O livro analisa as mudanças na década de 1970 do Ensino Supe-
rior paulista. Nesse momento, novas carreiras prossionais surgem
nas universidades. A obra estuda um caso paradigmático: a criação
do curso superior de Turismo na Universidade de São Paulo. An-
tes desse curso ser concebido pela USP, a obra delineia sua trajetó-
ria desde curso técnico prossionalizante no Ensino Médio até sua
constituição como carreira universitária. O livro trata de exemplo
concreto da trajetória de formação prossional no Ensino Superior
propiciada pela Reforma Universitária do nal da década de 1960.
O livro analisa as mudanças na década
de 1970 do Ensino Superior paulista.
Nesse momento, novas carreiras pro-
ssionais surgem nas universidades. A
obra estuda um caso paradigmático: a
criação do curso superior de Turismo
na Universidade de São Paulo. Antes
desse curso ser concebido pela USP, a
obra delineia sua trajetória desde cur-
so técnico prossionalizante no Ensi-
no Médio até sua constituição como
carreira universitária. O livro trata
de exemplo concreto da trajetória de
formação prossional no Ensino Su-
perior propiciada pela Reforma Uni-
versitária do nal da década de 1960.
É estudo vinculado à área de História
da Educação, foco privilegiado das
pesquisas do autor. Foi sua primeira
incursão em estudos sobre o Ensino
Superior brasileiro. Outras obras pos-
teriores do mesmo autor tratam dos
rumos que a universidade brasileira
teve ao longo do século passado.
Programa PROEX/CAPES:
Auxílio 0039/2022
Processo 23038.001838/2022-11
O Ensino Superior como formação prossional
Macioniro Celeste Filho
Macioniro Celeste Filho
a criação do curso superior de Turismo na década de 1970
O Ensino Superior
como formação
prossional:
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O Ensino Superior como formação prossional:
a criação do curso superior de Turismo na década de 1970
Macioniro Celeste Filho
Macioniro Celeste Filho
O Ensino Superior como formação prossional:
a criação do curso superior de Turismo na década de 1970
Marília/Ocina Universitária
São Paulo/Cultura Acadêmica
2024
UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS – FFC
UNESP - campus de Marília
Diretora: Dra. Claudia Regina Mosca Giroto
Vice-Diretora: Dra. Ana Cláudia Vieira Cardoso
Conselho Editorial
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Cláudia Regina Mosca Giroto
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Conselho do Programa de Pós-Graduação em
Educação - UNESP/Marília
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Claudia da Mota Daros Parente
Cyntia Graziella Guizelim Simões Girotto
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Pedro Angelo Pagni
Auxílio Nº 0039/2022, Processo Nº 23038.001838/2022-11, Programa PROEX/CAPES
Parecerista: Profa. Dra. Márcia Lopes Reis (Departamento de Educação Faculdade de Ciências - UNESP
Bauru, Profa. do Programa de Pós-Graduação em Educação Escolar UNESP Araraquara, Profa Colaboradora do
Programa de Pós-Graduação em Sociologia UNICAMP)
Ficha catalográca
_______________________________________________________________________________________
Celeste Filho, Macioniro.
C392e O Ensino Superior como formação prossional: a criação do curso superior de Turismo na década
de 1970 / Macioniro Celeste Filho. – Marília : Ocina Universitária ; São Paulo : Cultura
Acadêmica, 2024.
139 p. : il.
CAPES
Inclui bibliograa
ISBN 978-65-5954-529-2 (Impresso)
ISBN 978-65-5954-530-8 (Digital)
DOI: https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-530-8
1. Educação – História – 1970-1979. 2. Turismo. 3. Ensino superior – Brasil. I. Título.
CDD 370.109
_______________________________________________________________________________________
Catalogação: André Sávio Craveiro Bueno – CRB 8/8211
Copyright © 2024, Faculdade de Filosoa e Ciências
Editora aliada:
Cultura Acadêmica é selo editorial da Editora UNESP
Ocina Universitária é selo editorial da UNESP - Campus de Marília
AGRADECIMENTOS
Agradeço ao amigo Kazumi Munakata, que orientou a pesquisa que
deu origem ao atual livro. Sem o conhecimento de Mirian Jorge Warde e de
sua generosa biblioteca, a pesquisa para este livro teria seria muito dicultosa.
O sorriso e as metáforas de Maria do Carmo Martins foram decisivos nos
momentos de grande dúvida. O apoio e a colaboração de Lucia Maria da
Franca Rocha foram imprescindíveis neste trabalho.
Felizmente, contei com a ajuda de funcionários públicos exemplares.
Sem eles, a pesquisa para esta obra teria sido inviável. Não me esquecerei
do apoio de Francisco Aparecido Cordão, então no Conselho Nacional de
Educação; de Cássia de Souza Lopes Sampaio, da Reitoria da USP; de Ana
Maria Aparecida Fernandes, do Conselho Estadual de Educação de São
Paulo; e de Lígia Palhares Silva, da Gerência de Comunicação do Senac-SP. A
estes, meus sinceros agradecimentos.
Todos os entrevistados por esta pesquisa foram magnânimos e bondo-
sos. Sinto-me muito grato. Muito obrigado!
Agradeço especialmente a Douglas Peres Rubio, meu companheiro,
quem muito me ajudou nestas últimas décadas, inclusive com a revisão deste
texto. Todos os erros que sobreviveram são meus, os acertos são dele.
Sumário
Prefácio | Luiz Gonzaga Godoi Trigo......................................................................9
Introdução..........................................................................................................15
O surgimento de um novo curso universitário e seu currículo: o Turismo............27
Competências educacionais em Turismo no Estado de São Paulo........................45
O Conselho Federal de Educação e a criação de cursos superiores de Turismo.....53
A criação do curso de Turismo na Universidade de São Paulo..............................65
O corpo docente dos primeiros cursos de Turismo..............................................87
Currículos de cursos superiores de Turismo.........................................................95
Considerações Finais.........................................................................................105
Fontes...............................................................................................................107
Referências........................................................................................................109
Anexos..............................................................................................................113
Sobre o autor.....................................................................................................137
9
PREFÁCIO
Entre 1990 e 2010, na passagem do século, o cenário do Ensino Superior
brasileiro presenciou uma das maiores bolhas de sua história: o inchaço dos
cursos de Turismo e relacionados (Hotelaria, Gastronomia, Eventos...), espe-
cialmente no setor privado. De repente eclodiu uma percepção inacionada
de que Turismo seria o futuro e, a partir de 1996, foram autorizados centenas
de cursos chegando ao número absurdo de 500 ou 600 programas em todo
o Brasil, até em lugares com potencial turístico negativo (Marília Ansarah e
Mirian Rejowski zeram a análise quantitativa dos cursos). O cenário atual
mostra que os cursos de Turismo quase se extinguiram, sobrevivendo com
diculdades em pouquíssimas instituições privadas e com ótimo desempe-
nho em algumas universidades públicas (Federais e Estaduais/Comunitárias)
e Institutos Federais. Na elite dessas universidades públicas orescem os pro-
gramas de pós-graduação com bom nível de excelência (a maior nota dos
programas em Turismo na Capes é 5,0).
O que aconteceu ao longo dessas últimas três décadas? Como explicar
essa ascensão exuberante seguida de queda em tão pouco tempo?
É a economia... Na época, o Brasil surfava nos sucessos e benefícios
gerados pelo Plano Real, executado em 1994, e os governos de Fernando
Henrique Cardoso (1995-2002) e de Luis Inácio Lula da Silva (2003-2010)
beneciaram-se de um contexto nacional favorável e de cenários internacio-
nais com otimismo, disponibilidade de capital para investimentos, crença
na globalização e euforia com as novas tecnologias de informação e comu-
nicação. Com o colapso do socialismo real na ex-União Soviética e no Leste
Europeu e com abertura econômica da China, hordas de novos turistas co-
meçaram a se deslocar pelo mundo, somando-se aos europeus, latinos, outros
orientais e australianos, que se beneciavam de épocas de fartura econômica
e de ganhos de tempo livre para curtir feriados, férias ou a aposentadoria.
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-530-8.p9-13
10
No Brasil a euforia passava pela estabilidade econômica, pelas promes-
sas de melhoria dos serviços com as privatizações de alguns setores como
telecomunicações e aeroportos. Pensava-se nos ganhos que os megaeventos
(Olimpíada, Copa do Mundo, Paraolimpíada) trariam e havia uma renova-
ção da infraestrutura do país com abertura de novos hotéis, terminais aéreos,
centros de varejo e gastronomia ligados ao entretenimento, artes e cultura.
Alguns eventos nefastos como a crise nanceira internacional de 2008;
o crescimento da imigração forçada pelas guerras ou desastres ambientais
para alguns países europeus e para os Estados Unidos; a desconança com
a globalização e formação de blocos econômicos; o crescimento das tensões
entre o Ocidente e o Oriente (especialmente com a China e Rússia) levaram
à crises regionais que afetaram o crescimento econômico em vários pontos do
planeta. No Brasil, a partir de 2013, a sociedade vivenciou incertezas e ins-
tabilidades políticas e econômicas, o que reetiu em menos disponibilidade
para consumo de produtos e serviços não essenciais, como lazer e turismo.
Então veio a pandemia de Covid-19, que paralisou totalmente o mercado
internacional de viagens por quase dois anos e ainda deixou cicatrizes sociais
e culturais por onde passou.
Em meio a esses eventos os sistemas educacionais passaram por mu-
danças profundas em termos de novas tecnologias, métodos pedagógicos
inovadores, questão da inclusão e diversidade nas escolas e nos currículos,
surgimento de novas prossões e campos de atuação além da internaciona-
lização entre vários programas e universidades. Já detectado em 2015, por
Jafar Jafari em suas pesquisas, o amplo setor do turismo se fragmentou tanto
no mercado quanto nas universidades e programas de pesquisa. A fragmen-
tação é a diversicação do que se entende por “viagens e turismo” em cam-
pos como hotelaria e hospitalidade, gastronomia, eventos, entretenimento,
esportes, artes e cultura, meio ambiente, gestão e negócios, planejamento,
design e urbanismo. O turismo tem tudo a ver, direta e indiretamente, com
todas essas atividades. A explosão dos setores de entretenimento ocorreu es-
pecialmente em games, streaming, redes sociais, museus e centros culturais
interativos e imersivos, navios de cruzeiros que são quase parques temáticos,
resorts paradisíacos, arenas sosticadas como a “esfera” de Las Vegas, os shows
musicais high tech em espaços abertos, shoppings e mercados cada vez mais
11
sosticados e atendendo os mais variados tipos de público. São dezenas de
atividades diferentes que exigem dezenas de prossionais diferentes, cada um
sendo treinado e educado em um campo distinto, mas com a perspectiva
de trabalharem em equipes articuladas. Os antigos currículos dos cursos de
turismo não mais davam conta sozinhos dessas novas exigências, habilidades
e competências que agora eram adquiridas não apenas em escolas conven-
cionais, mas também pela internet, em centros de treinamento isolados das
grandes escolas e no próprio mercado. Em termos de graduação os cursos
de Hotelaria, Gastronomia, Eventos, Administração direcionada ao Turismo,
Educação Física direcionada ao lazer e alguns programas ligados ao meio am-
biente proviam vários dos conteúdos exigidos pelo setor de viagens e turismo.
Sem contar os campos de transportes, marketing, estatística e nanças que
sempre foram de suas próprias áreas especícas da academia e do mercado.
Por outro lado, a proliferação desordenada dos cursos de Turismo nas
faculdades e universidades privadas só poderia resultar em fracasso. Fui mem-
bro da Comissão de Especialistas dos cursos de Administração (e posterior-
mente da Comissão de Turismo e Hotelaria) do Ministério da Educação a
partir de 1996, onde quei por quatro anos e testemunhei como cursos eram
aprovados por nossas comissões apenas com indicações genéricas sobre como
esses cursos seriam implantados. O novo Conselho Nacional de Educação
tinha como política aprovar os cursos desde que atendessem as mínimas exi-
gências. O problema é que essas “mínimas exigências” se mostraram insu-
cientes, especialmente no turismo. Alguns empresários e técnicos da educa-
ção tinham a errônea ideia de que turismo era “fácil de ensinar e aprender”,
não precisava de laboratórios especícos, alguns computadores seriam su-
cientes e as bibliotecas eram um detalhe menor. Ou seja, poderiam ter muitos
lucros com poucos investimentos e aproveitando professores de outras áreas
para “tocar o curso”. A onda de entusiasmo com os cursos de turismo durou
menos de duas décadas.
O setor de viagens e turismo voltou a crescer depois das crises mundiais
e da pandemia e apesar das guerras e conitos violentos em algumas partes do
planeta. A formação em turismo e atividades relacionadas continua a ser im-
portante, estando distribuída em diversos centros de formação, treinamento
e capacitação, reais ou virtuais.
12
O texto de Macioniro Celeste Filho sobre a criação do curso de Turismo
na USP mostra a gênese desse longo processo que se iniciou na década de
1970. É importante conhecer a história para se entender como ocorreu essa
grande expansão dos cursos de Turismo e sua atual fragmentação em tantos
campos do conhecimento e do mercado.
Macioniro (Márcio, para os conhecidos) analisa desde a questão con-
ceitual do que se entendia por “turismo” há mais de 50 anos, como se estrutu-
rava a educação em São Paulo e especialmente na Universidade de São Paulo,
como o Conselho Federal de Administração esteve junto nesse processo de
criação e ampliação dos cursos de turismo pelo Brasil e como a USP traba-
lhou para criar um curso que foi inspiração para muitos outros cursos que
proliferaram pelo país. Em termos históricos a antiga Faculdade de Turismo
do Morumbi foi um grupo privado que criou o primeiro curso de Turismo
no Brasil em 1971, tendo sido posteriormente incorporada à Universidade
Anhembi-Morumbi.
A USP liderou a proposição dos currículos, programas e métodos de
ensino para turismo ao nível superior e criou o primeiro programa de pós-gra-
duação na área (1993), que foi posteriormente descontinuado. Atualmente
os programas de mestrado e doutorado em Turismo da USP estão sediados na
Escola de Artes, Ciências e Humanidades.
Há muitas dissertações, teses e artigos sobre o desenvolvimento dos
cursos de turismo no Brasil, mas há poucos livros, ou seja, publicações mais
robustas com ampla discussão sobre a problemática da educação superior em
turismo. O livro de Macioniro se insere agora nesse seleto universo, possibili-
tando o (re)conhecimento da USP como celeiro de novas ideias e projetos. O
livro foi fruto da dissertação de mestrado de Macioniro, defendida em 2002.
Esse texto se articula com as obras da professora Marlene Matias
Turismo – formação e prossionalização (Barueri/SP: Manole, 2002) e Turismo
– 50 anos dos cursos de graduação no Brasil (Jundiaí/SP: Paco, 2022). Para se
ter uma ideia do estado da arte sobre a pesquisa em turismo no Brasil, há a
tese de doutorado de J. Laize S. Oliveira, orientada pelo professor Alexandre
Panosso Netto, editada no livro O pensamento turístico brasileiro (São Paulo:
Dialética, 2023).
13
Mesmo não sendo mais um curso “pop” e de massa, o campo do tu-
rismo continua a exigir formação e qualicação de ótimo nível. O conheci-
mento na área se expandiu e foi distribuído pelos diversos campos do conhe-
cimento. Conhecer suas origens ajuda a compreender alguns dos mitos, ritos
e desaos que o turismo brasileiro continua a suscitar e este texto lança luzes
sobre uma de suas principais vertentes acadêmicas e históricas.
Luiz Gonzaga Godoi Trigo
Professor Titular da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.
Atuando na graduação de Lazer e Turismo e credenciado na pós-graduação
(mestrado e doutorado) em Turismo.
15
INTRODUÇÃO
Cursos universitários de Turismo são relativamente recentes, existem
há cinco décadas. De onde se criou esta área acadêmica? Como surgiu esse
novo curso no ensino superior? Os diversos cursos superiores, alguns mais
antigos, outros, nem tanto, surgiram por ação de intelectuais em momentos
históricos decisivos para a conguração da universidade que conhecemos. O
caso especíco da criação de cursos superiores de Turismo é exemplo signi-
cativo das mudanças de enfoque que os intelectuais e a sociedade atribuíram
à educação, à universidade e à cultura nos anos 1960 e início da década de
1970. Este livro se propõe a apresentar as intensas circunstâncias históricas
que propiciaram o surgimento dos cursos superiores de Turismo e como esta
nova carreira acadêmica foi incorporada pela universidade brasileira.
Não é intenção desta obra realizar um balanço teórico de tudo o que
foi lido no decorrer da pesquisa que resultou na dissertação da qual este livro
se origina. Os textos citados nas referências ao término deste livro possibi-
litaram visualizar diversos caminhos possíveis no contato com o tema aqui
proposto. Nesta introdução, optou-se pela humildade de destacar os escritos
básicos que nortearam os passos de contato com o objeto desta obra. Busca-
se, assim, mostrar os limites a que se chegou quando da confrontação das
possíveis trilhas sugeridas por alguns autores e as fontes documentais a que se
conseguiu localizar.
Eric Hobsbawn, com seu Invenção das tradições (1997), teve papel im-
portante na reexão sobre as tradições acadêmicas. Intuitivamente, buscava-
-se distância de uma abordagem epistemológica da constituição das diversas
áreas de compartimentação dos saberes acadêmicos. Autores como Gérard
Fourez (1995) ou mesmo omas Kuhn (2000) já haviam relativizado, subs-
tancialmente, uma possível visão rígida da epistemologia ou dos paradig-
mas cientícos. Entretanto, foi a abordagem sugerida por Hobsbawn que
16
mais articulou, num primeiro momento, as questões propostas pela pesquisa
que, insisto, resultou neste livro. Com a ajuda deste autor, reetiu-se que a
universidade se compartimenta em áreas distintas de conhecimento de ma-
neira histórica, mas que estas áreas são apresentadas como tradicionais. Eric
Hobsbawn, ao analisar o surgimento das tradições, destaca que muitas ve-
zes, tradições que parecem ou são consideradas antigas são bastante recentes,
quando não inventadas. Questionou-se se cursos universitários de Turismo
seriam uma tradição inventada, mas esta questão mostrava-se improdutiva;
quer fossem ou não uma tradição inventada, o que isto contribuiria na com-
preensão de seu surgimento? Hobsbawn (1997, p. 20) perguntara: “o que
os historiadores ganham com o estudo da invenção das tradições? Antes de
qualquer coisa, pode-se dizer que as tradições inventadas são sintomas impor-
tantes e, portanto, indicadores de problemas que de outra forma poderiam
não ser detectados nem localizados no tempo. Elas são indícios”. Segundo
Hobsbawn (1997, p. 16), “não é necessário recuperar nem inventar tradições
quando os velhos usos ainda se conservam”. Isto transformou o estudo do
surgimento da nova carreira acadêmica do Turismo em algo mais substancial.
Talvez fosse um indício importante para entender o que ocorreu na universi-
dade brasileira no início da década de 1970. Que usos não se conservaram na
universidade para que uma nova carreira acadêmica fosse inventada?
Esta questão correlata ampliou o campo de investigação. Para melhor
orientação nesta direção foram essenciais os textos de Luiz Antônio Cunha
(1980, 1989, 1999). Este autor é a principal referência neste livro quando se
trata da universidade brasileira nas últimas décadas. Porém, nem só de estu-
dos bibliográcos sobrevive uma obra. Devido à necessidade de tentar juntar
dois os do novelo – o turismo e a universidade – buscou-se também com-
preender o que se produziu sobre o turismo nos anos 1970. Mirian Rejowski
(1996) mapeara a produção cientíca sobre o turismo em sua tese de dou-
torado. Seguiram-se os caminhos trilhados por esta autora e consultaram-
-se as diversas pesquisas por ela analisadas na área de turismo. Infelizmente,
este caminho mostrou-se infrutífero. Com raras exceções citadas na biblio-
graa, praticamente não existem estudos históricos no que concerne ao tu-
rismo no Brasil, muito menos na área de história da educação, ao menos
na década de 1970. A solução seria pesquisar a documentação dos órgãos
17
ociais competentes pela área do turismo no período, isto é, a Embratur e
o Conselho Nacional de Turismo. Isto não foi possível. Em entrevistas com
dois especialistas em pesquisa na área de turismo, teve-se contato com a triste
desorganização da documentação ocial sobre o setor. Luiz Gonzaga Godoi
Trigo e Mário Carlos Beni, em conversas separadas, foram categóricos ao
descrever a desorganização em que se encontra a documentação ocial sobre
os projetos governamentais para o turismo nas décadas de 1960 e 1970. O
Conselho Nacional de Turismo e a Embratur não possuíam periódicos que
expressassem suas decisões e recomendações para o setor. Os dois pesqui-
sadores armaram que o Centro de Documentação da Embratur foi doa-
do para a Universidade de Brasília e encontra-se jogado numa sala daquela
universidade, sem nenhuma organização. São caixas e caixas empilhadas a
esmo. Mesmo localizar em qual sala da UnB estas caixas estão depositadas já
demandaria esforço.
Sem dúvidas, o regime militar do período reetiu sobre o turismo e a
documentação sobre isto está desorganizada. Pode-se encontrar traços desta
reexão em alguns documentos ociais. Isto ajuda a contextualizar o ambien-
te universitário quando da proposta de criação do curso superior de Turismo.
Por exemplo, o 1º Plano Nacional de Desenvolvimento (PND) abordava o
assunto. O Plano Nacional de Desenvolvimento previa as ações governamen-
tais de então. O 1º PND projetava o que o Estado brasileiro pretendia para o
período de 1972-1974; coincidentemente, o mesmo período de surgimento
dos cursos superiores de Turismo no país. O PND é um plano de futuro;
isto não signica que as ações recomendadas fossem efetivamente implemen-
tadas. O PND serve para se conhecer o que o Estado brasileiro do período
desejava. O 1º PND menciona o tema do turismo:
Na implementação de políticas setoriais, será dado especial apoio ao incre-
mento do Turismo, tanto de correntes turísticas internacionais como de
nacionais, dotando-se as regiões propícias de condições favoráveis. (Brasil,
1971, p. 10)
Existem neste PND referências explícitas ao papel da universidade bra-
sileira. No entanto, não há menção sobre universidade e turismo, mas sobre
universidade e indústria. Como um dos objetivos almejados encontra-se “o de
18
integrar Indústria-Pesquisa-Universidade como núcleo fundamental de uma
estrutura nacional integrada de Educação/Ciência-Tecnologia/Empresa”.
(Brasil, 1971, p. 12)
Essa integração deverá ser impulsionada mediante:
Disseminação e consolidação dos centros de integração Universidade-
Indústria ou Escola-Empresa, para assegurar programas sistemáticos de
estágios de estudantes em empresas, para comunicar ao sistema universi-
tário as necessidades quantitativas e qualitativas do setor privado quanto à
formação de prossionais e para permitir a realização conjunta de projetos
de pesquisa.
Adoção, pelas instituições de pesquisa governamentais de programa sis-
temático de articulação com o setor produtivo nacional, principalmente
para disseminação do resultado de seus estudos.
Realização de convênios do Governo com as Universidades, para que pro-
cedam (isoladamente, ou em conjunto com entidades governamentais) a
estudos de desenvolvimento regional, ou a pesquisas aplicadas, de interes-
se do planejamento econômico e social. (Brasil, 1971, p. 16)
Existe no 1º PND claro esforço na defesa da necessidade de se educar
a mão-de-obra como fator de desenvolvimento. Entre vários trechos, para
exemplicar, pode-se citar:
Sabe-se que a maior complexidade do problema do emprego no Brasil
está, não na dimensão do desemprego aberto, cujo índice é reduzido, mas
na subutilização da mão-de-obra, frequentemente empregada em níveis
muito baixos de produtividade, ou operando apenas em tempo parcial.
[…] Outra forma de contrabalançar os subsídios ao uso de capital (re-
presentados pelos incentivos scais, por exemplo) é o treinamento de
mão-de-obra, mesmo no sentido indicado, de dar, nas áreas urbanas, um
mínimo de qualicação a cada indivíduo, para possibilitar sua absorção
numa sociedade urbana e industrializada. (Brasil, 1971, p. 17-19)
Este recorte do 1º PND que destaca turismo, universidade-empresa e
formação de mão-de-obra é arbitrário. Não se pretende armar que era uma
proposta do PND juntar estas três coisas. Busca-se apenas congurar que cur-
sos universitários novos que aprimorassem mão-de-obra num vínculo entre
19
universidade e empresas não contrariavam o que o Estado brasileiro desejava
no início da década de 1970. Cursos superiores de Turismo não contrariam a
indicação do PND da necessidade de “comunicar ao sistema universitário as
necessidades quantitativas e qualitativas do setor privado quanto à formação
de prossionais” (Brasil, 1971, p. 16).
O TURIS foi outro exemplo encontrado sobre o que o regime militar
pretendia com o turismo. Este projeto almejava, segundo as recomendações
do PND, desenvolver localidades consideradas de interesse turístico com o
objetivo de ocupação populacional de maneira racional. Para o período aqui
estudado, conseguiu-se localizar o TURIS de 1972, destinado aos litorais dos
Estados de São Paulo e Rio de Janeiro.1
Este TURIS é documento ocial útil, pois explicita alguns conceitos
do Estado brasileiro sobre o turismo. No que se refere às férias:
No que tange às férias, é preciso também compreendê-las como resposta
a necessidades existenciais básicas: a de uma pausa na rotina desperso-
nalizante do dia-a-dia, a de contatos interativos e a de intimidade com a
natureza ao vivo, o mar em particular.
Em países extremamente urbanizados, de que é produto e expressão a ins-
tituição da habitação coletiva, as férias traduzem uma necessidade física,
psicológica e social a um só tempo. As condições de vida cotidiana con-
duzem o homem de hoje a conitos e contradições interiores. Quem tira
férias parte em busca da natureza selvagem e do conforto material a que já
se acostumou. Multidão e isolamento, consciência do grupo e percepção
do outro, sensação de liberdade e segurança de uma atividade organizada.
Aqui nascem as inigualáveis e consequentes vantagens do retorno à natu-
reza e da ruptura com o redemoinho existencial urbano. Aqui, as origens
da notável expansão da habitação individual de veraneio. Aqui, nalmen-
te, as raízes da inspiração que criou vilarejos típicos de recreio e organizou
a construção de vilas pesqueiras. (Brasil, 1975, p. 17)
Sobre a clientela potencial de um empreendimento turístico analisado
por este projeto de desenvolvimento, arma-se:
1 Este TURIS foi generosamente cedido pelo Prof. Luiz Trigo, sendo que foi preservado por pertencer
à sua biblioteca.
20
A população mais interessada a considerar é constituída por jovens de
menos de 25 anos; de um lado, porque é mais numerosa, representando
atualmente cerca de 60% do total da população brasileira. De outro lado,
porque, nessa faixa, a demanda de serviços de natureza turística é mais
variada e suscetível de rápidas mudanças. É para essa clientela jovem que
se farão os maiores esforços, no Brasil, nos próximos dez ou quinze anos.
(Brasil, 1975, p. 33)
Projetava-se um país em crescimento onde a atividade turística teria
clientela potencial:
No decurso dos próximos 20 anos, os seguintes fatores simultâneos vão
permitir o desenvolvimento rápido do turismo nacional brasileiro, a partir
do conjunto celular Rio – São Paulo: o crescimento demográco, a uma
base anual superior a 4%; a elevação geral do nível de vida, com o acrésci-
mo de 3,4% a 5% nas rendas familiares anuais; o ritmo de urbanização; a
melhor distribuição das rendas e a estrutura demográca, particularmente
a constituída pelos menores de 30 anos. (Brasil, 1975, p. 37)
No ano de 1972, o TURIS estimava em 9% da população do eixo Rio
– São Paulo como clientes potenciais de produtos do setor turístico. Mas, em
vinte anos, com o crescimento do PIB e melhor distribuição de renda, esta
clientela chegaria a 27% destes dois estados:
A conjugação dos fatores: aumento geral do nível de vida e diminuição do
volume de rendimentos baixos permitiria o rápido incremento dos índices
de demanda turística, a partir de 1975. Em 1990, o índice de partidas no
eixo Rio – São Paulo poderá atingir 26 ou 27%, sendo, portanto, compa-
rável ao observado na Itália, nos anos 60, ou na França, em princípios dos
anos 50. (Brasil, 1975, p. 40)
Estas informações podem parecer pouco úteis aos propósitos deste li-
vro. Entretanto, servem de ilustração para se entender que o clima de um país
desenvolvido, como concebido no início da década de 1970, também passava
pelo planejamento da atividade turística. Geralmente, é na universidade que
se formam os planejadores.
21
O PND e o TURIS são apenas dois exemplos pontuais das possibilida-
des de pesquisa que enriqueceriam enormemente a contextualização histórica
do que ocorria no Brasil na década de 1970 envolvendo turismo e univer-
sidade. Esta pesquisa casada resultaria numa dissertação mais rica, onde os
temas educacionais não ganhariam autonomia demasiada em relação ao que
se pretendia para o setor de turismo de então. Infelizmente, a desorganização
documental e a escassez de outras pesquisas análogas impossibilitaram o de-
senvolvimento deste caminho.
Dada a carência de documentação ocial sobre as políticas públicas
para o setor de turismo, haveria a possibilidade de pesquisar os cadernos de
turismo que surgiram na grande imprensa na década de 1970 e, de lá, se ex-
trair informações sobre o papel do turismo na sociedade do período, mas isto
seria outra pesquisa de Mestrado e não esta que resultou neste livro.
Quando o caminho de pesquisar os documentos ociais sobre o turismo
buscando referências ao seu papel na universidade se mostrou impraticável,
foi de grande ajuda tomar contato com autores que escreveram sobre outras
áreas do ensino universitário. Refere-se aqui ao grande débito que esta pesquisa
tem para com Ivor Goodson (1990, 1995a, 1995b). Seus textos, principal-
mente Historia del curriculum: la construcción social de las disciplinas escolares
(Goodson, 1995b), foram de fundamental importância para este trabalho.
Num de seus artigos, citando Layton, Ivor Goodson apresenta um es-
quema em três estágios sobre o surgimento de novas disciplinas acadêmicas,
que pode também ser sugerido para novos cursos universitários:
O inexperiente intruso assegura um lugar no horário escolar, justican-
do sua presença com base em fatores tais como pertinência e utilidade.
Durante este estágio, os aprendizes são atraídos para a matéria por causa
de sua relação com questões de seu interesse. Os professores raramente são
especialistas treinados, mas trazem o entusiasmo missionário dos pionei-
ros à sua tarefa. O critério dominante é a relevância para as necessidades e
interesses dos aprendizes.
No segundo e intermediário estágio: uma tradição de trabalho acadêmi-
co na matéria está emergindo juntamente com um corpo de especialistas
treinados, do qual são recrutados os professores. Os estudantes são ainda
atraídos ao estudo, mas tanto por sua reputação e status acadêmico cres-
cente quanto por sua relevância em relação aos seus problemas e interesses.
22
A lógica interna e a disciplina da matéria estão se tornando crescentemen-
te inuentes sobre a seleção e a organização do seu conteúdo.
No estágio nal: os professores constituem um corpo prossional com
regras e valores estabelecidos. A seleção do conteúdo da matéria é deter-
minada em grande medida pelos julgamentos e práticas dos acadêmicos
especialistas que levam a pesquisa na área. Os estudantes são iniciados
numa tradição, suas atitudes aproximando-se da passividade e da resig-
nação, um prelúdio ao desencantamento. [...] Parece que, longe de serem
asserções intemporais de conteúdo intrinsecamente válido, as matérias e as
disciplinas estão em constante uxo. Portanto, o estudo e o conhecimento
em nossa sociedade deveria ir além de um processo a-histórico de análise
losóca, em direção a uma investigação histórica detalhada dos motivos
e das ações por trás da apresentação e da promoção das matérias e discipli-
nas. (Goodson, 1990, p. 235-236)
Buscou-se aplicar esta abordagem sobre o surgimento de novas disci-
plinas acadêmicas no que poderia ter ocorrido na Escola de Comunicações
e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) quando da criação do
primeiro curso universitário de Turismo. Os documentos da ECA sobre a
criação de seu curso de Turismo – primeiro numa universidade pública brasi-
leira – mostrariam algo semelhante à hipótese sugerida por Goodson no texto
citado acima? Novamente, deparou-se com problemas de ordem documen-
tal. A ECA constituiu sua congregação para discussão de assuntos internos
em 1975. Até este ano, o Conselho Universitário da USP exercia a função de
congregação daquela escola. A criação do curso de Turismo, no início daquela
década, portanto, não teve sua discussão registrada em atas da congregação.
Na pesquisa das atas do Conselho Universitário sobre o tema aqui tratado
encontra-se apenas a menção “amplamente debatido”, porém sem registrar
textualmente nem fragmentos das discussões. Os debates conceituais, epis-
temológicos e acadêmicos sobre a criação de um curso novo na ECA devem
ter sido registrados nas reuniões do Departamento de Relações Públicas e
Propaganda, onde este curso foi criado. Documentos da reitoria se referem
às reuniões deste departamento. Infelizmente, as atas das reuniões departa-
mentais de Relações Públicas e Propaganda do início da década de 1970
foram jogadas no lixo. Procurou-se por meses localizar tais atas. Após alguma
insistência, duas funcionárias com mais de trinta anos de serviço na ECA, em
23
conversas separadas, relataram que o destino destes documentos foi o lixo.
Duvidou-se deste procedimento e o Sistema de Arquivos da USP (SAUSP)
foi solicitado a ajudar na localização das atas de reuniões do Departamento
de Relações Públicas e Propaganda (posteriormente de Turismo também) dos
anos de 1972 e 1973. A resposta do SAUSP foi conrmatória ao atestar que
tais documentos não foram preservados, tendo destino desconhecido.2 Esta
pesquisa pode utilizar apenas os documentos encontrados na reitoria da USP.
No que concerne à ECA, tentou-se contornar a carência documental entre-
vistando-se os principais responsáveis pela criação do curso. Goodson foi a
referência implícita quando da formulação das questões destas entrevistas.
Outra forma de aproximação às questões desta pesquisa foi pelo tema
das discussões curriculares. O primeiro currículo ocial para cursos superiores
de Turismo precede o primeiro curso universitário de Turismo – o da ECA-
USP – mas é posterior ao início do primeiro curso da Faculdade de Turismo
do Morumbi, como será tratado posteriormente. Como isto foi possível?
Tratar o currículo como tema da história da educação não é inédito.
Foi necessário delimitar a abordagem adotada neste campo de estudos. Em
artigo sobre o assunto, Flavia Terigi constatou que os estudos curriculares
abrangiam cada vez mais áreas educacionais, perdendo, no entanto, seu foco
especíco de estudos. Os estudiosos do currículo analisavam não só os anti-
gos planos de estudo, ou seja, os documentos ociais nos quais se prescrevia
o que se devia ensinar, mas também o conjunto de processos que determina-
vam o que era efetivamente ensinado:
Como resultado, os analistas coincidem em descrever o campo em situação de
conito, no sentido de que se chegou a um estado no qual tudo que se passa
na instituição escolar e no sistema educativo é, de maneira indiferenciada,
currículo”. O efeito é paradoxal: a hipertroa do campo estaria levando-o,
segundo vários diagnósticos, à sua própria dissolução. (Teregi, 1996, p. 75)
2 A responsável pelo Sistema de Arquivos da USP (SAUSP) respondeu em forma de e-mail a
solicitação de auxílio na procura destas atas: “Sr. Macioniro Celeste Filho. Falei com a Profa.
Johanna Smit, Diretora do Departamento de Biblioteconomia da ECA e membro do Conselho
Técnico do SAUSP, a qual me informou que esgotou todos os caminhos de busca e recuperação dos
documentos mencionados em seu e-mail, não tendo sucesso. Não consegui falar com a Sra. Ivone
Arthur, que está em gozo de licença prêmio. À disposição para qualquer outro esclarecimento.
Eunice Ribeiro Borges SAUSP – Órgão Central – 13/12/2001”
24
A autora defende que uma análise histórica do currículo não pode op-
tar por uma denição única do conceito. Torna-se necessário que, em estudos
históricos, os conceitos surjam das fontes e dos processos pesquisados, dialo-
gando com estudos anteriores.
O historiador da educação que mais contribuiu neste estudo no que
concerne ao tema do currículo inserido conceitualmente na história, além de
Goodson, foi David Hamilton. Este autor critica o uso indiscriminado do
termo currículo para realidades históricas diferentes, defendendo ser neces-
sário esclarecer conceitualmente e historicamente o uso do termo: “os histo-
riadores fracassaram em discriminar cronologicamente onde os educadores
falharam em discriminar conceitualmente”. (Hamilton, 1992, p. 33-34)
Este autor estudou o surgimento simultâneo da classe escolar e do cur-
rículo, características da moderna forma escolar. Esta forma escolar está rela-
cionada com a difusão de novos pressupostos sobre a eciência da escolariza-
ção em particular e a eciência da sociedade em geral. A escolarização é vista
por David Hamilton como forma de reordenamento social num contexto de
maior mobilidade econômica.
Segundo o autor, em meados do século XVII cristaliza-se o uso do
termo currículo como referência ao curso inteiro de vários anos seguido por
cada estudante, não a qualquer unidade pedagógica mais curta. Surge neste
período a concepção de currículo, junto com classe, como ordenador da for-
ma escolar:
Nesta medida, “curriculum” parece ter conrmado a ideia – já reetida na
adoção de “classe” – de que os diferentes elementos de um curso educa-
cional deveriam ser tratados como uma peça única. Qualquer curso digno
do nome deveria corporicar tanto disciplina (um sentido de coerência
estrutural) quanto ordo (um sentido de sequência interna). Assim, falar
de um “curriculum” pós-Reforma é apontar para uma entidade educacio-
nal que exibe tanto globalidade estrutural quanto completude sequencial.
Um “curriculum” deveria não apenas ser “seguido”, deveria, também, ser
completado”. (Hamilton, 1992, p. 43, aspas e grifos do original)
Não se pretende, nesta obra, fazer a história do termo currículo desde
o início da modernidade até os dias de hoje. No entanto, cabe ressaltar que
alguns fatores que possibilitaram a escolarização dos processos educacionais
25
têm longa duração. Podem não ser os mesmos do século XVII, mas guardam
referência quanto ao caráter de coerência estrutural e sequência interna. Não
cabe aqui desqualicar as diversas possibilidades de conceituação de currículo
e seu uso em pesquisa educacional. Optou-se por buscar as transformações
pelas quais este conceito passou no Brasil na década de 1960.
Neste sentido, esta obra pretende iniciar as questões aqui tratadas
pelo último tema abordado nesta introdução: o surgimento do currículo de
Turismo. Para tanto, esta pesquisa apresentará alguns elementos básicos da
reforma universitária da década de 1960. Tais elementos contribuem para
compreender como surge o currículo inédito de Turismo para cursos supe-
riores. Em seguida, se vericará como a normatização de currículos é motivo
de disputa por competência administrativa em órgãos governamentais. Na
sequência, será apresentado o surgimento de cursos superiores de Turismo em
faculdades privadas. A Universidade de São Paulo é a primeira universidade
pública a criar esta carreira no ensino superior e dedica-se um capítulo a este
acontecimento. A procedência docente desta nova carreira universitária e suas
diferentes congurações curriculares também serão temas abordados.
27
O SURGIMENTO DE UM NOVO CURSO
UNIVERSITÁRIO E SEU CURRÍCULO:
O TURISMO
O estabelecimento do currículo mínimo para cursos superiores de
Turismo ocorre em 1971. Este currículo surge dois anos depois de sua criação
para cursos técnicos prossionalizantes de nível médio. É necessário, para os
propósitos deste trabalho, entender como é possível a criação de novos currí-
culos no período que compreende a década de 1960 e o início da década se-
guinte. Por que se criaram currículos e com quais nalidades? Para esclarecer
tais questões deve-se apresentar a atuação do Conselho Federal de Educação;
a discussão no âmbito deste conselho sobre temas curriculares; e como tal
discussão, no contexto mais amplo da reforma universitária, propiciou o sur-
gimento de novos currículos de cursos superiores como o de Turismo.
Como foi tratado anteriormente, deve-se contextualizar historicamen-
te a discussão sobre o currículo. A referência feita na introdução deste tra-
balho expôs como tal conceito foi apresentado em meados do século XVII.
Pretende-se aqui entender como currículo foi conceituado no Brasil nos anos
1960; como isto contribuiu para os debates educacionais de então.
O órgão público legítimo para o acompanhamento do processo histó-
rico de conceituação de currículo no campo educacional brasileiro dos anos
1960 é o Conselho Federal de Educação (CFE). O papel deste conselho no
debate educacional de então, sua estruturação e procedimentos funcionais
foram analisados em pesquisas distintas por Lucia Maria da Franca Rocha e
por Maria do Carmo Martins.
Em sua dissertação de mestrado, Lucia Maria da Franca Rocha sinteti-
za a estruturação do CFE:
28
A ideia da criação de um colegiado incumbido dos problemas atinentes
ao ensino é antiga. A concepção do Conselho Federal de Educação nos
moldes em que está estruturado, aparece no Projeto de Lei de Diretrizes
e Bases da Educação de 1948, elaborado por uma Comissão de Educação
de várias tendências, constituída pelo Ministro da Educação, Clemente
Mariani. Predominando, entre eles, a tendência descentralizadora da edu-
cação, aspecto que vinha sendo defendido desde 1930, principalmente
pela Associação Brasileira de Educação (ABE), seria indispensável a exis-
tência de um órgão central com missão unicadora para o sistema na-
cional de educação, no sentido de garantir a unidade fundamental do
ensino brasileiro. Este órgão seria o Conselho Federal de Educação, com
importante papel na esfera do ensino superior.
Criado com a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional − Lei 4024, de 12 de dezembro de 1961, de inspiração libera-
lista, sua importância e posição na superior administração da educação
estavam asseguradas.
Órgão de assessoramento do Ministro da Educação e Cultura, é o cole-
giado superior da educação, com função de natureza técnica, normativa
e decisória, cujo objetivo básico é orientar a política educacional do país,
com conteúdos expressos em lei.
O Conselho funciona em Plenário e em Câmaras, além das Comissões
que podem ser constituídas em caráter temporário ou permanente. Desde
a criação do Colegiado até os dias atuais [1984], tanto as Comissões quan-
to as Câmaras se modicaram não só pela ampliação das competências do
órgão como pela formulação de nova política educacional proposta pelo
Governo. Esta política preconizava que a autorização de funcionamento
de novos cursos superiores deveria atender às necessidades do mercado de
trabalho. Diante dessa nova orientação, coube à Câmara de Planejamento
a incumbência de elaborar as normas de expansão do ensino, levando
em consideração o que preceituava o diploma legal sobre o assunto, o
que acabou por não ser feito, parecendo ser mais uma reação do CFE
ao enfoque econômico da educação. A essa Câmara competia, também,
através da análise do critério de conveniência de criação de curso superior,
decidir sobre seu funcionamento, em razão da necessidade do mercado
de trabalho e da demanda social, traduzida nas aspirações dos indivíduos.
(Rocha, 1984, p. 37-38)
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), de 1961,
estabeleceu que o CFE seria constituído de 24 membros, nomeados pelo
29
Presidente da República, com mandatos de até seis anos, escolhidos pela sua
experiência em matéria de educação em seus diversos níveis e que representas-
sem as diversas regiões do país. A partir de 1969, o Ministério da Educação e
Cultura (MEC) e o Ministério do Planejamento asseguraram de maneira im-
positiva um representante de cada ministério no CFE. (Rocha, 1984, p. 45-46)
Para melhor compreender os documentos produzidos pelo CFE, tor-
na-se útil o acompanhamento de seus procedimentos burocráticos. Para tan-
to, é imprescindível consultar Maria do Carmo Martins (2000, p. 22-23,
grifos do original):
Os conselheiros manifestam-se basicamente através de Pareceres e Indicações.
Os Pareceres correspondem à forma como os conselheiros apresentam os
argumentos e os resultados dos estudos e das opiniões sobre as matérias
encaminhadas ao órgão e que são discutidas e sistematizadas nas Câmaras,
Comissões ou Plenário. As Indicações são as proposições apresentadas pelos
conselheiros para os assuntos sobre os quais as Comissões ou as Câmaras se
pronunciam e que devem então ser apreciadas pelo Plenário. Manifestavam-
se ainda por meio das Resoluções, de caráter mais objetivo, decorrentes dos
pareceres e que deveriam ser seguidos como normas pelos sistemas estaduais
de ensino. Há ainda os Estudos Especiais, textos quase sempre produzidos
por um conselheiro, sobre um assunto genérico que poderia resultar em
processos a serem deliberados pelo CFE. Nos Pareceres e Indicações aparecem
o nome e o voto do relator, seguido da decisão do Pleno, mas neles não
aparecem ementas ou discordâncias dos conselheiros, caso estas existissem.
São documentos para expressar a decisão da plenária.
Maria do Carmo Martins estudou o caráter do Conselho como órgão
colegiado e sua atuação no Estado brasileiro. Segundo a autora, que cita José
Silvério Baia Horta, os papéis do CFE eram de três naturezas distintas:
Técnica (representando um saber, o campo em que o grupo formador do
colegiado demonstra capacidade de diagnosticar e compreender proble-
mas, bem como solucionar de forma eciente tais situações); normativa
(que é o campo da formação de regras e normas – conforme o próprio
nome indica) para que outros envolvidos na questão comportem-se em
conformidade com o estatuído, o regulamentado e, em último caso, a Lei;
e por último, decisória, natureza esta que coloca o Conselho em um dos
30
mais altos patamares na hierarquia da administração pública, uma vez que
estabelece o poder de fato dos seus representantes. (Martins, 2000, p. 62,
grifos do original)
Após a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases para a Educação
Nacional de 1961, o Conselho Federal de Educação – órgão criado pela LDB
– se preocupou em esclarecer o que ele pressupunha como currículo. No
segundo número da revista Documenta, órgão ocial do Conselho Federal
de Educação, de abril de 1962, p. 111, o CFE propõe um inquérito jun-
to aos estabelecimentos de ensino superior do país sobre a conceituação de
currículo: “em primeiro lugar, é importante partimos de uma conceituação
precisa de currículo e currículo mínimo, de vez que é matéria sobre a qual
pairam dúvidas e controvérsias”. O conselheiro responsável por esta proposta
de inquérito, Newton Sucupira, combate qualquer vinculação entre o con-
ceito de currículo e o sistema de cátedras; infere-se que o conselheiro Clóvis
Salgado propusera tal relação. Pretende-se saber das diversas congregações de
ensino superior consultadas quais suas propostas de constituição dos currícu-
los mínimos, duração dos cursos e o currículo pleno, compreendendo este o
currículo mínimo e o complementar. No número seguinte da Documenta, de
maio de 1962, por não existir consenso, o Conselho expõe diversas interpre-
tações sobre o termo currículo. A citação é longa, mas essencial:
Ao Conselheiro Clóvis Salgado currículo pareceu “a relação das disciplinas
componentes do curso, distribuídas em cátedras, que poderão compreen-
der uma ou mais disciplinas”. Relator da matéria, o Conselheiro Newton
Sucupira propôs uma denição geral: “conjunto das matérias que formem
o conteúdo de um curso”, daí partindo para a caracterização de currículo
mínimo: “o núcleo mínimo necessário de matérias, abaixo do qual caria
comprometida uma adequada formação prossional” (Parecer n. 28, in
Documenta, n. 2, p. 50). Na circular enviada às universidades e estabe-
lecimentos superiores de ensino, a Presidência deste Conselho entendeu
estabelecer o assunto, inspirada no texto do citado parecer: “o conteúdo
do curso, conjunto de matérias e sua sistematização pedagógica”.
Mais de quatrocentas unidades de ensino trabalham, neste momento, pelo
Brasil em fora, na elaboração das respostas solicitadas. Quais os cursos que
mantém e os que deseja implantar? Qual, a seu ver, a constituição ideal de
currículo, tomada a palavra no sentido pleno, comportando duas partes:
31
o currículo mínimo e o currículo complementar? Essas e outras perguntas
constituem o grande inquérito nacional, em andamento. Ao Conselho
Federal de Educação já têm chegado, em caráter informal, os mais va-
riados pontos de vista, ainda não concretizados em respostas. Todavia,
denunciam a complexidade do problema e as variantes de opinião. Para
uns, o currículo mínimo será um currículo capaz de assegurar a formação
prossional adequada, podendo bastar-se para efeito de diplomação. Para
outros, será um currículo básico, admitindo a mais variada complementa-
ção, segundo a proposição de cada estabelecimento de ensino ou instituto
universitário. Para terceiros, será um núcleo fundamental de estudos para
a formação prossional, núcleo tomado num destes dois sentidos: ou de
ciências fundamentais, quase propedêutica, ou de conhecimentos prelimi-
nares, quase introdução, sob ângulo prossional e prático – acrescido de
quantas disciplinas a escola queira acrescentar. Ainda há os que admitem
o currículo mínimo como o primeiro degrau de formação prossional
numa escola, seguindo-se outros cursos de complementação progressiva.
Enm, existem os que, delimitando os objetivos de uma prossão segun-
do as exigências técnicas, não formulariam currículos com a indicação de
objetivos e planos de estudo a atender, na forma que cada escola viesse
a adotar. Em face de tão grande variedade de interpretação, o Conselho
Federal terá de encontrar a boa doutrina, estabelecendo os currículos mí-
nimos, como lhe determina a Lei de Diretrizes e Bases. Apenas expire
o prazo para recebimento de respostas, o que ocorrerá a 31 de maio, a
Secretaria-Geral iniciará o levantamento das sugestões, encaminhando o
resultado de seus trabalhos à alta consideração dos Senhores Conselheiros.
(Documenta, n. 3, maio 1962, p. 147-148)
A interpretação que o conselheiro Clóvis Salgado dá a currículo vin-
cula disciplina à forma de como ela deva ser ministrada, isto é, em cátedras.
O conselheiro Newton Sucupira não faz tal vinculação, sintetiza em con-
junto de matérias que formem o conteúdo de um curso. A presidência do
Conselho, além de conteúdo de um curso, acrescentou sistematização pe-
dagógica. Este debate é provocado pela necessidade explicitada pela recente
LDB de xar currículos mínimos de cursos que habilitem ao exercício de
prossões liberais regulamentadas. Não há questionamento na divisão curri-
cular entre currículos mínimos e currículos complementares. A LDB era vista
como sinônimo de reforma educacional, esta reforma estava alicerçada na
visão de que o Conselho Federal de Educação poderia servir de contraponto
32
à ação centralizadora do Ministério da Educação e Cultura. O CFE propõe
então a descentralização articulada. Não se pretendia defender o regionalis-
mo, mas articular as especicidades num projeto de nação. No âmbito do
currículo, a divisão entre currículo mínimo e complementar possibilitaria
esta descentralização articulada. O currículo mínimo, resultado de debates
no CFE, seria nacional. Especicidades regionais entrariam na parte com-
plementar dos currículos. Porém, não é o que se privilegia na citação acima.
Mesmo levando em consideração que se trata de debate que envolve carreiras
acadêmicas de prossões liberais regulamentadas, a divisão entre currículos
mínimos e complementares favorece demasiadamente que a discussão siga o
rumo de vincular a parte mínima do currículo como a parte destinada à for-
mação prossional do estudante; e a parte complementar como a que não o
prepara objetivamente para o mercado de trabalho. O enfoque sobre a função
prossionalizante do ensino superior já pode ser visto desde então. Segundo
o texto citado, o primeiro enfoque sobre o currículo mínimo é o que assegura
formação prossional adequada; o segundo ponto de vista sobre o currículo
mínimo o encara como currículo básico; o terceiro enfoque o vê como núcleo
fundamental de estudos para a formação prossional; a quarta posição carac-
teriza o currículo mínimo como o primeiro degrau de formação prossional
numa escola. Das quatro possibilidades de interpretação do currículo míni-
mo, três são consensuais sobre sua função de formação prossionalizante. Na
citação acima, o termo “formação prossional” aparece quatro vezes, além de
ângulo prossional e prático” e “objetivos de uma prossão segundo as exi-
gências técnicas”. Existe consenso sobre o currículo mínimo ser basicamen-
te prossionalizante. O currículo complementar seria “acrescido de quantas
disciplinas a escola queira acrescentar”. Mesmo as “ciências fundamentais
deveriam ser vistas “sob o ângulo prossional e prático” (Documenta, n. 3,
maio 1962, p. 147-148).
Este texto é útil também na constatação de como se pretendia che-
gar ao consenso conceitual. Num primeiro momento nota-se a divergência
entre conselheiros. A presidência chama a si a denição conceitual. Solicita-
se que as universidades e institutos de ensino superior se manifestem, com
prazo limite para tanto. Num contato preliminar constata-se divergência.
Esclarece-se que as sugestões serão encaminhadas à alta consideração dos
33
Senhores Conselheiros e que em face de tão grande variedade de interpreta-
ção, o Conselho Federal terá de encontrar a “boa doutrina”.
O Conselho abordou o tema curricular tanto para o ensino superior
quanto para o ensino médio. Em setembro de 1962, a revista Documenta
publicou nota sobre a reforma universitária, porém arma estar apreciando
as adaptações formais que as universidades remeteram ao Conselho, a refor-
ma universitária está em franca elaboração, portanto ainda não se pronuncia
sobre as adaptações curriculares da reforma universitária. No entanto, neste
mesmo número da Documenta encontra-se portaria do Ministro da Educação
que estabelece as normas para currículos técnicos de ensino médio. A por-
taria diferencia “cultura geral” de “cultura técnica” (Documenta, n. 7, set.
1962, p. 79). O ensino técnico é destinado para portadores de certicados
de conclusão do ensino médio regular, encarregado de ministrar a “cultura
geral”, portanto deve “ser organizado currículo especial visando a integral
utilização do tempo escolar no estudo das disciplinas especícas de cultura
técnica” (Documenta, n. 7, set. 1962, p. 79). Inclui-se o mundo do trabalho
como tempo escolar, pois o diploma do curso técnico está condicionado ao
exercício satisfatório da prossão, por período não inferior a um ano, com
assistência e orientação da escola” (Documenta, n. 7, set. 1962, p. 79). Este
ano de exercício satisfatório da prossão seria contado como o terceiro ano
letivo do curso técnico. A portaria, entretanto, prevê que, excepcionalmente,
este ano a ser trabalhado na nova prossão possa ser reduzido a estudos e
atividades escolares no próprio estabelecimento de ensino. Mesmo assim é
importante agrar a promiscuidade entre tempo escolar e tempo de traba-
lho. A forma escolar de ensino técnico nesta portaria incorpora tempos que
não pertenciam à escola, subordinando a conclusão curricular ao exercício
prossional. A portaria não estabelece o que seria “exercício satisfatório da
prossão”, nem os critérios para se aferir isto.3 Propositalmente não se se-
parou neste trabalho a discussão entre prossionalização no ensino superior
e no ensino médio, pois, como será visto mais adiante, cursos superiores de
Turismo surgem nesta tênue fronteira entre a prossionalização em cursos
3 Em 06/10/1967 será publicada no Diário Ocial da União a portaria n. 1.002 de 29/09/1967,
assinada por Jarbas Passarinho, sobre a regulamentação de estágios de alunos em empresas, na qual
isso será melhor denido.
34
técnicos de nível médio e o enfoque favorável ao ensino superior prioritaria-
mente prossionalizante.
Em outubro de 1962, a revista Documenta traz a unicação das normas
sobre currículo. O Conselho Federal de Educação estabelece que “o currículo
mínimo é o núcleo necessário de matérias abaixo do qual cará comprome-
tida uma adequada formação cultural e prossional” (Documenta, n. 8, out.
1962, p. 87). O currículo mínimo admite diversicação, contanto que, neste
caso, haja uma parte xa comum a todos os alunos. O currículo complemen-
tar é xado pelo estabelecimento escolar “conforme as suas possibilidades,
para atender a peculiaridades regionais, a diferenças individuais dos alunos e
à expansão e atualização dos conhecimentos” (Documenta, n. 8, out. 1962, p.
87). Os estabelecimentos de ensino podem agrupar as matérias constitutivas
do currículo em cadeiras ou departamentos.
No nal de 1967, pressionado pelo fenômeno dos excedentes – alunos
aprovados para o ingresso no ensino superior, mas sem vagas disponíveis em
número suciente nas universidades públicas – o CFE organiza a reforma
universitária. Os pressupostos da reforma universitária e da posterior reforma
do ensino ginasial e colegial estão na Indicação n. 48 de dezembro de 1967.
O CFE, ao defender um novo tipo de seleção para os estudos superio-
res, arma que:
Para tanto, como para outros propósitos que assinalaremos adiante, será
preciso mudar também a concepção do próprio ensino superior, a m de
ajustá-lo à mesma ideia de uma dinâmica terminalidade dos seus cursos.
Estes, no Brasil como em vários países, são ainda muito longos e compac-
tos para que possam ensejar as combinações exigidas pelas novas modali-
dades de habilitação, em número sempre crescente, e pelas características
muito diversicadas de um novo tipo de aluno que passou a circular pelos
corredores acadêmicos. […]
A solução é criar para eles – esses “não-intelectuais de inteligência prática”, a
que se refere Toynbee – um tipo de cursos menos ambiciosos. [...] Com isto,
passaríamos a dispor para as tarefas do nosso desenvolvimento, em uxo
constante, de prossionais não apenas formados em nível médio como em
nível superior, paralelamente ao 1º ciclo universitário, reforçando o quadro
dos que tenham estudos “longos” e liberando-os, assim, de tarefas em que as
suas potencialidades vem sendo claramente subutilizadas. […]
35
O importante é não descaracterizar a instituição universitária conver-
tendo-a em ensino de massa. Nem disso estamos cogitando, pois o que
imaginamos para tais cursos é, principalmente, um sistema de escolas ou
faculdades técnicas, ao estilo dos atuais estabelecimentos isolados e até,
dentro em pouco, em condições de tomar-lhes o lugar na medida em
que muitos deles se constituam em federações, associações, fundações ou
autarquias universitárias ou se integrem em universidades. (Documenta, n.
79, dez. 1967, p. 105-109)
Segundo o CFE:
Os cursos técnicos referidos nos itens anteriores serão ministrados:
Em faculdades técnicas, particularmente recomendáveis nos casos em
que, justicando-se embora a criação de um instituto de ensino superior,
não haja no meio condições para o desenvolvimento de cursos longos.
Em universidades e em estabelecimentos isolados que mantenham cursos
longos, possibilitando a utilização de recursos disponíveis que deverão ser
completados quando for apenas parcial essa capacidade ociosa.
No quadro de reorientação que se preconiza, competirá ao Conselho
Federal de Educação, secundado pelos órgãos técnicos do Ministério da
Educação e Cultura:
Promover o levantamento das modalidades de habilitação superior que
podem ser cultivadas em cursos técnicos paralelos ao 1º ciclo universi-
tário; xar o currículo mínimo e a duração de cada um dos cursos assim
determinados; baixar normas especiais para autorização e reconhecimento
de faculdades técnicas. (Documenta, n. 79, dez. 1967, p. 114)
Com tais medidas, o CFE pretende diminuir a pressão dos excedentes:
A atuação combinada do Conselho e do Ministério poderá ser escalonada
a curto e longo prazo. De imediato, entendemos que será possível, ao
menos em parte, aliviar a pressão dos candidatos a estudos superiores pela
instituição efetiva do 1º ciclo universitário conjugado a outros dispositi-
vos de absorção que, direta ou indiretamente, também resultem das me-
didas até aqui preconizadas. (Documenta, n. 79, dez. 1967, p. 111-112)
A reforma universitária se efetivou em 1968, em plena ditadura mili-
tar. O tema da reforma é anterior à ditadura, mas será implementada sob o
36
Estado autoritário. Esta reforma se implantará como uma reforma curricular.
Segundo Ana Waleska Mendonça (2000, p. 147), o debate anterior a 1964
pretendia propiciar uma reforma universitária consensual entre o magisté-
rio. Em 1968, a reforma se fez por atos legislativos a princípio permissivos
e depois coercitivos, que impuseram a reestruturação conforme os moldes
do CFE. Segundo esta autora, há um deslocamento no que tange à reexão
sobre a responsabilidade social e política desta reforma num projeto global
de desenvolvimento, passando-se agora a priorizar uma racionalidade admi-
nistrativa e econômica, num contexto marcadamente repressivo. A reforma
universitária implementada em 1968 interrompe a busca de consenso sobre
o conteúdo curricular. A reforma passa a ser tecnocrática, recongurando o
ensino superior por processos administrativos.
Maria do Carmo Martins destaca que o regime militar se utilizou, no
campo educacional, da estrutura institucional existente. No caso da reforma uni-
versitária, o Conselho Federal de Educação, criado pela LDB de 1961, anterior
portanto ao regime autoritário, foi instrumento das políticas do novo regime:
Quando os militares instauraram a ditadura no Brasil após o golpe de
1964, já encontraram portanto um sistema jurídico-administrativo con-
solidado no que se refere à educação. Esse sistema não se apresentava
como um problema para o governo militar. Tanto a Reforma Universitária
em 1968 (sobre a organização do ensino superior) quanto a Reforma do
Ensino de 1º e 2º graus, a partir de 1971, mantiveram essa estrutura uti-
lizando-se plenamente dela para alcançar seus objetivos. Sob este aspecto,
pode-se dizer que a reforma educacional da ditadura militar interferiu di-
reta e enormemente no cotidiano da educação escolar e em todo o sistema
de ensino, mas não pode ser vista como uma reformulação de todo o sis-
tema educacional, uma vez que manteve funcionando os órgãos públicos
desse setor, anteriores à reforma, e usufruiu, ao máximo, das prerrogativas
legais e jurídicas para tal setor. Nisso, o CFE passou a exercer papel prin-
cipal, uma vez que se tornou o órgão de maior capacidade executiva no
período. (Martins, 2000, p. 68)
O governo federal institui – através do Decreto n. 62.937, de 2 de ju-
lho de 1968 – o Grupo de Trabalho da Reforma Universitária (GTRU), que
dene como esta se efetivará. Faziam parte deste grupo: seu presidente, Tarso
37
Dutra, deputado federal pelo Rio Grande do Sul e Ministro da Educação;
Antonio Moreira Couceiro, professor da UFRJ e presidente do CNPq; Padre
Fernando Bastos D’Ávila, vice-reitor da PUC/RJ; João Lira Filho, reitor da
Universidade do Estado da Guanabara; João Paulo dos Reis Velloso, repre-
sentante do Ministro do Planejamento; Fernando Ribeiro do Val, represen-
tante do Ministro da Fazenda; Roque Spencer Maciel de Barros, catedrático
da USP; Newton Sucupira, membro do CFE; Valnir Chagas, membro do
CFE; Haroldo Leon Peres, deputado pelo Paraná, representando o Congresso
Nacional. Os estudantes Paulo Possas e José de Castro se recusaram a integrar
o grupo (Germano, 1993, p. 118).
Mesmo antes da formação do GTRU, o Conselho Federal de Educação
encaminha a reforma universitária pelo reexame curricular. Em junho de
1968 (o GTRU é formado em julho), a Documenta publica as “Normas para
reexame de currículos mínimos e duração de cursos superiores (Indicação nº
8/68)”. Trata-se do reexame dos currículos mínimos e duração dos cursos
superiores, bem como a criação de cursos técnicos paralelos ao primeiro ci-
clo universitário. As diversas carreiras acadêmicas passariam por reelaboração
curricular; paralelamente se propõe o estudo da criação de cursos técnicos.
Os currículos mínimos deveriam se caracterizar pela “sobriedade” e “exibi-
lidade”. Os conteúdos curriculares seriam “apresentados sob a forma de ma-
térias, e não de cadeiras ou disciplinas, com o sentido de matéria-prima a ser
retrabalhada em cada plano particular” (Documenta, n. 87, jun. 1968, p. 113.
O parecer 853/71, citado mais à frente, normatizará detalhadamente estes
conceitos). Ao menos uma das matérias deveria ser comum a todos os cursos
agrupados na mesma área de conhecimento. O currículo ainda continuaria
com a divisão em parte xa (currículo mínimo) e matérias preferenciais va-
riáveis (currículo complementar). Agora, o currículo complementar deve ser
escolhido em um número de matérias indicadas pelo Conselho Federal de
Educação. O estudo dos diversos currículos será executado por quatro comis-
sões que agrupam os cursos superiores por área de conhecimento.
1º Grupo: Cursos de Agrimensura, Ciências Atuariais, Engenharia (Civil,
de Minas, Mecânica, Naval, Química, Elétrica, Metalúrgica e Engenharia
de Operação), Estatística, Física (Licenciatura), Química Industrial.
2º Grupo: Agronomia, Ciências (Licenciatura de 1º ciclo), Ciências
38
Biológicas (Licenciatura), Educação Física e Técnica Desportiva,
Enfermagem (Geral, Obstétrica e de Saúde Pública), Farmácia, Fisioterapia
e Terapêutica Ocupacional, História Natural (Licenciatura), Medicina
Veterinária, Nutrição, Odontologia, Obstetrícia.
3º Grupo: Administração, Biblioteconomia, Ciências Contábeis,
Ciências Sociais (Licenciatura), Direito, Economia, Economia Doméstica
(Licenciatura), Estudos Sociais (Licenciatura de 1º ciclo), Filosoa
(Licenciatura), Geograa (Licenciatura), História (Licenciatura),
Jornalismo, Matérias pedagógicas da Licenciatura, Orientação Educacional,
Pedagogia (bacharelado e licenciatura), Psicologia (bacharelado, licenciatu-
ra, formação de psicólogos), Serviço Social e Relações Públicas.
4º Grupo: Arquitetura e Urbanismo, Desenho (Licenciatura), Letras
(licenciaturas completas e de 1º ciclo), Música (Canto, Composição e
Regência, Direção de Cena Lírica, Instrumento, licenciatura) e Museologia
(Documenta, n. 87, jun. 1968, p. 114).
Seguindo o que foi explicitado pela Indicação nº 48 de dezembro de
1967, este reexame dos currículos mínimos precede e prepara a Lei 5.540 de
28 de novembro de 1968 que efetivou a reforma do ensino superior. Em feve-
reiro de 1970, a Documenta traz as “Normas sobre a aplicação dos novos cur-
rículos mínimos” (Documenta, n. 111, fev. 1970, p. 180-181). Entretanto,
não comporta, conceitualmente ou na prática, nenhuma grande inovação
que já não tenha sido objeto de consideração da norma anterior (n. 8/68)
anteriormente abordada.
Em 12 de novembro de 1971, o Conselho Federal de Educação normatiza
detalhadamente sua “doutrina do currículo na lei”, trata-se do parecer 853/71.
Este parecer aborda como as matérias que constituíam o currículo poderiam ser
apresentadas: seriam atividades, áreas de estudos ou disciplinas; diferenciadas en-
tre si dependendo do grau de sistematização do conhecimento produzido. Em
sua tese de doutorado, Maria do Carmo Martins (2000, p. 101-108) faz ótima
síntese interpretativa deste parecer. Mirian Warde também escreveu estudo clássi-
co sobre este parecer, infelizmente ainda não publicado. O parecer 853/71 encer-
ra um ciclo de debates no Conselho Federal de Educação sobre sua conceituação
de currículo. Em 1962, o CFE faz consultas aos estabelecimentos superiores de
ensino sobre tal assunto; em 1971, decreta uma doutrina. Entre ambas as datas,
nota-se a mudança que uma ditadura provoca neste Conselho.
39
Não é objetivo deste livro acompanhar minuciosamente a história da
reforma universitária de ns da década de 1960, tema por demais atraente
e trabalhado por outros autores. Pretende-se apenas situar no âmbito desta
reforma educacional de ns da década de 1960 a possibilidade de surgimento
de novos currículos. A Indicação 48/67, de 15 de dezembro de 1967, arma
que o CFE deve xar o currículo mínimo das novas áreas técnicas que deseja
oferecer como habilitação do ensino superior. Não é provável que estivesse
completamente claro para o Conselho Federal de Educação como isto se pro-
cessaria. O Conselho atuava, frequentemente, sobre proposições concretas.
No nal da década de 1960, início da década de 1970, simultaneamen-
te à possibilidade de criação de cursos técnicos de nível superior, se processa
a reforma do ensino médio, que passa a fornecer obrigatoriamente formação
prossionalizante. É neste contexto da reforma universitária de 1968, ante-
rior à Lei 5.692 de 1971 de reforma do ensino médio, que é criado o currícu-
lo de Turismo. Inicialmente para um curso técnico prossionalizante de nível
médio em 1969 e como currículo mínimo para cursos de nível superior em
janeiro de 1971.
Em 1968, o Colégio Comercial São Judas Tadeu, sediado em São
Paulo, dirige-se ao Ministério da Educação e Cultura pretendendo insti-
tuir um curso Técnico em Turismo, de nível médio. O MEC encaminha ao
Conselho Federal de Educação esta solicitação devido à necessidade de ser
xado o currículo correspondente, “de vez que ainda não existe esse ramo
no sistema federal” (Documenta, n. 97, jan.-fev. de 1969, p. 72)4. O Colégio
São Judas Tadeu justica a utilidade do curso no requerimento e propõe o
seguinte currículo:
Português, Língua e Literatura Luso-Brasileira
História Social e Política do Brasil
Geograa
Matemática
Ciências Físicas e Biológicas
4 Buscou-se localizar no atual Conselho Nacional de Educação (CNE) o processo que deu origem ao
parecer sobre o currículo mínimo de Turismo para cursos de nível médio. O Secretário-Executivo
do CNE, Raimundo Miranda, informou que infelizmente este processo se perdeu quando da
mudança do antigo CFE do Rio de Janeiro para Brasília.
40
Inglês
Francês
História da Arte e da Ciência
Literatura Universal
Turismo Interno e Externo
Técnica de Turismo
Administração de Empresa
Museologia
Promoção do Turismo Nacional
Educação Moral e Cívica
Educação Física
Psicologia e Relações Humanas (Documenta, n. 97, jan.-fev. de 1969, p. 72).
O relator, Celso Kelly5, favorável à criação do curso de Técnico em
Turismo estabelece o currículo ligeiramente modicado.
O currículo deverá atender, no mínimo, as seguintes disciplinas:
Português e Literatura de Língua Portuguesa
Geograa, e, em especial, a Geograa do Brasil
História do Brasil
Matemática
Ciências
As artes no Brasil: Artes plásticas, Arquitetura, Teatro, Música e Cinema
Técnica de Turismo
Comunicação oral, escrita e visual
Relações Públicas
Completar-se-á o currículo com:
Educação Moral e Cívica
Educação Física
Inglês
Francês, Espanhol ou Italiano
Costumes brasileiros: indumentária, culinária, esportes, recreação e ou-
tros aspectos (Documenta, n. 97, jan.-fev. de 1969, p. 73).
5 Celso Kelly nasceu no Rio de Janeiro, onde lecionou Sociologia no Instituto de Educação; e
Português no curso de Jornalismo da Faculdade Nacional de Filosoa. Era também jornalista.
Em 1967, quando dos debates sobre a reforma universitária, além de Conselheiro do CFE, Celso
Kelly era diretor geral do Departamento Nacional de Educação. Em 1967, escreveu Política da
educação, publicado dois anos depois, onde expressa suas ideias sobre a reforma universitária. Veja
Vera Vergara Esteves (1999).
41
No currículo mínimo desaparece a obrigatoriedade das disciplinas
Turismo Interno e Externo, Promoção do Turismo Nacional e Administração
de Empresa. História da Arte e da Ciência ganha uma proposta mais minucio-
sa, incluindo arquitetura, teatro, música e cinema. Museologia é substituída
por Costumes brasileiros. No currículo aprovado nota-se a preocupação de que
este curso técnico possibilitasse a comunicação, provavelmente com turistas
estrangeiros. Portanto, a ênfase em uma área que não ganhara destaque na pro-
posta do Colégio São Judas Tadeu, e a inclusão das disciplinas de Comunicação
oral, escrita e visual e Relações Públicas. O relator arma que os idiomas estran-
geiros serão estudados como meios instrumentais de comunicação.
No voto de Celso Kelly está justicada sua aprovação da proposta de
criação do curso Técnico em Turismo:
Considero o turismo uma das modalidades mais úteis e necessárias do
ensino técnico em grau colegial, a ser implantada no Brasil, em virtude
das possibilidades que o país oferece, quer em suas cidades históricas, quer
em seus sítios naturais, quer em suas metrópoles, quer em suas praias, sem
falar dos aspectos culturais, como a arquitetura brasileira e a música popu-
lar, atrações internacionais, a carrearem correntes turísticas para o Brasil.
A grande lacuna reside na falta de elementos especializados, indispensáveis
às agências de turismo, aos grandes hotéis, aos museus, aos sítios históri-
cos, às estações de embarque e desembarque de passageiros, enm, a ins-
tituições e entidades que devem corresponder às curiosidades e interesse
dos turistas.
Em vários países do mundo, o turismo gura entre as três primeiras fon-
tes de receita, graças a planejamento, elementos materiais e humanos
(Documenta, n. 97, jan.-fev. de 1969, p. 73).
Este currículo de Turismo, primeiro da área no Brasil, foi aprovado
pela Câmara de Ensino Primário e Médio do Conselho Federal de Educação
em 3 de fevereiro de 1969.
Em ns de 1970, é debatida no Conselho Federal de Educação a ela-
boração do currículo mínimo para o curso superior de Turismo. A proposta
inicial foi redigida, não por coincidência, pelo conselheiro Celso Kelly, in-
tegrante do 1º Grupo da Comissão de Revisão de Currículos Mínimos do
Conselho Federal de Educação (vide indicação 8/68 citada anteriormente).
42
Desta vez seu parecer não foi aprovado. O curso originalmente proposto foi o
de Planejamento e Organização de Turismo, de nível superior, que formaria
planejadores de turismo – termos posteriormente alterados respectivamente
para Graduação em Turismo e Bacharéis em Turismo. O parecer de Celso Kelly,
quando de sua discussão, gerou extensa controvérsia no Plenário do Conselho:
As razões apresentadas pelo nobre Conselheiro para a xação do currículo
mínimo de cursos com esta nalidade foram unanimemente aprovadas
pela Comissão. Não obstante, o anteprojeto de Portaria Ministerial, in-
cluindo o elenco de disciplinas e a duração que representariam as exigên-
cias mínimas para o reconhecimento desses recursos foi objeto de extensa
controvérsia na Comissão e, posteriormente, no Plenário do Conselho
(Documenta, n. 122, jan. 1971, p. 119).
A proposta original de Celso Kelly não foi arquivada no Conselho
Federal de Educação.6 Ao contrário de outros cursos superiores examinados
no mesmo período, em que se encontra a justicativa das disciplinas escolhi-
das, no caso do currículo superior de Turismo, na tentativa de conciliação dos
vários pontos de vista dos conselheiros, as matérias, que podem comportar
mais de uma disciplina, não são justicadas. São apenas listadas:
Matérias
Sociologia
História do Brasil
Geograa do Brasil
História da Cultura
Estudos Brasileiros
Introdução à Administração
Noções de Direito
Técnica Publicitária
Planejamento e Organização do Turismo
6 Graças a contato estabelecido pela professora Mirian Warde, foi relatado pela professora da UnB,
Lucia Maria da Franca Rocha, que tais documentos se perderam. Seguindo recomendação do
professor Francisco Aparecido Cordão, entrou-se em contato com o Secretário Executivo do atual
Conselho Nacional de Educação, Raimundo Miranda, solicitando o processo que criou o parecer
em questão. A Secretaria Executiva do CNE não conseguiu localizar este processo, não sabendo
informar se foi preservado.
43
Estágio em entidades ociais e privadas de turismo e hotelaria
No ensino da matéria Geograa terá ênfase a Cartograa.
No estudo da matéria História da Cultura terá ênfase a Cultura Brasileira,
com especial referência às Artes.
A matéria Noções de Direito incluirá o Direito Constitucional, Direito
Fiscal Alfandegário, da Legislação Trabalhista, Estatuto Jurídico do
Estrangeiro e da Legislação Especíca do Turismo.
A duração mínima do curso será de 1.600 horas, as quais serão integrali-
zadas no mínimo em dois e no máximo em quatro anos.
O estágio a que se refere o item B (...) terá a duração mínima de quatro meses.(...)
Ao organizar o currículo pleno, a instituição responsável poderá desdobrar
as matérias do currículo mínimo e acrescentar disciplinas complementares
(Documenta, n. 122, jan. 1971, p. 120).
Comparativamente, o currículo de nível médio havia retirado
Administração de Empresa, que aparece novamente no currículo de nível supe-
rior. Neste último, destaca-se também a forte e detalhada presença de matérias
de direito em detrimento de disciplinas na área de comunicação. O currículo
mínimo de Turismo, de nível superior, foi aprovado em 28 de janeiro de 1971.
No Anexo III, ao nal do livro, consta a trajetória das diversas versões
curriculares que o Turismo teve, desde a segunda metade da década de 1960,
passando pelo que foi normatizado em São Paulo em 1971 no Conselho
Estadual de Educação, currículos de nível médio, até sua conguração curri-
cular na Universidade de São Paulo em meados da década de 1970.
Este capítulo teve por objetivo demonstrar como os debates no
Conselho Federal de Educação sobre a reforma universitária possibilitaram o
surgimento de novos currículos acadêmicos, no caso, o currículo de Turismo.
Em capítulo posterior será abordado como este novo currículo serviu de su-
porte para que empresários da educação criassem ou regularizassem novas
faculdades com o curso superior de Turismo.
45
COMPETÊNCIAS EDUCACIONAIS EM
TURISMO NO ESTADO DEO PAULO
Ao analisar o Conselho Estadual de Educação de Santa Catarina, Ione
Ribeiro Valle (1996) traz à tona aspectos do funcionamento destes órgãos
colegiados sob a ótica do Direito Administrativo, isto é, um conjunto harmô-
nico de princípios jurídicos regentes das atividades públicas, voltadas à con-
cretização dos ns almejados pelo Estado. Ao discorrer sobre como o CFE
encarava a descentralização articulada das funções dos conselhos estaduais, a
autora sistematiza a divisão formal ou burocrática das suas esferas de compe-
tência. Sob o ponto de vista do Direito Administrativo, a esfera de competên-
cia sobre os meios necessários para o funcionamento eciente das atividades
públicas caberia ao órgão burocrático mais apropriado à concretização dos
propósitos almejados pelo Estado. A autora não questiona em momento al-
gum que a educação seja esfera de competência dos conselhos de educação,
quer estaduais ou o federal. Entretanto, no caso do Estado de São Paulo, no
que se refere ao ensino de Turismo, houve conito de secretarias estaduais
na discussão das respectivas esferas de competência. De qual secretaria seria
a competência ao tratar de cursos de Turismo? Da Secretaria de Cultura,
Esportes e Turismo ou da Secretaria da Educação?
Está arquivada no Conselho Estadual de Educação de São Paulo (CEE-
SP) a proposta de decreto encaminhada ao Governo do Estado pela Secretaria
de Cultura, Esportes e Turismo, normatizando – sob sua esfera de competên-
cia – o ensino de Turismo em São Paulo.
A minuta do decreto proposto ao governador Roberto de Abreu Sodré
inicia com uma justicativa:
Na estruturação da indústria turística se nos agura da máxima e fundamen-
tal importância a existência de pessoal técnico, devidamente habilitado, quer
46
em relação àqueles que prestam serviços nas agências de viagens, empresas de
transporte turístico, como ainda o de pessoal empregado no ramo da hotelaria.
Cumpre, portanto, ao Poder Público estimular a criação de cursos de for-
mação prossional para turismo, acautelando-se, no entanto, no sentido
de evitar abusos ou a proliferação de cursos inidôneos e sem condições de
atingirem os objetivos pretendidos.
Com o presente Decreto pretende-se instituir na Secretaria de Cultura,
Esportes e Turismo, o registro dos cursos de formação prossional e do
pessoal que venham obter a necessária habilitação, possibilitando assim
o Poder Público o conhecimento da existência de escolas especializadas
como também de pessoal apto a atender a crescente demanda dos compo-
nentes da indústria turística (Processo CEE-SP 55/71, p. 4).7
Esta proposta de decreto enviada pelo Secretário de Cultura, Esportes
e Turismo, Paulo Marcondes Pestana, em 17 de agosto de 1970, tinha por
motivo propor a revogação dos Decretos 44.864, de 28/05/1965 e o 47.407,
de 19/12/1966 sobre a validade de diplomas de cursos de Turismo ministra-
dos pelo Senac. Segundo o Secretário, estes decretos eram “complexos” pois
auferiam à Secretaria de Turismo competência sobre algo que deveria ser da
esfera da Secretaria de Educação:
Em relação ao Decreto nº 47.707, acima mencionado, que dispõe sobre
o reconhecimento ocial por parte do Governo do Estado de São Paulo,
de diplomas expedidos por cursos de turismo, se nos agura o mesmo
extremamente complexo, com atribuições conferidas a esta Secretaria e
que, a rigor, seriam da esfera de competência da Secretaria da Educação
(Processo CEE-SP 55/71, p. 4).
O Secretário de Cultura, Esportes e Turismo chama a si temporaria-
mente a competência de formular as exigências mínimas para a instalação de
cursos de Turismo:
O que seria objeto de Resolução a ser baixada pela Secretaria de Cultura,
7 Processo CEE-SP 55/71, p. 4. Este processo é composto por uma minuta de proposta de decreto
por parte do governo estadual precedida de sua justicativa de propósitos aqui citada. No processo
existem também os diversos pareceres sobre esta proposta de decreto e a posição do Conselho
Estadual de Educação de São Paulo.
47
Esportes e Turismo, até que a Secretaria da Educação tivesse condições de,
através de seus órgãos competentes, xar os currículos escolares de cada
curso, estabelecer os critérios de inspeção escolar dos estabelecimentos de
ensino, enm, assumir todos os encargos de suas atribuições especícas
(Processo CEE-SP 55/71, p. 6).
No entanto, no decreto proposto, não há nenhuma dúvida sobre a
qual secretaria caberia a esfera de competência dos cursos de Turismo. Não
há qualquer menção sobre a Secretaria da Educação e sua futura competência:
Artigo 1º - Fica instituído na Secretaria de Cultura, Esportes e Turismo o
Registro de prossionais e cursos de formação para o turismo, para os ns
previstos no presente Decreto.
Artigo 2º - Os estabelecimentos de ensino, ociais ou reconhecidos pelos
poderes competentes, federal ou estadual, que ministrem cursos de for-
mação prossional para o turismo, deverão requerer seu registro junto à
Secretaria de Cultura, Esportes e Turismo. […]
Artigo 6º - O Secretário de Cultura, Esportes e Turismo, no prazo de 30
(trinta) dias, baixará Resolução, contendo as exigências mínimas para os
cursos a que se refere o presente Decreto (Processo CEE-SP 55/71, p. 6-7).
Resumidamente, o Secretário de Cultura, Esportes e Turismo sugere
ao Governador que por decreto especique a sua secretaria como a esfera
de competência sobre cursos de Turismo. O artigo 6º do decreto proposto é
muito claro: a Secretaria de Cultura, Esportes e Turismo, por resolução, nor-
matizaria estes cursos. Não há nenhuma referência ao Conselho Estadual de
Educação ou à Secretaria da Educação.
A proposta deste decreto tem por argumento desfazer a confusão de
competências devido aos cursos prossionalizantes do Senac. Pesquisando
esta instituição de ensino, deparou-se com o seu Projeto Memória Institucional
da Gerência de Comunicação. Um texto do Projeto Memória esclarece o início
dos cursos de Turismo do Senac:
Na área de Turismo, as primeiras referências, dentro do Senac-SP, da-
tam de 1964. Naquele ano houve a realização do Seminário de Guias de
Turismo, visando incentivar universitários a trabalhar nas férias escolares
como guias em excursões pelo Brasil e Paraguai, programadas pelo Centro
48
de Turismo para Estudantes – CETE, cuja diretoria era composta de jor-
nalistas, professores, industriais, comerciantes e comerciários.
Em 1965, o Senac-SP implantou o curso Guia de Turismo e, para os
habilitados nessa formação, estruturou-se o curso Roteiros Turísticos, que
culminou, em 1969, com a implantação do curso Técnico em Turismo
(Senac, 1989, p. 5).
O curso de Guia de Turismo de 1965 exigia a escolaridade de ginasial
completo. Tinha carga horária de 180 horas, cumpridas em quatro meses.
Seu currículo era composto pelas seguintes disciplinas:
Relações Humanas
Prevenção de Acidentes e Primeiros Socorros
Geograa e História Turística
Folclore, Tradição e Costumes
Noções de Arte e Estética
Excursões (Senac, 1989, p. 6).
O curso de Técnico em Turismo de 1969 exigia a escolaridade de cole-
gial completo. Seu currículo era composto pelas seguintes disciplinas:
Teoria e Técnica de Turismo
Pesquisa Turística
Geograa Turística
Legislação Turística
Relações Públicas Aplicadas
História (Arte, Folclore e Literatura) (Senac, 1989, p. 6).
Comparando-se o currículo de Técnico em Turismo do Senac de 1969
com o estabelecido pelo Conselho Federal de Educação no mesmo ano têm-
-se claras diferenças. Provavelmente não por este motivo especíco, mas coin-
cidentemente no ano de 1969, o Conselho Federal de Educação se manifesta
sobre esta relativa autonomia do Senac frente aos conselhos de educação. Tem
por título O Senac em face da LDB. O texto, depois de explicar sua longa
tramitação, conclui que:
1 – Os cursos de aprendizagem administrados pelo Senac serão submetidos
49
aos Conselhos Estaduais de Educação; os administrados nos Territórios ao
Conselho Federal de Educação.
2 – O Senac deverá prestar contas ao Tribunal de Contas da União.
3 – Os estabelecimentos de nível médio existentes até dezembro de 1966
podem vincular-se ao sistema federal de ensino (Documenta, nº 99, março
de 1969, p. 114).
Se o Secretário de Cultura, Esportes e Turismo de São Paulo usava o
Senac como biombo para justicar sua esfera de competência sobre os cursos
de Turismo, o Conselho Federal de Educação, no texto acima citado, não dei-
xa dúvidas: o Senac deve prestar contas aos conselhos estaduais de educação.
Ao receber a minuta do decreto proposto, o Chefe da Casa Civil
do Governo, Carlos Eduardo de Camargo Aranha, solicita parecer do
Procurador do Estado e Assistente Jurídico, Benito Juarez Joele. Este parecer,
de 20/08/1970, discorda do decreto proposto:
O Senhor Secretário do Turismo observa que a competência para o reco-
nhecimento dos cursos, pela complexidade do assunto, melhor se situaria
na área da Secretaria da Educação.
Todavia, o próprio expediente de decreto, no artigo 6º, estabelece que a
Secretaria de Turismo deverá expedir Resolução contando exigências mí-
nimas para os cursos em tema.
Portanto, parece que, se transferidos para a Pasta da Educação os encargos e
se as normas a serem expedidas pela Secretaria do Turismo não forem satisfa-
tórias, poderá surgir um impasse a respeito (Processo CEE-SP 55/71, p. 11).
O decreto propunha também que os diplomados nos cursos registrados
na Secretaria de Cultura, Esportes e Turismo teriam preferência na admissão
ao serviço público do Estado para as funções em que estivessem qualicados.
O Procurador, ao analisar esta parte, arma que o decreto é inconstitucional,
pois legislar sobre direito do trabalho é da competência privativa da União. O
Procurador sugere que se consultem as Secretarias do Trabalho e da Educação
sobre esta proposta de decreto.
O Governador Roberto Costa de Abreu Sodré acata a sugestão do
Procurador e solicita em 25/08/1970 urgência, prazo de vinte dias, para o
retorno do projeto. A Secretaria do Trabalho diz que não tem nada com o
50
assunto, que os cursos de Turismo do Senac “pertencem à área da Secretaria
da Educação” (Processo CEE-SP 55/71, p. 36). A Secretaria da Educação en-
via o projeto de decreto ao Conselho Estadual de Educação. Em 1/02/1971,
o relator Pérsio Furquim Rebouças, da Comissão de Legislação e Normas do
CEE-SP, arma que o decreto fere a LDB:
No concernente à exigência de registro (na Secretaria da Cultura, Esportes
e Turismo) dos estabelecimentos de ensino, ociais ou reconhecidos, que
ministrem cursos de formação prossional para o turismo, assim como no
concernente à xação de competência para a determinação das exigências
mínimas para os cursos, a proposição contraria, ao que me parece, o pre-
ceituado na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. […]
No território do Estado de São Paulo, a matéria executiva da educa-
ção compete à Secretaria da Educação, e, a normativa, a este Conselho
Estadual de Educação. […]
Nessas condições, por muito louvável, que sem dúvida é, a proposição
do Senhor Secretário da Cultura, Esportes e Turismo não pode, ao que
me parece, merecer a aprovação deste Conselho Estadual de Educação
(Processo CEE-SP 55/71, p. 45-46).
O parecer do Conselho Estadual de Educação foi publicado no Diário
Ocial em 3 de março de 1971, sepultando as pretensões da Secretaria de
Cultura, Esportes e Turismo de trazer para a sua esfera de competência a nor-
matização de cursos de Turismo. Existe a hipótese de ter sido uma disputa de
poder cujo alvo era determinar sob qual esfera de competência estava o Senac.
Doze dias depois da publicação do parecer do CEE-SP acima citado,
em 15 de março de 1971, o CEE-SP emite a deliberação 12/71 que “dispõe
sobre a instituição, no Sistema Estadual de Ensino, do Curso Técnico de
Turismo”. Baseando suas atribuições na LDB, o CEE-SP delibera:
Artigo 1º - Fica instituído, no Sistema de Ensino do Estado de São Paulo,
o Curso Técnico de Turismo, ciclo colegial, com a duração de três anos
letivos, no mínimo.
Artigo 2º - As disciplinas do ciclo colegial secundário que integrarão, obri-
gatoriamente, o currículo do Curso Técnico de Turismo, são as seguintes:
1 – Português - três séries
2 – Matemática - duas séries
51
3 – Geograa - uma série
4 – História - uma série
5 – Ciências Físicas e Biológicas - uma série
§ 1º - Educação Moral e Cívica é considerada disciplina obrigatória, com
a duração e programa previstos na forma da lei.
§ 2º - Além das disciplinas indicadas neste artigo, os estabelecimentos
deverão acrescentar mais uma ao currículo, escolhida dentre aquelas rela-
cionadas nos Artigos 6º e 7º e parágrafos da Deliberação CEE nº 36/68.
Artigo 3º - São disciplinas especícas obrigatórias do Curso Técnico de
Turismo:
1 – Língua Estrangeira (duas) - três séries
2 – Aspectos do Desenvolvimento Brasileiro - duas séries
3 – História das Artes e Artes no Brasil (Artes
Plásticas, Arquitetura, Teatro, Música e Cinema) - duas séries
4 – Folclore - duas séries
5 – Técnica de Turismob - duas séries
6 – Comunicação Social - uma série
7 – Legislação Aplicada - uma série
8 – Roteiros Turísticos - uma série
9 – Relações Humanas - uma série
Parágrafo único – Além das disciplinas especícas referidas nesse artigo, os
estabelecimentos poderão incluir mais duas, de sua livre escolha.
Artigo 4º - A Coordenadoria do Ensino Técnico promoverá estudos visando
à orientação e programas das disciplinas especícas relacionadas no artigo
3º, desta Deliberação, respeitado o disposto nos artigos 40 e 43, da LDB.
Artigo 5º - Educação Moral e Cívica e Educação Física, nos termos da
lei, são consideradas Práticas Educativas obrigatórias, sendo facultado aos
estabelecimentos incluir mais uma, de sua livre escolha.
Artigo 6º - Aos concluintes do curso instituído por esta Deliberação será
expedido diploma de Técnico de Turismo.
Artigo 7º - Aplicar-se-á ao Curso Técnico de Turismo, quanto ao regime
escolar, o dispositivo na Deliberação CEE nº 7/63; quanto às instalações
os dispositivos das Deliberações CEE nº 16/64 e 23/65; no que se refere
à scalização as normas baixadas pela Coordenadoria do Ensino Técnico.
Artigo 8º - Os pedidos de autorização de instalação e funcionamento do
Curso Técnico de Turismo para 1971, em caráter excepcional, poderão ser
apresentadas até trinta (30) dias após a homologação desta Deliberação e,
a partir de 1972, na conformidade do disposto pela deliberação CEE nº
23/65 (Deliberação CEE-SP 12/71, de 15/03/1971).
52
Comparando-se este currículo para cursos técnicos de nível médio com
o aprovado dois meses antes pelo CFE para cursos superiores de Turismo,
pode-se cogitar que a elaboração curricular de um curso de nível médio seria
tão árdua quanto a preparação de um curso superior de Turismo.
53
O CONSELHO FEDERAL DE EDUCAÇÃO
E A CRIAÇÃO DE CURSOS SUPERIORES
DE TURISMO
O Conselho Federal de Educação, em ns dos anos 1960 e início da
década de 1970, teve papel signicativo na expansão do ensino superior e no
surgimento de faculdades isoladas privadas. Tais estabelecimentos particula-
res, criados por empresários da educação com a autorização do CFE, diver-
sicaram o campo acadêmico de então, inclusive com a criação de cursos de
Turismo. Será apresentado aqui o papel do Conselho Federal de Educação
no processo que possibilitou a criação de faculdades particulares de Turismo.
Em capítulo anterior, Maria do Carmo Martins e Lucia Maria da
Franca Rocha mereceram longas citações por se preocuparem, em suas
análises, em entender o processo das reformas educacionais por dentro do
Conselho Federal de Educação. Frequentemente, teses que abordaram a re-
forma universitária não se dedicaram a esta perspectiva de compreensão. Sem
desqualicar outras possíveis abordagens, pretende-se apenas apontar qual o
caminho mais frutífero para o atual estudo. A proposta aqui trilhada se preo-
cupará com o papel do CFE na criação de cursos de Turismo.
Obviamente, o Conselho Federal de Educação não pairava no ar quando da
reforma universitária. Lucia Maria da Franca Rocha, citando Vanilda Paiva, apre-
senta o contexto da década de 1960, quando o CFE empreendeu esta reforma:
A partir de 1960, assistiu-se a um grande crescimento do ensino secun-
dário público, aumentando a demanda potencial de ingresso no ensino
superior. Um fator que contribuiu para esse aumento foi a equivalência
dos cursos técnicos secundários ao curso colegial propedêutico à universi-
dade, não somente pelos egressos daqueles cursos nos anos corresponden-
tes, mas também de egressos em anos anteriores. Um maior contingente
54
de alunos, bate à porta do ensino superior. Os exames vestibulares, da
forma como existiam, mostravam-se inecientes em sua função conte-
nedora, possibilitando uma aprovação de candidatos maior que a capa-
cidade do sistema. Este fato gerou insatisfação por um crescente número
de candidatos “aprovados sem vagas”, os “excedentes” que, reivindicando
mais vagas”, “mais verbas” para o ensino superior, gerou a famosa crise
estudantil. Esta veio ao longo do tempo se agravando, sendo necessário
que o governo tomasse uma série de medidas para resolver o problema que
vinha “perturbando a ordem social”. A criação de um Grupo de Trabalho
para estudar a reformulação da universidade brasileira foi a principal me-
dida. A educação era o principal investimento e o ensino superior de-
veria ser ministrado em universidades e, excepcionalmente, em escolas
isoladas. Estimulou-se a criação de instituições universitárias ou escolas
isoladas, bem como o surgimento de cursos de curta duração para atender
a demanda dos alunos provenientes da baixa classe média, que, em con-
sequência da expansão da rede pública de ensino secundário, bateram às
portas do ensino superior (Rocha, 1984, p. 59-60).
A autora, ao tratar do CFE e suas autorizações de abertura de cursos por
empresários da educação antes da Lei 5.540/68, apresenta nuanças na atua-
ção do CFE. Para Lucia Maria da Franca Rocha, o divisor d’águas ocorreu em
1967. Até meados deste ano, o CFE examinava a aprovação de novos cursos
superiores em faculdades isoladas levando em consideração os requisitos de
demanda social ou de necessidades do mercado de trabalho. Eram exigências
talvez apenas formais, mas existiam. É no segundo semestre de 1967 que a
autora realça o ponto de não-retorno. Ao questionar a negação de autorização
por parte da Câmara de Planejamento do CFE para o funcionamento de uma
faculdade de losoa em São Paulo, com os argumentos de saturação da área,
isto é, de que não existiria nem demanda social nem mercado de trabalho,
um conselheiro defende a livre iniciativa particular no ensino superior:
Dispondo a Constituição que o ensino é livre à iniciativa particular, a
autorização pode ser negada se a entidade particular solicitante satiszer
plenamente todos os requisitos legais, mesmo quando pareça ao órgão
competente que a área já está saturada no ramo de ensino solicitado?
A presença de uma boa escola particular, ainda nas áreas já saturadas,
é sempre um fator positivo de renovação e melhoramento do ensino;
55
(...) e, levando em conta a tendência atual do povo para se acomodar ao
paternalismo”, em relação ao que é feito pelo Poder Público, a Escola
Particular, quando boa, é um meio bem adequado para torná-la cada vez
mais comunitária (Documenta, n. 75, ago.-set. 1967, p. 23).
Esta proposição é aceita e o Conselho conclui que:
Se a entidade particular que requer autorização para funcionamento do
curso satisfaz plenamente todos os requisitos legais, não pode o órgão
competente recusá-la, mesmo quando lhe pareça que a área já está satura-
da no ramo de ensino solicitado. Se o zer, correrá o risco de ver restabe-
lecida pela via judiciária a liberdade da iniciativa particular (Documenta,
n. 75, ago.-set. 1967, p. 27).
A autora conclui que, a partir de então, o preenchimento de aspectos
meramente legais, como a capacidade patrimonial e nanceira da mantene-
dora, edifícios e instalações, equipamentos e corpo docente seriam sucientes
para a aprovação de novo curso superior em faculdade isolada.
Lucia Maria da Franca Rocha reforça a ideia proposta anteriormente
neste trabalho de que havia um consenso sobre o papel prossionalizante do
ensino superior no CFE e no GTRU. A autora aborda o período crítico da
reforma universitária de 1968 tratando deste tema:
Quando, em 1968, o Grupo de Trabalho da Reforma Universitária enten-
deu que a educação superior precisou atender, principalmente, aos requi-
sitos do desenvolvimento econômico, preparando mão-de-obra qualica-
da para o mercado de trabalho, a ampliação da oferta de curso superior
em princípio, teria que levar em conta tal exigência (Rocha, 1984, p. 63).
Lucia Maria da Franca Rocha deixa claro que a argumentação defenden-
do a abertura de novos cursos sob a justicativa de demanda social é falaciosa:
Além da explicação do crescimento do ensino superior pelo lado da de-
manda, é preciso também considerar que diferentes setores da classe média
exerceram pressão sobre este nível de ensino, condicionando sua expan-
são. Um deles é o empresário da educação. Na medida em que o Estado
se retraiu na oferta do ensino de terceiro grau, cedendo lugar à iniciativa
56
privada, que irá atender seus interesses. No nal da década de 60, com
expansão da escola pública secundária, os “donos de escola” que inves-
tiam nesse nível de ensino tiveram grandes perdas, vez que os estudantes
passaram a ser atraídos pelo ensino público gratuito. Com a expansão do
ensino superior teriam oportunidade de recuperar suas perdas. Sendo sua
meta principal o lucro, o negócio educacional tornou-se promissor pela
existência de demanda que lhe assegura lucratividade. Instalar uma escola
superior é empreendimento que não vai, do ponto de vista do empresário
do ensino, requerer grande soma de capital (Rocha, 1984, p. 61).
Mesmo quanto à demanda existente, a autora questiona quanto desta de-
manda faz parte do mercado ou é induzida pelos próprios empresários da educação:
A liberdade da iniciativa privada não se subordina aos interesses dos indiví-
duos. Em princípio, caberia a estes orientar a oferta do sistema para que pu-
dessem receber o tipo de educação aspirada. O que se constata, na realidade,
é que a iniciativa privada orienta a oferta, decidindo o tipo de curso que
quer ministrar atendendo, muitas vezes, aos seus interesses e aos indivíduos,
resta apenas realizar a educação que lhes é oferecida (Rocha, 1984, p. 43).
No segundo semestre de 1968, o Grupo de Trabalho da Reforma
Universitária conclui seus trabalhos, ensejando a Lei 5.540 de 28 de novem-
bro do mesmo ano. Sob esta lei, seriam autorizados novos cursos superiores
de prossões não regulamentadas ou mesmo de currículos mínimos ainda
não estabelecidos pelo Conselho Federal de Educação. Este Conselho ca à
disposição de normatizar sobre iniciativas de empresários da educação.
A lei da Reforma Universitária previu que, além dos cursos correspon-
dentes às prossões reguladas em lei, as instituições poderiam organizar
outros para atender às exigências de sua programação especíca, bem
como às peculiaridades do mercado de trabalho. O ensino superior pas-
saria a oferecer: a) cursos de graduação, com currículo mínimo xado
pelo Conselho Federal de Educação; b) cursos de graduação sem currículo
mínimo xado, visando atender a programação especíca da universidade
ou às necessidades do mercado de trabalho (Rocha, 1984, p. 83).
57
É nesse contexto de possibilidade de criação de cursos de graduação
sem currículo mínimo xado, visando atender às necessidades do mercado de
trabalho, que a Faculdade Morumbi, atual Universidade Anhembi Morumbi,
cria seu curso superior de Turismo em 1970, sendo que o estabelecimento do
currículo mínimo para cursos superiores de Turismo é de 1971, conforme
visto anteriormente.
Maria Genny Caturegly (1990) analisou em seu mestrado O ensino de
Turismo e os agentes de viagens: as realidades de Madrid, Roma e São Paulo. Neste
estudo comparativo, a autora destaca a originalidade da criação de cursos su-
periores de Turismo no Brasil já em 1970. Segundo Maria Genny Caturegly,
os países por ela estudados, na década de 1970, só possuíam cursos de turismo
como técnicos prossionalizantes de nível médio. A autora buscou esclarecer os
motivos do surgimento de um curso pioneiro como este, entrevistando o res-
ponsável pela criação do primeiro curso de Turismo no Brasil, o da Faculdade
Morumbi, Prof. Gabriel Mário Rodrigues. Segue a transcrição da parte inicial
da entrevista, onde é abordado o surgimento do curso:
Prof. Gabriel Mário Rodrigues: Em 1970, houve uma abertura para os
cursos superiores no Brasil. As universidades públicas não conseguiam
atender a demanda; havia um número muito grande de alunos exceden-
tes e devido à política governamental da época, do então Ministro da
Educação e atual Senador Jarbas Passarinho, foi possibilitada, através do
Conselho Federal, a abertura de cursos universitários, a m de atender
essa demanda. Tudo começou em 1968. Naquela época, eu estava indire-
tamente ligado à área do ensino. Havia sido professor primário e depois de
ginásio e dava assessoria ao Colégio Pio XII onde minhas lhas estudavam.
Percebi, então, a possibilidade de iniciar atividades no ensino superior
como uma oportunidade que se abria. Sou arquiteto, e minha ideia era de
abrir um curso de arquitetura. Juntamente com alguns amigos procura-
mos um prédio e formalizamos o pedido de abertura ao Conselho Federal
de Educação. Já era 1970. O prédio estava sendo construído e o alugamos
a partir de 1971. No nal de 1970, conversamos com a Irmã Hilda, do
Colégio Pio XII, ela indagou por que não abríamos um curso técnico de
turismo. Enquanto montávamos o processo do curso de arquitetura, ze-
mos uma pesquisa para vericar o interesse que um curso técnico de tu-
rismo despertaria. O resultado foi o de que havia um enorme contingente
de interessados, mas todos já haviam terminado o curso colegial. Havia,
58
também, a explosão de cursos novos, as mulheres estavam voltando aos
bancos universitários, após terem criado os lhos, etc. Foi neste momento
que tivemos a ideia de um curso superior de turismo, após perceber que
o público tinha interesse nesse nível. Na ocasião, o jornal O Estado de São
Paulo tinha um suplemento de turismo do qual a responsável havia sido
minha professora no jardim da infância. Mais por ligação sentimental,
procurei-a e ela achou a ideia interessante, indicando o Prof. Domingo
Hernandez Peña, que era um prossional da área de turismo, oriundo
das Ilhas Canárias, pessoa muito íntegra e muito envolvida com turismo.
Aliás, ele sempre armava que o “Brasil seria um dia uma potência turísti-
ca”. O prof. Peña tinha vivido todo o clima inicial do desenvolvimento do
turismo na Espanha, e foi quem fez a proposta curricular de nossa escola
e preparou os professores. A proposta dele era de um curso de um nível
um pouco superior ao técnico, que objetivasse preparar os alunos nas áreas
de agências de viagens, de transportes (com ênfase no transporte aéreo),
e de hotéis – sempre em nível técnico-superior. A parte inicial foi dele.
Ficou conosco durante dois anos e no 4º ano de funcionamento da escola
ele voltou. Formamos um grupo de alunos interessados em turismo, que
compuseram o primeiro quadro de professores de turismo. Ao mesmo
tempo, participávamos de todos os congressos de que tínhamos notícia.
Mas devido à minha formação na área de arquitetura, comecei a valorizar
o aspecto de lazer e de recreação. Em 1974, no Congresso realizado na
USP apresentei uma tese de um plano nacional de lazer para o país. Para
mim, o lazer e a recreação estão ligados. Nesse momento a Faculdade
Anhembi entrou na área de lazer. Existe o lazer na cidade e o lazer exercido
fora da cidade, que é o turismo (Caturegly, 1990, p. 115-117).
A Documenta é mais precisa quanto às datas:
No segundo semestre de 1970, a Faculdade de Turismo do Morumbi, da
Organização Bandeirante de Tecnologia e Cultura, iniciou suas atividades
letivas, como ensino livre, uma vez que ainda não havia sido xado o
currículo mínimo do curso de turismo, por este Conselho. Em 19/02/71,
a interessada remeteu à apresentação do CFE proposta de currículo míni-
mo, expediente protocolado sob o nº 100.804/71.
Em 28/01/1971, o CFE já havia aprovado o Par. 35/71 (homologado pelo Ministro
em 26/04/71), que xa a duração e o currículo mínimo do curso superior de turismo.
Tomando conhecimento desse fato, a interessada requereu, de imediato, a indis-
pensável autorização para o funcionamento do curso (Proc. 1629/71). O curso,
59
entretanto, prosseguiu suas atividades, em regime livre, havendo, pois, alunos
que já venceram 3 semestres letivos (Documenta, n. 135, fev. 1972, p. 25).
Como dado signicativo deste parecer, constata-se que a vericação
prévia da possível autorização foi executada, entre outros, pelo Prof. Antonio
Guimarães Ferri, Diretor da Escola de Comunicações e Artes da USP.
É curioso notar que, embora seja a primeira faculdade a criar o curso
superior de Turismo, a Faculdade de Turismo do Morumbi não é a primeira
a ser autorizada a ministrar tal curso pelo Conselho Federal de Educação.
Apenas um mês antes do parecer acima mencionado, a Documenta traz a
autorização para o início do curso de Turismo da Faculdade Ibero-Americana
de Letras e Ciências Humanas, parecer nº 41/72, aprovado em 13/01/1972
(Documenta, n. 134, jan. 1972, p. 94-97). Assim, com diferença de alguns
meses, começam os cursos superiores de Turismo no Brasil, ambos de forte
inuência espanhola, país onde cursos de turismo eram oferecidos como cur-
sos técnicos de nível médio.
A inuência espanhola não era notável em outras áreas acadêmicas.
Esta inuência no Turismo teve por motivo a procura de um intelectual es-
panhol, Domingo Hernandez Peña, para a elaboração do curso da Faculdade
de Turismo do Morumbi; e pela nacionalidade espanhola do criador do curso
de Turismo na Faculdade de Letras e Ciências Humanas Ibero-Americana,
Julio García Morejón. Este professor formou-se em Filologia e Letras na
Universidade de Salamanca na Espanha. Foi o primeiro diretor da ECA-USP
e deixou este cargo para criar sua própria faculdade.
Em entrevista sobre o tema com o Prof. Luiz Gonzaga Godoi Trigo,
educador na área de Turismo, questionou-se quais as características desta in-
uência espanhola em cursos superiores de Turismo:
Luiz Gonzaga Godoi Trigo: A tradição espanhola analisa o turismo como
fenômeno social e não apenas como fato econômico. Então o turismo é
analisado de uma forma mais ampla, mais articulada, dentro da sociologia
e da história, por exemplo. Enquanto que nos Estados Unidos há uma vi-
são como fato econômico. É evidente que o turismo é um grande fato eco-
nômico. Mas a gente não pode parar por aí e não se trabalhar com a ideia
de sustentabilidade, com ética, com ciências sociais, com a problemática
da cultura no turismo. A escola espanhola é isso (Entrevista gravada com
60
o Prof. Luiz Gonzaga Godoi Trigo em 28/08/2001).8
A criação desta nova graduação no ensino superior foi tratada pela im-
prensa. Em 30/01/71, cerca de um ano antes de sua autorização pelo CFE,
o curso de Turismo da Faculdade Morumbi é tema do Jornal da Tarde com o
artigo Tudo sobre o vestibular de Turismo:
Durante quatro anos o aluno estudará, entre outras coisas, História da
Cultura Brasileira, Transportes, Psicologia, Matemática e Estatística,
Educação Moral e Cívica. E depois disso, formado, irá ensinar os turistas
a aproveitarem suas férias. […]
Preparar o currículo foi difícil. Um dos responsáveis pelo curso, e hoje seu
coordenador, fez uma pesquisa em 20 escolas da Europa, principalmente
da Espanha, França e Itália, onde o estudo do turismo está mais desenvol-
vido. Recolhido o material e feitas as adaptações à realidade brasileira, o
professor Domingo Hernandez Peña preparou o currículo:
O curso todo será dado em oito semestres – sete só de teoria e um de
prática. As matérias são relacionadas com Economia, Relações Públicas,
Arquitetura, Psicologia do Turismo e do Turista, Cultura Brasileira,
Antropologia, Publicidade e Estatística. Haverá também aulas de, por
exemplo, Português, Estudos dos Problemas Brasileiros e Comunicações.
Com o curso, dizem os professores, o aluno formado vai tornar-se um
planejador de turismo. Conhecendo o Brasil, terá condições de criar no-
vos atrativos turísticos, o que, inclusive, ajudará a desenvolver o turismo
no País.
O mercado de trabalho para os novos prossionais é amplo – os organiza-
dores do curso garantem. Os estudantes formados poderão trabalhar para
o Governo, para rmas particulares ou, se quiserem, abrir suas próprias
rmas.
Amadeu Papa, secretário de Turismo do Estado, ainda não conhece bem os
planos da faculdade. Há dois anos, ele lembra, existia um projeto de cons-
trução de uma faculdade de turismo, em convênio com a Universidade
de São Paulo. Por problemas de verbas e por causa da reestruturação da
USP, a sua criação está sendo adiada até agora. Mesmo assim, conhecendo
8 Na época da pesquisa que deu origem ao livro, não havia os atuais trâmites junto à Plataforma Brasil
sobre os procedimentos de autorização de entrevistas. No entanto, foram preservados pelo autor os
termos gravados de consentimento de uso das entrevistas para nalidades acadêmicas. Alguns dos
entrevistados, como Jarbas Passarinho e Manuel Nunes Dias, já faleceram.
61
o currículo da nova escola, acha-o bastante razoável do ponto de vista
técnico (Jornal da Tarde. São Paulo, 30/01/1971, p, 7).
Não é propósito deste livro analisar a repercussão dos cursos de Turismo
utilizando como fonte os jornais da época. Pretende-se apenas demonstrar
que tal repercussão existiu, inclusive descrevendo tendências do currículo do
curso da Faculdade de Turismo do Morumbi. Tal fato pode indicar a possi-
bilidade de outras faculdades terem se informado sobre esta nova carreira do
ensino superior pela imprensa de então. Enm, o debate sobre este novo cur-
so superior não cou restrito aos meios acadêmicos. Após a abertura do curso
de Turismo pela Faculdade do Morumbi e pela Faculdade Ibero-Americana,
outras faculdades tomaram a iniciativa de criar este curso.
Em junho de 1972, a Documenta publica a solicitação da Associação
Educacional do Litoral Santista para a criação da Faculdade de Turismo em
Cubatão (SP). Pedido aceito pelo CFE, contanto que se efetuassem algumas
modicações, como, por exemplo, que o número de alunos fosse diminuído
de 300 para 100 (Documenta, n. 139, jun. 1972, p. 145-148).
No segundo semestre de 1972, o Instituto de Cultura e Ensino Padre
Manoel da Nóbrega – de São Paulo (SP) – solicita autorização para os cursos
de Letras, Pedagogia, Turismo e Ciências Administrativas. O CFE arma que
em face da inexperiência da mantenedora no campo do ensino superior, não
recomenda a autorização de tantas faculdades e tantos cursos, permitindo a
abertura somente dos cursos de Turismo e de Letras (Documenta, n. 145, dez.
1972, p. 83-104).
Em março de 1973, é aprovada a solicitação feita no semestre anterior
para a criação do curso de Turismo pela Associação de Ensino de Ribeirão
Preto/SP (Documenta, n. 148, março 1973, p. 135-136). No mês seguin-
te, é autorizada à Associação Nacional de Ensino e Cultura – São Paulo/
SP – a criação da Faculdade de Turismo do Brooklin (Documenta, n. 149,
abril 1973, p. 115-117). Em junho é autorizada a Faculdade de Turismo da
Guanabara/RJ (Documenta, n. 151, jun. 1973, p. 214-215). Em novembro
de 1974 são autorizados os cursos da Faculdade de Comunicação e Turismo
Hélio Alonso/RJ (Documenta, n. 168, nov. 1974, p. 109-111). Em janeiro de
1975 é autorizado o funcionamento da Faculdade Niteroiense de Educação,
Letras e Turismo, Niterói/RJ (Documenta, n. 179, jan. 1975, p. 54-55).
62
Nem todos os processos de abertura de cursos superiores de Turismo
foram aprovados pelo CFE. No segundo semestre de 1972, o Instituto
Educacional Tereza Martin – São Paulo (SP) teve seu pedido para o curso de
Turismo indeferido sob a alegação de carência de instalações físicas adequadas
e ausência de convênios para a prática prossional com entidades do ramo
(Documenta, n. 145, dez. 1972, p. 141). À União Pioneira de Integração do
Distrito Federal, o relator solicita que a instituição comprove sua capacidade
nanceira e que melhore “o salário hora-aula dos professores para 1972”.
Exige que se anexe ao processo o “atestado de residência dos professores, pois
não se poderia autorizar um estabelecimento com a maioria do corpo docente
residindo em regiões distantes do país, apenas com a expectativa de virem
posteriormente residir em Brasília” (Documenta, n. 142, set. 1972, p. 134).
O caso mais contundente de negativa ocorreu em junho de 1973 quando da
análise do processo da Sociedade Regional de Tecnologia e Cultura – Recife/
PE. Esta instituição de ensino já havia começado, desde 1971, com 45 alu-
nos, o curso de Turismo sem consultar o CFE:
A qualicação dos professores indicados, em sua quase totalidade, não foi
comprovada através dos documentos indispensáveis, pelo que deixam de
receber, nesta oportunidade, exame individual. […] A mantenedora não
comprovou capacidade didático-pedagógica para desincumbir-se de sua
responsabilidade nem mesmo com relação à biblioteca. […] A mantene-
dora, respeitado seu direito de errar, sem má fé, apresenta um procedi-
mento que poderia ser apontado como irresponsável.
O Relator deste parecer recomenda que seja indeferido o pedido de auto-
rização para funcionamento dos cursos de Comunicação e Turismo, man-
tidos pela Sociedade Regional de Tecnologia e Cultura de Recife e que,
na medida do que estabelece a legislação pertinente, sejam dadas as provi-
dências cabíveis pelos órgãos de scalização e controle da educação, para
que sejam protegidos os superiores direitos e interesses dos educandos bra-
sileiros, em Pernambuco (Documenta, n. 151, junho 1973, p. 241-242).
Em dezembro de 1974, tanto o Conselho Federal de Educação quanto
o Conselho Estadual de Educação de São Paulo adotam uma moratória no
exame de autorização de novos cursos superiores:
63
De há muito vem este Conselho Federal de Educação sentindo e procla-
mando a necessidade de aprofundar e atualizar os estudos de base visando
à análise crítica da sistemática aplicável à criação de novas escolas superio-
res, no sistema federal de ensino. [...] Daí, há de ser considerada a sugestão
feita pelo Sr. Ministro da Educação e Cultura de suspender transitoria-
mente o recebimento de novos pedidos de autorização de escolas e cursos,
salvo exceções a serem consideradas. Como se vê, não se trata de bloquear
por inteiro o uxo de entrada de processos, e sim de, por algum tempo,
reduzi-lo seletivamente, para, anal, discipliná-lo em caráter denitivo
(Documenta, n 169, dez. 1974, p. 478-479).
Fica suspensa pelo prazo de um ano a apreciação, pelo Conselho Estadual
de Educação, de pedidos de autorização de cursos e escolas novas de en-
sino superior estaduais e municipais (Acta, órgão ocial do Conselho
Estadual de Educação de São Paulo, n. 61, dez. 1974, p. 12).
Como término deste capítulo, pode-se recordar que no calor da re-
forma de 1971, que tornou obrigatória a formação prossional em todo o
ensino médio, Luiz Antônio Cunha levantou a hipótese de que os cursos em
colégios particulares, embora aparentemente prossionalizantes, serviriam,
de fato, como preparatórios para a entrada na universidade:
Está em curso um processo de “ajustamento” entre o ensino preparatório
para as escolas superiores e a nova determinação de ensino prossional. É
o caso da instalação de cursos prossionais de acordo com os cursos supe-
riores que são, efetivamente, os visados pelos estudantes e suas famílias.
Por exemplo, um curso de técnico de turismo estaria de acordo com cursos
superiores de história, geograa e línguas estrangeiras (Cunha, 1980, p.
246, aspas e grifos do original).
Ocorreu o contrário: a criação de diversos cursos superiores em facul-
dades privadas de acordo com os objetivos prossionalizantes da reforma do
ensino médio e do consenso no Conselho Federal de Educação sobre a neces-
sidade de formação prossionalizante no ensino superior.
Não é correto academicamente isolar uma frase de todo seu contexto
de discussão, como feito com a citação acima. Não se procura aqui polemizar
com este autor. Pretende-se apenas destacar que, embora sua análise estives-
se possivelmente certa, os empresários da educação foram mais audaciosos,
64
ocupando novos espaços no ensino superior privado com cursos predomi-
nantemente prossionalizantes.
65
A CRIAÇÃO DO CURSO DE TURISMO NA
UNIVERSIDADE DEO PAULO
Marilena Chaui tratou as reformas que alteraram o perl da universi-
dade brasileira na década de 1960 como a criação do que ela chamou de uni-
versidade funcional. No caso da Universidade de São Paulo (USP), até 1968,
ela tinha como polo aglutinador a Faculdade de Filosoa, Ciências e Letras.
Existia formação prossional na universidade, mas como decorrência da for-
mação superior calcada na união, por parte do trabalho dos professores, entre
docência e pesquisa. Formação prossional não era meta, mas consequência.
A universidade funcional inverteu os propósitos universitários, elegendo a
formação de mão-de-obra para o mercado de trabalho como prioridade má-
xima. Esta autora analisou estas mudanças:
Se, outrora, a escola foi o lugar privilegiado para a reprodução da estrutura
de classes, das relações de poder e da ideologia dominante, e se, na con-
cepção liberal, a escola superior se distinguia das demais por ser um bem
cultural das elites dirigentes, hoje [década de 1970], com a reforma do
ensino, a educação é encarada como adestramento de mão-de-obra para o
mercado. Concebida como capital, é um investimento e, portanto, deve
gerar lucro social. […]
Desvinculando educação e saber, a reforma da universidade revela que sua
tarefa não é produzir e transmitir a cultura (dominante ou não, pouco
importa), mas treinar os indivíduos a m de que sejam produtivos para
quem for contratá-los. A universidade adestra mão-de-obra e fornece for-
ça-de-trabalho (Chaui, 2001, p. 52).
A universidade funcional, dos anos 70, foi o prêmio de consolação que
a ditadura ofereceu à sua base de sustentação político-ideológica, isto é,
à classe média despojada de poder. A ela foram prometidos prestígio e
ascensão social por meio do diploma universitário. Donde a massicação
operada, a abertura indiscriminada de cursos superiores, o vínculo entre
66
universidades federais e oligarquias regionais e a subordinação do MEC
ao Ministério do Planejamento. Essa universidade foi aquela voltada para
a formação rápida de prossionais requisitados como mão-de-obra alta-
mente qualicada para a mercado de trabalho. Adaptando-se às exigências
do mercado, a universidade alterou seus currículos, programas e ativida-
des para garantir a inserção prossional dos estudantes no mercado de
trabalho (Chaui, 2001, p. 189).
Na segunda metade da década de 1960, ocorreram na USP duas alte-
rações em seu grupo de faculdades que podem não estar diretamente rela-
cionadas, mas que apontam na direção proposta por Marilena Chaui. A pri-
meira é a criação em 1966 da Escola de Comunicações Culturais – seu nome
foi mudado para Escola de Comunicações e Artes em 1970; a segunda, em
1968, o desmembramento da Faculdade de Filosoa, Ciências e Letras em
diversos institutos e faculdades separadas. No presente estudo não se aborda-
rá em profundidade o desmembramento da Faculdade de Filosoa, Ciências
e Letras.
Um dos poucos estudos que existem sobre a Escola de Comunicações
e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) é de Maria Helena Pires
Martins. A autora resume a história da criação da ECA:
Em 1965, bem no meio da década e logo após o Golpe de 64, o então
reitor da Universidade de São Paulo, Prof. Dr. Gama e Silva, delegou a
responsabilidade da estruturação de uma nova faculdade a uma comis-
são de dez professores. Os trabalhos dessa comissão resultaram na criação
da Escola de Comunicações Culturais, através do decreto nº 46419 de
16/6/1966, tendo como padrinhos, assinando o documento, o gover-
nador do Estado Laudo Natel, o secretário da Fazenda Antonio Delm
Netto e o reitor Luís Antonio Gama e Silva.
De acordo com o artigo 2 do mesmo decreto, a Escola teria dupla nali-
dade: “1 - formar pessoas habilitadas ao exercício das prossões técnico-
-artísticas e de magistério no campo das comunicações culturais; 2 – pro-
mover, incentivar e divulgar, ao mesmo tempo, a cultura e a pesquisa”.
Para tal, o artigo 3 relaciona os cursos que, inicialmente, serão ofereci-
dos: Jornalismo, Rádio e TV, Arte Dramática, Cinema, Biblioteconomia,
Documentação e Relações Públicas.
E, grande pasmo, o crédito aberto de quinhentos milhões de cruzeiros
67
(US$ 227.000) para as despesas de instalação e funcionamento da nova
Escola saiu do superávit de exercícios anteriores da Universidade. Já houve
tempo em que sobrava dinheiro na área de educação (Martins, 1988, p.
15).
A autora chama a atenção para que a criação da ECA-USP não se deu
originalmente como escola de comunicação e artes e sim como comunicações
culturais. Teatro e TV não sendo propostos conceitualmente como arte, mas
como meios de comunicação de massas. Segundo a autora, a criação da ECA
demonstra que, para alguns intelectuais da USP, a formação de pessoas para a
manipulação dos meios de comunicações em uma sociedade de massas passa
a ser responsabilidade da Universidade. O objetivo da ECA-USP seria de
preparar prossionais técnicos de informação.
Segundo a autora, é em 1970 que o Conselho Federal de Educação de-
cide impor o currículo mínimo para todas as escolas de Comunicação Social,
havendo grande alteração na ECA-USP. A reforma, desde 1968, regulamen-
tou a carreira universitária através da titulação acadêmica. Para a ECA isto
gerou conitos, pois os professores “que têm competência para lecionar mui-
tas disciplinas artísticas não têm, com raríssimas exceções, títulos acadêmicos
uma vez que sua prossão artística, extra-universidade, não o exige” (Martins,
1988, p. 31-32). Para a autora isto teve como consequência o afastamento da
área de Artes do poder dentro da ECA. A autora arma que foi em 1970 que
a Escola de Comunicações Culturais passou para a denominação de Escola
de Comunicação e Artes.
É necessário situar o papel da ECA num horizonte mais amplo da
Universidade de São Paulo. Nestor Goulart Reis Filho, professor da Faculdade
de Arquitetura e Urbanismo, membro do Conselho Universitário da USP
quando do processo de criação do curso de Turismo, foi o único a pedir vistas
a este processo. Ele foi entrevistado e seu depoimento ajudou a compreender
o papel da ECA na universidade. Questionado sobre as reações da universi-
dade ao que se desenrolava na ECA, o professor armou:
A ECA foi criada pelo Gama e Silva e aquilo foi feito meio na valentona.
Foram colocando tudo que não cabia em outras na ECA. A ECA cou
até hoje como uma colcha de retalhos. A universidade resistiu, pois ela foi
formada também como uma colcha de retalhos. As escolas tradicionais, as
68
três tradicionais, eram muito ciosas com as suas áreas. Direito era uma es-
cola federal, pouca gente sabe disto. Os primeiros professores da Faculdade
de Direito na USP tinham dois salários, o estadual e o federal. Eles não dei-
xaram de ser funcionários federais. Eles tinham medo de deixar de receber
o salário da USP ou foi uma tradição política. Para não fugirem a isto, eles
ganhavam dois salários. A USP pagava um segundo salário. Então eles não
resistiram à tentação. A Medicina era estadual, a Politécnica era estadual.
Mas a Faculdade de Direito era federal. Existia muita ciumeira. Quando se
fez a cidade universitária, o Prof. Camargo, que liderava a Poli – era profes-
sor de matemática – declarou no Conselho Universitário que ia passar uma
cerca de arame farpado e ninguém ia entrar mais na área da Politécnica. Ele
não queria ter uma escola administrada junto com as outras. Eram escolas
com tradição de uma seriedade muito grande e que não queriam abrir mão
de seus padrões. É muito difícil culpar isto. A esta altura vêm escolas mais
exíveis. Primeiro vem Economia, depois FAU, depois ECA. São recebidas
com desconança. Todas. Porque ampliavam na área de humanas com pro-
postas que pareciam coisas muito vagas e não universitárias.
Esta discussão é internacional. Arte não entrava na universidade europeia.
É um instituto à parte. Na tradição francesa-napoleônica, as escolas téc-
nicas não pertenciam e não pertencem à universidade, são separadas. O
formato universitário ainda é objeto de discussão e foi mais. Quando vêm
escolas de aplicação, as escolas da velha guarda oferecem resistência.
A ECA foi criada pelo Gama e Silva, pessoa que se estivesse viva, a gente po-
deria dizer na cara dele, o quanto ele era um indivíduo desagradável. Então
a ECA carregou de início o peso de ter sido criada sob inuência do Gama e
Silva. Certas coisas que vinham da ECA naturalmente causavam estranheza
nas pessoas. Os pobres coitados dos professores e dos alunos não tinham
culpa nenhuma disso, mas pagaram o preço de um aliado inicial daqueles,
que realmente não gozava das simpatias da USP. Sabe o que é ser o terceiro
nome numa lista tríplice? Às vezes, se põe porque ele é tão ruim que se espe-
ra que jamais seja nomeado. O Gama e Silva foi posto na lista porque ele era
tão ruim que se esperava que o governador não o nomeasse. Como ele não
queria os dois primeiros, que eram muito bons, mas não eram do agrado
do governador Ademar de Barros, ele nomeou o Gama e Silva, que cassou
muitos professores em caráter exclusivamente pessoal. Tudo aquilo que fosse
um pouco estranho e viesse da ECA, parecia coisa do Gama e Silva. Não
se pode desconhecer estas posições tópicas (Entrevista gravada com o Prof.
Nestor Goulart Reis Filho em 30/10/2001).
69
A ECA teve como seu terceiro diretor o Prof. Manuel Nunes Dias.
Para Maria Helena Martins, este período de 1972 a 1976 foi o mais crí-
tico da escola. Manuel Nunes Dias atuou como interventor da reitoria na
ECA. Embora fosse professor titular de História da América na Faculdade de
Filosoa, Letras e Ciências Humanas da USP, sua formação de graduação era
em Direito pela USP e Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero. Segundo
a autora, Manuel Nunes Dias usou da tática de intimidação a m de acabar
com o trabalho independente que era desenvolvido na ECA:
Manoel Nunes utilizou-se de todos os recursos contra os professores:
medidas disciplinares, processos, sindicâncias, denúncias, reprovação em
exames e as cassações brancas, ou seja, a não renovação do contrato de
trabalho de vários professores. Criou-se, assim, um clima de terror, de des-
conança com relação aos colegas, aos alunos, aos funcionários. Enm,
não se sabia nem quem era quem, nem de que lado cada um estava. As
visitas” da polícia, agora, chegavam até a sala da diretoria, para apresen-
tar-lhe cumprimentos ou para troca de informações, pois contava com seu
aval na ação repressiva (Martins, 1988, p. 33).
O primeiro diretor da ECA foi o Prof. Julio García Morejón, que dei-
xou o cargo e criou a Faculdade Ibero-Americana. O segundo diretor foi o
Prof. Antonio Guimarães Ferri. Ele é o criador do curso de Turismo da ECA,
objeto de análise posterior.9 O terceiro diretor da ECA foi o Prof. Manuel
Nunes Dias. Durante sua administração, o curso de Turismo efetivamen-
te iniciou seu funcionamento. Para entender o clima na ECA sugerido por
Maria Helena Martins, o Prof. Manuel Nunes Dias foi entrevistado. Ele des-
creveu o início de sua administração da ECA como difícil, devido à movi-
mentação grevista. Esta entrevista também elucida o processo de escolha do
diretor da ECA:
Prof. Manuel Nunes Dias: A ECA é a unidade mais fascinante da USP,
porque tem artes e humanidades. Eu tinha ido ao Rio proferir uma con-
ferência na Casa de Camões. Minha senhora me telefonou, no meu hotel,
9 Foi tentada entrevista com o Prof. Julio García Morejón. Entretanto, este professor não conseguiu
espaço em sua agenda. Infelizmente, o Prof. Antonio Guimarães Ferri, personagem-chave nesta
história, já faleceu.
70
me dizendo que o Prof. Miguel Reale, então reitor, tinha me telefonado e
que queria conversar comigo. Eu não liguei para aquilo, quei mais dois
dias no Rio. Quando retornei, tinha mais um telefonema. Eu estava na lista
tríplice para a ECA. O que vou fazer? E o Miguel Reale me convidou. A
ECA não tinha titular. Para ser diretor, naquela altura, precisava ser titular.
Pergunta: Quem elaborava a lista tríplice?
Manuel Nunes Dias: O Conselho Universitário. Por que eu fui para a ECA?
Eu sucedi o Antonio Guimarães, que foi um grande diretor, mas era um
veterinário. E agora foi um historiador? Não. Eu era um jornalista. Eu tinha
o curso da Cásper Líbero. Escrevia em jornais como o Correio Paulistano e a
Gazeta. Mas eu não dou muito valor a isto. Acho que o diretor da unidade
não precisa nem ser professor, tem que ser administrador. [...]
Nos primeiros dois ou três meses teve uma crise muito grande na ECA.
[...] Foi em 1973, ainda havia aquele enevoado do regime militar. Então a
universidade brasileira entrou em greve. [...] Na USP, os políticos atuantes
escolheram a ECA. Por que a ECA? Porque a ECA tem meios de comu-
nicação. Tem rádio, tem televisão, tem jornalismo, o que as outras não
têm. Então, da Economia, o grupo organizador da greve passou para a
ECA, para fechar a universidade. Mas não contou com a resistência. Não
sou fascista, não sei quem eu sou. A lei tem que ser obedecida, mesmo
a lei errada. É proibido estacionar. Se eu estacionar, estou sujeito a uma
multa. [...] Eu me recordo que a revista Veja publicou a minha fotograa.
Eu entrando na ECA e os cartazes: Abaixo, abaixo o Nunes! Eu sabia que
aquilo não era contra mim. Muitos alunos perderam o ano por causa dis-
so. Perderam o ano por faltas. Eu não ia renunciar, não ia sair. Depois de
três meses a coisa começou a se esvaziar (Entrevista gravada com o Prof.
Manuel Nunes Dias em 28/11/2001).
Não se pretende aqui confrontar memórias dos episódios grevistas da
ECA. Almeja-se apenas dar uma ideia do clima estabelecido naquela escola no
início da década de 1970. Como ressaltou Nestor Goulart dos Reis Filho, ter
como fundador a gura do reitor Gama e Silva, futuro Ministro da Justiça que
assinaria em 1968 o famigerado AI-5, não trazia muito prestígio à ECA. Maria
Helena Martins e Manuel Nunes Dias concordam em alguma coisa: o convívio
na ECA entre professores, alunos e direção não era harmonioso, para dizer o
mínimo, em 1973, ano em que a ECA iniciou o seu curso de Turismo.
A ECA constituiu sua congregação para discussão de assuntos internos
em 1975. Até este ano, o Conselho Universitário da USP exercia a função de
71
congregação daquela escola. A criação do curso de Turismo, no início daquela
década, portanto, não teve sua discussão registrada em atas da congregação.
Na pesquisa das atas do Conselho Universitário sobre o tema aqui tratado
encontra-se apenas a menção “amplamente debatido”, porém sem registrar
textualmente nem fragmentos dos debates. Existe documentação escassa nos
arquivos da reitoria, principalmente no que concerne à formulação curricular
do curso que será abordada em capítulo posterior. Os debates conceituais,
epistemológicos e acadêmicos sobre a criação de um curso novo numa facul-
dade nova até para a própria USP devem ter sido registrados nas reuniões do
Departamento de Relações Públicas e Propaganda, onde este curso foi criado.
Como foi abordado na introdução deste trabalho, os documentos da ECA
que trataram da criação do curso de Turismo se extraviaram. Ao tratar deste
tema, esta pesquisa utilizou-se dos documentos encontrados na reitoria da
universidade e de entrevistas com testemunhas dos acontecimentos da ECA.
No mesmo ano em que criou a ECA, 1966, o reitor Gama e Silva
também instituiu a comissão responsável pelo projeto de reforma da univer-
sidade. O Memorial para Reestruturação da Universidade de São Paulo cou
conhecido como Relatório Ferri, pois o presidente da comissão era o Prof.
Mário Guimarães Ferri. Este relatório foi resultado de vinte meses de traba-
lho da Comissão de Reestruturação da Universidade de São Paulo, cando
pronto em 1968. A descrição detalhada do Relatório Ferri pode ser encon-
trada na tese de Beatriz Alexandrina de Moura Fetizon. Esta autora realça
algumas partes deste relatório:
Algumas propostas merecem destaque. A divisão do “todo do saber”, em
grandes áreas ou campos fundamentais, a cargo dos diversos Institutos
(necessariamente articulados entre si), é uma delas. O Memorial propõe
dezessete Institutos: Agronomia e Veterinária; Arquitetura e Urbanismo;
Artes e Comunicações; Biologia; Ciências Humanas; Ciências Jurídicas;
Ciências Médicas; Economia e Administração; Educação; Engenharia;
Filosoa; Física; Geologia; Letras; Matemática; Química; e Tecnologia.
Como se pode constatar, estão previstos o desmembramento (ou ex-
tinção) da Faculdade de Filosoa, Ciências e Letras e a organização da
Universidade independentemente das escolas tradicionais, notadamente
Medicina e Direito (Fetizon, 1986, p. 651).
72
A autora destaca que este relatório também prevê a exibilidade curri-
cular na formação prossional de áreas novas:
Quanto à mobilidade, observa a Comissão de Reestruturação que, além
das “prossões regulamentadas” cujos currículos mínimos são denidos
no âmbito federal (cabendo às instituições de ensino superior acrescentar-
-lhes as “combinações disciplinares” para constituir os currículos plenos),
há uma “multiplicidade de prossões” cujo desempenho exige formação
universitária. “Com os currículos exíveis, a Universidade poderá formar
indivíduos aptos para todas elas, ajustando-se sempre às solicitações da
vida sócio-econômica e aos múltiplos e variados interesses dos estudantes
(Fetizon, 1986, p. 656).
O Relatório Ferri previa que, extinguindo as cátedras e criando
Institutos organizados em departamentos, os alunos poderiam criar currí-
culos novos cursando disciplinas em vários departamentos de vários institu-
tos. Estas carreiras novas poderiam ser depois homologadas pelo Conselho
Universitário. Isto se mostrou impraticável. No entanto, já está no horizonte
do Relatório Ferri a possibilidade de novas carreiras universitárias para a for-
mação prossional exigida pelos novos tempos. A carreira de bacharel em
Turismo é um exemplo disto.
Os dezessete Institutos propostos pelo Relatório Ferri não se efeti-
varam na sua totalidade. Foram formados apenas os Institutos decorrentes
do desmembramento da Faculdade de Filosoa, Ciências e Letras.10 Aqui
entram dois dos personagens de destaque na história da criação do curso
de Turismo da USP. Trata-se do Prof. Antonio Guimarães Ferri – irmão do
Mário Guimarães Ferri, do Relatório Ferri – segundo diretor da ECA, e tam-
bém a Sra. Célia Portugal Matta, secretária do departamento da ECA onde o
curso de Turismo foi criado. Em entrevista, Célia Portugal Matta relata:
Eu havia participado da criação dos nove Institutos Universitários. Tinha
muito relacionamento com todos os diretores dos Institutos. Isto quan-
do foi desmembrada a Faculdade de Filosoa na Maria Antonia. Foram
criados nove Institutos Universitários. Eu era da comissão e foi com o
10 Em 02/07/1968, o Prof. Florestan Fernandes (1979, p. 179-204) apresentou na congregação da
Faculdade de Filosoa, Ciências e Letras uma exposição crítica do Relatório Ferri.
73
Sr. Arquimedes Logan que criamos a assessoria administrativa em que
funcionavam todos estes institutos. Quando a ECA foi criada, o [Antonio
Guimarães] Ferri me chamou para a ECA, pois o Ferri tinha sido
meu paraninfo de formatura no curso de Relações Públicas do DEA –
Departamento Estadual de Administração (Entrevista gravada com a Sra.
Célia Portugal Matta em 17/12/2001).
Não existe relação direta entre o desmembramento da Faculdade de
Filosoa, Ciências e Letras e a criação de novos cursos na Escola de Comunicação
e Artes. Entretanto, foi na criação dos Institutos, que deveriam substituir gran-
de parte da antiga Faculdade de Filosoa, que Célia Portugal Matta obteve
experiência administrativa relevante. Esta funcionária será convidada pelo Prof.
Antonio Guimarães Ferri para trabalhar na ECA, ganhando grande impor-
tância nesta escola como secretária do departamento de Relações Públicas e
Propaganda. Antonio Guimarães Ferri e Célia Portugal Matta são dois dos pro-
tagonistas principais na criação do curso de Turismo na USP.
Como foi tratado em capítulos anteriores, o primeiro curso supe-
rior de Turismo foi criado, no segundo semestre de 1970, na Faculdade de
Turismo do Morumbi. Em 28/01/1971, o Conselho Federal de Educação
aprova o currículo mínimo para o curso superior de Turismo. Este currículo
é homologado em 26/04/71 pelo Ministro da Educação e Cultura Jarbas
Passarinho. Em 19/02/71, a Faculdade de Turismo do Morumbi envia ao
Conselho Federal de Educação solicitação de autorização de seu curso. Um
dos especialistas convidados para a vericação prévia da possível autorização
deste curso é Antonio Guimarães Ferri, diretor da ECA. Pode-se notar que o
desenlace decisivo para a criação do curso superior de Turismo ocorre entre
ns de 1970 e o ano de 1971.
O encontro de interesses favoráveis à criação deste novo curso por
parte do Ministro Jarbas Passarinho e do Prof. Antonio Guimarães Ferri
foi determinante para a criação desta nova carreira universitária na Escola
de Comunicação e Artes da USP, da qual o Prof. Ferri era o diretor. Célia
Portugal Matta descreveu esta convergência de interesses ao relatar o encon-
tro de Jarbas Passarinho e Antonio Guimarães Ferri em julho de 1971. Este
encontro ocorreu na Assembleia Legislativa de São Paulo durante a abertura
do Primeiro Congresso Nacional de Propaganda.
74
Célia Portugal Matta: Eu me encontrava prestando serviço na APP
[Associação dos Prossionais de Propaganda], no que seria depois o cur-
so de Propaganda e Marketing. Aí nós zemos o Primeiro Congresso
Nacional de Propaganda. A abertura foi na Assembleia Legislativa. O
Jarbas Passarinho veio abrir o Congresso. Eu secretariava este Congresso.
No camarim da Assembleia Legislativa, o Jarbas Passarinho chegou para o
Dr. Ferri e disse assim:
Oh Ferri, você faz ou não faz o curso de Turismo na USP?
Ele respondeu assim:
É a Célia que está inventando esse negócio de Turismo.
Aí, eu chamei o Valter de Oliveira que estava lá e ia fazer parte da mesa tam-
bém. Chamei o Mário Beni, que ministrava no curso de Relações Públicas
e Propaganda [da ECA] a disciplina de Turismo e Desenvolvimento.
Juntou-se o Prof. Modesto Farina; o Prof. Cândido Teobaldo de Souza
Andrade, ambos do departamento de Relações Públicas e Propaganda [da
ECA]. Ali, nós cinco reunidos zemos o plano do curso.
O Jarbas Passarinho disse assim:
Vocês têm um mês para me mandar o currículo para Brasília.
Aí pronto, nós providenciamos isto nos dias seguintes, quando acabou o
Congresso de Propaganda. [...]
Pois bem, aí nós zemos o roteiro do que seria o curso. Antes de um mês,
eu levei para o Jarbas Passarinho um documento rascunhado, no gabinete
dele, de Ministro da Educação. Eu voltei para São Paulo com o rascunho
já mais ou menos rabiscado do que eu tinha levado. Foi aí que o Ferri
instituiu uma comissão para criar o curso de Turismo e criou lá na ECA o
primeiro curso de Turismo em nível universitário (Entrevista gravada com
a Sra. Célia Portugal Matta em 17/12/2001).
Um dos motivos para explicar as ligações entre Propaganda e Turismo,
tanto no Departamento da ECA onde o curso de Turismo foi criado, quan-
to no Primeiro Congresso de Propaganda, onde foi discutido por Jarbas
Passarinho e Antonio Guimarães Ferri, foi o sucesso do seminário de Turismo
na APP. Este seminário ocorreu anteriormente ao encontro descrito acima:
Célia Portugal Matta: O Prof. Valter de Oliveira, que era diretor de aten-
dimento da Varig, e o Venâncio, que era Guia de Turismo, me pediram na
USP, onde eu era prossional de Relações Públicas e organizava os eventos
na universidade, para fazer o seminário na rua 24 de Maio sobre Turismo
75
e Desenvolvimento na APP – Associação dos Prossionais de Propaganda.
Era para vinte ou trinta pessoas discutir sobre turismo. Vieram duzentos
e tantos inscritos! E foi aí que o Prof. Ferri, diretor da ECA, onde eu
trabalhava, o Prof. Modesto Farina e o Prof. Mário Beni falamos: vamos
fazer o curso de Turismo na USP. (Entrevista gravada com a Sra. Célia
Portugal Matta em 17/12/2001. O Prof. Mário Beni foi entrevistado para
esta pesquisa. Tentou-se entrevistar o Prof. Modesto Farina, mas ele está
com graves problemas de saúde, impossibilitando tal contato.)
Para conseguir maiores informações sobre o encontro com Antonio Guimarães
Ferri no Congresso da APP, entrevistou-se o ex-ministro Jarbas Passarinho:
Pergunta: Eu sou pesquisador da área de História da Educação da PUC
de São Paulo. Estou pesquisando o surgimento dos cursos superiores de
Turismo. São cursos inéditos criados na década de 1970. Conversando
com a Sra. Célia Portugal Matta, que trabalhou durante décadas na USP,
onde surge o primeiro curso universitário, ela disse que o curso foi criado
a partir de uma conversa do senhor com o Prof. Antonio Guimarães Ferri.
Jarbas Passarinho: Exatamente.
Pergunta: O senhor se recorda? […]
Jarbas Passarinho: [...] Eu me lembro bem da conversa com o Ferri, quan-
to a isto não há dúvida nenhuma.
Pergunta: Ela me disse que foi o pontapé inicial.
Jarbas Passarinho: É, exatamente. [...]
Pergunta: Eu peço desculpas em incomodá-lo nesta época de Natal para
perguntar uma coisa tão restrita, mas como isto não está na documenta-
ção escrita, foi a partir do depoimento da Sra. Célia Portugal Matta, achei
melhor conrmar com o senhor, pois depois eu escrevo alguma coisa que
não é verdadeira...
Jarbas Passarinho: Isto aí está certo. [...]
Pergunta: No caso do curso de Turismo, como não existia em nenhuma
outra parte do mundo, eu quei pensando: existia alguma determinação a
partir da experiência que o senhor conheceu em algum outro lugar, ou o
senhor solicitou ao Prof. Ferri a partir de expectativas da época?
Jarbas Passarinho: A ideia, eu aderi a ela. A ideia foi do Ferri. Ele combi-
nou comigo, mostrou, eu estava entusiasmado em qualquer tipo de ideia
nova que pudesse ter resultado acadêmico. Lembro-me bem que foi esse
o início realmente. [...]
Pergunta: Eu comecei levantando a documentação...
76
Jarbas Passarinho: O senhor queria a minha comprovação, não é?
Macioniro Celeste Filho: É, para não escrever alguma coisa inverossímil.
Jarbas Passarinho: Pois não, professor.
Macioniro Celeste Filho: Ok, então...
Jarbas Passarinho: Muito obrigado. Muita alegria de vê-lo também.
Macioniro Celeste Filho: Muito obrigado. Feliz Natal! (Entrevista gravada
com o ex-ministro Jarbas Passarinho em 19/12/2001)
Esta parte da história não está registrada na documentação ocial ar-
quivada na reitoria da USP. Mesmo assim, consta ocialmente que o processo
de criação do curso de Turismo da USP se iniciou com uma interferência
externa à universidade.
Em 1971, o Conselho de Turismo da inuente Confederação Nacional
do Comércio organizou um grupo de trabalho para examinar o ponto de vista
da Confederação sobre o ensino de turismo em nível universitário. Este grupo
foi presidido por Corintho de Arruda Falcão, tendo como relator Celso Kelly,
conselheiro do CFE que havia estabelecido em 1969 o currículo mínimo de
cursos secundários de Turismo. Este conselheiro foi também quem apresentou,
em 1971, no CFE a proposta original do currículo mínimo para cursos supe-
riores de Turismo (Parecer 35/71), embora sua proposta tenha sido alterada.
Em 27/09/71, Corintho de Arruda Falcão envia carta ao reitor da USP, Miguel
Reale, sugerindo a criação do curso superior de Turismo naquela universidade:
Tendo o Excelentíssimo Senhor Ministro da Educação e Cultura homolo-
gado o douto parecer (par. 35/71) sobre a matéria, já é possível cogitar-se
da organização do Curso Superior de Turismo nas Universidades do País.
Assim, rogamos a Vossa Magnicência, considerando a importância do
assunto para o desenvolvimento da economia nacional, que haja por
bem determinar seja considerada a oportunidade de diversicar as ati-
vidades dessa prestigiosa Universidade, instalando o Curso Superior de
Turismo, cuja repercussão será, indiscutivelmente, a mais favorável no
seio da comunidade dessa progressista unidade da Federação. (Processo n.
24.808/71, p. 1. Pela importância histórica deste documento, encontra-se
cópia dele no Anexo I, ao nal deste livro.)
Os temas abordados por Maria das Graças Ribeiro em sua tese de
doutorado podem contextualizar melhor esta carta enviada à USP. Maria das
77
Graças Ribeiro, ao analisar a diversicação das instituições no ensino superior,
privilegia a segunda metade dos anos oitenta e a década de 1990. No entanto,
a autora busca as raízes históricas de seu objeto nas décadas anteriores. A au-
tora trata como em meados da década de 1970 existe um discurso favorável à
quebra do modelo unitário de universidade e a proposta de complementação a
este modelo com cursos de curta duração. Os argumentos utilizados privilegia-
vam a discussão sobre os custos do modelo universitário vigente então. Como
exemplo de uma argumentação menos presente no debate, a autora analisou
a proposta de diversicação do modelo universitário de Machado de Souza,
que, em 1974, “sugeria a diversicação da educação superior, observando que a
diversicação nas atividades econômicas já vinha ocorrendo em todo o mundo,
em razão do rápido desenvolvimento das ‘técnicas de produção e serviços’.
(Ribeiro, 2000, p. 103) A abordagem desta autora sobre a unidade do mode-
lo universitário pode elucidar a função, nos anos 1960 e década de 1970, da
Escola de Comunicações e Artes dentro da principal universidade brasileira. A
ECA talvez tenha sido um meio de incorporar novas áreas técnicas com pro-
pósito de formação prossional altamente qualicada dentro da própria USP e
ainda preservar o modelo universitário unitário.
Nos autores tratados por Maria das Graças Ribeiro, os que propõem
a diversicação do modelo universitário contam com a complementação na
oferta de cursos superiores pela iniciativa privada. A autora cita como exem-
plo desta postura o mesmo Machado de Souza, que em discurso de 1979 “ob-
servava que havia forte pressão sobre o ensino superior, colocando-se a neces-
sidade de sua expansão, para o que, segundo ele, o setor privado teria que ser
levado em consideração” (Ribeiro, 2000, p. 104). Correndo o risco de se co-
meter um certo anacronismo, é possível cogitar que a Escola de Comunicação
e Artes da USP tenha sido um meio de incorporar à universidade experiências
de diversicação do ensino superior que estavam sendo levadas adiante por
faculdades privadas. A criação do curso de Turismo da USP é posterior à sua
criação como curso superior em faculdades privadas isoladas, como foi visto
em capítulo anterior. O curso superior de Turismo na USP segue o caminho
de outros cursos da ECA, como Jornalismo, por exemplo. Estas novas áreas
acadêmicas foram criadas anteriormente fora da universidade e em seguida
incorporadas por ela. Talvez, na tentativa de preservar o modelo unitário de
78
universidade e de mostrá-la aberta à diversicação das atividades econômicas
das décadas de 1960 e 1970. Não há dados empíricos que sustentem esta
abordagem. É possível que permaneça apenas como hipótese de análise de
acontecimentos talvez muito mais prosaicos de movimentação docente por
espaço acadêmico, como tratou Ivor Goodson (1990) em texto clássico. No
entanto, esta hipótese deve ser considerada quando da análise de documentos
encontrados no processo de criação do curso de Turismo na USP.
Maria das Graças Ribeiro colocou como subtítulo de sua tese: o pro-
blema da diversicação das instituições. Este termo, diversicar, já aparece na
carta da Confederação Nacional do Comércio citada acima. Encarar a criação
de novas carreiras universitárias como resposta à diversicação das necessida-
des do mercado de trabalho é fenômeno que se constata na USP desde o iní-
cio da década de 1970. A proposta de criação do curso superior de Turismo
na USP é justicada como oportunidade de diversicar as atividades dessa
prestigiosa Universidade. A diversicação das atividades acadêmicas da USP
é apresentada como necessária considerando a importância do assunto para o
desenvolvimento da economia nacional.
A Confederação Nacional do Comércio tinha sua sede na cidade do
Rio de Janeiro, principal polo turístico do Brasil. As atividades educacionais
de Celso Kelly também se concentravam naquela cidade. Não se conhece
se solicitação análoga à destinada à USP foi encaminhada à Universidade
Federal do Rio de Janeiro, mas esta, ao reitor da USP, prosperou.
Em 06/10/71, a reitoria encaminha a carta da Confederação Nacional
do Comércio a Antonio Guimarães Ferri, diretor da ECA, que por sua
vez, solicita o pronunciamento do departamento de Relações Públicas e
Propaganda. Em 13/04/1972, Antonio Guimarães Ferri envia ao reitor a car-
ta de proposta do curso com seu respectivo currículo. Os diversos currículos
elaborados pela ECA serão apresentados posteriormente:
Tenho a honra de dirigir-me a Vossa Magnicência a m de solicitar
suas dignas providências, junto ao Colendo Conselho Universitário, para
a criação do Curso Superior de Turismo nesta Escola, conforme estru-
tura curricular anexa, em atenção à solicitação do Senhor Presidente do
Conselho de Turismo [da Confederação Nacional do Comércio], cons-
tante de s. 2 do processo RUSP- Nº 24.808/71, anexo ao presente.
79
Permito-me esclarecer a Vossa Magnicência que a criação do curso
e a respectiva estrutura curricular já foram apreciadas pelo Conselho
Interdepartamental, em reunião de 6 do corrente mês.
Outrossim, informo que a criação deste novo curso, para instalação, caso
aprovada pelo Colendo Conselho Universitário, está prevista para o 2º
semestre letivo de 1972 e funcionará em período noturno e, quanto às
despesas para o custeio do mesmo, a Direção desta escola solicitará con-
vênios com as Secretarias de Turismo do Estado e Município (Processo
24.808/71, p. 4).
A proposta da ECA é encaminhada em 24/04/72 ao Conselho Técnico-
Administrativo (CTA). O CTA, em 02/05/72, objeta que começar um curso
no meio do ano implicaria gastos com um novo vestibular. É necessário regis-
trar que o vestibular unicado classicatório da USP é então criação recente,
de julho de 1971. O CTA recomenda que esta proposta seja analisada pelo
Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão de Serviços à Comunidade (CEPE)
através de sua Câmara de Graduação.
Os Estatutos da USP são de dezembro de 1969; o Regimento Geral
foi criado em 1972. Provavelmente, o curso de Turismo tenha sido a pri-
meira proposta de um curso novo a tramitar pela recém-inaugurada estrutu-
ração burocrática de poder da universidade. O Regimento Geral estabelece
que um dos órgãos de maior poder de decisão na USP seja o Conselho de
Ensino, Pesquisa e Extensão de Serviços à Comunidade (CEPE). O CEPE
se divide em quatro câmaras: Câmara de Graduação (CG); Câmara de
Pós-Graduação (CPG); Câmara de Pesquisa (CP); Câmara de Extensão de
Serviços à Comunidade (CESC). Segundo o artigo 32 do Regimento Geral,
cabia ao CEPE propor ao Conselho Universitário a criação e a organização
de novos cursos.
Em julho de 1972, o Conselheiro Roque Spencer Maciel de Barros, es-
colhido pela Câmara de Graduação para relatar o processo da criação do cur-
so de Turismo, devolve este processo à ECA alegando que ela havia desistido
de um novo vestibular especíco. Portanto, a ECA deveria encaminhar nova-
mente este processo para inclusão deste novo curso para o ano de 1973. “O
assunto deverá gurar na estrutura curricular da escola para 1973, quando
então será certamente examinado pela Câmara [de Graduação].” (Processo
24.808/71, verso da p. 11)
80
A ECA toma conhecimento de que o processo encaminhado à reitoria
fora refutado e reinicia os procedimentos para criação do curso de Turismo,
gerando novo processo, de n. 33.039/72. Deve-se destacar uma mudança im-
portante para o bom desempenho burocrático deste novo processo: Antonio
Guimarães Ferri deixa a diretoria da ECA e ocupa o cargo de Coordenador da
Câmara de Graduação do CEPE. Os ofícios em nome da ECA são assinados
agora pelo seu novo diretor, o Prof. Manuel Nunes Dias, e encaminhados
na Câmara de Graduação do CEPE à reitoria pelo seu novo coordenador,
Antonio Guimarães Ferri. As aulas do curso de Turismo iniciaram-se efeti-
vamente na ECA em agosto de 1973 como currículo opcional aos alunos do
curso de Comunicação. Em 18/10/73, Antonio Guimarães Ferri, coordena-
dor da Câmara de Graduação, propõe ao reitor Miguel Reale que este novo
curso seja examinado pelo Conselho Universitário:
Preceitua o artigo 23, inciso II, do Estatuto da Universidade de São
Paulo, que ao Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão de Serviços à
Comunidade [CEPE] compete organizar os currículos globais de forma-
ção prossional, xando o elenco das disciplinas obrigatórias e optativas,
ouvidas as Congregações interessadas, atribuição que foi delegada, até o
momento, à Câmara de Graduação, conforme Portarias e Resoluções pu-
blicadas no Diário Ocial do Estado.
Com base nessa orientação, a Câmara de Graduação tem aprovado as
estruturas curriculares das Unidades Universitárias, após a audiência das
respectivas Congregações.11 Dentre as estruturas aprovadas no ano ante-
rior, refere-se uma delas a novo curso, o de Turismo, a cargo da Escola de
Comunicações e Artes.
Ora, tendo em vista o mandamento do artigo 23, inciso I, do Estatuto;
considerando outrossim, a competência delegada à Câmara de Graduação,
de cujas atividades tem o CEPE tomado ciência; considerando, nalmen-
te, a necessidade da regularização do Curso antes mencionado, possibili-
tando o seu oportuno reconhecimento pelo Egrégio Conselho Estadual
de Educação permito-me propor a Vossa Magnicência seja solicitada ao
Colendo Conselho Universitário, nos termos do artigo 20, inciso XII,
do Regimento Geral da USP, sua indispensável autorização no tocante à
criação e organização do citado Curso.
Prevaleço-me do ensejo para renovar a Vossa Magnicência os protestos
11 É necessário ressaltar que a ECA ainda não tinha Congregação, formada somente em 1975.
81
de minha alta consideração (Processo 33.039/72, p. 195-196).
O processo foi encaminhado ao Conselho Universitário. Em 07/12/73
o conselheiro Nestor Goulart Reis Filho da Faculdade de Arquitetura e
Urbanismo (FAU-USP) solicitou vistas ao processo. Como este foi o úni-
co conselheiro que interferiu diretamente no andamento do processo no
Conselho Universitário, foi de grande importância entrevistá-lo:
Pergunta: Quando peguei a documentação da universidade, a única coi-
sa que sai de um processo administrativo normal, é quando o ex-diretor
da ECA, que era o Antonio Guimarães Ferri, pede para que o processo
de reconhecimento do curso de Turismo seja averiguado pelo Conselho
Universitário; estava tudo mais ou menos coerente – o curso começou a
ser ministrado no segundo semestre de 1973 – aí, em 7 de dezembro de
1973, o senhor pede vistas ao processo. Isso cou um buraco na minha
pesquisa. É melhor falar com o senhor para saber o que ocorreu.
Nestor Goulart Reis Filho: Eu estava tentando entender como seria mon-
tado na universidade e com quais objetivos, algo com interfaces com vá-
rios setores. Porque algumas áreas como esta, elas terminam por envolver
não só a área de economia, de administração, área de cultura. Enm, eu
estava tentando entender como é que se montaria um curso de Turismo.
Não seria obviamente viajando. Então, qual seria a prática? Quais seriam
os fundamentos do curso? Na ocasião, para mim, isto ainda estava nebu-
loso. Eu queria entender como é que a universidade iria montar isto. Só
por isto é que eu pedi vistas para poder entender. Depois eu devolvi o
processo. Inclusive, que eu me lembre, conversei com o Mário Beni.
Pergunta: Eu vi. Depois de onze meses, em novembro de 1974, o senhor
devolve, dizendo que havia conversado com o Mário Beni, mas também
diz que os esclarecimentos que o senhor pediu não foram atendidos.
Nestor Goulart Reis Filho: Não foi o único caso. A universidade tem que
fazer ajustes face às diculdades da sociedade. Respondendo às diculda-
des que ocorrem em todos os âmbitos sociais. Havia dúvidas sobre este
e outros casos no Conselho que se deviam à preocupação de se pensar
duas vezes sobre o modo de fazê-lo. Em primeiro lugar, uma dúvida: por
que na Escola de Comunicação e Artes e não na Administração? Por que
não na Geograa e História? Estava-se com dúvidas deste tipo. Por outro
lado, ainda estava se começando a se organizar setores interdisciplinares.
A reforma universitária era recente: 1969, aplicada a partir de 1970. Com
82
a reforma, por um lado, as unidades foram divididas em departamentos
e que não podiam se repetir. Todos os departamentos de economia foram
reunidos na Faculdade de Ciências Econômicas [atual FEA], e assim por
diante. Então, por um lado houve esse enrijecimento. Por outro lado,
começou a haver uma liberdade de remanejamento dos currículos. Então,
era possível rapidamente atender as mudanças objetivas. E ainda não era
muito claro como isto ia funcionar na nova estrutura.
Pergunta: O regimento da USP é de 1972...
Nestor Goulart Reis Filho: 1972, então, um curso, uma área muito vaga
como Turismo... A pergunta que se tinha necessariamente era onde?
Por que na ECA? Turismo é uma forma de comunicação? Na verdade
não era bem isso, mas ia envolver partes de Relações Públicas, parte de
Administração. Era difícil entender inclusive o papel que o curso teria
dentro da ECA, mas a ECA absorveu muita coisa que ainda não estava
clara. Eu acho que isto ainda não é muito claro dentro da USP. Entretanto,
o que aconteceu e está acontecendo é que ao longo da segunda metade do
século XX, até agora pelo menos, o turismo foi se caracterizando como o
setor de maior movimentação comercial entre todos os setores econômi-
cos, até mais que o petróleo. Envolvendo quantias gigantescas em escala
mundial. Com uma composição extremamente complexa que envolve
uma fatia de transporte aéreo, transporte terrestre, hotelaria, câmbio, uma
quantidade enorme de setores. Isso necessariamente levou à preocupação
de formas adequadas, especializadas, para respostas de um setor econômi-
co que é importante. Que naquela época, no Brasil, era muito frágil. Se eu
bem me lembro, não existia a Embratur ou ela estava sendo criada.
Então, o que eu estava querendo entender era o modo pelo qual a univer-
sidade estava disposta a fazer isto. Foi ao Conselho o projeto da ECA e
eu queria conversar com a pessoa que eu conheço e que estava dentro da
área, para entender como isto estava sendo feito. Eu acho que não se pode
votar no Conselho Universitário alteração dos cursos da universidade sem
se entender como funciona a novidade.
Pergunta: O senhor foi o único a pedir vistas...
Nestor Goulart Reis Filho: Pois é, eu sempre fui meio teimoso com es-
tas coisas no Conselho. Com a primeira fundação da USP, que foi a da
Engenharia Eletrônica, na Poli, o reitor era o Prof. Miguel Reale. Ele for-
mulou juridicamente a novidade. Se você for procurar na pasta, vai ver que
eu insisti que deveria ter uma só, para a USP toda, como hoje é a FUSP.
Porque dentro de trinta anos nós teríamos pelo menos quarenta fundações
na universidade, e é o que está acontecendo. Porque com a sua disparidade
83
e a falta de uma política geral, estamos vendo uma série de ações por parte
de vários setores da universidade contra esta situação. Porque não era claro
para mim o modo pelo qual este problema ia ser resolvido.
Eu não podia votar contra, não acho correto, e impedir as pessoas de intro-
duzirem inovações, mas ao apoiar as inovações, eu quero discutir o modo
pelo qual elas são introduzidas. É para ganhar em exibilidade do lado do
ensino e permitir um ajuste rápido diante da prática, que é o que acontece.
O Turismo ainda é um setor caixa preta. Do ponto de vista de forma-
ção técnica, é um setor caixa preta. Eu tinha em vista, por exemplo, o
procedimento usado pelos anglo-saxônicos na área de biblioteconomia, e
outras. Em que não existe o curso de biblioteconomia na graduação. Ele
existe na pós-graduação como uma qualicação do prossional da área.
Não se pode supor que a bibliotecária seja competente na área de arqui-
tetura. Supõe-se que o bibliotecário seja formado em arquitetura e depois
faça um ano de biblioteconomia porque é uma técnica, como é o jorna-
lismo cientíco ou o jornalismo especializado no setor cultural. Evita-se
esta bobagem que só os jornalistas podem escrever em jornal. A ideia é
que o indivíduo faça um curso para desenvolver sua prática em cima de
um campo de conhecimento. Pelo menos, esta alternativa deveria existir.
Pensei que na área de Turismo, o Turismo em si pudesse ser um curso de
pós-graduação ou de especialização para indivíduos formados em outras
áreas. Porque isto ainda é uma caixa preta. Ou nós podemos pensar em
duas maneiras de se formar as pessoas.
Uma área complexa sempre propõe estas questões para a gente. Por isso eu
pedi vistas. Eu não sabia bem. Depois eu vi o Mário Beni, daí eu me con-
venci que eles da área estavam achando que era por aí, eu não quis atra-
palhar. Não é porque eu tenho dúvidas que os outros não vão trabalhar.
Quem começa a fazer, que façam. É muito mais fácil resolver as dúvidas
que eu levantei. Não fazendo, certamente elas não vão ser resolvidas nun-
ca. Eu sou um prossional de área aplicada. (Sugiro usar apenas essa parte
da citação... para não car tão longa.. e dar ênfase ao que é dito aqui para
o objetivo da obra.... um comentário e o parágrafo a seguir...)
Turismo, que não é uma forma de comunicação, certamente não é, mas,
anal, se arquitetura está na área de ciências humanas... Nós, arquitetos,
não podemos reclamar deles. Com todo o meu encanto pelas ciências
humanas! Mas isto sou eu, não é a arquitetura. Meus colegas têm que
sentar todos os dias em frente das pranchetas e fazer projetos. Por isto
é que se chama área aplicada. É como dentista, se ele parar de cuidar de
nossos dentes para discutir teoria, nós vamos ter dor de dentes. Não dá
84
para separar uma área de aplicação da sua prática (Entrevista gravada com
o Prof. Nestor Goulart dos Reis Filho em 30/10/01).
Em 07/11/1974, Nestor Goulart Reis Filho devolve o processo:
Magníco Reitor
Nosso objetivo, ao pedir vistas do presente processo, foi e continua sendo,
opinar sobre a organização do Curso de Turismo.
Todavia, em contato com o Prof. Beni, da ECA, tomamos conhecimento
da existência de informações adicionais, que aquele professor cou de nos
fornecer, para melhor fundamentação de nosso parecer.
Considerando o tempo decorrido, sem que fosse possível providenciar tais
informações, julgamos conveniente devolver o processo a essa Reitoria,
para não dicultar sua tramitação, na parte referente a outros cursos
(Processo 33.039/72, p. 198).
É consenso na Escola de Comunicações e Artes, conrmado pelos
principais entrevistados desta pesquisa, que o responsável pela estrutura do
curso de Turismo da USP é o Prof. Mário Carlos Beni. Este professor é o
responsável pela elaboração das propostas curriculares do curso da ECA que
serão apresentadas posteriormente.
Mário Beni iniciou sua vida acadêmica na Escola de Comunicações
e Artes em 1970 como Auxiliar de Ensino Voluntário no departamento de
Relações Públicas e Propaganda. Em abril de 1971, Mário Beni foi aprova-
do no concurso que este departamento realizou para o preenchimento de
vaga da disciplina recém-criada de Turismo e Desenvolvimento. A partir de
1972, além de lecionar na ECA, o professor ministra as disciplinas de Teoria
e Técnica de Turismo e também Planejamento e Organização do Turismo nas
faculdades Morumbi e Ibero-Americana. Em 1972, Mário Beni é designado
pelo diretor da ECA, Manuel Nunes Dias, para elaborar o plano curricular
do curso de Turismo da USP. Para tanto, o professor arma em seu memorial
ter consultado alguns centros de estudos no exterior, notadamente o Centro
des Hautes Études de Tourisme da Universidade de Aix-en-Provence, sob a
orientação do Prof. René Baretje.
Solicitou-se, em entrevista, ao Prof. Mário Beni que relatasse o surgi-
mento do curso:
85
Mário Beni: Na época tivemos bastante resistência por parte do Conselho
Universitário e da própria ECA, que não imaginava a necessidade de se de-
senvolver um curso de Turismo. Depois houve o interesse de outras unida-
des da USP, sabendo que a Escola de Comunicações pensava em desenvol-
ver o curso de Turismo. A FAU [Faculdade de Arquitetura e Urbanismo]
se interessou; a própria FEA [Faculdade de Economia e Administração]
se interessou; a área de Geograa da Faculdade de Filosoa também teve
interesse, mas nós tivemos a habilidade. Eu pessoalmente coordenando
um grupo envolvendo professores de todas estas áreas. Trouxemos para
coordenador do curso o Prof. Antonio Rocha Penteado, que era titular do
departamento de Geograa. Isto nos deu muita força. Trouxemos o Prof.
José Ferreira Carrato do departamento de História. Da Economia, eu
convidei o Prof. Wilson Rabahy, que veio da FEA e hoje é titular da ECA.
Quer dizer, para cada disciplina do curso de Turismo, nós trouxemos um
professor titular de outras unidades da universidade. [...] O que eu z?
Isto é importantíssimo você colocar. Como eu não tinha quadros docentes
no início, Turismo foi o primeiro curso na própria USP que trabalhou a
interdisciplinaridade com diferentes unidades. O curso de Turismo, que
tem uma grande necessidade de interdisciplinaridade, nasceu e só poderia
nascer numa universidade como a de São Paulo. […]
Pergunta: Não deve ter sido fácil. A reforma universitária era recente. A
resistência deve ter sido grande...
Mário Beni: Era uma resistência curiosa. Não era direta. Nunca, em ne-
nhum momento a resistência foi assim no sentido aberto, de críticas ou
de qualquer coisa, isto nunca houve. Havia ações que solapavam as ini-
ciativas do curso etc. É nesse sentido que a coisa acontecia, mas nunca
diretamente. […]
Pergunta: A aprovação em 1975 no Conselho Universitário deve ter sido
calorosa, pois o regimento da USP era recente quando este curso foi cria-
do; era de 1972.
Mário Beni: E pegou uma fase em que a própria ECA era contestada
enquanto unidade isolada. A própria ECA tinha diculdades. Não é tão
diferente. Hoje ainda, apesar de ser uma escola consolidada, com mais de
trinta cursos, ela ainda tem diculdades. O pessoal da área clássica, cien-
tíca, questiona a área de Comunicação, a área de Turismo. Foi um longo
caminho até hoje o Turismo chegar a ser um dos cursos mais solicitados da
USP (Entrevista gravada com o Prof. Mário Carlos Beni em 17/10/2001).
O processo de criação do curso de Turismo é incluído novamente na
86
pauta de reunião do Conselho Universitário em 22/12/1975. Em 29/12/75,
o Conselho Universitário da USP se reúne para deliberar, entre outros temas,
sobre o curso de Turismo. Este é o último processo a ser aprovado nesta reu-
nião, no antepenúltimo dia do ano:
Em discussão o Processo 33.039/72, de interesse da Escola de Comunicação
e Artes, que trata da criação e organização do Curso de Turismo na ECA,
face à decisão do CEPE. Amplamente discutida a matéria, o Conselho
aprova a criação e organização do citado Curso, por 41 (quarenta e um)
votos contra 10 (dez), havendo 7 (sete) em branco. Decide o Conselho
que nenhum Curso mais terá início na USP, sem que haja autorização
prévia deste Colegiado, evitando-se, destarte, fatos consumados, caso
deste Processo (Ata da 682ª Sessão do Conselho Universitário da USP,
29/12/1975, p. 12).
Os votos contrários à aprovação do curso não foram registrados nomi-
nalmente, impossibilitando saber-se quais conselheiros votaram contra. Cabe
destacar que a maioria do colegiado não aprovou a forma como este curso
iniciou seu funcionamento sem a autorização do Conselho Universitário.
Deve-se a isto o adendo nal da ata desta reunião armando que eles estavam
raticando um fato consumado e que isto doravante não deveria se repetir.
O reconhecimento do curso de Turismo da USP é solicitado em
27/12/77 ao Conselho Estadual de Educação pelo diretor da ECA que substi-
tuiu o Prof. Manuel Nunes Dias: o ex-coordenador da Câmara de Graduação
do CEPE, Prof. Antonio Guimarães Ferri. O curso é aprovado pelo Conselho
Estadual de Educação com o parecer CEE 578/78 e reconhecido pelo Decreto
82.244 de 11/09/78, publicado no Diário Ocial da União no dia seguinte.
87
O CORPO DOCENTE DOS PRIMEIROS
CURSOS DE TURISMO
Em junho de 1968, na sua Indicação 14/68, três meses antes da publi-
cação ocial da reforma universitária, o Conselho Federal de Educação ma-
nifesta sua preocupação com a autorização de ensino a professores de novas
áreas acadêmicas. O CFE atesta sua diculdade em autorizar professores au-
todidatas para estas carreiras novas. Mesmo assim, admite que será impossível
evitar um certo grau de improvisação no magistério superior:
Contudo, a experiência do Conselho tem demonstrado as diculdades,
por vezes intransponíveis, na rigorosa aplicação da norma, nas condições
atuais de expansão do ensino superior brasileiro. Com efeito, esta expan-
são se tem caracterizado não apenas pelo aumento da população estudan-
til, pela multiplicação de escolas, mas também pela extrema diversicação
dos cursos, consequência natural de um mercado de trabalho que se dife-
rencia cada vez mais com o processo de desenvolvimento. [...]
Assim sendo, torna-se realmente impossível, em certos casos, a indicação
de docentes qualicados que preencham a condição essencial imposta pela
Portaria 6. Ocorre, no presente, situação semelhante à que se vericou há três
decênios quando se iniciou o movimento de implantação das Faculdades de
Filosoa. Tivemos, então, de recorrer a especialistas autodidatas e muitos fo-
ram os professores de Sociologia, História, Psicologia, Geograa, Educação,
etc., que não eram diplomados nas respectivas especialidades e nem mesmo
estudaram, em seus cursos de graduação, a disciplina que passaram a le-
cionar. Atualmente, são novos cursos técnico-prossionais que surgem e,
em consequência, incorporam-se ao ensino superior áreas de conhecimento
até então inexploradas, e para as quais não dispomos ainda de professores
diplomados em cursos de graduação especializados.
Nestas condições, haverá casos em que não teremos outra alternativa se-
não aceitar a indicação de estudiosos do assunto, diplomados em cursos
88
de graduação onde não gura a disciplina a ser lecionada, de preferência
cursos de áreas ans, e que demonstrem sua capacidade por meio de outros
tipos de cursos idôneos ou publicações especializadas de valor comprovado.
Diante desses fatos, impõe-se a modicação do texto legal para ajustá-lo às
situações concretas. [...] Em vista dessas considerações, o art. 3º passaria
a ter a seguinte redação:
[…] “Excepcionalmente, o diploma de curso superior na forma exigida
por este artigo pode ser substituído por diploma de outros cursos de gra-
duação, preferencialmente de áreas ans, e complementado por outros
títulos que demonstrem a capacidade técnica do candidato na disciplina a
ser lecionada” (Documenta, n. 87, junho 1968, p. 117-119).
Esta indicação é assinada pelo seu relator, o presidente da Câmara de
Ensino Superior do CFE, Newton Sucupira. Desde então, existe a possibi-
lidade de professores graduados em áreas ans lecionarem em cursos novos
como o de Turismo.
Acompanhar a formação original dos primeiros professores de Turismo
pode esclarecer como intelectuais migram de suas áreas de graduação para esta
nova área acadêmica. É possível saber a formação universitária dos professores
dos cursos de Turismo pesquisando os processos de autorização e reconheci-
mento de tais cursos. Executou-se o levantamento dos professores da Faculdade
de Turismo do Morumbi, do curso de Turismo da Faculdade Ibero-Americana
e do curso de Turismo da ECA-USP. A listagem detalhada com os nomes de
cada professor, sua formação e a disciplina indicada a lecionar está em ane-
xo, no nal deste trabalho. Apresenta-se aqui apenas o resumo tabulado da
formação de graduação destes docentes. Os professores que não possuem a
graduação declarada informaram o número do parecer do CFE que os habili-
taram a lecionar. Alguns professores eram graduados em mais de um curso. Os
professores indicados para lecionar na Faculdade de Turismo do Morumbi e na
Ibero-Americana necessitavam autorização do Conselho Federal de Educação.
No curso da ECA-USP, os professores foram autorizados a lecionar pela univer-
sidade e pelo Conselho Estadual de Educação de São Paulo.
Faculdade de Turismo do Morumbi (Documenta, n. 135, fev. 1972, p.
27-31 e 228-229):
Foram indicados vinte e cinco professores para compor o corpo docen-
te; destes, seis professores não tiveram sua formação de graduação informada.
89
A formação comprovada de graduação dos professores é a seguinte:
Economia - 4
Engenharia - 4
História - 4
Direito - 3
Arquitetura - 2
Geograa - 2
Ciências Sociais - 1
Educação Física - 1
Jornalismo - 1
Pedagogia - 1
Relações Públicas - 1
Graduação não informada - 6
Destes professores, além da Faculdade de Turismo do Morumbi, três
lecionam simultaneamente na USP; sendo que apenas um também leciona
no curso de Turismo da ECA. Dois professores lecionam na Universidade
Mackenzie e dois outros na Fundação Getúlio Vargas.
A Faculdade Ibero-Americana de Letras e Ciências Humanas teve o
curso de Letras e o curso de História autorizados anteriormente ao curso de
Turismo (Documenta, n 134, jan. 1972, p. 95-96). O CFE reconhece que os
professores autorizados para estes cursos poderão lecionar algumas disciplinas
do curso de Turismo, portanto, o elenco de professores apresentado é bem
menor do que o da Faculdade de Turismo do Morumbi. Foram indicados
oito professores para compor o corpo docente do curso de Turismo; destes,
dois não tiveram sua formação de graduação informada.
A formação comprovada da graduação dos professores é a seguinte:
Letras - 3
Geograa - 1
História - 1
Jornalismo - 1
Graduação não informada - 2
Destes professores, além da Faculdade Ibero-Americana de Letras e
Ciências Humanas, um leciona simultaneamente na USP; um na Universidade
Mackenzie; e um na FMU.
90
Professores do curso de Turismo da Escola de Comunicações e Artes da
USP (Processo 02/78 do Conselho Estadual de Educação de São Paulo, Vol.
III, pp. 549-553)12, foram apresentados quinze professores, alguns com mais
de uma graduação:
A formação dos professores é a seguinte:
Comunicação pela ECA-USP - 4
Cursando mestrado em Comunicação na ECA-USP - 4
Economia - 4
Direito - 3
Ciências Sociais - 1
Engenharia - 1
Geograa - 1
Jornalismo - 1
Letras - 1
Graduado em Turismo - 1
No processo de reconhecimento do curso de Turismo da ECA-USP
não constam quais professores lecionam em outras faculdades.
Ao todo, nos três primeiros cursos de Turismo de São Paulo, a forma-
ção comprovada de graduação dos professores é a seguinte:
Economia - 8
Direito - 5
Engenharia - 5
História - 5
Comunicação pela ECA-USP - 4
Geograa - 4
Letras - 4
Jornalismo - 3
Arquitetura - 2
12 Processo 02/78 do Conselho Estadual de Educação de São Paulo, Vol. III, pp. 549-553. Trata-se do
processo de reconhecimento do curso de Turismo da ECA-USP. Devido à autonomia universitária,
a USP não necessitava pedir ao Conselho Estadual de Educação autorização para funcionamento
de seus cursos, precisava apenas do reconhecimento dos mesmos. Assim sendo, não foi possível
levantar o corpo docente inicial do curso da ECA, somente o corpo docente quando de seu processo
de reconhecimento em 1978. Entretanto, esta informação é por demais relevante e será usada neste
levantamento.
91
Ciências Sociais - 2
Educação Física - 1
Pedagogia - 1
Graduado em Turismo - 1
Graduação não informada - 8
No caso da ECA-USP, constata-se que, além de quatro professores
graduados em Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes, outros
quatro cursavam pós-graduação em Comunicação na ECA. Isto demonstra
uma preocupação ausente nas faculdades isoladas que ministravam o cur-
so de Turismo: a proposta de formar na Escola de Comunicação e Artes os
professores que lecionariam em seus próprios cursos. Na década de 1970, a
pós-graduação em Comunicação na ECA constituía referência importante
para os professores do curso de Turismo daquela faculdade.
O processo de reconhecimento do curso da ECA é de 1978. Neste ano,
um dos professores do curso da USP é formado em Turismo pela Faculdade
Morumbi; único entre o corpo docente das três faculdades pesquisadas. Fato
impossível para as duas primeiras faculdades a criar o curso de Turismo, isto
é, a Morumbi e a Ibero-Americana. Não foi feito o levantamento de quan-
tos ex-alunos tornaram-se professores nos cursos de Turismo da Faculdade
Morumbi, na Ibero-Americana ou na ECA-USP.
A década de 1970 foi marcada pela visão de que o planejamento era
condição indispensável para o desenvolvimento do país. Uma das áreas aca-
dêmicas a ganhar destaque nesta proposta de planejar o desenvolvimento foi
a Economia. Não é coincidência que esta área seja também privilegiada no
corpo docente dos cursos de Turismo. Dos quarenta e oito professores pes-
quisados, oito não tiveram sua formação de graduação apresentada. Alguns
professores informaram mais de uma graduação. Como pode ser visto na
última tabela acima apresentada, dos quarenta professores com graduação
comprovada, oito eram graduados em Economia. Isto representa um quinto
dos professores que informaram sua graduação. Direito e Engenharia, cursos
tradicionais na universidade, constituem juntas a formação de um quarto
do corpo docente dos professores com graduação comprovada. Os demais
professores são das diversas áreas que tem como interlocutor as Ciências
Humanas; exceção feita ao graduado em Educação Física.
92
Em entrevista abordada em capítulo anterior, Mário Beni cita dois pro-
fessores que vieram da Faculdade de Filosoa, Letras e Ciências Humanas
da USP e que tiveram papel de destaque no quadro docente do curso da
ECA. Trata-se do geógrafo Antonio Rocha Penteado e do historiador José
Ferreira Carrato, este último, chefe de departamento de Relações Públicas e
Propaganda nos primórdios do curso de Turismo. Eles não constam da rela-
ção ocial de professores, pois eram aposentados pela Faculdade de Filosoa,
Letras e Ciências Humanas da USP e lecionavam na ECA como professores
visitantes. Embora tivessem destaque no quadro docente, esta posição de pro-
fessor visitante trazia desvantagens.
Manuel Nunes Dias, em depoimento sobre seu papel como diretor da
ECA, relata um episódio que retrata nitidamente a situação de um professor
visitante. Isto ocorreu quando o Prof. José Ferreira Carrato, chefe de depar-
tamento, numa reunião da recém-criada congregação da ECA em 1975, se
indispôs com o Prof. Manuel Nunes Dias:
Manuel Nunes Dias: Uma das minhas satisfações é que eu deixei a ECA
com congregação. Um dos membros da congregação, que eu respeitei
sempre como um grande cientista, quando eu comecei a perceber que ele
estava tumultuando, eu disse:
– Senhor professor, vamos tomar um cafezinho. Está suspensa a sessão por
quinze minutos, vamos tomar um cafezinho.
Ele respondeu:
– Eu não vou sair daqui.
– Bem, professor, se o senhor não vai sair... Meus senhores, eu lamento
muito, mas tudo aprovado nesta sessão, os atos administrativos são nulos,
anuláveis ou inexistentes. Os aprovados nesta sessão são inexistentes.
– Por que inexistentes?
– O senhor não pode ser membro da congregação, o senhor não pode
nem ser chefe de departamento.
Porque o professor se aposentou na Filosoa e passou para a ECA, quando
a ECA foi criada, como chefe de departamento. Quando eu criei a con-
gregação, ele continuava como professor visitante. Professor visitante não
pode ser membro da congregação.
Eu pensei que ele ia ter um enfarto. Ele cou cinza. A coisa mudou, aca-
bou tudo. Num saco de batata, basta ter uma batata apodrecida, as demais
vão apodrecer.
93
Ele foi meu professor de antropologia. Por uma questão de educação, eu
não ia criar problema, mas na medida que ele está me criando problema,
eu tenho que me defender (Entrevista gravada com o Prof. Manuel Nunes
Dias em 28/11/2001).
No Anexo II, no nal deste livro, é apresentada a listagem detalhada
dos nomes dos professores, sua formação e as disciplinas para as quais são
indicados a lecionar nestas três faculdades.
95
CURRÍCULOS DE CURSOS SUPERIORES
DE TURISMO
Neste capítulo, serão apresentados os currículos dos três primeiros
cursos superiores de Turismo de São Paulo em 1975. Neste ano, tanto a
Faculdade de Turismo do Morumbi quanto a Faculdade Ibero-Americana
concluem suas primeiras turmas de Turismo, possibilitando acompanhar seus
currículos de maneira completa. Ainda em 1975, o Conselho Universitário
da USP aprova o curso da ECA e a universidade edita seu primeiro Esboço do
catálogo geral dos cursos de graduação com seus respectivos currículos.
Primeiro currículo da Faculdade de Turismo do Morumbi13:
1º semestre: Carga horária:
Geograa Geral I 64
História do Brasil I 32
História da Cultura I 32
Sociologia I 32
Psicologia I (Aplicada) 32
Matemática 32
Teoria e Técnica do Turismo I 64
Educação Física (Práticas Desportivas) 32
2º semestre: Carga horária:
Geograa Geral II 64
História do Brasil II 32
História da Cultura II 32
13 -Pesquisa junto à Gerência de Comunicação da Universidade Anhembi Morumbi.
96
Sociologia II 32
Psicologia II (Social) 32
Estatística 32
Teoria e Técnica do Turismo II 64
Educação Física (Práticas Desportivas) 32
3º semestre: Carga horária:
Geograa do Brasil I 32
Cultura Brasileira I 32
Economia I 32
Administração I (Teoria Geral da Administração) 32
Métodos e Técnicas de Pesquisa I 32
Estatística 32
Teoria e Técnica do Turismo III 128
Comunicação I 32
Educação Física (Práticas Desportivas) 32
4º semestre: Carga horária:
Geograa do Brasil II 32
Cultura Brasileira II 32
Economia II (Teoria Econômica) 32
Administração II (Teoria Geral da Administração) 32
Métodos e Técnicas de Pesquisa II 32
Teoria e Técnica do Turismo IV 128
Comunicação II 32
Educação Física (Práticas Desportivas) 32
5º semestre: Carga horária:
Planejamento e Organização do Turismo I 128
Economia III (Macro) 32
Administração I (Pessoal) 32
Contabilidade I 32
Noções de Direito I (Instituições de Direito Público) 32
Introdução às Técnicas de Comunicação I 32
97
Estudos Brasileiros I (Problemas Sociais Contemporâneos) 32
Educação Física (Práticas Desportivas) 32
6º semestre: Carga horária:
Planejamento e Organização do Turismo II 128
Economia IV (Internacional) 32
Administração II (Material) 32
Contabilidade II 32
Noções de Direito II (Instituições de Direito Privado) 32
Introdução às Técnicas de Comunicação II 32
Estudos Brasileiros II (Problemas Sociais Contemporâneos) 32
Educação Física (Práticas Desportivas) 32
7º semestre: Carga horária:
Planejamento e Organização do Turismo III 128
Administração III (Financeira) 32
Legislação I (Social) 32
Estudo dos Problemas Brasileiros I 32
Transporte I 32
Marketing I (Administração Mercadológica – Produção) 32
Técnica Publicitária I 32
Educação Física (Práticas Desportivas) 32
8º semestre: Carga horária:
Planejamento e Organização do Turismo IV 128
Administração IV (Financeira) 32
Legislação II (Social) 32
Estudo dos Problemas Brasileiros II 32
Transportes II 64
Marketing II (Administração Mercadológica – Produção) 32
Técnica Publicitária II 32
Educação Física (Práticas Desportivas) 32
Estágio Prossional 270
98
Primeiro currículo de Turismo da Faculdade Ibero-Americana de Letras e
Ciências Humanas14:
1º ano Carga horária:
Língua Portuguesa I 56
Língua Espanhola I 91
Língua Inglesa I 91
Teoria e Técnica do Turismo I 120
Sociologia 58
Geograa Geral 64
História da Cultura Universal 120
Educação Física 60
2º ano Carga horária:
Língua Portuguesa II 64
Língua Espanhola II 66
Língua Inglesa II 66
Teoria e Técnica do Turismo II 96
História da Cultura Brasileira 62
História do Brasil 64
História da Cultura Universal 62
Economia Geral e da Empresa 62
Geograa do Brasil 62
Metodologia da Pesquisa 60
Teoria e Técnica da Comunicação 62
Psicologia 62
Educação Física 60
3º ano Carga horária:
Introdução à Administração 126
Planejamento e Organização do Turismo I 126
Técnica Publicitária 64
Relações Públicas e Humanas 62
14 Pesquisa junto ao Departamento de Turismo da Unibero.
99
Contabilidade Geral e da Empresa 64
Estatística 62
Estudo de Problemas Brasileiros 64
Noções de Direito 64
Educação Física 60
4º ano Carga horária:
Administração de Empresas Turísticas 124
Planejamento e Organização do Turismo II 124
Mercadologia 62
Publicidade e Propaganda Turística 62
Contabilidade de Custos 64
Economia de Transportes Aéreos e de Superfície 62
Estudo de Problemas Brasileiros 31
Ética de Legislação Turística 64
Educação Física 60
Currículo do curso de Turismo da Escola de Comunicação e Artes da USP15:
1º semestre: Créditos:
Biblioteconomia-Bibliograa e Documentação 2
Fundamentos Cientícos da Comunicação I 4
História da Arte I 4
Comunicação Linguística I 3
Sociologia 3
História da Cultura e da Comunicação I 4
Palestras e Seminários 4
2º semestre: Créditos:
História da Cultura e da Comunicação II 3
Fundamentos Cientícos da Comunicação II 3
Comunicação Linguística II 3
Fundamentos Filosócos da Comunicação 4
15 Pesquisa na reitoria da Universidade de São Paulo; processo 33.039/72.
100
Cultura Brasileira 3
Matemática 3
Idioma Estrangeiro I 3
Palestras e Seminários 2
3º semestre: Créditos:
Ética e Legislação dos Meios da Comunicação 3
Introdução ao Jornalismo e à Editoração 3
Introdução à Teleradiodifusão, Cinema e Teatro 3
Informática I 3
Problemas Sociais e Econômicos Contemporâneos 2
Estatística 3
Idioma Estrangeiro II 3
Palestras e Seminários 4
4º semestre: Créditos:
Fundamentos Históricos do Turismo I 3
Estatística Aplicada ao Turismo 3
Metodologia da Pesquisa I 3
Fundamentos Geográcos do Turismo I 4
Comunicação e Lazer 3
Idioma Estrangeiro III 4
5º semestre: Créditos:
Teoria e Técnica do Turismo II 3
Análise Econômica do Turismo I 4
Sociologia Aplicada ao Turismo 3
Metodologia da Pesquisa II 3
Fundamentos Geográcos do Turismo II 4
Fundamentos Históricos do Turismo II 3
Psicologia Aplicada ao Turismo 4
101
6º semestre: Créditos:
Teoria e Técnica do Turismo III 3
Psicologia Social Aplicada ao Turismo 3
Propaganda Aplicada ao Turismo 3
Administração Geral 4
Relações Públicas Aplicadas ao Turismo 3
Fundamentos Geográcos do Turismo III 3
Folclore 2
Análise Econômica do Turismo II 3
O Conselho Universitário da USP aprovou em 1975 duas opções curriculares
para o último ano do curso:
Habilitação em Organização e Administração de Empresas de Turismo:
7º semestre: Créditos:
Teoria e Técnica do Turismo IV (meios de transporte) 4
Análise Econômica do Turismo III 3
Teoria Geral da Organização e Administração de Em-
presas de Turismo I 4
Contabilidade Geral e da Empresa I 3
Problemas Brasileiros I 2
Mercadologia I 2
Direito I 3
Matemática Financeira 3
8º semestre: Créditos:
Teoria e Técnica do Turismo V (meios de transporte) 3
Análise Econômica do Turismo IV 3
Contabilidade Geral e da Empresa II (custos) 3
Direito II 3
Teoria Geral da Organização e Administração de Em-
presas de Turismo II 4
Problemas Brasileiros II 2
102
Planejamento Empresarial em Turismo (análise de
projetos) 3
Mercadologia II 3
Habilitação em Planejamento do Turismo:
7º semestre: Créditos:
Teoria e Técnica do Turismo IV (meios de transporte) 4
Análise Econômica do Turismo III 3
Teoria do Planejamento 4
Planejamento e Organização do Turismo I 4
Problemas Brasileiros I 2
Mercadologia I 2
Direito I 3
Teorometria I 2
8º semestre: Créditos:
Teoria e Técnica do Turismo V (meios de transporte) 3
Análise Econômica do Turismo IV (análise de sistemas) 3
Mercadologia II 3
Direito I 3
Planejamento e Organização do Turismo II 4
Problemas Brasileiros II 2
Análise de Projetos (empreendimentos turísticos) 3
Teorometria II 3
No nal deste livro, no Anexo III, encontra-se uma compilação dos
diversos currículos de Turismo apresentados nesta obra. Este anexo começa
com o currículo do curso de Guia de Turismo do Senac-SP de 1965, passan-
do pelos currículos mínimos estabelecidos pelos conselhos de educação, até
os currículos dos cursos superiores em 1975; inclusive, com as variantes da
proposta de currículo da ECA que existiram antes da que foi aprovada pelo
Conselho Universitário da USP, apresentada acima.
Embora os currículos da Faculdade Morumbi e da ECA fossem
103
semestrais, as disciplinas oferecidas no segundo semestre letivo são continuação
das disciplinas do primeiro semestre; salvo algumas exceções do curso da ECA.
Os currículos da Faculdade Morumbi e da Ibero-Americana são
muito semelhantes. Só não são idênticos porque a Ibero-Americana dava
grande ênfase à área de Letras; lecionando por dois anos as disciplinas de
Língua Portuguesa, Língua Espanhola e Língua Inglesa. Neste caso, a Ibero-
Americana supera em carga horária a ECA, que lecionava por três semestres
a disciplina de Idioma Estrangeiro. A Faculdade Morumbi não oferecia disci-
plinas de idiomas estrangeiros.
Por serem faculdades isoladas, a Faculdade Morumbi e a Ibero-
Americana não se preocuparam em modicar nomes de disciplinas como
História do Brasil, Economia ou Psicologia, que geralmente são oferecidas
em cursos especícos destas áreas. No caso da ECA, isto não era possível.
Por pertencer à USP, a Escola de Comunicação e Artes não poderia oferecer
no curso de Turismo disciplinas que fossem lecionadas em outras faculda-
des da universidade. Isto inviabilizaria a própria existência deste novo curso.
Em seu currículo, a ECA adota nomes de disciplinas como Fundamentos
Históricos do Turismo, Análise Econômica do Turismo, Psicologia Aplicada
ao Turismo etc., que substituem os exemplos acima citados. Isto não ocorre
quando são disciplinas ministradas em outros cursos da própria ECA, como
História da Arte ou Introdução ao Jornalismo e à Editoração, por exemplo.
Aliás, o que diferencia nitidamente o curso da ECA dos outros dois cursos
privados são estas disciplinas oferecidas originalmente nos demais cursos da
Escola de Comunicação e Artes. Além destas duas últimas disciplinas citadas,
pode-se mencionar Folclore; Biblioteconomia-Bibliograa e Documentação;
Introdução à Teleradiodifusão, Cinema e Teatro; e Informática.
Outro fator de diferenciação curricular do curso da ECA em relação
aos cursos da Faculdade Morumbi e da Ibero-Americana são três disciplinas
lecionadas no último ano da Escola de Comunicação e Artes. Estas discipli-
nas também diferenciam as duas habilitações que a ECA propõe. No caso
da habilitação em Organização e Administração de Empresas de Turismo,
a disciplina de Teoria Geral da Organização e Administração de Empresas
de Turismo. No caso da habilitação em Planejamento do Turismo, a disci-
plina Teoria do Planejamento e a disciplina Planejamento e Organização do
104
Turismo. Não existem disciplinas correlatas a estas no curso da Faculdade
Morumbi ou na Ibero-Americana. Mesmo levando em consideração estas
especicidades, os currículos dos três cursos citados, não são radicalmente
diferentes.
105
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A Universidade de São Paulo é a primeira universidade de renome in-
ternacional a criar o curso superior de Turismo. Isto não só no Brasil, mas
no mundo. Num contato inicial com o tema, pretendia-se desvendar os de-
bates teóricos que os intelectuais da universidade dedicaram à criação desta
nova carreira no ensino superior. Buscavam-se discussões acaloradas sobre o
saber e suas divisões acadêmicas. Cogitava-se que a academia debateria novos
cursos superiores sob o ponto de vista epistemológico da compartimentação
didática do conhecimento universitário. É possível que isto tenha acontecido.
Entretanto, não é o que cou registrado na documentação que sobreviveu do
período.
A criação de um novo curso superior é apresentada na documentação
como apenas decorrência de atos administrativos. Pretendeu-se que esta visão
fosse ampliada com a leitura do texto. A documentação trata de atos admi-
nistrativos, mas tais atos não são fruto da vontade arbitrária de oligarquias
acadêmico-burocratas encastelados em aparelhos do Estado. Envolvem inte-
resses, pressões sociais, propostas educativas e uma visão do mundo que se
pretende legar através da educação.
Este livro demonstra que nem todos os resultados dos atos adminis-
trativos aqui descritos estavam contidos antecipadamente naqueles atos ad-
ministrativos que lhes deram origem. Uma mudança curricular, uma disputa
por competência administrativa, e o tema central deste estudo, a criação de
cursos superiores de Turismo, não resultaram de um planejamento fechado.
O mundo da cultura e, portanto, da educação são dinâmicos. Inicia-se um
processo de reforma educacional: então, um sujeito histórico concreto, uma
instituição de ensino, ou um conselho de educadores atuam dependendo da
ocasião. E muito do que foi criado no campo educacional dos anos 1960
e da década de 1970 dependeu disso: das circunstâncias e suas complexas
106
interações. Quando essas circunstâncias foram favoráveis, possibilitaram que
algumas pessoas aproveitassem a oportunidade. Pode parecer uma obviedade,
mas a institucionalização do Turismo como curso universitário contou com
vários fatores favoráveis e com pessoas que aproveitaram a oportunidade. Nos
capítulos deste livro, descreveu-se estes fatores favoráveis e as pessoas que
aproveitaram a ocasião.
No início da pesquisa que resultou neste livro, buscava-se epistemo-
logia, como se a compartimentação didática dos saberes acadêmicos viesse
antes das práticas educacionais. Isto se mostrou um equívoco. A epistemo-
logia, como bem demonstra a entrevista de Nestor Goulart dos Reis Filho,
também é uma prática cultural, tensionada e atravessada pelas relações sociais
que perpassam o ambiente acadêmico. Estudar um caso concreto, como o da
institucionalização do Turismo como curso universitário, desfaz esta falsa di-
cotomia entre epistemologia e história. Nesse sentido, é possível que estudos
sobre a criação de outras carreiras acadêmicas tragam mais luz aos embates
entre os distintos grupos de interesse travados na universidade brasileira nas
últimas décadas. Anal, a universidade é fruto de práticas sociais concretas,
aliás, como tudo nesta vida.
107
FONTES
Acta, órgão ocial do Conselho Estadual de Educação de São Paulo. Do nº
1, do primeiro semestre de 1965 (os números iniciais ainda não eram men-
sais), ao nº 67, de junho de 1975.
Documenta, órgão ocial do Conselho Federal de Educação. Do nº 1, de
março de 1962, ao nº 175, de junho de 1975.
Conselho Estadual de Educação de São Paulo: Deliberação CEE-SP 12/71;
Processo CEE-SP 55/71; e Processo CEE-SP 02/78.
Reitoria da Universidade de São Paulo: Processo RUSP 24.808/71; Processo
RUSP 33.039/72; e Atas de Sessão do Conselho Universitário da USP de
1975, ano em que o curso de Turismo da ECA foi debatido neste Conselho.
Entrevistas gravadas – em ordem cronológica:
Luiz Gonzaga Godoi Trigo – 28/8/2001.
Mário Carlos Beni – 17/10/2001.
Nestor Goulart dos Reis Filho – 30/10/2001.
Manuel Nunes Dias – 28/11/2001.
Célia Portugal Matta – 17/12/2001.
Jarbas Passarinho – 19/12/2001.
109
REFERÊNCIAS
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União, suplemento ao nº 239, 17/12/1971.
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Comércio/Embratur, 1975 (foi elaborado em 1972).
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viagens: as realidades de Madrid, Roma e São Paulo. Dissertação (Mestrado
em Turismo). São Paulo: Escola de Comunicação e Artes, USP, 1990.
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UNESP, 2001.
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mento social no Brasil. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1980.
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Democracia no Brasil. São Paulo: Cortez, 1999.
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(Orgs.). Dicionário de educadores no Brasil. Rio de Janeiro: UFRJ, 1999
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110
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1996.
RIBEIRO, Maria das Graças. Políticas para a educação superior no Brasil
dos anos 90: o problema da diversicação das instituições. 2000. Tese
(Doutorado em Educação). São Paulo, PUC-SP, 2000.
ROCHA, Lucia Maria da Franca. A expansão do ensino superior e
o Conselho Federal de Educação. 1984. Dissertação (Mestrado em
Educação). Brasília, Universidade de Brasília, 1984.
SENAC. Projeto Memória Institucional da Gerência de Comunicação.
São Paulo: Senac, 1989.
111
TERIGI, Flavia. “Notas para uma genealogia del curriculum escolar”.
Propuesta Educativa, v. 7, n. 14, agosto 1996.
VALLE, Ione Ribeiro. Burocratização da educação: um estudo sobre o
Conselho Estadual de Educação do estado de Santa Catarina. Florianópolis:
UFSC, 1996.
113
ANEXO I
Carta da Confederação Nacional do Comércio
115
ANEXO II
Lista dos docentes dos primeiros cursos de Turismo
e suas respectivas disciplinas
No caso da Faculdade de Turismo do Morumbi e da Ibero-Americana,
os professores foram indicados ao Conselho Federal de Educação para lecio-
nar tais disciplinas; isto não signica que as lecionaram de fato.
Faculdade de Turismo do Morumbi
(Documenta, n. 135, fev. 1972, p. 27-31 e 228-229):
Adriano José Valongo é indicado para a disciplina de Educação
Física. É licenciado em Educação Física.
Benedita Marques Pinto é indicada para as disciplinas de Geograa
do Brasil e História do Brasil. É licenciada em Geograa e História,
com mestrado em Ciências Sociais e doutorado em História.
Arnaldo Gomes é indicado para a disciplina de Transportes
Rodoviários. É engenheiro civil, com mestrado em Engenharia.
Clóvis Ferreira de Carvalho é indicado para a disciplina de Noções
de Direito. Não é informada sua formação universitária. Quando
não é fornecida a formação universitária, encontra-se em seu lu-
gar o número do parecer pelo qual tal professor foi autorizado a
lecionar.
Dirceu Lino de Mattos é indicado para a disciplina de Geograa
do Brasil. Não é informada sua formação universitária. É professor
titular de Geograa Econômica Geral e do Brasil na Faculdade de
Filosoa, Ciências e Letras da USP.
Edmundo Éboli Bonini é indicado para a disciplina de Matemática
e Estatística. Não é informada sua formação universitária.
Enrico Giulio Polloni é indicado para a disciplina de Transportes
116
(Ferrovias). É engenheiro eletricista e engenheiro civil, com mestra-
do em engenharia. É engenheiro-chefe da Rede Ferroviária Federal.
Leciona na Universidade Mackenzie.
Flávio de Castro Teixeira é indicado para a disciplina de Introdução
à Administração e Economia. Bacharel em Ciências Econômicas.
É técnico de projetos da Embratur. Leciona na Universidade
Mackenzie.
Gabriel Mário Rodrigues é indicado para a disciplina de Teoria e
Técnica de Turismo. Além de ser dono da faculdade, é arquiteto.
Irene Eihorn Goldenberg é indicada para a disciplina de
Mercadologia e Pesquisa de Opinião Pública. É bacharel em
Ciências Econômicas.
Jorge Nomura é indicado para a disciplina de Teoria e Técnica de
Turismo. É arquiteto e bacharel em Ciências Econômicas.
José Roberto Reis de Oliveira é indicado para as disciplinas de
Noções de Direito e Estudos Brasileiros. É bacharel em Ciências
Jurídicas. É juiz do trabalho.
Maria Ottilia Pires Lanza é indicada para a disciplina de Psicologia
e Consciência Turística. É licenciada em Pedagogia e bacharel em
Ciências Jurídicas.
Mário Carlos Beni é indicado para a disciplina de Planejamento
e Organização do Turismo. É bacharel em Ciências Jurídicas e
Sociais. Leciona na ECA-USP.
Maurício Tragtenberg é indicado para a disciplina de Sociologia.
É bacharel em História. Leciona na Fundação Getúlio Vargas e na
PUC-SP.
Paulo Henrique da Rocha Corrêa foi indicado para as disciplinas
de História do Brasil e Estudos Brasileiros. Não é informada sua
formação universitária.
Paulo Pedro Perides foi indicado para a disciplina de Geograa
Geral. É licenciado em Geograa e História, com mestra-
do em Geograa. Leciona na PUC-Campinas e na Fundação
Valeparaibana de Ensino.
Sarah Strachman Bacal é indicada para a disciplina de Elementos
117
de Relações Públicas e Comunicação. É formada em Relações
Públicas pela ECA-USP.
Salim Abeid Netto é indicado para a disciplina de Relações Públicas
e Comunicação. É bacharel em Jornalismo.
Sérgio Bandeira de Mello é indicado para a disciplina de História
da Cultura. Não é informada sua formação universitária de gradua-
ção. É pós-graduado em História.
Sérgio Éboli Bonini é indicado para as disciplinas de Estatística e
Pesquisa de Opinião Pública. É engenheiro e bacharel em Ciências
Econômicas, com pós-graduação em Matemática Financeira.
Leciona na FMU. É parente do Edmundo Éboli Bonini citado
acima.
Victorio Lanza Filho é indicado para as disciplinas de Teoria e
Técnica do Turismo e Sociologia. É bacharel em Ciência Políticas e
Sociais e licenciado em Ciências Sociais.
Wagner Waneck Martins é indicado para a disciplina de Transportes
(Ferrovias). Não é informada sua formação universitária. É profes-
sor titular de Eletrotécnica Aplicada na Escola Politécnica da USP.
Waldson Alves Ferreira é indicado para as disciplinas de
Planejamento e Organização do Turismo e Análise da Demanda.
É arquiteto.
Yolanda Ferreira Balcão é indicada para as disciplinas de
Comunicação de Massa e Relações Públicas. Não é informada sua
formação universitária. Leciona na Fundação Getúlio Vargas.
Professores do curso de Turismo da Faculdade Ibero-Americana
(Documenta, n. 134, jan. 1972, p. 95-96):
Ana Maria de Almeida Camargo é indicada para a disciplina de
História do Brasil. É licenciada em História, com pós-graduação
em História.
Anna Sanchez é indicada para a disciplina de Língua Portuguesa e
Língua Espanhola. É licenciada em Letras, com pós-graduação em
Letras.
Eunice Correia da Costa é indicada para a disciplina de Geograa
118
Turística e Geral. É licenciada em Geograa. Cursava, então, pós-
-graduação em Geograa.
Ivete Taunnus é indicada para a disciplina de Sociologia. Não é
informada sua formação universitária. Leciona na FMU.
Lícia Di Sabbato Forzenigo é indicada para as disciplinas de
História Geral da Arte e História da Cultura. Não é informada
sua formação universitária de graduação. É doutora em Letras pela
Universidade de Roma.
Nida Gattaz é indicada para as disciplinas de Língua Espanhola e
Língua Portuguesa. É licenciada em Letras. É orientadora educa-
cional na PUC-Campinas. Leciona Língua Espanhola na USP.
Regina Helena Elias é indicada para as disciplinas de Língua Inglesa
e Fonética e Fonologia Inglesa. É licenciada em Letras. Cursava,
então, pós-graduação em Letras. É assistente na ECA-USP e lecio-
na no Mackenzie.
Rhea Sylvia de Lourdes Frasca é indicada para a disciplina de Teoria
e Técnica do Turismo. É bacharel em Jornalismo, com pós-gradua-
ção em Psicologia.
Professores do curso de Turismo da Escola de Comunicações e Artes da
USP (Processo 0002/78 do Conselho Estadual de Educação de
São Paulo, v. 3, p. 549-553):
Américo Pellegrini Filho leciona as disciplinas Folclore e Preservação
e Utilização do Patrimônio Natural e Cultural. É bacharel em
Jornalismo.
Antônio Januário Magalhães leciona as disciplinas de Teoria do
Planejamento e Análise de Projetos. É bacharel em Economia, com
pós-graduação em Administração de Empresas.
Carlos Eduardo Machado Júnior é auxiliar de ensino na ECA. É
bacharel em Ciências Econômicas. Cursava, então, mestrado em
Comunicação na ECA.
Hilário Ângelo Pelizzer leciona as disciplinas Economia dos
Transportes Aéreos e de Superfície; Transportes; Tráfego e
Transporte; e Sistemas de Transporte. É licenciado em Letras.
119
José Carlos de Souza Lima leciona as disciplinas Análise Econômica
do Turismo e Princípios de Economia da Empresa. É bacharel em
Ciências Econômicas.
Mário Carlos Beni leciona as disciplinas de Teoria e Técnica do
Turismo e de Planejamento e Organização do Turismo. É graduado
em Engenharia; Direito; e Ciências Sociais.
Miriam Rejowski é professora assistente voluntária da disciplina
Fundamentos Históricos do Turismo. É Bacharel em Comunicação
pela ECA.
Nelson Jahr Garcia é coordenador da disciplina Estudo de
Problemas Brasileiros. É bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais.
Cursava, então, mestrado em Comunicação na ECA.
Olga Tulik leciona a disciplina Fundamentos Geográcos do
Turismo. É licenciada em Geograa. Cursava, então, mestrado em
Geograa.
Ruy Rebello Pinho leciona Direito. É bacharel em Ciências Jurídicas
e Sociais. É doutor e livre docente em Direito Privado na USP.
Sarah Strachman Bacal leciona a disciplina Psicologia Social
Aplicada. É bacharel em Comunicação pela ECA. Em 1972,
no processo de autorização do curso da Faculdade de Turismo
do Morumbi, esta professora foi apresentada como formada em
Relações Públicas pela ECA. Na soma nal, ela consta como gra-
duada em Comunicação.
Ulisses Moraes leciona Metodologia da Pesquisa. É bacha-
rel em Comunicação pela ECA. Cursava, então, mestrado em
Comunicação na ECA.
Virgílio Nelson da Silva Carvalho é professor voluntário de
Administração Hoteleira. Graduado em Turismo pela Faculdade
de Turismo do Morumbi.
Waldir Ferreira leciona a disciplina Relações Públicas Aplicadas ao
Turismo. É bacharel em Comunicação pela ECA. Cursava, então,
mestrado em Comunicação na ECA.
Wilson Abrahão Rabahy leciona a disciplina Pesquisa de Opinião
Pública. É bacharel em Ciências Econômicas, Contábeis e Atuariais.
121
ANEXO III
Currículos de Turismo
Encontra-se aqui uma compilação dos diversos currículos de Turismo
apresentados nesta pesquisa. Este anexo começa com o currículo do curso
de Guia de Turismo do Senac-SP de 1965, passando pelos currículos míni-
mos estabelecidos pelos conselhos de educação, até os currículos dos cursos
superiores em 1975. Os primeiros currículos ainda não se referem a cursos
superiores.
Currículo do curso de Guia de Turismo do Senac de São Paulo de 1965.
Este curso exigia o ginasial completo:
Relações Humanas
Prevenção de Acidentes e Primeiros Socorros
Geograa e História Turística
Folclore, Tradição e Costumes
Noções de Arte e Estética
Excursões16
Currículo proposto ao MEC para o curso de Técnico em Turismo
pelo Colégio São Judas Tadeu da cidade de São Paulo em 1968. Este
currículo não foi aprovado (Documenta, n. 97, jan.-fev. 1969, p. 72):
Português, Língua e Literatura Luso-Brasileira
História Social e Política do Brasil
Geograa
Matemática
Ciências Físicas e Biológicas
16 -Pesquisa nos arquivos do Senac possibilitada pela sua Gerência de Comunicação.
122
Inglês
Francês
História da Arte e da Ciência
Literatura Universal
Turismo Interno e Externo
Técnica de Turismo
Administração de Empresa
Museologia
Promoção do Turismo Nacional
Educação Moral e Cívica
Educação Física
Psicologia e Relações Humanas
Currículo aprovado pelo Conselho Federal de Educação para cursos de
Técnico em Turismo em 1969 (Documenta, n. 97, jan.-fev. 1969, p. 73):
O currículo deverá atender, no mínimo, as seguintes disciplinas:
Português e Literatura de Língua Portuguesa
Geograa, e, em especial, a Geograa do Brasil
História do Brasil
Matemática
Ciências
As artes no Brasil: Artes plásticas, Arquitetura, Teatro, Música e
Cinema
Técnica de Turismo
Comunicação oral, escrita e visual
Relações Públicas
Completar-se-á o currículo com:
Educação Moral e Cívica
Educação Física
Inglês
Francês, Espanhol ou Italiano
Costumes brasileiros: indumentária, culinária, esportes, recreação
e outros aspectos.
123
Currículo do curso Técnico em Turismo do Senac de São Paulo em
1969. Este curso exigia o colegial completo:
Teoria e Técnica de Turismo
Pesquisa Turística
Geograa Turística
Legislação Turística
Relações Públicas Aplicadas
História (Arte, Folclore e Literatura)17
Currículo mínimo estabelecido pelo Conselho Estadual de Educação
de São Paulo para cursos de Técnico em Turismo em 15/03/71; tal
currículo surge seis semanas depois do currículo mínimo para cursos
superiores que será apresentado em seguida:
Artigo 1º - Fica instituído, no Sistema de Ensino do Estado de São
Paulo, o Curso Técnico de Turismo, ciclo colegial, com a duração de três anos
letivos, no mínimo.
Artigo 2º - As disciplinas do ciclo colegial secundário que integrarão,
obrigatoriamente, o currículo do Curso Técnico de Turismo, são as seguintes:
1 – Português - três séries
2 – Matemática - duas séries
3 – Geograa - uma série
4 – História - uma série
5 – Ciências Físicas e Biológicas - uma série
§ 1º - Educação Moral e Cívica é considerada disciplina obrigatória,
com a duração e programa previstos na forma da lei.
§ 2º - Além das disciplinas indicadas neste artigo, os estabelecimentos
deverão acrescentar mais uma ao currículo, escolhida dentre aquelas relacio-
nadas nos Artigos 6º e 7º e parágrafos da Deliberação CEE nº 36/68.
Artigo 3º - São disciplinas especícas obrigatórias do Curso Técnico de
Turismo:
1 – Língua Estrangeira (duas) - três séries
17 -Pesquisa nos arquivos do Senac possibilitada pela sua Gerência de Comunicação.
124
2 – Aspectos do Desenvolvimento Brasileiro - duas séries
3 – História das Artes e Artes no Brasil (Artes
Plásticas, Arquitetura, Teatro, Música e Cinema) - duas séries
4 – Folclore - duas séries
5 – Técnica de Turismo - duas séries
6 – Comunicação Social - uma série
7 – Legislação Aplicada - uma série
8 – Roteiros Turísticos - uma série
9 – Relações Humanas - uma série
Parágrafo único – Além das disciplinas especícas referidas nesse arti-
go, os estabelecimentos poderão incluir mais duas, de sua livre escolha.
Artigo 4º - A Coordenadoria do Ensino Técnico promoverá estudos vi-
sando à orientação e programas das disciplinas especícas relacionadas no ar-
tigo 3º, desta Deliberação, respeitado o disposto nos artigos 40 e 43, da LDB.
Artigo 5º - Educação Moral e Cívica e Educação Física, nos termos
da lei, são consideradas Práticas Educativas obrigatórias, sendo facultado aos
estabelecimentos incluir mais uma, de sua livre escolha.
Artigo 6º - Aos concluintes do curso instituído por esta Deliberação
será expedido diploma de Técnico de Turismo.
Artigo 7º - Aplicar-se-á ao Curso Técnico de Turismo, quanto ao regi-
me escolar, o dispositivo na Deliberação CEE nº 7/63; quanto às instalações
os dispositivos das Deliberações CEE nº 16/64 e 23/65; no que se refere à
scalização as normas baixadas pela Coordenadoria do Ensino Técnico.
Artigo 8º - Os pedidos de autorização de instalação e funcionamento
do Curso Técnico de Turismo para 1971, em caráter excepcional, poderão ser
apresentadas até trinta (30) dias após a homologação desta Deliberação e, a
partir de 1972, na conformidade do disposto pela deliberação CEE nº 23/65
(Deliberação CEE-SP 12/71, de 15/03/1971).
125
Os currículos seguintes se referem a cursos de Turismo de nível superior.
Currículo mínimo aprovado pelo Conselho Federal de Educação em
28/01/1971 (Documenta, n. 122, jan. 1971, p. 120):
A) Matérias
Sociologia
História do Brasil
Geograa do Brasil
História da Cultura
Estudos Brasileiros
Introdução à Administração
Noções de Direito
Técnica Publicitária
Planejamento e Organização do Turismo
Estágio em entidades ociais e privadas de turismo e hotelaria
No ensino da matéria Geograa terá ênfase a Cartograa.
No estudo da matéria História da Cultura terá ênfase a Cultura
Brasileira, com especial referência às Artes.
A matéria Noções de Direito incluirá o Direito Constitucional,
Direito Fiscal Alfandegário, da Legislação Trabalhista, Estatuto Jurídico do
Estrangeiro e da Legislação Especíca do Turismo.
A duração mínima do curso será de 1.600 horas, as quais serão integra-
lizadas no mínimo em dois e no máximo em quatro anos.
O estágio a que se refere o item B terá a duração mínima de quatro me-
ses. Ao organizar o currículo pleno, a instituição responsável poderá desdobrar
as matérias do currículo mínimo e acrescentar disciplinas complementares.
Primeiro currículo da Faculdade de Turismo do Morumbi18:
semestre: Carga horária:
Geograa Geral I 64
História do Brasil I 32
18 -Pesquisa junto à Gerência de Comunicação da Universidade Anhembi Morumbi.
126
História da Cultura I 32
Sociologia I 32
Psicologia I (Aplicada) 32
Matemática 32
Teoria e Técnica do Turismo I 64
Educação Física (Práticas Desportivas) 32
semestre: Carga horária:
Geograa Geral II 64
História do Brasil II 32
História da Cultura II 32
Sociologia II 32
Psicologia II (Social) 32
Estatística 32
Teoria e Técnica do Turismo II 64
Educação Física (Práticas Desportivas) 32
semestre: Carga horária:
Geograa do Brasil I 32
Cultura Brasileira I 32
Economia I 32
Administração I (Teoria Geral da Administração) 32
Métodos e Técnicas de Pesquisa I 32
Teoria e Técnica do Turismo III 128
Comunicação I 32
Educação Física (Práticas Desportivas) 32
semestre: Carga horária:
Geograa do Brasil II 32
Cultura Brasileira II 32
Economia II (Teoria Econômica) 32
Administração II (Teoria Geral da Administração) 32
Métodos e Técnicas de Pesquisa II 32
Teoria e Técnica do Turismo IV 128
127
Comunicação II 32
Educação Física (Práticas Desportivas) 32
semestre: Carga horária:
Planejamento e Organização do Turismo I 128
Economia III (Macro) 32
Administração I (Pessoal) 32
Contabilidade I 32
Noções de Direito I (Instituições de Direito Público) 32
Introdução às Técnicas de Comunicação I 32
Estudos Brasileiros I (Problemas Sociais Contemporâneos) 32
Educação Física (Práticas Desportivas) 32
semestre: Carga horária:
Planejamento e Organização do Turismo II 128
Economia IV (Internacional) 32
Administração II (Material) 32
Contabilidade II 32
Noções de Direito II (Instituições de Direito Privado) 32
Introdução às Técnicas de Comunicação II 32
Estudos Brasileiros II (Problemas Sociais Contemporâneos) 32
Educação Física (Práticas Desportivas) 32
semestre: Carga horária:
Planejamento e Organização do Turismo III 128
Administração III (Financeira) 32
Legislação I (Social) 32
Estudo dos Problemas Brasileiros I 32
Transporte I 64
Marketing I (Administração Mercadológica – Produção) 32
Técnica Publicitária I 32
Educação Física (Práticas Desportivas) 32
128
semestre: Carga horária:
Planejamento e Organização do Turismo IV 128
Administração IV (Financeira) 32
Legislação II (Social) 32
Estudo dos Problemas Brasileiros II 32
Transportes II 64
Marketing II (Administração Mercadológica – Produção) 32
Técnica Publicitária II 32
Educação Física (Práticas Desportivas) 32
Estágio Prossional 270
Primeiro currículo de Turismo da Faculdade Ibero-Americana
de Letras e Ciências Humanas19:
ano: Carga horária:
Língua Portuguesa I 56
Língua Espanhola I 91
Língua Inglesa I 91
Teoria e Técnica do Turismo I 120
Sociologia 58
Geograa Geral 64
História da Cultura Universal 120
Educação Física 60
ano: Carga horária:
Língua Portuguesa II 64
Língua Inglesa II 66
Língua Espanhola II 66
Teoria e Técnica do Turismo II 96
História da Cultura Brasileira 62
História do Brasil 64
Economia Geral e da Empresa 62
Geograa do Brasil 62
19 Pesquisa junto ao Departamento de Turismo da Unibero.
129
Metodologia da Pesquisa 60
Teoria e Técnica da Comunicação 62
Psicologia 62
Educação Física 60
ano: Carga horária:
Introdução à Administração 126
Planejamento e Organização do Turismo I 126
Técnica Publicitária 64
Relações Públicas e Humanas 62
Contabilidade Geral e da Empresa 64
Estatística 62
Estudo de Problemas Brasileiros 64
Noções de Direito 64
Educação Física 60
ano: Carga horária:
Administração de Empresas Turísticas 124
Planejamento e Organização do Turismo II 124
Mercadologia 62
Publicidade e Propaganda Turística 62
Contabilidade de Custos 64
Economia de Transportes Aéreos e de Superfície 62
Estudo de Problemas Brasileiros 31
Ética de Legislação Turística 64
Educação Física 60
Primeiro currículo de Turismo enviado à reitoria pela Escola de
Comunicações e Artes da USP em 13/04/72:
1º semestre: Créditos:
Introdução às Comunicações e Artes 2
Biblioteconomia-Bibliograa e Documentação 2
Fundamentos Cientícos da Comunicação I 4
História da Arte I 3
130
Comunicação Linguística I 3
Sociologia 3
História da Cultura e da Comunicação I 3
Palestras e Seminários 4
2º semestre: Créditos:
Fundamentos Cientícos da Comunicação II 3
Comunicação Linguística II 3
História da Cultura e da Comunicação II 3
Fundamentos Filosócos da Comunicação 4
Cultura Brasileira 3
Matemática 3
Idioma Estrangeiro I 3
Palestras e Seminários 2
3º semestre: Créditos:
Ética e Legislação dos Meios de Comunicação 3
Introdução ao Jornalismo e à Editoração 3
Introdução à Teleradiodifusão, Cinema e Teatro 3
Informática I 3
Problemas Sociais e Econômicos Contemporâneos 2
Estatística 3
Idioma Estrangeiro II 3
Palestras e Seminários 4
4º semestre: Créditos:
História da Comunicação – História do Turismo 3
Teoria da Informação 3
Pesquisa de Opinião e Mercadologia 4
Geograa I 3
Comunicação e Lazer 4
História do Brasil 3
Idioma Estrangeiro III 4
131
5º semestre: Créditos:
Teoria e Técnica do Turismo I 4
Administração Geral 3
Relações Humanas 3
Pesquisa de Opinião Pública 4
Geograa II 3
História da Arte no Brasil I 4
Psicologia da Comunicação 3
6º semestre: Créditos:
Teoria e Técnica do Turismo II 4
Jornalismo Turístico 3
Propaganda Aplicada ao Turismo 4
Geograa do Brasil 3
Relações Públicas Aplicadas ao Turismo 4
Idioma Estrangeiro I (segunda opção) 3
Sociologia da Comunicação 3
7º semestre: Créditos:
Teoria e Técnica do Turismo III 3
Análise Econômica do Turismo I 4
História da Arte no Brasil II 5
Planejamento e Organização do Turismo I 4
Idioma Estrangeiro II (segunda opção) 3
Antropologia da Comunicação 3
Problemas Brasileiros I 2
8º semestre: Créditos:
Análise Econômica do Turismo II 4
Planejamento e Organização do Turismo II 4
Transportes e Telecomunicações 4
Noções de Direito – Legislação do Turismo 3
Idioma Estrangeiro III (segunda opção) 4
Filosoa da Comunicação 3
132
Problemas Brasileiros II 2
O currículo enviado à reitoria pela ECA em 16/10/72 é praticamen-
te idêntico ao anterior, somente é excluída a disciplina de Introdução às
Comunicações e Artes do primeiro semestre.
Em 19/11/1973 são feitas alterações de nomenclaturas de algumas dis-
ciplinas da grade curricular do quarto semestre em diante; algumas discipli-
nas são criadas e outras suprimidas. Cabe observar que esta mudança capacita
a ECA a ministrar estas disciplinas. Com a nomenclatura anterior, existiria a
mesma disciplina sendo oferecida em departamentos de outras faculdades da
USP. Trata-se do primeiro documento assinado pelo Prof. Mário Carlos Beni
encontrado no processo de criação do curso de Turismo da ECA.
4º semestre:
Teoria e Técnica do Turismo I começa a ser ministrada neste
semestre.
É criada a disciplina Metodologia da Pesquisa I.
História do Brasil é substituída por Fundamentos Históricos do
Turismo I.
Pesquisa de Opinião e Mercadologia é substituída por Estatística
Aplicada ao Turismo.
Geograa I é substituída por Fundamentos Geográcos do Turismo I
5º semestre:
Teoria e Técnica do Turismo II começa a ser ministrada neste
semestre.
Administração Geral passa a ser ministrada no 6º semestre.
Análise Econômica do Turismo I começa a ser ministrada neste
semestre.
Pesquisa de Opinião Pública é substituída por Metodologia da
Pesquisa II.
História da Arte I é substituída por Fundamentos Históricos do
Turismo II.
Geograa II é substituída por Fundamentos Geográcos do
133
Turismo II.
Psicologia da Comunicação é substituída por Psicologia Aplicada
ao Turismo.
6º semestre:
Teoria e Técnica do Turismo III começa a ser ministrada neste
semestre.
Análise Econômica do Turismo II começa a ser ministrada neste
semestre.
Jornalismo Turístico e Sociologia da Comunicação são suprimidas.
Geograa do Brasil é substituída por Fundamentos Geográcos do
Turismo III.
É criada a disciplina de Folclore.
O currículo dos seis primeiros semestres ca, portanto, assim:
1º semestre: Créditos:
Biblioteconomia-Bibliograa e Documentação 2
Fundamentos Cientícos da Comunicação I 4
História da Arte I 4
Comunicação Linguística I 3
Sociologia 3
História da Cultura e da Comunicação I 4
Palestras e Seminários 4
2º semestre: Créditos:
Fundamentos Cientícos da Comunicação II 3
Comunicação Linguística II 3
História da Cultura e da Comunicação II 3
Fundamentos Filosócos da Comunicação 4
Cultura Brasileira 3
Matemática 3
Idioma Estrangeiro I 3
Palestras e Seminários 2
134
3º semestre: Créditos:
Ética e Legislação dos Meios da Comunicação 3
Introdução ao Jornalismo e à Editoração 3
Introdução à Teleradiodifusão, Cinema e Teatro 3
Informática I 3
Problemas Sociais e Econômicos Contemporâneos 2
Estatística 3
Idioma Estrangeiro II 3
Palestras e Seminários 4
4º semestre: Créditos:
Fundamentos Históricos do Turismo I 3
Estatística Aplicada ao Turismo 3
Metodologia da Pesquisa I 3
Fundamentos Geográcos do Turismo I 4
Comunicação e Lazer 3
Idioma Estrangeiro III 4
5º semestre: Créditos:
Teoria e Técnica do Turismo II 3
Análise Econômica do Turismo I 4
Sociologia Aplicada ao Turismo 3
Metodologia da Pesquisa II 3
Fundamentos Geográcos do Turismo II 4
Fundamentos Históricos do Turismo II 3
Psicologia Aplicada ao Turismo 4
6º semestre: Créditos:
Teoria e Técnica do Turismo III 3
Psicologia Social Aplicada ao Turismo 3
Propaganda Aplicada ao Turismo 3
Administração Geral 4
Relações Públicas Aplicadas ao Turismo 3
Fundamentos Geográcos do Turismo III 3
135
Folclore 2
Análise Econômica do Turismo II 3
São Criadas duas opções curriculares para o último ano de curso.
Habilitação em Organização e Administração de Empresas de
turismo:
7º semestre: Créditos:
Teoria e Técnica do Turismo IV (meios de transporte) 4
Análise Econômica do Turismo III 3
Teoria Geral da Organização e Administração de Empresas de
Turismo I 4
Contabilidade Geral e da Empresa I 3
Problemas Brasileiros I 2
Mercadologia I 2
Direito I 3
Matemática Financeira 3
8º semestre: Créditos:
Teoria e Técnica do Turismo V (meios de transporte) 3
Análise Econômica do Turismo IV 3
Contabilidade Geral e da Empresa II (custos) 3
Direito II 3
Teoria Geral da Organização e Administração de Empresas de
Turismo II 4
Problemas Brasileiros II 2
Planejamento Empresarial em Turismo
(análise de projetos) 3
Mercadologia II 3
Habilitação em Planejamento do Turismo:
7º semestre: Créditos:
Teoria e Técnica do Turismo IV (meios de transporte) 4
136
Análise Econômica do Turismo III 3
Teoria do Planejamento 4
Planejamento e Organização do Turismo I 4
Problemas Brasileiros I 2
Mercadologia I 2
Teorometria I 3
Contabilidade de Custos 2
8º semestre: Créditos:
Teoria e Técnica do Turismo V (meios de transporte) 3
Análise Econômica do Turismo IV (análise de sistemas) 3
Mercadologia II 3
Direito I 3
Planejamento e Organização do Turismo II 4
Problemas Brasileiros II 2
Análise de Projetos (empreendimentos turísticos) 3
Teorometria II 3
O currículo dos três primeiros semestres não sofreu alterações. Este é o
currículo aprovado em 1975 pelo Conselho Universitário da USP20.
20 Pesquisa na documentação da reitoria da Universidade de São Paulo, processo 33.039/72.
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SOBRE O AUTOR
Macioniro Celeste Filho possui Bacharelado em História pela Faculdade
de Filosoa, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo -
FFLCH-USP (1989); Licenciatura em História pela Faculdade de Educação
da Universidade de São Paulo - FE-USP (1989); Mestrado em Educação pela
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC-SP (2002) e Doutorado
em Educação, ambos na área de especialização em História da Educação,
pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC-SP (2006); Pós-
Doutorado no Instituto de Educação da Universidade de Lisboa (2017);
Pós-Doutorado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC-SP
(2016-2017). Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Ensino
Superior, atuando principalmente com os temas de História da Educação e
Ensino de História. É membro do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Cultura
e Instituições Educacionais - GEPCIE. Atualmente é Professor Assistente
Doutor no Departamento de Educação da Faculdade de Ciências da UNESP,
campus de Bauru. É professor permanente do Programa de Pós-graduação em
Educação, da Faculdade de Filosoa e Ciências da UNESP, campus de Marília.
É professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Docência para a
Educação Básica, da Faculdade de Ciências da UNESP, campus de Bauru, lecio-
nando e pesquisando nestes dois programas nas áreas de História da Educação,
Ensino de História e Teorias e Métodos das Ciências Humanas.
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E-mail: macioniro.celeste@unesp.br
Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/4837831739771633
ORCID: http://orcid.org/0000-0001-8798-9891
Principais obras: https://unesp.academia.edu/MacioniroCelesteFilho
SOBRE O LIVRO
Catalogação
André Sávio Craveiro Bueno – CRB 8/8211
Normalização
Kamilla Gonçalves
Diagramação e Capa
Mariana da Rocha Corrêa Silva
Assessoria Técnica
Renato Geraldi
Ocina Universitária Laboratório Editorial
labeditorial.marilia@unesp.br
Formato
16x23cm
Tipologia
Adobe Garamond Pro
O livro analisa as mudanças na década de 1970 do Ensino Supe-
rior paulista. Nesse momento, novas carreiras prossionais surgem
nas universidades. A obra estuda um caso paradigmático: a criação
do curso superior de Turismo na Universidade de São Paulo. An-
tes desse curso ser concebido pela USP, a obra delineia sua trajetó-
ria desde curso técnico prossionalizante no Ensino Médio até sua
constituição como carreira universitária. O livro trata de exemplo
concreto da trajetória de formação prossional no Ensino Superior
propiciada pela Reforma Universitária do nal da década de 1960.
O livro analisa as mudanças na década
de 1970 do Ensino Superior paulista.
Nesse momento, novas carreiras pro-
ssionais surgem nas universidades. A
obra estuda um caso paradigmático: a
criação do curso superior de Turismo
na Universidade de São Paulo. Antes
desse curso ser concebido pela USP, a
obra delineia sua trajetória desde cur-
so técnico prossionalizante no Ensi-
no Médio até sua constituição como
carreira universitária. O livro trata
de exemplo concreto da trajetória de
formação prossional no Ensino Su-
perior propiciada pela Reforma Uni-
versitária do nal da década de 1960.
É estudo vinculado à área de História
da Educação, foco privilegiado das
pesquisas do autor. Foi sua primeira
incursão em estudos sobre o Ensino
Superior brasileiro. Outras obras pos-
teriores do mesmo autor tratam dos
rumos que a universidade brasileira
teve ao longo do século passado.
Programa PROEX/CAPES:
Auxílio 0039/2022
Processo 23038.001838/2022-11
O Ensino Superior como formação prossional
Macioniro Celeste Filho
Macioniro Celeste Filho
a criação do curso superior de Turismo na década de 1970
O Ensino Superior
como formação
prossional:
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