Denise Landi Corrales Guaranha
Doutora em Filosoa e História da Educa-
ção pela UNESP - Universidade Estadual
Paulista - Marília (SP, 2022), onde parti-
cipou do grupo de pesquisa GEPAEFE
Grupo de Estudos e Pesquisa em Ad-
ministração da Educação e Formação de
Educadores; mestre em Literatura Brasilei-
ra pela USP - Universidade de São Paulo
- São Paulo (SP, 2007), onde participou,
como bolsista do CNPq, da Equipe -
rio de Andrade de pesquisadores, na área
de epistolograa, vinculada ao IEB - Insti-
tuto de Estudos Brasileiros, sendo respon-
sável pela organização da correspondência
de Mário de Andrade com Pio Lourenço
Corrêa (de 1917 a 1945), o que resultou
no livro: “Pio & Mário - diálogo da vida
inteira”, publicado pela Editora Ouro So-
bre Azul, do Rio de Janeiro (2009). Pos-
sui formação em Pedagogia Waldorf,
pelo Centro de Formação de Professores
Waldorf, Escola Rudolf Steiner, São Pau-
lo (SP, 2017). Graduada em Letras pela
USC - Universidade do Sagrado Coração
- Bauru (SP, 1985) e em Pedagogia pela
UNIJALES - Jales (SP, 2021). É professora
da Escola Técnica Estadual Martin Luther
King, em São Paulo, desde 2008, atuando
nas áreas de literatura, linguagem, comu-
nicação, trabalho e tecnologia.
Programa PROEX/CAPES:
Auxílio 0039/2022
Processo 23038.001838/2022-11
Denise Landi Corrales Guaranha
PIO LOURENÇO CORRÊA
(1875-1957)
um mosaico biobibliográco do polímata araraquarense
É com grande satisfação que eu, Ariana Nascimento da Silva, recomendo a
publicação do livro “Pio Lourenço Corrêa (1875-1957) Um Mosaico Bio-
bibliográco do Polímata Araraquarense”, escrito pela autora Denise Landi
Corrales Guaranha. Este livro é resultado de uma pesquisa de doutorado de
alta relevância vinculada à linha de Filosoa e História da Educação do Pro-
grama de Pós-Graduação em Educação da Universidade Estadual Paulista
(UNESP), Marília/SP. A pesquisa, conduzida pela competente orientação da
Professora Ana Clara Bortoleto Nery, destaca-se pela sua abordagem histó-
rica e pela importância do tema escolhido. A gura de Pio Lourenço Corrêa,
lólogo e bibliólo de Araraquara/SP, merece ser resgatada e estudada, pois
representa não apenas um indivíduo relevante na história da educação e da
linguagem em São Paulo, mas também um símbolo da preservação da me-
mória intelectual e cultural de nossa região. O trabalho desenvolvido na pes-
quisa de Denise Landi Corrales Guaranha, que envolveu a análise de um rico
acervo documental, resultou na identicação de importantes registros histó-
ricos sobre a atuação de Pio Lourenço Corrêa, bem como sobre os contextos
histórico, político, cultural, social e educacional do início do século XX. A
proposta de registrar a biograa de Pio e sua contribuição para a história da
UNESP, de Araraquara/SP, e da língua portuguesa é extremamente rele-
vante e enriquecedora. Portanto, recomendo a publicação deste livro, que
certamente contribuirá signicativamente para o avanço do conhecimento
nas áreas de Filosoa e História da Educação, bem como para a valorização
da história e da cultura regional.
Prof.ª Dr.ª Ariana Nascimento da Silva
Professora Adjunta II – Universidade São Judas Tadeu (USJT) – São Paulo
PIO LOURENÇO CORRÊA (1875-1957)
Denise Landi Corrales Guaranha
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Denise Landi Corrales Guaranha
PIO LOURENÇO CORRÊA (1875-1957)
um mosaico biobibliográfico do polímata araraquarense
Denise Landi Corrales Guaranha
Pio Lourenço Corrêa (1875-1957)
Um mosaico biobibliográfico do polímata araraquarense
Marília/Oficina Universitária
São Paulo/Cultura Acadêmica
2024
UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS – FFC
UNESP - campus de Marília
Diretora Dra. Claudia Regina Mosca Giroto
Vice-Diretora Dra. Ana Claudia Vieira Cardoso
Conselho Editorial
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Conselho do Programa de Pós-Graduação em Educação -
UNESP/Marília
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Ana Clara Bortoleto Nery
Claudia da Mota Daros Parente
Cyntia Graziella Guizelim Simões Girotto
Daniela Nogueira de Moraes Garcia
Pedro Angelo Pagni
Auxílio Nº 0039/2022, Processo Nº 23038.001838/2022-11, Programa PROEX/CAPES
Parecerista: Ariana Nascimento da Silva - Professora Adjunta II – Universidade São Judas Tadeu (USJT) – São
Paulo
Capa: Pixabay
Ficha catalográfica
_______________________________________________________________________________________
Guaranha, Denise Landi Corrales.
G914p Pio Lourenço Corrêa (1875-1957): um mosaico biobibliográfico do polímata araraquarense / Denise
Landi Corrales Guaranha. – Marília : Oficina Universitária ; São Paulo : Cultura Acadêmica, 2024.
247 p. : il.
CAPES
Inclui bibliografia
ISBN 978-65-5954-543-8 (Impresso)
ISBN 978-65-5954-544-5 (Digital)
DOI: https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-544-5
1. Corrêa, Pio Lourenço, 1875-1957. 2. Educação – História. 3. Educação – Filosofia. I. Título.
CDD 370.9
_______________________________________________________________________________________
Catalogação: André Sávio Craveiro Bueno – CRB 8/8211
Copyright © 2024, Faculdade de Filosofia e Ciências
Editora afiliada:
Cultura Acadêmica é selo editorial da Editora UNESP
Oficina Universitária é selo editorial da UNESP - Campus de Marília
Dedicatória
Dedico esta empreitada a Manoel Francisco
Guaranha e Olívia Landi Corrales Guaranha,
meus parceiros de vida, que acompanharam
todo o processo durante esses quatro anos.
Dedico o resultado desta pesquisa à professora
orientadora Ana Clara Bortoleto Nery, que
caminhou gentilmente comigo até aqui.
Dedico esta experiência a todos os meus alunos, que me
inspiram diariamente a continuar estudando e buscando
novos saberes para aprimorar-me nessa área tão desafiadora.
Agradecimentos
Agradeço, de coração, a Manoel Francisco Guaranha e Olívia Landi
Corrales Guaranha, meus parceiros de vida, sempre.
Agradeço, carinhosamente, à Prof. Dra. Ana Clara Bortoleto Nery, por
aceitar-me em seu grupo de pesquisa – GEPAEFE, e orientar-me de forma
tão gentil até o fim deste trabalho.
Agradeço às professoras presentes na Banca Avaliadora, por seu tem-
po, sua dedicação e suas valiosas contribuições para a melhoria deste tra-
balho: Profa. Dra. Carlota Josefina Malta Cardozo dos Reis Boto (FEUSP
- Faculdade de Educação da USP); Profa. Dra. Maria Rita de Almeida Toledo
(PPGH - Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da UNIFESP);
Profa. Dra. Cláudia Engler Cury (PPGH - Faculdade de História da UFPB –
Universidade Federal da Paraíba); Profa. Dra. Vera Tereza Valdemari (PPGE
- Faculdade de Educação da UNESP – Câmpus de Araraquara).
Agradeço à Profa. Dra. Ariana Nascimento da Silva (USJT –
Universidade São Judas Tadeu e UNICID – Universidade Cidade de São
Paulo), pela análise que possibilitou a publicação deste livro.
Agradeço a Weber Anselmo Fonseca, Coordenador Executivo de
Acervos e Patrimônio Histórico da cidade de Araraquara, que tão prontamen-
te autorizou minha visita à Biblioteca Pública Municipal Mário de Andrade
e ao acervo de Pio Lourenço Corrêa.
Agradeço a todos os funcionários da Biblioteca Pública Municipal
Mário de Andrade, de Araraquara, por me receberem e acompanharem na
pesquisa feita na instituição.
Agradeço a todos os funcionários do Centro Cultural Professores
Waldemar e Heleieth Saffioti (CCPWHS), antiga Chácara da Sapucaia, pela
recepção atenciosa e pelo acompanhamento durante minha visita.
Historiador
Veio para ressuscitar o tempo
e escalpelar os mortos,
as condecorações, as liturgias, as espadas,
o espectro das fazendas submergidas,
o muro de pedra entre membros da família,
o ardido queixume das solteironas,
os negócios de trapaça, as ilusões jamais confirmadas
nem desfeitas.
Veio para contar
o que não faz jus a ser glorificado
e se deposita, grânulo,
no poço vazio da memória.
É importuno,
sabe-se importuno e insiste,
rancoroso, fiel.
Carlos Drummond de Andrade
(Nova reunião: 23 livros de poesia.
São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p.472)
Lista de Abreviaturas
AIC – Acervo Ítalo Campofiorito
AMA - Acervo Mário de Andrade
BPMMA - Biblioteca Pública Municipal Mário de Andrade - Araraquara/SP
CMA - Câmara Municipal de Araraquara/SP
CPLC - Coleção Pio Lourenço Corrêa
GEPAEFE – Grupo de Estudos e Pesquisas em Administração da Educação e
Formação de Educadores
IEB - Instituto de Estudos Brasileiros
MA - Mário de Andrade
MIS – Museu da Imagem e do Som de Araraqaura
PLC - Pio Lourenço Corrêa
PMA - Prefeitura do Município de Araraquara/SP
UNESP - Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho
USP - Universidade de São Paulo
Sumário
Prefácio | Ana Clara Bortoleto Nery 15
1 - Considerações Iniciais 17
2 - As Peças do Mosaico 39
3 - Considerações Finais 179
Apêndices 197
Entrevista com Antonio Candido 215
Sobre a Autora 247
15
Prefácio
Antes do livro quero falar da autora. Denise Landi Corrales Guaranha é
uma dessas pessoas ávidas pela expansão das fronteiras culturais, pela pesqui-
sa, pelo conhecimento e pela educação. Professora pública do Ensino Médio,
na cidade de São Paulo, se propôs a fazer o doutorado em Marília, interior de
São Paulo, na Unesp. De partida, três contratempos: ser professora de ensino
médio hoje, por si só, já é um grande desafio; a grande distância percorrida:
Marília dista de São Paulo 450 Km; por fim, ingressar no Programa de Pós-
graduação em Educação nota 6 – na época era o único no estado - bastante
concorrido. Nesse cenário, a professora teve que conciliar vida pessoal e pro-
fissional com a vida acadêmica. No percurso, teve que acrescer um terceiro
lugar – Araraquara, interior de São Paulo – cidade onde viveu Pio Lourenço
Corrêa e onde a pesquisadora encontrou parte das fontes analisadas no pre-
sente livro. Sua formação inicial em Letras está muito presente no texto. Para
a pesquisa numa nova área de conhecimento teve que realizar uma imersão
na área de História da Educação, para fazer as análises com propriedade.
Ainda que tais desafios estivessem presentes no cotidiano, Denise Guaranha
desenvolveu sua pesquisa com afinco, seriedade e propriedade e, com muita
competência, teceu um belíssimo texto. E assim a Professora se fez Doutora
em Educação. A tese foi unanimemente indicada, pelos membros da banca
de defesa, para publicação. E da tese Denise fez o livro.
O livro é, portanto, o coroamento de um largo processo de inves-
timento pessoal e institucional. O texto é muito bem escrito e a leitura
flui de maneira prazerosa, ocupando um lugar de relevância no campo da
História da Educação. Tais características imprimem ao livro distinção e
valoração. Das pesquisas realizadas pela autora resultaram um vasto con-
junto de fontes de e sobre Pio Lourenço Corrêa. Tais fontes, cuidadosa-
mente elencadas no apêndice da tese, são férteis para outras investigações
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-544-5.p15-16
16
e novas publicações pela autora deste livro ou por outras pessoas que se
interessarem pela temática.
A contribuição do texto para a História da Educação é a de inaugurar
um novo tema de pesquisa para o campo. A biobibliografia de uma autodi-
data, como foi Pio Lourenço Corrêa, contribui para alargarmos o campo. O
personagem não se ocupou diretamente da educação, mas foi um intelectual
que deixou um legado cultural expressivo. Era um outsider do campo educa-
cional, mas pode ser considerado um polímata.
A biobibliografia elaborada por Denise Guaranha revela a importância
de Pio Lourenço pela proximidade com alguns intelectuais e pela biblioteca
que constituiu e deixou de herança. Pio Lourenço pertencia à oligarquia pau-
lista, viveu entre o império e a república e soube somar ao capital econômico
um capital cultural. Tinha um ímpeto pelo conhecimento e assim buscava
novos saberes tanto para seus empreendimentos quanto para sua curiosida-
de. Figurou entre os homens ricos do final do século XIX e início do XX e
foi próximo a Mário de Andrade e Antonio Candido. Viveu entre mundos
distintos. Esteve entre a cidade grande e o interior. Sua formação era tanto
acadêmica quanto autodidática. Caminhou por entre a cultura diocesana e a
antropofagia dos modernistas. Como poderão ler no texto, era um homem
de muitas contradições.
Preocupada com os riscos e perigos do gênero biográfico, a autora tece
o texto a partir da configuração mosaico em que elege elementos e os de-
senvolve cuidadosamente de maneira a constituir o texto completo. Assim
o faz por compreender a complexidade do personagem, pelas questões con-
traditórias e conflitantes que merecem maior cuidado, bem como entender
que, como pesquisadora, teve que fazer escolhas. A biobibliografia de Pio
Lourenço Corrêa não pretende, dessa forma, acolher a totalidade do biogra-
fado e seu legado intelectual. Elege o que de mais relevante se apresentou
nas fontes para analisar e compreender as formas pelas quais Pio Lourenço
Corrêa completa sua formação com a autoformação. O mosaico, como tal,
deixa brechas para outras contribuições.
Com desejos de boa leitura!
Ana Clara Bortoleto Nery
Marília, 16 de junho de 2024.
17
1
Considerações Iniciais
O objeto da pesquisa
Este livro é o resultado da pesquisa desenvolvida para a tese de doutora-
do defendida, em 26 de outubro de 2022, pelo Programa de Pós-Graduação
em Educação da Unesp – Câmpus de Marília/SP, na área de Filosofia e
História da Educação, cujo tema é a figura peculiar de Pio Lourenço Corrêa
(1875-1957): seu nascimento em Araraquara/SP e as relações familiares; o
período que passou estudando em São Paulo e morando na casa de Joaquim
de Almeida Leite Moraes (1834-1895, seu padrinho e avô do escritor mo-
dernista Mário de Andrade, 1896-1945); seu retorno ao interior e o casa-
mento com a sobrinha Zulmira Leite de Moraes Rocha Corrêa (1878-1959);
sua formação intelectual como autodidata; seu desenvolvimento individual
como polímata, termo usado por Burke (2020), de que se tratará na seção
2 do Capítulo 2; os vários campos de estudos a que se dedicou; seu legado
cultural (a Coleção Pio Lourenço Corrêa na Biblioteca Pública Municipal
Mário de Andrade, de Araraquara/SP); e sua relevância nos contextos em que
atuou, notadamente nos campos da cultura e da educação, como represen-
tante de uma categoria social que expressou, por meio de sua trajetória e de
suas produções, um modo peculiar de ver e conceber a vida e os processos
educacionais do Brasil no final do século XIX e na primeira metade do século
XX, período conhecido como Bélle Époque.
A pesquisa de caráter histórico com traços biográficos buscou a com-
preensão dos papéis cultural, político e social de Pio em sua cidade e em
seu tempo. Trata-se de um homem que, tendo vivido, em certo sentido, no
18
anonimato, cercou-se de intelectuais bastante eminentes de sua época e que
atuaram, principalmente, em áreas de estudos de Língua e Literatura, bem
como também da área da Biologia. Em sua trajetória intelectual, colecionou
farto material de pesquisa em sua biblioteca particular e produziu outros
tantos textos, principalmente sobre linguagem (publicados em periódicos
de Araraquara, São Paulo e Rio de Janeiro) – sendo, inclusive, reconhecido
em Araraquara/SP muito mais como filólogo do que como fazendeiro. A
Biblioteca Pública Municipal Mário de Andrade, de Araraquara (BPMMA
– 2019) reservou, no segundo pavimento, espaço para a Sala Pio Lourenço
Corrêa em que se encontra uma parte da biblioteca particular do filólogo
araraquarense, acervo doado em 17 de julho de 1957, após seu falecimento,
pela esposa Zulmira Rocha Corrêa.
Pio deixou uma significativa quantidade de fichas com anotações e re-
gistros de estudos realizados, de forma bastante organizada, revelando um
metódico trabalho científico, comportamento pouco comum nas pessoas de
seu entorno (fosse do meio familiar, de ofício, classe ou condição social): a
elite cafeeira do interior do estado de São Paulo.
O estudioso publicou quatro edições da Monografia da palavra
Araraquara (1936, 1937, 1940, 1952), opúsculo em que demonstrou, por
meio de pesquisa bibliográfica, que o significado da palavra que dá nome à
sua cidade, na linguagem indígena, era “terra do sol” ou “cova do sol” e não
terra das araras” como muitos acreditavam. A cada edição, fazia revisões
gramaticais e conceituais, atualizando a bibliografia.
Os demais textos autorais que publicou em jornais e revistas são es-
parsos e caíram no esquecimento, daí a importância de resgatar esse material
que pode constituir importante objeto de pesquisa tanto linguística quanto
histórica. As fichas de pesquisa, que compõem uma espécie de enciclopédia
particular, não foram ainda estudadas também e, apesar de estarem resguar-
dadas em sala especial, com acesso restrito, não há uma estrutura adequada de
conservação desses papéis que, pela ação do tempo, estão fragilizados. Trata-
se, portanto, de registrar uma pesquisa interdisciplinar mas, principalmente,
de caráter histórico, modalidade que, segundo Vieira et al (2007, p.17) trata
de “[p]ensar a produção do conhecimento histórico não como aquele que
tem implicações apenas com o saber erudito, com a escolha de um método,
19
com o desenvolvimento de técnicas, mas como aquele que é capaz de apreen-
der e incorporar essa experiência vivida”. Resgatar do esquecimento uma fi-
gura como Pio Lourenço, é um modo de “fazer retornar homens e mulheres
não como sujeitos passivos e individualizados, mas como pessoas que vivem
situações e relações sociais determinadas, com necessidades e interesses e com
antagonismos” Vieira et al (2007, p. 18).
Foi necessário, portanto, observar todo o conjunto de documentos,
bem como digitalizar alguns documentos avulsos, como as fichas, para que
não se perdessem, levando consigo uma parte interessante da história da cida-
de de Araraquara e de seu ilustre cidadão, da história da educação no interior
paulista e da história da língua portuguesa no período.
Também foi necessário fazer o inventário do material escrito da Coleção
Pio Lourenço Corrêa - CPLC, pois ela traz esclarecimentos sobre a formação
cultural de uma figura que representava a oligarquia cafeeira no interior pau-
lista, de alguém que atuou em várias áreas do conhecimento como autodida-
ta, principalmente nos temas que diziam respeito à língua portuguesa, cole-
cionando dicionários, gramáticas, livros de linguística, atuando muitas vezes
como orientador/conselheiro de Mário de Andrade no assunto. Pio Lourenço
não terminou os estudos formais por conta de circunstâncias que serão apre-
sentadas na reconstrução de sua biografia, mas jamais abandonou a disposi-
ção para o autodidatismo, o que é comprovado pelas fichas que elaborou e
que se tornaram fontes primárias, documentos, aqui entendidos conforme
Le Goff (2013, p. 496-497) como “resultado de uma montagem, consciente
ou inconsciente, da época, da sociedade que os produziram, mas também
das épocas sucessivas durante as quais continuou a ser manipulado, inda que
pelo silêncio”. Assim compreendido, o documento permanece, “dura, e o
testemunho, o ensinamento (...) que ele traz devem ser em primeiro lugar
analisados, desmitificando seu significado aparente” - Le Goff (2013, p. 497).
Como resultado da pesquisa bibliográfica inicial, foram listados: qua-
tro edições da Monografia da palavra Araraquara, publicadas por Pio, todas
assinadas com o pseudônimo de Mota Coqueiro; 65 artigos publicados em
periódicos, também assinados como Mota Coqueiro; quatro textos autógra-
fos publicados no Álbum de Araraquara (ALMEIDA, 1948, p. 26-27, 27-28
e 39-40), livro comemorativo contando a história da cidade; um depoimento
20
de Pio para o livro Brito: república de sangue (TELAROLLI, 1997, p. 216-
219); o fichário particular de Pio, que ocupa três gavetas da escrivaninha que
lhe pertenceu.
Foram pesquisados livros sobre Pio Lourenço, artigos em periódicos, teses,
citações ou somente referências a seu nome. As publicações que citam a figura
de Pio, em sua maioria, referenciam-no enquanto figura histórica de Araraquara,
ou enquanto amigo, conselheiro e correspondente de Mário de Andrade, daí a
importância de se resgatar a produção cultural dele próprio como uma fonte de
pesquisa relevante para a compreensão da trajetória desse personagem.
Assim, a bibliografia sobre Pio Lourenço Corrêa foi organizada a partir
de: um livro sobre a correspondência dele com Mário de Andrade (pesquisa
e notas de rodapé de autoria desta pesquisadora); quatro capítulos de livros
com traços biográficos; uma dissertação de Mestrado sobre a correspondência
de Pio e Mário (de autoria desta pesquisadora); onze livros em que se encon-
tram menções a Pio; 35 textos em periódicos com menções a ele (sendo oito
de Mário de Andrade); onze dissertações e teses que fazem menção a ele; um
Trabalho de Conclusão de Curso na área de Biblioteconomia; três menções a
ele na correspondência de Mário para outros destinatários.
O tema escolhido para o desenvolvimento desta pesquisa é aderente à
linha geral de pesquisa coordenada pela professora doutora e orientadora Ana
Clara Bortoleto Nery, “Filosofia e História da Educação”. Vieira et al (2007, p.
44) destacam que “a história-conhecimento é construção [...] uma representa-
ção do real e, como tal, parte do real e não o real em si mesmo”. Sendo assim,
acreditamos que a nossa reconstrução histórica e biográfica, ainda que parcial,
talvez seja a única possível quando se trata de uma reconstrução biográfica, fiel
tanto quanto possível aos vestígios documentais do pensamento desse homem,
que possa contribuir para o conhecimento da história e para a história de como
o conhecimento foi percebido em determinado período em uma determinada
sociedade, no caso deste estudo a sociedade cafeeira do Estado de São Paulo,
entre o final do século XIX e a primeira metade do século XX.
Desse modo, esta pesquisa foi uma tentativa de construir ou recons-
truir a trajetória de Pio Lourenço Corrêa, como indivíduo independente da
figura de Mário de Andrade, seu interlocutor mais famoso. A partir da corres-
pondência entre ambos (objeto da pesquisa de mestrado desta pesquisadora),
21
veio à luz essa persona até então pouco conhecida fora do círculo familiar,
mas que, pelo seu legado intelectual, merecia atenção especial. Tratou-se de,
a partir de suas fontes documentais e do seu arquivo, “realizar uma espécie de
viagem ao interior do pensamento de [...] [Pio Lourenço Corrêa], e à razão
de ser de ações e atitudes suas”, conforme Bellotto (2008, p.201) compreende
a importância do estudo de arquivos pessoais. Aos resultados da pesquisa de
mestrado (GUARANHA, 2007) em que Pio foi analisado principalmente
como interlocutor de Mário de Andrade, foram acrescentadas novas inves-
tigações, apresentando, agora, em primeiro plano, Pio Lourenço Corrêa, o
interlocutor menos conhecido do modernista, ainda que privilegiado.
Em torno desse objeto de pesquisa, o problema que norteou este tra-
balho foi a tentativa de responder à seguinte questão: em que aspectos o
contexto socioeconômico, os fatos da vida de Pio, seu autodidatismo e, em
certo sentido, seu polimatismo, constituíram-se, nesse sujeito da história, ele-
mentos de um consórcio entre os mundos econômico e letrado, na sociedade
paulista da primeira metade do século XX, aspectos que, em seu conjunto,
podem ser interpretados como uma espécie de autoafirmação do capital fren-
te à cultura por meio da ilustração, da erudição e do estudo?
Coerente com a visão de que o estudo da História é uma montagem de
vestígios coletados ao longo da pesquisa, elegemos a imagem do mosaico para
ilustrar o processo. Assim, o primeiro capítulo, que contextualiza o momento
em que viveu o personagem que foi objeto do estudo, tem como título “As
peças do mosaico”. Nele, foram apresentados o tempo e o espaço em que se
procurou resgatar a memória, foram investigados o desenvolvimento do inte-
rior do estado de São Paulo na época de formação da cidade de Araraquara,
lugar e momento em que teve início também a família de Pio. O contexto é
entendido aqui como uma visão panorâmica, ampla, do tempo e do espaço
contemporâneos à vida de Pio Lourenço, o período conhecido como Belle
Époque (final do século XIX – início do século XX) e suas influências na re-
gião do interior paulista. Para isso foi necessário compreender aspectos desse
momento no continente europeu e como ele reverberou em nosso país, bem
como compreender a penetração do ideário no ambiente interiorano e rural
paulista que passava pelo processo de urbanização no período. Esse proce-
dimento é o que Burke (1992, p.10) chama de “paradigma tradicional” da
22
abordagem histórica, que parte do macrocontexto, cronologicamente e numa
visão panorâmica, com um estudo do ambiente e das influências recebidas
por Pio, no caso.
Em seguida, foi considerada uma perspectiva mais particular, os aspec-
tos da vida do polímata Pio Lourenço Corrêa, uma visão do pesquisado em
um enfoque mais individualizado, das influências que ele exerceu sobre os
seus contemporâneos por meio de suas produções nas diversas áreas do co-
nhecimento, que têm caracteres éticos, estéticos, técnicos, políticos e, de gran-
de importância para este trabalho, um caráter didático, aspectos que ajudam
a entender como se deu sua formação cultural/intelectual como autodidata.
Segundo Burke (1992, p.11), este tipo de abordagem corresponde à “nova his-
tória” ou “história que se interessa virtualmente por toda a atividade humana”.
Espera-se que os resultados desta pesquisa contribuam para que os visitan-
tes e pesquisadores entendam a importância da Sala Pio e Mário da Biblioteca
Pública Municipal de Araraquara/SP e do acervo que ela contém. Espera-se,
ainda, que os resultados desta pesquisa ajudem também na conscientização
dos gestores da cidade de Araraquara quanto à necessidade de conservação do
acervo da sala Pio e Mário da Biblioteca Pública Municipal, não só como es-
paço para visitantes, mas como espaço de preservação da memória cultural da
cidade e de valorização do passado. Além disso, e em consonância com a área
principal em que se insere este trabalho, espera-se que o espaço dedicado a Pio
possa ser também utilizado como um importante aparelho cultural destinado
ao desenvolvimento de projetos de ensino e aprendizagem de língua, literatura
e história, entre outras disciplinas, para os estudantes do município, bem como
possa tornar-se um centro de pesquisas para graduandos e pós-graduandos, ten-
do em vista a quantidade de rico material disponível para estudos acadêmicos.
Espera-se, enfim, que este trabalho contribua para que a comunidade perceba
o potencial do espaço como fonte e memória de criação.
Após estabelecer a persona em seu contexto, ou seja, Pio Lourenço
Corrêa na Araraquara de seu tempo, foi necessário analisar as diversas ati-
vidades a que se dedicou e os diversos epítetos que, consequentemente,
couberam-lhe: autodidata, letrado, bibliófilo, naturalista, linguista, filólogo
e escritor. Todas essas atividades, essas áreas de interesse ou esses epítetos
forneceram ao menos alguns caminhos para tratar da trajetória do sujeito,
23
acompanhando seu desenrolar histórico em grupos sociais concretos e em es-
paços sociais definidos pelos mesmos grupos em suas batalhas pela definição
de limites e da legitimidade social e simbólica.
Pio viveu e expressou-se entre a cidade e o campo: no ambiente urbano,
nasceu e morou em Araraquara durante a infância; morou durante oito anos
em São Paulo para estudos; conviveu com os parentes da metrópole, com a
modernidade de Mário de Andrade; voltou a morar em Araraquara, casou-se;
conheceu a Europa em longa viagem realizada no ano de 1911. No ambiente
campesino, manteve uma distância segura do mundo cosmopolita, vivendo em
sua Chácara da Sapucaia, circulando pelas fazendas e pelo seu pesqueiro pró-
ximo ao Rio Mogi. Quantitativamente, viveu mais tempo na natureza do que
na cidade e organizou criteriosamente sua vida nela, mantendo certa rigidez
tradicionalista no comportamento, no vestuário; organizando caçadas e pesca-
rias; e aplicando seus conhecimentos nas atividades das fazendas de café e gado.
Por todos os aspectos que envolvem a trajetória de Pio Lourenço, é
possível estabelecer uma relação dessa figura com a personagem Jacinto, do
conto de Eça de Queiroz (um dos autores preferidos de Pio, de quem con-
servou muitas obras em sua biblioteca), “Civilização” (QUEIROZ, 1996,
p.51 – 67), conto aliás que foi transformado no romance A cidade e as serras
(QUEIROZ, 1901), publicação póstuma. Jacinto, no final da história, esco-
lhe viver no campo em Portugal, em vez de viver em Paris, mas pede a um
amigo que lhe busque as principais obras que deixara na cidade: livros de
Horácio, Virgílio etc. De modo parecido agia Pio, que solicitava a Mário de
Andrade, e depois da morte deste a Antonio Candido (1909-2017), que lhe
comprassem as publicações em São Paulo, principalmente novidades no cam-
po da língua portuguesa, bem como obras de Botânica, Zoologia, História
e outras de seu interesse. Como Jacinto, Pio escolheu viver no campo uma
vida rústica, mas não dispensava grandes obras de grandes poetas e filósofos,
nem o conhecimento técnico buscando, assim, o equilíbrio entre o melhor da
natureza e o melhor da civilização.
Em O campo e a cidade: na história e na literatura (1990), Raymond
Williams (1921-1988), apresenta uma análise “das diversas respostas que a li-
teratura e o pensamento social ingleses deram, através dos séculos, a esses dois
tipos de comunidade humana frequentemente contrastados” (WILLIAMS,
24
1990, p. 78), mostrando que não são tão polarizados assim. Tratam-se de es-
paços que dialogam muito mais do que se imagina, principalmente no perío-
do que está sendo estudado, momento em que o café produzido no interior
paulista enriqueceu as cidades e, principalmente, a metrópole.
Pio Lourenço Corrêa, além de ser um fazendeiro e de viver da agropecuá-
ria, considerava-se um linguista, influenciado pela leitura da obra de Ferdinand
de Saussure (1857-1913). Em sua atividade de autodidata, pesquisou expres-
sões e usos da língua portuguesa; fez a revisão gramatical do livro Amar verbo
intransitivo, de Mário de Andrade, publicado em 1927, justificando todas as
correções com as normas gramaticais que tão bem dominava, resultado de seu
autodidatismo. Mário, aliás, por meio das cartas, entre outros assuntos, consul-
tava o “Tio Pio” sobre questões de linguagem. Pio, por sua vez, sempre deixava
dinheiro com o escritor, que morava na capital, para que comprasse todos os di-
cionários e gramáticas que fossem publicados. Ao longo de sua atividade como
linguista, Pio também escreveu, durante os anos de 1935 e 1936, a coluna
“Fichas de Linguagem” para O Imparcial, periódico de Araraquara, bem como
publicou sobre o mesmo tema em periódicos de São Paulo e Rio de Janeiro.
Pio continuou estudando e, à medida que enriquecia sua biblioteca
com as novidades das áreas de linguagem e ciências, anotava suas pesqui-
sas metodicamente em fichas de estudo, e aplicava em suas fazendas o que
lia sobre Botânica e Zoologia, fatos que foram relatados à pesquisadora por
Antonio Candido em entrevista concedida em 2006.
Além dos móveis, de sua biblioteca individual, das fichas de estudo e das
publicações que compõem a coleção, Pio Lourenço foi proprietário de várias
fazendas na região de Araraquara e sua Chácara da Sapucaia (onde Mário de
Andrade, em férias, redigiu a primeira versão do livro Macunaíma, publicado
em 1928, conforme contou no prefácio da primeira edição), hoje, compõe
o acervo imobiliário da Universidade Estadual Paulista - UNESP, câmpus de
Araraquara, funcionando ali o Centro Cultural Professores Waldemar e Heleieth
Saffioti (CCPWHS). Direta e indiretamente, portanto, Pio teve papel de des-
taque nos meios histórico, linguístico, educativo e cultural da cidade.
A amizade de Pio com Antonio Candido, sociólogo, professor de litera-
tura na Universidade de São Paulo, casado com Gilda de Mello e Souza (1919-
2005), prima de Mário de Andrade e sobrinha de Pio, é uma das ramificações
25
de amizades e diálogos que o fazendeiro estabeleceu com intelectuais das mais
variadas áreas. Entre essas amizades, figuram também: o Dr. Olivério Mário de
Oliveira Pinto (1896-1981), diretor do Museu de Zoologia da Universidade
de São Paulo – USP; e Joaquim de Almeida Leite Moraes (1835-1895), presi-
dente da província de Goiás, professor da Faculdade São Francisco, presidente
da Câmara Municipal de Araraquara e avô de Mário de Andrade. A amizade
mais profícua em termos de documentação foi a que manteve com Mário, diá-
logo extenso e significativo comprovado pela longa correspondência, de 1917 a
1945, já publicada (ANDRADE & CORRÊA, 2009).
Diante do exposto, o objetivo deste trabalho é contribuir para enten-
der a nossa realidade em relação àquele tempo, uma vez que, de acordo com
Borges (1993, p. 8): a “história não visa estudar o passado distante e morto,
mas é a contribuição que ela pode trazer à explicação da realidade em que
vivemos que nos leva a ver como fundamental sua divulgação”.
Conhecer a biobibliografia de Pio Lourenço Corrêa é relevante, pois
sua produção intelectual valorizou e buscou compreender a língua e, a seu
modo, procurou refletir sobre o conflito entre os valores tradicionais e os
modernos no tempo em que viveu. O acervo cultural que legou à sua cidade,
a Coleção Pio Lourenço Corrêa, é significativo registro de interesses e assun-
tos de um autodidata, representante de um modo de pensar de uma época e
pode interessar a um público maior e incentivar outras áreas de investigação
desses documentos depositados na sala, coleção composta de valiosos escritos
os quais permitem o resgate da memória e da história.
1.2 Material e métodos para a organização desta biobibliografia
O ponto de partida teórico para pesquisar, organizar e apresentar a
biobibliografia de Pio Lourenço Corrêa (1875-1957) foi o texto de Pierre
Bourdieu (1930-2002): “A ilusão biográfica” (2006), e o diálogo que Schwarcz
(2013) e Dosse (2015) estabeleceram com ele. Bourdieu faz reflexões sobre as
dificuldades que se pode encontrar ao “investigar” a vida de alguém, as falá-
cias que podem ser cometidas e como é fácil cair no reducionismo ao consi-
derar-se a vida como um “todo, um conjunto coerente e orientado, que pode
e deve ser apreendido como expressão unitária de uma ‘intenção’ subjetiva e
objetiva, de um projeto” (BOURDIEU, 2006, p. 184).
26
Todo pesquisador/historiador que se propõe a estabelecer uma biografia
precisa fazer escolhas ao conduzir o trabalho e o texto. A escolha mais comum
e que parece dar um sentido lógico para os acontecimentos biográficos é seguir
a cronologia, num trabalho retrospectivo, registrando o que o biografado rea-
lizou, mas também tem um movimento prospectivo, no sentido de mostrar
a importância dele na atualidade, bem como para as gerações futuras, quan-
do ocorre a divulgação dos resultados. Tal sequência cronológica, porém, cria
uma impressão “ilusória e artificial de sentido” (BOURDIEU, 2006, p. 184
-185) fechado e fixo, o que significa, muitas vezes, a necessidade de aproximar e
rearticular documentos e fatos de diferentes períodos estabelecendo correlações
entre os diferentes momentos em que foram produzidos e aspectos essenciais,
mais atemporais, da visão do mundo do sujeito que os produziu, ou seja, anali-
sá-los nas circunstâncias em que foram construídos e para além delas.
Schwarcz (2013, p. 54) aponta o risco das polarizações ao se estudar a
biografia de um indivíduo:
[...] em tempos mais recentes, a relação entre biografia e história acabou
por inserir-se em um conjunto mais vasto de contraposições que opõe
indivíduo a sociedade; individual a coletivo; social a particular; estrutura a
contexto; ação individual a ação coletiva. Nessa rede de dualidades tensas,
oscilamos entre ver o personagem como apenas a reiteração de impasses
sociais e ligados a seu grupo, ou, ao contrário, em buscar nele um caso
único, particular e afeito a uma memória de si.
Em seguida, a autora analisa a posição de Bourdieu, propondo o con-
ceito de “trajetória”:
[...] para Bourdieu, o conceito de “trajetória” implicaria objetivar as rela-
ções entre os agentes, sem deixar de lado suas forças em campo. Dessa ma-
neira, e de forma diferente das biografias mais consagradoras, a trajetória
procuraria descrever posições simultaneamente ocupadas em sucessivos
campos de força: tanto individuais como “em relação” a demais grupos
sociais em concorrência. (SCHWARCZ, 2013, p. 57)
Trata-se de considerar o indivíduo sem desconsiderar o meio em que
ele atua, ou seja, as forças centrípetas e centrífugas em sua trajetória.
27
Bourdieu, por sua vez, afirma que o próprio nome que identifica a
pessoa e a institui como indivíduo, a assinatura que está nos documentos
civis, sociais, jurídicos, religiosos, profissionais etc., que pode parecer algo
definitivo, “não pode descrever propriedades nem veicular nenhuma infor-
mação sobre aquilo que nomeia” ou “só pode atestar a identidade da per-
sonalidade [...] à custa de uma formidável abstração” (BOURDIEU, 2006,
p. 187). Acredita-se, porém, que essa abstração, se produzida com método,
possibilitará encontrar um caminho, ainda que incompleto ou imperfeito,
para contar uma história de vida. Como diz Schwarcz (2013, p. 57):
[...] sem abrir mão da singularidade do sujeito, sua trajetória social repre-
senta a compreensão de um desfecho singular, dentro de um espaço social,
preenchido por disposições de “habitus”, que vão sendo sucessivamente
ocupadas por um mesmo agente ou um grupo de agentes relacionados. No
limite, para Bourdieu, a biografia independe do indivíduo, já que muitas
vezes esse tem pouca consciência do campo de forças em que opera ou dos
sentidos de sua ação. Eventos biográficos são acontecimentos que fazem
parte de um fluxo social mais vasto – deslocamentos dentro de diferentes es-
tados do campo social; relações entre capital econômico e capital simbólico.
Diante dessas colocações, tanto de Bourdieu quanto de Schwarz, e da
certeza das lacunas que certamente restariam ao final da pesquisa, cogitou-se
apresentar a pessoa/persona, os fatos da vida, as realizações, o material que
deixou, como uma “rapsódia, heterogênea e disparatada de propriedades bio-
lógicas e sociais em constante mutação” (BOURDIEU, 2006, p. 187), assim
como Mário de Andrade, amigo de Pio, que empregou o termo rapsódia para
qualificar sua obra de ficção Macunaíma (1928), narrativa em que costurou
lendas, mitos, casos, personagens, falas, músicas, folclore e outras manifesta-
ções da cultura brasileira.
O termo rapsódia, na origem, designava um trecho de poema épico,
recitado pelo rapsodo, o amarrador de mitos, como foi Homero ao compor
suas epopeias Ilíada e Odisseia. A metáfora de uma rapsódia biográfica seria
significativa neste trabalho porque a composição da biografia de Pio foi cons-
truída a partir da costura dos diversos registros, objetos, testemunhos dele e
sobre ele num processo nem sempre cronológico, mas guiado pela interação
desse personagem com o seu campo social.
28
O propósito de registrar e divulgar a vida de Pio, entretanto, não é o
mesmo que o escritor modernista tinha ao escrever sobre o seu “herói sem
caráter”, mas guardadas as devidas proporções, na visão do teórico Bourdieu,
parece que a ideia da rapsódia, termo emprestado da música clássica, que
equivale ao pot-pourri (francês) ou o termo mais atual medley (inglês) da mú-
sica popular (HOUAISS, 2001, p.2274), ou seja, a junção de trechos de
várias músicas em uma só execução, serviria como base metodológica para
construir uma biografia, por pressupor um texto mais maleável, uma vez que
permite costurar uma série de eventos ou fatos em uma mesma narrativa,
fazendo as transições entre eles de forma menos abrupta e mais harmônica,
ainda que persistam as lacunas, pois “o indivíduo, a pessoa, o eu, [é] ‘o mais
insubstituível dos seres’” (GIDE apud BOURDIEU, 2006, p. 191).
Ainda avançando no campo das reflexões sobre qual a melhor forma de
compor uma biografia, buscamos François Dosse (1950), na obra O desafio
biográfico: escrever uma vida (2015), em que o autor reconhece o gênero
como “híbrido” ou “impuro”, pela quantidade de variantes ou de elementos
que não se consegue abarcar, dedicando todo o primeiro capítulo, “A biogra-
fia, gênero impuro” (p.55-122), a essa discussão. Em seguida, constrói quatro
capítulos sobre as modalidades de abordagem biográfica que foram surgindo
no decorrer da história da humanidade e que, de certa forma, coexistem ain-
da na atualidade: “A idade heroica” (capítulo 2, p.123-193), em que aborda
aspectos do gênero biográfico quando surgiu na Antiguidade e “prestou-se
ao discurso das virtudes e serviu de modelo moral edificante para educar,
transmitir os valores dominantes às gerações futuras” (DOSSE, 2015, p.123),
abordagem que ainda desperta o interesse do público leitor; em seguida, o
autor discorre sobre a “A biografia modal” (capítulo 3, p. 195-228), que “visa,
por meio de uma figura específica, ao tipo idealizado que [o sujeito biogra-
fado] encarna. O indivíduo, então, só tem valor na medida em que ilustra
o coletivo” (DOSSE, 2015, p. 195), ou seja, alguém que se destaca e pode
servir de retrato de um grupo; por fim, em “A idade hermenêutica” (capítu-
los 4 e 5, p. 229-359), o autor discute o momento em que os historiadores
nos “tempos atuais são mais sensíveis às manifestações da singularidade, que
legitimam não apenas a retomada de interesse pela biografia como a transfor-
mação do gênero num sentido mais reflexivo” (DOSSE, 2015, p.229). Esta
29
terceira categoria, por sua vez, o autor subdivide em duas. A primeira, “I - A
unidade dominada pelo singular” (capítulo 4, p. 229-296), é aquela em que,
em tempos modernos, resgata-se o valor do sujeito histórico de forma reflexi-
va, o que estimulou a retomada do gênero; a segunda, “II-A pluralidade das
identidades” (capítulo 5, p. 297-359), é aquela em que o relato biográfico é
tensionado pela pluralidade contida em qualquer ser humano. O capítulo 6
da obra de Dosse é dedicado a discorrer sobre “A biografia intelectual” (p.
361-403), em que o autor reconhece que “o gênero biográfico não abarca
unicamente homens de ação, mas cada vez mais os escritores, os filósofos e
todos os homens de letras, que se tornam assim objetos de curiosidade e de
exercício biográfico”, pois “o homem de ideias se deixa ler por suas publica-
ções, não por seu cotidiano” (DOSSE, 2015, p.361).
Uma tentativa de reconstrução biográfica da trajetória de Pio Lourenço
Corrêa parece enquadrar-se na categoria que é tema das biografias hermenêu-
ticas, talvez por sua singularidade e, mais especificamente, por ser um homem
de identidades plurais, uma vez que manteve contato tanto com o mundo
técnico-científico de seu tempo quanto com o mundo das letras; tanto com
os seus conterrâneos da fazenda quanto com os intelectuais da cidade; repre-
sentou várias identidades ou papéis sociais: de pai (para Mário de Andrade);
de dono de terras, proprietário rural um tanto feudal em certos costumes
e progressista em outros; de linguista avant la lettre que, ao mesmo tempo
aceita as novidades linguísticas de Mário mas não as digere muito bem etc...
A obra traz ainda o texto “Ilusão biográfica?” (DOSSE, 2015, p. 208-
214), em que o autor dialoga com o artigo de Pierre Bourdieu (2006). Dosse
questiona a visão um tanto radical de Bourdieu sobre a quase “impossibilida-
de” de se estabelecer a biografia de alguém pela intangibilidade de um indiví-
duo, uma vez que todo processo seria bastante redutor. Dosse relativiza essa
postura e apresenta algumas possibilidades ao historiador que deseja abraçar
essa empreitada.
Em alternativa ao termo “rapsódia”, Dosse propõe o termo “mosaico”,
extraído do sociólogo Howard S. Becker (1928), “para compreender e resga-
tar o campo do possível” (2015, p. 211), ou seja, o método biográfico poderia
ser concebido como uma peça a acrescentar à montagem de um mosaico
[à medida que] [c]ada peça juntada ao mosaico enriquece um pouco mais
30
nossa compreensão do conjunto do quadro”. (BECKER, 1986, p. 62-62,
apud DOSSE, 2015, p. 211-212).
O mosaico, assim compreendido, não é só uma justaposição de peças
(ou “amarração” como pode acontecer na rapsódia), mas cada peça completa
outras e todas juntas vão definindo, completando uma figura ou imagem,
valorizando “a heterogeneidade e a singularidade das combinações pessoais
(DOSSE, 2015, p. 212), como acontece também na montagem de um que-
bra-cabeça. Esta metodologia de construção biográfica pareceu-nos a mais
abrangente pois, ainda que o “mosaico” não se apresente completo, futuras
pesquisas e informações poderão ser acrescentadas e, a cada nova peça, o qua-
dro poderá ir se ampliando e enriquecendo a figura do pesquisado.
Desse modo, o gênero biográfico ser considerado” “híbrido ou impuro
faz sentido, pois “não é possível registrar os fatos da vida [de Pio Lourenço,
ou de qualquer indivíduo], separados do aspecto histórico/historiográfico,
impossibilidade explicada por Michel de Certeau (2017, p. XIII), uma vez
que “[a] historiografia [...] traz inscrita no próprio nome o paradoxo – e qua-
se o oximóron – do relacionamento de dois termos antinômicos: o real e o
discurso. [Sua] tarefa [é] de articulá-los e, onde esse laço não é pensável, fazer
como se o articulasse”. E o autor ainda questiona: “[...] Que aliança é essa
entre escrita e história?” [Grifos do autor.].
A área da história/historiografia também enfrenta a dificuldade de
abarcar os fatos, haja vista as lacunas que, muitas vezes, devem ser preenchi-
das pelo historiador, o que nos remete novamente à imagem do “mosaico”,
quando o pesquisador deve amalgamar os fatos de que dispõe, por meio da
imaginação ou da dedução, para preencher as lacunas que os vestígios deixam.
Certeau sugere um caminho, uma operação técnica para a reorgani-
zação das peças desse mosaico, um método mais abrangente de investigação
que considera não somente como documentos a primazia dos textos impres-
sos, mas outras fontes da pesquisa, afirmando que
[e]m história, tudo começa com o gesto de separar, de reunir, de transfor-
mar em “documentos” certos objetos distribuídos de outra maneira. Essa
nova distribuição cultural é o primeiro trabalho. Na realidade, ela consiste
em produzir tais documentos, pelo simples fato de recopiar, transcrever
ou fotografar esses objetos mudando ao mesmo tempo o seu lugar e o seu
31
estatuto. Esse gesto consiste em “isolar” um corpo, como se faz em física,
e em “desfigurar” as coisas para constituí-las como peças que preencham
lacunas de um conjunto proposto a priori. Ele forma a “coleção”. [...]
O material é criado por ações combinadas, que o recortam no universo
do uso, que vão procurá-lo também fora das fronteiras do uso, e que o
destinam a um reemprego coerente. E o vestígio dos atos que modificam
uma ordem recebida e uma visão social. [...] É necessária aí uma operação
técnica. (CERTEAU, 2017, p. 69-70)
O modo como se pretendeu registrar esta pesquisa biobibliográfica é
resultante de uma investigação cujo objetivo não está centrado no indivíduo
enquanto alguém que foi uma grande celebridade, mas um homem que fez
parte, por assim dizer, da história do cotidiano de uma cidade do interior e
que soube, a partir desse espaço geográfico relativamente afastado dos gran-
des centros, em um tempo em que as comunicações eram mais difíceis, inse-
rir-se no mundo letrado da época não só porque tinha parentes letrados, mas
também porque tinha interesse pelo estudo, senso crítico, espírito empreen-
dedor e iniciativa de autodidata.
Pio Lourenço Corrêa deixou textos impressos, objetos (livros anota-
dos, recortes de jornais, dedicatórias, cartas), bem como fichas de estudo
manuscritas. Apesar de esta pesquisa não abranger a análise integral de toda a
coleção, foram selecionados, primordialmente, documentos que têm conteú-
do representativo de cada face de Pio, uma vez que há fichas que são apenas
anotações esparsas de nomes, palavras, ideias ou de atividades do dia a dia
que se, em seu conjunto, constroem algum sentido, isoladamente, enquanto
conteúdo, não revelam a atuação intelectual de Pio, seus pensamentos, seu
polimatismo. Deve-se considerar, ainda, que a escolha dos textos a serem
comentados é sempre subjetiva, subjetividade inerente a qualquer trabalho
de pesquisa e também resultado da redistribuição e da produção do material
feitas pelo historiador, conforme disse Certeau (2017, p. 67-69). Foi perti-
nente interrogar essas fontes para uma busca de informações que agregassem
sentido à história de vida do pesquisado. A investigação do espólio teve o
sentido, para além de analisar a contribuição cultural de seu autor, de buscar
indícios sobre o processo de autoformação, tal qual veremos mais adiante.
32
Todos esses objetos/textos/documentos e seus modos de organização
têm a função de
[r]ecuperar a totalidade (...)[,] fazer com que o objeto apareça no emara-
nhado de suas mediações e contradições; (...) recuperar como este objeto
foi constituído, tentando reconstituir sua razão de ser ou aparecer a nós
segundo seu movimento de constituição, do qual fazem parte o pesqui-
sador e sua experiência social, em vez de determiná-lo em classificações e
compartimentos fragmentados. [Têm a função de] situar a história como
um campo de possibilidades. (Vieira et al (2007, p. 10-11).
Não é possível pensar em Pio ou em sua vida sem considerar sua cole-
ção, justamente porque queremos divulgar quem deu origem àquele acervo
cultural que se pode observar através das paredes envidraçadas do recinto da
biblioteca em que estão arquivados; quem foi a figura histórica da cidade.
Os textos esparsos de Pio Lourenço Corrêa constituem um material
que ainda não havia sido estudado nem organizado, assim esta pesquisa se
propôs a reunir e divulgar esses documentos que são parte da história da ci-
dade de Araraquara, vestígios de um momento importante da Educação e da
Cultura brasileiras, bem como dos estudos da língua portuguesa.
A Tabela 1 sintetiza a quantidade total (136) de referências de (70) e
sobre (66) Pio Lourenço Corrêa e as quantidades respectivas a cada seção.
Tabela 1: Quantidade de referências de textos de e sobre Pio Lourenço Corrêa
Seção
Quantidade de refe-
rências por seção
1-Bibliografia de Pio Lourenço Corrêa sob pseudônimo de
Mota Coqueiro e sem pseudônimo
70
2-Bibliografia sobre Pio Lourenço Corrêa 66
TOTAL 136
Fonte: Tabela elaborada pela pesquisadora.
Na Tabela 2, apresenta-se a quantidade de referências de Pio Lourenço
Corrêa (70) distribuídas em duas seções: a produção assinada sob o pseudônimo
de Mota Coqueiro (66) e a produção assinada com seu próprio nome (4). Dentro
destas seções, foram consideradas subseções: no primeiro caso, do total de 66 re-
ferências, há 4 edições de um mesmo livro e 65 textos publicados em periódicos;
33
no segundo caso, há 4 textos de colaboração em livros e incluídas suas fichas de
estudos (7232 imagens de fichas, algumas com frente e verso preenchidos).
Tabela 2: Quantidade de referências de textos de Pio Lourenço Corrêa
Seção
Quantidade de
referências por
seção
1 Bibliograa de Pio Lourenço Corrêa sob pseudônimo de
Mota Coqueiro
66
1.1 Livro 1 (4 edições)
1.2 Textos em periódicos 65
2 Bibliograa de Pio Lourenço Corrêa sem uso de pseudônimo
4
2.1 Colaboração em livros 4
Fichas de estudos 7232
TOTAL 7302
Fonte: Tabela elaborada pela pesquisadora.
Na Tabela 3, apresenta-se a quantidade de referências sobre Pio Lourenço
Corrêa (66), discriminadas em 7 subseções: livro (1), dissertação de mestrado
(1), capítulos de livros (4), textos com menções a ele em livros (11), textos com
menções a ele em periódicos (35), menções a ele na correspondência de Mário de
Andrade com outros destinatários (3) e menções a ele em dissertações e teses (11).
Tabela 3: Quantidade de referências de textos sobre Pio Lourenço Corrêa
Seção
Quantidade de
referências por
seção
1 Bibliograa sobre Pio Lourenço Corrêa
66
1.1 Livro 1
1.2 Dissertação de mestrado 1
1.3 Capítulos de livros 4
1.4 Textos com menções a Pio Lourenço Corrêa em livros 11
1.5 Textos com menções a Pio Lourenço Corrêa em periódicos 35
1.6 Menções na correspondência de Mário de Andrade a outros
destinatários
3
1.7 Menções em dissertações e teses 11
TOTAL 66
Fonte: Tabela elaborada pela pesquisadora.
34
A análise ou investigação documental desta pesquisa buscou, ainda, em
consonância com as ideias de Jacques Le Goff (2013, p. 485),
considerar os documentos como monumentos, ou seja, colocá-los em sé-
rie e tratá-los de modo quantitativo; e, para além disso, inseri-los nos
conjuntos formados por outros monumentos: os vestígios da cultura ma-
terial, os objetos da coleção[...]. Enfim, tendo em conta o fato de que todo
documento é ao mesmo tempo verdadeiro e falso [...], trata-se de pôr à luz
as condições de produção [...] e de mostrar em que medida o documento
é instrumento de um poder (cf. poder/autoridade).
O documento/monumento, ainda segundo Le Goff (2013, p.495):
não é qualquer coisa que fica por conta do passado, é um produto da socie-
dade que o fabricou segundo as relações de forças que aí detinham o poder”,
por isso apresentam-se como indícios da dinâmica social contemporânea
ao objeto de nossa pesquisa, Pio Lourenço Corrêa, uma vez que, segundo
Schwarcz (2013, p. 57):
[...][os documentos] fornece[m] ao menos alguns caminhos para tratar da
trajetória de sujeito, acompanhando seu desenrolar histórico em grupos
sociais concretos e em espaços sociais definidos pelos mesmos grupos em
suas batalhas pela definição de limites e da legitimidade social e simbólica.
Retomando algumas ideias de Le Goff (2013, p. 496-497),” [o] docu-
mento não é inócuo. É, antes de mais nada, o resultado de uma montagem,
consciente ou inconsciente, da história, da época, da sociedade que o pro-
duziram”. Assim, foi relevante pesquisar a Coleção Pio Lourenço Corrêa –
CPLC, especialmente os documentos escritos, pois estes assumem caráter de
testemunho escrito” (LE GOFF, 2013, p. 486):
[o] documento é uma coisa que fica, que dura, e o testemunho, o ensina-
mento (para evocar a etimologia) que ele traz devem ser em primeiro lugar
analisados, desmistificando-lhe o seu significado aparente. O documento
é monumento. Resulta do esforço das sociedades históricas para impor ao
futuro – voluntária ou involuntariamente – determinada imagem de si
próprias. (LE GOFF, 2013, p.497).
35
Alguns desses objetos/documentos/monumentos mais frágeis foram
fotografados ou fotocopiados, respeitando-se a melhor forma de preservá-
-los, como exemplos ou testemunhos do trabalho intelectual de Pio. Para a
leitura e compreensão do testemunho que essas imagens fornecem, buscamos
apoio em Peter Burke (1937), principalmente em sua obra Testemunha ocu-
lar (2017), em que adverte o leitor sobre os perigos ou falácias que também
podem enganar o pesquisador/historiador. As imagens precisam ser interro-
gadas ou analisadas com cuidado, pois podem apresentar “distorções”, mas
[...]o processo de distorção é, ele próprio, evidência de fenômenos que
muitos historiadores desejam estudar, tais como mentalidades, ideologias
e identidades. A imagem material ou literal é uma boa evidência da “ima-
gem” mental ou metafórica do eu ou dos outros. (BURKE, 2017, p. 50).
As imagens dos livros anotados, os recortes de jornal de textos publi-
cados, as fichas de estudos manuscritas, as fotos, com certeza ajudaram no
mosaico” que se almejou compor, porque foram tratados ou considerados
com muito cuidado e olhar crítico.
Um aspecto adicional analisado nesta pesquisa foi o papel dos intelec-
tuais na escrita da história, a relevância da divulgação de sua biografia, sua
colaboração na história cultural de um determinado lugar ou tempo. Para
tanto, buscamos apoio em Jean-Pierre Rioux e Jean-François Sirinelli, orga-
nizadores de Para uma história cultural (1998), obra em que são analisadas
as várias fases da humanidade e suas respectivas produções culturais, a im-
portância dos intelectuais na produção e no registro histórico da cultura. No
capítulo “Social e cultural indissociavelmente”, Antoine Prost (1933) analisa,
por exemplo, a relação do individual com o coletivo no âmbito da cultura:
[s]ó existe cultura partilhada, pois a cultura é mediação entre indivíduos
que compõem um grupo. É o que estabelece entre eles comunicação e
comunidade. Mas a cultura é também mediação entre o indivíduo e a
sua experiência; é o que permite pensar a experiência, dizê-la a si mesmo
dizendo-a aos outros. (RIOUX & SIRINELLI, 1998, p. 135).
No capítulo “As elites culturais”, o próprio Sirinelli (1949, p. 260) ana-
lisa a abrangência desse campo de estudos, o da importância dos intelectuais
36
para a escrita da história, bem como dessa expressão “elites culturais”, e afir-
ma: “[...] as elites culturais não são o domínio exclusivo do historiador –
nem, aliás, domínio reservado de qualquer outra das ciências humanas ou
sociais. Elas estão colocadas, legitimamente, sob o olhar cruzado de várias
disciplinas”. O campo de significados para os termos “intelectual”, “cultural”
e “elite” sofreu alterações no decorrer da história. Da valorização da figura
dos heróis à valorização de grandes homens de ação, atualmente, temos a
grande valorização dos homens que trabalham com ideias, pensadores, inte-
lectuais que despontam em variadas áreas.
Pio Lourenço Corrêa atuou em diversas áreas, destacando-se notada-
mente como linguista/filólogo autodidata, sendo responsável pela coluna
“Fichas de linguagem”, no jornal O Imparcial de Araraquara, notadamente
nos anos de 1935 e 1936, além de ser um leitor e estudioso que tinha por há-
bito fazer anotações nas margens dos livros, como também procedia Mário de
Andrade. Para compreender esta prática, foi importante buscar apoio teórico
em Pierre Bourdieu, na obra Coisas ditas (2004), o capítulo “Leitura, leitores,
letrados, literatura” (p.134-148), em que o autor analisa o ato de ler, como se
desenvolve o hábito da leitura, além de estabelecer e comentar os conceitos e
a função dos filólogos.
Para compreender a relação de Pio Lourenço com a linguagem e
como sua atividade repercutiu em seu entorno, apoiamo-nos nos estudos
de Bourdieu, Linguagem, indivíduo e sociedade: história social da linguagem
(1993), e na obra organizada por Peter Burke e Roy Porter. Esta, com vários
colaboradores, é dividida em três partes: “Línguas autoritárias”, “Linguagem
e autoridade social” e “Significado e indivíduo”. Os títulos são bastante in-
dicativos do conteúdo desses capítulos, que tratam de demonstrar o poder
da linguagem, analisar as diferentes dimensões da linguagem falada e da lin-
guagem escrita, bem como compreender a linguagem como um elemento
constitutivo de poder.
Mais um aspecto importante em nossa investigação foi o hábito de
fichar as leituras e os temas estudados, método adotado por Pio Lourenço
Corrêa. Fichar não foi uma prerrogativa dele, mas foi um método que adotou
ao longo de sua vida como uma forma de estudar os temas em profundida-
de, não só coletando informações, mas selecionando-as, recortando-as com a
37
intenção de, a partir delas, produzir conhecimento. Essa prática talvez tenha
sido pela intenção de dialogar criticamente com as informações mais do que
acumulá-las. O fichamento era uma prática comum na época e é ainda hoje,
mesmo que feita eletronicamente.
O que distingue o fichamento de Pio é o fato de ele ter deixado seus
registros como herança intelectual. Quanto ao método de fichamento de Pio,
podemos destacar dois pontos: o caráter idiossincrático dele, que se reflete
em outras ações de sua vida (como veremos em alguns casos mais adiante),
presente nos documentos; a aspiração a ser um reconhecido produtor de co-
nhecimento, de cultura, mais que um produtor de café que aparece nas fichas
materializadas nas observações do fazendeiro que virou pesquisador ou do
pesquisador que emergiu do fazendeiro.
Para compreender o significado e a importância das fichas de estudo,
recorremos às reflexões de André Leroi-Gourhan (1911-1986) em O gesto
e a palavra, volume 2 - “Memória e ritmos” (2002). Encontramos também
algumas reflexões sobre o método de fichamento em O trabalho intelectual
Conselhos para os que estudam e para os que escrevem (2018), de Jean
Guitton (1902-1999).
Os esforços para analisar os resultados da pesquisa e apresentá-los ao
leitor foram concentrados, em grande parte, em determinar, evitando-se in-
terferências da historiadora tanto quanto possível, a importância do método
de estudo de Pio Lourenço Corrêa, como reflexo de seu modo de viver e de
agir e acreditamos que, a partir dos “modos” do fazer desse personagem, tal-
vez tenhamos conseguido também chegar a aspectos de seu modo de ser, bem
como compreender os porquês inerentes à formação dessa personalidade.
39
2
As Peças do Mosaico
2.1 O tempo e o espaço da memória
2.1.1 A Belle Époque em Araraquara
A Belle Époque, período vivido por Pio Lourenço Corrêa, é um termo
francês que significa literalmente “bela época”, que se inicia, no continente
europeu, nas últimas décadas do século XIX, mais precisamente por volta de
1870, e que termina com o início da Primeira Guerra Mundial, em 1914.
Trata-se, ainda, de um momento histórico ambivalente, pois por um lado
foi uma bela época por causa dos desenvolvimentos técnico, tecnológico, da
aceleração e do movimento, da modernidade que estava se aproximando para
os mais jovens; por outro lado, para os mais experientes, representou a ne-
cessidade de se manter um certo conservadorismo dos valores frente a um
mundo cambiante.
José Paulo Paes (1985, p. 67) afirma que a Belle Époque foi
um longo interregno de paz que se estendeu de 1870 até a Primeira Guerra
Mundial e durante o qual prosperou uma rica sociedade burguesa, brilhante
e fútil, amante do luxo, do conforto, dos prazeres em cujas camadas mais
cultas os artífices do art nouveau encontram os seus clientes de eleição.
A Art Nouveau ou Arte Nova ficou bastante evidenciada na arquitetura
do período por sua exuberância de formas e materiais, com linhas sinuosas
e desenhos em formatos de folhagens. A decoração dos ambientes ganhou
40
bastante atenção, com móveis e objetos que refletissem as inovações da socie-
dade industrial, principalmente nos quesitos luxo e exotismo (IMBROISI &
MARTINS, 2022).
Gilberto Mendonça Teles (1987, p.39) analisa as polaridades da época,
sob outro ponto de vista, destacando principalmente a questão estética:
por um lado[...] o culto à modernidade, resultado das transformações
científicas por que passava a humanidade; e, por outro, consequência do
esgotamento de técnicas e teorias estéticas que já não correspondiam à
realidade do novo mundo que começava a desvendar-se.
O grande centro cultural do período e que influenciou outras nações e
culturas foi Paris. O barão Georges Eugène Haussmann (1809-1891), basean-
do-se “em três ideais modernizadores – higienização, embelezamento e racio-
nalização” (FOLLIS, 2004, p.24), promoveu uma grande reforma urbana na
capital francesa, de 1853 a 1869, autorizado pelo imperador Luís Napoleão ou
Napoleão III (1808-1873). Muitos prédios antigos foram demolidos, a cida-
de perdeu seu traçado medieval e ganhou amplas avenidas, sistema de esgoto,
construções neoclássicas suntuosas, parques e jardins monumentais. O fluxo de
pessoas, mercadorias e meios de transporte ficou descongestionado; as constru-
ções mais amplas e distanciadas entre si promoveu melhor circulação de ar e
maior incidência de sol, diminuindo a propagação de epidemias; normas mais
rigorosas de higiene foram estipuladas; a ligação entre os subúrbios e o centro
ficou mais rápida; as classes menos favorecidas foram impelidas a morar nos su-
búrbios, política que as distanciou dos centros de poder e enfraqueceu possíveis
focos revolucionários da classe trabalhadora, contribuindo para a melhoria da
segurança pública, segundo a visão de seu idealizador. Além dos citados que-
sitos práticos, havia também a preocupação com a beleza. A cidade precisava
“impressionar por sua beleza” (FOLLIS, 2004, p. 26).
Essa reestruturação da cidade de Paris causou grande impacto e ad-
miração, bem como passou a servir de modelo para várias outras cidades ao
redor do mundo, inclusive para as metrópoles brasileiras, ainda que de forma
mais modesta e lenta. A modernização das cidades brasileiras começou pelo
Rio de Janeiro, nossa então capital federal e, por volta de 1870, também
chegou a São Paulo: ruas mais largas; lampiões a querosene da iluminação
41
pública substituídos por iluminação a gás e, um pouco depois, luz elétrica;
sistema de água e esgotos modelar. Também “os centros urbanos emergentes
do Oeste Paulista, beneficiados pela riqueza proveniente da cultura cafeeira e
pela chegada da ferrovia, também passaram por um processo semelhante, não
obstante caracterizado por suas peculiaridades” (FOLLIS, 2004, p.31). Ainda
segundo Follis (2004, p.15):
A Bélle Époque se caracteriza pela expressão do grande entusiasmo advindo
do triunfo da sociedade capitalista nas últimas décadas do século XIX e
primeiras do século XX, momento em que se notabilizaram as conquistas
materiais e tecnológicas, ampliaram-se as redes de comercialização e foram
incorporadas à dinâmica da economia internacional vastas áreas do globo
antes isoladas. Época marcada pela crença de que o progresso material
possibilitaria equacionar tecnicamente todos os problemas da humani-
dade. Nesse contexto, as cidades assumiram redobrado valor como locus
da atividade civilizatória, espaço privilegiado para usufruir o conforto
material e contemplar as inovações introduzidas pela modernidade. Para
isso, as cidades precisavam renovar suas feições de modo a se mostrarem
modernas, progressistas e civilizadas. As cidades modernizadas constituí-
ram então a maior expressão do progresso material e civilizatório de um
período que se convencionou chamar de Belle Époque.
Araraquara também refletiu a necessidade de modernização à moda pari-
siense. Segundo Benincasa (2003, p. 12), a descrição da cidade de “Araraquara,
em um artigo do jornal Correio de São Carlos, assemelhava-se a uma senhorita
perfumada, cheirando a jasmim:”, e transcreve o trecho do periódico:
(...) é por assim dizer, uma cidade feminina. Com suas ruas bem calçadas,
estreitas, ornadas quasi todas de arvores copadas, tem o aspecto duma
cidade jardim. Possuindo a Esplanada das Rosas, em torno da qual es-
tão situados todos os principais prédios da cidade, Araraquara dá a ideia
duma cidade tipicamente provinciana, onde o fator distancia não existe,
e se póde ir ao cinema, ao clube, à igreja, à escola e voltar ao hotel sem
dar mais de meia dúzia de passos... Tudo isso proporciona àquela linda
cidade paulista um ambiente por assim dizer familiar e carinhoso. É como
si toda a “urbs” não passasse duma sala de visitas enfeitada. (Correio de
São Carlos, São Carlos, 15 de janeiro de 1939. Apud: TRUZZI, Oswaldo.
S/d, p.202-203). (sic)
42
As marcas estéticas da Belle Époque em Araraquara, nos moldes do
que ocorreu na capital do estado, ficaram registradas no Teatro Municipal
da cidade, localizado onde hoje está a prefeitura, acompanhado do Clube
Araraquarense e do Hotel Municipal:
[c]onstruído no estilo Mourisco, o Teatro de Araraquara tinha as mesmas
formas arquitetônicas do prédio da Ópera Garniere, de Paris, construí-
da na época do Barão de Hausmann. Sua iluminação, pela quantidade
de lâmpadas, beleza do material e sua distribuição, era considerada des-
lumbrante. Os lustres eram riquíssimos. O mobiliário, com tapeçarias e
cenários importados, era distribuído entre 22 camarins, dois salões para
coristas, gabinetes e jardins. Contava ainda com grades, bar, gabinetes,
salões, um assoalho móvel acionado por através de um sistema hidráulico
localizado em seu porão, e ventiladores elétricos, que formavam um con-
junto magnífico. (O Imparcial, 2018, site oficial do periódico).
A Figura 1 retrata o conjunto arquitetônico referido e ilustra a influên-
cia da arquitetura francesa na cidade.
Figura 1: Teatro Municipal, Clube Araraquarense e Hotel Municipa
foto do início dos anos de 1960).
A ‘nova’ Araraquara contava com o antigo teatro (atual prefeitura), antiga sede social do Clube
Araraquarense e o Hotel Municipal (ao fundo). (Foto: Reprodução).” Fonte: COSTA, 2015, p.93.
43
Segundo Corrêa (2008, p. 152),
[o] Clube Araraquarense foi fundado em 1882 para atender aos interesses
das famílias araraquarenses para as quais já não bastavam as reuniões
familiares ou as reuniões religiosas. Criado com finalidade recreativa, era
o clube a institucionalização da classe dominante da cidade, formada na-
quela altura pelo setor agrário-financeiro da vila. Oferecia a um grupo a
oportunidade de preencher uma parte do tempo livre em divertimentos
com os jogos lícitos. A oferta de recreação estendia-se aos jovens da fa-
mília. Uma vez por mês, havia baile. Serviam chá com sequilhos. Não
se permitia a entrada de moças com trajes excessivamente elegantes. A
vestimenta deveria guardar uma certa sobriedade.
O clube, uma instituição indicativa de modernidade, era mantido pela
elite cafeeira que estabelecia as regras de seu funcionamento e, pela descrição
anterior, nota-se o conservadorismo, principalmente no quesito da vestimen-
ta feminina, além do chá servido, de tradição inglesa.
Há outros registros do processo de modernização da cidade:
[o]s homens ilustres se uniram, traçaram planos, se cotizaram e começa-
ram, carinhosa e decididamente, a trabalhar a construção do sonho. O
trabalho, efetivamente, começou com o Sr. Major Pio Corrêa de Almeida
Moraes, Prefeito de Araraquara entre os anos de 1906 e 1907. Mas foi a
partir de 15 de janeiro de 1908, quando assumiu o Sr. Américo Danielli
(1908-1910), que os homens que planejaram a nova cidade colocaram,
definitivamente, o plano em prática. Nascia a Nova Araraquara. (O
Imparcial, 2018, site oficial do periódico).
Todas essas transformações urbanas e melhorias foram patrocinadas pela
economia cafeeira, estenderam-se também às sedes das fazendas e os proprietários
mais abastados começaram a empregar, no meio rural, as novidades dos recursos
técnicos tanto na agropecuária quanto em suas moradias, surgindo grandes e
confortáveis casarões. Em Araraquara, a primeira fazenda cafeeira de referência
foi a Fazenda Pinhal, iniciada em 1830. Essa fase áurea durou aproximadamente
até 1930, quando então teve início o declínio dessa lavoura na região.
É nesse tempo de grandes possibilidades, de riqueza material, mas
também de muitas dificuldades, principalmente para os habitantes menos
44
abastados, quando tudo demorava um pouco mais a chegar, que nasceu Pio
Lourenço Corrêa. Seu comportamento, seu meio de vida, os amigos que cul-
tivou e sua produção intelectual são bastante marcados por essa ambientação,
esse “espírito de época”: hábitos até certo ponto conservadores; convívio pa-
cífico, mas crítico, com a modernidade; estudos constantes para manter-se
atualizado; interesse por variados assuntos, possibilitados pelos recursos fi-
nanceiros; busca pelo conforto que as invenções modernas propiciaram, sem
abrir mão de seu espaço preferido, sua Chácara da Sapucaia, em Araraquara.
Filho da Belle Époque, portanto, Pio irá ser um representante desse período e
sua trajetória será marcada pelas características desse momento: culto à mo-
dernidade com certo elitismo; busca de novas técnicas para melhorar as con-
dições de vida, acessível apenas aos mais abastados; desenvolvimento urbano
rápido propiciado pelo trabalho rural.
2.1.2 Constituição da cidade de Araraquara e fatos biográficos de
Pio Lourenço Corrêa
A região de Araraquara/SP, em 1500, era habitada pelos índios da nação
Guaianás. Martin Affonso de Souza encontrou-os, em 1532, nos vales dos rios
Mogi-Guaçu e Tietê até os campos de Piratininga e a serra de Paranapiacaba
(FRANÇA, 1915, p. V). Quando se estabeleceu o sistema de capitanias he-
reditárias, que perdurou de 1534 a 1549, o “donatário da capitania ficou res-
ponsável pela doação das sesmarias aos colonos, obedecendo às Ordenações do
Reino” (FOLLIS e TRUZZI, 2012, p. 13). Como as capitanias eram exten-
sões muito grandes de terras, difíceis de administrar e mais ainda de cultivar,
a Coroa Portuguesa estabeleceu as seguintes orientações: o donatário “[n]ão
tinha o direito de cobrar foros, pensões ou qualquer outro tributo ou taxa do
contemplado. O sesmeiro tinha apenas a obrigação de pagar o dízimo à Igreja,
cobrado sobre a produção e não sobre a terra, o que certamente facilitava a ma-
nutenção de extensas áreas improdutivas” (FOLLIS e TRUZZI, 2012, p. 13).
As exigências aos sesmeiros era de tornarem as terras produtivas num prazo de
cinco anos - senão lhes seriam tomadas em nome da Coroa Portuguesa, sem
nenhuma indenização -, além disso, deveriam realizar a “demarcação legal das
terras, abrir ou conservar caminhos, construir pontes e outros melhoramentos
no sentido de propiciar o trânsito público” (FOLLIS e TRUZZI, 2012, p. 14).
45
A Coroa Portuguesa, apesar de estabelecer tais regras, não dispunha de
fiscalização eficiente, assim as autoridades coloniais acabaram por favorecer
a classe dominante ou aqueles que lhes prestavam algum serviço relevante
(FOLLIS e TRUZZI, 2012, p. 14). Além disso, os limites de terras estabe-
lecidos nas cartas de sesmarias eram muito imprecisos, pois os métodos de
medição e demarcação eram rudimentares e permaneceram assim até o século
XIX (FOLLIS e TRUZZI, 2012, p. 14-15).
Cincinato Braga, historiador, em seu Almanack de São Carlos, de 1894,
contou sobre o desenvolvimento da região oeste do estado de São Paulo, onde es-
tavam os Sertões de Araraquara, parte da antiga Capitania Geral de São Vicente.
Ele afirma que até o começo do século XVIII, o desenvolvimento e a povoação
eram quase nulos. Na segunda metade do século XVIII, alguns exploradores co-
meçaram a chegar até o local (BRAGA, 1894, passim). Follis e Truzzi (2012, p.9-
10) descrevem a extensão do município de Araraquara, informando:
[o] município de Araraquara, reconhecido como freguesia do município
de Itu e Porto Feliz em 1817 e desmembrado do município de Piracicaba
em 1832, era constituído, em meados do século XIX, por uma enorme
região de fronteira, conhecida pelo nome de Sertões de Araraquara, carac-
terizada pela tênue integração às zonas mais povoadas do estado. Para se
ter uma ideia do que era o município em 1855, basta dizer que o mesmo
(sic) abrangia a vastíssima área delimitada: a) do lado sudoeste, pelo então
termo da Vila de Rio Claro, prosseguindo pela margem direita do Tietê
até o deságue no Rio Paraná; b) a leste pela margem esquerda do Rio
Mogi-Guaçu, e depois pelo Pardo; c) ao norte pelos confins do estado
delimitado pelas barrancas dos rios Grande e Paraná, na divisa com Minas
Gerais e Mato Grosso.
Ainda segundo Follis e Truzzi (2012, p. 21), as expressões Sertões ou
Campos de Araraquara:
[eram] a designação genérica e maleável produzida pela memória coletiva
para uma imensa área situada no planalto ocidental paulista, território
cujo interior se manteve pouco conhecido do não índio até o último quar-
tel do século XVIII, em contraponto à região da margem esquerda do rio
Piracicaba, mais trilhada e conhecida dos paulistas.
46
O nome da região foi herdado dos Morros de Araraquara, “cadeia de
montanhas localizada ao longo da margem direita dos rios Tietê e Piracicaba
[...] que servia de ponto de referência para os monçoneiros e bandeirantes
que viajavam pelo rio Tietê ou por terra” (FOLLIS e TRUZZI, 2012, p.
21). Inicialmente, acreditava-se que a palavra Araraquara significava, na lín-
gua tupi, ninho de araras, pois havia muitas dessas aves na região, mas Pio
Lourenço Corrêa buscou provar, em suas quatro edições da Monografia da
palavra Araraquara (1936, 1937, 1940 e 1952), que o significado era “lugar
onde nasce o sol”, assunto de que trataremos mais adiante. A seguir, apresen-
tamos um mapa da região em seus primórdios.
Figura 2: Mapa da região de Araraquara e entorno no início da povoação (s/a, s/d).
Fonte: FRANÇA, Antonio M. (org.). Álbum de Araraquara – 1915. Araraquara:
Câmara Municipal,1915, p. 17.
Follis e Truzzi (2012, p.22) afirmam que a primeira referência ao nome
Araraquara foi encontrada no Diário de Viagem do astrônomo português Dr.
Francisco José de Lacerda e Almeida, que fez uma expedição fluvial pelo interior
do país, em 1788, por ordem do Governador e Capitão General da Capitania
de Mato Grosso e Cuiabá, Luiz de Albuquerque de Mello Pereira e Cacêres. A
viagem teve início em Villa Bella (depois cidade de São Luiz de Cáceres, e hoje,
Cáceres, Mato Grosso) até a cidade de São Paulo. No registro do dia 24 de de-
zembro de 1788, em viagem pelo Rio Tietê acima, ele escreveu:
Com 3 horas de navegação, passei a cachoeirinha do Banharon e, pouco
acima, um poço do mesmo nome. Um quarto de légua acima desse poço,
e na parte côncava da enseada, se avista à distância de 3 léguas para N.E.
uns montes, que lhes chamam de Araraquara, que pela tarde quando lhes
47
bate o sol representam uma grande cidade. É tradição que nestes montes
há muito ouro. (ALMEIDA apud FRANÇA, 1915, p. V-VI)
A história da região atribui a Pedro José Netto a “descoberta” das terras,
por volta de 1790. Ele teria chegado ali fugindo da região de Itu por ter come-
tido um crime e ter se internado nas matas. Chegando a essa região, tomou
posse das terras e nomeou as primeiras sesmarias: Ouro, Rancho Queimado,
Cruzes, Lageado, Cambuhy, Monte Alegre (onde fixou residência) e Bonfim.
Quando começaram a surgir novos exploradores, Pedro José Netto aceitou
dividi-las, na condição de que não o entregassem à justiça.
Follis e Truzzi (2012, p.32-33), em pesquisa mais recente, afirmam
que, apesar das inúmeras narrativas de façanhas e da atribuição de qualidades
enobrecedoras ao “herói” Pedro José Netto, não há nada que comprove ter
sido ele um foragido da justiça nem que tenha cometido algum crime. Eles
constataram que o ano da chegada do posseiro à região foi 1807 e que houve
um recenseamento realizado em 1809, no qual se informa que
o futuro posseiro veio para os Sertões de Araraquara acompanhado da es-
posa, dos filhos José da Silva (16 anos) e Joaquim Ferreira Netto (10 anos)
e, provavelmente, do agregado Francisco de Paula, trazendo por certo al-
guma bagagem. Portanto, tudo indica que sua vinda para os Sertões de
Araraquara teria sido minimamente planejada, e não em fuga desesperada,
como afirma a grande maioria dos autores que abordou o tema.
Além dessa informação, os pesquisadores afirmam que Pedro José Netto
teve muita dificuldade em conseguir sua carta de sesmaria, solicitada em seu
nome e de seus dois filhos à Câmara de Itu (responsável pela região), por não
ter muitas posses. O Procurador da Coroa e Fazenda solicitou pesquisas para
levantamento da capacidade econômica dos requerentes e avisou que, caso
não fosse comprovada, o pedido seria indeferido. Graças à intervenção de
algumas figuras poderosas de Itu, no dia 1º de janeiro de 1810, finalmente,
o pedido foi concedido e Pedro José Netto tornou-se proprietário de terras.
A ajuda dos poderosos de Itu “leva a crer que o posseiro tenha se apro-
veitado [da] função de informante” (FOLLIS e TRUZZI, 2012, p.36), já que
era conveniente ter alguém que desse notícias de terras disponíveis na região.
“[F]oi justamente a partir de 1810 que os pedidos de sesmarias nos Sertões de
48
Araraquara se intensificaram, a maioria efetuada por moradores das Vilas de
Itu e Piracicaba” (CORRÊA apud FOLLIS e TRUZZI, 2012, p.34). Sendo
assim, Pedro José Netto também não poderia ter realizado o trabalho de divi-
são das terras como consta na história oral, já que não era proprietário ainda.
A seguir apresenta-se outro mapa do município com suas primeiras
subdivisões de terras:
Figura 3: Mapa da região de Araraquara e suas subdivisões distritais
Fonte: ALMEIDA, Nelson Martins de (org.). Álbum de Araraquara – 1948. 1.ed.
Araraquara: s/e, 1948, p. 35.
França (1915, p. XIII-XIV) registra que, com essa distribuição de pro-
priedades (segundo ele, feita por Pedro José Netto) e com seus novos donos
requerendo cartas de sesmarias, foi nomeado um juiz de medições para divi-
dir adequadamente as terras, em 1812: o Sargento-Mor José Joaquim Corrêa
da Rocha, natural de Porto Feliz (região que também fazia parte dos Sertões
de Araraquara), avô de Pio Lourenço Corrêa, que, aliás, comprou a Sesmaria
do Lageado. A povoação que deu início ao que hoje é a cidade de Araraquara
teria se formado a partir da Sesmaria do Ouro, que abarcava quase toda a
região ao redor do Ribeirão do Ouro.
49
Em 1915, Pio Lourenço Correa participou da elaboração do Álbum de
Araraquara – 1915 (FRANÇA, 1915). Livro em homenagem à cidade, orga-
nizado por Antonio M. França e editado por João Silveira, sob os “auspícios
da Câmara Municipal. Muitos textos informativos estão sem o nome dos au-
tores, mas segundo Antonio Candido (em entrevista à pesquisadora), a maior
parte da redação foi feita por Pio Lourenço Corrêa. A compra da Sesmaria
pelo avô de Pio está relatada no Álbum de Araraquara de 1915 (FRANÇA,
1915), e à página XIV, lê-se:
[s]egundo a tradição oral, e pelo que encontramos escripto, e ouvimos
pessoalmente confirmado pelo Snr. Capitão Antonio Lourenço Corrêa,
que ouviu de seu Pae Commendador Joaquim Lourenço Corrêa, que para
aqui mudou-se em 1840, e este de seu avô Sargento-Mór José Joaquim
Corrêa da Rocha, que aqui esteve em 1812, como juiz das medições, e
comprou a sesmaria do Lageado, sabe-se, como já dissemos, que Pedro
José Netto, fugindo ás justiças de Itú, veiu ter á pequena matta existente
em S. Carlos, junto aos campos do “Pinhal”, e ele contava que parou ali,
receoso, porque os sertanistas temiam perder-se nas mattas intermináveis
e sem caminho algum. [Mantida a grafia original do texto.]
Nessa obra comemorativa do aniversário da cidade, ouve-se a voz de
Pio referindo-se aos homens de sua família e afirmando que essa história da
origem da cidade foi transmitida de pai para filho oralmente. Follis e Truzzi
(2012), por sua vez, registram informações documentais, registros oficiais,
sobre a posse das terras da família de Pio, portanto mais abalizadas.
Com a vinda da Corte Portuguesa ao Brasil, em 1808, D. João VI
havia tomado ciência do processo desorganizado de distribuição de terras e,
tentando promover o desenvolvimento agrícola da colônia, solicitou um le-
vantamento de dados cadastrais das terras rurais. “Tal medida deu origem ao
chamado Inventário de Bens Rústicos, coligido entre 1817 e 1818” (FOLLIS
e TRUZZI, 2012, p. 9). Em 1822, o sistema de sesmarias foi abolido, mas
o processo informal de posse de terras continuou à revelia do controle do
Estado. Em 1850, foi elaborada a Lei de Terras, uma tentativa governamental
de retomar o controle, determinando que “as terras, uma vez identificadas e
mapeadas, só poderiam ser alienadas por venda, ficando proibido o apossa-
mento de terras públicas” (FOLLIS e TRUZZI, 2012, p. 9). Para agilizar o
50
processo de registro e controle de terras, também a partir de 1850, as igrejas
municipais, como eram locais estratégicos e acessíveis à população, passaram
a realizar o Registro Paroquial de Terras, bastando a declaração dos proprie-
tários e/ou possuidores de terras, sem a necessidade de “documentação com-
probatória” (FOLLIS e TRUZZI, 2012, p. 9).
Quanto às terras da família Corrêa, encontra-se nos Registros de pro-
priedades do município de Araraquara (1855-1858), redigido por Joaquim
Cypriano de Camargo (apud (FOLLIS e TRUZZI, 2012, p. 79-80), o regis-
tro de número 90, com o seguinte texto (mantida a ortografia original):
Aos vinte e sete dias do mez de Novembro de mil oitocentos cincoenta e
cinco nesta Villa de São Bento de Araraquara por Joaquim Lourenço Correa
me foi apresentado hum titulo de terras para ser registrado o qual he do
theor seguinte. Eu abaixo assignado sou Senhor e possuidor das terras se-
guintes nesta Freguezia. Huma Sismaria com duas legoas de testada, e legoa
e meia de Sertão, com a denominação de Lageado = comprada a meo Pai
Jose Joaquim Correa da Rocha a quinze anos, divisando com as seguintes
Sismarias; para o Norte com a Sismaria de Antonio Vaz, ao Este com a de
Dona Brites Maria Gavião, ao Sul com a do Laranjal, e ao Leste com as
do Ouro, e Cruzes: assim mais hum citio denominado São Lourenço = na
Sismaria do Laranjal, dividindo ao norte com a Sismaria do Laranjal, digo
do Lageado, a Leste com Francisco de Paula Correa, ao Sul com Antonio
Ribeiro, e outros, ao Leste com Antonio Garcia, Francisco Lopes Ferraz, e
outros compradas a Antonio Manoel de Siqueira e a Fabiano Ferraz; assim
mais duas partes compradas a Manoel Joaquim da Silveira e José Florencio
de Marins, na Sismaria do Ouro, no Ribeirão das Cruzes, pró-indivizas.
Araraquara vinte e sete de Novembro e mil oitocentos cincoenta e cinco.
Joaquim Lourenço Corrêa. Joaquim Cypriano de Camargo. (sic).
Assim, observa-se pelo documento que o pai de Pio, Joaquim Lourenço
Corrêa (1811-1887), comprou as terras do próprio pai, avô de Pio, José
Joaquim Corrêa da Rocha, dando continuidade à atividade rural da família
na região. Quanto ao fato de o avô do pesquisado ser juiz de medições, pare-
ce tratar-se de informação equivocada ou talvez tenha sido uma versão mais
elegante da ocupação do antepassado divulgada entre os familiares, apesar do
registro de próprio punho de Pio Lourenço Corrêa, em sua Ficha de estudo
numerada como 503, intitulada Ortografia e nomes de família:
51
[...] Sou dos Corrêas do tempo que o i que não tinha sido chamado ain-
da a adoçar o hiato êa. Se eu agora metesse ali a doçura do i, o meu
nome, assim açucarado, já não seria o mesmo do Sargento-mor que viveu
em Araritaguaba, ou em Itu, ou não sei onde mais, depois de ter medi-
do, como juiz de medições, as sesmarias de Araraquara. Aquele famoso
Sargento-mor, que se recusou a casar com minha avó Maria Pereira depois
de ter tido dela um filho (que reconheceu, e veio a ser meu Pai) – mas o
famoso barão-feudal nunca escreveu senão Corrêa (José Joaquim Corrêa
da Rocha), meu Pai herdou dele o nome sem i e com acento gráfico, e eu
não saio daí [...].
Figura 4: Ficha de estudo n. 503 - Ortografia dos nomes próprios e de família (frente e verso).
Fonte: CPLC - Sala Pio & Mário - Biblioteca Pública Municipal Mário de Andrade -
Araraquara/SP. Foto tirada pela pesquisadora em janeiro de 2022.
52
É preciso levar em conta que os títulos de patentes militares, como
consta no registro anterior, muito comuns à época, como sargento-mor, ca-
pitão etc., muitas vezes eram usados para tratamento respeitoso a autoridades
ou a proprietários de terras e não necessariamente porque tais pessoas exer-
ciam cargos que os justificassem. Pio refere-se ao avô como “sargento-mor”
e “juiz de medições”, em sentido denotativo, mantendo a tradição oral da
família e valorizando o antepassado, porém usa a expressão “famoso barão-
-feudal”, em sentido figurado e um tanto depreciativo, quando relembra que
ele se recusou a casar-se com a avó, Maria Pereira, mesmo já tendo um filho
reconhecido com ela (que viria a ser o pai de Pio). No registro citado, perce-
be-se o caráter dúbio da figura do antepassado.
Quanto à posse de terras na região de Araraquara, Follis e Truzzi (2012,
p. 27-28) apresentam uma tabela com o “Resumo das informações constantes
dos registros de terras de 1817-1818 – Inventário de Bens Rústicos (bairro de
Araraquara primeira Fazenda)”. O registro n. 274 revela um terreno de proprie-
dade do Capitão-mor Joze Joaquim da Rocha, residente na Vila de Porto Feliz,
em sociedade com o Capitão-mor Domingos Soares de Barros, residente na
Freguesia, terra ainda sem denominação, com o tamanho de três léguas, obtida
por carta de sesmaria e possuidores de um plantel de três escravos.
Desta vez, com o epíteto de “capitão-mor” (e não de sargento),
Domingos esteve envolvido em uma disputa de terras, relatada na obra de
Follis e Truzzi (2012, p. 37), parafraseada a seguir: em 1818, dois irmãos
posseiros, Inácio Gonçalves Lima e Francisco José de Lima, solicitaram carta
de sesmaria para uma gleba na qual já estavam instalados com moradia, plan-
tações e criação de gado. O Capitão Domingos Soares de Barros, cujas terras
faziam fronteira com a gleba, também tinha interesse nela para aumentar sua
propriedade, mas como já havia sido contemplado com carta de sesmaria, fez
a solicitação em nome de seu sócio, o Capitão José Joaquim Corrêa da Rocha,
alegando que este tinha posses e condições de manter e desenvolver a pro-
priedade, enquanto os irmãos, primeiros solicitantes, não tinham as mínimas
condições para manter o local, condição exigida na Lei do Sesmarialismo.
A empreitada do capitão Barros, em acordo com o Capitão Corrêa
da Rocha, não teve sucesso e os irmãos Limas ganharam a causa e a carta de
sesmaria, pois “[c]ontribuiu para tal decisão a descoberta e denúncia de que
53
o Capitão Rocha atuava como testa de ferro do capitão Barros” (FOLLIS
e TRUZZI, 2012, p. 37). Segundo os autores, o fato representa uma ex-
ceção na disputa de terras na região, pois não era comum posseiros pobres
ganharem a causa, normalmente a decisão era em favor dos mais abastados
(FOLLIS e TRUZZI, 2012, p. 38).
A figura do avô de Pio, desse modo, confirma-se bastante controversa:
há referências como sargento-mor e capitão-mor, mas também como “testa
de ferro”. Na história oral da família era tido como juiz de medições, mas
seu nome não consta desta forma nos documentos de registros de terras do
início da povoação de Araraquara, além de figurar como sócio do Capitão
Domingos Soares de Barros, podendo indicar que ambos não tinham posses
suficientes para comprar/conseguir terras individualmente ou que se associa-
ram para conseguir terras de forma mais rápida.
À página XVI (FRANÇA, 1915) encontra-se a informação de que o
Comendador Joaquim Lourenço Corrêa, em 1840, tornou-se proprietário
da Sesmaria do Lageado (informação bastante genérica) e mudou-se para o
local, participando do governo da região e sendo muito estimado. Constatou-
se que o pai de Pio, o Comendador Joaquim Lourenço Corrêa da Rocha
(1811-1887), comprou, em 1840, algumas terras do pai, (Sargento-mor,
Capitão-mor?) José Joaquim Corrêa da Rocha (?-?), compostas por uma parte
da Sesmaria do Lageado, uma parte da Sesmaria do Laranjal e mais uma parte
da Sesmaria do Ouro. O registro de posse se deu quinze anos depois, em 27
de novembro de 1855.
O Comendador casou-se em primeiras núpcias com Francisca Miquelina
Corrêa de Moraes (?-1873), com quem teve os seguintes filhos: 1- Maria Luiza
Corrêa da Rocha (1836-1919), 2- Francisca Corrêa da Rocha (1838-1887),
3- José Joaquim Corrêa da Rocha (1839-1907), 4- Luiza Corrêa de Moraes
(1840-1901), 5- Ana Corrêa da Rocha (1842-1879), 6- Joaquim Lourenço
Corrêa Filho (1843-1881), 7- Isabel Corrêa de Moraes (1844-1886), 8-
Tenente Pio Corrêa da Rocha (1845-1866, morto na Guerra do Paraguai), 9-
Branca Corrêa da Rocha (1847-1912), 10- Capitão Antonio Lourenço Corrêa
da Rocha (1848-1923, tutor de Pio), 11- Carlota Corrêa da Rocha (1851-
1938), 12- Cândido Lourenço Corrêa da Rocha (1852-1887, pai de Zulmira,
futura esposa de Pio) e 13-Hortênsia Corrêa de Moraes Rocha (1855-1858).
54
Encontramos também um registro que faz alusão ao pai de Pio, Joaquim
Lourenço Corrêa, e documenta não só as posses da família, como também
um costume da época, a instituição do dote matrimonial. O registro n. 252
(FOLLIS e TRUZZI, 2012, p. 112-113) está assim redigido:
Aos oito de Abril de mil oitocentos, e cincoenta, e seis, nesta Villa de
São bento de Araraquara por Francisco de Paula Corrêa e Silva me foi
apprezentado ûns títulos de terras do theor, e forma seguinte. O abaixo
assignado é possuidor de ûma sorte de terras na sismaria do Laranjal, dis-
tricto desta Villa, que houve, por dote: contendo quinhentas braças de
testada, e treis quartos de certão, divizando ao Leste, e Norte, com meu
sogro Joaquim Lourenço Corrêa. Ao Este com João de Marins Peixoto.
Em ao Sul com Antonio Ribeiro, e outros. Araraquara sete de Abril de mil
oitocentos, e cincoenta, e seis. Francisco de Paula Corrêa e Silva. Joaquim
Cypriano de Camargo. (Grifos da pesquisadora).
Nesse registro nota-se como a delimitação das terras era imprecisa,
como os terrenos eram formados por recortes de vários proprietários e pro-
priedades, bem como a possibilidade de apropriação de terras (pelos homens)
por meio do casamento, como dote ao noivo. Francisco de Paula Corrêa
e Silva, que apresenta os títulos das terras para o registro, era o marido de
Maria Luiza Corrêa da Rocha, a filha mais velha do Comendador, portanto
Francisco era genro de Joaquim Lourenço Corrêa e ganhou as terras como
dote pelo casamento.
O Comendador Joaquim Lourenço Corrêa, além de fazendeiro, foi
vereador na cidade em dois períodos: de 1841 a 1844, e de 1853 a 1856; e
Cândido Lourenço Corrêa da Rocha (1852-1887) foi presidente da Câmara
Municipal, de 1884 a 1886.
Em 1865, quando Brasil e Paraguai entraram em guerra, o Comendador
e depois Tenente Coronel, enviou dois filhos como voluntários para a bata-
lha: o Tenente Pio Corrêa da Rocha (1845-1866), que morreu em decorrên-
cia de ferimento na guerra; e Joaquim Lourenço Corrêa Filho (1843-1881),
seu primogênito (FRANÇA, 1915, p. XLIV – XLVI). A seguir, as fotos dos
filhos “voluntários da pátria”.
55
Figura 5: Tenente Pio Corrêa da Rocha (1845-1866, morto na Batalha de Curupaity), (foto s/a
e s/d); e Joaquim Lourenço Corrêa Filho (1843-1881), (foto s/a e s/d), irmãos consanguíneos de
Pio, enviados pelo pai como voluntários da pátria para a Guerra do Paraguai, em 1865, vestidos
com o uniforme da Guarda Nacional (COSTA, 2015, p. 150).
Fonte: Museu da Imagem e do Som Maestro José Tescari – Araraquara/SP.
O período em que o pai de Pio Lourenço Corrêa viveu foi marcado
pela expansão da cafeicultura na região. Segundo Fausto (1999, p. 200), por
volta de 1870, a cultura cafeeira expandiu-se pela região oeste do estado de
São Paulo, “abrangendo a área que vai de Campinas a Rio Claro, São Carlos,
Araraquara e Catanduva, região servida pela linha férrea da Companhia
Paulista; e a área de Campinas para Pirassununga, Casa Branca e Ribeirão
Preto, região servida pela Estrada de Ferro Mojiana”. Ainda segundo Fausto
(1999, p. 203): “[a] economia do Oeste Paulista deu origem a uma nova clas-
se que se costuma denominar burguesia do café”. Esse período corresponde,
justamente, à Belle Époque.
O processo de expansão das estradas de ferro foi lento. Segundo França
(1915, p. L), aqui a estrada de ferro em Araraquara, fator crucial para o
desenvolvimento da cidade, foi inaugurada em 18 de janeiro de 1885, por
concessão dada ao Conde do Pinhal, que organizou a Companhia Rio-Claro
de Estradas de Ferro. Desse empreendimento também participou a família
Corrêa. Para chegar até Araraquara e depois até Ribeirãozinho, hoje a cidade
de Taquaritinga, foi necessária a venda de ações para levantamento de fundos.
Entre os que colaboraram com a compra de ações estavam: o Comendador
Joaquim Lourenço Corrêa (pai de Pio), Antônio Lourenço Corrêa (irmão e
56
tutor de Pio), o coronel João de Almeida Leite Moraes (tio-avô de Mário de
Andrade). Inicialmente privada, depois foi incorporada à FEPASA – Ferrovia
Paulista S.A.
Tendo ficado viúvo, por volta de 1873, o Comendador Joaquim
Lourenço Corrêa da Rocha (1811-1887) casou-se em segundas núpcias, em
1874, com D. Rita Maria Pinto de Arruda (?-1888). No dia 12 de maio de
1875, na Vila de São Bento de Araraquara, nasceu Pio Lourenço Corrêa,
único filho do casal. O comendador era tio afim de Joaquim de Almeida
Leite Moraes (1834-1895), avô materno de Mário de Andrade (1893-1945),
o qual havia trabalhado em Araraquara como advogado e presidente da
Câmara Municipal. Esse laço familiar aproximará Pio Lourenço Corrêa de
Mário de Andrade.
Figura 6: Casa onde nasceu Pio Lourenço Corrêa, em Araraquara/SP (foto de 1930),
(ANDRADE & CORRÊA, 2009, p. 379).
Fonte: Acervo do Museu da Imagem e do Som de Araraquara/SP.
Em 1878, também em Araraquara, nasceu Zulmira de Moraes Rocha, se-
gunda filha do casal Cândido Lourenço Corrêa da Rocha (1851-1887), irmão de
Pio Lourenço Corrêa por parte de pai, e Isabel Maria do Carmo de Moraes Rocha
(1857-1942), tia materna de Mário de Andrade. Zulmira era, portanto, prima
em primeiro grau de Mário, sobrinha de Pio e tornou-se sua esposa.
Pio fez estudos primários em Araraquara. O nome da escola encontra-se
em uma carta que escreveu a Maria de Lourdes de Moraes Andrade [Camargo],
irmã de Mário de Andrade, em 30 de junho de 1935, enviando informações,
solicitadas por Mário, sobre um araraquarense chamado Eurico de Góis:
Aqui viveu dantes, lá pelo derradeiro quartel do século passado talvez, um
médico baiano de nome José dos Reis Araújo Góis. Era baixo, encorpado,
57
de cor muito clara se bem me recordo, embora não fosse louro, e tinha
um filho Eurico, menino vivo e peralta, que freqüentou comigo o colégio
Luso-Brasileiro, dirigido por um tio afim dele Eurico, o qual tio era por-
tuguês. (sic), (ANDRADE & CORRÊA, 2007, p. 267).
Ainda sobre o período escolar, Orôncio Vaz de Arruda Filho (1987, p.
226), sobrinho-neto de Pio, relata um episódio com Pio Lourenço Corrêa na
escola, quando da visita do Imperador D. Pedro II a Araraquara, em novem-
bro de 1886 (Pio tinha então 11 anos):
Para o menino Pio Lourenço Corrêa a memorável visita também acarre-
tou problema. Ao visitar uma escola, D. Pedro foi levado a uma sala de
aula para examinar os alunos, como era do seu vezo. Pio Lourenço foi um
dos escolhidos. A esmo ou para “honrar” o filho caçula do Comendador
Joaquim Lourenço Corrêa? De pé, eretíssimo, o menino ouviu a pergunta
do Monarca:
- Como se faz um cristão?
Embatucado diante de tanta imperial majestade, o menino nem balbu-
ciou. A resposta que sabia tão bem e que estava na ponta da língua, lá
ficou, grudada, dentro da boca lacrada pela mudez absoluta.
O desaponto foi geral e incomensurável.
Este fato não foi vovô que me contou. Foi o próprio tio Pio.
No ano de 1887, o Comendador Joaquim Lourenço Corrêa da Rocha
faleceu, quando Pio tinha então doze anos. Este ficou sob a tutela de seu
irmão mais velho, Antônio Lourenço Corrêa que - provavelmente, nessa so-
ciedade patriarcal, por ser o homem mais velho da família, tinha mais poder
sobre o menino do que a própria mãe - e decidiu enviá-lo como aluno interno
ao Seminário Diocesano de São Paulo, conforme Andrade & Corrêa (2009,
p.9). Ainda nesse mesmo ano, faleceu Cândido Lourenço Corrêa da Rocha,
outro irmão de Pio por parte de pai, e pai de Zulmira, deixando viúva Isabel
Maria do Carmo de Moraes Rocha, que voltou de Araraquara com os filhos
para morar na casa paterna de Joaquim de Almeida Leite Moraes (avô de
Mário de Andrade e padrinho de Pio), em São Paulo. As casas eram contíguas
e a convivência permanente. Assim, Pio estudou em São Paulo, morou na
casa do padrinho, acompanhou o nascimento de Mário de Andrade, sendo
contemporâneo dos sobrinhos.
58
Em 1888, foi promulgada a Lei Áurea que punha fim à escravidão no
Brasil, pelo menos do ponto de vista legal. Pio Lourenço Corrêa (à época,
com treze anos, morava e estudava em São Paulo). Bem mais tarde, em 1948,
registrou sua versão de como se deu a Abolição na cidade de Araraquara, em
ALMEIDA (1948, p. 27-28), o texto, cuja versão completa está na tese, do-
cumenta as impressões do próprio Pio sobre esse momento histórico de sua
cidade. Nos excertos, mantivemos a grafia original:
A ABOLIÇÃO EM ARARAQUARA
PIO LOURENÇO CORRÊA
A 13 de maio de 1888, chegou à Araraquara, uma notícia sensacional: A
Lei Áurea da abolição da escravatura no Brasil... Houve muito foguetório e
os festejos se prolongaram durante a noite toda, com bailes até a madrugada.
A liberdade do negro era já esperada com mais ou menos certeza por to-
dos os escravocratas e proprietários de escravos. Muitos, aqui mesmo em
Araraquara, já tinham por esse tempo, dado carta de alforria para os seus
escravos e estes, pouco a pouco, foram quebrando a disciplina férrea que
dominava nas senzalas, a ponto de se levantarem insubordinações violen-
tas e até sanguinolentas.
[...] Êsse ambiente – digamos de guerra social – em 1888 estava já alas-
trado por toda a zona rural do município, principalmente incentivado
por um certo Dr. Fonseca, baiano que foi enviado pelos abolicionistas de
São Paulo, para fazer propaganda de liberdade e até de violência, entre os
escravos de Araraquara.
Êste Dr. Fonseca, tinha muita amizade com o então Juiz de Direito aqui
na Comarca, em cuja casa ficou hospedado. [...]
II – Seguiu-se à Lei Áurea, o agudo da crise social. O negro, depois que
nóis fiquêmo tudo iguá”, não queira mais trabalhar! Pois, si era igual ao
ex-senhor!...
Bronco, mal aconselhado pelos demolidores do regime, não trabalhava.
Bebia e dançava. Os batuques eram coisa diária nos arrabaldes da cidade.
Assim, eram também os furtos de galinhas, de cabras, de gêneros alimen-
tícios. O homem branco reagiu irado: - a sóva de páu e rebenque nos
libertos, era igualmente diária. Ádemais, si eramos “tudo iguá”, porque
não havia o negro de ser admitido no seio das famílias? Porque não podia
casar-se com moça branca?
Essas, e outras “injustiças”, lhe parecia ao negro, colidia com a igualdade,
com a lei escrita. [...]
59
Aqui, em Araraquara, certo dia foi preso e trazido para a justiça, o negro
Guilherme, que iludindo a boa fé de u’a moça branca, levou-a para lugar
ermo, e aí, violentou-a bestialmente. Já então, se achava recolhido à ca-
deia pública, o negro Severino, ou Veríssimo, que esperava julgamento
por crime de estupro contra uma criança de três anos (“três anos... não é
engano”). Esta criança era preta e foi abandonada pelo monstro em estado
de coma, no lugar do delito.
Diante do novo atentado ao pudor, praticado com incrível violência con-
tra a moça branca, os araraquarenses em geral tomaram-se de indignação e
decidiram retribuir violência por violência. Organizaram-se em numeroso
grupo armado e, a 10 de Novembro de 1889, avançaram contra a cadeia,
intimando a guarnição (quatro ou cinco praças) a entregar o perigoso sá-
tiro. Diante da atitude dos assaltantes e do seu número, a guarnição nada
pôde fazer[...] levaram em triunfo os cadáveres para uma grande paineira
que havia na própria praça da cadeia, ataram-nos à ponta de uma corda
(um pelos pés, outro pelo pescoço), e os abandonaram pendentes de gros-
so galho da árvore, para amostra e exemplo do único tipo de justiça que
julgavam capaz de regenerar os degenerados daquela espécie.
A respeito dêste fato dos fastos araraquarenses, cabe informar que a Justiça
Pública processou e prendeu os responsáveis pela morte dos dois atrevidos
ex-escravos – mas, não conseguiu condená-los porque o Tribunal do Júri não
o permitiu. Como era belo naquele tempo, o respeito pela soberania do Júri!...
Os casos relatados pelo autor são ilustrativos para se ter uma ideia de
como foi o processo de integração (ou desintegração) social dos negros no
período após a Abolição, principalmente na visão dos brancos, na cidade de
Araraquara. O escritor buscou manter certo distanciamento emocional para
a análise dos fatos, mas a postura conservadora de Pio revelou-se nas excla-
mações e ironias empregadas em determinados momentos. Vale dizer, ainda,
que, conforme Candido (ANDRADE & CORRÊA, 2009, p. 11), sobre a
personalidade e as crenças do pesquisado:
[u]m de seus aspectos mais salientes era o extremado corte conservador:
concepção muito elitista da sociedade, senso de hierarquia, confiança no
que chamava a ‘filosofia natural’, ou seja, a teoria darwinista da vitória do
mais apto. Na conduta, o respeito pelos valores tradicionais [...]
Reforçando essa posição conservadora, Antonio Candido, em entrevista
60
concedida à pesquisadora, afirmou que Pio era favorável à monarquia como
forma de governo e era contra a abolição, pois acreditava que o negro ti-
nha melhores condições de vida quando escravizado do que quando liberto.
Talvez por isso Candido visse em Pio uma “cultura rústica”.
No ano de 1888, ocorreu o falecimento de D. Rita Maria Pinto de
Arruda Corrêa da Rocha, mãe de Pio. Este, com 12 para 13 anos, agora órfão,
ainda com o consentimento de seu irmão mais velho e tutor, a partir desse
momento único responsável por ele, continuou a morar na casa de Joaquim
de Almeida Leite Moraes por insistência deste, para preparar-se e cursar a
Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (instituição já de renome e, à
época, ainda independente, pois a Universidade de São Paulo, à qual pertence
hoje, só seria criada em 1934).
Conforme Gilda de Mello e Souza, em Corrêa & Andrade (2009, p.
17), sobre a formação escolar de PLC:
[s]abe-se pouco de sua formação intelectual, em São Paulo, mas temos
notícia de que a 10 de dezembro de 1889 – com quatorze anos – presta
exames de aritmética e francês no Curso Anexo da Faculdade de Direito,
sendo aprovado com os graus Simplesmente, na primeira e Plenamente,
na segunda. É sua intenção prosseguir os estudos na capital, talvez cursar
essa faculdade e ingressar na diplomacia.
Apesar da informação dada por Gilda de Mello e Souza sobre as men-
ções atribuídas a Pio, anotações deste apontam que ele teria sido aprova-
do com a menção “Plenamente” também na disciplina de Aritmética. Na
atual biblioteca de Pio, na folha de rosto do livro Explicador de Arithmetica
(CASTRO, 1885), encontram-se duas anotações. Na horizontal, no topo da
página, Pio escreveu: “Fui simplesmente aprovado em Arithmetica, no dia 10
de Dezembro de 1889. Pio Lourenço Corrêa”. Na vertical, do lado esquerdo
da página, escreveu: “Nota: a emenda supra (1889), foi feita antes da entrega
do folheto à oficina do encadernador. Por isso está certa!”.
61
Figura 7: Folha de rosto do livro de Eduardo de Sá Pereira de Castro: Explicador de Arithmetica.
7.ed. Rio de Janeiro: Livraria Nicolau Alves, 1885. Com anotações de PLC.
Fonte: CPLC – Sala Pio & Mário – Biblioteca Pública Municipal Mário de Andrade –
Araraquara/SP. Foto tirada pela pesquisadora em janeiro de 2022.
No livro Éléments de Géométrie (F.J.J., 1885, página de guarda, ante-
rior à folha de rosto) há uma anotação manuscrita, em tinta preta, com os se-
guintes dizeres: “Pio Lourenço Corrêa / 11 de novembro de 1890 / São Paulo
/ [assinatura abreviada de Pio] / Plenamente. / 22 de dezembro de 1890”. É
possível inferir que a primeira data (11/11/1890) indica a compra do livro;
e a segunda (22/12/1890), a aprovação na disciplina de Geometria do curso
preparatório para a Faculdade de Direito, com a menção “Plenamente”.
62
Figura 8: Folha de rosto do livro de F. J. J.: Éleménts de Géométrie. 5. ed. Paris: Poussielgue
Freres; Tours: Alfred Mames et Fils, 1885. Na folha de guarda (anterior à de rosto), anotações de
PLC sobre o resultado dos seus estudos.
Fonte: CPLC – Sala Pio & Mário – Biblioteca Pública Municipal Mário de Andrade –
Araraquara/SP. Foto tirada pela pesquisadora em janeiro de 2022.
Essas anotações são um exemplo de como, na sua coleção, seja nos li-
vros ou nas fichas de estudo, há pistas de sua formação intelectual, bem como
de sua biografia. A história dos livros e objetos dialoga com sua história de
63
vida e, se o registro no referido livro foi feito na mesma data indicada, revela
também que o hábito de anotar informações e comentários teria começado
já na adolescência.
Em 1890, Pio, ainda morando em São Paulo, conforme Gilda de Mello
e Souza (ANDRADE & CORRÊA, 2009, p. 17), revelava um comporta-
mento metódico, bastante responsável e com certa autonomia:
com quinze anos, PLC já é quase independente, responsável pela me-
sada, que vai apanhar em Santos, pontualmente, na casa comissária de
Francisco de Almeida Leite Moraes, irmão de seu padrinho, anotando
com bela caligrafia a despesa e a receita, no Livro de assentamentos, que o
padrinho lhe confia.
Em 1892, Pio então com 17 anos, realizou uma viagem à Argentina
acompanhando seu irmão e tutor, Antônio Lourenço Corrêa. Ficaram hos-
pedados em Buenos Aires, na Legação Brasileira, órgão semelhante a uma
Embaixada, chefiada por Joaquim Francisco de Assis Brasil (1857-1938).
Em 1893, no dia 9 de outubro, na casa da Rua Aurora, 320, em São
Paulo, nasceu Mário Raul de Moraes Andrade (quarto filho de Carlos Augusto
de Andrade e de D. Maria Luíza de Moraes Andrade), escritor modernista que
foi grande amigo do pesquisado. Em 1º de agosto de 1895, faleceu o patriarca
da família, Joaquim de Almeida Leite Moraes, avô de Mário e padrinho de Pio.
Carlos Augusto (pai de Mário) construiu um sobrado na esquina do Largo do
Paissandu, n. 26, para onde se mudou com a família, a sogra (Ana Francisca
de Almeida Leite Moraes) e a tia Nhanhã. Isabel Maria do Carmo de Moraes
Rocha, juntamente com os filhos, entre eles Zulmira, mudou-se para a casa ao
lado, à Rua Visconde do Rio Branco (Rua Major Sertório, segundo Gilda de
Mello e Souza, em ANDRADE & CORRÊA, 2009, p. 18).
Pio Lourenço, durante os oito anos em que viveu e estudou em São Paulo,
conviveu com todos eles. Acompanhou a infância de Mário, a família dele (ti-
nha grande admiração por Carlos Andrade, pai de Mário, segundo Antonio
Candido), e conviveu também com Zulmira, sua sobrinha e futura esposa.
Em 1895, após a morte do padrinho, Joaquim de Almeida Leite
Moraes, Pio Lourenço Corrêa, então com 20 anos, foi chamado pelo irmão
tutor a voltar para o interior, pois havia problemas financeiros e ele precisava
64
começar a trabalhar para seu sustento (assim justificou o tutor). Ele obedeceu
e voltou à cidade natal sem bacharelar-se em Direito como pretendia, no
entanto, a convivência com o padrinho intelectual, professor da Faculdade
de Direito do Largo de São Francisco; com Carlos Andrade, pai de Mário,
também ligado à cultura e à produção de livros e jornais; o estímulo aos
estudos, entre tantas coisas que deve ter experienciado, talvez aí se possa ter
a gênese do interesse de Pio pelos estudos constantes, o autodidatismo e até
o polimatismo. Um período importante de sua formação foi vivido em São
Paulo, com essas pessoas e nesse ambiente. Ao voltar para o interior, para a
vida rural, o interesse pelas questões intelectuais talvez já estivesse impregna-
do em sua personalidade.
De volta a Araraquara, Pio foi morar com seu irmão-tutor, num quarto
que guardava certa independência do restante da casa. Em carta ao amigo e escri-
tor Mário de Andrade, de 3 de fevereiro de 1942, o pesquisado relatou um “caso
de sua juventude que revela um pouco como era sua vida nesse tempo em que
retornou a Araraquara e ainda estava solteiro, bem como descreve seu relaciona-
mento com o irmão mais velho (ANDRADE & CORRÊA, 2009, p.374-376):
Garapa... azeda
Nos fins do século passado eu era negociante de fazendas, ferragens, ar-
marinho etc., na cidade de Ararina [Araraquara]. O mísero comerciante
nesse tempo era escravo do trabalho: nas casas comerciais o expediente ia
das 7 da manhã às 9 da noite nos dias úteis, e nos próprios domingos e
feriados, em que geralmente havia mais intenso movimento de negócios,
não se fechavam as portas antes das 3 horas da tarde.
O esporte da rapaziada dourada de Ararina[Araraquara] era então a equi-
tação. Eu, e os outros moços-bonitos do meu grupo, tínhamos cavalos
de cocheira tratados a alfafa argentina, milho, fubá e sobretudo muitas
escovas, água e sabão manejados por tritanários escolhidos entre os mais
requintados profissionais especializados. Eram ginetes caprichosamente
amestrados no freio por hábeis acertadores; e sempre gordos, fogosos e
luzidios, nos faziam ímpar de vaidade e soberbia. Eu era solteiro, um pou-
co-bastante dado a noitadas de prazer, e vivia em casa de um irmão mais
velho, fazendeiro de café e considerado uma das melhores mãos de rédea
das redondezas. O meu quarto, melhor, os meus aposentos, que eram três,
ficavam no andar térreo do edifício assobradado, ocupando os donos da
casa todo o vasto casarão acima de um lance de doze ou quinze degraus,
65
que partia, do acanhado pórtico adjacente à porta da rua. Para esse pórtico
ou saguão abria-se a entrada para os meus cômodos que assim dependiam
da porta-da-rua, de que eu tinha e trazia sempre comigo uma chave.
O meu irmão, já passado dos trinta e cinco anos, era homem de costumes
muito severos, fisionomia rija e taciturna, poucas palavras e raros sorrisos.
Eu tinha por ele um respeito quase supersticioso.
Mas minha cunhada, mais nova, muito viva e inteligente, era de natural
inteiramente oposto. Estava sempre alegre e comunicativa, gostava de ou-
vir e de referir-se a anedotas de sal e pimenta, que valorizava por comen-
tários ou jogos fisionômicos habilmente expressivos.
Fazia troça da minha vida meio dupla de rapaz elegante. Preparava-me,
sempre que podia, ciladas e esparrelas realmente cômicas, em que eu quase
sempre caía. A seguir, perante o marido sisudo que eu temia, ou outros
circunstantes de respeito, atirava-me indiretas com tal disfarce da malícia,
que só nós dois entendíamos. Ou então, sem nada dizer mas nos mo-
mentos mais oportunos, (ou inoportunos...), imprimia no semblante um
vislumbre enigmático de sorriso, que me esfriava e os demais nem viam.
Nesses momentos, passado o susto, eu me lembrava de uma gravura da
Gioconda que ornava a minha saleta. Apesar das derrotas que eu sofria,
éramos muito camaradas, porque ela fazia esquecer ante a real amizade e
muita estima que me tributava.
Certa vez, no livre exercício da minha vida íntimo-externa, depois de al-
gumas horas de acalorada reconciliação, libados iterativos cálices de doce
“licor beneditino”, caí insensivelmente, já alta madrugada, num sono
abençoado e suave como deve ser o dos anjos do paraíso – e perdi a hora
habitual e entrada para casa.
Havia já os primeiros albores da aurora quando meti a chave na porta da
rua abri-a cuidadosamente, como se fora um ladrão temeroso de surpresas.
Foi inútil o cuidado: minha esperta cunhada, pressentindo-me retardatário,
ali estava no alto da escada, empunhando um espanador sob pretexto de
auxiliar a limpeza dos portais. Saudou-me risonha, e perguntou de chofre:
– De onde vem então a esta hora matinal?
Era tempo de moagem. Nos engenhos de bangüê as moendas entravam
em funcionamento às 3 horas da madrugada. Eu e outros rapazes íamos às
vezes, a cavalo, tomar garapa essa hora num engenho próximo, a tempo de
voltar às 7 para o trabalho. Minha cunhada sabia disto, porque eu, uma vez
ou outra, quando a garapa estava especialmente boa, lhe trazia uma pouca,
que ela apreciava. Nos apuros da pergunta insidiosa, socorri-me do fato:
– Venho da fazenda de F., aonde fui de madrugada tomar garapa.
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– Anh! (exclamou em franca risada, que não pôde conter ante o improviso
firme da defesa).
– E gostou da... garapa? Estava boa?
– Estava... azeda – redargüi ao extremo, e enfiei pela porta da minha sala, a
curtir a vergonha da derrota, enquanto ela continuava a rir gostosamente,
esquecida do espanador e dos portais.
Informação extra:
No jantar creio que do dia imediato, éramos só os três à mesa.
A certa altura, como reinasse um silêncio meio longo, a cunhada, ali às
barbas do marido, perguntou-me:
– Você amanhã de madrugada vai tomar garapa na fazenda?
Fiquei roxo...
– Não pretendia ir; mas se Vmcê quiser que lha vá buscar...
– Eu não; mas como a de ontem estava azeda, pensei que você voltasse
logo... Em todo caso, quando for me traga uma garrafa.
Fiquei aliviado, e ela continuou muito séria.
O velho não interrompeu sequer os movimentos do queixo... (Mantida a
ortografia original.)
Nessa narrativa, o irmão retratado é o Capitão Antônio Lourenço
Corrêa e a cunhada, Florisbela de Lacerda Corrêa (?-?). Pio refere-se a ele
com “um respeito quase supersticioso”: que tinha cerca de 35 anos; uma das
melhores mãos de rédea das redondezas; homem de costumes muito severos,
fisionomia rija e taciturna, poucas palavras e raros sorrisos; o marido sisu-
do de Florisbela que “eu temia”; velho. Em se tratando de irmãos, a relação
mostra-se difícil, uma vez que o mais velho é uma autoridade temida. Pio o
enxergava como idoso, apesar de ele ter por volta de trinta e cinco anos.
Quando voltou a Araraquara, primeiramente Pio dedicou-se ao comér-
cio, mas acabou por estabelecer-se como fazendeiro. Tornou-se proprietário
da Fazenda São Francisco, segundo Renato Rocha (em entrevista à pesqui-
sadora), quando encerrou uma Casa Comissária que teve em Santos/SP, ca-
bendo-lhe então o imóvel. Provavelmente nessa época (entre 1895, ano
de retorno a Araraquara, e 1898, ano do casamento com Zulmira) é que teve
um relacionamento marcante em sua vida. Tratava-se de Marcolina - mais
conhecida por Joia entre os rapazes da cidade - afrodescendente de olhos ver-
des, que ele conhecera num prostíbulo. Montou-lhe casa e a sustentava, mas
não pretendia casar-se com ela. Quando firmou o casamento com Zulmira,
67
sua sobrinha, tendo combinado tudo com a mãe dela que também era a
cunhada dele, Isabel, encerrou o relacionamento, indenizando a amante, que
se mudou para a cidade vizinha, São Carlos. Marcolina/Joia, entretanto, que
gostava muito do rapaz, guardou uma fotografia dele e encomendou a um de-
senhista uma ampliação do retrato a crayon, a qual emoldurou, pendurando-a
no quarto que ocupava em um bordel.
Passados alguns anos (familiares não puderam precisar quanto), um
amigo do fazendeiro viu o quadro no quarto de Marcolina e comunicou a ele
o fato, deixando-o indignando pela situação. O fazendeiro foi a São Carlos,
com a concordância de Zulmira, procurou Joia, obrigando-a a tirar o retrato
da parede. Ela o fez, mas o objeto não foi entregue na hora, não se sabe bem
por qual motivo. Dias depois, Pio recebeu a encomenda em sua casa, emba-
lada em uma caixa, enviada por ela.
Esse fato merece destaque porque, anos mais tarde, quando Pio rela-
tou o caso a Mário de Andrade, este propôs que transformassem o episódio
em um conto escrito a quatro mãos. O conto seria intitulado “Marcolina”,
segundo Pio, ou “O retrato”, segundo Mário. Este destacaria aspectos da so-
ciedade da época, os preconceitos, as dificuldades de um relacionamento en-
tre pessoas de classes sociais diferentes, tencionava ilustrar o comportamento
da oligarquia cafeeira, o coronelismo etc. Pio começou a escrever a história
tentando relembrar a verdade dos acontecimentos e, para isso, criou o pseu-
dônimo de Grain D’Orge. Várias cartas foram trocadas entre 3 de janeiro de
1942 e 1 janeiro de 1943, discutindo questões da narrativa até o momento
em que Pio informa a Mário: “A chaminé do meu fogão é poderosa, sugou
avidamente as cinzas – e o vento abençoado que soprava de sudoeste levou-as
consigo para o infinito” (ANDRADE & CORRÊA, 2007, p.20). A emprei-
tada não se concretizou. Pio queimou os seus manuscritos e desistiu da his-
tória. Em 3 de janeiro de 1942, Mário enviou uma carta a Pio analisando a
aventura literária, documento que aqui se apresenta na íntegra (ANDRADE
& CORRÊA, 2009, p. 359-361):
Tio Pio
Aqui estou enfim pra lhe responder às inquietações sobre o conto de
Grain d’Orge e, franqueza, não sei o que faça. Decidi o seguinte depois
de bem pensados prós e contras: lhe enviar o conto por estar incompleto.
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Talvez o Sr. o complete um dia, no que insisto acaloradamente, e então
serei eu a pedi-lo de volta ou mesmo a surrupiá-lo se possível, vencendo
a delicadeza de sua discrição. Compreendo a delicadeza e compreendo
a discrição. Elas porém não me resolveriam a lhe mandar os originais se
não fosse o estarem incompletos. Com exceção do nome Grain d’Orge
que é dessas coisas antiquadas, o conto ia bem. Engraçado que, chegado
daí e refletindo com as minhas notas para o conto “O Retrato” (que tal
seria o nome do caso) entrei a lutar comigo sobre o problema não só da
delicadeza, mas da criação literária. Conhecendo o seu amor da verdade,
entrei a ter escrúpulos sobre o meu... amor à mentira. E isso, agora que
li o seu semiconto, se tornou quase irredutível. Por certo que se eu escre-
vesse “O Retrato” e o Sr. o lesse, havia de ficar muito, como direi? muito
estomagado com a sem-cerimônia com que eu deformaria em principal
os caracteres dos personagens. É que eu estou livre das memórias... do
Senhor, e criaria por isto livremente. O que me interessa no caso não
são as verdades, mas aquilo em que as verdades locais e episódicas iam se
transformar, pra mim, num dado de universalidade. E pra isso eu defor-
mava tudo, em proveito da “nova síntese” que é a arte. Quer ver o caso
mais típico? Grain d’Orge deu ao seu conto o nome de “Marcolina”, por-
que o que lhe interessa e prende as memórias é o tipo de mulher. Ora o
que ia me interessar era muito mais o homem naquilo em que ele é menos
um tipo, do que representativo de uma dada mentalidade brasileira numa
dada época psico-social do Brasil. Isto é, eu deformaria o homem pra
transportá-lo de tipo a protótipo. E o tipo da Marcolina só viria funcionar
em relação a esse protótipo, botando-o em luz. O que me interessou foi
retratar aquela noção ríspida, um bocado estreita mas elevada e de forte
defesa social, com que ali pela caudinha do século passado, o homem se
conservava numa noção tamanha de honradez, de dignidade, de respeito
aos seus compromissos quaisquer (no caso, matrimoniais), a ponto de fa-
zer os maiores sacrifícios de sensibilidade e lembranças gratas, pra impedir
que uma mulher livre guardasse “exposto” um retrato dele. Essa a con-
cepção, em favor da qual, está claro, eu não hesitaria em exagerar os dois
tipos, tornando aliás o homem bastante mau e antipático, favorecendo a
mulher na luz roxa de bastante infeliz. Enfim um fenômeno irritante de
patriarcado, de que a meiguice do caso real apenas serviria pra ponto de
partida. E ainda a deliciosa anedota final, a conservação do retrato pelo
casal de negros, servilmente adoradores do “senhor moço”, ainda viria
mais a pôr em relevo a antipatia escravocrata do branco. Ao chegar a este
ponto da minha concepção, desisti. Não podia renegá-la, pois que, como
69
é da fatalidade do fenômeno da criação artística, ela era fatal, independia
de mim: era a verdade da arte, ou a mentira da vida. Mas podia ferir um
amigo que, está claro, não considero absolutamente o personagem que
eu criara, em síntese nova e crítica da vida, partindo apenas de um fato.
Muito mais de um fato, de um caso, que de uma realidade psicológica.
Mas é que o fato, iluminado de um certo ponto e por uma certa luz, servia
pra expor toda uma transcendência. Como no caso do Jacinto = Eduardo
Prado e mil milhares de outros. Mas, no meu caso particular, interveio a
estima e o respeito que tenho pelo Senhor, e o desgosto que me causava
deformar a sua verdade pessoal. Mesmo em proveito da arte. O que, no
caso, seria um egoísmo da minha parte. Desisti. Tenho posto muita gente
nos meus livros. Aliás não tenho nenhum personagem que seja criado, se
não ex nihil, o que é impossível, mas pelo menos tirado inteiramente de
mim. Mas no geral não tenho “chaves”, e nunca um meu personagem é
decalcado de um indivíduo só. No geral são “somas”, eu ajuntando sem-
pre a um tipo, caracteres, cacoetes etc. tirados de outros indivíduos ob-
servados e também muito da observação de mim mesmo. Mas detesto as
memórias” em obra de ficção. Se lembre daquele passo do Amar, verbo
intransitivo em que Carlos entra pela primeira vez no quarto de Fräulein.
Não me lembro do meu texto e estou com preguiça de ir buscar o livro.
Mas sei que evitando a descrição da cena, pergunto “negarei ter tentado a
descrição?” e confesso que a partir de coisa alguma, tentei mesmo, porém
que “me perseguiam as memórias” e por isso fiquei tão preso que desisti.
Bom, paro aqui. Recebi o Rugendas. Mas que besteira minha, se não lhe
disse que era isso mesmo! Não me lembrei absolutamente de especificar
qual o exemplar que queria. Mas está claro que é isso mesmo, como o Sr.
decidiu. Aliás, seja dito para dignidade do meu amor aos livros: nem eu
poderia esperar outra coisa de um bibliófilo. Está certíssimo. O que está
me deixando um pouco alarmado é o presente para a sua impressionante
afilhada. O caso é positivamente grave, dadas a posição padrinho do Sr.,
a sua fama de rico, culpa sua, derivada em especial da largueza e genero-
sidade dos seus gestos, e ainda a posição da afilhada. Mas como não urge
o tempo, continuarei turistando pelas casas adequadas até encontrar coisa
que me pareça digna do padrinho, da minha escolha e da nossa impressio-
nantíssima afilhada. Creio que, no caso, estou sendo também um bocado
vítima das... memórias! arre!
Bem, aqui lhe mando e a Zulmira, com o abraço amigo, a esperança tênue
de um bom 1942 para todos nós
Mário
70
Esta carta é emblemática pela visão de Mário em relação ao “tio”. O
modernista, com muito cuidado, analisou a personalidade de Pio, bem como
demonstrou a visão crítica que tinha em relação a ele e ao caso amoroso que
haviam tentado retratar. Com sutileza, apesar de afirmar que estaria exageran-
do na caraterização da personagem, “deformando o homem para transformá-
-lo em protótipo”, o modernista reconheceu que o parceiro literário poderia
ficar muito “estomagado”, magoado, com os aspectos que ele (Mário) desta-
caria: “mentalidade brasileira com noção ríspida e estreita da defesa social”,
o fenômeno irritante do patriarcado”, “a antipatia escravocrata do branco” e
ainda colocou seu principal conflito em relação ao caso: manter “a verdade da
arte ou a mentira da vida”? Decidiu, então, preservar a amizade e reafirmou
seu respeito e carinho pelo interlocutor.
Nessa carta, ainda, Mário empregou algumas expressões que reiteram o
que se apresenta nesta pesquisa sobre a figura de Pio: um pouco antiquado (o
que se revela pelo pseudônimo Grain d’Orge), um bibliófilo (que se revela no
comentário sobre um livro de Rugendas), abastado (que se revela na observa-
ção sobre a missão dada a Mário de procurar, em São Paulo, um presente para
uma afilhada, que estivesse à altura dessa imagem e causasse boa impressão
em Araraquara). Uma mensagem respeitosa, mas reveladora e que já prenun-
cia o que Mário fará no conto “O poço”, desta vez, baseando a personagem
Joaquim Prestes na figura de Pio e “exagerando” nas características negativas,
assunto de que trataremos mais adiante.
O abandono do projeto e a queima dos rascunhos de uma história pes-
soal um tanto comprometedora, ainda que escrita sob pseudônimo, parecem
indícios da preocupação de Pio em manter uma imagem austera. Mário guar-
dou seus rascunhos, hoje comprovantes da empreitada: o encontro entre o
ficcionista de vanguarda Mário de Andrade, que foi capaz de transpor para o
domínio literário suas experiências pessoais em contos como “Peru de Natal
(ANDRADE, 1978, p. 95-104), por exemplo (em que se encontra a figura
do pai morto emblematizada no jantar a um só tempo sagrado e profano),
e o estudioso, mais racional, rígido e intelectual Pio Lourenço Corrêa, para
quem as tradições familiares ou juízos de valor de pessoas próximas pesavam
mais do que as viagens literárias.
71
Figura 9: Fragmento do conto “O retrato”, redigido por MA.
Fonte: Acervo Mário de Andrade - AMA, Instituto de Estudos Brasileiros - IEB, Universidade de
São Paulo – USP. Fotocópia tirada em 2005.
Algumas circunstâncias (supomos) foram responsáveis por construir
essa personalidade ao mesmo tempo paternal e rigorosa. Uma delas ocorreu
em Araraquara, no final do século XIX, que assim como muitas outras cida-
des, foi assolada pela febre amarela. Pio acompanhou seu irmão e tutor em
iniciativas de administrar e controlar a situação, haja vista que muitos fazen-
deiros e administradores refugiaram-se em suas fazendas ou abandonaram a
região com medo da doença. Pio relatou essa experiência em texto publicado
no Álbum de Araraquara de 1948 (ALMEIDA, 1948, p. 39-40). É relevante
transcrever alguns trechos mais significativos do texto para dar voz ao nosso
pesquisado, bem como para compreender sua visão do mundo. No texto,
optamos por manter a ortografia original:
72
Em 1889 a febre amarela, desmentindo o prolóquio paulista “febre ama-
rela não sobe a serra”, apresentou-se em Campinas e determinou ali uma
das mais sérias e mortíferas epidemias conhecidas no Brasil. E alastrou-se
naquêle mesmo ano e nos subsequentes, em epidemia de maior ou menor
virulência, por tôdas as demais cidades do planalto. Em 1895 chegou a vez
de Araraquara. Aqui, no lapso de três anos, não só atacou a quasi totalidade
da população urbana, ocasionando alarmante letalidade, como chegou a
desorganizar o arcaboiço político, social e administrativo da cidade e da
comarca. Dêsde 1890 ou 1891 eram já conhecidos aqui os casos de febre
importados, isto é, aparecidos em pessoas recém-chegadas de outras cidades
onde grassava o mal. Até que em princípios de 1895, começaram a aparecer
casos em pessoas que daqui não tinham saído, e nem tinham tido contato
próximo ou remoto com doentes importados[...] Os médicos, após muita
discussão e algumas permutas de socos, acalmaram as vaidades feridas, me-
diante uma espécie de acôrdo tácito na denominação de febre reinante para
a epidemia em franco período de invasão. E as autoridades continuavam a
esforçar-se no seu “dever” de evitar o alarma. [...] Desencadeou-se, afinal, o
alarma e o pânico, que as autoridades sanitárias e administrativas não pude-
ram mais evitar. Cada qual deu-se à maior pressa em sair da cidade. [...] O
Hotel Magalhães permaneceu aberto. Aí instalou-se a Comissão Sanitária e
seu escritório, a vasta provisão de desinfetantes e aparelhamento de combate
aos “miasmas deletérios”, e o pelotão de desinfetadores e fiscais sanitários. A
seguir, aconselhou – e conseguiu – o plantio de eucaliptos nas ruas e praças
da cidade, para... purificar os ares. [...]
Mas, o estado sanitário da cidade agravava-se de dia em dia. A pandemia
lavrava na cidade de ponta a ponta! E daí? Daí cal virgem. Muitas tone-
ladas foram importadas das caieiras de Rio Claro e espalhadas nas vias
públicas urbanas, nos quintais e hortas, nas fossas das latrinas [...] Mais
ou menos por aquelas semanas de pavor agudo e desorganização admi-
nistrativa, reapareceu na cidade a figura enérgica e prestigiosa de Antonio
Lourenço Corrêa que, com sua esposa, acabavam a longa convalescença
da febre amarela que os prostara. O bandeirante araraquarense reviveu
naqueles dias as virtudes da estirpe: contemplou o cenário melancólico
e as atividades desconexas dos heróis anônimos, e assumiu uma espécie
de comando militar da situação. Antes de tudo, procurou pôr-se de acor-
do com a Comissão Sanitária e com o comandante (um sargento, creio)
do destacamento policial. (Estava ausente o delegado de polícia). [...]
Antonio Lourenço requisitou lenha do seu amigo Cel. Germano Xavier
de Mendonça, fazendeiro em Américo, possuidor de abundantes recursos,
73
araraquarense de raça, chefe político e pessoa estimadíssima pelos seus
belos dotes de coração e de caráter. A requisição foi fidalga e prontamente
atendida. [...] Foi assim que Araraquara, coberta de eucaliptos e de cal, e
privada das antigas privadas, do cemitério de São Bento e dos poços, viu
afinal, em 1897, o último caso de febre amarela afundir-se no cemitério
dos contagiados da charneca das Cruzes. É certo, todavia, que nem um
único Aedes aegypti (Stegomya fasciata) foi até então diretamente persegui-
do ou siquer suspeitado da parte direta que tomara nas dantescas angus-
tias do homem, seu vizinho e seu alimentador. [...]”.
Pio Lourenço Corrêa (Mota Coqueiro)
Pio relatou a circunstância histórica quase em formato literário, usando
muitas metáforas e muita ironia para destacar a falta de conhecimento sobre
a febre amarela pelas autoridades da época. Ele utiliza o recurso de conversar
com o leitor e adia bastante o desfecho da narrativa, reforçando o tempo gasto
em atitudes inúteis e a angústia da população da cidade. Aproveitou o texto
também para destacar a figura de seu irmão/tutor como um herói, um “ban-
deirante”, que tomou as rédeas da situação e reorganizou a cidade. Escoimado
o aspecto ficcional do texto, é possível conhecer minúcias da situação relatadas
pelo olhar afiado do autor, além de revelar seu conhecimento científico (mais
amadurecido no momento do relato) sobre a transmissão da febre amarela ser
feita pelo mosquito, fato desconhecido pelas autoridades sanitárias da época.
Outro evento que destacamos para compreender o processo de for-
mação de Pio ocorreu entre 6 e 7 de fevereiro de 1897. Foi uma situação
violenta na cidade, semelhante àquela do linchamento dos negros logo após
a abolição que já apresentamos, mas desta vez o evento esteve relacionado
a questões políticas: o “linchamento dos Britos”. Pio Lourenço, então com
vinte e dois anos, por acaso, acabou sendo testemunha do crime e teve de
prestar depoimento no julgamento público. Mais tarde, em 1945, redigiu um
texto detalhado relatando o que tinha visto e justificando seu depoimento.
Transcrevemos, então, trechos do relato, escrito de próprio punho pelo nosso
pesquisado e publicado por Telarolli (1997, p. 209-216):
Como é sabido de todos no Brasil, houve na noite de 6 para 7 de fevereiro de 1897,
na cidade de Araraquara, o crime conhecido por “linchamento dos Britos”. [...]
Em 1897 eu era ainda solteiro, e estava domiciliado em casa de meu irmão
74
e ex-tutor António Lourenço Corrêa, na esquina da rua 5 com a avenida
2, prédio onde está hoje a Delegacia Regional da Polícia. Os meus cômo-
dos eram nos baixos do edifício, à esquerda de quem entra. Na citada noi-
te, cêrca de meia noite e vinte minutos, fui despertado por meu irmão[...]
- Vá até o largo ver se vê alguma coisa ou se obtém qualquer informação.
O velho estava profundamente impressionado. Enfiei as calças, em que
mal cabíamos eu e o fraldão da camisola, sobrepus às pressas um sobre-
tudo que achei mais à mão, e saí rua abaixo. Não quis descer diretamen-
te pela avenida 2, muito exposta a possíveis tiros de enfiada partidos da
cadeia. [...] eu já estava meio contaminado do nervosismo do irmão. [...]
Atingi, pela avenida I, cosendo-me depois com a parede lateral da Igreja,
a frente desta. Eu vim, e estava ali entreparado, perscrutando na meia-es-
curidão do largo a possível presença de vítimas do tiroteio. Nada vi, além
de vultos humanos na porta e na frente da cadeia; dei mais alguns passos,
até a beira da calçada da Matriz. [...] Nisto, um brado, talvez da sentinela,
determinou brusco movimento daquelas sombras de homens que entra-
vam em forma... Sumi, num ápice, detrás do pilar da igreja, e cosido outra
vez com a parede, ganhei o caminho por onde tinha vindo – não fôsse
interpretação errónea da minha presença ali àquela hora custar-me a vida.
Não vi vivalma nas ruas nem nas janelas. [...] Em casa informei o irmão que
as coisas lá pela cadeia não estavam claras, que eu não voltaria a esclarecê-las.
António Lourenço deixou-me, e mergulhei de novo no silêncio, nos lençois
e no sono. [...] Afinal, que foi que se passara? O linchamento dos Britos! Na
manhã do dia 7 lá estavam no largo os dois cadáveres, tais como os deixara a
malta de assassinos. [...] Tudo, assalto, arrombamento e assassínio, foi obra
da confissão de alguns minutos apenas, tudo foi operado pela turbamulta
da capangada mais ou menos protegida por disfarces e máscaras, a qual se
retirou em fuga rápida e desordenada, disparando tiros a esmo, ululando
injúrias e torpezas, fustigando as montarias em desapoderosa corrida. [...]
Dez minutos, ou quiça menos ainda, após o primeiro brado da sentinela, o
silêncio habitual das noites da pequena cidade estava restabelecido, exceto
em frente da cadeia, onde soava de vez em quando uma voz de comando e
movia-se a sombra de pelotões de defesa tardia e inútil. [...]
Araraquara, março de 1945.
PIO LOURENÇO CORRÊA
Pio, ordenado pelo irmão tutor, expôs-se ao perigo da situação, mas
não conseguiu “ver” realmente a cena por conta da escuridão da noite. Foi
obrigado, no entanto, a testemunhar e/ou decidir o destino dos acusados, ou
75
seja, envolveu-se numa situação política de violência sem ter de fato, ao que
parece, “testemunhado o crime”. Mais uma vez a situação foi resolvida pela
força, a “justiça [foi feita] pelas próprias mãos”. Ação violenta, mas não inco-
mum em diversos episódios de nossa história. Ao final, os réus, representantes
da classe dominante de Araraquara foram absolvidos.
Em Doin et al (2007, p. 93), há uma referência ao episódio, em que os
autores destacam as contradições comuns à Belle Époquecaipira”. Pretendia-se
atingir a modernidade, sinônimo de civilização, mas as elites, as classes domi-
nantes das cidades, resolviam ainda muitas situações de forma arcaica, bárbara:
Membros dessa elite política do Brasil caipira também lançavam mão do
monopólio privado da violência. Contudo, vários são os casos impune-
mente contornados e capazes de mostrar o ocultamento da barbárie com
discursos e ações aparentemente civilizatórias. Entre eles destaca-se o fa-
moso crime político ocorrido em Araraquara, denominado Linchaquara e
que envolveu duas poderosas famílias locais. Para que a população esque-
cesse o trágico episódio e as respectivas famílias continuassem a dominar
o poder público municipal foi construída uma bela e ajardinada praça
pública, exatamente no largo onde a chacina foi consumada.
Depois disso, em 1898, Pio Lourenço Corrêa casou-se com a sobrinha
Zulmira de Moraes Rocha, casamento endogâmico, no dia 14 de dezembro,
na Igreja de Santa Efigênia, em São Paulo (ANDRADE & CORRÊA, 2009,
p. 10). O casal foi morar na Chácara da Sapucaia, em Araraquara, residência
mais distante da cidade, numa tentativa de se preservarem da epidemia de
febre amarela, exigência feita pela sogra, Isabel. Conforme Gilda de Mello e
Souza (ANDRADE & CORRÊA, 2009, p.18):
[o] primeiro decênio do casamento não é tranquilo para o jovem casal:
estudos interrompidos, acomodações de carreira, epidemias e crises políti-
cas, graves problemas familiares, tudo isso deixou marcas na sensibilidade
exacerbada de Pio Lourenço e foi provavelmente responsável pelos mal-
-estares que o vão acompanhar pela vida afora: ciática, dor de estômago,
depressões nervosas, temperamento progressivamente solitário.
A esposa, Zulmira, dois anos mais nova que Pio, também teve difi-
culdades para estabelecer esse relacionamento. O casamento fora acertado
76
entre a mãe e o marido/tio e ela também teve de se mudar de São Paulo para
Araraquara. Segundo Renato Rocha (em entrevista), ela gostava de música,
tocava piano, como as “moças bem-educadas da época”, mas o marido não
gostava disso e dizia: “de todos os barulhos esse talvez seja o menos ruim!” e,
com o tempo, ela abandonou o hábito. O casal não teve filhos.
Durante certo tempo, Pio exerceu, na cidade de Araraquara, os cargos de
vereador (de 1899 a 1901), presidente da Câmara (1901-1902), provedor da
Santa Casa, presidente do Clube Araraquarense (no qual instalou uma biblio-
teca) e outras atividades executivas (ANDRADE & CORRÊA, 2009, p. 10).
Em 1907, mudou-se para Santos/SP, estabelecendo-se como sócio de
uma Casa Comissária para exportação de café. Pouco se sabe sobre este perío-
do ou se a esposa o acompanhou ou não. Mais ou menos em 1910,
desfazendo-se da Casa Comissária, voltou para Araraquara e passou a vi-
ver definitivamente “da” fazenda conseguida na finalização da sociedade: a
Fazenda São Francisco.
Em 1911, Pio e Zulmira realizaram uma longa viagem pela Europa
acompanhados de amigos, para tratamento de saúde (não se sabe qual era o
problema) e lazer. A viagem transcorreu bem, Pio tinha grande conhecimen-
to de línguas: lia, escrevia e falava espanhol, italiano, francês e inglês. Essa
viagem ainda rendeu outras histórias pitorescas, como a compra de uma pia
e de uma banheira, na Bélgica, que vieram no mesmo navio com ele e depois
foram despachadas por trem.
Sobre esse episódio da banheira, Renato Rocha contou que, em
Araraquara, havia um grande amigo de Pio chamado Francisco Vaz, total-
mente cego. Quando soube da aquisição da banheira, ficou muito curioso
e entusiasmado, assim como toda a cidade. Pio, ao anunciar que a banheira
chegaria num determinado dia, foi chamado pelo amigo que solicitou que
ele passasse com o objeto por sua casa para que ele pudesse “vê-la”. A família
de Francisco, então, montou um jirau na frente da casa, os carregadores/
transportadores levaram a banheira e a colocaram sobre a estrutura montada
e o amigo pôde apalpá-la. Esse objeto foi, mais tarde, levado para a Fazenda
Santa Izabel, também da família, e hoje está na antiga Chácara da Sapucaia,
atual Centro Cultural professores Waldemar e Heleieth Safioti.
Aqui vale ressaltar uma curiosidade. Por muito tempo, na cidade de
77
Araraquara, difundiu-se a ideia de que Mário, já adulto, quando visitava o
Tio Pio, tinha o hábito de escrever mergulhado na banheira, o que era bem
assim, segundo os familiares. Como as portas dos quartos da chácara tinham
uma parte de vidro, Mário levava uma pequena mesa (que está exposta na
Biblioteca Pública Municipal) para o banheiro, quando queria escrever até de
madrugada, para que a claridade da luz não atrapalhasse o sono dos tios, que
se deitavam muito cedo.
A partir de 1912, Pio começou a alternar a residência entre a chácara
e uma casa que tinha no centro da cidade de Araraquara por causa dos negó-
cios, o que se deu até 1918. Neste ano, Pio deixou de alternar a residência e
passou a morar na Fazenda São Francisco até 1920.
Em 1913, no dia 22 de junho, faleceu Renato de Moraes Andrade,
irmão de Mário, aos 14 anos, após machucar-se num jogo de futebol. O
escritor sofreu um duro golpe, passando por um longo período de depressão.
Mário conseguiu superar essa fase difícil com a ajuda de Pio, que o levou para
a Fazenda São Francisco, região de Bueno de Andrade, que tinha uma sede
bem modesta, onde o jovem ficou até conseguir elaborar a perda do irmão.
Ele ficou sozinho e Pio o visitava periodicamente para ver se necessitava de
alguma coisa. Aos poucos, foi sentindo vontade de caminhar pelo bosque
de palmeiras, foi aumentando as caminhadas, até que melhorou. Quando
voltou de Araraquara para São Paulo, no mês de setembro, diz ter descoberto
sua vocação de poeta. Esse relato foi feito por Mário a Manuel Bandeira, em
carta de 29 de maio de 1931:
[o] caso típico da minha afetividade foi a morte de meu mano mais moço,
que me levou quase pra morte também. Os médicos chegaram a não dar
nada mais por mim, médicos de moléstias de nervos e o diabo. Não co-
mia, não dormia e com os sintomas característicos de neurastenia negra,
ódio de minha mãe, de todos os meus etc. Foi o bom-senso dum tio, es-
pécie de neurastênico de profissão, que me salvou. Pegou em mim, levou
pra fazenda dele, onde ele não morava, me deixou lá sozinho. De tempo
em tempo aparecia, perguntava se eu não queria nada. Não queria e ele
ia-se embora. Um dia me chegou enfim a curiosidade de saber como era
o princípio do cafezal, por trás da casa, fui até lá. Fiz o mesmo no dia se-
guinte, até mais longe e pra encurtar coisas aqui estou ainda vivo. Só que
voltei poeta da fazenda. Sem nunca ter nem me preocupado em ler com
78
prazer os poetas, já mesmo antes de ir pra fazenda, tinha dado em mim
essa coisa esquisitíssima, talvez sintoma de loucura; uma mania de fazer
versos. Foi assim”. (MORAES, 2001, p. 508).
Nesse momento da vida de Mário, Pio acompanhou seus passos com
interesse, mas com certo distanciamento, até que o jovem estivesse pronto
para voltar à família de São Paulo. Aceitou a angústia de Mário sem críticas
nem cobranças e deu o tempo de que ele precisava para elaborar a perda.
Segundo o relato de Mário a Bandeira, a técnica deu certo. E muitas outras
vezes durante a vida, cansado da cidade grande, com problemas de saúde ou
em férias, Mário passou temporadas com o Tio Pio.
Nessa época, Pio tomou contato com um personagem com quem estabe-
leceu uma relação cujos desdobramentos são significativos para compreender-
mos os modos como o fazendeiro araraquarense lidava com as situações, certos
costumes que ele valorizava e como aproveitou esse material para seus estudos.
Provavelmente em 1915, chegou a Araraquara Edward Ruxton (1863-1931),
escocês nascido em Aberdeen, que Pio contratou para ministrar-lhe aulas de
inglês. Ruxton tinha vindo morar na cidade, pois trabalhava na expansão da
ferrovia. Fazia parte do trato estabelecido com Pio que Ruxton se mudasse
para a Chácara da Sapucaia para que pudesse conviver e conversar diariamente
com o fazendeiro e o aprendizado fosse mais rápido e eficiente, mas o professor,
que era bastante desmedido na bebida, deveria manter-se sóbrio. Depois de um
certo tempo (não foi possível precisar a data exata), devido à impossibilidade de
Ruxton controlar o consumo de bebida, o aluno despediu seu professor. Como
Ruxton não honrou sua palavra, Pio honrou a dele.
Conhecido como o “Mister”, o escocês acabou figurando como o persona-
gem Mr. Brown, do conto de PLC “O caso do barraqueiro”, único texto ficcional
escrito por Pio, assinado com o pseudônimo de Mota Coqueiro, publicado em
revista do Modernismo, Papel e tinta (COQUEIRO, 1921, p. 5-6). O conto tra-
ta de uma caçada de macuco, ave comum na região de Araraquara, empreendida
por um grupo de homens, organizados rigidamente em uma expedição. Essa
situação era comum para Pio, pois ele comandava o grupo dos “Conjurados”,
caçadores que acampavam por dias nas matas da região especialmente para caçar,
como registra Candido (ANDRADE & CORRÊA, 2009, p. 13):
79
[p]escador e sobretudo caçador apaixonado, organizou e liderou por mui-
to tempo o grupo dos Conjurados com o qual empreendia anualmente, em
regiões distantes, expedições de caça principalmente aos macucos, e que
era regido por um regulamento estrito e inflexível, estabelecido por ele.
Mário de Andrade acompanhou esse grupo muitas vezes e as histórias
ouvidas renderam-lhe alguns contos. Entre eles, um com o título específico
de “Caçada de Macuco”, publicado no livro Primeiro Andar, de 1926.
Pio registrou a descrição do personagem escocês, em suas palavras: “É
escalado para atirador o Mister, ‘Conjurado’, escocês, tipo acabado de sport-
sman, de maneiras delicadas e persuasivas, estimadíssimo no seio da turma,
que ele acompanha em todas as vitórias e em todas as derrotas desde 1915”
(COQUEIRO, 1921, p. 5-6). Os “Conjurados” realizavam caçadas pelas ma-
tas da região, seguindo ordem e preparativos rigorosos, liderados por Pio.
Não se tem notícia da data em que o grupo iniciou esses trabalhos, mas
há um desenho feito por Mário, retratando Pio de espingarda em punho a
espreitar um macuco, datado de 1915, encontrado entre os papéis na gaveta
da escrivaninha de Pio, em Araraquara.
Figura 10: Desenho de Mário de Andrade retratando Pio Lourenço Corrêa na noite de
21/09/1915 (GUARANHA, 2007, p. 114)
1
.
Fonte: CPLC – Sala Pio & Mário – Biblioteca Pública Municipal Mário de Andrade –
Araraquara/SP. Fotocópia tirada em 2004.
1
Transcrição: O episódio da noite de 21 de Setembro de 1915, nas matas da São Francisco, posto em
caricatura por Mário de Andrade, por ordem do protagonista da malograda expedição.
80
A última excursão do grupo dos “Conjurados” teria sido por volta de 1927,
segundo informações de familiares (ANDRADE & CORRÊA, 2009, p. 100).
Pio teria notícias novamente de Mister Ruxton somente em 1931,
quando recebeu dele uma carta com um pedido de socorro e relatou o caso
a Mário de Andrade, também por carta, no dia 3 de setembro de 1931
(ANDRADE & CORRÊA, 2009, p. 193-194):
[...]O Mister Ruxton, quando conseguiu dominar a resistência tenaz, que
o seu impecável gentlemanismo opunha a que um dia na vida pedisse
socorro – estava quase moribundo! Ainda assim, conseguiu, nos estertores
de um derradeiro esforço, chegar até este teto amigo, onde foi recebido
com lágrimas, mas com prazer. Vou copiar aqui alguns períodos da carta
que me dirigiu, e que é o derradeiro esforço de um náufrago:
I write to you in the saddest circumstances. rough long ilness I have spent
the little money I had in doctors and in medicine and I am now reduced to
misery. All my friends here are scattered and I am as alone as if I were in a
desert and have nowhere to turn to. My greatest desire is to end my days in
Araraquara near some friends and where I have passed many happy days. ...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Forgive me Mr. Pio for asking you to help me. I know I have no right to ask
it; but I am so miserable I do not know what to do. ... ... ... ... ... ... ... ... ...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...... ... ... ... ... ... ... ... ...
... if it would be possible to arrange a place for me in the home for old and
useless persons in Araraquara, where I think I would be happy and content”
2
.
De fato, lá está ele no Asilo, happy and content! Veja V. como e quanto a
felicidade é relativa! Mas está pré-agônico: está acabando, bruxuleante,
como um coto de vela já atolado na cova do castiçal, que para ele vai ser
decerto o cemitério de Araraquara. O filho do Alberto já lá está há tantos
dias! E o Bentão (viu aqui na chácara um negrão novo e hercúleo, a quem
eu há uns 2 anos dava cama e uma lâmpada elétrica?), o Bentão caiu com
2
Tradução: Escrevo-lhe nas piores circunstâncias. Tendo passado por uma prolongada doença, gastei
o pouco dinheiro que eu possuía em médicos e remédios e estou agora reduzido à miséria. “Todos
os meus amigos se dispersaram e estou tão só como se estivesse num deserto, sem ter para onde me
voltar. Meu maior desejo é terminar meus dias em Araraquara perto de alguns amigos e onde passei
muitos dias felizes. “Perdoe-me, sr. Pio, por lhe pedir que me ajude. Sei que não tenho direito de lhe
pedir isso, mas estou numa situação tão miserável que não sei o que fazer. “Se for possível, gostaria
que o sr. arranjasse um lugar para mim numa casa para pessoas velhas e inúteis, em Araraquara,
onde penso ficar feliz e contente.
81
tosse, febre, hemoptises, e... parece que também para lá irá sem muitas
delongas, aos 22 anos! Sad world! sad circumstances
3
... Abrace-nos, abrace
todos daí, e esperamos que a próxima missiva seja menos sad, feita em
happier circumstances
4
. Am° e tio Pio
Note a poderosa frase do Mister: “my friends here are scattered
5
...”. Já antes
dele, exclamara o Camilo: “Que 109 grandíssimos marotos!” [...] (Itálicos
da pesquisadora.)
Pio atendeu à solicitação de Ruxton e arranjou-lhe abrigo no Asilo dos
Inválidos em Araraquara, onde faleceu aos 68 anos, em 16 de setembro de
1931. Esses dados pessoais foram obtidos em pesquisa nos arquivos do Asilo
São Francisco, do Cemitério São Bento e do 1.º Cartório de Registro Civil,
todos de Araraquara (GUARANHA, 2007, v.1, p. 158).
Após a morte de Ruxton, os administradores do Asilo dos Inválidos en-
tregaram a Pio uma mala com os pertences do escocês, já que ele fora o único a
ter contato com o paciente nos últimos momentos de vida. Para seguir a lei e ser
correto, Pio levou a mala até o juiz responsável e solicitou abertura de investiga-
ção para localizar possíveis familiares que tivessem direito ao “bem”. Após longo
tempo e sem nenhuma resposta, o juiz chamou-o e deu-lhe a posse da mala,
autorizando-o a abri-la, o que ele fez somente diante do juiz. Segundo consta e
contaram seus conhecidos (Antonio Candido e Renato Rocha), havia dentro da
mala: um pijama surrado, um par de chinelos e uma escova de dentes.
A faceta mais importante do pesquisado e pela qual ficou mais conhe-
cido, a correspondência com Mário de Andrade foi, certamente, um diálogo
profícuo que marcou a trajetória dos interlocutores. No dia 15 de fevereiro
de 1917, faleceu Carlos Augusto de Andrade, muito amigo de Pio e pai de
Mário. Este publicou seu primeiro livro, Há uma gota de sangue em cada poe-
ma, em junho, com as próprias economias, usando o pseudônimo de Mário
Sobral. Nessa época, Mário iniciou sua “marginalia”, as anotações que fazia
nas margens dos livros e artigos que lia. Teve início também a correspondên-
cia de Mário e Pio. Este recebe o primeiro livro de autoria de Mário com
dedicatória e uma solicitação de sua opinião acerca da obra A partir desta
3
Tradução: Triste mundo! Tristes circunstâncias...
4
Tradução: “que a próxima missiva seja menos triste, feita em circunstâncias mais felizes”.
5
Tradução: “meus amigos aqui estão dispersos”.
82
correspondência, Mário passou a fazer sempre assim: enviava todas as suas
publicações a Pio com dedicatórias de respeito e carinho.
Figura 11: Fotocópia da dedicatória de MA a PLC no primeiro livro publicado pelo modernista:
Há uma gota de sangue em cada poema (São Paulo: Gráfica Pocai, 1917).
(GUARANHA, 2007, p. 442.).
Fonte: CPLC - Sala Pio & Mário - Biblioteca Pública Municipal Mário de Andrade -
Araraquara/SP. Fotocópia realizada pela pesquisadora em 2005.
Em carta de 30 de agosto de 1921 a Mário, Pio revela informações
sobre sua coleção de livros, declarando já possuir quase todas as obras de João
Ribeiro, filólogo conceituado naquele tempo, menos A língua nacional que,
realmente, não se encontra em seu acervo
(ANDRADE & CORRÊA, 2009, p. 45). No dia seguinte, em 31 de
agosto de 1921, em nova mensagem a Mário, Pio escreve o texto “Uma dis-
sertação contra o agá” (ANDRADE & CORRÊA, 2009, p.47).
Em 1922, aconteceu a Semana de Arte Moderna, nos dias 13, 15 e
17 do mês de fevereiro, em São Paulo, no Teatro Municipal. Mário, naquele
mesmo ano, passou a catedrático do Conservatório Dramático e Musical de
São Paulo e publicou Pauliceia desvairada, custeado por ele. Na biblioteca de
Pio estão Pauliceia desvairada (1922) e todos os outros livros de Mário com
dedicatória; há também todos os números da revista modernista Klaxon.
83
Figura 12: Fotocópias das dedicatórias de MA a PLC em Pauliceia desvairada (1922) e Os filhos
da Candinha (1943). (GUARANHA, 2007, p. 443 e p. 451, respectivamente).
84
Fonte: CPLC - Sala Pio & Mário - Biblioteca Pública Municipal Mário de Andrade -
Araraquara/SP. Fotocópia realizada pela pesquisadora em 2005.
A curiosidade aqui é que houve uma carta de Mário dando notícias ao
Tio Pio sobre o evento da Semana de Arte Moderna, mas não foi localizada na
coleção. Sabe-se da sua existência por uma carta/resposta enviada pelo fazendei-
ro, em 11 de março desse ano, confirmando o recebimento da mensagem. Pela
resposta de Pio é possível fazer uma ideia do que Mário teria relatado:
Araraquara, 11 de março de 1922.
Mário:
Eu já li mais de uma vez a sua carta de domingo de carnaval. Repeti a lei-
tura para me certificar bem se ali havia algum requerimento, se V. queria
85
alguma coisa de mim. Vi que não; a carta é puramente noticiosa, e vale por
um relatório pormenorizado dos sucessos da famosa semana, e dos sentimen-
tos que eles criaram ou alteraram na sua consciência. Esta resposta não é mais,
portanto, do que um recibo. Ou, melhor dito, não devia passar além dos
termos de recibo. Mas... podemos aproveitar a sobra do papel para conversa.
Na divisão do trabalho humano, a que obriga a eterna e universal Lei da ca-
pacidade de cada um, a mim me tocou plantar batatas e matar formigas. Em
arte (já V. o sabia) sou simplesmente um by stander, um mirone, um badaud,
um basbaque. De toda essa nomenclatura internacional, escolha V. a que mais
me convier. Como plantador de batatas, não percebo essa coisa de se meterem
batatas, digo, palavras avulsas – by standers – no meio do discurso; como
matador de formigas, não me cabe na mioleira. Também já V. o sabia. Mas
continuo a plantar batatas, sem me interessar pela sorte dos soviets. Um verso
sem metro, sem rima, sem leis. Considero isso tudo como arte dos soviets. O
pior é que nem todos continuam a plantar batatas: alguns vão ao Municipal
atirar batatas! Que se lhes há de fazer? Aturá-los, e deixá-los.
Entrementes, aceite um abraço que Zulmira acaba de encomendar-me, e ou-
tro do tio Pio
Quem sabe, um dia, esse fragmento do mosaico que estamos tentando
construir, talvez um dos mais curiosos no caso das cartas, seja encontrado
no meio de alguns papéis ou no fundo de alguma gaveta desatenta e venha
completar esta pesquisa.
Em 1924, no mês de setembro, Pio publicou seu artigo “Araquá,
Araquara, Araraquara”, no jornal Araraquara, da mesma cidade, sob o pseu-
dônimo de Mota Coqueiro, mas essa “folha volante”, como ele diz, “tem
vida curta”. Em 1925, o mesmo artigo de Pio foi publicado na Revista de
Filologia Portuguesa, dirigida por Mário Barreto, vol. 5, p. 69 e seguintes,
em São Paulo. O artigo deu origem aos seus estudos sobre a etimologia da
palavra e, a partir daí, ele se concentrou na redação da primeira edição de
sua Monografia da palavra Araraquara (CORRÊA, 1936), demonstrando que
o significado do nome da cidade era “ninho do sol” ou “cova do sol” e não
ninho de araras” como todos diziam.
Ao longo de sua vida, dedicou-se a revisar e aumentar essa obra, publi-
cando-a em mais outras três edições, em 1937, 1940 e em 1952, cinco anos
antes de sua morte. Pode-se dizer que esse tenha sido um projeto de vida que
revela tanto o apego à sua cidade quanto ao trabalho filológico. Essa obra é,
86
por assim dizer, uma espécie de síntese das preocupações de Pio, tanto as gre-
gárias, ligadas à valorização da origem de sua família e de seus descendentes,
quanto as acadêmicas, construídas por meio de um metódico trabalho de
pesquisa vinculado aos domínios dos estudos linguísticos e históricos.
Em 1926, nas férias de final de ano, Mário organizou o material que já
vinha pesquisando e realizou a primeira redação do livro Macunaíma: o herói
sem nenhum caráter, na Chácara da Sapucaia, de Pio Lourenço Corrêa, em
Araraquara, consultando dados de fauna, flora, folclore e outros assuntos per-
tinentes à obra, na biblioteca do “Tio Pio”. Algumas fichas de estudo deste
também foram utilizadas na composição da narrativa/rapsódia, conforme edi-
ção crítica (LOPEZ, 1996). No primeiro prefácio redigido por Mário, em
dezembro de 1926, está: “Macunaíma não é símbolo nem se tome os casos
dele por enigmas ou fábulas. É um livro de férias escrito no meio de mangas
abacaxis e cigarras de Araraquara, um brinquedo” (ANDRADE, 1926, apud
LOPEZ, 1996, p. 432). No segundo, de 1928, lê-se: “Este livro de pura brin-
cadeira, escrito na primeira redação em seis dias ininterruptos de rede cigarros
e cigarras na chacra de Pio Lourenço perto do ninho da luz que é Araraquara
[...]” (ANDRADE, 1928, apud LOPEZ, 1996, p. 433). Em carta a Manuel
Bandeira, em 9 de janeiro de 1935, Mário comentou: “[...] nessas férias, aqui
com o meu tio Pio Lourenço nesta chacra em que Macunaíma nasceu, vivemos
falando diário no Sousa da Silveira. (MORAES, 2001, p. 608).
Pio Lourenço, entretanto, admitiu que não compreendeu a obra e, em
carta de 2 de fevereiro de 1935, informou Mário: “[...] Os livros já estão no
encadernador, menos o Macunaíma, que, como não entendo mesmo, não
pretendo cortar” (ANDRADE & CORRÊA, 2009, p. 278). Retoma o assun-
to em outra mensagem, de 3 de março de 1935, em resposta a Mário sobre o
interesse da editora norte-americana em traduzir Macunaíma:
[...] A 2ª a surpresa foi a notícia do reaparecimento da preciosa traduto-
ra. Esta foi-me agradabilíssima. Dar-se-á que a mirífica americana vai
conseguir alterar o meu juízo acerca do Macunaíma? Deus o queira. Mas
acho o empreendimento muito árduo, e arriscado. Quer-me parecer que,
desta vez, mais acertado anda o editor, que encomendou outro, deixando
o Macunaíma onde está, só para uso dos que o entendem. (ANDRADE
& CORRÊA, 2009, p. 284).
87
Em 1927, Mário publicou Amar, verbo intransitivo, livro polêmico pela
temática delicada, enviando ao tio 2 exemplares: um com dedicatória para
que ficasse com ele e outro para que fizesse as correções que julgasse necessá-
rias e o devolvesse a Mário. Assim foi feito. Pio anotou rigorosamente todas
as observações justificadas pelas gramáticas que colecionava nas margens do
livro, devolveu-o a Mário, que fez as réplicas, também nas margens. Esse
exemplar com o diálogo entre o conservador Pio, defensor das tradições gra-
maticais que tanto estudou, e o escritor modernista, que valorizava a lingua-
gem coloquial, encontra-se no Instituto de Estudos Brasileiros da USP. Esse
diálogo foi transcrito e analisado por Marlene Gomes Mendes, trabalho pu-
blicado na Revista do IEB (1994, p. 190-243), em edição comemorativa aos
cem anos do nascimento de Mário de Andrade. Pio interessou-se pela obra,
principalmente pela versão norte-americana, Fräulein, tradução de Margaret
Richardson Hollingsworth. Nova Iorque: Macaulay, 1933.
Figura 13: Capa da edição norte-americana de Amar, verbo intransitivo – Fraülein, de MA
(Nova Iorque: Macaulay, 1933).
Fonte: GUARANHA, 2007, p.237. Acervo Mário de Andrade - AMA - do Instituto de Estudos
Brasileiros – IEB – Universidade de São Paulo - USP.
88
A versão norte-americana, talvez pela simplificação da narrativa ao ser
transcrita em outra língua, tornou-se mais compreensível ao fazendeiro tra-
dicionalista. Em carta de 21 de setembro de 1934, Pio escreveu a Mário
suas impressões, desta vez mais calorosas e entusiasmadas, a respeito da obra
(ANDRADE & CORRÊA, 2009, p. 259-260):
Mário:
Ainda não terminei a leitura de F r ä u l e i n; terminando-a, vou reler o
que ali há de Amar, deixando de lado o romancinho intercalado, que tem
estado me estorvando. Eu gostei de Amar, como em tempo oportuno já o
disse a V. na polêmica que então travamos. Mas ali, a cada passo, quase em
cada período, o meu pesado comboio de 50 anos de literatura passadista
embaraçava-se nos festões e nas trabéculas da escola literária do autor. Eu –
pobre de mim! – fazia marcha à ré, calculava os descontos de novo, de novo
aprumava a composição dos 50 carros que o tempo emperrara nos eixos
corroídos de preconceitos – e emaranhava-os outra vez na vereda agreste...
Era uma luta desigual e cansativa: de um lado, a permanente obstrução da
rotina; do outro, a fraqueza do timoneiro... Eu fechava o livro. Abro agora
Fräulein, enceto a viagem. Desde logo, percebo a velha feição dos caminhos:
não tenho feitios novos de estilo, de períodos, de estética. Sinto-me à von-
tade e, louvado Deus, bem familiarizado com a língua, vou despreocupado
trilhando as veredas conhecidas. O comboio emperrado desata a marcha,
suavemente – e sobra-me o tempo para contemplar as belezas da travessia.
Descubro-as a cada momento – vivazes, enérgicas, valentes, sensuais, per-
suasivas, cortantes; embriago-me delas, bebendo-as sofregamente. A noite
avança, o carrilhão da sala troa meia-noite. Prossigo, insaciado. Uma hora,
duas horas, não tenho sono, estou excitado... Apago a lâmpada. Estorço-
me nos braços da insônia, suspeito de sombras perambularem na escuridão
do quarto, pressinto amplexos paroxísticos na negrura do ambiente, ouço
um sussurro quente de amantes enlaçados; a contragosto, identifico-me
com eles, vivo neles, não posso dormir... Acendo a luz, abro os textos de
novo, confiro-os, verifico que são condizentes. Tinha aquilo na estante des-
de 1927, e quase o não sabia! Desconfio de mim, esfrego os olhos, releio,
reconfiro, a tradução está certa! Ardem-me os olhos, fecho a chave da lâm-
pada. Uma lassidão de saudade, um bem-estar de homem invadem-me os
sentidos. O cérebro entra numa penumbra doce, obnubila-se... desapareço
de mim mesmo num espaço opaco, vazio e macio...
Yet suddenly shame enveloped him and he withdrew for an instant. But in
that instant she gathered him to her breasts, returning his caresses until he
89
found himself buried in the warmth of her flesh, taking refuge from her in her.
………….. Yet no words came. He did not have the courage. At last he commen-
ced playing with her fingers and, as though some outsider were listening, he whis-
pered in Fräulein´s ear
6
: …………..…………..…………..…………..
Mas que modos são esses, Carlos?... Responda... Venha escrever... Não
escrevo mais, disse... Venha... Venha... Você me entristece, Carlos... Mas
a hora já acabou... Não ainda... …………..…… – Sim? – Sim o quê,
Carlos? ……………..……….. – Não me aperte assim... Que menino!...
…………..…… – Ah, ... vamos! diga se eu posso ir falar com você! – Mas
falar o quê, Carlos? .………….. Fräulein was sorry that she had been angry
………….. After all, Carlos was sweet and sincere. And as she started up the
stairs, she whispered “Midnight”
7
. …………………….... – Sim, deve ser a
Tijuca... Que horríveis pedras!... Neste beco apertado, sem alavanca, sem
ar, sem defesa... vou decerto morrer esmagado!... – Carlos, Carlos, que
distração essa! Olhe! parecem envernizadas!... – São anões vadios e bra-
vios, com espinhos pelo corpo... – Carlos... – Estou aqui, Fräulein! – Não
faça assim! podem vir... – Ficaram no automóvel, Fräulein... – Assim não!
é capaz de ter alguém por aí.... Acordo em sobressalto, alagado de suor,
com o velho coração em taquicardia... Era dia claro lá fora; vou para o
banho, levo comigo ainda Carlos e Fräulein – vejo-os, sinto-os, ouço-lhes
os suspiros no silêncio profundo da chácara... – É prodigioso, digo em voz
alta ao casaco do cabide. – O que é, Pio? – Nada, Zulmira, tropecei aqui
numa chinela desirmanada. Venho escrever isto. Falho letras, interrompo
o movimento coordenado da máquina, esqueço a ortografia do Gonçalves
Viana, volto de novo ao original de 1927, releio, confiro a tradução: – está
certa. Então, convicto, sincero, orgulhoso da ternura enérgica de irmão
mais velho, exclamo em coro com o editor americano: – F A Ç A O U T
R O, e sem demora. Faça. Faça outro, crie, aposente-o no cérebro e no co-
ração, e venha compô-lo aqui: – procuraremos juntos a traça de, pensando
a tiro largo, acomodarmo-nos à fibra nervosa da tradutora, que soube tão
bem desvendar-me a nudez forte da verdade, até agora quase oculta sob o
manto ... do Futurismo.
Tio Pio
6
Tradução: No entanto, de repente, a vergonha o envolveu e ele se retirou por um instante. Mas nesse instante ela o
apertou contra seus seios, devolvendo suas carícias até que ele se viu enterrado no calor de sua carne, refugiando-se
dela em seu corpo... No entanto, nenhuma palavra veio. Ele não teve coragem. Por fim, ele começou a brincar
com os dedos dela e, como se algum forasteiro estivesse ouvindo, sussurrou no ouvido de Fräulein...
7
Tradução: Fräulein lamentou ter ficado com raiva………….. Afinal, Carlos era doce e sincero. E
quando ela começou a subir as escadas, ela sussurrou “Meia-noite”.
90
Em 1935, Pio publicou dois artigos na Revista do Arquivo Municipal
de São Paulo, criada e dirigida por Mário de Andrade, e mantinha a coluna
semanal “Fichas de linguagem”, em O Imparcial, de Araraquara (trabalho que
continuou durante o ano seguinte).
Em 1936, Quirino Campofiorito (1902–1993), pintor, desenhista e
crítico de arte, morador do Rio de Janeiro e professor na Escola Nacional
de Belas Artes, promoveu, em Araraquara, o I Salão de Belas Artes, fun-
dando também, na cidade, uma Escola de Belas Artes. Quirino tornou-se
amigo de Pio e costumava passear, com sua mulher Hilda e o filho Ítalo, na
Chácara da Sapucaia. Em 1945, algumas “Fichas de linguagem” de Pio foram
publicadas na revista Esfera, do Rio de Janeiro, por intermédio de Quirino
Campofiorito, que era o diretor do periódico (BATISTA & LIMA, 1998,
p. 296). Em 1946, a revista Esfera continuou a publicar esporadicamente as
“Fichas de linguagem” de Pio.
Figura 14: Quirino Campofiorito com o filho, Ítalo, no colo, na Fazenda São Francisco, de PLC
(foto s/a, de 1936), (ANDRADE & CORRÊA, 2009, p.296).
Fonte: Acervo Ítalo Campofiorito.
91
Figura 15: Fotocópia de Ficha de Linguagem, de PLC, publicada na Revista Esfera, em 1946, com
anotação do autor.
Fonte: CPLC - Sala Pio & Mário - Biblioteca Pública Municipal Mário de Andrade -
Araraquara/SP. Fotocópia realizada pela pesquisadora em 2005.
A anotação do autor, em tinta preta, registra: “Isto saiu publicado
numa revista comunista carioca - ESFERA -, por obra e graça do respectivo
Director Campofiorito, que levou para o Rio muitos originais das minhas
fichas. O nº da revista é 14, e a data 1946, V ano, mês de Maio (era um men-
sário). Mota Coqueiro” (COQUEIRO, 1946, p. 40, grifos do autor).
92
No ano de 1940, Mário de Andrade estava morando no Rio de Janeiro
8
.
Percebendo nas cartas do sobrinho um certo tom de tristeza, chama-o para
descansar em Araraquara, dizendo-se preocupado com o amigo, sempre com
a percepção aguçada e a compreensão de um conselheiro, como atesta a carta
de 12 de abril de 1940:
[...] Eu e Zulmira andamos estranhando a linguagem sombria que às ve-
zes aparece em certos períodos meio-misteriosos, meio-queixosos das suas
cartas. Que diabo é isso? Certamente não reconhecemos nessas frases o
nosso Mário de todos os tempos, loução e otimista, que sabia ver a vida e
os contratempos com aquela pontinha de ironia esfaciante que afugenta
as nuvens do horizonte. Você está esgotado, homem! Dotado de nervos
sensibilíssimos, V. recebe os choques e os encontrões da massa humana
que o rodeia, e obstrui o caminho, com redobrada violência. A conti-
nuidade desses obstáculos, que a todos nos contraria, está fazendo mal a
V. Venha cá descansar, tomar fitina, comer ovos frescos, pescar lambaris,
ler as Peregrinações, escrever artigos em ambiente perfumado de murtas e
magnólias, rodeado dos “pequenos barulhinhos que constituem o grande
silêncio” e verá desaparecerem, na poeira das estradas do São Frco. e do
Matão, as equimoses subjetivas que mancham a alma e prejudicam a saú-
de do corpo. Eu conheço, por experiência, essas equimoses deprimentes.
Em 1910 e 1911, ia quase sucumbindo, quando um médico amigo (o Dr.
Carlos Botelho) me deu esta receita milagrosa: – “Não se suicide, este é
o único perigo a que V. está exposto; o resto passa”. E passou. E recaí. E
passou de novo. E recaio frequentemente – mas lanço logo mão da receita
que ainda conservo comigo: não me suicido... Aqui já começa a parecer
de manhã uma fresquinha macia, que ajuda a viver. Venha gozá-la, venha
sentir as carícias de Abril longamente, docemente – e apreciar de bem lon-
ge o rumor da política, das ferocidades sociais e das guerras de extermínio.
[...] (ANDRADE & CORRÊA, 2009, p. 336-337)
8
Getúlio Vargas, em 10 de novembro de 1937, impôs o Estado Novo. O prefeito de São Paulo,
Prestes Maia, por ele nomeado sucessor de Fábio Prado, mostrou total incompreensão dos inúmeros
projetos de Mário à frente no Departamento de Cultura (desde 1935, quando fora nomeado por
Gustavo Capanema). Mário pediu demissão em junho de 1937 e, profundamente desgastado com
a situação política, resolveu se mudar para o Rio de Janeiro, em julho de 1938, onde ficou até
fevereiro de 1941. (CASTRO, 1989).
93
Sempre que percebia alterações de saúde física ou mental de Mário,
Pio o chamava para a chácara, para o campo, para se recompor dos excessos
da cidade grande (“a massa humana que o rodeia”), para entrar em contato
com a natureza e também usufruir de sua biblioteca. No caso, convida Mário
para ler provavelmente o livro Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto (1510–
1583), no qual o autor relata sua viagem ao Oriente. O livro está na coleção
e é uma rara edição de 1725.
Quanto à “fitina” citada por Pio, trata-se de um “sal de cálcio e mag-
nésio do ácido fítico encontrado em sementes de plantas (...) é considera-
do o mais abundante composto fosforado das plantas” (HOUAISS, 2001,
p.1351). Supõe-se, então, que Pio refere-se a algum composto farmacêutico,
rico em fósforo, talvez algum remédio fortificante da época.
Em 1941, Pio publicou dois artigos em O Estado de S. Paulo, ambos
por intermédio de Mário. O conceituado gramático do período, contratado
do jornal, era Napoleão Mendes de Almeida (1911-1998), responsável por
coluna fixa no periódico. As circunstâncias da publicação estão na carta de
Mário, de 9 de setembro de 1941:
Depois de mil e uma peripécias devidas à (atual?) falta de prestígio deste
seu criado e ao desinteresse de revistas e jornais pelas coisas do bem fa-
lar, afinal consegui, não eu, mas um amigo, lá de dentro, que o Estado
publicasse as “Fichas” do Sr. Como o jornal já tem gramático, de nome
Napoleão, para não lhe desautorizar a autoridade, as fichas sairão, de
quando em quando, na 4a página, isto é, a página dedicada a artigos as-
sinados. Não leio atualmente o Estado, pois as idiossincrasias políticas de
Mamãe, se doem de ver tão nefanda folha poluindo o nosso lar. Mas como
a página de artigos sai às quartas e domingos, não será difícil ao Sr. caçar as
suas fichas em letra de forma. (ANDRADE & CORRÊA, 2009, p. 348)
Ano seguinte a essa mensagem, em 1942, Isabel Maria do Carmo de
Moraes Rocha, mãe de Zulmira, sogra e cunhada de Pio faleceu em São Paulo.
O escritor modernista, também nesse ano, idealizou usar a figura de Mr.
Ruxton, o escocês de Araraquara, como personagem de seu futuro romance
Café, segundo carta a Pio, datada de 29 de janeiro de 1942 (ANDRADE &
CORRÊA, 2009, p. 370-371):
94
Trata-se do seguinte: inicio em fevereiro, a reescritura do meu romance O
Café. Reli agora as notas, preparando a continuação de onde o livro esta-
va parado, e vi que entra em breve no entrecho o personagem “o Mister”,
aquele escocês que foi seu amigo. É mero personagem de passagem, que
me serve pra explicar porque na cidadinha de Aracina (+ ou – Araraquara)
tanta gente estudara o inglês, e principalmente as Duas Irmãs, personagens
importantíssimas do romance. O livro (que será enorme) tem dezenas e
dezenas de personagens de passagem que pego uma vez só, conto como é, e
abandono pra sempre. São verdadeiros close-up de cinema, que me servem
pra expor a complexidade civilizada do estado de São Paulo, com a riqueza
subitânea do café, a consequente atração de estrangeiros de todo o mundo.
Não tem pressa, vá me contando aos poucos o que sabe do Mister.
9
Em 1943, por iniciativa de Mário de Andrade, fundou-se a Biblioteca
Pública Municipal, em Araraquara. O escritor doou 600 livros de sua cole-
ção para iniciar os trabalhos e conseguiu, com amigos, e com Pio também,
doações para a biblioteca. Hoje, esses livros doados, muitos com dedicatórias,
também estão preservados na Sala Pio & Mário.
Em 1945, ano em que participou do Congresso de Escritores e termi-
nou o poema “A meditação sobre o Tietê”, Mário de Andrade morreu vítima
de um enfarte, dia 25 de fevereiro, em sua casa da Rua Lopes Chaves. Pio
reuniu as cartas trocadas com Mário, os recortes de jornais sobre a morte do
escritor, mensagens de condolências recebidas de amigos e parentes. As cartas
recebidas de Mário, mais tarde, foram doadas e passaram a compor o arquivo
do casal Gilda e Antonio Candido de Mello e Souza. Pio registrou em Fichas
de estudo algumas informações e até comentários sobre o modernista e uma
delas revela, inclusive, a possibilidade ou um futuro projeto de museu em
homenagem a Mário.
9
Sobre a obra inacabada de Mário de Andrade, sabe-se que: [o] romance Café, obra inacabada, teve
uma parcela de seus manuscritos estudada por Tatiana Maria Longo dos Santos em sua dissertação
de mestrado Edição genética de Vento. Esboço de um romance de Mário de Andrade (FFLCH-USP,
2001, inédita). Paralelamente, Mário escreveu o libreto da ópera Café, o qual foi trabalhado por
Flávia Camargo Toni, em sua tese de livre-docência Café, uma ópera de Mário de Andrade: estudo
e edição anotada (IEB-USP, 2004, inédita). A concepção melodramática de O Café foi publicada
em 1945, nas Poesias Completas, edição póstuma pela Livraria Martins Editora. (ANDRADE &
CORRÊA, 2009, p. 370).
95
Figura 16: Ficha de PLC com referência a um futuro museu em homenagem a MA.
Fonte: CPLC - Sala Pio & Mário - Biblioteca Pública Municipal Mário de Andrade -
Araraquara/SP. Foto tirada pela pesquisadora em janeiro de 2022.
No mês de março de 1946, em Araraquara, houve uma sessão solene
em homenagem ao primeiro ano da morte do modernista e Pio foi convidado
a fazer o discurso, que foi publicado, na íntegra, pelo jornal O Imparcial.
Depois da morte de Mário, uma série de perdas de familiares ocor-
reu até o ano em que o próprio Pio faleceu. Em 1947, em São Paulo, fale-
ceu Anna Francisca de Almeida Leite Moraes, a Tia Nhanhã, muito querida
por Zulmira e Mário de Andrade. Em 1949, faleceu Maria Luíza de Moraes
Andrade (24/11/1859-16/8/1949), mãe de Mário e tia materna de Zulmira,
também em São Paulo. Em 1957, no dia 12 de junho, já com a memória
comprometida, faleceu Pio Lourenço Corrêa, em Araraquara.
Zulmira deixou então a Chácara, mudando-se para uma casa na cida-
de. Doou, em 17 de julho de 1957 (conforme registro na última página, a
lápis, em todos os livros da coleção), parte dos livros do marido à Biblioteca
Pública Municipal de Araraquara e outra parte à Santa Casa de Misericórdia.
Em 1959, faleceu em Araraquara.
Os bens do casal ficaram para os familiares, principalmente Renato
Rocha (1917 - 2014), que herdou a Chácara da Sapucaia. Com o cresci-
mento da cidade, a área de 90.000 m2 foi loteada. O terreno restante, com a
96
casa, cerca de 14.000m2 (informações recebidas em visita guiada no local) foi
comprado pelo casal Waldemar e Heleieth Safioti, professores que ali mora-
ram e, hoje, o imóvel pertence à UNESP – campus de Araraquara, por doa-
ção da família Safioti, tendo se transformado no Centro Cultural Waldemar e
Heleieth Safioti, figuras de destaque também na cidade. A chácara, hoje incor-
porada à área urbana de Araraquara, Zona Oeste da cidade, fica localizada à
Rua dos Libaneses, n. 1111, bairro Nossa Senhora do Carmo.
A casa foi reformada, de acordo necessidades dos moradores que suce-
deram Pio e para reparar os desgastes provocados pelo tempo. Embora restem
algumas construções da época de Pio e Zulmira, como a moradia dos em-
pregados, durante o período em que esta pesquisa foi realizada, o conjunto
necessitava de restauração urgente.
2.2 A formação do polímata Pio Lourenço Corrêa
2.2.1 A personalidade e os epítetos
Estabelecido o panorama dos acontecimentos, esta seção é dedicada
a ideias, interesses e fatos da vida de Pio que revelam certas particularida-
des desse personagem. As observações a respeito desses aspectos partem do
nome oficial de batismo, Pio Lourenço Corrêa, das relações dele com essa
identidade. Para tanto, retomamos sua anotação na Ficha de Estudo n. 503
– “Ortografia de nomes próprios de família” – (CPLC), com a explicação da
grafia de seu sobrenome:
Os nomes de família – querer reformá-los com as sucessivas reformas orto-
gráficas é absurdo. O autor desta ficha, em todos os sistemas ortográficos
que tem visto vigorar no Brasil – e andam já por perto de uma dúzia as
marchas e contramarchas desde 1907 até hoje (março de 1948) – sempre
usou, para o seu nome de família a forma Corrêa. Por quê? – Porque era este
o nome dos meus avós, digo eu. Sou dos Corrêas do tempo que o i que não
tinha sido chamado ainda a adoçar o hiato êa. Se eu agora metesse ali a do-
çura do i, o meu nome, assim açucarado, já não seria o mesmo do Sargento-
mor que viveu em Araritaguaba, ou em Itu, ou não sei onde mais, depois
de ter medido, como juiz de medições, as sesmarias de Araraquara. Aquele
97
famoso Sargento-mor, que se recusou a casar com minha avó Maria Pereira
depois de ter tido dela um filho (que reconheceu, e veio a ser meu Pai) – mas
o famoso barão-feudal nunca escreveu senão Corrêa (José Joaquim Corrêa
da Rocha), meu Pai herdou dele o nome sem i e com acento gráfico, e eu
não saio daí, ante a giga-joga por onde quiser! Ara!.
A anotação registra, além da questão linguística que sempre foi do in-
teresse de Pio, a narrativa sobre a origem de sua família. Os comentários de
Pio sobre a língua brasileira reproduzem o discurso que associa as diferenças
linguísticas entre o português lusitano e o brasileiro como estreitamente liga-
dos às questões econômicas, observações que também aparecem nas obras de
Gilberto Freyre (1900-1987):
Os enunciados de Gilberto Freyre na década de 1930, sobretudo em Casa
Grande & Senzala (1933) (...) mostraram-se representativos pela argu-
mentação em que se pode observar uma estreita ligação entre sua expli-
cação sobre a organização social (econômica) do país e as diferenças entre
o português brasileiro (PB) e a variante falada em Portugal (PE). Houve
um tempo em que o português do Brasil era considerado o português
com açúcar, expressão na qual se juntam uma referência ao modo de falar
e a um momento importante da história do Brasil, de Portugal e de algu-
mas regiões da África. O tráfico de escravos bem como o açúcar brasileiro
eram os principais produtos que garantiam a rota do comércio português:
África-América-Portugal. (BORBA, 2006, p. 17).
Borba (2006, p. 17) considera, ainda, que:
Freyre não foi o primeiro a caracterizar com esse tipo de imagem ou re-
presentação o português falado no Brasil. O Visconde de Pedra Branca em
1824, dissertando sobre o caráter das línguas como reflexo das sociedades,
opõe o francês ao português e, a este, o idioma brasileiro, que considera
um ramo transplantado para a América. Na tentativa de caracterizar esse
idioma, Pedra Branca recorre aos campos fonológico e lexical, apontando
naquele, como traço específico do Brasil, o falar mais doce, mais ameno;
e, com relação ao léxico, algumas especificações semânticas, alguns em-
préstimos indígenas e de outras procedências imprecisamente definidas.
Demarca, assim, a linha de reflexões que por muito tempo será a da quase
totalidade dos estudiosos do assunto.
98
Estudioso da linguagem que era, Pio provavelmente conhecia a obra de
Pedra Branca ou teve acesso a comentadores dessa obra. Em sua coleção, há
vários autores/pesquisadores sobre o assunto, entre os quais já se encontram:
Charles Bally (1865-1947), com Linguistique generale et linguistique française
(s/d) e Langage et la vie (s/d); e J. Vendryes (1875-1960), com: Langage: intro-
duction linguistique a l´histoire (1921). Assim, o discurso de Pio reproduz a
ideia de que conservar a grafia de um suposto idioma puro garantiria a conser-
vação do caráter idealmente duro de seus ancestrais, ou seja, conservaria tam-
bém a força, tanto física quanto militar, que forjou uma sociedade estamental.
A história de Pio Lourenço Corrêa e de sua família confunde-se com
a própria história da cidade de Araraquara, os sobrenomes Corrêa, Rocha e
Arruda foram frequentes nos eventos históricos e políticos da formação do
município. Já transcrevemos neste trabalho o testemunho de Pio, no Álbum
de Araraquara de 1915 (FRANÇA, 1915, p. XIV), em que ele afirma que
ouviu a história da origem da cidade de Araraquara pela narrativa oral do Snr.
Capitão Antonio Lourenço Corrêa Rocha (seu irmão e tutor), que ouviu a
história do pai, Comendador Joaquim Lourenço Corrêa Rocha (pai de Pio)
que, por sua vez, a ouvira de seu pai, o Sargento-Mor José Joaquim Corrêa da
Rocha (avô de Pio). Assim, é possível constatar por meio do texto a convivên-
cia entre as gerações, inclusive com a transmissão oral de histórias familiares.
O nome oficial de batismo, Pio Lourenço Corrêa, hoje nome de rua em
Araraquara, transformou-se no epíteto Tio Pio por meio do qual era chama-
do em seu círculo familiar. Segundo Bourdieu, os nomes oficiais das pessoas,
aqueles que aparecem nos documentos: “não pode[m] descrever propriedades
nem veicular nenhuma informação sobre aquilo que nomeia[m]” ou “só po-
de[m] atestar a identidade da personalidade [...] à custa de uma formidável
abstração” (BOURDIEU, 2006, p. 187).
Se o nome oficial de Pio atesta a identidade de membro de uma família
tradicional de Araraquara, o epíteto representa certo traço de sua personalida-
de. O epíteto de Tio Pio justificava-se porque tinha, de fato, muitos sobrinhos
por parte dos irmãos mais velhos do primeiro casamento do pai. Além destes
com quem mantinha o grau de parentesco, outros convivas mais chegados
foram adotando também o chamamento, como Mário de Andrade (que não
era seu sobrinho, era primo de primeiro grau da esposa dele, Zulmira), e é
99
possível constatar na correspondência trocada entre os dois (ANDRADE &
CORRÊA, 2009), que Mário assim o denominava no vocativo das cartas
que lhe dirigia, e que Pio assim terminava as suas assinando também “Tio
Pio”, embora usasse com frequência o papel timbrado, com seu nome com-
pleto encimando a folha. Para pessoas próximas, ainda que fora do circuito
familiar, também era o tio, tratamento que se acostumaram a ouvir e ao qual
deram continuidade. Em certo sentido, parece que o Tio Pio tornou-se o
membro da família e da comunidade em torno do qual todos se agregavam,
uma espécie de esteio do clã, respeitado tanto pelo capital material quanto
pelo capital simbólico, cultural, que acumulou. Observado por este lado, o
epíteto de Tio garante-lhe certo poder patriarcal o que justifica que, contrário
à camaradagem que sugere esse tratamento familiar, o relacionamento com
Pio não permitia muitas liberdades, pois os textos lidos, as cartas e os depoi-
mentos colhidos reforçam a ideia de que o Tio Pio era um homem muito rígi-
do em tudo, temido por sua seriedade, não era um homem para brincadeiras
ou deslizes, como atesta a frase dita por Pio que Antonio Candido guardou
na memória e reproduziu durante a conversa: “Bem sabes que sempre fui
infenso a fanfarras e valdevinos!”.
Há outra referência significativa associada a Pio Lourenço Corrêa, o
pseudônimo utilizado em quase todas as suas publicações: Mota Coqueiro.
Os entrevistados para esta pesquisa, que conviveram com Pio, não souberam
dizer de onde teria ele extraído/criado tal designação e não foram encontradas
anotações a esse respeito.
O que se apurou quanto à origem desse pseudônimo é que ele está
ligado a um acontecimento histórico do século XIX, um crime brutal, no
Rio de Janeiro, região de Campos dos Goitacazes, cuja autoria foi atribuída
a um fazendeiro chamado Manoel da Motta Coqueiro (1799-1855). Uma
família inteira de escravos de sua propriedade foi morta e a casa em que es-
tavam os corpos foi incendiada na madrugada de 12 de setembro de 1852.
Rapidamente, sem grandes investigações, o fazendeiro foi acusado, a impren-
sa deu bastante atenção ao ocorrido, foi uma comoção no local. O fazendei-
ro, acuado, tentou fugir e acabou sendo preso. Após julgamento, foi conde-
nado à forca e executado em 6 de março de 1855. Havia a possibilidade, na
época, de solicitar a “Graça Imperial” a D. Pedro II, que poderia livrar Motta
100
Coqueiro da forca, mas o imperador recusou-se a conceder a graça, respei-
tando o resultado do julgamento. Pouco tempo depois, foram aparecendo
indícios da inocência do fazendeiro, novas informações, pessoas trouxeram
novos dados que o inocentavam, mas era tarde demais. No relato de Möller
& Sá (2012, p. 68):
Há cerca de 150 anos a pena de morte, como desfecho de um processo cri-
minal formal, teria sido aplicada pela última vez no Brasil. O Imperador
Pedro II nunca mais sancionaria a sua aplicação devido a uma suspeita de
que o condenado, o fazendeiro Manuel da Motta Coqueiro, fosse inocen-
te. Motta Coqueiro pagou com a vida pela chacina de toda uma famí-
lia, praticada em Macabu, localidade situada no norte fluminense, então
abrigada pelo município de Macaé. O modo controvertido com que os
processos policial e judiciário teriam sido conduzidos sugeriria que a con-
denação pudesse ter atendido a interesses obscuros. As controvérsias estão
presentes não apenas na atribuição das responsabilidades sobre a chacina,
mas na própria identidade dos executantes, no fato motivador do crime e,
mesmo, no número de vítimas.
Após esse erro judiciário, o que tudo indica ter sido, o Imperador
Pedro II passou a ser mais benevolente e cuidadoso, foi abrandando esse
tipo de castigo, dando sua “Graça” aos condenados e, embora a pena de
morte tenha sido abolida no Brasil, oficialmente, apenas em 20 de setem-
bro de 1890, no período republicano, já não estava sendo aplicada, na prá-
tica, no Segundo Império. Esse fato foi transformado em livro por José do
Patrocínio (1853-1905), jornalista, romancista, poeta: Mota Coqueiro ou a
Pena de Morte, publicado em 1877.
Pio Lourenço Corrêa passou por uma experiência difícil quando jovem
em Araraquara. Entre 6 e 7 de fevereiro de 1897, vivenciou um linchamento
de presos na delegacia da cidade e, durante o julgamento dos envolvidos,
foi chamado a depor, como já relatado. É plausível pensar que Pio possa ter
adotado o nome do fazendeiro acusado injustamente, mas esta hipótese não
encontra respaldo nos registros deixados por Pio, que usava esse pseudônimo
em todas as publicações sobre linguagem, mas o utilizou em apenas um texto
ficcional, “O caso do barraqueiro”, um conto que publicou na Revista Papel e
Tinta, no ano de 1921, apadrinhado por Mário de Andrade.
101
Outro pseudônimo, na verdade quase-pseudônimo, seria Grain D’Orge,
aquele pensado para a construção do conto sobre o relacionamento de Pio com
Joia, projeto literário malogrado, já comentado no capítulo anterior.
A personalidade severa de Pio ficou registrada mais detalhadamente no
conto “O poço”, da coletânea Contos Novos (1947), publicação póstuma de
Mário organizada por Antonio Candido. O autor modernista descreveu tra-
ços da figura rígida, conservadora, com toques até de crueldade, do tio/amigo
no personagem principal, o velho Joaquim Prestes, como atesta o manuscrito
em que o nome original do personagem seria Seu Corrêa, mas foi riscado e
substituído por Joaquim Prestes. Mário assim descreveu o personagem:
Ali pelas onze horas da manhã o velho Joaquim Prestes chegou no pes-
queiro. Embora fizesse força em se mostrar amável por causa da visita
convidada para a pescaria, vinha mal-humorado daquelas cinco léguas de
fordinho cabritando na estrada péssima. Aliás o fazendeiro era de pouco
riso mesmo, já endurecido por setenta e cinco anos que o mumificavam
naquele esqueleto agudo e taciturno.
O fato é que estourara na zona a mania dos fazendeiros ricos adquiri-
rem terrenos na barranca do Mogi pra pesqueiros de estimação. Joaquim
Prestes fora dos que inventaram a moda, como sempre: homem cioso de
suas iniciativas, meio cultivando uma vaidade de família – gente escoteira
por aqueles campos altos, desbravadora de terras. Agora Joaquim Prestes
desbravava pesqueiros na barranca fácil do Mogi. Não tivera que construir
a riqueza com a mão, dono de fazendas desde o nascer, reconhecido como
chefe, novo ainda. Bem rico, viajado, meio sem quefazer, desbravava ou-
tros matos. (ANDRADE, 2000, p.73)
Ainda que o personagem tenha sido construído literariamente, as vá-
rias fotos de Pio observando a construção de um poço em suas terras no ar-
quivo do escritor, além do nome original do personagem que foi substituído
atestam a inspiração que Mário buscou em Pio.
102
Figura 17: Pio Lourenço Corrêa acompanhando o esvaziamento do poço em seu pesqueiro, em
junho de 1931 (ANDRADE & CORRÊA, 2009, p. 199).
Fonte: Acervo Mário de Andrade - AMA, Instituto de Estudos Brasileiros - IEB, Universidade de
São Paulo - USP.
Além da descrição desfavorável dada ao personagem, são as ações dele
que deixam o narrador do conto, por assim dizer uma espécie de alter ego de
Mário de Andrade, desconfortável: o velho Prestes, autoritário, obriga um
funcionário seu, tuberculoso, a descer ao fundo do poço para resgatar uma
caneta que caíra no buraco. A narrativa foi analisada por Ivone Daré, em O
caminho do encontro: uma leitura de Contos Novos (1999, p.151-177).
103
Figura 18: Fragmento dos manuscritos do conto “O poço”, em que a personagem nasce
com o nome de Sr. Corrêa, depois substituído por Joaquim Prestes, com anotações de MA
(GUARANHA, 2007, p. 632).
Fonte: Acervo Mário de Andrade - AMA, Instituto de Estudos Brasileiros - IEB, Universidade de
São Paulo – USP. Fotocópia tirada em 2005.
Pio não gostou da sua imagem como foi retratada na história, mas
Antonio Candido, que fez a seleção das obras para a publicação póstuma,
amenizou a indignação do fazendeiro argumentando sobre as especificida-
des da ficção, da literatura, a necessidade de o autor “carregar nas tintas
para a narrativa ficar mais interessante (explicação dada a esta pesquisadora
em entrevista com Candido). Apesar deste episódio, Pio continuou sempre
104
colecionando livros e notícias sobre Mário.
Há, contudo, um documento curioso que Pio guardou sobre Mário
e que pode ser indício de certas ressalvas que ele guardava em relação ao
sobrinho postiço. Trata-se de um recorte de jornal recebido em 24 de feve-
reiro de 1952, trinta anos depois da Semana de Arte Moderna e sete anos
depois da morte do escritor modernista. O artigo republica, sob a manche-
te em letras garrafais, “Somos burríssimos, idiotas, ignorantíssimos” e sob o
sugestivo lide “A Confissão dos modernistas - uma carta escrita há 30 anos”,
uma suposta carta que Mário teria enviado em fevereiro de 1922 a Menotti
del Picchia (1892-1988), a qual teria sido publicada à época pelo periódico
Correio Paulistano. No texto, Mário escreve, talvez com a ironia peculiar que
caracterizou a iconoclastia do Primeiro Momento do Modernismo, que o
movimento teria sido um meio de “alcançar a celebridade” e, para tanto,
houve a necessidade de “lançar uma arte verdadeiramente incompreensível,
fabricar o Carnaval da Arte Moderna e deixar que os araras falassem” (Figura
35). Na carta, o substantivo “araras” é uma referência à ruidosa reação dos
tradicionalistas, mas também pode ser uma referência toponímica à região
em que mora o Tio Pio, talvez usado como metonímia de reduto de reacio-
nários incapazes de compreender a arte moderna ou, descartada a ironia, in-
capazes de compreender a estratégia dos modernistas para chamar a atenção.
Figura 19: Ficha de Estudos de PLC n. 203 - Semana de Arte Moderna (ver-
so), com recorte de jornal afixado: “Somos burríssimos, idiotas, ignorantíssimos”.
Fonte: CPLC - Sala Pio & Mário - Biblioteca Pública Municipal Mário de Andrade -
Araraquara/SP. Foto tirada pela pesquisadora em janeiro de 2022.
105
Na ficha em que anexou o documento, ainda que ponha em dúvida a
veracidade da carta, “se realmente existe nos expressos termos”, parece acre-
ditar que seja verdadeira e sequer considera a possibilidade de, comprovada
a existência da carta, que seu conteúdo seja irônico. Antes delibera laconica-
mente: “Tenho motivos para crer que o Mário foi, durante anos seguidos,
assíduo caçador de celebridade. É só o que sei”.
Figura 20: Ficha de Estudos de PLC n. 203 - Semana de Arte Moderna (frente).
Fonte: CPLC - Sala Pio & Mário - Biblioteca Pública Municipal Mário de Andrade -
Araraquara/SP. Foto tirada pela pesquisadora em janeiro de 2022.
Em vida, o modernista registrara, além do conto “O Poço”, outros
momentos inspirados nas atividades de caça e pesca de Pio. Um exemplo
disso é a crônica “A pesca do dourado”, publicada em 6 de julho de 1930, no
Diário Nacional, de São Paulo (ANDRADE, 1976, p. 219-221), republicada
em Os filhos da Candinha, nas Obras Completas da Livraria Martins Editora,
em 1943, p.71-76. Há também uma foto no arquivo do escritor em que ele
posa ao lado de um grande peixe e sua câmera fixou imagens do pesqueiro do
amigo, durante as férias de julho desse mesmo ano, conforme anotação no
verso da foto (ANDRADE, 1976, p.139).
106
Figura 21: MA e o dourado pescado no Rio Moji, em 1930 (ANDRADE & CORRÊA, 2009, p. 171).
Fonte: Acervo Mário de Andrade - AMA, Instituto de Estudos Brasileiros - IEB, Universidade de
São Paulo - USP.
107
Os diferentes aspectos da personalidade de Pio podem ser compreendi-
dos por meio dos diferentes nomes pelos quais foi referenciado, quer oficial-
mente, quer pelos pseudônimos criados por ele, quer por personagens fictí-
cios nele inspirados que registram, a seu modo, diferentes narrativas as quais
formam peças de um mosaico: o nome de registro, Pio Lourenço Corrêa,
que o constitui como indivíduo, faz referência ao cidadão araraquarense, fa-
zendeiro, bibliófilo, intelectual, naturalista e autodidata; o epíteto “Tio Pio
evoca a referência do parentesco, da proximidade e até da afetividade, nem
sempre atestada pelos que viveram com ele; Mota Coqueiro, por sua vez,
aponta para o estudioso, notadamente filólogo e linguista, além de escritor;
Grain D’Orge, quase-contista, ficcionista embrionário que não se despren-
deu do terreno das experiências pessoais para materializar-se no campo fic-
cional como persona; e, finalmente, o velho Prestes da narrativa de Mário de
Andrade, dono de terras, rico, viajado, metódico e até tirano.
2.2.2 – O fazendeiro autodidata e polímata
Considerando todas as facetas de Pio Lourenço Corrêa, a vida, os estu-
dos, as publicações, a Coleção na biblioteca de Araraquara/SP, a atuação na
cidade e os diálogos com intelectuais, é possível atribuir-lhe alguns adjetivos
para recompor sua figura. Primeiramente, podemos afirmar, guardadas as de-
vidas proporções, tratar-se de um homem ilustrado, na acepção de Antonio
Candido (1981, p. 43-44):
[p]or Ilustração, entende-se o conjunto das tendências ideológicas pró-
prias do século XVIII, de fonte inglesa e francesa na maior parte: exaltação
da natureza, divulgação apaixonada do saber, crença na melhoria da socie-
dade por seu intermédio, confiança na ação governamental para promover
a civilização e bem-estar coletivo. Sob o aspecto filosófico, fundem-se nela
racionalismo e empirismo; nas letras, pendor didático e ético, visando
empenhá-las na propagação das Luzes.
Pio revelou um comportamento semelhante aos estudiosos do perío-
do das “Luzes” pelas práticas de colecionar livros; de estudar por iniciativa
própria; de aplicar técnicas científicas em suas fazendas (na agricultura e pe-
cuária); de adotar um método de estudo com o fichamento das informações
108
mais importantes (compondo quase que uma enciclopédia particular
10
); de
dominar línguas estrangeiras; de estudar a língua portuguesa; de publicar in-
formações e pesquisas sobre linguagem, principalmente no campo da filolo-
gia, ou seja, ter uma preocupação pedagógica. Candido reforça essa hipótese
ao descrevê-lo:
[u]m de seus aspectos mais salientes era o extremado corte conservador:
concepção muito elitista da sociedade, senso da hierarquia, confiança no
que chamava a “filosofia natural”, ou seja, a teoria darwinista da vitória
do mais apto. Na conduta, o respeito pelos valores tradicionais e uma ho-
nestidade intransigente que podia chegar ao sacrifício de seus interesses.
(ANDRADE & CORRÊA, 2009, p. 11).
Em carta, escrita no dia 11 de março de 1922, respondendo ao interlo-
cutor Mário de Andrade, que havia lhe mandado notícias da Semana de Arte
Moderna de 1922, Pio posicionou-se a respeito das propostas do movimento
modernista. Estimulou Mário em sua empreitada, mas reconheceu que, nes-
ses assuntos, era um conservador, tradicionalista:
[n]a divisão do trabalho humano, a que obriga a eterna e universal Lei da
capacidade de cada um, a mim me tocou plantar batatas e matar formigas.
Em arte (já V. o sabia) sou simplesmente um by stander, um mirone, um
badaud, um basbaque. De toda essa nomenclatura internacional, esco-
lha V. a que mais me convier. Como plantador de batatas, não percebo
essa coisa de se meterem batatas, digo, palavras avulsas – by standers – no
meio do discurso; como matador de formigas, não me cabe na mioleira.
Também já V. o sabia. Mas continuo a plantar batatas, sem me interessar
pela sorte dos soviets. Um verso sem metro, sem rima, sem leis. Considero
isso tudo como arte dos soviets. O pior é que nem todos continuam a
plantar batatas: alguns vão ao Municipal atirar batatas! Que se lhes há de
fazer? Aturá-los, e deixá-los. (ANDRADE & CORRÊA, 2009, p. 55).
(Grifo e itálicos do autor).
Pio empregou neste fragmento diversos estrangeirismos (dominava prin-
cipalmente o Inglês e o Francês) para se autodesignar apenas um observador
10
Há, inclusive, uma ficha em que registrou um plano ou a possibilidade, que não se concretizou, de
que estivesse pensando em uma enciclopédia.
109
das modernidades o que, ironicamente, contrasta com o último adjetivo que
empregou para qualificar-se, “basbaque”, ingênuo, tolo, simplório.
De qualquer modo, pode-se dizer que em seu discurso na carta ao mo-
dernista reafirma-se um tolo, mas não muito, ou se coloca como um tolo
letrado que tem alguma bagagem para dizer o que diz. Ao fingir um lapso
de memória em que confunde “batatas” com “palavras avulsas [metidas] no
meio do discurso”, reafirma sua habilidade de brincar com as palavras, como
em certo sentido faziam os poetas iconoclastas e, ao mesmo tempo, atribui
a essa prática certa gratuidade que, segundo ele, “não me cabe na mioleira”.
Reconheceu-se um homem do campo, defensor do locus amoenus, que não
concebia a poesia “sem regras nem leis”, conservador portanto. Não obstante
isso, terminou a carta condenando a atitude do público ao agredir os moder-
nistas no Teatro Municipal de São Paulo.
Pio, entretanto, apesar da distância física que mantinha da cidade, não
se privava de alguns luxos da civilização, além dos livros. Como um indivíduo
da Belle Époque, foi o primeiro a ter uma geladeira na região; teve dois auto-
móveis (um Ford, a “fordeca” tão citada por Mário de Andrade - para passeio,
dirigido por sua cozinheira, Antonieta, o que não era nada comum na épo-
ca, uma mulher dirigir um carro; e outro para ir à fazenda e ao pesqueiro).
Ilustram, ainda, o gosto pelo luxo a enorme banheira importada da Bélgica,
quando de sua viagem à Europa, em 1911, e a aquisição de uma máquina de
escrever para o seu escritório, em 1934, seguindo conselho de Mário.
Por outro lado, sempre foi afeito ao contato com a natureza, não só pe-
las atividades agrícolas, pelas pescarias e caçadas, mas também pelo hábito de
frequentar regularmente a estação de águas em Águas da Prata para tratamen-
tos de saúde. Esse comportamento autoriza estabelecer um paralelo entre Pio
e o homem ilustrado à moda do século XVIII, descrito por Candido (1981,
p. 65), homem este que estabelecia, assim como Pio, um “diálogo por vezes
angustiosamente travado entre civilização e primitivismo”, que apresentava e
representava uma
[p]ersonalidade [...] convencionalmente rústica, mas proposta na tradição
clássica, permitia exprimir a situação de contraste cultural, valorizando
ao mesmo tempo a componente local – que aspirava à expressão [...] - e
os cânones da Europa, matriz e forma da civilização a que o intelectual
110
brasileiro pertencia, e a cujo patrimônio desejava incorporar a vida espiri-
tual do seu país. (CANDIDO, 1981, p. 60)
Essa aproximação foi, inclusive, sugerida pelo próprio Mário de
Andrade em uma brincadeira que fez em carta enviada a Pio, datada de 18 de
dezembro de 1941, quando o modernista tentou escrever em “estilo antigo”:
“Senhor meu Tio e muito amigo/ Pio Lourenço Corrêa, / em sua chácara de
Araraquara, / cordiais visitas”, e, em seguida: “Não continuo assim seculode-
zoitamente porque me estrepo” (ANDRADE & CORRÊA, 2009, p. 323).
O hábito de Pio de fichar, anotar informações de seus estudos, cons-
truindo sua “enciclopédia particular” também é outra marca do homem ilus-
trado. Além de colecionar metodicamente e consultar essas fichas que, muitas
vezes, servem de suporte a outros documentos elas registram conteúdos que
foram usados para responder a dúvidas linguísticas dos consulentes e nas pro-
duções de Pio, notadamente nos textos publicados na coluna do periódico O
Imparcial, “Fichas de Linguagem”, publicada durante os anos de 1935 e 1936.
A correspondência de 16 de março de 1925 enviada por Pio a Mário
atesta o gosto do remetente por coleções e enciclopédias, bem como o fato de
que adquiria essas obras não apenas por diletantismo ou para estudos de temas
não ligados à sua atividade econômica principal, mas também com finalidade
pragmática de aplicar os conhecimentos técnicos que elas veiculavam às suas
atividades econômicas. Na correspondência, em tom bem-humorado, investe o
interlocutor da função de correspondente literário, bem como encomenda-lhe
uma obra sobre insetos himenópteros cujas informações serviriam para ajudar
em suas atividades como apicultor: praticamente intima Mário de Andrade a
comprar livros para ele em São Paulo e já encomenda um em especial:
[e]u preciso muito de um correspondente literário passadista aí em S.
Paulo, por cujo intermédio possa efetuar compras de livros. Por direito
consuetudinário, já V. estava investido desse cargo; mas daqui por diante,
sirva esta carta de alvará de nomeação solene, e fique V. com a inves-
tidura oficial e togada.... Há em França – e portanto há de haver tam-
bém no Garraux ou algures – uma coleção de livros sob o título geral de
Encyclopédie Scientifique, publiée sous la direction du Dr. Toulouse. Apesar
do nome rabilongo, são livros pequenos. Um desses volumes é consagrado
aos insetos Heymenoptères. Este volume eu quero que V. me compre,
111
e remeta pelo correio para aqui, para eu ler nos intervalos da bebida de
água, e habilitar-me a olhar para as minhas abelhas, quando voltar, com
olhos menos ignorantes. (ANDRADE & CORRÊA, 2009, p. 81)
Esta mensagem foi enviada de Águas da Prata, cidade turística onde ele
e a esposa Zulmira Corrêa faziam costumeiramente “estação de águas”, iam
para beber água pura e banhar-se em águas com propriedades medicinais.
Mesmo nas férias, Pio não se desligava das preocupações com as atividades da
fazenda. Além disso, esta carta também documenta, por assim dizer, o início
oficial da atividade de Mário, que já executava esporadicamente essa tarefa,
como correspondente literário oficial e, a partir de então, sempre enviou ou
deixou dinheiro para Mário comprar-lhe lançamentos ou encomendas.
A solicitação era para que Mário visitasse a “Casa Garraux: livraria
francesa de São Paulo, criada em 1860; [que] comercializava também chá,
rapé, tabaco, materiais de escritório e fazia encadernações” (ANDRADE &
CORRÊA, 2009, p.81), localizada à Rua 15 de Novembro, 250-256, região
central de São Paulo, para comprar um volume da “Encyclopédie Scientifique,
publiée sous la direction du Dr. Toulouse, que não consta da biblioteca da cole-
ção, provavelmente porque a maior parte das obras sobre o assunto foi doada
ao Dr. Olivério Mário de Oliveira Pinto e ao Departamento de Zoologia da
Universidade de São Paulo” (GUARANHA, 2007, p. 61), segundo informa-
ção de Antonio Candido. Além disso, na correspondência de Pio e Mário não
há a resposta do destinatário sobre a encomenda específica. Em outra ocasião,
9 de dezembro de 1931, Pio solicitou em carta um grande trabalho a Mário,
em busca de uma coleção portuguesa:
[e]u encontrei aí em S. Paulo, em mãos não sei de quem (o encontro foi
por intermédio da Livraria Brasil, que não nomeia o possuidor) uma co-
leção da Revista Lusitana, completa, até o volume 23. Preço – 800$000.
Como não são oito vinténs, não me convém adquirir a obra sem me cer-
tificar do estado dela. Por esse dinheirão, só a comprarei se estiver perfeita
de fato, isto é, se contiver ainda todas as indicações bibliográficas (está
encadernada, e os encadernadores são vandálicos às vezes), se tiver todas as
páginas, se não tiver recortes (é comum qualquer vândalo, não encaderna-
dor, cortar poesias ou pedaços de prosa, como fizeram aqui nos meus vo-
lumes da A Semana), e, enfim, se estiver de fato em perfeito estado, como
112
me afirmou a livraria – que está. Afirmou, mas... quem sabe? São tantos
volumes, são tantíssimas páginas, a gente às vezes é um tanto descuidoso
de minúcias... Mandei propor ao dono que me remetesse para exame os
10 primeiros volumes – que nestes principalmente concentra-se o meu
interesse: os outros, eu tenho perfeitos, e não se me dá de adquirir os ofe-
recidos ainda mesmo com alguns senões. O homem recusou, pretextando
coisas que não vêm ao caso referir. Mas prontifica-se a depositar a obra na
dita Livraria Brasil, para ser aí examinada por mim ou por uma pessoa de
minha confiança. Não posso ir a S. Paulo. Pessoa de minha confiança para
o caso – só V., V. só e não vejo outrem. É espiga, e grande, que o trabalho
de folhear 10 volumes de cerca de 300 páginas não é festa! Mas... Quer V.
fazer-me o estafante favor? E, querendo, poderá fazê-lo? (ANDRADE &
CORRÊA, 2009, p. 211).
Mário respondeu e Pio enviou nova mensagem tranquilizando o mo-
dernista quanto ao cumprimento da tarefa, uma vez que Mário informara
que estava adoentado e acompanhando os exames finais do Conservatório
Musical de São Paulo, onde era professor. Avisou que só poderia “folhear” a
coleção depois do dia 20 de dezembro. Mário cumpriu a missão, pois
[n]a Coleção de PLC encontram-se 35 volumes da Revista Lusitana –
Revista de Estudos Portugueses, arquivo de estudos filológicos e etnoló-
gicos relativos a Portugal, publicação do Museu Etnológico Português
e do Instituto Nacional de Investigação Científica de Lisboa. A coleção
de Pio deste importante periódico dirigido por Carolina Michaëlis de
Vasconcelos está encadernada em couro vermelho; vai de janeiro de 1897
a 1939. (ANDRADE & CORRÊA, 2009, p. 211).
Quanto ao outro periódico citado na carta do dia 9 de dezembro de
1931, A Semana, contou-nos Antonio Candido que
teve duas fases: a primeira, de 1885 a 1887, sob a direção de Valentim
Magalhães. Passando a outras mãos, acabou pouco depois. A segunda,
de 1893 a 1895, também era dirigida por Valentim, auxiliado por Max
Fleiuss. Desta, PLC tinha a coleção completa, que se perdeu com mui-
tos livros e revistas após a sua morte, ou pouco antes. (ANDRADE &
CORRÊA, 2009, p. 211).
113
Essas cartas ajudam a esclarecer como a biblioteca de Pio foi se forman-
do e se desenvolvendo, inclusive dá pistas sobre obras que não estão mais lá,
mas que faziam parte da seleção e das áreas de interesse do seu proprietário.
É possível constatar, então, que Pio, em sua vida e em seus estudos,
mantinha certos hábitos e valores herdados daquela consciência ilustrada à
moda do século XVIII e acrescida dos valores do tempo em que viveu, final
do século XIX e primeira metade do século XX. Esses hábitos revelaram-se
também nas relações que estabeleceu com intelectuais mais jovens com quem
conviveu, principalmente Mário de Andrade. Ambos liam, discutiam e ficha-
vam suas pesquisas, elaborando cada um a sua “enciclopédia particular”, tro-
cando informações, conhecimentos e anotações como dois “enciclopedistas”,
guardadas as devidas proporções.
O modernista, quando trabalhou no Instituto Nacional do Livro do
Rio de Janeiro, em 1939, chegou a projetar a sua enciclopédia: “a obra se-
ria similar à Encyclopédie francesa, do século 18, e à alemã Brockhaus, cuja
primeira edição é do início do século 19” (BRISO, 2009, s/p). O projeto
não foi concluído, pois, “após a morte do escritor, em 1945, colaboradores
só persistiram por mais cinco anos, sem ultrapassar os verbetes da letra ‘A’”
(BRISO, 2009, s/p). A Enciclopédia Brasileira, idealizada pelo modernista, só
seria concluída por uma equipe organizada pelo professor e tradutor espanhol
José Luis Sánchez e sua compatriota Meritxell Almarza, em 2009, com apoio
da Biblioteca Nacional e da editora espanhola Oceano.
Quanto a Pio Lourenço, o material que produziu a partir dos estudos
serviu de base não só para consulta e redação de suas Fichas de Linguagem,
publicadas no jornal O Imparcial de Araraquara, mas também para as quatro
edições de sua Monografia da palavra Araraquara (1936, 1937, 1940 e 1952);
para os artigos que publicou no jornal O Estado de S. Paulo; para textos pu-
blicados em revistas do Rio de Janeiro e de São Paulo; para revisar textos de
amigos e para atender a consultas destes amigos, assunto que será tratado em
seção posterior. Assim como planejava Mário, houve, conforme registro em
ficha, um momento em que a possibilidade de elaborar uma enciclopédia
também foi considerada por Pio.
114
Figura 22: Sumário de provável projeto de Enciclopédia elaborado por Pio Lourenço Corrêa.
Fonte: CPLC - Sala Pio & Mário - Biblioteca Pública Municipal Mário de Andrade -
Araraquara/SP. Foto tirada pela pesquisadora em janeiro de 2022.
Além de ilustrado e enciclopedista, outra característica de Pio, decor-
rente destas duas, é a de erudito, já que a erudição é “instrução, conheci-
mento ou cultura variada, adquiridos especialmente por meio da leitura
(HOUAISS, 2001, p.1190). Burke (2020, p. 20) aplica o termo, mais es-
pecificamente, ao “conhecimento acadêmico”, em que concentra os estudos,
destacando que analisará “os estudiosos [scholars] com interesses que eram
enciclopédicos’ no sentido original de percorrer todo o ‘curso’ ou ‘currículo
intelectual ou, de alguma maneira, determinado segmento importante desse
círculo”. Pio Lourenço não chegou a frequentar uma academia nem estudou
um currículo por determinação de um programa de formação institucional,
mas foi um autodidata interessado em variados assuntos. Desse modo, guar-
dadas as devidas proporções, é possível constatar pela produção deixada por
Pio certo caráter de scholar, ainda que, como ele mesmo se denominou, na
carta de 11 de março de 1922, apresentada neste trabalho, um scholar “um
by stander, um mirone” das ideias de seu tempo. O termo “by-stander”, aliás,
é bem significativo, pois pode ser entendido como expectador e, neste caso,
evocaria certa passividade do sujeito, desmentida pelas evidências do trabalho
prático realizado por Pio, direta ou indiretamente, em parte da obra de Mário
de Andrade; por outro lado, “by-stander” evoca também a ideia de “witness”,
115
testemunha, qualificação mais adequada para nosso pesquisado, figura cuja
passividade frente aos fatos que observa é atenuada pelo caráter de fiador ou
crítico daquilo que presencia, justamente a qualidade que o sujeito que dá
um testemunho adquire quando declara algo sobre o que testemunhou.
A erudição de Pio concentra-se, principalmente, na área da linguagem,
mas pode-se dizer que tem um viés interdisciplinar que transcende e é arti-
culado pelos conhecimentos linguísticos em que se revela proficiente. Pelos
títulos da biblioteca de Pio Lourenço, é possível constatar suas variadas áreas
de interesse: português, inglês, francês, zoologia, botânica, literatura portu-
guesa, literatura de viagens e expedições pelo Brasil; coleções de enciclopédias
e dicionários. Segundo Candido,
[i]ntelectual por vocação construiu aos poucos como autodidata um saber
de grande solidez e coerência, não apenas no terreno predileto dos estudos
linguísticos, mas também em ciências naturais chegando, inclusive, a usar mi-
croscópio nas suas investigações. (ANDRADE & CORRÊA, 2009, p.10).
Em relação ao interesse pelas línguas estrangeiras, remetemos o leitor
à história da contratação do nativo escocês, Mr. Ruxton, para ensiná-lo, em
tempo integral e hospedado em sua Chácara da Sapucaia. Pio, entretanto,
conhecia bem mais línguas, segundo Candido:
Pio Lourenço era dotado de um poder de concentração e de uma tena-
cidade mental que reforçavam a sua grande inteligência. Tinha facilida-
de excepcional para línguas dominando quatro: a espanhola, a italiana, a
francesa e a inglesa, essa, a predileta, aprendida metodicamente com um
escocês residente em Araraquara por alguns anos e que lhe transmitiu o
forte sotaque de seu país. (ANDRADE & CORRÊA, 2009, p.11).
Sujeitos que se dedicam a estudar com profundidade variados assuntos,
Peter Burke (2020) qualifica como polímatas, o que parece ser o caso de Pio
Lourenço Corrêa. Burke, em sua obra O polímata: uma história cultural de
Leonardo da Vinci a Susan Sontag, apresenta algumas distinções entre os tipos:
[t]alvez seja útil descrever alguns deles como passivos (em oposição a ati-
vos); circunscritos (em oposição a gerais); ou seriais (em oposição a si-
multâneos). Por polímatas “passivos” me refiro a indivíduos que parecem
116
saber tudo, mas não produzem nada (ou, pelo menos, nada de novo). Na
fronteira entre passivo e ativo estão os sistematizadores ou sintetizadores
[...]. A expressão polímata “circunscrito” constitui um óbvio oxímoro,
mas era necessário um termo para designar acadêmicos que dominam
algumas disciplinas relacionadas, seja em ciências humanas, naturais ou
sociais. Nas páginas que se seguem, esse tipo será descrito como “agrupa-
do”. Estudiosos que fazem malabarismos com vários assuntos mais ou me-
nos simultaneamente podem ser contrastados com aquilo que se poderia
chamar de polímatas “seriais” [...] – que pulam de um campo a outro no
decorrer de suas vidas intelectuais. (BURKE, 2020, p. 26)
O autor categoriza também os tipos “centrífugo, que acumula conhe-
cimentos sem se preocupar com as conexões, e o estudioso centrípeto, que
tem uma visão da unidade do conhecimento e tenta encaixar suas diferentes
partes em um grande sistema” (BURKE, 2020, p. 26-27). O primeiro grupo,
diz ele, possui “curiosidade onívora”; o segundo admira “a beleza da ordem
(BURKE, 2020, p. 27).
No estudo de Burke, ele chama a atenção para o fato de que “o conhe-
cimento dos indivíduos polímatas muitas vezes é exagerado” (BURKE, 2020,
p. 28) e de que os estudos sobre tais indivíduos “reforça[m] o mito do gênio
solitário que consegue fazer tudo sozinho” (BURKE, 2020, p. 29). Em deter-
minado momento, refere-se ao “erudito moderno”: “um virtuoso, um indiví-
duo com tempo e dinheiro suficientes para se dedicar ao objetivo de adquirir
diferentes tipos de saber como uma espécie de hobby” (BURKE, 2020, p.99).
Diante dessas categorizações de Burke, não tendo a intenção de cair
em uma rigidez reducionista, Pio Lourenço Corrêa parece ter sido um po-
límata “ativo” e “agrupado”, por vezes “centrífugo”, com sua “curiosidade
onívora”, outras vezes, centrípeto, por fazer questão da “beleza da ordem”.
De resto, como destacamos, os estudos linguísticos, pelo fato de as palavras
e as expressões darem conta da referenciação a fenômenos de todas as áreas,
também serviram para reforçar o caráter centrífugo do possível polimatismo
de Pio, uma vez que o conduziram às diversas áreas do conhecimento, bem
como serviram também para dar unidade centrípeta, por meio da prática do
registro sistemático de seus estudos mediados pela palavra escrita, já que es-
crever pode ser um ato, ao mesmo tempo, reflexivo e criativo e efetivamente
é no caso de Pio, pois ele registrou, em seus documentos, tanto paráfrases de
117
redução, meras sínteses dos conteúdos estudados, quanto de ampliação, com-
pondo pequenas resenhas, textos críticos dos estudos e, como já apontado, uti-
lizando-os para a produção de textos próprios que deram a ele certa autoridade
em determinados assuntos sobre os quais era frequentemente consultado.
Pode-se acrescentar ainda que foi, em certo sentido, ativo porque publi-
cou suas pesquisas de linguagem em periódicos, além das reiteradas edições de
sua Monografia da palavra Araraquara, que se preocupou em distribuir como
forma de divulgação. Também teria sido um polímata agrupado, pela variedade
de assuntos simultâneos a que se dedicou, colaborando com seus conhecimen-
tos de flora e fauna, entre outros, em diversas obras de Mário de Andrade. Além
dessas participações, como figura memorialista detentora de vastos conheci-
mentos, frutos da curiosidade onívora, Pio aplicava em suas propriedades e em
todas as atividades de que participava os conhecimentos adquiridos com seus
estudos (a beleza da ordem), que podem ser observados em carta a Mário, de
17 de abril de 1927 (ANDRADE & CORRÊA. 2009, p. 113):
Sobre jati:
Em S. Paulo é jeteí ou jataí; apesar de melador velho, em cuja mania
sempre me achei acompanhado de caboclos e pretos, nunca ouvi jati na
língua dos profissionais com que convivi. É uma abelha filiada (o Novo
Dic. não dá este termo1 ; e não pode desculpar-se com o fato de ser um
adjetivo particípio, porque destes traz inúmeros); mas é uma abelha filiada
ou pertencente ao gênero trigona, e o ninho não tem diferenças de maior,
quando comparado ao de outras congêneres. Não sei, pois, que coisa veria
o Roquette Pinto no caso. – Não pude conferir o passo que me aponta,
porque não tenho a 1a edição; a minha é a 2a , ali por perto não vi jatis.
Hei de voltar à carga quando tiver vagar.
Mando inclusa mais uma ficha. Amo tio Pio
Burke (2020, passim) elenca algumas características dos indivíduos po-
límatas que podemos encontrar em Pio Lourenço Corrêa. Em primeiro lugar,
podemos destacar a boa memória - característica própria de Pio, que pode ser
atestada pelas informações deu a Antonio Candido para o livro Os parceiros
do Rio Bonito (1964); casos que contou a Mário e que se transformaram em
contos, como “Caçada de macuco”, “Caso em que entra bugre”, “Caso pan-
çudo”, todos publicados no livro Primeiro Andar (1926); as colaborações ao
118
Álbum de Araraquara, de 1915 e 1948, com informações históricas e geográfi-
cas do início da cidade. Além disso, Pio também tinha a energia abundante que
caracteriza os polímatas, uma vez que administrava suas terras, suas produções,
estudava, pesquisava, anotava detalhadamente as informações; tinha a curiosi-
dade própria dessa figura descrita por Burke, pois estudava com profundidade
variados assuntos e comprava livros com muita frequência, como atestam as
cartas trocadas, principalmente, com Mário de Andrade. Essa curiosidade, por
sua vez, era aliada a outra importante característica, o poder de concentração,
que permitia que ele se dedicasse sempre aos estudos e à leitura minuciosa
das obras que adquiria. Outro aspecto característico que Pio revelou foi a in-
quietação, pois estava sempre atento a lançamentos de livros para adquiri-los e
gostava de analisar obras recém-lançadas; escreveu e reescreveu sua Monografia
da palavra Araraquara quatro vezes (1936, 1937, 1940 e 1952), sempre com
novas informações que enriqueciam o texto. Essa inquietação estava ligada à
velocidade própria do polímata: agia bem rápido quando recebia alguma in-
formação que era de seu interesse, bem como tinha o gosto pela competição,
sentia-se confortável em demonstrar o seu poder e liderava também o grupo
dos Conjurados, grupo de caçadores de Araraquara
11
.
Finalmente, outro aspecto pessoal que encontramos também em Pio
é a vontade de colaborar, de que são testemunho a correspondência com
Mário de Andrade, bem como a participação em diversas iniciativas cultu-
rais. Simultaneamente a essas características pessoais, o polímata surge em
condições históricas, sociais e geográficas específicas, em que possa, como fez
Pio, explorar, do ponto de vista intelectual, as boas condições de seu tempo,
do lugar onde nasceu e interagir com as pessoas próximas extraindo delas
aprendizado. O acesso a escolas, universidades e bibliotecas é fundamental na
constituição do polimatismo. No caso de Pio, embora não tenha conseguido
concluir os estudos universitários, criou suas próprias condições, desenvol-
vendo sua biblioteca, estudando e pesquisando por si. O ócio é outro fator
11
Pio também tinha o gosto pelo lúdico, gostava de trocar cartas com seu sobrinho Rafael Corrêa da
Silva (professor da Faculdade de Direito de São Paulo e um dos fundadores da Academia Paulista
de Letras, estabelecendo-se entre eles alguns desafios: às vezes, cartas nas línguas estrangeiras que
dominavam, outras vezes, cartas em que era proibido o uso de determinada vogal (informação
dada por Antonio Candido em palestra proferida no SESC de Araraquara, durante o lançamento
do livro: Pio & Mário: diálogo da vida inteira, em 2009).
119
relevante na formação de um polímata. Pio, apesar de trabalhar bastante em
suas terras e ter muitas frentes a administrar, tinha empregados e colonos, o
que lhe possibilitava momentos livres para estudo e lazer.
A respeito de como o ócio converteu-se em produção e como a produ-
ção de Pio, por sua vez, é possibilitada pelo tempo livre de que ele dispunha,
encontra-se nos arquivos, como exemplo, a Ficha “234 - Alfanete = alfinete;
somana = semana, sem lavar a cara…”. Nesse documento, Pio ressente-se
de que Novo Dicionário da Língua Portuguesa (FIGUEIREDO, 1913), não
registrava a forma medieval “alfanete”, que já fora registrada um século an-
tes no dicionário de Morais abonando-a, inclusive, por meio de fragmento
da Comédia Ulissipo, de Jorge Ferreira de Vasconcelos (1515-1585), escritor
renascentista de Portugal. De fato, consta em Moraes e Silva (1823, p. 95) o
verbete: “ALFANÈTE por Alfinete [que] vem na Ulisip. frequentemente
12
.
Figura 23: Ficha 234 - Alfanete = alfinete; somana=semana, sem lavar a cara (frente)
13
.
Fonte: CPLC - Sala Pio e Mário – Biblioteca Pública Municipal Mário de Andrade –
Araraquara/SP. Foto tirada pela pesquisadora, em janeiro de 2022.
12
A edição encontrada do Dicionário de Moraes é de 1823, talvez possa ter havido engano na anotação
da data na ficha.
13
Transcrição: “Não sei que sospeitas, e que novos receyos estes vosso agora são? / eu vejo vossas filhas
muito quietas, não ociosas, e bem descuydadas do mundo, / não vejo monta donde lobo saya: passa
a somana, e não lavão o rosto, / nem pregão alfanete.” / Jorge Ferreira de Vasconcellos, Comédia
Ulysippo, ed. de Bento Toxé / de Sousa Farinha, Lisboa, 1787, pag. 18. / Até a ed. de 1913, o Novo
Dic. não tinha dado guarida ao termo alfa- / nete, que o Morais, um século antes (1813), incluira
na sua obra, citando a [Co- / média] Ulisip., onde diz que vem frequentemente. Afinal, em 1926,
a 4ª / ed. do Novo Dic. dá o termo como “colhido em Villa-Chau”. Vê-se que a / colheita não foi
de coisa nova - ma foi proveitosa, porque provou que / a fórma vocabular não foi ainda de todo
suplantada pela alfinete. (Segue no verso).
120
No verso da ficha, Pio reclama também do esquecimento do próprio
Moraes e Silva da forma alternativa do vocábulo “semana”, a forma “soma-
na”, que afirma ser ainda “voz viva na língua do povo brasileiro”. Na verdade,
Moraes (1823, p. 703) registra o verbete “SOMÀNA. V. Semana Card. Dicc.
Barb. Dicc. Per.” em que remete o leitor ao verbete “semana”, apenas não o
abona por meio da citação de Ferreira de Vasconcelos. Perceba que a crítica
de Pio recai sobre o fato de os dicionaristas “não darem abrigo” ao vocábulo
por serem “mal-informados”, ou seja, por suporem a forma semana “uma
corruptela sem credenciais”. Neste ponto, percebe-se a opção de Pio que se
apoia nos clássicos: tendo sido o termo utilizado por Ferreira de Vasconcelos,
é legítimo e, estando em uso na fala popular, não é obsoleta.
Figura 24: Ficha 234 - Alfanete = alfinete; somana=semana, sem lavar a cara (verso)
14
.
14
Transcrição: O trecho de Jorge Ferreira retro transcrito, dá-nos mais outra fórma / vocabular, ainda
hoje corrente na língua popular brasileira, e que o Novo / Dic. não inclúe: semana. Este vcb. nem
o próprio Morais viu na / Ulisip, pois que não o inclúe. Viu-o algures o Constâncio, ed. 1877, que
/ lhe põe taxa de obsol. (obsoleto) e remete o consulente para semana. / Vê-se que os dicionaristas
andam todos mal informados da / semana: uns não lhe dão guarida, supondo-a uma cor- / ruptela
sem credenciais, quando de facto é voz viva na língua do / povo brasileiro; outro taxa-a de obsoleta,
o que também não é exacto. / E eu, num dia de ócio, faço esta ficha - destinada com segu- / rança a
desaparecer no bolor da inédita colecção, para onde vou / agora mesmo atirá-la, sem dar a saber ao
mundo que entre as virtudes / das filhas deste heroi, estava a de não lavarem a cara!...
121
Fonte: CPLC - Sala Pio e Mário – Biblioteca Pública Municipal Mário de Andrade –
Araraquara/SP. Foto tirada pela pesquisadora, em janeiro de 2022.
No final das anotações, Pio faz uma referência bem-humorada ao ócio
produtivo que possibilitou sua pesquisa: “E eu, num dia de ócio, faço esta
ficha - destinada com segurança a desaparecer no bolo da inédita colecção,
para onde vou agora mesmo atirá-la, sem dar a saber ao mundo que entre as
virtudes das filhas deste heroi [Ulissipo], estava a de não lavarem a cara!...”.
A posição social de Pio dava-lhe outra facilidade, além do ócio, de
que necessita o polímata, condições financeiras: como fazendeiro, cafeicultor,
criador de gado, dispunha de rendimentos que lhe possibilitaram a compra
de livros e outras atividades intelectuais. Quanto a este aspecto, chama a
atenção, em seus livros, as notas de compra ou de encadernação afixadas
com alfinete nas folhas de guarda; outras vezes, ele anotava “este livro custou
R$.....”. O que a princípio pareceu uma preocupação histórica ou hábito de
um perfeccionista que não deixava escapar nenhum detalhe, mas pela in-
sistência com que ocorre, levou-nos a pensar que ele queria que soubessem
o valor monetário de sua biblioteca, quanto custava cada livro da coleção.
Assim como em outras situações de sua vida, preço e apreço parece que ca-
minhavam juntos.
122
Figura 25: Nota fiscal da Encadernadora Santos.
Fonte: CPLC - Sala Pio & Mário - Biblioteca Pública Municipal Mário de Andrade -
Araraquara/SP. Foto tirada pela pesquisadora em outubro de 2019.
123
Figura 26: Anotação de Pio na folha de rosto do livro de Augusto Magne - A demanda do Santo
Graal. V.1. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1944
15
.
Fonte: CPLC – Sala Pio & Mário - Biblioteca Pública Municipal Mário de Andrade –
Araraquara/SP. Foto tirada pela pesquisadora em outubro de 2019.
15
Transcrição: No Boletim de Filologia, tomo VIII, / fascículo II, Lisboa, 1946, há, nas pags / 157,
158 e 159 uma apreciação crítica desta / obra, da lavra de Rodrigo de Sá Nogueira / e bastante
desfavorável. / As razões e considerações em que o crítico / baseia o seu voto desfavorável são valiosas
e con- /vincentes. Estou com o crítico: - o Instituto do Livro / e o Pe. Magne, penso eu, puseram
fora o seu dinheiro / e o seu tempo… Em Filologia, êste país é realmente / caipora! Irra!... / Esta
manifestação (ou este manifesto?) manus- / crita é de autoria do 1º proprietário dos volumes, e /
representa o chôro do seu dinheiro (perdido? /Mal empregado?) - vá: perdido!...
124
Além de todas essas características pessoais e circunstâncias que o apro-
ximam da figura de um polímata, Pio contou ainda, ao longo da vida, com o
incentivo familiar. Ainda que tenha sido impedido pelo irmão mais velho e
tutor de prosseguir os estudos em São Paulo, com o tempo, outros membros
da família passaram a admirá-lo como estudioso, filólogo, tendo-o inclusive
como conselheiro. É possível também que certo desapontamento por não ter
completado os estudos possa ter estimulado o seu desejo de se tornar ou se
manter um intelectual, cercado que era de outra circunstância importante
da figura do polímata apontada por Burke (2020), o círculo de amigos que
o estimulavam. Pio teve muitos, além de Mário de Andrade, entre: Antonio
Candido, Dr. Olivério Mário de Oliveira Pinto, Gilda de Mello e Souza,
Gladstone Chaves de Mello.
Burke (2020), destaca, ainda, um importante “nicho para polímatas”:
o jornal ou periódico cultural, especialmente para aqueles que preferem a
liberdade do trabalhador freelancer à relativa segurança de uma instituição
(BURKE, 2020, p. 319). Os jornais foram justamente os veículos em que Pio
mais se destacou. As publicações em periódicos de Araraquara (O Imparcial e
Correio Popular), São Paulo (O Estado de S. Paulo, Diário Nacional, Revista do
Arquivo Municipal de São Paulo e Folha da Manhã) e Rio de Janeiro (Revista
Papel e Tinta, Revista Esfera, Revista de Cultura, Revista Bellas Artes), serviram
para exercitar a escrita e para divulgar os seus conhecimentos e, de certa for-
ma, incluir também seu nome no rol de intelectuais da primeira metade do
século XX. Além disso, apesar de Pio não ter sido protagonista em alguns
eventos culturais ou históricos, ele participou como coadjuvante, acompa-
nhando e colaborando no trabalho de diversos intelectuais.
Além do pendor para o polimatismo, há outros traços da personalidade
de Pio que são relevantes. Figura peculiar e discreta, Pio Lourenço Corrêa
instiga a curiosidade de quem toma conhecimento de sua existência, seja
pela rede de saberes a que se dedicou, seja pelo círculo de amigos com quem
conviveu, seja, pelos traços idiossincráticos de sua personalidade. Candido
(ANDRADE & CORRÊA, 2009, p. 11) descreve, em tom quase literário, as
características de Pio:
[p]ersonalidade originalíssima, com toque de excentricidade, era peque-
no, magro, de feições corretas, voz grave bem empostada a serviço de uma
125
dicção perfeita. Tinha um olhar penetrante que parecia sempre comandar,
exprimindo um temperamento autoritário como poucos. Em contraste
com o aspecto severo e certa rispidez, possuía grande senso de humor, se
divertia com facilidade e era conversador incomparável. Economicamente
abastado pelo próprio esforço, encarava o dinheiro como instrumento a
serviço das suas necessidades, da sua generosidade e dos muitos requintes,
não se preocupando em acumulá-lo.
Ouvimos, também de Antonio Candido, que Pio, quando chegava a
um hotel, sua primeira atitude era pegar uma nota de dinheiro valiosa, ras-
gá-la ao meio e dar metade ao criado do quarto. Se o atendimento fosse
bom, ao final da hospedagem, entregava a outra metade. Também teria se
desentendido com um vendedor de uma loja na cidade de São Paulo. Ao
perguntar o preço de um abajur em formato de coruja, o vendedor, em vez de
dizer o preço, teria comentado: “Essa peça é muito cara!”. Pio repreendeu-o,
dizendo que não queria saber se era ou não era cara, queria saber o preço e
acabou comprando o abajur, somente para provocar o atendente (o que nos
parece mais uma preocupação em demonstrar poder e superioridade). A essas
idiossincrasias somam-se casos como o do retrato, o da mala do escocês, que
acentuam o caráter rígido de Pio em que se sobressai como característica o
peso que atribuía à sua palavra fosse na intimidade familiar, nos negócios, na
administração das fazendas ou na postura diante da vida, bem como certo
pendor autoritário sustentado pelo poder econômico que tinha.
Entre várias histórias, uma em particular retrata bem certo traço idios-
sincrático da personalidade de Pio e o valor que ele dava à palavra. O “caso
tem relação com “José Maria Paixão (?-?), um português que se tornou fa-
zendeiro em Araraquara, casado com Zulmira Corrêa Vaz (?-?), sobrinha de
Pio, xará e a melhor amiga da esposa deste” (GUARANHA, 2007, v.1, p. 69,
nota 1). Renato Rocha (1927-2014), sobrinho de Pio, herdeiro da Chácara
da Sapucaia e da Fazenda São Francisco, em seu depoimento, lembrou de um
episódio em que Pio, em conversa informal com o amigo José Maria Paixão,
queixou-se do cansaço que lhe dava a fazenda São Francisco. Perguntado por
que razão não a punha à venda, respondeu que assim faria, se conseguisse
quem lhe pagasse 200 contos. A resposta de Paixão foi – “Pois a fazenda é mi-
nha!”. Pio não se preocupou até que, no dia seguinte, recebeu o comprovante
126
do depósito bancário, equivalente ao sinal da compra a ser quitada quando
o fazendeiro quisesse, pois era sabido dos conhecidos que Pio não aceitava
pagamentos em cheque, tendo uma frase de efeito para justificar isso: “Eu
nunca vou me afogar, pois não entro em canoa furada!”. Aliás, frases de efeito
para diferentes situações eram outra característica dele.
Pio ficou estarrecido, pois sua declaração havia sido uma força de ex-
pressão, mas Paixão, pelo menos assim pareceu, como que se aproveitou do
momento para ficar com a fazenda. O conflito foi grande, pois Pio tinha real-
mente declarado que venderia a fazenda e a palavra para ele tinha mais valor
do que o dinheiro envolvido. Voltar atrás seria uma desonra.
Foi aconselhado, então, pela cunhada Hilda Gomes Corrêa da Rocha
(1894-1980) a comprar de volta a palavra empenhada. Concordando com a
ideia, fez a proposta a Paixão, que aceitou a negociação e apresentou o preço
do resgate: uma lista enorme de “desejos”: automóveis, dinheiro etc.
Pio cumpriu à risca todas as exigências e ficou satisfeito por ter recu-
perado a palavra empenhada, que era coisa muito séria para ele, e também
ficou feliz por não ter perdido a fazenda. Com o rompimento da amizade, as
respectivas mulheres, ambas batizadas Zulmira, muito amigas, não puderam
mais se falar. Além disso, Paixão recebeu uma carta feroz de Pio, segundo
testemunho de Renato Rocha, externando toda a sua raiva e a sua frustração
(GUARANHA, 2007, v. 1, p.113).
Essas histórias ou “casos” revelam, para além das idiossincrasias desse
personagem, um modo de se posicionar em relação à palavra dada, aos negó-
cios e às relações de amizade com um rigor que, se parece excessivo em alguns
momentos, em outros parece fundado naquele preceito da civilidade de um
homem ilustrado, erudito e polímata. Pio deu valor à palavra em suas várias
dimensões, como compromisso moral, como forma de manutenção do poder e
como elemento que resgata a memória e produz conhecimento. Neste aspecto,
cabe destacar outro hábito de uma vida inteira de Pio, o de colecionador.
2.3 A Coleção Pio Lourenço Corrêa
A Biblioteca Pública Municipal de Araraquara, de acordo com o site
oficial da instituição, “foi fundada em 23 de outubro de 1942, por meio
do Decreto-Lei nº 49, na gestão do Prefeito Dr. Camilo Gavião de Souza
127
Neves”. A inauguração deu-se em 1º de agosto de 1943, seu funcionamento
já teve início em 2 de agosto de 1943 e “foi o escritor Mário de Andrade
que incentivou e intermediou junto ao Prefeito da época para a criação da
Biblioteca Municipal, doando 600 livros de sua coleção particular para com-
por o acervo” (BPMMA, 2019).
O escritor, que havia sido diretor do Departamento de Cultura do
Município de São Paulo, de maio de 1935 a novembro de 1937, na gestão do
prefeito Fábio Prado (1887-1963), solicitou ainda aos seus amigos escritores
que doassem livros para a biblioteca. Assim, é possível encontrar, no acer-
vo, primeiras edições com dedicatórias de Manuel Bandeira (1886-1968),
Cecília Meireles (1901-1964), Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)
entre outros. Após a morte do modernista, a biblioteca passou a chamar-se
“Biblioteca Pública Municipal ‘Mário de Andrade’, pelo Decreto-Lei nº 24,
de 19 de setembro de 1945”, sendo ele seu patrono (BPMMA, 2019).
Uma visita ao site da Prefeitura Municipal de Araraquara (PMA –
2019) revela a importância do esforço de Mário para que a cidade tivesse
uma biblioteca e como esse esforço teve continuidade, haja vista o acervo
atual da instituição: [a] Biblioteca Municipal (...) recebeu o nome de Mário
de Andrade, que incentivou a criação da Biblioteca, doando 600 exemplares
de seu acervo pessoal. (PMA, 2019)
Quanto à área reservada a Pio, a que nos referimos neste trabalho, na
página da Internet que descreve especificamente a Biblioteca Pública Municipal
Mário de Andrade, de Araraquara (BPMMA, 2019), consta que
O acervo da sala é composto por obras raras, principalmente sobre li-
teratura e línguas portuguesa e brasileira. Inclui vários livros de Mário
de Andrade, em sua 1ª edição, com dedicatória, que o escritor doou a
seu parente, o filólogo Pio Lourenço Corrêa, e também abriga os livros
que Mário de Andrade doou à Biblioteca, bem como a mesa onde ele
rascunhou sua famosa obra “Macunaíma”, enquanto passava as férias de
18 a 23 de dezembro de 1926, na Chácara Sapucaia, onde morava Pio
Lourenço Corrêa. Como gostava de escrever à noite, levava essa pequena
mesa para o banheiro e, com portas fechadas, passava as madrugadas es-
crevendo, tendo a certeza de que as luzes acesas não incomodariam Pio
Lourenço e sua esposa Zulmira.
128
A Coleção Pio Lourenço Correa está depositada nessa sala especial da
instituição, antes Sala Pio Lourenço Corrêa, que ganhou o nome de Sala
Mário & Pio a partir de 2013, pois foram recolhidos ali também os livros
doados por Mário para a abertura da biblioteca, pela necessidade de resguar-
dar o material que ganhou caráter histórico, além do acervo de Pio, classifi-
cado pelos organizadores como Coleção Pio Lourenço Corrêa. Esta coleção é
composta por móveis (5 estantes, escrivaninha e cadeira), 1339 livros, 7232
imagens de fichas de estudo, recortes de jornais e papéis avulsos. Esse espaço,
campo de nossa pesquisa, constitui uma fonte indispensável para o resgate
da memória da cidade, de aspectos da vida intelectual da Belle Époque, da
história da própria biblioteca, da presença e participação do modernista no
desenvolvimento cultural da cidade, do percurso de aprendizagem de Pio e
de aspectos da história da educação no período.
Certamente, a conexão intelectual, mais do que simplesmente a fami-
liar ou afetiva, entre Mário de Andrade e Pio Lourenço Corrêa, materializada
inclusive no nome da sala, foi responsável pelo empreendimento, o que nos
leva à conclusão de que Pio foi peça-chave para a execução desse projeto cul-
tural ou, dito de outro modo, o personagem sem o qual a cidade não teria
uma biblioteca constituída por um acervo sui generis como é a de Araraquara.
Esse tipo de instituição, herança de Pio, tem uma estreita conexão com o
ensino, levando-se em conta
a biblioteca como coleção de livros e impressos que guarda as marcas de
seu processo de constituição, desde o projeto que lhe deu origem ao pro-
cesso peculiar de composição ou de recomposição que os acervos sofrem
ao longo do tempo: a definição do público; os critérios de seleção dos
saberes e materiais para sua composição; os princípios que ordenam suas
coleções; as classificações e as estratégias de acessibilidade aos materiais
colecionados; a imposição de políticas de gestão, a recomposição e a con-
servação dos acervos etc. são passíveis de reconstituição pela análise atenta
de seu próprio conjunto material. (NERY, 2016, p.239).
Considerando-se ainda que a Sala Mário & Pio representa, além de
repositório de conteúdos, repositório de memória e incubadora de novas
ideias, podemos afirmar que Pio, de modo consciente, contribuiu muito para
a educação em sua cidade e, de modo mais amplo, para a cultura em geral, o
129
que justifica o espaço reservado à sua coleção na biblioteca e justifica também
esforços para a conservação e até ampliação desse espaço, esforços que depen-
dem de políticas públicas na área municipal da cultura.
A coleção será comentada neste trabalho com o intuito de preservá-la e
divulgá-la, destacando-se seus elementos mais significativos para a área desta
pesquisa, que é a Educação ou, mais especificamente, Filosofia e História da
Educação, na seguinte ordem: em primeiro lugar, os textos autorais de Pio,
os que foram publicados e as pesquisas registradas nas fichas, que nos dão
pistas da construção de suas ideias como linguista; em segundo, anotações
em livros, dedicatórias, fichas, bilhetes e envelopes que registram o diálogo
que estabeleceu com intelectuais eminentes em sua época, comprovantes de
seu círculo de amizades e de interesses variados, o que o caracteriza, em certo
sentido, como polímata; em terceiro, especificamente as fichas, documentos
que atestam seu método de estudo como autodidata e, na verdade, permeiam
todos os demais itens; e em quarto, os livros de sua biblioteca, a quantidade,
a variedade de títulos, os assuntos predominantes, sua preocupação em enca-
derná-los, suas anotações e a presença de alguns exemplares raros, completan-
do sua figura como bibliófilo.
2.3.1 O colecionador de palavras e a palavra preferida: “Araraquara
Pesquisando as milhares de fichas de estudos de Pio Lourenço com
anotações sobre autores e assuntos diversos, observamos que há muitas de-
las que possuem somente o título e também que há muitos títulos repetidos.
Primeiramente, há a possibilidade de um mesmo assunto precisar ser incluído
em seções diferentes; outra possibilidade é ele ter “passado a limpo” as fichas e
guardado ambas, as rascunhadas e as definitivas; é possível também ele ter feito
cópias das fichas para dar a alguém ou para enviá-las para sua coluna do jornal
O Imparcial; mas, em muitas delas, só há o registro de uma palavra encabeçan-
do o papel, sem nenhum desenvolvimento do tema ou qualquer outra infor-
mação; outra possibilidade, ainda, é Pio ter feito uma enumeração de palavras
que entrariam em seu projeto de enciclopédia, indicado em uma das fichas que
apresentamos quando comentávamos o perfil enciclopédico de Pio.
De qualquer modo, esse hábito registrado nas fichas sugere que ele foi,
efetivamente, um amante das letras, que é o sentido etimológico, mais amplo,
130
daquele que se dedica à filologia. Dentro dessa atividade de filólogo, Pio de-
dicou-se, mais especificamente, ao estudo metódico e, tanto quanto possível,
pautado nos debates científicos contemporâneos a ele, do desenvolvimento
da língua portuguesa, inspirado pelo viés linguístico, aquele que reflete sobre
os fatos da língua, o uso, em detrimento do estritamente gramatical, estudo
que se debruça exclusivamente sobre a normatividade conforme atesta a ficha
“234 - Gramático e Linguista”:
Figura 27: Ficha 234 - Gramático e linguista
16
Fonte: CPLC - Sala Pio e Mário – Biblioteca Pública Municipal Mário de Andrade –
Araraquara/SP. Foto tirada pela pesquisadora, em janeiro de 2022.
Ainda que certos termos em seu discurso possam ser relativizados,
como “classes ignorantes”, expressão usada para (des)qualificar aqueles que
não tiveram acesso à norma culta da língua, é bastante significativo que Pio
defendesse estudos de caráter linguístico, uma vez que fora educado num
16
Transcrição: O gramático não admite as formas vocabulares can- / dieiro, arrieiro, cangáia – porque
são corruptelas. Eles querem / tudo direitinho, pela lógica e pelas derivações regulares. / Já o
linguista admite-as, porque são factos da língua, de / grande ou de pequena envergadura no tempo
e no espaço. Lá por- / que as classes ignorante e analfabetas dizem no Brasil cangáia, / e as classes
mais polidas dizem cangalha, não deixam os linguistas / de reconhecer a existência dos dois factos.
Para o gramático, porém, / cangaia, candieiro, etc são erros, e por isso inadmissíveis na / língua. /
Este exemplo esclarece bem a distinção entre os / pareceres do linguista e do gramático. A língua é
uma coisa, / a gramática é outra.....
131
tempo em que se privilegiavam os estudos gramaticais e que o português
brasileiro não era abalizado pelo uso, mas pelos clássicos lusitanos. O próprio
Pio recorreu sempre a clássicos portugueses, Camilo Castelo Branco e Eça de
Queirós entre outros, para abonar seus estudos, em muitas fichas.
As ideias de Pio, aliás, são afeiçoadas ao perfil ideológico de Camilo
Castelo Branco que, não por acaso, frequenta muitas de suas fichas. Camilo foi
um escritor do Romantismo, movimento que “[a]o instaurar uma nova con-
cepção de História e, consequentemente de cultura, (...) realiza uma pesquisa
tanto formal quanto linguística que pode ser vista como uma contestação à ti-
rania da retórica neoclássica” (VECHI et. al, 1994, p. 24). O estilo de Camilo,
ainda que seja marcado pelo “apuro da linguagem” (VECHI et. al, 1994, p.
64), faz concessão ao gosto do público consumidor de romances e novelas da
época, bem como, do mesmo modo que outros escritores românticos, pende
entre o clássico e o popular privilegiando, contudo, o estilo considerado culto:
“Se é um facto a larga margem de espontaneidade da criação camiliana, a sua fi-
delidade às raízes peninsulares, o seu casticismo local, não exageremos: Camilo
aprendeu com Sue e com Balzac” (COELHO, 1987, p. 161).
A ficha “201 - O povo é clássico”, atesta as ideias de Pio relativas à
interação entre o popular e o clássico que foram herdadas da visão romântica
e aprofundadas nos períodos posteriores, chegando até o período em que ele
viveu a além.
132
Figura 28 - Ficha 201 - O povo é clássico: cfr. os nºs 241.
17
Fonte - CPLC - Sala Pio e Mário – Biblioteca Pública Municipal Mário de Andrade –
Araraquara/SP. Foto tirada pela pesquisadora, em janeiro de 2022.
Articulado ao tema da ficha anterior, os estudos filológicos de Pio fo-
ram dedicados também à persistência de formas arcaicas na fala popular e do
registro dessas formas nos dicionários, nas gramáticas e nos tratados sobre a
língua, conforme exemplificamos por meio do comentário da ficha “234 -
Alfinete = alfanete…”.
O estudo das interações entre a linguagem literária e a linguagem po-
pular, debate presente no âmbito do Modernismo, também é registrado por
Pio em algumas fichas. Tomamos como exemplo a “201 Linguagem literária
e linguagem popular”, em que ele registra argumentos em favor de que “a
língua do povo não é corrompida” e de que a linguagem literária não é, neces-
sariamente, repositório de uma forma “não corrompida” de praticar a língua.
17
Transcrição: “Apresigo, nas províncias do norte, diz o mesmo que conducto. / É boa palavra, porque
tem a chancella do mais clássico povo de / Portugal.” / Camilo, A bruxa do Monte Cordova, Lisboa,
1924, pag. 11, nota. / “Quando sábios discutem, nunca será descabido invocar o / sábio mestre das
línguas, o Povo:.......” / Afrânio Peixoto, in Lusitania, vol. 2º, pag. 213. / Conf. Cláudio Basto, A
linguagem de Camilo, Porto, 1927, pag 41 e / segs., onde se vê o trecho de Camilo supra, e outros
ainda, alem de / opinião própria, concorda com a do mestre.
133
Figura 29 - Ficha 201 - Linguagem literária e linguagem popular.
Fonte: CPLC - Sala Pio e Mário – Biblioteca Pública Municipal Mário de Andrade –
Araraquara/SP. Foto tirada pela pesquisadora, em janeiro de 2022
Além das interações entre a língua culta e a popular, a cotidiana e a li-
terária, Pio dedica-se também ao estudo de temas relativos às línguas nativas,
à questão da língua-geral ou tupi escrito, termo este que adota preferencial-
mente para se referir à língua usada pelos jesuítas no tempo da catequização,
o que sugere conhecimentos de Pio a respeito das variantes linguísticas decor-
rentes dos registros oral e escrito, neste caso; e formal e informal, nos casos
comentados anteriormente. Seus estudos também envolvem as questões his-
tóricas e morfológicas, baseadas em registros escritos, conforme testemunham
as fichas de leitura crítica de obras originais e de seus comentadores. Deste
trabalho, tomamos como exemplo a Ficha “202 Tupi”, cujo comentário de
Pio Lourenço aponta, por meio da dupla interrogação (??), a incoerência de
Couto Magalhães quando este fala dos “numerosos erros” no Dicionário tupi
de Gonçalves Dias e, em seguida, classifica-o como “Extremamente útil para
quem estuda a língua”.
134
Figura 30 - Ficha 202 - Tupi.
18
Fonte: CPLC - Sala Pio e Mário – Biblioteca Pública Municipal Mário de Andrade –
Araraquara/SP. Foto tirada pela pesquisadora, em janeiro de 2022.
Estudos morfológicos da língua tupi também estão registrados nas fi-
chas, como no documento datilografado “00 - Reuatuatá (tupi), em que Pio
descreve o processo de formação do superlativo na língua nativa. A ficha faz
referência, ainda, ao trocadilho irônico do Manifesto Antropófago, de Oswald
de Andrade, publicado no primeiro número da Revista de Antropofagia, em
1° de maio de 1928: “Tupy or not Tupy, that is the question” (TELES, 1987,
p. 353).
18
Transcrição: 202 - Tupi: / Do livro O Selvagem, de Couto Magalhães, ed. / de São Paulo, 1913,
muito importa ler: / -> Tupi e guarani, pags. 87 e 88. / -> Sobre o dicionário tupi, de Gonçalves Dias
(hoje já / publicado na Revista de Língua Portuguesa), informa o / livro do Gal. Couto Magalhães
que “é o mais extenso, / mas tem numerosos erros e muitas repetições” (pag. 296) / Diz isso, e
acrescenta: “Extremamente útil / para quem estuda a língua.” (??)
135
Figura 31 - Ficha 00 - Reuatuatá (Tupi)
19
Fonte: CPLC - Sala Pio e Mário – Biblioteca Pública Municipal Mário de Andrade –
Araraquara/SP. Foto tirada pela pesquisadora, em janeiro de 2022.
Esses exemplos colhidos entre numerosos outros revelam que Pio era
um colecionador de livros, de textos e de palavras, mas que não as colecio-
nava apenas como um “basbaque” ou “mirone” e sim com a finalidade de
confrontar os diferentes textos, colocar em diálogos as diferentes correntes de
pensamento e emitir juízo de valor, fundamentado em honesto estudo, acerca
das questões tratadas pelos estudiosos.
Entre as fichas com anotações sobre livros, expressões, usos da língua,
pessoas entre outros temas, há também uma grande quantidade de registros
somente de palavras colecionadas para algum uso que não foi concretizado
ou que serviam apenas, talvez, para remeter, como índice, ao tema referen-
ciado na ficha, cujo conteúdo já estava memorizado. Esse procedimento tem
relação com a prática de “filólogo”, pela qual ficou conhecido na cidade,
tanto no sentido de estudioso da língua como de pessoa letrada, erudita.
Colecionar palavras era, portanto, talvez algo mais que um mero diletantis-
mo de Pio, e talvez fosse ainda um recurso para não se esquecer dos inúmeros
projetos embrionários que povoavam sua mente de polímata. Essa habilidade
19
Transcrição: FICHA 00 - / Reuatuatá (Tupi), de uatá, andar - vou andando / passeio. / É outro exemplo
- em tupi - da duplicação de / radical para enfatizar a idéia de superlativo / ou repetição de ação. / Ver
também: / morfologia do tupi, ficha n. 289 / Oswald de Andrade: “Tupi or not tupi”, 1924.
136
com a palavra e, por extensão, com a linguagem, reafirma o poder material,
econômico e patriarcal de Pio por meio do capital simbólico que o domínio
das linguagens, notadamente a verbal, confere a ele.
Bourdieu (2004, p.160-161) analisa esse tipo de saber e destaca o
quanto o domínio da linguagem reitera as relações de poder dentro de um
espaço social, ainda que seja um poder simbólico:
[...]do lado objetivo [...] os possuidores de um domínio refinado da língua
têm mais possibilidade de serem vistos nos museus do que aqueles que são
desprovidos desse domínio. Do lado subjetivo, ela [a percepção do mundo
social] é estruturada porque os esquemas de percepção e apreciação, em
especial os que estão inscritos na linguagem, exprimem o estado das re-
lações de poder simbólico [...], que estruturam o juízo de gosto nos mais
diferentes domínios.
O que distingue nosso pesquisado dos demais componentes do seu
grupo social é exatamente aquilo que o reafirma enquanto parte desse grupo
e coloca-o em posição de destaque, portanto de poder, dentro desse mesmo
grupo. A respeito da extensão desse capital simbólico, Bourdieu (2004, p.
163) afirma que:
[o] capital simbólico não é outra coisa senão o capital econômico ou cul-
tural quando conhecido e reconhecido, quando conhecido segundo as
categorias de percepção que ele impõe, as relações de força tendem a re-
produzir e reforçar as relações de força que constituem a estrutura do espa-
ço social. [...] Assim, os títulos de nobreza, bem como os títulos escolares,
representam autênticos títulos de propriedade simbólica que dão direito
às vantagens do reconhecimento.
Pio Lourenço, apesar de não ter o título acadêmico que no tempo dis-
tinguia, e ainda hoje distingue, muito seus portadores, tornou-se autodidata,
recebendo o reconhecimento público por meio do acúmulo e da produção
de conhecimento. Pode-se considerar que os títulos conferidos pelos cargos
de vereador da cidade (1899-1901) e presidente da Câmara de Vereadores
(1901-1902), em certo sentido, valem como substitutos do título acadêmico
e funcionam, no plano social que transcende o círculo familiar de Pio, como
um reconhecimento de sua autoridade:
137
[a] nominação oficial, isto é, o ato pelo qual se outorga a alguém um títu-
lo, uma qualificação socialmente reconhecidos, é uma das manifestações
mais típicas do monopólio da violência simbólica legítima, monopólio
que pertence ao Estado ou a seus mandatários. Um título como o título
escolar é capital simbólico universalmente reconhecido e garantido, válido
em todos os mercados. (BOURDIEU, 2004, p.163-164).
O estudo da coleção de livros de Pio serve de estímulo a todo e qualquer
visitante; seu método de estudo, que põe em diálogo vários autores, serve de
exemplo àqueles que buscam um conhecimento fundamentado em diversas fon-
tes; seu polimatismo, por sua vez, serve como exemplo àqueles que se dedicaram
apenas a assuntos restritos. Seria, no entanto, ingênuo pensar que ele poderia ter
realizado tudo isso se não tivesse certos privilégios financeiros ou sociais, se não
tivesse um capital econômico que lhe servisse de lastro para o desenvolvimento
de seu capital cultural. Ambos lhe garantiram o poder simbólico o qual, em cer-
to sentido, explica algumas de suas idiossincrasias. O pensamento progressista,
ainda que cambiante, no plano da linguagem convive com certa mentalidade
aristocrática no campo dos costumes, que é própria da elite brasileira.
Segundo Bourdieu (2004, p.166-168), “o poder simbólico [...] por ex-
celência é o poder de fazer grupos (grupos já estabelecidos que é preciso con-
sagrar[...])” e ele deve estar “fundado na posse de um capital simbólico”, que
é um “crédito”. Esse poder de que fala o autor é o “poder de impor às outras
mentes uma visão antiga ou nova” e só é “atribuído àqueles que obtiveram
reconhecimento suficiente para ter condição de impor o reconhecimento: o
poder de constituição [...] um porta-voz autorizado [...], o poder simbólico é
um poder de fazer coisas com palavras”. E termina: “[o] porta-voz é substitu-
to do grupo que existe somente através dessa delegação e que age e fala através
dele. Ele é o grupo feito homem”. Nesse sentido, Pio pode ser considerado a
metonímia de uma elite cafeeira ilustrada que construiu a sociedade paulista
e paulistana do modo que a percebemos hoje: uma sociedade moderna, pro-
gressista, que valoriza a técnica, a cultura letrada, por um lado e, por outro,
uma sociedade cuja parcela mais abastada conserva certa nostalgia do mundo
aristocrático, de uma sociedade, por assim dizer, ainda estamental, para a
qual o capital cultural, em certo sentido, confere pátina de humanidade a
determinadas práticas de exploração do trabalho pelo capital.
138
Pio Lourenço pôde trabalhar com as palavras por fazer parte de um
grupo que o reconhecia (e até o admirava) como autoridade linguística, mas
também deviam reverência a ele como figura de poderio financeiro (lembre-
mos de outros fatos protagonizados por ele, como as relações com os criados
de hotel, o relacionamento amoroso com Marcolina, a administração rigoro-
sa dos Conjurados etc.). Com os pés bem fincados num poder material ins-
tituído, figurou como um intelectual e, talvez, até com certo exotismo (bem
ao gosto da modernidade conservadora em que se constituiu a Belle Époque).
Nas várias fichas em que revela o interesse etimológico, há registro do
estudo da origem e da evolução diacrônica da palavra Araraquara, a que mais
ocupou o tempo dele e à qual ele dedicou estudos mais aprofundados. A
escolha do topônimo não se deu por acaso, uma vez que se trata do nome da
cidade em que seu clã fixou-se e onde teve influência. Há um envelope em
sua coleção, intitulado Araraquara, em que ele guardou várias fichas com in-
formações sobre o tema e que, com certeza, foram usadas para compor, rever
e ampliar suas várias edições da Monografia da palavra Araraquara, sua obra
de maior fôlego. Esse estudo teria começado pela colaboração no Álbum de
Araraquara de 1915 (FRANÇA, 1915) que teria sido redigido, em grande
parte, por Pio Lourenço Corrêa, apesar de não ter seu nome como organiza-
dor. Nessa edição, há um texto explicativo sobre o significado da palavra que
dá nome à cidade.
Essa pesquisa de Pio baseou-se nos registros do astrônomo português
Dr. Francisco José de Lacerda e Almeida que, em 1788, viajou pelo interior
do Brasil e, após a aventura, publicou um Diário de viagem, obra que, aliás,
está na coleção de livros de Pio; nos estudos etimológicos de John Luccock
(Londres, 1826), inglês que participou da comitiva de D. João VI pelo Brasil;
no Diccionário Geographico do Imperio do Brasil, de J. C. R. Milliet, publicado
em Paris, em 1854; e até nas palavras do Imperador D. Pedro II, que visitou a
cidade e era um estudioso da língua tupi. Pio constatou que todas essas fontes
davam o significado da palavra como “morada do dia”, “ninho do sol” e não
ninho de araras”, como muitos acreditavam.
O Padre Montoya, gramático considerado notável, cujo livro também
consta da coleção de Pio, afirma que os índios são muito precisos nas palavras
para indicar as coisas, ninhos de araras podem existir em diversos lugares, é
139
um acontecimento “ordinário”. Já o sol nascer por detrás das montanhas da
região e iluminá-las com toda a sua força é fenômeno muito mais certeiro e
perene, portanto seria muito mais plausível esse significado.
Além da bibliografia extensa, o autor do texto relembra informações de
registros colhidos em documentos da própria família, bem como na tradição oral:
[o] avô de quem esta escreve dirigia, ainda, em 1850, cartas, a seu filho
que aqui residia, com o endereço Aracoara, ou simplesmente São Bento.
É verdade que com o tempo os novos habitantes, descendentes dos portu-
gueses, alongaram a palavra em vez de abreviá-la, como seria para suppor,
fazendo de Araquara Araraquara, o que se explica por ignorarem elles
a língua tupy e julgarem, naturalmente, tratar-se de araras. A história da
palavra, através dos tempos, é o indício mais seguro para conhecer-se sua
origem e ella nos ensina que Araraquara foi anteriormente Araquara e
antes Aracoara: assim a exacta significação desta palavra é: “morada do
dia” (COQUEIRO, 1936, p.28), (negritos do autor).
Pio justificava e defendia o significado de “morada do sol” para o topô-
nimo, entretanto, pelo que se depreende de alguns registros dele, era sempre
interpelado sobre o assunto, o que o lavara, já em 1924, a escrever um artigo
intitulado “Araquá, Araquara, Araraquara” e publicá-lo, em um periódico
também chamado Araraquara, que teve vida bem curta na cidade. Tal artigo
foi reproduzido diversas vezes, como o autor relata em sua Monografia da
palavra Araraquara (1936, p. 12):
[o] artigo tem tido a honra de várias transcrições, nem sempre perfeita-
mente fieis, porém ainda encontráveis. Aqui as indico: - Revista de filo-
logia portuguesa, na sua fase dirigida por Mário Barreto, vol. 5º, pag. 69,
São Paulo, 1925; Diário de São Paulo, número de 10 de março de 1935;
Revista do arquivo municipal de São Paulo, vol. 10º, pag. 152, março
de 1935. (Negritos do autor).
Essa primeira edição da obra foi publicada, até certo ponto, de forma
amadorística. Não há sumário, não há as referências elencadas ao final do livro,
há uma pequena explicação na abertura da obra, mas não recebe nome de in-
trodução, apresentação ou prefácio. Quem a assina é Mota Coqueiro. A justi-
ficativa para a publicação oficial é a pergunta que deve ter ouvido tantas vezes:
140
“Porquê lugar onde nasce o sol, e não sítio onde vivem as araras?” Há dias
recebi uma carta em que, ao propósito de um velho artigo meu sobre a
origem do nome Araraquara, um dos meus melhores e mais prezados
amigos me formula a pergunta que encima estas linhas. / Boa parte das
minhas razões constam já do referido artigo, e foram pela primeira vez
publicadas em 1924. Mas eu tenho mais algumas, que agora, tão amavel-
mente chamado á autoria, procurarei expor o mais resumidamente possí-
vel. (COQUEIRO, 1936, p. 5)
O amigo a que se refere no trecho provavelmente não é Mário de Andrade,
pois não há nenhuma carta do modernista sobre o assunto. Tratou-se, portanto,
de outra pessoa próxima de sua convivência ou mesmo uma personagem inven-
tada que encarnava as vozes dissonantes quanto ao tema. Pio/Mota Coqueiro
justifica a publicação da primeira edição assumindo um tom “amável”. Isso, no
entanto, vai mudando no decorrer das publicações seguintes.
Na segunda edição da Monografia, publicada em 1937, Pio acres-
centa uma Nota Preliminar, em que o tom da explicação é mais objetivo e
menos sentimental do que as respostas anteriores:
Na primeira edição desta “Monografia”, pensei o mais que pude na vantagem
de vulgarizar a minha tese; e por isso evitei entrar em muitos pontos de rele-
vante importância para a explicação dos vocábulos que empreendi interpretar.
Mas quando vi, contra a minha expectativa, que se levantavam numero-
sas objecções, com maior ou menor fundamento, contra as conclusões a
que ali cheguei – resolvi abordar e desenvolver argumentos puramente
filológicos, e por isso mesmo fastidiosos, e outros fundados em longo e
fatigante estudo comparativo dos numerosos casos análogos ou semelhan-
tes, os quais deixara de lado por antipáticos e pouco familiares á maioria
dos leitores, porém que muito importam para esclarecimento do assunto.
Nesta segunda edição, as longas exposições de miudezas quase sempre
narcóticas, mas necessárias, agravam-se muito por eu ter de referir, e jus-
tificar com iterativas citações, alguns factos fonéticos (e semânticos) espe-
cíficos de três línguas que, reagindo umas sobre as outras, se contagiaram
recíproca e sucessivamente.
Por todo esse acervo de questiúnculas e de citas, peço humildemente des-
culpas ao leitor heróico, que porventura se disponha a acompanhar-me.
A ortografia empregada neste livro está baseada no sistema oficial portu-
guês de 1911, com as modificações aí introduzidas em 1920; exceptua-se a
141
crase do a (art. e prep.), que o autor continua a marcar com acento agudo,
e a denominação dos gêneros e espécies da História Natural, que vão es-
critos de conformidade com as convenções internacionais a êste respeito.
Araraquara, Novembro de 1936. / Mota Coqueiro.
Sentindo-se ameaçado por algum opositor, lançou mão de conheci-
mentos cada vez mais técnicos para sustentar a sua tese. Nessa nota, o locutor
assume uma postura mais acadêmica, metódica, dispondo-se a exibir, por
assim dizer, os fundamentos de sua argumentação, ainda que os considere
pouco acessíveis à maioria dos leitores, tornando-se uma espécie de fiador das
informações que veicula, conferindo-lhes um tom mais científico, “filológi-
co” ao texto. Com isso, o locutor reafirma seus saberes linguísticos como um
lastro para o seu capital simbólico, preocupado que está com a credibilidade
que seu estudo possa ter. Além disso, Pio comenta as mudanças ortográficas
ocorridas nos anos de 1911 e 1920, bem como aquilo que não acatou, man-
tendo a marcação da crase com o acento agudo. Também esta informação
pode indicar não só o profundo conhecimento da língua pelo locutor, bem
como reforça a autonomia que ele quer manter em relação a certas reformas
com as quais não concorda. Este aspecto soma-se ao caráter idiossincrático de
certas ações de Pio já destacados neste trabalho.
Curiosamente, em 1943, no exemplar da segunda edição da Monografia
(de 1936), que já estava desatualizada em relação à terceira edição, que saíra
em 1940, foram feitas correções e anotações a mão pelo autor. É uma espécie
de memorial que Pio escreveu na página anterior à de rosto, explicando as
circunstâncias em que a obra foi editada:
Os originais, a composição tipográfica e a impressão desta edição foram
feitas atropeladamente, em corrida desabalada com um antagonista des-
leal e velhaco que, vindo a conhecer os principais factos e argumentos
novos de que o autor ia servir-se, intentou adiantar-se na utilização dêles,
operando uma retirada que fecharia o autor na gaiola do silêncio – se
quisesse evitar a penitenciária dos plagiários. Assim se explicam o desali-
nho geral da obra, e as afirmações apressadas que, neste exemplar, estão
corrigidas nas notas marginais manuscritas.
Araraquara, 27 de Fevereiro, 1943.
Pio Lourenço Corrêa
142
Ainda nessa página, logo abaixo do nome da obra, Pio anotou também
à caneta preta: “Exemplar corrigido e anotado pelo autor. Ver pags. 12, 21,
52, 74 e 115”.
Figura 32: Folha de rosto com anotações de PLC – Monografia da palavra Araraquara. 2.ed.
São Paulo, 1937, edição do autor.
Fonte: CPLC – Sala Pio e Mário – Biblioteca Pública Municipal Mário de Andrade – Araraqura/
SP. Foto tirada pela pesquisadora em janeiro de 2022.
O exemplar registra o processo de construção da obra, o diálogo nada pa-
cífico com outros autores/pesquisadores, o zelo com que Pio defendia e publicava
suas ideias, buscando sempre aprimorá-las, corrigi-las e atualizá-las, mas também
registra o gosto pela competição intelectual com outros estudiosos do tema. O
tom da anotação manuscrita é duro, ainda que escrita com distanciamento tem-
poral, com o “antagonista” que ele classifica como “desleal e velhaco”.
A terceira edição, de 1940, parece que Pio pretendia que fosse a última.
Continuando a assinar com o pseudônimo de Mota Coqueiro, o autor apre-
senta, na abertura do livro, novamente a Nota Preliminar da segunda edição
e acrescenta uma para a terceira:
143
Da Terceira Edição
Esta terceira edição (infelizmente ainda mais prolixa!...), poderia chamar-
-se a edição definitiva, por ser certamente a última com que entro para
a controvérsia.
Quer do ponto de vista histórico-geográfico, quer do filológico, penso que
ela constitue um melhoramento da segunda.
Alguns factos são apresentados sob novo aspecto; muitos documentos não
foram antes utilizados; e toda a contextura da obra representa mais um
esfôrço por melhorar a clareza das demonstrações empreendidas.
Neste último intuito, como crescesse ainda o número e a extensão das no-
tas elucidativas e das citações (já em demasia perturbadoras da seqüência
normal da leitura na segunda edição), releguei a maior parte delas para
o fim do volume, subordinadas ali ao número de ordem da respectiva
chamada no texto.
Araraquara, Novembro de 1938.
Mota Coqueiro.
Ao exemplar, também encadernado com capa dura em couro vermelho
e letras douradas, foram anexados dois documentos: a nota fiscal dos gastos
com a impressão e um recorte do periódico O Jornal, do dia 21 de julho de
1950, intitulado “Araraquara e sua história”, na coluna “Notícias do inte-
rior”, de autoria de Mário Ernani. O texto versa sobre a história da região, o
“lendário” Pedro José Neto que teria realizado a divisão das terras e, princi-
palmente, afirma que o significado da palavra Araraquara é “morada do sol”.
Mais uma vez, o livro foi corrigido e anotado conforme registro do
autor, a tinta preta, na folha anterior à de rosto: “Exemplar emendado e ano-
tado pelo autor em 1942 e 1947. Ver nas pags.: 10, 11, 12, 13, 14, 16, 19,
21, 51, 57, 59, 65, 66, 67, 69, 76, 78, 80, 125, 127, 130, 136, 142, 145,
149, 153, 169, 175, 177 e 180”.
144
Figura 33: Anotação de PLC na folha anterior à de rosto da Monografia da palavra Araraquara.
3.ed. São Paulo: Oficinas Tipográficas Fernando Camargo Cia. Ltda, 1940.
Fonte: CPLC – Sala Pio e Mário – Biblioteca Pública Municipal Mário de Andrade –
Araraquara/SP. Foto tirada pela pesquisadora em janeiro de 2022.
Em todas as páginas citadas, encontram-se as anotações e correções. Ao
final do volume, Pio acrescentou notas explicativas. Foram impressos duzen-
tos e cinquenta exemplares dessa edição da Monografia nas oficinas tipográfi-
cas de Fernando Camargo e Cia. Ltda., em São Paulo.
Finalmente, em 1952, Pio publicou a quarta, e a última, edição de
sua Monografia, também enriquecida com uma nota sobre o livro, colada
na página de guarda, publicada no jornal Gazeta, intitulada “Monografia da
palavra Araraquara”, que saiu no dia 23 de agosto de 1952, à p. 13. Também
fixou com alfinete um artigo do periódico O Imparcial, de 17 de maio de
1953, na coluna do Rotary Club, intitulado “Comentário em tôrno da pa-
lavra Araraquara”, uma palestra proferida em sessão da citada instituição,
em Vitória do Espírito Santo, por Euripedes Queiroz do Valle. Há, ainda,
2 cartas dobradas dentro do exemplar: uma de Luiz de Lacerda Carvalho
145
endereçada a Tio Pio, explicando a este que havia mandado um exemplar da
Monografia para o autor do artigo (Euripedes Queiroz do Valle) e que este,
Eurípedes, por conta própria, havia decidido divulgar a obra em palestra e
no artigo do jornal; e outra carta, do próprio Eurípedes a Luiz de Lacerda,
explicando os motivos de ter divulgado o tema, bem como envia-lhe o texto
do jornal para que fosse enviado a Pio Lourenço.
Nessa quarta edição, Pio ainda escreveu algumas “erratas”, datilografa-
das em papel de seda, e prendeu-as com alfinete no miolo do livro, mas não
fez nenhuma anotação manuscrita na abertura da obra. Às três notas prelimi-
nares para as edições anteriores foi acrescentada uma quarta:
Da quarta edição
Ao publicar, em 1940, a terceira edição deste estudo, averbei-a, na respec-
tiva nota preliminar, de edição definitiva.
Mais uma vez se verifica que, na Vida, só a Morte é definitiva. Aqui estou
de novo, bem a contra-gosto.
Não tendo alcançado convencer pela Razão, dar-se-á que vencerei pelo
número? É possível...
Esta é a maior de todas as edições. Sai sob o verdadeiro nome do autor, que
o velho pseudónimo já quase não oculta a nenhum fan destes assuntos.
Araraquara, Outubro de 1950.
PIO LOURENÇO CORRÊA
Esta quarta edição, além do comentário sobre a palavra “definitiva
usada em nota anterior, revela que a publicação foi feita a contragosto. O
que parece, contudo, é que Pio queria rebater os que não concordavam com
sua tese e ter a última palavra sobre o tema. Ele tinha poder econômico para
reeditar os livros, como atesta a nota fiscal dos gastos que conservou. Além
disso, o abandono do “velho peseudónimo” sugere que quer também apro-
priar-se do capital simbólico que lhe confere a autoria da obra, abonada pelos
artigos de jornal que a resenham e por outros estudiosos que se servem dela
como base.
146
Figura 34: As quatro edições da obra encadernadas em couro vermelho com letras douradas.
Fonte: CPLC - Sala Pio e Mário – Biblioteca Pública Municipal Mário de Andrade, Araraquara/
SP. Foto tirada pela pesquisadora em janeiro de 2022.
Além das quatro edições da Monografia da palavra Araraquara (1936,
1937, 1940 e 1952), já comentadas, que reelaborou com novas pesquisas e
bibliografia, Pio Lourenço Corrêa teve 67 textos publicados em periódicos.
No jornal O Imparcial, de Araraquara/SP, foi responsável pela co-
luna “Fichas de Linguagem” durante dois anos, de junho de 1935 a no-
vembro de 1936, comprovados por recortes localizados nos papéis avul-
sos da coleção, ao todo 50 textos, sua produção mais extensa. Algumas
dessas “Fichas de Linguagem” foram publicadas além das fronteiras de
Araraquara: uma na Revista de Bellas Artes, do Rio de Janeiro, no número
de maio-junho de 1938; duas no jornal O Estado de S. Paulo, em 14 e 21
de setembro de 1941; três na Revista Esfera, também do Rio de Janeiro,
no final de 1945 e início de 1946.
147
As “fichas” dos jornais tratam de questões específicas de ortografia, pro-
sódia e variações linguísticas detectadas por Pio no uso da língua portuguesa,
temas que pesquisava em autores consagrados da época, de traços conserva-
dores, bem como em Ferdinand de Saussure, novidade da época no campo da
Linguística. Seus exemplos de uso da língua, conforme mostramos, também
eram abonados por meio de autores portugueses consagrados do século XIX,
como Camilo Castelo Branco, Almeida Garrett e Eça de Queirós.
Pio Lourenço Corrêa publicou também textos de maior fôlego em
outros periódicos importantes do período em que viveu: um na Revista de
Filologia Portuguesa, de São Paulo, em 1925; um no Diário Nacional, de São
Paulo, em 1930; dois na Revista do Arquivo Municipal, de São Paulo, em
1935; um em um periódico não identificado, também em 1935; um na Folha
da Manhã, de São Paulo, em 1936; três na Revista de Cultura, do Rio de
Janeiro, em 1938; um no Correio Popular, de Araraquara, em 1950; além do
único texto ficcional, o conto “O caso do Barraqueiro”, publicado na Revista
Papel e Tinta, periódico modernista de São Paulo e Rio de Janeiro, em 1921.
Esses textos esparsos de Pio provavelmente são os menos conhecidos, pois
estão guardados nas gavetas e estantes da sala onde fica a coleção, longe dos
olhos dos visitantes e, antes deste trabalho de pesquisa, sem catalogação e
divulgação, precisando ainda de uma recuperação, bem como de um projeto
de preservação mais efetivo.
Pio escreveu ainda como colaborador. Já em 1915, redigiu grande parte
do Álbum de Araraquara, segundo Antonio Candido em depoimento à pesqui-
sadora, cuja organização oficial foi dada a Antônio M. França, livro comemo-
rativo em homenagem à cidade, impresso sem grande preocupação técnica ou
normativa. Em 1948, nova edição do Álbum de Araraquara, desta vez elabora-
da com mais rigor e respeitando a autoria dos textos, constando os nomes dos
colaboradores, cuja organização ficou sob responsabilidade de Nelson Martins
de Almeida. Além disso, colaborou com pesquisas e informações em várias
obras de Mário de Andrade, conforme discutimos neste trabalho.
Em Namoros com a Medicina (1939), Mário publica dois ensaios:
“Terapêutica Musical”, em que discorre sobre as propriedades curativas da
música; e “Medicina dos excretos”, em que apresenta uma série de crendices,
quadrinhas e músicas populares que tratam do uso dos excrementos com
148
finalidade terapêutica. Neste segundo assunto, além de colher informações na
região de Araraquara, Mário teve também colaboração de Pio:
[a]s machucaduras internas também recorreram ao receituário excretício.
Me contou o Sr. Pio Lourenço Corrêa, meu amigo e fazendeiro de grande
experiência humana, que em Araraquara, é uso no povo o sujeito que so-
fre machucadura interna, beber a própria urina para sarar. (ANDRADE,
1980, p. 83)
Pio também participou de outras empreitadas culturais com Mário de
Andrade. Em 1926, realizou-se uma campanha, liderada por Paulo Prado
(1869-1943), para aquisição de uma carta autógrafa de José de Anchieta,
datada de São Paulo de Piratininga, 15 de novembro de 1579, e endereçada
ao capitão-mor Jerônimo Leitão, tenente do donatário da capitania de São
Vicente, no período de 1572 a 1590. O documento estava à venda na livraria
Maggs Bros., de Conduit Street, em Londres, por duzentas libras, o mesmo
que trinta sacas de café. O periódico modernista Terra Roxa e Outras Terras
20
tomou para si a tarefa de propagar essa campanha. A compra do documento
se fez em cinco dias, pelo telégrafo, com a colaboração financeira dos fa-
zendeiros paulistas produtores de café e, em cerimônia oficial, com discurso
de Paulo Prado, a carta de Anchieta foi doada ao Museu do Ipiranga, hoje
Museu Paulista da Universidade de São Paulo.
Mário escreveu a Pio, em 7 de fevereiro de 1926, convidando-o a par-
ticipar da campanha. No dia 10 de fevereiro, Pio respondeu: “Sobre carta de
Anchieta: não tenho o menor interesse em que alguém adquira essa carta.
Mas a V. não nego café nem nada” (ANDRADE & CORRÊA, 2009, p. 91).
Em 11 de fevereiro de 1932, novamente o Padre Anchieta torna-se
assunto na correspondência com Mário:
[...] E agora tenho uma pergunta pra fazer à sua larga experiência da nos-
sa natureza paulista. Anchieta, numa das suas cartas vicentinas, ou pra
localizar melhor, piratininganas, fala na existência dum “vespão” (o ter-
mo é dele) que mata e come aranha. Ora esse vespão, que na certa já
20
Quinzenário modernista publicado de janeiro a setembro de 1926, em São Paulo, destinado
ironicamente ao “homem que lê”. Teve sete números, dirigido por Antônio Carlos Couto de Barros
e Antônio de Alcântara Machado.
149
está sistematizado, dotado de latinório no nome etc. e tal, nunca não foi
identificado cientificamente por esse hábito de que fala Anchieta. (Que
de resto foi observador fidelíssimo da nossa vida irracional.) Ora estou
quebrando armas pra identificar o tal vespão, não por mim que nenhum
luxo vou tirar disso, mas pelo Antônio de Alcântara Machado que está
fazendo o comentário das cartas anchietanas pra uma edição próxima.
Me lembrei do sr. que até a lavandisca do Saint-Hilaire sabia melhor que
Saint-Hilaire. Peço-lhe pois alguma respostinha sobre, mesmo a lápis[...].
(ANDRADE & CORRÊA, 2009, p. 218-219)
Pio contribuiu, de fato, com a informação sobre o vespão. Na edi-
ção organizada e anotada por Antônio Castilho de Alcântara Machado de
Oliveira (1901–1935) das Cartas, informações, fragmentos históricos e sermões
do Padre José de Anchieta, S. J. (1554–1594), edição da Civilização Brasileira
(Rio de Janeiro, 1933), à p. 136, vem:
À família dos Pompilídeos (ordem dos Himenópteros, superfamília
Vespoídea) pertencem os mais notáveis caçadores de aranhas existentes
no Brasil: mais notáveis pelo seu tamanho (aparentam enormes vespas)
e também pelo seu número. Da sua biologia extraio de Comstock (An
introduction to entomology, Ithaca, 1930, p. 934) o seguinte: Most of the
Pompilidae make their nests in the ground. e wasp first finds a spider and
stings it until it is paralysed, and then digs a burrow which is enlarged at
the lower end, forming a cell for the reception of the spider: the spider is then
dragged down into the cell and an egg attached to it: then the passage leading
to the cell is filled with earth. (…) Among the giants of this family are the
well-known tarantula – hawks of the genus Pepsis of the Southwest, which
store their burrows with tarantulas. Many a hardfought battle do these spider-
-wasps have with these enormous spiders, and sometimes they are conquered
and ignominiously eaten. (…) More than one hundred species belonging to
this family have been described from our fauna. A classification of the family
was published by Banks (1911)
21
. Assim Anchieta conheceu um dos cem
21
Tradução: Da sua biologia extraio de Comstock (Uma introdução à Entomologia, Ithaca, 1930,
p. 934) o seguinte: a maioria dos pompilidae faz seus ninhos no solo. A vespa primeiro encontra
uma aranha e a pica até ficar paralisada, e então cava uma toca que se alarga na parte mais funda,
formando uma cela para a recepção da aranha: a aranha é então arrastada para dentro da cela
com um ovo preso a ela: depois, a passagem que leva à cela é preenchida com terra. (…) Entre
os gigantes desta família estão as conhecidas tarântulas – falcões do género Pepsis do Sudoeste,
150
insetos, a que se refere Comstock, aludindo à classificação de Banks. Ou
talvez não viu nenhum desses, que são todos do hemisfério norte; e al-
guns, pelo menos, dos nossos de cá, não estarão representados naquele
hemisfério. Há a notar,
ainda, que às vezes é o vespão que vem a ser comido. E, quando vitorioso,
não come a aranha: esta é sempre destinada a alimento da larva do vespão.
Há outros caçadores de aranhas entre os himenópteros, notadamente os
esfegídeos (J. H. Fabre. Moeurs des insects
22
. Paris, 1924, p. 111 e segs.), de
que o Brasil possui muitas espécies, em geral menores que os Pompilídeos.
Na biblioteca do estudioso de Araraquara, encontra-se o exemplar
da obra com a dedicatória: “Para o snr. Pio Lourenço Corrêa/ – que nesta
homenagem colaborou – / oferece com admiração/ António de Alcântara
Machado/ – maio. 933 –”. Logo abaixo, Pio acrescentou, a tinta preta: “A
minha... colaboração/ pode ler-se na pág. 136, subordinada/ ali ao no (114).
Na pág. 130 o autor/ refere que a pequena contribuição/ minha foi escrita
especialmente/ para esta edição. É verdade./ Pio Lourenço Corrêa (1946)”.
As colaborações de Pio também constam nos manuscritos de uma obra
que começou a ser delineada, mas não concluída, por Mário de Andrade e que
seria uma Gramatiquinha da fala brasileira, que recebeu uma publicação póstuma
organizada por Edith Pimentel Pinto: A gramatiquinha de Mário de Andrade:
texto e contexto (São Paulo: Duas Cidades, 1990). A pesquisadora reuniu os ma-
nuscritos do modernista, bem como notas marginais em livros da biblioteca dele
e textos de terceiros (cartas, bilhetes, recortes de jornais) destinados à obra. Aqui
registramos a referência de Mário a Pio na publicação póstuma:
VERBO – CAPÍTULO VII
(substantivo verbal) [...]
- ter por haver
“Cantou. Com tanta voz, tamanha alma e tanta expressão não tem nin-
guém” Camilo “Os amores do Diabo” Porto, 1972 [sic] pg. 78.
(Camilo tem mais outro exemplo que tio Pio já fichou).
que armazenam as suas tocas com tarântulas. Essas vespas-aranha travam grandes batalhas com
essas enormes aranhas, e às vezes elas são conquistadas e ignominiosamente comidas. Mais de uma
centena de espécies pertencentes a esta família foram descritas da nossa fauna. Uma classificação da
família foi publicada por Banks (1911).
22
Tradução: Mais de insetos.
151
12-F - (PINTO, 1990, p. 361). (negrito da pesquisadora).
VOCABULÁRIO [...]
- Aziar é um aparelho composto de correia e um torniquete, ou pau, que a
gente coloca nos beiços dum animal pra que ele se entregue inteiramente
ao que se tem de fazer nele, subjugado pelo martírio. No estado de S.
Paulo chamavam ao aziar (veja dicionário) de “pito” me informa tio Pio.
Não virá daí o “passar um pito em fulano” em que a semelhança semântica
(de ralhar, castigar, corrigir) explica a significação primeiro metafórica e já
atualmente primeira de pito, castigo, ralho?
12-F – (PINTO, 1990, p. 434). (Itálicos do autor, negrito da pesquisadora).
Pio também viaja na memória de Mário em um dos mais ambiciosos
projetos do modernista e marca sua presença no diário que tinha a finalidade
de registrar anotações para a obra O Turista Aprendiz. No período de 7 de
maio a 15 de agosto de 1927, Mário realizou uma viagem ao Norte do Brasil,
navegando pelo Rio Amazonas até chegar na cidade de Iquitos, no Peru.
Com o escritor, foram D. Olívia Guedes Penteado e sua sobrinha Margarida
Guedes Nogueira, e Dulce do Amaral Pinto, filha de Tarsila do Amaral. Mário
recolheu lendas, mitos, objetos indígenas, fez muitas anotações daquilo que
vivenciou, dos tipos humanos que encontrou, do contato com a natureza. No
dia 22 de junho de 1927, de Iquitos, o modernista escreveu uma longa carta
a Pio comentando aspectos da língua portuguesa falada nos lugares que ele
estava visitando (GUARANHA, 2006, p. 93-95), documento relevante que
deve ser transcrito na íntegra:
Rio Amazonas/ Iquitos, 14/ 22 de junho de 1927.
Tio Pio
A tinta de bordo tem mais lama que a água deste rio, só lápis mesmo dá
facilidade. Desculpe. Também lhe escrevo mais pra provar que não me
divirto sem carregar o prazer das memórias, a memória dos meus e no
caso presente, do sr. e de Zulmira. Hoje se não fosse esta aventura em
que me meti havia de estar embarcado, nestas 13 e 30 chegandinho aí
na Araraquara. A aventura me fez chegar faz três horas no lugar chamado
Fonte Boa que se outro mérito não tivesse, tem pelo menos o de provar a
predileção dos brasileiros todos pelo qualificativo posposto ao substantivo
o que me deu um gozo... gostoso. Aliás esta viagem toda me vai sendo
utilíssima a respeito de fala brasileira. Os meus contraditores me falavam
152
sempre que o que eu organizava era fala paulista, que no Pará ninguém
não falava “pra” mas “para” e bobagens dessas. O que lhe posso garantir é
que até agora só escutei um fulano (deputado pelo Amazonas, tentando
ser bem falante) pronunciar “para”. No resto, a sintaxe principalmente é
a mesma que eu julguei, e não sem estudo, geral no Brasil. A questão do
vocabulário já pia mais fino. As variantes regionais são fatalmente fortíssi-
mas, desde que se trate de coisas objetivas, fauna, flora etc. Aliás a confu-
são é guaçu, se percebe muito bem uma fala indecisa ainda, os termos sem
significado perfeitamente próprio as mais das vezes. Igapó, igarapé, paraná
ou paranã, furo, tudo designa muitas coisas quase sinônimas e a distinção
tem sido muito mais dos vocabularistas regionais que de existência real.
Infelizmente não tenho podido privar com gente do povo o quantum satis
pra firmar em bases de estatística possivelmente aceitável as minhas obser-
vações pessoais. O fato de estar num grupo e acompanhando donas fez de
mim mais um viajante que um estudioso. É uma pena. Porém esta viagem
sob o ponto-de-vista de língua me trouxe um problema novo em que não
tinha imaginado inda não: o caso da dicção. Me surpreendi muito aqui no
Norte encontrando uma dicção que pra todos os efeitos é a nossa paulista.
Agora o Nordeste é incontestável que atingiu já uma dicção perfeitamente
distinta da sulina, o que traz um perigo enorme. Temos perfeitamente dis-
tintas duas dicções da mesma fala no Brasil: a nordestina (Bahia, Sergipe,
Alagoas, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará) e a outra mais geral
e mais próxima do portuga com leves variantes daqui pra “acolá” como
se diz [ainda] aqui no Norte. Assim a nasalação nordestina permanece
mais suave porém característica por todo este Norte. Exponho só o caso
sem tirar conclusões por enquanto porque tanta sensação forte abriu por
demais em mim a vida dos sentidos e as faculdades intelectivas meio que
andam encorujadas não querendo aparecer. Ando besta e desinteressan-
te por completo porém vivendo com uma intensidade prodigiosa. Bom,
mas o importante do fato que lhe expus é que a dicção leva às variantes
sintáticas, a sintaxe não sendo mais que uma conseqüência das necessida-
des auditivas, sonoras, rítmicas, e também orgânicas. Ora se possuímos
2 dicções tão distintas está lógico concluir a fatalidade de 2 sintaxes que
embora aproximadas como espanhol e portuga ou portuga e ... ou (?) sem-
pre se distinguem. Outro causo divertido a esclarecer: qual das 2 dicções
brasileiras é mais adiantada que a outra? À 1a vista a gente conclui logo
que é a nordestina porém o problema é muito mais rico de dados que
parece. Se a nordestina é mais adiantada sendo que historicamente o por-
tuga se implantou com mais facilidade no Nordeste e lá primeiramente,
153
não quererá dizer então que a dicção brasileira quando se aperfeiçoar irá
dar na portuga atual? Me parece. Pelo exame dos poetas quatrocentis-
tas e quinhentistas lusos, como C. Figueiredo, creio também já concluiu,
se percebe que naquele tempo o português era falado com a dicção da
gente e não a portuga. Basta ver métrica e rima. Isso significa que entre
nós se conservou estacionária a dicção ao passo que progredia além-mar.
Progresso incontestável a fala portuga atual sendo muito mais ligada, me-
nos sonora (e portanto mais intelectual e menos sensitiva) mais rápida
que a nossa. Sinais evidentes de aperfeiçoamento por intelectualização e
facilitação fisiológica maiores. Já o nordestino nasal possui um “tem”, um
também” um “mãi” pertíssimos do “taim”, “tambaim” e “maim” atuais
de Portugal. Como o sr. vê vou ajuntando dados, sem tirar conclusões.
Vá pensamenteando no causo aí, e assim que eu chegar trocaremos idéias
sobre. Quanto ao Amazonas me desculpe mas não conto nada. Tem coisas
sublimes de se ver, se cheirar, se escutar e provar por aqui e também muita
desilusão. Tudo tão ingente e multiplicado que carta não dá e nem me
atrevo a iniciar qualquer descrição. Estou fazendo uma viagem colosso.
Divertimentos sobre divertimentos, prazeres sobre prazeres, me apron-
tando pra daqui a 3 dias entrar Peru adentro. Vou lhe mandar esta carta
da primeira agência de Correio onde possa registrá-la. Não leva muita
notícia não, porém leva meus desejos de que o sr. passe bem aí ao lado de
Zulmira. Com o mais carinhoso abraço pros dois do amigo sempre Mário
Afinal vim parar em Iquitos e hoje boto esta no correio com selo peruano
22 de junho.
Muitas observações e anotações que Mário fez durante a viagem servi-
ram para enriquecer principalmente a futura obra Macunaíma, mas também
lhe renderam muitas crônicas, contos e material que organizou até mais ou
menos 1943, na intenção de elaborar um livro com o título de O Turista
Aprendiz, que ficou inacabado. Na publicação póstuma de O Turista Aprendiz
pela Editora Duas Cidades, de São Paulo, organizada por Telê Ancona Lopez,
em 1977, Pio está presente em vários momentos. No manuscrito de 17 de
maio [de 1927] – (ANDRADE, 1977, p.58) – Mário registrou uma anedota
de Pio que ressalta a elasticidade da fala popular com seus neologismos bas-
tante expressivos:
[...] Não sei porque me lembrei de uma anedota que meu tio Pio, que
não é meu tio, me contou. Ele, rapaz, estava brincando com um negrinho
154
escravo do pai, não sei o que o negrinho fez, e ele:
- Ôh, negrinho entremetido, eu te bato, heim!
- Bata que eu corro!
- Eu corro atrás!
- Eu escapulo por debaixo de mecê!
- Eu me agacho!
- Eu pegava numa pedra e tocava uma pedrada em mecê!
- Eu desviava!
- Eu pegava num relho, dava uma relhada em mecê!
- Que-de relho!
- Eu dava uma paulada!
- Não tem pau!
- Nem num sei! Pegava no que fosse e dava uma quefossada em mecê!
No manuscrito de 23 de maio [de 1927] – (ANDRADE, 1977, p.64) –
está registrada outra referência a Pio:
Belém, 23 de maio [de 1927]— [...] Estou me lembrando duma idéia
que tive certa vez. Não vê que possuo um tio bem brasileiro que quando cons-
truiu a casa dele numa chacra que é o pé mimoso de Araraquara, logo mandou
fazer um quarto-de-hóspede batuta com tudo o que há de bom no mundo. Me
hospedo sempre na casa dele e só vendo que gostosura aquele apartamento bem
com tudo o que a gente carece pra viver sem falta. Porém meu tio é catatau e
instalou todas as coisas baixinho. No banheiro, cada cabidão niquelado, a lâm-
pada por cima do espelho de fazer a nossa barba, em tudo eu manguari andei
corcunda e assim mesmo dando cabeçada numa conta. Numa dessas batidas é
que a idéia fagulhou e acho que descobri a razão dos erros dos homens. Deus
criou a gente e nos deu uma alma à imagem da d’Ele. Mas Deus não tem corpo
como se sabe e a alma nossa grandiosa feito a de Deus, veio muitas vezes parar
num corpo desencontrado no tamanho. É por isso que muita gente anda de
alma corcunda dentro do corpo e muita outra anda dando cabeçada por aí...
Não tem que guerê nem pipoca, é isso mesmo. Em Belém o calorão dilata os
esqueletos e meu corpo ficou exatamente do tamanho de minha alma.
No manuscrito de 28 de junho [de 1927] – (ANDRADE, 1977,
p.115) – Mário relembra, novamente, do Tio Pio, agora fazendo referência à
obsessão deste pela etimologia da palavra Araraquara:
155
28 de junho [de 1927] — A friagem continua. Manhã em Sta. Rita, onde
compramos redes de tucum. Fiquei com remorso, e além da minha, levo
agora mais duas redes de tucum, uma pro mano, outra para o meu amigo
Pio Lourenço, de Araraquara, que tem a mania mansa da etimologia da
palavra ‘Araraquara’. São Paulo de Olivença. Footing com Dolur, conver-
sando psicologia. Vida de bordo, cheirando criança. À noite, Tonantins,
onde frei Diogo nos guarda um carneirinho pra comermos no dia seguinte.
Embarque de lenha. Rapidez na descida. Partida pelas vinte-e-três horas.
A presença de Pio, contudo, não se restringe à trajetória intelectual de
Mário de Andrade. Estendeu-se, também, à produção do intelectual Antonio
Candido de Mello e Souza, tendo colaborado com informações para a obra
de Candido, Os Parceiros do Rio Bonito: estudo sobre o caipira paulista e a
transformação dos seus meios de vida (1964). Candido agradece pela cola-
boração de Pio:
[n]ão posso deixar de lembrar, com saudade e reconhecimento, o velho
amigo Pio Lourenço Corrêa, falecido em 1958, admirável tipo de fazen-
deiro paulista, culto e reto, que me acolheu várias vezes na sua chácara dos
arredores de Araraquara, e a quem devo muito do que percebo da cultura
rústica. A sua conversa era uma lição constante; a sua experiência, imensa;
a sua memória, prodigiosa. Erudito e estudioso da língua e das ciências
naturais; caçador e investigador dos costumes; conhecedor minucioso da
flora, da fauna e da técnica rural, devo-lhe mais do que poderia registrar,
porque são coisas que se incorporam ao modo de ver e de sentir. Quando
ele desenterrava das recordações de setuagenário o que lhe contara na in-
fância um velho pai setuagenário, parecia-me tocar no vivo o século XVIII
de Araritaguaba, onde sua avó falava língua geral e cuja tradição ele man-
tinha, na escarpada austeridade do seu caráter. (CANDIDO, 2017, p. 15)
Essas referências a Pio Lourenço Corrêa vão se somando e completan-
do o mosaico que aqui se vai construindo, revelando a influência, presença,
colaboração desse personagem com aqueles com os quais convivia, interlocu-
ção registrada em sua coleção.
156
2.3.2 Coleção de diálogos com intelectuais
Pio Lourenço Corrêa, vivendo na cidade de Araraquara, circulando
entre a Chácara da Sapucaia, a Fazenda São Francisco e o Pesqueiro à beira
do Rio Mogi, esteve sempre cercado de figuras de destaque intelectual, além
de seu principal interlocutor, Mário de Andrade, que foi citado em vários
pontos deste trabalho.
Pesquisando nas estantes e gavetas de Pio, encontramos outros inter-
locutores de destaque na cena intelectual da época. Encontramos alguns li-
vros do Dr. Olivério Mário de Oliveira Pinto (1896-1981) que, nascido em
Jaú/SP, formou-se em Medicina pela Universidade Federal da Bahia, para
onde a família havia se mudado; retornou ao estado de São Paulo; viveu e
trabalhou algum tempo em Araraquara como médico e professor da Escola
de Odontologia e Farmácia da cidade, tornando-se amigo de Pio. Segundo
Antonio Candido, Olivério ensinou Pio a usar microscópio, além de troca-
rem conhecimentos sobre fauna e flora. Nos anos de 1930, Olivério mudou-
-se para a capital, assumindo cargo na área de estudos de Zoologia no Museu
Paulista da USP, hoje Museu de Zoologia da USP. Realizou vários estudos so-
bres aves, tornando-se autor de referência em Ornitologia (TORRES, 2019).
O diálogo entre ambos está documentado nas dedicatórias dos livros
autorais: Resultados ornithologicos de uma excursão pelo oeste de São Paulo e
sul de Matto-Grosso (1932), Aves da Bahia (1935), Catálogo das aves do Brasil
(1938), Relatório de 1940 do Departamento de Zoologia da Secretaria de
Agricultura, Indústria e Comércio de São Paulo (1940), Cinquenta anos de in-
vestigação ornitológica (1945). Há também dedicatórias em livros de outros
autores enviados ao amigo, além de registros no fichário de Pio, guardados
em um envelope nomeado.
157
Figura 35: Envelope contendo anotações e bilhetes de Dr. Olivério Mário de Oliveira Pinto.
Fonte: CPLC – Sala Pio & Mário – Biblioteca Pública Municipal Mário de Andrade –
Araraquara/SP. Foto tirada pela pesquisadora em janeiro de 2022.
Após a morte de Mário, em 1945, quem assumiu a função de atualizar
Pio sobre publicações, comprar e remeter-lhe obras de relevância da capital,
foi Antonio Candido. Casado com a sobrinha de Pio, Gilda Rocha de Mello e
Souza, tornaram-se próximos pelos interesses intelectuais e, graças à memória
de Candido, muitas informações sobre o pesquisado puderam ser resgatadas.
O diálogo está documentado nas dedicatórias de livros de assuntos variados,
bem como no fichário e em recortes de jornal de autoria de Candido que
foram guardados por Pio.
158
Figura 36: Dedicatória/carta de Antonio Candido a Pio, na folha de rosto do livro de Victor
Kravchencko, I choose freedom. New York: Garden City Publishing Co., s/d.
23
23
Transcrição: Caro Tio Pio / Aí está o livro que o Sr. queria. / Acaba de chegar dos EU e eu me
apresso em / mandá-lo ao Sr. / Tenho em mãos as suas perguntas / e brevemente lhe escreverei,
com as / respostas. Desde já, porém, posso / afirmar que o “Santo Graal” foi / mandado por êste
seu criado, e que / o Sr. nada deve… / Dei uma rápida olhada neste / “I chose freedom”, e tive
a impressão / de que é meio pesadote; mas aqui / e ali, há de haver substância / que compense a
leitura. / Senti não poder ir à sua casa / na Semana Santa. O full-time / saiu de repente, me amarrou
soli- / damente a São Paulo durante todo o ano letivo. É pena./ Recomendações a minha Tia /
Zulmira e um grande abraço / para o Sr. / Antonio Candido / [A.B.] Já tem: / 1º O numero da Rev.
do Arquivo / dedicada ao Mário? (Não me / lembro se mandei ou não ao Sr.) / 2º Os dois ultimos
livros dele? / Caso não tenha, avise que eu / mandarei logo.
159
Fonte: CPLC – Sala Pio & Mário – Biblioteca Pública Municipal Mário de Andrade –
Araraquara/SP. Foto tirada pela pesquisadora em outubro de 2019.
Na coleção, ainda estão a tese de Gilda Rocha de Mello e Souza (1919
- 2005), ensaísta, crítica de arte e professora da USP, com dedicatória e so-
licitação de crítica de Pio. Entre as páginas, foram encontradas fichas em
branco e algumas com comentários sobre o texto. A tese de Carlos de Moraes
Andrade (1889-1971), irmão mais velho de Mário de Andrade, também está
lá com dedicatória.
Na escrivaninha de Pio, além das fichas colecionadas, há uma gave-
ta com diversos envelopes, todos com nomes sobrescritos: familiares, co-
nhecidos, instituições e periódicos para os quais enviou exemplares de sua
Monografia da palavra Araraquara. A publicação foi enviada também para
gramáticos; e há até um envelope para o ator e diretor de teatro Procópio
Ferreira (1898-1979), que se apresentou no Teatro Municipal da cidade por
volta de 1914-1915 (segundo site da Câmara Municipal, PMA, 2022), cujo
160
conteúdo já não corresponde mais ao que havia originalmente, assim parece.
Dentro dos envelopes, há cartões de visita, bilhetes, cartas, recortes de jornal
e revistas, fichas com anotações de data de envio da Monografia, cartas de
agradecimento, consultas de interlocutores sobre questões linguísticas, recor-
tes de suas “Fichas de Linguagem” publicadas no jornal O Imparcial, junta-
mente com as fichas de sua pesquisa para a composição das publicações.
Ao que parece, Pio, apesar de não ter se tornado muito conhecido como
autor, tinha uma boa noção de como divulgar o seu trabalho, enviando exem-
plares e estabelecendo contato com pessoas-chave e instituições de renome,
onde queria que sua obra constasse. Enviou exemplares para: Afonso de Taunay
(1876-1958), Afrânio do Amaral (1894-1982), Alberto Lamego (1896-1985),
Antenor Nascentes (1886-1972), Gladstone Chaves de Melo (1917-2001),
João (Yan) Fernando de Almeida Prado (1898-1991), Manuel Bandeira (1886-
1968), Olivério Mário de Oliveira Pinto (1896-1981), Plínio Airosa (1895-
1961) e Procópio Ferreira (1898-1979), citando os mais conhecidos.
Quanto às instituições, enviou exemplares para a Biblioteca da
Faculdade de Direito de São Paulo, Biblioteca do Instituto Histórico e
Geográfico de São Paulo, Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, Instituto
Histórico e Geográfico da Bahia, Instituto Histórico e Geográfico de
Pernambuco, Museu Paulista, entre outras. Enfim, a Faculdade de Direito de
São Paulo, hoje Faculdade de Direito do Largo de São Francisco e parte da
Universidade de São Paulo, onde Pio pretendera estudar na juventude e não
conseguiu, tem em sua biblioteca o exemplar de sua Monografia.
Diante desses registros, é notório o esforço do autor em compartilhar
suas ideias e buscar o diálogo com intelectuais e instituições além das fron-
teiras de sua cidade.
2.3.3 – Coleção de fichas de estudo
Segundo Jean Guitton (1902-1999), em O trabalho intelectual (2018,
p. 109), foi o escritor francês Stendhal, pseudônimo de Marie-Henri Beyle
(1783-1842), quem inventou a ficha ou o processo de fichamento, inter-
pondo folhas em branco entre as páginas dos livros que lia, resumindo-os ou
anotando informações que lhe pareciam importantes. Percebendo, entretan-
to, que suas anotações eram muito chamativas e podiam revelar muitas pistas
161
de seu percurso criativo, passou a usar papéis menores para suas anotações.
Assim teria “inventado a ficha”.
Guitton estabelece algumas orientações para a elaboração de um fichário
ou para transformar simples anotações em fichas (2018, p. 110, 111, 114)):
[...] o formato deve ser sempre o mesmo, desde a juventude até a morte;
[...] a ficha ideal é aquela que, em qualquer ocasião, pode ser facilmente
colocada no bolso, ou levada num fichário; [...] uma nota tomada com
cuidado deveria ser capaz de servir aos nossos amigos e aos nossos des-
cendentes. [...] Ora, graças ao fichário, se anotamos uma linha, anotamos
para sempre. A classificação das notas obedece a um princípio muito sim-
ples: uma nota está bem classificada quando é rapidamente encontrada.
Pio Lourenço Corrêa parece que já tinha conhecimento do método,
pois suas fichas são todas do mesmo tamanho, ainda que de papéis de texturas
e espessuras diversas: algumas mais firmes, próximas da cartolina, outras mais
finas, parecendo papel sulfite, pautadas. Há fichas divisórias por assuntos em
papelão com aba na parte superior em que se registra a numeração e o título,
e há fichas de cartolina também com aba superior com as letras inscritas para
a organização em sequência alfabética. Após tanto tempo no arquivo e algu-
mas mudanças de sala, as fichas encontram-se totalmente desorganizadas.
Guardadas nas gavetas, sim, mas completamente fora de ordem.
Tais fichas de registro consolidaram-se, conforme Leroi-Gourhan
(2018, p. 64), pois: “[n]o decorrer do século XIX, a memória coletiva adqui-
riu um tal volume que acabou por se tornar impossível exigir que a memória
individual contivesse em si todo o conteúdo das bibliotecas”. Os registros,
que eram feitos em cadernos e catálogos, eram de difícil localização, era ne-
cessária uma forma mais rápida e com maior praticidade para que novas in-
formações pudessem ser acrescentadas sem alterar o restante do conteúdo.
Novamente citando Leroi-Gourhan (2018, p. 64 - 65):
[n]a sua forma mais rudimentar, tal sistema já corresponde à constituição
de um verdadeiro córtex cerebral exteriorizado, visto que, nas mãos do
utente, um simples ficheiro bibliográfico presta-se a múltiplos ordena-
mentos: por autores, por matérias, geográfico, cronológico, com todas as
combinações correspondentes. [...] Este fato é ainda mais notório num
162
ficheiro de informações científicas, em que cada elemento documental
pode ser combinado à vontade com todos os outros.
Portanto, em épocas em que não havia arquivos eletrônicos, as fichas
eram o grande recurso auxiliar da memória. Leroi-Gourhan (2018, p. 65), no
entanto, chama nossa atenção para o fato que:
[e]m certa medida, a imagem do córtex é falsa, porque se um ficheiro é
uma memória em sentido estrito, a verdade é que se trata de uma memória
destituída de meios próprios de rememoração, e em que a animação requere
a sua introdução no campo operatório, visual e manual do investigador.
Nesse sentido, como investigadores da “memória de Pio Lourenço
Corrêa”, deparamo-nos com a dificuldade de compreender muitas das moti-
vações que o levaram a registrar suas observações, bem como pistas sobre as
relações originais que havia entre esses registros que poderiam ser dadas pela
ordem em que foram agrupados, uma vez que muitos documentos encon-
tram-se fora da sua organização original. Para compreender os interesses de
seu autor, tivemos de, primeiramente (re)organizar o ficheiro a partir de um
critério nosso que levou em conta, sempre que possível, as ordens alfabética e
numérica dos documentos. Depois comparar registros, confrontar anotações
e repetições para poder traçar hipóteses para seus objetivos, ou seja, manu-
sear, olhar, testar a ordem etc. É uma memória externa, artificial, que está
resistindo ao tempo, mas que já se encontrava embaralhada de modo que só
foi possível entendê-la melhor ou estabelecer algum sentido após essa orga-
nização numérica e alfabética convencional, o que não representa necessaria-
mente a organização original de seu autor. Após todo o trabalho, registramos
7232 imagens de fichas (algumas com frente e verso preenchidos) no acervo.
Essas fichas são, talvez, os elementos mais instigantes da coleção, pois
causam espanto pela quantidade; pela variedade de assuntos tratados (ainda
que predominem questões de linguagem); pelas pistas que trazem sobre o
pensamento de seu autor; pelo registro do diálogo com variados intelectuais;
por permearem todos os outros elementos da coleção (livros da biblioteca,
textos publicados, pessoas com quem conviveu e assuntos preferidos); além
de documentarem o rigor metodológico do autodidata.
163
Suas fichas estruturaram suas publicações em periódicos, as quatro
edições da Monografia da palavra Araraquara e auxiliaram também outros
autores, assunto de que já tratamos. Sob este aspecto das fichas, cabe ain-
da acrescentar que, para Macunaíma (1928), foram utilizadas por Mário de
Andrade as seguintes informações baseadas no fichário de Pio, segundo edi-
ção crítica da obra, organizada por Telê Ancona Lopez (ANDRADE, 1978,
p.428 – 431):
Fichas com a indicação: “Macunaíma/ usado
“Urubu-ministro, urubu-peba, urubu-caçador, urubu de cabeça verme-
lha, e gereba = todos são o mesmo urubu/ 203 p.19”. Na Bibliografia:
“203 – Rodolpho Garcia – ‘Nomes de Aves em Língua Tupi’ – Rio de
Janeiro, 1913 (Pio)”. (Negrito da pesquisadora).
“Urubu-paraguá, urubu-peba/ 203, p. 36”. Na Bibliografia: “203 –
Rodolpho Garcia – ‘Nomes de Aves em Língua Tupi’ – Rio de Janeiro,
1913 (Pio)”. (Negrito da pesquisadora).
Fichas com a indicação: Macunaíma
“’piranhas devorando piranha’/ veja 210 p. 67”. Na Bibliografia: “210
– Diário de Viagem do Dr. Francisco José de Lacerda e Almeida pelas
Capitanias do Pará, Rio-Negro, Matto-Grosso, Cuyabá e S. Paulo – S.
Paulo, 1841 (Pio)”. (Negrito da pesquisadora).
Além da aplicação prática das anotações em suas obras e nas de tercei-
ros, as fichas também registram opiniões pessoais sobre diversos assuntos,
sobre pessoas e determinados fatos históricos, além de planos que acabaram
não se concretizando, como a possibilidade de elaborar uma enciclopédia
de sua autoria ou a possível criação de um museu para Mário de Andrade,
iniciativa provável de alguma instituição de Araraquara, que também não se
realizou. Esse fichário, campo fértil de investigação, pode render ou auxiliar
relevantes pesquisas históricas em várias áreas do conhecimento.
2.3.4 Coleção de livros
A partir da lista de livros fornecida pela bibliotecária, foram elaboradas
tabelas para visualizar a organização dos volumes nas estantes e nas prate-
leiras. São 1094 títulos no total, sendo 1339 volumes (há várias edições da
164
mesma obra; mesma obra dividida em vários tomos etc.), distribuídos em
cinco estantes de madeira com portas de vidro, nas proporções demonstradas
na tabela a seguir:
Tabela 4: Livros da biblioteca de PLC
CONTEÚDO GERAL DAS ESTANTES
ESTANTES MATERIAL
PRATELEI-
RAS
TÍTULOS VOLUMES
1 Livros 5
208 231
2 Livros 5
298 354
3 Livros 5
118 153
4 Livros 5
253 304
5 Periódicos 4
217 297
TOTAIS 24 1094
1339
CONTEÚDO POR PRATELEIRA EM CADA ESTANTE
ESTANTE 1 – LIVROS
PRATELEIRAS TÍTULOS VOLUMES
1 42 48
2 43 47
3 47 50
4 44 45
5 32 41
TOTAL 208 231
ESTANTE 2 – LIVROS
PRATELEIRAS TÍTULOS VOLUMES
1 66 70
2 53 63
3 63 66
4 62 98
5 54 57
TOTAL 298 354
ESTANTE 3 – LIVROS
PRATELEIRAS TÍTULOS VOLUMES
1 18 33
165
2 22 31
3 22 27
4 30 35
5 26 27
TOTAL 118 153
ESTANTE 4 – LIVROS
PRATELEIRAS
TÍTULOS VOLUMES
1 53 54
2 45 53
3 45 52
4 42 57
5 68 88
TOTAL 253 304
ESTANTE 5 – PERIÓDICOS
PRATELEIRAS TÍTULOS VOLUMES
1 59 70
2 61 63
3 27 66
4 70 98
TOTAIS 217 297
Fonte: Tabela elaborada pela pesquisadora, de acordo com o inventário fornecido pela
Biblioteca Pública Municipal Mário de Andrade – Araraquara/SP, em 2019.
O material da biblioteca é parte de um acervo maior do qual uma parte
foi perdida. Conforme testemunho de Antonio Candido e Renato Rocha à
pesquisadora, Pio conservava seus livros no escritório da casa, mas
[n]o vasto porão da casa da chácara Sapucaia, havia dois cômodos com
estantes carregadas de livros, coleções de revistas e edições anteriores
de alguns dicionários, material que se dispersou com a morte de PLC.
(GUARANHA, 2007, p. 328)
Como “bibliófilo”, segundo ele se denominava, Pio Lourenço Corrêa
desenvolveu o hábito de anexar as notas de compra aos livros, bem como
outras informações relacionadas: recortes de jornais com notícias sobre os
166
autores; textos de jornais que dialogavam com o assunto do livro; bilhetes;
dedicatórias dos autores; fichas de comentários e correções esquecidas no
meio das páginas; além de anotações feitas nas margens; chegando até a re-
gistrar observações quanto ao processo de encadernação. É possível constatar,
pelas anotações, a minúcia e o cuidado do colecionador, que, segundo os
conhecidos e parentes entrevistados, era muito rigoroso em tudo o que fazia.
Aliás, antes de incluir um livro novo em suas estantes, costumava mandá-los
encadernar com capa dura e letras douradas na lombada.
Figura 37: Folha de guarda do livro Analysis de plantas: ensaio para uma botanica descriptiva, de
Alberto Loefgren (São Paulo: Typographia e Papelaria de Vanorden e Co., 1905), com anota-
ções, a tinta preta, de PLC.
Fonte: CPLC – Sala Pio & Mário – Biblioteca Pública Municipal Mário de Andrade –
Araraquara/SP. Foto tirada pela pesquisadora, em 2019.
O texto da folha de guarda de um dos livros de Pio, apresentado na
Figura 56, evidencia a especial relação que ele tinha como esses objetos, con-
siderados como parte relevante de seu capital cultural:
167
Observação de um bibliófilo
Da frente desta página, /foi retirada e consumida pelo enca-/dernador,
a página-capa, onde se/ lia o nome dos autores, e o dístico/ Systema
Analytica de Plantas, que/ se adoptou na lombada da enca-/dernação em
1928. Aliás, o encadernador/ corrigiu Analytica, para Analytico, sem au-
torização nem cum=/=plicidade do bibliófilo que ordenou a encadernação.
Entre esses livros, há um exemplar do Código Civil Brasileiro, de 1917
(MERÊA, 1917), editado em Lisboa, no qual Pio cotejou e anotou, a mão,
todas as alterações legais aprovadas em 1919, além de fazer correções grama-
ticais e comentários pessoais.
Figura 38: Código Civil Brasileiro, de 1917 (MERÊA, 1917), com anotações de PLC na folha de
rosto.
168
Fonte: CPLC – Sala Pio & Mário – Biblioteca Pública Municipal Mário de Andrade,
Araraquara/SP. Foto tirada pela pesquisadora em 2019.
Também integram a coleção os livros do Dr. Olivério M. de Oliveira
Pinto, o referido diretor do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo,
nos anos de 1930, amigo pessoal de Pio. Todos os itens têm dedicatória.
No volume 1 do livro e Antiquity of man, de Sir Arthur Keith, publi-
cado em Londres, em 1929, está fixada com alfinete a nota fiscal de compra
emitida pelo exportador. Nas páginas do livro também são encontradas ano-
tações, a caneta, de Pio.
169
Figura 39: Nota fiscal de compra do livro e Antiquity of man, Sir Arthur Keith, Londres, 1929
Fonte: CPLC – Sala Pio & Mário – Biblioteca Pública Municipal Mário de Andrade –
Araraquara/SP. Foto tirada pela pesquisadora em outubro de 2019.
No periódico Folha da Manhã, do dia 27 de novembro de 1936, em
artigo publicado sobre o significado da palavra Araraquara, Pio afirma:
De modo que quando vi forças aguerridas e traquejadas atacarem pelos
dois flancos a minha hypothese justificada, como melhor pude, no folheto
– foi com redobrada energia que reencetei o manejo das minhas magras
notas, e revolvi miuda e diligentemente os poucos autores de que dispo-
nho na pobre bibliotheca provinciana que reuni. (COQUEIRO, 1936, p.
6-7 – grifos da pesquisadora).
170
Como bibliófilo, julgava, talvez com certa falsa modéstia, sua coleção
de livros “pobre e provinciana”, mas não era bem assim. As encomendas cons-
tantes a Mário, as compras na viagem à Europa de 1911 e as importações
enriqueceram muito o seu acervo com livros raros e de autores de vulto.
Os livros de Souza Silveira testemunham o interesse de Pio pelo linguista
com o qual teve contato, provavelmente intermediado por Mário de Andrade.
Em 1935, Sousa da Silveira manteve com Mário correspondência sobre questões
de linguagem, tecendo importantes considerações sobre Macunaíma. Em julho
de 1937, a convite do modernista, então Diretor do Departamento de Cultura,
Sousa da Silveira, que lecionava no Rio de Janeiro, participou do I Congresso
da Língua Nacional Cantada, promovido pelo Departamento de Cultura, em
São Paulo, assim como Pio Lourenço, que assistiu ao congresso também a con-
vite de Mário. Pio, que publicava artigos nos jornais de Araraquara e em O
Estado de S. Paulo, e que, desde 1921, tomava do espaço das próprias cartas
para consistentes considerações sobre a língua portuguesa, como a “Dissertação
contra o agá”, enviada em carta para Mário, ao comparecer ao simpósio como
observador, certamente ouviu a palestra de Silveira, além de muitas discussões
de seu interesse (GUARANHA, 2007, p. 13).
Em carta a Mário, datada de 26 de março de 1930, Pio informava-lhe
sobre três artigos de Souza da Silveira que haviam sido publicados:
Mário:
Na Revista de Cultura, n. 38, que pedi remeterem a V. do Rio, estão tam-
bém 3 artigos do Sr. Sousa da Silveira, aos quais não fiz referência em
minha carta de ontem, por não tê-los visto. Escaparam-me, como esca-
pou a América durante tantos séculos; mas descobri-os afinal, sem ser
Colombo... São muito bons; são ótimos – e moderados, sem desaforo,
reconhecendo a cada qual – Medeiros, Ribeiro & Cia. inclusive – o direito
de pensar como quiser. Mas não reconhece a ninguém – nem a estes pa-
ladinos – o direito de atacar com falsidades e má-fé o sistema ortográfico
lusitano. Leia, leia mesmo. Depois que li os tais artigos do Sousa, conven-
ci-me de que o assunto está quase de todo esgotado. Desisti, portanto, do
projeto que aí formulara, de escrever os considerandos que me ocorrem.
[...] (ANDRADE & CORRÊA, 2009, p. 168),
171
Na Revista de Cultura, n. 38 (a. 4. Rio de Janeiro, jan.-jun. 1930)
os três artigos referidos por Pio são: “Ortografia portuguesa” (p. 90-99),
“Simplificação ortográfica” (p. 99-105) e “Formulário ortográfico da
Academia” (p.105-112). O volume consta da coleção.
Outro nome importante na área de estudos de linguagem presente na
biblioteca é Manuel Said Ali Ida (1861–1953),
professor de Alemão da Escola Militar e do Colégio Pedro II, onde teve
como aluno Manuel Bandeira; gramático; linguista e filólogo; especialista
em estudos sintáticos. Destacou-se em adaptações de manuais para o en-
sino de línguas estrangeiras e trabalhos sobre pedagogia; estudos introdu-
tórios para edições da Casa Laemmert, futura Livraria Universal, como:
Obras Completas de Casimiro de Abreu (1895), Poesias de Gonçalves Dias
(1896), Obras Completas de Castro Alves (1898); obras de linguística geral,
versificação e sintaxe. (ANDRADE & CORRÊA, 2009, p.139)
Estão lá os títulos: Difficuldades da lingua portugueza: estudos e ob-
servações (1919); Difficuldades da lingua portugueza: estudos e observações
(1930); Formação de palavras e syntaxe do portuguez histórico; Grammatica
historica da lingua portuguesa (s/d, com anotações de Pio); Grammatica secun-
daria da lingua portuguesa (1927); Lexeologia do portuguez histórico (1921);
Meios de expressão e alterações semânticas (1930).
Rui Barbosa de Oliveira (1849-1923) também está na biblioteca, figura
de destaque no período e visto com grande admiração por Pio. Jurista, jorna-
lista e político brasileiro, orador brilhante, cognominado Águia de Haia por
sua participação na Segunda Conferência de Paz, em 1907, naquela cidade
da Holanda, quando defendeu a igualdade entre as nações. Figura muito res-
peitada na época, no Brasil, também como grande conhecedor do vernáculo.
Em carta a Mário, de 25 de março de 1925, enviada da cidade interio-
rana de Águas da Prata, Pio faz referência a Rui Barbosa:
As notinhas que tenho sobre o seu livro A escrava [que não é Isaura], lá
estão escritas à margem do volume que V. teve a gentileza de oferecer-
-me. Foram feitas a lápis, e não envolvem descompostura alguma. Antes,
pelo contrário, tenho a impressão [de] que V. tem vindo pouco a pouco
acercando-se dos velhos arraiais, que um entusiasmo de menino fez V.
172
desertar. Tenho a impressão de que, mais dia menos dia, teremos ain-
da no aprisco a preciosa ovelha tresmalhada. Mas eu nada escrevi a V.,
porque estou esperando a sua visita de fim de ano de 1924, que estava
prometida, com visitas a colméias de trigonas e tudo. V. não apareceu, e
quer-me culpar! A discussão, que será já muito menor, só pode (o Rui não
queria “só pode” no Código Civil; mas isto aqui não é código) ser verbal.
(ANDRADE & CORRÊA, 2009, p.82)
A expressão referida por Pio, “só pode”, citando Rui Barbosa e o Código
Civil brasileiro, foi uma polêmica em torno da redação do texto do citado
Código em que Rui, sendo principalmente jurista, escreve uma longa análise
das questões gramaticais envolvidas:
[e]m sua Réplica ao texto do Projeto do Código Civil, ao invés de tratar das
questões jurídicas, analisou somente as questões de língua portuguesa, ou
seja, a polêmica que deveria ser legislativa transformou-se numa polêmica
gramatical, apresentando “217 folhas manuscritas que deram um volume
de 561 páginas, editadas pela Imprensa Nacional”, comprovando que o
Código estava mal redigido. (BROCA, 1975, p. 206).
Quanto à expressão citada por Pio, Rui Barbosa escreveu:
A versão por mim alvitrada’, comentei aqui eu, ‘evita o só pó, tão mal-
soante e, contudo, tão reiterado no projeto’. Nada mais. E isso entre vá-
rias observações de uma extensa nota, com respeito a não menos de três
pontos, em que filológica e juridicamente, contraditei o projeto. De ver é,
portanto, que não fiz daquele reparo, ali incidentemente inserido, grande
cabedal. Não agradou ao eminente professor [Carneiro Ribeiro] a minha
apostila. E não são de quem estivesse de bom humor os termos, em que
ma repulsa. ‘Por que levar tão longe a finura do ouvido, quando a lição
dos melhores exemplares de nossa língua nos está a trazer contínuo essa
combinação de sons, por vezes inevitável’? Ora, antes de mais nada, se essa
dissonância fosse inevitável, eu não a teria notado. Quando inevitáveis, as
piores cacofonias se toleram. Fez-se o ouvido a elas: habituou-se; já não
as sente. Não logrou o melodioso Lamartine evitar o la mer de Sorrente.
Nem com ele se enxovalhou a sua Graziela. Tampouco faz escândalo a
ouvidos franceses la mer d’Irlande, ou la mer d’Islande. Aí a lei da neces-
sidade obriga as exigências da eufonia à condição fatal de transigir. Mas
173
escrever ‘le dernier chant du Childe – Harold’, isso podia não ter escrito o
mais harmonioso dos poetas franceses; e a crítica não lho releva, como não
releva a Rousseau, o poeta, o ‘la vierge non encor née. Não houvesse meio,
pois, de atalhar ali, o só pode, e eu não lhe teria objetado. Esquivando-o,
porém, no meu substitutivo, bem demonstrei que era fácil de esquivar”.
(BARBOSA, 1953, p. 112-124).
Pio Lourenço, como conservador e homem ilustrado, procurava escrever
ao estilo de Rui Barbosa, admirando-lhe a minúcia e erudição. Mário, por sua
vez, em 2 de janeiro de 1926, publicou a quadrinha “Rui Barbosa”, na série
“Mês Modernista” do jornal carioca A Noite: “Gênio genioso, andor brasílico/
Nas procissões anti-germânicas,/ Errou bastante na política,/ MAS NUNCA
ERROU NO PORTUGUÊS!” (BATISTA, LIMA, LOPEZ, 1972, p. 267).
Quanto à coleção literária, estão presentes vários autores portugueses
na biblioteca, como a obra completa de Camilo Castelo Branco (1825-1890),
escritor do período romântico em Portugal, de onde Pio extraía, muitas vezes,
exemplos de uso da língua portuguesa em seus estudos e publicações, confor-
me destacamos na seção em que mostramos os trabalhos linguísticos de Pio.
Outro escritor de destaque na biblioteca de Pio: Alexandre Herculano
de Carvalho e Araújo (1810–1877), poeta, romancista, historiador, figura
de proa no romantismo português, está presente também com: O Monge de
Cister, v.1 e 2 (1841), Eurico, o presbítero (1844), História de Portugal (4 vo-
lumes, 1846, 1847, 1850 e 1853), Bobo (1903); Lendas e narrativas, v.1 e 2
(1903), (com assinatura de Pio).
Eça de Queirós (1845-1900), romancista do realismo português, era
leitura muito apreciada no Brasil do início do século XX. Pio costumava ler,
em voz alta, as obras desse autor para os amigos, na chácara, principalmente
o conto “O defunto”, mas, muito rigoroso, fazia adaptações no texto, “de ma-
neira a preservar o pudor do público feminino” (CANDIDO, 2004, p. 88).
Há também os naturalistas que vieram estudar o Brasil, revelando o
interesse dele pelo tema. São obras da coleção: Jean de Lery (1536-1613),
autor de Histoire d’un voyage fait en la terre du Brésil, livro de 1578 que relata
a viagem de Nicolau D. de Villegagnon (1510-1571) ao Brasil, entre 1556
e 1558, uma tentativa de colonização destinada a estabelecer aqui a França
Antártica. Mário presenteou Pio com a tradução anotada da obra, por Sérgio
174
Milliet, Viagem à terra do Brasil, publicada no ano de 1941 pela Livraria
Martins Editora, de São Paulo, trazendo notas tupinológicas de Plínio Ayrosa,
volume 7 da coleção Biblioteca Histórica Brasileira, sob a direção de Rubens
Borba de Moraes.
Mais um nome de destaque, Johann Moritz Rugendas (1802–1858): pin-
tor, gravador e desenhista alemão, que viajou pelo Brasil, em 1821, com Georg
Heinrich Langsdorff (1774-1852), na qualidade de desenhista, registrando cenas
e paisagens. Em 1835, publicou, na Europa, Voyage Pittoresque au Brésil, coletâ-
nea de imagens da vida brasileira em inícios do século XIX. Na coleção de Pio, há
um exemplar, traduzido por Sérgio Milliet, da obra de João Maurício Rugendas:
Viagem pitoresca através do Brasil (Coleção Biblioteca Histórica Brasileira, sob a
direção de Rubens Borba de Moraes. São Paulo: Martins, 1940).
Charles Ribeyrolles (1812-1860) está presente, jornalista e político
francês exilado que viajou pelo Brasil durante o século XIX publicando Brasil
pitoresco, tradução de Gastão Penalva, 1º volume da Biblioteca Histórica
Brasileira, dirigida por Rubens Borba de Moraes, publicada pela Livraria
Martins Editora, de São Paulo.
Também estão nas prateleiras Karl Friedrich Philipp von Martius (1794–
1868), médico e botânico, e Johann Baptist von Spix (1781– 1826), zoólogo,
alemães que vieram na comitiva da Imperatriz Leopoldina (1797-1826), filha
do ex-imperador da Alemanha e então imperador da Áustria, esposa de D.
Pedro I (1798 - 1834), futuro imperador do Brasil. Até 1818, Martius e Spix
estudaram a natureza dos arredores da Corte, depois iniciaram uma grande
expedição: foram a São Paulo, Minas Gerais, alcançaram o rio São Francisco
e a Bahia; entrando pelo sertão, chegaram a Pernambuco, Piauí, Maranhão e
Belém do Pará. Por volta de 1819, subiram o rio Amazonas até o Solimões,
onde se separaram. Spix seguiu pelo Amazonas até os limites do Peru. Martius
tomou o Rio Japurá, até a fronteira com a Colômbia. Reencontraram-se no
rio Negro e navegaram rio Madeira acima, percorrendo aproximadamente 10
mil quilômetros. Quando voltaram para a Alemanha, em 1820, e publica-
ram Reise in Brasilien, em 4 volumes (München: M. Lindauer, 1823-1831).
Fazem parte da coleção de Pio os quatro volumes, numa edição de 1938, com
uma carta de José Bento Faria Ferraz (1912-2005), secretário particular de
Mário de Andrade, dentro de um deles (GUARANHA, 2007, p. 377).
175
Assim como Telê Ancona Lopez estabeleceu uma analogia entre
a biblioteca de Mário de Andrade e um “celeiro e [uma] seara da criação
(LOPEZ, 2002, p. 45), podemos dizer que no caso de Pio, guardadas as devi-
das proporções, sua biblioteca também foi fonte de suas produções. Atestam
isso as anotações nas obras que ele leu, tanto sobre o aspecto estilístico e
gramatical quanto sobre o conteúdo das produções e até anotações que se
referem a aspectos da vida pessoal do leitor autodidata Pio Lourenço Corrêa.
Essas anotações permitem, em certo sentido, compreender como esse ho-
mem dialogava com a produção cultural de seu tempo, com o passado e
como pensava o futuro.
Figura 40: Madame Bovary, de Gustave Flaubert. Paris: Bibliotheque Charpentier, 1911.
Anotação de PLC na folha rosto sobre as circunstâncias em que comprou o livro, na viagem à
Europa de 1911.
176
Fonte: CPLC – Sala Pio e Mário – Biblioteca Pública Municipal Mário de Andrade –
Araraquara/SP. Foto tirada pela pesquisadora em 2019.
A biblioteca de Pio, que nada tinha de pequena e provinciana, com-
preende, hoje, 1094 títulos no total, sendo 1339 volumes (há várias edições
das mesmas obras; ou a mesma obra é dividida em vários tomos), e é enriqueci-
da pelos conteúdos extras que eles contêm e que permitem estudos sobre as cir-
cunstâncias em que esse material foi adquirido e manuseado que ajudam a en-
tender o sentido que tiveram na trajetória intelectual de Pio: notas de compra,
anotações e correções, contam a história de seu percurso e de como a biblioteca
foi sendo construída; as dedicatórias registram as amizades intelectuais de Pio.
Os livros de Pio, as notas e os documentos que os acompanham ga-
nham, assim, uma espécie de voz própria para além do conteúdo que trazem,
passando de simples objetos a documentos repletos de historicidade cuja nar-
rativa pode ser reconstituída pela pesquisa. Segundo Lopez (2007, p. 33)
177
o aparecimento de notas autógrafas dignifica a estante de todo e qualquer
leitor. Mas, quando se trata de bibliotecas de escritores e intelectuais de
todos os naipes, a marginália converte essas estantes em privilegiado obje-
to de cogitações da crítica genética, sobretudo quando não perduram con-
juntos de fólios que documentam, com autonomia, o processo criativo.
Nesse sentido, este trabalho de pesquisa torna-se significativo para a
reconstrução da trajetória intelectual de Pio como um autodidata que não
apenas tinha livros, mas os frequentava, punha-os em diálogo uns com os ou-
tros e materializava suas interlocuções com essas obras num processo, cons-
ciente ou inconsciente, de legar aos leitores do futuro não apenas as obras
em si, mas a recepção que delas fez a partir das marcas do tempo em que as
leu. Muitos desses manuscritos estão à espera de leitura e análise nos cam-
pos da Literatura, da História, da Linguística, do Direito, da Política, da
Zoologia entre outras áreas. Há as obras sobre língua, linguagem, linguística,
lexicografia etc., daí ser conhecido na cidade de Araraquara como filólogo.
Encontra-se, ainda, campo de pesquisa e ação para outras áreas do conhe-
cimento: Arquivística (restauração e conservação de documentos e livros);
Biologia (Zoologia, Botânica, Citologia); História (da cidade, dos livros, dos
livros de História); Biblioteconomia; Museologia; Direito; estudo de periódi-
cos (final do século XIX e primeira metade do século XX).
Investigar a biblioteca de Pio é enveredar no percurso de um intelectual
quase anônimo que se interessou de perto pela linguagem e suas transforma-
ções. A paixão pela língua portuguesa levou-o a colecionar, e deixar como
legado, obras importantes e raras para o estabelecimento de sua história, da
história cultural do período e da história de nossa língua.
A biblioteca de Pio dialoga com seu fichário de estudos - espécie de en-
ciclopédia particular que elaborou durante a maior parte da vida– e, também,
dos com seus textos autorais.
Por meio de sua vasta biblioteca e dos complementos que o estudo das
obras nos permite, Pio Lourenço Corrêa compõe uma importante fase de
nossa história, e aspectos de uma história da educação em seu tempo, que é
relevante investigar como documentos vivos uma vez que:
178
[a] história não visa estudar o passado distante e morto, mas é a contri-
buição que ela pode trazer à explicação da realidade em que vivemos que
nos leva a ver como fundamental sua divulgação [...] Essa divulgação se
torna importante na medida em que se acredita que a história, ajudan-
do a explicar a realidade, pode ajudar ao mesmo tempo a transformá-la
(BORGES, 1993, p. 8).
Assim, os livros, as fichas e os documentos de Pio, repletos de ideias,
são um mosaico do tempo em que o intelectual viveu e, com certeza, contri-
buem tanto para a compreensão daquele tempo quanto do nosso.
179
3
Considerações Finais
Nossa investigação tentou compreender os aspectos do contexto so-
cioeconômico, dos fatos da vida de Pio Lourenço Corrêa, de seu autodidatis-
mo e, em certo sentido, de seu polimatismo que se constituíram como ele-
mentos de um consórcio entre os mundos econômico e letrado, na sociedade
paulista da primeira metade do século XX, e nos propusemos a interpretar
esses aspectos como uma espécie de autoafirmação do capital frente à cultura
por meio da ilustração, da erudição e do estudo: da educação, enfim, enten-
dida como uma prática humanizadora.
A trajetória relevante de Pio como homem de negócios, de letras e líder
de um dos clãs que esteve presente na formação do município de Araraquara
certamente deixou na região os vestígios não só materiais, mas dos valores,
legados que fazem da cidade um importante polo ao mesmo tempo econô-
mico e cultural, cultura esta que procurou solidificar-se à moda dos clássicos,
dos padrões europeus, pois era essa a tendência no Brasil, tanto no período
Imperial, quando a cidade foi fundada, quanto na Bélle Époque, período em
que Pio produziu e que o município ganhou influência regional. Por outro
lado, a cidade não abandonou, em seu processo constitutivo, as memórias
das suas origens fundadas nas civilizações nativas, dado inscrito no nome da
cidade e nos movimentos dos colonizadores que se apropriaram da região,
fenômeno inscrito nos hábitos típicos do sujeito do interior do estado de São
Paulo, o povo caipira, como é denominado.
Em todos os momentos desse processo civilizatório da região, encon-
tramos traços da presença de Pio, quer porque ele os tenha acompanhado em
vida, quer porque ele os tenha estudado. Pio promoveu certo culto aos valores
tradicionalistas imperiais e aos valores clássicos importados pelo processo de
180
colonização e foi, nesse sentido, um homem até certo ponto reacionário. Por
outro lado, esse tradicionalismo também o estimulou a buscar incessante-
mente a origem e o sentido do topônimo que identifica a cidade em que se
estabeleceu e sobre a qual exerceu grande influência. No polo oposto ao tra-
dicionalismo, também encontramos uma faceta progressista, de homem ilus-
trado, apegado às técnicas científicas tanto para amparar as atividades agrí-
colas que desenvolvia quanto para amparar a sua erudição, uma vez que suas
convicções apoiavam-se em leituras críticas, em confronto de ideias de espe-
cialistas. Como homem de um tempo em que a informação começa a circular
com maior velocidade, pelo menos para os que tinham posses, Pio foi levado
a certo polimatismo, justamente para dar conta do volume cada vez maior
de informação que se preocupou em transformar em conhecimento e regis-
trá-lo para as futuras gerações. Foi, em certo sentido, um educador, alguém
que valorizou a vinculação entre a prática e a teoria, haja vista sua opção, no
campo dos estudos da linguagem, pela linguística, pelos fatos da língua, e
não apenas pela gramática, sistema ideal de organização da linguagem. Neste
aspecto, a trajetória de Pio, já que falamos em rapsódia no início deste texto,
remete-nos aos versos de Camões no momento da rapsódia renascentista Os
Lusíadas, em que o poeta, no Epílogo (X, 154), dirige-se a ao rei D. Sebastião
desse modo: “Nem me falta na vida honesto estudo, /Com longa experiência
misturado, /Nem engenho, que aqui vereis presente,/ Cousas que juntas se
acham raramente” (CAMÕES, 2002, p. 351). Neste conjunto de versos, en-
contramos, guardadas as devidas proporções, as qualidades que encontramos
em Pio: honesto estudo, longa experiência e razoável engenho, criatividade.
Desse modo, cremos que este trabalho reconstruiu tanto quanto pos-
sível uma biobibliografia do polímata araraquarense Pio Lourenço Corrêa
como fazendeiro, bibliófilo, autodidata, naturalista, filólogo e escritor por
meio da análise do processo de formação cultural/intelectual do pesquisado
e de evidências do modo como buscou constituir-se como tal. Compuseram
esta bibliografia a análise, ainda que parcial, do acervo bibliotecal que Pio
Lourenço colecionou ao longo de sua vida; a divulgação e o comentário dos
diálogos que ele estabeleceu com intelectuais renomados de sua época atesta-
dos pelas dedicatórias em livros, anotações e cartas do acervo. Desse modo, a
biobibliografia foi composta, como em um mosaico, por aqueles elementos
181
que nos pareceram significativos para dar conta de nossa pesquisa, mesmo
conscientes de que a seleção de determinadas peças e não de outras aspectos
é marcada pela subjetividade do investigador. Nesse sentido, o acervo de Pio,
agora divulgado, permanece aberto a outras leituras.
Reconstruímos aquilo que foi possível da trajetória do pesquisado, esbar-
rando em uma série de obstáculos. Primeiramente, reabrir a pesquisa encerrada
em 2007, após 15 anos de intervalo, e reiniciar as buscas por informações com
a dificuldade de encontrar pessoas que novamente pudessem dar algum teste-
munho sobre Pio, quase todas já falecidas. Dificuldade para atestar datas de
nascimento e morte dos envolvidos, pois à época da epidemia de febre amarela
na região de Araraquara, final do século XIX e início do XX, o cartório da ci-
dade ficou fechado por oito anos. Dificuldade para organizar os papéis avulsos
e recortes de jornal colecionados por Pio, pela fragilidade do material ao des-
gaste do tempo. Dificuldade para realizar esta pesquisa durante a Pandemia de
Covid-19 que obrigou o fechamento de instituições e impediu viagens e visitas.
A constatação de que a reunião de documentos, ainda que sejam muitos, não
elucida os acontecimentos, nem explica todas as facetas de uma biografia.
Um passo importante, no entanto, foi dado para a organização do
acervo. Pensamos sobre ele, manuseamos os papéis, realizamos uma primeira
classificação, chamamos a atenção para o seu valor cultural, remexemos nesse
passado para trazê-lo novamente à vista. Esta investigação buscou articular a
vida e a coleção de Pio ressaltando as áreas de interesse predominantes nos tí-
tulos que ele legou à sua cidade, na tentativa de “transformá-[los] em história
uma vez que, como afirma Certeau (2017, p. 67-69):
[o historiador [t]rabalha, de acordo com seus métodos, os objetos físicos
(papéis, pedras, imagens, sons, etc.) que distinguem, no continuum do
percebido, a organização de uma sociedade e o sistema de pertinências
próprias de uma “ciência”. Trabalha sobre um material para transformá-lo
em história. Empreende uma manipulação que, como as outras, obedece a
regras. [...] O material é criado por ações combinadas, que o recortam no
universo do uso, que vão procurá-lo também fora das fronteiras do uso, e
que o destinam a um reemprego coerente.
Deste modo, por meio dos livros e anotações, a biblioteca de Pio reflete
sua busca pelo conhecimento, que o levou a ser reconhecido na cidade natal
182
como filólogo, estudioso do “desenvolvimento de uma língua ou de famí-
lias de línguas, baseado em documentos escritos nessas línguas” (HOUAISS,
2001, p.1004); e também reflete o momento histórico do grupo social de que
ele fazia parte. Sempre aberto ao diálogo com o passado e com o futuro, Pio
pôs em prática a máxima de Monteiro Lobato: “um país se faz com homens
e livros”. Essa prática, por sua vez, legou-nos um importante patrimônio cul-
tural que não só registra a história do tempo, mas pode ajudar a construir a
história de como um homem interagiu com seu tempo.
Esperamos que este trabalho estimule pesquisadores a desenvolverem
estudos mais detalhados do acervo de Pio, que poderá ser mais bem conheci-
do ou reconhecido por meio de visitas à Biblioteca Pública Municipal Mário
de Andrade, de Araraquara/SP. Esses estudos podem, inclusive, contribuir
bastante com práticas educativas baseadas em projetos que articulem estu-
dos históricos, linguísticos e literários tendo como objeto o legado de Pio
Lourenço Corrêa.
Para isso, informações sobre o autor e sua obra foram reunidas e, tanto
quanto possível, inventariados e ordenados para que a consulta fique mais
acessível, mas acredita-se que ainda haja documentos esquecidos em gavetas
de familiares e amigos; no acervo do jornal O Imparcial, de Araraquara/SP;
ou em lugares não imaginados, assim como funcionam também as profun-
dezas da memória. Caberá a futuros investigadores buscar o que ainda falta,
pois o campo é bastante vasto.
É preciso lembrar a importância da recuperação e da preservação dos
documentos históricos, ainda que sejam relativos ao âmbito das histórias in-
dividuais, pessoas que não estão nos livros, mas que ajudaram a construir
nossa cultura, ainda que um tanto no anonimato.
Mais especificamente sobre Pio Lourenço Corrêa, nossa pesquisa re-
velou que parte significativa de seus estudos como autodidata sustentaram o
diálogo que estabeleceu com Mário de Andrade, principalmente sobre ques-
tões linguísticas, literárias e culturais. Em suas fichas, anotações e demais
documentos estão as fontes do conhecimento linguístico e literário de que
se valeu para fazer a revisão gramatical minuciosa da primeira edição da obra
Amar, verbo intransitivo (1927), a pedido de seu autor. Por intermédio do
modernista também adquiriu e ampliou conhecimento, o que evidencia a
183
disposição de Pio para o diálogo. Exemplo disso, foi o fato de ter aceitado e
convite para participar, como ouvinte, do I Congresso da Língua Nacional
Cantada, em 1937, organizado por Mário de Andrade na cidade de São Paulo,
com a participação também de intelectuais de destaque na época. Também
contribuiu de modo mais indireto com as produções do modernista, pois foi
na biblioteca da Chácara da Sapucaia, que contava com obras raras e de des-
taque para a época, que Mário realizou parte de suas pesquisas para a constru-
ção da narrativa Macunaíma: o herói sem nenhum caráter (1928). Além disso,
seus “casos” serviram de inspiração para histórias regionais escritas pelo autor
de Macunaíma, que os utilizou em contos publicados no livro Primeiro andar
(1926): “Caso pançudo”, “Caso em que entra bugre”, “Caçada de macuco”.
Em outro momento, também contou “casos”, histórias regionais para
Antonio Candido, narrativas que foram úteis para o clássico Parceiros do Rio
Bonito (1964), que trata das transformações da vida do caipira diante da ex-
pansão econômica capitalista, da crise desse impacto na cultura desse sujeito
crise que, de certo modo, se não foi vivida do ponto de vista do homem sim-
ples do campo, foi testemunhada por Pio, em certos aspectos um dos agentes
dessa transformação, haja vista sua atuação tanto econômica quanto política,
como vereador e Presidente da Câmara de Vereadores, em Araraquara.
Como qualquer sujeito, Pio teve suas contradições, em parte produzi-
das pelo meio, em parte ampliadas por certas idiossincrasias de um sujeito
em interação com as dinâmicas sociais, nem sempre pacíficas, de seu tempo.
Essas contradições foram captadas pelas pessoas que conviveram com ele e
se materializaram em outros casos, agora tendo-o como personagem princi-
pal, que foram recolhidos por meio de entrevistas de Antonio Candido e de
Renato Rocha ou ficcionalizados em aspectos de personagens criados pelo
seu interlocutor mais regular e famoso, Mário de Andrade. Exemplo deste
último caso é a figura austera, metódica e um tanto cruel do velho Prestes,
protagonista do conto “O poço”, de Contos novos (de 1947).
No âmbito acadêmico, em nossa área de pesquisa, o que nos interessa
de fato é o legado cultural que deixou, tanto do ponto de vista do valor afe-
tivo, as diversas primeiras edições autografadas e com dedicatórias de Mário
de Andrade e de autores importantes da época que agora compõem o acervo
da Biblioteca de Araraquara, quanto do ponto de vista do valor de cultural,
184
do potencial que esses documentos têm para o estudo histórico da língua,
que são os dicionários, as gramáticas e os livros de linguística que legou. Essa
herança, sem dúvida, pode enriquecer os processos educacionais não só do
município, mas também de outras comunidades. Além disso, sua coleção de
fichas de caráter enciclopédico, como destacamos, é, ao lado dos recortes de
jornal e outros documentos, rico acervo complementar para pesquisas sobre
a recepção que as teorias linguísticas ou ideias artísticas tiveram em certa par-
cela da sociedade brasileira metonimizada pela figura de Pio.
O honesto estudo de Pio permitiu, ainda, que ele fosse reconhecido em
seu tempo como autoridade em certas áreas do conhecimento, como atestam
as citações que teve em artigos de jornal ou as consultas feitas a ele por espe-
cialistas sobre questões de linguagem, documentos que estão conservados na
sala dedicada a ele. Como se interessava também pelas áreas de Zoologia e
Botânica, colecionando livros sobre os assuntos, tornou-se referência na área,
bem como aplicou os conhecimentos nas suas atividades de agricultor, pecua-
rista e apicultor. Misturado a esse honesto estudo e à experiência, contudo,
destaca-se o engenho de Pio, sua criatividade, e este é um dado importante
que queremos destacar nesta pesquisa: sua numerosa produção de textos so-
bre gramática publicados em periódicos da cidade de Araraquara, São Paulo
e Rio de Janeiro, são preciosas fontes para pesquisa do desenvolvimento da
língua e dos estudos linguísticos na primeira metade do século XX no Brasil;
as quatro edições da Monografia da palavra Araraquara (1936, 1937, 1940 e
1952), em que ele não só cria uma hipótese diferente da usual para a origem
do nome de sua cidade como também justifica essa origem por meio de
pesquisas etimológicas, projeto que permeou a maior parte de sua trajetória
intelectual como símbolo da busca das raízes de sua região no vestígio mate-
rial que restou da gênese do lugar: a palavra, reconhecida por Pio, aliás, sob
a perspectiva linguística, como aquele elemento que une a parte material,
o significante, à parte imaterial, o significado ou a ideia que veicula. Daí,
talvez, o grande interesse de Pio em colecionar palavras, possibilitado pelos
seus momentos de ócio bastante produtivos os quais fez questão de registrar,
não só para preservar a sua memória, mas para preservar a memória coletiva.
Em que pesem as ressalvas que possam ser feitas à figura do fazendeiro
abastado, que interagia com a classe mais favorecida da região, essas ressalvas
185
equilibram-se com a capacidade de Pio para interagir com uma elite inte-
lectual do período e com o fato de que, apesar do seu perfil conservador,
defensor de regras na gramática e nas artes, principalmente na literatura, ter
conservado disposição de acompanhar, ainda que criticamente, o movimento
modernista de perto, dialogando e até aconselhando um de seus principais
idealizadores, Mário de Andrade.
Por fim, sempre procurando destacar as contribuições do objeto de nossa
pesquisa para a educação ou para uma certa faceta da história da educação,
chamamos a atenção para o legado material da Sala Pio & Mário e para a neces-
sidade urgente de investimento na conservação desse material e da divulgação
dele para que desperte o interesse de futuros investigadores que possam, cada
vez mais, contribuir com mais peças para a composição deste mosaico.
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ROUSSEAU, Jean-Jacques. Emílio ou Da Educação. 3.ed. Trad.: Sérgio
Milliet. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995.SCHWARCZ, Lilia Moritz.
Biografia como gênero e problema. História Social, n. 24, primeiro semestre
de 2013.
SIRINELLI, Jean-François; RIOUX, Jean-Pierre (org.) Para uma história
cultural. Lisboa: Editorial Estampa, 1998.
TELAROLLI, R. Brito: república de sangue. Araraquara: Edições
Macunaíma, 1997, p.219-216.
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TORRES, Lemos. Biografia de Olivério Mário de Oliveira Pinto. In:
História da Medicina Paulista. Disponível em: http://lemostorresepm.blogs-
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TRUZZI, Oswaldo. Café e indústria. São Carlos 1850-1950. Arquivo de
História Contemporânea, UFSCar, s/d.
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Moderna, 1996, p.51 – 67.
VECHI, Carlos Alberto [et al.]. A Literatura portuguesa em perspectiva, v. 3 -
Romantismo e Realismo. São Paulo: Atlas, 1994.
VIEIRA, M. P. de A.; PEIXOTO, M. R. C.; KHOURY, Y. M. A. A pesquisa
em história. São Paulo: Ática, 2007.
WILLIAMS, Raymond. O campo e a cidade: na história e na literatura.
Trad.: Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
195
WHITAKER, Dulce C. A. Araraquara – Histórias não reveladas.
Presidente Venceslau/SP: Letras À Margem, 2004.
197
Apêndices
1 BIBLIOGRAFIA DE PIO LOURENÇO CORRÊA SOB O
PSEUDÔNIMO DE MOTA COQUEIRO
1.1 Livro
MOTA COQUEIRO. Monografia da palavra Araraquara: estudo histórico e
linguístico do nome da cidade de Araraquara. 1. ed. Araraquara: edição do
autor, Gráfica dos Irmãos Lia, 1936. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Monografia da palavra Araraquara: estudo histórico e
linguístico do nome da cidade de Araraquara. 2. ed. refundida e aumentada.
São Paulo: edição do autor, Oficinas Gráficas de Fernando Camargo & Cia.
Ltda., 1937. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Monografia da palavra Araraquara: estudo histórico
e linguístico do nome da cidade de Araraquara. 3. ed. novamente revista
e melhorada. São Paulo: edição do autor, Oficinas Gráficas de Fernando
Camargo & Cia. Ltda., 1940. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Monografia da palavra Araraquara: estudo histórico
e linguístico do nome da cidade de Araraquara. 4. ed. novamente revista
e melhorada. São Paulo: edição do autor, Oficinas Gráficas de Fernando
Camargo & Cia. Ltda., 1952. (CPLC)
1.2 Textos em periódicos
MOTA COQUEIRO. O caso do barraqueiro. Papel e Tinta, a.1, São Paulo/
Rio de Janeiro: Sociedade Editora Non Ducor Duco Ltda., jan./ fev. 1921,
p. 5-6. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Ortografia. Diário Nacional. São Paulo, 29 jan.
1930. (CPLC)
198
MOTA COQUEIRO. Araquá, Araquara, Araraquara (Um pouco de histó-
ria e um pouco de tupi). Revista do Arquivo Municipal de São Paulo, a. 1, v.
10. São Paulo: Depto. do Expediente e do Pessoal, mar. 1935, p.152-154.
(BMA-IEB-USP)
MOTA COQUEIRO. Expansão cultural - A palavra Araraquara. Revista do
Arquivo Municipal de São Paulo, a. 2, v. 15. São Paulo: Depto. de Cultura e
de Recreação, ago. 1935, p. 209-213. (BMA-IEB USP)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem I: Pomba cascável – Pomba
cascavél – Fogo apagou – (Scardafella squamosa). O Imparcial. Araraquara,
14 jun. 1935. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem II: Salvage – Salvagem –
Selvagem. O Imparcial. Araraquara, 16 jun. 1935. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem III: Manguari – Gabalau –
Galalau. O Imparcial. Araraquara, 18 jun. 1935. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem V: Gibioa – Jibóia – Jimboia –
Boitiapó – Boitiapoia. O Imparcial. Araraquara, 20 jun. 1935. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem V (continuação): Giboia –
Jibóia – Jimboia – Boitiapó – Boitiapoia. O Imparcial. Araraquara, 22 jun.
1935. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem V (continuação): Ainda a gi-
boia ou jiboia. O Imparcial. Araraquara, 25 jun. 1935. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem VII: Micer – Lúdrico. O
Imparcial. Araraquara, 26 jun. 1935. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem VI: Milhos – Quirera –
Cangica – Cangiquinha – Chôça. O Imparcial. Araraquara, 28 jun. 1935.
(CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem VIII: Meirinho. O Imparcial.
Araraquara, 29 jun. 1935. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem VIII: Beijo – Beijinho – Beijú –
Bijú. O Imparcial. Araraquara, 2 jul. 1935. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem IX: Martelo. O Imparcial.
Araraquara, 4 jul. 1935. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem X: Catre. O Imparcial.
199
Araraquara, 5 jul. 1935. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem XI: Boicorá – Cobra corá –
Cobra coral. O Imparcial. Araraquara, 6 jul. 1935. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem XII: Dezesseis, dezessete,
dezenove, ou dezasseis, dezassete, dezanove? O Imparcial. Araraquara, 7 jul.
1935. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem XIV: Lúdicro ou lúdrico? O
Imparcial. Araraquara, 12 jul. 1935. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem XVI: Rolinha xèrèré –
Caracará. O Imparcial. Araraquara, 19 jul. 1935. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem XVII: Água vai! O Imparcial.
Araraquara, 20 jul. 1935. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem XVIII: Leque. O Imparcial.
Araraquara, 30 [jul.] 1935. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem XX: Inho – inha – nhô – nhá –
minho – inhô. O Imparcial. Araraquara, 3 ago. 1935. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem XXI: Veio ou veiu? (verbo
vir) – Ontem ou hontem? O Imparcial. Araraquara, 4 ago. 1935. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem XXII: Cedilha, plica, zeura. O
Imparcial. Araraquara, 6 ago. 1935. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem XXIII: Ortografia ocular. O
Imparcial. Araraquara, 7 ago. 1935. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem XXIII (continuação):
Ortografia ocular. O Imparcial. Araraquara, 8 ago. 1935. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem XXIV: Inho, zinho, (ito, zito).
O Imparcial. Araraquara, 9 ago. 1935. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem XXIV (continuação): Inho,
zinho, (ito, zito). O Imparcial. Araraquara, 10 ago. 1935. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem XXV: A propósito de veio (ver-
bo vir). O Imparcial. Araraquara, 11 ago. 1935. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem XXVI: Sebo, não cebo. O
Imparcial. Araraquara, 5 abr. 1936. (CPLC)
200
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem XXVII: Pois não! Não, igual a
sim; sim, igual a não. Por amor de. O Imparcial. Araraquara, 12 abr. 1936,
p. 4. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem XXVIII: Haver-se. Avir-se.
Carecer. Precisar. O Imparcial. Araraquara, 19 abr. 1936, p. 3. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem XXIX: Água de Córdova. O
Imparcial. Araraquara, 26 abr.1936. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem XXX: Barêja – vareja. O
Imparcial. Araraquara, 3 mai. 1936. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem XXXI: Mulher, esposa, senho-
ra. O Imparcial. Araraquara, 10 mai. 1936. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem XXXII: A troca do B pelo V. O
Imparcial. Araraquara, 17 mai. 1936. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem XXXIII: Gomitar, vomitar. O
Imparcial. Araraquara, 24 mai. 1936. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem XXXIV: Alguém e ninguém/
Atreiçoado e atraiçoado. O Imparcial. Araraquara, 31 mai. 1936. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem XXXV: Ortografia. O
Imparcial. Araraquara, 7 jun. 1936. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem XXXVI: Ortografia. O
Imparcial. Araraquara, 14 jun. 1936. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem XXXVII: Ortografia. O
Imparcial. Araraquara, 21 jun. 1936. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem XXXVIII: Ortografia. O
Imparcial. Araraquara, 5 jul. 1936. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem XXXIX: Ortografia: - os acen-
tos gráficos. O Imparcial. Araraquara, 12 jul. 1936. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem XL: Aumentativos e diminuti-
vos. O Imparcial. Araraquara, 2 ago. 1936. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem XLI: Aumentativos e diminuti-
vos. O Imparcial. Araraquara, 16 ago. 1936. (CPLC)
201
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem XLII: Aumentativos e diminu-
tivos. O Imparcial. Araraquara, 30 ago. 1936. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem XLIII: Bocó; bogó; mocó. O
Imparcial. Araraquara, 6 set. 1936. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem XLIV: Desinsarado; desinsofri-
do; desinquieto; desinfeliz. O Imparcial. Araraquara, 17 out. 1936. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem XLV: Se o não encontre – Se o
espera. O Imparcial. Araraquara, 24 out. 1936. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem XLVI: Se o não encontre. Se o
espera (Continuação). O Imparcial. Araraquara, 31 out. 1936. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem XLVII: Se o não encontre. Se o
espera (Conclusão). O Imparcial. Araraquara, 7 nov. 1936. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem XLVIII: Nhato. O Imparcial.
Araraquara, 5 nov. 1936. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Com as apostilas. O Imparcial. Araraquara, 30 abr.
1936. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Língua brasileira. S. n. t. [Post. 18 jul. 1935.].
(CPLC)
MOTA COQUEIRO. A palavra Araraquara. Folha da Manhã. São Paulo,
27 nov. 1936, p. 6-7. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem: Onde se o não encontre...
quando se o espera. O Estado de S. Paulo. São Paulo, 14 set. 1941, p. 4.
(Arquivo do Estado de São Paulo)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem: O pronome se, sujeito de ora-
ção. O Estado de S. Paulo. São Paulo, 21 set. 1941, p.4. (Arquivo do Estado
de São Paulo)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem: Proposital; Propositado –
Propositalmente; Propositadamente. [Revista Bellas Artes], a. 4, nº 37-38.
Rio de Janeiro, mai.-jun. 1938. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem: Beijo – Beijinho – Beijú –
Bijú. Revista Esfera, a. 4, nº 11. Rio de Janeiro, dez. 1945, p. 28. (CPLC)
202
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem: Pomba cascável – Pomba
cascavél – Fogo apagou – (Scardafelia Squamosa). Revista Esfera, a. 5, nº 12.
Rio de Janeiro, fev. 1946, p. 46. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Fichas de linguagem: Martelo. Revista Esfera, a. 5, nº
14. Rio de Janeiro, mai. 1946, p. 40. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Sucuri – sucuriú – sucurijú. Revista de Cultura, a.
12, v. 23, nº 133. Rio de Janeiro: s/e, jan.-jun. 1938, p. 161-163. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Tu-tuca-tutuca. Revista de Cultura, a. 12, v. 23, nº
133. Rio de Janeiro: s/e, jan.-jun. 1938, p. 245-247. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Giboia. Revista de Cultura, a. 12, v. 24, nº 140. Rio
de Janeiro: s/e, jul.- dez. 1938, p.72-75. (CPLC)
MOTA COQUEIRO. Febre amarela. Correio Popular. Araraquara, 5 fev.
1950. (CPLC).
MOTA COQUEIRO. Discurso do filólogo araraquarense Sr. Pio Lourenço
Corrêa. O Imparcial, Araraquara, 3 mar. 1946. (CPLC)
2 BIBLIOGRAFIA DE PIO LOURENÇO CORRÊA S
EM O USO DE PSEUDÔNIMO
2.1 Colaboração em livros
CORRÊA, Pio Lourenço. Estudo Histórico-Linguístico do nome da cida-
de e município de Araraquara. In: ALMEIDA, Nelson Martins de (Org.).
Álbum de Araraquara – 1948. 1. ed. Araraquara (SP): ed. do org., p. 26-27.
CORRÊA, Pio Lourenço. A abolição em Araraquara. In: ALMEIDA,
Nelson Martins de (Org.). Álbum de Araraquara – 1948. 1. ed. Araraquara
(SP): ed. do org., p. 27-28.
CORRÊA, Pio Lourenço. A febre amarela em Araraquara. In: ALMEIDA,
Nelson Martins de (Org.). Álbum de Araraquara – 1948. 1. ed. Araraquara
(SP): ed. do org., p. 39-40.
CORRÊA, Pio Lourenço. O depoimento confidencial de Pio Lourenço
Corrêa, um documento único. In: TELAROLLI, R. Brito: república de san-
gue. Araraquara: Edições Macunaíma, 1997, p.219-216.
203
3 BIBLIOGRAFIA SOBRE PIO LOURENÇO CORRÊA
3.1 Livro
ANDRADE, Mário de & CORRÊA, Pio Lourenço. Pio e Mário: diálogo
da vida inteira. 1. ed. Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, São Paulo: SESC,
2009. (Correspondência de 1917 a 1945).
3.2 Dissertação
GUARANHA, Denise Landi Corrales. A riqueza nas diferenças: edição
fidedigna e anotada da correspondência Mário de Andrade & Pio Lourenço
Corrêa (1917-1945). Orientadores: erezinha Apparecida Porto Ancona
Lopez e Marcos Antonio de Moraes. Dissertação (Mestrado em Literatura
Brasileira). São Paulo: USP, 2007.
3.3 Capítulos de livros
AGUIAR, Apparecida J. G. Pio Lourenço Corrêa. In: Araraquara - Aspectos
da sua história. Araraquara: s/e, 2003, p.177.
CANDIDO, Antonio. Mário de Andrade e o velho Pio. In: O albatroz e o
chinês. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2004, p. 119-122.
CANDIDO, Antonio. Pio Lourenço Corrêa. In: O albatroz e o chinês. Rio
de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2004, p. 123-126.
3.4 Textos com menções a Pio Lourenço Corrêa em livros
ANDRADE, Mário de. A língua nacional. In: Vida literária.
Estabelecimento do texto, introdução e notas de Sônia Sachs. São Paulo:
Hucitec; Edusp, 1993, p. 175-178.
ANDRADE, Mário de. O baile dos pronomes. In: O empalhador de passari-
nho. 4. ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 2002, p. 269-274.
ANDRADE, Mário de. O Turista Aprendiz. Estabelecimento do texto,
introdução e notas de Telê Ancona Lopez. São Paulo: Duas Cidades/
Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia, 1977.
BRANDÃO, Ignácio de Loyola. Ruth Cardoso: fragmentos de uma vida.
Rio de Janeiro: Globo, 2012.
204
CAMARGO, Eduardo Ribeiro dos Santos. Os Novaes de São Paulo -
Achegas Genealógicas. 2. ed. São Paulo: Assembleia Legislativa, 1996, p.
16-19; 254-272.
CANDIDO, Antonio. Eça de Queirós passado e presente. In: O albatroz e o
chinês. Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, 2004, p. 85-100.
CANDIDO, Antonio. Os Parceiros do Rio Bonito: estudo sobre o caipira
paulista e a transformação dos seus meios de vida. 12. ed. Rio de Janeiro:
Ouro Sobre Azul; São Paulo: Edusp, 2017, p.15.
CASTRO, M. W. de. Mário de Andrade: exílio no Rio. Rio de Janeiro:
Rocco, 1989.
FONSECA, Maria Augusta. Por que ler Mário de Andrade. Rio de Janeiro:
Globo Livros, 2013.
FRANÇA, Antonio M. (Org.). Álbum de Araraquara. Araraquara: Câmara
Municipal; João Silveira, 1915.
RABELLO, Ivone Daré. A caminho do encontro. São Paulo: Ateliê Editorial,
2000.
3.5 Textos com menções a Pio Lourenço Corrêa em periódicos
ALMEIDA, Aline Novais de. A biblioteca fantástica de Mário de Andrade.
Revista Criação & Crítica, n. 9. São Paulo: USP, 2012.
ANDRADE, A. dos S. Rozendo de Souza Brito: série Rosarenses ilustres:
um crime em Araraquara. n. 5. Blog Fontes da História de Sergipe. 13 set.
2009. Disponível em: fontesdahistoriadesergipe.blogspot.com.br/2009/09/
um-rosarenselichado-em-araraguara-sp.html. Acesso em: 27 nov. 2018.
ARCAIDE, Adriane Souza et al. Quatro bibliotecas públicas no interior
do estado de São Paulo. Anais do Congresso de Leitura – COLE. 2016.
Disponível em: http://alb.org.br/arquivo-morto/edicoes_anteriores/anais16/
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de Andrade. Revista Remate de Males, 2013. Campinas (SP), p. 245-254,
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de Campo: Revista de Ciências Sociais, n. 19, 2015, p. 61-85.
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www.snh2013.anpuh.org/resources/anais/27/1364916190_ARQUIVO_
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Acesso em 9 dez. 2018.
208
3.6 Menções na correspondência de Mário de Andrade
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Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade. Rio de Janeiro: José
Olympio, 1982.
FERNANDES, Lygia (Org.). 71 cartas de Mário de Andrade. Rio de Janeiro:
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& Manuel Bandeira. São Paulo: IEB/EDUSP, 2000. Disponível em: http://
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3.7 Menções em dissertações e teses
ÁVILA, Edmar de Assis Campelo. Entre cartas e versões o artefazer em
Amar, verbo intransitivo. Orientadora: Maria Augusta Bernardes Fonseca.
Dissertação (Mestrado em Teoria Literária e Literatura Comparada). São
Paulo: USP, 2015.
CUNHA, Bruna Araújo. Ruas do meu São Paulo: notações sensoriais
e visões críticas na poética de Mário de Andrade. Orientadora: Joelma
Santana Siqueira. Dissertação (Mestrado em Letras). Viçosa (MG):
UFV, 2014. Disponível em: http://www.locus.ufv.br/bitstream/hand-
le/123456789/4877/texto%20completo.pdf?sequence=1. Acesso em 25
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FIGUEIREDO, Tatiana Maria Longo dos Santos. Café: o trajeto da criação
de um romance inacabado de Mário de Andrade. Orientadora: erezinha
Apparecida Porto Ancona Lopez. Tese (Doutorado em Literatura Brasileira).
São Paulo (SP): USP, 2009.
KIMORI, Lígia Rivello Baranda. Os mestres no passado: Mário de Andrade
lê os parnasianos. Orientadora: erezinha Apparecida Porto Ancona
Lopez. Dissertação (Mestrado em Literatura Brasileira). São Paulo: USP,
2014. Disponível em: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8149/
tde-24042015-105947/pt-br.php
MACHADO, Márcia Regina Jaschke. Manuscritos de outros escritores no
Arquivo Mário de Andrade: perspectivas de estudo. Orientadora: erezinha
Apparecida Porto Ancona Lopez. Dissertação (Mestrado em Literatura
Brasileira). São Paulo: USP, 2005.
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dos dossiês literários com exemplares de trabalho de Mário de Andrade.
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ROMÃO, Tameny. Retratos de Mário de Andrade: catálogo da iconografia
dedicada ao escritor. Vol. 01. Orientador: Jorge Coli. Dissertação (Mestrado
em História da Arte). Campinas: UNICAMP, 2013. Disponível em: repo-
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Curso de Biblioteconomia. Marília: UNESP, 2012.
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riodeandradiana: Diálogos, Grafias e Disputas. Orientador: Milton
Lahuertas. Dissertação (Mestrado em Ciência Sociais). Araraquara:
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TERRA, Lívia Maria. Negro suspeito, negro bandido: um estudo sobre o dis-
curso policial. Orientador: Dagoberto José Fonseca. Dissertação (Mestrado
em Sociologia). Araraquara (SP): UNESP, 2010.
210
ACERVOS E INSTITUIÇÕES CONSULTADOS
ARARAQUARA – SP
Biblioteca Pública Municipal Mário de Andrade
Rua Carlos Gomes, 1729 – Centro
CEP: 14801-340
Fone: (16) 3332-0777
E-mail: bibliotecamunicipal@araraquara.sp.gov.br
Arquivo Público Histórico “Professor Rodolpho Telarolli
Rua São Bento, 909 – Centro
CEP: 14801-300
Fone: (16) 3332-2212
E-mail: fundart@techs.com.br
Centro Cultural “Professores Waldemar e Heleieth Saffioti” (antiga
Chácara da Sapucaia)
Rua dos Libaneses, 1111 – Carmo
CEP: 14800-165
Fone: (16) 3332-1505
E-mail: ccpws@iq.unesp.br
SESC – Serviço Social do Comércio - Araraquara
Rua Castro Alves, 1315 - Quitandinha,
CEP: 14800-140
Fone: : (16) 3301-7500
E-mail: marcia@araraquara.sescsp.org.br
MARÍLIA – SP
Acervo da Biblioteca da Faculdade de Filosofia e Ciências, da Universidade
Estadual Paulista – UNESP
211
Endereço: Av. Hygino Muzzi Filho, 377 – Campus Universitário
Caixa Postal: 181 – Marília – SP – CEP: 17525-90
Home page: http://www.marilia.unesp.br/#!/biblioteca/biblioteca-digital/
O PAULO – SP
IEB – Instituto de Estudos Brasileiros
Endereço: Edifício Brasiliana – Praça do Relógio Solar, 342 – Cidade
Universitária
Caixa Postal: 11.154 – CEP: 05508-050
Butantã – São Paulo – SP
Home page: http://www.ieb.usp.br/
Arquivo Público do Estado de São Paulo
Endereço: Rua Voluntários da Pátria, 596
Santana – São Paulo – SP
CEP: 02010-000
Fone: (11) 2868-4500
Home page: http://www.arquivoestado.sp.gov.br/site/
BASES DE DADOS DISPONÍVEIS ON-LINE E SITES DA
INTERNET
Serviço de Biblioteca e Documentação da Faculdade de Educação da
Universidade de São Paulo – USP
Disponível em: http://www3.fe.usp.br/secoes/inst/novo/biblio.htm
Banco de Dados Bibliográficos da Universidade de São Paulo – USP
Disponível em: http://dedalus.usp.br:4500/ALEPH/por/USP/USP/
DEDALUS/STARTA
Base de Dados da Biblioteca da Universidade Estadual Paulista – UNESP
Disponível em: http://www.athena.biblioteca.unesp.br/F?RN=336081732
212
Banco de Teses da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível
Superior (CAPES)
Disponível em: http://serevicos.capes.gov.br/capesdw/Teses.do
Portal Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de
Nível Superior - CAPES
Disponível em: http://www.periodicos.capes.gov.br/portugues/index.jsp
Acervo on-line do Grupo de Estudos e Pesquisas “História, Sociedade
e Educação no Brasil” (HISTEDBR) da Universidade de Campinas
(UNICAMP)
Disponível em: http://histedbr.fae.unicamp.br/
Banco de Dados Bibliográficos da Universidade de São Paulo – USP
Disponível em: http://dedalus.usp.br
Site de busca “Google
Disponível em: http://www.google.com.br
Site de busca “Google Acadêmico
Disponível em: http://acholar.google.com.br/
Biblioteca Brasiliana USP
Disponível em: http://www.brasiliana.usp.br/node/503
213
Figura 41: Árvore Genealógica de Pio Lourença Corrêa
24
24
Árvore genealógica elaborada pela autora.
214
Figura 42: Apresentação da Fazenda São Francisco, de propriedade de PLC, no Álbum de
Araraquara - 1915, p. 272. (CPLC – Araraquara. GUARANHA, 2022)
Figura 43: COQUEIRO, Mota. O caso do barraqueiro. Papel e Tinta, a. 1, São Paulo/ Rio de
Janeiro: Sociedade Editora Non Ducor Duco Ltda., jan./ fev. 1921, p. 5-6
(AMA – IEB – USP – São Paulo).
215
Entrevista com Antonio Candido
No ano de 2004, fui aprovada no Programa de Pós-Graduação em
Literatura Brasileira da Universidade de São Paulo - USP, campus Butantã, tendo
como professores-orientadores Telê Ancona Lopez e Marcus Antônio Moraes, fi-
guras centrais do Instituto de Estudos Brasileiros – IEB, conhecidos estudiosos de
Mário de Andrade (1893-1945), especialistas em epistolografia e crítica genética,
responsáveis por organizar, classificar, analisar e publicar os manuscritos deixados
pelo escritor modernista, principalmente em seu baú, aberto cinquenta anos após
a morte do autor. Nos meios acadêmicos, dispensam apresentações.
Passei a fazer parte da Equipe Mário de Andrade, grupo de pesquisas
e estudos sobre o escritor, e coube a mim fazer a edição fidedigna e anotada
da correspondência de Mário com Pio Lourenço Corrêa (1875-1957), fazen-
deiro, casado com sua prima em primeiro grau, Zulmira de Moraes Rocha
Corrêa (1878-1959), figura conhecida somente por um círculo restrito de
familiares. As cartas que o sr. Pio escreveu para Mário estavam no espólio do
autor e já haviam sido classificadas e transcritas. As cartas que Mário escreveu
ao sr. Pio foram doadas por este ao professor Antonio Candido de Mello e
Souza (1909-2017), figura que também dispensa apresentações, e que fazia
parte da família, pois foi casado com a professora Gilda de Mello e Souza
(1919-2005), outra figura importante nos meios acadêmicos e que era prima
de Mário. Esse segundo grupo de cartas foi doado, então, pela família, ao
IEB, para que se fizesse a edição, trabalho que realizei.
A atividade com as cartas foi meticulosa, acompanhada de perto por
Marcus Antônio de Moraes, organizador da correspondência de Mário com
Manuel Bandeira entre outras obras. Como discípula, fui acompanhada
por grandes personalidades intelectuais, mestres de grande envergadura da
Universidade de São Paulo. Cada um deles contribuiu para que o traba-
lho fosse se delineando e se concretizando até culminar na dissertação de
216
mestrado: A riqueza nas diferenças: edição fidedigna e anotada da correspon-
dência Mário de Andrade & Pio Lourenço Corrêa (1917-1945), defendida
em junho de 2007; e em 2009, na publicação do livro Pio & Mário: diálogo
da vida inteira, pela Editora Ouro Sobre Azul, do Rio de Janeiro, sob o pa-
trocínio do Serviço Social do Comércio – SESC, de São Paulo.
O périplo foi grande. Várias viagens à cidade de Araraquara, onde Pio
Lourenço Corrêa viveu em sua Chácara da Sapucaia, local em que Mário redi-
giu a primeira versão do livro Macunaíma (1928); onde seu espólio está con-
servado na Biblioteca Pública Municipal; e onde se encontram várias marcas
de sua vida, como a avenida que tem o nome dele. Na cidade do interior de
São Paulo fui recebida pelo casal Renato e Helena Rocha, a quem entrevistei,
ele primo de Mário e sobrinho de Pio, a quem coube por herança a famosa
Chácara da Sapucaia, local onde morou durante muito tempo. Hoje, com
o crescimento da cidade, a chácara foi encampada pelo desenvolvimento.
Primeiramente, foi comprada por Waldemar Saffiotti, professor de química
da Universidade Estadual Paulista – UNESP – campus de Araraquara; após a
sua morte, foi doada à universidade e lá funciona um centro cultural.
De todos esses procedimentos, consegui reunir farto material, manus-
critos de Pio Lourenço Corrêa; informações pesquisadas mas, principalmen-
te, registros de conversas que tive com esses mestres todos e que, acredito, são
importantes e devem ser divulgadas. Na época, o registro foi feito em grava-
dor pequeno e fita cassete, hoje meios extremamente ultrapassados e frágeis.
Assim, transcrevi essas entrevistas para que os leitores possam ter acesso a
várias histórias sobre essa figura peculiar que foi Pio Lourenço Corrêa, con-
tadas por contemporâneos dele ou por grandes intelectuais de nossa época,
histórias que não consegui encontrar em livros, tive acesso apenas pelo rico
testemunho desses mestres pelos quais tenho eterna gratidão.
No caminho da Sapucaia, a última pessoa com quem falei foi o pro-
fessor Antonio Candido de Mello e Souza. Quando nenhum livro mais con-
seguiu esclarecer os fatos, quando nenhuma pessoa mais soube responder às
minhas perguntas, marcamos uma reunião na casa dele e lá passei a tarde
ouvindo as histórias, esclarecendo os nomes citados nas cartas, conhecendo
alguns objetos que pertenceram ao senhor Pio e fechando com chave de ouro
as notas para a correspondência.
217
TRANSCRIÇÃO DA ENTREVISTA COM O PROFESSOR ANTONIO
CANDIDO REALIZADA EM 22 DE MAIO DE 2006,
A PARTIR DAS 14H00
D: Na correspondência entre Mário e Pio eles citam muitas pessoas,
casos...
AC: Muita coisa eu não vou saber, provavelmente, mas o que eu souber
eu vou contar tudo para a senhora.
D: Ah, então está bem...
D: O senhor conheceu alguma Cotinha Moreira?
AC: Não é Moreira... É Cotinha Moura! Conheci muito... Eram a
Lucíola e a Cotinha... Eram filhas da dona... Esqueci o nome da mãe delas...
Uma senhora muito simpática, muito distinta, dessas famílias antigas que
empobrecem... Elas ficaram paupérrimas... Sinhara Moura era a mãe... Elas
tinham um irmão... Eu nunca conheci... Mas a Lucíola, que era a mais velha,
ela era vigilante do ginásio, um emprego bem modesto... E a Cotinha ficava
em casa com a mãe, acho que elas faziam coisas para fora, doces... Eram mui-
to bem educadas. A sra. sabe quem era Rubens Borba de Moraes? Foi diretor
da Biblioteca Municipal, elas eram primas dele, elas eram Borba. Cotinha
Moura conheci muito, amiga da irmã de Mário de Andrade [Lourdes], nun-
ca se casou. A Lucíola, mais velha, casou-se e ficou viúva, mas a Cotinha
nunca se casou... Ficou sempre com a mãe, sra. Moura, e era muito ligada à
família da Gilda [de Mello e Souza], com D. Zulmira, sr. Pio, uma senhora
muito distinta. Agora, o nome dela não sei qual é... Cota era diminutivo de
Maria geralmente... Maricota, Cota, Cotinha... Às vezes, a pessoa tem esse
apelido, mas não é... Mas conheci sim, conheci muito... Uma senhora muito
distinta...
D: Ela era de Araraquara?
AC: Sim. Ela era íntima amiga da irmã de Mário. Quando vinha a São
Paulo, ficava hospedada lá... Ela era mais ou menos da mesma idade da irmã
dele, Lourdes... Era uma das grandes amigas da Lourdes Andrade.
D: Quem era o Carlos Eduardo, que era o xodó da mãe de Mário de
Andrade?
AC: Carlos Eduardo era irmão de Gilda. Carlos Eduardo Rocha. Irmão
218
dois anos mais velho que a Gilda, era médico, estudante de medicina, ele era
bastante “espeloteado”, bastante “espeloteado”!... Então criava muitos confli-
tos com a família... Mas a mãe de Mário, que eles chamavam de avó, tia-a-
... Ele adorava essa senhora... E ela adorava o Carlos... O Carlos foi muito
bom para ela, vou lhe dar um exemplo... Embora “espeloteado”, uma vez,
por exemplo, ela tinha um dinheiro para aplicar e não sabia o que fazer... Ele
descobriu uma “carreira” de casas no Ipiranga. Descobriu, chamou a atenção
dela, ela comprou, alugou e com isso tinha uma renda mensal. A mim mesmo
ela disse várias vezes: “Eu gosto muito do Carlos, ele é muito bonzinho”. Ele
vivia muito em conflito com o pai, a mãe, os irmãos, porque ele era bastante
espeloteado”... Gostava de dizer verdades, era muito católico... Estávamos ali
com ele, quando ele morreu, e ele pedia para o irmão dele: “Não fique triste
não, é o momento mais feliz da minha vida, eu vou encontrar com o meu
criador... Eu vou encontrar com Deus”... Uma coragem extraordinária... Mas
era muito ligado a essa tia-avó, porque, é o seguinte... com a crise de 1929,
meu sogro levou uma “fubecada” tremenda como muitos fazendeiros de café.
Então, para os filhos virem estudar em São Paulo, ficaram hospedados em
casas de parentes... A mãe do meu sogro, D. Izabel, recebeu o Fernando, ir-
mão mais moço da Gilda, que está vivo... a Gilda e a Maria moraram na casa
da mãe de Mário, Gilda morou lá 13 anos. A Gilda saiu no dia que se casou
comigo, o Carlos foi morar na casa ao lado, na casa do irmão de Mário, mas
depois veio morar também na casa da mãe de Mário, eles foram muito bons
para a família da Gilda, a mãe de Mário abrigou esses sobrinhos-netos, de
modo que o Carlos morou lá, e era muito bom neto, ele chamava a tia-avó de
tia, esse era o Carlos Eduardo.
D: E como ele tratava o sr.? Porque tem vários Candidos, tem o
Candido Rocha, que era o seu sogro...
AC: Candido Rocha era o meu sogro; tinha o Candido Mello, como
eu, que era o sobrinho do sr. Pio.
D: Tem o Candinho...
AC: Candinho era o meu sogro, Candido Rocha...
D: Era o mesmo então...
AC: Eram dois Candidos na família dele, vivos naquele momento...
Era o Candido de Moraes Rocha (1886-1961), o meu sogro, que ele chamava
219
de Candinho, eu mesmo o chamava de seu Candinho; era raro chamá-lo
diferente.... O único que o chamava de Candido era o sr. Pio. O único. A
mulher o chamava de Candinho, a d. Zulmira, irmã dele, que era mulher
do sr. Pio, ele próprio se apresentava como Candinho Rocha... Sobrinho e
cunhado do sr. Pio. Sr. Pio era casado com a sobrinha, sr. Pio era irmão
do pai dele. Eles eram em três irmãos: a D. Adelina, a D. Zulmira e o Sr.
Candinho. Sr. Candinho era bem mais moço do que as irmãs, a mais velha
era D. Adelina, irmã de D. Zulmira, mulher de Pio, que tinha um filho cha-
mado Candido Rocha Mello (1904-?), esse é o Candido Mello, e como eu
sou também Candido Mello, é uma confusão danada...
D: É eu até pensei que poderiam ser a mesma pessoa...
AC: A mim ele chamava de Antonio Candido.
D: Pio Lourenço, em uma das cartas usa a expressão: “A Candinha do
século!”. Bem depois de Mário ter publicado o livro Os filhos da Candinha...
Ele aplica essa expressão quando se refere a uma pessoa... O sr. tem ideia de
quem seja... Eu não sei se nessa época já se usava a expressão Candinha com
o significado de fofoqueira...
AC: Não sei, não sei... Nunca ouvi usar Candinha como fofoqueira...
Os filhos da Candinha... não sei direito o que significa... Acho que é ... Isso é
com os filhos da Candinha!... É não sou capaz de dizer...
D: Ah! E a história do Paixão?
AC: A sra. quer que eu conte a história do Paixão? Uma coisa gravíssi-
ma... O Paixão era um português muito bonito, um homem alto, José Maria
Paixão (? - ?). Casou-se com uma sobrinha do Sr. Pio, D. Zulmira Corrêa
Vaz (?-?), que era a maior amiga da mulher de Pio, que também era Zulmira,
eram duas Zulmiras primas-irmãs... Uma chamava a outra de xará, “Oh,
xará!” E esse Paixão deu o golpe do baú! Acho que ele era caixeiro-viajante,
se não me engano, ou era farmacêutico, não me lembro bem, enfim era um
português, sem eira nem beira... Bonito, bem falante, tinha estudo, casou-se
com uma moça rica e instalou-se na fortuna da mulher e eram os maiores
amigos do sr. Pio, ele foi muito para a Europa, se não me engano a Lucíola
Moura, irmã da Cotinha Moura, foi para a Europa, passou muito tempo lá
como uma espécie de dama de companhia de D. Zulmira Vaz Paixão... Iam
para a Suíça, ficavam por lá... Esse Paixão, um belo dia, muito amigo do Sr.
220
Pio, eu não sei bem quando, 1920 e tantos, o Sr. Pio cismou que o café dele
estava com brocas, praga, “broqueado”... Estava perdido, e disse: “Eu vou
vender essa fazenda por qualquer preço, porque o café está broqueado”, pois
o Paixão disse: “Eu compro!” Então PLC vendeu. “Quanto você quer”? Pio
disse “tanto”, e ele vendeu a fazenda., não sei por quanto. Depois ele caiu
em si, e viu que tinha feito uma bobagem. Além do mais, ele gostava muito
da fazenda, a fazenda era dele, ele vivia daquilo. Aí Pio Lourenço disse: “Eu
dei minha palavra ao Paixão, eu entrego a fazenda a ele.” Depois que tiver
fechada a escritura, eu me suicido”. Ele era capaz, porque o Sr. Pio era meio...
pancado”... “Eu me suicido!”... Aí a minha sogra, que era uma mulher de
grande iniciativa, mulher extraordinária, dessas mulheres fortes, disse: “O sr.
não vai vender essa fazenda. O sr. vai chamar o Paixão, que é seu amigo, seu
sobrinho, casado com sua sobrinha, e o Sr. vai dizer a ele que que desfazer o
negócio”. O sr. Pio... disse para ele: “Olha, eu me arrependi e eu quero saber
quanto o Sr. quer pela minha palavra”. Qualquer pessoa decente, com um
grande amigo diria assim: “Não, não quer vender está acabado o assunto”. A
Gilda deve ter isso anotado em algum lugar. Então o Sr. Pio deu o dinheiro
a ele como se fosse hoje uns R$150.000,00 ... para comprar a palavra... E o
Paixão disse: “Mas o seu afilhado, Carlos”, que era o filho do Paixão, quer
uma “Baratinha”, como chamavam aquele carro antigo... E o sr. Pio deu a
“Baratinha”... “Ele quer também aquele cavalo da fazenda”... Sr. Pio deu o
cavalo... Deu tudo o que ele pediu e rompeu as relações para o resto da vida...
Essa é a história do Paixão... Ele agiu como um canalha. Um caso deste
entre grandes amigos, a gente diz: “Não tem problema”... Ele comprou a
palavra do grande amigo... Aí cortaram as relações... E ficou uma situação
muito triste, porque Zulmira, a esposa de Pio,
tinha como maior amiga, a prima-irmã, Zulmira Corrêa Vaz, e não
puderam mais se frequentar... Às vezes, quando se encontravam na casa de al-
gum parente, se abraçavam e ficavam chorando... Essa é a história do Paixão.
D: E a história da Joia, da Marcolina?
AC: Essa história eu conheço bem... O sr. Pio casou-se muito novo, por
volta dos 22 anos, mas desde os 17, 18 anos, ele era muito dado a mulheres...
Mulheres da vida... A Sra. me perdoe a expressão grosseira, mas Pio Lourenço
me disse uma vez: “Eu era muito putanheiro!” Expressão interessante, que
221
não se usa mais... “Quando eu era moço, eu era muito putanheiro!” Vivia
com essas mulheres, mulheres da vida. Ele me contou que, numa casa de mu-
lheres, ele encontrou essa moça, que era uma mulata clara, de olhos verdes,
de extraordinária beleza, uma moça muito boa... A prostituição é uma das
coisas mais tristes que existe, eu acho. São moças em casos de miséria, neces-
sidade, essa era até uma boa moça, coitada, para poder sobreviver... Sr. Pio
apaixonou-se por ela, tirou-a da casa de tolerância, e montou uma casa para
ela, passou a viver com ela, gostava muito dela. Ela gostava muito dele, tinha
paixão por ele. Uma grande paixão... Dois jovens, por volta dos 20 anos...
Mas ele gostava da sobrinha, D. Zulmira...
D: Ah! Ele já gostava da D. Zulmira?
AC: Já gostava, essa coisa... Um belo dia, a futura sogra dele acertou
o casamento dos dois e a Joia ficou desesperada. Esse era o apelido, o nome
dela era...
D: Marcolina?
AC: Marcolina? Não sei bem... O apelido era Joia. Pio deu um presen-
te bom para ela, deu-lhe uma indenização, e rompeu a relação. Ela saiu de
Araraquara e não se ouviu mais falar dela. Passados alguns anos, um amigo
dele, disse o seguinte: “Pio, está havendo uma coisa muito desagradável...
Tem um bordel aqui em São Carlos, cidade vizinha, e uma prostituta de lá
tem o seu retrato no quarto dela. Ela recebe os clientes com o seu retrato na
parede!”
Pio entendeu imediatamente o que era e ficou indignado!. Pegou o
trem e foi a São Carlos, foi até lá conversar com ela, que levou um susto ao vê-
-lo, ele passou um “sabão” nela. Ela havia pegado um retrato de Pio e mandou
fazer uma ampliação a lápis, muito bem feita. Está aqui em casa, em algum
lugar... Guardado... que o Renato [Rocha] deu para Gilda. Ele ficou bravo,
ela começou a chorar: “Pio é que eu gosto muito de você!”. Muito como-
vente! Ele ficou muito emocionado também e amoleceu... Disse: “Eu com-
preendo, eu compreendo, mas você há de convir que não é lugar de colocar o
meu retrato... Você recebe esses homens aí... Me dê o meu retrato”. Ela disse:
“Não, não... Vá para Araraquara que eu mando o seu retrato”. Ele voltou para
casa e daí uns dias, ele recebeu um engradado... Abriu e era o retrato. Quem
levou esse engradado foi o filho de um antigo escravo, que era o Ananias,
222
ou ele próprio era o antigo escravo, Ananias Rocha, tinha o sobrenome do
senhor dos escravos. Pio disse a ele: “Jogue isso fora!”. E o Ananias disse, o Sr.
dá ele para mim? Pio deu o retrato que ficou com a família do Ananias. Até
que Renato [Rocha], 50 anos depois, recuperou e deu para Gilda.
Passados uns tempos, ele soube que essa Joia tinha decaído muito.
Estava bebendo.... Ela teve uma paixão trágica pelo sr. Pio. Muito triste essa
história. Aí ela mandou avisá-lo que estava numa situação muito ruim e pe-
diu a ele 500 mil réis. Naquele tempo era bastante dinheiro, era o ordenado
de um promotor de justiça. Então, ele foi falar com D. Zulmira, que sabia
perfeitamente desse caso dele, pois todos em Araraquara sabiam que ele fora
amante de Joia... Nesse dia, Pio me disse: “porque eu nunca traí Zulmira!”.
“Nunca menti para Zulmira!”. Era um homem de caráter. E disse a ela: “Joia,
você sabe quem é. Você permite que eu mande esse dinheiro para ela?”.
Zulmira consentiu. Ele mandou o dinheiro para ela. Passado um tempo, Joia
morreu.
Pio Lourenço contou essa história ao Mário de Andrade, que ficou
fascinado e disse: “Tio Pio, essa história dá um conto extraordinário”... Então
eles combinaram o seguinte: cada um escreveria um conto. Tio Pio escreveria
um e Mário escreveria outro. Mário não escreveu, mas o sr. Pio escreveu,
escreveu o conto, eu li mais de uma vez esse conto, muito bem datilografado
numa capa de cartolina, tinha umas duas cópias, e ele me disse: “Quando eu
morrer, eu deixo para você”. Eu li o conto mais de uma vez, era escrito num
português de Camilo Castelo Branco, eu só me lembro de uma frase, que
eu nem entendia: ele [Pio] disse que uma vez foi à fazenda e, quando voltou
[para a casa de Joia], estava acontecendo uma festa. Ele não gostava disso,
chamou-a e passou um pito nela: “Como você faz uma coisa dessas?” Ele não
gostava de festas, era um homem austero, a frase que eu ouvi é a seguinte:
“Bem sabes que sempre fui infenso a fanfarras e valdevinos!”. Uma frase em
português antigo, não é? Um belo dia, eu costumava ir à chácara, dormia lá
uns dois ou três dias, perguntei a ele: “E o conto?”. Ele me disse: “Eu des-
truí!”. Eu disse: “Mas como? O sr. destruiu?”... Ele respondeu: “Você acha
que eu ia deixar atrás de mim uma confissão dessas?” Ele era muito austero...
Uma pena! Ele destruiu”...
D: Há uns trechos do conto lá no IEB, uma moça fez a transcrição e
223
um estudo... Mas está incompleto, e eu acho que a resposta de Mário numa
carta, o Sr. deve se lembrar, que ele diz: “Eu não posso reescrever esse conto,
porque o Sr. tem amor à verdade e eu tenho amor por recriar”... Eu acho
genial essa carta do processo de criação.
AC: O Sr. Pio era aquela coisa... Ele me disse que tomou algumas
liberdades [na criação do conto]... Por exemplo... Ele queria que ela falasse
corretamente, mas ela falava errado. Ele imaginou que ela era filha de um
português e ficou... Ele imaginou que a mãe falecera quando era pequena e
ela fora criada por uma Sra. chamada Adelaide. No Brasil, nós falamos Sra.,
falamos “Dona” fulana. Em Portugal, dona são só as mulheres da nobre-
za, antigamente. Sra. Maria, Sra. Francisca, ele via nos livros portugueses e
achava bonito... E ele a chamou de Sra. Adelaide, e esta conversava com a
personagem Joia, em português correto. E aí ela aprendeu e começou a falar
o português correto. Pio disse: “tudo isso foi imaginação minha”.
Enfim, essa é a história da Joia...
D.: E a D. Zulmira... Não se importava com essa história?
AC.: Ela dizia para mim... Ela tinha uma linguagem muito crua... Ela
se referia às mulheres da vida com aquela expressão pior... “Filha da....”. Ela
era desbocada, dizia: “Ela era muito mais bonita que eu...”. A Joia era uma
mocinha, dizem que era linda... “Era uma mulata bonita, meu filho, mais
bonita que eu”. A D. Zulmira sabia dessa história, mas o sr. Pio largou dela”.
D. Zulmira me contou uma história... Foi num carnaval, deve ter sido
de 1895, o Sr. Pio e um sobrinho dele, os sobrinhos eram mais velhos do que
ele, chamado Sebastião Corrêa de Lacerda, resolveram fazer um carro ale-
górico no Carnaval. Pegaram um carroção, puxado por dois ou três cavalos,
chamaram umas prostitutas e as vestiram com umas túnicas gregas, então,
aquelas mulheres fazendo um quadro vivo, foi um grande sucesso na cidade,
o carroceiro... Fazia-se o corso, no Carnaval, com carros alegóricos, e um dos
carros era o tal carroção com as prostitutas vestindo túnicas gregas, como se
fossem gregas... D. Zulmira contava essa história ao lado do sr. Pio e dizia:
“Ele e o Sebastião Lacerda, sem vergonhas, ficaram escondidos na esquina
espiando”... Ria que não podia... Ela conversava com muita liberdade sobre
esses assuntos...
D.: O chofer da D. Zulmira ...
224
AC.: O Antônio...
D.: Sim, o Antônio, mas em uma das cartas Pio fala “o santo”, chofer
de Zulmira.
AC.: Não conheci. Deve ter sido antes... Eu conheci o Sr. Pio, quando
fiquei noivo de Gilda. 1943, ficamos noivos em setembro e nos casamos em
dezembro. Nesse tempo, o chofer deles já era o Antônio...
D.: Que foi quem cuidou deles no final da vida...
AC.: Antônio Gea. Que era um cão de fila. Um espanhol bonito, mui-
to simpático, vivia lá... Era a pessoa mais chegada a ela no final da vida...
Tudo era o Antônio... Quando um deles não estava bem, ele colocava um
colchão na porta do quarto e dormia ali. Ele era casado, tinha família, mas
dormia ali, como um cão de fila... Era de uma fidelidade extraordinária... Era
o chofer deles.
D.: Tinha também um Alberto Menabue...
AC.: Esse era o caseiro dele. A Chácara da Sapucaia.... A sra. deve ter
ido à chácara... Está toda deformada... Eram 10 alqueires de terra. O Renato
[Rocha] herdou e loteou tudo aquilo ali. Por fora deve estar tudo igual, tijolos
aparentes, era uma casa muito bonita, muito confortável... Aqui ficava a casa,
ali no fundo, na divisa, tinha uma casa comprida, que era a casa do caseiro,
o Alberto Menabue...
D.: Os filhos dele trabalharam na fazenda... Na chácara...
AC.: Não. O Alberto Menabue, o filho dele, o Caíto, cujo nome não
sei, o apelido era Caíto, D. Zulmira e seu Pio trouxeram-no para dentro de
casa, como filho deles, o Caíto não traba- lhava, era um inútil... Então era
uma coisa muito chocante, havia a casa lá no fundo, o Alberto Menabue,
que era italiano, com a mulher dele e três ou quatro filhos, paupérrimos,
e o irmão morando na casa da frente... O sr. Pio colocou o menino num
colégio interno de Campinas, dos Salesianos, acho que se chamava Colégio
Maria Auxiliadora, esse menino tinha muita dificuldade para aprender, nem
sei se ele conseguiu acompanhar, ele era muito fraco, eu me lembro dele, não
dormindo na casa, mas almoçando e jantando, depois que todos almoçavam
ou jantavam, D. Zulmira dava a comida para ele. O almoço da D. Zulmira
e do sr. Pio era muito fora de hora... O almoço era às nove horas da manhã
e o jantar às três horas da tarde... E depois o Caíto ia lá comer... Era meio
225
filho adotivo deles, muito lento, muito improdutivo, e a irmã dele também
foi protegida até certa altura, depois o Sr. Pio a soltou... Esses são os filhos do
Alberto Menabue...
D.: A irmã era a Eta? Antonieta?
AC.: Não, não, Antonieta era outra pessoa... Esse menino, Caíto, ca-
sou-se depois com uma moça muito inteligente, chamada Nair Zaniollo, filha
de um italiano que tinha propriedades, mais ou menos arrumadinha... E ela
viu, de longe, que o Caíto era um bom partido, porque vivia na dependência
do Sr. Pio. Ela se casou com ele e esse Zaniolo ficou muito ligado ao sr. Pio.
Seu Pio, quando ele gostava de uma pessoa, ele dava tudo para essa pessoa. O
pesqueiro dele, o famoso pesqueiro que está no conto “O poço”, ele vendeu
para esse sr. Zaniolo a troco de nada, deu quase, pai da Nair... Esta, mulher
do Caíto, formou-se em Odontologia. Sr. Pio deu a ela de presente um con-
sultório montado... Custou naquele tempo... Quarenta contos de réis... Era
muito dinheiro... Ela era generoso... Era como uma nora... De modo que ela
trabalhava, era uma boa dentista, teve uma filha e, para agradar D. Zulmira
pôs o nome de Isabel, nome da mãe de D. Zulmira, da mãe do meu sogro,
era Isabelinha... Depois a Nair não aguentou e separou-se do Caíto, filho do
Alberto Menabue, o caseiro, que era muito maltratado por D. Zulmira e Sr.
Pio, muito humilhado, D. Zulmira só falava com o Alberto em tom de re-
preensão... “Alberto! Que é isso?”... E aquele homem ali, muito maltratado...
Quase como um escravo. Aquele pobre homem ali com a família... e o filho
dentro da casa dos patrões... Não sei o que foi feito dele...
D.: Nas cartas há referências ao Caíto e à Eta...
AC.: Essa aí é a Antonieta... Era outra coisa... Essa eu não conheci,
é o seguinte: lá pelos anos de 1920 e tantos... Ela foi ser cozinheira de Pio
e Zulmira. Era uma mulher grandalhona... Eles eram aquele tipo de gente
antiga que, quando gostavam de alguém, de um empregado, de um chofer,
faziam tudo por ele. A Antonieta passou a ser uma filha deles... Ela não dor-
mia lá, mas passava o dia inteiro lá... Pio não se referia a ela como “minha
cozinheira”, mas como “a dona do meu regime”, “a dona da minha alimen-
tação”. Tratavam ela de igual para igual. Quando eles iam fazer estação de
águas, levavam a Antonieta, que ficava no hotel com eles, quando gostavam
de uma pessoa, traziam para o nível deles, a Antonieta ficou na família deles
226
por muito tempo, ela guiava o automóvel para o Sr. Pio e D. Zulmira, ela
dirigia...
D.: E isso não causava escândalo na cidade?
AC.: Causava... Minha sogra ficava indignada. Havia gente em
Araraquara que dizia que Antonieta era amante do Sr. Pio. Não é verdade...
Ele me disse com muita convicção: “Eu nunca traí Zulmira”! Agora, que ele
tivesse por ela, uma espécie de afeto senil, o velho com aquela moça ali... Isso
é possível... Mas eu não conheci essa Antonieta. Era uma pessoa a quem eles
estimavam muito e ela era fiel a eles. Ela casou-se, eles foram padrinhos de
casamento, Pio dotou-a, deu muita coisa, ela casou-se com um homem cha-
mado Aurasil, e foram morar no oeste paulista, o Aurasil eu vi visitando Sr.
Pio uma vez e a Antonieta continuou amiga deles...
D.: O Sr. Pio tinha alguma ligação com a cidade de Itapura? Numa
das cartas, ele pede ao Mário, como chefe do Departamento de Cultura, ou
já do Instituto do Patrimônio Histórico...ISPHAN... Pelo que eu entendi,
ele pediu ao Mário que investigasse essa cidade de Itapura, parece que havia
alguma lenda sobre tesouros enterrados... E o Mário disse que não era da
alçada dele... que ele era da segunda divisão, que esse assunto pertencia à pri-
meira....E disse que Itapura não tinha nada... E a história da escrivaninha...
que o Mário compra em São Paulo para dar de presente de casamento lá em
Araraquara para uma afilhada, tem as notas fiscais... Eu entendi que era para
a filha de um... Pio de Almeida... uma tal de Cecília...
AC.: Pio de Almeida não tinha Cecília... Era Luci, a mais velha, mora-
va no Rio de Janeiro, não me lembro mais de outro nome... Nair era a mais
velha... Depois conheci muito a Luci, depois da Luci tinha a... Eram profes-
soras primárias, mas não tinha Cecília... Essas sobrinhas do Sr. Pio eram mui-
to ligadas a ele... A Luci era muito amiga dele, quando ele vinha a São Paulo,
a Luci morava aqui... o Pio de Almeida, que era mais velho que o Sr. Pio, era
sobrinho dele, filho da irmã dele, o Sr. Pio era filho do segundo casamento
do pai... E essas moças... Estou vendo o rosto delas na minha frente... A Luci,
já mais velha, quarentona, casou-se com o Sr. Toledo, um parente deles aqui
de Tietê. Um homem muito simpático, usava barba... Naquele tempo pouca
gente usava barba... A Luci era muito simpática, inteligente, muito boa imi-
tadora... e o Sr. Pio se divertia muito com ela...Tinha uma tal de Virgínia, não
227
sei se aparece nas cartas, que era uma americana, casada com o João Borba,
que era parente da Lucíola... Esse João Borba foi para os Estados Unidos e
voltou casado... E ela morou em Araraquara um tempo, e a especialidade da
Luci era imitar essa Virgínia...
O sr. Pio achava muita graça.... Ela imitava para o Sr. Pio ver... “Sr. Pio
(com sotaque inglês...)!” Foi muito amiga do Sr. Pio essa Virgínia... O Sr.
Pio falava muito bem inglês e sabia muita coisa da língua inglesa... Quando
mais de uma vez ele vinha a São Paulo e convidava-nos para ir ao restaurante
almoçar... E a Luci ia. E Pio perguntava: “Luci, você quer um vinho?” Peça aí
um vinho português...
Quando eu era noivo de Gilda, ele me convidou para almoçar, D.
Zulmira me deu um livro em inglês de presente... da Virginia Woolf, e al-
moçamos no Restaurante Jacinto, que era um dos três melhores restaurantes
de São Paulo, Sr. Pio, D. Zulmira, Gilda, eu e Luci. E quando terminou o
almoço, seu Pio pediu a conta, verificou, pagou e guardou a conta... e disse:
“Você sabe por que eu guardo a conta? Guardo todas as contas de restauran-
tes, de todas as coisas que eu como, pelo seguinte: Quando eu morrer, meus
herdeiros vão dizer... O diabo do velho gastou todo esse dinheiro, poderia ter
deixado para nós”.
D.: Danado ele.
AC.: Ele era um homem muito curioso... Quando vinha a São Paulo,
ele ficava hospedado num hotel que ficava... da Rua João Brícola... Quando
ele chegava, chamava o criado de quarto, pegava uma nota nova de vinte mil
réis e cortava na metade com uma tesoura... na frente de criado, dava-lhe
metade e dizia: “Se você me servir bem, quando eu for embora, eu lhe dou
a outra metade”... Era um tipo curioso mesmo.... Mas Cecília não me lem-
bro... Ele cuidava muito dessas sobrinhas... A Nair, a mais velha, era casada
e morava no Rio; tinha a Luci... Elas eram professoras aqui em São Paulo,
em grupos escolares do Brás... Elas foram promovidas e moravam aqui... Pio
de Almeida morava com elas.... Pio de Almeida era tido como um inútil,
no fim da vida não fazia nada, ele era agente do Correio em Araraquara...
Quando se aposentou, passou a morar com as filhas... Tinha um irmão cha-
mado Sílvio, que era um rapaz muito distinto, muito simpático, corretor de
café em Santos, isso é o que eu sei... Talvez a escrivaninha fosse para a Luci,
228
quem sabe?
D.: Era um presente de casamento, PLC encomendou...
AC.: Presente de casamento? Então não era para a Luci... Luci se casou
bem mais tarde...
D.: Ele pediu para o Mário comprar a escrivaninha aqui em São Paulo...
AC.: Cecília não conheço ninguém...
D.: Andrelino Corrêa?
AC.: Andrelino Corrêa era um sujeito muito simpático... Era também
sobrinho de Pio e muito mais velho do que ele. Era filho de uma irmã de Sr. Pio
casada com um Corrêa também... Um caso muito curioso de Araraquara....
Cinco irmãs Corrêas casaram-se com cinco irmãos Corrêas... As mulheres não
eram parentes dos maridos.... Corrêas do Tietê e Corrêas de Atibaia...
O Andrelino era filho de uma Corrêa de Atibaia casada com um Corrêa
do Tietê. Ele era muito simpático, muito pobre, perdeu tudo, ele era cobra-
dor, fazia cobranças, era um homem alto... Orquidófilo, como o sr. Pio...
Então o sr. Pio tinha na chácara um orquidário dele, que era uma beleza...
Tinha orquídeas preciosas... Tinha a coleção de orquídeas e o Andrelino ia lá,
trocava orquídeas com Pio, conversavam... Era sobrinho dele. Eu o encontrei
muito na casa de meu sogro... Muito tímido... Contava-se que o pai dele era
feitor de escravos... da fazenda de um parente... Ele era tão mau para os escra-
vos que, um dia, um deles cortou a cabeça dele com a foice. Deixou os filhos
pequenos... Esse é o pai do Andrelino Corrêa... Eu me lembro quando Sr. Pio
morreu... Eu fui lá à biblioteca dele... Ele me doou a biblioteca dele, mas eu
recusei... Ele era um homem rico, cheio de sobrinhos, gostava muito de mim,
podiam pensar que eu tinha algum interessa lá... Então eu aconselhei D.
Zulmira a doar para Araraquara... Peguei alguns volumes de lembrança... Pio
ficou bravo quando eu recusei a biblioteca... “Eu quis te dar, você não quis,
agora façam o que quiserem depois da minha morte...”! Eu fiz o estatuto da
biblioteca. Tinha livros raros e nessa ocasião, o Andrelino pediu a D. Zulmira
uns livros sobre orquídeas que o Sr. Pio tinha... Uns livros grandes e bonitos...
Eu separei os livros e ele ficou muito contente, era um homem muito bem
educado ... Dessas pessoas antigas que empobrecem e guardam muita delica-
deza, boas maneiras... Um homem encantador esse Andrelino Corrêa....
D.: José Jorge...
229
AC.: Esse eu não sei...
D.: Clóvis de Oliveira... Professor Paliuti...
AC.: Não sou capaz de dizer não...
D.: Dr. Olivério...
AC.: Dr. Olivério, esse é um personagem... Morou aqui neste prédio
em que eu moro, o filho dele, quando nos mudamos para este prédio, o filho
dele morava aqui. Dr. Olivério era um médico baiano...Alto, muito distinto,
foi ser médico do posto de saúde de Araraquara, lá ele se casou com a filha
de um fazendeiro muito amigo do Sr. Pio e do meu sogro, chamado Juca
Custódio, então ficou muito amigo do Sr. Pio ... Ele era um sábio, depois ele
deixou a carreira pública e foi diretor do Museu de Zoologia, era um grande
ornitólogo, foi muito tempo diretor do museu de Zoologia, depois foi o
Paulo Vanzolini, que trabalhou com ele. Ele era um classificador de animais,
com muita reputação... Ele ia para o sertão... fazer pesquisas... Incentivava
o Sr. Pio em seus pendores científicos... O Sr. Pio tinha microscópio e fazia
preparação de tecidos vegetais, animais, andou estudando muito Botânica e
o Dr. Olivério o ajudava...
D.: O sr. Pio fazia desenhos... desenhos de animais?
AC.: Não sei... Nunca vi... Ele disse o seguinte: “A minha biblioteca
fica para você... a parte científica para o Dr. Olivério”. O Dr. Olivério aceitou
a parte científica e... tinha a História Natural de Cambridge... 10 volumes,
tinha os Anais do Museu Paulista, tinha muita coisa de Botânica e Zoologia...
O que o Dr. Olivério já tinha, ele doou para a Faculdade de Filosofia. Ele
era muito escrupuloso... Eu fui junto com o dr. Olivério levar... os livros de
Ciências para o Departamento de Zoologia... Ele foi um cientista de valor e
grande amigo do Sr. Pio.
D.: Paulo de Miranda Ribeiro?
AC.: Alípio de Miranda Ribeiro foi um grande Naturalista. Paulo não
sei quem é...
D.: Miss Susan, que era Fraulein...
AC.: Miss Susan era uma alemã... Eu só sei da Miss Susan, que morou
em Araraquara um tempo e ensinava inglês. Minha mulher estudou inglês
com ela... Mas acho que a Miss Susan... ensinava inglês...
D.: E a história do Sr. Pio com o Mister Rugson ou Huxton...
230
AC. Essa é uma história extraordinária. Essa eu tenho cópia da carta
aqui... Mister Rugson era um escocês bêbado que o sr. Pio, um dia, quando
ele queria uma coisa, ele fazia,... Ele chamou o Mister e disse: “Quero apren-
der inglês! Mas 24 horas por dia, de modo que [não sei se o Mister dormia na
casa dele, mas passava o dia com ele...] pago o que o Sr. pedir, mas com uma
condição: O Sr. não pode beber uma gota de álcool, o dia que o Sr. beber eu o
expulso da minha casa”. O Mister concordou. E durante um tempo ele viveu
com o Sr. Pio ensinando inglês... Uma coisa muito curiosa é que ele era esco-
cês, e o Sr. Pio aprendeu com sotaque escocês, com a pronúncia forte, meio
enrolada... Mas um dia, o Mister tomou uma bebedeira e o Sr. Pio o tocou de
casa. Ele sumiu de Araraquara. Passado muito tempo, lá por 1920 e tantos, ele
escreveu uma carta em inglês para o Sr. Pio contando que ele estava num estado
desgraçado”, no último grau da miséria e de abandono e queria morrer no
asilo de mendicidade de Araraquara... Aí o sr. Pio tomou as providências, falou
com o Comissário de Café em Santos, e o Mister Rugson veio acompanhado
para Araraquara, o Sr. Pio o colocou num quarto, havia quartos particulares...
e o Mr. Rugson morreu pouco tempo depois, mas as irmãs do asilo (as freiras)
disseram ao Pio que o Mister havia deixado uma mala com umas coisas... Pio
disse para fechar a mala e oficiou ao consulado inglês em São Paulo, informan-
do que o Mister Rugson, inglês, havia morrido em Araraquara... e em testa-
mento havia deixado uma mala que continha bens e solicitando ao Consulado
Britânico para tomar as providências para procurar os herdeiros na Inglaterra.
Passado muito tempo, o cônsul escreveu a ele que tinha tomado as providên-
cias, e que o governo britânico oferecia aqueles bens ao Sr. Pio inclusive por
gratidão pelo que ele tinha feito a um britânico. Pio disse: “Não posso ficar
com isso!”. Oficiou o juiz de Araraquara por herança jacente, que respondeu:
“O inglês morreu sem deixar herdeiros, então o Sr. precisa abrir um processo
de herança jacente”. O juiz abriu o processo de herança jacente... Ninguém se
habilitou... Herança jacente... Então faz-se o seguinte... Coloca-se em leilão...
Qualquer pessoa pode arrematar. Marcou um dia no pátio do fórum. O juiz
disse que naquela mala estavam os bens de Rugson, quem queria rematar ... Só
havia o Sr. Pio presente... E ele arrematou a mala, por um valor qualquer. Pio,
então, abriu a mala e nela havia um pijama e uma escova de dentes. História
fantástica, não é? O rigor dele. Tudo dentro da norma, da lei, do dever.
231
D.: E o relacionamento dele com Mário? Ele gostava muito do Mário...
AC.: A Gilda, minha mulher, dizia com razão, que o Pio tinha pelo pai
do Mário de Andrade um apelo filial. Olha, eu vou lhe dizer uma coisa, eu
não passei um dia com Sr. Pio que ele não falasse de Carlos Andrade... pai do
Mário. Parece que era um homem muito inteligente, culto e engenhoso. E
Pio gostava muito dele, aprendeu muita coisa com ele: “Sr. Carlos dizia isso,
sr. Carlos dizia aquilo... E o Sr. Pio ficou sem pai com doze anos. Então... Os
pais dele... O padrinho dele que foi o Leite de Moraes, o avô de Mário, e o
tio, Carlos Andrade... e Gilda dizia que Mário reproduziu o contrário, Sr. Pio
era um pouco pai do Mário, o Mário via um pouco um amigo paterno... Ele
gostava muito do Mário, Mário ia muito lá... Ele dizia a D. Zulmira: “Aqui
eu posso comer peito de frango”... Sr. Pio e D. Zulmira deixavam entender
que naquela chácara houve três grandes amigos que frequentavam... Mário de
Andrade, Dr. Olivério e eu. Ele gostava demais de Mário, mas ele não gostava
da literatura do Mário, eles conversavam sobre língua, Mário o consultava so-
bre questões de língua. O livro de Mário de que ele gostou mesmo foi Amar,
verbo intransitivo, na versão inglesa. Parece que uma edição remanejada, Sr.
Pio gostou, porque foi simplificada, provavelmente. Ele tinha pelo Mário um
carinho, uma fascinação...
D.: E era claro isso, ele dizia: “Não cabem na minha mioleira essas
coisas que você escreve, mas ...
AC.: É, ele dizia...
D.: Mas na parte de língua...
AC.: Na parte de língua, de folclore, eles conversavam... O Mário não
sei bem, mas acho que ele foi todos os anos a Araraquara... Ele ficava um
pouco na chácara e um pouco na fazenda do meu sogro. Agora, creio também
que houve o seguinte... Quando Mário era mocinho, quando o irmão mais
novo dele morreu, ele teve uma depressão muito séria, e aí ele foi para a São
Francisco, fazenda do Sr. Pio, e junto com D. Zulmira trataram dele. Era
uma ligação muito afetuosa, muito nítida. Mário chamava-o de Tio... Eles
não tinham nenhum parentesco. Ele era primo da mulher do Sr. Pio, primo.
Agora, acontece o seguinte... A mulher do Sr. Pio era filha do irmão do meu
sogro. O meu sogro era de 1886, o Carlos Moraes de Andrade de 1888, e o
Mário de 1893. Eles foram criados ali juntos. A mãe do meu sogro morava
232
ao lado da casa da irmã, de modo que o Moraes de Andrade ouvia “tio Pio;
Mário, ouvindo meu sogro falar tio Pio, acostumou a falar tio Pio; muito
tempo depois veio a Lourdes, “tio Pio”, de modo que todos o chamavam de
tio Pio”, mesmo não tendo parentesco nenhum. Eles eram primos da mu-
lher do Sr. Pio. Hoje, no IEB, todos falam “Tio Pio”.
D.: Na minha casa, a minha filha já fala do “Tio Pio”...
AC.: Eu que sou sobrinho dele por afinidade nunca o chamei de tio,
sempre falei Sr. Pio. O primeiro dia que eu o conheci, havia um grupo uni-
versitário de teatro, dirigido pelo Gérson Almeida Prado, espetáculos lindos,
modernos que o Gérson montou, foi o começo da renovação do teatro em
São Paulo, era para juntar dinheiro para os fundos de pesquisa da universi-
dade, eu era bilheteiro, ficava na porta vendendo os bilhetes, cada um fazia
uma coisa... Um era ponto, outro era o bilheteiro, outro era ator. Depois que
acabou o espetáculo, o sr. Pio foi e gostou muito: O auto da barca do inferno,
de Gil Vicente, uma recepção foi oferecida ao grupo universitário de teatro,
no clube. Gilda era minha namorada, ficamos noivos nessa ocasião, Gilda já
tinha me falado muito do Sr. Pio. Quando vem vindo um sr. magrinho de lá,
disse ela: “Antonio Candido este é tio Pio, Tio Pio este é Antonio Candido”.
Eu disse: “Eu conheço muito o senhor de nome, Sr. Pio”. Ele disse: “Sr. Pio
o senhor não deve conhecer, deve conhecer “TiuPiu”, que é como eles me
chamam. Paulista fala Piu, Tiu Piu, ele falava Piiiu, com i longo. Eu não sou
paulista, eu falo com i longo, Tiiiiu Piiiiu, “Sr. Pio, o senhor não deve conhe-
cer, mas TiuPiu, como eles me chamam”...
D. Zulmira tinha um grande carinho por Mário, e este era uma pessoa
muito ligada a Araraquara. Por exemplo, o Andrelino tinha uma irmã chama-
da Maria Leopoldina, que morava com um genro .... e uma porção de filhas...
Ela era muito pobre. Elas costuravam para fora... Elas faziam camisas para
Mário, era irmã do Andrelino, Maria Leopoldina.
D.: O Sr. tinha me falado das exigências do Tio Pio para roupas, que
ele só usava...
AC.: O Sr. Pio era o seguinte... Ele não admitia moda. A Sra. vendo os
retratos do começo do século, a Sra. vê que a moda para homens era paletó de
três botões, às vezes quatro, mas a maioria de três botões, gola estreita e calça
sem debrum, e depois essa moda caiu, passou a haver paletós de dois botões
233
ou de um, com a lapela mais larga ... E as calças tudo igual... O Sr. Pio conti-
nuou com aquele paletó... totalmente fora de moda. O alfaiate dizia: “Mas Sr.
Pio, isto não está na moda”. E ele dizia: “A moda que volte”! e a moda voltou.
Ele não seguia moda. A Sra. pode ver as fotos, hoje em dia, todos com paletó
de três botões e calças assim, quando ali por 1930 e tantos, a moda voltou e
o Sr. Pio ficou na moda.
Ele tinha coisas curiosas. Por exemplo, ele usava botinas de elástico, de
pelica, mas a parte de pelica ele mandava colocar para dentro. A botina dele
era com a parte interna do couro [mais áspera] para fora. Ele dizia: “A parte
mais macia é a pelica, ela é que fica em contato com meu pé”.
D.: Então ele mandava fazer tudo... Era tudo encomendado...
AC.: Tudo encomendado. Tudo de muito boa qualidade... D. Zulmira
também. Eles eram muito simples, muito modestos, mas tudo de muito boa
qualidade. Ele comprava peças de casimira inglesa, azul-marinho e listradi-
nho, só. Geralmente ele tinha. Ele se tratava muito bem, ele queria que os
herdeiros dissessem: “Oh! Como esse velho gastou bem, poderia ter deixado
esse dinheiro para nós”! Era um tipo!
D.: O Sr. tem ideia por que ele escolheu esse pseudônimo de Mota
Coqueiro?
AC.: Não sei. Nunca perguntei a ele. Mota Coqueiro? Mota Coqueiro
acho que foi um bandido...
D.: Eu acho que localizei no IEB, eu fui procurando por Mota
Coqueiro e achei um livro falando de um Mota Coqueiro, que foi um ban-
dido mesmo...
AC.: Tem um livro: Mota Coqueiro, de José do Patrocínio. É um ro-
mance... de José do Patrocínio sobre um bandido... Por que ele pegaria o
nome de um bandido? Não sei. Não sei.
D.: Quando o pai do Pio morreu, ele ficou morando com o irmão, que
passou a ser tutor dele?
AC.: Ele ficou morando com a mãe dele, o irmão era o tutor.
D.: O Sr. se lembra qual era o irmão?
AC.: Antônio Lourenço Corrêa! O Mano Antônio...
D.: Era o irmão mais velho dele?
AC.: Olha. O irmão mais velho dele era o mano José. Chamava-se José
234
Joaquim Corrêa da Rocha. Mas este era fazendeiro em Brotas. Longe. Em
Araraquara, tinha o mano Joaquim que morreu, pai do Sebastião Lacerda,
aquele que fez o carro alegórico no Carnaval com Pio. Esse morreu mais
moço, teve uma vida muito difícil... O outro irmão dele, também Pio, mor-
reu na Guerra do Paraguai. Combatente. De modo que o único irmão dele
em Araraquara era o Antônio Lourenço. Ele tinha muitas irmãs, mas poucos
irmãos. A irmandade do primeiro casamento, homens eram José Joaquim
Corrêa da Rocha, Joaquim Lourenço Corrêa, Antônio Lourenço Corrêa e Pio
Corrêa da Rocha. Os quatro irmãos dele. Só tinha em Araraquara o Antônio
Lourenço. Este foi o tutor dele.
D.: O Sr. se lembra do nome da esposa dele, desse Antônio Lourenço?
AC.: Mana Belinha! Era Isabel Lacerda.
D.: Florisbela não?
AC.: Não! Florisbela Lacerda! Florisbela Lacerda era D. Belinha!
D.: No caso da “garapa azeda”, que ele conta que a cunhada fazia pia-
das com ele...
AC.: D. Florisbela de Lacerda Corrêa. Ela era filha de um Lacerda aqui
de Campinas. Esse casal teve uma filha só, que era D. Angelina. Eu tenho um
retrato dela aí. Eu não sei direito como é esse caso. Eu penso que é o seguin-
te... Isso foi fundamental na vida do Sr. Pio.
O pai dele, comendador Joaquim Lourenço Corrêa ficou viúvo. E essa
Sra. D. Francisca Miquelina de Almeida Moraes teve 12 filhos, 4 homens e 8
mulheres. Aí ele casou-se pela segunda vez com uma viúva, chamada D. Rita
Maria Pinto de Arruda, Pinto de Arruda era o marido dela, o nome dela de
solteira eu não sei. Ele dizia assim: “Mogi Mirim, terra de minha mãe, D. Rita
Maria Pinto de Arruda”. Mogi Mirim é caminho de Poços de Caldas onde eu
morava, tivemos casa lá por alguns anos, então eu ia muito a Poços de Caldas.
Cada vez que eu passava de automóvel perto da cidade, eu falava bem alto
no carro para minhas filhas e para Gilda: “Mogi Mirim, terra de minha mãe,
D. Rita Maria Pinto de Arruda”! Pinto de Arruda é um ramo dessa família
Arruda Botelho de Conde do Pinhal. Ela já tinha os filhos dela também, era
viúva, e se casou. Eu imagino que ele deve ter se casado em regime dotal,
esse foi o problema. A sra. sabe... Pelo direito brasileiro, os filhos do primeiro
casamento, todos herdam partes iguais. De repente, quando a pessoa é velha,
235
uma pessoa tem a família grande e casa-se pela segunda vez, os herdeiros exi-
gem que se faça um regime diferente. Por exemplo, o meu avô casou-se pela
segunda vez com uma sobrinha dele, casou-se em regime dotal. Quando meu
avô morreu, cada filho do primeiro casamento recebeu 200 alqueires de terra,
e os do segundo... A segunda mulher do meu avô recebeu em dote uma fazen-
da de 400 alqueires, tinha quatro filhos, quando ela morreu, cada um recebeu
100 alqueires. Portanto, os meus tios do segundo casamento, receberam me-
tade do que meu pai e os outros tiveram. Eu penso o seguinte. Se Pio, o tutor
dele era o Antônio Lourenço, sr. Pio, o ideal da vida dele era estudar Direito
e ser advogado. Esse era o ideal. Ele veio para São Paulo para fazer os estudos
preparatórios, porque antigamente, o regime de [parcelados], estudava-se em
casa, estudava onde se quisesse e ia fazer o exame na Faculdade de Direito,
chamava-se Curso Anexo, para ter o grau de bacharel em Ciências e Letras,
era preciso fazer dez matérias, primeiro estudava-se Português e Aritmética,
ia lá fazia os exames e tirava os certificados, aí passava para outras, eu tenho
até alguns certificados do Sr. Pio, eu tenho aí guardados. Quando ele já havia
conseguido dois ou três certificados, morando aqui em São Paulo na casa do
padrinho, ele me contou isso, ele tinha uns 16 ou 17 anos, o irmão escreveu
para ele dizendo que “O dinheiro que nosso pai te deixou acabou, volte para
trabalhar!”. Pensando em termos de hoje, isso é de uma crueldade, de uma
barbaridade sem tamanho. Esse Antônio Lourenço era um homem rico, só
tinha uma filha. O que custava a esse homem adiantar dinheiro para o irmão
mais moço estudar e se formar? Era aquela coisa antiga. Então eu imagino
que o dinheiro do Sr. Pio acabou, eu imagino, porque o pai dele casou-se
em situação dotal, como o meu avô se casou. O que é regime dotal? Eu sou
viúvo, tenho essa quantidade de filhos, não vou lesar meus filhos, então eu
me caso com D. Fulana, dou a ela como dote 100 alqueires de terra, uma casa
e 50 contos e acabou. Então, eu imagino que ele deve ter deixado um dote
modesto para a senhora dele.
Ela morreu logo depois, o pai morreu quando ele tinha 12 anos, aí o
Antônio Lourenço mandou Sr. Pio estudar em São Paulo, logo depois ela
morreu. Eu vou repetir uma palavra feia para a senhora ver a realidade. Pio
me disse emocionado, com os olhos cheios de água, mais de uma vez: “O
Antônio Lourenço foi um grande ‘merda’! Minha mãe, viúva de meu pai,
236
pobre mulher, com um único filho de doze anos, o Antônio Lourenço me
separa da minha mãe e me manda para São Paulo. Minha mãe morreu pou-
co depois, e o Antônio Lourenço foi um grande ‘merda’!”. Crueldade! Duas
crueldades...
D.: Mandou Pio para cá e depois mandou voltar...
AC.: Mandou vir para São Paulo e depois mandou voltar porque o
dinheiro tinha acabado. Duas crueldades. Os antigos eram muito duros.
Acabou o dinheiro do pai, pronto, vai trabalhar... Foi trabalhar no comércio
de lá. Ele fez a cultura dele. Era um menino esperto, ... Isso é o que eu sei.
Aqui em São Paulo ele morava na casa do padrinho, Leite de Moraes, o pa-
drinho morreu, ele foi morar na casa da cunhada, da D. Isabel, mãe da D.
Zulmira; D. Isabel sempre quis que ele se casasse com a D. Zulmira.
A Gilda tem uma hipótese brilhante... A D. Zulmira era cocha, andava
assim [ele demonstra D. Zulmira mancando]. Ela tinha um sapato como a
senhora e o outro era um sapato especial, um sem salto e o outro com salto.
Com o tempo ela foi piorando. Quando eu a conheci, quando ela era moça
andava praticamente normal, conforme foi envelhecendo, ela foi piorando,
mas desde moça era cocha. Dizem que uma empregada deixou que ela caísse
do berço, e teve uma fratura no quadril. Um belo dia, a Gilda teve uma ilu-
minação: porque... A D. Zulmira não gostava do Tio Pio, ela era apaixonada
por um tio do Mário de Andrade, o Alfredo de Andrade. Tinha paixão pelo
Alfredo de Andrade e ele por ela. D. Isabel não deixou que ela casasse com ele.
Forçou Zulmira a casar-se com Pio, sem gostar do tio. “Por que vovó Isabel
fez essa dureza de forçá-la a casar-se”? Gilda teve uma intuição... Porque ela
sabia que a filha não podia ter filhos. A bacia assim com defeito era perigoso.
E o Sr. Pio, quando era rapazinho, teve uma moléstia venérea e essa moléstia
degenerou numa orquite. A sra. sabe o que é uma orquite?
D.: Não!?
AC.: Orquite é uma inflamação dos testículos. Eles podem ficar enor-
mes. Dizem que é uma das dores mais horríveis que há. E quem tem orquite
fica estéril. Então, disse Gilda, vovó pensou: “Com o Pio ela pode se casar
tranquila, que ela não terá filhos. Se ela se casar com o outro ela pode engra-
vidar, se ela engravidar ela pode morrer no parto”. É uma imaginação, mas eu
acho uma imaginação muito interessante!
237
D.: É bem possível...
AC.: Porque ela não queria se casar com Pio, queria se casar com
Alfredo Andrade, tio de Mário, irmão de seu Carlos. O Sr. Pio casou-se com
D. Zulmira sabendo que ela não gostava dele, mas ele gostava dela. Ele me
disse que gostou de D. Zulmira desde que ela era menina, ele era dois anos
mais velho que ela. Ele tinha paixão por ela, não ela por ele. Ela me disse uma
vez: “Eu me casei para obedecer a minha mãe”. O que as mulheres antigas
faziam, não?
D.: É verdade... Situação terrível! Deixe-me ver... O Sr. Pio encomen-
dava mercúrio de Mário. Tem várias cartas falando do dinheiro para o mer-
cúrio.... Tem uma carta que fala do “mercúrio doce na Internacional”. Eu
descobri uma farmácia em Araraquara que tinha o nome de Internacional.
AC.: Exatamente. Mas eu não sei porque ele encomendava mercúrio...
Talvez algum experimento dele...
D.: Outra coisa... Há uma carta em que Mário fez o desenho de uma
tripeça, um movelzinho com uma pequena gaveta....
AC.: Essa daí eu não sei, mas ele mandou fazer uma tripeça e me deu.
Tripeça é um móvel... Venha cá. Vou lhe mostrar um [móvel semelhante]...
[Levanta-se e me mostra um pequeno móvel como o desenho de Mário].
D.: Ele também fala para o Mário de um livro: Decrepitude
Metromaníaca...
AC.: Decrepitude Metromaníaca? Deixe-me ver se eu me lembro.... Do
padre Antônio Corrêa de Almeida.
D.: Isso... Parece que tem relação com a propaganda do “Rum
Creosotado”? Não é assim?
AC.: Porque o Padre Antônio Corrêa de Almeida era um padre satírico,
lá de Barbacena. Eu tive livro dele. Carlos Drummond de Andrade escreveu
uma crônica sobre ele, uma vez, que era preciso reeditar o Padre Corrêa de
Almeida. Ele era um padre ferino, satírico, tremendo, e ele, já velho, em vez
de colocar “Versos de um velho maníaco”, colocou o título: Decrepitude metro-
maníaca. Ele já velho para gozar dele próprio. Eu não sei se eu tenho esse livro,
acho que eu tinha um outro livro dele. Mas não sei por que seu Pio usou isso.
D.: Ele brinca com Mário. Tanto que eu achei que era alguma ironia
em relação a fazer versos com métrica, rima...
238
AC.: Na verdade, significa um velho metido a poeta”. Decrepitude me-
tromaníaca, um velho metido a poeta, o padre se satirizando... Mania de
metrificar por parte de um decrépito. Padre Antônio Corrêa de Almeida.
D.: Tem uma carta em que Mário diz assim para o tio Pio: “Dos três
Césares negros da idade, um deles já caiu”. Aí fiquei pensando... A quem ele
está se referindo... Mário, Zulmira e Pio; Mário, Pio e o pai de Mário?
AC.: Não, não... Isso é uma coisa misteriosa... Não sei o que é isso...
Eles se entendiam, alguma coisa entre eles... O que significa “César negro da
idade”?
D.: Eu não sei se ele estava se colocando... Sei lá: “as três pessoas mais
velhas da família”? Três pessoas mais poderosas... Os três chefes de família...
AC.: Não, não creio... Mas por que negro?
D.: “Negros da idade”.
AC.: Mário era mulato, mas o Sr. Pio era branco.
D.: Eu fiquei intrigada com essa expressão. Ele fala da morte do pai...
Ele fala “a da foice cedo levou”. E “dos três Césares negros da idade, um deles
já caiu...”.
AC.: Uma expressão misteriosa... Eu não sei... Eu não arriscaria nada.
D.: Eu fiquei pensando quem seriam esses três Césares....
AC.: É impossível saber...
D.: Ele faz também referência a um homem chamando-o de “café cha-
to, ordinário, baixo, depreciado, mofado”... numa das cartas. Eu fiquei pen-
sando... Quem será que é essa pessoa?
AC.: Precisa ver o contexto...
D.: É, ele diz que... Não dá para entender muito bem. Parece que era
alguém que estava noivo em Araraquara.. Mas..
AC.: O Pio que fala?
D.: Sim. O tal “café chato, depreciado, mofado, é noivo aqui em
Araraquara”, também não dá para saber... Ah! O Pio sofreu acidente alguma
vez? Caiu do cavalo, teve que fazer uma cirurgia? Também não dá para lem-
brar... Mário conseguiu que Pio escrevesse uma coluna em O Estado de S.
Paulo. Aquelas Fichas de Linguagem...
AC.: O Estado de S. Paulo, é? Ele publicava no jornal de Araraquara...
D.: Mário conseguiu para ele publicar no jornal O Estado de S. Paulo.
239
Como será que eles faziam? Pio mandava pelo Correio os artigos?
AC.: Não sei...
D.: Ele faz referência também a outra pessoa: “A filha número 1 de
Maria”. Quem iniciou o trabalho de pesquisa colocou na nota: “Maria Elisa
Rocha?”.
AC. Maria Elisa Rocha era a irmã mais velha da Gilda.
D.: Ela era filha de Maria?
AC. A Gilda era “filha de Maria”!
D.: Antigamente era comum...
AC.: Todas as moças eram “Filhas de Maria”! A Gilda foi... Mas aí não
parece ser a Maria Elisa Rocha...
D.: Ele fala em relação a Araraquara... Ele vai para lá conhecer ou rever
a filha nº 1 de Maria”.
AC.: Que ano foi isso?
D.: Foi mais para o final da correspondência, em 1941...
AC.: Ah! Essa deve ser a filha mais velha da Maria Eliza... Maria
Cecília...
D.: Maria Cecília?
AC.: Maria Eliza casou-se em 1939, 1940, por aí assim... Depois de
um ano, nasceu a Maria Cecília. A Maria Elisa morou também na casa da
mãe do Mário... A Gilda e a Maria moraram na casa da mãe de Mário. Ele
vai para Araraquara para conhecer a primeira filha da Maria Elisa... quando
a Maria Cecília nasceu. A sobrinha mais velha da Gilda. Ela é professora,
aposentada, mora em Ribeirão Preto, foi casada com um engenheiro, é viúva.
Ela é mãe dessa famosa... A Sra. acompanha os esportes? Voleibol? Ela é mãe
da famosa Fernanda Venturini.
D.: Nossa!
AC.: É. Maria Cecília é a filha mais velha de Maria Eliza. Maria para
eles é a Maria Eliza. Que morou na casa de Mário durante muito tempo.
D.: E ela nasceu em 1941?
AC.: Eu me casei em 1943, ela tinha uns dois anos...
D.: Então é isso mesmo...
AC.: Maria Cecília Rocha Porto. O nome dela. Depois ela se casou
com Júlio Venturini e ficou Maria Cecília Porto Venturini. Mãe da famosa
240
esportista. É professora do estado, aposentada, mora em Ribeirão Preto.
D.: Eurico de Góes...
AC.: Eurico era um amigo dele... Eurico de Góes era um estudioso
aqui de São Paulo.
D.: Era de Araraquara, mas veio trabalhar aqui em São Paulo...
AC.: Em Araraquara tinha um Eurico, dentista, foi grande amigo dele,
depois tornou-se arqui-inimigo.
D.: Com ele era assim, ou amava ou odiava?
AC.: Com ele era assim. Quando ele cismava, Góes... Tinha aqui em
São Paulo um Eurico de Góes, não sei o que ele era... Não creio que esse
Eurico de Araraquara chamasse Góes... Eurico era um dentista, caçador como
ele do grupo dos Conjurados, depois brigaram de morte... Sr. Pio brigou com
muitos amigos.
D.: Ele era uma pessoa difícil?
AC.: Sim. Difícil... Tinha um gênio exaltado... Ele era um pouquinho...
desequilibrado não era, mas era um homem excêntrico... Muito cismado!
D.: Tem uma carta de 1934 em que Mário diz que “foi levar a sinhá ao
cemitério”... Havia uma indicação no rodapé, de Sinhá Pina...
AC.: Sinhá Pina era uma prima-irmã de Mário. São as famosas Pinas.
Era uma irmã do pai do Mário que era casado com um Sr. Pina. Eu não sei o
nome delas. Sei que uma casou-se com um tal Massariol, que era ourives; não
sou mais capaz de informar.
D.: E Meira de Araraquara? O Sr. conheceu alguém?
AC.: Meira eu conheci era de São Carlos... Meira Botelho era sócio
do Sr. Pio. A casa comissária que eles tiveram em Santos, eram sócios: Pio,
Otávio Reis, Nhonhô Magalhães e Meira Botelho, mas este de São Carlos.
D.: Sr. Pio viajava muito na juventude? Ele fala de uma viagem a
Portugal, depois outra a Buenos Aires...
AC.: O Sr. Pio foi à Europa só uma vez. Quando era moço, foi a Buenos
Aires com Antônio Lourenço, o irmão dele. Era solteiro ainda. Naquele tem-
po, por volta de 1890 e qualquer coisa, o Brasil não tinha embaixadores,
eram Ministros Plenipotenciários. O ministro nessa época em Buenos Aires
era o Assis Brasil, o famoso político gaúcho. Ele os hospedou na Legação,
não se chamava embaixada. O Antônio Lourenço, que se dava com o Assis
241
Brasil, este os levou para a legação. Ele contava que o Assis Brasil era muito
engraçado e contava histórias para eles. Contou uma história de uma rainha
da Espanha que tinha um amante... E o amante deu a ela um anel de bri-
lhantes, enorme... O rei viu e disse: “Mas que beleza de anel”! E a rainha
respondeu: “Pois é, eu comprei!” O rei, então, disse: “Ah, eu quero esse anel
para mim”. O rei, então, passou a usar o anel. O nobre que era amante da
rainha viu o diamante na mão do rei e disse: “Solo um rei puede tener tal
anilho de diamantes, diamantes que foram dantes, de amantes de su mujer!”.
Foi dessa viagem da Argentina. Depois disso, ele foi à Europa, em 1911, eu
acho, passou lá muito tempo...
D.: Foi quando ele comprou a banheira?
AC.: Isso. Comprou a banheira, mandou fazer a espingarda, foi se tratar
de um problema no estômago... Fez uma Estação em [Publezau?????- indecifrá-
vel?]. Viajou pela Europa com D. Zulmira. Ele tinha casa comissária em Santos
e viajou com um senhor português que era grande comerciante em Santos, que
era o Sr. Marques e D. Eliza Marques. Os dois casais acho que foram juntos ou
se encontraram lá, não sei bem... Passaram em Portugal e foram à Quinta do Sr.
Marques, uma família rica de Portugal. Foram essas duas vezes.
D.: Tem uma carta em que ele escreve a MA e diz que gostaria de co-
nhecer o Cairo.
AC. Foi nos anos de 1920, quando Howard Carter e Lorde Carnarvon
encontraram o túmulo de Tutancâmon, aí ele ficou fascinado... Na biblioteca
dele havia um número da Ilustrated London News sobre essa descoberta, havia
dois volumes do autor tratando do túmulo de Tutancâmon. Ele se preparou
para ir ao Egito, queria visitar o túmulo, mas nunca foi.
D.: Tem uma carta em que convida Mário para ler Peregrinações. Ele
disse: “Venha descansar e vamos ler juntos as Peregrinações”...
AC.: Peregrinações deve ser o livro do Fernão Mendes Pinto, um na-
vegador português do séc. XVI. Parece que é um livro fascinante, nunca li,
mas tenho muita vontade de ler... Uns dizem que é tudo mentira... Tanto
que meu professor de literatura dizia assim: “Fernão Mendes Pinto! Fernão,
mentes? Minto!”. Hoje, parece que não... é tudo fidedigno. É um livro ad-
mirável, muito bem escrito, muito divertido. Deve ser isso. Peregrinações, de
Fernão Mendes Pinto.
242
D.: Ele comprava anéis para marcar galinhas? Ele encomenda por
meio de Mário na casa de um “Aziz”. Ah!. Inácio de Queirós Lacerda... O Sr.
conheceu?
AC.: Deve ser irmão ou parente de D. Florisbela de Queirós Lacerda
Corrêa... Um palpite. Não tenho certeza...
D.: Fazenda São Lourenço?
AC.: Fazenda São Lourenço era do pai dele. Comendador Joaquim
Lourenço Corrêa herdou uma fazenda que era do pai dele.
D.: Depois foi dividida?
AC.: Deve ter sido dividida... Não sei para quem ficou... Talvez para o
Antônio Lourenço Corrêa... irmão dele. Não tenho certeza....
D.: Dr. Júlio?
AC.: Dr. Júlio era um médico de Araraquara chamado Dr. Júlio Mário
não sei do quê...
D.: Eles tinham muitos médicos amigos: Dr. Renato...
AC.: Sim, Dr. Júlio, Dr. Monteiro, Dr. Olivério, tinha o italiano Dr.
Picarone... Tinha o médico dele, Dr. Granata.
D.: No Álbum de Araraquara tem o nome dele: Dr. Granata. O ende-
reço do consultório... Este quadro que o Sr. tem aqui na sala, que é do Papf,
o Sr. tem ideia de como Pio o comprou?
AC.: Tenho. Foi o seguinte. O Antônio Lourenço Corrêa praticamente
deu, financiou toda a Santa Casa de Araraquara. O Sr. Pio tinha um respeito
imenso pelo irmão, foi uma espécie de secretário dele, tinha imenso respei-
to pelo mano Antônio. Este devia ser meio analfabeto e o Sr. Pio é que o
orientava. A Santa Casa resolveu, a certa altura, não sei se o mano Antônio
já tinha morrido ou não. Tinha um retrato a óleo do mano Antônio. O Sr.
Pio veio a São Paulo e veio procurar o Papf... Era um famoso fotógrafo e
pintor alemão radicado no Brasil, especialista em fazer retratos sobre fotogra-
fia. Olhava a fotografia e pintava o retrato. Tem muita gente retratada pelo
Papf, muita gente... Então ele foi ao ateliê do Papf levando a fotografia do
irmão, para fazer um retrato a óleo e, lá no ateliê, ele viu este quadro. Ele era
cultivador de orquídeas, ficou fascinado pela pintura e comprou. Levou para
Araraquara. Este quadro ficava no escritório dele. Ele só tinha dois quadros
a óleo: essa orquídea e tinha um quadro grande que ele mandou emoldurar
243
com uma divisão pelo meio. Aí mandou pintar, chamou o pintor Quirino
Campofiorito, um pintor de certo nome, que foi diretor da Escola de Belas
Artes de Araraquara. Ele e a Ilda Campofiorito, a mulher dele, ficaram muito
amigos do Sr. Pio. Então o Sr. Pio disse a ele que fizesse um retrato da Igreja
de Araraquara... A capelinha inicial e depois a Matriz do tempo de Pio. Ele
descreveu como era e o Quirino fez. Então ele tinha esse quadro grande, de
um lado a capela e do outro a matriz, e o quadro das orquídeas.
D.: Ele fala de um outro pintor, o B. Bento. Mas em Araraquara eu não
consegui nenhuma referência. Ele fala de um quadro Caipiras negociando...
AC.: Caipiras negociando é de Almeida Júnior...
D.: Ninguém conseguiu identificar esse B. Bento... E da convivência
com o Sr. Pio, o Sr. se lembra de algo importante, de alguma curiosidade...
AC.: Aí é muita coisa... O Sr. Pio e eu... foi uma espécie de “amor à pri-
meira vista”!!! A Gilda dizia que tinha um tio de quem eu ia gostar muito. De
fato, eu adorava o Sr. Pio, grande amigo meu, um homem mais velho, depois
eu tive uma rusga com ele, ele ficou zangado porque pediu que eu fizesse uma
coisa, eu não fiz e ele ficou zangado... Mas sempre fomos amigos. No final da
vida, ele ficou um pouco “esclerosado”... Mas ele me conhecia quando eu ia
lá, ele ficava triste, porque não tinha mais a força de antes...
D.: E ele deixou as cartas de Mário para o senhor?
AC.: Ele deixou “por minha morte, a Antônio Candido de Mello e
Souza”. Ele me doou a biblioteca, que eu recusei, ele me deixou as cartas de
Mário para ele; e uma pasta cheia de documentos, a carta de Mr. Rugson,
o testamento do pai dele, muitas coisas nessa pasta, mesmo estando meio
zangado comigo...
D.: É está bem cuidadinha a sala dele...
AC.: Parece que o IEB vai cuidar disso...
D. É a secretária de Cultura me procurou, na última vez que eu estive
lá em Araraquara. Ela me disse: “A biblioteca daqui não sai. É um patrimô-
nio da cidade”. Mas está tudo lá fechado naquela sala, está muito fácil mexer
naquilo tudo... Qualquer um pode chegar lá e pegar uma ficha da gaveta...
AC.: Aquele fichário todo é meu...
D.: As pessoas não têm noção da importância...
AC.: O famoso fichário ele me deu. Quando ele morreu, eu pensei,
244
o que eu vou fazer com esse fichário? Então, o Dr. Fords, que era advoga-
do dele, me pediu emprestado... Um tempo depois, meu sobrinho Renato
Rocha doou todo o fichário, sem me consultar... Ele é um rapaz muito bom,
mas teve esse abuso de confiança... Eu teria doado aqui para São Paulo.
D. Aquilo é uma riqueza de informações, de diálogos com os livros, de
análise da relação dele com Mário...
AC.: E as fichas sobre linguagem? Eu nunca pude investigar esse fichá-
rio, porque ficou com o Dr. Foster, e depois o Renato deu...
D.: Se o IEB cuidasse seria uma maravilha...
AC.: Se houvesse o IEB naquele tempo. Eu fiz o regulamento. Eu fiz a
seguinte cláusula: “Ia se reger pelo estatuto de livro raro e se houvesse abuso
ou se não fosse cumprido o meu regulamento, a biblioteca viria automatica-
mente para a Universidade de São Paulo – USP”. Isso eu coloquei.
D.: Seria uma maravilha, porque ali tem um campo de estudos
vastíssimo...
AC.: O Sr. Pio, nós fomos muito amigos, eu achava o Sr. Pio um ho-
mem muito inteligente, uma personalidade excêntrica, estranhíssima. Ele era
monarquista, era a favor da escravidão, ele achava que o escravo era muito
mais bem tratado que o operário, assim teoricamente. Era um homem muito
culto, de grande inteligência e um espírito muito original. Fomos muito ami-
gos e eu tinha muito afeto por ele, eu gostava muito dele, ele gostava de mim
também, D. Zulmira gostava muito de mim, de modo que eu frequentava a
casa deles, ficava lá, no quarto de hóspedes, almoçava às nove horas, jantava
às três horas da tarde, tomava chá às oito da noite, depois ia para o quarto e
dormia às nove ou dez da noite. Mas eu gostava muito dele, fomos amigos...
245
Figura 44 - Chácara da Sapucaia fotografada por MA em 1930 (AMA – IEB – USP – São Paulo.
ANDRADE & CORRÊA, 2009, p. 130)
Figura 45 – Chácara da Sapucaia, hoje Centro Cultural Professores Waldemar e Heleieth Saffioti
(UNESP – Araraquara. Fotografia tirada pela pesquisadora em janeiro de 2022).
247
Sobre a Autora
Denise Landi Corrales Guaranha
Doutora em Filosofia e História da Educação pela UNESP - Universidade
Estadual Paulista - Marília (SP, 2022), onde participou do grupo de pesquisa
GEPAEFE – Grupo de Estudos e Pesquisa em Administração da Educação
e Formação de Educadores; mestre em Literatura Brasileira pela USP -
Universidade de São Paulo - São Paulo (SP, 2007), onde participou, como
bolsista do CNPq, da Equipe Mário de Andrade de pesquisadores, na área
de epistolografia, vinculada ao IEB - Instituto de Estudos Brasileiros, sendo
responsável pela organização da correspondência de Mário de Andrade com
Pio Lourenço Corrêa (de 1917 a 1945), o que resultou no livro: “Pio & Mário
- diálogo da vida inteira”, publicado pela Editora Ouro Sobre Azul, do Rio
de Janeiro (2009). Possui formação em Pedagogia Waldorf, pelo Centro de
Formação de Professores Waldorf, Escola Rudolf Steiner, São Paulo (SP, 2017).
Graduada em Letras pela USC - Universidade do Sagrado Coração - Bauru (SP,
1985) e em Pedagogia pela UNIJALES - Jales (SP, 2021). É professora da Escola
Técnica Estadual Martin Luther King, em São Paulo, desde 2008, atuando nas
áreas de literatura, linguagem, comunicação, trabalho e tecnologia.
248
249
SOBRE O LIVRO
Catalogação
André Sávio Craveiro Bueno – CRB 8/8211
Normalização
Livia Pereira
Diagramação e Capa
Mariana da Rocha Corrêa Silva
Assessoria Técnica
Renato Geraldi
Oficina Universitária Laboratório Editorial
labeditorial.marilia@unesp.br
Formato
16x23cm
Tipologia
Adobe Garamond Pro
Denise Landi Corrales Guaranha
Doutora em Filosoa e História da Educa-
ção pela UNESP - Universidade Estadual
Paulista - Marília (SP, 2022), onde parti-
cipou do grupo de pesquisa GEPAEFE
Grupo de Estudos e Pesquisa em Ad-
ministração da Educação e Formação de
Educadores; mestre em Literatura Brasilei-
ra pela USP - Universidade de São Paulo
- São Paulo (SP, 2007), onde participou,
como bolsista do CNPq, da Equipe -
rio de Andrade de pesquisadores, na área
de epistolograa, vinculada ao IEB - Insti-
tuto de Estudos Brasileiros, sendo respon-
sável pela organização da correspondência
de Mário de Andrade com Pio Lourenço
Corrêa (de 1917 a 1945), o que resultou
no livro: “Pio & Mário - diálogo da vida
inteira”, publicado pela Editora Ouro So-
bre Azul, do Rio de Janeiro (2009). Pos-
sui formação em Pedagogia Waldorf,
pelo Centro de Formação de Professores
Waldorf, Escola Rudolf Steiner, São Pau-
lo (SP, 2017). Graduada em Letras pela
USC - Universidade do Sagrado Coração
- Bauru (SP, 1985) e em Pedagogia pela
UNIJALES - Jales (SP, 2021). É professora
da Escola Técnica Estadual Martin Luther
King, em São Paulo, desde 2008, atuando
nas áreas de literatura, linguagem, comu-
nicação, trabalho e tecnologia.
Programa PROEX/CAPES:
Auxílio 0039/2022
Processo 23038.001838/2022-11
Denise Landi Corrales Guaranha
PIO LOURENÇO CORRÊA
(1875-1957)
um mosaico biobibliográco do polímata araraquarense
É com grande satisfação que eu, Ariana Nascimento da Silva, recomendo a
publicação do livro “Pio Lourenço Corrêa (1875-1957) – Um Mosaico Bio-
bibliográco do Polímata Araraquarense”, escrito pela autora Denise Landi
Corrales Guaranha. Este livro é resultado de uma pesquisa de doutorado de
alta relevância vinculada à linha de Filosoa e História da Educação do Pro-
grama de Pós-Graduação em Educação da Universidade Estadual Paulista
(UNESP), Marília/SP. A pesquisa, conduzida pela competente orientação da
Professora Ana Clara Bortoleto Nery, destaca-se pela sua abordagem histó-
rica e pela importância do tema escolhido. A gura de Pio Lourenço Corrêa,
lólogo e bibliólo de Araraquara/SP, merece ser resgatada e estudada, pois
representa não apenas um indivíduo relevante na história da educação e da
linguagem em São Paulo, mas também um símbolo da preservação da me-
mória intelectual e cultural de nossa região. O trabalho desenvolvido na pes-
quisa de Denise Landi Corrales Guaranha, que envolveu a análise de um rico
acervo documental, resultou na identicação de importantes registros histó-
ricos sobre a atuação de Pio Lourenço Corrêa, bem como sobre os contextos
histórico, político, cultural, social e educacional do início do século XX. A
proposta de registrar a biograa de Pio e sua contribuição para a história da
UNESP, de Araraquara/SP, e da língua portuguesa é extremamente rele-
vante e enriquecedora. Portanto, recomendo a publicação deste livro, que
certamente contribuirá signicativamente para o avanço do conhecimento
nas áreas de Filosoa e História da Educação, bem como para a valorização
da história e da cultura regional.
Prof.ª Dr.ª Ariana Nascimento da Silva
Professora Adjunta II – Universidade São Judas Tadeu (USJT) – São Paulo
PIO LOURENÇO CORRÊA (1875-1957)
Denise Landi Corrales Guaranha
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