procesos de trabajo (Bustelo
Ruesta, 2012, p. 43). Verifica-se, assim, a necessidade de um afastamento de
práticas que até então prescreviam - ou postergavam - a realização de ativi-
dades de organização e de representação da informação, para um momento
posterior à integração dos documentos nos arquivos tidos como definitivos.
Conforme adiante se verá, a identificação e o mapeamento dos processos
desenvolvidos nas organizações seriam contemplados alguns anos mais tarde,
pelo Informe Técnico ISO TR 26122, datado de 2008.
Moro Cabero e Llanes Padrón (2018) avançam com a ideia de que
o conjunto de normas de que fazem parte a ISO TR 26122:2008 e a ISO
15489:2001 respondem à necessidade de construir, implementar e certificar
calidad y excelencia empresarial (Moro Cabero; Llanes Padrón, 2018, p.
214), uma vez que grande parte dos arquivos são entendidos como uni-
dades y centros de información cuya administración está sujeta a rendición de
cuentas, en las que se incluye un interés por demostrar gestión de calidad y exce-
lencia (Moro Cabero; Llanes Padrón, 2018, p. 214). E citam Smit (2013),
para referirem o novo perfil profissional que o arquivista deverá assumir, à
cautela destas normativas: tornar-se também ele/ela um gestor da qualida-
de (Smit, 2013 apud Moro Cabero; Llanes Padrón, 2018, pp. 216-217).
Também em Portugal, a relação dos arquivistas e da Arquivística
com a normalização esteve inicialmente vocacionada para a descrição em
arquivos, com recurso às normas ISAD (G) e ISAAR (CPF), emanadas
do CIA, e para a gestão documental, balizada pela publicação de portarias
institucionais de avaliação, seleção e eliminação de documentos. Freitas
(2012) identificou alguns desses marcos da normalização desenvolvidos
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
149
pela autoridade arquivística nacional5, destacando, nomeadamente, o
“Manual para a gestão de documentos”, tendo considerado muito válidos
os esforços desta entidade, sobretudo entre a última década do século XX e
a primeira década do século XXI, voltados para a publicação de instrumen-
tos “capazes de regular e orientar as práticas de gestão documental no país,
quer seja nos arquivos convencionais, quer seja nos arquivos eletrônicos
(p. 173).
Na Europa, será, sem dúvida, no início do século XXI que se as-
sistirá ao grande aumento de publicações normativas, num movimento
impulsionado pelo ambiente digital e pela necesidad de interconectividad e
interdependencia, y la presión cada vez mayor para el acceso a la información
y la transparencia en las organizaciones (Bustelo Ruesta, 2012, p. 42).
O aparecimento, em Portugal, da NP 4438-1-2, em 2005, será um
marco para a gestão documental / informacional. A Norma apresenta-se
como um guia que contribui para a gestão dos documentos numa perspe-
tiva funcional e em consonância com as normas de Qualidade, ISO 9001
e ISO 14001. O seu aparecimento decorre da produção internacional da
ISO 15489-1, tendo esta originalmente resultado, como sabemos, da ne-
cessidade de disciplinar a situação caótica vivida nos arquivos australianos6.
Quanto à sua orientação metodológica, segundo a análise de Sousa (2022):
o vetor de propagação da abordagem funcional e da análise
funcional foi a primeira versão, de 2001, da norma ISO 15.489-1,
que recomendava, visivelmente, que o desenvolvimento do plano
Primeiramente, Direção-Geral dos Arquivos [DGARQ] e, posteriormente, Direção-Geral do Livro, dos
Arquivos e das Bibliotecas [DGLAB].
Como sabemos, a evolução da Arquivística nos Estados Unidos da América e Austrália não pode ser
dissociada do facto dos documentos da Administração se encontrarem, nestes países, muito mais
desorganizados e de não se ter colocado em prática, por não se aplicar, os princípios do respeito pelo fundo
e da proveniência, como acontecia na tradição secular da Arquivística europeia - que tinha já fornecido o
enquadramento teórico e conceitual necessário ao trabalho arquivístico. Deste modo, o aparecimento de
conceitos como records group, records management e archival appraisal forneceu aos arquivistas americanos
e australianos as ferramentas necessárias para a resolução de um problema urgente. Tanto assim, que, em
1947, o Congresso americano cria um grupo específico destinado ao problema da records management. E,
em 1950, através da promulgação da Lei de Arquivos pelo governo norte-americano fica estabelecida a
doutrina” da Records Management que priorizava a eficácia administrativa, distinguindo-a da abordagem
teórica e metodológica dos documents - documentos com valor histórico. Para uma muito atual e completa
abordagem teórico-histórica da proposta de avaliação, na ótica australiana, sugere-se a consulta de Silva e
Parrela (2024).
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
150
de classificação de documentos de arquivo fosse baseado em uma
análise de funções, atividades e processos de trabalho. Em seguida a
ISO 26122:2008, intitulada Análise dos processos de trabalho para a
gestão de documentos, trouxe orientações sobre como proceder a uma
análise funcional das organizações. (p. 7) [a itálico, no original]
Em termos estruturais, a NP 4438-1-2:2005 apresenta um conjunto
de recomendações úteis na implementação de sistemas de gestão documen-
tal, assegurando que os documentos são criados, organizados e arquivados
de forma pertinente, cumprindo objetivos de eficiência [e eficácia] organi-
zacional, contemplando, para o efeito, entre outras, as seguintes ações: (i)
determinação dos documentos que devem ser produzidos em cada proces-
so de negócio e da informação que devem conter; (ii) decisão sobre a forma
e a estrutura dos documentos a produzir e integrar no sistema de arquivo
e sobre tecnologias a utilizar; (iii) “identificação e avaliação de oportunida-
des para melhorar a eficácia, eficiência ou qualidade dos processos, decisões
e acções, nomeadamente quando tal possa resultar de uma mais adequada
produção ou gestão de documentos de arquivo.” (IPQ, 2005a, p. 14) [su-
blinhados nossos]
Como se nota, no excerto anterior, esta norma possui toda uma no-
menclatura própria e volta-se para a questão da eficácia das organizações
e dos arquivos. Considerando ser este um tema atual e premente nas polí-
ticas de modernização administrativa do Estado, cremos ser também esta
uma discussão que convém acompanhar.
A necessidade de reformas na AP e, consequentemente, de moderni-
zação administrativa concretizou-se em dois momentos importantes, que
pela mão de C. G. da Silva, estudioso da matéria, trazemos à colação.
Inicialmente, a Lei de Bases da Reforma Administrativa do II Governo
Constitucional, de 1978, instituiu como “objetivos a racionalização dos
circuitos, a comodidade do público, a simplificação de processos [e de pro-
cedimentos], a generalização dos serviços de informação e a desburocrati-
zação dos serviços” (Silva, 2008, p. 3). Mais tarde, entre os anos de 1983 a
1985, o IX Governo Constitucional centrou-se na satisfação das necessida-
des dos utentes e no reconhecimento dos seus direitos. Previa-se, para esse
efeito, a adoção de sistemas que permitissem ter conhecimen- to sobre o
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
151
andamento e resolução dos processos e realizar reclamações, preconizando
a melhoria e a valorização dos serviços de atendimento e a prestação gene-
ralizada dos mesmos aos cidadãos (Silva, 2008)7.
Nesta questão da modernização administrativa, ainda que os
objetivos estabelecidos nos diferentes momentos não sejam muito
diferentes, assistiu-se a uma evolução da terminologia e da semântica.
Para Silva (2008), o conceito de modernização administrativa enquanto
prestação de serviço eficaz, atendimento humanizado, satisfação atempada
e célere das solicitações dos utentes” (p. 4) evolui ao encontro do que
preconiza a Qualidade - que perspetiva a ligação entre a administração e os
administrados como uma relação entre as organizações e os seus clientes8.
Por conseguinte, a partir da década de 90 do século XX, a Qualidade
passa a integrar o léxico das políticas de modernização e de reforma
administrativa, aliada, agora, ao eGovernment (Sociedade da Informação)
e ao “Plano Tecnológico9. Paralelamente, surge legislação que tem como
objetivo a normalização de processos e procedimentos. A Arquivística e os
arquivistas portugueses não estiveram alheios a este contexto, passando a
incluir esses temas nas suas preocupações e nas agendas de pesquisa e de
trabalho (Silva, 2008).
No que respeita à forma como o órgão coordenador nacional acom-
panhou esses assuntos, segundo Pedro Penteado (2015), que constitui um
importante referente para o estudo dessas matérias, em 2005 tem início
uma “mudança de paradigma” na política arquivística nacional, desenca-
deada pelo diagnóstico aos arquivos intermédios da administração central,
realizado uns anos antes. O diagnóstico permitiu identificar “um conjunto
de práticas deficitárias na gestão da informação arquivística, que era neces-
sário alterar rapidamente” (p.123). Nesse sentido, foi desenhado pela en-
Segundo Silva (2008), tal reforma passaria pela simplificação e desburocratização, sofrendo um grande
avanço, em 1986, com a criação do Secretariado para a Modernização da Administração [SMA]. O SMA
privilegiou a inovação e modernização administrativa pública, através de medidas que tinham como
objetivos: a melhoria do atendimento e da informação prestada ao cidadão e a simplificação de formulários,
processos e procedimentos (Silva, 2008).
Ainda, segundo Silva (2008, p. 4), a Qualidade, pelo menos desde 1999, é entendida como “uma filosofia de
gestão que permite alcançar uma maior eficácia e eficiência dos serviços, a desburocratização e simplificação
de processos e procedimentos e a satisfação das necessidades implícitas do cidadão”.
Cujo documento de apresentação pode ser consultado em: https://anibalcavaco-silva.arquivo.presidencia.
pt/archive/doc/PlanoTecnologico.pdf.
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
152
tão DGARQ um conjunto de estratégias para promover a qualificação dos
sistemas de arquivo nacionais. Penteado (2015) elenca os seis eixos estraté-
gicos e as medidas incluídas em cada um deles, dos quais apenas citaremos
aqueles diretamente relacionados com as matérias de que nos ocupamos.
Neste sentido, relativamente ao primeiro eixo, que teve como linha
de ação a “Definição de políticas e planos nacionais e participação em
programas de apoio dos arquivos”, Penteado (2015) acaba por concluir
que nenhum dos estudos que promoviam a modernização administrativa
no setor da informação e dos arquivos deu origem a legislação publicada,
embora tenham sido realizados vários estudos “com o objetivo de proceder
à renovação da legislação arquivística e à superação das suas lacunas e inco-
erências, de acordo com as principais tendências e normativos internacio-
nais neste domínio” (p. 123). O autor destaca, no entanto, alguns es- tudos
traduzidos em publicações relevantes que aí tiveram origem, a saber:
(i) o estudo “Recomendações para uma gestão da informação respon-
sável e valorizada”, que tinha como objetivo “garantir requisitos obrigató-
rios de qualidade e fidedignidade dos sistemas de arquivo dos organismos
públicos, de acordo com as normas da família ISO 30300:2011” (Pentea-
do, 2015, p.123); (ii) a NP 4438-1-2:2005; (iii) o Modelo de Requisitos
[MoReq], datado de 201010; a (iv) ISO 14721:2003; (v) o instrumento
Metainformação para a interoperabilidade semântica (MIP); e, por fim,
(vi) a Macroestrutura funcional (MEF)11. O autor refere, ainda, “políticas
específicas, como a de preservação digital, centrada no “Repositório de
Objetos Digitais Autênticos” [RODA], concebido com base no modelo
OAIS (Open Archival Information System, da ISO 14721) (Penteado, 2015,
p. 123), bem como a tradução de obras e de documentos técnicos de su-
porte a estes referenciais, como foi o caso do estudo Eletronic Records: a
workbook for archivists, do CIA.
No que concerne ao “Desenvolvimento de ações especiais de su-
pervisão”, terceiro eixo estratégico descrito por Penteado (2015), verifi-
ca-se a inclusão da ISO 19011:2011 nas auditorias realizadas a entidades
10 Modelo europeu que define os requisitos para a gestão de registos eletrónicos num sistema de gestão
documental. Definição disponível em https://apdsi.pt/glossario/m/ modelo-moreq/
11 Estes dois últimos instrumentos serão abordados mais adiante.
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
153
da AP, competência que o organismo coordenador adquiriu em 2008. O
sex- to eixo estratégico, por sua vez, faz referência ao “aprofundamento
de soluções e instrumentos transversais de gestão de documentos”, com o
desenvolvimento de um projeto cooperativo e incremental “que permitiu a
identificação e descrição dos processos de negócio transversais” (Penteado,
2015, p. 126) à Administração Central do Estado e à Administração Local,
assunto que examinaremos adiante.
Sem muita dificuldade, verifica-se que a AP portuguesa se tem
confrontado com a necessidade de desenvolver processos e produtos que
permitam a interoperabilidade entre os vários sistemas de informação dos
seus organismos. Isso ocorre, na medida em que os modelos de gestão
circunscritos a uma única organização vão sendo ultrapassados e substituídos
por sistemas de informação integrados, que permitem a utilização de
plataformas comuns na tramitação dos processos. No seguimento das
palavras de Lourenço, Henriques e Penteado (2012), consideramos que a
AP deixou de se centrar em si própria e de se ter como finalidade, passando
a encarar-se como um sistema destinado a prestar serviços ao cidadão e
também às empresas. Há ainda a considerar que a interoperabilidade entre
as diversas administrações públicas e os seus serviços eletrónicos é, desde
há duas décadas, uma prioridade para a União Europeia [UE], que tem
desenvolvido “legislação, políticas, estratégias, programas, documentos
orientadores e instrumentos que promovam a implementação generalizada
de mecanismos de interoperabilidade12 (Lourenço et al., 2012, p. 2). Nesse
entendimento, os organismos da AP são incitados a aderir a plataformas
comuns ou a subscrever sistemas de informação capazes de comunicar com
outros sistemas (Lourenço et al., 2012).
Na prossecução desses objetivos, ao nível da UE estabeleceram-se qua-
tro patamares de interoperabilidade, a saber: jurídica, organizacional, semân-
tica e técnica. A DGLAB13 entendeu ter um papel particular na interopera-
12 Vide: Decisão n. o 922/2009/CE do Parlamento Europeu e do Conselho, de 16 de Setembro de 2009,
sobre soluções de interoperabilidade para as administrações públicas europeias (ISA) (Texto relevante para
efeitos do EEE) (OJ L 260 03.10.2009, p. 20, ELI: http://data.europa.eu/eli/dec/2009/922/oj).
13 A DGLAB é o órgão responsável pela execução e coordenação da política ar- quivística nacional. No espaço
das suas competências enquadram-se: a participação em projetos governamentais no âmbito do governo
eletrónico, a racionalização e o apoio a sistemas de arquivos organizacionais no setor Público (DGLAB,
2023).
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
154
bilidade semântica, desenvolvendo o Programa Administração Eletrónica e
Interoperabilidade Semântica [PAEIS] e articulando as políticas nacionais de
modernização administrativa, aliando-as às políticas europeias.
O PAEIS veio então dar continuidade a um conjunto de instru-
mentos de apoio à gestão integrada de documentos na AP iniciados pela
DGARQ. Entre eles, no âmbito do desenvolvimento de soluções de inte-
roperabilidade semântica para a AP, a DGARQ formalizou, em 2006, o
Programa “Governo eletrónico e interoperabilidade”.
O primeiro projeto a vingar nesta linha de orientação foi o MIP
(Metainformação para a Interoperabilidade), concretizado em 2007, que
consistiu na definição de um perfil de metainformação para a gestão inte-
grada dos documentos que circulam na Administração. Trata-se de um es-
quema de metainformação que reúne um núcleo base de elementos aceites
e aplicáveis por diferentes serviços de informação e que asseguram suficien-
te informação descritiva para um reconhecimento uniforme do recurso
(Lourenço et al., 2012). Em suma, consiste num “conjunto de elementos
de metainformação compilados pela DGARQ com o intuito de suportar a
interoperabilidade semântica no contexto da produção de informação den-
tro do Governo Eletrónico” (Lourenço; Henriques; Penteado, 2013, p. 4).
O segundo momento do Programa antes referido, consistiu na normaliza-
ção de valores para os elementos que identificam o recurso de informação,
dando particular atenção ao elemento “código de classificação”, uma vez
que é essencial para os processos de gestão da informação no setor público,
para a troca de informação entre os serviços e para o processo de avaliação
arquivística (Lourenço et al., 2012).
Envolto nesse mesmo processo, inicia-se, em 2007, pela mão da
DGARQ, o projeto Macroestrutura Funcional para a Administração
Central do Estado (MEF-ACE). A MEF, como é conhecida, enquanto re-
presentação conceitual de funções desempenhadas por organizações do se-
tor público, desenvolve-se por níveis, numa estrutura hierárquica, em que
as instâncias de primeiro nível representam as funções dos organismos e as
instâncias de segundo nível representam as subfunções em que as primeiras
se decompõem. A estes, segue-se ainda um terceiro nível em que são repre-
sentados os processos de negócio. Finalmente, no quarto nível, em caso de
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
155
haver e a título excecional, são representadas as subdivisões dos processos
de negócio que necessitam de ser distinguidas para efeitos de avaliação.
Considerando a sua relação com o predecessor MIP, a MEF consti-
tui a normalização do elemento obrigatório, correspondente, no MIP, ao
código de classificação”. O seu propósito fundamental será identificar o
posicionamento do recurso de informação no contexto funcional que o
organismo desempenha, tendo este contexto de ser entendido transver-
salmente e numa perspetiva interorganizacional (Lourenço et al., 2013, p.
4). Com este documento, pretende-se atingir três objetivos principais, que
passamos a citar, tal como no documento consultado:
1. [d]isponibilizar um esquema de organização das funções
da Administração, com uma sintaxe e significados passíveis de
serem compreendidos da mesma forma por todos os serviços
públicos, o qual deverá ser adotado em todos os organismos da
Administração do Estado na classificação da sua informação/
documentação de arquivo; 2. [p]otenciar uma maior eficácia na
gestão da informação do sector público, facilitando a integração
de sistemas informacionais, incrementando a partilha de recursos
e serviços (como por ex. o serviço de classificação, partilhado
entre sistemas, segundo o modelo do MOREQ 2010, como
referenciado anteriormente) e alargando os níveis de acesso e de
transparência; 3. [c]onsolidar a perceção externa de um know-
how específico da Arquivística e firmar a posição dos arquivistas
como parceiros necessários na qualificação dos processos de
modernização administrativa e governo eletrónico (Lourenço &
Penteado, 2017, s.p.).
Torna-se claro que o órgão coordenador nacional procura assim cum-
prir uma das funções arquivísticas imprescindíveis no desenvolvimento de
instrumentos que visam a interoperabilidade semântica: a classificação.
Partindo deste pressuposto, adentramos pela análise de um outro
projeto que decorre da MEF e que é explanado no documento produzido
pela DGLAB: “Orientações básicas para o desenvolvimento dos 3.ºs ní-
veis em planos de classificação conforme à macroestrutura funcional”. De
acordo com este documento, a MEF é um modelo conceitual que serve de
instrumento de trabalho que vem possibilitar, posteriormente, a harmoni-
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
156
zação dos processos de negócio das diferentes entidades da AP (Lourenço
et al., 2013). Consideramos que a introdução do termo “processo de ne-
gócio”, no terceiro nível de classificação, conforme dissemos mais atrás, é
também reveladora da opção pela classificação funcional - ao introduzir a
atividade (activity), que se reflete no termo “negócio” e se materializa no
processo de negócio”, sendo este último definido do seguinte modo: “con-
junto estruturado de atividades que produzem um produto ou serviço, no
exercício de uma função, sobre agentes, relativo a objetos e em determina-
do contexto” (Lourenço et al., 2013, p. 15). Mas não será apenas isto a es-
tar em causa, porque, como referimos anteriormente, será esta abordagem
também reveladora do peso que a Qualidade passará a ter na Arquivística,
enquanto interveniente relevante para a prossecução de políticas de mo-
dernização administrativa nos Estados e nas organizações.
Se bem observamos, a própria definição de classificação funcional - a
system for organizing materials on the basis of activity or program (function)
ou [t]he process of placing materials into such a system (SAA, 2024) - dá con-
sistência à opção pelo esquema preferido pela autoridade nacional para a
organização das funções da AP (MEF); não só pela introdução do termo
activity, fundamental para o desenvolvimento de esquemas funcionais de
classificação, mas também pelo facto de afastar-se da tentação que repre-
sentam os esquemas baseados na estrutura organizativa das instituições,
pouco persistentes a médio e longo prazos, aproximando-se das funções,
isto é, do que se faz e para que se faz. Resulta assim óbvio ser esse o cami-
nho certo no desenvolvimento de um esquema de classificação para a AP.
Um outro instrumento de enorme relevância, concretizado por gru-
pos de trabalho coordenados pela DGLAB e por ela disponibilizados, é a
Lista Consolidada [LC]. A LC é uma estrutura hierárquica de classes que
representam as funções, as subfunções e os processos de negócio executa-
dos pela AP, contemplando a sua designação, descrição e avaliação. Tem
como objetivo servir de referencial para o desenvolvimento de instrumen-
tos organizacionais ou pluriorganizacionais para a classificação e a avalia-
ção da informação pública (Lourenço et al., 2019a).
Ainda, mais recentemente, em 2015-2016, integrado no PAEIS e
dando continuidade ao MIP, à MEF e à LC, vem à luz o projeto intitulado
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
157
Avaliação Suprainstitucional da Informação Arquivística (ASIA), também
coordenado pela DGLAB e inspirado no trabalho pioneiro realizado nos
Arquivos Nacionais do Canadá14, no âmbito da macroavaliação. De modo
sumário, diremos que o projeto ASIA permite associar a classificação funcio-
nal à avaliação, ao determinar os prazos de conservação e o destino final dos
documentos, com as devidas justificações. Trata-se de um instrumento am-
bicioso, único e comum de avaliação da documentação produzida pela AP.
A lógica que governa o modelo é a de que a avaliação suprainsti-
tucional da informação arquivística atribui características igualmente su-
prainstitucionais ao processo de negócio, que, neste caso, assume um pa-
pel central no trabalho arquivístico. Aqui, verifica-se um cruzamento fértil
do projeto ASIA com a LC, ao integrarem-se às decisões de avaliação à
informação constante dos processos de negócio que a compõem, deter-
minando-se os prazos de conservação administrativa e o destino final e
adicionando-se a distinção entre donos e participantes dos processos. Tal
nomenclatura será imprescindível para diferenciar papeis, atribuindo aos
primeiros, no âmbito do destino final, a responsabilidade pela guarda e
preservação da informação inteira e completa, necessária à compreensão
dos documentos no presente e no futuro e, aos segundos, o seguimento
desses mesmos processos.
Por fim e no desenrolar de todo esse longo caminho, surge o proje-
to Classificação e Avaliação da Informação Arquivística [CLAV], que vem
permitir a concretização do trabalho iniciado com o MIP, a MEF e a LC.
A CLAV, enquanto plataforma online resultante15, vem possibilitar que as
diferentes entidades da AP que aderiram ao PAEIS tenham acesso a um
conjunto de instrumentos transversais para a classificação e a avaliação da
informação produzida e recebida nos organismos públicos. Ela surge como
Projeto “M51-CLAV – Arquivo digital: Plataforma modular de classificação
e avaliação da informação pública”, no percurso da modernização adminis-
trativa do país, inserida no programa Simplex+, programa que tem como ob-
14 O BASCS ou business activity structure classification system é um classification system developed and designed
at the National Archives of Canada that looks at functions in terms of policies, practices, and initiatives (SAA,
2023). Este sistema “tem uma hierarquia de três elementos destinada a caracterizar os contextos de negócio
organizacional: função, subfunção, atividade” (Sousa, 2022, p. 14).
15 Consultável em: https://clav.dglab.gov.pt/
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
158
jetivo simplificar e desmaterializar os processos administrativos (Lourenço;
Ramalho; Gago; Penteado, 2019b). Para além de estar disponível para as
entidades públicas, pretende ser uma plataforma em acesso aberto promo-
vendo, desta forma, a transparência e a cidadania no contexto da AP16. Pela
sua relevância, será objeto de nossas análises, no ponto que se segue.
4. CLAssifiCAçãO e AVALiAçãO DA infORMAçãO À
LUZ DOs PROCessOs De neGÓCiO: POR UMA GesTãO
DA infORMAçãO efiCAZ nA ADMinisTRAçãO
PÚBLiCA PORTUGUesA
Do estudo que realizamos e tendo em conta os objetivos pretendi-
dos, consideramos serem os termos “processo de trabalho” e “processo de
negócio” usados como sinónimos, nalguns contextos, ou quase-sinônimos,
noutros. Por isso mesmo será importante apresentar, para um melhor es-
clarecimento sobre o seu significado, a forma como aparecem descritos em
alguns dos documentos reguladores e orientadores da gestão documental17.
A norma UNE ISO TR/26122:2008 define processo de traba-
lho17 como sendo [u]n o más secuencias de operaciones que se requieren
para producir un resultado y que está sujeto a unas determinadas reglas o
procedimientos (Asociación Española de Normalización y Certificación
[AENOR], 2008, p.7).
Por sua vez, no documento da DGLAB que fornece as Orientações
Básicas para o Desenvolvimento dos 3.ºs níveis em planos de classificação con-
formes à Macroestrutura funcional “[e]ntende-se (…) um processo de negócio
como uma sucessão ordenada de atividades interligadas, desempenhadas para
atingir um resultado definido (…)” (Lourenço et al., 2013, p. 11).
16 A divulgação da LC e das tabelas de seleção através de dados abertos permitirá ainda uma maior
conformidade da aplicação dos requisitos de gestão da informação com o Regulamento Geral da Proteção
de Dados [RGPD]. Estes instrumentos apoiam a contextualização dos dados pessoais, no âmbito dos
respetivos processos de negócio, indicam a finalidade para o seu tratamento e a fundamentação para a sua
eliminação ou conservação. (Lourenço et al., 2019b, p. 42)
17 No original, proceso de trabajo. Na língua inglesa, work process.
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
159
Verificando, de facto, haver uma nítida aproximação entre as defi-
nições dadas em ambos os documentos, optamos por seguir o vocabulário
preferido pela autoridade arquivística nacional. Consequentemente, deste
ponto em diante, usaremos apenas o termo processo de negócio. Quanto
ao método para a identificação dos mesmos, observamos que a UNE ISO
TR/26122:2008 apresenta duas fases de análise: funcional e sequencial;
devendo ambas ser antecedidas por um estudo do contexto em que a or-
ganização realiza as suas atividades, em consonância com o que também
propõe a NP 4438-1-2:2005.
Ainda, conforme a UNE ISO TR/26122:2008, os objetivos que nos
levam à análise funcional e sequencial dos processo de negócios prendem-
se com a necessidade de identificar
[...]la relación entre los procesos de trabajo y sus contextos
de negocio; la relación entre los procesos de trabajo y las reglas
que rigen su aplicación (derivadas del marco reglamentario más
relevante); el desglose jerárquico de los procesos de trabajo en
sus componentes o partes constitutivas; y la interdependencia
secuencial entre procesos de trabajo diferenciados o entre simples
operaciones (AENOR, 2008, p. 5).
Nas “Orientações básicas para o desenvolvimento dos 3.ºs níveis em
planos de classificação conformes à macroestrutura funcional” são também
enumerados os requisitos necessários à identificação dos processos de ne-
gócio, que transcrevemos integralmente:
i) o seu enquadramento no âmbito de uma função e subfunção
MEF (um processo de negócio não existe isoladamente, tem de
ser compreendido numa relação hierárquica, dependente de uma
determinada função da Administração); ii) A existência primária
de 3 componentes: (1) input e output bem definidos, resultando
num produto ou serviço; (2) conjunto estruturado de atividades
(ações/atos específicos que devem ser realizados para que o processo
seja executado, podendo estar subjacentes a uma tramitação
pré-definida); (3) intervenientes para a sua concretização (…)”
(Lourenço et al., 2013, p. 16).
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
160
Conforme observamos, os processos de negócio encontram-se en-
voltos nas funções que os determinam, daí resultando o seu enquadramen-
to teórico-metodológico nas classificações funcionais. Para a NP 4438-
1:2005, a classificação dos documentos consoante as funções / atividades
promove a eficácia na condução de qualquer negócio, apresentando-se
como um instrumento indispensável na gestão de documentos de arquivo
e com enormes potencialidades para: agregar documentos relacionados à
mesma atividade; assegurar a sua designação coerente e a sua recuperação
em conjunto; definir regras e níveis de proteção e de acesso a utilizadores;
atribuir documentos e responsabilidades sobre documentos; determinar
prazos de retenção e conservação (IPQ, 2005a, p.22). Nos seus intentos
classificativos, podem as organizações determinar diferentes níveis de con-
trole da classificação [e da informação], em função dos seus objetivos de
negócio (IPQ, 2005a, p. 22).
Conforme dissemos mais atrás, Sousa (2022) considera a primeira
versão da norma ISO 15489-1, de 2001, como o primeiro instrumento de
propagação da abordagem da análise funcional, tendo esta sido comple-
mentada pela UNE ISO TR/26122, datada de 2008.
Na aceção terminológica, a functional classification é definida no
SAA (2024) como a system for organizing materials on the basis of activi- ty
or program (function), ou como [t]he process of placing materials into such a
system (SAA, 2024).
Nesse mesmo sentido e segundo as “Orientações para a aplicação
de tabela de seleção derivada da lista consolidada” (Lourenço et al., 2019,
p. 11) percebemos que no atual contexto informacional “[a] adoção de
um esquema de classificação que assenta nas funções e nas subfunções,
bem como nos processos de negócio, impõe-se, cada vez mais, como um
pré-requisito para a modelação de sistemas de informação organizacionais
(Lourenço et al., 2019a, p. 11). No glossário desse mesmo documento, a
classificação é definida de uma forma muito completa. Trata-se
[d]a operação que visa a organização e representação da informação,
tendo em vista a sua recuperação. É também a base para a avaliação
da informação, constituindo-se como condição para a eficácia e
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
161
a eficiência administrativa. A classificação é suportada por um
esquema de classes pré-definidas e por um conjunto de regras ou
instruções de aplicação. Permite associar um documento ou uma
agregação a uma classe de 3.º ou, quando existente, de 4.º nível de
estrutura de classificação fixada na Tabela de Seleção (p. 94).
Para que não subsistam dúvidas fundamentais quanto à sua natu-
reza, aos seus objetivos e à sua aplicabilidade, procuraremos ilustrar os
três níveis que compõem a LC proposta para a AP portuguesa, onde será
possível visualizar - em diversas circunstâncias - o seu caráter funcional e
hierárquico. Assim, a título meramente descritivo, apresentamos, na figura
1, o 1.º nível, constituído por 19 classes, que correspondem às 19 funções
identificadas no âmbito da produção documental / informacional da AP,
tendo-lhes sido atribuído pelo órgão coordenador, e apenas por ele, um
código numérico composto por três dígitos seguido da respetiva designa-
ção de classe.
Figura 1 - Esquema ilustrativo de todas as classes identificadas na LC
Fonte: DGLAB (2023). Disponível em: https://clav.dglab.gov.pt/classes/consultar
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
162
As 19 classes identificadas como 1.ºs níveis de classificação, decom-
põem-se, num 2.º nível, em 56 diferentes subclasses delas derivadas. Para
a identificação dessas diferentes subclasses, são acrescentados mais dois dí-
gitos aos códigos de 1.º nível existentes, dos quais também herdam o n.º
identificador, precedidos do sinal de pontuação [.], convencionado para o
efeito. Na sequência de figuras a seguir (figuras 2, 3, 4, 5, 6 e 7), podem
ser visualizados os 19 níveis e os 56 subníveis, com os respectivos códigos
atribuídos pelo órgão coordenador nacional.
Figura 2 - LC. Esquema ilustrativo das classes 100 e 200 e respetivas
subclasses
Fonte: DGLAB (2023). Disponível em: https://clav.dglab.gov.pt/classes/consultar
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
163
Figura 3 - LC. Esquema ilustrativo das classes 250, 300, 350 e respectivas
subclasses
Fonte: DGLAB (2023). Disponível em: https://clav.dglab.gov.pt/classes/consultar
Figura 4 - LC. Esquema ilustrativo das classes 350, 400, 450, 500 e res-
petivas subclasses
Fonte: DGLAB (2023). Disponível em: https://clav.dglab.gov.pt/classes/consultar
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
164
Figura 5 - LC. Esquema ilustrativo das classes 500, 550, 600 e respetivas
subclasses
Fonte: DGLAB (2023). Disponível em: https://clav.dglab.gov.pt/classes/consultar
Figura 6 - LC. Esquema ilustrativo das classes 650, 700, 710, 750 e res-
petivas subclasses
Fonte: DGLAB (2023). Disponível em: https://clav.dglab.gov.pt/classes/consultar
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
165
Figura 7 - LC. Esquema ilustrativo das classes 750, 800, 850, 900, 950 e
respetivas subclasses
Fonte: DGLAB (2023). Disponível em: https://clav.dglab.gov.pt/classes/consultar
Finalmente, quanto ao 3.º nível de classificação, responsável pela
materialização de todos os processos de negócio já identificados, carac-
terizados e integrados nas respectivas subclasses e classes da LC, refira-se
que para compor os respectivos códigos são acrescentados ainda mais três
dígitos à codificação herdada dos dois níveis superiores, dos quais encon-
tram-se separados pelo mesmo sinal de pontuação [.]. As designações des-
ses processos (que, no todo, já ultrapassam as mil entidades) correspondem
às atividades que representam. Na impossibilidade de visualizarmos cada
um desses processos, selecionamos apenas três - 800.20.001, 800.20.002
e 800.20.500 - , que se encontram classificados na classe 800, subclasse
800.20, com os quais ilustraremos a descrição realizada (figura 8).
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
166
Figura 8 - LC. Esquema ilustrativo da classe 800, respectivas subclasses e
exemplos de processos de negócio
Fonte: DGLAB (2023). Disponível em: https://clav.dglab.gov.pt/classes/consultar
Transpondo o exemplo anterior para um contexto real de aplicação,
verificamos que a compreensão da forma como se organiza a LC permite
a identificação do processo de negócio acompanhado da sua classificação,
uma vez que o 1.º e o 2.º nível da LC (que correspondem, respetivamen-
te, à classe e à subclasse) servem apenas para enquadrar funcionalmente
o documento / informação, sendo este, realmente, classificado, enquanto
ocorrência, no 3.º nível (o do processo de negócio).
Apesar da complexidade, o exercício de classificar pela LC assente na
plataforma CLAV é facilitado pela possibilidade de realizar pesquisas pelo
código, pelo título, pelas notas de aplicação e pelos seus exemplos ou pelos
termos de índice, conforme a visualização disponível na figura 9. O recurso
à “pesquisa avançada” permite que a recuperação da informação seja, em
tese, ainda mais eficaz, dada a possibilidade de utilização dos operadores
booleanos que são habituais nesses casos.
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
167
Figura 9 - Apresentação do motor de pesquisa usado para a consulta da
LC
Fonte: DGLAB (2023). Disponível em: https://clav.dglab.gov.pt/
Na figura 10, a seguir, a título exemplificativo, apresentamos o
menu inicial dos campos disponíveis para o mesmo processo de negócio
800.20.200: Avaliação e edição científica, pertencente à classe 800, sub-
classe 800.20. A este menu acede-se pelo separador “Operações” e após a
recuperação do processo de negócio na LC.
Figura 10 - Apresentação do menu inicial do processo de negócio
800.20.200, na LC
Fonte: DGLAB (2023). Disponível em: https://clav.dglab.gov.pt/classes/consultar/ c800.20.200
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
168
Como se pode visualizar na figura 11, a seguir, os campos “Descrição”,
“Notas de aplicação”, “Exemplos de notas de aplicação”, “Notas de exclu-
são” e “Termos de índice” disponibilizam informação útil, que nos permite
identificar e definir o processo de negócio referenciado, distinguindo-o
de outros. A “Descrição” “prevê a identificação genérica da sequência de
atividades, do início ao termo do processo de negócio” (Lourenço et al.,
2019a, p. 96), enquanto os termos de índice, as notas e os exemplos de
aplicação ajudam a compreender os casos em que o mesmo poderá ser
aplicado, contrastando-se esta informação com as notas de exclusão, cuja
função será a de revelar o contrário. No topo do descritivo, e igualmente
importante, encontra-se o campo Estado do processo, que poderá estar
ativo, inativo ou em revisão, sendo esta última a opção verificada no caso
em apreço (figura 11).
Figura 11 - Campo Descritivo da Classe 800, relativo ao processo de
negócio 800.20.200
Fonte: DGLAB (2023). Disponível em: https://clav.dglab.gov.pt/classes/consultar/ c800.20.200
Relativamente ao mesmo processo de negócio, na figura 12, eviden-
ciamos, ainda, os campos relacionados com o “Contexto de Avaliação”,
que serão os que se referem à Tabela de Seleção [TS] incorporada à LC.
Em situações reais, devemos recorrer à informação aí disponibilizada para
nos apoiarmos nas nossas decisões nesse âmbito. Para o efeito, será crucial
identificar o “Dono do processo”, pois será quem irá conduzir o mesmo,
do início ao fim, sendo também o responsável pelo produto final e por ga-
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
169
rantir a conservação da informação na sua completude. Também devemos
apoiar-nos no campo “Legislação” para enquadrar os respectivos Prazos
de Conservação Administrativa [PCA] a considerar, no âmbito do pro-
cesso de negócio em causa, bem como o seu Destino Final [DF]. Atente-
se para a utilidade prática dos campos “Tipo de processo” e “Processos
Relacionados”. No que respeita ao primeiro (tipo de processo), este pode-
rá ser comum, quando ocorrer em qualquer entidade pública (DGLAB,
2023), ou específico, se a sua ocorrência for registrada em apenas uma ou
algumas dessas entidades; por sua vez, o campo “Processos Relacionados”,
apresenta os tipos de relação18 que o processo de negócio descrito poderá
ter com outros, também presentes na LC.
Figura 12 - Campo Contexto de Avaliação da Classe 800, relativo ao
processo de negócio 800.20.200
Fonte: DGLAB (2023). Disponível em: https://clav.dglab.gov.pt/classes/consultar/ c800.20.200
Finalmente, na figura 13, podemos identificar o conjunto de ele-
mentos informativos que elencam os critérios que subjazem, na TS, à de-
cisão de avaliação: o prazo de conservação administrativa e a sua forma de
contagem19, a justificação da decisão final (conservação ou eliminação) que
18 Conforme a CLAV (DGLAB, 2023), os tipos de relação verificáveis entre os processos de negócio são
os seguintes: antecessor de; sucessor de; complementar de; cruzado com; síntese de; sintetizado por;
suplemento de; suplemento para.
19 Dependendo do processo de negócio, a contagem do prazo de conservação ad- ministrativa pode assumir
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
170
irá recair sobre o processo de negócio, terminado o referido prazo. Esta
justificação está relacionada com o critério de densidade informacional que
se fundamenta na relação entre processos de negócio ou se encontra no seu
próprio âmbito e, de acordo com Lourenço et al. (2019a, p. 95):
[...] pode manifestar-se das seguintes formas: 1) relação assimétrica
de síntese de informação entre PN ou dentro de um PN (…) que
implica a identificação da classe que sintetiza a informação e da
classe que é sintetizada valorizando a conservação da informação
relativa à primeira e a eliminação da segunda; 2) inexistência
de síntese de informação de um PN noutro PN, que implica a
conservação da informação da classe não recuperável noutra classe.
Figura 13 - Campo Contexto de Avaliação da Classe 800, relativo ao
processo de negócio 800.20.200
Fonte: DGLAB (2023). Disponível em: https://clav.dglab.gov.pt/classes/consultar/ c800.20.200
Terminado o exercício prático, onde pretendíamos exemplificar os
avanços presentemente alcançados no longo e complexo processo que está
por trás da plataforma de classificação e de avaliação da informação pública
em Portugal (CLAV) e da lista que a integra (LC), cumpre reforçar o que
foi dito mais atrás, ou seja, o seu caráter incremental, como, de resto, será o
que ocorre com as outras classificações conhecidas, de onde também deriva
uma das seguintes formas: conforme disposição legal; data de início do procedimento; data de emissão do
título; data de conclusão do procedimento; data da cessação da vigência; data de extinção da entidade sobre
a qual recai o procedi- mento; data de extinção do direito sobre o bem (Lourenço et al., 2019a).
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
171
a aceitação de que a procura da eficácia - e da eficiência - é e será uma tarefa
inacabada ou uma meta a atingir; isto, porque a realidade das organizações
é dinâmica e multifatorial, sendo a última versão de um trabalho, essen-
cialmente, a sua penúltima versão.
5. COnsiDeRAçÕes finAis
As organizações produzem informação e documentos como suporte
e evidência da realização das suas atividades, mas os suportes em que essa
informação se encontra podem variar de papel para ficheiros em vários
formatos, páginas web ou bases de dados. A Arquivística Contemporânea,
para além de, na classificação e avaliação, valorizar a informação social,
também contempla a necessidade de uma adequada gestão e conservação
dos documentos nos seus diversos formatos durante o tempo necessário.
A mudança dos tempos, da tecnologia e dos modos de gestão fizeram com
que o pensamento estratégico integrasse a gestão documental e a gestão
documental integrasse os processos de negócio e a gestão da informação
(Bustelo Ruesta, 2011).
O “salto epistemológico” da Arquivística, no sentido bachelardiano,
teve início na gestão documental e seguiu em direção à gestão da informa-
ção, concretizando-se através da conjugação entre os sistemas de informa-
ção e os sistemas informáticos de suporte. O “salto epistemológico” para a
gestão da informação dá, no fundo, relevo ao uso da informação.
A CLAV, enquanto instrumento incremental e em constante atua-
lização, disponibilizado pela DGLAB, é, por um lado, o resultado de um
processo iniciado ainda pela DGARQ com o MIP, mais tarde MEF e em
articulação com o projeto ASIA (que consistiu na aplicação da macroa-
valiação à AP). A LC teve como modelo teórico inspirador a Arquivística
Funcional e a nível metodológico o trabalho desenvolvido pelos Arquivos
Nacionais do Canadá, tendo sido integrada à plataforma CLAV. Por ou-
tro lado, e estando o processo de negócio no fulcro de toda a ação de-
senvolvida pela gestão documental / informacional, a sua dissecação su-
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
172
portada nas análises funcional e sequencial preconizadas pela UNE ISO
TR/26122:2008, em articulação com a NP 4438-1-2:2005, permite ver
mais e melhor, para além do próprio processo, compreendendo-o numa
visão que atravessa as suas múltiplas relações com outros processos e com
os diferentes contextos de produção.
O exercício exemplificativo proposto, consubstanciado na visão ge-
ral das classes, subclasses e processos de negócio da CLAV, para além de
demonstrar a complexidade inerente à classificação e à avaliação da in-
formação de arquivo na AP, também revelou, ainda que indiretamente,
porque deduzido da sua observação, quais foram, são e serão os imensos
desafios superados e ainda a superar na sua prossecução. Perspectivados
pelas lentes da Arquivística Funcional e da Arquivística Integrada, os mo-
delos referenciais propostos proporcionam uma oportunidade para o trata-
mento dos ativos organizacionais do presente, com vista ao seu acesso, no
futuro. A eficácia das organizações depende, e irá depender, dos objetivos
individualmente estabelecidos, no que respeita à otimização da gestão da
informação de arquivo, sendo as atividades de classificação e de avaliação a
ela inerentes funções complementares e não concorrentes.
RefeRênCiAs
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19 dez. 2024.
TOGNOLI, Natália Bolfarini; GUIMARÃES, José Augusto Chaves. Arquivística
pós-moderna, diplomática arquivística e arquivística integrada: novas abordagens de
organização para a construção de uma disciplina contemporânea. In: ENCONTRO
NACIONAL DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIA DA
INFORMAÇÃO, 11., 2010, Rio de Janeiro. Anais [...] Rio de Janeiro: Enancib, 2010.
p. 1-21. Disponível em: https://brapci.inf.br/#/v/176886. Acesso em: 19 dez. 2024.
177
CAPÍTULO 5
O    
A    
  
   
 
Mariângela Spotti Lopes FUJITA
1. inTRODUçãO
O ponto de partida de uma transformação nunca é imediato, mas
sempre mediado pelo contexto cuja indução é influenciada pelas necessi-
dades de avanços na sociedade humana. Por isso, quando nos referimos a
alguma mudança, que mais à frente reconhecemos como paradigma esta-
belecido, podemos olhar o contexto e verificar que muitas foram as causas
e muitos seres humanos estiveram ligados.
Não é diferente quando nos referimos à Ciência Aberta e a participa-
ção intensa de pesquisadores na preservação da produção de conhecimen-
to. O conhecimento sempre foi e será um bem a ser cuidado e preservado
https://doi.org/10.36311/2025.978-65-5954-650-3.p177-203
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
178
porque é a garantia de sobrevivência humana, a razão de sermos e de viver-
mos. Com o advento da internet e dos documentos digitais, Instituições e
pesquisadores tornaram-se mais preocupados com o lugar do conhecimen-
to e da garantia de preservação e acesso sem intermediários. Quando exis-
tiam apenas documentos impressos e fisicamente localizados sempre foi
realizado por empresas comerciais de bases de dados, bibliotecas e arquivos
e os autores precisavam passar por procedimentos que levavam anos para
se efetivar e a divulgação científica não era sua competência.
Atualmente o direito do autor em enviar seu texto para publicação
sem a mediação de terceiros é possível ser exercido durante o auto arquiva-
mento em sistemas com interface para preenchimento de dados de identi-
ficação do documento e de descrição temática do conteúdo. Essa possibili-
dade surgiu com a criação do ArXiv, originalmente desenvolvido por Paul
Ginsparg (Wikipedia, 2023a) e em Computação e Ciência da Informação
por meio da Biblioteca CiteSeerx em 1997 criada pelos pesquisadores Lee
Giles, Kurt Bollacker e Steven Laurence (Wikipedia, 2023b). As iniciativas
ArXiv e CiteSeerx tornaram-se estruturalmente possíveis em 1999, com
o movimento de acesso aberto por meio da Open Archives Iniciatiative
(OAI) (Van de Sompel; Lagoze, 2000).
O auto arquivamento tem um impacto sociopolítico; é o maior de-
safio do acesso aberto e a solução que pode gerar maiores impactos para a
universalização do acesso à informação e ao conhecimento científico. Em
uma reunião realizada em Budapeste em dezembro de 2001, foi discutida
a utopia do livre acesso à literatura publicada em revistas científicas. Hoje,
isso se tornou realidade graças à combinação de uma tradição e uma nova
tecnologia (Rodrigues, 2006, p. 2).
Mais do que parte do movimento de acesso à informação científi-
ca, o auto arquivamento pertence à nova configuração do ambiente Web,
como uma rede de interação, na qual os próprios internautas interagem e
colaboram na descrição dos conteúdos disponíveis, produzindo, classifi-
cando e reformulando o que já está disponível.
Na situação de auto arquivamento o autor torna-se um gestor de
conteúdo documental e informacional em sistemas de informação que vai
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
179
além de simplesmente produzir o conteúdo, mas realizar os procedimentos
de descrição para preenchimento de metadados tal como o de autoria, títu-
lo, instituição responsável, local, data, e os de assunto referentes ao resumo
e palavras-chave. Esses dois últimos são representações da informação sig-
nificativa do conteúdo produzido pelo autor responsáveis pela recuperação
por assunto em interfaces de busca. Portanto, o que era da competência
dos gestores de bases de dados, os profissionais da informação, passa a ser
do próprio autor sem que haja essa mediação informacional mais técnica
de preenchimento de metadados durante o auto arquivamento.
A investigação sobre o tema de indexação de autores de trabalhos
acadêmicos tem como objeto de análise a atribuição de palavras-chave em
sistemas de auto arquivamento em repositórios, periódicos e eventos cien-
tíficos tendo em vista que o ambiente digital em ciência aberta tornou o
autor um indexador e transformou a prática do profissional indexador. O
autor e o profissional indexador atuam em diferentes âmbitos do sistema
de informação: enquanto os indexadores profissionais, editores e organi-
zadores de eventos atuam no âmbito da organização da informação e são
responsáveis por orientarem o uso e funcionamento do sistema de infor-
mação, por outro lado, os pesquisadores são autores de produção científica
responsáveis pela submissão e uso do sistema. Portanto, as regras e padrões
de funcionamento são criadas pelos responsáveis pela organização da infor-
mação a serem obedecidas pelos autores.
Nesse sentido, a investigação tem como objetivo discutir com base
na literatura publicada sobre a indexação de autores os padrões de funcio-
namento dos sistemas de informação e as orientações disponíveis para atri-
buição de palavras-chaves em sistemas de submissão de teses, dissertações,
periódicos e de eventos. Essa discussão é importante tendo em vista que a
indexação do autor é um procedimento realizado há várias décadas desde
o século passado ou quando da criação dos primeiros periódicos científicos
publicados. Porém, o autor não é tratado na perspectiva de um indexador
que precisa ser orientado quanto aos procedimentos de indexação tal como
um indexador profissional que segue regras específicas.
Tal investigação se justifica pelo fato de seu objeto de análise, a atri-
buição de palavras-chave em sistemas de autoarquivamento em repositó-
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
180
rios, periódicos e eventos, científico ser processo de indexação mediador
e estratégico para a representação de recursos informacionais em fontes
indexadoras definidoras de fator de impacto de produções científicas em
todas as áreas de conhecimento. É um projeto prioritário de pesquisa bási-
ca cujos resultados contribuirão para o desenvolvimento das áreas de tec-
nologias estratégicas, tecnologias habilitadoras, tecnologias de produção,
tecnologias para o desenvolvimento sustentável e tecnologias para a quali-
dade de vida.
2. O COnTeXTO De sisTeMAs De infORMAçãO e sUA
eVOLUçãO nA CiênCiA ABeRTA: COnTinUiDADe OU
ReVOLUçãO?
Pesquisadores em geral que desenvolvem pesquisas têm o desejo e
a necessidade de que suas pesquisas sejam publicadas e que sejam cita-
das. Publicações científicas como artigos, dissertações, teses e trabalhos
de eventos científicos tem conteúdos de pesquisas originais e inéditas que
precisam ser acessadas por outros pesquisadores com desenvolvimento de
pesquisas relacionadas. Quando os resultados de pesquisas publicados não
são lidos ou citados os motivos podem ser avaliados de diferentes pers-
pectivas: do veículo de comunicação, dos sistemas de busca, das fontes de
informação que armazenam e/ou referenciam a publicação, dos metadados
que descrevem a publicação e, também, pela representação do conteúdo
elaborada pelos autores das publicações, título, resumo e palavras-chave.
Também é válido pensar na grande quantidade de publicações e na falta de
estruturação do conhecimento científico legível por máquina (Marcondes;
Campos, 2008) que impede a leitura por máquina.
Em que pesem todos os prováveis motivos elencados, é difícil supor
que outros pesquisadores ou leitores façam buscas por nomes ou títulos
no cenário atual de grandes quantidades de publicações. Quando buscas
são realizadas em qualquer interface, o principal e primeiro interesse é o
conteúdo da publicação para verificar a relação com a necessidade de co-
nhecimento. A busca por assuntos, invariavelmente, depende das formas
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
181
de representação com maior potencial de identificação significativa com o
conteúdo representado, o título, resumo e palavras-chave da publicação.
Contudo, o acesso por assuntos é resultado da indexação de assuntos, seja
pela atribuição de palavras-chave pelo autor ou termos por indexadores
profissionais (IFLA, 2011).
O preenchimento dos metadados tem importância para a recupera-
ção dos itens bibliográficos arquivados em sistemas de informação porque
o usuário que busca a literatura publicada poderá ter acesso a qualquer
desses dados se estiverem corretamente preenchidos, de modo que a recu-
peração do item bibliográfico poderá ser garantida nas buscas pelo título,
autor, editora, ano de publicação, bem como por assunto. Porém, quando
o usuário acessa o sistema de informação nem sempre tem ideia dos nomes
de autores que, por exemplo, publicaram no ano de 2024 e, assim, a forma
de acesso será muito mais importante pelo assunto.
O assunto descrito por palavras-chaves carrega não somente o signi-
ficado, mas a relevância do conteúdo da área de conhecimento em que se
insere e para o domínio de especialidade. Quanto mais precisão cada pala-
vra-chave tiver com relação ao conteúdo da publicação e, principalmente,
com o reconhecimento do domínio de especialidade da comunidade de
usuários, mais chances de recuperação terá o documento e, consequente-
mente, de sua leitura e citação em outras publicações. Esse procedimento
de atribuição de palavras-chave é um processo de análise de assunto para a
indexação de conteúdo que faz parte da comunicação científica.
A comunicação científica é dependente do controle bibliográfico re-
alizado principalmente por empresas editoriais globais que ocuparam um
espaço profissional não desenvolvido pelas bibliotecas com relação princi-
palmente ao tratamento temático para representação de assuntos de artigos
de periódicos científicos por conta do progressivo aumento de publicações
anuais. A citação de Borko e Bernier (1975) explica o aumento da litera-
tura na época:
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
182
A imprensa biomédica, por exemplo, foi estimada em publicar 2
milhões de artigos por ano (McCandless, Skweir e Gordon, 1964,
p.147). Esses artigos podem ser lidos a uma taxa de dois por hora –
assumindo que o leitor esteja atento, saiba ler aproximadamente 70
idiomas e tenha os documentos em mãos. Se a leitura de periódicos
for limitada a 1 hora por dia e 365 dias por ano, então levará mais
de 27,4 séculos para ler a produção de 1 ano da imprensa biomédica
mundial (Borko; Bernier, 1975, p. 6).1
A década de 50 do século passado deu início a um acelerado proces-
so de automatização de índices bibliográficos para áreas de conhecimento
mais especializados como Física, Química, Medicina entre outras. Essas
áreas, devido à urgência de desenvolvimento tecnológico e inovação, ne-
cessitam de literatura atualizada publicada principalmente em artigos de
periódicos. Surgiram também bibliografias nacionais importantes realiza-
das por bibliotecas nacionais existentes até a atualidade como, por exem-
plo, a British National Bibliography (BNB)2, “[...] publicada pela primeira
vez em 1950 e dedicada a publicação de lista de livros, periódicos e seriados
publicados no Reino Unido e na República da Irlanda” (Wikipedia, 2023).
Em 1974, a BNB adotou o sistema de indexação PRECIS (PREserved
Context Indexing System) para gerar automaticamente o índice de assunto
dos itens bibliográficos a partir de um software que admitia a indexação
parcialmente automática e parcialmente humana (Fujita, 1989).
Os grandes sistemas online como o DIALOG, por sua vez, tiveram
problemas para produzir manualmente os índices de assunto da literatura
publicada em artigos de periódicos e passaram a investir em propostas ino-
vadoras de indexação automática para a geração de índices de assunto. O
sistema KWIC Index (Key Word In Context) foi criado em algoritmo por
Hans Peter Luhn (1960) e aplicado para a geração de índices de assuntos
e biomedical press, for example, has been estimated to publish 2 million papers each year (McCandless,
Skweir e Gordon, 1964, p.147). ese papers can be read at the rate of two per hour – assuming that
the reader is attentive, can read approximately 70 languages, and has the do- cuments at hand. If journal
reading is limited to 1 hour per day and 365 days per year, then it will take more than 27.4 centuries to
read the output of 1 year of the worlds´s biomedical press (Borko; Bernier, 1975, p.6)
e British National Bibliography · Search national bibliography data for people, orga- nizations, works
and subjects (natbib-lod.org)
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
183
de literatura técnica do Chemical Titles entre os anos de 1957 e 1959
(Chu, 2010).
O objetivo principal assumido por Luhn era o de disseminação e
recuperação da informação tendo em vista o que ele considerava sobre a
situação da época em que viveu:
O ritmo acelerado do desenvolvimento científico nos últimos
anos acentuou a natureza perecível das novas informações. Como
resultado, há uma demanda urgente por comunicação mais rápida
nessa área. Parece duvidoso que essa demanda possa ser satisfeita
sem romper com alguns dos padrões convencionalmente aplicados
à compilação de índices de literatura. Índices especializados
para literatura técnica são um meio estabelecido para direcionar
engenheiros e cientistas a fontes de informação pertinentes ao
seu interesse atual. Qualquer que seja o propósito específico de
um índice, uma quantidade substancial de esforço intelectual é
necessária para compilá-lo (Luhn, 1960, p.159).
Podemos considerar que o KWIC, antes do PRECIS, teve um
significado impactante em sistemas de informação e na Ciência da
Informação porque pela primeira vez a tecnologia da área de ciência da
computação interagiu com uma proposta inovadora para a indexação de
literatura técnico-científica. O impacto maior, ao nosso ver, foi o fato de
fazer um índice utilizando o que Luhn (1960, p. 159) denominou de
palavra significativa” ou “chave” extraída automaticamente dos títulos das
publicações em linguagem natural. A palavra-chave passou a ter um alto
valor pela sua dupla função de representação e recuperação do conteúdo
documental assim como os termos extraídos de classificações e descritores
de vocabulários controlados. É aplicada em indexação automática e busca
por palavras-chave e seu uso atualmente é generalizado em metabuscadores
não só de literatura científica. “A abordagem KWIC é indiscutivelmente
um marco significativo na IRR3” (Chu, 2010, p. 8).
A geração bem-sucedida desses índices trouxe outros problemas re-
lacionados com a falta de controle de vocabulário, mas, por outro lado,
demonstrou que era possível realizar indexação automática com a lingua-
Information Representation and Retrieval
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
184
gem natural e o mérito disso está no próprio desenvolvimento posterior da
indexação realizada por máquina.
A partir da indexação automática foi necessário tomar conhecimen-
to da interdisciplinaridade com outras áreas de conhecimento além da
Ciência da Informação: a terminologia com fundamentos linguísticos, a
inteligência artificial ou lógica com a informática, a ciência cognitiva ou a
psicologia, a linguística computacional, a semiótica, a estatística e a mate-
mática (Gil Leiva, 2008).
A conexão entre as diferentes áreas de conhecimento para realizar a
automação da indexação conduziu a ciência da informação a um patamar
dos sistemas de recuperação da informação com desenvolvimento tecnoló-
gico e diferentes propostas que aceleraram a comunicação científica atual-
mente. A indexação automática com palavras-chave atribuídas pelo autor
proporcionou as condições ideais para a ciência aberta como abordagem
ideológica em contraposição ao comércio de grandes sistemas de infor-
mação por assinatura cuja evolução tem contínuo impacto econômico no
desenvolvimento científico e são dominantes na demonstração dos resul-
tados de fator de impacto na comunicação científica em todas as áreas do
conhecimento.
O ciclo da comunicação científica envolve muitos atores institucio-
nais, comerciais e científicos e, principalmente, os autores e profissionais
da informação conforme demonstrado na Figura abaixo com base na abor-
dagem da análise de domínio elaborada por Hjørland (2003, p.95):
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
185
Figura 1 - e revised UNISIST-model modified for the domain analytic
approach
Fonte: Hjørland, B., 2003, p.95
Nessa representação de 20 anos atrás, Hjørland (2003, p. 95), pro-
põe uma revisão e atualização do modelo de comunicação científica e téc-
nica do UNISIST (1971, p. 96), um Programa Intergovernamental de
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
186
Cooperação no Campo da Informação Científica e Tecnológica. Observa-
se que no modelo da Figura 1 a Internet passa a ser considerada num
amplo contexto de serviços eletrônicos com documentos e informações
digitais que na década de 70 ainda não existiam, mas que se consolidaram
no mundo atual. Nesse modelo de comunicação científica e tecnológica
estão presentes fontes de informação publicadas (periódicos e livros) e não
publicados (teses, dissertações e relatórios de pesquisa) que são incluídos
tanto em Bibliotecas, Centros de informação quanto em Serviços de inde-
xação e resumo aos quais os usuários têm acesso por meio das interfaces
de busca dos catálogos online de bibliotecas e centros de informação bem
como de diretórios e bibliotecas virtuais. Em todos esses sistemas de infor-
mação a indexação é realizada para atribuição de assuntos representativos
do conteúdo de documentos e recursos de informação.
Entretanto, nesse modelo não se faz menção ao acesso aberto e sis-
temas de informação de acesso aberto, criados por instituições, editores
científicos e organizadores de eventos, em que se admite o auto arquiva-
mento pelos próprios autores em repositórios, periódicos e eventos que
utilizam softwares de acesso aberto. No modelo de comunicação científica
apresentado à presença de sistemas de informação tem as características de
editoras comerciais que se dedicam ao comércio de acesso e recuperação
da informação em sistemas de acesso fechado e de bibliotecas que tem suas
próprias políticas de desenvolvimento de acervo com base na compra de
livros publicados e assinatura paga de coleções de periódicos.
O que acontece nesse ciclo de comunicação científica, conforme de-
monstrado na Figura 1, é que essas palavras-chave serão consideradas em
Serviços de indexação e resumo que produzem bases de dados e que ado-
tam a linguagem natural, mas aplicam também o controle de vocabulário
com uso de tesauros e vocabulários controlados especializados construídos
para aumentar a precisão e diminuir a dispersão da informação durante a
recuperação da informação pelo usuário nas interfaces de busca.
A diferença é que na evolução para o acesso aberto o autor passou
a ser o indexador do seu próprio conteúdo quando antes a indexação era
formalmente realizada por profissionais da informação segundo padrões de
procedimentos previamente estabelecidos para a prática profissional e não
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
187
para uso de autores. Essa mudança aconteceu não por acaso, mas foi evi-
denciada pela situação de auto arquivamento em sistemas de acesso aberto.
3. inDeXAçãO POR PALAVRAs-CHAVe e O COnTROLe
De VOCABULÁRiO eM sisTeMAs De infORMAçãO
Antes da ideologia do acesso aberto e do periódico eletrônico o au-
tor sempre foi o indexador de seus artigos na atribuição de palavras-cha-
ve conforme orientação aos autores presentes em diretrizes dos periódicos
que recomenda a inclusão, após o título, do resumo e das palavras-chave
(Fujita, 2004; Fujita; Agustín-Lacruz; Terra, 2018; Terra; Agustín-Lacruz;
Fujita, 2022).
Quando o autor de uma tese realiza o autoarquivamento em um re-
positório de teses e dissertações de sua instituição, o faz com suas próprias
palavras-chave porque desconhece orientações sobre indexação e política
de indexação (Fujita; Panuto, 2023). Entretanto, não podemos ignorar
que o autor científico é um indexador especialista de sua área de conheci-
mento porque é conhecedor da terminologia e das principais palavras-cha-
ve que melhor representam o conteúdo e, principalmente, serão utilizadas
pelos demais pesquisadores (Holstrom, 2019).
A indexação sempre teve um nível de complexidade alto tanto nos
procedimentos como na aplicação junto à recuperação da informação cuja
sintonia deve ser sempre de dependência entre uma e outra porque os re-
sultados são como “causa e efeito”, ou seja, a indexação é causa do efeito
qualitativo na recuperação. Assim, entende-se que a indexação de assuntos
é uma atividade com impacto social nos ambientes digitais que, ao lado
do auto arquivamento, tem a relevância da representação de conteúdos
realizada por meio de palavras-chave da linguagem natural. Os benefícios
para os pesquisadores que autoarquivam suas produções em sistemas de
acesso aberto como os repositórios são: organização da informação e do
conhecimento da rede da qual participam; aumentar a visibilidade e o im-
pacto de suas pesquisas; responsabilidade perante a sociedade; ampliação
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
188
das possibilidades de diálogo entre os pesquisadores alcançadas pela rede e
com a sociedade em geral (Leite, 2009).
A publicação de artigos é realizada com mais frequência e rapidez
que livros o que propiciou a necessidade de existirem os Serviços de resu-
mos e indexação fora do contexto de bibliotecas que passaram a elaborar os
periódicos internacionais de resumos para o controle bibliográfico interna-
cional. Ao longo do tempo, esses periódicos de resumos antes impressos se
tornaram disponíveis eletronicamente por meio de bases de dados digitais
que utilizam Hub para comercialização do acesso.
O acesso a essa literatura científica publicada depende da represen-
tação de seu conteúdo realizada pelo processo de indexação, seja com lin-
guagem natural ou linguagem controlada. A indexação com linguagem
natural permite que palavras sejam extraídas de qualquer parte do texto,
título, resumo, palavras-chave e corpo do texto ou mesmo palavras-cha-
ve podem ser atribuídas pelo autor do texto em sua linguagem natural
com a finalidade de representação do conteúdo. Por outro lado, o processo
de indexação com linguagem controlada utiliza, após análise de assunto
para identificação e seleção de palavras em linguagem natural extraída do
conteúdo textual, vocabulários controlados (tesauro, lista de termos auto-
rizados, lista de cabeçalhos de assunto) para atribuição de descritores. A
normalização de forma, função e semântica dos descritores é adotada em
vocabulários controlados como controle padronizado de representação da
terminologia de especialidade das áreas de conhecimento para eliminar
ambiguidade, homonímia e formas ortográficas e criar um padrão de des-
critor a ser selecionado.
A indexação de assuntos manual ou automatizada, com linguagem
natural ou linguagem controlada, sempre esteve presente em serviços de
informação especializados principalmente de artigos de periódicos de áreas
de conhecimento científicas, tecnológicas e de negócios que utilizam voca-
bulário mais preciso.
Existe, desde sempre em sistemas de informação, uma convivência
híbrida entre linguagem natural e linguagem controlada tendo em vista
que a linguagem natural sempre teve maior capacidade de representati-
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
189
vidade de ideias e evolução mais rápida de vocabulário, porém com pro-
blemas de falta de controle de vocabulário que provocam dispersão, falta
de especificidade e de precisão na recuperação de conteúdos em sistemas
de informação. A linguagem controlada tem vantagens de representação e
recuperação, porém depende de constante atualização para abarcar todo o
vocabulário significativo. Além disso, o usuário de sistemas de informação
realiza suas buscas com sua linguagem natural porque, dificilmente um sis-
tema de informação disponibiliza vocabulários controlados para consulta
de descritores.
A diferença está no processo de indexação, que consiste na análise
conceitual do documento e na tradução do termo de indexação para o
descritor de vocabulário controlado (Lancaster, 2004). Enquanto isso, a
palavra-chave pode ser extraída de qualquer parte do documento com ou
sem controle de vocabulário e ser atribuída por autores, editores ou mesmo
ser gerada automaticamente (Gonçalves, 2008) sem a realização de um
processo conceitual padronizado desconhecido dos autores. O processo de
indexação realizado por indexadores profissionais é diferente porque eles
são treinados para selecionar termos de indexação de acordo com um pro-
tocolo específico (Névéol; Dogan; Zhiyong, 2010).
Kipp (2009) relata que poucos estudos sobre palavras-chave de auto-
res em comparação com descritores foram realizados, e que os vocabulários
controlados utilizados por indexadores profissionais requerem treinamento
para serem utilizados por autores ou usuários. No entanto, a terminologia
utilizada pelo autor será sempre diferente do vocabulário controlado utili-
zado pelo profissional, pois é resultado do conhecimento gerado na área de
domínio em evolução, pela própria natureza científica, e é mais específica
do que a padronizada que visa obter consistência de termos.
O termo híbrido, segundo Lancaster (2002, p.191) “[...] faz referên-
cia aos sistemas de recuperação da informação que utilizam a combinação
de termos controlados e a linguagem natural.” Nesse sentido, Lancaster
(2002) relembra que quando surgiram os sistemas de indexação automa-
tizados na década de 50 buscava-se uma simplificação na recuperação da
informação moldada pelos sistemas de informação que comercializavam a
comunicação científica.
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
190
Os sistemas híbridos, como denominou Lancaster (2002), utiliza-
riam para o caso de documentos impressos uma combinação de códigos de
áreas de assunto e marcação das palavras-chave do próprio título sem que
fosse necessário fazer, naquele tempo, fichas de indexação e sim uma gra-
vação direta sobre o documento. Com documentos eletrônicos, Lancaster
(2002) indica que o uso do computador ajuda na indexação e o analista
examina os termos atribuídos pelo computador de modo a adicionar ou
eliminar os termos que considera necessários. Por outro lado, citou outro
exemplo de sistema que trabalhava com o mínimo de controle de voca-
bulário utilizando a combinação de um vocabulário controlado pequeno
de descritores mais amplos e uma lista mais exaustiva de descritores em
linguagem natural extraídos dos documentos.
Embora Lancaster (2002) se refira a sistemas híbridos não o faz sem
justificar a importância do controle de vocabulário na representação e
principalmente sua influência na recuperação da informação. Os sistemas
híbridos são mais adotados em sistemas de informação mais especializados
com delimitação terminológica precisa e de menor quantidade de termos
que podem fazer uso da indexação automática e da atribuição de pala-
vras-chaves pelos autores. O que se evidencia é que existem sistemas de
informação com controle de vocabulário (Catálogos online de bibliotecas,
Biblioteca Virtual de Saúde - BVS), sem controle de vocabulário (perió-
dicos científicos, eventos científicos, bases de dados de textos completos
de teses e dissertações) e com a combinação de linguagem controlada e
linguagem natural (Repositórios).
Repositório é um sistema de informação de acesso aberto que pode
ser um sistema híbrido com linguagem natural e linguagem controlada.
Isso porque além de permitir o auto arquivamento pelos autores com atri-
buição de palavras-chave em linguagem natural, armazena toda a produção
científica institucional já publicada, cujos metadados descritivos (autoria,
título, dados de publicação) e temáticos (código de áreas de assunto, re-
sumo e palavras-chave em linguagem natural e linguagem controlada) são
preenchidos automaticamente durante a operação de interoperabilidade
entre bases de dados. Na condição de ser um repositório, foi criado para o
armazenamento e preservação institucional mais do que ser um sistema de
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
191
informação com objetivos de recuperação da informação em que o proces-
so de indexação para a representação de conteúdos é parte da política de
organização da informação.
O controle de vocabulário em sistemas de informação gera contínua
padronização que encarece a manutenção realizada por profissionais da
informação. Por sua vez, os profissionais da informação não conseguem
realizar, ao mesmo tempo, a contínua atualização do controle de vocabulá-
rio e a inserção de metadados das publicações em quantidades volumosas.
Essa situação favorece os sistemas de informação de acesso aberto no qual
é possível que o autor possa realizar o auto depósito de sua publicação e
produzir os metadados descritivos e temáticos conforme formato padrão
adotado pelo sistema de informação.
Essa é, de fato, uma mudança de paradigma que dá ao autor e ao
usuário a responsabilidade de serem atores principais no processo de re-
presentação de conteúdo. Com esse protagonismo, tornam-se indexadores
especialistas e resolvem grande parte do problema de controle bibliográfico
da literatura publicada mundialmente, bem como do acesso de todos à
ciência aberta. Desse modo, os sistemas de informação, de modo geral, se
beneficiam do envolvimento de todos para realizarem o tratamento pa-
dronizado da informação. Porém, nessa condição de indexador o autor é
capacitado e orientado quanto aos procedimentos de normalização e de
controle de vocabulário?
4. A inDeXAçãO DO AUTOR eM sisTeMAs De
infORMAçãO: sãO neCessÁRiAs As ORienTAçÕes?
A política de indexação de qualquer sistema de recuperação da infor-
mação tem como principal elemento, conforme Carneiro (1985) e Fujita
(2012), o processo de indexação dotado das variáveis: nível de especificida-
de, nível de exaustividade, escolha da linguagem de indexação, capacidade
de revocação e precisão do sistema, consistência e correção. Tanto o pro-
cesso de indexação quanto suas variáveis são o foco de qualquer orientação
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
192
a ser realizada a indexadores profissionais tendo em vista seus objetivos
profissionais em função do contexto do sistema de recuperação da infor-
mação que habita, conforme estudos realizados por Fujita (2016, 2017) e
Gil Leiva e Fujita (2012). Seria necessário, contudo, conhecer objetivos e
contextos de outros atores para definir orientações de indexação na deter-
minação de palavras-chave representativas de conteúdos de documentos e
recursos informacionais.
O autor de publicações científicas torna-se um indexador quando
atribui palavras-chave para representação do conteúdo de textos que re-
digiu. Essas palavras-chave representam tanto o conteúdo significativo de
documentos ou recursos informacionais quanto o domínio de conheci-
mento do autor que desenvolveu a investigação e a publicou em algum
veículo de comunicação científica.
Entretanto, de acordo com Fujita, Terra e Agustin-Lacruz (2018) os
periódicos científicos na área de Ciência da Informação e Comunicação
não trazem orientações aos autores sobre os procedimentos de indexação
por assuntos para determinação de palavras-chave. Em investigação sobre
análise das diretrizes para atribuição de palavras-chave aos artigos durante
submissão em periódicos brasileiros de Ciência da Informação, Oliveira,
Fujita, Dal´Evedove e Martinez Ávila (2020) obtiveram resultados que
orientam apenas sobre a quantidade de palavras-chave e seletividade na in-
dexação sem profundidade e sem indicação de uso de vocabulário contro-
lado o que os levam a concluir pela recomendação de elaboração de políti-
ca de indexação que proporcione assertividade aos autores no momento de
atribuição de palavras-chave. Além disso, observa-se que os autores quando
realizam autoarquivamento de seus trabalhos acadêmicos em repositórios
não são orientados sobre a atribuição de palavras-chave, uso de vocabulá-
rios controlados ou expansão de vocabulário (Freitas; Dal´Evedove, 2019)
e quando são orientados, as diretrizes de submissão não estão acessíveis
publicamente no sistema.
A análise de orientações sobre atribuição de palavras-chave em 5 pe-
riódicos das áreas de Educação e Ciência da Informação da coleção Scielo e
de trabalhos dos eventos ENANCIB de Ciência da Informação e Reunião
Nacional da ANPED da Educação foi analisada por Fujita (2024b). Os
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
193
resultados obtidos da análise confirmam que as orientações são formais
com relação apenas à quantidade mínima e máxima de palavras-chave e
nenhuma orientação sobre análise de assunto foi oferecida aos autores para
atribuição de palavras-chave ou uso de vocabulário controlado com exce-
ção do ENANCIB que indica o uso do Tesauro Brasileiro de Ciência da
Informação para o controle de vocabulário ou indicação de palavras--chave
mais específicas.
No caso do autor, responsável pela atribuição de palavras-chave em
sistemas de submissão de trabalhos acadêmicos e publicações, ele é o inde-
xador especialista de domínio que necessita de orientações sobre o processo
de indexação e a influência que exerce na visibilidade, citações e fator im-
pacto de suas publicações. Essa situação híbrida de sistemas de informação
que utilizam linguagem natural e linguagem controlada é hoje uma reali-
dade que não se pode negar (Fujita, 2020) e a solução, embora conflitante,
pode trazer benefícios mútuos se houver uma política de indexação inclu-
siva dos diferentes atores que realizam a indexação. Para isso, é importante
elaborar orientações exclusivamente destinadas ao autor cujos objetivos são
diferentes do indexador profissional, tendo em vista que visa a visibilida-
de de suas publicações científicas para os demais especialistas de seu do-
mínio de conhecimento. As orientações dirigidas ao autor devem incluir
esclarecimentos sobre o processo de indexação e as variáveis, exaustividade,
especificidade, correção e consistência que influenciam na visibilidade das
publicações em fontes indexadoras importante para proporcionar citações
e, consequente, fator de impacto.
Strader (2009) que investigou a sobreposição entre palavras-chave
atribuídas pelo autor e os cabeçalhos de assunto da Biblioteca do Congres-
so (LCSH) atribuídos pelo catalogador em teses e dissertações no catálogo
online da Ohio State University alerta para o fato de que a maioria dos
estudos sobre assunto se concentram em usuários como buscadores de in-
formações e menos no uso de palavras-chave atribuídas por autores de
documentos online.
Em estudo sobre coerência semântica na indexação de artigos de
periódicos na área de saúde pública indexados no Repositório de Produção
Científica da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca da Fundação
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
194
Oswaldo Cruz (Fiocruz), Santos, Mollica e Guedes (2019) verificaram bai-
xo grau de coerência na representação temática em amostra de dez artigos.
Concluem que é necessário “[...] um olhar mais aprofundado sobre o grau
de coerência semântica na representação de artigos publicados na área de
saúde pública [...]” e “[...] que na indexação de um documento não há um
conjunto correto de termos [...]” (Santos, Mollica; Guedes, 2019, p.229).
Em investigação realizada por Fujita e Tartarotti (2020) sobre aná-
lise de palavras-chave da produção científica atribuídas por pesquisadores
para submissão de artigos de periódicos indexados na Scopus e no Portal
Docentes Unesp, quanto à padronização e controle de vocabulário para
diferentes funções em sistemas de armazenagem e recuperação da infor-
mação, os resultados obtidos revelaram que o pesquisador, na condição de
indexador de sua produção científica, atribuem palavras-chave com alta
especificidade, inovação e alta incompatibilidade de termos por problemas
ortográficos e semânticos. A principal recomendação do estudo realizado
diz respeito aos pesquisadores como indexadores não proficientes que pre-
cisam de orientações quanto à padronização de suas palavras-chave e para
isso é necessária a elaboração de proposta de política de indexação.
Gollub, Lykke e Tudhope (2014) haviam observado que na maioria
dos repositórios, os autores não são treinados em indexação nem recebem
quaisquer diretrizes de indexação e advertem que se as sugestões forem
derivadas de um vocabulário controlado adequado, a recuperabilidade de
seus artigos provavelmente contribuirá para a precisão e a recordação ideais.
Os resultados de pesquisa realizada por Tartarotti, Dal´Evedove e Fujita
(2018) que analisou a presença de políticas de indexação em ambientes
colaborativos mediante aplicação de questionário aos responsáveis por
bibliotecas digitais de teses e dissertações no Brasil, revelaram a ausência
de política de indexação que oriente e proteja sua prática em ambientes
colaborativos. Em estudo mais recente sobre análise de palavras-chave
em registro de metadados de assuntos de teses e dissertações, Terra, Agus-
tín-Lacruz, Bernardes, Fujita e Bueno de La Fuente (2021) verificam que
embora a atribuição de palavras-chave pelo autor seja uma forma econômica
de ampliar o acesso ao conteúdo de teses e dissertações é necessário definir
regras para os autores quanto à escolha de palavras-chave.
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
195
Em recente análise de 10 repositórios institucionais de diferentes
regiões brasileiras realizada por Fujita e Panuto (2024) foi constatado que
apenas o Repositório Institucional Unesp possui tutorial para submis-
são de teses e dissertações com indicação de atribuição de palavras-chave
acompanhada de orientações específicas sobre representação de assunto
e o uso do Tesauro UNESP para controle de vocabulário. A análise do
“Tutorial para uso do Tesauro Unesp” (UNESP, S.d), realizada por Fujita
(2024a), demonstrou que o autor de tese ou dissertação é orientado a des-
crever os assuntos usando um mínimo de 3 descritores do Tesauro Unesp
e ao menos um que represente a área de conhecimento. Além disso, o
Tutorial esclarece que o Tesauro possui uma rede de termos do mais geral
ao mais específico e que é possível navegar por essa rede e escolher ou-
tros descritores relacionados ao termo digitado na busca. Nem sempre o
termo que o autor busca é o termo preferido ou correto e, nesses casos, o
tutorial aconselha o autor a usar o descritor preferido no Tesauro que mais
se alinhe à representação da terminologia especializada do domínio para
que outros pesquisadores da área de conhecimento reconheçam o assunto
tratado no conteúdo da tese ou dissertação. Quando o termo buscado pelo
autor não existe no Tesauro Unesp, a orientação do Tutorial indica que o
autor solicite a inclusão do termo após análise terminográfica da Comissão
Permanente de Tesauro Unesp.
As duas pesquisas (Fujita, 2024a; Fujita; Panuto, 2024) demonstraram
que existem orientações quanto à atribuição de assuntos por palavras-chave
porém com controle de vocabulário e, assim, o Tutorial se dedica a orientar
os autores sobre os procedimentos de uso do Tesauro Unesp quando, antes,
é importante a identificação e seleção de termos na análise de assunto do
conteúdo pelo autor da tese ou dissertação, ou seja, orientá-lo quanto aos
procedimentos de indexação, a análise de assunto e a representação das
palavras-chave com uso de vocabulário controlado.
Em orientação específica sobre determinação de palavras-chave para
autores de artigos científicos do periódico Revista Brasileira de Educação
Especial, Fujita (2004, p. 257) apresenta a metodologia do processo de
indexação
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
196
[...] para a determinação de palavras chaves utilizando como
estratégia de análise de assunto a localização do tema principal
pela exploração da estrutura textual combinada com a análise
conceitual por questionamento e representação dos termos obtidos
pela linguagem documentária do sistema que indexa o periódico.
Nesta proposta está implícita uma visão conceitual e intelectual do
processo de análise de assunto que combina a exploração da estrutura tex-
tual do artigo com estratégia de identificação de conceitos por questiona-
mento de acordo com proposta metodológica do Modelo de leitura docu-
mentária para textos científicos de Fujita (2003). Os termos identificados
pela metodologia de análise de assunto serão posteriormente traduzidos
com uso de vocabulário controlado, esaurus Brasileiro da Educação do
INEP, específico da área de Educação.
A análise da literatura publicada sobre a indexação do autor revelou,
dessa forma, que os sistemas de informação de periódicos, trabalhos de
eventos, teses e dissertações têm atribuição de palavras-chave pelos autores
sem orientação quanto aos procedimentos de indexação ou uso de voca-
bulários controlados. Também não é possível compreender a função dessas
palavras-chave na representação e recuperação da informação o que nos
leva a considerar que a transformação das práticas de indexação devem ser
necessariamente associadas à educação e formação do autor como indexa-
dor para que seja consciente do poder de cada palavra-chave que atribui no
amplo sistema de comunicação científica.
5. COnsiDeRAçÕes finAis
Na análise da trajetória da indexação por palavras-chave durante os
anos 50, advento da internet, expansão da web e o aparecimento da ideolo-
gia da ciência aberta em contraposição ao aumento exponencial do comér-
cio da comunicação científica por editoras comerciais que souberam fazer
a transição da Representação e Recuperação da Informação (IRR) com
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
197
uso de tecnologias aplicadas ao processo automático de indexação com o
evidente aprimoramento da inteligência artificial.
Tendo em vista a necessidade de elaborar política de indexação que
inclua orientação à autores sobre o processo de indexação na representação
em sistemas de informação tais como sistemas de autoarquivamento de
produção científica em repositórios institucionais, periódicos científicos,
eventos e preenchimento de currículos, esta pesquisa propõe a investiga-
ção sobre a indexação do autor científico como indexador especialista de
domínio.
A proposta de metodologia do processo de indexação com base
no Modelo de Leitura Documentária para textos científicos de Fujita
(2003) não foi incluída nas orientações aos autores para atribuição de
palavras-chaves conforme seção de Forma e preparação dos manuscritos,
resumindo as orientações à formalidade de “[...] fazer a indicação após
o resumo (mínimo de três e máximo de cinco palavras). Utilizar o site
do esaurus Brasileiro da Educação do INEP no site www.inep.gov.br.
(Revista Brasileira de Educação Especial, 2024). Entretanto, a indicação
do vocabulário controlado especializado em Educação do INEP demonstra
que os resultados obtidos com o uso de controle vocabulário como etapa de
tradução do processo de indexação pode ter sido um diferencial importante
na indexação desse periódico em outros sistemas de informação haja visto
estar indexado no Scopus, LILACS, Scielo e outros.
O Modelo de leitura documentária para textos científicos (Fujita,
2003) foi idealizado para aplicação na prática profissional de catalogadores
e indexadores e não para indexadores especialistas como autores, editores e
organizadores de eventos. Além disso, seria necessário que fosse incorpora-
do à uma política de indexação de assuntos de periódicos, repositórios, e
sistemas de gestão de eventos científicos e, necessariamente, descrita opera-
cionalmente em um manual de indexação à semelhança de sistemas de infor-
mação bibliográficos como a LILACS da Rede BVS4 que destinam orienta-
ções aos indexadores profissionais com uso do vocabulário controlado DeCS
(Descritores em Ciências da Saúde) para controle de vocabulário.
https://red.bvsalud.org/lildbi-web/
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
198
Diferentes sistemas de informação com requisitos diferenciados de
condições tecnológicas, materiais e humanos podem definir diretrizes de
política de indexação diferentes entre si, sobretudo se os profissionais que
cuidam do sistema de informação tiverem objetivos em prol do aprimo-
ramento da representação e recuperação da informação tendo em vista a
visibilidade dos conteúdos do sistema de informação. A representação da
informação pelo processo de indexação é a essência da política de indexa-
ção e, por isso, deve ser definida mediante orientações metodológicas que
visem o conteúdo a ser representado. Nesse sentido, a política de indexa-
ção, uma vez definida deve ser registrada em um manual de indexação para
que possa ser compreendida, aplicada e aprimorada ao longo do desenvol-
vimento do sistema de informação.
A metodologia do processo de indexação do Manual de indexação
da Unesp é dirigida especificamente aos catalogadores que realizarão a in-
dexação de livros, precisamente porque havia esse interesse e motivação
da rede de bibliotecas da Unesp para a representação de assuntos de livros
no catálogo online. Esse é um exemplo que pode ser seguido por outros
sistemas de informação e dirigidos a diferentes atores, catalogadores, in-
dexadores, autores e leitores com as devidas diferenças metodológicas no
processo de indexação conforme objetivos previamente definidos e com
base em estudo de estratégias cognitivas e metacognitivas de processos de
pensamento para execução de tarefas voltadas para objetivos específicos.
Sugere-se que os procedimentos metodológicos de indexação com as
operações de análise de assunto e representação com vocabulário controla-
do sejam adequados à natureza do processo de atribuição de palavras-chave
pelo indexador especialista do domínio de conhecimento tendo em vista a
economia de tempo de indexação do profissional e, principalmente, a real
possibilidade de existência de termos novos que geram atualizações para os
vocabulários controlados. Para isso, será necessário investigar, em sequên-
cia, como os autores escolhem suas palavras-chaves e responder questões
ainda sem respostas na literatura investigada tais como:
O autor/usuário tem consciência dessa mudança de paradigma com
relação à sua atuação como indexador especialista e responsável pela in-
serção de informações em metadados? Além dessa questão, é preciso saber
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
199
ainda: se nessa condição de indexador especialista o autor necessita ser ca-
pacitado e orientado quanto aos procedimentos de indexação e de controle
de vocabulário? Qual a visão do autor indexador sobre o processo de inde-
xação com procedimentos de análise de assunto e controle de vocabulário?
O autor considera primordial a indexação por palavras-chave e por quê?
As respostas a essas questões serão importantes para o aprimoramen-
to da prática de indexação tendo em vista o cenário de transformações da
comunicação científica que produziu o contexto paradigmático da Ciência
da Informação.
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n. 1, e102268, 2021. DOI: 10.1016/j.acalib.2020.102268.
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205
CAPÍTULO 6
P   
C  I
Mariana Rodrigues Gomes de MELLO
Marta Lígia Pomim VALENTIM
1. inTRODUçãO
A tradição intelectual acerca do pensamento científico desde a Idade
Moderna visa categorizar o conhecimento em compartimentos estanques,
cuja prática raramente se questiona a validade. A separação do conheci-
mento em disciplinas é muito útil em termos didáticos, mas em muitos
aspectos se trata de uma convenção sem demarcações ontológicas.
Na acepção de Bacchi (2024) é necessário incorporar as críticas à
Ciência, a fim de promover um diálogo menos reducionista acerca de suas
limitações e do seu papel social. Há questionamentos como o da impossi-
bilidade da neutralidade do pesquisador ante o objeto de pesquisa, que não
necessariamente interfere na validade da Ciência, mas acrescenta a ela ca-
madas de complexidade, que envolvem suas práticas e suas interpretações.
No que tange à Ciência da Informação, Borko (1968, p. 1, tradução
livre) a definiu como a Ciência que investiga as propriedades e o com-
https://doi.org/10.36311/2025.978-65-5954-650-3.p205-227
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
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portamento da informação, bem como as forças que guiam seu fluxo e os
meios de processamento para acessibilidade imersos em um processo que
inclui a origem, a disseminação, a coleta, a organização, o armazenamento,
a recuperação, a interpretação e o uso da informação. Um campo deriva-
do ou relacionado à Matemática, à Lógica, à Linguística, à Psicologia, à
Computação, à Comunicação, à Biblioteconomia, à Administração, entre
outras áreas de conhecimento.
Há, portanto, um caráter dialógico que é inerente à Ciência da
Informação, o que proporciona a interlocução dela com outros ramos do
conhecimento, que na concepção de Araújo (2014, p. 14) representa:
Na produção do conhecimento, a consciência deve atuar de forma
reflexiva. A informação é o objeto que move a consciência na
produção de conhecimento. Estudos mais rigorosos sobre a ideia
de interdisciplinaridade (da necessária existência de um processo
teórico e conceitual de mão dupla entre disciplinas envolvidas)
começaram a diagnosticar a existência de práticas interdisciplinares
entre Ciência da Informação e demais ciências, na medida em
que apenas a Ciência da Informação “tomava emprestado
conceitos e métodos de outros campos, sem se fazer notar por
eles. Entendimentos mais recentes, contudo, têm dado conta que
esse movimento interdisciplinar da CI faz dialogar dentro dela, as
contribuições das diferentes áreas do conhecimento [...].
Compreende-se que a perspectiva pluralista da Ciência da Informação
estabelece o diálogo entre vários domínios e, assim, se apresenta como uma
Ciência interdisciplinar rumo à transdisciplinaridade, haja vista que, além
do aspecto dialógico, o qual implica na interdisciplinaridade, a Ciência da
Informação muitas vezes atua em cooperação com pesquisadores de outros
domínios do conhecimento, com metodologias unificadas, com temáticas
que não enfatizam um único objeto. Uma característica presente na trans-
disciplinaridade que abrange também a ideia da complexidade. Velasco
et al. (2020, p. 5) diferencia interdisciplinaridade e transdisciplinaridade,
argumentando que:
No primeiro há a uma reunião de determinadas áreas de
conhecimento a fim de explorar as relações de um objeto de estudo.
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
207
Assim, um planejamento conjunto é detalhadamente direcionado.
Já o segundo seria a ampliação do primeiro, tem a intenção de
obter uma compreensão da realidade, não enfatizando o objeto,
mas sim a articulação homogenia e contínua dos conteúdos, onde
a temática vai além e atravessa as disciplinas. Conclui-se que, neste
último caso, não há domínio de uma disciplina sobre a outra no
momento de aprendizado [...].
Isto posto, compreende-se a Ciência da Informação como a Ciência
que é oriunda da transdisciplinaridade e, ao mesmo tempo, atua inter e
multidisciplinarmente, portanto, se alinha completamente ao pensamento
complexo.
Metodologicamente trata-se de uma discussão de cunho teórico,
com aspectos exploratórios ante a revisão bibliográfica de documentos nos
campos da Ciência da Informação, Filosofia e Educação que abordam a
temática explorada. O material identificado, selecionado e analisado, sub-
sidiou a presente discussão. Nessa perspectiva, buscou-se categorizar os ele-
mentos de maior relevância para a temática, principalmente das obras que
debatem sobre o pensamento complexo.
A complexidade é um campo que se desenvolve em várias áreas,
como a Biologia, a Filosofia, a Sociologia, a Física, a Educação, a Ciência
da Informação, sendo que cada campo contribui de alguma maneira para
a compreensão dos sistemas interconectados e dinâmicos.
O pensamento complexo, conceito desenvolvido por diferentes au-
tores, entre eles pode-se destacar Bateson (1972); Capra (1982); Prigogine
(1996); Morin (1999; 1996; 2001; 2003; 2005); Morin e Moigne (2000);
Maturana e Varela (2001); entre outros. Esses autores e suas obras repre-
sentam uma amostra da vasta literatura sobre o pensamento complexo.
Nessa perspectiva, ressalta-se a obra de Morin (1999; 1996; 2001;
2003; 2005), que propõe uma abordagem multidisciplinar e transdiscipli-
nar visando compreender a realidade. Este autor evidencia a interconexão
entre os fenômenos, em contraponto a visão fragmentada tradicional.
Entre os aspectos mais importantes do pensamento complexo,
destacam-se:
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1. Interdisciplinaridade: reconhece que a realidade é multifacetada
e que não pode ser entendida completamente, a partir de uma
única disciplina. Nessa perspectiva, defende a integração de di-
ferentes campos do conhecimento para abordar problemas de
maneira mais rica.
2. Dialogicidade: o conceito de dialógica é central ao pensamento
complexo, pois busca integrar elementos opostos ou contraditó-
rios que coexistem na realidade. Em vez de tentar eliminar para-
doxos, o pensamento complexo os reconhece como inerentes à
vida, propondo a convivência entre ordem e desordem, unidade
e diversidade, simplicidade e complexidade.
3. Recursividade: a recursividade se relaciona a ideia de que os ele-
mentos de um sistema não apenas interagem entre si, mas tam-
bém são capazes de influenciar o próprio sistema de maneira
cíclica. Em vez de uma causalidade linear, o pensamento com-
plexo considera que os resultados podem retroagir e modificar
suas próprias causas.
4. Auto-organização: compreende os sistemas vivos como capazes
de se auto-organizar, ou seja, de criar ordem a partir da interação
entre seus elementos, sem a necessidade de uma ordem imposta
de fora. Isso implica que os sistemas são capazes de se adaptar e
evoluir com base nas interações internas.
5. Hologramaticidade: esse princípio evidencia que cada parte de
um sistema complexo contém, de certa maneira, a totalidade do
sistema. Por exemplo, em um organismo, uma célula individual
carrega a informação genética do organismo inteiro. Essa ideia
promove uma visão não fragmentada, na qual as partes e o todo
se refletem mutuamente.
6. Incerteza e Indeterminação: reconhece que o conhecimento é
sempre limitado e incompleto. A realidade é marcada pela in-
certeza, indeterminação e imprevisibilidade. Isso contrasta com
modelos tradicionais que buscavam previsões determinísticas
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
209
e absolutas. O pensamento complexo abraça a incerteza como
uma característica essencial da realidade.
7. Contextualização: a compreensão de um fenômeno exige seu
enraizamento no contexto mais amplo. Não se pode entender
adequadamente uma parte isolada do todo, pois o contexto em
que ela está inserida afeta profundamente sua natureza e seu
comportamento.
8. Multidimensionalidade: implica a existência de várias dimensões
simultâneas em qualquer fenômeno, que podem ser biológicas,
sociais, culturais, econômicas, etc. que, por sua vez, interagem
entre si de maneira dinâmica e não podem ser reduzidas a uma
única explicação simplista.
9. Causalidade Circular: ao contrário da causalidade linear tradi-
cional, o pensamento complexo adota uma visão de causalidade
circular, em que efeitos podem retroalimentar suas causas. Isso
gera um ciclo dinâmico, em que causa e efeito estão entrelaçados
em redes de interdependência.
O pensamento complexo busca superar as limitações do pensamento
simplificador e reducionista, propiciando uma visão mais holística e inte-
gradora da realidade.
Pensar e fazer Ciência a partir do pensamento complexo possibilita
não só a integração de conceitos, mas o mais importante: propicia a troca
de saberes que, por sua vez, alimenta a construção de novos conhecimentos
e o desenvolvimento da sociedade.
2. AsPeCTOs DO PensAMenTO COMPLeXO
Antes de refletir sobre a CI em seus aspectos histórico e epistemoló-
gico, os quais envolvem também a natureza do seu objeto, convém explici-
tar um pouco da Teoria da Complexidade de Edgar Morin.
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
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O termo complexidade provém da Cibernética, Teoria dos Sistemas
e auto-organização, destacado na obra de Morin no final da década de
1960. A palavra complexidade advém do Latim ‘complexus’, que implica
em algo que abrange muitos elementos ou partes em simbiose. O todo
implica em uma unidade complexa, não se reduzindo à soma de elementos
que compõem suas partes. As partes se relacionam com o todo e vice-versa,
enquanto tecidos heterogêneos, aliados ao paradoxo do uno e do múltiplo.
Cada parte contém especificidades, que inter-relacionadas ao todo se alte-
ram e modificam também o todo (Petraglia, 2003). Logo, a complexidade
é “[...] o tecido de acontecimentos, ações, interações, retroações, determi-
nações, acasos, que constituem nosso mundo fenomênico.” (Morin, 2005,
p. 13).
Sob o olhar de Morin (2015), o pensamento complexo condiz com
a parcela de incerteza pertinente ao próprio fenômeno ou aos limites da
própria compreensão humana. Contudo, o pensamento complexo não se
reduz à incerteza. Ela é “[...] a incerteza no seio de sistemas ricamente or-
ganizados. Ela diz respeito a sistemas aleatórios, cuja ordem é inseparável
dos acasos que os concernem.” (Morin, 2005, p. 35).
Na acepção de Morin (2015), não implica na total incerteza, como
também rejeita cálculos precisos, à medida que Morin compreende que a
maior riqueza do cérebro humano implica na habilidade de se trabalhar o
vago, o impreciso, fazendo adaptações e associações, de maneira diversa à
precisão do computador. A aceitação da ambiguidade dos fenômenos, que
ora confere ordem, ora desordem ante a interação do sujeito com o objeto,
confere criatividade e liberdade à Ciência e ao pesquisador. O movimento
incessante do devir, rejeitado pela História da Filosofia Ocidental, desde
Platão com a ideia de perfeição e verdade do Mundo Inteligível, é resga-
tado do pensamento pré-socrático, ante novas considerações, por filósofos
contemporâneos, tal como Morin.
Logo, interações, incertezas, indeterminações, unidades, diversida-
des contemplam a existência, a Arte, a Filosofia e, também, a Ciência, de
modo positivo e agregador. Visão diferente, portanto, da precisão e unici-
dade do paradigma cartesiano, a qual somente considerava a corrente de-
dutiva cartesiana, que tem seu apogeu com a defesa das verdades absolutas
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
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e separação total entre o sujeito e o objeto no Positivismo, bem como a
ideia de ordem e progresso.
No que tange à separação total do pesquisador do objeto pesquisado,
cuja compreensão é muito criticada por intelectuais que compartilham o
pensamento completo, justamente porque afastar o olhar mais reflexivo
do sujeito do processo do conhecimento, faz com que os pesquisadores
que trabalhem com o mesmo objeto cheguem muitas vezes aos mesmos
resultados. Essa ideia da certeza empobrece a Ciência. A riqueza da Ciência
está na multiplicidade de teorias que possam solucionar mais problemas
de pesquisa, sob critérios de verdade, dependendo dos objetivos, e não na
unicidade da verdade absoluta. Nesse sentido, Morin (2008, p. 33) reflete:
A verdade da ciência não está unicamente na capitalização das
verdades adquiridas, na verificação das teorias conhecidas. Está no
caráter aberto da aventura que permite, melhor dizendo, que hoje
exige a contestação das suas próprias estruturas de pensamento.
Bronovski dizia que o conceito da ciência não é nem absoluto nem
eterno. Talvez estejamos num momento crítico em que o próprio
conceito de ciência está a modificar-se [...].
A própria noção de sujeito na visão de Morin (2017) é complexa. O
sujeito aparece na autorreflexão, e segundo a maneira de pensar intersubje-
tiva de sujeito a sujeito, pode-se denominar de compreensão.
Contudo, o sujeito desaparece no conhecimento reducionista, de-
terminista, objetivista. De algum modo, o cientificismo baniu o sujeito
das Ciências Humanas e Sociais a partir do momento em que se propa-
gou entre elas o princípio redutor e determinista. Embora, posteriormente,
haja um retorno do sujeito trazido pelos estruturalistas, como Foucault
(1996), entre outros, Morin entende que essa corrente teórica contempla
um sujeito mais existencialista. Morin reestabelece o sujeito em termos
mais biológicos, pensando na ideia dessa autonomia que não é absoluta e
da auto-organização.
Na visão de Morin (2017) é preciso, em um primeiro plano, com-
preender que o conceito de indivíduo é pré-requisito ao conceito de sujeito
que, por sua vez, não é totalmente nem fixo, nem estável. Na história do
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pensamento biológico houve duas tendências contrárias: na primeira delas
só há indivíduos, o que se vê fisicamente; para a outra, a espécie incide na
única realidade, à medida que os indivíduos não passam de amostras de
um todo maior que é a espécie. Logo, o indivíduo desaparece para uma das
correntes e reaparece para a outra. No entanto, Morin (2017) alerta que
apesar da aparente negação entre as duas visões, é necessário procurar nelas
um elo complexo entre indivíduo e espécie, e este deve ser o mesmo entre
indivíduo e sociedade.
Sob o ponto de vista biológico, o indivíduo é produto de um proces-
so reprodutivo e, posteriormente, pode se tornar reprodutor. Sendo assim,
tem potencial de ser produto e reprodutor ao mesmo tempo, o mesmo
ocorre na relação de dependência entre indivíduo e sociedade. O indivíduo
está para a sociedade, assim como a sociedade está para o indivíduo. Há
uma reciprocidade, pois ela é formada por indivíduos que se formam por
meio dela.
Morin ressalta que a noção de sujeito está relacionada ao caráter
singular de sua computação (biológica, química, física, elétrica, psicológica
etc.), que é desconhecida de qualquer inteligência artificial ou computador
que se possa fabricar. “Essa computação do ser individual é a computação
que cada um faz de si mesmo, por si mesmo e para si mesmo. É um com-
puto, isto é, “[...] o ato pelo qual o sujeito se constitui posicionando-se no
centro de seu mundo para lidar com ele, considerá-lo, realizar nele todos os
atos de preservação, proteção, defesa.” (Morin, 2017, p. 120).
No que diz respeito ao conceito de ordem, ele não pode ser com-
preendido a partir da ideia determinista de imutabilidade, estabilidade,
permanência. O sentido da ordem, na perspectiva complexa, traz consigo
a ideia de interações de influências externas e internas e suas interações.
O mesmo ocorre com a ideia de Morin sobre desordem, a partir do pon-
to de vista de Petraglia (2003, p. 55): “A desordem vai além da ideia de
acaso, apesar de admiti-lo sempre”. Morin ressalta não saber se o acaso
é uma desordem objetiva ou fruto da ignorância humana. Entretanto, a
desordem faz parte de qualquer processo, em outras palavras, a desordem
compreende a imprevisibilidade, os acidentes e as agitações. No que tan-
ge ao espírito, “[...] a desordem se explica pela incerteza e é fundamental
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
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para a evolução do Universo e ainda abrange em seu conceito as ideias de
ambiente e observador” (Morin, 1977, p. 76 apud Petraglia, 2003, p. 56).
No rastro da desordem, encontram-se o acaso, o acontecimento e o
acidente. O acaso denota a impotência de um observador para realizar as
predições diante das múltiplas maneiras de desordem; o acontecimento de-
nota o caráter não regular, não repetitivo, singular e inesperado de um fato
físico para um observador; o acidente denota a perturbação causada pelo
encontro entre o fenômeno organizado e um acontecimento ou encontro
eventual entre dois fenômenos organizados.
Sendo assim, dessas ordens e desordens é que provém as novas te-
orias e conhecimentos. Todavia, Morin (2017) acredita que é preciso o
desenvolvimento da aptidão de contextualização. O que não implica em
apenas situar uma informação ou conhecimento em dado contexto, mas
também analisar o modo como o contexto é modificado por esses novos
elementos e quais são as inter-relações que se suscitam dessa nova situação.
Mais precisamente quais são as influências e relações de reciprocidade entre
o todo e as partes, e como uma modificação local repercute entre ambos.
“Trata-se ao mesmo tempo de reconhecer a unidade dentro do diverso; o
diverso dentro da unidade; de reconhecer, por exemplo, a unidade humana
em meio às diversidades individuais e culturais” (Morin, 2017, p. 25).
O pensamento complexo possibilita a ligação de princípios de in-
teligibilidade de diversos domínios, reconhecendo traços de singulari-
dade entre eles. Em vez de separar e isolar, se torna um pressuposto de
comunicabilidade.
3. A VisãO COMPLeXA DA CiênCiA DA infORMAçãO
nA ATUALiDADe
Na concepção de Araújo (2014), no Século XIX houve mudanças
relevantes quanto à maneira de se organizar e representar os documentos
impressos, principalmente com o desenvolvimento da Ciência e da tecno-
logia, a produção e o fluxo de periódicos e de livros cresceram considera-
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
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velmente. Em 1895, foi criado o l’Institut International de Bibliographie
(IIB) [Instituto Internacional de Bibliografia] por Paul Otlet e Henri La
Fontaine com o objetivo descrever detalhadamente, em um sistema de co-
operação internacional, a produção de todo o conhecimento registrado.
A partir disso, Otlet passa a vislumbrar a criação de uma nova disciplina,
a Documentação, em uma abordagem integradora, por meio de um pro-
cesso informativo-documental. “Ela seria para os arquivos, os museus, os
centros de cultura e demais instituições que custodiavam registros huma-
nos, aquilo que a bibliografia tinha sido para a Biblioteconomia” (Araújo,
2014, p. 101).
A Documentação passa a ser considerada muito importante para as
outras áreas do saber, bem como para outras instituições que, também,
trabalhavam com o conhecimento registrado. A finalidade desta disciplina
não era a de reunir uma coleção de documentos, mas sim de criar um fluxo
de informação e comunicação entre distintas instituições, o que implicava
não somente na posse, mas na disseminação da informação. Nessa perspec-
tiva, seria possível saber onde e como procurar um determinado documen-
to necessário para o desenvolvimento de uma pesquisa científica ou para a
resolução de um problema.
Entre os anos de 1920 e 1940, documentalistas no Reino Unido
e Estados Unidos ofereceram aos seus colegas de profissão, o chamado
Science Services. Cientistas de diversos campos, como engenheiros, quí-
micos e físicos passam a organizar resumos, índices, a fim de transmitir
informações aos outros pesquisadores. Este movimento foi conferindo, aos
poucos, uma institucionalização ao que se denomina atualmente de campo
da CI. Surgiram algumas propostas rumo a este objetivo desde 1930. Nas
décadas seguintes, elas se desdobraram na criação de alguns institutos e
conferências acerca do tema.
No entanto, apenas em 1961 e 1962 é que ocorreram dois eventos
que foram considerados marcos na Ciência da Informação, denominados
de Conferences on Training Science Information Specialists, realizados no
Georgia Institute of Technology. Nesse período, a disseminação da infor-
mação passa a ser uma necessidade, e não somente a posse do documento.
Com esta nova proposta, alguns artigos foram publicados, sobretudo na
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
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Inglaterra e Estados Unidos, em que relatam a importância do profissional
da informação na atividade científica e a importância da produção, organi-
zação e disseminação da informação (Araújo, 2014).
Nesse contexto, a Ciência da Informação surge formalmente nos
Estados Unidos, no início da década de 1960, relacionada aos problemas
da recuperação da informação em face do grande volume de material pro-
duzido, sobretudo, a partir da década de 1940 (Queiroz; Moura, 2015). A
terminologia foi um problema no início, vários nomes foram conferidos ao
campo da Ciência da Informação até se chegar ao mais adequado. O de-
senvolvimento científico e tecnológico corroboraram para o surgimento de
novas disciplinas, como a Computação, a Inteligência Artificial, a Filosofia
da Ciência e a Ciência da Informação.
A criação e desenvolvimento da Ciência da Informação, além do
contexto tecnológico, aliado aos estudos sobre recuperação da informação,
está intimamente relacionado a outras áreas do conhecimento, o que lhe
confere um caráter também humano e social. Este diálogo entre discipli-
nas, tais como a Filosofia, a Sociologia, a Psicologia, a Administração, a
Linguística, a Educação e a Comunicação, entre outras, torna a Ciência da
informação complexa e agregadora.
Como destaca Silva (2017, p. 240) “[...] a vantagem é que a CI
consegue dedicar seus modus operandi e sua diretriz científico-estratégica
a uma dimensão plural de atividades, tornando-a potencialmente apta à
construção de conhecimentos transversais”. Isso implica em uma relação de
cooperação entre a Ciência da Informação e outras áreas do conhecimento,
pois tanto ela sofreu influência e se solidificou pelo auxílio de outros cam-
pos, quanto contribuiu para o desenvolvimento de outras áreas. Contudo,
para Araújo (2014), o maior diálogo que a Ciência da Informação tece é
consigo mesma, pois mediante as contribuições de diversas áreas do co-
nhecimento, consegue em seu próprio âmbito criar lugar para a reflexão
e uso de diversos conceitos, mas com a especificidade de uma disciplina
autônoma, isto é, um olhar peculiar.
No entanto, Silva (2017) entende como desvantagem o fato de
que a CI, ao se debruçar ao conjunto muito amplo de abordagens, tem
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dificuldades em se aprofundar em um estudo ou prática científica, bem
como demonstra problemas ao se inter-relacionar com outros campos de
conhecimento. No entanto, defende-se a ideia de que, a princípio, isso
pode acontecer, mas esses efeitos podem ser minimizados com o tempo e a
generalidade do campo da CI é mais frutífera do que negativa. O aspecto
dialógico e agregador que ela apresenta em seu bojo, traz uma diversidade
de pesquisadores vindos de esferas diferentes, o que pode, no médio pra-
zo, minimizar o ponto negativo frente à troca de informações entre esses
profissionais.
Silva (2017, p.241) defende que a Ciência da Informação apesar
de ter um caráter mais relacionado a uma Ciência Social Aplicada, tem
uma dimensão humana e, por isso, necessita deste diálogo com as teorias,
conceitos e métodos de outros campos do conhecimento. Para tanto, este
autor destaca que esta relação ocorre principalmente “[...] no âmbito dos
sujeitos e com a dimensão tecnológica para aplicação de suas atividades
com processos, gestão e fluxos informacionais”. Assim, deve-se compre-
ender a informação como “[...] um processo histórico, social, holístico e
integralmente construído por meios teóricos e histórico-epistemológicos
para redimensionar a envergadura técnico-científica e social da CI” (Silva,
2017, p. 241).
Dessa maneira, frente à diversidade temática e a inter-relação com
outros saberes, definir o conceito e o objeto da Ciência da informação não
é uma tarefa fácil. Silva (2017) apresenta oito sentidos que o conceito pode
revelar:
1. Filosófico: alia-se à Filosofia da Linguagem e à questão semânti-
ca do próprio conceito, algo dinâmico frente às transformações
decorrentes do processo histórico-social da realidade, o que en-
seja em uma reformulação constante de signos, significados e
práticas da CI.
2. Comunicacional: reside na relação íntima entre informação e
comunicação, muito embora, deva-se entender que a informa-
ção possui dois processos distintos: o primeiro possui uma rela-
ção de dependência à prática da comunicação; e o segundo uma
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dimensão autônoma, pois a apropriação da informação, apesar
de ter uma natureza relacional, se refere a um processo individu-
al, à medida que cada pessoa se apropria de informação de uma
maneira própria, de acordo com suas experiências e consciência
e, consequentemente, a construção do conhecimento não será
uniforme, bem como o que cada um fará a partir dessa apropria-
ção. “A informação existe apenas no intervalo entre o contato
da pessoa com o suporte e apropriação da informação. [...] em
última instância quem determina a informação é o usuário que
faz uso do conteúdo e suportes informacionais” (Almeida Júnior,
2009, p.97).
3. Linguístico: a Ciência da Informação se expressa por um arca-
bouço de linguagens como meio de produção e organização do
seu conteúdo.
4. Sociológico: incide nos muitos olhares teórico-metodológicos
em que a Ciência da Informação aborda a informação na socie-
dade, de modo dialético, estruturalista, pós-estruturalista, feno-
menológico, entre outros.
5. Educacional: processos informativos e intelectuais aliados à me-
diação, transmissão e difusão da informação entre sujeitos.
6. Psicológico: refere-se aos estudos das práticas comportamentais
dos usuários diante da informação, isto é, como eles usam, aces-
sam, produzem ou recuperam a informação.
7. Tecnológico: é concernente aos impactos na produção da in-
formação, principalmente a digital, o que facilita na formação
de um conceito dinâmico de informação pautado nas relações
virtuais entre os sujeitos e a natureza dinâmica delas. Nesse sen-
tido, facilita a formação de novas maneiras de acesso, difusão e
recuperação da informação.
8. Gerencial: relacionado às práticas e estratégias informacionais e,
consequentemente, a tudo que envolve seu gerenciamento em
contextos organizacionais.
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Quanto ao objeto da Ciência da Informação, também não há unani-
midade. Embora a maioria dos pesquisadores da área afirme que seu objeto
é a informação registrada, Almeida Júnior (2015) propõe que seu objeto
seja a ‘mediação da informação’, à medida que o processo informacional é
dinâmico e interrelacional. A informação registrada não contempla outras
leituras acerca do mundo, como a leitura de uma imagem em movimento,
por exemplo. Sabe-se que ao assistir ao filme ou à peça teatral, obtém-se
informações que apropriadas se transformam em conhecimento. Sob esta
análise, na acepção de Capurro e Hjørland (2007, p.150) “[...] a coisa
mais importante em CI – como em política da informação – é considerar a
informação como uma força constitutiva na sociedade”. Para estes autores:
“[...] quando usamos o termo informação em CI, deveríamos ter sempre
em mente que informação é o que é informativo para determinada pessoa
e “[...] depende das necessidades interpretativas e habilidades do indiví-
duo”. Tal premissa inter-relaciona informação ao conhecimento.
Quanto à mediação no campo da Ciência da Informação, na afir-
mação de Araújo (2011), o termo foi utilizado em um primeiro momento
no sentido de ‘ponte’, conferindo ao profissional da informação a tarefa de
orientar a leitura dos usuários. Este sentido foi dado pelo filósofo Ortega y
Gasset, em 1935. No entanto, o conceito de ‘mediação da informação’ em
uma concepção dialógica, é apresentada por Almeida Júnior (2015) como:
Toda ação de interferência – realizada em um processo, por um
profissional da informação e na ambiência de equipamentos
informacionais –, direta ou indireta; consciente ou inconsciente;
singular ou plural; individual ou coletiva; visando a apropriação de
informação que satisfaça, parcialmente e de maneira momentânea,
uma necessidade informacional, gerando conflitos e novas
necessidades informacionais (Almeida Júnior, 2015, p. 25).
Ressalta-se que não se tem como objetivo demonstrar todas as cor-
rentes que envolvem o objeto e o conceito da Ciência da Informação, mas
sim o de demonstrar que ela é uma Ciência complexa, institucionalizada
na Pós-modernidade. Contudo, o simples fato de despontar como uma
disciplina institucionalizada na Década de 1960, por si só não a faz di-
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
219
ferente do conceito cartesiano reducionista e mecanicista da Ciência. Na
Pós-modernidade, há movimentos tal como a Teoria da Complexidade,
que anseiam por mudanças de visão, porém, a Ciência Clássica, que surgiu
na Idade Moderna, ainda prevalece como o modo mais usual à prática
científica.
De início, influenciada pela Teoria Matemática da Comunicação,
criada na Década de 1940, pelos matemáticos Claude Elwood Shannon
e Warren Weaver, a Ciência da Informação assume um caráter altamente
técnico, fundamentado na eficiência da transmissão de uma informação
do emissor ao receptor, utilizando princípios estatísticos (Martínez-Ávila,
2018). O que reduz muito o seu objeto de estudo, evidenciando apenas
os fenômenos físicos e mensuráveis, os aspectos humanos e sociais não são
considerados.
Nessa perspectiva, a Ciência da Informação é reduzida à visão po-
sitivista que restringe as Ciências Humanas e Sociais à concepção das Fí-
sico-Matemáticas, com suas técnicas exatas e modo de observar o obje-
to de estudo com frieza e pseudoneutralidade, como se isso fosse possível.
Contudo, a Teoria Matemática da Comunicação, como ressalta Martinez-
vila (2018) tem grande importância e função no campo da Informática.
Logo, não deve ser descartada.
Com o decurso do tempo, a CI vem assumindo uma postura mais
integradora que considera várias vertentes de diversas ciências, além de
receber e formar pesquisadores provenientes de outras áreas do conheci-
mento, que vem aos poucos a tornando uma Ciência complexa pelo seu
caráter dialógico, dinâmico, agregador, em que diferentes teorias e disci-
plinas convivem na multiplicidade de ideias. O resgate de pesquisadores
como Jesse Shera e Margareth Egan que, nas décadas de 1950 e 1960,
pretendiam trazer um caráter mais humanístico e cultural ao campo da
Ciência da Informação, ao introduzirem a ideia da Epistemologia Social.
Segundo Araújo (2014, p. 156), a ideia de Shera “[...] era construir
uma Ciência voltada para as diferentes maneiras como cada sociedade pro-
duz, faz circular e utiliza todas as formas de registros materiais do conhe-
cimento humano”. De acordo com esta perspectiva, o estudo na esfera da
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
220
Ciência da Informação necessita estar integrado a uma realidade humanís-
tica, social e cultural, pois como afirma Saracevic (1995, p. 42): “A CI teve
e tem um importante papel a desempenhar por sua forte dimensão social e
humana que ultrapassa a tecnologia”.
Nesse sentido, segundo Shera (1977, p. 11) “O armazenamento e
recuperação da informação, ou fatos, por mais bem feitos e por mais pre-
cisos que sejam os mecanismos para que sejam levados a efeito, não tem
nenhum valor, se não são utilizados para o bem da humanidade”. Assim,
este processo de revigoração da CI, desvinculado do modelo matemático-
-positivista inicial, é fundamental ao seu caráter dinâmico e complexo.
Mediante a visão do conhecimento humano como a realização de
um todo social, os dois bibliotecários americanos, Shera e Egan, escreve-
ram em 1952, o artigo denominado “Foundation of theory of bibliography
que se tornou a base para a criação da disciplina Epistemologia Social, que
em linhas gerais estuda os processos informacionais de modo relacional,
visualizando a importância da interação social na construção do conheci-
mento. Partindo da concepção de que a informação não pode ser isolada,
avaliam-se as dimensões dos fluxos informacionais, o trajeto percorrido
pela informação desde sua produção, integração, consumo e seus desdo-
bramentos dentro do contexto histórico-social.
Sob este olhar, o pensamento só pode ser comunicado dentro de
um modelo social que contemple o todo e que sintetize a interação entre
conhecimento e atividade social (Shera, 1977). “Assim como a necessidade
de informação orienta o indivíduo, assim também orienta as sociedades.
É a base do comportamento coletivo, tanto quanto o individual [...]. Mas
para ser transmitido dentro de um grupo e absorvido por qualquer gru-
po, o que é conhecido por cada um dos membros deve ser comunicado e
comu- nicável” (Shera, 1977, p. 9).
Apesar de o trabalho de Shera e Egan não ter sido reconhecido como
deveria, propiciou, mesmo que não explicitamente, a questão da sobreposi-
ção da razão técnica sobre a reflexão no âmbito da Ciência da Informação.
Ao trazer uma dimensão social da informação e do conhecimento para a
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
221
CI, minimiza-se a relação indivíduo-sistema, gerada, sobretudo, pela tec-
nocracia do pós-guerra.
Nesse sentido, expõe Odonne (2007, p.111 apud Macedo, 2013, p. 9):
Embora inúmeros fatores tenha ocorrido para esse resultado,
alguns deles, em especial, são prontamente identificáveis. A
princípio, deve-se observar que a veiculação do novo con- ceito de
à filosofia e à bibliografia não pereceu satisfazer os bibliotecários, já
que essas eram referências consideradas ultrapassadas àquela altura,
indo de encontro tanto ao eufórico espírito do pós-guerra quanto
ao modelo tecnicista adotado pela área desde o início do século –
Cutter e Dewey.
Reconhecer o aspecto social da Ciência da Informação não impli-
ca que Shera e Egan não reconheciam a importância da tecnologia neste
campo do conhecimento, pois não vislumbravam a proporção que esta iria
tomar. No entanto, compreendiam que é preciso “[...] domar a técnica
subjugando suas capacidades às nossas necessidades” (Shera, 1977, p. 11).
De acordo com Le Coadic (1996), a relação entre a Ciência da Informação
e a Biblioteconomia é histórico-social. A própria etimologia do vocábulo
Biblioteconomia demonstra esta natureza, à medida que ocorre pela con-
jugação de dois radicais: biblio (livros) e economia (produção, gestão).
A função do bibliotecário, há tempos, é muito maior do que apenas a
custódia de acervos e/ou coleções, ou seja, envolve gestão, organização,
mediação, entre outras atividades.
Shera (1977) expressa bem o papel de gerenciador de conhecimento
e a função social de um bibliotecário, afirmando que este deve atuar, a
fim de aumentar a utilidade gráfica dos registros, seja para atender uma
criança que está começando o processo de alfabetização, seja para satisfa-
zer a necessidade informacional de um erudito. O bibliotecário é muito
mais “[...] que um monte de truques para encontrar um determinado livro
numa estante [...]” (Shera, 1977, p. 11). Ele deve entender o papel que o
conhecimento exerce na sociedade em que atua, e o que a tecnologia pode
proporcionar ao processo para otimizar o tempo e facilitar seu trabalho.
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
222
Todavia, Shera (1977, p. 11) ressalta: “[...] o bibliotecário é o su-
premo ligador do tempo, e a sua disciplina é a mais interdisciplinar de
todas, pois é a ordenação, relação e estruturação do conhecimento e dos
conceitos”. Por mais precisa que seja a atuação de uma máquina no ar-
mazenamento e na recuperação da informação, ela não pode sobrepor o
pensamento criativo humano. E não tem valor algum se não for para servir
a humanidade na busca do bem comum (Shera, 1977).
A dimensão social trazida por Egan e Shera no âmbito da Ciência
da Informação, foi retomada a partir de novas leituras por filósofos e so-
ciólogos, tanto neste campo, quanto em outras áreas. Steve W. Fuller, por
exemplo, redescobriu a Epistemologia Social como base teórica na Ciência
da Informação (Martínez-Ávila, 2018).
Birger Hjørland também resgata o aspecto social, introduzindo
um novo conceito referente ao termo ‘Análise do Domínio’ à Ciência
da Informação, usado na Ciência da Computação (2017). Na visão de
Macedo (2013) acerca do tema, Hjørland entende que a melhor maneira
de se compreender a informação na Ciência da Informação é a partir da
Análise do Domínio do conhecimento, associando-a às comunidades dis-
cursivas produtoras desse conhecimento. Diversos grupos sociais formam
as comunidades discursivas, que se inter-relacionam em face da linguagem,
pensamento e conhecimento, fruto de uma estrutura organizacional.
Na concepção de Hjørland, o conhecimento deriva das interações
sociais do sujeito com o meio histórico-cultural em que vive. A partir da
Análise do Domínio das comunidades discursivas é possível reconhecer as
circunstâncias em que o conhecimento é construído e socializado. A infor-
mação, o usuário e o sistema de recuperação da informação passam a ser
analisados de modo agregador e não isoladamente (Macedo, 2013).
Para a Análise do Domínio é importante a compreensão das estru-
turas do conhecimento e o desenvolvimento das informações coletivas,
compreendendo que cada domínio tem sua lógica, ideologias e peculia-
ridades, revelando um consenso epistemológico. Cada domínio pode ser
interpretado a partir de múltiplos olhares, em face do seu objeto de estudo.
Toda a estrutura do domínio está diretamente relacionada com o modo
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
223
de ser, pensar e operar das comunidades discursivas. Desse modo, a análi-
se de domínio é um paradigma social-epistemológico que inter-relaciona
campos cognitivos às comunidades discursivas. O que possibilita o estudo
das áreas do conhecimento ou domínios, como comunidades discursivas
(Hjørland, 2017).
Sob este ponto de vista, cada domínio tem sua lógica, ideologias
e peculiaridades, revelando um consenso epistemológico, fruto de uma
divisão social do trabalho, a princípio, ele é um conhecimento especiali-
zado, fragmentado, estático, no sentido cartesiano. Contudo, a partir do
momento que se associa a ele o sentido de comunidade discursiva, isso faz
com que cada domínio possa ser interpretado sob múltiplos olhares.
Nesse intuito, pode até haver um consenso no objeto, mas não no
olhar do pesquisador, frente ao caráter dialógico e, portanto, dinâmico
que implica o conceito da comunidade discursiva. Ao partir da ideia de
que a comunidade discursiva tem uma natureza dialógica (de um debate)
e, até mesmo dialética, no sentido hegeliano, de promover uma síntese de
teses antagônicas, pode-se afirmar que especialistas são muito necessários
na Ciência da Informação, desde que também tenham uma visão do todo
e não só das partes.
4. COnsiDeRAçÕes finAis
A relação entre a Ciência da Informação e o pensamento complexo
se manifesta na maneira como os pesquisadores abordam as problemáticas
estudadas. O pensamento complexo reconhece a necessidade de múltiplas
perspectivas e a interdependência entre os elementos de um sistema. Isso é
essencial no âmbito da Ciência da Informação.
Um exemplo prático dessa intersecção pode ser visto na dinâmica
das redes sociais digitais, cujos ambientes são ricos em informação e, ao
mesmo tempo, representam sistemas complexos, em que a informação
circula de maneira não linear e é moldada pelas interações dos usuários.
A Ciência da Informação, ao estudar esses fenômenos, necessita utilizar
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
224
conceitos da Teoria da Complexidade para entender como a informação é
gerada, compartilhada e transformada no âmbito dessas interações.
Outro exemplo que pode ser destacado se trata dos pesquisadores
que realizam investigações sobre gestão do conhecimento que, necessa-
riamente, precisam conhecer a Teoria do Conhecimento (Filosofia), pers-
pectivas cognitivas (Ciências Cognitivas) e outros diálogos fundamentais,
para que possam compreender de fato os fenômenos inter-relacionados ao
tema.
As inter-relações entre a Ciência da Informação e o pensamento
complexo são profundas e multifacetadas, refletindo a natureza dinâmica e
interconectada da informação no mundo contemporâneo.
O pensamento complexo enfatiza que tudo está interconectado. Na
Ciência da Informação, isso se traduz na compreensão de que a infor-
mação não existe isoladamente. O pensamento complexo reconhece que
fenômenos sociais, culturais e tecnológicos são multifacetados. Na Ciência
da Informação, isso implica que a gestão da informação deve considerar
aspectos técnicos, humanos e contextuais, possibilitando uma abordagem
mais holística para resolver problemas.
No pensamento complexo, propriedades emergentes surgem de in-
terações entre partes. Na Ciência da Informação, isso pode ser visto em
como a colaboração em ambientes digitais leva a novas formas de conhe-
cimento e inovação, que não poderiam ser previstas a partir das partes
isoladas.
Os sistemas complexos são adaptáveis e evolutivos. No âmbito da
Ciência da Informação é essencial ser flexível e capaz de se ajustar às novas
tecnologias. Essa adaptabilidade é crucial para lidar com a rápida mudan-
ça no cenário informacional, como o surgimento de novas plataformas e
formas de interação.
O pensamento complexo promove uma visão sistêmica, em que é
fundamental entender as interações entre os diferentes componentes de
um sistema. Na Ciência da Informação, essa abordagem é sine qua non
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
225
para mapear fluxos de informação, identificar pontos críticos e melhorar a
eficiência de sistemas de gestão da informação e do conhecimento.
No contexto do pensamento complexo há diversidade de perspecti-
vas na análise de problemas. Na Ciência da Informação, essa diversidade é
crucial, pois a informação é interpretada de diferentes maneiras por dife-
rentes grupos. Isso ajuda a promover soluções mais inclusivas.
Essas inter-relações demonstram que a Ciência da Informação, ao
adotar uma abordagem complexa, pode aprimorar sua capacidade de lidar
com os fenômenos afetos ao mundo informacional contemporâneo, con-
tribuindo para uma compreensão mais rica e integrada.
Em suma, a Ciência da Informação, ao dialogar com a Teoria da
Complexidade e o pensamento complexo, amplia suas teorias, abordagens,
conceitos, métodos, técnicas e ferramentas, proporcionando uma compre-
ensão mais holística dos fenômenos informacionais.
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228
229
CAPÍTULO 7
M: 
 

Rafaela Carolina da SILVA
Rosângela Formentini CALDAS
1. inTRODUçãO
Bibliotecas são instituições que atuam com a essência da informação
nos seus mais variados formatos, podendo condizer com destaques como
a: Gestão, formação do conhecimento, Inteligência e até mesmo com a ge-
ração da complexidade. Para tanto, devem produzir um diálogo constante
com as localidades as quais se encontram inseridas. Assim, para que exista
uma efetiva comunicação que consiga encontrar respostas para o cotidiano
da sociedade, tais instituições devem estar plenamente integradas no con-
texto da existência das mais variadas esferas de ação entre os sujeitos e as
estruturas organizacionais.
Na trajetória sociocultural das bibliotecas, ocorreram mudanças que
foram respostas para os próprios anseios da sociedade como no caso do uso
das tecnologias nos ambientes institucionais. Nestas novas estruturas que
https://doi.org/10.36311/2025.978-65-5954-650-3.p229-
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
230
se formavam para a implementação nas bibliotecas tradicionais, de espaços
dinâmicos e integrativos, surgiram os conceitos de hibridez.
A palavra híbrido, significando convergência de tecnologias, é uma
constante nas bibliotecas. Com a integração das tecnologias, quaisquer que
sejam elas (hardware e software de computador, impressora, internet, base
de dados etc.), há dificuldade em se compreender o sentido e o nível de hi-
bridez desses locais. Por consequência, os indivíduos tendem a generalizar
a ideia de que todas as bibliotecas são híbridas. É possível, então, dizer que
as mudanças ideológicas nem sempre modificam uma teoria e o seu efeito
de reconhecimento (Althusser, 2017).
Em um momento em que as tecnologias se encontram tão avança-
das, será ainda necessário discutir o seu uso em bibliotecas como agregado-
ras de valor? A modernidade complexa e líquida que permeia a sociedade
(Bauman, 2001) tem como premissa que os indivíduos e instituições não
se fixam a um espaço ou tempo, mas se adaptam aos diferentes meios de
vivência. Consequentemente, a presença ou não de tecnologias nas biblio-
tecas não é mais o ponto-chave a ser discutido, mas sim como a hibridez
pode colaborar para os ambientes micro e macro dessas organizações.
Por ser uma realidade, a hibridez pode ir além, alcançando “[...] uma
ampla gama de usuários em diferentes círculos culturais, de modo que se
abrem ao uso público, sem distinções políticas, sociais, econômicas e cul-
turais.” (Silva, 2017, p. 164). O que confere a hibridez em uma biblioteca
é a sua complexidade e capacidade de impactar nos tipos de desenvolvi-
mento da esfera pública.
O objetivo da pesquisa foi o de propor um conceito inovador para as
bibliotecas, a partir da existência da hibridez como fonte de ação habitual
no ambiente institucional, entendendo o diálogo necessário entre infor-
mação, desenvolvimento e participação na gestão pública local. O embasa-
mento do estudo se deu por meio de uma pesquisa qualitativa, explicativa
e exploratória, de caráter teórico-epistemológico e de campo. Utilizou-se
o método Análise do Discurso Multimodal para a análise dos enunciados
levantados na pesquisa bibliográfica e na pesquisa de campo.
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
231
Cabe destacar que um conceito é uma faculdade intelectual do ser
humano, isto é, um pensamento, compreensão, noção, concepção ou ideia
que o indivíduo tem de uma palavra. Quando se fala em conceito, reme-
te-se a uma opinião, um ponto de vista, uma convicção, uma conclusão,
que aborda fatores morais e sociais para a sentença do significado de uma
palavra (Koselleck, 2006). O significado de um conceito está inter-relacio-
nado à realidade em que ele se situa. Um conceito é único, a partir de cada
situação histórica à qual se engendra, podendo ser transcendental.
A crítica ao conhecimento cartesiano e fragmentado trazida pela
Teoria da Complexidade (Morin, 2015) colocou a Biblioteconomia diante
do paradigma social, mostrando que os serviços e os produtos das bibliote-
cas, ou seja, o seu desenvolvimento em sociedade, tem mais relevância para
o público do que as tecnologias em si. Dessa maneira, a tecnologia passa
a ser caracterizada como uma ferramenta estratégica de auxílio, ao alcance
de novas ações.
No caso da hibridez, o paradigma cognitivo dá lugar ao paradig-
ma social quando vigora a compreensão de que os profissionais atuantes
em bibliotecas híbridas trabalham com o conhecimento, a inovação e a
inteligência, com foco nos produtos e serviços que a instituição oferece.
Esses são fatores complexos e dominantes que envolvem o micro e o ma-
croambiente organizacional, uma vez que o conceito de biblioteca híbrida
trabalha com uma diversidade de teorias, tecnologias, saberes, práticas e
públicos, contextualizando as macrobibliotecas.
2. HiBRiDeZ e COMPLeXiDADe eM BiBLiOTeCAs
Historicamente, o conceito de biblioteca híbrida foi cunhado por
Sutton (1996), designando a coexistência de coleções tradicionais e digitais
em bibliotecas, o que permaneceu como cerne do conceito hibridez na
literatura da área da Ciência da Informação. A hibridez surgiu no cenário
da Teoria dos Sistemas (da Biologia, de Bertalanffy), com foco inicial no
ambiente, em que todas as partes são interconectadas num todo, sendo
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
232
complementada pela Teoria da Complexidade (Drucker, 2001), na qual
adiciona-se a visão de que as instituições também sofrem influência de
forças externas ao ambiente.
O conhecimento, antes apenas trabalhado no microambiente ins-
titucional, passa a abarcar o macroambiente organizacional e, portanto,
a inovação e a inteligência são enfatizadas. Consequentemente, a tecno-
logia, anteriormente sob o ponto de vista do microambiente, passa a ser
influenciada pelo macroambiente, sofrendo inovações e sendo passível de
competitividade.
Para Orera-Orera e Pacheco (2017), as bibliotecas híbridas surgiram
na Sociedade da Informação e do Conhecimento e representam a globa-
lização e o volume cada vez maior de informação em diferentes mídias.
Conforme Santa Anna (2015), o foco está em viabilizar o armazenamento,
o processamento, a disseminação e o gerenciamento de documentos em
prol da inovação. Portanto, a hibridez de ações e processos organizacionais
parte da necessidade de se empregar métodos inovadores nas instituições,
de modo a potencializar o acesso à informação (Hill; Bossaller, 2013).
Segundo Russell, Gardner e Miller (1999), os requisitos básicos para
a implantação de bibliotecas híbridas são: 1) providência de serviços para
descoberta, localização, requisição, envio/entrega e utilização dos recursos;
2) fornecimento de serviços consistentes, para recursos locais ou remotos,
independentemente do tipo de suporte; 3) estrutura organizacional fle-
xível, proporcionando o desenvolvimento de novos sistemas quando ne-
cessário; e 4) sistemas baseados em normas internacionais, propiciando o
aumento do volume e o tráfego de recursos.
No que diz respeito à gestão das bibliotecas, a hibridez deve ser com-
preendida para além de sua estrutura física, como fator de representativi-
dade para o desenvolvimento de comunidades (Fowke, 2019). É ela quem
confere novos modos de se utilizar a tecnologia em favor da constituição
de um coletivo inteligente, abrangendo redes complexas de saberes, que
podem se unir e trazer um novo olhar para as bibliotecas.
Assim, para que o ambiente da biblioteca híbrida possa atender a
todos os usuários, as diferenças sociais precisam ser reconhecidas pela ges-
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
233
tão da biblioteca. Para mais, que esses locais ofereçam uma diversa gama
de fontes de informação, criando novas formas de comunicar e de disse-
minar descobertas, para facilitar a discussão sobre a informação recebida
(Hampson, 1999). Trata- se, portanto, de um espaço de aprendizagem
contínua, no qual funcionários e usuários precisam adquirir uma variedade
de habilidades para lidar com as informações apuradas.
3. esTRUTURAs ORGAniZACiOnAis De BiBLiOTeCAs
HÍBRiDAs e DesenVOLViMenTO
Como aconteceu na história da gestão, o campo teórico da hibridez
foi repensado para compor a gestão pública. Assim ele deixou de ser visto
apenas como uma convergência entre tecnologias analógicas e digitais, mas
também como um meio de se fazer a sociedade compreender a importân-
cia da organização biblioteca no dia a dia das comunidades.
O ideal de desenvolvimento social para bibliotecas aparece na li-
teratura a partir do século XXI. Mesmo trabalhando com a integração
da tecnologia na hibridez, quando se fala em Complexidade, o foco da
bi- blioteca híbrida deve ser não somente a implantação de ferramentas
nas instituições, mas a capacitação de pessoas no uso de tecnologias, jun-
tamente com a integração das necessidades e desejos dos usuários reais
e potenciais. Nessa premissa, a biblioteca híbrida está em consonância
com os objetivos da Agenda 2030 (International Federation of Library
Associations and Institutions, 2016).
Uma comunidade híbrida perpassa pelo que Lane e Lubatkin (1998)
chamam de capital social, ou seja, pelos ativos sociais inseridos em redes
de comunicação, pela motivação social, pela qualidade na troca de conhe-
cimento, pelo crescimento do conhecimento individual e em grupo, assim
como pelas relações entre os indivíduos pertencentes a uma determinada
comunidade. O capital seria o valor dado aos resultados obtidos pela rela-
ção social estabelecida, mais especificamente: pelo capital social estrutural
(caracterizado por redes ou estruturas de redes sociais de uma comunida-
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
234
de); pelo capital social relacional (atitudes positivas entre os membros de
uma comunidade, motivação e troca de conhecimentos); e pelo capital
social cognitivo (visão dos membros das comunidades com relação à dinâ-
mica de conhecimento) (Lane; Lubatkin, 1998).
Conforme Garrod (2001), Pugh (2004, 2005), Carr (2006), Sechi
et al. (2013) e Silva (2017), o principal tipo de desenvolvimento decor-
rente da atuação das bibliotecas deve ser o desenvolvimento humano e,
consequentemente, os desenvolvimentos social e sustentável. Pugh (2004)
destaca que o desenvolvimento humano nas bibliotecas pode ser percebido
em oposição às questões meramente tecnológicas, refletindo o novo com-
portamento organizacional dos indivíduos que frequentam esses locais.
Pugh (2005) estabelece bases teóricas para o gerenciamento de or-
ganizações que operam em circunstâncias de hibridez, destacando a im-
portância do design (forma física e funcionalidade) organizacional para a
adequação do ser humano nesses locais. As principais áreas das estruturas
organizacionais de equipamentos organizacionais híbridos relacionam-se
com a comunicação institucional, gestão de informação em meios eletrô-
nico e digital, estudo de competências de funcionários e usuários, ativida-
des de aprendizagem e de desenvolvimento humano, trabalho em equipe,
papel da liderança, assim como com o papel da alta e da média gerência no
gerenciamento desses processos.
O desenvolvimento social pode ser observado por meio das ativi-
dades educativas exercidas pelas bibliotecas híbridas, de modo a incluir
socialmente os usuários. Sob a perspectiva geral e, também, a perspectiva
epistêmica, as comunidades possuem características comuns a serem obser-
vadas do ponto de vista do desenvolvimento social. Os fatores de interação
social são baseados na experiência interna do sujeito (crenças, objetivos e
normas), na sua representação em sociedade e nas partes envolvidas dessa
representação, como as relações entre os indivíduos, seus ambientes de atu-
ação e o contexto com o qual interagem.
Compreender o desenvolvimento econômico implica no enten-
dimento de que quanto maiores os índices de desenvolvimento de uma
região, mais investimento de capital advindos de empresas e instituições
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
235
públicas será proporcionado às bibliotecas. Além disso, que os indivíduos
que possuem maior acesso à informação geram conhecimento para a evo-
lução da sociedade e ocupam melhores postos de trabalho, aumentando a
economia do município. As ações das bibliotecas, nesse sentido, se voltam
ao oferecimento de treinamentos para a comunidade, bem como para os
processos de capacitação de usuários. A título de exemplificação, é possível
prover serviços e tecnologias que auxiliem as empresas locais desde a sua
criação até o seu mantimento e inovação.
Do ponto de vista do desenvolvimento sustentável, a biblioteca
planeja para que seus produtos e serviços atendam às necessidades infor-
macionais do seu público, tornando-os seres autônomos em pesquisa e
capazes de gerar novos conhecimentos. Nesse desejo de buscar o usuário
e trazê-lo ao ambiente da biblioteca, o desenvolvimento sustentável é en-
fatizado, já que a instituição híbrida procura meios de fazer com que a
informação seja disseminada para todos, entendendo que toda e qualquer
pessoa da sociedade poderá se interessar por suas atividades. Além disso, ao
abarcar públicos de diferentes idades, raça, sexo, etc., o sentimento social é
despertado, bem como o desenvolvimento cultural.
A inovação nas estruturas organizacionais, então, é definida a partir
de mudanças significativas na estrutura e métodos gerenciais da institui-
ção, nos quais os trabalhadores e usuários são estudados como parte da
análise organizacional (Damanpour, 1991). Logo, não só as tecnologias,
mas as informações pressupõem mudanças, pois a biblioteca se torna um
sistema de redes em que a convergência de tecnologias e linguagens se faz
presente.
4. PeRCURsO MeTODOLÓGiCO
Esta pesquisa se caracterizou por ser qualitativa, do tipo explicativa
e exploratória. No que se refere à formação do constructo do conceito
necessário para se alcançar o objetivo do estudo, a pesquisa caracterizou-se
como teórico- epistemológica, “dedicada a reconstruir teorias, conceitos,
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
236
idéias, ideologias, polêmicas, tendo em vista, em termos imediatos, apri-
morar fundamentos teóricos” (Demo, 2000, p. 20). No que diz respeito às
bases para a construção do conceito de macrobiblioteca, abordou-se, em
um primeiro momento, uma pesquisa do tipo teórica.
O levantamento bibliográfico ocorreu na Base de Dados em Ciência
da Informação (BRAPCI), na Library and Information Science Abstracts
(LISA), na Web of Science (WoS), na Scopus e na Sociology Research
Database (SocINDEX), bem como no Catálogo Parthenon, que abrange
o acervo de diferentes universidades. As palavras-chave que propiciaram
o desenvolvimento das buscas foram: (“biblioteca” OR “hybrid library”)
AND (definition OR development OR concept OR definição OR de-
senvolvimento OR conceito). Delimitaram-se tais palavras como “assunto
principal”. O levantamento limitou-se a um período de 30 anos, conside-
rando o início do desenvolvimento da hibridez em bibliotecas (década de
1990) até os dias atuais.
Em um segundo momento, realizou-se uma coleta de dados in loco.
A pesquisa de campo foi feita com especialistas da área de bibliotecas hí-
bridas, nos diferentes campi da Universidade do Missouri, bem como da
observação in loco e da aplicação de entrevistas semiestruturadas para pro-
fissionais atuantes em contextos híbridos do Estado do Missouri (MO) e
do Kansas (KS), Estados Unidos da América, isto é, bibliotecários de 13
bibliotecas híbridas e cinco pesquisadores de universidades.
A estruturação do protocolo de entrevista pautou-se no resultado da
análise discursiva dos documentos levantados na pesquisa bibliográfica. A
entrevista, do tipo semiestruturada, e as observações participativas focaram
no paralelo estrutura física (tecnologia) versus gestão pública. Buscou-se,
primeiramente, compreender a estrutura e os serviços das bi- bliotecas hí-
bridas, isto é, como se dava a disponibilidade e a organização dos espaços e
se eles estavam ocorrendo em ambientes físicos e digitais.
Em uma etapa posterior, focou-se no impacto dessas bibliotecas para
as comunidades, ou seja, sua participação em aspectos sociais, econômicos,
culturais, humanos e sustentáveis do município de atuação.
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
237
Posteriormente, percorreu-se uma pesquisa aplicada (quase-experi-
mental), a partir do Modelo de Hibridez para Bibliotecas e desenvolvi-
mento na esfera pública elaborado pelas autoras e que demonstra como
os elementos de hibridez influenciam nos tipos de desenvolvimento da
sociedade e nas tipologias de bibliotecas. O modelo foi aplicado na análise
dos dados coletados na pesquisa de campo, a fim de compreender como
os elementos de hibridez elencados na fase I estavam sendo colocados em
prática, o que caracterizou a fase II deste estudo.
O Quadro 1 apresenta um esquema para embasar a análise de dados
de pesquisas, com o objetivo de propor conceitos.
Quadro 1 – Proposta metodológica para a formação de um conceito
FASES DA FORMAÇÃO DO CONCEITO
Método Análise do Discurso Multimodal
Etapas Ferramentas de coleta de dados
Estabelecimento de categorias
de análise.
Análise de enunciados
em diferentes tipologias
discursivas:
escrita (bibliografia levantada,
documentos, questionários);
oral (entrevistas, participação
observante).
Pesquisa bibliográfica Pesquisa de campo
Levantamento em bases de
dados de áreas específicas e
correlatas.
Identificação de relatórios
de desenvolvimento.
Leitura e fichamento do
material.
Organização lógica do
conteúdo.
Mensuração e tabulação dos
dados.
Entrevistas, aplicação de
questionários e discussão com
especialistas da área.
Aplicação do conceito em
determinado contexto.
Observação in loco ou
observação participativa.
Fonte: Elaborado pela autora.
Elencadas para a análise de resultados, as categorias de ADM foram
criadas pelas pesquisadoras a partir dos aportes teóricos dos assuntos pes-
quisados, bem como do objetivo do estudo. A saber: 1. Espaço institucio-
nal no qual o discurso fundamenta suas declarações: trabalhou-se com
as maneiras de se entender a gestão micro das bibliotecas e seu diálogo com
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
238
o ambiente macro; 2. A quem é dado o direito de fala e situações que
incitaram o discurso: abordaram-se o mais antigo e o mais atual discurso
proferido sobre biblioteca híbrida, de modo a entender a relação discur-
so-interdiscurso que os permeava; 3. Campo prático no qual o discurso
é desenvolvido e posicionamentos em que os conceitos colocam seus
sujeitos: procurou-se esmiuçar as práticas híbridas de bibliotecas em dife-
rentes épocas da sociedade, bem como sua interferência na gestão pública.
Dentro dessa perspectiva, também analisou-se quem tem acesso ao dis-
curso, destacando-se para quem o conceito de biblioteca híbrida foi de-
senvolvido (instituições e pessoas); 4. O que é reconhecido como válido
e o que o conceito pode excluir ou salientar: buscou-se compreender o
porquê de os autores terem chegado a tal concepção de biblioteca híbrida;
e 5. Associações entre bibliotecas híbridas, sua tipologia e tipos de de-
senvolvimento presentes na esfera pública: discutiu-se a possibilidade de
aplicação da hibridez em diferentes tipos de bibliotecas.
Tais categorias foram aplicadas na análise dos enunciados coletados,
em sua expressão toda de escrita, tanto na pesquisa bibliográfica quanto
na pesquisa de campo, investigando-se autor, local em que o enunciado
foi escrito, objeto descrito, ideologia, crenças pessoais e dado momento
histórico. Destaca- se que a ADM visa compreender as condições em que
os discursos foram produzidos, pois é a partir dessas condições que o inter-
discurso aparece na escrita e na fala dos sujeitos.
5. AnÁLise DisCURsiVA DOs enUnCiADOs sOBRe
BiBLiOTeCAs HÍBRiDAs
Dentre os enunciados que compõem a posição binária do conceito
de biblioteca híbrida – convergência tecnológica e tipos de desenvolvimen-
to educação na esfera pública –, são enfatizadas as mudanças históricas
que permearam o objetivo desses enunciados em relação aos usuários (a
quem o autor pensou dar o direito de fala) e às situações que incitaram o
desenvolvimento desses discursos. São trabalhados, no caso da pesquisa
bibliográfica, o primeiro enunciado levantado na literatura sobre biblio-
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
239
teca híbrida (Sutton, 1996); o enunciado de Orera-Orera (2007), que se
aloca em meados do percurso histórico do conceito; e o de Fowke (2019),
último enunciado encontrado no levantamento bibliográfico da pesquisa.
5.1 enUnCiADO De sUTTOn (1996, P. 125)
Metáforas: a) “A biblioteca híbrida é uma tipologia de biblioteca que
trabalha com fontes de informação tradicionais e digitais, de modo a explicitar
as mudanças na intermediação homem/máquina ocorrida em sociedade, além
dos variados suportes de acesso à informação na esfera pública”. – Implica
dizer que a biblioteca híbrida constitui um tipo de biblioteca com ca-
racterísticas específicas, que devem ser trabalhadas de maneira a atender
às necessidades de um público em questão. Enfatiza-se como elemento
característico desse local a convergência de tecnologias, salientando a
necessidade de se desenvolver produtos e serviços de acordo com as neces-
sidades informacionais das comunidades. b) “O conceito identifica o acesso
informacional como um serviço a ser mediado por profissionais da informação
para tornar os indivíduos competentes no contexto das bibliotecas digitais”.
- Destaca como elementos característicos da biblioteca híbrida o acesso
informacional e a mediação da informação por profissionais da infor-
mação, evidenciando-se a necessidade de tornar os usuários competentes
no uso de tecnologias.
Condições de produção: a) O enunciado foi produzido nos Estados
Unidos, por um docente da área de Biblioteconomia e da Ciência da
Informação, cujos campos de pesquisa se voltam para o ensino e aprendi-
zagem mediados por tecnologia, assim como à descoberta e recuperação da
informação em rede. Atualmente, Sutton se encontra aposentado e afasta-
do das pesquisas acadêmicas, mas, ainda se configura como um marco nos
estudos de hibridez, por ser o introdutor do conceito de biblioteca híbrida
a nível mundial. b) O discurso foi escrito, e não oralizado.
Quanto ao contexto: O enunciado foi produzido por um docente
atuante em universidades de Biblioteconomia e Ciência da Informação dos
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
240
EUA. O docente também ocupou o cargo de diretor em uma das univer-
sidades em que trabalhou. Na época, os EUA passaram por uma reforma
educacional com a finalidade de voltar seu ensino para o mercado do traba-
lho. É preciso enfatizar que os EUA consideram o serviço desenvolvido por
pesquisadores como uma profissão. O caminho percorrido na carreira do
autor possibilitou sua experiência no que diz respeito à história das ciên-
cias biblioteconômicas, que passou por diversas mudanças de paradigmas
até chegar à ideia de hibridez. Por trabalhar tanto com a convergência de
tecnologias, como com o ensino-aprendizagem, o autor acabou trazendo,
em seu enunciado, as duas posições para a atuação da biblioteca híbrida
em sociedade.
Direito de fala: O enunciado voltou-se às bibliotecas universitárias e
às formas de o profissional da informação trabalhar com os diversos tipos
de suportes de informação disponíveis em sociedade, de modo a promover
o acesso à informação nessas instituições. Também pode-se perceber que o
enunciado se refere à restrição do acesso à informação, nas universidades,
em termos de tecnologia e bases de dados. Portanto, havia a necessidade de
aumentar o âmago informacional desses pesquisadores a fim de auxiliá-los
no desenvolvimento de suas pesquisas.
5.2 enUnCiADO De OReRA-OReRA (2007, P. 330)
Metáforas: a) “Ao conceituar uma biblioteca híbrida, muitos aspectos
são relevantes: - O novo papel do bibliotecário, cuja importância é cada vez
maior, devido ao excesso de informação existente em sociedade e a necessidade
de trabalhá-lo com critérios de qualidade.” – Traz à tona a convergência de
tecnologias, mas também destaca a importância do bibliotecário no tra-
balho com a grande gama de informações gerada em sociedade. Sob esse
ponto de vista, a biblioteca híbrida é um modelo a ser seguido para se lidar
com a grande diversidade de tipos e recursos da informação, abrangendo
não somente o tratamento de recursos tecnológicos, como também os re-
cursos humanos.
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
241
– A equipe de gestão da informação requer um corpo de funcionários
maior e com treinamento diversificado, sendo os profissionais de informática
cada vez mais essenciais.” – Destaca o desenvolvimento da gestão da in-
formação. Aqui, além de se adquirir recursos tecnológicos e funcionários
qualificados, o conceito de biblioteca híbrida é estendido para o gerencia-
mento da informação e de pessoas, a fim de otimizar os serviços ofereci-
dos. Além disso, enfatiza a convergência de profissionais a fim de atender
aos seus objetivos.
Além disso, a gestão da biblioteca híbrida exige profissionais com for-
mação continuada, a fim de fazer jus às mudanças que ocorrerem na sociedade
da informação.” – De modo a tornar o conceito de biblioteca híbrida mais
pautável, a autora mostra como deve ser feita a gestão desses ambientes,
destacando a chamada sociedade da informação, uma sociedade em que
o principal bem de troca entre os sujeitos é a informação, o que traz a
necessidade de os profissionais da informação prezarem por uma edu-
cação continuada. O objetivo é que esses indivíduos estejam capacitados
para lidar com a ampla gama de informações criadas em sociedade, que se
diferem e mudam a cada dia.
Condições de produção: a) O enunciado foi produzido na Espanha,
por uma docente da área de Biblioteconomia e Documentação. Suas pesqui-
sas voltam- se para a evolução histórica de conceitos em Biblioteconomia.
b) O discurso foi escrito, e não oralizado.
Quanto ao contexto: O enunciado foi produzido por uma docen-
te do curso de Biblioteconomia de uma universidade espanhola. A au-
tora atua nas áreas de documentação e história da ciência, desenvolven-
do trabalhos acerca do desenvolvimento institucional das bibliotecas. No
enunciado, trata especialmente do contexto das bibliotecas universitárias,
pautando-se nas diretrizes do sistema espanhol de educação, que traz em
seus parâmetros o desenvolvimento de currículos flexíveis e a aprendiza-
gem contextualizada. Entende-se, assim, que as bibliotecas devem atuar
de modo a promoverem produtos e serviços de qualidade e que abordem a
demanda informacional advinda da sociedade da informação.
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
242
Direito de fala: O enunciado trata do ambiente das bibliotecas uni-
versitárias, destacando o gerenciamento da informação como o principal
recurso a ser trabalhado nas bibliotecas híbridas, além dos recursos huma-
nos. Enfatiza a necessidade de aprendizagem contínua dos profissionais,
de modo a atenderem às necessidades da sociedade – usuários. Também
ressalta a importância de mesclar o corpo de funcionários das bibliotecas
híbridas, abrangendo pessoas de diferentes áreas. Pode-se dizer que o di-
reito de fala do enunciado se concentra nos profissionais atuantes nesses
locais, focando nas suas especialidades e nos modos como eles lidam com
as comunidades de usuários.
5.3 enUnCiADO De fOWKe (2019, P. 236)
Metáforas: a) “A hibridez em bibliotecas pode ser compreendida pelo
modo como essas organizações combinam características de instituições públicas
e privadas”. – Implica em um novo modo de compreender o termo “hi-
bridez” para bibliotecas, destacando que ela possui características de insti-
tuições públicas e privadas. São partícipes dessa conceituação os elementos
tipo de financiamento, tipos de recursos que fazem parte da coleção e
comunidades com as quais a biblioteca trabalha.
À título de exemplificação, ao mesmo tempo em que uma bibliote-
ca é capaz de receber financiamento para trabalhar com serviços especia-
lizados, também pode se caracterizar como uma agência governamental,
isto é, agir em consonância com as políticas e as ações do governo”. – Trata
da exemplificação dos elementos “tipo de financiamento” e “comunidades
com as quais a biblioteca trabalha”. O autor destaca que os produtos e os
serviços desenvolvidos pela biblioteca híbrida devem estar em conso-
nância com a sua missão e visão, isto é, com as necessidades informacio-
nais do público para o qual foi designada.
Uma biblioteca é uma instituição que tem potencial para compor, em
sua infraestrutura, coleções privadas junto com bens públicos”. – Exemplifica
o elemento “tipos de recursos que fazem parte da coleção”. Aqui, leva-se
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
243
em conta a convergência de tecnologias analógicas e digitais, o financia-
mento desses materiais, além das possibilidades de acesso à informação.
Condições de produção: a) O enunciado foi produzido pelo biblio-
tecário de uma biblioteca universitária dos EUA, que atua na coleção digi-
tal do curso de Direito da instituição.
a) O discurso foi escrito, e não oralizado.
Quanto ao contexto: O enunciado foi produzido pelo bibliotecário
de uma universidade dos EUA. A atuação do autor, enquanto bibliotecá-
rio, se dá na coleção digital do curso de Direito da instituição. A universi-
dade é caracterizada por ser pública e, além da coleção de Direito, possui
materiais que abrangem os demais cursos que oferece. A hibridez pode ser
compreendida como a convergência de coleções particulares com a coleção
geral da universidade - pensamento complexo. Reforça-se a ideia de que,
nos EUA, o financiamento do ensino superior é misto, ou seja, mesmo
que uma universidade seja pública, o estudante necessita pagar uma taxa
mensal para ser discente da instituição. Esse cenário impacta no desenvol-
vimento de coleções das universidades e, consequentemente, das bibliote-
cas universitárias, que podem se designar tanto públicas quanto privadas.
O autor do enunciado atua, principalmente, supervisionando coleções e
oferecendo cursos para treinamento de usuários no uso de coleções digi-
tais. Desse modo, a visão de convergência de tecnologias é dada pelo autor
ao conceito de hibridez, em consonância com o ideal de que as bibliotecas
híbridas devem impactar no desenvolvimento de suas comunidades, de
acordo com a legislação vigente na gestão pública.
Direito de fala: O enunciado volta-se para o ambiente das biblio-
tecas universitárias, enfatizando as formas de financiamento para o de-
senvolvimento dos produtos e serviços – público e privado. No decorrer
do texto, o autor destaca que o macroambiente da biblioteca impactará
no cumprimento de sua missão e visão, mostrando se os profissionais da
informação estão atingindo os objetivos propostos. Além dos profissionais
da informação, o enunciado enfatiza a importância de a biblioteca levar em
conta as comunidades para desenvolver políticas institucionais. Portanto, o
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
244
usuário é um sujeito importante quando delimita os efeitos de sentido do
conceito de biblioteca híbrida neste enunciado.
Há, como ilustra a Figura 1, uma relação entre os elementos de hi-
bridez em bibliotecas, os tipos de bibliotecas e o impacto nos tipos de
desenvolvimento na esfera pública, o que reforça a tese de que a hibridez é
um modelo de gestão.
Figura 1 - Associação entre o conceito de hibridez, os tipos de bibliotecas
e o desenvolvimento na esfera pública
Fonte: Elaborada pelas autoras (2023).
Da imagem, pode-se compreender as seguintes relações entre
os elementos de hibridez elencados e seu impacto na esfera pública: 1.
Convergência de tecnologias: impacta o desenvolvimento econômico; 2.
Estudo de usuários e atendimento aos interesses informacionais das co-
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
245
munidades: impacta o desenvolvimento social; 3. Treinamento de equipes
generalistas: impacta o desenvolvimento humano; 4. Equipe multidiscipli-
nar: impacta o desenvolvimento humano; 5. Bibliotecário como um líder
institucional: impacta o desenvolvimento humano; 6. Interatividade entre
os usuários: impacta o desenvolvimento cultural; 7. Maiores possibilidades
de acesso à informação: impacta os desenvolvimentos humano, social e cul-
tural; 8. Flexibilidade e gestão de ambientes: impacta os desenvolvimentos
econômico e social; 9. Promoção da competência em informação: impacta
o desenvolvimento cultural; 10. Design do macroambiente e arquitetura
diferenciados: impacta o desenvolvimento econômico; 11. Relação públi-
co/ privado: impacta os desenvolvimentos econômico e social; e 12. Todos
os elementos e suas relações impactam o desenvolvimento sustentável.
As concepções de biblioteca híbrida dadas pelos bibliotecários entre-
vistados demonstraram que eles bibliotecários compreendem como sendo
características do conceito de hibridez as premissas que seguem, dispostas
da mais para a menos frequente, a saber:
Convergência de tecnologias como ferramenta estratégica para
encurtar distâncias e ampliar os meios pelos quais um indivíduo
acessa a informação - abrange recursos de informação, platafor-
mas e serviços (repetida 11 vezes);
O principal objetivo da biblioteca híbrida é promover o acesso
à informação ao maior número possível de pessoas (oito vezes);
Para se trabalhar com a hibridez, é necessário realizar a análise
das necessidades e dos desejos de informação dos usuários (qua-
tro vezes);
A biblioteca híbrida atua em uma gestão de transição, planejan-
do serviços e produtos em recursos tradicionais, eletrônicos e
digitais (quatro vezes);
A hibridez flexibiliza a estrutura da biblioteca, uma vez que tal
organização precisa estar aberta às demandas de potenciais usu-
ários, o que pode ser denominado como organismo vivo (seis
vezes);
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
246
Ao favorecer a troca de conhecimentos entre os indivíduos, a
competência em informação e a interatividade entre eles, a hibri-
dez objetiva incluir os usuários socialmente (cinco vezes);
A hibridez compreende o ambiente complexo das organizações,
isto é, seus ambientes micro e macro (três vezes);
A hibridez pressupõe atualização e promoção a inovação, logo,
necessita trabalhar com uma equipe multidisciplinar (três vezes);
Bibliotecas híbridas podem se caracterizar como centros de in-
formação, que combinam dois ou mais tipos de equipamentos
de informação em um mesmo ambiente de atuação (duas vezes);
O objetivo da hibridez é a inovação (uma vez).
Tendo em vista esse cenário, pode-se dizer que, no contexto das bi-
bliotecas estudadas, a hibridez caracteriza ambientes organizacionais com-
plexos, compostos de micro e macro ambientes que trabalham sob a perspectiva
de um centro de informação, isto é, combinando, ou não, dois ou mais tipos
de equipamentos de informação em um mesmo espaço. Nesse sentido, o termo
hibridez pode ser entendido como um modelo de gestão que busca flexibilizar
a estrutura da biblioteca, mas que, não necessariamente, está ligado a ela. A
hibridez pode ser aplicada em qualquer ambiente, uma vez que seu principal
objetivo é promover o acesso à informação ao maior número possível de pessoas.
Por estar aberta às demandas de usuários potenciais, as instituições híbridas
prezam pela inovação, esta trabalhada a partir do estudo das necessidades e
dos desejos de informação dos usuários. Para tanto, a necessidade de se ter
uma equipe multidisciplinar capaz de tornar os usuários competentes no uso
da informação. Em sua complexidade, a hibridez pressupõe a convergência de
tecnologias, ambientes, serviços e plataformas, ou seja, de recursos tradicionais,
eletrônicos e digitais, em prol de encurtar distâncias, favorecer a troca de co-
nhecimentos, a interatividade entre os indivíduos e a inclusão social.
Todas as pesquisas desenvolvidas pelos pesquisadores assemelham-
-se no quesito promoção do acesso à informação, isto é, equidade social,
marginalização no acesso à informação, igualdade de acesso, disseminação
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
247
da informação e busca e uso da informação, especificando-se em contexto
histórico, comunidades marginalizadas (P2), uso da tecnologia e inovação,
informação na área da saúde e convergência de tecnologias. É dessa con-
figuração que demandam os ideais além tecnologia enunciados por eles.
Desse modo, no que se refere à discursividade dos enunciados dos pes-
quisadores, pode-se dizer que uma biblioteca híbrida é uma instituição cujo
principal objetivo é promover o acesso à informação a usuários reais, bem como
produtos e serviços que tragam os usuários potenciais para a instituição. Ela
procura, por meio da sua influência nos desenvolvimentos cultural, econômico,
humano, social e sustentável, tornar os usuários competentes no uso da infor-
mação. Para tanto, converge tecnologias e/ ou trabalha com diferentes tipolo-
gias de bibliotecas, combinando suas características em um mesmo ambiente.
Algumas das práticas necessárias para se conseguir esse objetivo são estudo de
usuários, flexibilidade da infraestrutura e gestão de ambientes, treinamento
de equipes generalistas e multidisciplinares, bem como inovação do design/ar-
quitetura da biblioteca tradicional em favor do desenvolvimento da sociedade.
6. COnCeiTO APLiCADO De BiBLiOTeCA HÍBRiDA: As
MACROBiBLiOTeCAs
A proposta de conceito de biblioteca híbrida resultante deste estudo
é a de um modelo de flexibilização tanto da gestão quanto da estrutura
física, design e arquitetura de ambientes organizacionais complexos, com-
preendendo-se os micro e macro ambientes organizacionais, o que torna a
instituição em um centro informacional sistêmico e denomina as macro-
bibliotecas. A hibridez pode ser trabalhada sob três configurações: combi-
nação das características de diferentes equipamentos culturais em um mes-
mo espaço; convergência de tecnologias, ambientes, serviços e plataformas,
ou seja, de recursos de informação tradicionais, eletrônicos e digitais, em
prol de encurtar distâncias, favorecer a troca de informações, a interativi-
dade entre os usuários e a inclusão social, o que promove o conhecimento;
ou em instituições que transitam em uma complexidade e influenciam
no âmbito público, impactando nas diferentes esferas do conhecimento
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
248
e, consequentemente, movimentando os índices de desenvolvimento das
suas regiões e países. Esse terceiro ponto se destaca por estar conectado
com a inteligência.
A configuração da inteligência está ligada ao desenvolvimento de
pesquisas de ponta, propriedade intelectual, inteligência artificial e áreas
afins. Nos três casos, objetiva-se promover o acesso à informação a usuários
reais, bem como produtos e serviços de valia aos potenciais. Para tanto,
uma biblioteca híbrida, ou macrobiblioteca, está aberta às demandas da
sociedade, prezando pela inovação, essa trabalhada a partir do estudo de
usuários e do treinamento de equipes multidisciplinares, capazes de tornar
os usuários competentes no uso da informação. A influência dessas biblio-
tecas na esfera pública pode ser percebida por meio do seu impacto nos
desenvolvimentos cultural, econômico, humano, social e sustentável.
Desse modo, uma biblioteca híbrida é uma organização complexa,
pautada em um modelo de gestão que busca flexibilizar a estrutura, design
e arquitetura dos seus micro e macro ambientes. Ela solidifica os centros
informacionais híbridos e objetiva favorecer a troca de conhecimentos en-
tre os usuários, a inovação, a inclusão social, a interatividade e, principal-
mente, o acesso à informação a usuários reais e potenciais. Tais objetivos
podem ser alcançados a partir do estudo de usuários e do treinamento de
equipes multidisciplinares, a fim de tornar os indivíduos competentes em
informação. Pode ser trabalhada sob três perspectivas: inteligência para im-
pacto em índices de desenvolvimento, combinação de dois ou mais tipos
de equipamentos de informação e convergência de tecnologias.
Propõe-se, então, que ao se referir ao conceito de biblioteca híbrida
aqui exposto, seja usado o termo macrobiblioteca, uma vez que ele esboça
questões futurísticas para o ambiente das bibliotecas. O mapa conceitual
da Figura 2 esmiuça o conceito de macrobiblioteca, a partir da complexi-
dade proporcionada por esse ambiente.
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
249
Figura 2 – Macrobiblioteca: a biblioteca na complexidade do futuro
Fonte: Elaborada pelas autoras via CMap Tools (2023).
O conceito de hibridez enquanto modelo de gestão desenvolveu-se
a partir do entendimento da existência atual das bibliotecas híbridas e efe-
tivou-se nestas instituições. Estudos futuros poderão colocá-lo em prática
no contexto dos arquivos e dos museus.
7. COnsiDeRAçÕes finAis
A biblioteca híbrida é um modelo de flexibilização da gestão, estru-
tura física, design e arquitetura das instituições, tornando-as em ambien-
tes organizacionais complexos e sistêmicos. A palavra híbrido refere-se à
combinação de características de diferentes equipamentos culturais em um
mesmo espaço; à convergência de tecnologias, ambientes, serviços e plata-
formas; e à transição de instituições em uma complexidade que impacta as
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
250
diferentes esferas do conhecimento e movimenta os índices de desenvolvi-
mento das regiões e países.
O propósito da biblioteca híbrida é promover acesso à informação
a usuários reais e potenciais. Ao mesmo tempo, propiciar a interatividade
entre os indivíduos, promovendo a inclusão social. À vista disso, a hibridez
preza pela inovação, modificando as atividades das bibliotecas de acordo
com as demandas da sociedade. É nesse contexto que se ressalta a inteligên-
cia e a complexidade. Ademais, trabalha com o estudo de usuários e com o
treinamento de equipes multidisciplinares para que haja competência em
informação e compartilhamento de conhecimentos.
Nessa perspectiva, o impacto científico desta pesquisa pode ser per-
cebido na estruturação de ambientes complexos, híbridos e inovadores,
contribuindo para o encaminhamento de um novo entendimento de bi-
blioteca híbrida no campo da Ciência da Informação. Na metodologia,
oferece uma proposta metodológica para a formação de conceitos, por
meio do Método Análise do Discurso Multimodal e das ferramentas de
coleta de dados pesquisa bibliográfica e pesquisa de campo.
Outrossim, ao demonstrar a influência das instituições híbridas nos
tipos de desenvolvimento no âmbito público, o estudo repercute nas es-
feras cultural, econômica, humana, social e sustentável. Os resultados
ainda podem contribuir para que bibliotecas de municípios, Estados e fe-
derações desenvolvam serviços de implicação mais imediata nas comunida-
des, elevando os índices de desenvolvimento humano e econômico.
As reflexões decorridas ao longo das seções excedem questões pura-
mente sociais, uma vez que os desenvolvimentos econômico e sustentável
permeiam discussões políticas, programas de crescimento nacional e par-
cerias internacionais. A hibridez é um instrumento viável que se vincula à
multidimensionalidade das bibliotecas e sociedade, possibilitando a efeti-
vação de mudanças concretas.
Nesse contexto, sugere-se, para estudos futuros, a abordagem da hi-
bridez para além das bibliotecas, arquivos e museus, também para centros
informacionais de outras naturezas. A aplicabilidade do conceito de biblio-
teca híbrida aqui elaborado seria outra possibilidade. Ainda, pesquisas rela-
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
251
cionadas à formação e funcionamento organizacional inteligente, estímulo
à criação e à capacitação tecnológica, propriedade intelectual e vantagem
competitiva poderiam repercutir na hibridicidade de centros informacio-
nais complexos, viabilizando a partilha de conhecimentos e articulação de
ações corroborativas.
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254
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CAPÍTULO 8
E I  
A J  D
F     C
 I
Natália NAKANO
Rosilene Paiva Marinho de SOUSA
Milton SHINTAKU
1. INTRODUÇÃO
A inovação é elemento essencial para alcançar desenvolvimento eco-
nômico e social, pois leva a avanços em diversos setores, desde a indústria
até os serviços públicos. No Brasil, o Marco Legal da Ciência, Tecnologia e
Inovação (Brasil, 2016) se tornou referência fundamental para fomentar a
pesquisa e a inovação no país. A referida lei busca propiciar um ambiente
mais favorável para a colaboração entre o setor acadêmico, empresarial e
governamental, incentivando a transferência de conhecimento e tecnolo-
gias. Para o Marco Legal da Ciência, Tecnologia e Inovação, inovação pode
ser definida como a introdução de inovações no ambiente produtivo e so-
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
256
cial, destacando que essas inovações podem resultar em novos produtos,
serviços ou processos. No entanto, inovação não implica apenas em novi-
dades, inovação também se configura em novas funcionalidades ou carac-
terísticas a produtos, serviços ou processos já existentes, com o objetivo de
alcançar melhorias e um ganho efetivo na qualidade ou no desempenho.
Para a lei, o foco está na implementação de mudanças que geram avanços
significativos e melhorias concretas, beneficiando tanto a produção quanto
a experiência social (Brasil, 2016).
Este conceito reforça a importância de não apenas criar algo total-
mente novo, mas também de aprimorar o que já existe, agregando valor e
impulsionando o desenvolvimento contínuo.
Embora sejam várias as discussões sobre o que significa inovação e
como ela é interpretada, entende-se que a inovação envolve a melhoria
contínua no ambiente produtivo. Além disso, que inovar significa imple-
mentar novas funcionalidades ou características a um produto, serviço ou
processo. Essa busca contínua por melhorias objetiva a obtenção de melho-
res resultados, o que, por sua vez, impacta a forma como esses produtos,
serviços ou processos são utilizados e aplicados em diferentes contextos.
No âmbito da administração pública, a Lei nº 14.129 (Brasil, 2021),
conhecida como Lei do Governo Digital, estabelece um marco regulatório
inovador para a administração pública brasileira. Criada para melhorar a
eficiência da administração pública busca, dentre outros, a desburocrati-
zação, inovação, transformação digital e maior participação dos cidadãos.
Destaca-se, para o foco deste estudo, o artigo 14 da lei, que estabelece que
os serviços devem ser prestados por meio de tecnologias acessíveis a toda
a população, incluindo pessoas de baixa renda e aquelas em áreas rurais e
isoladas.
A lei também permite que cada ente federado desenvolva suas pró-
prias estratégias de governo digital (Brasil, 2021), em alinhamento com a
estratégia federal, permitindo que novas funcionalidades e melhorias sejam
adaptadas e aplicadas de maneira compatível e integrada em diferentes ní-
veis de governo.
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
257
Entre suas disposições, a lei permite a criação de redes de conheci-
mento pelo Poder Executivo Federal, destinadas ao compartilhamento e
disseminação de conhecimentos e experiências, à formulação de propostas
de padrões, políticas, guias e manuais, bem como à discussão de desafios
e à prospecção de novas tecnologias para facilitar a prestação de serviços
públicos e a participação social por meios digitais.
Conforme o artigo 17, §1º, essas redes de conhecimento podem
incluir órgãos da administração pública direta e indireta federal, além das
administrações de outros entes federados que adotem os comandos da lei
por meio de atos normativos próprios.
A lei também prevê a instituição de laboratórios de inovação, con-
forme os artigos 44 e 45, que promovem a colaboração interinstitucional
e com a sociedade, a experimentação de tecnologias abertas e livres, o uso
de métodos ágeis para a formulação e implementação de políticas públi-
cas, e o foco na sociedade e no cidadão. Essas diretrizes visam incentivar
a inovação e apoiar políticas públicas orientadas por dados, melhorando
a gestão pública. Além disso, a lei estabelece os direitos dos usuários dos
serviços públicos digitais e os recursos essenciais para que as plataformas de
governo digital sejam utilizadas por todos os níveis de governo federativo
(Brasil, 2021).
Em linha com o cenário de inovações encorajados pelo Governo
Federal, este capítulo apresenta as inovações propostas no projeto
“Comunicação Jurídica no Distrito Federal: proposição de modelo vol-
tado à Integração de Serviços”, cujo objetivo foi desenvolver um modelo
para integração dos serviços de Comunicação Jurídica no Distrito Federal.
Os estudos desenvolvidos para o projeto, bem como o detalhamento da
metodologia e os achados na íntegra estão disponíveis no livro resultado
do projeto (Sousa et al., 2024).
A pesquisa foi conduzida com a aplicação de questionários centrados
na análise do capital intelectual dos respondentes, permitindo a identifica-
ção de desafios, necessidades e problemas que evidenciaram a necessidade
de pontos de conexão para a melhoria, desburocratização e simplificação
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
258
dos serviços prestados pelas assessorias jurídicas das regiões administrativas
do DF que concordaram em participar do projeto de pesquisa.
O capital intelectual, conforme definido pela legislação (Brasil,
2016), compreende o conhecimento acumulado pelo pessoal da orga-
nização, aplicável em projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação.
Segundo Portela et al. (2023) é composto por capital interno (conceitos,
modelos, processos, sistemas administrativos e informacionais), capital ex-
terno (relações com clientes, fornecedores, stakeholders, marcas, imagem e
reputação), e capital humano (habilidades, educação, experiências, valores
e competências das pessoas).
A partir da análise dos dados coletados e do capital intelectual dos
respondentes, detalha-se as inovações procedimentais sugeridas pelo proje-
to de pesquisa a fim de tornar as informações mais acessíveis aos usuários e
aprimorar os serviços prestados pelas assessorias dos órgãos da administra-
ção direta do poder executivo do Distrito Federal.
2. As ReGiÕes ADMinisTRATiVAs DO DisTRiTO
feDeRAL
O Distrito Federal (DF) tem uma configuração única, assemelhan-
do-se a uma cidade-estado. Conforme destacado por Moraes (2023), o DF
possui uma estrutura administrativa única que não se enquadra perfeita-
mente na categoria de estado ou município. Isso ocorre devido à combi-
nação de competências legislativas e tributárias que o DF possui, que são
similares tanto às dos estados quanto às dos municípios, dependendo do
contexto.
Uma das 27 unidades federativas do Brasil, o DF está localizado na
região Centro-Oeste, fazendo fronteira com os estados de Goiás e, em uma
pequena faixa, com Minas Gerais. Com uma área de pouco mais de 5,76
mil km², é a menor unidade federativa em extensão territorial do Brasil.
Para facilitar sua administração, o DF está dividido em regiões admi-
nistrativas, compondo-se da capital do país, Brasília, e 32 cidades-satélites.
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
259
Essa estrutura permite uma gestão mais eficiente de uma das áreas com
maior densidade populacional do Brasil. A origem das regiões administra-
tivas está diretamente ligada à construção de Brasília e ao desenvolvimento
do interior do Brasil. A ideia de mudar a capital para o centro do país
remonta ao período colonial, mas só foi concretizada em 1960, durante o
governo de Juscelino Kubitschek. O projeto de Brasília foi concebido pelo
urbanista Lúcio Costa, com o arquiteto Oscar Niemeyer e o engenheiro
Joaquim Cardozo, com o objetivo de integrar diferentes regiões do Brasil e
fortalecer a segurança nacional, promovendo o desenvolvimento social do
interior do país.
A construção de Brasília atraiu milhares de trabalhadores de todo o
Brasil, que se estabeleceram em áreas urbanas ao redor da capital. Esses nú-
cleos urbanos, inicialmente chamados de cidades-satélites, foram oficiali-
zados como regiões administrativas pela Lei nº 4.545 (Brasil, 1964). Cada
região administrativa tem uma administração regional que representa o
governo do DF e coordena os serviços públicos locais.
Atualmente, o DF possui 35 regiões administrativas1. Essas regiões
são subdivididas em zonas urbanas e rurais, conforme o Plano Diretor de
Ordenamento Territorial do Distrito Federal (PDOT). Seus limites físicos
definem a jurisdição para a ação governamental, facilitando a descentrali-
zação administrativa e a coordenação dos serviços públicos. Cada região
administrativa possui uma administração regional que representa o gover-
no do DF e promove os serviços públicos locais. Essas administrações são
lideradas por administradores regionais, indicados pelo governador do DF.
Essa estrutura administrativa é fundamental para a organização e gestão
eficaz do DF, assegurando que os serviços públicos sejam prestados de ma-
neira eficiente e equitativa em todas as regiões administrativas.
3. PeRCURsO DA COLeTA De DADOs
Primeiramente, foi necessário o mapeamento das instituições onde
a coleta de dados seria realizada, abrangendo os órgãos da administração
direta do Poder Executivo Federal.
Acesse: https://www.df.gov.br/administracoes-regionais/
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
260
Foram estabelecidos como objetivo da coleta dados: obter dados
do fluxo de comunicação jurídica que não estivessem disponíveis em fon-
tes documentais, mas também dados que pudessem ser quantificados.
Além disso, os dados deveriam espelhar a realidade do dia a dia do órgão.
Assim, meio de entrevistas a fim de entender o fluxo de informações nas
instituições.
As entrevistas, definidas como reuniões para troca de informações
por meio de perguntas e respostas, estabelecem uma comunicação para
a construção de significado (Hernández Sampieri; Fernández Collado;
Baptista Lucio, 2013). Além disso, de acordo com Marconi e Lakatos
(2021), a entrevista é um procedimento que contribui para o diagnóstico
ou tratamento de problemas sociais. É utilizada na investigação social para
a coleta de dados e tem como objetivo a descoberta de um plano de ação.
Assim, a entrevista permite a identificação de condutas adequadas para
determinadas situações, através de considerações práticas sobre o que pode
ser feito.
Para este estudo, além do roteiro estruturado de perguntas específi-
cas, alguns critérios foram estabelecidos para o sucesso da entrevista:
1. Conhecimento Prévio do Entrevistado: Antes da entrevista, os
coletores exploraram o website da região administrativa que lhes
foram designadas para obter informações básicas sobre o entre-
vistado, telefone e endereço de contato.
2. Agendamento com Antecedência: As entrevistas foram agenda-
das com antecedência, garantindo que o entrevistado estivesse
disponível no horário combinado.
3. Garantia de Confidencialidade: Foi garantida a confidencialida-
de das informações fornecidas pelo entrevistado.
4. Estabelecimento de Contato com Líderes: Foi realizado contato
com líderes ou responsáveis para facilitar o entrosamento com o
entrevistado.
5. Utilização de Roteiro Previamente Elaborado: Foi elaborado um
roteiro de entrevista estruturada.
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
261
6. Explicação da Natureza da Pesquisa: No momento da entrevista,
o colaborador responsável pela coleta de dados foi instruído a
usar linguagem clara e objetiva para explicar a natureza da pes-
quisa, sua importância e a necessidade das respostas, sempre bus-
cando estimular o interesse do entrevistado.
7. Estrutura do Questionário: O questionário utilizado na entre-
vista incluiu perguntas abertas e fechadas, com um total de 10
questões específicas relacionadas ao objeto da pesquisa.
8. Nota Explicativa: O questionário foi acompanhado de uma nota
explicativa, para facilitar o entendimento do entrevistado sobre
as perguntas e o contexto da pesquisa.
9. Termo de Consentimento: O Termo de Consentimento, enca-
minhado pelo Instituto de Informação em Ciência e Tecnologia
(Ibict), foi levado pelo colaborador para obter a concordân-
cia formal do entrevistado em participar voluntariamente da
pesquisa.
10. Promoção da Adesão: Os colaboradores foram instruídos a en-
corajar a adesão dos entrevistados com a explicação da impor-
tância e dos termos da pesquisa para garantir uma amostra repre-
sentativa e dados significativos para o estudo.
Após a elaboração do questionário, definido o universo da pesquisa,
os colaboradores responsáveis partiram a campo para coleta de dados.
4. ResULTADOs DA PesQUisA ReALiZADA nAs
AssessORiAs JURÍDiCO-LeGisLATiVAs DA
ADMinisTRAçãO DiReTA DO Df
Além da análise quantitativa da pesquisa, que não abordada nesta
oportunidade, foi aplicado um questionário com perguntas abertas sobre
o desafio na oferta de serviços, no recebimento dos pedidos, na gestão dos
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
262
serviços e na entrega das respostas. Os respondentes foram funcionários
responsáveis das assessorias das regiões administrativas que aceitaram par-
ticipar voluntariamente da pesquisa.
Uma vez que as respostas foram abertas, constatou-se uma grande va-
riedade nas três perguntas envolvendo desafios, necessidades e problemas.
Assim, optou-se por realizar uma análise qualitativa e interpreta-
ção dos dados, seguindo a abordagem de análise de conteúdo de Bardin
(1977). Assim, a partir da análise realizada na exploração dos questioná-
rios, as seguintes categorias foram levantadas para os desafios: Linguagem,
Tecnologia, Recursos Humanos e Materiais, Prazos, Fluxo de Comunicação
e Segurança Jurídica. Com relação aos desafios, na categoria Linguagem, os
desafios relatados incluem textos mal elaborados que dificultam a compre-
ensão do que é solicitado, além de dúvidas sobre a necessidade de resposta
da Assessoria Jurídico-Legislativa devido à falta de clareza ou objetividade.
Com relação à categoria Tecnologia, os desafios tecnológicos en-
volvem a falta de equipamentos adequados e a instabilidade do Sistema
Eletrônico de Informações (SEI), além da ausência de apoio técnico e
pessoal especializado. Também são mencionadas a falta de integração e
comunicação entre os sistemas de diferentes órgãos e a falta de unificação
das secretarias. Os desafios da categoria Recursos Humanos e Materiais
incluem a necessidade de capacitação para o uso do SEI e treinamento em
questões jurídicas, dificuldades em atender a grande demanda de proces-
sos no prazo estabelecido, e ineficiência dos cursos de treinamento. Além
disso, há falta de pessoal suficiente e material apropriado para pesquisa. A
análise dessa categoria levou à categoria seguinte, Prazos. Há dificuldades
em cumprir prazos devido à equipe reduzida e à demora nas respostas às
demandas externas.
Outra categoria identificada na análise foi Fluxo de Comunicação
Padronizado. Os desafios verificados incluem a falta de padronização no
fluxo de serviço, ausência de um fluxo pré-determinado de respostas ou
atuação, e a inexistência de um canal de comunicação com a Assessoria
Jurídico-legislativa (AJL) da Secretaria de Estado de Governo do DF
(SE- GOV).
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
263
A última categoria identificada foi Segurança Jurídica. Os desafios
envolvem o alcance e os limites impostos pela lei, a necessidade de padro-
nização das notas jurídicas, e a ausência ou desatualização de normas.
Garantir segurança jurídica é um desafio especialmente quando a
solicitação é indeferida.
Com relação às necessidades para oferta e/ou melhoria dos servi-
ços, as categorias identificadas foram: Tecnologia e Recursos Humanos e
Materiais. Para a categoria Tecnologia, os respondentes destacam a neces-
sidade de um SEI estável e um sistema integrado para melhor atender às
demandas dos cidadãos. Com relação aos Recursos Humanos e Materiais,
necessidade de aumentar o número de assessores e servidores, melhorar a
estrutura física, e atualizar a biblioteca.
O questionário também incluiu questões sobre os problemas mais
frequentes enfrentados nas unidades. As seguintes categorias foram encon-
tradas: Linguagem, Tecnologia, Recursos Humanos e Materiais, Prazos, e
Fluxo de Comunicação.
Na categoria Linguagem, o uso inapropriado da linguagem gera in-
certezas nas solicitações ou demandas. Em Tecnologia, foi constatado que
a instabilidade do sistema SEI é frequentemente mencionada como um
problema. Em Recursos Humanos e Materiais, a falta de manutenção de
equipamentos e de pessoal capacitado tanto no SEI quanto na área jurídica
foi identificada. Na categoria Prazos, os prazos para responder às demandas
são considerados curtos em relação ao número de demandas. Em Fluxo
de Comunicação Padronizado, identificou-se que o fluxo de comunicação
padronizado e a comunicação com outros órgãos são relatados como pro-
blemáticos por alguns respondentes. Na categoria Segurança Jurídica, veri-
ficou-se que existe uma incerteza sobre quais normas seguir, bem como a
falta de um sistema que ofereça fundamentos claros, o que representa um
risco para a eficiência e qualidade do serviço.
A última seção do questionário incluiu um espaço para comentários,
uma oportunidade para que os respondentes esclarecessem algum aspecto
não coberto pelo questionário, mas que eles consideravam relevantes para a
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
264
melhoria do serviço. A análise dos comentários levou a identificação de três
categorias: cursos de capacitação; fluxo comunicacional e infraestrutura.
Na categoria Cursos de Capacitação, os respondentes destacaram a
necessidade de cursos de capacitação e encontros jurídicos para melhorar a
prestação de serviços. Em Fluxo Comunicacional, indicaram a necessidade
de um sistema de informação jurídica integrado e um fluxo comunicacio-
nal padronizado. Por outro lado, em Infraestrutura, os respondentes enfa-
tizaram a necessidade de melhores equipamentos e maior estabilidade no
sistema SEI.
Os resultados evidenciam a falta de sistemas de informação cola-
borativos e integrados como um problema importante, especialmente no
que diz respeito às necessidades e aos desafios enfrentados no dia a dia dos
assessores. Nos casos em que uma ação envolve mais de um órgão, muitas
vezes há duplicação de análises jurídicas, com cada órgão produzindo in-
dependentemente notas técnicas, pareceres e outros documentos. Sistemas
de informação integrados e colaborativos poderiam resolver esse problema
e acelerar os processos das unidades jurídicas dos órgãos do DF.
Após analisar os desafios enfrentados pelas assessorias, o projeto de
pesquisa propõe a implementação de alguns sistemas de informação para
ajudar na execução das atividades das unidades jurídicas. Para isso, o pro-
jeto também oferece a experiência e a expertise do Instituto Brasileiro de
Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict) em sistemas de gestão da in-
formação para propor essas soluções.
5. BiBLiOTeCA DiGiTAL COLABORATiVA JURÍDiCA DO
DisTRiTO feDeRAL
As Bibliotecas Digitais surgiram a partir do movimento de arqui-
vos abertos (Open Archives) na década de 1990, focando no compartilha-
mento da memória técnica. Um exemplo é a Biblioteca Digital Jurídica
(BDJur) do Superior Tribunal de Justiça (STJ), criada no início do século
XXI, que aumentou a visibilidade da produção intelectual dos órgãos e
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
265
atendeu a transparência ativa exigida pela Lei de Acesso à Informação
(LAI) (Brasil, 2011).
No caso da proposta da Biblioteca Digital Colaborativa Jurídica do
Distrito Federal, o acervo poderia incluir documentos produzidos pelas
assessorias e consultorias jurídicas, permitindo o compartilhamento e a so-
cialização do conhecimento. Isso possibilitaria que assessores e consultores
acessassem informações consolidadas para a criação de novos documentos.
Além disso, poderia criar uma base de jurisprudência, onde informa-
ções de pareceres anteriores sustentariam novos pareceres e documentos,
fortalecendo o amparo legal da produção intelectual das unidades adminis-
trativas. Essa documentação também poderia servir de modelo para novos
documentos, promovendo a melhoria e destacando boas práticas na cria-
ção de documentos.
O Poder Judiciário Brasileiro, que já utiliza bibliotecas digitais ex-
tensivamente, como a Biblioteca Digital do Tribunal de Justiça do Distrito
Federal e dos Territórios (TJDFT), poderia servir de modelo. A Biblioteca
Digital Colaborativa Jurídica do Distrito Federal poderia usar a mesma
tecnologia, como a plataforma DSpace, apoiada pelo Ibict, para garantir
interoperabilidade com outras bibliotecas digitais do judiciário.
Esta biblioteca digital seria única e serviria a todos os órgãos do
Poder Executivo Distrital, sendo mantida pelo Palácio do Buriti, mas com
a participação de todas as unidades jurídicas. Cada órgão gerenciaria sua
própria documentação em uma gestão colaborativa, com uma política de
gestão desenvolvida para atender às especificidades de cada órgão, garan-
tindo harmonia no processo.
6. fÓRUM infORMATiZADO De DisCUssãO JURÍDiCA
Tecnologia de fácil implementação e que pode ter um grande impac-
to nas atividades das assessorias e consultorias jurídicas é a criação de um
Fórum de Discussão. São sistemas de informação colaborativos comuns
em algumas redes profissionais, como na área de informática, e são usados
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
266
para tirar dúvidas, pedir apoio técnico e resolver problemas, entre outros.
Esses sistemas possibilitam a criação de uma rede colaborativa para discutir
desafios.
Os fóruns podem ser restritos a membros para garantir privacidade,
especialmente em temas sensíveis. Apenas os membros poderiam acessar
os conteúdos postados, mesmo sendo um sistema acessível pela internet.
A segurança pode ser gerenciada por meio de usuário e senha, conforme o
padrão dos sistemas de informação do governo do Distrito Federal.
Existem várias tecnologias disponíveis para criar fóruns na internet,
mas com acesso restrito aos membros. Muitas dessas tecnologias são de
software livre, como o Discourse, disponibilizado pela Civilized Discourse
Construction Kit. Além disso, há opções de tecnologias livres e proprietá-
rias para a criação do fórum, ficando a cargo da equipe de informática do
Palácio do Buriti a seleção e implementação do sistema.
As postagens no fórum poderiam abordar problemas ou dúvidas
simples e também questões mais complexas. O pedido de ajuda poderia
ser atendido por todos os participantes do fórum por meio de discussões
registradas, permitindo encontrar as melhores soluções e criar boas práticas
coletivas. Com os registros das discussões, os membros poderiam acessar as
postagens e suas respectivas discussões para resolver dúvidas ou problemas.
Fóruns informatizados são canais colaborativos importantes para
gestão da informação, pois promovem a socialização e externalização do
conhecimento. Essas ferramentas permitem que a informação atenda às
necessidades informacionais de seus membros e, quando necessário, que
a solução seja compartilhada externamente ou contratada, garantindo um
melhor uso do dinheiro público.
7. sisTeMA COLABORATiVO De PRODUçãO De
DOCUMenTOs JURÍDiCOs
De acordo com Duque et al. (2012), sistemas colaborativos, ou grou-
pware, são sistemas de software projetados para ajudar grupos de pessoas a
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
267
colaborar e compartilhar informações. Eles suportam a criação, modifica-
ção e compartilhamento de dados, informações e documentos dentro de
um ambiente digital onde os usuários podem acessar e trabalhar em dados
e documentos em tempo real. A vantagem desse ambiente é que permitem
várias pessoas trabalhando simultaneamente em um mesmo documento
ou projeto, promovendo a colaboração. Além disso, os sistemas de grou-
pware integram ferramentas de comunicação, como chats em tempo real, e
mecanismos de fluxo de trabalho, que coordenam as atividades dos mem-
bros do grupo.
Para muitos estudiosos, o futuro está na colaboração, em que a
construção da informação ocorre de forma social (Sousa et al., 2024). A
Wikipédia é um importante exemplo dessa construção colaborativa, fun-
cionando desde 2001 como a maior enciclopédia virtual do mundo, com
textos em diversos idiomas e abrangendo uma vasta gama de conheci-
mentos humanos, demonstrando o poder da colaboração no registro do
conhecimento.
No âmbito da administração pública, quando as ações envolvem
mais de um órgão, é comum que documentos referentes às demandas pas-
sem pela assessoria ou consultoria jurídica. Frequentemente, essa mesma
documentação é revisada pelas assessorias ou consultorias de cada órgão
envolvido, exigindo parecer ou nota técnica.
Portanto, seria vantajoso se os pareceres ou notas técnicas fossem
elaborados colaborativamente entre as assessorias ou consultorias jurídi-
cas dos órgãos envolvidos, resultando em ganho de tempo e menor esforço
ou até mesmo retrabalho, uma vez que a cocriação pode alinhar visões e
ajustar diferenças entre os órgãos. A implementação de um sistema colabo-
rativo para a construção de documentos de apoio aos processos daria maior
tornaria as iniciativas governamentais mais dinâmicas e robustas.
No caso do nosso estudo, verificou-se que as assessorias e consul-
torias jurídicas são, de maneira geral, formadas por equipes pequenas. A
construção colaborativa de pareceres e notas técnicas permite somar esfor-
ços, atendendo de maneira mais eficiente às demandas internas e externas.
Sistemas de criação colaborativa de textos já têm sua utilização consolidada
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
268
há muito tempo, englobando revisões, sugestões e até alterações nos textos
(Sousa et al., 2024). Além disso, a computação em nuvem tem se tornado
cada vez mais comum em diversos ramos e atividades, facilitando a imple-
mentação de sistemas colaborativos de documentos em ambientes virtuais.
Plataformas como o Google para armazenamento compartilhado de fotos,
textos e outros arquivos estão popularizados e têm o seu uso incorporado
ao dia a dia de muitas pessoas, o que simplifica a adaptação a esses sistemas.
Assim, a criação de um ambiente estável, robusto e seguro para a constru-
ção colaborativa de documentos pode melhorar significativamente a qua-
lidade dos resultados. O fato de sua utilização em ambientes em nuvem
estar relativamente disseminado facilita a implementação desses sistemas,
resultando em adaptações rápidas e eficientes.
8. enCOnTROs TÉCniCOs CienTÍfiCOs De
AssessORes e COnsULTORes JURÍDiCOs DO
DisTRiTO feDeRAL
Outro achado da pesquisa identificou um certo isolamento relata-
do entre as unidades, por conta da pouca interação entre as assessorias e
consultorias jurídicas de diferentes órgãos. De fato, não houve relatos de
reuniões ou encontros periódicos entre assessores e consultores jurídicos
para promover a colaboração. Para abordar essa questão, propusemos a
realização de encontros anuais entre esses profissionais para discutir boas
práticas no serviço público. Esses encontros, promovidos pelo Palácio do
Buriti, incentivariam a interação e a troca de experiências entre os profissio-
nais das assessorias e consultorias jurídicas dos órgãos do Poder Executivo
do Distrito Federal, com a realização de apresentações, mesas redondas e
palestras.
Outra lacuna importante identificada na análise dos dados se refere à
percepção de falta de apoio, que poderia ser solucionada estrategicamente
com cursos de capacitação e aperfeiçoamento dos profissionais das asses-
sorias por meio de oficinas com especialistas em direito administrativo.
profissionais. A justificativa para tal proposição é que a área jurídica está
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
269
em constante evolução, exigindo estudos contínuos de seus profissionais.
Portanto, esses encontros seriam benéficos para melhorar a qualidade dos
profissionais das assessorias e consultorias do DF. Aproximando equipes
jurídicas de diferentes órgãos, os profissionais podem se qualificar por meio
da troca de experiências, difusão de melhores práticas, discussão teórica e
incentivo à melhoria do trabalho. Na academia, entende-se que os eventos
são os principais canais de discussão sobre temas relevantes, e, em algu-
mas disciplinas, são considerados os principais meios de apresentação de
novos conhecimentos. Na área jurídica, isso também ocorre, com eventos
frequentemente promovidos pelos tribunais. No entanto, não há registros
de eventos exclusivamente voltados para as assessorias e consultorias jurídi-
cas dos órgãos do Poder Executivo do Distrito Federal, possivelmente por
serem considerados como áreas meio da administração pública. Portanto,
um evento dedicado a esses profissionais não apenas demonstra valoriza-
ção, mas também promove a melhoria de suas atuações.
9. COnsiDeRAçÕes finAis
O questionário aplicado aos respondentes da pesquisa, indivíduos
representantes das assessorias que aceitaram a participação voluntária no
projeto, foram fundamentais para o levantamento dos dados, ou seja, dos
registros que representam as informações. Vale destacar que esses dados
isolados não possuem significado intrínseco se interpretados de forma in-
dependente, pois não fornecem uma visão completa ou contextualizada
sobre o tema da investigação.
Para transformar esses dados em informações que permitissem iden-
tificar as lacunas do dia a dia das assessorias de forma a propor inova-
ções para melhoria do serviço, foi realizada uma análise de conteúdo. Os
dados foram examinados em profundidade, em busca de padrões, ten-
dências e correlações que pudessem emergir quando contextualizados.
Adicionalmente, a análise de conteúdo permitiu que os dados isolados
fossem categorizados, proporcionando uma compreensão mais ampla e
significativa das informações coletadas. A título de ilustração da contex-
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
270
tualização, um dado isolado sobre a falta de apoio para capacitação men-
cionada por um respondente pode não significar muito isoladamente, mas
quando analisado em conjunto com dados de outros respondentes sobre
a dificuldade no uso do SEI no cotidiano e a colaboração entre os órgãos,
pode revelar insights importantes.
Com base na análise dos dados, a pesquisa sugere inovações e poten-
ciais implementações por meio de recursos tecnológicos com a finalidade
de construir conhecimento de forma mais eficiente, melhorar o fluxo in-
formacional e comunicacional entre os órgãos e, portanto, melhorar os
serviços oferecidos pelos órgãos para os cidadãos.
Destaca-se que um fluxo de informação mais eficiente resulta em de-
cisões mais informadas, processos mais ágeis e, consequentemente, um ser-
viço público de melhor qualidade. A troca de experiências e a cocriação de
documentos entre assessorias jurídicas de diferentes órgãos, por exemplo,
pode levar a pareceres mais robustos e bem fundamentados, beneficiando
todo o processo administrativo.
Portanto, a partir da análise dos dados levantados por meio de entre-
vistas, foram identificadas áreas de melhoria e inovações tecnológicas que po-
dem ser de implementação relativamente simples para aprimorar a constru-
ção do conhecimento, a comunicação e os serviços oferecidos. A abordagem
colaborativa e o uso de tecnologias são essenciais para enfrentar os desafios
identificados e promover um serviço público mais eficiente e eficaz.
RefeRênCiAs
BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 1977.
BRASIL. Lei nº 4.545, de 10 de dezembro de 1964. Dispõe sôbre a reestruturação
administrativa do Distrito Federal, e dá outras providências. Diário Oficial da União,
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BRASIL. Lei nº 12.527, de 18 de novembro de 2011. Regula o acesso a informações
previsto no inciso XXXIII do art. 5º , no inciso II do § 3º do art. 37 e no § 2º do art.
216 da Constituição Federal; altera a Lei nº 8.112, de 11 de dezembro de 1990; revoga
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
271
a Lei nº 11.111, de 5 de maio de 2005, e dispositivos da Lei nº 8.159, de 8 de janeiro
de 1991; e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 18 nov. 2011.
Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2011/lei/l12527.
htm. Acesso em: 19 dez. 2024.
BRASIL. Lei nº 13.243, de 11 de janeiro de 2016. Dispõe sobre estímulos ao
desenvolvimento científico, à pesquisa, à capacitação científica e tecnológica e à
inovação e altera a Lei nº 10.973, de 2 de dezembro de 2004, a Lei nº 6.815, de 19
de agosto de 1980, a Lei nº 8.666, de 21 de junho de 1993, a Lei nº 12.462, de 4 de
agosto de 2011, a Lei nº 8.745, de 9 de dezembro de 1993, a Lei nº 8.958, de 20 de
dezembro de 1994, a Lei nº 8.010, de 29 de março de 1990, a Lei nº 8.032, de 12 de
abril de 1990, e a Lei nº 12.772, de 28 de dezembro de 2012, nos termos da Emenda
Constitucional nº 85, de 26 de fevereiro de 2015. Diário Oficial da União, Brasília,
DF, 12 jan. 2016. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-
2018/2016/Lei/L13243.htm. Acesso em: 19 dez. 2024.
BRASIL. Lei nº 14.129, de 29 de março de 2021. Dispõe sobre princípios, regras e
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a Lei nº 7.116, de 29 de agosto de 1983, a Lei nº 12.527, de 18 de novembro de
2011 (Lei de Acesso à Informação), a Lei nº 12.682, de 9 de julho de 2012, e a Lei
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272
273
CAPÍTULO 9
T  
   
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D  W
Gabriela de Oliveira SOUZA
Maria José Vicentini JORENTE
1. inTRODUçãO
As transformações das tecnologias ao longo do tempo modificaram
a maneira com que os indivíduos trabalham e solucionam problemas. No
entanto, segundo Douglas Engelbart (2002) é necessário que os indivíduos
façam um melhor uso dos computadores para aumentar as competências
humanas em solucionar problemas difíceis e complexos. Para Engelbart
https://doi.org/10.36311/2025.978-65-5954-650-3.p273-306
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
274
(2002), as soluções para tais problemas não serão produzidas por compu-
tadores que trabalham de forma isolada e sim nos conhecimentos e capaci-
dades dos indivíduos que devem atuar de forma coletiva, com o auxílio das
tecnologias, que ampliarão as capacidades individuais humanas em coletar
informações, manipulá-las, compartilhá-las e, a partir de tal processo, gerar
conhecimentos e colocá-los em prática.
Entendemos que as convergências entre o Design da Informação
(DI) e a Curadoria Digital (CD) podem contribuir para que os ambientes
dígito-virtuais viabilizem a colaboração e o compartilhamento da informa-
ção: o DI por recursos estratégicos na criação de meios que facilitariam a
objetivação e o compartilhamento de conhecimentos estratégicos na arti-
culação das linguagens não verbais, meios essenciais de produção e recep-
ção da informação (Jorente, 2015). A CD, por sua vez, emerge enquanto
uma solução para a semantização do grande volume de dados e informa-
ções presentes na Web, e compreende conceitos e ações desenvolvidas para
preservar e agregar valor aos dados de pesquisa digital ao longo de seu
ciclo de vida” (DCC, 2004).
A convergência entre DI e CD daria conta dos desafios que emergem
no processo de disponibilização, acesso e compartilhamento de informa-
ções em ambientes Web. Tendo em vista tal convergência, apresentam-se
aos profissionais da informação e à Ciência da Informação de modo geral
diversas possibilidades, além de recursos tecnológicos que possibilitam di-
ferentes formas de interação.
Nesse contexto, questionamos como o Design da Informação (DI)
e a Curadoria Digital (CD) podem contribuir com a construção de am-
bientes dígito-virtuais colaborativos e a fim de exemplificar as significati-
vas mudanças derivadas da hipótese da convergência sugerida analisamos
os ambientes dígito-virtuais resultantes dos projetos Jugando a definir la
ciencia, Club Lexic, Microscopi, Diximed para Pediatría e COMJunts, do
qual uma das autoras do presente capítulo participou: compreender como
as convergências entre Design da Informação e Curadoria Digital podem
beneficiar ambientes pós-custodiais de natureza dígito-virtual colaborati-
va. Para tanto, foi necessário, primeiramente, analisar os projetos e seus
ambientes dígito-virtuais.
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
275
2. PROCeDiMenTOs MeTODOLÓGiCOs
O presente estudo apresenta natureza qualitativa e configura-se como
descritivo e exploratório. O método aplicado foi o Design inking, defi-
nido enquanto um método complexo que busca encontrar soluções por
meio de ideias baseadas no design que possam ser implementadas de forma
prática (Nakano; Oliveira; Jorente, 2018). Conforme Nakano, Oliveira
e Jorente (2018), o Design inking possui três fases distintas: imersão,
ideação e prototipação. A fase de imersão busca identificar problemas e
necessidades. A fase de ideação consiste no uso de elementos de design para
encontrar soluções para os problemas identificados na fase anterior.
A fase de prototipação envolve o desenvolvimento de uma propos-
ta de solução para os problemas identificados anteriormente (Nakano;
Oliveira; Jorente, 2018).
As técnicas utilizadas para a coleta de dados foram a revisão de litera-
tura e a observação participante. A revisão de literatura foi realizada a partir
dos resultados de uma busca nas bases de dados Brapci, Periódicos Capes
e SciELO. A bibliografia recuperada foi selecionada a partir da leitura do
título, do resumo e das palavras-chave. A observação participante foi reali-
zada nos ambientes dígito-virtuais Club Lexic1, Microscopi2, COMJunts3
e Diximed para pediatría4, tendo como base os princípios do Design da
Informação (DI) apresentados por Lipton (2007) e os componentes visu-
ais apontados por Jorente, Nakano e Padua (2020).
A análise de dados foi realizada com base na revisão de literatura, na
observação participante e nos princípios do DI. Foi aplicada a técnica do
visual thinking, e os instrumentos utilizados foram os quadros explicati-
vos. A observação e análise dos ambientes web foram norteadas pelos oito
princípios do DI estabelecidos por Lipton (2007): consistência, proximi-
dade, segmento, alinhamento, hierarquia, estrutura, equilíbrio e fluxo ocu-
 https://defciencia.iula.upf.edu/ClubLexicografs
 https://defciencia.iula.upf.edu/Microscopi
 https://appcomjunts.es/
 https://www.diccionaridemedicina.app/web/es/
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
276
lar, clareza. Também foram considerados alguns dos componentes visuais,
como forma, direção, tom e cor. Além disso, os conceitos e o Ciclo de Vida
da Curadoria Digital também integraram a análise.
3. COMPReenDeR As COnVeRGênCiAs enTRe
DesiGn DA infORMAçãO e CURADORiA DiGiTAL nO
COnTeXTO DA CiênCiA DA infORMAçãO
No contexto da Ciência da Informação (CI) e das transforma-
ções das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), o Design da
Informação (DI) e a Curadoria Digital (CD) se destacam enquanto disci-
plinas e práticas essenciais para garantir a preservação, o acesso e o compar-
tilhamento de informações nos ambientes Web.
A Web é um sistema de informação aberto, dinâmico e complexo,
no qual o DI emerge enquanto disciplina e também uma área do conheci-
mento que apresenta interdisciplinaridades e convergências de linguagens
que resultam em diferentes formas de organizar e apresentar a informação
em ambientes complexos (Jorente; Padua; Nakano, 2019).
O DI foi definido por Robert E. Horn (1999) enquanto a arte e a
ciência de preparar as informações para que possam ser utilizadas de forma
eficiente e eficaz. O autor também apresenta o DI como a profissionaliza-
ção da linguagem visual, ou a harmonização de palavras, imagens e formas
em uma unidade de comunicação unificada (Horn,1999).
Os principais objetivos do DI são: desenvolver documentos que se-
jam compreensíveis, recuperáveis com rapidez e precisão e fáceis de tra-
duzir; projetar interações fáceis, naturais e agradáveis com a tecnologia;
solucionar problemas no design da interface homem-computador; permi-
tir que as pessoas encontrem seu caminho nos espaços tridimensionais e
virtuais (Horn, 1999).
Segundo Jesse James Garrett (2011), o DI trata dos aspectos da apre-
sentação da informação com o intuito de proporcionar uma comunicação
eficaz. Desse modo, o DI converge a funcionalidade orientada a tarefas e
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
277
os sistemas orientados à informação, e abrange a comunicação entre os
sistemas e os sujeitos informacionais (Garrett, 2011). Foi Garrett (2011)
quem dividiu a experiência dos internautas na Web em camadas, ou pla-
nos, conforme pode ser observado na figura a seguir (Figura 1).
Figura 1 - Elementos da Experiência do Usuário
Fonte: Garrett, 2000.
Segundo Garrett (2011), a Web pode ser compreendida sob duas
perspectivas: enquanto interface de software e enquanto sistema de hiper-
textos, de modo que o design da Web como um todo deve ser centrado
na experiência dos internautas. Na figura anterior, o DI está presente nas
duas perspectivas, de modo que une os outros tipos de design, e envolve
a tomada de decisões sobre como apresentar as informações de maneira
compreensível (Garrett, 2011).
Assim, é importante que a organização e a apresentação dos elemen-
tos da página Web reflitam como as comunidades de interesse utilizam o
ambiente e apoiem as ações desenvolvidas nesse contexto. O Design da
Informação (DI) também auxilia na solução de problemas do Design de
Interface, uma vez que a interface dos ambientes dígito-virtuais não deve
apenas coletar informações dos internautas, mas principalmente apresen-
tar informações aos internautas (Garrett, 2011).
No contexto da Web, a aplicação de princípios e recursos do DI
pode proporcionar uma experiência positiva nos ambientes dígito-virtuais.
Para isto, o designer da informação, ou ainda uma equipe multidiscipli-
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
278
nar, deve tornar as informações acessíveis, ou seja, apresentá-las de forma
clara, para que o sujeito informacional possa compreendê-las e utilizá-las.
Nesse sentido, para projetar experiências eficientes, eficazes e efetivas em
ambientes informacionais digitais, é necessário, além da compreensão das
características da comunidade de interesse, a compreensão de como tais
sujeitos informacionais irão interagir com as informações, de modo que o
DI é responsável por indicar as possibilidades e sugerir formas de interação
claras e explícitas (Jorente; Nakano; Padua, 2020).
Assim, o DI apresenta conceitos, técnicas e metodologias que po-
derão auxiliar na solução de problemas emergentes no contexto informa-
cional contemporâneo, no qual se destacam a hibridez e a interação entre
sistemas de informação (Jorente; Padua; Nakano, 2019). Também bus-
ca aperfeiçoar as competências dos internautas em buscar, compreender
e compartilhar informações (Oliveira; Jorente, 2019). Como disciplina,
o DI possibilita convergências de linguagens e interoperabilidades entre
sistemas de informação que, por sua vez, permitem a interação social.
Envolve metodologias que têm como foco os sujeitos informacionais, e
busca aperfeiçoar os sistemas de criação, armazenamento, recuperação e
apresentação da informação, de modo que o indivíduo que interage com
tais sistemas deve fazer o menor esforço físico e cognitivo possível (Jorente;
Nakano; Padua, 2020).
Na convergência proposta em nossa hipótese, a Curadoria Digital
(CD) emerge, convergentemente, enquanto uma área que apresenta um
conjunto de práticas contínuas e metodologias com o intuito de otimizar
o acesso e a preservação das informações, além de atender às demandas dos
sujeitos informacionais (Jorente; Silva; Padua, 2021). Segundo o Digital
Curation Centre (DCC), a CD compreende a gestão e a preservação de
objetos e informações digitais a longo prazo, mediante ações que incluem
manter, preservar e agregar valor aos dados digitais ao longo de todo seu
ciclo de vida (DCC, 2004).
A CD se desenvolveu a partir de conceitos da museologia referentes
à curadoria de museus de modo geral. De forma complementar, também
considerou processos de preservação digital na curadoria de dados, e con-
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
279
vergiu tais conceitos em ações relacionadas à criação, preservação, dissemi-
nação e acesso à informação na Web (Santos, 2014).
Para ser desenvolvida de forma eficiente e eficaz, a CD deve ser base-
ada em modelos conceituais (Oliver; Harvey, 2016). Sarah Higgins (2008)
apresentou o Ciclo de Vida da Curadoria Digital do DCC, uma represen-
tação gráfica das etapas e ações da CD, compreendida como um processo
contínuo e cíclico. De modo geral, o modelo é indicativo e não exaustivo,
e pode ser aplicado em diferentes instituições (Higgins, 2008), conforme
consta na figura a seguir (Figura 2).
Figura 2 - Modelo do Ciclo de Vida da Curadoria Digital
Fonte: Traduzido de Higgins (2008).
As ações realizadas ou não em cada etapa do Ciclo de Vida da
Curadoria Digital influenciam diretamente na eficácia de todo o processo,
do modo que, de acordo com Oliver e Harvey (2016), o modelo também
pode ser utilizado como uma lista de verificação, para auxiliar na gestão do
processo de CD.
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
280
Destaca-se para o presente estudo a relevância da ação participação
e observação da comunidade, do ciclo de vida da CD. Segundo Higgins
(2008), esta ação corresponde ao desenvolvimento colaborativo de pa-
drões, recursos e softwares. Ainda que a participação da comunidade faça
parte de uma ação, o termo “comunidade” é, na maioria das vezes, rela-
cionado a uma comunidade de profissionais da informação ou de equipes
técnicas da tecnologia da informação (Brayner, 2018), e não contempla os
sujeitos informacionais de modo geral, ou seja, os sujeitos não especialistas.
Para nosso estudo, contudo, considera-se como participação da co-
munidade a atuação de qualquer sujeito informacional nas ações de CD,
pois a colaboração dos internautas apresenta diversos benefícios para as
unidades de informação como um todo. diante da complexidade dos
ambientes dígito-virtuais contemporâneos, há facetas que representam a
comunicação da informação, em que os equipamentos culturais devem
acolher os sujeitos informacionais e comunidades de interesse nais quais
encontra-se inserido, de modo que sejam representados por suas institui-
ções (Batista; Jorente, 2021).
Além disso, segundo Oliver e Harvey (2016), a colaboração de todas
as comunidades envolvidas no processo da CD - criadores de dados, pro-
fissionais, internautas, e qualquer comunidade envolvida direta ou indire-
tamente - é uma das chaves para o seu desenvolvimento de forma eficaz.
Isto porque a aplicação da CD apresenta diversos desafios - institucionais,
estruturais, tecnológicos, entre outros -, e a contribuição das comunida-
des de interesse pode fornecer respostas úteis para a solução de problemas
(Oliver; Harvey, 2016).
4. Os PROJeTOs AnALisADOs
Os ambientes web analisados no presente estudo partem do projeto
Jugando a definir la ciencia, realizado entre 2009 e 2012. Nesse período,
1200 crianças entre 6 e 9 anos, de 8 escolas da Espanha, definiram por
meio de palavras e desenhos cerca de 200 palavras (Estopà, 2018, 2019). O
projeto, desenvolvido por equipes multidisciplinares, buscou aproximar as
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
281
comunidades de interesse espanholas do conhecimento científico por meio
de atividades colaborativas, e o resultado das diferentes etapas do projeto
proporcionou a construção de ambientes dígito-virtuais.
Segundo Rosa Estopà (2018), pesquisadora responsável pelo proje-
to, os conhecimentos sobre ciência e tecnologia são representados e apre-
sentados por meio de palavras especializadas, precisas e concisas, de modo
que o acesso a conhecimentos especializados viabiliza o uso adequado da
terminologia científica. De acordo com Rosa Estopà e Miquel Cornudella
Gaya (2013), o conhecimento científico é representado e transmitido por
meio de palavras - termos -, que apresentam um significado especializado
sobre determinada área do conhecimento. Nesse sentido, ainda que o cien-
tista ou especialista empregue de forma adequada os termos e conceitos
de sua área, o processo de especialização pode ser longo e gradual (Estopà;
Cornudella Gaya, 2013).
A autora apontou que tal processo de compreensão do conhecimen-
to especializado deveria começar nos primeiros anos de vida de uma pes-
soa, o que pode proporcionar uma melhor construção do conhecimento
científico ao longo da vida.
O projeto Jugando a definir la ciencia considerou, a partir das premis-
sas levantadas, que é essencial trabalhar questões relativas ao vocabulário,
em conjunto com o conhecimento científico, desde as primeiras fases de
aprendizagem. Para tanto, seu principal objeto de estudo foram as palavras
básicas da ciência no contexto escolar (Estopà, 2013). Como base para a
aplicação prática do projeto, foi utilizada a Escala Tenessee, de Marzano e
Pickering (2005).
A Escala Tenessee apresenta seis etapas. A primeira corresponde à
descrição, explicação ou exemplo de cada novo termo. Na segunda e ter-
ceira etapas, deve-se solicitar que os alunos expliquem com suas palavras o
que compreenderam e façam uma representação gráfica por meio de dese-
nhos ou símbolos. A quarta etapa consiste na elaboração de um dicionário
com os termos trabalhados. Na quinta etapa os termos e suas definições
devem ser discutidos com os alunos. Por fim, na sexta etapa, os alunos são
incentivados a brincar com termos científicos (Marzano; Pickering, 2005;
Estopà, 2013).
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
282
No contexto do projeto Jugando a definir la ciencia, foram desenvol-
vidos recursos e estratégias baseadas na Escala Tenessee, distribuídos nas
sete fases de aplicação do projeto:
1. Fase de definição: concepção do projeto, seleção das escolas e
dos termos trabalhados.
2. Fase de preparação: especificação das sessões de trabalho, elabo-
ração de exercícios e fichas para descrição de termos, definição
do calendário do projeto e concepção de uma base de dados.
3. Fase de coleta de material: aplicação do projeto nas escolas.
4. Fase de armazenamento: digitalização e armazenamento dos
desenhos e textos dos alunos em um banco de dados.
5. Fase de análise: análise das informações coletadas.
6. Fase de desenvolvimento de aplicativos: construção de aplica-
tivos por meio dos resultados obtidos no projeto.
7. Fase de divulgação dos resultados: divulgação dos resultados
por meio de artigos publicados em periódicos e trabalhos apre-
sentados em eventos (Estopà, 2018).
Na aplicação do projeto, a princípio, os alunos desenharam e expli-
caram uma palavra, durante uma hora por semana, sem ajuda de adultos.
Após a descrição dos termos, as fichas e desenhos foram analisados. Os
desenhos e definições considerados mais adequados pela equipe do proje-
to foram selecionados para compor a divulgação dos resultados (Estopà;
Cornudella Gaya, 2013). Nossa análise está centrada na fase 6 - desenvol-
vimento de aplicativos, de modo que analisamos os ambientes dígito-vir-
tuais resultantes do projeto, e não o projeto em si.
Diante do contexto proposto para aplicação, a fase seis do projeto
teve dois pontos principais: 1- construção de um ambiente dígito-virtu-
al para trabalhar com o vocabulário científico por meio de definições e
desenhos, com o intuito de criar dicionários colaborativos para crianças;
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
283
2- construção de um banco de dados com o material resultante de projeto,
para que pesquisadores pudessem utilizá-lo para trabalhos futuros.
Além disso, o projeto buscou disponibilizar ferramentas fáceis de
utilizar, úteis para crianças em idade escolar, que facilitem a construção de
um dicionário colaborativo, flexíveis para aplicação em outros projetos,
interoperáveis e em diferentes idiomas (Estopà; Cornudella Gaya, 2013).
Assim, a partir deste primeiro projeto, foram disponibilizados se-
guidamente na plataforma Web, como meta resultados coerentes, os am-
bientes Club Lexic5, Microscopi6, COMJunts7 e Diximed para pediatría8.
Além disso, também foram disponibilizados dois infográficos referentes
à terminologia sobre a Covid-19, resultados de dois projetos associados
ao primeiro, denominados, respectivamente, LEXCOVID e LEXMED.
Os dois infográficos9 também apresentam desenhos e definições feitos por
crianças (Estopà, 2018). O projeto inspirou, adicionalmente, a confecção
posterior de jogos junto às escolas participantes, além da publicação de
dicionários de ciências para crianças.
Salientamos que não analisamos o projeto, mas sim os ambientes
dígito-virtuais resultantes do projeto. Os ambientes não foram criados
simultaneamente, de modo que cada um foi projetado por uma equipe
multidisciplinar e atendeu às necessidades do período e da etapa do projeto
em que foi desenvolvido. Há um caráter dinâmico evolutivo que pode ser
verificado à medida que se apresentam as interfaces de interação analisadas.
5. AnÁLise De AMBienTes DÍGiTO-ViRTUAis
Além da interface do Jugando a definir la ciencia foram analisadas
as suas derivadas em quatro ambientes web: Club Lexic, Microscopi,
COMJunts e Diximed para pediatría.
⁵ https://defciencia.iula.upf.edu/ClubLexicografs
 https://defciencia.iula.upf.edu/Microscopi
 https://appcomjunts.es/
 https://www.diccionaridemedicina.app/web/es/
https://iula.upf.edu/rec/lexcovid/infografia-primaria/ e https://iula.upf.edu/rec/lexcovid/infografia-
secundaria/
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
284
Apresentam-se a seguir a análise dos ambientes teve como base os
princípios do Design da Informação (DI) apresentados por Lipton (2007):
consistência, proximidade, segmento, alinhamento, hierarquia, estrutura,
equilíbrio e fluxo ocular e clareza. (Quadro 1).
Quadro 1 - Princípios do Design da Informação
Princípios Especificações
Consistência Existe uma folha de estilo de design em ação - por exemplo, um título se
parece com outro?
Proximidade A quantidade de espaço entre os elementos reflete a relação entre os
elementos?
Segmento Os elementos relacionados são agrupados e separados de outros para torná-
los digeríveis, em vez de assustadoramente ininterruptos?
Alinhamento Cada elemento se alinha com algum outro?
Hierarquia As informações mais importantes parecem as mais importantes - colocadas
no topo, maiores, mais ousadas ou enfatizadas de alguma outra forma?
Estrutura As informações são apresentadas em uma sequência que fará sentido para o
público?
Equilíbrio e
fluxo ocular Existe um ponto de partida claro e as escolhas de tipo e layout apoiam o
movimento do seu olho através do material?
Clareza A redação é clara e concisa, livre de jargões desnecessários ou termos
indefinidos e no nível adequado para o público?
Fonte: Elaborado pelas autoras com base em Lipton (2007, p. 9, tradução nossa).
Adicionalmente aos princípios do DI apresentados por Lipton
(2007), foram utilizados como base para a análise alguns dos componentes
visuais apresentados por Jorente, Nakano e Padua (2020): forma, direção,
tom e cor. A forma corresponde ao formato dos elementos visuais presen-
tes nos ambientes analisados. A direção diz respeito ao alinhamento dos
elementos visuais. O tom e a cor compreendem a relação entre cores e
tonalidades ao conteúdo e aos elementos de cada ambiente dígito-virtual.
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
285
5.1 CLUB LeXiC
O Club Lexic foi um ambiente dígito-virtual originalmente proje-
tado em 2012 para que crianças definissem termos (Estopà, 2013). A in-
terface da página inicial apresenta diversos grafismos com apelo infantil
conforme pode ser observado na Figura 3.
Figura 3 - Página inicial do Club Lexic
Fonte: Estopà (2018).
A página inicial também apresenta botões para as funções principais
do ambiente web – login e definição de termos. Entretanto, atualmente, o
ambiente do Club Lexic não permite o cadastro e a definição de ter-
mos, de modo que, quando qualquer uma das opções é acessada, o sistema
apresenta uma mensagem de erro, conforme apontado na figura a seguir
(Figura 4).
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
286
Figura 4 - Mensagem de erro
Fonte: Estopà (2018).
Nesse contexto, foi realizada apenas a análise da página inicial do
ambiente dígito-virtual Club Lexic. O design da página é voltado para o
universo infantil, com grafismos e elementos com cores chamativas. No
entanto, ainda que não estejam em funcionamento, as abas para cadas-
tro e descrição de termos são complexas e solicitam diversas informações
cujo conhecimento impõe o acompanhamento de um adulto. O quadro a
seguir (Quadro 2), apresenta uma análise do ambiente de acordo com os
princípios do DI apontados por Lipton (2007).
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
287
Quadro 2 - Análise do Club Lexic
Princípios Especificações Elementos identificados no
ambiente
Consistência Existe uma folha de estilo de design
em ação - por exemplo, um título se
parece com outro?
O ambiente segue um design
voltado para crianças.
Proximidade A quantidade de espaço entre os
elementos reflete a relação entre os
elementos?
o.
Segmento Os elementos relacionados são
agrupados e separados de outros
para torná-los digeríveis, em vez de
assustadoramente ininterrup- tos?
A maioria dos elementos está no
centro da página.
Alinhamento Cada elemento se alinha com
algum outro?
Elementos e textos alinhados no
centro da página.
Hierarquia As informações mais importantes
parecem as mais importantes -
colocadas no topo, maiores, mais
ousadas ou enfatizadas de alguma
outra forma?
Sim - ênfase nos botões para ca-
dastro e definição de termos, no
entanto, tais funções apresentam
erros, e não permitem o cadastro.
Estrutura As informações são apresentadas em
uma sequência que fará senti- do
para o público?
As informações são apresentadas em
uma sequência que faz sentido, no
entanto, alguns recursos principais
do ambiente apresentam uma
mensagem de erro, e não é possível
definir termos.
Equilíbrio e fluxo
ocular Existe um ponto de partida claro e
as escolhas de tipo e layout apoiam
o movimento do seu olho através
do material?
O ponto de partida aparenta ser o
texto de apresentação.
Clareza A redação é clara e concisa, livre de
jargões desnecessários ou termos
indefinidos e no nível adequado
para o público?
A linguagem utilizada é clara e aces-
sível - o ambiente foi projetado para
ser utilizado por crianças
Fonte: Elaborado pelas autoras com base em Lipton (2007).
A interface de Club Lexic também segue, parcialmente, os princípios
do DI propostos por Lipton (2007). De modo geral, o texto está alinhado
no centro da página inicial, a linguagem utilizada é clara e simples, e os
elementos mais importantes estão em destaque. Apenas duas observações
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
288
resultantes da análise: recurso para mudança de idioma é pouco visível e o
ambiente não apresenta recursos para acessibilidade.
Quanto aos componentes visuais apresentados por Jorente, Nakano
e Padua (2020), as formas presentes no ambiente são simples. Além disso,
os diversos grafismos com apelo da linguagem infantil direcionam-se, con-
venientemente, à comunidade de interesse a qual o ambiente se destina.
Referente à direção, os elementos da página são, em sua maioria, dispostos
horizontalmente, e as informações mais importantes são centralizadas. As
cores predominantes são azul e rosa, em tons vibrantes; os grafismos, por
sua vez, são compostos por diversas cores.
5.2 MiCROsCOPi
Projetado em 2013, outro ambiente dígito-virtual sequencial ao pro-
jeto Jugando a definir la ciencia é o Microscopi, um banco de dados aberto
resultante do Club Lexic e voltado à profissionais da educação e crianças
em idade escolar (Estopà, 2013). A figura a seguir apresenta a página de
apresentação do Microscopi (Figura 5).
Figura 5 - Página de apresentação do Microscopi
Fonte: Microscopi (2018).
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
289
A página inicial do Microscopi dispõe um texto introdutório, que
explica a finalidade do ambiente e a qual comunidade se destina. Apresenta,
a princípio, duas caixas de seleção para que o internauta escolha uma cate-
goria e um termo. Alguns termos não possuem informações relacionadas
a eles, mas o intuito do ambiente é que os termos conjuguem informações
referentes a aspectos linguísticos, definições, desenhos, imagens e uma lista
com obras de referência, conforme pode ser observado na Figura 6.
Figura 6 - Apresentação de termo no Microscopi
Fonte: Microscopi (2018).
A estrutura de apresentação dos termos se assemelha a um tesauro,
o que pode ser eficiente apenas para internautas que estão familiarizados
com sua estrutura. Alguns termos não possuem informações relacionadas
a eles, ou não apresentam todas as informações sobre o termo. O Quadro
3 apresenta uma análise do Microscopi de acordo com os princípios do DI
apontados por Lipton (2007).
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
290
Quadro 3 - Análise do Microscopi
Princípios Especificações Elementos identificados no
ambiente
Consistência Existe uma folha de estilo de design
em ação - por exemplo, um título se
parece com outro?
Sim, o estilo se assemelha ao
utilizado no Club Lexic.
Proximidade A quantidade de espaço entre os
elementos reflete a relação entre os
elementos?
Não há uma relação clara entre o
espaço existente entre os elementos
e a relação entre eles.
Segmento Os elementos relacionados são
agrupados e separados de outros
para torná-los digeríveis, em vez de
assustadoramente ininterrup- tos?
O texto inicial é ininterrupto, de
modo que não há separação entre as
informações apresentadas.
Alinhamento Cada elemento se alinha com
algum outro?
Há um alinhamento entre os
elementos.
Hierarquia As informações mais importan- tes
parecem as mais importantes -
colocadas no topo, maiores, mais
ousadas ou enfatizadas de alguma
outra forma?
Há destaque nos títulos, que são
apresentados em negrito.
Estrutura As informações são apresentadas
em uma sequência que fará sentido
para o público?
A estrutura da base de dados em
si se assemelha à estrutura de um
tesauro, o que pode fazer sentido
apenas a um público especializado.
Equilíbrio e fluxo
ocular Existe um ponto de partida claro e
as escolhas de tipo e layout apoiam
o movimento do seu olho através
do material?
Não, a estrutura da página é pou-
co intuitiva para os internautas de
modo geral.
Clareza A redação é clara e concisa, livre de
jargões desnecessários ou termos
indefinidos e no nível adequado
para o público?
A linguagem utilizada apresenta
termos específicos da linguística.
Fonte: Elaborado pelas autoras com base em Lipton (2007).
De modo geral, o design da página segue um estilo semelhante ao
utilizado no ambiente Club Lexic, com a ideia de continuidade, ou uma
relação entre os dois ambientes. No entanto, a fonte utilizada poderia ser
maior, e o ambiente não apresenta recursos para acessibilidade. Dentre os
princípios elencados por Lipton (2007), destaca-se que alguns não estão
presentes no ambiente em sua totalidade. O ambiente apresenta uma es-
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
291
trutura do banco de dados, e a linguagem utilizada contém termos especí-
ficos da linguística. Destaca-se que um dos pontos positivos do ambiente
é a convergência de linguagens, uma vez que o Microscopi busca dispo-
nibilizar os termos por meio das linguagens imagética e textual, além de
apresentar os desenhos feitos por crianças durante o projeto.
Os componentes visuais são semelhantes aos presentes na página do
Club Lexic. O Microscopi também estrutura-se a partir de formas simples
e grafismos de característica estilística infantil. Os elementos principais das
páginas estão centralizados em um quadro. As cores principais são bran-
co, preto e cinza. Além disso, há uma faixa na lateral esquerda da página,
na qual predomina o azul e grafismos infantis com destaque para a cor
amarela.
5.3 COMJUnTs
Já o COMJunts, outro ambiente dígito-virtual resultante do pro-
jeto em questão, é voltado para famílias de crianças com doenças raras.
Lançado em 2018, o COMJunts foi desenvolvido inicialmente como apli-
cativo para dispositivos móveis e, posteriormente, disponibilizado também
como ambiente web. Suas duas versões apresentam o mesmo conteúdo e
elementos de design semelhantes. Nesse sentido, com o intuito de padro-
nizar nossa análise, foi analisada a página web do COMJunts. A Figura 7
apresenta a página de apresentação do COMJunts.
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
292
Figura 7 - Página de apresentação do COMJunts
Fonte: COMJunts (2018).
A página de apresentação contém informações gerais sobre o aplica-
tivo, premiações recebidas e os menus. Há dois tipos de menus: o menu
de navegação e o menu principal. O menu de navegação, localizado na
parte superior da tela, permanece em todas as páginas e apresenta, além
dos botões de navegação, a opção de mudança de idioma – do espanhol
para o catalão - e o mecanismo de busca. O menu principal é direcionado
à navegação dos internautas pelo conteúdo principal do ambiente, ou seja,
para as informações que podem auxiliar famílias de crianças com doenças
raras, conforme pode ser visualizado na figura a seguir (Figura 8):
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
293
Figura 8 - Menu principal do COMJunts
Fonte: COMJunts (2018).
O menu principal apresenta os tópicos em forma de perguntas e afir-
mações que representam situações específicas da comunidade de interesse a
qual se destina, o que facilita a compreensão e a navegação pelo ambiente e
pelo aplicativo. Além disso, os botões apresentam diferentes cores e ícones,
que torna a experiência mais confortável. As páginas subsequentes seguem
as cores de seus respectivos botões, e apresentam os tópicos em forma de
perguntas. O quadro 4 apresenta a análise do ambiente de acordo com os
princípios do DI apontados por Lipton (2007).
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
294
Quadro 4 - Análise do COMJunts
Princípios Especificações Elementos identificados no
ambiente
Consistência Existe uma folha de estilo de design
em ação - por exemplo, um título se
parece com outro?
Sim, há um estilo padrão em todo
o ambiente.
Proximidade A quantidade de espaço entre os
elementos reflete a relação entre os
elementos?
Não há uma relação clara entre o
espaço existente entre os elementos
e a rela- ção entre eles.
Segmento Os elementos relacionados são
agrupados e separados de outros
para torná-los digeríveis, em vez de
assustadoramente ininterruptos?
Cada temática é apresentada em
uma página específica.
Alinhamento Cada elemento se alinha com algum
outro?
Os elementos das páginas estão
alinhados.
Hierarquia As informações mais importantes
parecem as mais importantes -
colocadas no topo, maiores, mais
ousadas ou enfatizadas de alguma
outra forma?
Sim, há ênfase nas informações
mais importantes.
Estrutura As informações são apresentadas
em uma sequência que fará sentido
para o público?
Sim, há uma sequência clara.
Equilíbrio e fluxo
ocular Existe um ponto de partida claro e
as escolhas de tipo e layout apoiam
o movimento do seu olho através
do material?
O ponto de partida é claro e,
de modo geral, o design apoia o
movimento dos olhos.
Clareza A redação é clara e concisa, livre de
jargões desnecessários ou termos
indefinidos e no nível adequado
para o público?
A linguagem é formal, e em alguns
momentos um pouco técnica. Há
um excesso de textos.
Fonte: Elaborado pelas autoras com base em Lipton (2007).
De modo geral o ambiente COMJunts atende à maioria dos princí-
pios de Lipton (2007), no entanto, há alguns elementos que poderiam ser
aprimorados em relação ao princípio de clareza. Nota-se que em algumas
páginas há um excesso de textos, que por vezes apresentam uma linguagem
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
295
formal. Além disso, o COMJunts não apresenta recursos para acessibilida-
de e o mecanismo de busca resulta em alguns erros.
Em relação aos componentes visuais descritos por Jorente, Nakano
e Padua (2020), o COMJunts apresenta formas básicas, baseadas em qua-
drados e retângulos, o que facilita a navegação, além de ícones que repre-
sentam cada categoria de informações. Há uma classificação das informa-
ções por cores, de modo que cada página dispõe diferentes tons de sua cor
principal:
Tenemos una enfermedad rara en la familia: tons de verde;
¿Cómo preparar la visita médica?: tons de amarelo;
Recibimos un informe médico: tons de marrom;
Tenemos una prueba médica: tons de vermelho;
¿Qué más puedo aprender?: tons de roxo.
Por fim, a página Paseo visual: experiencias, reúne os vídeos pre-
sentes nas páginas anteriores, classificados por suas respectivas
cores.
5.4 DiXiMeD PARA PeDiATRÍA
O Diximed para Pediatría é o último ambiente dígito-virtual rela-
cionado ao projeto Jugando a definir la ciencia. O ambiente em questão foi
desenvolvido em 2018, e teve suas últimas atualizações entre 2019 e 2023,
com um dicionário de medicina dígito-virtual voltado para crianças, con-
forme apresentado na figura a seguir (Figura 9).
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
296
Figura 9 - Página inicial do Diximed para Pediatría
Fonte: Estopà (2019).
A página inicial apresenta, em destaque, a caixa de busca e a opção
palabra aleatoria. Também contém informações gerais sobre o dicionário
e uma apresentação do ambiente em áudio. Destaca-se que o ambiente
divide-se em quatro seções principais - diccionario, atlas, actividades e co-
vid-19 - categorizadas por cores, como no ambiente do COMJunts, o que
cria uma ideia de continuidade entre os dois. A Figura 10 apresenta o
menu com as principais seções do Diximed.
Figura 10 - Menu principal do Diximed para Pediatría
Fonte: Estopà (2019).
Todos os verbetes do dicionário conjugam-se com um áudio, em
que uma voz de criança lê o texto do verbete. Além disso, alguns termos
destacados nos verbetes são links para outros verbetes, como ocorre nos
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
297
ambientes Wiki. Também há ilustrações feitas por crianças em todos os
verbetes, atlas, atividades e no infográfico sobre a Covid-19. O quadro a
seguir (Quadro 5) apresenta uma análise do ambiente segundo os princí-
pios do DI de Lipton (2007).
Quadro 5 - Análise do Diximed para Pediatría
Princípios Especificações Elementos identificados no
ambiente
Consistência Existe uma folha de estilo de design
em ação - por exemplo, um título se
parece com outro?
Sim, as fontes e cores são
semelhantes em todo o ambiente.
Há também cores que identificam
diferentes seções do site.
Proximidade A quantidade de espaço entre os
elementos reflete a relação entre os
elementos?
Aparentemente não há
intencionalidade no que diz
respeito aos espaços presentes entre
os elementos e a relação entre eles.
Segmento Os elementos relacionados são
agrupados e separados de outros
para torná-los digeríveis, em vez de
assustadoramente ininterruptos?
Sim, há uma separação de
elementos que facilita a
compreensão.
Alinhamento Cada elemento se alinha com
algum outro? Sim, os elementos estão alinhados.
Hierarquia As informações mais importantes
parecem as mais importantes -
colocadas no topo, maiores, mais
ousadas ou enfatizadas de alguma
outra forma?
Sim, as informações importantes
são destacadas.
Estrutura As informações são apresentadas
em uma sequência que fará sentido
para o público?
A maioria das páginas segue uma
estrutura de dicionário, portanto,
os verbetes estão organizados em
ordem alfabética, mas também
podem ser consultados de forma
aleatória.
Equilíbrio e fluxo
ocular Existe um ponto de partida claro e
as escolhas de tipo e layout apoiam
o movimento do seu olho através
do material?
Sim, o ponto de partida é claro
devido à estrutura de dicionário.
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
298
Clareza A redação é clara e concisa, livre de
jargões desnecessários ou termos
indefinidos e no nível adequado
para o público?
O ambiente em questão busca
esclarecer termos médicos para
crianças, e de modo geral, a
linguagem é acessível.
Fonte: Elaborado pelas autoras com base em Lipton (2007).
O ambiente do dicionário Diximed para Pedriatría segue todos os
princípios do DI apontados por Lipton (2007), no entanto, assim como os
ambientes anteriores, não apresenta recursos de acessibilidade. O Diximed
segue a estrutura de dicionário na maioria de suas páginas, não há excesso
de textos e a linguagem é simplificada, o que facilita a compreensão da
comunidade a qual se direciona.
Quanto aos componentes visuais apresentados por Jorente, Nakano
e Padua (2020), o ambiente apresenta formas básicas, como quadrados,
retângulos e círculos em seus elementos principais, o que torna a nave-
gação fluida. O conteúdo principal é direcionado ao centro de todas as
páginas, e os menus estão alinhados no topo da página, localização familiar
ao internauta. Em todas as páginas predominam tons de verde, mas há
uma classificação por cores em cada um dos principais tópicos: azul para
o dicionário, roxo para o atlas, rosa para as atividades e vermelho para as
informações sobre a Covid-19.
6. COnsiDeRAçÕes finAis
A partir da análise dos ambientes dígito-virtuais resultantes do pro-
jeto Jugando a definir la ciencia, bem como da revisão de literatura realiza-
da, pode-se concluir que a participação da comunidade contribui de forma
significativa para a Curadoria Digital (CD) e o Design da Informação (DI)
de ambientes dígito-virtuais. Destaca-se, nesse sentido, a possibilidade da
construção colaborativa de tais ambientes por meio do harvesting - coleta
e filtragem dos conteúdos produzidos colaborativamente, de modo que tal
coleta pode auxiliar na construção de ambientes eficientes, eficazes e efeti-
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
299
vos que atendam às comunidades de interesse. O quadro a seguir (Quadro
6) apresenta uma síntese da análise dos ambientes dígito-virtuais.
Quadro 6 - Síntese da análise dos ambientes dígito-virtuais
Critérios de
análise
Ambientes analisados
Club Lexic Microscopi COMJunts Diximed para
Pediatría
Consistência Design voltado
para o universo
infantil.
O estilo se
assemelha ao
utilizado no Club
Lexic.
Há um estilo
padrão em todo o
ambiente.
As fontes e cores
são semelhantes
em todo o
ambiente. Há
também cores
que identificam
diferentes seções
do site.
Proximidade
Os espaços entre
os elemen- tos não
refletem a relação
entre eles.
Os espaços entre
os elementos não
refletem a relação
entre eles.
Não há uma
relação clara
entre o espaço
existente entre
os elementos e a
relação entre eles.
Aparentemente
não há
intencionalidade
no que diz res-
peito aos espaços
presentes entre
os elementos e
a relação entre
eles.
Segmento A maioria dos
elementos está no
centro da página.
O texto inicial
é ininterrupto,
e não há
separação entre
as informações
apresentadas.
Cada temática
é apresentada
em uma página
específica.
Há uma
separação de
elementos
que facilita a
compreensão.
Alinhamento Elementos e textos
alinhados no
centro da página.
Há um
alinhamento
entre os
elementos.
Os elementos
das páginas estão
alinha- dos.
Os elementos
estão alinhados.
Hierarquia
Ênfase nos botões
para cadastro
e definição de
termos, mas
tais funções
apresentam erros.
Há destaque nos
títulos, que são
apresentados em
negrito.
Há ênfase nas
informações mais
importantes.
As informações
importantes são
destacadas.
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
300
Critérios de
análise
Ambientes analisados
Club Lexic Microscopi COMJunts Diximed para
Pediatría
Estrutura
As informações
são apresentadas
em uma sequência
lógica, no entanto,
alguns recursos
apresentam erros.
A estrutura
semelhante à de
um tesauro.
As informações
são apresentadas
em uma
sequência lógica.
A maioria das
páginas segue
uma estrutura
de dicionário,
portanto, os
verbetes estão
organizados em
ordem alfabética.
Equilíbrio e
fluxo ocular
O ponto de
partida aparenta
ser o texto de
apresentação.
A estrutura da
página é pouco
intuitiva para os
internautas de
modo geral.
O ponto de
partida é claro e
o design apoia o
movimento dos
olhos.
O ponto de
partida é
claro devido
à estrutura de
dicionário.
Clareza A linguagem
utilizada é clara e
acessível.
A linguagem
utilizada
apresenta termos
específicos da
linguística.
A linguagem
é formal, e em
alguns momentos
um pouco
técnica. Há um
excesso de textos.
De modo geral,
a linguagem é
acessível.
Forma
Formas simples
e grafismos
com apelo da
linguagem infantil.
Formas simples
e grafismos de
característica
estilística infantil.
Apresenta formas
básicas, baseadas
em quadrados
e retângulos, o
que facilita a
navegação, além
de ícones que
representam
cada categoria de
informações.
Formas básicas,
como quadrados,
retângulos e
círculos em
seus elementos
princi- pais.
Direção
Os elementos
da página
são dispostos
horizontalmente,
e as infor- mações
mais importantes
são centralizadas.
Os elementos
principais das
páginas estão
centralizados em
um quadro.
Elementos
alinhados ao
longo da página.
O conteúdo
principal é
direcionado ao
centro de todas
as páginas, e
os menus estão
alinhados no
topo da página.
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
301
Critérios de
análise
Ambientes analisados
Club Lexic Microscopi COMJunts Diximed para
Pediatría
Tom e cor
As cores
predominantes
são azul e rosa, em
tons vibrantes.
As cores
principais são
branco, preto e
cinza. Há uma
faixa lateral, na
qual predomina o
azul e o amarelo.
Classificação das
infor- mações
por cores - cada
página dispõe
diferentes tons de
sua cor principal:
tons de verde,
amarelo, marrom,
vermelho e roxo.
Em todas
as páginas
predominam
tons de verde,
mas há uma
classificação
por cores em
cada um dos
principais
tópicos: azul,
roxo, rosa e
vermelho.
Fonte: Elaborado pelas autoras.
Conforme apresentado no quadro anterior, ainda que os ambien-
tes contemplem grande parte dos princípios do DI propostos por Lipton
(2007), os ambientes dígito-virtuais analisados podem ser aprimorados em
alguns aspectos, tendo como base o DI e a CD. O sistema do Club Lexic
apresenta alguns erros, de modo que suas principais funcionalidades não
podem ser acessadas, o que poderia ser solucionado com recursos da CD,
para garantir a preservação e o acesso ao ambiente a longo prazo. A adição
de recursos de acessibilidade, como opções de fonte ampliada e contraste
de cores, proporcionaria um maior conforto ao sujeito informacional, por
outro lado.
O Microscopi também não apresenta recursos de acessibilidade, e a
fonte utilizada no ambiente é pequena. Recursos para ampliação de fonte e
contraste de cores poderiam tornar a experiência mais confortável ao inter-
nauta. Além disso, a estrutura do ambiente de modo geral poderia ser mais
intuitiva, visto que ao contrário de indivíduos especializados, que têm fa-
miliaridade com a estrutura de tesauros, tal competência não compreende
a maior parte da comunidade. Finalmente, enquanto o Microscopi utiliza
termos específicos da linguística, poderia se valer, ainda que adicionalmen-
te, do uso de uma linguagem simplificada, o que contribuiria para uma
melhor experiência do internauta.
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
302
O COMJunts, de modo geral, atende aos princípios do DI, porém,
observa-se a necessidade de recursos para acessibilidade, contraposta a um
excesso de textos, por vezes muito formais e complexos. Ao considerar a
comunidade a qual o ambiente se destina, o uso de textos mais concisos,
convergidos à linguagem imagética por meio de infográficos, ícones e qua-
dros explicativos, poderia proporcionar uma experiência mais confortável
ao internauta.
O Diximed para Pediatría, assim como os ambientes anteriores, não
apresenta recursos para acessibilidade. Para garantir uma melhor expe-
riência aos internautas, o ambiente poderia explorar diferentes recursos
imagéticos, como ícones, infográficos e ilustrações. Os desenhos feitos por
crianças apresentam a ideia de continuidade do projeto, no entanto, po-
dem não ser suficientes para representar os verbetes complexos presentes
no dicionário.
De modo geral, todos os ambientes poderiam acrescentar recursos
de acessibilidade, denominados recursos assistivos. Dentre os recursos que
poderiam ser aplicados nos ambientes analisados destaca-se: tradução em
libras, tamanho e estilo da fonte, diferentes espaçamentos entre linhas e
entre letras, contextualizados na tipologia textual, leitor de sites, lupa de
conteúdo e contraste de cores.
As questões referentes à acessibilidade poderiam ser solucionadas por
meio do DI convergido ao Design Universal, criado pelo arquiteto Ron
Mace para denominar o design de produtos, ambientes e interfaces que
possam ser utilizadas por todas as pessoas, sem adaptações ou outros recur-
sos (e Center for Universal Design, 1997). O Design Universal apresen-
ta princípios que, convergidos ao DI, podem garantir a acessibilidade em
ambientes dígito-virtuais.
Nesse sentido, é necessário o uso de metodologias, técnicas e recur-
sos do DI e da CD para garantir que os ambientes dígito-virtuais sejam
acessados ao longo do tempo de forma eficiente e eficaz. O design de tais
ambientes deve considerar a comunidade de interesse a qual se destinam
e, além disso, a aplicação das etapas do Ciclo de Vida da CD garante o
acesso, a preservação e o compartilhamento a longo prazo.
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
303
Os ambientes analisados resultam da atividade colaborativa na inter-
face do projeto Jugando a definir la ciencia, e funcionam de forma eficiente
no contexto em que foram criados. Entretanto, ao considerar a perspectiva
atual, de sobrevivência e preservação do importante conteúdo que dispo-
nibilizam, os ambientes poderiam permitir a colaboração direta dos inter-
nautas, por meio de recursos como a Folksonomia, por exemplo.
A Folksonomia, uma forma de etiquetagem colaborativa realizada
em ambientes Web, pode ser um meio importante de ampliação do ci-
clo de vida das informações dispostas e, consequentemente, provocar uma
otimização do DI e da CD dos ambientes dígito-virtuais analisados, uma
vez que as etiquetas inseridas pelos internautas podem ser utilizadas para
a construção de instrumentos como tesauros e vocabulários controlados
para o tratamento técnico das informações presentes nos ambientes Web.
Embora o Club Lexic seja anterior e mais próximo ao contexto da
Web 1.0, ele é mais colaborativo que os outros ambientes. Ao refletir sobre
os motivos, entendemos que no COMJunts a preocupação em informar
a comunidade de interesse sobre assuntos de bastante gravidade, levou os
pesquisadores a reduzir a abertura para colaboração. O Microscopi foi fei-
to para ser um banco de dados e reunir todas as informações coletadas no
Club Lexic, de modo que não tem a participação como principal objeti-
vo. Por fim, o Diximed para Pediatría é um dicionário, e apresenta recur-
sos para interação com a plataforma, como atividades, por exemplo, mas
não apresenta recursos para a colaboração, que também não é o foco do
ambiente.
A convergência entre o DI e a CD em ambientes dígito-virtuais faz
emergir possibilidades para aplicação dos conhecimentos construídos de
forma colaborativa, o que, como consequência, permite uma aproximação
das comunidades de interesse. O uso de uma linguagem mais próxima
da linguagem natural aproxima as comunidades de interesse do conhe-
cimento científico, como foi possível observar nos ambientes analisados.
A construção colaborativa de ambientes dígito-virtuais voltados para o
compartilhamento do conhecimento científico deve ser realizada tendo as
convergências entre DI e CD como base, para garantir que tais ambientes
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
304
sejam eficientes, efetivos e eficazes, além de proporcionar o acesso a longo
prazo.
No panorama da Web notamos que, de maneira geral, alguns am-
bientes, principalmente aqueles que foram criados a partir de projetos jun-
to às instituições dos pesquisadores responsáveis, deixam de ser atualizados
após a finalização ou descontinuidade dos projetos. Tais fatores geram, em
nosso entender, grande frustração aos sujeitos informacionais e comunida-
des de interesse ao longo do tempo. É um problema que não diz respeito
somente aos ambientes analisados, mas uma preocupação que toda a área
do conhecimento deveria compartilhar e para a qual buscar soluções.
RefeRênCiAs
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307
BiOGRAfiAs DOs AUTORes
APRESENTAÇÃO
COnTeXTOs PARADiGMÁTiCOs DA CiênCiA DA infORMAçãO e As TRAnsfORMAçÕes
eM sUAs PRÁTiCAs
MARiA JOsÉ ViCenTini JORenTe
Livre Docente em Cultura Digital e Informação Pós Custodiada em Redes de
Colaboração. Professora visitante na Universidad Carlos III de Madrid. Doutora
pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade
Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP). Especialista em Design de
Produto. Licenciada em Artes pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP)
e em Letras pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da
Universidade de São Paulo (USP). Professora Adjunta em Regime de Dedicação
Integral à Docência e à Pesquisa da UNESP, Faculdade de Filosofia e Ciências -
FFC - Campus de Marília, Departamento de Ciência da Informação. Docente dos
cursos de graduação em Arquivologia e Biblioteconomia e dos cursos de mestrado
acadêmico e doutorado em Ciência da Informação da UNESP. Membro dos con-
selhos dos cursos de Biblioteconomia e de Arquivologia e do Conselho de Pós-
Graduação em Ciência da Informação da UNESP de Marília. Na UNESP, é co-
ordenadora do Laboratório de Pesquisa em Design e Recuperação da Informação
(LADRI) e membro do Grupo Novas Tecnologias em Informação (GPNTI).
Seus interesses de pesquisa incluem Informação e Tecnologia, Curadoria Digital,
Mídias, Intersemiótica, Design de Informação e Questões de Gênero relacionadas
às TIC. Membro de comissão científica de agências de fomento e periódicos na
área da Ciência da Informação.
Lattes: http://lattes.cnpq.br/5073860126319285
Orcid: https://orcid.org/0000-0002-0492-0918
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
308
DUniA LLAnes PADRÓn
Doutora em Documentação pela Universidade de Salamanca (2011) com Menção
Europeia e Pós-doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da
Informação da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP),
Brasil. Atualmente é professora do Departamento de Ciências da Documentação
e História da Ciência da Universidade de Zaragoza. Experiência de ensino
como professora substituta na Universidade de Salamanca (2023-2024), profes-
sora visitante na UNESP (2014-2024) e professora associada na Universidade
de Havana (2005-2016). É membro do Grupo de Pesquisa “Patrimônio
Informacional, Bibliotecário e Documental” (USAL) e do Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Brasil como colaboradora estran-
geira. Sua pesquisa e ensino se concentram na representação e acesso a informa-
ções arquivísticas, padronização de descrição, preservação digital e gerenciamento
eletrônico de documentos.
Lattes: http://lattes.cnpq.br/9392669707310310
Orcid: https://orcid.org/0000-0001-8639-4706
nATÁLiA MARinHO DO nAsCiMenTO
Doutora e Mestre em Ciência da Informação pelo Programa de Pós-Graduação
de Ciência da Informação da Universidade Estadual Paulista (UNESP) - Bolsista
CAPES. Doutorado Sanduíche desenvolvido na Universidade de Salamanca
(2017) - Bolsista CAPES/PDSE. Graduada em Arquivologia pela Universidade
Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP), bolsista de iniciação científi-
ca FAPESP (2011) e CNPq (2009- 2010). Professora Assistente do Departamento
de Ciência da Informação e Colaboradora do Programa de Pós-Graduação em
Ciência da Informação (PPGCI) da Faculdade de Filosofia e Ciências - UNESP,
Marília. Bolsista Capes Professor Formador I (2023 - atual). Foi Professora
Adjunta do curso de Arquivologia da Universidade Federal do Pará (UFPA) e do
Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UFPA (2020 - 2022).
Membro dos Grupos de Pesquisa: Informação, Conhecimento e Inteligência
Organizacional da Unesp de Marília e Novas Tecnologias em Informação da
Unesp de Marília. Atuou como Consultora nas áreas de Organização, Gestão de
Documentos e Gestão da Informação.
Lattes: http://lattes.cnpq.br/8152394509168605
Orcid: https://orcid.org/0000-0002-0770-2035
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
309
GABRieLA De OLiVeiRA sOUZA
Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da
Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP)-Campus
de Marília, na linha de pesquisa Informação e Tecnologia - Bolsista FAPESP.
Graduada em Biblioteconomia e Mestre em Ciência da Informação pela UNESP-
Marília. Foi bolsista de iniciação científica do CNPq (2018), FAPESP (2019-
2021) e CAPES (2021-2023). Membro do Laboratório de Pesquisa em Design
e Recuperação de Informação (LADRI) e do Grupo de Pesquisa em Novas
Tecnologias da Informação (GPNTI). Atua na área de Ciência da Informação,
com foco em Biblioteconomia e Museologia. Sua pesquisa abrange folksonomias
em mídias sociais, documentação museológica, ambientes digitais na web, re-
cuperação da informação, Museu da Pessoa, Design da Informação e Curadoria
Digital.
Lattes: http://lattes.cnpq.br/7333558572073020
Orcid: https://orcid.org/0000-0001-7519-6624
CAPÍTULO 1
A fORMAçãO CURRiCULAR eM ARQUiVAMenTO eLeTRôniCO: PROPOsTA PARA O
esPAçO eUROPeU De eDUCAçãO sUPeRiOR (eees)
MARÍA MAnUeLA MORO-CABeRO
Doutora em História pela Universidade de Salamanca (1995). Professora titular
do Departamento de Biblioteconomia e Ciência da Informação da Universidade
de Salamanca e professora visitante do Programa de Pós-Graduação em Ciência
da Informação da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, São
Paulo, Brasil. É pesquisadora principal do Grupo de Pesquisa “Informação,
Patrimônio Bibliotecário e Documental” da USAL e membro do Grupo de
Pesquisa Ged/A-Gestão Eletrônica de Documentos Arquivísticos do Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Brasil, e do
Comitê Técnico Nacional 50 de Informação e Documentação da Associação
Espanhola de Normalização e Certificação (Aenor). Sua pesquisa abrange a
disseminação de normas na Espanha, particularmente a série de Normas de
Sistemas de Gestão (MSS) da ISO, gerenciamento eletrônico de documen-
tos, preservação digital e outros tópicos relacionados à ciência arquivística. Ao
longo de sua carreira acadêmica, ocupou diversos cargos de gestão, incluindo
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
310
chefe do Departamento de Biblioteconomia e Ciência da Informação, diretora
do Mestrado em Sistemas Digitais de Informação e coordenadora da Comissão
Permanente do Departamento de Biblioteconomia e Ciência da Informação da
USAL.
Lattes: http://lattes.cnpq.br/0475077117392892
Orcid: https://orcid.org/0000-0001-5301-1924
KeVin-fRAnCisCO LeÓn GAViLÁneZ
Graduado em Informação e Documentação e Mestre em Sistemas Digitais de
Informação, ambos pela Universidade de Salamanca. Atualmente, realiza suas
pesquisas no Departamento de Biblioteconomia e Ciência da Informação,
parte do programa de doutorado “Formação na Sociedade do Conhecimento
da Universidade de Salamanca e no programa de Formação de Professores
Universitários (FPU) do Ministério das Universidades. É membro do Grupo
de Pesquisa “Patrimônio Informacional, Bibliotecário e Documental” (USAL),
da Sociedade Espanhola de Excelência Acadêmica (SEDEA), da Associação de
Arquivistas de Castela e Leão (ACAL) e da Associação Cultural e Estudantil
“ICHTUS”. Sua pesquisa se concentra em preservação digital, gerenciamento pa-
dronizado de documentos em organizações e avaliação e certificação de arquivos.
Orcid: https://orcid.org/0000-0001-7936-7961
CAPÍTULO 2
PROPOsTA De CenÁRiOs fORMATiVOs De ALfABeTiZAçãO eM DADOs nO COnTeXTO
DAs CiênCiAs DA infORMAçãO
YOLAnDA MARTÍn GOnZÁLeZ
Professora titular do Departamento de Biblioteconomia e Ciência da Informação
da Universidade de Salamanca e, desde 2020, também ocupa o cargo de diretora
do departamento. Como professora, vem ministrando cursos relacionados a fon-
tes de informação especializadas e gerenciamento de dados há vários anos, prin-
cipalmente Recursos Documentais e Big Data em Criminologia. Suas principais
linhas de pesquisa são alfabetização informacional e de dados, bem como gestão e
reutilização de informações científicas e do setor público. Publicou diversas mo-
nografias e artigos sobre esses temas e dirigiu e participou de projetos de pesquisa
nacionais e europeus. Atualmente, é co-PI do projeto “Alfabetização de Dados
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
311
no Contexto Universitário: Detecção de Necessidades, Desenho de Cenários de
Formação e Desenvolvimento de um Quadro de Competências” (PID- 2020-
116233RB-100), financiado pelo Ministério da Ciência e Inovação da Espanha.
Ele também leciona o curso “Gestão e Reutilização de Dados de Pesquisa no
Contexto da Ciência Aberta: O Plano de Gestão de Dados” como parte do
Programa de Formação de Professores do Instituto de Ciências da Educação da
Universidade de Salamanca.
Orcid: https://orcid.org/0000-0002-6353-7644
CRÍsPULO TRAViesO RODRÍGUeZ
Graduado e doutor em Documentação (2005) e mestre em Ciência, Tecnologia e
Sociedade. Atualmente é professor titular do Departamento de Biblioteconomia
e Ciência da Informação da Universidade de Salamanca. Seus projetos de pes-
quisa e publicações estão nas áreas de avaliação de informação científica, análise
e organização de conteúdo digital e comunicação intercultural. É membro inves-
tigador do Grupo de Investigação Reconhecido em Interpretação: Alfaqueque.
Lattes: http://lattes.cnpq.br/3110692907114705
Orcid: https://orcid.org/0000-0002-0774-0728
CAPÍTULO 3
ReGisTROs PÚBLiCOs DiGiTAis eM BLOCKCHAin: fORTALeCenDO A
ResPOnsABiLiDADe DeMOCRÁTiCA
DAnieLLe ALVes BATisTA
Mestre em Ciência da Informação (2016) e Graduada em Arquivologia (2003)
pela Universidade de Brasília. Atualmente, ela é doutoranda em Biblioteconomia,
Arquivologia e Estudos da Informação na Universidade de British Columbia. Ela
é analista do MPU/Arquivos da Procuradoria Geral da República. Tem experiên-
cia na área de Ciência da Informação, com ênfase em organização de arquivos,
gestão de documentos, sistemas de informação e tecnologias emergentes.
Lattes: http://lattes.cnpq.br/0830420214106115
Orcid: https://orcid.org/0000-0003-1257-1962
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
312
ViCTORiA L. LeMieUX
Professora de Ciência Arquivística na Escola de Informação da Universidade de
British Columbia e líder do grupo de pesquisa Blockchain, Blockchain@UBC,
na universidade. Sua pesquisa atual se concentra nos riscos à disponibilidade de
registros confiáveis, particularmente em sistemas de manutenção de registros
de blockchain, e como esses riscos afetam a transparência, a estabilidade finan-
ceira, a responsabilidade pública e os direitos humanos. Organizou três escolas
de verão Blockchain@UBC para oferecer treinamento em blockchain e tecno-
logia, voltadas para alunos de graduação e pós-graduação da UBC. Ela possui
doutorado pela University College London (Estudos de Arquivologia, 2002) e é
Profissional Certificada em Segurança de Sistemas de Informação (CISSP) desde
2005. Recebeu vários prêmios por seu trabalho profissional e pesquisa, incluin-
do o Emmett Leahy Award (2015) por contribuições excepcionais na área de
gerenciamento de arquivos, o World Bank Big Data Innovation Award (2015) e
o Emerald Literati Award (2016) por sua pesquisa sobre tecnologia blockchain.
Também é membro do corpo docente de várias unidades da UBC, incluindo o
Peter Wall Institute for Advanced Study, a Sauder School of Business e o Institute
for Computing, Information and Cognitive Systems.
Orcid: https://orcid.org/0000-0003-1339-6289
CAPÍTULO 4
A CAMinHO De UMA GesTãO efiCAZ nO COnTeXTO De AVALiAçãO e CLAssifiCAçãO
DA infORMAçãO De ARQUiVO nA ADMinisTRAçãO PÚBLiCA PORTUGUesA
isABeL CRisTinA CORReiA GUeRRA ROsTAMi
Licenciada em Filosofia (Ramo de Formação Educacional) e pós-graduada em
Ciência da Informação pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
Desenvolve suas atividades profissionais e de pesquisa nas áreas de educação e ar-
quivística. Tem interesse especial em gestão de arquivos e avaliação do patrimônio
arquivístico de indivíduos, famílias e instituições.
Orcid: https://orcid.org/0000-0002-5118-2460
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
313
MARiA CRisTinA VieiRA De fReiTAs
Doutora em Biblioteconomia e Documentação pela Universidade de Salamanca
(Espanha, 2010), mestre em Ciência da Informação pela Universidade Federal
de Minas Gerais (Brasil, 2003), especialista em Preservação de Obras em Papel
pela Universidade Federal do Paraná (Brasil, 1999), graduada em Documentação
e Arquivologia pela Universidade de Aveiro (Portugal, 2007) e em História pela
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Cataguases (Brasil, 1992). Professora
assistente na Universidade de Coimbra (Portugal), onde leciona disciplinas de gra-
duação e pós-graduação em Ciência da Informação e orienta diversas dissertações de
mestrado, teses de doutorado e estágios extracurriculares. Atualmente é diretora do
Arquivo da Universidade de Coimbra e do Centro de Documentação 25 de Abril
da mesma universidade e investigadora do Centro de Estudos Interdisciplinares
(CEIS 20). Membro colaborador do Grupo ARBIDOC (Universidade de León)
e do Grupo Teresa Andrés (Universidade de Salamanca). Convidada para integrar
diversas bancas de defesa de teses de doutorado e mestrado, bem como comitês
científicos de eventos e publicações internacionais e nacionais na área de Ciência da
Informação. Publicou dezenas de trabalhos revisados por pares, incluindo capítulos
de livros, artigos e comunicações, e participou de mais de 100 eventos científicos,
tanto como participante quanto como apresentadora e moderadora de sessões. Seus
principais interesses de pesquisa são teorias e métodos arquivísticos, organização
de informações arquivísticas, gestão do conhecimento e pesquisa qualitativa (com
ênfase em software para coleta e análise de dados).
Lattes: http://lattes.cnpq.br/2059074252489081
Orcid: https://orcid.org/0000-0002-8849-8792
CAPÍTULO 5
O AUTOR É O inDeXADOR? A PRÁTiCA De inDeXAçãO nA PeRsPeCTiVA DAs TRAnsfOR-
MAçÕes DA COMUniCAçãO CienTÍfiCA eM CiênCiA ABeRTA
MARiânGeLA sPOTTi LOPes fUJiTA
Doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (1992),
Livre-Docente (2003) em Análise de Documentos e Linguagens Alfabéticas
de Documentos, Professora Titular da Universidade Estadual Paulista Júlio
de Mesquita Filho (UNESP) de 2010 a 2017. Foi professora do Curso de
Biblioteconomia e Arquivologia da UNESP- Campus de Marília de 1980 a feve-
reiro de 2017, onde também ocupou diversos cargos de gestão, além de atividades
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
314
de pesquisa e extensão voltadas para Indexação e suas linguagens. Atualmente, rea-
liza trabalhos voluntários de ensino, pesquisa e extensão na Faculdade de Filosofia
e Ciências da UNESP - Campus de Marília. É professora permanente do Programa
de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP, especialmente na linha
de pesquisa Produção e Organização da Informação. Foi coordenadora deste pro-
grama em 2003-2004 e em 2007 e vice-coordenadora em 2002-2003; 2004-2007;
2007-2010. Como pesquisadora, atua nos Grupos de Pesquisa Representação
Temática da Informação (líder) e Leitura, Organização, Representação, Produção
e Uso da Informação da UFPB (colaboradora). Desenvolve atividades de pesqui-
sa na UNESP com bolsa de Produtividade em Pesquisa do CNPq nível 1B. É
membro de sociedades científicas da sua área de atuação: a Associação Nacional
de Pesquisa e Pós-Graduação em Ciência da Informação (ANCIB) e o Capítulo
Brasileiro da International Society for Knowledge Organization (ISKO), no
Brasil e no exterior. Foi Coordenadora da Coordenação Geral de Bibliotecas da
UNESP (1999/2005); Diretora da Faculdade de Filosofia e Ciências da UNESP
- Campus de Marília (2008/2012); Pró-Reitora de Extensão Universitária da
UNESP (2013/2017); membro da Comissão Permanente de Avaliação da
UNESP; membro da Comissão de Recrutamento de Professores da UNESP;
membro do Conselho Editorial de Periódicos Científicos da UNESP; Assessora
da Reitoria da UNESP para assuntos de Biblioteca e membro de diversos órgãos
colegiados locais e centrais da UNESP. No CNPq atuou como assessora e pre-
sidente da Comissão de Área de Comunicação, Artes e Ciências da Informação
(2012/2017). Atualmente é Supervisora do Instituto de Políticas Públicas de
Marília, Presidente da Comissão Permanente de Publicações e do Conselho
de Editores de Periódicos Científicos da Faculdade de Filosofia e Ciências da
UNESP e Coordenadora Adjunta de Ciência da Informação do Departamento
de Comunicação e Informação da CAPES. É revisora ad hoc de agências de fo-
mento e participa como revisora e membro de Comitês Científicos de eventos e
periódicos científicos em Ciência da Informação no Brasil e no exterior.
Lattes: http://lattes.cnpq.br/6530346906709462
Orcid: https://orcid.org/0000-0002-8239-7114
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
315
CAPÍTULO 6
PensAMenTO COMPLeXO e A CiênCiA DA infORMAçãO
MARiAnA RODRiGUes GOMes De MeLLO
Doutora e Mestre pelo Programa de Ciência da Informação da Universidade
Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP); Bolsista de doutorado do
CNPq. Especialista em Direito Público com formação para o Ensino Superior
pela Faculdade Damásio de Jesus (Damásio Educacional). É graduada em Direito
pelo Centro Universitário Eurípides Soares da Rocha (UNIVEM) e em Filosofia
(FAJOPA). Foi professora estagiária nos cursos de Biblioteconomia e Arquivologia
(UNESP). Foi professora da Faculdade Católica de São Paulo nos cursos de
Gestão da Produção Industrial, Gestão Financeira e Marketing e Contabilidade.
Foi professora efetiva de Filosofia do PEB II no sistema educacional do Estado de
São Paulo, onde, além de Filosofia, lecionou História do Brasil e História Geral
no ensino fundamental e médio.
Lattes: http://lattes.cnpq.br/1993215959302497
Orcid: https://orcid.org/0000-0002-5925-8554
MARTA LÍGiA POMiM VALenTiM
Professora Titular da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho
(UNESP). Pós-doutorado na Universidade de Salamanca (USAL), Espanha.
Livre Docente em ‘Informação, Conhecimento e Inteligência Organizacional
pela Unesp. Doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São
Paulo (USP). Mestre pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-
Campinas). Professora permanente do Programa de Pós-Graduação em Ciência
da Informação da UNESP. Coordena o projeto de pesquisa “Inteligência
Organizacional e Inteligência Social no Contexto do Big Data: Análise de
Dados para Geração de Vantagens Competitivas”. É presidente da Associação
Ibero-Americana e do Caribe de Educação e Pesquisa em Ciência da Informação
(EDICIC), de 2021 a 2025. Também foi vice-presidente da associação de 2009 a
2011. Atualmente é coordenadora do Grupo de Trabalho de Gestão da Informação
e do Conhecimento (GT-4) da Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-Graduação
em Ciência da Informação (ANCIB). Também atuou como coordenadora deste
GT durante o período de 2001-2004. Foi Supervisora do Instituto de Políticas
Públicas de Marília (IPPMAR), 2021-2023. Foi Coordenadora do Programa de
Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP (2017-2021). Foi presi-
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
316
dente da Associação Brasileira de Ensino de Ciência da Informação (ABECIN)
por dois mandatos (2001-2004) e (2016-2019). Foi bolsista de Produtividade
em Pesquisa (PQ-1D) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico (CNPq) de 2002 a 2023.
Lattes: http://lattes.cnpq.br/1484808558396980
Orcid: https://orcid.org/0000-0003-4248-5934
CAPÍTULO 7
MACROBiBLiOTeCAs: A COnTeMPORAneiDADe DAs BiBLiOTeCAs
RAfAeLA CAROLinA DA siLVA
Doutora e mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação
da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP), na
área de pesquisa Gestão, Mediação e Uso da Informação. Especialista em
Psicopedagogia Institucional pela FUNDEPE, Marília/ São Paulo. Graduada
em Biblioteconomia pela UNESP, bolsista FAPESP. Membro do Grupo de
Pesquisa em Informação, Conhecimento e Inteligência Organizacional (GICIO)
e do Centro de Referência em Propriedade Intelectual e Inovação em Ciência
da Informação (CERPII). Realizou uma estadia de investigação, no âmbito dos
seus estudos de doutoramento, na Universidade Robert Gordon, Escócia, Reino
Unido (2016). Participou do Programa de Capacitação Institucional (PCI) do
Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT), com o
projeto de pesquisa “Estruturação da Informação na Pesquisa Brasileira”, como
bolsista do CNPq. Atualmente é bibliotecária da rede de ensino SESI e professo-
ra de Biblioteconomia na UniCesumar. Suas principais linhas de pesquisa estão
relacionadas à natureza interdisciplinar de macrobibliotecas, bibliotecas híbridas,
conceito de hibridez em bibliotecas, desenvolvimento social, gestão da informa-
ção, inovação e desenvolvimento comunitário.
Lattes: http://lattes.cnpq.br/4401853956270224
Orcid: https://orcid.org/0000-0001-9684-0327
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
317
ROsânGeLA fORMenTini CALDAs
Professora da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP),
vinculada ao Departamento de Ciência da Informação e ao Programa de Pós-
Graduação em Ciência da Informação (PPGCI). Com o apoio da Capes, con-
cluiu o doutoramento em Tecnologias e Sistemas de Informação na Universidade
do Minho, Portugal (2008). Ministra cursos, workshops e palestras sobre os tó-
picos de Marketing, OSM, Teoria Geral de Administração, Desenvolvimento de
Textos Científicos, Estruturas Organizacionais, Desenvolvimento Comunitário
e Cidades Inteligentes. Na instituição, integra a Comissão de Ações Culturais,
o grupo de pesquisa Informação, Conhecimento e Inteligência Organizacional
(ICIO) e o Instituto de Políticas Públicas de Marília (IPPMAR). Atuou nas
comissões de criação do curso de Arquivologia, de reestruturação do curso de
Biblioteconomia e no parecer de implantação do curso de Museologia da UNESP.
É autora de livros que são referência na área da Ciência da Informação, imple-
mentados por programas acadêmicos nacionais e que conquistaram posições de
destaque no Prêmio ABEU.
Lattes: http://lattes.cnpq.br/1445931826215377
Orcid: http://orcid.org/0000-0001-6020-9197
CAPÍTULO 8
esTRATÉGiAs inOVADORAs PARA As AssessORiAs JURÍDiCAs DO DisTRiTO feDeRAL
sOB A ÉGiDe DA CiênCiA DA infORMAçãO
nATÁLiA nAKAnO
Docente da Faculdade de Medicina de Marília - FAMEMA. Pesquisadora co-
laboradora do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia.
Pós-doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação
da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP), bolsista
CNPq. Doutora e Mestre pelo mesmo programa na UNESP. Membro do grupo
de pesquisa de Tecnologias de Construção do Observatório do IBICT, do Grupo
de Pesquisa em Novas Tecnologias da Informação (GPNTI) e colaboradora do
Laboratório de Pesquisa em Design e Recuperação de Informação (LADRI). Além
de sua formação acadêmica, estudos e pesquisas em Ciências da Informação, tem
ampla experiência no ensino de inglês e redação científica. Atualmente, trabalha
Maria José Vicentini Jorente, Dunia Llanes Padrón,
Natália Marinho do Nascimento e Gabriela de Oliveira Souza (Orgs.)
318
como professora de graduação e como professora colaboradora de inglês e redação
científica no programa de pós-graduação da FAMEMA.
Lattes: http://lattes.cnpq.br/461297488832751
Orcid: https://orcid.org/0000-0002-3217-2515
ROsiLene PAiVA MARinHO De sOUsA
Doutora em Ciência da Informação pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB),
com pesquisa na área de Informação e Propriedade Intelectual. Mestre em Ciência
da Informação pela UFPB, com pesquisa sobre Direito de Acesso à Informação.
Mestre em Direito pelo Centro Universitário de João Pessoa (UNIPÊ), com
pesquisa em Proteção de Dados Pessoais. Especialista em Direito do Trabalho
e Processo do Trabalho pela UNIPÊ. Especialista em História do Brasil pela
Universidade Cândido Mendes. É graduada em Ciências Jurídicas e Sociais pela
Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) - Campus Sousa, em História
pela UFCG - Campus Cajazeiras e em Biblioteconomia pelo Centro Universitário
Claretiano. Professora do Programa de Pós-Graduação em Propriedade Intelectual
e Transferência de Tecnologia para Inovação - PROFNIT/UFOB e do Programa
de Pós-Graduação em Gestão em Organizações que Aprendem - PPGOA/UFPB.
Professora de Direito do Centro de Ciências Humanas da Universidade Federal
do Oeste da Bahia (UFOB). Diretora Adjunta do Grupo de Pesquisa em Estudos
de Comunicação Jurídica do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e
Tecnologia (IBICT). Atualmente é membro da Comissão Brasileira de Direitos
Autorais e Acesso Aberto da Federação Brasileira de Associações de Bibliotecários,
Cientistas da Informação e Instituições (CBDA3/FEBAB). Foi membro da
Comissão de Direitos Difusos e Coletivos e Relações de Consumo (2017-2018)
e secretária da Comissão de Tecnologia da Informação (2013-2015), ambos na
Seção Paraíba da Ordem dos Advogados do Brasil. Desenvolve estudos e pes-
quisas nas áreas de Direito e Tecnologia (com ênfase em Direito Empresarial e
Trabalhista, Propriedade Intelectual e Inovação, Aspectos Legais da Informação,
Privacidade e Proteção de Dados); História e Memória (com ênfase em Acesso à
Informação e Patrimônio Cultural).
Lattes: http://lattes.cnpq.br/4465533418771961
Orcid: https://orcid.org/0000-0002-4699-8692
Contextos paradigmáticos da Ciência da Informação e as transformações em suas práticas
319
MiLTOn sHinTAKU
Possui graduação (Licenciatura Plena) em Ciências e Habilitação em Matemática
pelo Centro Universitário de Brasília - UNICEUB (1987), pós-graduação Latus
Census em Análise de Sistemas pela Universidade Católica de Brasília (1987), mes-
trado (2009) e doutorado (2014) em Ciência da Informação pela Universidade
de Brasília (UnB). Atualmente é Tecnólogo no Instituto Brasileiro de Informação
em Ciências e Tecnologia - IBICT, coordenador de Tecnologias para Informação
(Cotec). Credenciado no Programa de Pós-Graduação em Gestão da Informação
(PPGGI) da Universidade Federal do Paraná (UFPR)
Lattes: http://lattes.cnpq.br/8605833104600600
Orcid: https://orcid.org/0000-0002-6476-4953
CATALOGAçãO nA PUBLiCAçãO (CiP)
Telma Jaqueline Dias Silveira
CRB 8/7867
nORMALiZAçãO
Janaína Celoto Guerrero de Mendonça
CRB-8 6456
CAPA e DiAGRAMAçãO
Gláucio Rogério de Morais
PRODUçãO GRÁfiCA
Giancarlo Malheiro Silva
Gláucio Rogério de Morais
AssessORiA TÉCniCA
Renato Geraldi
OfiCinA UniVeRsiTÁRiA
Laboratório Editorial
labeditorial.marilia@unesp.br
fORMATO
16 x 23cm
TiPOLOGiA
Adobe Garamond Pro
2025
sOBRe O LiVRO
Maria José Vicentini Jorente | Dunia Llanes Padrón
Natália Marinho do Nascimento | Gabriela de Oliveira Souza
CAPES
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DRI
Maria José Vicentini Jorente | Dunia Llanes Padrón
Natália Marinho do Nascimento | Gabriela de Oliveira Souza
Contextos Paradigmáticos da
Ciência da Informação e as
transformações em suas práticas
Contextos Paradigmáticos da Ciência da
Informação e as transformações em suas práticas
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