Este livro é apresentado em duas partes e
conta com um conjunto de onze capítulos.
As reexões socializadas e materializadas
em escritos narrados na união de mãos
e mentes de pesquisadores, professoras e
professores, gestores da Educação Bási-
ca, especialmente da Educação Infantil
são frutos de trabalhos empreendidos por
dois grupos de pesquisa: o GEPEDEI -
Grupo de Estudos e Pesquisa em Especicida-
des da Docência na Educação Infantil, situado
na Unesp de Marília (SP) e o CRIA - Centro
de Respeito às infâncias e suas aprendizagens
da UFSJ/MG, que coaduna dos objeti-
vos e perspectivas do Gepedei desde sua
criação. Ao longo das páginas, os capí-
tulos têm como o condutor e dialógico
questões relativas à formação de profes-
soras e professores da Educação Infantil
e a Teoria Histórico-Cultural, rmando
desaos e possibilidades de docentes para
uma educação literária, estética e huma-
nizadora, mediante argumentações teó-
rico-cientícas e contextuais do dia a dia
da escola da infância. Reetem sobre a
educação como processo social por meio
do qual é possível a transformação do ser
humano, desde bebê, mediante a ativi-
dade conjunta. Com essa compreensão,
a educação passa a ser considerada como
centro do processo de evolução históri-
co-cultural do homem e, portanto, com
perspectiva desenvolvente e humaniza-
dora. Diante da relevância da oferta de
uma educação humanizadora de adul-
tos e crianças, desde o começo da vida,
o livro objetiva levar à reexão questões
sobre como professoras e os professores
podem possibilitar o desenvolvimento
das crianças de modo cada vez mais ple-
no, considerando o arcabouço biológico,
mas sobretudo as condões e relações
sociais culturais e históricas necessárias
à humanização. Em síntese, os autores
desejam que as reexões dispostas neste
livro contribuam para as práticas peda-
gógicas e para novos estudos, represen-
tativos de acréscimos de valor tanto à
teoria quanto à prática educativa funda-
mentadas na Teoria Histórico-Cultural.
Almejam também, nessa perspectiva,
que as proposições apresentadas sejam
motivadoras para o exercício intelectu-
al e autoral docente, tornando possível
a transformação não apenas da educa-
ção ofertada às crianças, mas também
a transformação das próprias crianças
como sujeitos em processo de formação
das capacidades psíquicas, do autoco-
nhecimento, da autonomia pessoal e
de socialização ao propiciar que, nas
instituições educativas, tenham lugar
e reconhecimento de todas os ritmos
de trabalho, expectativas, estilos cog-
noscitivos, aprendizagem, motivações,
etnias e de valores culturais. Pretende-
mos por meio de uma educação institu-
cionalizada superar a sociedade dividida
em classes com a implementação de uma
sociedade cada vez mais humanizada e
economicamente menos desigual.
Convidamos vocês, a descobrirem nes-
se conjunto de textos reexões profícuas
potencializando práticas humanizadoras.
Programa PROEX/CAPES:
Auxílio Nº 0039/2022
Processo Nº 23038.001838/2022-11
FORMAÇÃO DE PROFESSORAS E PROFESSORES DA EDUCAÇÃO INFANTIL:
bases cientícas, contextos, desaos e possibilidades
Este livro é apresentado em duas partes e conta com um conjunto de onze
capítulos decorrentes de estudos referentes a dois grupos de pesquisa GE-
PEDEI (Grupo de Estudos e Pesquisa em Especicidades da Docência na
Educação Infantil) da Unesp/SP e CRIA (Centro de Respeito às infâncias
e suas aprendizagens) da UFSJ/MG. Os participantes desses grupos or-
ganizaram duas edições de Colóquio, realizadas em 2021 e 2023, materi-
alizando um antigo desejo de ampliar conhecimentos essenciais à consti-
tuição docente além das atividades vivenciadas nos encontros periódicos
dos grupos de pesquisa. Dos diálogos provocados pelos estudos nos grupos
e nos dois eventos nasceu o livro mencionado. Diante da relevância da
oferta de uma educação que humanize, o livro objetiva levar à reexão
questões sobre como professoras e os professores podem possibilitar o de-
senvolvimento das crianças de modo cada vez mais pleno, considerando
o arcabouço biológico, mas sobretudo as condições e relações sociais cul-
turais e históricas necessárias à humanização.
FORMAÇÃO DE PROFESSORAS E PROFESSORES
DA EDUCAÇÃO INFANTIL:
BASES CIENTÍFICAS, CONTEXTOS, DESAFIOS E
POSSIBILIDADES
Maria Aparecida Zambom Favinha
Elieuza Aparecida de Lima
Érika Christina Kohle
Amanda Valiengo
(Organizadoras)
Maria Aparecida Zambom Favinha
Elieuza Aparecida de Lima
Érika Christina Kohle
Amanda Valiengo
(Organizadoras)
FORMAÇÃO DE PROFESSORAS E PROFESSORES DA
EDUCAÇÃO INFANTIL:
BASES CIENTÍFICAS, CONTEXTOS, DESAFIOS E
POSSIBILIDADES
Marília/Oficina Universitária
São Paulo/Cultura Acadêmica
2024
UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS – FFC
UNESP - campus de Marília
Diretora: Dra. Claudia Regina Mosca Giroto
Vice-Diretora: Dra. Ana Claudia Vieira Cardoso
Conselho Editorial
Mariângela Spotti Lopes Fujita (Presidente)
Célia Maria Giacheti
Cláudia Regina Mosca Giroto
Edvaldo Soares
Franciele Marques Redigolo
Marcelo Fernandes de Oliveira
Marcos Antonio Alves
Neusa Maria Dal Ri
Renato Geraldi (Assessor Técnico)
Rosane Michelli de Castro
Conselho do Programa de Pós-Graduação em Educação -
UNESP/Marília
Henrique Tahan Novaes
Aila Narene Dahwache Criado Rocha
Alonso Bezerra de Carvalho
Ana Clara Bortoleto Nery
Claudia da Mota Daros Parente
Cyntia Graziella Guizelim Simões Girotto
Daniela Nogueira de Moraes Garcia
Pedro Angelo Pagni
Auxílio Nº 0039/2022, Processo Nº 23038.001838/2022-11, Programa PROEX/CAPES
Parecerista: Sandra Aparecida Pires Franco (Docente do Programa de Pós-Graduação em Educação - Departamento
de Educação Universidade Estadual de Londrina)
Ficha catalográfica
_______________________________________________________________________________________
F724 Formação de professoras e professores da educação infantil: bases científicas, contextos, desafios
e possibilidades / Maria Aparecida Zambom Favinha ... [et al.]. – Marília : Oficina
Universitária ; São Paulo : Cultura Acadêmica, 2024.
227 p. : il.
CAPES
Inclui bibliografia
ISBN 978-65-5954-557-5 (Livro Impresso)
ISBN 978-65-5954-558-2 (Livro Digital)
DOI: https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-558-2
1. Educação infantil. 2. Professores – Formação. 3. Leitura. 4. Criatividade nas crianças.
I. Favinha, Maria Aparecida Zambom. II. Lima, Elieuza Aparecida de. III. Köhle, Érika Cristina.
IV. Valiengo, Amanda. Título.
CDD 370.71
_______________________________________________________________________________________
Catalogação: André Sávio Craveiro Bueno – CRB 8/8211
Copyright © 2024, Faculdade de Filosofia e Ciências
Editora afiliada:
Cultura Acadêmica é selo editorial da Editora UNESP
Oficina Universitária é selo editorial da UNESP - Campus de Marília
Sumário
Prefácio | Rosane Michelli de Castro........................................................................7
Apresentação - Bases Científicas Possibilitadoras de Práticas Docentes Desafiadoras
e Conscientes na Educação Infantil | Maria Aparecida Zambom Favinha, Elieuza
Aparecida de Lima, Érika Christina Kohle e Amanda Valiengo..................................9
PARTE 1 - FORMAÇÃO DO PROFESSOR PARA A EDUCAÇÃO INFANTIL
E A TEORIA HISTÓRICO-CULTURAL
CAPÍTULO 1 - Implicações da Teoria Histórico-Cultural Para a Formação Inicial
de Professores Dos Anos Finais da Educação Infantil e dos Anos Iniciais do Ensino
Fundamental: Contribuições da Atividade de Estudo..........................................23
Stela Miller
Érika Christina Kohle
CAPÍTULO 2 - Produção Bibliográfica Brasileira Sobre Formação Inicial
de Professoras e Professores Para a Educação Infantil em Curso de Pedagogia
(2006-2019).......................................................................................................43
Monalisa Gazoli
CAPÍTULO 3 - Formação Continuada do Professor Para a Educação Infantil e a
Teoria Histórico-Cultural...................................................................................61
Suely Amaral Mello
CAPÍTULO 4 - Jogo Protagonizado na Infância: Aspectos Teóricos e
Práticos...............................................................................................................79
Maria Aparecida Zambom Favinha
Elieuza Aparecida de Lima
Tatiana Schneider Vieira de Moraes
CAPÍTULO 5 - Formação Continuada do Professor: Possibilidades de
Materialização da Teoria Histórico-Cultural no Trabalho da Creche....................97
Juliana Guimarães Marcelino Akuri
Marcelo Campos Pereira
Elieuza Aparecida de Lima
PARTE 2 - FORMAÇÃO E ATUAÇÃO DOCENTE NA EDUCAÇÃO
INFANTIL: DESAFIOS E POSSIBILIDADES PARA UMA EDUCAÇÃO
LITERÁRIA, ESTÉTICA E HUMANIZADORA
CAPÍTULO 6 - Mediação de Leitura Literária e a Humanização das Crianças..111
Cyntia Graziella Guizelim Simões Girotto
CAPÍTULO 7 - Literatura Infantil, Formação do Leitor e Experiência Estética
Para Além dos Muros da Escola.........................................................................133
Maíra Isabel Zibordi
Eliane Aparecida Galvão Ribeiro Ferreira
Geovanna Souza de Azevedo
CAPÍTULO 8 - Mediação de Leitura Literária e Fruição Estética: Questões Para a
Formação de Professoras Para e da Educação Infantil.........................................151
Mônica Correia Baptista
Hilda Aparecida Linhares da Silva
Mariana Parreira Lara do Amaral
CAPÍTULO 9 - As Histórias Literárias na Escola de Educação Infantil: Elementos
Para Pensar a Prática de Contação de Histórias..................................................167
Ketty Claudia Neves do Amaral
Leila Cristina de Carvalho Sandim
Simone Marques S. Carvalho
CAPÍTULO 10 - Artes Plásticas na Educação Infantil: Um Estudo
Bibliográfico.....................................................................................................183
Kátia Aparecida Franco de Sousa
Amanda Valiengo
Giovana Scareli
CAPÍTULO 11 - Expressão livre e Desenvolvimento Psíquico na Infância: Um
Diálogo Entre a Pedagogia Freinet e a Teoria Histórico-Cultural Para Pensar a
Docência na Educação Infantil..........................................................................201
Karolyne Ap. Ribeiro Kusunoki
Ana Laura Ribeiro da Silva
Gabriela Pavan David
Sobre as Autoras e Autor...................................................................................217
7
Prefácio
Este livro, como afirmado na introdução, é um dos frutos de colhei-
tas conjuntas de educadoras e educadores e pesquisadoras e pesquisadores do
CRIA - Centro de Respeito às infâncias e suas aprendizagens da UFSJ, MG e
do GEPEDEI - Grupo de Estudos e Pesquisa em Especificidades da Docência na
Educação Infantil da FFC, Unesp de Marília, materializados em discussões, diá-
logos e, especificamente, em duas edições do Colóquio, realizadas em 2021 e
2023. Trata-se de uma produção que evidencia conceitos, contextos, desafios
e possibilidades da e sobre a Educação Infantil, os quais permeiam/embasam
processos de formação inicial e em serviço de professoras e professores.
Esse plano de discussão e de organização do livro, em duas partes e em 11
capítulos, vislumbra práticas docentes intencionais, com vistas à transformação
e à busca de novas sínteses no plano do conhecimento e no plano da realidade
histórica. Daí o encontro com formulações da Teoria Histórico-Cultural, fir-
madas nas dimensões específicas da teoria e da prática, em estreita relação.
As contribuições da Teoria Histórico-Cultural, cujo expoente mais
conhecido é Vigotski (1897-1934), fomentam reflexões com implicações
didático-pedagógicas potentes que, privilegiadamente, podem ser com-
preendidas e apropriadas na formação de professoras e professores da
Educação Infantil, à luz de defesas de inclusão da atividade de estudo como
um conteúdo a ser incorporado ao currículo de formação do professor, da
produção de conhecimento sobre formação inicial e continuada para a e da
docência na Educação Infantil, da compreensão dos pressupostos da Teoria
Histórico-Cultural, dentre os quais aqueles que remetem à potencialidade
do jogo protagonizado para o desenvolvimento das funções psíquicas das
crianças em espaços escolares e fora da escola, assim também em outras ati-
vidades humanas, desde o início da vida da criança, como em creches, con-
siderando a mediação da leitura literária e das Artes Plásticas, esta última
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-558-2.p7-8
8
ainda mais potente se pensada no diálogo entre a Teoria Histórico-Cultural
e a Pedagogia Freinet.
Certamente, a leitura deste livro será um instigante caminho para algu-
mas indagações que, historicamente, desafiam a formação e atuação das pro-
fessoras e professores da Educação Infantil, e a tantas outras que a docência
vier a suscitar.
Marília, SP, 14 de junho de 2024.
Prof.ª Dr.ª Rosane Michelli de Castro
Faculdade de Filosofia e Ciências – FFC, Unesp, Marília, SP.
9
Apresentação
Bases Científicas Possibilitadoras
de Práticas Docentes Desafiadoras e
Conscientes na Educação Infantil
Iniciamos a apresentação deste livro inspiradas na beleza poética de
Bartolomeu Campos de Queirós no livro “Para criar passarinho” (2009). Em
suas palavras, “Para bem criar passarinho é bom construir uma gaiola, mais
ampla que a terra, de janelas abertas para o universo com seus planetas e
constelações” (Queirós, 2009, s/p). É uma bela metáfora para a tessitura de
reflexões acerca de uma educação plena, capaz de fomentar vivências e apren-
dizados para voos cada vez mais altos e livres de cada e toda pessoa. Essa fonte
de inspiração literária dialoga com princípios da Teoria Histórico-Cultural,
fundamentando nossas reflexões sobre o complexo processo de formação hu-
mana, com especial atenção, nas páginas deste livro, à formação de professo-
ras e professores. Com amparo e substância científica, essa formação poderá
potencializar a criação/educação de passarinhos – crianças, jovens e adultos
– ativos e compositores de suas histórias.
No esforço de contribuir para a composição dessa gaiola mais ampla
do que a Terra, o GEPEDEI - Grupo de Estudos e Pesquisa em Especificidades
da Docência na Educação Infantil, desde 2016, tem se constituído como
lócus de estudos, encontros, pesquisas, diálogos, travessias, reflexões e
voos. Situado na Unesp de Marília (SP), atualmente o grupo reúne pro-
fessoras e professores e gestores de Educação Básica (especialmente da
Educação Infantil), pesquisadoras e pesquisadores, alunas e alunos de gra-
duação, da Faculdade de Filosofia e Ciências e de outras universidades,
municípios e estados.
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-558-2.p9-19
10
Para criarmos juntos passarinhos, dentre tantas formas de nos relacio-
narmos, o CRIA - Centro de Respeito às infâncias e suas aprendizagens da UFSJ/
MG é também uma forma de alçar voos a partir e com o GEPEDEI. Desde
2018, cadastrado como grupo de pesquisa, se dirige a objetivos semelhantes
e conjuntos com o GEPEDEI.
Participantes desses grupos organizaram duas edições de Colóquio,
realizadas em 2021 e 2023, materializando um antigo desejo de ampliar co-
nhecimentos essenciais à constituição docente além das atividades vivencia-
das nos encontros periódicos dos grupos de pesquisa nos interiores dos esta-
dos de São Paulo e Minas Gerais. Nesta direção, o poeta Queirós (2009) nos
convida a compor nossa poesia (como educadoras e educadores) para outros
passarinhos cantarem: “Para bem criar passarinho é preciso ter ao alcance das
mãos a linha do horizonte para escrever poesia para passarinhos cantarem. E
isso se torna possível soltando o olhar para o bem depois das montanhas, dos
mares, deixando o carinho murmurar rascunho de poema”.
Dos diálogos provocados pelos estudos tanto nos grupos de pesqui-
sas já citados quanto no evento mencionado nasceu este livro intitulado –
“Formação de Professoras e Professores da Educação Infantil: bases científicas,
contextos, desafios e possibilidades” em busca de socializar com professoras
e professores e com futuros docentes os anseios de proporcionar a Educação
mais humanizadora possível para os bebês e para as crianças. O livro apresen-
ta algumas reflexões divididas em duas partes: a formação do professor para a
Educação Infantil e a Teoria Histórico-Cultural e os desafios e as possibilida-
des de docentes para uma educação literária, estética e humanizadora.
Ao consideramos que, de acordo com Vigotsky (1984), a transforma-
ção do ser em humano se dá pela atividade conjunta, garantida por meio
do processo social da educação, o qual, em seu sentido amplo, vai além da
educação escolar. Com essa compreensão, a educação passa a ser considerada
como centro do processo de evolução histórico-cultural do homem.
Além disso, a formação das funções psicológicas superiores tais como: a
atenção consciente e mediada, a memória voluntária, a inteligência represen-
tacional, dentre outras, se dá por meio da reestruturação dos processos psi-
cológicos naturais, mediante atividade prática e instrumental, em interação
interpessoal ou em cooperação social (Vigostky, 1984).
11
Nesse sentido, a história filogenética da inteligência não se liga apenas
ao domínio da natureza, mas também ao domínio do próprio indivíduo so-
bre si mesmo, uma vez que a consciência surge da atividade do indivíduo que
age sobre os objetos ou com ajuda deles e nessa atividade os seus processos
mentais se formam.
De acordo com Engeström (1999), a educação é transformadora e de-
senvolvimental, ao propor formas de atividades novas para os indivíduos e
levá-los a estabelecer um diálogo com seu futuro. Desse modo, o indivíduo
interioriza as formas de funcionamento psíquico dadas culturalmente ao to-
mar posse delas e as utilizar como seus instrumentos pessoais de pensamento
e de ação no mundo.
Diante da relevância da oferta de uma educação que humanize, o li-
vro objetiva levar à reflexão questões sobre como professoras e os professores
podem possibilitar o desenvolvimento das crianças de modo cada vez mais
pleno, considerando o arcabouço biológico, mas sobretudo as condições e
relações sociais culturais e históricas necessárias à humanização.
Como enunciado de abertura da primeira parte do livro intitulada
– “Formação do professor para a Educação Infantil e a Teoria Histórico-
Cultural” tem-se o capítulo “Implicações da Teoria Histórico-Cultural
para a formação inicial de professores dos anos finais da Educação
Infantil e dos anos iniciais do Ensino Fundamental: contribuições da ati-
vidade de estudo de autoria de Stela Miller e Érika Christina Kohle. Nele,
as autoras discorrem sobre a proposta da atividade de estudo como um dos
conteúdos tanto do processo de formação inicial quanto da formação conti-
nuada de professoras e de professores que trabalham ou trabalharão com as
crianças dos anos finais da Educação Infantil e dos anos iniciais do Ensino
Fundamental, tendo em vista que atividade de estudo favorece a apropria-
ção dos conhecimentos teóricos, dos princípios e modos de ação necessários
à transformação qualitativa do psiquismo de quem a realiza, contribuindo
assim para o processo de desenvolvimento de sua personalidade, configuran-
do-se como parte das atividades humanas que têm potencial transformador.
O primeiro capítulo defende a inclusão da atividade de estudo como um
conteúdo a ser incorporado ao currículo de formação do professor porque
ela propõe a apropriação de um conhecimento teórico-metodológico que
12
fornece as bases para a organização da atividade de estudo das crianças como
a atividade que dirige as principais mudanças qualitativas do psiquismo da
criança na idade escolar.
O segundo capítulo intitulado – “Produção bibliográfica brasi-
leira sobre formação inicial de professora e professor para a Educação
Infantil em curso de Pedagogia (2006-2019)” de Monalisa Gazoli – obje-
tiva contribuir para pesquisas futuras, por meio da apresentação da produ-
ção bibliográfica brasileira sobre a formação inicial de professoras e profes-
sores para a Educação Infantil em curso de Pedagogia publicada entre 2006
– ano de publicação das Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de
Graduação em Pedagogia, licenciatura – e 2019 – ano de homologação das
Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação Inicial de Professores para
a Educação Básica e a Base Nacional Comum para a Formação Inicial de
Professores da Educação Básica (BNC-Formação). Por meio de pesquisa bi-
bliográfica empreendida junto à bases de dados brasileiras e de textos científi-
cos de pesquisadores nacionais elaborou-se um instrumento de pesquisa con-
tendo 51 textos (entre livros, capítulos de livros, teses, dissertações e artigos
científicos). A elaboração do instrumento de pesquisa apresentado decorreu
de etapas de localização, seleção e análise de fontes bibliográficas referentes
ao desenvolvimento de pesquisa de doutorado em Educação desenvolvida
entre 2020 e 2023 junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação, da
Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – Unesp-Marília,
SP –, sob orientação da Prof.ª Dr.ª Elieuza Aparecida de Lima e vincula-
da ao “Grupo de Estudos e Pesquisa sobre Especificidades da Docência na
Educação Infantil” (GEPEDEI).
No terceiro capítulo, a professora e pesquisadora Suely Amaral de
Mello discorre sobre a “Formação continuada do professor para a edu-
cação infantil e a teoria histórico-cultural”. À luz da Teoria Histórico-
Cultural, a formação continuada e em serviço das/os professoras/es é uma
exigência do papel que o educador exerce na constituição da personalidade
humana ao longo da infância. Isso porque é no próprio processo de exercer
a atividade docente que a reflexão e o diálogo entre teoria e prática possi-
bilitam a compreensão efetiva dos processos de ensinar e de aprender. Na
realidade brasileira, dada a opção histórica do Estado por uma pátria iletrada
13
que fragiliza e esvazia essa formação, a urgência da formação continuada e em
serviço cresce. Para fazer frente ao desafio de criar condições para a formação
de uma personalidade em suas melhores possibilidades na infância é preciso
conhecer como se dá o desenvolvimento humano nos primeiros anos de vida.
Embora se trate de uma condição essencial para concretizar intenções de uma
educação promotora do melhor desenvolvimento cultural na infância, não é
suficiente. Também se faz necessária uma nova cultura escolar em que novas
relações de poder se constituam: uma gestão pedagógica democrática em lu-
gar da gestão burocrática autoritária que encontramos nas escolas hoje, de
um modo geral. Ampliação do repertório docente, gestão e responsabiliza-
ção compartilhada da formação são também alguns dos itens que precisamos
concretizar na busca de um processo formativo auto formador que apoie e
valorize a necessária liberdade e protagonismo docentes na complexa, desa-
fiadora, urgente e encantadora atividade de formação das novas gerações para
serem cidadãos de direitos que cuidam do planeta em que vivemos.
Esse processo de formação não precisa parar na leitura e discussão de
bons textos que promovam a reflexão. Também a discussão e a reflexão sobre
as práticas do coletivo em formação podem ser ampliadas com vivências de
estreitem relações fraternas no grupo: um grupo de leitura que se reúna fora
da escola em um lugar agradável, um passeio conjunto, uma sessão de cine-
ma... Conhecer as possibilidades do território pode ser o início de tudo isso.
O quarto capítulo – “Jogo protagonizado na infância: aspectos teó-
ricos e práticos das autoras Maria Aparecida Zambom Favinha, Elieuza
Aparecida de Lima e Tatiana Schneider Vieira de Moraes traz reflexões sobre
a potencialidade do jogo protagonizado para o desenvolvimento das funções
psíquicas das crianças, especialmente a imaginação, autocontrole da conduta
e função simbólica da consciência. O desenvolvimento dessas funções psíqui-
cas torna-se base para a gênese do plano ideativo (plano das ideias), propi-
ciando à criança separar-se do campo sensorial. Com essa temática complexa
e necessária no cenário atual de encurtamento da Educação Infantil em favor
de pretenso êxito dos demais segmentos da escolaridade, o texto traz à re-
flexão e instrumentaliza o papel do professor e seu trabalho docente, consi-
derando as fundamentais intervenções diretas e indiretas desse profissional
para a realização do jogo protagonizado na idade pré-escolar, perspectivando
14
avanços qualitativos no desenvolvimento das crianças. Trata-se de conceber o
professor como esse profissional capaz de planejar e organizar espaços, tem-
pos, materiais, criando contextos para o estabelecimento de relações autên-
ticas com as crianças. Convidamos os leitores e leitoras para apreciação de
um exercício de discussões sobre o jogo protagonizado do ponto de vista
científico e mediante retratos da prática pedagógica, especialmente a partir
do tema “Supermercado” descrito no capítulo, com o intuito de integrar as-
pectos teóricos e práticos.
No quinto capítulo, intitulado “Formação continuada do professor:
possibilidades de materialização da Teoria Histórico-Cultural no traba-
lho da creche, os autores - Juliana Guimarães Marcelino Akuri, Marcelo
Campos Pereira e Elieuza Aparecida de Lima desenvolvem um diálogo com
os leitores sobre o trabalho de formação continuada realizado em uma cre-
che municipal do interior paulista como parte de uma permanente busca
pela materialização de princípios da Teoria Histórico-Cultural que embasam
estudos e pesquisas em favor de uma educação capaz de humanizar crianças
e adultos que com elas trabalham. Destacamos o valor da formação teórica
do professor a partir da apropriação de conhecimentos científicos, processo
capaz de transformar qualitativamente sua consciência e sua relação com o
trabalho docente para a efetivação de um currículo promotor da máxima
formação humana das crianças desde o início da vida.
A segunda parte do livro, nomeada de “Formação e atuação docente
na Educação Infantil: desafios e possibilidades para uma educação literária,
estética e humanizadora” se inicia com o sexto capítulo “Mediação de leitu-
ra literária e a humanização das crianças, de autoria de Cyntia Graziella
Guizelim Simões Girotto, com debates em torno da mediação de leitura lite-
rária e fruição estética como meios de humanização das crianças, com vistas
a abordar o conteúdo essencial e concernente à temática, imprescindível à
formação de professores e professoras da Educação Infantil, ou seja, aqueles
saberes vitais que todo professor ou toda professora deve ter para si, sob pena
de comprometer sua prática docente, beirando a processos desumanizado-
res, ainda que esteja carregado de boas intenções. Dessa forma, a discussão
proposta se volta a questões tais como mediação, leitura, literatura infantil e
os contextos dos atos humanos correlacionados a tais concepções. O debate
15
tematiza a conjugação entre as palavras eleitas para expressar o título: media-
ção literária, leitura, infâncias, livros, crianças e humanização.
No sétimo capítulo, “Literatura infantil, formação do leitor e ex-
periência estética para além dos muros da escola, as autoras Maíra Isabel
Zibordi, Eliane Aparecida Galvão Ribeiro Ferreira e Geovanna Souza de
Azevedo destacam a relevância de obras literárias dialógicas na Educação
Infantil e da experiência estética para a formação do pequeno leitor ao apre-
sentar aqui a materialização, o desenvolvimento e os resultados e discussões
do projeto “Passaporte da Leitura”, proposta que objetiva uma experiência
libertadora no ato da leitura da criança com a família para além dos mu-
ros da escola. O trabalho com o “Passaporte da Leitura” realizou-se durante
todo o ano letivo de 2023 com a turma de Infantil II, nomeada “Turma da
Borboleta”, da EMEI “Sambalelê”, localizada na cidade de Marília/SP. Nas
viagens literárias provocadas pelo projeto, as crianças puderam levar e vi-
venciar a experiência estética aos seus familiares, e, assim, além de fomentar
práticas de leitura, os destinos resultaram em reflexões, resgate de memórias
e significações afetivas.
O oitavo capítulo, intitulado “Mediação de leitura literária e frui-
ção estética: questões para a formação de professoras para e da Educação
Infantil”, de autoria de Mônica Correia Baptista, Hilda Aparecida Linhares
da Silva e Mariana Parreira do Amaral, discute o papel da mediação literária
na Educação Infantil como importante condição para assegurar o direito das
crianças, desde pequenas, à literatura ao evidenciar a complexidade da prática
pedagógica que envolve a leitura de histórias para crianças nessa faixa etária,
apresentando, para análise e reflexão, o evento de leitura literária realizado em
turma de crianças de quatro anos, em uma Escola Municipal de Educação
Infantil (EMEI) de Belo Horizonte. O excerto da pesquisa constata que as
diferentes habilidades mobilizadas pela narradora evidenciam o quão com-
plexa e exigente deve ser a formação das profissionais da Educação Infantil
para contribuir de maneira efetiva para a ampliação das experiências estéticas
das crianças por meio da literatura.
O nono capítulo, de Ketty Claudia Neves do Amaral, Leila Cristina de
Carvalho Sandim e Simone Marques S. Carvalho, intitulado As histórias
literárias na escola de Educação Infantil: elementos para pensar a prática
16
de contação de histórias, aborda questões sobre a importância da contação
de histórias para bebês e crianças, enfatizando as contribuições para formação
social e humana. O estudo discorre sobre alguns desafios enfrentados por
professores em sua atividade docente com a narrativa oral literária. Nessa
perspectiva, propõe-se uma reflexão sobre o uso dos Canais de Contação de
Histórias do YouTube, como referência para promover o acesso dos pequenos
à Literatura. As escolhas do professor contador ou da professora contadora de
histórias podem oportunizar o desenvolvimento da imaginação, do pensar,
da interação, das descobertas, experimentações e aprendizagens.
No décimo capítulo – “Artes Plásticas na Educação Infantil: um es-
tudo bibliográfico - Kátia Aparecida Franco de Sousa, Amanda Valiengo
e Giovana Scareli apresentam uma pesquisa de mestrado (Sousa, 2023) que
teve como objetivo refletir sobre o trabalho pedagógico com as Artes Plásticas
na Educação Infantil, na perspectiva histórico-cultural, a partir de trabalhos
acadêmicos-científicos, entre 2013 e 2022, por meio de uma pesquisa biblio-
gráfica. Por meio de um levantamento, foram selecionados onze trabalhos
para análise. Ao longo do texto, a partir da análise desse levantamento, são
apresentadas algumas leis e documentos que retratam o trabalho pedagógi-
co com as Artes na Educação Infantil: LDB, RCNEI, DCNEI, DCNEB e
BNCC. Em seguida é realizada uma discussão acerca do trabalho pedagógico
com as Artes na Educação Infantil. Considera-se que o contato com a Arte,
desde a Educação Infantil, possibilita uma experiência desenvolvendo uma
consciência estética e que tal experiência ainda carece de se tornar uma reali-
dade em algumas escolas de Educação Infantil.
O décimo primeiro artigo intitulado “Expressão livre e desenvolvi-
mento psíquico na infância: um diálogo entre a Pedagogia Freinet e a
Teoria Histórico-cultural para pensar a docência na Educação Infantil”
apresenta o conceito de expressão livre em articulação com os períodos do
desenvolvimento psíquico na infância como meio de ampliar as possibili-
dades de atividade do professor e da criança no interior das instituições de
Educação Infantil. Nele as autoras - Karolyne Aparecida Ribeiro Kusunoki,
Ana Laura Ribeiro da Silva e Gabriela Pavan David - refletem sobre o prin-
cípio da expressão livre no processo de formação humana de crianças e bebês
explicitando a imprescindibilidade de ações formativas docente consistentes
17
para a materialização de um projeto de Educação voltado para as máximas
possibilidades do sujeito. Ressaltam, ainda, que a consolidação de uma nova
escola, em que crianças e professores são sujeitos da própria atividade, cons-
titui elemento fundamental para a construção de uma sociedade mais justa
e equânime.
Para finalizar esse enunciado de apresentação e para que iniciem a lei-
tura, esperamos que as reflexões dispostas neste livro contribuam para as prá-
ticas pedagógicas e para novos estudos, representativos de acréscimos de valor
tanto à teoria quanto à prática educativa fundamentadas na Teoria Histórico-
Cultural. Almejamos também, nessa perspectiva, que as suas proposições
sejam motivadoras para tornarem possível a transformação não apenas da
educação ofertadas às crianças, mas também à transformação das próprias
crianças como sujeitos em processo de formação para que se transformem e
superem a sociedade dividida em classes com a implementação de uma socie-
dade cada vez mais humanizada e economicamente menos desigual.
As crianças como sujeitos em processo de formação necessitam que
os (as) professores(as) de Educação Infantil instiguem práticas pedagógicas
potentes, centradas em desejos de conhecimentos das crianças, como ponto
de partida. Sobre esses profissionais recaem a função de ser o organizador do
meio social (Vigotski, 2010). O meio social como fonte de desenvolvimento
deve ser ampliado, sofisticado e pensado pelo(a) professor(a) possibilitando
as crianças se apropriarem de novos conhecimentos.
O trabalho criativo e autoral do(a) professor(a) centra-se na organiza-
ção da vida social da criança na escola. A escola não se separa da vida. A escola
viva, dinâmica e histórica abriga crianças ativas, protagonistas e produtoras
de cultura, advindas do meio social concreto que está inserida. Nesse sentido,
o(a) professor(a) necessita e deve organizar espaços, gerir o tempo, escolher
materiais e estabelecer relações com a criança, possibilitando a ela humani-
zar-se cada vez mais.
Como afirma Vigotski (2010, p. 456): “A educação é tão inadmissível
fora da vida quanto a combustão sem oxigênio ou a respiração no vácuo”.
A vida integrada à educação requer entendimentos de organizar, pensar e
compor a unidade teoria e prática, fomentando a formação de uma nova cul-
tura escolar. Sobre a profissionalidade de professores e professoras, reincide a
18
necessidade de “trocas docentes” de professores com professores, professores
com gestores e de professores com crianças. Esse processo dialógico possibi-
lita de maneira democrática a organização de espaços, tempo, material e o
encontro com diferentes pessoas.
Desse modo, de acordo com a afirmação de Girotto (2024), em seu
capítulo presente nesta obra, é mister que se combata a escola de apetrechos,
de exigências, de instituições de modelos idealizados, de classificação, de ar-
tificialidades, de silenciamento de vozes, encarceramento de corpos-mente,
de apagamentos dos desejos singulares de cada criança. E bem sabemos que
isso não é apenas uma particularidade do Ensino Fundamental; infelizmente
está presente em todos os segmentos da educação formal, desde, inclusive, a
Educação Infantil.
Nesse sentido, de acordo com Imbérnon (2000) apud Libâneo (2020),
necessita-se de uma educação que concilie formação cultural, formação cientí-
fica e diversidade, ou seja, conseguir, por meio da educação institucionalizada,
ajudar as crianças a desenvolverem capacidades tanto de tipo cognoscitivas
como de autoconhecimento, de autonomia pessoal e de socialização ao pro-
piciar que, nas instituições educativas, tenham lugar e reconhecimento todas as
capacidades, ritmos de trabalho, expectativas, estilos cognoscitivos e de apren-
dizagem, motivações, etnias, valores culturais de todos os meninos e meninas.
Pretendemos com esse conjunto de textos que os leitores e leitoras des-
frutem de profícuas reflexões acerca dos temas apresentados nesta obra.
Maria Aparecida Zambom Favinha (Marília, SP)
Elieuza Aparecida de Lima (Marília, SP)
Érika Christina Kohle (Marília, SP)
Amanda Valiengo (São João del Rei, MG)
Outono, abril, 2024
Referências
ENGESTRÖM, Yrjö et al. Perspectives on activity theory. Cambridge:
Cambridge University Press, 1999.
LIBÂNEO, José Carlos. A desfiguração da escola e a imaginação da escola
justa. In: MENDONÇA, Sueli Guadelupe de Lima. et. al. (Orgs.). (De)
19
Formação na Escola: desvios e desafios. Marília: Oficina Universitária,
2020. p. 33-50. Disponível em: http://ebooks.marilia.unesp.br/index.php/
lab_editorial/catalog/book/172
QUEIRÓS, Bartolomeu Campos de. Para Criar Passarinho. São Paulo:
Editora Global, 2009.
VIGOTSKI, Lev Semionovitch. A formação social da mente: o
desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. São Paulo: Martins
Fontes, 1984.
VIGOTSKI, Lev Semionovitch. Psicologia Pedagógica. Trad. Paulo
Bezerra. 3.ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010.
PARTE 1
FORMAÇÃO DO PROFESSOR
PARA A EDUCAÇÃO INFANTIL E A
TEORIA HISTÓRICO-CULTURAL
23
CAPÍTULO 1
Implicações da Teoria Histórico-Cultural
Para a Formação Inicial de Professores
Dos Anos Finais da Educação Infantil e
dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental:
Contribuições da Atividade de Estudo
Stela Miller
Érika Christina Kohle
Este capítulo objetiva pôr em discussão a proposta da atividade de es-
tudo como um dos conteúdos do processo de formação inicial de professores
que trabalharão com as crianças dos anos iniciais do ensino fundamental.
Sua relevância está no fato de que a atividade de estudo favorece a
apropriação dos conhecimentos teóricos, dos princípios e modos de ação ne-
cessários à transformação qualitativa do psiquismo da criança; contribui para
o processo de desenvolvimento de sua personalidade, configurando-se como
parte das formas de atividade humana que têm potencial transformador.
A inclusão da atividade de estudo como um conteúdo a ser incorpora-
do a alguma disciplina do currículo de formação do professor supõe a apro-
priação de um conhecimento teórico-metodológico que forneça as bases para
a organização da atividade de estudo das crianças dos anos iniciais do ensino
fundamental como a atividade que dirige as principais mudanças qualitativas
do psiquismo da criança na idade escolar, não se reduzindo, pois, a mais uma
técnica a ser aprendida pelo professor e aplicada em sala de aula.
Isso se configura como um desafio, porque, no Brasil, e, particularmen-
te, no Estado de São Paulo, os cursos de Pedagogia e as demais licenciaturas
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-558-2.p23-42
24
vêm passando, ao longo dos últimos anos, por sucessivas alterações que pro-
movem um processo de reducionismo de seus conteúdos formativos ao dimi-
nuir a carga horária dos conhecimentos teóricos, ou até eliminá-los da grade
curricular em função da expansão de conteúdos técnicos e práticos.
Exemplo disso, é o problema da regulamentação, em nível nacional,
dos currículos destinados à formação de professores que, segundo Helena
Freitas (2020), tem gerado a precarização da formação de profissionais da
educação básica:
As mudanças mais significativas e que caracterizam o retrocesso no cam-
po da formação de professores seriam aprovadas em 2017, no âmbito da
Reforma do Ensino Médio, com a lei 13.415/2017 que altera vários pará-
grafos e incisos do Art. 62: 1. retira do artigo 62 da LDB a exigência de a
formação realizar-se em Universidades; 2. alinha a formação de professo-
res à BNCC, ao indicar que os currículos dos cursos de formação de do-
centes terão por referência a Base Nacional Comum Curricular e 3. altera
a concepção de profissionais da educação instituindo “notório saber” [...]
(Freitas, 2020, p. 99-100).
Por este último dispositivo, qualquer profissional que comprovar co-
nhecer determinado campo de conhecimento poderá lecionar, mesmo não
tendo a formação exigida para fazê-lo, promovendo, com isso, alterações no
caráter da formação de professores e restrições às possibilidades de sua atua-
ção nas instituições escolares.
Além disso, a Educação pública do Estado de São Paulo contempla sua
própria Proposta Curricular, cujos conteúdos são padronizados com o intuito
de impor e de manter um conteúdo mínimo a ser estudado em todo o estado
de São Paulo, e cujas propostas implicam o estudo de parcelas mínimas de
conteúdos disciplinares, configurando um processo alienado que não chega a
superar o conhecimento formal com base no senso comum, sem aprofunda-
mento teórico-científico, apenas embalados com roupagem tecnológica para
apresentar ares de modernidade, mas sem consequências para a formação do
aluno como ser pensante, reflexivo e ativo em seu meio.
Tanto no nível federal da legislação vigente, como no estadual, as bre-
chas para que haja um reducionismo na formação dos educandos são mui-
to grandes e, obviamente, elas serão aproveitadas por aqueles que desejam
25
participar da abertura da Educação para o mercado, com formação básica
obrigatória apenas em português, inglês e matemática, trazendo consequên-
cias para a vida profissional dos educadores e para a qualidade da formação
dos alunos da Escola Básica.
Em consonância com as diretrizes de Formação docente que já vêm
articuladas com a BNCC – Base Nacional Comum Curricular – há uma
política de ação instaurada tanto no nível Federal quanto no estadual, que
objetiva exercer um controle estreito sobre a atuação dos professores nas
escolas da Educação Básica: os professores são submetidos ao trabalho que
vem previamente organizado quanto ao conteúdo a ser ensinado, quanto
ao modo como ele deve ensinar esses conteúdos e, também, quanto aos
materiais que ele vai utilizar para fazer isso, porque ele já vem pronto para
ser utilizado em cada aula, tanto para o professor quanto para o aluno,
com controle do cumprimento das ações dentro da sala de aula e do tempo
pré-estabelecido por esses documentos. Todo esse trabalho depois obvia-
mente vai passar por avaliações externas conforme os diferentes sistemas já
previstos oficialmente.
Esse brevíssimo panorama mostra a existência de um projeto de educa-
ção destinado à classe trabalhadora, que restringe tanto o processo de forma-
ção quanto o processo de atuação dos profissionais do ensino básico e limita
o trabalho intelectual do professor, porque o submete a um fazer pedagógico
que é imposto de fora e desvaloriza sua capacidade de pensar, de planejar e
organizar a sua própria prática; não deixa espaço para inovações, não permite
ao professor planejar o seu trabalho em consonância com as necessidades
de aprendizagem dos seus alunos, transformando o professor em um mero
cumpridor de tarefas.
Tudo isso acontece, mas não sem resistência. Neste ano de 2024, foi
realizada, de 28 a 30 de janeiro, em Brasília – DF, a CONAE – Conferência
Nacional de Educação, cujo tema central foi Plano Nacional de Educação
2024-2034: Política de Estado para garantir a educação como um direito hu-
mano com justiça social e desenvolvimento socioambiental sustentável. Como
resultados dessa conferência, houve a proposta de revogação do NEM
– Novo Ensino Médio, da BNCC – Base Nacional Comum Curricular e
BNC-Formação – Base Nacional Comum destinada à formação inicial de
26
professores da educação básica (CNTE, 2024). Para todas essas propostas de
revogação, há uma proposta substitutiva.
Além disso, outras propostas relevantes foram feitas: universalização
da educação básica, ampliação de matrículas da educação profissionalizante,
educação em tempo integral para, pelo menos, 50% dos estudantes, padrões
de qualidade para a educação a distância utilizada em casos excepcionais,
implantação do custo aluno-qualidade conforme critério de qualidade do en-
sino a ser ofertado e investimento de 10% do PIB – Produto Interno Bruto
– em educação (CNTE, 2024).
Todas essas reivindicações, enviadas ao Ministério da Educação, consi-
deram que a aprendizagem desempenha um papel de extrema relevância para
o processo de desenvolvimento da criança. De fato, como afirma Vigotskii
(1988, p. 115),
[...] a característica essencial da aprendizagem é que [...] faz nascer, esti-
mula e ativa na criança um grupo de processos internos de desenvolvi-
mento no âmbito das inter-relações com outros, que, na continuação,
são absorvidos pelo curso interior de desenvolvimento e se convertem em
aquisições internas da criança.
Isso se deve ao fato de que, para cada nova aprendizagem, cria-se uma
zona de desenvolvimento proximal, ou iminente – quando algumas funções
estão ainda em processo de desenvolvimento e, por isso, torna-se necessário
que a atividade de ensino atue nessa zona para ajudar os aprendizes a fazerem
o que ainda não conseguem fazer sozinhos e se apropriarem de conhecimentos
para, depois, usá-los autonomamente. Diante de tal constatação, a tomada de
consciência, por parte do professor, das atividades significativas para as crian-
ças, dos tipos de relações que elas estabelecem com outras pessoas em diferentes
contextos sociais, das funções psíquicas superiores em processo de desenvolvi-
mento, passa a ser ponto de partida para as suas propostas para que o processo
de ensino-aprendizagem atue na zona de desenvolvimento proximal das crian-
ças, proporcione aprendizagem e impulsione o seu desenvolvimento.
Para Vigotsky (1984), o objetivo da atuação do professor na zona de
desenvolvimento proximal não se limita à transferência do conhecimento do
adulto à criança, mas é o de proporcionar o processo de ensino-aprendizagem
27
que leve à criação de novas formas de atividade, na convivência da criança
com outros sujeitos durante as ações coletivas. Em outros termos, não é ape-
nas facilitar a ela a aquisição de formas existentes de cultura, mas levá-la ao
desenvolvimento de processos criativos, superando a educação como trans-
missão de conteúdos e de reprodução do passado no presente.
Isso proporciona à criança avanços nos seus patamares de conhecimen-
to, capacidades, atitudes e valores e, consequentemente, em sua prática como
sujeito inserido nas relações sociais.
É em razão da universalidade de características do ser humano que deve-
mos valorizar a busca do conhecimento, porque é o conhecimento que
favorece mais autonomia, mais visão crítica da realidade, mais desenvol-
vimento das capacidades humanas para ter uma vida digna, emancipada,
para atender às demandas concretas da vida (Libâneo, 2020, p. 15).
Avulta, assim, em importância, a função do professor. O que atribui
qualidade ao ensino são as práticas escolares, as práticas pedagógicas, os as-
pectos pedagógico-didáticos, ou seja, a qualidade interna dos processos de
ensino-aprendizagem (Libâneo, 2020) pelos quais o professor se responsa-
biliza. O direcionamento desses processos demanda atenção às exigências de
uma educação voltada à formação da criança como ser pensante e atuante em
seu meio, que desenvolve sua criticidade e sua criatividade.
Tendo em vista esse direcionamento, a prática pedagógica se organiza
tendo em vista a quantidade e a qualidade dos recursos materiais e das rela-
ções humanas disponíveis no meio em que o processo de educação acontece,
uma vez que o meio exerce a função de fonte de desenvolvimento humano,
disponibilizando as condições materiais e objetivas necessárias ao desenvol-
vimento das características essencialmente humanas, tanto da consciência
quanto da personalidade.
Como o processo de ensino-aprendizagem se materializa como coope-
ração entre os sujeitos inseridos nele, ressalta-se a importância do papel do
professor como promotor de situações que envolvam as crianças na resolução
de questões de seu interesse e que possam gerar nelas a necessidade e a vonta-
de de participar da atividade de estudo dos diferentes conteúdos curriculares,
engajando-se na realização de ações conjuntas, intermediadas pelo diálogo
28
entre todos os participantes desse processo, objetivando a apropriação da cul-
tura e o desenvolvimento das capacidades humanas superiores.
A teoria é de crucial importância na formação do professor, porque ela
fornece os fundamentos para a reflexão e organização da prática pedagógica.
Esses fundamentos teóricos e metodológicos são como ferramentas que o
professor utiliza para realização de uma análise das condições em que de-
senvolve seu trabalho pedagógico, para pensar a forma pela qual as crianças
podem ser conduzidas ao estudo dos conteúdos e o que pode ser feito para
superar possíveis limites e dificuldades que se interpõem à condução do pro-
cesso de sua aprendizagem, pensando transformações a essa prática.
A Teoria Histórico-cultural, a Teoria da Atividade e a Teoria da
Atividade de Estudo podem fornecer ao professor formador, tanto aquele
que está na universidade formando os formadores, como o professor da es-
cola básica que forma os seus alunos, esses fundamentos para a organização
do processo de ensino-aprendizagem voltado à formação das crianças como
sujeitos que podem se apropriar dos conteúdos culturais mais complexos e
desenvolver capacidades que lhes permitam melhor compreender a sua reali-
dade e a nela agir de forma consciente e ativa.
Tais teorias fornecem ao educador uma visão de totalidade do desen-
volvimento psíquico humano; permitem a reflexão sobre a sua função de
orientador dos processos de aprendizagem das crianças, possibilitando, tam-
bém, conhecer quem são essas crianças, saber quais são as possibilidades que
tem para organizar as atividades e atender as suas necessidades e realizar um
trabalho que realmente se comprometa com a sua formação humana.
De forma bem abreviada, poderíamos dizer que a Teoria Histórico-
Cultural e as que se derivaram dela constituem-se com base no princípio da
condicionalidade sociocultural do desenvolvimento humano. Ao nascer, o
homem tem apenas o seu corpo biológico e tudo o que ele traz em potencial.
O desenvolvimento de habilidades para o manejo de ferramentas, a capaci-
dade para fazer cálculos, resolver problemas, falar, escrever etc., tudo isso vai
depender de como o homem se insere ativamente no meio sócio-histórico-
-cultural em que vive, dentro de determinadas condições objetivas e sempre
na interação com o outro, que tem papel crucial no processo de sua formação
como seres humanizados, porque também o outro é um sujeito histórico,
29
social, cultural, que propicia a ele a apropriação dos conteúdos culturais que
são, na sequência, objetivados por ele em novos produtos de sua atividade e
que serão apropriados por outros sujeitos, e assim sucessivamente.
Esse é realmente um movimento ininterrupto que vai se fazendo ao longo
da história com todos os seres humanos. Na escola, a interações sociais se dão,
prioritariamente entre o professor e os alunos, e entre alunos e seus pares, mas
também com todos os outros participantes da comunidade escolar. O professor
como principal interlocutor do aluno em sala de aula, tem a tarefa de organizar
o processo de ensino-aprendizagem e também de conduzir esse processo que
está intimamente relacionado ao processo de desenvolvimento do aluno.
Lembramos que o desenvolvimento psíquico de todos os seres huma-
nos é sempre compreendido, do ponto de vista da Teoria Histórico-Cultural,
em dois níveis: um nível real ou efetivo de desenvolvimento, em que as fun-
ções requeridas já foram desenvolvidas, e a criança pode atuar sozinha, sem
auxílio de outra pessoa e, também, a zona potencial que também é chamada
de proximal ou iminente de desenvolvimento, em que certas funções reque-
ridas estão em processo de desenvolvimento, definindo as ações que a criança
só consegue realizar com ajuda de outras pessoas mais experientes do que ela.
Para Vigotsky (1984, 1996) e Vigotskii (1988), o ensino que é efetivado
sobre as possibilidades presentes na zona de desenvolvimento proximal torna
possível e faz avançar o desenvolvimento da criança e, portanto, o trabalho
pedagógico transformador e desenvolvimental é aquele que atua nessa zona
de desenvolvimento, promovendo um diálogo entre o professor e a criança
e a criança com seus pares, atuando sobre o objeto de estudo, objetivando a
apropriação dos conteúdos da cultura essenciais à sua formação humana.
Não basta, então, que a criança seja colocada em um ambiente onde
estejam certos objetos culturais; é preciso que as suas ações sejam realizadas
dentro de uma determinada atividade, entendida como “[...] aqueles pro-
cessos que, realizando as relações do homem com o mundo, satisfazem uma
necessidade especial correspondente a ele (Leontiev, 1988, p. 68), consti-
tuindo-se como “processos psicologicamente caracterizados por aquilo a que
o processo, como um todo, se dirige (seu objeto), coincidindo sempre com
o objetivo que estimula o sujeito a executar esta atividade, isto é, o motivo
(Leontiev, 1988, p. 68).
30
De acordo com Vigotsky (1984, 1996), a criança realmente aprende
quando está ativa em seu processo de aprendizagem. E, nesse processo, pre-
cisa se relacionar com o mundo e com os objetos que o compõem, para ser
capaz de atribuir sentido ao estudo desses objetos, motivada pelo resultado
da atividade que realiza. Só assim a educação, deixando de ser artificial e
desvinculada da existência, envolve o sujeito em sua plenitude, inserindo-o
ativamente no processo de sua aprendizagem.
Essa é uma condição para que a criança tome consciência do objeto
de sua atividade. Segundo Leontiev (1978, p. 193, tradução nossa), um con-
teúdo torna-se consciente, quando ele ocupa “na atividade do sujeito o lugar
estrutural de fim imediato da ação e, desse modo, entraria em relação corres-
pondente com o motivo dessa atividade”. Em outros termos, aquilo de que
a criança se apropria é, necessariamente, objeto de sua ação, dentro de uma
atividade, ação esta que está voltada para um fim a ser atingido e relacionada
ao motivo que gerou a atividade. É essa relação que constitui o sentido que
para a criança tem a atividade que realiza.
O sentido que tem uma atividade para a criança é um ponto funda-
mental para a reflexão do professor, porque a depender do sentido que faz
para a criança a atividade que ela está realizando é a forma pela qual ela in-
gressa na atividade: totalmente, mais ou menos ou então nem chega a querer
realizar a atividade que, para ela, não tem um sentido ligado a sua vida, não
corresponde a nenhum motivo seu. De fato,
O desenvolvimento dos sentidos é um produto do desenvolvimento dos
motivos da atividade; por sua vez, o desenvolvimento dos próprios moti-
vos da atividade está determinado pelo desenvolvimento das relações reais
que o homem tem com o mundo, que dependem das condições históricas
de sua vida (Leontiev, 1978, p. 217, tradução nossa).
Consideremos um exemplo da área do ensino de língua portuguesa:
a criança está escrevendo um texto narrativo com objetivo de registrar uma
história que inventou. Qual seria o motivo pelo qual ela se dedica a registrar
essa história? Uma possibilidade é que ela queira, juntamente com seus co-
legas, fazer a publicação de um livro de histórias e depois realizar um evento
de lançamento do livro para a comunidade escolar e suas famílias. Para essa
31
criança, faria parte de sua realidade vivencial ter a experiência da autoria. Esse
é o sentido que tem para ela a escrita da história. Com efeito, o sentido é, do
ponto de vista de Leontiev (1978), engendrado pela vida.
Importa, então, para o professor, considerar qual o sentido que tem
para a criança a sua participação em uma dada atividade. Para os educado-
res, quer pensando em sua atuação como professores formadores de outros
professores, ou como formadores de estudantes do ensino básico, a questão
de qual lugar ocupa o conhecimento na vida do estudante, se é para ele parte
de sua autêntica vida ou só uma condição externa a ela, apenas um conheci-
mento formal que ele adquire, distante de sua real existência, é uma questão
relevante para a organização da prática pedagógica, para pensar que tipo de
formação é proporcionada a esse estudante e quais as consequências da ado-
ção de uma ou de outra forma de conduzir a sua aprendizagem.
Isso implica que, quando o estudante apenas cumpre uma tarefa im-
posta de fora, formalmente, como algo distante de sua vida, como algo alheio
a seus interesses e a suas necessidades, o objeto dessa atividade não terá um
sentido que o vincule a sua vida. Diferentemente, quando a tarefa de estudo
realizada corresponde a um motivo seu presente na atividade de que ele está
participando, então ele percebe esse estudo como algo que integra a sua vida e
tem nela um sentido, e seu conteúdo passa a ser mais um componente que se
incorpora como parte do conjunto de determinantes interiores que dirigem a
ação do estudante no mundo.
Não basta, então, que a criança observe um fenômeno ou que ela ouça
as explicações do professor para que um conteúdo se torne consciente para
ela; esse conteúdo precisa corresponder a uma necessidade sua e ser objeto das
ações que a criança realiza e que fazem parte da atividade dentro da qual os
objetivos correspondentes a cada uma delas estão ligados ao motivo gerador
dessa atividade. Temos então que “[...] a criança assimila um certo material
sob a forma de atividade de estudo somente quando ela tem uma necessidade
e motivação interior para tal assimilação” (Davídov, 1999, p. 2).
Em síntese, ao interagir com conteúdos culturais e com outros sujei-
tos em seu meio, a criança expõe suas necessidades de conhecimento, traz
elementos de sua história para planejar a atividade, realiza suas tarefas, busca
ajuda do professor e estabelece as bases de um trabalho cooperativo por meio
32
do qual se apropriará de conhecimentos, desenvolverá habilidades e capaci-
dades e avançará em seu processo de desenvolvimento.
A atividade de estudo, sendo a atividade principal das crianças dos anos
iniciais do ensino fundamental, constitui-se como um conteúdo a ser trabalhado
no processo de formação inicial dos professores dessas crianças. Antes, porém, de
focalizarmos a atividade de estudo em seu detalhamento, mostraremos alguns
pressupostos da Teoria histórico-cultural e da Teoria da Atividade que forneceram
os fundamentos para a elaboração da Teoria da Atividade de Estudo.
O primeiro pressuposto é o da condicionalidade histórico-cultural do
desenvolvimento psíquico superior do homem: o meio é fonte de desenvolvi-
mento (Vigotski, 2010), e a ação do homem nesse meio e sobre esse meio, na
interação com outros homens, gera alterações qualitativas em seu psiquismo.
Nesse processo, o homem se constitui como um ser histórico-cultural rom-
pendo com os limites de seu ser biológico.
O segundo pressuposto refere-se ao fato de que, em sua relação com o
meio cultural e com as pessoas de seu convívio, o homem desenvolve condutas
superiores como escrever, pintar, desenhar, calcular, e suas funções psicológicas
superiores específicas, como o raciocínio lógico, a formação de conceitos, a
memória e atenção voluntárias, etc. Todas essas condutas superiores desenvol-
vem-se, primeiro, no plano coletivo, nas relações entre pessoas, e, depois, no
plano individual, como um elemento da subjetividade de cada um.
O terceiro pressuposto refere-se à atividade do sujeito: é por sua pró-
pria atividade que o homem se apropria do conteúdo cultural e desenvolve
essas condutas superiores, e isso acontece de diferentes maneiras nas diversas
fases de seu desenvolvimento; na idade escolar, é pela atividade de estudo
que ocorre o processo de apropriação dos conteúdos culturais e o desenvol-
vimento das capacidades relacionadas ao pensamento teórico – a análise, a
planificação mental e a reflexão.
O quarto pressuposto indica que a adequada organização do proces-
so de ensino-aprendizagem dos estudantes pode gerar o seu desenvolvimen-
to, isto é, pode provocar avanços qualitativos em seu psiquismo (Vigotskii,
1988). No que diz respeito às crianças dos anos iniciais do ensino fundamen-
tal, é uma adequada organização do processo de ensino-aprendizagem, por
meio da atividade de estudo, que gerará tais avanços.
33
Por fim, o quinto pressuposto diz respeito ao sentido que tem para a crian-
ça a atividade que ela realiza, um sentido que vincula os significados sociais “com
a realidade de sua própria vida neste mundo, com seus motivos” (Leontiev, 1978,
p. 120, tradução nossa). O engajamento da criança a uma tarefa de estudo depen-
de de que o seu conteúdo seja objeto de uma ação voltada para um fim e relacio-
nada ao motivo que gerou a atividade, pois é nessa relação entre o fim da ação e o
motivo da atividade que se constitui o sentido que tem, para o sujeito, a atividade
que realiza. Com efeito, “o que define o êxito no processo de resolver a tarefa não
é só o conteúdo objetivo, mas que, em primeiro lugar, depende do motivo que
impulsiona a criança a atuar ou, dito de outro modo, do sentido que tem para
ele essa atividade sua” (Leontiev, 1978, p. 222, tradução nossa). Só assim estão
dadas as condições para a criança se apropriar do objeto de estudo, internalizá-lo
e utilizá-lo em novas tarefas, em novas situações de vida, o que contribui com o
processo de formação de sua personalidade, passando a fazer parte do conjunto
de determinantes interiores que dirigem sua ação no mundo.
Esses são alguns dos pressupostos que forneceram os fundamentos
da proposta da Teoria da Atividade de Estudo por Elkonin (1987, 2019),
Davídov (1988, 1999, 2019), Repkin (2014, 2019) e seus colaboradores. A
partir dessa teoria, é possível pensar a contribuição da atividade de estudo
para a organização e a condução de estudos durante o curso de formação
inicial de professores, preparando esses profissionais para utilizar a atividade
de estudo como um caminho eficaz para a formação das crianças dos anos
iniciais do ensino fundamental.
Inicialmente, veremos como a atividade de estudo foi pensada em
termos de uma estrutura que orienta como devem ser trabalhadas as ações
dentro de uma tarefa de estudo, que é a base da organização da atividade de
estudo e definida por Leontiev (1978) como um dado objetivo a atingir den-
tro de determinadas condições.
Toda tarefa tem um conjunto de ações a serem realizadas dentro de
certas condições, que determinam os modos de realização das ações, ou seja,
suas operações. Todo esse processo depende, para ser assimilado pela criança,
de um longo percurso de estudos que, pela proposta da teoria, seria realizado
do primeiro ao quinto ano do ensino fundamental e aprofundado nos anos
subsequentes do ensino básico.
34
A tarefa de estudo é composta de quatro ações que, juntamente com
duas outras, a ação de controle e avaliação, compõem um grupo de seis ações
- as quatro primeiras estruturando a tarefa de estudo, e as outras duas reali-
zando o controle e a avaliação das ações da tarefa, tendo em vista trabalhar
com as crianças não apenas a assimilação de certos conteúdos, mas também,
e, principalmente, determinadas capacidades que elas desenvolvem com o
estudo desses conteúdos.
O resultado esperado é que haja mudanças qualitativas em seu psiquismo,
tanto no plano da apropriação de conhecimentos, em que elas aprendem modos
e princípios de ação, de forma a assimilar um caminho mais adequado para a
resolução de problemas, quanto no plano do desenvolvimento das neoformações
psíquicas que supõem a atividade das crianças com o conteúdo teórico e científi-
co das tarefas de estudo: a análise, a reflexão e a planificação mental. Em decor-
rência dessas transformações em seu psiquismo, elas ampliam a sua compreensão
do mundo para orientar-se no meio em que vivem, com autonomia, com a capa-
cidade de pensar, de refletir sobre questões que venham a enfrentar e, mais ainda,
com capacidade para resolver essas questões ao longo de sua vida.
A primeira ação consiste na análise do objeto de estudo dado à criança
na sua forma externa, no plano do concreto sensível, pela qual ela separa “o
que, simultaneamente, tem caráter de universalidade, que aparece como base
genética do todo estudado” (Davídov, 1988, p. 147, tradução nossa). Essa é
uma primeira abstração que a criança faz e que “contém somente os traços
e as relações mais importantes do objeto de estudo e forma uma espécie de
estrutura holística em que os detalhes concretos podem então ser integrados
e guardados na memória” (Lompscher, 1999, p. 146, tradução nossa). Esse é
o primeiro movimento de elaboração mental na busca do conhecimento da
organização interna do objeto de estudo, cuja capacidade requerida e que está
em processo de desenvolvimento é a análise.
A segunda ação, realizada a partir dessa primeira abstração, é a elabo-
ração de um modelo gráfico, formulado em termos de esquemas, desenhos,
fórmulas, etc., que revela a organização interna do objeto. Por esses meios, o
sujeito fixa a relação universal encontrada quando da realização da primeira
ação de estudo, mostrando visualmente as unidades que, em seu conjunto,
representam o objeto em estudo, bem como suas conexões e relações.
35
O modelo não é meramente um substituto do objeto concreto; ele é
uma forma de abstração científica de índole especial, na qual as relações
essenciais do objeto [...] estão consolidadas em nexos e relações gráfico-per-
ceptíveis e representáveis de elementos materiais ou sinalizadores” (Davydov,
1981, p. 315, tradução nossa, grifos no original). Ele apresenta “uma original
unidade do singular e do geral, em que se adiantam em primeiro plano, os
momentos de caráter geral e essencial”. (Davydov, 1981, p. 315, tradução
nossa, grifos no original). Umas das capacidades mobilizadas nesse momento
é a planificação mental, capacidade para projetar ideias e lidar com ações no
plano mental.
A terceira ação da tarefa de estudo é a transformação desse modelo, pela
qual a criança pode estudar as propriedades da relação universal encontrada
na primeira ação de estudo. No caso de uma tarefa de língua portuguesa, por
exemplo, quando a criança está aprendendo a contar uma história e construiu
um modelo esquemático que representa a organização interna desse gênero,
uma forma de transformar esse modelo é encontrar, em uma dada história,
da qual foi retirada uma parte essencial para o seu entendimento, qual pode-
ria ser o conteúdo dessa parte para o restabelecimento da coerência entre os
fatos, restaurando, assim, as propriedades do modelo e tornando conscientes
suas propriedades e relações internas.
Nesse processo de transformação do modelo, a criança realiza atos de
análise e de síntese, que culminam na compreensão do objeto em sua totali-
dade. Ao final dessa ação, a criança chega ao conceito que representa a síntese
- possível até aquele momento – daquelas qualidades do objeto que estão na
base de sua compreensão como uma totalidade, agora compreendido em sua
essência e que vai ser utilizado para a realização das tarefas particulares que
constituem a quarta ação de estudo.
Por meio da realização da quarta ação de estudo, as crianças “concre-
tizam a tarefa de estudo inicial e a convertem na diversidade de tarefas par-
ticulares que podem ser resolvidas por um procedimento único (geral), assi-
milado durante a realização das anteriores ações de estudo” (Davídov, 1988,
p. 183, tradução nossa). Em outros termos, elas utilizam a propriedade geral
encontrada no objeto de estudo após a realização das três primeiras ações, aos
vários casos particulares em que essa propriedade se aplica.
36
A planificação mental é uma das funções aqui requeridas. No caso do
exemplo citado acima, da escrita de um enunciado narrativo história de fic-
ção, a criança poderia planejar a escrita de novos enunciados, como uma his-
tória de aventura, de ficção científica, de assombração, etc., que demandam
a compreensão do aluno de como se organiza, internamente, esse gênero de
narrativa. Nesse movimento de sua atividade, a criança constrói um modo
peculiar de resolução da tarefa de estudo que implica a assimilação de um
princípio de ação que a oriente na resolução de novas tarefas de estudo.
A quinta ação de estudo é o controle que, como o nome indica, desti-
na-se a manter a coerência operacional das ações, de modo a garantir a inte-
gridade do sistema de ações no interior da atividade de estudo. Por meio do
controle, a criança aprende a conduzir suas ações dentro da tarefa, para que
todas as ações que a compõem sejam realizadas com sucesso e ela possa chegar
à compreensão do conceito ao final da atividade.
Essa forma de agir está dirigida, preponderantemente, pela capacidade
de reflexão acerca do modo de realização da tarefa, conforme o objetivo a que
se pretende chegar. Toda a trajetória concretizada pela criança no decorrer da
tarefa pode ser controlada de maneira que consiga, ao final de todo o percur-
so de formação da atividade de estudo, desenvolver uma conduta autônoma
para a resolução de tarefas, sem depender da orientação do professor. A ati-
vidade de estudo
[...] desenvolve nos pequenos escolares a capacidade de reflexão permitin-
do que separem claramente o conhecido do desconhecido e, formando
hipóteses sobre o desconhecido, busquem os motivos de suas próprias
ações e as ações de seus parceiros na solução conjunta de novas tarefas
(esse parceiro pode ser um par ou um professor). A capacidade de fazer
perguntas, solicitar informações ausentes, criticar suas próprias ações e
opiniões, bem com as dos outros, deixar a tendência de discutir soluções
para qualquer problema – estas são manifestações comportamentais do
desenvolvimento da reflexão nos escolares de menor idade (Zuckerman,
2015, p. 71-72, tradução nossa).
Isso faz do controle uma ação que contribui grandemente para o pro-
cesso de formação da atividade de estudo nas crianças dos anos iniciais do en-
sino fundamental, como uma atividade que, em sua forma mais desenvolvida,
37
oportuniza a elas tornarem-se autônomas não só para solucionar problemas
que fazem parte de sua formação escolar, mas também aqueles que vão en-
frentar fora da escola.
A última ação de estudo é a ação de avaliação, entendida como um
exame qualitativo do resultado da assimilação do procedimento geral da ação
e também do conceito conforme foi compreendido, até o momento, pela
criança. Essa ação é realizada com o objetivo de “determinar se está assimi-
lado (e em que medida) ou não o procedimento geral de solução da tarefa
de estudo dada, se o resultado das ações de estudo corresponde (e em que
medida) ou não a seu objetivo final” (Davídov, 1988, p. 184, tradução nos-
sa). Permite, então, evidenciar se o aluno está ou não preparado para passar à
resolução de uma nova tarefa de estudo que exija novo procedimento geral de
ação. A avaliação supõe as capacidades de análise e reflexão.
Todas essas capacidades desenvolvidas durante o processo de formação
da atividade de estudo nas crianças extrapolam a aprendizagem escolar dos
diversos componentes curriculares; elas vão para a vida, para a condução de
tarefas que exijam analisar fatos, situações, planejar ações, refletir sobre o
modo de atuação dos sujeitos em seu meio.
O movimento da atividade de estudo se faz desde que a criança se encontra
diante do objeto como um dado sensível, tal como ele se apresenta aos sentidos,
realiza sobre ele as ações de estudo e chega, ao final, ao concreto pensado, que é
uma síntese das determinações do objeto, que permite enxergar, em suas relações
internas, o objeto na sua totalidade, como uma unidade de significação.
De início, logo na primeira ação de estudo, há o processo de redução
do material sensível, do concreto aparente, a uma abstração, que é trabalhada
durante as ações de estudo subsequentes, conforme nós vimos anteriormen-
te, em um processo de ascensão até o concreto pensado, que é a síntese das
determinações do objeto, visto, nesse momento, em sua essência, em sua
real existência. Isso dá a possibilidade de compreensão mais complexa e mais
aprofundada de todo o objeto, seja ele um objeto de estudo de uma criança
nos anos iniciais do ensino fundamental, seja ele um objeto de uma disciplina
do curso superior de formação dos formadores.
Em outros termos, o objeto de estudo, dado em sua aparência externa,
tal como se apresenta aos sentidos, é reduzido, pela primeira ação de estudo, a
38
uma formulação mental resultante de uma abstração possibilitada pela análi-
se dos dados do objeto e que revela uma unidade essencial de sua organização.
Na sequência, a partir dessa abstração, é feita a modelação gráfica do objeto,
para fixar essa unidade em uma representação visual; a transformação do mo-
delo para estudar as propriedades do objeto nele projetadas para, finalmente,
o sujeito aprendiz chegar à compreensão do objeto em sua essência.
Do concreto sensível ao concreto pensado, esse é o movimento da ativi-
dade de estudo que propicia à criança o desenvolvimento de princípios de ação
que a conduzam à capacidade de autonomia na realização da atividade, e não
apenas o domínio de conceitos formais, despregados de sua realidade, e memo-
rizados para posterior rememoração e avaliação. Afinal, “Uma verdade cientí-
fica estabelecida em termos verbais e divorciada da rota pela qual foi adquirida
transforma-se em uma casca verbal, mesmo que retenha todos os sinais exter-
nos da ‘verdade’” (Ilyenkov, 2007, p. 21, tradução nossa, destaque no original).
São essas ações que dão à atividade de estudo a possibilidade de ser uma
ferramenta que pode ser utilizada desde os anos iniciais do ensino fundamen-
tal até a universidade para a aprendizagem dos conteúdos teóricos. Nessa
trajetória, são desenvolvidas as capacidades ligadas ao pensamento teórico:
análise, reflexão e planificação mental, que são as três principais formações
psicológicas superiores desenvolvidas durante o processo de formação da ati-
vidade de estudo nas crianças em idade escolar.
O conteúdo necessário a esse processo de formação do pensamento
teórico e das funções superiores ligadas a ele é o conhecimento teórico e cien-
tífico. Ao lidar, em sua atividade de estudo, com esse tipo de conhecimento,
a criança supera os limites do conhecimento empírico adquirido nas etapas
anteriores de seu desenvolvimento e se apropria dos conceitos teóricos, que
expressam a síntese de todas as propriedades dos objetos de estudo em suas
relações internas, a compreensão dos objetos em sua totalidade, em sua real
condição de existência, em sua essência e não apenas em sua exterioridade, tal
como se apresentam aos seus sentidos.
Palavra finais com o desejo de continuar a conversa
A atividade de estudo, do nosso ponto de vista, constitui um conteúdo
a ser explorado no processo de formação do professor da educação básica
39
que atua nos anos inicias do ensino fundamental, porque fornece a ele as
ferramentas necessárias à realização de um processo de ensino-aprendizagem
que propicia à criança as condições favoráveis à aprendizagem de conceitos
teóricos e ao desenvolvimento das funções psicológicas superiores relaciona-
das ao pensamento teórico, por meio de ações de estudo de conteúdo teórico
e científico.
Observamos, entretanto, que, ao longo do processo de formação da
criança, a atividade de estudo possibilita não apenas o desenvolvimento de con-
ceitos, mas também a aprendizagem de princípios de ação, um caminho para a
solução de problemas. Afinal, “‘O resultado nu sem o caminho que leva a ele é
um cadáver’, ossos mortos, o esqueleto da verdade [...]” (Hegel apud Ilyenkov,
2007, p. 21, tradução nossa, destaque no original). Esse processo capacita a
criança a buscar, por conta própria, ao longo da trajetória de formação da ati-
vidade de estudo, respostas a questões e solução para problemas, tanto relativos
às tarefas escolares, como aquelas que terá de resolver fora da escola,
De todo esse processo, resulta o desenvolvimento de sujeitos autônomos
e responsáveis por sua própria atividade, com capacidade para estabelecer
objetivos e realizar a seleção de conteúdo, planejar a tarefa de estudo, fazer
o controle de suas ações e a avaliação dos resultados de sua atividade. Além
disso, desenvolve o pensamento teórico ao lidar com o conhecimento
teórico-científico, por meio de ações que consideram esse conhecimento
como parte de sua vida e não como um conteúdo formal externo a ela,
dado que “no estudo, para não assimilar formalmente o material, requer-
-se não “cumprir” com o estudo, mas vivê-lo; é necessário que o estudo
faça parte da vida, que tenha para o aluno um sentido vital” (Leontiev,
1978, p. 233, tradução nossa, grifos no original).
Um trabalho pedagógico assim concebido considera, como uma de
suas metas, proporcionar à criança aquisição de conhecimentos teórico-cien-
tíficos, desenvolver as capacidades relacionadas ao pensamento teórico – aná-
lise, reflexão e planificação mental , objetivando, porém, em última instância,
provocar transformações substanciais no psiquismo das crianças. Como argu-
menta Repkin (2014, p. 88), “a atividade de estudo deve ser entendida como
atividade para a autotransformação do sujeito”.
40
Referências
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do próximo decênio. 2024. Disponível em: <https://www.cnte.org.br/
index.php/menu/comunicacao/posts/noticias/77079-conae-2024-aprova-
texto-que-guiara-construcao-de-novo-pne-luta-continuara-com-tramitacao-
no-congresso-nacional> Acesso em 28 fev. 2024.
DAVIDOV, Vasili Vasileivich. La enseñanza escolar y el desarrollo
psíquico: investigación psicológica, teórica e experimental. Moscu:
Editorial Progreso, 1988.
DAVÍDOV, Vasili Vasileivich. O que é Atividade de estudo. Revista Escola
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DAVÍDOV, Vasili Vasilievich. O conceito de atividade de estudo dos
estudantes. In: PUENTES, Roberto Valdés; CARDOSO, Cecília Garcia
Coelho; AMORIM, Paula Alves Prudente (org.). Teoria da atividade de
estudo contribuições de Daniil Borosovich Elkonin, Vasili Vasilievich
Davídov e Vladimir Vladimirovich Repkin. Paraná: CRV, 2019. p.
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DAVYDOV, Vasily Vasilyevich. Tipos de generalización en la enseñanza.
Habana: Editorial Pueblo y Educación, 1981.
ELKONIN, Daniil Borosovich. Sobre el problema de la periodización del
desarrollo psíquico en la infancia. In: La psicología evolutiva y pedagógica
en la URSS. Antología. Moscú: Editorial Progreso, 1987. p. 104-124.
ELKONIN, Daniil Borisovich. Estrutura da atividade de estudo. In:
PUENTES, Roberto Valdés; CARDOSO, Cecília Garcia Coelho;
AMORIM, Paula Alves Prudente (org.). Teoria da atividade de estudo
contribuições de Daniil Borosovich Elkonin, Vasili Vasilievich Davídov
e Vladimir Vladimirovich Repkin. Paraná: CRV, 2019. p. 149-158.
FREITAS, Helena Costa Lopes de. BNC da formação: desafios atuais
frente à precarização da formação de profissionais da educação básica. In:
MENDONÇA, Sueli Guadelupe de Lima et al. (De)formação na escola:
desvios e desafios. Marília: Oficina Universitária; São Paulo: Cultura
Acadêmica, 2020. p. 95-112.
ILYENKOV, Evald Vasilievich Nossas escolas devem ensinar a pensar!
Journal of Russian and East European Psychology, vol. 45, no. 4, July–August
2007, p. 9 – 49.
41
LEONTIEV, Alexis Nikolaevich. Actividad, conciencia y personalidad.
Buenos Aires: Ediciones Ciencias del Hombre, 1978.
LEONTIEV, Alexis Nikolaevich. Uma contribuição à teoria do
desenvolvimento da psique infantil. In: VIGOTSKII, Lev Semenovich;
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Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. 4. ed. Tradução Maria da
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LIBÂNEO, José Carlos. A desfiguração da escola e a imaginação da escola
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Formação na Escola: desvios e desafios. Marília: Oficina Universitária,
2020. p. 33-50.
LOMPSCHER, Joachim.; HEDEGAARD, Mariane. Introduction. In:
LOMPSCHER, Joachim; HEDEGAARD, Mariane (ed.). Learning
activity and development. Oxford: Aarhus University, 1999. p. 10-21.
REPKIN, Vladimir Vladmirovski. Ensino desenvolvente e atividade de
estudo. Ensino em re-vista, Uberlândia, v.21, n.1, p. 85-99, jan./jun.
2014.
REPKIN, Vladimir Vladmirovski. Atividade desenvolvimental e atividade de
estudo. In: PUENTES, Roberto Valdés; CARDOSO, Cecília Garcia Coelho;
AMORIM, Paula Alves Prudente (org.). Teoria da atividade de estudo
contribuições de Daniil Borosovich Elkonin, Vasili Vasilievich Davídov e
Vladimir Vladimirovich Repkin. Paraná: CRV, 2019. p. 365-406.
VIGOTSKI, Lev Semionovitch. Quarta aula: a questão do meio na
pedologia. Psicologia. USP [online]. 2010, vol.21, n.4, p. 681-701.
VIGOTSKII, Lev Semionovitch. Aprendizagem e desenvolvimento
intelectual na idade escolar. In: VIGOTSKII, Lev Semionovitch; LURIA,
Alexander Romanovich; LEONTIEV, Alexis Nikolaevich. Linguagem,
desenvolvimento e aprendizagem. 4.ed. Tradução Maria da Penha
Villalobos. São Paulo: Ícone: Universidade de São Paulo, 1988. p. 103-118.
VIGOTSKY, Lev Semionovitch. A formação social da mente: o
desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. São Paulo: Martins
Fontes, 1984.
VIGOTSKY, Lev Semionovitch. Pensamento e linguagem. São Paulo:
Martins Fontes, 1996.
ZUCKERMAN, Galina Anatolievna. O desenvolvimento da reflexão
através da aprendizagem. Journal of Russian & East European
Psychology, vol. 52, no. 3, 2015, p. 36–73.
43
CAPÍTULO 2
Produção Bibliográfica Brasileira
Sobre Formação Inicial de Professoras
e Professores Para a Educação Infantil
em Curso de Pedagogia (2006-2019)
Monalisa Gazoli
Com objetivo de contribuir para pesquisas futuras, apresento, a seguir, pro-
dução bibliográfica brasileira sobre formação inicial de professoras e professores
para a Educação Infantil em curso de Pedagogia publicada entre 2006 – ano de
publicação das Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Graduação
em Pedagogia, licenciatura (Brasil, 2006) – e 2019 – ano de homologação das
Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação Inicial de Professores
para a Educação Básica e a Base Nacional Comum para a Formação Inicial
de Professores da Educação Básica (BNC-Formação) (Brasil, 2019).
Este instrumento de pesquisa1 decorre de etapas de localização, sele-
ção e análise de fontes bibliográficas referente ao desenvolvimento da pes-
quisa de doutorado que resultou na tese intitulada A formação inicial de
professoras e professores para a educação infantil e as contribuições da
Teoria Histórico-Cultural e da Atividade de Estudo (Gazoli, 2023). A
mencionada pesquisa foi desenvolvida junto ao Programa de Pós-Graduação
1 Parte do formato deste instrumento decorre de aprendizagens ocorridas durante pesquisas em nível
de iniciação científica (em 2007, como graduanda do curso de Pedagogia) e mestrado (em Educação,
entre 2008 e 2010), desenvolvidas junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Unesp-
Marília, SP e sob orientação da Prof.a Dr.a Maria do Rosário Longo Mortatti. Dessas aprendizagens
resultaram, dentre outros, o texto intitulado: “Bibliografia de e sobre Antonio Firmino de Proença:
um instrumento de pesquisa” (Gazoli, 2010).
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-558-2.p43-59
44
em Educação, da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”,
campus de Marília, SP (Unesp-Marília, SP), sob orientação da Prof.a Dr.a
Elieuza Aparecida de Lima e vinculada ao “Grupo de Estudos e Pesquisa so-
bre Especificidades da Docência na Educação Infantil” (Gepedei).
A expressão “instrumento de pesquisa” é tomada de empréstimo da área
de arquivologia, segundo a qual é compreendida como ferramenta utilizada:
[...] para descrever um arquivo, ou parte dele, tendo a função de orientar a con-
sulta e de determinar com exatidão quais são e onde estão os documentos. [...]
Os instrumentos de pesquisa referem-se ao acesso e ao controle de um
acervo, geralmente permanente, e com pelo menos uma identificação
ou organização mínima. Têm como função principal disponibilizar do-
cumentos para consulta. Apresentam-se na forma de guias, inventários,
catálogos e índices [...]. (Lopes, 2002, p. 13-14).
Cabe destacar que este instrumento de pesquisa difere um pouco da
definição apresentada acima, pois o objetivo que moveu sua elaboração não
foi “descrever um arquivo”, tampouco acesso e controle de um acervo. O
objetivo, como indicado inicialmente, foi organizar o conjunto de referências
localizadas durante a fase de pesquisa bibliográfica sobre o tema indicado.
Assim, para a elaboração das referências dos documentos localizados, consul-
tei a Norma Brasileira de Referências (NBR 6023), da Associação Brasileira
de Normas Técnicas (2018).
Para localização das referências organizadas no documento, con-
sultei bases de dados on line e livros decorrentes de pesquisas do tipo
estado do conhecimento” ou “estado da arte” (Ferreira, 2002). Dentre
as bases de dados consultadas, destaco aquelas nas quais mais resultados
foram obtidos: o portal de periódicos e a base de teses da Coordenação
de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e o Catálogo
Athenas – Unesp. Além dessas bases de dados, quantidade significativa
de referências foram localizadas em textos científicos e no acervo pessoal
desta pesquisadora.
Em relação aos livros decorrentes de pesquisa do tipo “estado do conheci-
mento” localizei informações relevantes no intitulado Formação de profissionais
da educação (2003-2010), coordenado e organizado por Brzezinski (2014).
45
Apresento no Quadro 1, fonte de pesquisa e quantidade de textos lo-
calizados e no Quadro 2, apresento quantidade de textos localizados por ca-
tegoria de análise.
Quadro 1: Local e quantidade de referências localizadas
Fonte de pesquisa Quantidade de
textos localizados
Acervo da autora 22
Catálogo de teses e dissertações da Capes/MEC 6
Catálogo Athenas – Unesp 2
Portal de Periódicos da Capes/MEC 6
Texto científico 15
Total 51
Fonte: Elaborado pela autora
Quadro 2: Quantidade de texto por categoria de análise
Categoria Quantidade
Livro 2
Capítulo de livro 3
Tese 5
Dissertação 20
Artigo científico 21
Total 51
Fonte: Elaborado pela autora
Explicito, a seguir, a produção bibliográfica brasileira sobre forma-
ção inicial de professoras e professores para a Educação Infantil em curso
de Pedagogia, publicada entre 2006 e 2019. Para facilitar a localização
dos textos, acrescentei, à frente de cada uma das referências, entre parên-
teses, indicação da base de dados ou do texto onde foi localizado, ou seja,
a fonte de pesquisa. Nos casos em que o texto referenciado é citado em
mais de um documento, optei por indicar apenas uma fonte para evitar
excesso de informações.
46
Referências2
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6023:
Informação e documentação – Referências – Elaboração. Rio de Janeiro,
RJ: [s/l], 2018.
BRASIL. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação.
Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação Inicial de
Professores para a Educação Básica e institui a Base Nacional Comum
para a Formação Inicial de Professores da Educação Básica (BNC-
Formação) (Resolução CNE no. 02, de 20 de dezembro de 2019). Brasília,
DF: Diário Oficial da União, Seção 1, p. 46-49, 2019.
BRASIL. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação.
Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Graduação em
Pedagogia, licenciatura (Resolução CNE/CP no. 01, de 15 de maio de
2006). Brasília, DF: Diário Oficial da União, Seção 1, p. 11-12, 2006.
BRZEZINSKI, Iria (coord. e org.). Formação de profissionais da
educação (2003-2010). Brasília, DF: Instituto Nacional de Estudos e
Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, 2014.
FERREIRA, Norma Sandra de Almeida. As pesquisas denominadas
estado da arte”. Educação & Sociedade, Campinas, SP, ano XXIII, n.
79, p. 257-272, ago. 2002. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/es/
v23n79/10857.pdf. Acesso em: 19 dez. 2018.
GAZOLI, Monalisa. A formação inicial de professoras e professores para
a Educação Infantil e as contribuições da Teoria Histórico-Cultural e da
Atividade de Estudo. 2023. Tese (Doutorado em Educação) – Programa
de Pós-Graduação em Educação, Universidade Estadual Paulista (Unesp),
Marília, 2023.
GAZOLI, Monalisa. “Bibliografia de e sobre Antonio Firmino de Proença:
um instrumento de pesquisa”. In.: RAZZINI, Marcia de Paula Gregório
(org.). Antonio Firmino de Proença: professor, formador, autor. São
Paulo: Porto de Idéias, 2010. p. 223-248.
LOPES, André Porto Ancona. Como descrever documento de arquivo:
elaboração de instrumento de pesquisa. São Paulo: Arquivo do Estado de
São Paulo; Imprensa Oficial do Estado, 2002.
2 Trata-se das referências dos textos citados nesta apresentação.
47
Produção bibliográfica brasileira sobre formação inicial de professoras
e professores para a Educação Infantil em curso de Pedagogia
(2006-2019)
Categoria: LIVRO
Ano de
publicação Referência
2009
GOMES, Marineide de Oliveira. Formação de
professores na educação infantil. São Paulo, SP:
Cortez, 2009. (Fonte: acervo da autora)
2013
AZEVEDO, Heloisa Helena Oliveira de. Educação Infantil e
formação de professores: para além da separação cuidar-educar.
São Paulo, SP: Editora Unesp, 2013. (Fonte: acervo da autora)
Categoria: CAPÍTULO DE LIVRO
Ano de
publicação Referência
2009
KISHIMOTO, Tizuko Morchida. Formação do professor de educação
infantil no curso de Pedagogia. In: PINHO, Sheila Zambello de (org.).
Formação de educadores: o papel do educador e sua formação. São
Paulo, SP: Editora Unesp, 2009, p. 43-56. (Fonte: acervo da autora)
RAUPP, Marilene Dandolini; ARCE, Alessandra. A
Formação de Professores de Educação Infantil: algumas
questões para se pensar a profissional que atuará com
crianças de 0 a 3 anos. In: ARCE, Alessandra;
MARTINS, Lígia Márcia (org.). Ensinando aos Pequenos de
zero a três anos. 2. ed. Campinas, SP: Editora Alínea, 2009.
p. 51-91. (Fonte: texto científico – MASSUCATO, 2012)
2018
GOMES, Marineide de Oliveira. Formação de professores de educação
infantil em cursos de Pedagogia: reflexões e indagações. In: ______
(org.). Formação de professores na Educação Infantil: conquistas
e realidades. Santos, SP: Editora Universitária Leopoldianum, 2018,
p.13-28. Disponível em: https://www.unisantos.br/wp-content/
uploads/2018/08/forma%C3%A7%C3%A3o-professores-
marineide-1.pdf. Acesso em: 23 fev. 2020. (Fonte: acervo da autora)
48
Categoria: TESE
Ano de
publicação Referência
2011
ALMADA, Francisco de Assis Carvalho de. A formação do professor
de Educação Infantil no curso de Pedagogia de um centro
universitário: uma análise a partir da teoria histórico-cultural. 2011.
Tese (Doutorado em Educação) – Programa de Pós-Graduação
em Educação, Universidade Estadual Paulista, Marília-SP, 2011.
Disponível em: https://repositorio.unesp.br/handle/11449/104797.
Acesso em: 06 mar. 2020. (Fonte: Catálogo Athenas – Unesp)
2013
ALBUQUERQUE, Moema Helena de. Formação docente
para educação infantil no Brasil: configurações curriculares
nos cursos de Pedagogia. 2013. Tese (Doutorado em
Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação,
Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis-SC,
2013. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/bitstream/
handle/123456789/107236/319867.pdf?sequence=1&isAllowed=y.
Acesso em: 10 jul. 2020. (Fonte: acervo da autora)
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DRUMOND, Viviane. Formação de professores e professoras de
educação infantil no curso de Pedagogia: estágio e pesquisa. 2014.
Tese (Doutorado em Educação) – Programa de Pós-graduação
em Educação, Faculdade de Educação, Universidade Estadual de
Campinas, Campinas-SP, 2014. Disponível em: http://repositorio.
unicamp.br/bitstream/REPOSIP/253908/1/Drumond_Viviane_D.
pdf. Acesso em: 10 jul. 2020. (Fonte: acervo da autora)
MELO, Jacicleide Ferreira Targino da Cruz. O estágio supervisionado
como contexto de formação docente específica para educação
infantil: o que dizem os formandos sobre suas aprendizagens? 2014.
317 f. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade Federal do
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Categoria: DISSERTAÇÃO
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50
Categoria: DISSERTAÇÃO
Ano de
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2010
FEBRONIO, Maria da Paixão Gois. Formação inicial de
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a-habilitacao-em-educacao-infantil.pdf. Acesso em: 30 set. 2020.
(Fonte: texto científico – OLIVEIRA; SILVA; GUIMARÃES, 2015)
3 Dissertação publicada, em 2014, no formato de livro. Referência: FEBRONIO, Maria da Paixão
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51
Categoria: DISSERTAÇÃO
Ano de
publicação Referência
2011
PRADO, Alessandra Elizabeth Ferreira Gonçalves. Representações
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Categoria: DISSERTAÇÃO
Ano de
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Categoria: DISSERTAÇÃO
Ano de
publicação Referência
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LIZARDO, Lilian de Assis Monteiro. Cursos de Pedagogia e a
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2018
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Categoria: ARTIGO CIENTÍFICO
Ano de
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Categoria: ARTIGO CIENTÍFICO
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Categoria: ARTIGO CIENTÍFICO
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2016
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Acesso em: 23 fev. 2020. (Fonte: acervo da autora)
OLIVEIRA, Fabiana de; ANDRADE, Giovana Gomes de.
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(Fonte: texto científico – CÔCO; VIEIRA; GIESEN, 2019)
4 Esse mesmo texto foi publicado em outro periódico, cuja referência é: NASCIMENTO, Leandra
Fernandes do; CAVALCANTE, Maria Marina Dias. Formação docente para a educação infantil:
uma leitura do curso de pedagogia pós diretrizes curriculares. Revista Brasileira de Pesquisa sobre
formação Docente, Belo Horizonte-MG, v. 09, n. 17, p. 107-124, ago./dez. 2017. Disponível em
57
Categoria: ARTIGO CIENTÍFICO
Ano de
publicação Referência
2018
CÔCO, Valdete; VIEIRA, Maria Nilceia de Andrade; GIESEN,
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– Educação e Contemporaneidade, v. 27, n. 51, p. 69-84,
jan./abr. 2018. Disponível em: https://www.revistas.uneb.br/
index.php/faeeba/article/view/4967. Acesso em 10 jul. 2020.
(Fonte: texto científico – CÔCO; VIEIRA; GIESEN, 2019)
DRUMOND, Viviane. Formação de professoras e professores
de Educação Infantil: por uma pedagogia da infância.
Revista zero-a-seis. v. 20, n. 38 p. 288-302, jul./dez. 2018.
Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/zeroseis/
article/view/1980-4512.2018v20n38p288. Acesso em: 23
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PINHEIRO, Maria Nerice dos Santos; RODRIGUES, Talita
Almeida; MARANHÃO, Ana Larisse do Nascimento; FIALHO,
Lia Machado Fiuza. Formação de professores para a Educação
Infantil e séries iniciais do Ensino Fundamental: reflexões sobre a
polivalência. Revista Internacional de Formação de Professores,
Itapetininga-SP, v. 3, n. 2, p. 401-416, abr./jun., 2018. Disponível
em: https://periodicos.itp.ifsp.edu.br/index.php/RIFP/article/
view/1274/959. Acesso em: 04 mar. 2020. (Fonte: acervo da autora)
VARGAS, Gardia; GOBBATO, Carolina; BARBOSA, Maria
Carmen Silveira. Das singularidades da docência com crianças
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www.periodicos.ufes.br/educacao/article/view/21328/14199.
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CÔCO, Valdete; VIEIRA, Maria Nilceia de Andrade; GIESEN,
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Disponível em: https://periodicos.furg.br/momento/article/
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https://siaiap32.univali.br/seer/index.php/rc/article/view/9532. Acesso em: 23 fev. 2020. (Fonte:
texto científico – CÔCO; VIEIRA; GIESEN, 2019).
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de Fátima. Docência na Educação Infantil: desafios e perspectivas da
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MASSUCATO, Jaqueline Cristina. Professora, educadora ou babá?:
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2012. Dissertação (Mestrado em Educação) – Pontifícia Universidade
Católica de Campinas, Programa de Pós-Graduação em Educação,
Campinas-SP, 2012. Disponível em: http://tede.bibliotecadigital.puc-
campinas.edu.br:8080/jspui/bitstream/tede/694/1/JAQUELINE%20
CRISTINA%20MASSUCATO.pdf. Acesso em: 24 fev. 2020. (Fonte:
Catálogo de teses e dissertações da Capes/MEC)
OLIVEIRA, Daniele Ramos de; SILVA, Rosângela Aparecida Galdi da;
GUIMARÃES, Célia Maria. Formação do professor de educação infantil
no curso de pedagogia: reflexões a partir da análise das produções científicas
(2002-2013). Revista Ibero-Americana de Estudos em Educação, v.10,
n.1, jan./mar. 2015. Disponível em: https://periodicos.fclar.unesp.br/
iberoamericana/article/view/7133/5355.Acesso em: 04 ago. 2020.
5 Trata-se das referências dos textos indicados como “fonte” de pesquisa.
59
PIRES, Juliana Gabricho Capella. As representações sociais de
acadêmicos de curso de Pedagogia sobre a prática pedagógica na
Educação Infantil. 2017. Dissertação (Mestrado em Educação) –
Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Estadual de
Maringá, Maringá-PR, 2017. Disponível em: http://www.ppe.uem.br/
dissertacoes/2017/2017%20-%20Juliana%20Gabricho%20Capella%20
Pires.pdf. Acesso em: 05 mar. 2020.
SCARLASSARA, Bárbara Solana. Percepções de graduandos de
pedagogia sobre as atividades de vida diária na creche. 2019. Dissertação
(Mestrado em Educação Escolar) – Universidade Estadual Paulista “Júlio
de Mesquita Filho”, Faculdade de Ciências e Letras, Araraquara-SP, 2019.
Disponível em: https://repositorio.unesp.br/handle/11449/181867. Acesso
em: 06 mar. 2020. (Fonte: Catálogo Athenas – Unesp)
SILVA, Rosangela Aparecida Galdi da. O desenvolvimento da
profissionalidade docente dos professores de educação infantil no curso
de Pedagogia com o apoio de projetos de formação e de supervisão.
2018. Tese (Doutorado em Educação) – Programa de Pós-graduação em
Educação da Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Estadual
Paulista, Presidente Prudente-SP, 2018. Disponível em: https://repositorio.
unesp.br/handle/11449/153934. Acesso em: 05 mar. 2020.
VARGAS, Gardia; GOBBATO, Carolina; BARBOSA, Maria Carmen
Silveira. Das singularidades da docência com crianças de 0 a 3 anos às
especificidades dos saberes docentes na formação inicial. Cadernos de
Pesquisa em Educação – PPGE/UFES. v. 20, n. 47, p. 46-67, jan./jul.
2018. Disponível em: http://www.periodicos.ufes.br/educacao/article/
view/21328/14199. Acesso em: 10 jul. 2020.
61
CAPÍTULO 3
Formação Continuada do Professor Para a
Educação Infantil e a Teoria Histórico-Cultural
Suely Amaral Mello
Entendo que discutir essa temática é especialmente relevante hoje frente
a duas situações que vivemos: a urgência de uma educação de qualidade, que
abra portas para o sonho de muitos de nós, expresso pela fala de Darcy Ribeiro
quando sonhava criar uma nação de muitas humanidades no que ele dizia ser
a província mais bonita da terra. Por outro lado, é urgente fazer frente a uma
formação inicial aligeirada de todos nós, professores e professoras, e não só para
a educação infantil. Para isso, desafiamo-nos a construir uma educação conti-
nuada capaz de mobilizar professoras e professores para a necessária atualização
docente – condição para a sonhada qualidade na educação.
Para essa discussão – e, assessorando hoje a Rede Municipal de Educação
Infantil da Cidade de São Paulo, que suspeito ser a maior rede de educação
infantil do mundo –, confesso que trago mais inquietações do que respostas.
Porém, quero compartilhá-las com você, leitor e leitora. E para fazermos essa
reflexão em conjunto, trago primeiro alguns pressupostos e algumas diretrizes
da Teoria Histórico-Cultural para identificar nosso papel como professora ou
professor no processo de desenvolvimento humano na infância. Em seguida,
busco traçar, rapidamente e à luz da Teoria Histórico-Cultural, um quadro
da nossa formação inicial como professores e professoras atuando com as
nossas faltas devidas a uma intenção do Estado brasileiro de esvaziamento
da profissão docente. Finalmente, quero refletir um pouco, mais que sobre
formação continuada, sobre a formação em serviço – que é um momento
fundamental também da formação do profissional da educação e que se dá
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-558-2.p61-77
62
nos momentos de estudo, de atuação da coordenadora ou do coordenador
pedagógico quando acompanha nosso trabalho como uma parceira ou par-
ceiro mais experiente.
Hoje percebemos que a formação inicial é apenas o início de um pro-
cesso de aprendizagem do ser professor, não só porque temos uma quanti-
dade de conhecimentos sendo produzidos todos os dias pelas pesquisas que
contemplam a educação da infância, mas também porque essa é uma ciência
nova e temos ainda um longo caminho a seguir. De fato, a educação continua-
da e em serviço não vai acabar nunca: vamos sempre aprender, seja com nossa
própria prática, seja com a prática do outro. Assim, a formação é processo
que se autoalimenta: aprendemos com o outro, objetivamos o que aprende-
mos em nossa prática, aprendemos com nossa prática e nos objetivamos em
prática de melhor qualidade, e trocamos com o outro o que apreendemos e,
ao trocar com o outro, revisitamos e melhor compreendemos nossas práticas.
Então, começando pelo primeiro ponto, considerando que a criança
aprende e se desenvolve não por meio da atividade do outro, mas por meio
da sua própria atividade: pelo modo como vive, o que vive, o que faz, o que
ela projeta, o que ela idealiza e realiza, o que pensa, pelas iniciativas que
toma, pelo que avalia enquanto age, em outras palavras, sendo um sujeito
que explora, que experimenta, que tateia e, como ouvi de uma professora
portuguesa, “não fazendo trabalhinhos, mas fazendo coisas”. Considerando
essa condição do processo de aprender da criança e a consequente formação
das funções psíquicas superiores que constituem a inteligência e a persona-
lidade humana, entendo que nosso papel como professora ou professor não
é decidir por nós mesmos o que a criança precisa, não é resolver ou pensar
por ela, nem mandar fazer o que achamos adequado que as crianças façam.
Nosso papel é organizar situações - ambientes investigativos - para que a
criança possa ser sujeito dos seus tateios, da sua vontade, uma vez que a
criança aprende quando está integralmente envolvida na ação: com o corpo,
a mente e as emoções, e isso acontece quando ela escolhe, decide ou participa
da decisão sobre o que fazer, como fazer, com quem fazer.
Sendo assim, o grande desafio que se coloca para as crianças desde o
nascimento é aprender os modos de viver, de conviver com as pessoas, os
modos de uso dos objetos - do lápis ao computador, da colher às obras de
63
arte -, entender as relações, os costumes, a língua que as pessoas falam ao seu
redor, a maneira de ser e de se relacionar, tudo o que os seres humanos vieram
inventando ao longo da história: a cultura. E nesse processo, lembremos to-
dos, a criança vai se apropriando das qualidades humanas que, vale destacar,
já sabemos que não são herdadas geneticamente, mas aprendidas na vida. A
criança nasce e, aos poucos, vai se deparando com a cultura que a rodeia e
aprendendo a usá-la e, com isso, vai reproduzindo para si as qualidades hu-
manas. Então nosso papel como professora e professor é justamente organizar
contextos em que esses objetos materiais e não materiais da cultura estejam
presentes para provocar a agência das crianças desde bebês. Por isso, tem-se
defendido que falemos com os bebês para que eles aprendam a falar, apren-
dam a atribuir sentido ao que vão vivendo.
Como afirma Vygotsky, pela lei genética geral do desenvolvimento, pla-
nejamos com as crianças maiores o que faremos no dia para que elas apren-
dam a planejar, criamos situações que exercitem a tomada de inciativa para
que aprendam a tomar iniciativas, exercitamos a escolha para que aprendam a
ter vontade própria, constituindo-se como uma pessoa que tem vontade, que
faz escolhas, que pensa. E quanto mais crescem mais sofisticado esse processo
se torna para que as crianças aprendam quem elas são, constituam-se como
pessoas que pensam, resolvem problemas, planejem suas ações, avaliem suas
realizações e, especialmente, saibam fazer escolhas porque sabem o que querem.
Então, também por isso, as escolas, seja na área interna ou na externa,
devem conter esse material com que as crianças devem conviver de forma
permanente: os livros, as obras de arte, os objetos naturais, as caixas de pape-
lão, a música, os objetos sonoros, os experimentos com a água, a luz, o vento
precisam estar presentes para que as crianças possam ir se apropriando deles
por seu tateio, por sua experimentação e pela experimentação ampliada que
nós, professoras e professores, como parceiros mais experientes do grupo,
também oferecemos.
Quando a Teoria Histórico-Cultural enfatiza essa agência da criança, é
fundamental considerar que essa agência não é um agir abandonado, mas um
agir apoiado por nós, docentes. Não interferimos de forma direta de modo
a interromper a atividade da criança, mas observamos e percebemos formas
de ampliar a experiência da criança: trazemos algum material para enriquecer
64
o tateio e as descobertas, fazemos uma “boa pergunta” (aquela que desafia a
pensar, a olhar de outro ponto de vista, a experimentar outras possibilidades
do material, como, por exemplo, “será que dá pra fazer uma torre que vai até
o teto com esses bloquinhos que você está usando?”). Enfim, interferimos
de forma amorosa para desafiar outras possibilidades de experimentação da
criança, de modo a nomear seu fazer, de modo que a criança perceba seu
próprio desenvolvimento (“Que bacana, você já está conseguindo fazer isso
sozinho. Na semana passada você ainda pedia ajuda”).
Como percebemos a partir de Vygotsky (2018), é nosso papel inserir
a experiência cotidiana da criança no universo da cultura mais elaborada:
papel da escola e nosso, como professoras e professores, apresentar a cultura
para as crianças, pois a cultura é a fonte das qualidades humanas. Com cada
objeto criado pelos homens e mulheres que nos antecederam, foi criada
também uma habilidade motora e intelectual. Em outras palavras, com o
conjunto dos objetos criados ao longo da história – sejam eles materiais
como os talheres, os computadores, ou imateriais como os contos e os jogos
–, criamos as qualidades humanas necessárias ao uso desses objetos. E uma
característica do ser humano é que as qualidades humanas não se fixam na
genética, mas estão postas nesses objetos. Esta é, inclusive, a condição que
nos permitiu – para o bem e para o mal – chegar aonde chegamos em pro-
gresso material em tão curto espaço de tempo. Se dependêssemos da nossa
genética, estaríamos ainda na idade da pedra ou perto dali, pois para se fixar
geneticamente uma qualidade leva muito tempo: só pra lembrar um exem-
plo, alguns estudos mostram que os seres humanos falam há 70.000 anos
(alguns chegam a defender que falamos há 500.000 anos) e a fala ainda não
se tornou genética. Precisamos aprender a fala com os falantes ao nosso
redor. Portanto, nossas capacidades não dependem de fixação genética, são
histórico-sociais, aprendidas com nossos parceiros mais experientes no uso
dos objetos. Esta é nossa grande vantagem em relação aos outros animais
e por isso avançamos tanto: as qualidades humanas não precisam se fixar
na pessoa, fixam-se nos objetos e cada nova geração nasce num mundo de
objetos, relações, valores, linguagens, conhecimento em seu nível mais de-
senvolvido, e pode se apropriar do desenvolvido até ali e ir mais longe, ou,
o que é a mesma coisa, o ponto de chegada da geração anterior é o ponto de
65
partida da nova geração. Em outras palavras, cada nova geração nasce nos
ombros da anterior e a partir daí avança.
Assim, vale lembrar a discussão feita por Vygotsky (2018) que destaca
que a criança convive, desde o nascimento, com a cultura mais desenvolvi-
da presente no seu entorno, e essa cultura (ou seja, desde os objetos até as
formas de relação entre as pessoas, os valores, as linguagens, as técnicas, a
língua, enfim, tudo o que existe ao redor da criança) interfere e dirige seu
desenvolvimento. Por isso o autor chama a atenção para a importância de não
sonegarmos aos pequenos as formas mais elaboradas da cultura.
Na escola, ainda que já tenhamos adotado um discurso moderno que
afirma a criança como capaz de se relacionar com tudo ao seu redor e atribuir
um sentido, ainda expressamos um preconceito em nossas atitudes e propos-
tas de tateio para bebês e crianças. Apresentamos o simples, o simplificado,
o pobre. Falamos pouco com os bebês e, quando falamos, usamos monossí-
labos (Não! Quietos! Chora não!) porque achamos que eles não entendem
(Hevesi, 2004). Quando, ao contrário, entendemos que a escola é também
lugar da cultura mais elaborada, modifica-se nossa relação com bebês e crian-
ças e se modifica a qualidade da cultura que apresentamos para eles e elas
(Farias e Mello, 2010): percebemos que trazer um desenho pronto para pin-
tar é infinitamente mais pobre, menos desenvolvente, do que apresentar lápis
ou tinta e papel e apresentar formas de usar a tinta (com pincel, com rolinho,
com dedo) para as crianças registrarem o que veem e sentem, disponibilizar
reproduções de obras de arte nas paredes da sala para que as crianças tenham
referências de formas mais elaboradas da pintura. A própria troca entre as
crianças cria essas referências quando criamos uma galeria na parede da sala
para a exposição dos desenhos produzidos pela turma.
Mas, para isso, precisamos conhecer como as crianças aprendem e não
ter medo de acompanhar suas curiosidades, de dar asas às curiosidades, de de-
safiá-las apresentando o que elas não conhecem, e que é papel e compromisso
da escola apresentar, e fazer isso de forma generosa, sem imposição, buscando
encantá-las com o novo, criando nelas o prazer de conhecer.
E, para isso, precisamos superar preconceitos. Superar o senso comum
que nega o desenvolvimento do conhecimento, nega as pesquisas, nega a
própria história: entender que nossa formação inicial é inicial e não final, e
66
que, portanto, podemos continuar a nos desenvolver profissionalmente – e
pessoalmente também.
Criamos contextos para a investigação livre de bebês e crianças quando
conhecemos como acontece o desenvolvimento humano na infância, como
bebês e crianças aprendem. Com isso, superamos a crença de que o desen-
volvimento acontece naturalmente. Esta crença nos imobiliza, desvaloriza e
esvazia o nosso trabalho como docentes responsáveis pela formação e desen-
volvimento da personalidade e inteligência de bebês e crianças.
Se quisermos formar crianças para brilhar, para serem dirigentes, como
diria Gramsci (1978), organizamos intencionalmente os contextos que as
crianças encontram na escola. Da mesma forma, apresentamos, para mães e
pais, o trabalho pedagógico que fazemos na escola para articular com a famí-
lia a atenção pedagógica e as expectativas em relação ao desenvolvimento in-
fantil. Conhecendo-se mutuamente, família e escola podem atuar juntas para
o melhor desenvolvimento das crianças. Há um ditado africano que diz que
é necessária uma comunidade inteira pra educar uma criança. Assim, preci-
samos nos convencer de que precisamos da família para melhor promover o
desenvolvimento de bebês e crianças. E a família precisa ser acolhida, parceira
que é nesse protagonismo de educação das crianças, como ficou claro nessa
pandemia. Portanto, paramos de culpar as famílias por faltas que percebemos
nas crianças, e as famílias param de culpar a escola por expectativas fora do
lugar que elas tenham. Essa iniciativa de buscar estabelecer uma relação de
parceria com as famílias é iniciativa que cabe à escola, uma vez que somos
nós que estudamos para desempenhar o papel de profissionais da educação e
conhecemos o processo de desenvolvimento humano na infância.
Seria de se esperar que os cursos de formação inicial garantissem isso,
mas com poucas e honrosas exceções – imagino e espero que as universidades
públicas se comprometam com isso – não é isso o que tem acontecido com a
formação de professores. E não acontece, muitas vezes, por um preconceito
contra a Psicologia. No entanto, por trás de uma teoria pedagógica vai ter
sempre uma teoria psicológica que se expressa na concepção de ser humano,
de desenvolvimento, de formação das qualidades humanas.
Para além desse preconceito, temos visto nossa formação aligeirada por
uma intenção do Estado de promover diferentes formas de exclusão na escola
67
ao longo de sua história: um Estado que optou por fazer, desta, uma pátria
iletrada (Carielo e Coelho, 2017).
E uma vez que essa formação teórica, a fundamentação teórica que
dá liberdade a nós, professores e professoras, não tem acontecido em nossa
formação inicial, temos que buscar por isso na formação continuada e em
serviço. Entendo que, na verdade, enquanto não distribuirmos a renda – não
transformarmos radicalmente esse quadro em que os muito ricos ficam cada
vez mais ricos e os pobres, cada vez mais pobres –, enquanto não se fizer uma
distribuição da riqueza, do poder e do saber, vamos ter que correr atrás dessa
necessária formação docente que promova a qualidade da educação, pois,
pelo papel revolucionário que uma educação de qualidade tem na formação
de um país, a formação docente será sempre intencionalmente fragilizada.
Essa pauta de educação continuada envolve, então, uma teoria pedagó-
gica que precisamos ter clara: uma teoria que responda sobre o papel da edu-
cação na formação do humano em cada um e cada uma de nós, sobre como
as crianças aprendem, sobre o lugar da criança, nosso lugar como parceiros
mais experientes e o lugar da cultura no processo de educação, sobre como
se concretiza o protagonismo infantil. Envolve também saber como se pode
traduzir, a partir daí, essa compreensão em relação àquilo que está na alçada
do nosso trabalho como professoras e professores: a organização dos espaços
como ambientes investigativos; as relações, ou seja, como acolhemos, como
escutamos, como damos voz e vez a bebês e crianças; como organizamos o
tempo de bebês e crianças na escola, o que podemos propor para ampliar as
vivências de bebês e crianças.
Há muito temos falado na necessidade de darmos voz e vez às crianças,
mas pouco temos feito em relação a isso. De um modo geral, os tempos e a
voz – o poder – continuam centralizados em nós, adultos: continuamos a
dirigir sozinhos os processos. Temos tido um discurso bonito que não se con-
cretiza nas nossas práticas. Tenho certeza de que muitos de nós temos práticas
que avançam nesse caminho, mas sempre teremos como avançar mais. Temos
que continuar a trabalhar firmes e fortes porque esse é um processo que não
acaba: como afirma Eduardo Galeano, sempre que damos dois passos, o ho-
rizonte se distancia dois passos. E isso é o que nos faz caminhar. Quem tem
uma prática já iniciada, tem no que avançar, e quem está se iniciando nesse
68
processo tem no que avançar. O importante é perceber que há possibilida-
des que superam as rotinas amarradas, as salas feias e tristes, os brinquedos
quebrados, a falta de material para a experimentação das crianças, o empare-
damento das turmas, a pedagogia da espera, os desenhos prontos. Junto com
bebês e crianças somos fortes.
Esses procedimentos que anunciam essa nova cultura escolar, essa mo-
dernização da escola, essa sua adequação aos novos tempos, precisam ser en-
tendidos e concretizados: como distribuímos poder, como garantimos um
tempo livre para as crianças exercerem plenamente sua autonomia, escolher,
planejar, realizar, avaliar, nomear suas vivências? Muitos de nós ainda se arre-
piam ao pensar em perder o controle sobre as crianças. Reich, um psicanalista
austríaco, quando percebeu a quantidade de traumas que impediam uma
vida plena dos adultos, voltou-se para as crianças, para compreender sua edu-
cação. E justamente afirma que precisamos ouvir as crianças. A liberdade na
exploração do mundo é garantia para a criança crescer em harmonia consigo
e com o mundo: as crianças precisam de espaço pra crescer e Reich vai criticar
profundamente o que ele chamou de obsessão que pais e professores têm por
ensinar, mesmo quando não há nada que seja oportuno ou necessário ensinar.
Segundo o autor, “Devemos pensar que a primitiva força vital, que a com-
pulsão por educar pretende dominar, foi capaz de criar cultura. É lícito ou-
torgar-lhe uma ampla margem de confiança (Reich; Schmidt, 1975, p. 68).
Reich percebe que a escola se torna um espaço da ação de adultos en-
couraçados sobre os pequenos. Assim, e desde sempre, a produção de coura-
ças nas crianças se institui como prática corrente no universo escolar, histo-
ricamente entendido – mal-entendido – como cenário da autoridade de uns
poucos adultos sobre uma massa de crianças que precisam ser domadas, dis-
ciplinadas e normalizadas (Foucault, 1987). E como lembra Guattari (1981),
a iniciação começa na creche, lugar de poucas palavras, de muito choro, de
olhares, falas e atitudes limitadores da ação dos pequenos, espaço pobre de
possibilidades de exploração para as crianças justamente para conter sua ação
num momento em que seu desenvolvimento depende de sua atividade sobre
os objetos. Desse ponto de vista, não apenas frustram-se iniciativas das crian-
ças como também se impossibilitam alternativas às proibições que poderiam
acontecer com o oferecimento de outros prazeres possíveis. A escola, por não
69
confiar na capacidade de participação de bebês e crianças na vida da escola,
torna-se um lugar de muita espera, de muita bronca, de contato físico apres-
sado e desrespeitador de individualidades (Hevesi, 2004).
Para superar tudo isso, nossa formação teórica precisa acontecer, ou,
pelo menos, continuar a acontecer na formação continuada e em serviço,
sempre numa interrelação forte entre a teoria e as práticas. Não mais discutir
teoria sem olhar e refletir sobre as práticas, ou seja, sem buscar de forma clara
os elementos mediadores que concretizem essa teoria. Em outras palavras,
procurar sempre o que significa de fato afirmar que as crianças são capazes.
Como agimos se assumimos que as crianças são capazes? Como isso mexe
com as nossas práticas, com a rotina da turma e da escola, com a gestão do
tempo, com a organização e uso dos espaços, com as relações?
E tampouco discutimos ou refletimos coletivamente sobre as práticas
sem olhar para a teoria: isso que fazemos concretiza a teoria? Isso, de alguma
forma, se relaciona com a teoria que estamos estudando? Como aprofunda-
mos essas práticas para aproximá-las da teoria que anunciamos?
Só assim entendo que vamos buscar cada vez mais elementos para fazer
acontecer a relação entre teoria e prática, garantir que a nossa teoria dei-
xe de ser um discurso “bonitinho, mas ordinário” na prática – parafrasean-
do Nelson Rodrigues. De qualquer modo, não basta uma teoria. A Teoria
Histórico-Cultural é mobilizadora, pois revela nosso papel protagonista hu-
manizador, nosso trabalho intelectual como promotores do desenvolvimento
humano em suas máximas possibilidades – o que faz do trabalho docente o
mais importante da sociedade. Mas é fundamental também compreender
como e porque nossa sociedade está estruturada da forma como se encontra
nesse tempo histórico.
Além disso, se cabe a nós, professores e professoras, promover o encon-
tro das crianças com a cultura, é preciso que tenhamos acesso a essa cultura
e, lembrando Vygotsky (2018), em suas formas finais ou mais elaboradas, o
que não tivemos na escola. Todos fomos formados na escola que se compro-
meteu com uma pátria iletrada. Então não é que nossa formação esteja sendo
esvaziada agora: ela já vem sendo esvaziada há algum tempo por uma política
de estado que implica a formação dos próprios formadores. E, por isso, nossa
formação ficou bastante aquém das necessidades que o século 21 impõe e
70
aquém também da ciência que viemos conhecendo mais recentemente e que
coloca a educação num novo patamar: responsável pela formação e desen-
volvimento da personalidade (que envolve, mas parece sempre importante
destacar, a inteligência).
Precisamos conhecer a história, precisamos conhecer como se deu essa
acumulação de riquezas nas mãos de poucos para que não penalizemos as
crianças e suas famílias que já são vítimas dessa história. Nós, professoras e
professores, precisamos gostar de conhecer, estar atentos aos novos conheci-
mentos, conhecer as diferentes linguagens que expressam a condição huma-
na. E como diz Alcantara (2020), ninguém dá o que não tem. Então, quando
olhamos para a formação cultural que recebemos, seja na escola ou na famí-
lia – nós, professoras e professores, de um modo geral, temos nossa origem
na classe trabalhadora, e sabemos como a classe trabalhadora é penalizada e
explorada pelo mundo a fora e mais selvagemente aqui –, percebemos a ne-
cessidade de também para os docentes apresentar a cultura mais elaborada, e
o desafio maior ainda: fazer experimentar essa cultura mais elaborada.
Não estamos preparados para contar para as nossas crianças nem sobre
a nossa origem. Sabemos que a composição étnica do nosso país tem euro-
peus. Mas indígenas e africanos são parte essencial da constituição do nosso
povo: a brasilidade é indígena, preta e branca. Como podemos apresentar a
riqueza dos nossos povos indígenas se pouco os conhecemos? Como valori-
zar nossa matriz indígena se muitas vezes falamos dos povos indígenas com
verbos no passado quando somos, hoje, 1 milhão de indígenas no país. Os 5
milhões da época da invasão portuguesa diminuíram drasticamente pela vio-
lência e pelas doenças trazidas pelos portugueses e agora começam a crescer
como população, entre outras coisas porque lutam por seus direitos e porque
estamos aprendendo a valorizar o fato de termos em nosso país formas tão
diferentes de viver. E certamente temos muito o que aprender com nossos
povos originários.
Mas por que muitos ainda falam no passado sobre os indígenas? Porque
tivemos poucas informações. Mas, mais grave que isso, não sabemos porque
não aprendemos a gostar de conhecer na escola; não aprendemos a gostar de
ler, porque nem aprendemos a ler. Nós, professoras e professores, também
somos parte do grupo que “lê, mas não compreende” (Bajard, 2021). Somos,
71
em parte, analfabetos funcionais, e não por culpa nossa, mas por um descaso
com a nossa educação.
Como falar da contribuição da matriz africana se temos um conheci-
mento tão raso sobre os ritos, as línguas que trouxeram para cá, a influência
na dança, na música, na culinária? Não sabemos como a história do nosso país
foi marcada por revoltas de populações afrodescendentes que lutavam por sua
liberdade e por nossa liberdade enquanto povo: liberdade da espoliação euro-
peia, liberdade do poder colonial que colonizava corpos e mentes e cujas marcas
estão entre nós até hoje. Como já afirmava Joaquim Nabuco (1998), em frase
que virou verso cantado por Caetano Veloso: “A escravidão permanecerá por
muito tempo como a característica nacional do Brasil”. Sem conhecer o que
era a África antes que os colonizadores europeus a invadissem, roubassem suas
riquezas, escravizassem seus povos, detonassem seu desenvolvimento, não va-
mos superar preconceitos odiosos. Como falar da arquitetura, da matemática,
da astronomia desenvolvidas na África muito antes que na Europa? Como falar
da África berço do ser humano? Lembraremos que o tataravô do tataravô do
tataravô de todos nós era preto. Precisamos garantir que nossos professores co-
nheçam nossa história e a dos povos que nos constituem para construir para si
e para as crianças um sentimento de brasilidade e de humanidade.
Então não é só ler textos teóricos, mas também uma literatura que pos-
sibilite esse conhecimento. Promover oficinas de vivências das práticas que
entendemos fazer avançar o trabalho pedagógico, aproveitar a tecnologia e o
acesso que nos permite para conhecer outras práticas. Assim, é urgente valo-
rizar esse novo tempo de estudo na escola – que não deve ser cumprido em
casa, mas na escola, num espaço organizado para isso. Quando esse tempo é
cumprido em casa, a força do cotidiano o sobrepassa e acabamos cumprindo
outras tarefas. O estudo, como toda atividade na esfera superior da ativida-
de humana (Heller, 1978), requer homogeneização das nossas capacidades:
foco, concentração no estudo. E a vida cotidiana se utiliza de uma lógica
heterogênea – que, ao contrário da concentração em uma única atividade,
exige a atenção estendida para várias questões ao mesmo tempo (organizar
filhos para a escola, preparar o almoço, marcar uma consulta médica, tudo ao
mesmo tempo), o que não combina com o estudo e a reflexão. Por isso, esse
tempo de estudo não deve ser visto como bônus salarial para nós, professoras
72
e professores, à medida que o cumprimos em casa. O desenvolvimento da nos-
sa formação requer que seja um tempo de estudo, de análise das práticas, de
reflexão na escola. A qualidade da educação requer que nós, professores e pro-
fessoras, estudemos. Isso envolve registrar nossas práticas, observar seus desdo-
bramentos, refletir sobre elas: o velho jargão que ainda não colocamos em prá-
tica da ação/ reflexão/ ação. Só esse constante movimento nos possibilita estar
à altura da nossa atividade. A educação, parte da esfera superior da atividade
humana, como a produção da ciência, precisa ser tratada dessa forma.
Gostaria de compartilhar duas práticas que me parecem caminhar nes-
sa vereda da educação continuada humanizadora. A primeira vem da Rede
Municipal de Educação Infantil da cidade de São Paulo e mostra como a coor-
denadora pedagógica preparou as professoras para trabalhar com as questões
étnico-raciais – tema urgente num país em que metade da população é afrodes-
cendente e a escravidão ainda é “característica nacional”. As professoras se or-
ganizaram em 4 grupos para investigar temas diferentes. Um grupo foi buscar
de onde vieram e a cultura do lugar de onde vieram os afrodescendentes para o
Brasil. O segundo grupo foi estudar a legislação ou como os afrodescendentes
foram tratados ao longo da nossa história, chegando até a política de cotas – a
reserva de vagas na Universidade para afrodescendentes estudantes de escolas
públicas – contra a qual muitos de nós têm preconceitos. Outro grupo foi
ainda pesquisar as revoltas protagonizadas pelos afrodescendentes ao longo da
nossa história, para superar a ideia de que as pessoas eram passivas frente à
violência da escravidão. O último grupo se dedicou à produção da arte e do
conhecimento na África no momento em que as populações começaram a ser
escravizadas. Com base no conhecimento compartilhado no conjunto das pro-
fessoras, o trabalho e a atitude das professoras em relação à temática se transfor-
maram: ganharam consistência, empatia e qualidade.
Outro exemplo que me permito inserir no momento em que escrevo
este texto – algum tempo depois da palestra que deu origem a ele – vêm da
atividade de campo da tese de doutorado intitulada A Formação do Sentido
para a Atividade Docente na Educação Infantil: implicações da Teoria Histórico-
Cultural (Mendes, 2022). Fazer da formação continuada uma responsabilida-
de de todo o grupo, em outras palavras, dividir poder com o grupo que elege
o que ler, prepara e coordena as discussões no processo de formação, ajuda
73
a corrigir os rumos desse processo, planeja e avalia como foi o caminho da
mobilização do que se constituiu um grupo de trabalho sem hierarquias, sem
imposições, mas com o compromisso claro com o trabalho e com a função
que exercemos.
Em síntese, quando nos sentimos valorizados em nossa função de inte-
lectual, comprometidos com nossa função profissional – algo que muitas vezes
se faz necessário lembrar, especialmente aos docentes que atuam na esfera pú-
blica, enquanto quem atua na esfera privada é lembrado disso o tempo todo –,
quando somos sensibilizados para gostar do conhecimento e para nos indignar
com a superficialidade da formação inicial, quando somos apresentados à cul-
tura em suas formas mais elaboradas e responsabilizados por nossa formação
participando das decisões que a definem, estaremos aprofundando nossa for-
mação e fazendo frente às demandas feitas ao nosso papel como docentes.
Entendo que o domínio de uma teoria explicativa do desenvolvimento
humano que envolve profundamente a educação no processo de humaniza-
ção das novas gerações – como faz a Teoria Histórico-Cultural –possibilita-
-nos perceber a potência das crianças, as positividades de seu desenvolvimen-
to e não as faltas percebidas quando as comparamos indevidamente com os
adultos (Vygotsky, 1995).
Com isso, podemos superar a condição apontada por Reich (1975): a
obsessão que pais e educadores têm por ensinar que leva à criação de regras
que não respondem a problemas reais, que impedem as crianças de experi-
mentar e descobrir livremente, de descobrir por meio do tateio e fazer teorias,
de se apropriar e expressar o que vão aprendendo – movimento sem o qual o
processo de humanização fica prejudicado.
Podemos superar também o equivocado adultocentrismo e assumir
que na educação infantil não damos aulas, pois as crianças aprendem quando
são agentes num espaço rico e diversificado; que não fazemos nosso trabalho
na sala de aula, mas na escola como um todo, além da sala de referência, na
área externa, no território. E ficamos atentos ao nosso vocabulário, pois na
educação infantil não temos alunos, temos crianças.
Mas para esse processo de atualização docente acontecer, a educação con-
tinuada precisa nos orientar a registrar nossas práticas e a refletir sobre elas num
processo que se configura como autoformação e esse processo se potencializa
74
quando se dá no coletivo da escola, pois leva a uma troca rica de experiências
pedagógicas que se torna um processo de autoformação cooperada – como faz
o Movimento da Escola Moderna Portuguesa (MEM) (Folque, 2012).
Considerando tudo isso, entendo que teremos elementos para trans-
formar radicalmente a cultura escolar num espaço onde se possa questionar
a hierarquia e onde todas as estratégias – que hoje são de controle da prática
docente – possam se tornar apoio à prática de modo a criarmos uma comuni-
dade em que todos aprendem, um espaço que agregue a comunidade escolar
e as famílias num projeto único de formação das melhores qualidades huma-
nas para e com as novas gerações. Portanto, que acolha e escute as crianças,
que promova situações em que o protagonismo das crianças aconteça como
atividade de corpo inteiro (com o corpo, a mente e o afeto/vontade), em
que a cultura em suas formas mais elaboradas esteja presente. Um espaço em
que os adultos não tenham medo de compartilhar as decisões, os planos, as
iniciativas, a gestão das atividades e do tempo, enfim, não tenham medo de
compartilhar o poder de decidir, de pensar, de avaliar. E, para isso, professo-
ras e professores precisamos viver essa experiência nas relações estabelecidas
na escola – o que faz das relações todas educação em serviço.
Quando penso na escola no momento em que vivemos, penso que
temos, como tarefa inicial, organizar o projeto político pedagógico (PPP)
com o conjunto dos profissionais que nela atuam, conhecendo as famílias e as
crianças – um projeto político pedagógico em que todos, uma vez que com-
partilham sua produção, também se comprometem com sua concretização.
E cada nova professora ou professor que chega na unidade escolar precisa ser
apresentada a esse PPP, precisa ser acolhida pela cultura escolar em constru-
ção na unidade escolar: como se concretiza aqui a compreensão de que as
crianças são sujeitos e porque apresentamos a elas diariamente o nosso plano
para o dia, como acolhemos suas iniciativas, porque garantimos diariamente
um tempo livre para que elas próprias façam a gestão de sua atividade, por
que realizamos uma atividade na área externa todos os dias, como organiza-
mos os horários de refeição de modo que as crianças se sirvam sozinhas ou
com ajuda de um adulto quando solicitarem, que se sentem onde escolherem,
ao final retornem pratos, copos e talheres para os locais indicados. Enfim,
contamos dos nossos avanços na perspectiva de uma educação desenvolvente
75
e oferecemos apoio à nova professora ou professor para seu inserimento nessa
nova cultura escolar, e não damos chance para práticas espontaneístas sem
base teórica consistente com as necessidades de desenvolvimento das crianças.
Nesse sentido, é fundamental a liderança pedagógica da escola no apoio
à concretização do PPP: não como controladora, nem como agente burocrá-
tico, não como fiscal, mas como apoio ativo na concretização dessa nova
cultura escolar. Por isso, empenha-se em trazer referências de boas práticas de
outros lugares e, com isso, nutre novas possibilidades da prática docente. Da
mesma forma, dá visibilidade às boas práticas da unidade escolar e oferece
ajuda para impulsionar os resistentes, ninguém solta a mão de ninguém!
Os grupos de estudos, ou ainda, os grupos de leitura, ajudam tanto
na formação do espírito de grupo quanto no desenvolvimento da prática.
Começar e insistir, escolher bem a leitura para encantar, criar motivos, como
lembra a discussão de Leontiev (1988) sobre a criação de motivos. As pessoas
podem começar a participar do grupo para experimentar ou até pra justificar
posteriormente sua retirada do grupo. No entanto, se a leitura for envolvente,
os motivos vão se transformando e a permanência no grupo começa a se dar
pelo prazer de saber do assunto, de participar com o grupo, de encontrar algo
não cotidiano que satisfaz. Daí vamos aprofundando as leituras, ouvindo os
desejos dos participantes, abrindo as escolhas de leitura para o grupo. Em
outras palavras, escuta do outro e compartilhamento do poder de decisão.
Lançar mão das tecnologias para nós, adultos, abre possibilidades de
conhecimento de outros lugares, vídeos de práticas bacanas ajudam a superar
preconceitos, mostram que as crianças são capazes, possibilitam conhecer o
pensamento dos outros, além de conhecer culturas de outros lugares e outros
tempos. As oficinas, os momentos de vivência de outras linguagens, de traba-
lho com o corpo, ampliam a cultura docente. Enfim, organizar os processos
de educação continuada dos adultos por homologia ao que temos defendido
para a educação de bebês e crianças é um desafio que cabe a todos nós, mas
deve ser um compromisso da liderança pedagógica escolar.
Palavras finais com o desejo de continuar a conversa
Ainda uma palavra para desafiar nossas ideias de formação para pen-
sar “fora da caixa”: da mesma forma como defendemos que a educação das
76
crianças salte os muros da escola e alcance o território – a cidade e seus ar-
redores –, também nossa formação continuada precisa pular os muros da
escola. Uma sessão de cinema com o grupo de profissionais da escola, uma
visita a um museu ou a uma exposição, uma viagem de estudo ou mesmo de
lazer são formas inusitadas, mas que têm se mostrado efetivas pela experiência
emocional – que os russos chamam de “perezivanie” – que promovem praze-
res a que nós, docentes, também temos direito!
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79
CAPÍTULO 4
Jogo Protagonizado na Infância:
Aspectos Teóricos e Práticos
Maria Aparecida Zambom Favinha
Elieuza Aparecida de Lima
Tatiana Schneider Vieira de Moraes
Os pressupostos da Teoria Histórico-cultural (THC) firmam o caráter his-
tórico e cultural do desenvolvimento infantil. Essa compreensão integra a ideia de
que a relação da criança com a realidade circundante, o processo educativo inten-
cionalmente organizado e a atividade humana possibilitam o desenvolvimento
da inteligência e personalidade da criança ao longo da infância (Favinha, 2022).
Com a pretensão de discutir aspectos desses pressupostos científicos,
este texto se propõe a dialogar sobre o jogo protagonizado entendido como
atividade essencial à formação humana da criança no período pré-escolar, isto
é, dos três aos seis anos. Do conjunto dos argumentos da THC, nos focare-
mos nas contribuições de Elkonin (1987, p. 111), por afirmar que a realidade
circundante se apresenta à criança em duas vertentes: “mundo das coisas
e o “mundo das pessoas”. A relação das crianças com os objetos (material
e imaterial) e com as pessoas pode potencializar avanços significativos no
psiquismo infantil e em determinados períodos de desenvolvimento há uma
atividade principal6 que melhor direciona o desenvolvimento, possibilitando
mudanças qualitativas no cérebro humano.
6 Nesta exposição, utilizamos a denominação “atividade principal”, conforme tradução de Maria da
Pena Villalobos do texto de: LEONTIEV, A. N. Uma Contribuição à Teoria do Desenvolvimento
da Psique Infantil. In: VIGOTSKII, L. S; LURIA, A. R.; LEONTIEV, A. N. Linguagem,
desenvolvimento, aprendizagem. São Paulo: Ícone, 2010a, p.59-83.
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-558-2.p79-95
80
Nessa atividade, os processos psíquicos tornam-se possíveis de se de-
senvolverem, mediante as relações ativas, autênticas e concretas da criança
com o “mundo das coisas” (cultura material e imaterial) e o “mundo das
pessoas” (relações humanas crianças/adultos e crianças/crianças). Elkonin
(1986) caracteriza como atividades principais correspondentes ao período da
Educação Infantil (EI): a comunicação emocional direta, a atividade objetal
manipulatória e o jogo protagonizado.
Com o nascimento, a vida social inicia-se ao bebê. Para satisfação das
necessidades, biológicas e culturais, o bebê depende do adulto. Nos momen-
tos de troca de fralda, de amamentação, de banho, de sono, o adulto co-
munica-se verbalmente com o bebê anunciando as atitudes respeitosamente.
Nesse processo relacional, o bebê comunica-se emocionalmente, sentindo o
toque, a fala sensível, a atenção, o carinho, comunicando-se sem palavras.
Esse período de desenvolvimento envolve criações de acesso e relação do bebê
com diferentes objetos de cores, tamanhos, formatos, texturas, ao seu campo
de visão e alcance, possibilitadas pelo adulto. Assim, com essas condições de
vida e educação, o bebê desenvolve as mãos ao querer agarrar o objeto e o
movimento do corpo, ao tentar pegá-lo. Os objetos são explorados externa-
mente, considerando que o bebê realiza movimentos reiterativos, batendo as
mãos, chacoalhando, tentando colocar na boca, evoluindo os movimentos
do olho-mão.
O andar ereto e o desenvolvimento da fala são conquistas sofisticadas
no período objetal manipulatório. As crianças caminham-se ao encontro dos
objetos e, ao agir com eles, pensam, assim, o pensamento surge em forma de
ação. Ao encaixar, tampar, empilhar, usar, a criança brinca, pensa e apropria-
-se do esquema geral de manipulação (para que foi criado) o objeto. Nesse
momento da vida, a gênese do jogo protagonizado desvela-se quando a crian-
ça utiliza o objeto de acordo com a sua função social. A criança sabe para que
o objeto foi criado, entretanto o lado operacional de ação (como usar) en-
contra-se embrionário, ou seja, é complexo utilizar como o adulto (Elkonin,
2009). Paulatinamente, a reconstituição dos usos dos objetos amplia-se e a
criança atua em diferentes contextos, expressando modos diversificados de
apropriação. A relação criança/objeto amplia-se tendo o adulto como parcei-
ro, introduzindo as crianças na cultura historicamente acumulada.
81
No período pré-escolar, a criança tem necessidade de estabelecer relações
sociais com as pessoas. O jogo protagonizado emerge como possiblidade de a
criança reconstituir papéis sociais protagonizando o trabalho humano produti-
vo. A criança esforça-se para fazer o que o adulto faz e como faz, como utiliza
os objetos, como controla a sua conduta, como se comunica, penetrando na
realidade do adulto, considerando que o conteúdo central dessa atividade é o
homem. Conforme Elkonin (1987, p.112, tradução nossa)7: “[...] (a criança) é
sensível precisamente para o “mundo das pessoas”: nele se ‘modelam’ de manei-
ra peculiar as tarefas e os motivos da atividade humana e as normas das relações
entre as pessoas [...]”. Nesse sentido, a criança tem necessidade de estabelecer
relações com as pessoas e reconstituir aspectos da atividade produtiva humana.
Ao desejar ser uma médica, esforça-se para agir e utilizar objetos pertencentes
a essa profissão e para exercer efetivamente o papel social de médica, objetiva
ações apropriadas do seu repertório histórico, social e cultural. Com esse en-
tendimento, o jogo protagonizado depende das condições de vida concreta da
criança em sociedade. Nas palavras de Elkonin (2009, p. 80):
[...] esse jogo nasce no decorrer do desenvolvimento histórico da socie-
dade como resultado da mudança de lugar da criança no sistema de rela-
ções sociais. [...] O seu nascimento está relacionado com condições sociais
muito concretas da vida da criança na sociedade e não com a ação de
energia instintiva inata, interna, de nenhuma espécie.
Assim, a possibilidade de a criança ampliar o seu repertório cultural
proveniente do seu meio social concreto envolve as situações educativas pla-
nejadas e desenvolvidas pelo professor, especialmente relativas às ofertas de
espaços, tempos, materiais e relações com as crianças com o intuito de sofis-
ticar seus modos de agir, sentir e protagonizar ações humanas. O professor,
mediante intervenções diretas, potencializa a comunicação (maneiras de se
reportar aos outros), o autocontrole da conduta (saber agir tal como o papel
social assumido), o agir das crianças (pertinentes ao papel social) e, no trato
pessoal com elas, pode superar atitudes de racismo, egoísmo, autoritarismo,
rumo às condutas mais harmônicas e humanizadas.
7 [...] es sensible precisamente hacia el “mundo de las personas”:en el se “modelan” de manera peculiar
las tareas y los motivos de la actividad humana y las normas de las relaciones entre las personas.
82
Trata-se de conceber e tratar o professor como profissional capaz de
intervir diretamente na promoção de contextos educativos dirigidos à am-
pliação do repertório cultural da criança, potencializando o enriquecimento
dos temas, conteúdos dos jogos e uso de diferentes materiais no jogo protago-
nizado. Significa, assim, que o papel docente consiste em ofertar às crianças
oportunidades de acesso e de apropriação da cultura, envolvendo valores e
condutas mais elaborados. Como escreve Vigotski (2018, p. 85): “[...] no de-
senvolvimento da criança, o que deve ser obtido ao final, como seu resultado,
é dado, desde o início, pelo meio. E não simplesmente é dado desde o início,
mas influencia os primeiros passos do desenvolvimento da criança”.
Um processo educativo configurado com a perspectiva de humanizar
as crianças afirma a compreensão de que quanto maiores as possibilidades de
o professor ofertar modos diferenciados de falar, perguntar, agir, questionar e
reconstituir papéis sociais, maiores serão as maneiras de as crianças avançarem
a patamares superiores de desenvolvimento. Com atitudes conscientes e dire-
cionado à formação humana em suas máximas possibilidades, o professor da
EI realiza intervenções diretas, baseadas em formas finais de desenvolvimento,
possibilitando às crianças a ampliação de seus modos de pensar, agir e sentir.
Além da intervenção direta, o trabalho docente integra intervenções
indiretas essenciais ao êxito da EI: planejamento e organização do espaço,
tempo e seleção de elementos culturais sofisticados, proporcionando, assim,
um ambiente convidativo para a criança explorar. Ambas as intervenções são
fundamentais aos processos de apropriação e de objetivação infantis, con-
tribuindo para o desenvolvimento de funções psíquicas superiores nos anos
iniciais da vida, em especial o autocontrole da conduta, a função simbólica
da consciência e da imaginação.
Esse processo educativo se materializa na participação ativa do profes-
sor no jogo com as crianças, observando e escutando atentamente as ações
e condutas em relação aos objetos e ao trato pessoal entre criança/criança e
criança/adulto. Elkonin (2009) relata em suas pesquisas a inclusão dos pes-
quisadores pelas próprias crianças nos jogos protagonizados, determinando
papéis sociais ou dirigindo-se a eles para esclarecer algo referente à ação lúdica.
Com o objetivo de apresentar exemplos de ações de intervenções peda-
gógicas direta e indireta durante o jogo protagonizado, destacamos aspectos
83
de uma atividade realizada em uma Escola Municipal de Educação Infantil
(EMEI) localizada na cidade de Marília, SP. As identidades dos participantes
serão resguardadas, entretanto, a participação e reconstituições de papéis so-
ciais serão transcritos na íntegra.
Após uma conversa com as crianças (4 para 5 anos), a professora perce-
beu o interesse pelo tema “Supermercado” e lançou o desafio de como pode-
riam obter objetos para brincar, com a pergunta: “Com o que brincamos de
supermercado?” Logo, a problematização foi resolvida com unanimidade. As
crianças elencaram brinquedos temáticos conhecidos e dispostos em alguns
espaços da EMEI e sugeriram a coleta de embalagens vazias trazidas de casa
para compor o cenário. Assim, nos próximos dias, o interesse centrou em
juntar objetos e na expectativa do jogo se efetivar.
A escolha do tema advém da necessidade expressa pelas crianças de de-
sejarem reconstituir determinados papéis sociais existentes naquela temática
e objetivarem as apropriações provenientes da realidade concreta delas. Nas
palavras de Elkonin (2009, p.35):
[...] os temas dos jogos são extremamente variados e refletem as condições
concretas da vida da criança, as quais mudam conforme as condições de
vida em geral e à medida que a criança vai ingressando num meio mais
vasto a cada novo dia de sua vida, com o que se ampliam seus horizontes.
A partir do exposto, uma tarefa docente se expressa na proposição ou
sofisticação de temas variados, considerando as relações sociais entre funcio-
nários e clientes (supermercado). Nesse sentido, as intervenções diretas possi-
bilitam à criança ingressar num meio mais vasto de relações sociais a partir de
uma visita ao supermercado, por exemplo, e mediante atividades diversas tais
como contação de histórias, aulas passeios, apreciação de obras de arte, visitas
culturais, as quais poderão impulsionar a ampliação ou mudança do tema.
Para iniciação do jogo “Supermercado”, primeiramente a professora
organizou um espaço convidativo montando um estabelecimento com brin-
quedos temáticos, embalagens vazias trazidas pelas crianças e objetos reais
(figuras 1 e 2).
84
Figura 1 – Espaço interno de uma sala da
EMEI
Figura 2 – Detalhe do espaço organizado
como caixa do supermercado
Fonte: Acervo pessoal de uma das autoras
A intervenção indireta do professor, ao organizar o espaço, tempo e dis-
tribuir objetos pertinentes ao tema (supermercado), fez com que, além de as
crianças encontrarem um espaço convidativo, pudessem perceber com o que
se brinca de supermercado, identificando as diferentes ilhas temáticas (área
da entrada, achocolatados, área láctea, caixas e saída). A organização inicial
pelo professor possibilita o desenvolvimento de uma visão geral de um esta-
belecimento comercial, propiciando ampliar o cenário referente ao tema. Os
diversos objetos selecionados para a composição da temática proporcionam o
entendimento da criança acerca dos elementos com que se brinca de super-
mercado. Assim, ao manipular diferentes objetos, a criança tem condições de
perceber propriedades distintas, formatos, texturas, materialidades diversas
(plástico, alumínio, papel, vidro), reconhece o esquema geral de manipulação
(para que foi criado), apropria-se do lado operacional de ação (como usar)
(Elkonin, 2009) e amplia o vocabulário.
Além de tornar os ambientes educativos convidativos e acolhedores,
a organização espacial pode proporcionar à criança o estabelecimento de re-
lações sociais e atividades comunicativas com o outro, tornando diferentes
lugares da escola propícios à escolha e ao desenvolvimento de papéis sociais.
Em relação ao exemplo do jogo protagonizado “Supermercado”, sua realiza-
ção perdurou por vários dias e, a preparação do cenário, ora pelo professor ora
85
com a participação das crianças, aconteceu em diferentes espaços da EMEI,
tanto internos como externos.
O lugar onde se brinca dentro da escola de Educação Infantil é versátil,
entendendo que todo espaço é desenvolvente, porque é organizado intencional-
mente pelo professor ao selecionar objetos, dispô-los na altura das mãos e olhos
das crianças, estruturando o ambiente de modo convidativo e combinando
modos de usos com as crianças. Na situação relatada, a cada nova organização
do espaço referente à temática, o professor propunha um desafio e introduzia
um novo objeto, tais como, por exemplo, as sacolas plásticas, a balança na seção
de hortifruti, possibilitando a ampliação de um aspecto do conteúdo do jogo.
Como afirma Elkonin (2009, p. 35) “O conteúdo do jogo [...] pode revelar o
objeto com o qual o homem opera [...]”. Essa compreensão orientou, no jogo
protagonizado “Supermercado”, a introdução de uma geladeira no ambiente
destinada à brincadeira, após a necessidade de as crianças manipularem emba-
lagens vazias de iogurtes, potes de margarina, garrafas PET de refrigerantes e de
sucos. Com a composição do cenário, em uma das ocasiões, o papel disputado
no jogo foi o de ser cliente. Os objetos com o qual o homem opera (Elkonin,
2009), isto é, manipula, no caso, a geladeira, foi visitada por todos os clientes e
causaram algumas indignações, ao depararem com todos os produtos vendidos,
conforme diálogo descrito no quadro 1:
Quadro 1: Descrição ou transcrição da fala
Criança Descrição ou transcrição da fala
Criança 1 Nossa compraram tudo! Prô, queria comer um
“Danoninho” de chocolate, mas acabou.
Criança 2 Queria um suco gelado, mas só tem Coca-Cola quente.
Fonte: Dados de pesquisa (Favinha, 2023).
O objeto temático (geladeira) direcionou as ações das crianças. Ao co-
nhecer o esquema geral de manipulação, para o que foi criado o objeto, a
criança tem o desejo de manipulá-lo no jogo “[...] os objetos ditam a ela o
que fazer – a porta induz-lhe o querer abri-la e fechá-la [...]” (Vigotski, 2021,
p. 222). Assim, a geladeira serve para armazenar produtos refrigerados e é um
objeto pertencente a um supermercado. Desse modo, a vontade de querer
manusear o objeto no jogo protagonizado direciona as crianças a quererem
86
escolher o papel, ou de cliente, ou de repositor de produtos, ou funcioná-
rio de limpeza. Referente a essa questão, Elkonin (2009, p. 251) sintetiza:
“[...] que o papel é introduzido nas ações da criança como de fora, mediante
os brinquedos temáticos, que sugerem o sentido humano das ações realiza-
das com eles”. Este entendimento evidencia a potencialidade dos objetos, os
quais podem direcionar os papéis sociais, mediante a apropriação das crianças
relativa ao seu esquema geral de manipulação e do lado operacional de ação
de cada objeto.
A inclusão de diversos objetos temáticos pode criar condições de am-
pliação do desenvolvimento do jogo protagonizado e propiciar à criança o
direito de escolha de outros papéis sociais, protagonizando diferentes relações
humanas. No supermercado, o papel social de repositora de produtos en-
volve, por exemplo, a categorização de alimentos refrigerados, identificação
do lugar onde encontrar tais alimentos (ala das geladeiras), empilhamento,
seleção de tamanhos, potencializando a evolução do jogo e de diferentes fun-
ções psicológicas superiores, essencialmente pertencentes ao gênero humano,
tais como atenção, concentração, autocontrole da conduta, percepção, fala,
memória voluntária.
O oposto, a exclusão ou a falta de determinado objeto, também propicia
o desenvolvimento da imaginação e da função simbólica da consciência, como
é possível perceber no exemplo a seguir. Para compor a cartela de ovos, uma
criança utilizou-se de manguinhas colhidas do quintal da EMEI para simboli-
zar os ovos, para serem vendidos na seção de hortifruti do supermercado.
Ao utilizar as pequenas mangas para representar os ovos, a criança trans-
fere a sua utilização funcional, ou seja, age com o objeto substituto como se
fosse ovo real, tendo cuidado para não cair e inclusive verbalizando o nome
sonoro, referindo-se ao objeto substituto (figuras 3 e 4). Isso se torna possível
quando a criança conhece o objeto e seu uso. Conforme evidencia Elkonin
(2009, p.225): “A criança nunca pôs a um objeto uma denominação lúdica,
antes de ter realizado com ele a respectiva ação [...]”.
87
Figura 3 – Substituição de um objeto por outro Figura 4 – Detalhe da bandeja com
ovos
Fonte: Acervo pessoal de uma das autoras.
A criança no papel social de funcionária do supermercado minucio-
samente procurou pelo chão do quintal da EMEI, escolheu e compôs a sua
cartela de ovos com manguinhas para ser vendida na seção de hortifruti. Nas
imagens acima, é possível perceber a semelhança do tamanho ovo e manga
e seu formato oval contribuiu para que as mangas selecionadas coubessem
nos vãos da cartela. Diferentemente da atividade objetal-manipulatória pre-
cedente ao jogo, na qual a criança utiliza-se de objetos aleatórios como peças
de jogos de montar, pedaços de paus. A seleção de semelhança ao objeto real
representa evolução do jogo, como sintetiza Elkonin (2009, p.225): “A uti-
lização de objetos como substitutos na idade pré-escolar apresenta algumas
peculiaridades típicas. Cumpre primeiro assinalar as exigências mínimas de
semelhança do objeto substituto com o representado”.
À priori, ao separar os produtos pertencentes à geladeira, a criança am-
plia o repertório de armazenar não só o pote vazio de iogurte, mas também
o de margarina, de requeijão e outros, além de objetivar as ações relativas à
localização do lugar destinado a esses tipos de alimento. Paulatinamente, o
processo se intensifica ao substituir um objeto pelo outro. A criança separa
o objeto do seu esquema de atuação (Elkonin, 2009), no caso, as “mangas
tornam-se “ovos”, inclusive o seu nome se altera por ser uma das caracterís-
ticas do objeto. Vigotski (2021, p. 228) expõe: “[...] a criança não vê a pala-
vra, mas, por detrás desta, vê o objeto que ela significa [...] vê o objeto por
detrás da palavra”. No objeto substituto, apresentam-se impregnadas todas as
88
características de uso do objeto real, até o nome. O mesmo processo aconte-
ce na reconstituição de papéis sociais: a criança assume o papel social de ser
funcionária do supermercado e protagoniza as ações, modos de agir, maneiras
de se autocontrolar, mediante as apropriações e referências do papel social
generalizado de funcionária, proveniente da sua realidade concreta.
Sobre isso, Leontiev (2010, p. 132) esclarece: “[...] a criança assume
certa função social generalizada do adulto [...]”. Essa assunção não revela um
processo de imitação, mas sim uma reelaboração criativa do que viu, ouviu e
vivenciou com os adultos (Vigotski, 2009). A criança generaliza aspectos es-
senciais do trabalho do adulto provenientes da sua realidade, potencializando
o processo de criação, assim, “[...] na brincadeira, o ímpeto da criança para
criar é a imaginação em atividade” (Vigotski, 2009, p. 17).
A integralidade entre as intervenções indiretas (organização do espaço,
material e tempo) e diretas torna-se imprescindível nas ações pedagógicas do
professor, propiciando avanços qualitativos no desenvolvimento do jogo prota-
gonizado e possibilitando à criança separar-se do campo sensorial, com chances
de emergência do plano das ideias. Diante dessa perspectiva, a criança age, a
partir daquilo que tem em mente (Favinha, 2022). A base para a gênese do pla-
no ideativo depende das manipulações e explorações dos objetos, contribuindo
para a formação de imagens subjetivas da realidade objetiva (Leontiev, 2021).
Outro fator a ser refletido pelo professor é o tempo dado às crianças
para brincarem. Articuladamente à organização de espaço, material e distri-
buição dos papéis, as crianças necessitam de tempo disponível para agirem
com os objetos, rodiziar papéis e vivenciarem a atividade de forma intensa,
envolvendo corpo, mente e emoção. É um desperdício negar o direito de
as crianças brincarem ao proporcionar um tempo mínimo de exploração,
devido às demandas institucionais, previstas em rotinas diárias no interior
da escola de Educação Infantil. O tempo cronológico torna-se outro ponto
crucial. Será que dentro da rotina escolar, após organizar o espaço, propor 15
minutos de exploração é suficiente ao jogo?
O tempo de duração do jogo é determinado pelo interesse das crian-
ças. O professor necessita refletir sobre esta questão ponderando o tempo
cronológico e institucional, bem como observando as crianças com relação
ao esgotamento do tema. O tempo vivido na escola de Educação Infantil
89
torna-se essencial, respeitando e defendendo o direito da criança à brincadei-
ra. A criança quer brincar, explorar, criar, reconstituir papéis e, para concre-
tização essas ações, necessita de tempo. Em harmonia com Vigotski (2021,
p. 212): “[...] O adiantamento da realização de seus desejos é difícil para a
criança pequena [...]”. Nesse sentido, torna-se essencial não abreviar ou acele-
rar a infância, programando a organização do tempo dentro da rotina diária e
respeitando o tempo das crianças para participarem de jogos protagonizados
potentes, os quais corroboram com o desenvolvimento infantil.
A proposição de tempo para as crianças reconstituírem papéis sociais
pode favorecer o desenvolvimento nas ações das crianças, refletindo a lógica
da vida real, isto é, “concatenação vital de ações” (Elkonin, 2009, p. 229).
No jogo exemplificado neste texto, ao assumir o papel social de cliente do
supermercado, uma criança realiza suas compras, escolhe os produtos, passa
pelo caixa, paga com cartão de crédito inserindo o cartão e colocando senha,
caminha aleatoriamente pela sala com sua sacolinha de compras e senta-se
atrás de um biombo. O professor da turma observa os atos e atitudes, foca-
lizando a mesma criança retirar da sacola de compras produtos adquiridos
no supermercado e simbolizar o ato de comer. Um outro colega aproxima-se
dele e os dois degustam os alimentos (figura 5).
Figura 5 – Sequência lógica da vida real
90
Fonte: Acervo pessoal de uma das autoras.
Os atos realizados pela criança refletem a lógica da vida real, ela estabe-
lece uma sequência do processo de compra e venda, respeita o tempo de espera
no caixa, deixa o supermercado supondo ir para “casa” após as compras, sen-
tando-se para degustar suas preferências e partilhar com o colega suas compras.
Aparentemente, há uma lógica no desenvolvimento das ações, correspondentes
à vida real. Referente a esse processo, Elkonin (2009, p. 297) expõe:
A lógica das ações é determinada pela sucessão da vida, quer dizer, pela
sucessão observada na vida real. O número de ações amplia-se e transpõe
o limite de um só tipo, seja ele qual for, ações. A alimentação relaciona-se
com a ação de cozinhar a refeição e servi-la à mesa. E o final desta relacio-
na-se com as ações que a seguem na lógica da vida.
A intervenção direta do professor em relação à realização do jogo pro-
tagonizado é baseada em conhecimentos científicos referentes a essa atividade
vital na idade pré-escolar, considerando seu papel e valor para a formação
humana na infância. Com essa compreensão, esse profissional entende como
a observação e a escuta atentas são atos pedagógicos essenciais no dia a dia
da escola de EI. Essa atuação docente, intencionalmente voltada à formação
humana em suas máximas possibilidades, exige envolvimento em processos
formativos por meio dos quais haja apropriação de bases teórico-científicas,
filosóficas e políticas (Favinha, 2022).
A falta de clareza conceitual do que seja o jogo protagonizado nos leva
à adoção de práticas provenientes do senso comum, reproduzindo ativida-
des mecânicas ou didatização do jogo para ensinar determinado conteúdo. A
superação de práticas assim configuradas requer revisões de conhecimentos
91
orientadores dos modos de pensar e agir do professor, mediante apropriação
de uma teoria capaz de embasar formas mais conscientes e desenvolventes de
planejamento e materializações de suas ações. Tais ações são traduzidas em
potentes organizações de espaço, tempo, relações e materiais, intervenções
indiretas e diretas, como explicitado anteriormente.
Com esse entendimento, o jogo protagonizado é livre para a criança,
entretanto, para o professor, é repleto de caminhos para pensar, refletir e
intervir, possibilitando o replanejamento de suas ações e atitudes docentes.
Para Elkonin (2009, p.172), trata-se de apropriação teórica pelo pro-
fessor capaz de orientá-lo em relação ao:
[...] processo do desenvolvimento psíquico [...] como processo que trans-
corre em forma de relações em desenvolvimento, de comunicação, intera-
ção e atividade conjunta da criança com os adultos, e o próprio estudo do
processo de desenvolvimento como fator que leva rigorosamente em con-
ta o caráter dessa interação; e em caso ideal, como ordenação consciente
do sistema de relações entre a criança e os adultos e, com sua mediação,
da interação entre a criança e o mundo das coisas.
Essa compreensão teórica pode mobilizar o pensar e o agir docente no
que se refere aos relacionamentos vivenciados na escola da infância, conside-
rando que o jogo protagonizado encontra-se na esfera de relações humanas
homem/homem, dessa forma, torna-se necessário o professor brincar com
crianças e ensinar a brincar. Na idade pré-escolar, se evidencia brincadeiras
entre as crianças e, não ocasionalmente, delas com o professor.
Na situação educativa relativa ao jogo protagonizado “Supermercado
ora apresentado, ao realizar as compras uma das crianças da turma mistura o
seu dinheiro com as compras dentro do carrinho. A professora, participando do
momento, questionou-a: “Seu dinheiro vai solto aí? Não tem medo de perder?
Pode escapar por aqui (mostrando os espaços do carrinho, com furos)”.
A criança imediatamente recolhe o dinheiro, organiza-o em suas
mãos e o guarda no bolso. A professora intervém de forma a fazer a crian-
ça pensar, e ela, ao refletir, reconstitui ações humanas organizando o di-
nheiro e guardando-o no bolso. Como já mencionado ao longo do texto,
o professor pode atuar para enriquecer e ampliar os temas dos jogos,
92
fomentando a assunção de papéis sociais e possibilitando às crianças vi-
venciar novos conteúdos.
Vale argumentar que o conteúdo do jogo protagonizado expressa a recons-
tituição do trabalho humano, a penetração da criança na vida dos adultos, con-
siderando como o adulto age, o que faz, como opera os objetos, como controla
a sua conduta (Elkonin, 2009). Nesse sentido, o conteúdo do jogo reconstituído
pela criança sintetiza suas apropriações relativas aos modos de agir e atuar das
pessoas, por isso a necessidade de ela conhecer mais e melhor o mundo.
Diante do exposto, compreendemos o valor dos estudos sobre o jogo
protagonizado, com a possibilidade de instrumentalizar o professor sobre a
atividade principal predominante no período pré-escolar. Nas palavras de
Vigotski (2021, p. 238): “Gostaria, ainda, de chamar a atenção para mais
um momento: a brincadeira é realmente uma especificidade da idade pré-es-
colar”. Nessa perspectiva, o jogo protagonizado, aliado às atividades diversas
como desenho, obras de artes, literatura infantil, música, pode fomentar o
desenvolvimento psíquico das crianças, favorecendo a emergência de nova
atividade principal, “a atividade de estudo” (Elkonin, 1986).
O jogo contribui para desenvolvimento do plano ideativo da criança,
possibilitando a ela separar-se do plano sensorial (Favinha, 2022). Dessa for-
ma, quanto maiores as possibilidades do professor de ampliar a relação da
criança com o mundo mediante a apreciação da literatura, do cinema, das
obras de artes e o envolvimento em visitas culturais, entrevistas com profis-
sionais, por exemplo, maiores serão as possibilidades de potencializar o plano
ideativo das crianças para sofisticar as reconstituições de determinado papel
social no jogo protagonizado.
Em acréscimo, o enriquecimento desse plano ideativo, para Mukhina
(1995), envolve a participação das crianças em atividades produtivas, con-
tribuindo para o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, es-
pecialmente a imaginação, autocontrole da conduta e função simbólica da
consciência. Cada atividade influencia diferentemente no desenvolvimento
das crianças. Para exemplificar, o desenho possibilita à criança representar, no
papel, suas percepções advindas das sensações de apreciar, tocar, sentir, ouvir.
A representação gráfica de cada criança depende da forma que realizou a ex-
ploração, isto é, a criança expressa no papel percepções singulares.
93
Em complemento a essas assertivas, Mukhina (1995, p. 170) esclarece:
As crianças que acariciaram o esquilo e notaram sua maciez se concentra-
ram no desenho do pelo e deixaram de desenhar muitas partes do corpo
do animal; os que examinaram minuciosamente o animal tentaram dese-
nhar até os menores detalhes, como as unhas.
Por se tratar de processo de criação, para a sofisticação de imagens gráfi-
cas, a criança necessita explorar objetos culturais com todos os sentidos, consi-
derando o valor dessa exploração para representação de objetos reais. Conforme
Vigotski (2009, p. 109) exterioriza: “[...] enquanto desenha, a criança pensa no
objeto que está representando, como se estivesse falando dele”.
A contação de histórias, por sua vez, pode aguçar a percepção auditiva e a
criança, a partir do que escuta, cria um cenário de determinado animal ou pai-
sagem, imaginando o fato narrado. Conjuntamente, a atividade construtiva e
a música contribuem, também, para a criança sofisticar seu repertório artístico
e estético. Como explica Vigotski (2010, p. 352), a arte possibilita a ampliação
do plano ideativo das crianças, expressando aprendizagens especiais ao desen-
volvimento humano, exigindo lugar, tempo e organização para os encontros da
criança com esse aspecto do acervo cultural produzido pelos homens.
A arte transfigura a realidade não só nas construções da fantasia, mas tam-
bém na elaboração real dos objetos e situações. A casa e o vestiário, a
conversa e a leitura, e a maneira de andar, tudo isso pode servir igualmente
como o mais nobre material para a elaboração estética.
Nas palavras de Vigotski (2010), a arte torna-se essencial para ampliar
o repertório cultural da criança e o jogo é arte. A criança reconstrói aspectos
da arte dramática da vida dos adultos (Elkonin, 2009), o que o adulto faz e
como faz. Essa premissa conduz à argumentação acerca da necessária forma-
ção teórica e estética do professor para que ele possa ter condições de envolver
as crianças no mundo cultural (material e imaterial) e estabelecer relações au-
tênticas com elas, possibilitando condições educativas favoráveis ao desenvol-
vimento do plano ideativo na infância, essencial ao processo de humanização.
94
Palavra finais com o desejo de continuar a conversa
As páginas expostas defendem o jogo protagonizado como atividade
propulsora de desenvolvimento das crianças pré-escolares. A relação homem/
homem emerge e, mediante o jogo protagonizado, as crianças realizam seus
desejos de fazer o que o adulto faz e como faz, como utiliza os objetos, como
se comunica, como controla a sua conduta, penetrando em sua realidade.
Nesse processo, a criança reconstitui aspectos da atividade produtiva do adul-
to, a partir das apropriações pertencentes ao meio social no qual está inserida.
Assim, o jogo é a reelaboração criativa da criança do que viu, vivenciou e
participou do “mundo das pessoas” (Elkonin, 1987). Nesse sentido, o jogo
é realidade e a objetivação dessa atividade deflagra-se de maneira singular a
depender da relação e participação das crianças no mundo dos adultos.
A descrição do jogo “Supermercado” ilustra e certifica a necessidade de
a criança agir e executar os mesmos atos como os adultos, além de integrar
aspectos teóricos e práticos. Nessas situações, mediante a intervenção indi-
reta, o professor organiza espaço, tempo e materiais, selecionando o local de
onde se brinca, prevendo o tempo que se brinca e selecionando materiais
pertinentes referente ao tema. Além dessa estruturação intencional do profes-
sor, torna-se necessário estabelecer relações com as crianças potencializando
a comunicação, o autocontrole da conduta, a troca dialógica com o outro
(crianças/crianças e crianças/adultos), a observação e escuta atenta para com-
preender o conteúdo ou esgotamento do jogo, são ações docentes que podem
se caracterizar como intervenções diretas.
Ambas as intervenções constituem papel do professor ao planejar e de-
senvolver suas ações docentes, com o intuito de humanizar as crianças e pos-
sibilitar o desenvolvimento da imaginação, autocontrole da conduta e função
simbólica da consciência na idade pré-escolar.
Referências
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del desarrollo psíquico em la edad infantil. In: ILIASOV, I. I.; LIAUDIS,
V. Y. (Orgs). Antologia de la psicologia pedagógica y de las edades. La
Habana: Pueblo y Educación, 1986. p. 34-41.
95
ELKONIN, Daniil Borosovich. Sobre el problema de la periodización del
desarollo psíquico em la infância. In: La psicologia evolutiva y pedagogia
em la URSS: (Antología). Moscou: Editorial Progresso, 1987. p. 104-124.
ELKONIN, Daniil Borosovich. Psicologia do Jogo. 2.ed. Trad. Álvaro
Cabral. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
FAVINHA, Maria Aparecida Zambom. Bases para o desenvolvimento
do jogo protagonizado na infância e a teoria de Elkonin: um estudo
bibliográfico. 2022. 140 f. Dissertação (Mestrado em Educação)
Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Faculdade de
Filosofia e Ciências, Marília, SP. 2022.
LEONTIEV, Alexis Nikoláievitch; LURIA, Alexander Romanovich;
VIGOTSKII, Lev Semionovitch. Linguagem, desenvolvimento e
aprendizagem. Trad. Maria da Pena Villalobos. 11. ed. São Paulo: Ícone,
2010.
LEONTIEV, Alexis Nikoláievitch. Atividade e consciência. In:
LEONTIEV, Alexis Nikoláievitch. Atividade consciência personalidade.
Tradução de Priscila Marques. Bauru, SP: Mireveja, 2021. p. 145-177.
MUKHINA, V. Psicologia da idade pré-escolar. São Paulo: Martins
Fontes, 1995.
VIGOTSKI, Lev Semionovitch. Imaginação e criação na infância: ensaio
psicológico: livro para professores. Tradução Zóia Prestes. São Paulo: Ática,
2009.
VIGOTSKI, Lev Semionovitch. Psicologia Pedagógica. Trad. Paulo
Bezerra. 3.ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010.
VIGOTSKI, Lev Semionovitch. Sete aulas de L. S. Vigotsky sobre os
fundamentos da pedologia. Trad. Elizabeth Tunes e Zoia Prestes. Rio de
Janeiro: E-Papers, 2018.
VIGOTSKI, Lev Semionovitch. Psicologia, Educação e desenvolvimento.
Trad. Elizabeth Tunes e Zoia Prestes. São Paulo: Expressão Popular, 2021.
p. 209-239.
97
CAPÍTULO 5
Formação Continuada do Professor:
Possibilidades de Materialização da Teoria
Histórico-Cultural no Trabalho da Creche
Juliana Guimarães Marcelino Akuri
Marcelo Campos Pereira
Elieuza Aparecida de Lima
A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta
dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos.
Eduardo Galeano
As palavras do jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940-
2015) nos provocam a pensar o desafio da formação continuada de professo-
res no trabalho diário não apenas com bebês e crianças pequenas na educação
infantil, objeto deste texto, mas em todos os níveis de escolaridade.
Não se trata da busca ingênua por estratégias supostamente capazes de
resolver lacunas na formação e no trabalho docentes, como se houvesse re-
ceitas a serem seguidas, mas da configuração permanente de um caminho de
estudos para o desenvolvimento do pensamento teórico capaz de aproximar
conscientemente os professores da essência do seu trabalho. No entanto, va-
lendo-nos da metáfora do referido escritor, esse horizonte parece se distanciar
de nossos passos, considerando o contexto em que as instituições de educação
estão inseridas – como parte de nossa sociedade desagregadora e excludente
que minimiza a intelectualidade do trabalho docente e preconiza atividade
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-558-2.p97-108
98
na prática8. Ao professor costuma ser atribuído o papel de executor de cur-
rículos e propostas idealizados e organizados por outros, tantas vezes ainda
baseados em práticas assistencialistas ou antecipatórias típicas do ensino fun-
damental (Akuri, 2022).
Com a ousadia necessária para nos aproximarmos desse horizonte utó-
pico, não de forma idealizada, mas em busca da compreensão da realidade
em seu movimento dialético, evidenciamos, neste breve texto, aspectos do
trabalho de formação continuada realizado em uma escola municipal de edu-
cação infantil do interior paulista9 como possibilidade de materialização dos
princípios teóricos que embasam nossos estudos e pesquisas em favor de uma
educação capaz de humanizar crianças e os adultos que com elas trabalham.
Esse caminho de estudos, pesquisas e trabalho diário na liderança pe-
dagógica e administrativa da escola vivenciado pelos autores é baseado na
Teoria Histórico-Cultural, fundamentada nos preceitos de Karl Marx (1818-
1883), que tem o método materialista histórico-dialético como forma de
análise e apreensão dos objetos, fatos e fenômenos, orientando-nos à com-
preensão da realidade em sua totalidade, o que é essencial para avançarmos
nos processos de desenvolvimento da consciência crítica e superação da alie-
nação no trabalho docente – e isso pode se dar por meio de sistematizadas
ações para a formação teórica dos professores na escola.
Compreender teoricamente a realidade exige um percurso diferente
daquele que costumamos trilhar em nosso cotidiano orientado pelo senso co-
mum, por aquilo que achamos ou consideramos certo. Da esfera cotidiana da
vida todos nós participamos desde que nascemos. É nela que vamos nos apro-
priando, a partir das relações espontâneas com os outros, da linguagem, dos
valores, costumes e regras sociais; é nela que vamos aprendendo a usar objetos
e instrumentos culturais a fim de satisfazer nossas necessidades imediatas. As
situações e atividades cotidianas não requerem de cada um de nós uma lógica
e um nível de atividade consciente complexos, mas para elas desenvolvemos
atitudes naturais e práticas, bastando-nos a lógica formal que se apoia nos
aspectos aparentes da realidade e na obviedade (Heller, 2014; Mello, 1993).
8 Referimo-nos às ações docentes desenvolvidas diariamente nas instituições de Educação Infantil
fundamentadas por um pensamento embasado no senso comum.
9 A referida escola, destinada ao trabalho com bebês e crianças menores de 3 anos, foi lócus das
pesquisas de doutoramento dos autores Akuri (2022) e Pereira (2024).
99
A perspectiva marxiana ensina que a realidade existe de forma comple-
xa, independente daquilo que dela desejamos ou sabemos de forma imediata.
Para compreendê-la, é preciso conhecer a totalidade dos aspectos que a com-
põem, não nos detendo a sua superficialidade, que é parcial e limita nosso
entendimento, mas buscando um caminho teórico para enxergar as múlti-
plas determinações dessa realidade, conhecendo, assim, sua essência (Kosik,
1976). Essa compreensão inscreve-se na dimensão não cotidiana da nossa
vida, da qual fazem parte as atividades humanas mais complexas, tais como a
arte, a ciência, a política, a filosofia, a educação. No processo de apropriação
das objetivações humanas concretizadas em tais atividades, níveis superio-
res de consciência são simultaneamente formados e exigidos, o que requer o
aprendizado e o exercício da lógica dialética.
Assim, esse caminho teórico para a compreensão da realidade objetiva
nos permite enxergar que ela não está posta como algo pronto, imutável e
apartada da atividade humana, visto que não é natural. A realidade é histó-
rica – revela-nos o método materialista histórico-dialético –, o que equivale
dizer que é feita por homens e mulheres em determinado momento histórico
e social, estando, portanto, em constante movimento, o que abre um campo
de possibilidades concretas para nela se fazer intervenções e transformações
(Marx, 1978; Tonet, 2013).
Com esse entendimento, defendemos que o processo de formação con-
tinuada do professor ofereça condições para uma abordagem teórica da reali-
dade, rompendo com o senso comum, posto que esse profissional,
[...] influenciado pela ideologia do capitalismo ao nível da lógica interna
do pensar, de um modo geral, dirige sua busca de conhecimento pela lógi-
ca formal, insuficiente para uma abordagem consistente do real – que de-
termina, enfim, a própria falta de conhecimento por parte dos educadores
do que seja a consciência crítica, condição necessária, ainda que não su-
ficiente, para que o educador possa desenvolver um trabalho intencional
e refletido que permita seu desenvolvimento. (Mello, 1993, p.118-119).
A consciência crítica – aqui entendida, na perspectiva marxiana, como
compreensão das múltiplas determinações que possibilitam conhecer a totali-
dade de um fenômeno – não é formada espontaneamente, mas requer, como
100
processo social, ser desenvolvida. Nesse processo, pela via do pensamento
teórico desenvolvido e exercitado em organizadas ações de formação conti-
nuada – tais como a Atividade de Estudo teorizada por Davídov (1988), ex-
plicitada adiante – o professor pode compreender seu trabalho como ativida-
de complexa, transformando sua relação com ele para a concretização de uma
educação conscientemente voltada ao máximo desenvolvimento humano.
No movimento de enxergar a complexidade do processo educativo,
as práticas pedagógicas, aspecto mais aparente do trabalho docente, passam
a ser compreendidas em sua íntima ligação com a dimensão interna desse
trabalho, que o condiciona. A essência da atividade docente abrange o co-
nhecimento de princípios teóricos reveladores e orientadores, por exemplo,
de como a criança aprende e se desenvolve, da atividade principal que rege a
melhor forma de ela se relacionar com o mundo em cada período da vida, do
lugar que a criança ocupa nas relações, bem como do lugar da cultura e o do
próprio professor no processo de educar. Esses são conceitos fundamentais à
organização do currículo na educação infantil, responsáveis por nortear um
trabalho desenvolvente desde o começo da vida.
O exercício de compreender teoricamente o processo educativo na to-
talidade das determinações que o compõem – aparência e essência – abrange
também o entendimento de que a educação, como parte da sociedade, tende a
ser reprodutora da lógica que distancia os indivíduos do conjunto das formas
superiores das objetivações humanas materiais e não materiais – objetos, ins-
trumentos, valores, língua, arte, lógica, conhecimento científico, dentre tantas
outras que fazem parte da cultura criada historicamente pela humanidade.
Outras determinações que compõem a realidade do processo edu-
cativo envolvem a desvalorização do trabalho docente traduzida em baixa
remuneração, jornada de trabalho exaustiva, adoecimento profissional,
precariedade da formação inicial e ausência de ações organizadas de for-
mação continuada, reduzindo as possibilidades de qualificação do traba-
lho docente por meio da apropriação do conhecimento, o que é direito
de todos. Considerar tais determinações nos permite enxergar, ainda, a
divisão social reproduzida na organização do trabalho na escola, que faz
parecer natural, por exemplo, a separação entre especialistas – responsá-
veis pela elaboração e definição de currículos e programas – e professores
101
que apenas os executam sem espaço para crítica e para autoria, elementos
fundamentais à atividade docente.
Diante desse cenário, com Akuri (2022, p. 28), defendemos a forma-
ção continuada docente como um processo
[...] comprometido com a luta por uma educação para o desenvolvimento
humano das crianças desde bebês, o que requer também a humanização dos
professores por meio da sua relação consciente com as objetivações do gê-
nero humano, que carregam as qualidades tipicamente humanas das quais
toda pessoa precisa se apropriar para desenvolver plenamente sua inteligên-
cia e personalidade. Enxergamos essa luta, dialeticamente, como forma de
resistência e movimento de superação da exploração e da alienação engen-
dradas na sociedade capitalista, o que só se dará com a superação radical
desse tipo de organização social. Compreendemos que, nesse movimento de
superação, a educação tem papel fundamental, criando possibilidades para a
redução do distanciamento entre indivíduo e gênero humano.
No enfrentamento das condições concretas tantas vezes desfavoráveis
à organização e efetivação das ações de formação continuada no espaço e
tempo de trabalho na escola, vislumbramos nas ações da liderança pedagó-
gica e administrativa da creche pesquisada possibilidades de materialização
de princípios da Teoria Histórico-Cultural, buscando criar as melhores con-
dições objetivas para o desenvolvimento humano dos adultos responsáveis
pelas ações indissociáveis de educação e cuidado das crianças para as quais
seu trabalho pode ser destinado de forma cada vez mais consciente.
Para isso, o Projeto Político Pedagógico (PPP), que concentra os
conceitos científicos essenciais às ações dos profissionais dedicados à es-
cola de educação infantil, configura-se como um valioso documento para
todos que fazem parte da comunidade escolar – equipe gestora, docentes,
educadores e famílias. Aliado às ações formativas, esse documento redi-
gido com clareza teórica e a simplicidade necessária à compreensão de
todos, evidencia os princípios que alicerçam a dinâmica do pensar e agir
dos profissionais responsáveis por planejar, desenvolver e avaliar a cultura
escolar no que se refere aos seus tempos, espaços, materiais e situações
relacionais motivadoras da formação das qualidades humanas em cada
criança (Pereira, 2024).
102
Um princípio que embasa os processos coletivos e colaborativos vivi-
dos diariamente na escola como ações de formação continuada, remete-nos à
lei genética geral do desenvolvimento proposta por Vigotski (2018), segun-
do a qual funções psíquicas superiores – que são qualidades especificamente
humanas tais como fala, raciocínio, formas de interpretação da realidade,
sentimentos, emoções, dentre outras – surgem primeiramente como formas
de comportamento coletivo, na relação com outras pessoas, e só depois são
internalizadas, tornando-se funções individuais.
Essa teorização ampara nossa compreensão sobre o valor da organiza-
ção de relações e ações diárias na escola que sejam promotoras de vivências
com elementos da cultura mais elaborada, que transcende o cotidiano, não
só com e para as crianças, mas também entre os profissionais – o que diz res-
peito, por exemplo, à participação ativa e constante da liderança pedagógica
nas atividades que compõem o currículo em movimento na creche. A partir
do que foi vivenciado em momentos de acolhida, desenvolvimento de expe-
riências, alimentação, higienização e repouso, são forjados espaços e tempos
com o professor da turma para diálogo, reflexão e avaliação coletivos à luz dos
pressupostos teóricos presentes no PPP, com a intenção de que ele possa se
apropriar desse movimento teórico-prático e, progressivamente, se objetivar
de forma mais autônoma e consciente.
Relacionado a este, outro princípio teórico materializado nas ações de
formação continuada diz respeito ao valor da presença das formas ideais das
qualidades humanas, das quais fala Vigotski (2018), interagindo com as formas
elementares e influenciando o desenvolvimento psíquico não só da criança,
mas de todos os sujeitos envolvidos no processo educativo. Assevera o autor
que, sem a presença dessas formas mais desenvolvidas das objetivações huma-
nas no meio em que a pessoa convive e se relaciona, o desenvolvimento das
capacidades humanas é limitado. Dessa forma, além de compreendermos o
prejuízo causado na formação da inteligência e personalidade da criança desde
bebê, podemos pensar no agravo à formação do professor e sua profissionali-
dade já submetidas à lógica do mercado que limita e empobrece sua relação e
consciência sobre o trabalho docente, como discutimos anteriormente.
Com essa compreensão, no processo de formação continuada desen-
volvido na escola, as ações e atitudes da liderança pedagógica para com todos
103
são referência, ou seja, buscam assumir o compromisso de se aproximar da
forma culturalmente mais desenvolvida. Podemos citar, por exemplo, a ma-
neira respeitosa de dialogar com os envolvidos para resolver uma situação que
trouxe problema à escola, provocando cada um a refletir sobre a sua respon-
sabilidade no interior de um espaço coletivo, tendo em vista o bem de todos.
Essas e outras tantas ocorrências presentes no dia a dia da escola requerem
consciência crítica para revelar os múltiplos aspectos que condicionam cada
situação, além de um permanente esforço de superação das relações burocrá-
ticas e autoritárias que facilmente se desenvolvem no interior da escola, parte
de uma sociedade que vive esse tipo de relações.
Em nosso entendimento, ações das mais simples e corriqueiras às mais
complexas e teóricas compõem o processo formativo na escola e se fortalecem,
como afirma Pereira (2024), quando alicerçadas no PPP organizado como um
potente instrumento teórico-metodológico que, além de orientar a formação
docente, pode sofisticar as relações desenvolvidas na creche, visando à supe-
ração do imediatismo para a constituição de ações conscientes e deliberadas
para promover relacionamentos humanizadores – entendidos aqui não só na
perspectiva do acolhimento, respeito e democracia, mas da promoção do de-
senvolvimento humano da comunidade escolar como um todo.
Outro princípio norteador das ações de formação continuada nos re-
mete à questão da atividade, tal como teoriza Leontiev (2014). Estar em ativi-
dade, na concepção do autor, excede o movimento, a ação, pois envolve pro-
cessos psíquicos relacionados a percepções, sentimentos, emoções e atribuição
de sentido. Assim, para estar em atividade, o indivíduo precisa ser provocado
por uma necessidade que orienta a busca do objeto capaz de satisfazê-la; isso
deflagra o motivo para ele agir e se envolver, atribuindo sentido ao que está
fazendo. Nesse processo, crianças e adultos se desenvolvem psiquicamente.
Esse princípio torna-se um grande desafio no processo de formação
continuada na escola, qual seja o de criar condições para que o professor es-
teja em atividade, ocupando o lugar de sujeito nesse processo, lugar que pou-
cas vezes pode ter experimentado no decorrer de sua trajetória escolar desde
criança. O objetivo das ações de formação continuada organizadas na escola
deve coincidir com aquilo que move o professor a estudar (para satisfazer a
necessidade criada): o desejo de saber mais sobre o seu trabalho, sofisticando
104
sua relação com ele. Assim, segundo Leontiev (2014), é nessa relação coinci-
dente entre a finalidade da ação proposta e o motivo para agir sobre o objeto
de estudo que consiste o sentido possível de ser atribuído pelo professor ao
processo formativo, podendo se tornar um sentido vital, parte das determi-
nações internas de sua personalidade, capazes de orientar sua ação no mundo.
A formação desse sentido vital que a atividade, na acepção da Teoria
Histórico-Cultural, pode proporcionar é a poderosa transformação que se
quer ver acontecer no processo de desenvolvimento humano tanto das crian-
ças como dos adultos e isso se relaciona à proposta de vivência das ações que
compõem a Atividade de Estudo no processo de formação continuada vivido
na creche em questão.
As elaborações de Leontiev (2014) e Elkonin (1987) sobre os tipos de
atividade e sua periodização, trazem a Atividade de Estudo como dirigente
do desenvolvimento do psiquismo na idade escolar inicial (dos 7 aos 11 anos,
aproximadamente), continuando presente no período da adolescência e, mais
tarde, no período escolar avançado, em preparação para a atividade profissio-
nal. Recordamos que, segundo os autores, a Atividade de Estudo é precedida
pelo jogo de papéis (dos 4 aos 7 anos), atividade objetal manipulatória (de 1
a 3 anos) e a comunicação emocional no primeiro ano de vida.
Davídov (1988) caracteriza a Atividade de Estudo como uma forma
especial de atividade cujo objetivo principal é a autotransformação do su-
jeito que, ao vivenciar as ações para a apropriação do conteúdo teórico da
atividade, transforma a si mesmo como sujeito pensante. Isso requer a trans-
formação do objeto de conhecimento, relacionando suas dimensões externas
(aparentes) com as internas (essenciais) para a compreensão de sua totalidade.
A vivência das etapas dessa atividade cria condições para formar e exercitar
capacidades psíquicas superiores de análise, síntese, reflexão e planificação
mental, fundamentais ao desenvolvimento do pensamento teórico.
Assim, com Akuri (2022, p.51), pensamos nas consequências de tal
processo para o trabalho docente quando vislumbramos
[...] a possibilidade de cada indivíduo alcançar o desenvolvimento desse
tipo superior de pensamento, obtendo a autonomia no processo de apro-
priação do conhecimento que subsidia sua ação criativa e transformadora
do contexto em que vive [...]. A atividade profissional do professor requer
105
a compreensão da totalidade do seu trabalho para uma atuação consciente
nos processos desse trabalho, como sujeito que pensa, escolhe, planeja, de-
senvolve e avalia. Requer, assim, uma abordagem da realidade subsidiada
pela relação superior com o conhecimento, que advém do desenvolvimen-
to e do exercício do pensamento teórico.
Com essa defesa, ações da Atividade de Estudo proposta por Davídov
(1988) foram vivenciadas no processo de formação continuada das profes-
soras da creche pesquisada, entre os anos de 2019 e 2020, com cerca de 30
encontros inicialmente presenciais e, posteriormente, de forma remota em
razão da pandemia da Covid-19.
Esse trabalho começou com reflexões e diálogos coletivos sobre as con-
cepções das professoras a respeito do currículo na educação infantil, culmi-
nando com a escolha do conceito de humanização para ser trabalhado no
processo de vivência da Atividade de Estudo. A escolha se justifica pela per-
cepção do grupo sobre a falta de clareza teórica desse conceito comumente
expressado de forma ainda superficial, apenas como algo ligado à empatia,
amorosidade e respeito. A partir disso, com um motivo claro para as professo-
ras do grupo e com base na necessidade criada de investigar e compreender a
essência desse conceito fundamental ao trabalho docente, diversas atividades
foram realizadas – leitura e estudo de textos teóricos e documentos oficiais,
discussão de filmes e diálogos com parceiros mais experientes – na busca por
identificar, por meio da análise, a base geral do conceito de humanização
que se pretendia conhecer teoricamente. Aqui vislumbramos o princípio das
formas ideais proposto por Vigotski (2018) a guiar os passos das professoras
na Atividade de Estudo.
Seguindo as ações de estudo explicitadas por Davídov (1988), foi feita
a modelação desse conceito no decorrer de um longo caminho de tentati-
vas individuais e coletivas até que o grupo conseguisse fixar num esquema a
chamada relação universal, ou seja, os elementos que caracterizam a essência
do conceito de humanização deduzidos por meio dos estudos realizados –
cultura, atividade do sujeito e parceria mais experiente, tendo a mediação
como elemento central. Esse esquema foi analisado, transformado pelo gru-
po e aplicado, por cada professora, a tarefas particulares que envolveram a
elaboração de seus planejamentos e avaliações semanais buscando identificar
106
se as intenções e propostas planejadas contemplavam ou não os elementos
necessários para serem potencialmente humanizadoras. Nesse processo, tam-
bém foram analisadas propostas anteriormente planejadas e vivenciadas pelas
professoras com as crianças a partir do modelo teórico.
Assim, as ações de estudo para o desvelamento do conceito de huma-
nização, nesse rico processo de tomada de consciência e autoria da atividade
docente por meio do desenvolvimento e exercício do pensamento teórico,
foram criando condições para um pensamento superior sobre a prática peda-
gógica desenvolvida, numa constante sofisticação da compreensão das profes-
soras, que foi sendo expressada na linguagem e na escrita objetivada nos pla-
nejamentos e avaliações de forma mais articulada e embasada teoricamente.
Palavras finais com o desejo de continuar a conversa
O sonho de uma escola comprometida com a emancipação passa ne-
cessariamente pela formação humana do professor e de cada educador que
nela atua profissionalmente como um representante do gênero humano, ou
seja, um indivíduo capaz de se relacionar de forma superior com a cultura e a
natureza, com os outros e consigo.
As ações de formação continuada desenvolvidas pela liderança da cre-
che pesquisada, trazidas neste texto como possibilidades de materialização da
Teoria Histórico-Cultural, nos revelam o valor de um processo organizado e
fundamentado cientificamente, admitido como meta prioritária do Projeto
Político Pedagógico da escola, que é o fio condutor do trabalho nela pla-
nejado, concretizado e aperfeiçoado num processo coletivo, participativo e
orientado ao desenvolvimento da consciência dos profissionais, amparada no
conhecimento teórico (Khole; Akuri; Pereira, 2020).
É por meio de diferentes situações formativas que todos os profissio-
nais da escola podem se apropriar desse documento orientador da proposição
de uma organização escolar que, em sua riqueza e complexidade, possa efe-
tivamente provocar relações de fato humanizadoras entre os adultos e deles
com os bebês e as crianças pequenas sob sua responsabilidade.
Assim, reiteramos que, organizado a partir do conhecimento científi-
co, o trabalho de formação continuada de professores – desenvolvido tam-
bém com os demais educadores da escola – pode oferecer condições para a
107
apreensão crítica da realidade, na relação dialética com as práticas desenvolvi-
das. Esse movimento de apropriação do conhecimento teórico, que possibi-
lita uma compreensão superior da realidade em sua totalidade, pode trazer a
clareza necessária para a concretização da práxis educativa capaz de transfor-
mar ações e atitudes ainda distanciadas da humanização pretendida, criando
as melhores condições objetivas para que cada adulto na escola e cada criança,
desde bebê, se desenvolvam plenamente.
Referências
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formação teórica de professores: implicações para a organização de
um currículo humanizador na creche. 2022. 169 f. Tese (Doutorado em
Educação) – Faculdade de Filosofia e Ciências, Universidade Estadual
Paulista (Unesp), Marília, 2022. Disponível em: http://hdl.handle.
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and experimental psychological research”. 1988.
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KHOLE, Érika Cristina; AKURI, Juliana Guimarães Marcelino;
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para uma educação humanizadora desde o começo da vida: um olhar por
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KOSIK, Karel. Dialética do concreto. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.
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aprendizagem. 13. ed. São Paulo: Ícone, 2014. p. 59-83.
108
MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos e outros textos
escolhidos. São Paulo: Abril Cultural, 1978.
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consciência crítica. Perspectiva, Florianópolis, v. 11, n.19, p. 117-130,
1993.
PEREIRA, Marcelo Campos. Projeto político-pedagógico de uma creche:
contexto para relações humanizadoras. 2024. 177 f. Tese (Doutorado em
Educação) - Faculdade de Filosofia e Ciências, Universidade Estadual
Paulista (Unesp), Marília, 2024. Disponível em: https://hdl.handle.
net/11449/254325. Acesso em: 20 mar. 2024.
TONET, Ivo. Método científico: uma abordagem ontológica. São Paulo:
Instituto Lukács, 2013.
VIGOTSKI, Lev Semionovich. Sete aulas de L. S. Vigotski sobre os
fundamentos da pedologia. Organização e tradução de Zoia Prestes,
Elizabeth Tunes e Cláudia da Costa Guimarães Santana. Rio de Janeiro:
E-Papers, 2018.
PARTE 2
FORMAÇÃO E ATUAÇÃO DOCENTE
NA EDUCAÇÃO INFANTIL:
DESAFIOS E POSSIBILIDADES
PARA UMA EDUCAÇÃO LITERÁRIA,
ESTÉTICA E HUMANIZADORA
111
CAPÍTULO 6
Mediação de Leitura Literária e a
Humanização das Crianças
Cyntia Graziella Guizelim Simões Girotto
A palavra - basta uma só palavra - é flecha para sangrar o abstrato
morto. Há, contudo, dores que a palavra não esgota ao dizê-las.
‘Vejo a palavra enquanto ela se nega a me ver. A
mesma palavra que me desvela, me esconde. Toda
palavra é espelho onde o refletido me interroga.
Bartolomeu Campos de Queiroz
O capítulo trata do conteúdo da apresentação oral em mesa redonda in-
titulada “Mediação de leitura literária e fruição estética: questões para a formação
de professoras e professores da Educação Infantil” no II Colóquio do GEPEDEI
& CRIA: “Formação de professores e professoras da Educação Infantil para
a Promoção e Mediação de Leitura Literária”, promovido pelos Grupos de
Pesquisa GEPEDEI (Grupo de Estudos e Pesquisa em Especificidades da
Docência na Educação Infantil) da UNESP, Marília, SP, e CRIA (Centro de
Respeito às Infâncias e suas Aprendizagens) da UFSJ, São João del Rei, MG,
realizado no dia 21 de setembro de 2023.
Nele são discutidas questões relacionadas à mediação de leitura lite-
rária e fruição estética como meios de humanização das crianças, com vistas
a abordar o conteúdo essencial e concernente à temática, imprescindível à
formação de professores e professoras da Educação Infantil, ou seja, aqueles
saberes vitais que todo professor(a) deve ter para si, sob pena de comprometer
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-558-2.p111-131
112
sua prática docente, beirando a processos desumanizadores, ainda que esteja
carregado de boas intenções. Dessa forma, discute-se mediação, leitura, lite-
ratura infantil e os contextos dos atos humanos correlacionados a tais concep-
ções. O debate tematiza a conjugação entre as palavras eleitas para expressar
o título: mediação literária, leitura, infâncias, livros, crianças e humanização.
O objetivo, além de exercitar o prazer de pensar algo possível, é estimular
quem trabalha com a educação da infância a enfrentar o desafio de criar, com
o seu pensar, outros sentidos para o que se tem chamado de mediação literária
a partir de alguns intercessores. Por isso, vamos nos aproximar dos pensamen-
tos poéticos-educativo-políticos de Bartolomeu Campos de Queirós10 e dos
pensamentos ‘filosóficos-psicológico-sociológicos’ de Mikhail Mikhailovich
Bakhtin11 e Lev Semionovitch Vigotski12 de maneira que eles, mutuamente,
nos afetem com a força de suas ideias e com os conceitos eticamente ancora-
dos, assim como com as figuras estéticas trasvestidas de conceitos filosóficos de
maneira que possamos derivar, dos referenciais científicos já instituídos, linhas
potencializadoras de outras perspectivas pedagógico-poéticas.
A beleza da poesia não está no que ela é, mas no que ela pode. E o
que ela pode depende do que queremos de nós mesmos, do que queremos
de nossos corpos-mente na constituição de uma Pedagogia imanente à vida
10 Foi um escritor e poeta mineiro (1944-2012), formado em Educação e Artes e criou-se como
humanista. Cursou o Instituto de Pedagogia em Paris e participou de importantes projetos de
leitura no Brasil como o ProLer e o Biblioteca Nacional, dando conferências e seminários para
professores de leitura e literatura. É autor do Manifesto por um Brasil Literário, do qual participava
ativamente. Possui mais de 40 livros publicados (alguns deles traduzidos para inglês, espanhol e
dinamarquês), em virtude dos quais recebeu muitas premiações.
11 Foi um filósofo e pensador russo (1895-1975), teórico da cultura europeia e das artes, um verdadeiro
pesquisador da linguagem humana. É conhecido por ter desenvolvido o conceito de dialogismo,
uma propriedade constitutiva da linguagem humana, segundo o autor. Além de outros conceitos
literários como polifonia e cultura cômica, cronotopo, carnavalização, alteridade, exotopia, gêneros
do discurso etc. Ele é o líder intelectual de estudos científicos e filosóficos desenvolvidos por um grupo
de estudiosos russos, que ficou conhecido como o “Círculo de Bakhtin”. [Dados provenientes em
discussões no grupo de pesquisa PROLEAO- Processos de leitura e escrita: apropriação e objetivação]
12 Foi um psicólogo (1896-1934) bielo-russo, proponente da Teoria histórico-cultural (THC).
Pensador importante em sua área e época, pioneiro no conceito de que o desenvolvimento psíquico
das crianças, de sua inteligência e personalidade ocorre em função das relações sociais e condições
objetivas de vida e educação. [Dados provenientes em discussões no grupo de pesquisa PROLEAO-
Processos de leitura e escrita: apropriação e objetivação]
113
humanizada, à nossa vida. Uma ‘pedagofilosofia poética’ ou uma ‘pedagopoe-
sia filosófica’ ou uma ‘filopoesia pedagógica’.
Neste bojo vamos discutir mediação literária em sua acepção primor-
dial, e, para tanto, buscar a raiz da compreensão do conceito de mediação
torna-se fundamental.
Para entendermos o lugar fundamental da educação e da escola para
os seres humanos recorremos a perspectiva vigotiskiana para a qual o próprio
ato de humanizar-se se confunde com o formar-se.
Quais seriam as bases epistemológicas que justificariam a diferenciação
entre, de um lado, aquilo que os humanos orgulhosamente passaram a cha-
mar de modo de vida em cultura e, de outro, o reino animal. Convido vocês
que estão do outro lado da tela, já que este nosso diálogo está se dando de for-
ma virtual, a pensarmos, aqui neste cronotopo acadêmico, nas fronteiras do
que se considera ser ‘um humano’. Colocada de outro modo a questão seria
a seguinte: afinal de que falamos quando nos referimos à condição humana,
ao gênero humano?
Vale lembrar que compartilhamos com os animais o fato de que nas-
cemos para a vida. É a transformação natural, genética, biofísica e orgânica
que representa a vinda de um novo ser ao universo dos vivos. Desse ponto de
vista, podemos dizer que assim como um cãozinho, um ser-humano tem na-
talidade. Entretanto, diferente dos demais seres vivos, os humanos precisarão
de um segundo parto: precisarão do nascimento social, após a natalidade bio-
lógica. Além de surgirem para a vida, os bebês (filhotes do homem) necessitarão
de nascerem para o mundo.
Na trilha do caminho reflexivo, depreendemos dos estudos da THC
que enquanto o conceito de vida englobaria todas as esferas biofísicas que
nos ligam aos animais e aos demais elementos naturais, o conceito de mundo
viria a configurar exatamente o que seria específico dos humanos, referir-se-ia
ao acumulado de linguagens, símbolos, normas e técnicas que são transmiti-
dos de uma geração a outra.
Justamente daí viria o drama de toda a condição humana: somos passí-
veis de não nos humanizarmos caso as condições culturais e sociais necessárias
para que isso ocorra não se apresentem, mesmo que nosso arcabouço biológi-
co ofereça as condições necessárias para tal. Se não houver comprometimento
114
rigoroso de uma geração para com a outra, de um setor social específico para
com os demais, esse acumulado representado pelo mundo humano pode ser des-
feito, abandonado, esquecido, negligenciado e, em última instância, descartado.
Nessa medida, um dos principais meios pelos quais os homo sapiens se
tornam humanos é por via da criação e do intercâmbio de símbolos através
dos quais elaboram as suas experiências, engendrando um panorama favorá-
vel para que se associem e convivam em sociedade. O terreno fundamental
da transmissão desse mundo comum herdado é o da educação e o lócus prin-
cipal engendrado pela modernidade para essa transmissão se convencionou
como sendo a escola.
O problema é quando se chega a conceber que educação seria um mero
repasse de informações de uma geração à outra, ingenuamente acreditando
que a tradição existe por si só, negligenciando o aspecto eminentemente se-
letivo de qualquer operação sobre o conhecimento do passado acumulado.
Ademais uma outra questão que ao nosso ver parece extremamente proble-
mática é a de se tomar a educação como mera transmissão de conhecimentos
letrados bem definidos, excluindo os corpos e as subjetividades dos processos
de formação que ocorrem na escola.
Não sem razão, no entrecruzar das ideias, podemos trazer à reflexão,
um enunciado poético-filosófico muito atual, embora datado há mais de duas
décadas, especificamente em 1991, na ocasião do III Encontro Estadual do
Projeto Biblioteca/Vídeo Escola, de ‘Bartô’, “Bartolo-nosso13, em que o es-
critor mineiro teve a oportunidade de aprofundar a dimensão de sua crítica
em relação à conexão automática entre Educação e Escola. E nela vemos a
expressão denotativa do segundo nascimento dos homens, e as facetas da
educação tomada, notadamente, como um processo triplo: a um só tempo de
socialização (tornar-se membro de uma comunidade), humanização (apro-
priação das qualidades humanas) e singularização (a subjetivação humana)
Educação, a palavra, e consequentemente sua extensão, tem sido confundi-
da no país como hábito escolar. Melhor pensando, este processo seria o de
criar condições para que o sujeito venha apoderar-se de seus atributos humanos,
13 Em sua crônica intitulada “Bartolo-nosso”, o escritor Leo Cunha faz uma brincadeira com o nome
do escritor mineiro de literatura brasileira, e assim a justifica: “Bartolomeu não era meu, era nosso.
De todo mundo que ama a poesia, a literatura, a leitura, a memória, o ensino, o encanto”.
115
de sua dignidade. Há que se ter a confiança na capacidade do sujeito de
construir a si mesmo. A educação não é um processo raso, linear. Há que
concorrer para que o sujeito, ao dobrar-se sobre si mesmo, refaça sua pró-
pria face. Ver quem ele é e desejar-se em outros vértices. O processo tem que
perpassar o homem. Para tanto, todos os outros animais da natureza são adestra-
dos, e só o homem pode se educar. Pensar sobre si mesmo. Alterar-se à luz de
seu desejo. (Queirós, 1991 [2012], p.101-102 – grifos meus)
O próprio Bartolomeu C. de Queirós disse certa vez que: “A infância
é o nó inicial para se estabelecer uma trama que perdura pela existência
(2007 [2012], p.80). Seguindo esta sua indicação fui buscar por suas memó-
rias. Instado por Fanny Abramovich a escarafunchar sua infância, no texto
“Foram muitos, os professores”, que consta na coletânea “Meu professor ines-
quecível: ensinamentos e aprendizados contados por alguns de nossos melho-
res escritores”, de 1997, B. C. de Queirós vai se lembrar mesmo é de seu avô.
Quantas memórias afetivas, que nos conduzem a redescobertas!
Meu avô, arrastando solidão, escrevia nas paredes da casa. As palavras
abrandavam sua tristeza, organizavam sua curiosidade silenciosamente.
Grafiteiro, afiava o lápis como fazia com a navalha. A cidade era seu as-
sunto: amores desfeitos, madrugada e fugas, casamentos e traições, veló-
rios e heranças[...]. Eu restava horas sem fim, de coração aflito, seduzido
pelas histórias de amor, de desafeto, de ingratidão, de mentiras do meu
primeiro livro - as paredes da casa do meu avô. Assim, percebi o serviço
das palavras - facas de dois gumes. Meu avô desdizia verdades eternas com
as mesmas palavras com que escreveram a Bíblia Sagrada [...]. Essa sua
capacidade de negociar com as palavras, de buscar seus avessos me atordoava
e seduzia. [...] suas paredes mais se enchiam de avisos sobre o mundo e as
fronteiras do mundo. Eu decorava tudo e repetia timidamente. Eram tran-
quilas suas aulas, e o maior encanto estava em meu avô cultivar as dúvidas.
[...] Às vezes ele me pegava esticando o pescoço, tentando alcançar um
pedaço mais longe, um parágrafo mais alto. Ele me apontava a cadeira. Eu
buscava e ele me ajudava a subir.[....] Meu avô devia supor que escola fosse
o mundo inteiro, a vida inteira, com noite e dia, perdas e ganhos, dores e
tristezas, sonos e sonhos. (Queirós, 1997 [2012], p.19-21 – grifos meus)
Em meio à ironia divertida cultivada pelo avô, as palavras surgem para
o menino Bartolomeu como possibilidade viável para o prazer. Palavras que
116
permitiam a aproximação com as incongruências do real, com as impossi-
bilidades da razão e com os dramas da vida. Não para com elas erigir artifi-
cialismos, conforme Bartolomeu criança já parecia desconfiar. Com o avô,
o Bartolomeu menino podia estar consigo mesmo. Não havia um ideal de
criança vindo como voz de comando, de cobrança e controle.
Entendamos, meus queridos professores e professoras da infância (quer
sejam vocês já atuantes, ou aqueles que ainda se encontram em sua formação
inicial, como os estudantes de Pedagogia que aqui estão, para os quais devo
dizer diretamente ao coração de jovem educadores, com o meu mais profun-
do respeito aos seus saberes e práticas): quanto maior o investimento que se
faz nesse ideal, que não passa de um fantasma produzido pela cultura de um
tempo, estranho portanto à singularidade que marca a subjetividade de cada
criança, mais fraca é a sensação de satisfação de quem assim o promove.
E se a escola do avô de Bartô era “o mundo inteiro”, sem simplificações
ou reduções em nome de uma incapacidade das crianças, a escola formal vai
parecer um pesadelo para o autor que assim recorda:
Meu avô poderia ter sido meu primeiro professor se fizesse plano de aula,
ficha de avaliação, tivesse licenciatura plena. O fato é que ele não aplicava
prova, não passava dever de casa nem brincava de exercício de coordena-
ção motora. Minha coordenação motora, eu desenvolvi andando sobre muros
ou pernas de pau, subindo em árvores, acertando as frutas com estilingue ou
enfiando linha na agulha para minha avó chulear. [...] Mas acreditava, e
hoje ainda mais, não ser a casa de meu avô uma escola. Ela não possuía
cartazes de cartolina nas paredes, vidro com semente de feijão brotan-
do, cantinho de leitura com livrinhos infantis, lista de ajudantes do dia,
tanque de areia, palhacinho de isopor, flanelógrafo de feltro verde. [...]
Meu avô não usava toquinhos coloridos, tampinhas de garrafa, palitos de
picolé nem me exigia uniforme. Ele nunca me convidou para fazer “rodi-
nha”. [...] Meu pai olhava e repetia sempre: “Menino, deixe de inventar
histórias, você não sabe ler, nunca foi à escola” ou “Menino, deixe esse
papel e vá procurar serviço melhor para fazer”. Passei a duvidar da escola.
Parecia-me um lugar só para dar autorizações. Se a escola não autorizasse, eu
não poderia saber. O medo desse lugar passou a reinar em minha cabeça.
[...] Mas logo me veio a ideia: quando entrar para a escola, eu faço de
conta que esqueci tudo e começo a aprender de novo. “Uma mentirinha
é um santo remédio para botar um ponto final em conversa fiada”, me
117
ensinou meu avô, coisa que comecei a praticar para encurtar perguntas e
me livrar de incômodos. Cheguei de uniforme novo costurado pelo cari-
nho de minha madrinha. O caderno era Avante, com menino bonito na
capa, sustentando uma bandeira com um Brasil despaginado pelo vento.
Menino rico, forte, com sapatos e meias soquete. O estojo de madeira
estava completo: dois lápis Johann Faber com borracha verde na ponta e
mais um apontador de metal. Um copo de alumínio, abrindo e fechando
como o acordeom de Mário Zan, completava as exigências da escola. Só
minha cabeça andava aflita para esquecer. E esquecer é não existir mais.
Isso não é tarefa fácil para quem aprendia em liberdade, escolhia pelo prazer,
guardava pela importância. (Queirós, 1997 [2012], p.20-21 – grifos meus)
Escola de apetrechos, de exigências, de instituições de modelos ideali-
zados, de classificação, de artificialidades, de silenciamento de vozes, encar-
ceramento de corpos-mente, de apagamentos dos desejos singulares de cada
criança. E bem sabemos que isso não é apenas uma particularidade do Ensino
Fundamental; infelizmente está presente em todos os segmentos da educação
formal, desde, inclusive, a Educação Infantil. É a escola da qual se lembra B. C.
de Queirós. E contra ela lutou em sua adultez (Queirós, 1982, 1991, 1997a, e
1997b); e todos nós devemos igualmente lutar, especialmente estudando mais,
enriquecendo de base científica nossos saberes e práticas pedagógicas, cuidando
e educando nosso olhar e escuta da infância. E, se assim é nosso propósito, con-
vido vocês, meus interlocutores atentos, para o segundo ato-reflexão.
Partindo para uma reflexão mais teórica, (e poderíamos abordar tantos
conceitos, dentre vários da THC, como atividade, atividade guia, períodos
sensitivos de desenvolvimento humano, tão essenciais para educadores da
Educação Infantil, todavia, nosso foco aqui já está delimitado) necessário se
faz rever o conceito de mediação situado na THC. Por isso vamos a expressão
conceitual: o termo mediação, aprendemos com Vigotski14 e seus discípulos,
supõe um processo de intervenção de um elemento de intermediação que
se encontra interposto entre uma coisa e outra. Assim, depreendemos que a
relação entre pessoas e entre pessoas e objetos da cultura não se dá de forma
direta, mas é mediada por esse elemento. A presença de elementos mediado-
res introduz um elo a mais nas relações organismo/meio, tornando-as mais
14 Na escrita deste trabalho optou-se por usar no corpo do texto a grafia “Vigotski”. Entretanto, nas
citações a grafia segue o padrão de escrita encontrado nas obras.
118
complexas. O processo simples estímulo-resposta, de origem natural e bioló-
gica, é substituído por uma ação complexa, mediada. A mediação, portanto,
caracteriza a relação do homem com o meio em que está inserido e com os
outros homens. É através desse processo que as funções psicológicas superio-
res especificamente humanas se desenvolvem.
Profundamente influenciado pelos postulados marxistas, Vigotski, afir-
ma que a origem das atividades psicológicas deve ser procurada nas relações
sociais, históricas e culturais, das pessoas com a realidade. Em suas pesquisas,
ele mostrou que o homem, no seu desenvolvimento psicológico, apresenta
funções que se distinguem em dois tipos: as funções psíquicas elementares
e as funções psíquicas superiores. Tal compreensão explica o modo como se
constituem as funções psíquicas superiores como processo histórico-cultural
na composição de alterações na maneira de ser e de agir de todos nós.
Na relação dos humanos entre si e com a realidade há dois tipos de me-
diadores distinguidos por Vigotski: os instrumentos e os signos. Para o autor,
a invenção e o uso de signos como meios auxiliares para solucionar um dado
problema psicológico (lembrar, comparar coisas, relatar, escolher, etc.) é análoga
à invenção e uso de instrumentos, só que agora no campo psicológico” (Vygotski,
1995, p. 38). Portanto, o conceito de mediação simbólica refere-se às relações dos
sujeitos com o objeto de estudo historicizado e as ações e operações coletivas e
cooperativas dos sujeitos nos aspectos cognitivo, volitivo e afetivo.
De acordo com Vygotski (1995), os instrumentos na atividade humana
compreendem as características do homem através do estudo da origem e do
desenvolvimento da espécie humana, tomando o surgimento do trabalho e a
formação da sociedade com base no trabalho como sendo o processo básico
que vai marcar o homem como espécie diferenciada. Para ele, é o trabalho
que, pela ação transformadora do homem sobre a natureza, une homem e
natureza e cria a cultura e a história humanas.
No trabalho humano, assim, desenvolve-se tanto a atividade coletiva e
as relações sociais, quanto a criação e utilização de instrumentos. O instru-
mento é um elemento interposto entre o trabalhador e o objeto de seu traba-
lho, ampliando as possibilidades de transformação da natureza. É constituído
para um objetivo específico, carrega consigo a função para a qual foi criado
e o modo de utilização desenvolvido durante a história do trabalho coletivo.
119
Os instrumentos são elementos externos ao homem e sua função é gerar
transformações nos objetos e reger processos na natureza, nas ações concretas.
A função do instrumento é servir como um condutor da influência hu-
mana sobre o objeto da atividade; ele é orientado externamente; deve
necessariamente levar a mudanças nos objetos. Constitui um meio pelo
qual a atividade humana externa é dirigida para o controle e domínio da
natureza (Vygotski, 195, p. 40).
Como exemplo, da função dinâmica da mediação, temos das pesqui-
sas de Wertsch e colaboradores (1998) uma metáfora relatada interessante.
Podemos de ela inferir, como os meios presentes no processo de mediação
atualmente são dinâmicos. Trata-se da metáfora do salto com vara. Sem vara,
o salto humano alcançou apenas pouco mais de 2 metros de altura. A vara
foi usada para o salto em 1896, quando o atleta deveria correr 38,1 m com
a vara para saltar sobre uma barra suspensa por dois pilares. Como a vara era
pesada e pouco flexível, o salto foi de 3,30 m. A partir de 1900, foi iniciado o
uso de varas de bambu, que permitiam saltos mais altos. Em 1943, Cornelius
Warmerdam saltou 5,78 m, recorde que durou até 1959. Após, foram intro-
duzidas as varas de alumínio e, finalmente, as varas feitas de fibra de vidro,
que permitiram a Sergei Bubka saltar mais de 7 metros (Wertsch et al.,1998,
p. 63-65). A metáfora da vara nos faz pensar em quais instrumentos e ferra-
mentas do humano, tornam-se pedagógicos a fim de criamos condições para
os ‘saltos’ de aprendizagem e desenvolvimento das crianças. Serão os mesmos
do século passado? Conversa para o terceiro ato reflexivo.
Sigamos agora com o segundo tipo de mediador de que nos fala o ex-
poente da THC: os signos, outro tipo explicado por Vygotski (1995 a e b),
caracterizam-se como “instrumentos psicológicos” conduzidos pelo sujeito
para orientar o controle de ações psicológicas, sejam dele próprio, sejam de
outras pessoas. Na sua forma mais rudimentar, o signo é uma marca externa
que auxilia o homem em suas atividades psicológicas. Os processos mediados
são construídos ao longo do desenvolvimento humano e sofrem alterações
neste percurso justamente por constituírem funções psicológicas mais sofisti-
cadas. A despeito disso, Vygotski (1995 a e b) aponta o exemplo do costume
de amarrar barbantes nos dedos para não esquecer alguma coisa, à qual está
120
relacionado com a psicologia da vida cotidiana. Ou seja, uma pessoa deve
lembrar alguma coisa, ou cumprir um compromisso, fazer algo, ou mesmo
buscar uma encomenda e ao desconfiar da própria memória, o sujeito amarra
uma fita no dedo, dá um nó no lenço ou outros recursos semelhantes a fim de
que tais recursos, mais tarde, o ajudem a lembrar de algo a ser feito, de modo
que este artifício cumpra esta função.
Por um lado, a utilização de marcas externas vai se transformando em
processos internos de mediação. Esse mecanismo é chamado por Vygotski
(1995 a e b) de processo de internalização. E, por outro lado, são desenvol-
vidos sistemas simbólicos, que organizam os signos em estruturas complexas
e articuladas. Ao longo do processo de desenvolvimento, o indivíduo deixa
de necessitar de marcas e passa a utilizar signos internos, isto é, representa-
ções mentais que substituem os objetos do mundo real. “O signo [...] não
modifica em nada o objeto da operação psicológica. Constitui um meio da
atividade interna dirigido para o controle do próprio indivíduo; o signo é
orientado internamente”. Portanto, os instrumentos e os signos são ativida-
des distintas, cuja natureza dos meios por elas utilizados não pode ser seme-
lhante (Vygotski, 1995, p. 40).
Como sujeito do conhecimento, vale lembrar, o homem não tem rela-
ção direta com os objetos, mas seu acesso é mediado por recortes do real, ope-
rados pelos sistemas simbólicos de que dispõe. Desse modo, a constituição
do conhecimento se dá por meio da interação mediada por várias relações,
isto é, o conhecimento não decorre de uma ação imediata do sujeito sobre a
realidade, pois ele depende da mediação realizada por outros. O outro social
apresenta-se por meio de objetos, da organização do ambiente, do mundo
cultural que rodeia o indivíduo.
De acordo com Vygotski (1995 e 2006), o referencial histórico-cultu-
ral compreende a relação entre sujeito e objeto no processo do conhecimento
de modo interativo uma vez que a constituição do conhecimento e do pró-
prio sujeito se dá a partir de relações inter e intrapessoais. É na troca com
outros sujeitos e consigo mesmo que o homem internaliza saberes, papéis
e funções sociais, permitindo a constituição de conhecimentos e da própria
consciência. O desenvolvimento humano implica no processo de interiorizar
as construções histórico-sociais, primeiro externa, numa relação interpsíquica
121
com os objetos e com os outros, depois internamente, por meio de uma ati-
vidade mental intrapsíquica e individual.
Vygotski (1995) compreende que o desenvolvimento do pensamento
não se dá no sentido do pensamento individual para o socializado, mas do
pensamento socializado para o individual. Essa constatação permitiu a ele
compreender que o pensamento não é formado com autonomia e indepen-
dência, mas sob condições determinadas, sob a mediação dos signos e dos
instrumentos culturais que se apresentam histórica e socialmente disponíveis.
Para Vigotski (2010), a cultura é vetor das ações mentais construídas histori-
camente e materializadas em instrumentos e signos culturais que são os ele-
mentos mediadores entre a realidade e o sujeito. Tudo decorre das trocas, das
relações sociais. Nos entrecruzamentos de vozes, B.C. de Queirós, resgatando
sua primeira experiência como professor, nos conta:
Como professor, meu ofício consistia, ao lado das crianças, em sonhar um
mundo, sem esquecer que as diferenças promovem os avanços e que o sujei-
to não deve apenas se sujeitar ao estabelecido. Fazer o que já está feito não
nos tornava sujeitos [...]. Tornar-se sujeito demanda coragem e trabalho. Por
ser assim, eu procurava ser cúmplices das crianças, na intenção de desvendar-
mos o real existente com os instrumentos que ao nascer nos foram dados. Estudar
era brincar de conhecer as coisas e fantasiá-las em outros estágios. Sem perder
de vista homens e mulheres como seres de relações, pensávamos à luz do coletivo.
E, como seres de relações, nada nos interditava de falar sobre o amor, a fome,
a justiça, a solidariedade, a fraternidade. (Queirós, 1997 [2012], p.20-21)
B.C. de Queirós parece conhecer os estudos da THC, sua retomada de
vivências em poeticidade se aproxima das reflexões teóricas vigotskianas. Que
professor consciente, meus amigos!
Vale lembrar, ainda, que o processo do conhecimento como processo
mediado se inicia na mais tenra idade, muito antes de se entrar na escola, pois
desde que nasce e durante seus primeiros anos de vida, a criança encontra-se
em interação com outros sujeitos e situações, permitindo-lhe a atribuição de
significados a diferentes ações, diálogos e vivências, como o menino ‘Bartô
com seu avô... Sigamos agora na trilha reflexiva da mediação literária.
De tudo o que avistamos sobre mediação, seus instrumentos e signos,
quando observamos na aparência, pelo nosso olhar superficial um adulto que
122
toma um livro nas mãos e intermedeia a relação da criança com esse livro e
com seu conteúdo literário, acreditamos derivar daí a expressão mediação
literária. Contudo, precisamos problematizar o quanto essa relação entre
humanos e gerações distintas, observada meramente num esquema simpli-
ficado, acentua e justifica o consenso: há um livro com texto e ilustrações,
parte da cultura humana, que compõe a literatura de um povo e que deve ser
conhecido pelas novas gerações. O adulto estaria em posição intermediária,
como neste esquema: livro de literatura – adulto – criança? Podemos mes-
mo utilizar a expressão mediadores de leitura? Estará adequada tal expressão?
Com lentes mais alargadas e lembrando do texto ‘O problema do entorno
(na versão em espanhol)15 e em português ‘Quarta aula: a questão do meio na
pedologia de Vigotski, uma conferência realizada perto de seu falecimento,
continuaremos na esteira reflexiva proposta.
‘Em o problema do entorno’ o pensador nos diz, dentre tantos outros
instigantes apontamentos, da necessidade de se oferecer às crianças as formas
ideais (VIGOTSKI, 2010) de cultura desde o nascimento, e, associando ao
princípio bakhtiniano de signo ideológico, alteridade e consciência, podemos
dizer que o homem histórico, cultural e social se funde, pelos seus atos cultu-
rais, com sua criação, e pode, por isso, ocupar, somente nessa condição de
signo, a função de mediador, porque essa função pertenceria exclusivamente
aos signos _ como bem expressou professor Dagoberto Buim Arena em uma
de suas falas em nosso grupo de estudo PROLEAO. Posto que no reino da
criação literária para crianças, o livro com suas histórias seria o objeto media-
dor entre o homem e a realidade; assim, a palavra verbal escrita e as imagens
refratadas assumiriam profundamente a sua função de signos ideológicos que
se situam na relação entre o adulto e a criança que chega ao mundo.
Todavia, retomando as formas ideais de cultura de que expressa Vigotski
(2010), precisamos compreender o seu significado teórico e o sentido da li-
teratura infantil, sua divulgação e sua prática social, como forma final, já que
invenção histórica e cultural para crianças. Ou seja, é preciso dizer dessa
literatura para crianças considerada criação, constituinte da cultura humana,
15 Estudos pedológicos de Vigotski foram reunidos em uma coletânea de sete aulas sobre os
fundamentos da pedologia proferidas por ele um pouco antes da sua morte. Essa coletânea foi
publicada em português em 2018. Em 2010, foi publicada a primeira tradução em português de
uma dessas aulas – Quarta aula: a questão do meio na pedologia.
123
composta não somente pelo objeto cultural, mas pelos atos culturais humanos que
a impregnam desde a sua criação, como pela escolha dos suportes, pelos modos de
circulação, pelos modos de ler e pelos modos de a apreciar. E, se Vigotski insiste
que a formação intelectual esperada no final (a ideal) do desenvolvimento do
homem deve estar já no seu entorno desde o início de sua vida, precisamos
ofertar a melhor literatura infantil às crianças, os melhores livros, e não quais-
quer livros, ou livrinhos. Não! Não se pode ofertar o mínimo às crianças, mas
sobretudo as máximas elaborações da cultura humana. É preciso compreender,
portanto, na condição de educadores da infância, que essa forma é a ideal, a
esperada, a desejada, ou, ainda, a necessária, a crucial para o desenvolvimento
pleno do homem. É como se fosse um ponto de chegada (embora o ponto de
chegada sempre se desloque) do desenvolvimento desejado.
Como já debatemos no PROLEAO, se os homens e suas instituições
esperam e desejam que os adultos das gerações emergentes sejam leitores de
literatura, ou mesmo recriadores de literatura, é necessário que essa forma
ideal de cultura, integral e complexa, não somente como objeto isolado, mas como
objeto nas relações humanas, faça parte do universo infantil desde os primeiros
momentos de seu desenvolvimento. Se houver a ausência dessa forma ideal na
infância, se as crianças forem dela privadas, ficarão à margem de um aspecto
da cultura humana, essencial para seu desenvolvimento e humanização.
Por isso, caros pedagogos, ocultar a forma ideal na escola da infân-
cia é colocar obstáculos ao desenvolvimento intelectual, cultural, social do
homem. Significa, portanto, retardar o processo de humanização. E não
podemos negligenciar quanto a este ponto crucial. Em ‘Bartolo-nosso’ encon-
tramos também a importância, por meio de suas lembranças, da criação da
necessidade de ler, do seu primeiro livro, de seus primeiros tateios literários,
de suas primeiras leituras ainda em casa; de seu modelo de leitor... das ‘formas
ideais’, como nos diz Vigotski (2010), que se apresentavam na sua meninice;
reminiscências contidas no texto ‘Passaporte a desmedidas viagens’:
Sobre a cômoda do quarto minha mãe guardava seus livros. Eu, mui-
tas vezes, folheava e tentava decifrar o que suas páginas escondiam. Vencia
as horas ensaiando amarrar ideias, adivinhando enigmas, entendendo o que
levava minha mãe a passar longas horas lendo, como se ausente do mundo
ou em outros mundos. Outras tantas vezes, não entendia por que, com os
124
olhos cheios de tristezas, ela continuava sobre o livro como se chorar fosse um
prazer. Meu desejo era crescer [...]meu primeiro livro – absolutamente meu – eu
ganhei da escola, depois de ter recebido o uniforme e todo dia ganhar merenda
[...]. No dia exato, como uma visita vinda de outro mundo, Lili chegou. Era
um livro bonito [...] a professora nos mandou abrir o livro na primeira página.
Depois, com sua voz mais bonita que flauta de anjo, ela leu, em voz alta, clara,
para nós [...]. Encapei meu livro com papel de seda branco e guardei na minha
sacola de pano. Entre uma brincadeira e outra, eu corria até o quarto para
certificar-me de que meu livro continuava lá.[...] Lili chegou e ficou definitiva-
mente. Pela sua mão adentrei no mundo e passei a decifrar mistérios contidos nas
letras. Lili trouxe o mundo para meu colo. Hoje, quando me vejo com um livro
aberto e visitando paisagens a que meus olhos não chegam, a menina está sempre
ao meu lado me dizendo que foi a escola que me conferiu este passaporte para
desmedidas viagens. (Queirós, 1997 [2012], p.39-41)
Assim, com ‘Barto’ torna-se materializada a visão vigotiskiana e bakhti-
niana para a mediação de literatura para crianças. Não se trata, desse modo,
apenas da oferta de bons livros, mas de ensinar o ato ler com tudo que ele
guarda em si: gestos, cultura, modos de ler, modos de apreciar! É mesmo
com um olhar imbuído pela importância da literatura para as crianças, que
se pode compreender o quanto os adultos, os livros lidos e por eles manipulados
em suas relações compõem uma forma ideal que desde os primeiros momentos da
vida promovem o desenvolvimento intelectual, social e psíquico.
Quando associamos a proposição de Volochinov (membro do Círculo
de Bakhtin), que substitui a expressão “comunicação social” por “troca
social” (Volóchinov, 2010, p. 151), nos diz o professor Dagoberto Buim
Arena (2020 – em seminário interno e virtual do PROLEAO, realizado
no período pandêmico), porque mais próxima das relações humanas, pelas
quais os homens dão e recebem os bens culturais já criados, podemos afir-
mar que a literatura para crianças, como bem cultural, permite que adultos e
crianças troquem gestos, intenções, saberes, condutas, sentidos e apreciações.
O signo, aparentemente fixado nos suportes, é sensível às mudanças sociais
e se expressa nos atos humanos. Então ensinar a ler, ‘mediar leitura literária
prescinde de tal compreensão!
Dentro deste contexto destaca-se, dessa maneira, as seguintes asser-
tivas reiteradas:
125
A natureza ideológica dos signos, dentre os quais temos as palavras e as
ilustrações de uma obra, e, por que não, as expressões, os olhares, os gestos, as apre-
ciações, os julgamentos visíveis, audíveis e as intenções percebidas. Tudo é signo!
Portanto, é dizer: os signos, sejam quais forem, têm natureza ideológi-
ca e, assim, portam valores sujeitos a apreciações e julgamentos. As relações
de troca cultural entre gerações, em que a literatura para crianças ocupa o
papel de mediadora, são constituídas por signos visuais, enunciados verbais
escritos, ilustrações, gestos, expressões corporais, enunciados verbais orais,
entonações, ênfases, timbres, todos eles prenhes de valores e de ideologia, funda-
mentais para a formação da consciência e da própria condição humana.
Pensar no corpo humano, nesta perspectiva, é pensá-lo não como um
corpo biológico, mas como instrumento de uma consciência que faz trocas
com outras, como no caso da sessão de leitura, da partilha de atos de ler livros
de literatura com crianças. Nesse caso, pode-se reiterar: a consciência e o corpo
físico fundidos se tornam signo.
A relação é mediada por signos organizados em gêneros que compõem
o campo da literatura para crianças. Visto por esse prisma, o homem adulto
não medeia, mas faz parte de um dos polos, pois se considera também que o
livro, isto é, a criação cultural humana, não se descola dos homens. Isso pressu-
põe que os homens criam histórias, livros, gestos e modos de ler e é esse conjunto
que compõe o mediador, pois as atitudes humanas, ao lidar com a literatura,
são compostas por signos que se fundem a ela. Neste aspecto, e somente neste
aspecto, é que o homem compõe o conjunto mediador, mas não ele mesmo,
isoladamente, o ocupante desse lugar, nos diz Arena (2020).
O adulto/professor não é, então, um mediador, uma estrada, como
sugeriu Vigotski (apud Nascimento, 2014), mas pode vir a ser um signo
cultural, social e ideológico que encarna outros signos e suas manifestações.
Forma, assim, um conjunto híbrido de signos que vai mediar as relações de uma
geração a outra e compor o mundo complexo do processo de humanização. Sem o
homem precedente, que já se apropriou da cultura, não haverá a apropriação
correspondente pelo homem subsequente (Leontiev, 1978).
Vemos em ‘Bartô’ junto com as lembranças do período escolar, no re-
lato dos momentos com a família, particularidades de uma vivência literária,
cheia de mediação semiótica, vemos atitudes humanas compostas por signos
126
que se fundem nela. Vemos adultos que compunham este conjunto media-
dor, concretizado entre a casa familiar e a casa do avô, figura marcante dessa
fase de sua infância, como já pudemos constatar. O autor-personagem relem-
bra experiências vivenciadas na casa do avô, que escrevia nas paredes da casa
e era considerado, por ele, uma espécie de professor do cotidiano; as paredes
eram repletas de histórias, narrativas sobre “amores desfeitos, madrugada e
fugas, casamentos e traições, velórios e heranças” (QUEIRÓS, 1997[2012],
p.27). Tais histórias seduziam o menino, que as lia nas paredes que ele con-
siderava seu primeiro ‘quase-livro-literário’ – profundamente temos aqui a
troca verbal entre as gerações. “Se ele escrevia ‘o mundo é uma bola besta sem
eira nem beira’, eu desconfiava se estava dizendo ser a terra redonda ou se a
Terra era uma piada sem tamanho. Eu concluía ser as duas coisas”. (Queirós,
1997 [2012], p.29)
O avô de fato registrava nas paredes a história do local, guardando, por
meio da escrita, uma memória coletiva do grupo no qual se inseria. A escrita
era concebida como prática histórica e social e o menino percebia isso de for-
ma bem ampla, entendendo serem as paredes um caderno no qual se podia
ler o mundo. O mundo, para ele, era o local, era a cidadezinha, era a casa do
avô, era o que ele conhecia e do que participava. Além disso, avô e neto são
sujeitos capazes de potencializar a linguagem, dar sentido à palavra escrita, e
expandir os significados das frases e orações, porque carregada de enunciados
vivos! Nesse exercício, a criança incorpora a palavra não apenas como um si-
nal gráfico, mas também como uma forma vívida de expressão da linguagem,
que tem relevância e sentido no processo de comunicação, melhor dizendo
com Volochinov, de troca verbal. Bartolomeu Campos de Queirós dizia tam-
bém que “A educação se faz pela liberdade. Liberdade que você dá ao outro
para que ele escolha o seu destino” (Queirós, 1997 [2012], p.5). Para que ele
lide com as palavras, inaugurando-se como consciência em formação.
O meu avô brincava muito comigo usando as palavras. Ele escrevia “azul”
e me pedia para escrever outra palavra na frente.
Eu escrevia “preto”. Ele falava: “O azul hoje é quase preto”. Ele fazia uma
frase usando as duas palavras. Eu ficava incomodado como ele, com toda a
palavra, dava conta de fazer uma frase. Com duas palavras, construía uma
oração. (Queirós, 1997[2012], p. 16).
127
Aqui, se expressa a capacidade de releitura e de ressignificação em sua
adultez dialógica; ao rememorar, ‘Bartô’ nomeia os gestos de escrita do avô;
o presente dá condições para se interpretar e para se nomear em gestos do
passado. A atitude do avô de brincar com as palavras era um gesto marcado
pela espontaneidade da convivência, que transmitia seu próprio encantamen-
to pelas palavras e conduzia a criança ao caminho do mundo poético. Com
a poesia, o poder de transformação dos sentidos se amplia. Quando o avô
formula a frase “o azul hoje é quase preto”, ele está fornecendo ao menino
uma possibilidade nova de pensar com liberdade para atribuir novos sentidos
e caminhos para o jogo entre as palavras do cotidiano e as palavras literárias,
como criação da cultura humana.
Enfim, a convivência entre gerações durante dezenas de anos permite
a apropriação e a transmissão da cultura. Suas relações históricas rompem
fronteiras e compõem um grande cenário em que se banham as gerações, de
modo mais superficial ou mais profundo, conforme a intensidade maior ou
menor de suas relações sociais. Com nos diz Arena (2020) as gotas que for-
mam esse oceano cultural são as recriações e as criações culturais constituídas
por signos de toda natureza, uma verdadeira ‘babel semiótica’ por meio da
qual o homem se alimenta de cultura para poder se desenvolver em seu pro-
cesso de humanização. Humanizar-se é, então, experimentar, viver o processo
de apropriação dos signos culturais que medeiam as relações.
Creio que as exemplificações postas no diálogo, entre os intercessores
nomeados no início desta minha fala, dão conta de retratar nosso propósito
esboçado. Sigamos juntos para as palavras finais de (in) conclusão, já que
sempre estamos em processo de ressignificação dialógica.
Palavras finais com o desejo de continuar a conversa
Comecei a proposição de minha fala com as seguintes epígrafes ‘A pa-
lavra - basta uma só palavra - é flecha para sangrar o abstrato morto. Há,
contudo, dores que a palavra não esgota ao dizê-las (B.C.Q) E, ainda, ‘Vejo
a palavra enquanto ela se nega a me ver. A mesma palavra que me desvela,
me esconde. Toda palavra é espelho onde o refletido me interroga.’ (B.C.Q)
De fato, o convite feito a vocês demonstra o quanto uma única palavra “me-
diação” basta para ‘sangrar o abstrato morto’ de nossas simplificações em um
128
senso comum pedagógico. E com ela, a palavra mediação, traz dores reflexivas
que o conceito não esgota ao dizê-las. Nossas crianças precisam muito mais
do que a ela ofertarmos. Como já dito, se houver a ausência dessa forma ideal
na infância, se as crianças forem dela privadas, ficarão à margem de um as-
pecto da cultura humana, essencial para seu desenvolvimento e humanização.
No jogo de negociações das palavras feitas signos que são, vemos di-
versas que se negam a nos ver, mas que ao mesmo tempo nos desvelam e nos
escondem; e como espelho refletido nos interroga. Vejo cada um de vocês,
educadores da infância, não vendo suas potencialidades-palavra-pedagogo
com a função clara e definida no conjunto mediador literatura para crianças
pequenas e pequenininhas; há uma infância literária ‘ideal’ que constante-
mente lhes interroga, posto estampada no cotidiano de nossas instituições de
Educação Infantil.
Vejo, portanto, a urgência de nosso comprometimento e engajamento
educativo com o SER MAIS freireano. Paulo Freire, propõe estimular a hu-
manização da educação com foco na relação amorosa do “ser mais”, que para
mim encerra um sentido filosófico-ontológico-poético pois que entendo com
nosso mestre o quanto “[...]ser mais[...] não é privilégio de alguns eleitos, mas
direito dos homens.” (Freire, 1988, p. 93-94), sendo ‘[...]essa atitude possível
em virtude da intencionalidade da consciência” (Saviani, 2008, p. 184).
Para Freire,
A conscientização é, neste sentido, um teste de realidade. Quanto mais
conscientização, mais se “desvela” a realidade, mais se penetra na essência
fenomênica do objeto, frente ao qual nos encontramos para analisá-lo. Por
esta mesma razão, a conscientização não consiste em “estar frente à realida-
de” assumindo uma posição falsamente intelectual. (Freire, 1979, p. 15).
A conscientização é produto de conhecimento e produtora de conheci-
mento, isto é, pode tornar o indivíduo dotado de poder intelectual na pers-
pectiva de que a Pedagogia exige crítica, renovação, criatividade, inacaba-
mento do saber e conscientização do educador. No dia de hoje, uma tomada
de consciência foi refletida no espelho: a de uma busca por renovação de
conceitos, qual seja a de ‘mediadores de leitura literária e humanização das
crianças na Educação Infantil’.
129
Por assim dizer, retomo para ir finalizando com as lentes, aqui propos-
tas, a certeza de que entre a geração adulta e a outra que nasce interpõem-se
os signos, a cultura, a arte, e também a literatura para crianças, considerados
os reais mediadores, porque portam com eles os gestos, os atos, os materiais,
os instrumentos e os modos de operar humanos. Concluindo, o adulto bi-
bliotecário/professor/pai/ parceiro mais experiente pode compor, ao se re-
lacionar com a criança por meio do livro, e com ele também, um conjunto
sígnico; são homens históricos, sociais e culturais, responsáveis por legar toda
cultura humana às crianças que já nasceram e às que ainda nascerão.
Por fim, encerrando, pra valer com ‘Bartô’ interrogamos junto dele em
seu texto ‘O livro é passaporte, e bilhete de partida’ – ‘Há trabalho mais defini-
tivo, há ação mais absoluta do que esta de aproximar o homem do livro?’ (Queirós,
1997 [2012], p. 62 _ destaques meus), e assim faço minhas as suas palavras:
O corpo vivo vive em permanente e vários níveis de leitura. Não há como
ausentar-se, definitivamente, deste enunciado enquanto somos no mundo.
O corpo sabe e duvida. A dúvida gera criações, enquanto a certeza traça
fanatismos. [...] Há que buscar a si mesmo na [leitura] experiência do outro
e inteirar-se dela. Tal movimento atenua fronteiras, e a palavra fertiliza o
encontro. Acredito que ler é configurar uma terceira história, construída par-
ceiramente a partir do impulso movedor contido na fragilidade humana
[...]. A fragilidade que funda o homem é a mesma que o inaugura, mas
a palavra anuncia. A iniciação à leitura transcende o ato simples de apresen-
tar as letras que aí estão já escritas. É mais que preparar o homem para a
[compreensão] das artimanhas de uma sociedade que pretende também con-
sumi-lo. É mais do que incorporação de um saber frio, astutamente construí-
do. Fundamental, ao pretender ensinar a leitura, é convocar o homem para
tomar da sua palavra. Ter a palavra é antes de tudo munir-se para fazer-se
menos indecifrável. Ler é cuidar-se, rompendo com as grades do isolamento.
Ler é evardir-se com o outro, sem, contudo, perder-se nas várias faces da
palavra. Ler é encantar-se com as diferenças. (Queirós, 1997 [2012], p. 62)
Referências
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FREIRE, Paulo. Conscientização. São Paulo: Cortez e Moraes, 1979.
130
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(Org.). Meu professor inesquecível: ensinamentos e aprendizados contados
por alguns de nossos melhores escritores. São Paulo: Gente, 1997b.)
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do Projeto Biblioteca/Vídeo-Escola, 1991.)
QUEIRÓS, Bartolomeu Campos. Literatura, escola e democracia. In:
ABREU, J. (Org.). Sobre ler, escrever e outros diálogos. Belo Horizonte:
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Conferência Brasileira de Educação, UFMG, 1982.)
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Autores Associados, 2008.
VIGOTSKI, Lev Semionovitch. Quarta aula: a questão do meio na
pedologia. Psicologia USP. Traduzido por Márcia Pileggi Vinha. São Paulo,
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fundamentos da pedologia. 1. ed. Rio de Janeiro: E-Papers, 2018.
VOLÓCHINOV, Valentin. Marxismo e filosofia da linguagem:
problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem.
São Paulo: Editora 34, 2017.
131
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VYGOTSKI, Lev Semionovitch. Obras Escogidas IV. Madrid: Visor
Distribuiciones, 2006.
WERTSCH, James. V.; DEL RIO, Pablo.; ALVAREZ, Amelia. Estudos
socioculturais da mente. Porto Alegre: Artmed, 1998.
133
CAPÍTULO 7
Literatura Infantil, Formação do
Leitor e Experiência Estética Para
Além dos Muros da Escola
Maíra Isabel Zibordi
Eliane Aparecida Galvão Ribeiro Ferreira
Geovanna Souza de Azevedo
Para falar sobre a responsabilidade e a importância do trabalho com a
literatura infantil no ambiente escolar faz-se necessário entender o percurso
histórico da produção literária de potencial recepção infantil. Somente a par-
tir do século XVIII, as crianças passam a ser consideradas como indivíduos
com suas especificidades. Para Cademartori (1986, p.38), “[...] a criança, na
época, era concebida como um adulto em potencial, cujo acesso ao estágio
dos mais velhos só se realizaria através de um longo período de maturação”.
Assim, com o novo entendimento de infância surge a necessidade de um
mercado editorial que oferte uma produção literária voltada à criança.
A literatura infantil chega ao Brasil por meio de adaptações de
obras europeias. Durante décadas, todas as publicações voltadas para a
infância traziam uma imagem distorcida da sociedade brasileira, pois
demonstravam compromisso com o caráter pedagógico, a moralidade e
o patriotismo. Em 1920, Monteiro Lobato publica sua obra de estreia
sob a forma de uma edição isolada, A menina do Narizinho Arrebitado16,
pela Monteiro Lobato & Companhia. No ano seguinte, lança Narizinho
16 Essa obra, conforme Bertolucci (2005, p.192), foi incorporada, em 1931, a Reinações de Narizinho
como sendo seu primeiro capítulo.
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-558-2.p133-149
134
Arrebitado e inaugura, segundo Sandroni (1987), a fase literária da pro-
dução brasileira destinada às crianças. Lobato antecipa em suas obras
infantis o Modernismo, pois utiliza-se de linguagem original e criativa,
marcada pela coloquialidade. Em 1921, publica O Saci, como resultado
de pesquisa que realizou a respeito desse ser, mítico, na edição vespertina
de O Estado de S. Paulo, em 1917 (Camargo, 2008).
Lobato investe na literatura para crianças e a inova, justamente por isto
remodela, na década de 1930, a história original de Narizinho, que passa a se
chamar Reinações de Narizinho (1931). Desse modo, confere início ao perío-
do fértil da ficção brasileira. Apesar disto, as produções literárias voltadas para
o jovem leitor, em sua maioria, coadunam-se com a nova política educativa
e a crescente expansão da rede escolar. Assim, predomina nessas obras o ime-
diatismo das informações úteis e da formação cívica. Esse projeto pedagógico
mantém-se até a década de 1950.
No cenário nacional de 1920 a 1940, as obras de Lobato rompem com
os padrões literários europeus, ao apresentar um aproveitamento da tradição
folclórica. O Sítio do Picapau Amarelo representa o local do acolhimento,
da dialogia e criação de uma mitologia autônoma, que se mantém em quase
todas as narrativas do escritor. Esse espaço faculta, inclusive, o acesso a ou-
tras localidades fantásticas. Trata-se de um local em que prevalece o diálogo
entre personagens jovens, adultas e outras provenientes de histórias literárias
diversas. Desse modo, esse espaço opõe-se ao contexto histórico da época, em
que se evidenciam a ditadura de Getúlio Vargas, a ascensão do fascismo e do
nazismo e a presença da guerra na Europa. Em 1940 e 1950, apesar das ino-
vações de Lobato, muitos escritores produzem suas obras visando a atender os
desejos manifestos pela escola e por mediadores. Assim, suas narrativas apre-
sentam personagens desprovidas de irreverência e ousadia, preocupadas em
demonstrar correção perante os adultos e seguidas de perto por um narrador
adulto. Incompatíveis com a visada pedagógica, o humor e o valor estético
são praticamente banidos dessa produção literária.
Somente no final da década de 1960 e na de 1970, a tendência contes-
tadora da tradição lobatiana é resgatada na literatura infantil. As narrativas
passam a focalizar o Brasil com seus impasses e crises, por meio de um dis-
curso de denúncia social. A produção literária de potencial recepção infantil
135
liberta-se de valores pedagógicos, conservadores e maniqueístas, configu-
rando-se pela paródia, irreverência, alegoria, pelo humor e nonsense em obras
como Os colegas, Angélica e O sofá estampado, de Lygia Bojunga Nunes (1932-);
O reizinho mandão, de Ruth Rocha (1931-); A fada que tinha ideias e Soprinho,
de Fernanda Lopes de Almeida (1927-2024); História meio ao contrário, de Ana
Maria Machado (1941-); Onde tem bruxa tem fada, de Bartolomeu Campos
Queirós (1944-2012), entre outras. Há inovação no projeto gráfico editorial
do livro infantil, com ênfase em ilustrações coloridas e dotadas de pregnância
que dialogam, colaboraram e/ou subvertem o texto verbal, provocando efeito
de ironia e/ou de humor. Isto ocorre em obras como O sofá estampado, de Lygia
Bojunga Nunes, Flicts e O menino maluquinho, de Ziraldo (1932-), entre ou-
tras. Por meio dessa produção, privilegia-se a experiência estética e a reflexão
crítica na leitura. Conforme Ferreira (2008, p.105), “A produção de livros in-
fantis e juvenis cresce rapidamente, e consolida-se, em termos de quantidade e
qualidade de propostas na ficção, na poesia e em livros de imagem”.
Atualmente, a produção literária que se destina aos jovens leitores é
diversa e, pela riqueza de recursos metaficcionais e/ou manifestos no projeto
gráfico editorial, representa um desafio à formação do leitor e à mediação em
espaço escolar. Neste capítulo, acredita-se que a literatura infantil desenvolve
a emancipação crítica, amplia os horizontes de expectativa da criança e a
conduz ao pensamento crítico e libertador. Segundo Queirós (1999, p.24):
A iniciação à leitura transcende o ato simples de apresentar ao sujeito as
letras que aí estão já escritas. É mais que preparar o leitor para a decifração
das artimanhas de uma sociedade que pretende também consumi-lo. É
mais do que a incorporação de um saber frio, astutamente construído. [...]
Fundamental, ao pretender ensinar a leitura, é convocar o homem para o
tomar da sua palavra.
O “tomar da sua palavra”, destacado por Queirós, refere-se ao ato da
leitura que resulta em convite ao jovem leitor a se manifestar, refletir e posi-
cionar-se sobre o que lê, em confronto com o que vivencia em seu contexto
histórico e social. Justamente, nesta acepção de leitura, pautada nos pressu-
postos teóricos da Estética da Recepção e do Efeito (Jauss, 1979,1994; Iser,
1996, 1999), surgiu a proposta do trabalho com o Passaporte da Leitura,
136
inspirado na pesquisa de Ferreira (2009). Para sua consecução, partiu-se da
hipótese de que a experiência estética decorre do contato com uma obra li-
terária dialógica (Ferreira, 2009), que suscita do leitor interação na leitu-
ra, pois requer dele o preenchimento de lacunas em busca de interpretação.
Justamente por isto, essa obra produz efeitos no leitor, uma vez que este en-
contra seu espaço de participação ao lançar-se em sua leitura crítica. A seguir,
detalha-se o desenvolvimento do trabalho.
Passaporte da leitura
O trabalho com o Passaporte da Leitura realizou-se, durante o ano letivo
de 2023, na EMEI Sambalelê, localizada na zona sul da cidade de Marília, si-
tuada no Estado de São Paulo. Seu Projeto Político Pedagógico (2023) baseia-se
na Teoria Histórico-Cultural (perspectiva vygotskyana), na Pedagogia freinetia-
na e nos elementos da Periodização do Desenvolvimento Infantil nas concep-
ções de Vigotski (1998) Leontiev (1978; 1998) e Elkonin (1987). Desse modo,
buscou-se considerar esse marco teórico, aproximando-o das concepções de
Jauss (1979; 1994) e Iser (1996; 1999). Assim, promoveu-se em sala de aula in-
terações sociais nas experiências de leitura, visando à formação do leitor crítico.
Em respeito à cada etapa de desenvolvimento das crianças, propôs-se leituras
de obras ricamente ilustradas que, gradualmente, as desafiavam em busca da
concretude. Partiu-se do pressuposto de que a literatura desempenha um papel
fundamental na formação integral, pois proporciona às crianças acesso privile-
giado a diferentes mundos, estimula sua imaginação, desautomatiza suas con-
cepções sobre o emprego da língua e fomenta seu desenvolvimento cognitivo.
Pela oferta de obras literárias na Educação Infantil, pôde-se criar um
ambiente de aprendizagem na escola e outro fora dela – no lar das crianças –,
os quais promoveram a compreensão de diferentes culturas, valores e perspec-
tivas, enriquecendo o repertório das crianças e de seus pais e/ou responsáveis,
incentivando a construção de significados, por meio da interação com histó-
rias diversas. Dessa forma, a Teoria Histórico-Cultural se alinhou à necessida-
de de contemplar a literatura como uma ferramenta para o desenvolvimento
integral das crianças e de seus entes queridos, proporcionando contexto en-
riquecedor e socialmente relevante para sua humanização (Candido, 1995).
Para o desenvolvimento do Passaporte, elegeu-se a “Turma da Borboleta
137
do Infantil II, composta por 26 crianças, com idades entre cinco e seis anos,
regularmente matriculadas em período integral. Por meio da proposta, opor-
tunizou-se a essas crianças uma experiência estética que se estendeu para suas
famílias. O projeto objetiva uma experiência libertadora, pois no ato da leitura,
foram ativadas a poesis, a aisthesis e a katharsis (Jauss, 1979). Respectivamente,
a poíesis correspondeu ao prazer da coautoria na descoberta pelas crianças de
significação, durante o preencher das lacunas de uma obra. A aisthesis decorreu
do entendimento do contexto da obra e, a partir dele, houve a expansão de seu
conhecimento de mundo. A katharsis adveio da ação das crianças sobre o texto
que as levou a refletir sobre a obra e, nesse processo, transpor a experiência
literária para sua realidade, como será demonstrado em exemplos mais à frente.
A exploração de textos literários do subsistema infantil, dotados de
ilustrações, de diferentes autores e pertencentes a gêneros textuais diversos,
foi fundamental para o desenvolvimento do trabalho. Essas obras ricamente
ilustradas, dotadas de materialidade inovadora e com personagens em ida-
des próximas às de seus leitores, tornam-se cativantes para o leitor iniciante.
Além disso, pela exploração de temas afinados a seus interesses e, em especial,
de temas complexos, essas obras facultaram aos alunos a reflexão crítica, a
descoberta da subjetividade e o entendimento do entorno social.
A proposta foi materializada em um caderno brochura, encapado com papel
azul, cuja capa assemelhou-se a de um passaporte. Nas imagens a seguir, pode-se
visualizar o título “Viajando no mundo da leitura”, como referência à proposta:
Imagem 1– Passaportes de leitura
Fonte: Acervo pessoal Maíra Isabel Zibordi
138
Ao abrir o caderno, a criança e seus familiares e/ou responsáveis depa-
ravam-se com introdução e orientações para o embarque com a intenção de
convidá-los a assumir essa responsabilidade ao lado da escola. Na introdução
apresentam-se nove pontos que destacam os benefícios intrínsecos da leitura:
1. “Solta sua imaginação”; 2. “Estimula sua criatividade”; 3. “Aumenta seu
vocabulário”; 4. “Facilita a escrita”; 5. “Simplifica a compreensão das coisas”;
6. “Ajuda na vida profissional”; 7. “Melhora a comunicação com os outros”;
8. “Amplia seu conhecimento geral”; e 9. “Desenvolve o senso crítico, isto é,
a capacidade de criar sua própria opinião”.
Nas orientações para o embarque destacam-se os pontos importantes
para uma boa leitura, como a escolha do ambiente. Há, ainda, nesse campo,
sugestões de como proferir a história para a criança, como convite à imaginação
de cenários, personagens e acontecimentos das histórias. Além disso, destaca-
-se a importância de lerem juntos – crianças e familiares e/ou responsáveis –,
construindo memórias significativas e de refletirem criticamente sobre a obra
em questão. Na página seguinte consta a identificação do aluno, por meio de
seu nome, de sua turma e de sua foto 3x4. O preenchimento dessa página pela
criança confere-se o sentimento de pertencimento a um coletivo compromissa-
do com viagens literárias. Por fim, os destinos dessas viagens são marcados na
folha ao lado da identificação. A seguir, pode-se visualizar essas páginas:
Imagem 2– Introdução, identificação e destinos percorridos
139
Fonte: Acervo pessoal Maíra Isabel Zibordi
Na última página do passaporte, consta o título de cada obra lida pela
criança. As obras são cuidadosamente selecionadas pela mediadora que as
analisa em busca de perceber se são dialógicas. No passaporte de 2023, as
seguintes obras foram selecionadas:
Tabela 1 – Os destinos do passaporte – Acervo pessoal Maíra Isabel Zibordi
Passa-
porte/
Destino
Título Autor
1O rei dos cacos Vivina de Assis Viana (2009)
2O noivo da Ratinha Lúcia Hiratsuka (2011)
3Quem quer este rinoceronte? Shel Silverstein (2019)
4Que bicho será que botou o ovo? Angelo Machado (2000)
5Voa pipa, voa Regina Rennó (2011)
6Eu e minha luneta Claúdio Martins (1992)
140
Passa-
porte/
Destino
Título Autor
7Mamãe, por que os dinos-
sauros não vão à escola? Quentin Gréban (2019)
8Cachinhos de Ouro Ana Maria Machado (2018)
9Chapéu Paul Hoppe (2012)
10 Um outro pôr-de-sol Marta Neves (2001)
11 O grande rabanete Tatiana Belinky (2002)
12 Cadê Guto Lins (2008)
13 Achados e Perdidos Nye Ribeiro (2014)
14 Pai, não fui eu! Ilan Brenman (2012)
15 Vento Elma (2008)
16 As ondas Daisy Camargo (2019)
17 A menina das Borboletas Roberto Caldas (1990)
18 Zim Tam Tum Frédéric Stehr (2018)
19 Que horta Tatiana Belinky (1987)
20 O ratinho, o morango vermelho
maduro e o grande urso esfomeado Don e Audrey Wood (2000)
21 Um avô, sim Nelson Ramos Castro e
Ramón París (2012)
22 O mundo inteiro Liz Garton e Marla Frazee (2010)
23 Dorme menino, dorme Laura Herrera (2014)
24 O Cuco encucado Neuza Lozano Peres (2021)
25 O que esperar? Maria Sílvia Orlovas (2020)
O número de destinos pode variar, de acordo com a quantidade de
crianças na turma. Em uma turma de 25 crianças, existe a possibilidade de
25 destinos, por exemplo. Cada destino é representado por uma obra que
proporcionará uma viagem diferente, a qual afetará a criança e a família de
formas diversas. Considera-se o registro das viagens como a parte mais va-
liosa do passaporte, pois reflete os “voos”, que se materializam em textos e
ilustrações, feitos a partir de uma construção coletiva da criança com sua
família e/ou responsáveis. A cada viagem, a devolutiva traz consigo o resul-
tado de provocações sobre a obra. A primeira constitui-se como um convite
à reflexão sobre o livro de forma coletiva, que busca aguçar a criatividade e a
141
criticidade sem, no entanto, interferir no sentido que a criança conferiu ao
texto. A segunda requer que os leitores estabeleçam uma relação entre o livro
lido coletivamente e a história da família, ou seja, suas vivências. Essas provo-
cações objetivaram associar a leitura ao cotidiano da família e à identidade da
criança, para que, nesse momento, crianças e adultos pudessem compartilhar
memórias e histórias. Com o desenvolvimento da proposta, o Passaporte da
Leitura foi ressignificado como objeto de afeto, uma vez que se tornou um
álbum de memórias e experiências vivenciadas no ambiente familiar e a serem
compartilhadas no ambiente escolar.
Entre os exemplos dessa primeira provocação, pode-se destacar a obra
Um avô, sim, de Nelson Ramos Castro e Ramón París (2012), identificada
como “Destino 21”. A seu respeito perguntou-se: “Você tem vovô ou vo
divertidos como os da história? O que vocês mais gostam de fazer juntos? Se
não tiver essa figura na sua vida, quem é o adulto mais divertido na sua vida?”,
percebe-se o resgate afetivo que essa reflexão permitiu, assim como a obra As
ondas, de Daisy Camargo (2019), configurada como “Destino 16”. Na leitura
dessa obra indagou-se: “Você e sua família já estiveram na praia? Tem alguma
história sobre isso para contar? Caso não conheçam a praia, vocês podem con-
tar sobre uma viagem ou um passeio que fizeram juntos”. Essa leitura, assim
como a da obra Quem quer este rinoceronte?, de Shel Silverstein (2019) – com-
putada como “Destino 3” –, promoveu a ampliação do imaginário das crianças
e de suas famílias. A respeito da última indagou-se: “Essa leitura nos mostra
todas as utilidades que o rinoceronte pode ter. Se você e sua família pudessem
escolher um animal para ter em casa, qual seria e quais seriam as utilidades?”.
A ampliação do imaginário também prosseguiu com a leitura da obra Um ou-
tro pôr-de-sol, de Marta Neves (2001), identificada como “Destino 10”, a seu
respeito inquiriu-se: “Nessa história, o menino consegue imaginar exatamente
como seria sua viagem. E você? Se tivesse que viajar ao outro lado do mundo,
como seria? Você pode imaginar tudo que encontraria?”
O intuito dessas provocações associadas a cada viagem era o de levar
a criança a refletir sobre a obra e transmitir suas impressões e interpretações
verbalmente e/ou por meio de desenho, uma vez que ainda estão fora da ida-
de de alfabetização. Os destinos acima, por exemplo, se complementam pelos
desenhos das crianças/e ou de sua família da seguinte forma: Destino 21:
142
Agora você pode fazer um desenho retratando seus avós ou os adultos que
você escolheu para descrever.”; Destino 16: “Você pode fazer um desenho da
sua família nesse passeio que vocês fizeram juntos?”; Destino 3: “Agora você
pode desenhar o animal escolhido morando junto com a sua família. Vamos
lá?”; e Destino 10: “Agora que você já imaginou a viagem, você pode fazer
um desenho daquilo que achou mais divertido na sua própria imaginação?”
O passaporte resultou em um trabalho riquíssimo, pois as crianças ti-
veram amplo acesso a obras literárias e a situações de diálogo com o texto e
sobre ele. Nesses processos de leitura, conseguiram preencher as lacunas de
significação que se instauram no diálogo entre texto verbal (o que escutam) e
imagético (o que veem). Além disso, perceberam as lacunas que se instalam nas
entrelinhas, na linguagem figurada, no efeito de humor e na potência de nega-
ção. Cabe destacar que, concomitante ao Passaporte, realizou-se um trabalho
com a leitura das obras na escola, onde a professora apresentou outras possi-
bilidades de leitura e encorajou as crianças a confrontar diferentes interpreta-
ções, reconhecendo que quanto mais aberta uma história, mais ele representa.
Em âmbito escolar, proporcionou-se às crianças reflexões sobre a composição
de um livro, como seu título, autor, ilustrador, sua editora e suas dimensões.
Dessa forma, quando uma obra foi para o ambiente familiar, as crianças que
a apresentaram, utilizando-se dessas categorias de significação. Desse modo,
ampliaram a possibilidade de leitura da família e/ou dos responsáveis.
Ao analisar as experiências do Passaporte da Leitura com a “Turma da
Borboleta”, pôde-se observar como a leitura, ao ser oferecida com a finalidade
de favorecer o processo de emancipação da criança, amplia os conhecimentos
dela e também os de sua família, pois esses sujeitos têm a oportunidade de co-
nhecer o projeto gráfico editorial de uma obra, sua história e suas entrelinhas,
além da relação que se estabelece entre texto verbal e imagético, a partir do
trabalho diário de leitura feito na escola e transposto para além de seus muros.
Como exemplo, uma das viagens literárias – a de H. (5 anos), “Destino
13” – traz a devolutiva da sua leitura com a família do livro Achados e Perdidos,
de Nye Ribeiro (2014). Sobre essa obra indagou-se: “Você e sua família conse-
guiram encontrar tudo que estava perdido no livro? Na sua casa costuma sumir
muita coisa? Como vocês fazem para achar?”. Como resultado da leitura, a fa-
mília comentou: “De começo a mamãe não tinha percebido que as coisas perdidas
143
estavam escondidas nas cenas de cada página [...] Mas ainda assim, o H. foi o pri-
meiro a encontrar todos até a joaninha que estava mais difícil”. Ao levar a criança
para a escola na manhã de entrega do Passaporte, a mãe ainda procurou pela
professora para complementar, dizendo que a criança ensinou que os livros têm
dicas e que é preciso prestar atenção para entender e descobrir coisas escondidas
sobre a história. A seguir, pode-se observar o passaporte desse aluno:
Imagem 3 – Registro de viagem H.
Fonte: Acervo pessoal Maíra Isabel Zibordi
Ao ler com a família, a criança mostrou aos seus pais sua observação
atenta em relação às ilustrações, a ponto de voltarem juntos ao começo do
livro para buscar por mais dicas. Desse modo, os sujeitos envolvidos no pro-
cesso de leitura puderam ampliar o que estavam procurando nas ilustrações,
conferindo-lhe novo significado. Vale ressaltar que, para a criança, essa aná-
lise minuciosa da ilustração é feita no cotidiano da sala de aula, onde são
oferecidas oportunidades de vivenciar a literatura e, com essas vivências, am-
pliar suas experiências estéticas. Assim, a criança que aprende a inferir sobre a
ilustração, pode oferecer a ampliação de leitura à família, ou seja, ela ensina a
família a significar, por meio da interação com o texto literário.
O Passaporte da Leitura além de ampliar a reflexão, a criatividade, pos-
sibilita também o conhecimento da criança, da sua identidade, da sua história
e do seu lugar de pertencimento no mundo, de forma extremamente afetiva,
a partir do resgate das memórias de sua família. No registro a seguir sobre a
144
leitura de O Rei dos cacos, de Vivina de Assis Viana (2009) – “Destino 1” –,
pôde-se perceber que a aluna B., 5 anos reflete sobre a própria existência e
sobre a história de sua família, de maneira significativa. Quando a provocação
manifesta no Passaporte levou essa aluna e seu pai a pensarem em um objeto
que representasse um momento importante na família, permitiu à criança
tomar consciência sobre sua gestação e visitar sentimentos de uma realidade
que antecedeu a sua chegada, como a escolha do sapatinho que os pais usaram
para contar para a vovó que a mãe estava grávida. Trata-se de uma criança que
perdeu a mãe, em razão de uma hemorragia no momento do parto. A expe-
riência trouxe à tona a oportunidade de dialogar sobre a felicidade que os pais
sentiram ao saber da gravidez da mãe e sobre o quanto a criança era desejada
e amada por essa mulher. Assim, apesar de não a conhecer, nesse momento
B. pôde sentir-se um pouco mais próxima dela, por visitar seus sentimentos e
memórias, nas imagens a seguir, pode-se visualizar o Passaporte de B.:
Imagem 4 – Registro de viagem B.
Fonte: Acervo pessoal Maíra Isabel Zibordi
Outro exemplo de como o Passaporte da Leitura, assim como o ato de
ler em família, afetam os envolvidos nesse processo, são os registros do aluno
E. sobre o “Destino 14”, no caso a obra Pai, não fui eu!, de Ilan Brenman
(2012). Após a leitura em família, o pai além de participar da reflexão sobre
a obra com a criança, também se tornou ilustrador de seu passaporte, como
se nota a seguir:
145
Imagem 5 – Registro de viagem E.
Fonte: Acervo pessoal Maíra Isabel Zibordi
A princípio pode-se julgar que não seria correto o pai desenhar no espaço
de registo da criança. Todavia, ao refletirmos sobre o que essa ação representou,
deduzimos que se tratou de uma experiência afetiva riquíssima, que funcio-
nou como ponte entre a criança e os livros. A leitura em família trouxe para a
criança momentos agradáveis ao lado desse pai dedicado, que se aventurou a
desenhar com seu filho suas expressões de leitura. Do ponto de vista afetivo,
pôde-se concluir que as experiências literárias e interativas proporcionadas pelo
passaporte permitiram, ainda, o resgate da infância a esse pai. Não é justamente
este efeito que os livros de literatura infantil provocam nos adultos?
Palavras finais com o desejo de continuar a conversa
Pelo exposto, pôde-se concluir a validade de práticas de leitura que
facultem às crianças e aos seus familiares e/ou responsáveis a vivência com
experiências estéticas. Em âmbito escolar, o contato dos alunos com obras
literárias dialógicas, dotadas de ricas ilustrações, tanto rompeu com seus con-
ceitos sobre o uso da língua e da imagem, quanto ampliou seus horizontes de
expectativa. O Passaporte da Leitura ultrapassou os limites da escola, ampliou
as oportunidades de formação do leitor crítico. Mais do que levar livros para
146
ler com a família em casa, o Passaporte da Leitura permitiu que as viagens
para diferentes destinos fossem ampliadas também no tempo – presente, pas-
sado e futuro –, fomentando reflexões acerca das vivências em família. Dessa
forma, quanto mais acesso ao texto literário e à cultura as crianças tiverem,
maiores serão suas inferências e as oportunidades de dialogar e ampliar seu
repertório. Com a proposta pôde-se assegurar a formação do leitor crítico,
que reflete sobre o contexto em que está inserido.
Por fim, ressalta-se a importância de o professor refletir sobre a prática
e, assim, criar estratégias que favoreçam contatos variados com a literatura.
Cabe a esse adulto ser leitor e conhecer obras diversas, de diferentes auto-
res, que dialoguem com as vivências e os interesses de seus alunos. Para que
haja humanização por meio da literatura, é preciso investir na formação do
leitor crítico, oportunizando a ele o contato com obras que o instiguem e o
desafiem. Por meio desse processo, a criança pode refletir sobre si, realizando
descobertas identitárias, e sobre o contexto em que vive.
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151
CAPÍTULO 8
Mediação de Leitura Literária e Fruição
Estética: Questões Para a Formação de
Professoras Para e da Educação Infantil17
Mônica Correia Baptista
Hilda Aparecida Linhares da Silva
Mariana Parreira Lara do Amaral
A proposta deste texto é discutir acerca da essencialidade do papel da
professora18 da Educação Infantil, considerando o valor da oferta de leituras
literárias às crianças pequenas, quando se perspectiva a valorização da educa-
ção estética por meio da ampliação do repertório de encontros da criança com
os livros em um processo humanizador. Neste artigo, elegemos apresentar,
para análise e reflexão, um evento de leitura literária realizado com crianças
de quatro anos, em uma das turmas de uma Escola Municipal de Educação
Infantil (EMEI19) de Belo Horizonte20. Ao escolher esse evento, procurou-se
17 Trechos deste texto foram publicados, originalmente, em artigo na Revista Educar em Revista,
de Curitiba, v. 34, n. 72, p. 169-186, em nov./dez de 2018, sob o título “Literatura na Educação
Infantil: pesquisa e formação docente”, disponível no link < https://www.scielo.br/j/er/a/
Mw8rScZpX53ky8WVpRNbwLq/?format=pdf >
18 Será empregado o genérico feminino para designar as docentes da Educação Infantil em
consideração ao fato de que 98% das professoras, que atuam nesta etapa da Educação Básica, são do
sexo feminino.
19 Criadas pela Lei Municipal 8.679/2003, as Unidades Municipais de Educação Infantil, atualmente
Escolas Municipais de Educação Infantil de Belo Horizonte, atendem crianças de zero a cinco anos
e oito meses de idade.
20 A EMEI em questão foi parceira e colaboradora da pesquisa “Letramento literário na Educação
Infantil”, a qual foi financiada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-558-2.p151-165
152
chamar atenção para a complexidade da prática de leitura compartilhada. Sua
análise se orienta por duas premissas principais. A primeira delas é a de que
a linguagem é o lugar de encontro entre sujeitos, bem como de produção e
compartilhamento de sentidos sobre a experiência humana e de construção
de subjetividades. Entendemos, com Mikhail Bakhtin (1992, 2000), que a
linguagem assume centralidade no processo de inserção dos sujeitos na cul-
tura e que as instituições educativas são espaços de encontro desses sujeitos,
mediados por práticas de linguagem por meio das quais atribuem sentidos ao
mundo e os compartilham.
A segunda premissa é a de que literatura é um direito de todos, desde
o nascimento, nos termos em que Candido (2011) se manifesta sobre esse
direito: um direito humano, fundamental, inalienável porque, ao dar forma
aos sentimentos e à visão de mundo, nos organiza, nos liberta do caos e, fi-
nalmente, nos humaniza (p. 188). Assumir a literatura como direito humano
é também assumir o papel importante que as instituições educativas devem
ter no processo de imersão das crianças na cultura.
As experiências de bebês e demais crianças pequenas com a literatura
se dão, como todas as demais experiências com a cultura, pela mediação do
outro, que atribui sentidos a essa prática cultural e compartilha esses sentidos
nas interações que estabelece com os pequenos. Daí a importância de quali-
ficar essas mediações, de modo que elas sejam potencializadoras de uma rela-
ção com a literatura que prima pela experiência estética com o texto e com os
suportes nos quais ele circula.
Leitura literária na primeira infância: construindo subjetividades
Algumas questões orientam nossas reflexões acerca da relação entre lite-
ratura infantil e primeira infância21. Qual a especificidade da experiência com
– CAPES e pela Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais – FAPEMIG, por meio do
Edital 13/2012. A pesquisa teve como propósito investigar práticas de leitura literária em turmas de
crianças de zero a seis anos incompletos, com vistas a ampliar e ressignificar saberes e representações
relacionados à literatura e aos processos de formação das crianças como leitoras, criando, para isso,
estratégias de formação docente.
21 Estamos considerando primeira infância como sendo “o período que abrange os primeiros 6 (seis)
anos completos ou os 72 (setenta e dois ) meses da vida da criança, conforme Lei N. 13.257 de
março de 2016.
153
a literatura na primeira infância? Que papel a literatura infantil desempenha
no desenvolvimento infantil?
Tanto na Psicologia quanto na Psicanálise, poderíamos encontrar res-
postas para essas duas perguntas. Ambos os campos do conhecimento con-
tribuem para a compreensão de que a experiência com a literatura liberta a
criança dos limites impostos pela realidade imediata, permitindo que transite
por um mundo de fantasia, no qual colhe elementos para lidar com seus
sentimentos, inclusive com suas dificuldades e frustrações. Dessa forma, a
literatura pode permitir, ao sujeito, atuar sobre a realidade de forma criativa,
inventiva e emancipatória. Isso porque, no texto literário, a linguagem, sig-
no por meio do qual o sujeito por excelência constitui sua subjetividade, se
apresenta de forma outra daquela que assume na vida cotidiana: revestida de
beleza, e de inventividade. A experiência com a literatura é, pois, essencial-
mente, uma fonte inesgotável de estesia.
Para Vigotski (2010), uma educação estética por meio da literatura
se daria à medida que, na condição de arte, a literatura permite a aquisição
de novas formas de lidar com a realidade, de criar novos arranjos para os
elementos da realidade externa, de modo a atender às necessidades internas
dos sujeitos. No texto “A educação estética”, que integra a obra “Psicologia
Pedagógica”, o autor critica uma apropriação das vivências estéticas pela
Pedagogia, que, segundo ele, tende a atribuir a essas vivências um sentido
educativo, ou seja, tende a tomá-las como um “recurso pedagógico radical”
(p. 323), capaz de solucionar todos os problemas da educação. Esse tipo de
pedagogização” da experiência literária, segundo o autor, provoca um dis-
tanciamento das crianças em relação à literatura e um “amortecimento sis-
temático do sentimento estético, sua substituição por um momento moral
estranho à estética [...]” (p.328).
Para Bakhtin (2000), há o que ele denomina de responsividade no tex-
to literário, já que, nele nos vemos diante da palavra que se abre a múltiplos
sentidos e, portanto, ao diálogo, a muitas respostas e a novas perguntas pos-
síveis. Nessa teia discursiva, os sujeitos vão se constituindo como tal, por
meio das respostas que dão às perguntas suscitadas pelo texto literário e por
meio das perguntas que fazem a ele. O texto literário pressupõe, portanto,
uma compreensão responsiva e, “[...] aquilo a que responde é ao mundo da
154
vida vivida, a vivência. Por isso lê-lo e interpretá-lo significa compreender o
tipo particular de seu engajamento, de sua resposta, de sua responsabilidade
(Petrilli, 2010, p. 37).
A abertura de sentidos proporcionada pela literatura faz com que ela se
constitua em uma espécie de andaime (Colomer, 2007), para as experiências
infantis em relação à capacidade simbólica da linguagem. Nesse sentido, a
experiência com a literatura permite às crianças compreender uma função
específica da linguagem que se contrapõe àquela do cotidiano. A literatura
mostra às crianças que “paralelamente à língua prática e funcional, utilizada
para regular e satisfazer necessidades cotidianas, existe outra que não serve
para nada útil e imediato, que é supérflua e que só tem sentido na brincadeira
e no afeto” (Mata, 2014, p. 51).
Importante ainda destacar que, das crianças pequenas, incluindo os be-
bês, a prática de leitura literária diz respeito também a uma dimensão corpo-
ral, de acolhimento aos gestos, entonações, trocas de olhares, sorrisos e afagos
que se fazem presentes nos momentos nos quais alguém mais experiente lhes
conta ou lê uma história. Às experiências com essa outra linguagem “supér-
flua” e, por isso mesmo, rica em possibilidades de dizer sobre muitas coisas,
vão se incorporando modos como as crianças se constituem como sujeitos.
Leitura literária na Educação Infantil e formação docente: reflexões a
partir de uma experiência de mediação com o livro Raposa, de Margaret
Wild e Ron Brooks
Considerando a complexidade da ação pedagógica comprometida com
essa educação estética, Colomer (2007) chama atenção para a necessidade de se
constituir um itinerário de leitura capaz de auxiliar as crianças a compreender o
mundo e desfrutar da vida (p. 9). Essa tarefa, quando atribuída aos docentes da
Educação Infantil, se torna ainda mais complexa ao imaginarmos que o contato
das crianças com os livros requer a presença constante das professoras na defini-
ção de quais obras disponibilizar, quando e como fazê-lo e, ainda, quais interven-
ções podem apoiar a formação do leitor antes, durante e depois da leitura.
Um primeiro elemento a ser considerado na criação desse itinerário é
a seleção das obras, tarefa aparentemente simples. Há, no mercado editorial,
livros de alta qualidade, assim como obras de qualidade bastante duvidosa.
155
Separar “o joio do trigo” é uma das competências profissionais que precisam
ser asseguradas às professoras, ainda na sua formação inicial.
Como veremos no episódio analisado a seguir, o livro Raposa, escrito
por Margaret Wild e ilustrado por Ron Brooks (2005), da editora Brinque-
Book, apresenta um diálogo entre os textos verbal e visual que demonstra
o quanto os sentidos da narrativa podem ser ampliados quando essas duas
linguagens dialogam entre si, em um jogo sequencial de imagens e palavras
harmonicamente construído. A complexidade e a sutileza do projeto gráfico-
-editorial do livro materializam a atmosfera de traição, inveja, risco e dor que
perpassa a trajetória das personagens. Graça Ramos (2011) inicia sua análise
do livro Raposa chamando atenção para a capa e as folhas de guarda da obra.
Sinta já na capa o calor que a mistura das cores vermelho e dourado produz.
Os olhos do animal brilham tanto que parecem animados. [...] Na primeira
página, dupla, a floresta parece pegar fogo. Na próxima, o texto verbal apre-
senta os autores, e o visual mostra um cão segurando à boca uma ave, cuja cor
preta, se destaca. As orelhas do cão parecem duplicadas pela ação do vento.
O leitor está apresentado a todos os personagens da história: Raposa, Cão e
Gralha. O texto visual funciona como escritura, pois só mais tarde o texto
verbal irá identificar os protagonistas da história. (Ramos, 2011, p. 87).
Figura 1 – Capa do livro Raposa
Fonte: Wild; Brooks (2005)
Se o projeto gráfico se mostra complexo e cheio de detalhes, não menos
complexa é a temática e a abordagem dada a ela pelos textos verbal e visual. Os
156
personagens Cão, Gralha e Raposa vivem uma história perpassada pela solidarieda-
de, amizade e lealdade, mas também pela inveja, traição, ciúmes e arrependimento.
Diante dessas características da obra acima mencionadas, poder-se-
-ia imaginá-la inadequada para crianças pequenas. Não por acaso, o livro
integra o acervo de obras do PNBE, que, no ano de 2006, destinou-se a
leitores dos anos finais do Ensino Fundamental (crianças e jovens entre
onze e quatorze anos de idade). No entanto, o evento de letramento literá-
rio aqui analisado teve acento em uma turma de crianças de quatro anos.
Nessa turma, a presença da literatura era constante, fato que se constituía
uma exceção em relação às demais turmas. As crianças não apenas vivencia-
vam diariamente leituras realizadas pela professora, como também tinham
livre acesso aos livros infantis, em momentos diversificados da rotina. Além
disso, no trabalho pedagógico cotidiano da professora, a literatura ganhava
destaque ao interagir com outras linguagens, contribuindo para ampliar e
reconfigurar as experiências infantis.
A leitura do livro Raposa foi realizada na sala de atividade das crianças,
na EMEI, por uma das pesquisadoras do grupo Leitura e Escrita na Primeira
Infância – LEPI - da Faculdade de Educação da UFMG. Aproximadamente
vinte crianças estavam sentadas ao chão ou agachadas, agrupadas próximas
umas das outras, em frente à cadeira da mediadora. O vídeo analisado, resulta-
do da edição feita a partir da gravação original, tem a duração de 06 min 01s.
O evento de letramento literário será analisado tomando como referên-
cia as habilidades descritas por Soares (1998). Para a pesquisadora, a leitura
requer, além da decodificação de símbolos escritos,
[...] a habilidade de captar significados; a capacidade de interpretar sequências
de ideias ou eventos, analogias, comparações, linguagem figurada, relações
complexas, anáforas; e, ainda, a habilidade de fazer previsões iniciais sobre o
sentido do texto; de construir significado combinando conhecimentos pré-
vios e informação textual; de monitorar a compreensão e modificar previsões
iniciais quando necessário; de refletir sobre o significado do que foi lido, tiran-
do conclusões e fazendo julgamentos sobre o conteúdo. (Soares, 1998, p. 69)
Vejamos, a seguir, como essas habilidades são mobilizadas durante a
leitura do livro Raposa, com a turma de quatro anos da EMEI.
157
A pesquisadora inicia a atividade de leitura mostrando às crianças
a capa do livro e perguntando que título elas dariam à história, ao que as
crianças respondem “raposa”. Diante da resposta das crianças, a pesquisado-
ra indaga sobre como as crianças chegaram àquela conclusão. Muitas delas
referem-se à palavra grafada no alto da capa, ainda que nenhuma delas lesse
convencionalmente. A pesquisadora continua
P: /.../ por que tem escrito (reproduzindo a resposta das crianças) e por
quê? ... (alongando a última letra sugerindo que as crianças complemen-
tassem a frase).
M: tem uma raposa.
P: sobre o que será essa história?
D: uma raposa.
P: (em tom de confirmação) uma raposa.
(várias crianças falam ao mesmo tempo, algumas se ajoelham para tentar
ver melhor o livro).
A apresentação da capa e as primeiras perguntas da pesquisadora
provocam previsões iniciais sobre o sentido do texto que será lido a seguir.
Entretanto, é uma das crianças quem dá início a uma leitura perspicaz da
imagem estampada na capa. Tal leitura requer, como se verá a seguir, que se
estabeleçam relações complexas a partir de uma linguagem figurada.
F: uma raposa do maaaal! (Com um tom de voz ao mesmo tempo de
suspense e de ironia).
P: uma raposa do mal? (Demonstrando espanto). Por que do mal?
(Várias crianças comentam algo ao mesmo tempo).
F: por que olha a cara daquela Raposa! (Com um tom que expressa
obviedade).
T://por que os caçadores tentam caçar ela.
P: é verdade... olha só o que a F tá falando: que é uma raposa do mal, por
que “olha só a cara dela”. Mas, o que na cara dela que fala que ela é má?
Crianças: (Várias crianças respondem ao mesmo tempo). O olho.
P: que que os olhos dela fazem?
J: tá brilhando.
F: que brilhando?! (indignada) Tá assim ó (faz um gesto com os dedos,
esticando os olhos). (Risos).
K: são riscos.
158
P: será que isso é olho de ...raposa má?
Crianças: não!
Crianças: é! é! é!
(Várias crianças falam ao mesmo tempo, umas dizendo que sim e outras
que não. Algumas crianças se ajoelham para ver mais de perto o livro e
outras tentam se aproximar da cadeira onde está sentada a pesquisadora).
Os recursos gráficos, que dão aos olhos da Raposa brilho e formato
sugestivos, além das cores e do material utilizados na capa do livro, produ-
zem, nessas crianças que iniciam seu processo como leitoras de literatura,
um significado peculiar. Interpretar esses recursos gráficos, atribuindo a eles
os sentidos que a leitura da história confirmará, é uma capacidade, em geral,
presente em leitores mais experientes.
Essa capacidade de ler a imagem e atribuir a ela sentidos é mais uma
vez mobilizada quando a pesquisadora, ao dar continuidade à exploração do
livro, pede às crianças que antecipem o que está ocorrendo na história, apre-
sentando a elas as primeiras folhas de guarda.
P: [...] Então vamos ler pra descobrir se essa Raposa é... má como vocês
disseram por causa dos olhos? (Passa a página e mostra as folhas de guar-
da nas quais aparece uma floresta em chamas. As crianças permanecem
muito atentas) Que que tá acontecendo, hein? Que cês acham que tá
acontecendo aqui?
Crianças: (várias crianças respondem) tá pegando fogo. Fogo!
Pode parecer evidente o sentido atribuído pelas crianças a partir da
imagem contida nas folhas de guarda. Entretanto, a leitura de quaisquer
imagens exige do leitor um deslocamento que lhe permita reconhecer, no
icônico, traços da realidade. Essa capacidade está dada, de um lado, pela se-
melhança entre imagem e objeto representado, mas também, por outro, pelo
acúmulo de conhecimentos acerca das representações icônicas, que são resul-
tado de construções culturalmente estabelecidas. A imediata identificação de
várias crianças da turma de que se tratava de uma floresta em chamas sugere a
familiaridade desses sujeitos com imagens utilizadas em obras ilustradas. Essa
leitura da imagem pressupôs o reconhecimento, no traço dos objetos, nas
cores empregadas, da representação de árvores incendiadas.
159
Figura 2 – Folhas de guarda do livro Raposa
Fonte: Wild; Brooks (2005)
Outra habilidade diversas vezes mobilizada ao longo da atividade foi a
de construção de novos significados, na medida em que as crianças combina-
vam conhecimentos prévios com informações textuais. Na sequência abaixo,
as crianças são instigadas a elaborar hipóteses a partir do que sugerem as
imagens e as ações dos personagens nelas expressas.
[...]
B: tá comendo ainda.
P: //ele tá com ele na boca. E o que mais que ele tá fazendo?
Crianças: (algumas crianças respondem juntas) correndo.
P: correndo (repete o que as crianças dizem para confirmar a adequação
da resposta). Por que será, hein?
G: por que a mãe do passarinho deve tá correndo atrás dele.
P: pode ser. Ele tá fugindo rápido pra dar tempo dele comer o passarinho.
Se ele estiver querendo comer, pode ser isso! (passa a página). E agora?
Crianças: (várias respondem ao mesmo tempo) a Raposa... //a Raposa e o
Cachorro! // Outra raposa.
F: ah! A raposa tá atrás do cachorro. E o cachorro tá atrás ...da ave! (Sorri
como se estivesse em dúvida em relação a sua interpretação).
R: (Levantando o braço para pedir a palavra) ah, já sei! //
F: (tenta interromper) // e a ave tá atrás... //
R: // o cachorro tá levando o Passarinho pra Raposa não comer.
P: pode ser! // (A pesquisadora aponta para R, indicando que concorda
160
com a fala dele. F tenta nova interrupção, mas a pesquisadora prossegue).
Também é uma hipótese//
F: (finalmente consegue falar) a Raposa também gosta de ...de aves.
P: verdade! Eles podem tá competindo pela ave pra ver quem vai comer
primeiro; ou então o Cachorro pode tá salvando a Ave, da Raposa (aponta
para R indicando que fora dele a ideia).
F: ou a Raposa salvando o cachorro.
P: Exatamente. Então vamos ver. Vamos ler pra descobrir. (Inicia a leitura
do livro, passando as páginas voltadas para as crianças que permanecem
todas sentadas e atentas até o término da leitura da história).
No trecho acima, importa também destacar a condução adequada e
pertinente da pesquisadora. Ela vai tecendo com as crianças uma teia de sig-
nificados possíveis. Aproveita cada hipótese levantada, referendando-as e, ao
mesmo tempo, vai construindo novas possibilidades a partir delas, sem ante-
cipar ou impor sentidos definitivos ao grupo.
Os dois últimos trechos a seguir referem-se ao momento de finalização
da leitura do livro. No primeiro deles, materializa-se mais uma evidência de
que essas crianças vivenciavam, costumeiramente, experiências significativas
com leituras literárias.
P: (A pesquisadora termina a leitura da história, lendo a última frase do
livro) ¨[...] e lentamente, cambaleando, ela começa seu longo caminho de
volta¨.
Crianças: (As crianças permanecem em silêncio e sentadas, apenas uma
delas exclama demonstrando desagrado com o fato de a história ter che-
gado ao fim) Ahhhhh!
T: (Levantando o braço em meio a um princípio de falas coletivas) Posso
ver?//
G: // (ao mesmo tempo que T) Lê a quarta capa?
P: a quarta capa? (fala mais alto para que toda a turma preste atenção no
que T solicitou). A quarta capa tá falando assim ó (lê o texto contido na
quarta capa do livro) ¨Cão e Gralha são amigos, mas quando Raposa apa-
rece na mata, tudo muda. Raposa é um drama exemplar sobre amizade,
lealdade, risco e traição – um tema profundo para todas as idades¨.
A criança, ao solicitar que a pesquisadora leia para ela as informa-
ções contidas na quarta capa do livro, talvez o faça em busca de pistas para
161
interpretar o final da história, já que o mesmo se caracteriza como um final
aberto, que comporta diferentes sentidos. A criança lança mão de uma das
habilidades requeridas, como vimos acima, quando pensamos na prática da
leitura: apoiar-se em conhecimentos paratextuais para auxiliar na construção
de sentidos. Essa criança conhece esse gênero discursivo, que se apresenta na
quarta capa, e sabe o que esperar dele.
No último excerto, constata-se mais uma vez a competência leitora da
turma na medida em que as crianças se mostram capazes de refletir sobre o
significado do que fora lido, tirando conclusões e fazendo julgamentos sobre
o conteúdo do texto.
T: (Erguendo os braços para pedir a palavra) posso ver?
P: pode! Mas deixa eu perguntar uma coisa pra vocês: o que ... que... a
Raposa queria com a Gralha?
Y: Deixar ela sozinha ...
V: No fogo.
P: deixar ela sozinha (fala bem baixinho, como se tivesse sido surpreendi-
da pela resposta da criança). Por que, Y?
Crianças: Por que ela... por que...
Y: por que ela tava com inveja do cão!
P: Inveja por causa de quê?
Y: (tentando formular a resposta) por que ...por que...
V: por que ele tinha amigos e a raposa não.
P: exatamente! E essa história tem um final feliz?
Crianças: Não!
F: não! Tem um final mal. (Risos).
P: tem um final surpreendente, né? Cês querem ver? // (oferece o livro
para as crianças pegarem. Inicia-se uma dispersão e as crianças começam
a conversar).
Y: // (Falando ao mesmo tempo que a pesquisadora) que ele pode ser feliz
ou não! Que ela pode morrer no meio do deserto antes de chegar ou pode
conseguir chegar! (A fala de Y é quase inaudível por que as crianças já
estão dispersas e conversando entre si).
P: (A pesquisadora, visivelmente entusiasmada, recupera a fala da criança)
Gente, olha isso que a Y. falou... Eu perguntei se a história tinha um final
feliz e ela falou assim... fala de novo, alto!
Y: Que a gente pode saber se ela foi pra casa ou morreu antes de ir!
P: (A pesquisadora retoma a fala fazendo uma síntese). Pode ter um final
162
feliz ou não! Ou ela vai morrer no meio do deserto ou ela vai conseguir
chegar pra reencontrar o cão. Verdade... fica no ar, né, o final... Muito
bem pessoal, vocês gostaram?
Vigotski (2010), ao discorrer sobre a experiência estética, enfatiza o
fato de que o espectador ou ouvinte não é um mero contemplador da obra de
arte mas, ao contrário, desempenha um papel ativo na sua recepção. Para ele,
a natureza da vivência estética se define pelos estímulos e reações que provoca
no organismo, diferente daquele tipo de reação que habitualmente ocorre em
vivências de outra natureza, no que consiste o estado de estesia provocado
pela arte. Além dos aspectos anteriormente analisados, o fato de crianças tão
pequenas produzirem sentidos a partir de uma obra que suscita sentimentos
complexos, os quais, conforme poderiam supor alguns adultos, sequer fariam
parte do universo infantil, é também um elemento que chama especial aten-
ção na conclusão desse evento de letramento literário.
Palavras finais com desejo de continuar a conversa
O evento com o qual dialogamos ao longo deste texto nos incita à re-
flexão sobre a complexidade da educação literária de crianças e professoras e
sobre as condições em que essa formação pode ocorrer, em contextos institu-
cionais de Educação Infantil. Remete à dimensão estética da formação como
aquela capaz de romper com certa ¨anestesia¨, resultante de rotinas fragmen-
tadas, de visões pragmáticas atribuídas ao texto literário e da dificuldade de
compreender as crianças como seres criativos e inteligentes. A dimensão es-
tética busca, portanto, promover a estesia que o contato com a obra de arte
pode evocar. A literatura, ao abrir caminho para as primeiras experiências
com o universo fabular, é manifestação de uma dimensão fundamental da
infância: a possibilidade de transgredir o instituído, de recriar o mundo dado
por meio de elaboração de outros mundos imaginados. Daí a centralidade
que o texto literário assume na educação das novas gerações e a sua afirmação
como um direito fundamental dos seres humanos desde o seu nascimento.
Para que possamos refletir sobre a importância da formação de media-
dores capazes de contribuir para uma educação literária, destacamos um epi-
sódio de leitura fruto de um projeto de pesquisa participativa desenvolvido
163
pelo LEPI/UFMG. Concebemos as ações de pesquisa como momentos privi-
legiados para promover práticas de linguagem que possam potencializar for-
mas de dizer e de significar, e criar novas condições de apropriação da cultura.
Esse aprendizado humanizador envolve uma educação da sensibilidade, de
professoras e crianças, assim como a apropriação de saberes e conhecimentos
necessários às docentes para a realização de boas escolhas das obras a serem
lidas, da organização dos espaços para a efetiva disponibilização das mesmas
e de consistentes e adequadas estratégias metodológicas para apoiar as leituras
e as conversas sobre elas, com as crianças. Uma educação literária exige das
professoras uma ação profissional competente, que na analogia de George
Steiner (2009) equivaleria à dos carteiros. “[...] É um trabalho muito bonito
ser professor, aquele que entrega as cartas, embora não as escreva. [...] Somos
os carteiros, e somos importantes. Os escritores precisam de nós para chegar a
seu público. É uma função muito importante, mas não é o mesmo que criar
(Steiner, 2009, p. 4).
Mas qual a importância de se entregarem cartas? A importância está
obviamente no fato de fazê-las chegar, mas está também na forma como as
entregamos. É preciso despertar, naquele que as irá receber, o desejo de co-
nhecer o seu conteúdo; fazê-lo compreender a importância transformadora
desse conteúdo; ter ciência dos riscos decorrentes de sua apropriação pelo seu
caráter transformador e, por isso mesmo, pela imprevisibilidade do que irá
acarretar no sujeito que dele se apropria. Como o carteiro do filme, cabe às
professoras perceberem a potência das crianças para lidar com os temas trazi-
dos pelos textos literários e sensibilizá-las para a forma estética com a qual a
literatura trabalha esses temas e, assim, vislumbrarem infinitas possibilidades
para a mediação entre crianças e textos literários.
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167
CAPÍTULO 9
As Histórias Literárias na Escola de
Educação Infantil: Elementos Para Pensar
a Prática de Contação de Histórias
Ketty Claudia Neves do Amaral22
Leila Cristina de Carvalho Sandim
Simone Marques S. Carvalho
A prática em contar e ouvir histórias vem perpetuando entre séculos, desde
os tempos longínquos que essas ações são contempladas e comprovam a necessi-
dade do ser humano de relacionar-se com o outro, com o meio e com a cultura.
De fato, a arte de contar histórias fascina os ouvintes e quem narra, impulsio-
nando assim, nos processos que permeiam o desenvolvimento da imaginação, do
pensar, da interação dos pares, das descobertas, experimentações e aprendizagens.
Assim, discorremos acerca da importância das histórias literárias na/
para a formação humana, reforçando que a escuta literária é essencial desde a
mais tenra idade. Enfatizamos que a Escola de Educação Infantil é um lugar
privilegiado para que se ocorra práticas da narrativa oral. Todavia, refletimos
sobre alguns desafios enfrentado por educadores frente a ação de ser profes-
sor/a-contador/a de histórias, uma vez que, essa prática não se resume em
técnicas de memorização, mas em conhecimentos literários e dedicação.
Dentre as alternativas pré-dispostas como apoio para práticas peda-
gógicas literárias, há os Canais de Contação de Histórias do YouTube sendo
22 O presente trabalho faz parte de uma pesquisa de mestrado concluída intitulada: Práticas de
Contação de Histórias na Escola de Educação Infantil e a Pandemia de Covid-19: Reflexões acerca
de dois Canais do Youtube. Orientado pela Prof.ª Dr.ª Amanda Valiengo. Mestranda concludente:
Ketty Claudia Neves do Amaral.
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-558-2.p167-181
168
utilizados como uma fonte de referência por educadores. Dessa forma, ao
decorrer deste texto propomos uma reflexão a partir deste recurso digital,
apresentando determinados pontos que podem ser considerados em relação
ao uso desta ferramenta na Educação Infantil.
A arte de contar histórias está relacionada ao encanto de quem ouve e
de quem conta, pois para se contar bem uma história é necessário primeiro se
encantar por ela, permitir que o conto reverbere as memórias e multiplique
a imaginação. As histórias literárias fazem parte da formação humana, suas
contribuições para/na infância estão relacionadas aos aspectos que permeiam
a relação com o outro, com a cultura e com as experiências do dia a dia.
Ao enfatizar que contar histórias parte de uma experiência de relaciona-
mento humano que tem em si uma qualidade única, insubstituível, Machado
(2004) pontua que, o conto pode unir pessoas. E, é por meio dessa relação que
envolve histórias, adultos e infância, que acreditamos ser esta uma via que possa
conduzir as práticas de humanização. Ramos (2010, p. 91) destaca a experiên-
cia com a contação de histórias como uma das mais propícias à humanização:
Afirmamos que esta experiência é humanizante e humanizadora. Humanizante
porque possibilita o exercício da convivência entre as pessoas entrelaçadas por
um motivo, razão ou propósito: uma boa história, um bom enredo. Ela tam-
bém é humanizadora porque o exercício desta convivência nos torna o objeto
virtuoso do próprio exercício da contação: introjetamos o conteúdo moral
narrado e levamos conosco as referências éticas para novas experiências.
A Escola de Educação Infantil (EEI) é um espaço oportuno para a
prática da narrativa oral literária, pois possui papel fundamental no que se
refere ao processo de formação humana, sendo um espaço privilegiado para
contemplar experiências com o mundo literário. Desse modo, destacamos os
conhecimentos literários por meio da contação de histórias, que estimulam o
contato com a arte, palavra, imagem, musicalidade, sonoridade e a constru-
ção da linguagem verbal.
Velasco (2018, p.73) expressa que: “Contar histórias na Educação
Infantil implica um mergulho em outro jeito de experimentar, descobrir e
fazer. Aprender a olhar a criança do ponto de vista da criança”. É aproxi-
mar-se da criança e permitir que possa vivenciar e explorar as mais diversas
169
experiências literárias, compreendendo as suas necessidades.
Para alargamento dessas perspectivas a autora Girardello (2014, p. 56)
reforça que as crianças têm a necessidade de ouvir histórias e que “as histórias
precisam ser ouvidas por crianças para seguirem em seu caminho sinuoso
através das eras”. Em conformidade, Reyes (2010, p. 51) enfatiza que a voz
adulta é uma espécie de nutrição infantil ao mesmo tempo em que conduz as
histórias. “A tradição oral com seu legado de rimas, rondas, poemas e contos
corporais é um grande livro que se atualiza na voz dos adultos e constrói ou-
tro cenário para conquistar a linguagem em outra ordem”.
De fato, os momentos de contação podem despertar em bebês e nas crian-
ças a oralidade, a escuta, o pensamento, a imaginação, a memória, a comunicação
e a aprendizagem de inúmeras palavras, além, e principalmente, de se constituir
num instrumento que humaniza. Com base nessas considerações, a prática cons-
tante em contar histórias tende a promover relações de humanização e socializa-
ção entre o educador e a criança pequena, possibilitando ações significativas que
contribuem para linguagem oral, memórias afetivas, propondo uma intervenção
ativa e consciente nos processos de aprendizagem e desenvolvimento.
Velasco (2018) propõe repensarmos a arte de contar histórias na
Educação Infantil, a partir de uma visão mais abrangente daquilo que seria a
cultura própria da infância. Ou seja, para autora, as histórias, as descobertas,
as experiências, as oportunidades do brincar e o processo que se instituiu por
meio das relações consigo e com o outro se encontram unificados nesse mo-
vimento que engloba desenvolvimento e infância. Nessa perspectiva, Souza e
Mello (2017, p. 199) discorrem:
A brincadeira de papéis sociais, a investigação e o conhecimento de mun-
do, a expressão das crianças por meio das tantas outras linguagens – como
o desenho, a fala, o movimento, a música, o gesto –, o ouvir e o contar
histórias, a relação com os adultos e as outras crianças são cruciais como
atividades que promovem o desenvolvimento humano na infância.
As histórias narradas em suas multiplicidades tendem a favorecer momen-
tos em que essas experiências sejam prazerosas. Nessa perspectiva, a prá-
tica pedagógica auxilia no desenvolvimento dos bebês e crianças e pode
favorecer as compreensões culturais, de mundo, autoconhecimento e a
observação para afinidades em coletivo. Brandão e Rosa (2011, p. 37)
enfatizam o quanto esses momentos são oportunos:
170
Assim, a roda de histórias possibilita que a constituição de uma identi-
dade grupal faça parte das práticas educativas. Isto porque professora e crian-
ças participam juntas de uma atividade em que vão descobrindo palavras que
soam engraçadas, enredos que despertam a curiosidade pelo seu encadeamen-
to, tramas que geram tensão seguida de alívio. Deste modo, além de parti-
lharem palavras, os integrantes da roda partilham sentimentos, pensamentos,
formas de interpretar a si mesmos e a realidade vivida.
Assim, escutar histórias na infância é um ato que colabora para a formação do
sujeito leitor. Nesse sentido, a professora, ao contar uma história, pode levar a
criança a se descobrir e despertar a curiosidade tanto para o mundo imaginário,
quanto para com o mundo ao seu redor. “As histórias são fontes maravilhosas de
experiências. São meios preciosos de ampliar o horizonte da criança e aumentar
seus conhecimentos em relação ao mundo que a cerca” (Busatto, 2012, p. 02).
Portanto, o docente em sua atividade pedagógica pode oportunizar mo-
mentos que caracterizam tais descobertas a partir da narrativa oral literária.
Dessa forma, algumas questões se colocam como: Quem prepara o docente
para a arte de contar histórias? Qual o papel do/a professor(a) contador(a) de
histórias? Se a narrativa oral literária é de suma importância para o desenvol-
vimento infantil, qual o lugar que ela ocupa nos planejamentos pedagógicos?
Alguns elementos podem nos ajudar a refletir sobre esses questionamen-
tos e para esta exposição, focaremos em três. O primeiro trata-se de que as
histórias fazem parte do patrimônio cultural da espécie humana e, para muitas
crianças, a oportunidade de ouvir histórias se encontra dentro do ambiente
educacional. Nessa perspectiva, as autoras Carvalho e Baroukh (2018, p. 39)
defendem que “A escola é, por excelência, o lugar em que as crianças devem ter
acesso ao patrimônio cultural da humanidade – esse é um direito que lhes cabe
desde o momento em que pisam em sua primeira instituição escolar”.
Candido (2011, p. 177) nos faz refletir acerca da importância de a
literatura fazer parte dos currículos, principalmente por se tratar de uma
construção cultural, social e fator indispensável de humanização: “Por isso
é que nas nossas sociedades a literatura tem sido um instrumento poderoso
de instrução e educação, entrando nos currículos, sendo proposta a cada um
como equipamento intelectual e afetivo”.
171
A contação de histórias na Escola de Educação Infantil pode promover
o desenvolvimento sociocognitivo, a formação de leitores, por meio de uma
relação lúdica e prazerosa entre o educador e a criança. Ouvir histórias pode
proporcionar às crianças, desde a mais tenra idade, o conhecimento de ou-
tras culturas, o contato e a compreensão de inúmeras palavras, dentre outros
benefícios. “Ah, como é importante para formação de qualquer criança ouvir
muitas histórias” (Abramovich, 2009, p. 16).
O segundo elemento, trata-se de documentos oficiais que propõem mo-
mentos de experiências literárias, como as Diretrizes Curriculares Nacionais
para Educação Infantil (DCNEI) (Brasil, 2010, p. 25) que definem: “III –
Possibilitem às crianças experiências de narrativas, de apreciação e interação
com a linguagem oral e escrita, e convívio com diferentes suportes e gêneros
textuais orais e escritos”. O referido documento expõe ainda que a criança
deve ter possibilidades de brincar, imaginar, fantasiar, desejar e aprender.
Dentre os inúmeros bens culturais, é necessário garantir às crianças
o acesso a linguagem oral e escrita, desse modo as Diretrizes Curriculares
Nacional da Educação Básica (DCNEB) (Brasil, 2013) ressaltam:
É importante lembrar que dentre os bens culturais que crianças têm o direito
a ter acesso está a linguagem verbal, que inclui a linguagem oral e a escrita,
instrumentos básicos de expressão de ideias, sentimentos e imaginação. A aqui-
sição da linguagem oral depende das possibilidades de as crianças observarem e
participarem cotidianamente de situações comunicativas diversas onde podem
comunicar-se, conversar, ouvir histórias, narrar, contar um fato, brincar com pa-
lavras, refletir e expressar seus próprios pontos de vista, diferenciar conceitos, ver
interconexões e descobrir novos caminhos de entender o mundo. É um proces-
so que precisa ser planejado e continuamente trabalhado (Brasil, 2013, p. 94).
De fato, a criança precisa ser reconhecida como sujeito histórico e de
direitos que deve vivenciar as mais amplas possibilidades de desenvolvimento
infantil, a partir de práticas pedagógicas em suas interações e relações. A Base
Nacional Comum Curricular (BNCC) (Brasil, 2018, p. 43) evidencia que
criar e contar histórias oralmente, com base em imagens ou temas sugeridos
faz parte do campo das experiências que envolvem a escuta, fala, pensamento
e imaginação, sendo um dos objetivos de aprendizagem que contemplam o
desenvolvimento das crianças pequenas.
172
Corroborando essas explanações, Sisto (2012, p. 12) afirma que: “O
processo pedagógico de toda e qualquer escola certamente estará enriquecido
com a inclusão de atividades de contação de histórias. Portanto, a prática de
narrar histórias é uma das tantas formas utilizadas por professores em seu
planejamento que envolvem oralidade e escuta.
O terceiro elemento está relacionado a compreensão dos desafios dos
professores para/com a arte de contar histórias. Assim, partimos da premissa
de que a oralidade contribui para o desenvolvimento das práticas de conta-
ção de histórias, que fazem parte das ações mediadas entre adultos, bebês e
crianças pequenas.
Ao pensarmos na prática de contar histórias por professores esbarramos
em algumas questões que nos impulsionam a refletir sobre essa atividade que
envolve preparo, dedicação, técnica e recursos. E, em sua maioria, cabe ao
docente a busca por informações e formações continuadas para que se possa
apresentar uma narrativa literária de qualidade.
Outra questão consiste na ausência da promoção de formações que
atendam sem restrição todos os docentes e visam a orientação da atividade
pedagógica para/com a narrativa oral literária. Machado (2015), a partir de
suas experiências em oficinas para formação de contadores de histórias, relata
sobre alguns questionamentos que fazem parte do percurso que envolve pro-
fessor(a)-contador(a), tais como: de que forma contar histórias para crianças?
Como prender a atenção dos ouvintes? Contar histórias com ou sem recur-
sos? Ler ou contar histórias para crianças?
Corroborando com as ideias da autora acima, Velasco (2018, p. 173)
expõe que: “Quando pensamos em contar histórias na sala de aula, esbar-
ramos em uma série de perguntas: Como fazer soar o espírito da história?
Como principiar o curso de uma narrativa?” Ambas as autoras defendem
que para se contar bem uma história é necessário um preparo que implica
dedicação, estudo, conhecimento entre as diferenças entre contar, ler em voz
alta e mediar uma história. Tais conhecimentos podem resultar num aprimo-
ramento dessa prática.
De fato, essas e outras perguntas ressoam como questionamentos in-
ternos que envolvem os professores e, ao mesmo tempo, podem exprimir
as fragilidades que o educador encontra para colocar em prática a narrativa
173
oral, pois o fazer-se professor(a)-contador(a) não pode ser considerado como
uma tarefa simples; é uma ação que engloba alguns detalhes como: tempo,
conhecimento, organização do espaço físico e dedicação. Nessa perspectiva,
Sampaio (2016, p.75-76) afirma:
Contar histórias não se resume a técnicas ou receitas. Essa atividade, na sua
essência, pressupõe um autoconhecimento do narrador, um olhar atento a
cada gesto e movimento. Além disso, o profissional tem a difícil tarefa de
não somente decorar o texto, mas, conhecê-lo e apreciá-lo esteticamente.
Na mesma linha de ideias, Sisto (2012) destaca que uma das principais
bases para ser um bom contador está associada às buscas por histórias literá-
rias e suas leituras, assim, quanto maior o contato com a literatura/contos,
maior será o repertório e preparo para essa arte. Desta forma, o professor
aproxima-se da ação de ser contador e pode sentir-se mais seguro, levando
a criança a se descobrir, a despertar a curiosidade tanto para o mundo ima-
ginário quanto para o mundo social ao seu redor, bem como auxiliando na
compreensão e percepção de situações significativas do seu dia a dia.
Nesse processo de “como” fazer a contação de histórias acontecer, além
da busca do texto literário, há profissionais que optam por utilizar recursos
externos durante sua narração, como acessórios, panos, objetos, música, ves-
tuários, instrumentos, adereços, fantasias, dentre outros que a criatividade
em particular do narrador permitir. Esses elementos podem auxiliar a con-
tação de histórias, desde que seu uso seja consciente e específico para cada
história. Acerca disso, Machado (2015, p. 110) enfatiza:
Sobre esses recursos é importante ressaltar que devem estar a serviço da
história. Não se trata de fazer teatro, e sim de narrar. Às vezes são tantas
coisas utilizadas que desviam a atenção do fio da narrativa, promovendo
um show de estimulação sensorial. As crianças se deixam seduzir pela pa-
rafernália técnica e a história se perde.
É necessário estar ciente da real funcionalidade do recurso externo uti-
lizado. Um ponto essencial é que o educador não se detenha à expectativa
de que o artifício usado seja a única via de possibilidade de entreter e deter a
atenção de bebês e crianças pequenas durante a narração, mas pelo contrário,
174
Carvalho e Baroukh (2018, p. 30) reforçam: “Com um bom livro em mãos
ou uma boa história, belamente narrada, não será preciso chamar a atenção
das crianças com nenhum elemento a mais: a imaginação e a fruição que a
história proporciona já dão conta – e muito – da experiência”.
Contar implica ter o corpo como base, as memórias como fonte para
que as histórias possam fluir sem a presença do livro, ressaltando a pessoa e a
palavra que é vivificada, a partir de quem narra. Portanto, o reconto pode ser
com ou sem recursos. À professora contadora, cabe escolher e estar ciente de
qual a melhor proposta. Sobretudo, cabe estar atento em identificar as suas
necessidades e as de seus ouvintes.
Entretanto, não é possível afirmar que todos os professores estarão
cientes das possibilidades de se narrar um conto e das práticas literárias, prin-
cipalmente pela deficiência de preparo e formação que possa contribuir para/
com uma atividade consciente, referente a contação de histórias. Em seu pro-
cesso de formação inicial há uma carência de contato e informação sobre a
literatura, conforme evidência Saldanha (2018, p. 153) em seus estudos:
Os dados sistematizados a partir das informações das 27 universidades fe-
derais pesquisadas comprovam que a disciplina de Literatura não faz parte
da maioria dos currículos de Pedagogia dessas instituições, apontando para
uma lacuna no sistema educacional, que tem repercussões tanto no ensino
superior, no preparo dos professores, quanto na escolarização inicial.
Com base nessas assertivas da autora, o despreparo dos professores pode
acarretar lacunas no sistema educacional. Diante dessa realidade, nos ques-
tionamos: de que forma os docentes visam sanar essa carência, uma vez que,
em suas práticas a literatura ocupa um lugar de suma importância? Alguns
profissionais têm buscado o meio digital como um recurso para sua prática e
apoio de formação e informação. Dentre as inúmeras possibilidades, os canais
de contação de histórias do YouTube vêm se tornando uma referência.
Na plataforma do YouTube existem inúmeros canais voltados para a
divulgação de práticas literárias. Para esta apresentação, selecionamos o ca-
nal Fafá conta para dialogarmos sobre as buscas dos docentes por orientação
acerca da narrativa oral literária e por vídeos de histórias que possam ser uti-
lizados em suas práticas pedagógicas.
175
Fafá conta é um canal ativo desde 2015, possui mais de 150 mil ins-
critos e mais de 15 milhões de visualizações. Nesse espaço são armazenados
vídeos de histórias literárias narradas pela contadora, os quais são de acesso
livre ao público. Em alguns vídeos são realizadas mediação de leituras e, em
outros a contação oral de histórias, mas em ambas as modalidades a contado-
ra tem por base o livro físico, apresentando autores e editoras.
As formas de interação entre ouvintes e a contadora ocorrem por meio
dos comentários com a participação de professores, nos quais foi possível
perceber que, em sua maioria, existem expressões de carinho para com as
contadoras por parte dos ouvintes. Em outros há solicitação de professores
por formação que os capacitem para contação e afirmação de que os vídeos
são utilizados durante as atividades pedagógicas (figura 1).
Figura 1: Canal Fafá conta
Fonte: Amaral (2023, p. 99).
Os comentários acima demonstram a afeição que as professoras
têm pelo trabalho da contadora, além de expressar suas buscas por este
espaço digital, para que seja suprido suas necessidades em relação a con-
tação e as práticas literárias. Essa busca nos faz refletir sobre a “lacuna
citada pela pesquisadora Saldanha (2018) ao afirmar que a ausência de
contato com a literatura na formação inicial tem causado uma defasa-
gem na prática pedagógica.
Outro ponto relevante é a afirmação “toda segunda-feira” tem uma
história do canal, essa fala nos remete ao fato de que os professores têm se-
lecionado estratégias pronta e de fácil acesso no planejamento de suas ações
pedagógicas. O uso de recursos como vídeos de histórias pode e deve fazer
parte da organização pedagógica, porém, não precisa ser a única forma de
promover um contato com a narrativa.
176
Conforme, mencionamos desde o início desta apresentação é impor-
tante que o docente possa preparar e narrar as histórias pensando nas particu-
laridades da sua turma. O contato entre ouvinte e narrador contribui para o
processo de formação humana, bem como está atrelado às possibilidades de
desenvolvimento integral da criança.
A criança que ouve histórias, desde bem pequena, desenvolve relações e
memórias afetivas com quem conta e com sua trajetória pessoal. Assim como
afirma Reyes (2010, p. 67), as narrativas literárias contribuem e são fundamen-
tais ao processo de desenvolvimento das crianças: “é impressionante quando se
descobre como as narrativas das crianças habitualmente expostas às histórias se
diferenciam das outras a quem não se contam nem se leem histórias”.
Ao professor é direcionada a preocupação em escolher histórias e apre-
sentá-las da melhor forma possível, criando um ambiente acolhedor e propí-
cio à escuta literária, possibilitando que as crianças participem de forma in-
terativa nesse percurso que explora a imaginação e envolve os sentidos como
audição, visão e tato.
Apesar das orientações em documentos oficiais, para muitos profes-
sores, a contação de histórias não é uma tarefa tão simples, para tanto, essa
ação tem provocado busca por orientações, formações e meios que possam
contribuir com o professo formativo do educador-contador (figura 2).
Figura 2: Canal Fafá conta
Fonte: Amaral (2023, p. 99)
O comentário selecionado evidencia que os professores se inspiram na
contadora como uma referência de formação. Ao encontro dessas expectati-
vas, no canal do YouTube é ofertado cursos e oficinas para a formação e capa-
citação de novos contadores. Em meio à divulgação dos cursos, a contadora
motiva a participação de professores(as) para que possam adquirir conheci-
mentos que envolvem desde o preparo pessoal, do ambiente, a escolha das
177
histórias e possíveis recursos para compor a narrativa. Nessa perspectiva, Sisto
(2012, p. 12) ressalta que: “Para contribuir com o processo de formação per-
manente e continuada do professor, nada melhor do que torná-lo um leitor e
um contador de histórias”.
Encontramos docentes que buscam alternativas para aprimorar sua
prática de contação de histórias, preocupados com a qualidade e variedade
de suas narrativas literárias e, nessa busca, o meio digital tem se tornado uma
ferramenta comum para atender esta demanda. Dentro do tema da formação
de professores, García (1999), compreende este movimento como “desenvol-
vimento profissional autônomo”, concepção na qual os professores buscam
conhecimentos e competências que consideram necessários para a sua prática
profissional por compreenderem que as ofertas de formação atuais não aten-
dem às suas necessidades, quer pela qualidade, quer pela ausência deste tipo
de formação. Estabelecemos então, um diálogo entre a arte da contação de
histórias, sua considerável importância bem como, os desafios e caminhos
para se pensar a prática docente.
Velasco (2018, p. 165) ressalta que “Muitos educadores vêm se aproxi-
mando cada vez mais da arte de contar histórias, buscando técnicas, recursos
para prender a atenção das crianças, repertórios mais apropriados”. Conforme
García (1999, p. 137) alguns autores referem-se à formação contínua de profes-
sores como toda a atividade que o professor realiza isoladamente ou com outros
professores, com finalidade formativa que conduza a um aperfeiçoamento pro-
fissional. Adotando para esta finalidade o termo “desenvolvimento profissional
de professores”, este desenvolvimento concretiza-se como uma atitude do edu-
cador de permanente pesquisa, de questionamento e busca de soluções.
Nesse movimento de procura e oferta, no qual intenção e necessidade
se misturam, Machado (2015, p. 99) destaca que muitos professores pro-
curam cursos que ensinem a prática de narrar, no entanto, a autora enfatiza
que “Ninguém pode ensinar uma pessoa a ser uma boa contadora de histó-
rias e, ao mesmo tempo, qualquer pessoa pode aprender a contar bem uma
história”. Coelho (1999, p. 13) pontua que, “Há professores que pensam
que não tem jeito para contar uma história. Se experimentarem, descobrirão
qualidades novas em si mesmos, reacendendo a própria criatividade, o que
os incentivará a modificar a prática de ensino, obtendo resultados positivos”.
178
De fato, é importante sentir-se à vontade a partir de suas peculiaridades
para se narrar uma história. Busatto (2012, p. 88) “Gostaria de lembrar que é
importante que se busque à nossa maneira de contar histórias, aquela na qual
nos sentimos mais à vontade. Temos as nossas características, elas devem ser
preservadas e, antes de tudo, valorizadas”.
Todavia, não há uma fórmula pronta e sim a dedicação para com as prá-
ticas literárias. Machado (2015) relata que há educadores que se sentem inca-
pacitados e que trazem consigo inquietações sobre como narrar um conto. São
questões que fazem parte do contexto em que as histórias serão apresentadas
e participam do processo de se reconhecer-se como professor(a) contador(a).
Portanto, a busca de conteúdos prontos no meio digital ocorre pela
facilidade de acesso e variedade de práticas literárias que são encontradas nes-
te ambiente. Dessa forma, ao buscar um canal no YouTube ou um vídeo de
contação de histórias como referência para propor na escola de Educação
Infantil, é preciso estabelecer alguns critérios para a validação da referência:
a experiência e formação do contador de histórias; o quanto o contador é
fiel ao texto fixo e a apresentação do livro, quando o utiliza como referên-
cia; a consideração sobre a contação e literatura como arte, não como uma
possibilidade de servir para ensinar algum comportamento ou conteúdo do
currículo escolar; a relevância da contação de maneira presencial e por parte
da professora que pode ter algumas inspirações no canal; quando sugerir o
canal ou vídeo às crianças compartilhar esse momento com elas ou conversar
sobre os assuntos abordados.
Palavras finais com o desejo de continuar a conversa
Ouvir histórias pode proporcionar nas crianças, desde a mais tenra ida-
de, o conhecimento de si e do outro, promovendo a escuta, a fala, bem como
a comunicação e a compreensão de inúmeras palavras. Nessa relação social e
cultural, estabelecem a apropriação de múltiplos saberes que emanam tanto
do exterior, quanto do interior da criança pequena.
Os documentos oficiais incentivam e orientam que os docentes promo-
vam um contato maior com a narrativa literária oral, porém, em sua formação
inicial, não é oportunizado de forma plena a compreensão de técnicas, co-
nhecimento literário para/com a arte de contar histórias. Assim, indagamos:
179
quem forma o/a professor/professora para serem contadores de histórias? As
mesmas leis e normas que determinam o exercício dessa arte na prática peda-
gógica não contemplam exigências em oferta gratuita de formação literária
inicial e continuada para todos os docentes.
O canal de contação de histórias é um espaço digital que contempla
práticas literárias. A participação de professores por meio dos comentários,
expõe suas necessidades e fragilidades pedagógicas de assumir-se como pro-
fessor(a) contador(a). Dessa forma, é essencial refletirmos acerca do processo
de formação inicial dos professores, principalmente no que tange os conhe-
cimentos literários.
Portanto, ao refletirmos sobre alguns elementos que contemplam a prá-
tica da contação de histórias repensamos em questões que envolvem a forma-
ção de professores como uma atividade docente consciente. Compreendemos
que, para se narrar bem uma história é necessário dedicar-se às leituras lite-
rárias, ao conhecimento, à escuta e à preparação das histórias e, além disso,
ter a literatura como referência pode ampliar os objetivos de seleção e as
perspectivas de uso dessa arte.
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183
CAPÍTULO 10
Artes Plásticas na Educação Infantil:
Um Estudo Bibliográfico
Kátia Aparecida Franco de Sousa
Amanda Valiengo
Giovana Scareli
Que fortuna a de poder redobrar os sentidos, multiplicar
tudo pelo infinito, através da arte, virtude de se
ser ou tornar humano (Mãe, 2020, p. 253).
Em diferentes momentos temos discutido e efetivado ações para que,
de maneira geral, as artes possam ser mais vivenciadas entre crianças e pro-
fessoras na/da Educação Infantil: seja na formação de professoras, na atuação
com as crianças na escola, em projetos de extensão e/ou projetos de pesquisas.
Diferentes manifestações artísticas nos tocam, nos atravessam e nos inspiram
a redobrar os sentidos como a música, a literatura, as artes do movimento e as
artes visuais. Consideramos o trabalho pedagógico com as artes na Educação
Infantil uma fortuna, como diz Valter Hugo Mãe, pois com ela e por meio
dela, podemos ampliar os sentidos e participar dessa linda transformação pela
qual passamos todos os dias, em nos tornarmos mais humanos.
Esse capítulo apresenta uma pesquisa de mestrado (Sousa, 2023), con-
cluída no final de 2023, vinculada ao grupo de pesquisa CRIA – Centro de
Respeito às Infâncias e suas Aprendizagens e desenvolvida no Programa de
Pós-graduação em Educação (PPEDU) da Universidade Federal de São João
del-Rei (UFSJ), cujo objetivo foi refletir sobre o trabalho pedagógico com
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-558-2.p183-199
184
as Artes Plásticas na Educação Infantil, na perspectiva histórico-cultural, a
partir de trabalhos acadêmicos-científicos, entre 2013 e 2022.
A metodologia utilizada foi a Pesquisa Bibliográfica, numa abordagem
qualitativa, utilizando para a construção dos dados, uma revisão bibliográ-
fica no diretório de teses e dissertações e teses da Coordenação de aperfei-
çoamento de pessoal de nível superior (Capes) com os seguintes descrito-
res: “Educação Infantil” e “Artes Plásticas”. Para a efetivação da busca na
base digital da Capes, foram utilizados os descritores interligados: Arte AND
Educação Infantil OR Artes Plásticas.
A partir desse levantamento, foram selecionados 11 trabalhos para aná-
lise. Dentre estes, 6 (seis) foram desenvolvidos em universidades federais, 3
(três) em universidades estaduais e 2 (dois) em universidades privadas. Todas
as pesquisas foram desenvolvidas por mulheres (pesquisadoras e orientado-
ras) e abordaram as Artes Plásticas na Educação Infantil, em diferentes pers-
pectivas teóricas.
Quadro 1- Pesquisas selecionadas a partir do descritor:
Arte AND Educação Infantil OR Artes Plásticas.
Título da dissertação ou tese Autores Ano e tipo de pesquisa
Um olhar sobre Educação In-
fantil: e a Arte onde está?
e o corpo como está?
GAIO, Rosilene
Maria da Silva.
2015/Dissertação
Mestrado em Educação
Arte na Educação Infan-
til: Uma experiência estéti-
ca com crianças pequenas
OLIVEIRA, Adélia
Pacheco de Freitas
2016/Dissertação
Mestrado em Educação
Arte na Educação Infantil: O
desenvolvimento infantil e a
criança produtora de cultura
KAISER, Patrí-
cia Nunes de
2017/Dissertação
Mestrado em Educação
Experiências Estéticas na Edu-
cação Infantil – práticas peda-
gógicas desenhadas pela Arte.
SILVA, Andreia
Haudt da
2019/Dissertação
Mestrado em Educação
Arte, infância e práticas pedagó-
gicas na Educação Infantil: nar-
rativas de professoras de Arte
LIRA, Iasmim Ca-
valcanti Caballero
2021/Dissertação
Mestrado em Educação
185
Título da dissertação ou tese Autores Ano e tipo de pesquisa
Arte e Educação: um olhar para
a aprendizagem, o desenvol-
vimento e a humanização das
crianças na Educação Infantil
CORTEZ, Mai-
ra Dellazeri
2022/Dissertação
Mestrado em Educação
Entre o visível e o invisível: tempos
e espaços da Arte nas narrativas de
professoras da Educação Infantil
MOTTA, Xê-
nia Froes da
2022/Tese de Douto-
rado em Educação
Formação docente para o ensi-
no de Arte na Educação Infan-
til: pistas produzidas em uma
pesquisa-formação no curso de
pedagogia (UECE/FACEDI)
SILVA, Cami-
la Oliveira da
2022/Dissertação
Mestrado em Educação
Bebês no Museu de Arte: Pro-
cessos, Relações e Descobertas
SANTOS, Maria
Emília Tagliari.
2017/Dissertação
Mestrado em Educação
Outras Formas de Conhecer o
Mundo: Educação Infantil em
Museus de Arte, Ciência e História
LOPES, a-
miris Bastos
2019/Tese de Douto-
rado em Educação
Crianças pequenas e museus: ma-
peamento e análise das produções
acadêmicas acerca da relação entre
museus e crianças de zero a seis anos
SCHMIDT,
Flora Bazzo
2019/Dissertação
Mestrado em Educação
Fonte: quadro adaptado da dissertação intitulada: Artes Plásticas na Educação Infantil na pers-
pectiva histórico-cultural (Sousa, 2023).
Considerando o resultado das pesquisas apresentadas acima, dividimos
esse texto em mais três partes depois dessa introdução: no segundo tópico
apresentaremos algumas leis e documentos que retratam o trabalho peda-
gógico com as Artes na Educação Infantil (Brasil, 1996; 1998; 2010; 2013;
2017); no terceiro item discutiremos sobre o trabalho pedagógico com as
Artes na Educação Infantil, analisando os dados apresentados nas pesquisas
elencadas no quadro 1 e, em seguida, algumas considerações para continuar
a conversa e as referências.
Para a discussão teórica, estabelecemos um diálogo para refletirmos
sobre alguns aspectos relativos ao trabalho com as Artes (Lowenfeld, 1954;
Iavelberg, 2013; Barbosa, 2007; 2010; Ostetto, 2010), de maneira a conti-
nuar as discussões acerca do assunto para a Educação Infantil.
186
Artes Plásticas na Educação Infantil
Criança: 1. Um presente que suspende o caos.; 2. É intensidade,
é vida que irradia. É como se fosse máquina, dessas de 220 volts.
Gasta muito energia, mas não pode ficar fora da tomada.23
Quando falamos da Educação Infantil, estamos tratando da educação
de crianças de até 6 anos de idade, no ambiente da escola (lembrando que a
educação ocorre nos mais diversos espaços, sendo necessária especialmente a
participação da família e da escola nesse processo). Para alguns, é uma idade
que faz da casa e da vida um caos; para outros, é o oposto, quando é possível
contemplar, participar, e se entregar a esse momento tão especial da vida. Este
capítulo vai tratar da Educação Infantil enquanto área de pesquisa e de atua-
ção e, para delimitar os estudos dentro de tantas possibilidades, fizemos um
recorte temático nos trabalhos, documentos e leis que abordam a Educação
Infantil, primeira etapa da Educação Básica, e suas relações com as artes, mais
especificamente as Artes Plásticas, em uma perspectiva histórico-cultural.
Diferentes documentos oficiais e legais para a Educação Infantil abor-
dam sobre as artes. Apresentaremos alguns em ordem cronológica e indicare-
mos quais pesquisas selecionadas utilizam esse referencial. Do montante das
11 pesquisas apresentadas no quadro 1, 9 citaram esses documentos.
A Lei de Diretrizes e Bases (Brasil, 1996) foi citada nas pesquisas de
Kaiser (2017), Silva (2019), Cortez (2022), Schimidt (2019), Silva (2022),
Oliveira (2016), Lopes (2019), Motta (2022), Lira (2021), definem a
Educação Infantil como primeira etapa da Educação Básica. Kaiser (2017,
p.87), afirma que somente a partir dessa lei houve uma reestruturação em
torno da Arte no currículo. Nesse contexto, a proposta mais defendida é a
abordagem triangular, criada por Ana Mae Barbosa (2010).
Tal abordagem se referiu à melhoria do ensino de Arte, tendo por base
23 Verbete retirado do livro “Janelas contato: micro-dicionário de infâncias na pandemia”, organizado
por Fernanda Omelczuk, Franciela da Silva Ferreira; Giovana Scareli, Luciano Bedin da Costa
e Pablo Quaglia, realizado totalmente dentro de um contexto de pandemia, quando estávamos
distantes das crianças.
187
um trabalho pedagógico integrador, em que o fazer artístico, a análise ou
leitura de imagens (compreendendo o campo de sentido da Arte) e a contex-
tualização interagem ao desenvolvimento crítico, reflexivo e dialógico do es-
tudante em uma dinâmica contextual sociocultural. Segundo a autora, “[...]
trata-se de uma abordagem flexível. Exige mudanças frente ao contexto e
enfatiza o contexto” (Barbosa, 2010, p. 10).
O Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (RCNEI)
(Brasil, 1998), citado nas pesquisas de Gaio (2015), Oliveira (2016), Lopes
(2019), Motta (2022), Lira (2021), foi elaborado com o intuito de orientar
para a promoção do desenvolvimento pleno da criança, incluindo a arte nesse
processo. Sendo assim: “o desenvolvimento artístico é resultado de formas
complexas de aprendizagem e, portanto, não ocorre automaticamente à me-
dida que a criança cresce” (Brasil, 1998, v.3, p. 81).
O terceiro volume do RCNEI apresenta seis eixos de trabalho que dire-
cionam a experiência do Conhecimento do mundo da criança e possibilitam
o trabalho com diferentes linguagens: Movimento, Música, Artes Visuais,
Linguagem Oral e Escrita, Natureza e Sociedade, além de Matemática.
No que diz respeito à compreensão sobre a relação com a estética e
com os elementos culturais, é estabelecido que a qualidade das experiências
nessa etapa da educação deve ser fundamentada no princípio do “acesso das
crianças aos bens socioculturais disponíveis, promovendo o desenvolvimento
das capacidades relacionadas à expressão, comunicação, interação social, pen-
samento, ética e estética” (Brasil, 1998, p.13).
Segundo Gaio (2015, p. 34):
É evidenciado, nos RCNEI, a necessidade e o desejo de que as crianças,
nesta fase escolar, tenham a oportunidade de manipular materiais que
possibilitem experimentar diferentes tessituras e suportes, permitindo-
-lhes contatos com uma variedade de Artefatos que podem favorecer e
despertar a curiosidade, a sensibilidade, a percepção, as sensações, aguçan-
do-lhes os sentidos, promovendo a ludicidade.
Nas instituições de Educação Infantil, para que esse processo educativo
e pedagógico se realize, as artes são fundamentais para aguçar a percepção,
os sentidos, a curiosidade e o desenvolvimento de uma sensibilidade estética.
188
Não temos dúvida de que o processo educacional pode contribuir para o desen-
volvimento das habilidades de apropriação e conhecimento das potencialidades
corporais, afetivas, emocionais, estéticas e éticas às crianças (Brasil, 1998, p. 23).
Desde muito cedo a relação das crianças pequenas com as Artes Plásticas se
dá através de brincadeiras e exploração sensorial. O RCNEI (1998) destaca que:
Ao final do seu primeiro ano de vida, a criança já é capaz de, ocasional-
mente, manter ritmos regulares e produzir seus primeiros traços gráficos,
considerados muito mais como movimentos do que como representações.
É a conhecida fase dos rabiscos, das garatujas. A repetida exploração e
experimentação do movimento amplia o conhecimento de si própria, do
mundo e das ações gráficas. Muito antes de saber representar graficamente
o mundo visual, a criança já o reconhece e identifica nele qualidades e
funções. Mais tarde, quando controla o gesto e passa a coordená-lo com
o olhar, começa a registrar formas gráficas e plásticas mais elaboradas
(Brasil, 1998, p. 91).
Há vários autores que se dedicaram a pensar sobre a importância do
desenho para as crianças. Para Victor Lowenfeld (1954), a garatuja é funda-
mental para que a criança adquira desenvolvimento e domínio do traço, além
disso esses gestos trazem confiança e prazer para a criança e Rosa Iavelberg
(2013, p. 57) afirma que “O desenho é a base de todas as linguagens ar-
tísticas”. Desse modo, vemos o quanto o desenho, uma das Artes Plásticas
mais antigas, deve ser respeitada e incentivada também nas instituições de
Educação Infantil, como bem recomenda o RCNEI.
As DCNEI, citadas nas pesquisas de Silva (2019), Cortez (2022), Gaio
(2015), Oliveira (2019), Oliveira (2016), Lopes (2019), Motta (2022), Lira
(2021), ressaltam a importância do acesso da criança ao conhecimento cul-
tural, científico, histórico e natural desde seus primeiros anos de vida. Sob
o viés estético, abraça a sensibilidade, a criatividade, a ludicidade e a liber-
dade de expressão, promovendo diversas manifestações artísticas e culturais.
Consta na DCNEI (2010, p. 12) que o currículo na Educação Infantil é
concebido como:
Conjunto de práticas que buscam articular as experiências e os saberes das
crianças com os conhecimentos que fazem parte do patrimônio cultural,
189
artístico, ambiental, científico e tecnológico, de modo a promover o de-
senvolvimento integral de crianças de 0 a 5 anos de idade.
Diferentemente do RCNEI (Brasil, 1998), as DCNEI (Brasil, 1999;
2009) não apresentam propostas voltadas para eixos específicos de conhe-
cimento, mas pode-se ler em todo o corpo do texto indicações voltadas ao
trabalho com Arte, como na redação sobre os princípios que devem orientar
as propostas pedagógicas na Educação Infantil, que trata dos princípios éti-
cos, políticos e “Estéticos: da sensibilidade, da criatividade, da ludicidade e
da liberdade de expressão nas diferentes manifestações artísticas e culturais
(Brasil, 2010, p. 16). O documento apresenta preocupação com o espaço
que a Arte deve ocupar nas instituições, por meio do discurso que enfatiza
a garantia do acesso aos conhecimentos possíveis e aprendizagens nas mais
diversas linguagens para as crianças, na Educação Infantil.
No item que trata da organização do espaço, tempo e materiais, o texto
defende, entre outras coisas, a indissociabilidade entre cuidar e educar; a indi-
visibilidade das dimensões expressivo-motora, afetiva, cognitiva, linguística,
ética, estética e sociocultural da criança. A lei ressalta que as crianças devem
se apropriar das contribuições histórico-culturais de vários povos, por meio
das diferentes linguagens (Brasil, 2010).
As DCNEI (2010) também defendem o oferecimento das mais variadas ex-
periências para as crianças e o incentivo ao ato criador, dando indicações de como
pode transcorrer o trabalho nas instituições afim de que os Projetos Pedagógicos:
Promovam o conhecimento de si e do mundo por meio da ampliação de
experiências sensoriais, expressivas, corporais que possibilitem movimen-
tação ampla, expressão da individualidade e respeito pelos ritmos e desejos
da criança;
Favoreçam a imersão das crianças nas diferentes linguagens e o progressivo
domínio por elas de vários gêneros e formas de expressão: gestual, verbal,
plástica, dramática e musical (Brasil, 2010, p. 25).
Sendo assim, pode-se observar que a lei enfatiza a importância de im-
plementar propostas pedagógicas na Educação Infantil que proporcionem às
crianças o contato com diversas manifestações artísticas, como música, artes
plásticas, gráficas, cinema, fotografia, dança, teatro, poesia e literatura.
190
As DCNEI visam permitir que as crianças se apropriem das múltiplas
linguagens das diferentes culturas humanas, estimulando assim seu apren-
dizado e desenvolvimento nessa fase de ensino; destacando a proteção da
formação docente nessa etapa educacional, mencionando a necessidade de
formação contínua para os profissionais envolvidos (Brasil, 2010).
Citadas por Gaio (2015) e Silva (2022), as DCNEI (Brasil, 2013) de-
fendem que o objetivo da Educação Infantil é o desenvolvimento integral da
criança nos aspectos: “físico, afetivo, psicológico, intelectual e social, comple-
mentando a ação da família e da comunidade” (p. 36). As Diretrizes são cria-
das a partir das necessidades de atualização das políticas educacionais como
proposta de assegurar o direito à educação a todos. Um dos objetivos das
Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Básica (DCNEB) de 2013 é
assegurar a formação básica comum nacional, dando ênfase a quem compõe
o currículo e a escola. As DCNEB (2013) retomam das DCNEI os eixos es-
truturantes das práticas educativas na Educação Infantil: as brincadeiras e as
interações aliadas ao compromisso de cuidar.
Outra lei que inclui a Educação Infantil, citada por Cortez (2022),
Oliveira (2016), Lopes (2019), Motta (2022), é a Base Nacional Comum
Curricular (BNCC) (Brasil, 2017). Para Cortez, (2022, p. 61),
Outro marco importante para a Educação Infantil foi a criação da Base
Nacional Comum Curricular (BNCC), que incluiu uma mobilização na-
cional para o estabelecimento de parâmetros para a educação brasileira,
com o objetivo de atenuar as discrepâncias sociais pelo estabelecimento de
uma base comum, na qual estariam contidos todos os conteúdos neces-
sários à formação da criança, parâmetros estes que deveriam se estender,
uniformemente, por todo território brasileiro. Esse documento começou
a ser redigido em 2015, tendo três versões subsequentes até a atualidade,
encontrando-se já implementado no momento.
Mesmo considerando um importante marco legal, diferentes críticas são
tecidas acerca da BNCC, como a nota de rodapé escrita por Motta (2022, p.71):
No nosso grupo de pesquisa, FIAR, adotamos posição crítica e nos posi-
cionamos contrárias à Base Nacional Comum Curricular (BNCC) que,
em tese, é o documento mais recente quanto a orientações curriculares.
191
Optamos por não destacar seu conteúdo nesta investigação, por consi-
derarmos que a mesma opera mudança política e conceitual nas concep-
ções conquistadas historicamente em defesa da Educação Infantil. Outros
argumentos que sustentam nossas posições podem ser encontrados em:
Mota (2019), Barbosa (2019) e Biondo (2019).
Nesse sentido, a BNCC apresenta muitas controvérsias e o espaço da
Educação Infantil fica fragilizado como um dos principais ambientes que
oportunizam, não só o desenvolvimento cognitivo, mas também o afetivo, o
físico e social. Como um espaço que proporcione às crianças situações, meto-
dologias, práticas pedagógicas inovadoras, em que elas possam ter a mediação
do professor, como parceiro mais experiente que conceba a criança como
sujeito capaz de direitos. Santos (2017) e Silva (2016) argumentam que é
preciso superar a ideia de crianças como seres que pouco participam do seu
processo de desenvolvimento. Ideia essa que tem fundamento na concepção
histórica sobre as crianças.
Além da concepção de criança, também vale destacar a necessidade
de interação em que os diversos aparatos culturais, inclusive as expressões
artísticas como as Artes Plásticas, contribuem na criatividade, compreensão
da criança sobre o seu corpo e o do outro, a construção da identidade, de
ampliar noções de espaço, representações, assim como afirma Távora (2014,
p. 9) “a Arte na educação como expressão pessoal e cultural é um importante
instrumento para o fortalecimento da identidade cultural e o desenvolvimen-
to mental individual”. E as Artes Plásticas caminham ao encontro desses as-
pectos. Segundo Lopes (2019, p. 55):
Na BNCC, mesmo enfatizando a prioridade das experiências, o termo
estético”, aparece uma única vez (em todo o documento) no campo de
experiência “traços, sons, cores e formas”, onde a criança é interpretada
como sujeito ativo e participativo das experiências estéticas que podem
ser desenvolvidas.
Assim, podemos ponderar que desde a LDB até a BNCC, há avanços e
retrocessos legais e documentais. Apesar de todas afirmarem, em alguma me-
dida, a necessidade das Artes na Educação Infantil, nem sempre na efetivação
das leis será possível ter uma educação estética, espaços, tempos materiais
192
e formação docente adequados para práticas pedagógicas condizentes com
vivências com as Artes para humanização das crianças.
Trabalho pedagógico com as Artes na Educação Infantil
Quando nós escutamos, imaginamos distâncias, construímos
histórias, desvendamos novas paisagens (Queirós, 2009, p. 11).24
Acreditamos que a escuta com todos os sentidos deve ser cultivada
no trabalho pedagógico com as Artes. Ao analisarmos o conjunto dos 11
trabalhos selecionados para a pesquisa de Sousa (2023), no que tange ao
trabalho pedagógico na Educação Infantil, destacamos a escuta docente das
linguagens expressivas das crianças; a criação de meio ambiente que permi-
ta o envolvimento delas, incluindo a organização das relações interpessoais,
dos materiais, tempos e espaços para as experimentações e fruições estéticas.
Concordamos com Motta (2022, p. 73) quando defende que: “acolher as
lógicas infantis e valorizar as peculiaridades das linguagens expressivas, ofere-
cendo um lugar para o sublime, a criação e a imaginação, vêm da abertura de
portas para o outro, do respeito aos tempos e ritmos diversos.
A Arte desempenha uma função única e essencial na vida humana,
permitindo ao homem estabelecer um equilíbrio com o meio que vivencia.
Lopes (2019, p. 73) elucida que “a criança precisa ser ouvida no mais amplo
conceito de escuta: escuta sensível, escuta atenta, escuta com direito, ouvir
com o corpo inteiro, com disponibilidade e consideração às diferenças e es-
pecificidades”. As propostas de experiências com a Arte, com as linguagens e
materialidades artísticas, propiciam um contexto de acolhimento, partilha e
encorajamento, se o professor se colocar à escuta.
Na pesquisa de Kaiser (2017), por exemplo, pode-se compreender que
a professora utiliza como estratégia didática-pedagógica, a “roda de possibi-
lidades”, como sendo um espaço em que as crianças podem expressar singu-
larmente suas concepções acerca das relações, dos objetos etc. Nas palavras
da autora, “era um espaço dedicado à expressão da criança, permitindo a ela
24 Trecho do livro: Os cinco sentidos de Bartolomeu Campos de Queirós.
193
falar sobre qualquer assunto que tivesse vontade” (Kaiser, 2017, p.78). As Artes
estão diretamente relacionadas às expressões, a percepção, a forma de ver e en-
tender as coisas, o mundo, o outro. Assim sendo, espaços como a “roda de pos-
sibilidades” podem ser significativos para oportunizar a expressão das crianças.
Motta (2022), em seu estudo com crianças de quatro anos de idade, em
um Centro Municipal de Educação Infantil de Vitória, ES, descreve como
as crianças escolheram as imagens e, em duplas, brincaram com o quebra-ca-
beça que foi construído com obras de artistas. A autora afirma que o contato
com as imagens de Arte, no contexto proposto, favoreceu a experiência estéti-
ca, no tempo-espaço da brincadeira. De tal maneira, indica que novas formas
de aprender e ensinar Artes podem ser projetadas, na Educação Infantil, no
próprio percurso das brincadeiras infantis (2022, p.79).
Com essa perspectiva, Gaio (2015) e Motta (2022) elencam os aspec-
tos formativos da escola em relação às práticas pedagógicas, explicitando que
é preciso acolher as crianças, suas singularidades e suas linguagens expres-
sivas, de maneira a oportunizar a criação, a imaginação. Elucidam, sobre o
respeito ao tempo da criança e seu ritmo e, ressaltam também a importância
do educador no exercício da escuta, ou seja, ter a ação de ouvir as crianças,
mas não só com os ouvidos, mas sim, com todos os sentidos.
Nesse sentido, a prática pedagógica deve oportunizar a possibilidade
de ouvir cada criança e o grupo, afirmando que eles são capazes de sugerir e
inventar outros modos de ver e fazer o que o adulto planejou. É, ao mesmo
tempo, acolher e potencializar o modo de ser da criança pequena, pois as
crianças, como todos os seres humanos, são capazes de criar, de atribuir e de
compreender significados (Oliveira, 2016, p. 90).
De acordo com Barbosa (2012, p. 19), é por meio da Arte que se pode
desenvolver a percepção e a imaginação, além de “aprender a realidade do
meio ambiente, desenvolver a capacidade crítica, permitindo ao indivíduo
analisar a realidade percebida e desenvolver a criatividade de maneira a mu-
dar a realidade que foi analisada. Vivenciar outros espaços, além dos da esco-
la, também pode ser vislumbrado nas pesquisas de Lopes (2019) e Schmidt
(2019) que refletem sobre a educação museal.
Para as autoras, este ambiente precisa e pode ser disseminado entre as
crianças como lugar “plural e acolhedor, instigante e democrático; local de
194
experiência e de aprendizado com os objetos e não sobre eles; lócus de partilha
e convívio, de descoberta, imaginação e prazer” (Lopes, 2019, p. 67) Nesse
sentido, Moura (2011) aponta a necessidade de que haja nos espaços museais,
profissionais sensíveis e preparados com quem as crianças possam compartilhar,
refletir e ampliar o tempo e a qualidade da experiência vivida, destacando como
aspecto importante do trabalho de mediação com crianças, a possibilidade de
construção de narrativas que venham a interagir com outras narrativas, orien-
tadoras ou questionadoras, transformando a experiência individual numa expe-
riência coletiva (entre mediadores, pares, famílias, professores).
Os trabalhos de Santos (2016), Oliveira (2016) e Silva (2019) abordam
diferentes perspectivas acerca da organização, materiais e objetos referentes ao
trabalho com as Artes Plásticas na Educação Infantil. Oliveira (2016, p. 64)
cita como foi organizada a sala para a realização da atividade proposta, com
as crianças “sentadas no tapete da sala de Artes, de frente para a parede onde
foram projetadas (as imagens)”.
Silva (2019) faz importantes reflexões sobre como a forma que o pro-
fessor organiza o espaço da sala de aula, bem como planeja as suas atividades
podem representar à sua maneira de como concebem as crianças, o ser huma-
no e o mundo. Nesse sentido, a autora afirma que “cotidianamente assumi-
mos a responsabilidade de organizar os espaços e tempos, de pensar sobre eles
e adequá-los da melhor maneira ao dia a dia, isto revela nossa concepção de
infância, de ser humano e de mundo” (2019, p. 39).
Assim, as pesquisas desses autores demonstram como as decisões sobre
organização temporal, espacial e material não são apenas questões práticas,
mas também manifestações de concepções pedagógicas e filosóficas mais pro-
fundas sobre a educação artística na infância. Por isso a importância do cui-
dado com os tempos, os espaços e as materialidades, na organização do coti-
diano e das propostas a serem realizadas com as crianças: a qualidade estética
de um ambiente abre possibilidades para o refinamento das sensibilidades e
ampliação da expressividade (Motta, 2022, p. 74).
Segundo Ostetto (2010, p. 5):
Arte, na educação, não se resume a momentos e atividades isolados. E, se
estamos pretendendo a educação do “ser poético”, implicado na totalida-
de do olhar, da escuta, do movimento, que se expressa mobilizando todos
195
os sentidos, será importante vermos tais ações como educação estética
(mais do que o ensino de Arte) que se realiza no dia a dia.
Seguindo a perspectiva de Ostetto, a Arte na educação transcende a
ideia de momentos isolados de atividades ou, simplesmente, trabalhando
com disciplinas específicas, como pintura, música ou teatro. Ela apresenta
uma abordagem holística, buscando a educação do “ser poético” - uma edu-
cação que nutre a capacidade de enxergar o mundo de forma sensível e cria-
tiva, engajando-se plenamente em cada experiência vivida.
Segundo Barbosa (2007), o fazer na Educação Infantil pode ser per-
meado por experiências estéticas que não se resumem ao processo de ensi-
nar as crianças a entenderem e conhecerem a Arte. Conforme destacado por
Barbosa (2007, p. 41), “não se trata de transmitir uma formulação sistemáti-
ca de classificações e teorias que resultam em definições sobre Arte e análise
de beleza e natureza. Pelo contrário, a estética possui um enorme potencial
entendedor e estimulador do questionamento reflexivo”.
Nesse sentido, acredita-se que as experiências estéticas na Educação
Infantil ampliam os campos de questionamentos acerca das relações protegi-
das com as imagens das obras de Arte. Elas alimentam a curiosidade e a sede
de descoberta nas crianças, permitindo-lhes interpretar o mundo ao redor.
Além disso, essas vivências estimulam sua criatividade e capacidade de criação.
Portanto, é fundamental oportunizar às crianças, espaços de experimentação
estética, onde elas possam se envolver com a Arte de forma livre e reflexiva.
Como diz Duarte Júnior (2023, p. 73), no trabalho com arte com crianças
não é importante o produto, a produção de algo bonito, bem-acabado, muitas
vezes realizados pelas próprias professoras, mas o processo de criação. A atenção,
portanto, deve recair sobre o “processo pelo qual o educando deve elaborar seus
próprios sentidos e, relação ao mundo a sua volta [pois] a finalidade da arte-edu-
cação deve ser, sempre, o desenvolvimento de uma consciência estética”.
A educação estética participa da composição integral do ser humano,
pois, concordando com Vygotski (2006), quanto mais a criança puder ver,
ouvir e experimentar, quanto mais ela aprender e assimilar elementos ela dis-
por da sua realidade, mais tanto mais fecunda será a sua imaginação.
Assim, acreditamos que é o contato com a Arte desde a Educação
Infantil que nos possibilita uma experiência estética e que, aos poucos,
196
desenvolve a nossa consciência estética. Por essa razão, o trabalho com as
Artes, principalmente as Artes Plásticas na Educação Infantil é de suma im-
portância para a vida das crianças.
Palavras finais com o desejo de continuar a conversa
Neste texto nos detivemos a refletir sobre o trabalho pedagógico com as
Artes, especialmente com as Artes Plásticas na Educação Infantil veiculados
em pesquisas selecionadas em um estudo de mestrado finalizado por Sousa
(2023). Destacamos que ainda há uma necessidade de ampliar as práticas
pedagógicas envolvendo as Artes Plásticas, bem como as pesquisas na área
da Educação Infantil, para uma educação além da intelectual e concordamos
com Barbosa (2007, p.5) quando afirma que:
Se pretendemos uma educação não apenas intelectual, mas principalmente
humanizadora, a necessidade da Arte é ainda mais crucial para desenvolver a
percepção e a imaginação, para captar a realidade circundante e desenvolver
a capacidade criadora necessária à modificação desta realidade.
Para essa educação humanizadora defendemos a necessidade da garantia
de uma escuta atenta, bem como a organização do tempo, espaço e materiais
que possibilitem às crianças, vivências com Artes na Educação Infantil e o de-
senvolvimento de uma educação sensível e estética desde a mais tenra idade.
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201
CAPÍTULO 11
Expressão livre e Desenvolvimento Psíquico
na Infância: Um Diálogo Entre a Pedagogia
Freinet e a Teoria Histórico-Cultural Para
Pensar a Docência na Educação Infantil
Karolyne Ap. Ribeiro Kusunoki
Ana Laura Ribeiro da Silva
Gabriela Pavan David
“Se a essência e a forma de manifestação das
coisas coincidissem, toda a ciência seria desnecessária”.
Karl Marx
Iniciamos a presente exposição destacando o pensamento do filósofo
alemão Karl Marx (1805-1883) a fim de chamarmos a atenção para a com-
plexidade e imponência dos fenômenos concebidos na infância. Ao pensar-
mos Educação como sinônimo de humanização, passamos a compreendê-la
como meio pelo qual cada pessoa, pela ação mediadora do Outro25, torna-se
partícipe do gênero humano (Pino, 2005). Apreendemos, assim, a natureza
dialética do processo de apropriação-objetivação dos elementos da cultura –
responsável por delinear o curso do desenvolvimento das qualidades psíqui-
cas humanas (Leontiev, 1978) – e compreendemos
25 Princípio da Teoria Histórico-cultural que se articula ao conceito de parceiro mais experiente que,
por meio das relações sociais inseridas em determinado contexto cultural é o sujeito responsável por
criar novas necessidades humanizadoras no sujeito em formação.
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-558-2.p201-215
202
[...] a infância como um tempo de formação da inteligência e da persona-
lidade, em que processos vivenciados no plano social são ressignificados
pela criança em seu plano psíquico, o meio - constituído pelo conjun-
to das produções da humanidade, desde as regras sociais, os hábitos, os
costumes, os objetos, o conhecimento, as obras de arte… - possibilita a
apropriação das características especificamente humanas, sendo fonte de de-
senvolvimento (Kohle; Akuri; Pereira, 2020, p. 101, grifos nossos).
Amparadas nas assertivas dos autores apreendemos que os processos
educativos – sejam os que provêm da ação da família ou os concebidos nas
demais instituições sociais, como no caso da escola – são influenciados pelas
múltiplas relações determinadas pela realidade objetiva (Marx, 2008). Nesta
perspectiva, a epígrafe que abre nossas exposições, revela-nos um postulado
da teoria marxiana que nos possibilita pensar (e sonhar) uma Educação que
transcenda concepções ingênuas e práticas superficiais e passemos a elaborar
e conceber os processos que dela decorre, em especial os que se desenvolvem
em âmbito escolar, compreendendo-os em sua essência e sob a ótica emanci-
pada da ciência (Kusunoki, 2024). Desse modo, esta acepção,
[...] permite-nos agir transcendendo as limitações impostas pelo pen-
samento do senso comum, legitimando a compreensão de que a escola
não é lugar do “corriqueiro”, mas tempo e espaço privilegiado para
a difusão de práticas alicerçadas no conhecimento teórico-científico
(Kusunoki, 2024, p. 88).
A máxima de pensar os fenômenos da realidade objetiva à luz de prin-
cípios teórico-científicos – especialmente os relacionados à prática educativa
– indica-nos a essencialidade da constituição de um percurso formativo do-
cente (inicial e continuado) consistente e equânime, assinalado pela instru-
mentalização teórico-prática-científica como condição para uma “Educação
como prática de liberdade” (Freire, 2000).
Sob essa ótica, este texto pretende apresentar e discutir a expressão livre
como um conceito norteador e potencializador das práticas educativas na
escola de Educação Infantil, capaz de criar condições favoráveis ao desen-
volvimento psíquico das crianças em níveis mais sofisticados desde as suas
primeiras experiências no mundo.
203
Subsidiadas pelos resultados das pesquisas de Ribeiro (2004) e
Kusunoki (2018; 2024) abordamos o conceito de expressão livre para a
Pedagogia Freinet articulando-o aos postulados da Teoria Histórico-cultural,
especialmente acerca das assertivas de Elkonin (1987) sobre a periodização do
desenvolvimento psicológico humano, bem como tecemos reflexões sobre a
docência na Educação Infantil.
Em complemento, discutimos as implicações práticas do princípio da
expressão livre no processo de humanização de crianças e bebês no âmbito dos
processos encaminhados pela escola, sublinhando a questão da imprescindi-
bilidade de processos de formação docente consistentes para a materialização
de um projeto de Educação voltado às máximas possibilidades de desenvol-
vimento desde a infância.
A expressão livre, princípio essencial da Pedagogia idealizada e praticada
por Célestin Bapstitin Freinet26 (1896-1966) no início dos anos de 1920
na pequena aldeia de Bar-sur-Loup (França) consiste, em linhas gerais, na
capacidade de o sujeito expressar-se nas relações - estabelecidas com as demais
pessoas e com o mundo da cultura - por meio das linguagens concebidas,
acumuladas e sofisticadas pela atividade consciente ao longo do vasto e profí-
cuo percurso histórico da humanidade. Nas palavras de Kusunoki (2024, p.
91, grifos nossos) “[...] consiste na liberdade de pensamento e ação da criança
em seu processo de formação na escola (e na vida).
Com este entendimento, música, desenho, escrita, teatro, literatura,
fotografia, pintura e escultura compreendem algumas das inúmeras formas
de materialização da expressão humana – em níveis refinados de criação es-
tética – forjadas na experiência humana coletiva (Mello, 2012; 2017). Sobre
isso, Arena (2017, p. 88, grifos nossos) ressalta que as linguagens humanas,
no pensamento de Freinet, constituem “[...] uma ferramenta maravilhosa,
promotora de dignidade humana e de geração de poder”.
A partir destas assertivas e, em razão da especificidade do trabalho de-
senvolvido nas instituições educativas dirigidas à infância, podemos pensar
que estas linguagens podem compor a rotina diária das crianças, sendo, não
apenas apresentadas a elas como uma tarefa a ser “cumprida” (do currículo),
26 Professor francês revolucionário que concebeu técnicas de trabalho pedagógico que revolucionaram
a prática educativa na escola em seu tempo histórico.
204
mas principalmente como uma prática social, com a intenção de ampliar o
repertório de experiências e, consequentemente, suas possibilidades de per-
cepção e atividade no mundo (Akuri, 2022).
Ao pensarmos no trabalho pedagógico dirigido aos bebês e crianças peque-
nas consideramos que a expressão livre - assim como fora concebida e praticada
por Freinet (1969) - constitui o meio pelo qual os processos de formação e so-
fisticação das qualidades psíquicas humanas podem ser desenvolvidos com mais
intensidade e profundidade teórico-científica desde os momentos iniciais27 da
vida – decorrência de processos de mediação desenvolventes (Davídov, 1988).
A Teoria Histórico-cultural (THC), concebida pela psicologia so-
viética, primeiramente delineada pela “troika28 – grupo formado por Liev
Semionovich Vigotski (1896-1934), Aleksandr Romanovitch Luria (1902-
1977) e Aleksei Nikolaevich Leontiev (1903-1979) – e, posteriormente,
aprofundada por gerações de psicólogos russos, tais como Rubinstein (1959);
Bozhovich (1978); Markóva (1987); Davídov (1988); Elkonin (1987; 1998);
Lisina (1987); Yodovich (1987), Zaporózhets (1987); e Mukhina (1996) –
apresenta-nos uma concepção de gênese e desenvolvimento da consciência
humana que transcende a ideia incipiente de desenvolvimento pautado ex-
clusivamente nos atributos biológicos da espécie.
Sustentadas por tal premissa, afirmamos que o processo de humaniza-
ção, assinalado pela apropriação das capacidades psíquicas humanas superio-
res (percepção, fala, pensamento, atenção voluntária, memória, sentimentos,
imaginação e etc.) forja-se essencialmente no sistema de relações sociais no
qual a criança tem a oportunidade de ocupar um lugar privilegiado: de su-
jeito ativo (Leontiev, 1988). Este postulado da THC aponta para a potência
das relações (criança-adulto e criança-criança) estabelecidas no âmbito da es-
cola para a formação de inteligências e personalidades mais autônomas, bem
como anuncia a dimensão valorosa da atividade docente para a transformação
social, na luta por uma sociedade mais justa e democrática (Duarte, 2013).
Neste sentido, inferimos que a comunicação - unidade fundamental dos
processos de interação humana - tem sua primeira forma de “manifestação” já
27 Termo utilizado com sentido cronológico.
28 Psicólogos Soviéticos que conceberam (entre os anos de 1925 a 1930) estudos científicos que
transformaram o método de investigação em Psicologia, sobremaneira e, numa perspectiva dialética,
a gênese e desenvolvimento da consciência humana (Prestes; Tunes; Nascimento 2013).
205
nos primeiros dias de vida, especialmente quando o recém-nascido expressa indí-
cios emocionais (choro, balbucios e sorrisos, por exemplo) em resposta às sensa-
ções (agradáveis ou não) que potencialmente são provocadas em seu organismo.
Os primeiros momentos da vida do bebê, evidenciado pelas situações de
cuidado (banho, alimentação, sono etc.), visa atender às necessidades huma-
nas elementares responsáveis por garantir a sobrevivência do organismo - isto
porque o recém-nascido ainda não dispõe de capacidades desenvolvidas para
orientar-se sozinho no mundo. Paulatinamente, Vigotski (2018) explicita que
esta relação se transforma numa relação mediada: o adulto, imerso num con-
texto histórico-social, dedica-se aos cuidados do bebê atribuindo, a cada gesto,
toque ou palavra, significados culturais e sentidos pessoais que significam a ex-
periência do recém-nascido (Lísina, 1986; Zaporózeths, 1987; Vigotski, 2018).
Tal assertiva, máxima densamente defendida por Vigotski (1996), elu-
cida que o bebê é um ser maximamente social e, portanto, um ser capaz de
aprender e se apropriar dos elementos culturais de seu entorno desde o nas-
cimento (Leontiev, 1978; Vigotski, 1995; Mukhina, 1966). Fundamentada
neste princípio vigotskiano, Mello (2017, p.88, grifos nossos) amplia nossa
compreensão revelando que “[...] bebês e crianças estabelecem relações com o
mundo ao redor e aprendem desde que nascem e, porque aprendem, começam
a formar sua inteligência e sua personalidade”.
Assim, a relação estabelecida com o adulto “[...] tem papel vital para a
criança e caracteriza-se como seu primeiro contato social” (Paredes; Khole, 2020,
p. 67, grifos nossos). Desse modo, a relação com o adulto é, por assim dizer, a
experiência social responsável por inaugurar os processos de desenvolvimento
cultural do psiquismo, especialmente no que tange à formação da consciência
humana (Leontiev, 1978; Vigotski, 2018). A comunicação estabelecida “entre
psiquismos29, mediada pela fala, gestos, toques e expressões faciais do sujei-
to que cuida, engendra novas necessidades humanizadoras no bebê, dentre as
quais, chamamos a atenção para a capacidade humana de expressão.
Os reflexos incondicionados (Mukhina, 1996), os quais todo ser hu-
mano dispõe ao nascer, que funcionam sumariamente como uma condição
29 Refere-se ao conceito da THC de Lei Genética Geral de Desenvolvimento (LGGD) de que toda
função psíquica superior, primeiro é vivenciada no plano interpsíquico (entre psiquismos) para só
então, tornar-se interna, isto é do sujeito (intrapsíquica).
206
para a garantia da sobrevivência do organismo no mundo - choro diante de
uma sensação de desconforto (fome, frio, calor, etc.); sucção em resposta à
aproximação do seio materno e etc. - constituem alguns exemplos de reflexos
inatos que vão se transformando gradativamente em reflexos condicionados,
graças às atitudes responsivas (Bakhtin, 2011) nos processos de interação viven-
ciados com o bebê, a partir das suas relações com o mundo (Mukhina, 1996).
Mediante a regularidade nas ações de cuidado (relação afetiva e aten-
ção direta) o bebê passa a sentir e perceber o mundo orientado por novas
necessidades (que até então não dispunha) que modificam substancialmente
seu comportamento e revolucionam seu sistema psíquico, tornando sua rela-
ção com o externo, essencialmente mediada pela ação e significação do outro
(Leontiev, 1978; Vigotski, 1996).
Este movimento, Elkonin (1987) explica por meio da periodização do
desenvolvimento psíquico na infância apresentando-nos atividades principais
que orientam o percurso de formação humana a partir de épocas e períodos. O
teórico explicita que no primeiro ano de vida a atividade que melhor possibi-
lita saltos qualitativos no desenvolvimento psíquico constitui a atividade de
comunicação emocional direta com o adulto. O sistema de relação predomi-
nante neste momento - criança-adulto social - determina a esfera psíquica em
dominância, a saber, afetivo-motivacional (Elkonin, 1987).
Tais assertivas nos servem para ampliar as possibilidades de compreen-
são acerca da natureza dos processos educativos e para refletirmos sobre as
melhores formas para mediar a relação da criança com o mundo - de modo
que ela efetivamente aprenda e se desenvolva nas máximas potencialidades.
Neste sentido, Elkonin (1987) ao explicitar que no primeiro ano de vida a
forma particular de o sujeito interagir com as pessoas e apreender o mundo
está intrinsecamente relacionada aos sinais afetivos advindos da esfera da mo-
tivação, o autor nos revela que o bebê (mesmo que muito “pequeno” em ta-
manho) é um ser maximamente social (Vigotski, 1996) e expressa condições
de estabelecer processos de comunicação emocional com as pessoas do entorno
- mesmo que ainda não disponha da fala em sua forma final (Vigotski, 1996).
É importante explicitar que na atividade de comunicação emocional di-
reta o bebê comunica suas necessidades e desejos imerso em situações reais de
comunicação com o Outro e, para tanto, necessita mobilizar funções psíquicas
207
(atenção voluntária, percepção-afetiva, por exemplo) que se aprimoram à me-
dida que são “acionadas”, possibilitando o desenvolvimento do psiquismo e
transformando-o de elementar – de reflexos inatos – à superior com funções
culturalmente aprendidas (Vigotskii, 1988; Ribeiro, 2004; Kusunoki, 2018).
Esta máxima da THC revoluciona o pensar e agir docente na escola da
infância e confere à criança um lugar privilegiado nas relações sociais: sujeito
da própria atividade (Leontiev, 1988). Assim, articulamos os elementos da
atividade principal do primeiro ano de vida ao princípio da expressão livre em
Freinet (1979) para explicitar que a comunicação de necessidades e sensações
manifestada pelo bebê, especialmente nesse momento do desenvolvimento,
pode ser compreendida como a gênese de processos mais complexos do psiquismo
humano, tais como o pensamento, fala, função simbólica da consciência e
até mesmo a apropriação da linguagem escrita (Ribeiro, 2004; Mello, 2021;
Kusunoki, 2024).
Tal afirmação indica que a capacidade de expressar deliberadamente
as próprias necessidades e percepções se complexifica à medida que a criança
cresce (Lazaretti, 2016), fato este, que supera a ideia biologizante e confirma
nossa tese de que a expressão livre é uma categoria do ato educativo que cria
“[...] condições de [o sujeito] atingir patamares superiores em seu próprio de-
senvolvimento (Kusunoki, 2020, p. 193, grifos nossos).
Com base neste postulado da THC e, pensando na potencialidade de o
ser humano se relacionar qualitativamente com a cultura desde muito “cedo”,
afirmamos que a categoria de expressão livre permeia o desenvolvimento da
criança desde suas primeiras relações. Nesta perspectiva, compreendemos
e corroboramos a essência do papel da docência em turmas de bebês: de
fomentar situações de comunicação emocional a fim de contribuir com o
máximo desenvolvimento das funções psíquicas que embasam a capacidade
humana de expressão livre, em especial as funções em dominância nesse perío-
do da vida, a saber, percepção e atenção voluntária (Elkonin, 1987; Vigotski,
1996; Mukhina, 1996).
À medida que o bebê cresce e suas possibilidades de relação se modifi-
cam - em função da ampliação de seu repertório de experiências e apropriação
da fala (Mukhina, 1996) - os processos de desenvolvimento passam a requerer
mediação pedagógica, do mesmo modo, mais complexa. Essa assertiva revela
208
a necessidade de ações de planejamento docente que privilegiem proposições
educativas nas quais as crianças possam expressar livremente pensamentos
(hipóteses, opiniões e percepções da realidade objetiva), materializando-os
por meio das sofisticadas linguagens humana, tais como a pintura, escultura,
escrita, desenho e etc. (Freinet, 1969; 1976).
Neste sentido, considerando os princípios filosóficos construídos por
Freinet (1969), também conhecidos como invariantes pedagógicas30, apreen-
demos que a prática educativa desenvolvente não privilegia estas linguagens
humanas apenas em situações isoladas e apartadas de seu sentido social, mas
são propostas em sua inteireza: como instrumento cultural complexo forjado
na experiência da humanidade (Lima; Akuri, 2017).
Ao conceituarmos a expressão livre como a capacidade de o sujeito ex-
pressar pensamentos, hipóteses, emoções e etc., por meio de diferentes lin-
guagens humanas concebidas historicamente, corroboramos a potência dos
encaminhamentos da prática educativa com as crianças da escola da infância
e, ofertamos à elas possibilidades de pleno desenvolvimento desde o começo
da vida (Silva; Lima; Valiengo, 2017).
Engendrada nas atividades principais (Elkonin, 1987; Vigotski, 1996)
de comunicação emocional direta (primeiro ano), atividade objetal manipulató-
ria (segundo e terceiro ano) e brincadeira de papéis sociais (dos três aos sete),
a expressão livre pode ser, por assim dizer, considerada como uma categoria
fundamental da prática pedagógica a ser privilegiada na vida que “borbulha” na
escola de Educação Infantil (Kusunoki, 2020).
A atividade objetal manipulatória, atividade que orienta o desenvol-
vimento psíquico na infância entre o segundo e terceiro ano de vida, ofe-
rece possibilidades de a criança, por meio da própria atividade, apropriar-
-se dos elementos materiais e não-materiais da cultura humana realizando
pesquisas, testando hipóteses, apreendendo mecanismos, propriedades
estruturais dos objetos etc. (Elkonin, 1998; Lazaretti, 2016). A partir da
relação mediada do adulto, na atividade objetal manipulatória, a crian-
ça transforma substancialmente sua relação com o entorno, passando a
30 Os invariantes pedagógicos são princípios filosóficos norteadores da ação educativa e estão
organizados sob a ótica de três aspectos: (i) Natureza da criança; (ii) Reações da criança; (iii)
Técnicas educativas (Freinet, 1969; Sampaio, 1989; Ribeiro, 2004; Kusunoki, 2018; 2024).
209
empreender ações exploratórias com os objetos de forma mais autônoma
e potente (Martins, 2015; Lazaretti, 2016).
Esta manipulação, num primeiro momento, emerge na atividade do
bebê por meio de ações indiscriminadas (levar à boca, lançar, rolar etc.) que
possibilitam a aquisição de impressões externas que nutrem o psiquismo em
formação, compondo um acervo de imagens e percepções que constitui-
rão estruturas para ações mais complexas, tais como a fala e o pensamento
(Mukhina, 1996; Martins, 2015). Posteriormente, à medida que o adulto
apresenta os objetos fazendo uso em contextos sociais, saltos qualitativos no
desenvolvimento psíquico da criança podem ser observados, especialmen-
te porque ela começa a fazer uso dos materiais transferindo seu significado
social e inserindo-os em seus contextos de brincadeiras (Marcolino, 2013;
Lazaretti, 2016; Kusunoki, 2024).
Apreendemos que desfrutar de liberdade para estar em atividade31
(Leontiev, 1988), num espaço configurado com diversidade de materiais, tem-
po para o envolver-se e intervenções pedagógicas potentes possibilita à criança
condições favoráveis para a mobilização e sofisticação de importantes funções
psicológicas responsáveis por orientar qualitativamente o desenvolvimento de
sua inteligência e personalidade (Singulani, 2017; Kusunoki, 2018).
Neste sentido, a criança a partir das experiências sociais das quais
participa como sujeito ativo, constrói repertório de imagens, desenvolve a
memória voluntária e aprimora a atenção (Ribeiro, 2004; Kusunoki, 2024),
funções psíquicas fundamentais para ampliar e complexificar suas relações,
compreensões e orientar suas ações no mundo. Em outras palavras, funções
psíquicas que potencializam e delineiam seus modos de ser, estar e pensar a
realidade objetiva (Martins, 2015; Kusunoki, 2024).
Na atividade de brincadeira de papéis sociais, a categoria de expressão
livre pode ser perceptível nas ações das crianças, especialmente quando, de
maneira deliberada, por meio de ações lúdicas32 com os objetos, as crianças
apresentam suas percepções e teorias sobre o mundo representando a ativida-
de humana adulta (Elkonin, 1998; Marcolino, 2013; Smirnova; Riabkova,
31 A THC expressa esse conceito como sendo a capacidade de o sujeito estar envolvido com o que
realiza no âmbito físico, emocional e psíquico, isto é, corpo, pensamento e emoção.
32 Elkonin (1998) explicita como o uso e ações livres com os objetos – processos de substituição de
significados – que torna possível a criação de contextos imaginários (Kusunoki, 2024).
210
2019). Em nossa compreensão, a Escola de Educação Infantil, mediante a
atuação de gestores e docentes, tem o papel de oferecer proposições pedagógi-
cas e espaços potencializadores da atividade da criança, de modo elas exerçam
o direito de expressão livre como condição para o pleno desenvolvimento das
qualidades psíquicas humanas em níveis cada vez mais superiores.
No percurso formativo docente, ao se ter clareza teórico-conceitual de
como o ser humano aprende e das especificidades de cada período do desen-
volvimento (que delineiam os tipos de relações do sujeito com o mundo), o
professor assume o papel de sujeito ativo, não sendo apenas um mero exe-
cutor de propostas, mas expressando condutas autorais: sendo aquele que
organiza intencionalmente os tempos, espaços e materiais a fim de compor e
propor experiências promotoras de saltos qualitativos no desenvolvimento da
inteligência e personalidade das crianças.
Neste sentido, com intuito de contribuir com a construção de uma
nova escola – na qual crianças e docentes possam, verdadeiramente, serem
sujeitos da própria atividade –, bem como com o desenvolvimento de uma
sociedade em níveis mais elevados de consciência humana, militamos por um
projeto de Educação qualificado a formar professores/as e Gestores capazes de
[...] transformar o imediato em mediato; negar as aparências sociais e as
ilusões ideológicas; apanhar a totalidade e o concreto em suas múltiplas
determinações e articular essência/aparência, parte/todo, singular/univer-
sal e passado/presente, compreendendo a sociedade como um movimento
de vir a ser (Meira apud Facci, 2004, p. 256).
Nestes termos, defendemos este ideal com o principal intuito de con-
tribuir com o aperfeiçoamento de práticas pedagógicas na Educação Infantil
capazes de
[...] promover ao máximo condições apropriadas para a atividade autôno-
ma da criança, da expressão livre, da aquisição de repertório de impressões
de mundo, do convívio com formas mais elaboradas de comportamento,
dentre outras condutas psíquicas mais sofisticadas requeridas pela vida em
sociedade (Kusunoki, 2024, p. 222, grifos da autora).
211
Palavras finais com o desejo de continuar a conversa
Ao defendermos a ideia de que a Educação constitui “caminho” para
a transformação social – pois nela há a possibilidade de transformar pessoas
que, por sua vez, agem na transformação do mundo – nutrimos a esperança
de superação do estado de alienação da sociedade atual, por meio de proces-
sos de vida e educação bem consolidados propostos às futuras gerações.
Desse modo, nestas breves páginas, objetivamos apresentar o conceito
de expressão livre articulando-o aos períodos do desenvolvimento psíquico
na infância com vistas a ampliar os modos de compreensão da atividade do-
cente e da criança nas instituições de Educação Infantil, pois, compreender a
criança como um ser capaz desde que nasce delineia as ações educativas e as
transformam em proposições efetivamente desenvolventes (Davídov, 1988).
Neste sentido, ansiamos que nossas exposições tenham sido motiva-
doras de reflexões e, mesmo que de maneira breve, constituam base para o
pensar e agir docente na escola da infância dirigidos à plenitude do desenvol-
vimento de cada criança.
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217
Sobre as Autoras e Autor
Amanda Valiengo
Pedagoga, Mestre e Doutora em Educação pela Unesp- Campus Marília.
Pós-doutora em Letras pela Universidade Federal do Espírito Santo - UFES.
Professora do Departamento de Ciências da Educação e do Mestrado em
Educação da Universidade Federal de São João del Rei, UFSJ. Líder do gru-
po de pesquisa Cria - Centro de Respeito às Infâncias e suas Aprendizagens.
Membro do grupo de Estudos e Pesquisa sobre Especificidades da Docência
na Educação Infantil - GEPEDEI.
E-mail: amanda.valiengo@ufsj.edu.br
Ana Laura Ribeiro da Silva
Graduada em Pedagogia, Mestre e Doutora em Educação pela Universidade
Estadual Paulista – Júlio de Mesquita Filho. Atualmente é professora de
Educação Infantil do Sistema Municipal de Cubatão, São Paulo, Brasil,
Professora adjunta do Sistema Municipal de Santos, São Paulo, Brasil e pro-
fessora universitária na Universidade Católica de Santos e da Universidade
Metropolitana de Santos. Membro do grupo GEPEDEI (Grupo de Estudos
e Pesquisa sobre Especificidades da Docência na Educação Infantil).
E-mail: analaurars@gmail.com
Cyntia Graziella Guizelim Simões Girotto
Livre-docente em Leitura e Escrita pela UNESP (2016). Pós-doutora em
Leitura e Literatura Infantil pela UPF (2015). Doutora em Educação pela
UNESP (1999). Mestre em Educação pela UFSCar (1995). Pedagoga pela
UNESP (1992). Docente do Departamento de Didática da FFC – UNESP-
Marília, onde integra o quadro de orientadores do PPGE em Educação, li-
derando linha de pesquisa do grupo PROLEAO “Processos de leitura e de
218
escrita: apropriação e objetivação” e coordenando o CEPLLI _ “Centro de
Estudo e Pesquisa em Linguagem, Literatura e Infância.
E-mail: cyntia.girotto@unesp.br
Eliane Aparecida Galvão Ribeiro Ferreira
Doutora em Letras pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita
Filho UNESP, Câmpus de Assis, Estado de São Paulo, na linha de pesqui-
sa em Literatura e Vida Social. Possui experiência nas áreas de Literatura,
Leitura e Ensino, com ênfase em Formação do Leitor. Temas de pesquisa
mais recorrentes: leitura, literatura infantil e juvenil, e formação de leitores.
Professora assistente doutora na graduação e pós-graduação em Letras e no
PROFLetras da Universidade Estadual Paulista - Faculdade de Ciências e
Letras FCL da UNESP, Câmpus de Assis-SP. Coordena o Programa de Pós-
Graduação em Letras da Unesp, Câmpus de Assis-SP. Membro dos Grupos
de Pesquisa: RELER - Grupo Interinstitucional de Pesquisa em Leitura (PUC
- Rio); EnLIJ - Encontros com a Literatura Infantil e Juvenil: ficção, teorias
e práticas (UERJ-Rio). Líder do GP Literatura e formação do leitor: im-
plicações estéticas, históricas e sociais (UNESP/UENP) e Vice-líder do GP
Literatura juvenil: crítica e história (UENP/UNESP). Vice-coordenadora do
Grupo de Trabalho Leitura e Literatura Infantil e Juvenil, junto a ANPOLL e
membro da Red Temática de Investigación Las Literaturas Infantiles y Juveniles
del Marco Ibérico e Iberoamericano (LIJMI).
E-mail: eliane.galvao@unesp.br
Elieuza Aparecida de Lima
Professora Livre-docente vinculada ao Departamento de Didática e ao
Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Filosofia e Ciências de Marília,
UNESP. Líder do GEPEDEI (Grupo de Estudos e Pesquisa em Especificidades
da Docência na Educação Infantil).
E-mail: elieuza.lima@unesp.br
Érika Christina Kohle
Pesquisadora vinculada ao Programa de Estágio de Pós-Doutorado da
Fundação Carlos Chagas na linha de pesquisa - Educação e Infância:
219
políticas e práticas. Diretora de Escola de Educação Infantil do Município
de Marília, professora da Educação Básica II, Doutora e mestra em Educação
pela Universidade Estadual Paulista Júlio Mesquita Filho (Marília-2022),
(Marília-2016), graduada em Pedagogia pela Universidade Estadual Paulista
Júlio de Mesquita Filho (Marília – 2014), licenciada em Letras Português/
Alemão pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Assis
– 2002) e em Letras Português/Inglês pela Universidade Cruzeiro do Sul
(2021), especialista em Língua Portuguesa e Literatura pela Universidade
Estadual de Campinas - Unicamp (2012). Participa desde 2011 do Grupo
de Pesquisa Processos de leitura e de escrita: apropriação e objetivação, desde
2015 do Grupo de Pesquisa Implicações Pedagógicas da Teoria Histórico-
Cultural e desde 2019 do Grupo de Pesquisa Especificidades da Docência
na Educação Infantil, todos pertencentes ao Programa de Pós-Graduação da
Faculdade de Filosofia e Ciências – Unesp – Campus de Marília.
E-mail: erika.kohle@unesp.br
Gabriela Pavan David
Graduada em Pedagogia (FAC-FEA) e Mestre em Educação pela Universidade
Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Marília). Atualmente, é profes-
sora do Ensino Fundamental da rede particular na cidade de Birigui/SP.
Professora de Matemática no Projeto “Matemática para Brilhar” na cidade de
Araçatuba/SP. Membro do Grupo de Estudos e Pesquisa sobre Especificidades
da Docência na Educação Infantil (GEPEDEI) e membro do grupo de pes-
quisa “Deficiências Físicas e Sensoriais” (DEFSEN).
e-mail: gabrielapavand@hotmail.com
Geovanna Souza de Azevedo
Licenciada em Pedagogia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de
Mesquita Filho UNESP – Faculdade de Filosofia e Ciências/Marília.
Residente do Programa de Residência Pedagógica em 2023, atuando na
“Turma da Borboleta” na EMEI Sambalelê.
E-mail: gs.azevedo@unesp.br
220
Giovana Scareli
Pedagoga, Mestre e Doutora em Educação na Área de Concentração:
Educação, Conhecimento, Linguagem e Arte pela Universidade Estadual de
Campinas - Unicamp. Pós-doutorado em Educação, junto ao Programa de
Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Catarina -
UFSC. É Professora Associada do Departamento de Ciências da Educação
da Universidade Federal de São João del-Rei - DECED/UFSJ, pesquisadora
do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFSJ e Líder do Grupo de
Pesquisa em Educação, Filosofia e Imagem - GEFI/UFSJ, certificado pelo
CNPq. E-mail: giovana_scareli@ufsj.edu.br
Hilda Aparecida Linhares da Silva
Professora associada da Universidade Federal de Juiz de Fora, onde atua
no curso de Licenciatura em Pedagogia, no Programa de Pós-Graduação
em Educação da Faculdade de Educação e no Programa de Pós-Graduação
Profissional em Gestão e Avaliação da Educação Pública do CAEd/UFJF. É
membro da Comissão de Assessoramento Técnico-Pedagógico em Linguagens
e Códigos e suas Tecnologia do INEP, atuando em avaliações nacionais de
Língua Portuguesa. Coordenou, nos anos de 2015 e 2016, os trabalhos de ela-
boração da primeira e segunda versões da Base Nacional Comum Curricular.
Coordena ações de extensão no âmbito do curso de formação de professores
da educação infantil “Leitura e Escrita na Educação Infantil
E-mail: hilda.micarello@uab.uf.br
Juliana Guimarães Marcelino Akuri
Doutora e Mestre em Educação pela Universidade Estadual Paulista Júlio
de Mesquita Filho; graduada em Pedagogia com Habilitação em Educação
Infantil e Administração Escolar pela mesma universidade. É membro do
GEPEDEI, Grupo de Estudos e Pesquisa sobre Especificidades da Docência
na Educação Infantil, cadastrado junto ao CNPq. Atualmente é diretora de
escola municipal de Educação Infantil, tem experiência como professora e
coordenadora desse mesmo nível de ensino, como professora e diretora de
Ensino Fundamental, além de supervisora escolar de Educação Básica.
E-mail: jugmakuri@gmail.com
221
Karolyne Aparecida Ribeiro Kusunoki
Graduada em Pedagogia, Especialista em Educação Inclusiva, Mestre e
Doutora em Educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp- Marília/
SP). É membro do Grupo de Estudos e Pesquisa em Especificidades da
Docência na Educação Infantil (GEPEDEI) e Grupo de Pesquisa Implicações
Pedagógicas da Teoria Histórico-cultural (ambos vinculados à Unesp de
Marília). Atuou como Professora de Educação Infantil nas redes pública e
particular do Município de Marília de 2009 a 2021. Atualmente é Diretora
de Centro de Educação Infantil (CEI) e atua como Coordenadora de Área da
Educação Infantil (Pré-escola) na equipe da Oficina Pedagógica da Secretaria
Municipal de Educação de Birigui/SP.
E-mail: k.kusonoki@unesp.br
Kátia Aparecida Franco de Sousa
Mestre em Educação na Universidade Federal de São João del Rei, UFSJ.
Possui graduação em Normal Superior pela Universidade FUMEC (2005).
Especialização em “Letramento e Alfabetização” e em “Mídias na Educação
pela Universidade Federal de São João del Rei. Pedagogia e Especialização
em Educação Inclusiva e Especial pela FAVENI. Tem experiência na área de
Educação, atuando principalmente na Educação Infantil. Membro do grupo
de pesquisa Cria - Centro de Respeito às Infâncias e suas Aprendizagens.
E-mail: katiaaparecidalinda@gmail.com
Ketty Claudia Neves do Amaral
Mestre em Educação pelo Programa de Pós-graduação em Educação da
Universidade Federal de São João del Rei – UFSJ, MG. Graduada em
Pedagogia pela Faculdade Metodista Granbery (2016). Possui Especialização
em Neuropsicopedagogia e Educação Especial e Inclusiva pela Universidade
Cândido Mendes (2018). Membro do grupo de Estudo e Pesquisa CRIA -
Centro de respeito às infâncias e suas aprendizagens. Orientadora Educacional
na rede particular de ensino.
E-mail: kettyeri@gmail.com
222
Leila Cristina de Carvalho Sandim
Graduanda no Curso de Pedagogia, na Universidade Federal de São João
del-Rei (UFSJ). Graduada em Administração, pelo Instituto Presidente
Tancredo de Almeida Neves (2015). Membro do Grupo de Pesquisa CRIA
- Centro de respeito às infâncias e suas aprendizagens. Bolsista de Iniciação
Científica, pesquisando sobre práticas de leitura.
E-mail: leilacarvalhosandim@yahoo.com
Maíra Isabel Zibordi
Doutoranda em Literatura e Vida Social pela Universidade Estadual Paulista
Júlio de Mesquita Filho - UNESP/Assis. Mestra na mesma instituição e linha
de pesquisa, desenvolvendo estudos nas áreas de Literatura infantil e juvenil,
análise de ilustrações, experiência estética e formação do leitor. Licenciada
em Letras com habilitação em inglês pela Universidade Estadual Paulista
(UNESP - Assis). Licenciada em Pedagogia pelo Instituto Paulista São José
de Ensino Superior, com especialização em Psicopedagogia institucional e
clínica na mesma instituição. Especializada em Processos didático-pedagógi-
cos para cursos na modalidade à Distância pela UNIVESP. Professora efetiva
com dois cargos da Educação Infantil na Prefeitura Municipal de Marília.
Membro do grupo de pesquisa Leitura e Literatura na Escola - Universidade
Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho e do grupo Literatura juvenil: críti-
ca e história da Universidade Estadual do Norte do Paraná.
E-mail: maira.zibordi@unesp.br
Marcelo Campos Pereira
Doutor e Mestre em Educação pela Universidade Estadual “Júlio de Mesquita
Filho”, graduado em Pedagogia pela mesma universidade. É membro do
Grupo de Pesquisa Implicações Pedagógicas da Teoria Histórico-Cultural e do
Grupo de Estudos e Pesquisa sobre Especificidades da Docência na Educação
Infantil (GEPEDEI), ambos da Unesp de Marília. Atualmente é professor
coordenador da Escola Municipal de Educação Infantil “Nossa Senhora da
Glória” na mesma cidade.
E-mail: marcelocampo0@gmail.com
223
Maria Aparecida Zambom Favinha
Mestre em Educação pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita
Filho. Graduada em Letras e Pedagogia pela Universidade de Marília.
Atualmente é professora-coordenadora de Escola de Educação Infantil
do Sistema Municipal de Marília, São Paulo, Brasil. Membro dos grupos
GEPEDEI (Grupo de Estudos e Pesquisa sobre Especificidades da Docência na
Educação Infantil) e “Implicações Pedagógicas da Teoria Histórico-Cultural”.
E-mail: maria.favinha@unesp.br
Mariana Parreira do Amaral
Professora da Educação Infantil na Rede Municipal de Educação de Belo
Horizonte. Mestre em Educação pela Universidade Federal de Minas
Gerais, graduada em Psicologia na mesma universidade e em Pedagogia na
Universidade Fumec. Integra o Grupo de Pesquisa em Leitura e Escrita na
Primeira Infância – LEPI/FaE/UFMG e o Programa Bebeteca: uma biblio-
teca para a primeira infância, da FaE/UFMG. Atua no âmbito da formação
continuada de professoras, no curso Leitura e Escrita na Educação Infantil,
da FaE/UFMG.
E-mail: mariparreira@gmail.com
Monalisa Gazoli
Doutora (2022) e Mestre em Educação (2010 - bolsas Capes e Fapesp) e
Pedagoga (2007) pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita
Filho” - Unesp-Marília/SP. Membro do Gepedei – “Grupo de Estudos e
Pesquisa sobre Especificidades da Docência na Educação Infantil” e do grupo
de pesquisa “ Implicações Pedagógicas da Teoria Histórico-Cultural”, ambos
vinculados à Unesp-Marília/SP. Foi professora-formadora do Parfor (Plano
Nacional de Formação de Professores da Educação Básica), entre 2012 e
2014. Atuou como professora no Centro Universitário Católico Salesiano
Auxilium de Lins/SP, entre 2017 e 2023. Atua como mentora pedagógica
autônoma. Pesquisa principalmente sobre os temas: Alfabetização, Educação
infantil e Formação de professor para a Educação Infantil.
E-mail: monalisa_gazoli@hotmail.com
224
Mônica Correia Baptista
Professora Associada da Universidade Federal de Minas Gerais, onde atua
no curso de Licenciatura em Pedagogia, no Programa de Pós-Graduação em
Educação e no Mestrado Profissional Educação e Docência – PROMESTRE
ambos da Faculdade de Educação da UMG. Doutora em Educação pela
Universidade Autônoma de Barcelona. Líder do Grupo de Pesquisa Leitura
e Escrita na Primeira Infância – LEPI/FaE/UFMG. Coordenadora do curso
Leitura e Escrita na Educação Infantil e do Programa Bebeteca: uma biblio-
teca para a primeira infância da FaE/UFMG. Desenvolve pesquisas nas áreas
de oralidade, leitura e escrita, currículo, formação de professores, políticas
públicas e literatura infantil na Educação infantil.
E-mail: monicacb.ufmg@gmail.com
Simone Marques da Silva Carvalho
Mestranda em Educação pelo Programa de Pós-graduação em Processos
Socioeducativos e Práticas Escolares PPEDU da Universidade Federal de
São João del Rei - UFSJ, MG. Possui especialização Lato Sensu Práticas de
Letramento e Alfabetização (UFSJ), Psicopedagogia (Uninter) e Graduação
em Pedagogia (UFSJ). Professora de Educação Infantil e Anos Iniciais na rede
estadual e municipal de São João del-Rei.
E-mail: simarx@gmail.com
Stela Miller
Possui graduação em Pedagogia pela Universidade Estadual Paulista Júlio
de Mesquita Filho (1971), graduação em Letras pela Faculdade de Filosofia
Ciências e Letras de Dracena (1972), mestrado em Linguística e Filologia
da Língua Portuguesa pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita
Filho (1991) e doutorado em Ensino na Educação Brasileira pela Universidade
Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (1998). Atualmente é professora as-
sistente doutora aposentada do Departamento de Didática da Faculdade de
Filosofia e Ciências da Unesp - Marília (SP) e professora voluntária do pro-
grama de Pós-Graduação em Educação na mesma Instituição. Tem experiên-
cia na área de Educação, com ênfase em Metodologia do Ensino de Língua
Portuguesa (ciclo I), atuando principalmente nos seguintes temas: ensino e
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aprendizagem da língua portuguesa - ensino fundamental (séries iniciais),
implicações pedagógicas da Teoria Histórico-Cultural.
E-mail: stelamillercel@gmail.com
Suely Amaral Mello
Sou paulista de Dois Córregos, doutora em Educação pela UFSCAR e mili-
tante do direito das crianças a viverem sua infância sem a pressa - que atropela
sua humanização - e sem as telas – que atrofiam seu cérebro. Na Universidade,
dediquei-me à formação de professoras/es e pesquisadoras/es que se compro-
metem com o desenvolvimento de cada bebê e criança para ser um dirigente,
a partir do que estudo em Vygotsky e autores que pensam a partir dele. Em
trabalhos de assessoria, me esforço por convencer professoras/es e gestoras/es
de que as crianças pequenas são capazes de fazer escolhas desenvolventes sem-
pre que encontram um ambiente investigativo – o que pode, do meu ponto
de vista, iniciar uma revolução na cultura escolar. Tenho gostado de traduzir
livros sobre educação infantil que fazem avançar nossas práticas com bebês e
crianças. Costumava ter uma fé inabalável no Brasil e no povo brasileiro - o
que torço e me esforço por recuperar.
E-mail: suemello02@gmail.com
Tatiana Schneider Vieira de Moraes
Professora Assistente Doutor vinculada ao Departamento de Educação do
Instituto de Biociências da UNESP de Rio Claro e ao Programa de Pós-
Graduação Multiunidades em Ensino de Ciências e Matemática (PECIM)
da UNICAMP. Participante do GEPEDEI (Grupo de Estudos e Pesquisa
em Especificidades da Docência na Educação Infantil) da FFC - UNESP de
Marília e do Formar-Ciências (Grupos de Estudos e Pesquisas em Formação
de Professores da Área de Ciências) da Faculdade de Educação da UNICAMP.
E-mail: tatiana.moraes@unesp.br
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SOBRE O LIVRO
Catalogação
André Sávio Craveiro Bueno – CRB 8/8211
Normalização
Taciana Oliveira
Diagramação e Capa
Mariana da Rocha Corrêa Silva
Assessoria Técnica
Renato Geraldi
Oficina Universitária Laboratório Editorial
labeditorial.marilia@unesp.br
Formato
16x23cm
Tipologia
Adobe Garamond Pro
Este livro é apresentado em duas partes e
conta com um conjunto de onze capítulos.
As reexões socializadas e materializadas
em escritos narrados na união de mãos
e mentes de pesquisadores, professoras e
professores, gestores da Educação Bási-
ca, especialmente da Educação Infantil
são frutos de trabalhos empreendidos por
dois grupos de pesquisa: o GEPEDEI -
Grupo de Estudos e Pesquisa em Especicida-
des da Docência na Educação Infantil, situado
na Unesp de Marília (SP) e o CRIA - Centro
de Respeito às infâncias e suas aprendizagens
da UFSJ/MG, que coaduna dos objeti-
vos e perspectivas do Gepedei desde sua
criação. Ao longo das páginas, os capí-
tulos têm como o condutor e dialógico
questões relativas à formação de profes-
soras e professores da Educação Infantil
e a Teoria Histórico-Cultural, rmando
desaos e possibilidades de docentes para
uma educação literária, estética e huma-
nizadora, mediante argumentações teó-
rico-cientícas e contextuais do dia a dia
da escola da infância. Reetem sobre a
educação como processo social por meio
do qual é possível a transformação do ser
humano, desde bebê, mediante a ativi-
dade conjunta. Com essa compreensão,
a educação passa a ser considerada como
centro do processo de evolução históri-
co-cultural do homem e, portanto, com
perspectiva desenvolvente e humaniza-
dora. Diante da relevância da oferta de
uma educação humanizadora de adul-
tos e crianças, desde o começo da vida,
o livro objetiva levar à reexão questões
sobre como professoras e os professores
podem possibilitar o desenvolvimento
das crianças de modo cada vez mais ple-
no, considerando o arcabouço biológico,
mas sobretudo as condões e relações
sociais culturais e históricas necessárias
à humanização. Em síntese, os autores
desejam que as reexões dispostas neste
livro contribuam para as práticas peda-
gógicas e para novos estudos, represen-
tativos de acréscimos de valor tanto à
teoria quanto à prática educativa funda-
mentadas na Teoria Histórico-Cultural.
Almejam também, nessa perspectiva,
que as proposições apresentadas sejam
motivadoras para o exercício intelectu-
al e autoral docente, tornando possível
a transformação não apenas da educa-
ção ofertada às crianças, mas também
a transformação das próprias crianças
como sujeitos em processo de formação
das capacidades psíquicas, do autoco-
nhecimento, da autonomia pessoal e
de socialização ao propiciar que, nas
instituições educativas, tenham lugar
e reconhecimento de todas os ritmos
de trabalho, expectativas, estilos cog-
noscitivos, aprendizagem, motivações,
etnias e de valores culturais. Pretende-
mos por meio de uma educação institu-
cionalizada superar a sociedade dividida
em classes com a implementação de uma
sociedade cada vez mais humanizada e
economicamente menos desigual.
Convidamos vocês, a descobrirem nes-
se conjunto de textos reexões profícuas
potencializando práticas humanizadoras.
Programa PROEX/CAPES:
Auxílio Nº 0039/2022
Processo Nº 23038.001838/2022-11
FORMAÇÃO DE PROFESSORAS E PROFESSORES DA EDUCAÇÃO INFANTIL:
bases cientícas, contextos, desaos e possibilidades
Este livro é apresentado em duas partes e conta com um conjunto de onze
capítulos decorrentes de estudos referentes a dois grupos de pesquisa GE-
PEDEI (Grupo de Estudos e Pesquisa em Especicidades da Docência na
Educação Infantil) da Unesp/SP e CRIA (Centro de Respeito às infâncias
e suas aprendizagens) da UFSJ/MG. Os participantes desses grupos or-
ganizaram duas edições de Colóquio, realizadas em 2021 e 2023, materi-
alizando um antigo desejo de ampliar conhecimentos essenciais à consti-
tuição docente além das atividades vivenciadas nos encontros periódicos
dos grupos de pesquisa. Dos diálogos provocados pelos estudos nos grupos
e nos dois eventos nasceu o livro mencionado. Diante da relevância da
oferta de uma educação que humanize, o livro objetiva levar à reexão
questões sobre como professoras e os professores podem possibilitar o de-
senvolvimento das crianças de modo cada vez mais pleno, considerando
o arcabouço biológico, mas sobretudo as condições e relações sociais cul-
turais e históricas necessárias à humanização.
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