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Carlos Cândido de AlmeidaCarlos Cândido de Almeida
Rosa San SegundoRosa San Segundo
Daniel MartínezvilaDaniel Martínezvila
(Organizadores) (Organizadores)
ESTUDOS
CRÍTICOS EM
A primeira parte do livro, dedicada
ao pensar o classificar e o desclassificar,
faz alusão à terminologia do autor García
Gutiérrez, indicando que tal parte dedi-
ca-se em entender (classificar) as caracte-
rísticas gerais das práticas de classificação
e os conceitos associados à desclassifica-
ção. Por seu turno, a segunda parte,
busca dar caminhos teóricos e alguns
aplicados que respondem ao intento da
desclassificação e a consequente reclassifi-
cação ou a um novo arranjo que devem
assumir os sistemas, incorporando novas
perspectivas aos conceitos dados. Embora
os estudos relacionados nessa obra não
estejam todos vinculados à teoria da des-
classificação, será possível notar desdo-
bramentos da aplicação dessa abordagem
em vários capítulos.
Esperamos que a leitura das ideias,
provocações e pesquisas presentes neste
livro possa contribuir para a estruturação
teórica dessas abordagens no futuro, bem
como facilitar acesso às indicações biblio-
gráficas aos interessados. Agradecemos
a todas as autoras e autores pela energia
e pela vontade de mudança depositadas
nestes capítulos.
ESTUDOS CRÍTICOS EM ORGANIZAÇÃO DO CONHECIMENTO
Carlos Cândido de Almeida | Rosa San Segundo | Daniel Martínez-Ávila (Orgs.)Carlos Cândido de Almeida | Rosa San Segundo | Daniel Martínez-Ávila (Orgs.)
Programa CAPES-PRInt-UNESP,digo de Financiamento 001
Processo: 88887.571329/2020-00.
Auxílio para impressão: CAPES-PROEX - Auxílio - 1628/2024 -
Processo: 88881.974501/2024-01
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Coleção Estudos em
Ciência da Informação
Coleção Estudos em
Ciência da Informão
Nº 1 - Estudos críticos em organização do
conhecimento
Organizadores: Carlos Cândido de Almeida,
Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila
1
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1
Marília/Oficina Universitária
São Paulo/Cultura Acadêmica
2024
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1
Editora afiliada:
Cultura Acadêmica é selo editorial da Editora UNESP
Oficina Universitária é selo editorial da UNESP - campus de Marília
Copyright © 2024, Faculdade de Filosofia e Ciências
Ficha catalográfica
E82 Estudos críticos em organização do conhecimento / Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo,
Daniel Martínez-Ávila (organizadores). – Marília : Oficina Universitária ; São Paulo : Cultura
Acadêmica, 2024.
525 p. : il. – (Coleção estudos em ciência da informação).
Apoio: CAPES
Inclui bibliografia
ISBN 978-65-5954-484-4 (Impresso)
ISBN 978-65-5954-485-1 (Digital)
DOI: https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-485-1
1. Ciência da informação. 2. Organização da informação. 3. Representação do conhecimento
(Teoria da informação). 4. Classificação. 5. Epistemologia. 6. Sistemas de recuperação da informação.
I. Almeida, Carlos Cândido de. II. San Segundo, Rosa. III. Martínez-Ávila, Daniel. CDD 025.04
Telma Jaqueline Dias Silveira –Bibliotecária – CRB 8/7867
Agradecimento
O presente trabalho é resultado das atividades decorrentes da bolsa de professor visitante no exterior, fornecida pela
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES), Programa CAPES-PRInt-UNESP, Código
de Financiamento 001 - Processo: 88887.571329/2020-00.
Auxílio para impressão: CAPES-PROEX - Auxílio - 1628/2024 - Processo: 88881.974501/2024-01.
Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives
4.0 International License.
UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
"JÚLIO DE MESQUITA FILHO"
Campus de Marília
Diretora
Profa. Dra. Claudia Regina Mosca Giroto
Vice-Diretora
Profa. Dra. Ana Cláudia Vieira Cardoso
Conselho Editorial
Mariângela Spotti Lopes Fujita (Presidente)
Célia Maria Giacheti
Cláudia Regina Mosca Giroto
Edvaldo Soares
Marcelo Fernandes de Oliveira
Marcos Antonio Alves
Neusa Maria Dal Ri
Renato Geraldi (Assessor Técnico)
Rosane Michelli de Castro
Parecerista:
Prof.ª Dr.ª Marilda Lopes Ginez de Lara
Professora Associada Aposentada do Departamento
de Biblioteconomia e Documentação da Escola de
Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo
(USP).
Coleção estudos em CiênCia da informação
Organizador: Carlos Cândido de Almeida
5
SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO ........................................................................ 9
Carlos Cândido de Almeida
Rosa San Segundo
Daniel Martínez-Ávila
PARTE I – PENSAR O CLASSIFICAR E O DESCLASSIFICAR
1. TUDO EM PEDAÇOS: REFLEXÕES SOBRE
DESCLASSIFICAÇÃO E COMPLEXIDADE ............................. 15
Antonio L. GARCÍA GUTIÉRREZ
2. APPROCHE HISTORIQUE ET CRITIQUE DE
L’ORGANISATION DES CONNAISSANCES: DU SIÈCLE
DES LUMIÈRES À L’ÈRE DU NUMÉRIQUE ............................ 41
Widad Mustafa EL HADI
Ismaïl TIMIMI
3. ESTUDOS CRÍTICOS E SISTEMAS DE ORGANIZAÇÃO
DO CONHECIMENTO: ASPECTOS CONCEITUAIS
E ÉTICOS ...................................................................................... 73
Suellen Oliveira MILANI
6
4. ORGANIZAÇÃO DO CONHECIMENTO E
COMPLEXIDADE: ASPECTOS HISTÓRICOS, FILOSÓFICOS
E EPISTEMOLÓGICOS .............................................................. 105
Daniel Abraão PANDO
5. EPISTEMOLOGIA: UM CONCEITO EM ANÁLISE
NO DOMÍNIO DA ORGANIZAÇÃO DO
CONHECIMENTO ..................................................................... 139
Paula Carina de ARAÚJO
6. ASPECTOS ÉTICOS EM ORGANIZAÇÃO DO
CONHECIMENTO: UMA ANÁLISE DISCURSIVA DOS
EVENTOS DA ISKO INTERNACIONAL .................................. 165
iago Henrique Bragato BARROS
Isadora Victorino EVANGELISTA
7. FUNDAMENTOS SEMIÓTICO-CULTURAIS DA
ORGANIZAÇÃO DO CONHECIMENTO ................................. 193
Mona Cleide Quirino da Silva FARIAS
Carlos Cândido de ALMEIDA
8. A ORGANIZAÇÃO DO CONHECIMENTO E OS
SABERES: ELEMENTOS DE REFLEXÃO CRÍTICA SOBRE
O PROCESSO DE REPRESENTAÇÃO ...................................... 241
Marcio Ferreira da SILVA
Carlos Cândido de ALMEIDA
PARTE II – DESCLASSIFICAR E RECLASSIFICAR
9. LUTA DE CLASSES E LUTA DAS CLASSES: DO
TRIVIUM E DO QUADRIVIUM AO DEVIR DIALÉTICO
ANTIEPISTEMICIDA EM ORGANIZAÇÃO DO
CONHECIMENTO ..................................................................... 261
Gustavo SALDANHA
7
10. ORGANIZACIÓN CRÍTICA DEL CONOCIMIENTO
EN SISTEMAS DE INFORMACIÓN DE MEDIOS .................. 287
Antonio L GARCÍA GUTIÉRREZ
Daniel MARTÍNEZ ÁVILA
11. A METÁFORA NA ORGANIZAÇÃO DO
CONHECIMENTO DA MÚSICA .............................................. 317
Camila Monteiro de BARROS
12. CONTRADISPOSITIVOS RIZOMÁTICOS PARA
INQUIETAR A ORGANIZAÇÃO DO CONHECIMENTO:
UMA TENTATIVA DECOLONIAL ............................................ 337
Rodrigo de SALES
Dirnèle Carneiro GARCEZ
13. GARANTIA TRANSCULTURAL EM VOCABULÁRIOS
CONTROLADOS: ELEMENTOS PARA UMA DISCUSSÃO
SOBRE REPRESENTATIVIDADE NOS SISTEMAS DE
ORGANIZAÇÃO DO CONHECIMENTO ................................ 367
Ricardo BISCALCHIN
Walter MOREIRA
14. CLASSIFICAÇÃO, ESTEREOTIPIA E
SILENCIAMENTOS NO DOMÍNIO DAS DISSIDÊNCIAS
SEXUAIS E DE GÊNERO ............................................................ 397
Francisco Arrais NASCIMENTO
15. O FEMINISMO DECOLONIAL NAS CATEGORIAS DE
SHIYALI RAMAMRITA RANGANATHAN ............................... 427
Marília Winkler de MORAIS
Luciana de Souza GRACIOSO
8
16. PANORAMAS TEMÁTICO E BIBLIOGRÁFICO SOBRE
HOMOSSEXUALIDADES NO SISTEMA DE BIBLIOTECAS
DA UFPE ...................................................................................... 457
Diogo Lopes NOGUEIRA
Jéssica Oliveira da SILVA
Murilo Artur Araújo da SILVEIRA
Fabio Assis PINHO
17. GÊNERO, VIOLÊNCIA E LEGISLAÇÃO:
INTERPELAÇÕES ACERCA DO FEMINICÍDIO NO
ESTADO DE SÃO PAULO – BRASIL ......................................... 487
Denise Cristina BELAM
Francisco Arrais NASCIMENTO
Deise Maria Antonio SABBAG
Daniele ACHILLES
9
APRESENTAÇÃO
Carlos Cândido de ALMEIDA
Rosa SAN SEGUNDO
Daniel MARTÍNEZ-ÁVILA
Embora a Covid-19 tenha interferido na vida das pessoas, este livro
foi gestado durante a pandemia, pois, como podem notar, há muitas pesso-
as resilientes no campo acadêmico para enfrentar as dificuldades impostas
aos diversos povos mundo afora.
A ideia de organizar um livro surgiu em uma visita à Universidad
Carlos III de Madrid, de fevereiro a julho de 2021, em plena pandemia.
No momento em que procurávamos entender melhor a epistemologia fe-
minista na ciência da informação e na organização do conhecimento, nos
demos conta de que deveríamos fazer um pouco mais e organizar uma obra
que reunisse as ideias de pesquisadoras e pesquisadores que têm investiga-
do as abordagens críticas em organização do conhecimento.
Apesar de ser considerado um tema amplo e às vezes difuso por reu-
nir trabalhos de diferentes matizes, há uma linha comum nas perspectivas
contestatórias: a de propor diretrizes revisionistas ao campo da organização
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-485-1.p9-12
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
10
do conhecimento - reconhecendo a importância de outros tipos de sa-
beres e comunidades não investigadas pela organização do conhecimento
tradicional.
Podemos incluir sob o rótulo de estudos críticos - ou os não alinha-
dos aos estudos convencionais que somente fazem agravar a lógica existen-
te da organização do conhecimento especializado -, as pesquisas que têm
como fonte de inspiração: as teorias críticas, as abordagens socioculturais, a
teoria de gênero, a teoria feminista, a teoria de raça, a semiótica da cultura,
a epistemologia crítica, os estudos decoloniais, dentre outras.
Independente dos vínculos teóricos, há uma postura ética e ques-
tionadora que precisa de sistematização para proceder na revisão do ins-
tituído. O livro, nesse caso, seria apenas o início desse longo processo de
sistematização das abordagens contestatórias e dos estudos críticos, dirigi-
do à compilação de conceitos, argumentos, teorias e à reunião preliminar
de pesquisadoras e pesquisadores. A ideia subjacente é concentrar em um
mesmo material as questões fundamentais que têm guiado as pesquisas
recentes neste espectro da organização do conhecimento.
O objetivo não é a desmontagem completa das práticas de organi-
zação do conhecimento, mas conduzir à proposta emancipatória de reco-
nhecer a autorrepresentação dos saberes, isto é, entender, de uma vez por
todas, que a representação do outro deve antes passar por seu crivo e deci-
são. Comunidades sub-representadas em sistemas de informação têm mais
dificuldades de acessar os seus e os demais saberes presentes nas instituições
de memória. O que se reivindica é uma organização do conhecimento (dos
saberes) lato sensu.
Após um período de estabilização e consolidação do conceito geral
de organização do conhecimento no início dos anos 1990, associado à
teoria do conceito e à classificação filosófica e bibliográfica, promovido
pelos fóruns internacionais, especialmente pela International Society for
Knowledge Organization - ISKO, surge a necessidade de repensar o alcan-
ce, a missão, o público e as teorias da área. É nesse contexto em que se le-
Estudos críticos em organização do conhecimento
11
vantaram diversas vozes, de dentro e de fora da Ciência da Informação, para
reconhecer a postura restrita e elitista da organização do conhecimento,
especialmente, dos conhecimentos especializados úteis ao desenvolvimen-
to do capitalismo global. Entende-se que a organização do conhecimento
é passível de crítica, porque as teorias com as quais opera frequentemente
produzem ocultamentos, preconceitos, assim legitimam uma dada cosmo-
visão e valorizam certas categorias do pensamento.
É justamente contra a naturalização das categorias que organizam
os saberes, consequentemente, as comunidades, que se erguem livres-pen-
sadoras e pensadores, jovens pesquisadoras e pesquisadores, ademais mili-
tantes, para avaliar a organização do conhecimento, desde seu conceito até
suas aplicações.
A primeira parte do livro, dedicada ao pensar o classificar e o des-
classificar, faz alusão à terminologia do autor García Gutiérrez, indicando
que tal parte dedica-se em entender (classificar) as características gerais das
práticas de classificação e os conceitos associados à desclassificação. Por seu
turno, a segunda parte, busca dar caminhos teóricos e alguns aplicados que
respondem ao intento da desclassificação e a consequente reclassificação
ou a um novo arranjo que devem assumir os sistemas, incorporando novas
perspectivas aos conceitos dados. Embora os estudos relacionados nessa
obra não estejam todos vinculados à teoria da desclassificação, será possível
notar desdobramentos da aplicação dessa abordagem em vários capítulos.
Esperamos que a leitura das ideias, provocações e pesquisas presentes
neste livro possa contribuir para a estruturação teórica dessas abordagens
no futuro, bem como facilitar acesso às indicações bibliográficas aos in-
teressados. Agradecemos a todas as autoras e autores pela energia e pela
vontade de mudança depositadas nestes capítulos.
12
PARTE I
PENSAR O CLASSIFICAR
E O DESCLASSIFICAR
15
1
TUDO EM PEDAÇOS: REFLEXÕES
SOBRE DESCLASSIFICAÇÃO E
COMPLEXIDADE
eVerYtHinG “into
PieCes”: refleCtions on
deClassifiCation and
ComPleXitY
Antonio L. GARCÍA GUTIÉRREZ
desclasificar@gmail.es
Tradução da conferência não publicada intitulada “Todo en pedazos: reflexiones sobre desclasificación y
complejidad”, apresentada no XVIII ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISA EM CIÊNCIA DA
INFORMAÇÃO – ENANCIB, realizado em Marília em 2017. Esta conferência foi extraída e adaptado
de partes do livro “En pedazos. El sentido de la clasificación”. Madrid: ACCI, 2018. Tradução e notas de
Carlos Cândido de Almeida.
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-485-1.p15-40
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
16
Resumo: A classificação constrói o mundo, para tanto, quebra-o em pedaços através
de dicotomias, subordinações, definições e partições submetidas aos princípios de uma
lógica tradicional que determina uma visão fictícia e repressora da imensidade mestiça,
contraditória e aberta do sentido. A desclassificação, por sua vez, contribui para pensar e
reclassificar sem as restrições dessa lógica e de seus numerosos obstáculos epistemológicos.
Este texto explora a concepção de parte e pedaço em uma antiga língua maia para repensar
os modos contemporâneos de classificação global. Os teóricos e práticos da Ciência
da Informação e Organização do Conhecimento são relevantes atores da classificação
e, consequentemente, assumem uma grande responsabilidade ao apoiar consciente
e inconscientemente um projeto de progresso que poderia encaminhar o mundo a
complicações irreversíveis. A desclassificação oferece algumas estratégias de reversão
sistêmica.
Palavras-chave: Desclassificação. Organização do Conhecimento. Ciência da Informação.
Progresso. Pensamento crítico.
Abstract: e classification builds the world, as it breaks it into pieces, through
dichotomies, subordinations, definitions and partitions subject to the principles of
a traditional logic that determines a fictitious and repressive vision of the mixed,
contradictory and open immensity of meaning. Declassification, for its part, contributes
to thinking and reclassifying without the restrictions of that logic and its numerous
epistemological obstacles. is text explores the conception of part and piece in an ancient
Mayan language to rethink contemporary modes of global classification. Information
Science and KO theoreticians and practitioners are relevant actors in the classification and,
consequently, take on a great responsibility by consciously or unconsciously supporting
a progress project that could be leading the world towards irreversible complications.
Declassification offers some systemic reversal strategies.
Keywords: declassification, knowledge organization, information science, progress,
critical thinking.
Estudos críticos em organização do conhecimento
17
1 INTRODUÇÃO
Atribui-se a Niels Bohr (1988), prêmio Nobel de Física, em 1922,
e um dos pais da mecânica quântica, o seguinte comentário: “você não
pensa, você apenas usa a lógica”. Para essa exposição solicito-lhes abando-
nar provisoriamente nossa lógica inflexível e convido-lhes a pensar junto
nos novos cenários de complexidade e desclassificação impactados pelas
ingovernáveis transgressões conceituais que não apenas configuram nosso
pensamento teórico ou nossas práticas em Ciência da Informação, mas
interferem, de modo inseparável, na nossa vida cotidiana.
A desclassificação contribui justamente para pensar o mundo sem
as restrições da lógica convencional, daí, por exemplo, o seu interesse por
impugná-la e recuperar o valor da retórica e da contradição.
Depois da catástrofe nuclear de Chernobil, em 1986, o então pre-
sidente soviético Mikhail Gorbachev – obrigado pela Perestroika – sen-
tenciou: “devemos deter o progresso”. (La Batalla De Chernóbil, 2006).
Frente a essa declaração, desde nossa área de atuação, deveríamos fa-
zer-nos duas perguntas imediatas: 1) existe alguma especialização pro-
ssional ou acadêmica mais consciente e relacionada aos assuntos da
classicação que a Ciência da Informação? 2) que relação existe entre
a lógica da classicação e um determinado tipo de conhecimento cons-
truído por e para essa forma de avançar rumo ao progresso?
Todos nós contribuímos para desenvolver e expandir as razões pre-
destinadas pela lógica dicotômica (mediante oposições), hierárquica (su-
bordinações) e metonímica (partições). Talvez praticar pensamentos não
contrários, mas alternativos como o desclassificado, não seja apenas um
privilégio particular nosso, porém seria a nossa principal responsabilidade.
Nesse caso, enfrentamos um debate urgente: esclarecer a orientação de cer-
tas teorias e práticas de classificação em relação aos modos não desejáveis
de progresso para reconduzi-lo (em termos pós-coloniais) não a um “outro
progresso”, mas a um “progresso-outro”, no que afeta particularmente o
mundo simbólico. Além de averiguar, desde uma posição reflexiva e auto-
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
18
crítica, o que podemos fazer pela emancipação de nossos cidadãos classifi-
cados (eles, também, classificadores)?
Particularmente, penso que nosso campo deveria renunciar a sua
aparente neutralidade e objetivismo para adotar explicitamente posições
de compromisso político, ecológico, social, cosmopolita e pós-nacional,
porque, extrapolando o ditado de Martín Barbero (1999), “[...] nos es-
tudos sobre a informação, deve-se decidir de qual lado estamos” (e em
desclassificação, em minha opinião, esse lado é o do livre-pensamento).
Um dos mecanismos que, de forma crescente, infiltra o ato classifica-
tório é a regulação. Naturalmente, algumas normas são necessárias, como
beber ou comer, mas a super-regulação tal como a superalimentação, pro-
duz sérios danos. Um mundo hiper-nômico como sucedido nas sociedades
ocidentais, não tem condições para ser um mundo livre.
A burocracia, porém, entra na “normalidade” da nossa lógica. É uma
racionalização em prol da eficiência autocomplacente. Na Espanha, por
exemplo, existem atualmente mais de 150.000 normas oficiais, sem contar
as das empresas, universidades, revistas, congressos etc. Todos nós temos
que obedecer a regras a todo momento. Não existe atividade que não seja
regulamentada ou sancionada. A burocracia é a ideologia da regulação.
Uma ideologia sem ideologia, portanto, transversal e aparentemente neu-
tra foi tão útil para a Alemanha nazista quanto para a União Soviética,
tanto para organizações internacionais quanto para o capitalismo e para as
academias globais. A burocracia é regular e regular é classificar. Que limite
burocrático seria tolerável para a Ciência da Informação?
Ao extirpar a complexidade humana da produção do conhecimen-
to e livrar-se da Inquisição, o próprio Descartes legou a dúvida (da qual
não duvidou, segundo Vilém Flusser (2011)) a todas as gerações futuras
de pesquisadores, condenando-as a uma verdade única, à objetividade, à
medição, à erradicação de ideologia, emoções e impulsos. Justamente es-
sas mutilações do psiquismo convertem o trabalho com taxonomias em
taxidermia, classes e categorias são encerradas em sarcófagos conceituais;
Estudos críticos em organização do conhecimento
19
o livre-pensamento submete-se diante de indicadores não neutros como
qualidade, impacto e eficiência, assim a pluralidade de mundos simbólicos
extingue-se.
Depois de trabalhar quatro décadas desenvolvendo projetos classi-
ficatórios sob os ditames do paradigma tecnodigital, o excesso de rigor e
a definição que conduz à endogamia conceitual fizeram-me, aos poucos,
desconfiar de noções inquestionáveis, automatismos invisíveis, preconcei-
tos e aproximar-me das contradições, das ambiguidades e de outros recur-
sos proscritos pela lógica hegemônica. A partir desse mal-estar freudiano,
usado como gatilho emprestado ao pensamento complexo, foi relativa-
mente fácil dar o salto pós-epistemológico ao vazio sedutor, ainda que mais
terreno, da desclassificação.
Uma tarefa prioritária foi pensar-me pensando e repensando toda
a minha relação, com o meu objeto de estudo, no indissociável quadro
conceitual da cultura, da linguagem, da identidade, da memória, do ima-
ginário, da experiência, da racionalidade e da tecnologia, isto é, o mundo
desde uma perspectiva desclassificada, então, um dos meus primeiros ob-
jetivos consistiu em resgatar várias ferramentas gerais que convidam ao
pluralismo lógico”: 1) a autocrítica: não pode haver ética crítica sem au-
tocrítica prévia e incondicional; 2) o retorno do político ao pensamento;
e 3) a reabilitação de recursos banidos pela epistemologia, especialmente a
contradição.
Uma possível forma de investigar a desclassificação é localizar e
aprender com a diferença cultural que ainda não se tornou um simulacro
para os turistas (como o caso da etnia Mursi) Determinadas culturas ainda
têm cosmovisões que devemos estudar sem intervir, para “redirecionar
nossa própria decadência, em vez de continuar a exportá-la.
São cosmovisões distantes e às vezes intraduzíveis em termos da ra-
cionalidade ocidental. No entanto, da intraduzibilidade, do contraste e do
contato emocional, também se extraem materiais altamente valiosos para o
projeto desclassificador. Neste texto, centro minha curiosidade sobre uma
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
20
cultura maia, durante um período de licença profissional que passei no
México, em 2016 (porém, no Brasil também há um tesouro gnoseológico
incalculável para conhecer, sem interferir em sua própria evolução).
Para pensar de maneira desclassificada, é preciso suspender os fun-
damentos do que poderíamos chamar de “episteme trinitária”, isto é, três
hipóteses que determinam o pensamento classificado (aprofundadas em
trabalhos recentes do autor):
1. suspensão da supremacia da razão consistente, produto de um
certo saber hegemônico que tem, afinal, como todo poder, inú-
meras rotas de fuga. Trata-se de operar com uma racionalidade
imperfeita (como Ulisses (Elster, 1989)) e com uma razão que se
tem consciência que é fraca.
2. suspensão da concepção de uma realidade dizível e controlável,
reconfigurando o papel contraditório de categorias e conceitos
fechados, os quais tentam capturá-la quando, na verdade, as me-
diações e os metaconceitos distanciam-nos cada vez mais dela.
3. suspensão da verdade, eliminando-a como hipótese dos horizon-
tes desclassificados e relegando-a a um quadro real de vieses, au-
toenganos e contradições. A verdade só poderia ser verdadeira se
tivesse a possibilidade de ser refutada para converter-se em erro
ou falsidade.
2 PRISIONEIROS DA CLASSIFICAÇÃO E FUgA DESCLASSIFICADA
Embora muitos nunca saberão, e uma minoria despótica os priva
de recursos metacognitivos para livrar-se dela, somos prisioneiros de uma
classificação adquirida que nos submeteu e submete durante nossa vida.
Prisioneiros de lugares, tempos, identidades e tradições, denominações,
agendas, alarmes, indicadores, tecnologias e de muitos outros hábitos e
objetos. Por exemplo, a maioria afirma, seleciona, decide, julga, discrimina
Estudos críticos em organização do conhecimento
21
e classifica a partir de uma concepção de fronteira nacional, de um gen-
tílico implacável, ou ainda, a partir de uma arrogância qualquer: racial,
patriarcal, de classe, e de uma elitização sutil constante e inconsciente. Isso
tudo é incompatível com a autêntica racionalidade reivindicada e muito
próxima de atos conscientes ou inconscientes de totalitarismo. O problema
não é a racionalidade imperfeita, mas a falta de reconhecimento de uma
(felizmente) imperfeição absoluta.
Reproduzimos uma classificação organizada na lógica totalista e,
portanto, totalitária, que é disseminada por todas as instituições sociais
e nós mesmos impomos ao nosso meio através de uma intersubjetividade
acrítica. De um ponto de vista paraconsistente, somos prisioneiros de to-
das essas instâncias citadas, contudo, ao mesmo tempo, não somos, porque
não guardamos uma relação direta, física e epidérmica com elas, mas com
o conjunto classificado de suas representações.
Consequentemente, seriam os efeitos das relações e subordinações
produzidas pelos conceitos, pelos símbolos, pelos discursos e pelas me-
diações, ou seja, por sua classificação de fato, mais do que simples objetos
que, em si mesmos - ou desprovidos de uma espécie de “gancho hipnótico
- seriam insossos, indiferentes ou inofensivos para outros olhos - o que re-
almente diz respeito a estratégias desclassificadas. Esse “gancho hipnótico
ocorre em cérebros dotados pela evolução de uma capacidade conceitual e
simbólica tão elevada, que pode ser confundida com lucidez.
Somos classificados e treinados pela civilização para classificar, em
seu interesse exclusivo, qualquer artefato, indivíduo, comportamento,
mundo conhecido ou imaginário, presente, passado ou futuro, macro ou
micro, material ou imaterial. Mas a classificação, seja qual for seu motor
inicial, não vem da realidade, mas de um poderoso impulso simbólico ávi-
do de colonização conceitual, categorização, controle e hierarquia que se
instala no espaço das representações, mas com efeito em todos os outros
espaços. Assim, a representação é um objetivo das estratégias paralógicas e
retóricas com as quais opera a desclassificação.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
22
Incorporamos de forma submissa os milhares de sinais de prescrição
e proscrição, mitológicos ou racionais, que se sobrepõem e se acumulam
secularmente e que o poder simbólico ali os colocou sem nunca ter sido su-
perados suficientemente em nenhum processo revolucionário (Holloway,
2002).
Nosso sistema hiper-regulado, entretanto, não entrega mais seu “ós-
tracon” a ninguém. Ao contrário, readaptou e suavizou suas técnicas de
adesão totalitária, substituindo a vassalagem obrigatória pela dependência
ou fidelização (ou seja, escravização) que anula ou perverte a autocrítica.
De fato, somos viciados em classificação. Somos os únicos seres conheci-
dos, viciados em vícios.
Vivemos confinados em ambientes conceituais, sem paredes nem
portas, dos quais, como no filme “El Ángel exterminador”, de Luis Buñuel
(1962), não sabemos ou não ousamos sair. Como repetia H. Maturana
(1997): “[...] o problema é que não vemos que não vemos”. E justamente
o que não vemos é a força gravitacional da classificação que nos insta à per-
manência – contraditória - em um ambiente de formas instáveis e voláteis,
que só podemos assumir sob o efeito de dissonância cerebral, em relação
ao processo de reflexividade e flutuação orbital, ao que somos convidados
pela desclassificação.
Desclassificar não se opõe a classificar. O oposto de classificar é não
classificar. A desclassificação implica reclassificação. Nesse sentido, não re-
jeita hierarquias ou dicotomias, mas simplesmente as considera e as utiliza
como formas não preferenciais de organização, restituindo, em troca, re-
cursos negados como contradição, alteridade, polissemia ou um conjunto
de estratégias paralógicas (que não poderei desenvolver aqui) em busca do
ideal do livre-pensamento.
Os conceitos e as normas que adquirimos desde a infância são recur-
sos classificados que veiculam não apenas significados ou regras, mas tam-
bém uma “ordem” hierárquica que também é “uma ordem”; organização
e mandato seriam sinônimos simples no que diz respeito à classificação.
Estudos críticos em organização do conhecimento
23
Contraímos um compromisso de obediência, em relação ao que está
instituído, muito antes de saber falar. As estratégias de desclassificação mais
rudimentares consistiriam em forçar subjetividades, identidades, autorre-
ferências, conceitos, dicotomias, hierarquias, associações e outros automa-
tismos aos seus limites, dentro dos quais os dogmas e paradigmas erigem
seus impérios, como espelhos de suas próprias contradições inerentes.
Diante da difamação secular da epistemologia, a contradição seria
sempre o poderoso recurso hermenêutico para desclassificação, e não uma
adversária irritante ou evitável, como geralmente é considerada. Meu fascí-
nio diário, de fato, reside em contemplar como nós, seres racionais, acredi-
tamos avançar, com absoluta normalidade e consistência, entre paradoxos
inexplicáveis.
Mesmo os conceitos que sustentam o horizonte inalienável da des-
classificação, como liberdade ou democracia, também são portadores de
frutíferas contradições: o filósofo Jesús Mosterín (2008) demonstrou, por
exemplo, que a democracia é contraditória, pois os ditames da maioria pre-
valecem sobre os desejos e as liberdades de minorias. Claro, é exatamente
nisso que consiste a democracia! Sustentariam muitos de nós à primeira
vista.
É verdade, mas estamos diante de um sério paradoxo democrático.
Por exemplo: há alguns anos, na Croácia (já membro da UE), a legalização
do casamento entre pessoas do mesmo sexo foi consultada em referendo.
Essa proposta foi “democraticamente” derrotada. Uma esmagadora maioria
católica croata impôs sua proibição aos direitos e a liberdades da minoria
homossexual do país. Seria como a maioria proibir alguém de ser preto ou
branco, se me permitem um exemplo banal. Isto é, uma democracia que
exala a lógica do apartheid.
Por outro lado, os processos de emancipação, como a desclassifica-
ção, começam como um mal-estar, mas as demandas geralmente são seto-
riais: o feminismo luta pela emancipação das mulheres, o marxismo dos
proletários, o abolicionismo pelos escravos, o movimento LGTBI pelos
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
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sexualmente marginalizados, a laicismo pelo Estado laico e os teísmos pe-
los crentes. Tais mobilizações representam um interessante avanço desclas-
sificador, mas de ordem parcial: quem reivindicaria o fim geral da opressão
sem pensar em um grupo específico? Qualquer reivindicação setorial deve
ser pensada no marco de uma desclassificação cuja intenção será emanci-
par-nos da lógica geral que impulsiona a dominação em todos os setores.
Atacando o núcleo central do problema, inúmeras emancipações
parciais seriam obtidas sem o desgaste de múltiplas lutas descoordenadas e
particulares. Pensar em um único grupo para sua libertação exclusiva pode
estar ocultando inadvertidamente velhas práticas classificatórias.
Trata-se, portanto, de reinventar estratégias autocríticas, descoloni-
zadoras, flexíveis, plurais, revisáveis, ou seja, desclassificadas. Tal possibili-
dade, muitas vezes, vem-nos da localização de recursos em culturas que a
cultura ocidental ignora ou considera subalternas.
3 A CULTURA DE XETAN
O episódio que vou contar-lhes deve-se a uma expedição pessoal à
cosmovisão maia Tojolabal quando encontrei, por acaso, um rico material
pré-epistemológico, o xet’an.
Não é um tipo de mineral, mas uma noção da cultura tojolabal sobre
a qual apliquei o conselho que G. Steiner lançou no Castelo do Barba Azul
(1991), quando propôs, à nossa autodestrutiva e decadente pós-cultura,
“[...] aprender com as culturas originárias, desidealizando-as”.
Complementando outros estudos realizados anteriormente, sem
qualquer espírito etnográfico, porém sempre seguindo o rastro do plura-
lismo lógico, nas savanas a sul do Orinoco, em 2006, em comunidades
berberes, enterradas nos foum marroquinos (2009-2013) e particularmen-
te, em 2016, numa estadia no Mayab mexicano (para estudar o impacto
dos dispositivos digitais em sua cosmovisão (García Gutiérrez, 2016), fui
Estudos críticos em organização do conhecimento
25
atraído pela poderosa “diferença” que o povo Tzotzil encarnava e, muito
especialmente, pela lógica do mundo tojolabal.
Vou concentrar-me apenas em um detalhe, aparentemente menor
dessa cultura, a noção de xet’an, isto é, “pedaço”, a tradução mais próxima
do nosso conceito de “parte”. É uma palavra simples que incorpora e pro-
jeta toda a sua cosmovisão e que, como veremos, ajuda-nos a questionar
os fundamentos de nossas formas de nos relacionarmos com o mundo.
Começarei contextualizando essa cultura, baseando-me na excelente etno-
grafia de Lenkersdorf (1996, 2002).
O grupo étnico Tojolabal é formado por cerca de 55.000 pessoas
espalhadas ao sul de Chiapas, no México, originárias da Guatemala. A
preservação de sua cultura foi objeto de atenção especial para o movimento
zapatista, cujos líderes são muitos da etnia tojolabal.
O antropólogo alemão C. Lenkersdorf permaneceu em Chiapas
por mais de 20 anos, trabalhando com uma comunidade “nosótrica2
Tojolabal. Na língua ergativa tojolabal (uma das 42 línguas maias vivas)
não há sequer um pronome pessoal equivalente literal ao “eu” individualis-
ta ocidental. Lenkersdorf (2002, p. 4) adverte: “[...] a importância do nós
exclui a ênfase no indivíduo, em particular no ego (…). Os nós absorvem
o indivíduo e exige a sua incorporação ao grupo “nosótrico”. O conheci-
mento de cada assunto seria o resultado de uma projeção comunitária, (sic)
da e para a comunidade”.
Enquanto a tradição ocidental patrocinava o ser e a unidade, prote-
gidos por princípios lógicos e dicotômicos; em outras visões de mundo, o
significado reside em diferentes parâmetros, como o coletivo e a continui-
dade. Lenkersdorf (2002, p. 36-37) diz:
A tradução aproximada de “nosótrica”, neologismo usado por Lenkersdorf que deriva da primeira pessoa do
plural em espanhol, “nosotros”, seria em português “noscêntrica”. Observa-se que em espanhol “nosótrica” é
um neologismo complicado, mas não equivale à empatia ou solidariedade em relação a um “outro” distinto
que realmente não é considerado no sentido tojolabal, mas seria uma mente comunitária ou coletiva que não
divide os indivíduos nem os separa das coisas. Contudo, o adjetivo “nosótrico” não é tojolabal mas uma categoria
ocidental para descrever sua cultura. Assim, seria conveniente compreender como “noscêntrica” ou “nossificada”,
se é possível adaptar ao português, evitando a acepção “alocêntrico” que significa oposto a “egocêntrico”.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
26
[...] filosofar em um código Tojolabal (sic) [que] está estruturado de
acordo com os princípios organizacionais da pluralidade, diversidade
e complementaridade (…). Nas relações sociais ninguém tenta
destacar-se dos demais, em vez disso, busca-se a melhor maneira
de ser útil aos outros. Daí os julgamentos negativos: jel niwan wa
xya’a sb’aj (ele se faz muito grande) ou jel stoyo sb’aj (ele se mostra
muito). Uma sabedoria que leva à complementaridade e vice-versa.
Como evidenciado, essa cultura milenar poderia não apenas se cor-
relacionar ou mesmo inspirar o pensamento complexo, o pluralismo lógi-
co, a teoria pós-colonial ou a própria desclassificação, mas também cola-
borar com valiosas contribuições autocríticas para “nosso” enlouquecido,
burocrático, individualista e hiper-classificado mundo, sem prejudicar os
avanços sociais ou o pensamento crítico que tornaram possível o melhor
da tradição ocidental.
Assim como seria muito difícil para o nosso individualismo pensar
nosotricamente”, ou interagir dialogicamente com os animais, os obje-
tos e a natureza, atribuindo-lhes o mesmo valor existencial. Contudo, os
Tojolabals o fazem cotidianamente enquanto um grupo indivisível ao qual
pertencem desde o nascimento. Toda a comunidade lida, por exemplo,
com recém-nascidos, e o sujeito isolado é considerado um pedaço do cole-
tivo, um fragmento sem sentido.
A invocação permanente do nós “tik” permeia todos os aspectos da
vida tojolabal: educação, organização social, propriedade, produção, mo-
radia, relacionamentos ou justiça. Se, por exemplo, um jovem tojolabal
rouba uma vaca em uma aldeia próxima, não haveria uma punição pessoal
imposta ao culpado, muito menos a prisão, pois a justiça “nosótrica” não
é punitiva, e medidas corretivas e de reinserção seriam tomadas para que o
ladrão fosse reabilitado o mais rápido possível e continuasse contribuindo
com a comunidade.
Sobre este episódio, Lenkersdorf (2006) nos esclarece: “em espanhol
[ou em português] dizemos, por exemplo, ‘um de nós cometeu um crime’.
Estudos críticos em organização do conhecimento
27
Em Tojolabal seria dito: ‘um de nós cometemos um crime’”. Como pode
ser visto, não é apenas uma questão gramatical, mas também uma diferen-
ça epistêmica.
Práticas comuns de nossa lógica acadêmica não fariam sentido na
vida tojolabal. Vamos ilustrar o aspecto educacional com uma cena etno-
gráfica final.
Em uma ocasião, um grupo de jovens tojolabals pediu ao próprio
Carlos Lenkersdorf (2006) que fizesse a experiência de um exame, pois sa-
biam que era comum nas escolas e universidades mexicanas. Após um pri-
meiro momento de perplexidade, Carlos concordou. Ele distribuiu papel,
ditou uma pergunta e marcou um horário. Imediatamente, os Tojolabals
fizeram um alvoroço enquanto debatiam e gritavam e, depois de alguns
minutos, apresentaram uma solução. Quando Lenkersdorf comentou que
eles realmente não fizeram um exame, pois nele não se pode falar e são
feitos individualmente para que o professor possa dar nota, assim os jovens
ficaram surpresos por ele já saber a solução de antemão, somado ao fato de
estarem separados, porque se sabe que várias cabeças pensam melhor do
que uma (Lenkersdorf, 2006).
A partir dessa lógica, é absurdo - e na minha opinião, na nossa lógica
também - promover a qualificação individual, o micromérito ou o absurdo
da publicação constante e competitiva que plataformas insaciáveis como
JCR, SCOPUS ou Lattes exigem, resultando em conhecimento repetitivo
e saturado mais do que inovador. São anomalias da normalidade.
Uma vez contextualizada a cosmovisão tojolabal, voltemos à peque-
na descoberta que motivou este texto, a peculiar concepção todo/parte
vigente naquela cultura e a impossibilidade de dela derivar uma infinidade
de dicotomias e hierarquias.
No monumental dicionário espanhol/tojolabal, de quase 2.000 pá-
ginas - compilado pelo próprio Lenkersdorf (2010a, 2010b) - encontramos
a tradução de xet’an: pedaço (em português). O lexema xe- configura todo
um campo semântico que nos convida a pensar as partes como pedaços.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
28
Cada parte é entendida como um componente de um todo. O pedaço/
xet’an, por outro lado, é a parte de um todo destruído, estilhaçado, como
os fragmentos de cerâmica ou vidro caindo no chão. Das partes fazemos
um todo, contudo o todo não é feito de pedaços, porque está quebrado.
Para verificar os usos do sentido casual, espontâneo, natural de xet’an
em relação à noção de parte, mostrarei brevemente a semântica de vários
verbetes tojolabais que constituem um grupo filtrado por sua cosmovi-
são (traduzida para o português): Pedaço de vidro: xet’an. Lágrima: xet.
Dilacerado: xet’an. Sua propriedade foi dividida: Kan xet’an ja spinka’i.
Destruir, dividir, fragmentar: xet’a. Dentada (faca): xet’i. Migalha: xetila.
Partícula: xe’n k’umal. Partido: xet’a. Pernas abertas: xet’a wawoki. Peça:
xe’n. Retalho: kan xet’an. Quebrar: xet’a. Setor, segmento, trecho: xet’an.
Desmembrar, picar: xet’a. Passada larga: niwan xete.
Como se observa, a palavra parte é um significado elementar no
campo semântico coberto por xet’an: pedaço, rasgo, fração, migalha... A
palavra “parte” será usada apenas devido às exigências da lógica e das leis
coloniais de divisão e de distribuição da terra. Isso sugere, também sob a
cosmovisão “nosótrica”, que os Tojolabal só veem pedaços onde nós vemos
partes, que eles consideram fraturados e quebrados, o que nós considera-
mos divididos racional e assepticamente. A questão, então, seria: que o
todo, o mundo, a explicação, a verdade universal e a classificação podem
ser sustentados por rompimentos e pedaços tomados como partes, ain-
da que sejamos seduzidos por suas belas simetrias e suas perfeitas linhas
divisórias?
Como o conceito de parte não é usado na língua tojolabal, também
não seria possível conhecer o todo analisando as partes. O todo não pode
ser classificado em partes, nem o todo pode ser pensado a partir de par-
tes que são entendidas apenas como pedaços. Sua abordagem é holística,
abrangente e não analítica, disjuntiva ou fragmentária. Essas são também
propostas de complexidade.
Estudos críticos em organização do conhecimento
29
Por que, então, normalmente vemos/quebramos partes onde talvez
haja apenas pedaços? Provavelmente por uma razão analítica, regida pela
pulsão simbólica” que alcançou evidentes conquistas parciais e provisó-
rias em todas as ordens de conhecimento. Por meio de uma epistemolo-
gia baseada em tecnologias de ponta, em técnicas sofisticadas de lavagem
e purificação nocional na invenção de conceitos apenas autorizados pelo
essencialismo.
Assim, a razão particionista usa seu mecanismo peculiar de coerência,
consistência e fechamento de explicações, argumentos, modelos e teorias,
apesar das óbvias lacunas e abismos inter-conceituais entre peças hostis e
desconexas, apenas manipuláveis porque foram travestidas em conceitos
harmônicos e submissos por um preciso bisturi. Graças a essa mediação
conceitual é possível perceber o mundo como pedaços que chamamos de
partes e a construção como peças maiores ou superiores chamadas de to-
dos. Nossa ousadia epistemológica é ilimitada. Vivemos alheios às ricas
reservas de diferença simbólica invisibilizadas pela classificação.
A influência que um modesto verbete tojolabal, xet’an tem na des-
classificação é decisiva: esses pedaços imutáveis das instâncias que nos
constituem não são dados, nem são únicos, naturais ou permanentes. A
maioria deles representa coisas que nunca poderiam ter um nome e que só
podem ser conservados em cofres, nos quais uma ordem introduzida por
nós somente seria possível na aparência ou no simulacro.
Em nossa lógica, a parte implica fração, simetria, organização, esta-
bilidade, equidistância, elegância e previsibilidade, conforme a conveni-
ência do corpo subordinado. O pedaço, porém, é irregular, instável, im-
previsível, desproporcional, anárquico, dissonante, selvagem, chato, feio.
Antropólogos ocidentais, militares e padres, partes uniformizadas e legiti-
madas de uma sociedade ordenada e triunfante, reconfiguraram os pedaços
dos subalternos através do cânone colonial. A descrição e a classificação de
raças e culturas, vivas ou extintas, são outras obras-primas de taxonomia
grotesca.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
30
O fato de as partes nunca poderem ser representações naturais ou
plurais, mas dispositivos de um certo logicismo, sugere várias conclusões
provisórias:
1. A representatividade das partes é escassa, nula ou falsa assim que
saímos da lógica gravitacional de um sistema nocional.
2. Descrever o mundo em partes harmônicas distancia-nos muito
mais dele do que considerar as redescrições pensando em peda-
ços toscos.
3. Assim que nos dividimos em partes e classes, abrem-se processos
de sutura, hibridização e transgênero, ou seja, a anulação ime-
diata da disjunção dado o princípio evolutivo do acoplamento
estrutural (Maturana; Varela, 1997).
4. Falamos do todo apenas porque falamos das partes. A desclas-
sificação opera fora do princípio da não-contradição, de modo
que - como veremos - os todos também são não-todos, ou
seja, são partes, instâncias subordinantes e ao mesmo tempo
subordinadas.
Assim, para o desclassificador autocrítico, são urgentes duas opera-
ções metacognitivas: por um lado, uma demolição ontológica que elimina
as fronteiras entre conceitos, entre saberes, entre seres e grupos humanos e,
por outro, uma subversão epistemológica que abra nossa arquitetura rígida
a processos de troca e fuga no quadro de uma “lógica (e um prazer) da di-
ferença”. Vejamos brevemente, agora, alguns fragmentos comuns:
a) O espaço em pedaços:
Conhecemos o espaço, por exemplo, por sua divisão em países, esta-
dos, regiões, cidades, bairros, desmembramentos protegidos pelo que po-
deríamos chamar de “eficiência disruptiva do gentílico”. A lógica ancestral
da divisão e distribuição do espaço, de acordo com cada “normalidade
Estudos críticos em organização do conhecimento
31
cultural, foi reclassificada pela “normalidade” da geopolítica, e sua gestão
de povos e o capitalismo global.
As fronteiras - e não sabemos pensar sem elas - foram sempre fruto
da violência, da distribuição ou da ambição racionalizada com efeitos dire-
tos nas emoções e nas identidades.
O primeiro efeito notável da territorialidade é a dicotomia xenófoba
nós/eles. O objetivo da desclassificação, em relação às fronteiras, só poderia
ser anular a agressividade cortante de seu gume.
A construção das nações hegemônicas modernas foi edificada sobre
os escombros de milhares de culturas antigas. Muitas dessas culturas nos
deixaram belas ruínas, mas, como afirma Marc Augé (2003), nossa civili-
zação dificilmente deixará escombros (materiais e simbólicos).
A quantificação, a mensuração, a apropriação e a demarcação do
espaço expropriado gradualmente tornaram-se operações racionais, pro-
tegidas, legalizadas e aceitas pelas sociedades por meio de “geossímbolos”.
Os “geossímbolos” naturais (como vulcões, rios, lagos) foram gra-
dualmente substituídos por geossímbolos culturais, religiosos e nacionais
(castelos, pontes, templos). A partir do século XX, os geossímbolos cultu-
rais começaram a sobrepor-se aos símbolos comerciais, que chamaremos
de “mercassímbolos” (por exemplo, as bandeiras e outdoors do McDonalds,
Carrefour, Ford etc.), até a substituição prática do valor simbólico de um
e de outro. “Mercassímbolos” que nos orientam (ou melhor, segundo
Baitello, “nos ocidentam”) e são onipresentes nas novas armas imperiais: os
dispositivos digitais.
b) O tempo em pedaços:
Não poderíamos descrever o sentido do tempo (que talvez seja a
chave do próprio sentido) em termos de experiência desclassificada (pelo
menos nosso “tempo livre”, o “ritmo interior”) em vez de entregá-lo aos
desígnios de uma classificação numérica e global que o despedaça e o dis-
torce? Talvez a maior intensidade de prazer possa representar a unidade
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
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mínima de sentir o tempo e a maior intensidade de dor a sua unidade
máxima, superando o mais preciso mecanismo de relógio. Espaço, paren-
tesco, comunicação, proxêmica ou tecnologia sempre foram características
fundamentais da diferença, contudo nada, tal como a lógica do tempo,
dar-lhe-á tanto significado.
Cada cultura precisa de sua própria classificação de temporalidade (e
é por isso que o tempo sempre foi usado como instrumento de subjugação
e colonização). Geralmente desvinculado de antigas leituras mitológicas
e inerente a costumes e visões de mundo, determina a compreensão de
mundo dos sujeitos, a percepção da memória e das formas de esqueci-
mento, a projeção de seus sonhos e expectativas, o sentimento de solidão,
de paciência, de cada gesto íntimo do cotidiano, agora expropriado pela
instantaneidade da transcultura digital.
Os grandes projetos civilizatórios, chineses, maias, astecas, judeus,
hindus, islâmicos... e milhares de pequenos assentamentos culturais, eri-
giram pautas muito diferentes para expressar o tempo, embora acabassem
rendendo-se ao calendário ocidental, como moeda global, assim como seus
eletrodomésticos com temporizadores.
O passado, nosso ou alheio (como o espaço físico), foi classifica-
do pelos historiadores do poder e recebeu denominações inequívocas que
o fixam a uma ressemantização contemporânea (idade da pedra, final da
idade média, pós-clássico, idade moderna, dia da vitória, guerra fria etc.).
Boias e faróis de poder e muitas outras marcas temporárias, colocadas pela
civilização hegemônica, não apenas classificam a totalidade do passado dos
outros (de sua história), privando seus autênticos herdeiros de sua própria
interpretação, mas também do passado lembrado (a memória viva) privan-
do-o, assim, de plena liberdade de autonarração.
Além disso, como no caso do espaço, o tempo era simbolizado. Os
cronossímbolos” naturais (nascer e pôr-do-sol, meio-dia, marés e fases
lunares, solstícios) foram gradualmente substituídos, e seus substitutos
monumentalizados, por “cronossímbolos” culturais: aniversários, ono-
Estudos críticos em organização do conhecimento
33
másticos, datas de eventos imperiais, nacionais ou locais, festividades e
comemorações.
A simbolização temporária da cultura sofrerá, no entanto, ao longo
do século XX, um impacto mercantilista semelhante ao espaço, fundindo-
-se com os mercassímbolos (promoções de inverno ou de verão, dia dos
pais, dia das mães, de finados, dos namorados, da padroeira local, da bici-
cleta etc.).
A imposição de um único sentido global de tempo é o espartilho
mais sutil e férreo que contamina a diversidade cultural. A crescente hi-
perdivisão da temporalidade, a paranoia sincronística, sua enfática hiper-
visibilidade, não supõem nada mais do que a decomposição do sentido
em um tempo coercitivo incompatível com a vida plena, sentido que a
desclassificação libertaria do jugo cronográfico, introduzindo destempos,
anacronias, arritmias, momentizações, periodizações, pelo menos na ex-
tensa temporalidade interior que não requer sincronia.
c) O mundo em pedaços:
Os despedaçamentos que delineamos no espaço e no tempo são fru-
to de uma certa forma de conceber o mundo que, recursivamente, elabora
categorias para configurá-lo. Para não entrar na longa série de desmembra-
mentos resultantes da separação de conceitos inseparáveis como conhe-
cimento, língua, cultura, identidade, memória ou imaginário, convido a
vocês a pensá-los como “o mundo”, uma categoria sintética dos conceitos
que compõem o sentido.
Nosso modo de conhecer, por exemplo, é baseado em um sistema
de classificação que se organiza fragmentando por meio de máquinas que
desfiguram a natureza; instituições universitárias que separam e fragmen-
tam competências; redes digitais que atomizam e dispersam a cultura em
micropatrimônios; políticas que nos dividem em nativos, estrangeiros, mi-
grantes legais ou ilegais; ideologias que inventam o outro enquanto perse-
guem a diferença; tira-linhas metropolitanas que determinaram a reparti-
ção histórica do planeta; invenção de um indivíduo exclusivo cujo modelo
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
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nunca teve tantas fotocópias... Tudo nesta pequena lista indicativa e tudo
o que podemos pensar, imaginar e sonhar (e até a forma de fazê-los) é pro-
duto de uma forma única de elaborar e classificar o mundo que não tolera
alternativas.
O conhecimento hiperespecializado só avança para dentro, afastan-
do-se de outros conhecimentos especializados (facilitados pelas paredes
de concreto das faculdades e laboratórios) e espalha-se em seus próprios
congressos, revistas e clubes de interessados. O desinteresse e a indiferen-
ça por outros campos, e não apenas aqueles considerados distantes, mas
muitos relacionados, aumenta-se se trata de outras formas de pensar e criar
conhecimento, julgando subalterno e desacreditado o conhecimento que
brota fora dos jardins da academia, embora seus benefícios tenham sido
comprovados por séculos.
A civilização de números substitui o sentido espontâneo e íntimo
da cultura. Smartphones e muitos outros dispositivos contabilizam per-
cepções, intuições e emoções difusas, anulando-as ao transformá-las em
dados: número de calorias, batimento cardíaco, frequência de pulsações,
ondas cerebrais, passos dados por quilômetros percorridos, tempo, núme-
ro de fotos ou mensagens, graus de temperatura, relatório sobre o humor,
contribuindo para uma autopercepção, que já é pós-humana.
Medição somática, textual, espacial, etc. reforça-se pela quantifica-
ção incessante do nosso ambiente: taxa de desemprego, número de imi-
grantes, vítimas, turistas, carros por minuto, preços, índice da bolsa e taxa
de câmbio, dos quais somos avisados constantemente, tuits, sms, alarmes e
alertas recebidos 24 horas por dia, através de dispositivos digitais, que logo
serão anexados ou enxertados usando microchips e wearables.
Como um anatomista, que despedaça com precisão os corpos (cabe-
ça, braços, coração etc.), nós, sujeitos, dividimos o mundo através de uma
linguagem (categorias e conceitos fechados) em crescente conversão digital
e numérica. Mas como dividir ou contar os neurônios, a pele, o riso, o
Estudos críticos em organização do conhecimento
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medo, a esperança? Como separar o contável do incontável, o material do
imaterial, senão rasgando-o pelas mãos de uma razão suprema abstrusa?
Além de ter explicitado e confinado o mundo em um sistema de
noções fechadas e numeradas, o pensamento o organiza e o reproduz em
torno de “noossímbolos”. Um sistema unificador de indicadores forneci-
dos pela cultura, língua ou conhecimento, operando de forma colaborativa
com geos e “cronossímbolos”.
Assim, uma infinidade de “noossímbolos” como provérbios, ditos,
canções, léxicos, clichês e estereótipos, analogias, mitos e todo um exército
de tópoi, lugares-comuns e automatismos, espreitam em lugares estraté-
gicos de pensamento ou comunicação, controlando o sistema sob uma
classificação mais simples ao invés do mais global. Até mesmo um alfabeto
de emoticons amarelos e simpáticos contribui para a colonização massiva
de emoções.
E agora, cinco conclusões e uma exortação:
Apesar do exposto, o pensamento metonímico, dicotômico e
classificado funciona e é bem-sucedido (como o capitalismo selvagem).
Evidentemente, uma vitória determinada pelos indicadores nunca neu-
tros da epistemocracia. Os argumentos acima nos permitem fazer várias
sugestões:
1. Podemos projetar construções materiais ou simbólicas (como
uma classificação, por exemplo) por meio de estratégias de par-
ticionamento ou classificação, mas com elas acessaremos apenas
um mundo endogâmico, ditado por um cânone redutor que
predestina qualquer processo inferencial.
2. O pensamento totalitário procede de partes imutáveis subordi-
nadas a todos imutáveis, na imutável lógica profunda de uma
hierarquia. Uma classificação que não aceite sua inerente con-
tradição levaria ao conhecimento involutivo, para perdermos no
desconhecimento.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
36
3. A desclassificação propõe-se a pensar, em virtude da estratégia de
extensão ontológica, em “todos que são sempre também partes
e em “partes que sempre também são todos”, ou seja, pensar
na provisoriedade, arbitrariedade, revisibilidade, contradição,
promiscuidade e incoerência de conceitos e categorias que são,
ao mesmo tempo, imutáveis, inequívocos, leais, consistentes e
coerentes.
4. O todo só existe na mente, porque é elaborado por uma lógi-
ca baseada em partes. Sem lógica partitiva não haveria nem o
todo nem a necessidade do todo. Sem essa necessidade, a lógica
hierárquica e dicotômica seria marginalizada como eixo organi-
zador do pensamento. Através do controle metacognitivo das
matrizes dicotômicas todo/partes, geral/particular, o número de
dicotomias secundárias e automáticas seria reduzido fractalmen-
te e, portanto, sua centralidade na construção do conhecimento.
5. Em mais ocasiões do que imaginamos, uma explicação só pode
ser formulada como questão e, em muitas outras, apenas como
contradição.
A frase perturbadora e extrema de Gorbachev, “parar o progresso
nos convida a repensar nossos papéis pessoais e profissionais no mundo
contemporâneo (La Batalla De Chernóbil, 2006). Não vamos restringir a
ameaça do progresso à energia nuclear, como o líder soviético, mas vamos
estender as restrições – como fez Walter Benjamin (1989) – a qualquer
modalidade de progresso que promova o extermínio da diferença.
Seja qual for sua origem, lucro ou planejamento, é um retrocesso:
melhorar para piorar. Progresso, então, seria um conceito altamente con-
traditório (podemos ser e não ser progressistas ao mesmo tempo), o que
exige desclassificação urgente.
Estudos críticos em organização do conhecimento
37
Foi-se o tempo de crescer, de expandir, de competir, de explorar,
de ocupar, de expropriar, de subjugar, pelo menos no sentido colonizador
que se costuma atribuir a esses conceitos. Estamos diante do dilema: ou
nos leva a uma lenta destruição simbólica da diferença, a qual a extinção
cultural já se encontra em um ponto irreversível, ou a projetar e vivenciar
mundos mais sensíveis e diversos vinculados a um certo campo semântico
que abre o prefixo inicialmente negativo des- (des-, dis-): desfazer, dimi-
nuir, descentralizar, desconstruir, desapropriar, desburocratizar, desacele-
rar, distensionar, desobedecer, enfim, desclassificar.
Finalmente, a exortação: Já se foram os dias de atos de fé em proces-
sos revolucionários que terminaram em decepção, em ditaduras ou falsas
democracias. Já não são tempos de revolução, mas de devolução.
Estamos diante do convite inevitável de um alarme que nos obriga
a liquidar com a natureza, com os povos, com as culturas diluídas, a pró-
pria dívida do espólio material e simbólico acumulados por clãs e séculos
de imparável substituição e pilhagem. É uma dívida injusta, como a do
pecado original, cujo credor - desta vez terreno - já nos sujeita às duras
consequências do não pagamento. E aqueles que nos sucedem devem per-
manecer exonerados desta.
A simples e a modesta noção tojolabal de xet’an, pedaço, forjada em
uma cultura antiga “nosótrica”, ajuda-nos a repensar a classificação inven-
tada e exportada pela nossa implacável civilização, uma forma de pensar e
de saber concebido a partir de uma lógica supremacista, disjuntiva, patriar-
cal, gananciosa, neocolonial e racista. A mesma velha lógica reinventada e
agora apoiada pelas tecnologias digitais, para difundir o totalitarismo, o
abuso, a destruição e, no lugar da diferença, a indiferença. A desclassifica-
ção pode ajudar bastante a evitar o imenso naufrágio.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
38
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41
2
APPROCHE HISTORIQUE ET
CRITIQUE DE L’ORgANISATION DES
CONNAISSANCES: DU SIÈCLE DES
LUMIÈRES À L’ÈRE DU NUMÉRIQUE
HistoriCal and CritiCal
aPProaCH to KnoWledGe
orGaniZation: from tHe
enliGHtenment to tHe
diGital era
Widad Mustafa El HADI
Université de Lille SHS
Ismaïl TIMIMI
Université de Lille SHS
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-485-1.p41-72
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
42
Résumé: l’article que nous proposons traite des approches historiographiques et critiques
des systèmes d’organisation des connaissances (SOC), notamment de la classification
des savoirs. Ainsi, en menant cette étude, notre objectif est triple: retracer l’histoire des
classifications documentaires dites “universelles” et mettre en évidence l’apport spécifique
des auteurs français au champ de l’organisation des connaissances notamment celui des
Encyclopédistes du Siècle des Lumières. Cette approche historiographique sera suivie
par un examen critique des classifications et leur place à l’ère du numérique, et nous
aborderons enfin les questions éthiques des SOC.
Mots-clés: organisation des connaissances (OC); systèmes d’organisation des
connaissances (SOC); classifications automatiques; classification des savoirs; éthique de
l’organisation des connaissances; Postmodernisme; Biais des SOC.
Abstract: this chapter deals with historiographical and critical approaches to knowledge
organization systems, in particular to the classification of knowledge. us, our aim is
threefold: to retrace the history of the so-called “universal” documentary classifications
and to highlight the specific contribution of French authors to the field of knowledge
organization, in particular that of the Encyclopaedists of the Age of Enlightenment. is
historiographical approach is followed by a critical examination of classifications and
their place in the digital age, and addressing the ethical issues of KOS.
Keywords: knowledge organization (KO); knowledge organization systems (KOS);
automatic classifications; ethics of knowledge organization; postmodernism; bias in KOS.
Estudos críticos em organização do conhecimento
43
1 INTRODUCTION
Le besoin croissant de disposer à tout moment de moyens d’accès aux
savoirs et aux savoir-faire a suscité une série de techniques d’organisation
des connaissances de plus en plus complexe dont la science de l’information
reflète l’état le plus récent. Au cours du lent rapprochement entre science
du livre et science du document qui a donné naissance à la science de
l’information, plusieurs disciplines ont contribué à éclairer et à délimiter
cet espace épistémologique par leurs concepts et leurs théories, notamment
la logique, la linguistique, l’informatique et les sciences cognitives. Mais ce
champ de la connaissance issu de besoins pratiques reste fondamentalement
une science appliquée destinée à favoriser et à rationaliser les échanges de
connaissances. La classification figure parmi les outils méthodologiques
traditionnels importants de l’histoire des sciences et de la philosophie. Au
sens documentaire, elle se définit comme l’organisation des connaissances
en un système ordonné de classes et sous-classes, établissant des relations
entre les notions selon leurs sujets (mise en relation entre thématiques des
ouvrages). Les classifications permettent à la fois le regroupement intellectuel
par sujets de notices (catalogue, bibliographies) et l’arrangement physique
des documents. L’intérêt porté aux problématiques de l’organisation des
connaissances s’est fortement accru face aux enjeux majeurs et stratégiques
que le savoir représente à l’ère du numérique. Il a ouvert un champ
d’activités autonome, d’étude et de recherche, au sein du vaste territoire
couvert par les sciences de l’information.
Les outils d’organisation des connaissances résultent d’un discours
qui implique un processus de classification d’objets ou de classes d’objets
qui requiert le recours à la langue et à ses concepts. On peut distinguer
trois approches : approche historique (regard sur les origines et l’évolution)
; approche conceptuelle et théorique (philosophie des sciences, philosophie
de la connaissance) et une approche empirique (Identification des éléments
constitutifs des SI, de sa mission, de ses liens avec d’autres disciplines),
Hudon et Mustafa El Hadi (2013).
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
44
La définition la plus consensuelle de l’Organisation des Connaissances
(désormais OC) est celle de Tennis (2008): “Domaine d’étude et de
pratique qui s’intéresse à la conception, à l’examen et à la critique des
processus d’organisation et de représentation de documents que la société
juge utiles de préserve”. L’OC se situe à la croisée de diverses disciplines
(sciences de l’information, sciences du langage, sciences de l’informatique,
sciences cognitives) et s’inscrit de manière forte dans les sciences de
l’information. L’OC est liée à la question du partage des savoirs et à leur
représentation. Les classifications bibliographiques ont été les premiers
outils d’organisation thématique des ouvrages: les systèmes de classification
(grandes classifications bibliographiques universelles), les encyclopédies,
les listes d’autorité (RAMEAU, LCSH, MeSH…), les terminologies, les
esaurus, les ontologies, les taxonomies.
Notre objectif dans cette contribution n’est pas de présenter de
manière détaillée le contenu de la littérature portant sur le domaine de
l’OC. Nous voudrons plutôt rappeler les grandes lignes en adoptant
une approche historiographique et épistémologique tout en montrant
l’actualité du champ en le retraçant depuis l’antiquité, le moyen âge, la
renaissance, le siècle des lumières et jusqu’à l’apparition des classifications
encyclopédiques dites “universelles”. Soulignons au passage que la plus
grande partie de cette contribution se base sur des articles co-écrits par
Widad Mustafa El Hadi et Michèle Hudon, EBSI, Université de Montréal
(Mustafa El Hadi; Hudon, 2010; Hudon; Mustafa El Hadi, 2017) mais
également sur les actes de colloques ISKO-France1 depuis sa fondation en
1996 et ceux de l’ISKO International2 (1991-2020), ISKO Encyclopedia3,
les travaux et séminaires de recherche de l’Axe 4 Geriico (Circulation de
l’information et Organisation des connaissances) dont les deux auteurs
de cette contribution sont membres. Ainsi, en menant cette étude, notre
objectif est triple: a) retracer l’histoire des classifications documentaires
dites “universelles” et de mettre en évidence l’apport spécifique des auteurs
http://www.isko-france.asso.fr
https://www.isko.org
https://www.isko.org/cyclo
Estudos críticos em organização do conhecimento
45
français au champ de l’organisation des connaissances notamment celui
des Encyclopédistes (les philosophes des lumières). Cette approche
historiographique sera suivie d’un examen critique des classifications
ayant entrainé des ruptures paradigmatiques successives; b) proposer une
approche épistémologique, analytique et critique des classifications des
savoir. Nous nous interrogeons à l’instar de Hjørland (2012) sur la place
des classifications à l’ère du numérique et comment les classifications sont
sorties des bibliothèques pour immerger dans le web (Ellis; Vasconcelos,
1999; Smiraglia 2013; Hudon; Mustafa El Hadi, 2017) et sur le cas des
classifications à facettes de Ranganathan utilisées dans l’architecture des
sites web commerciaux; c) aborder enfin les questions éthiques en analysant
certaines décisions biaisées produites par les systèmes d’organisation des
connaissances (classifications, autorités matières).
2 CENTRALITÉ DE L’OC
L’OC est un champ actif d’activités, d’étude et de recherche, au sein du
vaste territoire couvert par les sciences de l’information. L’OC était d’abord
une pratique professionnelle de description de documents et de collections
dans des systèmes documentaires qui se sont voulus très tôt internationaux
et donc multilingues. L’évolution technique (l’informatique, traitement
automatisé de l’information, linguistique de corpus, les technologies Web,
les statistiques textuelles) a conduit à une rationalisation de cette pratique.
Elle a fait naître un domaine original mêlant bibliothéconomie, modèles
de recherche d’information, linguistique, sciences cognitives et statistiques.
L’intérêt porté aux problématiques de l’OC s’est fortement accru
face aux enjeux majeurs et stratégiques que le savoir représente à l’ère du
numérique. Il a ouvert un champ d’activités autonome, d’étude et de
recherche au sein des sciences de l’information.
Décrit comme un domaine d’étude et de pratique qui s’intéresse à la
conception, à l’examen et à la critique des processus d’organisation et de
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
46
représentation des documents, ce champ couvre un ensemble de concepts,
de méthodes et d’outils destinés à représenter et à organiser le savoir
humain pour le conserver, l’utiliser et le partager. Il a pour rôle de produire
un langage commun normalisé entre des documents et contenus divers
dont le regroupement est nécessaire pour l’étude et la recherche. L’OC est
donc un élément déterminant des infrastructures qui organisent l’accès
à des documents hétérogènes (publications, images, sons). L’ensemble
des moyens qu’elle se donne (classifications, langages documentaires,
thesaurus, ontologies…) est l’équivalent pour les contenus de ce que sont
les protocoles de communication entre les machines en réseau.
3 APPROCHES HISTORIQUES
Bien qu’il puisse s’actualiser sous plusieurs formes, le processus
d’organisation suppose presque toujours une opération de classification.
Celle-ci est certainement l’une des méthodes les plus raffinées de
segmentation de la réalité, de mise en ordre et de production de cadres de
référence utiles, tout processus d’analyse, de déduction, d’apprentissage et
de mémorisation en fait usage. La classification est également inhérente
au processus de définition, lequel consiste à déterminer à la fois ce qu’est
une entité et ce qu’elle n’est pas; le but est d’organiser des entités en
classes, de sorte que les entités semblables ou parentes soient regroupées
et séparées des entités non semblables ou étrangères. La classe est donc un
ensemble d’entités (objets physiques ou virtuels, individus, attributs, etc.)
présentant une ou plusieurs caractéristiques communes. Cette distinction
est nécessaire à la compréhension du monde dans lequel nous vivons et à la
communication de ce que nous savons (Mustafa El Hadi; Hudon, 2010).
Dès l’Antiquité, la nécessité de disposer d’un système qui permettrait
de repérer et de localiser un document particulier se fit sentir à partir du
moment où un grand nombre de documents devenaient disponibles dans
un même lieu, dans une même collection. L’organisation systématique des
Estudos críticos em organização do conhecimento
47
collections fut longtemps basée sur des critères physiques, tels la forme et
le matériau, bien qu’on puisse observer à toutes les époques des tentatives
de segmentation en grandes catégories représentant des sujets ou des
genres (Histoire, Poésie, Mythologie, etc.). L’organisation des documents
en fonction de ce dont ils traitent plutôt que de ce à quoi ils ressemblent
a donc toujours été vue plus ou moins clairement comme un objectif à
atteindre, mais il fallut attendre la Renaissance pour que se répandent les
systèmes d’organisation des collections basés sur d’autres critères que la
forme, la couleur, le nom de l’auteur ou la date d’acquisition (Mustafa El
Hadi; Hudon, 2010).
3.1 UNE BRÈvE HISTOIRE DE LORgANISATION DES CONNAISSANCES : DE
L’ANTIQUITÉ AUX LUMIÈRES
Bien que les technologies évoluent et permettent de nouvelles façons
de partager et d’utiliser l’information, toutes les époques et tous les contextes
ont éprouvé le besoin d’organiser leurs connaissances. Depuis les premiers
temps de l’histoire connue, les philosophes ont cherché les principes de
base selon lesquels un cadre systématique de connaissances pourrait être
structuré. Les principes d’ordonnancement ont également été appliqués
très tôt aux besoins pratiques d’organisation des documents. Dans ce cas,
les principes étaient moins abstraits, car les documents les plus anciens
avaient tendance à traiter de problèmes quotidiens tels que le commerce
des produits ou la gestion de la vie sociale, plutôt que de la structure
générale du monde (Dousa, 2018). Les premiers documents écrits connus,
les tablettes d’argile sumériennes et les planches de bois recouvertes de
cire, sont souvent structurés comme de simples listes d’éléments. Les listes
sont en effet la forme minimale de SOC. Elles organisent les éléments
d’information dans un espace limité et plat qui peut être balayé dans
diverses directions par le lecteur. L’adoption de l’écriture a donc encouragé
les penseurs à organiser leurs idées de manière plus systématique et plus
abstraite (Goody, 1977). Bien que les images peintes sur les parois des
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
48
grottes aient déjà été des exemples de documents, l’OC elle-même a
largement émergé de l’essor de la culture écrite (Gnoli, 2020).
La civilisation mésopotamienne s’est développée en produisant
également de véritables bibliothèques de tablettes d’argile. Sur les murs et
les portes de certaines pièces, un catalogue était gravé, enregistrant chaque
titre ou incipit avec le nombre de lignes correspondant dans une tablette,
ou le nombre de tablettes dans une œuvre entière. La question de savoir si
la bibliothèque entière était organisée par disciplines au sens moderne du
terme est contestée, bien que certaines salles soient spécialisées dans les textes
historiques, géographiques, juridiques, grammaticaux ou mythologiques.
On retrouve une situation similaire dans les vestiges de l’autre grande culture
de la première Antiquité: l’Égypte. Déjà vers 2500 avant J.-C., on trouve des
listes de mots, parfois regroupées par classes, sur des tablettes d’argile, et plus
tard, comme c’était typique de cette région, sur des rouleaux de papyrus.
Comme en Mésopotamie, les éléments énumérés ne s’excluaient pas
toujours mutuellement de manière rigoureuse, bien qu’ils aient eu tendance
à l’être dans le cas particulier des normes, selon lesquelles les faits connus
devaient être différenciés de manière précise afin d’appliquer une sanction
appropriée. Les vocabulaires sont mieux développés (Gardiner, 1947, cité
par Gnoli, 2020) dans un lexique égyptien tel que le Ramesseum, où les mots
sont formellement enfermés entre des lignes parallèles et classés sous des
rubriques de classification. Plus encore dans le lexique d’Amenope vers 1100
avant J.-C., contemporain de la bibliothèque de Tiglath-Pileser où plus de
600 articles sont classés sous des classes principales telles que: I Rubrique
introductive; II Ciel, eau, terre ; III Gens, cour, offices, professions; IV Classes,
tribus et types d’êtres humains; V Les villes d’Egypte; VI Bâtiments, leurs parties
et types de terre; VII Terres, céréales et leurs produits; VIII Boissons; IX Parties
d’une vache et types de viande etc. (Gnoli, 2020). Dans chaque classe de ce
lexique, les mots peuvent être triés selon des critères tels que de haut en bas
(pour les classes II), de général en spécifique (pour les classes III-IV et IX).
Les bases de l’OC étaient déjà instaurées, d’après l’auteur (Gnoli, 2020).
Estudos críticos em organização do conhecimento
49
L’Antiquité, le moyen âge, la renaissance Descartes, la révolution
française les Lumières ont été témoins d’une activité florissante en OC
grâce aux apports de K. Gesner, F. Bacon, G. Naudé (la Renaissance), Bayle,
Buffon, Von Linné, D. Hume, Diderot, D’Alembert, J. Locke, G. Berkeley
(les Lumières) d’Antoine Lavoisier, . Jefferson, A Comte (La Révolution
Française). Sir Francis Bacon influence les auteurs des classifications
bibliographiques modernes même si les origines se trouvent chez les
philosophes grecs (Aristote, Porphyre).
Un concept fondamental et totalement lié aux outils de l’OC est
celui de “technologies intellectuelles4. Dans son article sur S. Briet, Sylvie
Fayet-Scribe (2018, p. 2) montre cette relation:
Découvrir l’histoire de la documentation nécessite une démarche
particulière. Il est nécessaire d’acquérir une culture de l’écrit, et de
l’appréhender à travers l’histoire des supports, des dispositifs spatiaux
et des dispositifs sémantiques; en particulier, les outils de repérage
de l’information s’inscrivent sur un “temps long” de la naissance de
l’écriture (environ 3500 avant J.-C. à Sumer) jusqu’à aujourd’hui5.
Pouvoir situer dans le temps l’apparition et le développement
des outils de repérage de l’information en même temps que leur
évolution est primordial pour l’histoire de la documentation. En
effet, les listes, les index, les résumés, les répertoires, les catalogues,
les systèmes de repérage dans le texte, les tables de contenu et de
matière, les bibliographies diverses, les dictionnaires et encyclopédies,
les annuaires, les dossiers documentaires, les thésaurus, les bulletins
de sommaire, les hypertextes et les cartes sémantiques possèdent un
passé qui permet de mieux cerner les évolutions actuelles de l’accès à
l’information numérique et papier.
Ces outils et ces méthodes que l’on nomme aussi “technologies de l’intelligence”, d’après Pierre Lévy
(1990). Les technologies intellectuelles sont des artefacts techniques qui donnent accès à des systèmes de
représentation et de traitement de l’information et des connaissances. Ces outils ne sont pas nécessairement
des objets matériels ou techniques (outils cognitifs) ex. le langage, outil cognitif de nature symbolique, ce
sont les outils de production, de mémorisation, et de circulation du savoir. Le langage et l’écriture sont les
premières formes de technologies intellectuelles.
Pour cela, on peut partir du tableau chronologique et de la synthèse en accès sur l’Internet: Chronologie des
supports, des dispositifs spatiaux, des outils de repérage de l’information de la préhistoire à nos jours, dans
“Le savoir et ses outils d’accès : repères historiques”, Solaris, Les cahiers du Groupe Interuniversitaire de
Recherche en Sciences de l’information (GIRSIC), n. 4, 1997. http://biblio-fr.info.unicaen.fr/bnum/jelec/
Solaris/d04/4fayet--0-intro.htlm. Le tableau ayant été édité en 1997, il y a plus de 20 ans, demanderait une
mise à jour historique (Fayet-Scribe, 1997).
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
50
3.2 AUX ORIgINES DES gRANDES CLASSIFICATIONS BIBLIOgRAPHIQUES
À partir du XVIe siècle, le classement des documents en fonction
des sujets dont ils traitent s’implante progressivement, mais demeure
une entreprise individuelle, rarement soumise à validation externe ou à
normalisation. L’invention de l’imprimerie et la multiplication des ouvrages
à organiser en collections et en sous-collections rendent impératif le
développement de systèmes d’organisation plus performants, aptes à servir
des utilisateurs autres que leurs seuls créateurs. Trois initiatives influenceront
plus particulièrement l’évolution de la classification documentaire. Konrad
Gesner (1516-1565), pionnier de la recherche bibliographique, organise
le savoir en 21 classes distinctes, une division que l’on trouve encore
aujourd’hui dans quelques grands outils de classification. Sir Francis
Bacon (1561-1626) propose dans sa classification des sciences (1605)
une segmentation des collections en œuvres de mémoire, d’imagination
et de raison; cette segmentation sera reprise deux siècles plus tard par
omas Jefferson (1743 –1826) d’abord, et ensuite Melvil Dewey (1851-
1931). Chez Gabriel Naudé6 (1600-1653) se dessinent déjà les divisions
disciplinaires qui structurent aujourd’hui les systèmes encyclopédiques de
classification documentaire : histoire, sciences humaines, droit, médecine,
mathématiques, philosophie et théologie.
Au début du XIXe siècle, une multitude de systèmes de classification
développés localement coexistent encore. Ces systèmes ont en commun
d’être peu accessibles à l’utilisateur des collections documentaires et c’est en
réaction à ce fait que Melvil Dewey explore la possibilité de simplifier et de
systématiser le rangement des documents. Dewey implante la classification
relative”, plaçant tout document d’une collection en relation non seulement
avec celui qui le précède et avec celui qui le suit immédiatement, mais
Gabriel Naudé (1600-1653) était un bibliothécaire et un érudit français. Il est l’héritier de l’humanisme de
la Renaissance et un précurseur de Bayle et Fontenelle qui marquent la transition vers la période classique.
Naudé était un écrivain prolifique qui a produit des ouvrages sur de nombreux sujets, notamment la
politique, la religion, l’histoire et le surnaturel. Il a écrit un ouvrage influent sur la bibliothéconomie quand
il a publié en 1627 son livre Advis. Plus tard, il a pu mettre en pratique toutes les idées qu’il avait présentées
dans son Advis lorsqu’il a eu l’occasion de construire et, plus tard, de diriger la bibliothèque du cardinal du
Cardinal Jules Mazarin qui était à l’époque le Premier Ministre du royaume.
Estudos críticos em organização do conhecimento
51
également avec tous les autres ouvrages faisant partie de la collection. Dewey
développe ainsi l’idée d’un contemporain, William T. Harris, de classifier
non pas le livre mais plutôt son contenu, donc les éléments d’information
et de connaissance qu’il véhicule. Reprenant en les inversant les trois classes
proposées par Bacon en 1605, il reproduit l’organisation des connaissances
en vigueur dans la deuxième moitié du XIXe siècle. Les disciplines liées à
la raison y occupent la plus grande place, se répartissant en cinq grandes
classes: philosophie, théologie, sciences sociales, linguistique et sciences
pures. L’imagination se voit consacrer trois classes: sciences appliquées et
technologie, beaux-arts et musique, littérature. La géographie et l’histoire
occupent l’unique classe consacrée à la mémoire. L’indice de classification
est conçu de telle sorte qu’il renvoie non seulement à la localisation exacte
du document physique, mais également à la place et à l’importance relative
du sujet dont il traite dans l’univers des connaissances. Ces divers apports
ont été à la base des classifications: Les langages à structure hiérarchique ou
arborescente (schémas de classification) sont plus anciens que les langages à
structures combinatoires (thésaurus, terminologies, index structurés). Les
grandes classifications encyclopédiques sont la Classification décimale de
M. Dewey, Universelle Classification Décimale de P. Otlet, la Classification
de la Bibliothèque du Congrès, d’A. Cutter, la Colon Classification
(classification à facettes) de S.R. Ranganathan. D’autres classifications
moins utilisés sont les classifications de H. E. Bliss.
4 SUR QUELQUES ORIgINES OUBLIÉES DE LA CONTRIBUTION FRANÇAISE À
L’OC
Dans cette partie nous nous intéresserons aux auteurs, théoriciens
et praticiens de l’OC qui ont été négligés ou oubliés par les spécialistes
français de l’information et tenterons d’évaluer, dans cet exercice
rétrospectif, leur contribution ainsi que leur impact sur les sciences
de l’information, discipline scientifique qui sous-tend les fondements
théoriques et méthodologiques de l’OC. Cet exercice peut être divisé
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
52
en trois périodes chronologiques : la première remonte aux philosophes
français du Siècle des Lumières, dont beaucoup ont participé au projet
global de l’Encyclopédie mais qui comprend aussi l’importante contribution
à la théorie de la classification et l’empreinte de Gabriel Naudé sur l’OC.
La deuxième période couvre l’histoire relativement récente, du XIXème
au XXème siècle avec la naissance des théoriciens francophones tels que
le philosophe Auguste Comte7 et sa Classification des sciences. La troisième
période enfin est représentée par les activités florissantes de ce que nous
appelons en France les précurseurs (Palermiti, 2000) parmi lesquels on
peut citer Suzanne Briet, Eric de Grolier, Jean-Claude Gardin, Robert
Pagès, Robert Escarpit, Jean Meyriat et Jacques Maniez.
LESPRIT ENCyCLOPÉDIQUE8
La première période
Les philosophes français du Siècle des Lumières et les Encyclopédistes
ont apporté une contribution majeure à la théorie de la classification
à travers leurs modèles et ont montré l’influence de G. Naudé sur
l’organisation des connaissances, une filiation qui remonte à la Renaissance
avec K. Gesner et aux encyclopédistes français, en particulier Pierre Bayle9,
Diderot et D’Alembert. Le processus de diffusion des idées nouvelles se
trouva amplifié par le progrès des techniques de diffusion de l’information.
Les passages de l’Encyclopédie sont lus par les nobles et les bourgeois dans
Auguste Comte est connu pour avoir fondé le courant philosophique du positivisme, courant
intrinsèquement lié à ses travaux tels que la loi des trois états ou la classification des sciences.
L’Encyclopédie ou Dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers est une encyclopédie française éditée
de 1751 à 1772 sous la direction de Diderot et d’Alembert. LEncyclopédie est un ouvrage majeur du XVII
siècle et la première encyclopédie française. Par la synthèse des connaissances du temps qu’elle contient,
elle représente un travail rédactionnel et éditorial considérable pour l’époque, mené par des encyclopédistes
constitués en “société de gens de letres”. Au-delà des savoirs qu’elle compile, le travail qu’elle représente et
les finalités qu›elle vise, en font un symbole de l’œuvre des lumières une arme politique et, à ce titre, l’objet
de nombreux rapports de force entre les éditeurs, les rédacteurs, le pouvoir séculier et ecclésiastique.
BAYLE, P. Dictionnaire historique et critique. Paris: Desoer, 1820. Disponível em: https://gallica.bnf.fr/
essentiels/bayle/dictionnaire-historique-critique. Acesso em: 9 ago. 2023.
Estudos críticos em organização do conhecimento
53
des salons, les personnes présentes donnent leur avis sur les écrits des
philosophes. Les journaux et la correspondance permirent des échanges
plus rapides dans toute l’Europe, réalisant une nouvelle forme d’unité
culturelle ((sources Wikipédia). LEncyclopédie ou Dictionnaire raisonné des
sciences, des arts et des métiers de Denis Diderot et Jean le Rond D’Alembert
(1751) est représentative d’un nouveau rapport au savoir : elle marque la
fin d’une culture basée sur l’érudition, telle qu’elle était conçue au siècle
précédent, au profit d’une culture dynamique tournée vers l’activité des
hommes et leurs entreprises. Elle permet à un plus grand nombre de
personnes d’accéder au savoir. Ce mouvement intellectuel des lumières
défend l’idée qu’il existe une architecture scientifique et morale du savoir,
une structure prévalente et ordonnée dont la réalisation est un moyen de
libération de l’homme. Les journaux et la correspondance permirent des
échanges plus rapides dans toute l’Europe, réalisant une nouvelle forme
d’unité culturelle.
Mais le premier encyclopédiste serait d’après Voltaire Pierre Bayle
(1647 - 1706), né en France, mort en Hollande, auteur du Dictionnaire
historique et critique10 (1697) qui préfigure l’encyclopédie. Il peut être
considéré comme un proto-philosophe des Lumières (Mustafa El Hadi,
2018a, 2018b) et le premier encyclopédiste français. Le but déclaré de son
Dictionnaire était la correction des erreurs des auteurs des dictionnaires
précédents (Louis Moréri)11. Pour Bayle, le monde ne se réduit jamais à
10 Le Dictionnaire historique et critique de Pierre Bayle est la réalisation suprême de l’un des hommes de
lettres les plus éminents du XVIIe siècle. Vivant aux Pays Bas où il avait trouvé refuge suite à sa conversion
suivie de rétractation du Protestantisme au Catholicisme (sa motivation n’était due qu’à un accès à
l’éducation de la part d’un jeune homme pauvre) Bayle a animé le débat intellectuel en Europe grâce à son
travail d’éditeur, d’auteur et de correspondant prolifique. Conçu à l’origine comme une réponse aux erreurs
du Grand dictionnaire historique de Louis Moréri, son Dictionnaire historique et critique est devenu un
ouvrage exemplaire de méthodologie critique. L’auteur a minutieusement compilé, comparé, questionné,
cherchant un degré de certitude historique, aussi minime soit-il. Le Dictionnaire de Bayle a été qualifié
d’”arsenal des Lumières”, pillé et réédité tout au long du XVIIIe siècle par les croyants comme par les
sceptiques, qui trouvaient dans les notes de l’ouvrage de quoi alimenter leur argumentation philosophique
(BAYLE, P. Dictionnaire historique et critique. Paris: Desoer, 1820. Disponível em: https://gallica.bnf.fr/
essentiels/bayle/dictionnaire-historique-critique. Acesso em: 9 ago. 2023.)
11 Le Dictionnaire historique et critique, Bayle, 1697, ouvrage unique en son genre, il repose sur une méthode
rigoureuse dans l’établissement des faits par la critique des sources et sur un questionnement perpétuel, d’une
insolence ingénue, à l’égard de toutes les idées reçues en philosophie et en théologie. Bayle veut combler les
lacunes des dictionnaires antérieurs et se donne pour mission de tout remettre en question, passant en revue
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
54
une vision manichéenne et suppose le croisement permanent de points de
vue et d’opinions contradictoires. Il écrit alors l’œuvre majeure de sa vie, le
Dictionnaire historique et critique” (Bayle, 1820) , dont plusieurs éditions,
encore très bien conservées, sont présentées dans le musée. Cette œuvre
est considérée comme l’ancêtre de l’Encyclopédie des Lumières, Voltaire
affirmant même que ce fut “le premier ouvrage de ce genre où l’on puisse
apprendre à penser”.
La deuxième période
Une autre période clé couvre une histoire relativement récente, du
XIXe au XXe siècle, avec l’apport des théoriciens français comme Auguste
Comte et sa Classification des sciences “Broad System of Ordering”,
une classification inspirée de l’enchaînement des sciences allant des
mathématiques et de la physique, en passant par la chimie, la biologie et la
psychologie, jusqu’aux sciences sociales et humaines. Comte conjugue la
philosophie des sciences et son histoire en donnant une classification qui
est, d’une part dans un ordre de découverte chronologique et, d’autre part
propose biologie et sociologie, sciences qu’il affirme comme appartenant aux
idées positivistes et modernes. Ce système s›oppose alors à celui de Diderot
et son Encyclopédie qui avait un mode principalement alphabétique. D’une
manière plus générale, Comte s’oppose aux Lumières avec le positivisme
et sa classification nouvelle. Il reproche notamment à la classification de
D’Alembert de se baser principalement sur la théorie métaphysique des
facultés de l’âme qui sont mémoire, imagination et raison. Pour Comte,
elles sont liées dans les disciplines de l’Homme et donc, doivent être
ajoutées au système de classification. En 1825, la Classification des sciences
tous les problèmes de morale, de théologie et d’exégèse, canalisant toute la libre pensée des siècles précédents. Il
use de la forme biographique et de la disposition alphabétique du dictionnaire pour ouvrir l’espace intellectuel
d’une encyclopédie, confondue avec le mouvement historique de la pensée. On y trouve un souci constant
d’objectivité et de tolérance et un plaidoyer passionné pour “les droits sacrés de la conscience”. Cette œuvre
connaît un énorme succès avec au moins dix éditions avant 1760. Voltaire y a beaucoup puisé, le lisant la
plume à la main (BAYLE, P. Dictionnaire historique et critique. Paris: Desoer, 1820. Disponível em: https://
gallica.bnf.fr/essentiels/bayle/dictionnaire-historique-critique. Acesso em: 9 ago. 2023).
Estudos críticos em organização do conhecimento
55
proposée par Auguste Comte prend toute son ampleur dans les articles
intitulés “Considérations philosophiques sur les sciences et les savants12.
Selon Comte, “les sciences supérieures ont besoin de connaître les lois des
disciplines inférieures parce que celles-ci interviennent partiellement dans
l’explication des phénomènes qu’elles étudient”.
Pour point de départ, considérons le positivisme d’Auguste Comte
et la conception mécaniste de la science qui s’impose à la fin du XIXe siècle.
Auguste Comte popularise le terme forgé par Saint-Simon, “positivisme”,
et cherche à étendre son concept aux sciences humaines, à la sociologie et
à la philosophie. Cette conception est liée aux notions de phénomène, de
causalité, d’objectivité scientifique (Emile Durkheim, poursuivra dans cette
voie en faisant du fait social un phénomène sui generis, en en se basant sur
les statistiques pour tenter de positiver les sciences sociales). Cette idée
fonde la science positive (ou philosophie positive), qui selon Auguste Comte
doit être le fondement de la vie humaine en société.
Mais en quoi le projet d’Auguste Comte a-t-il impacté le domaine
de l’organisation des connaissances ?
La cLassification des sciences : sa conception de La cLassification
Comte estime que les classifications existantes notamment celles de
Bacon ou d’Ampère ne présentent pas une hiérarchisation des différentes
sciences de façon correcte, il expliquerait cela par le fait que les sciences,
en vue de leur développement irrégulier n’ont pas pu toutes atteindre au
même moment ce qu’il nomme l’état positif. Selon Comte, c’est donc en
raison du manque d’homogénéité au sein même des sciences qu’il n’y a
pas eu de hiérarchies bien agencées. Comte évoque la classification des
sciences relativement tôt dans ces travaux, en 1822, mais cette dernière sera
12 Maison Auguste Comte, Biographie [en ligne] disponible sur: http://augustecomte.org/auguste-comte/
biographie.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
56
réellement développée en 1825. Précisons que cette hiérarchie est surtout
pensée dans une modalité historique, elle est liée à la loi des trois états.
En 1825, la classification des sciences proposée par Auguste Comte
prend toute son ampleur dans les articles intitulés “Considérations
philosophiques sur les sciences et les savants”. Comte relie la classification
aux états de façon telle que celle-ci commande ceux-là: “Cette classification
fixe donne d’une manière claire l’ordre du développement de chacune des
trois philosophies”. Dans ces articles, Comte précise et complète les critères
d’organisation des différentes sciences. Il apportera aux critères déjà établis
un degré d’indépendance et un degré de spécialité. Il faut noter que les
mathématiques, qui représentent la science à la base de la classification,
ne sont pas évoquées tout de suite. En effet, bien que les mathématiques
soient considérées par Comte comme: “la science la plus ancienne et la
plus parfaite de toutes” ou bien encore la “véritable base rationnelle du
système entier des connaissances positives” cette dernière ne sera ajoutée
qu’à la fin. Avec cette classification, Comte veut redistribuer les savoirs,
mais il y a surtout chez lui une volonté d’éducation scientifique. Cette
classification, avec la loi des trois états expliquée précédemment, fait partie
des idées fondamentales de la philosophie positive développée par Comte.
Ce dernier inscrit ses travaux dans une démarche nouvelle et qui se veut
apportant d’autres travaux proposés mais surtout accompagnés de cette
volonté pédagogique.
Il commence par les mathématiques qui sont à la base de la
construction scientifique. Cependant, Comte ne les considère pas comme
les sciences reines, mais juste les plus rationnelles et simples. Ce sont
les mathématiques qui permettent de construire les sciences suivantes
notamment avec les diverses équations que nous trouverons en astronomie,
en physique et en chimie. Bien que Comte ait une formation initiale en
mathématiques, cette science fut ajoutée en dernier à la classification
des sciences, cet ajout à la base de la classification met en avant les
mathématiques comme “Le véritable point de départ de toute éducation
scientifique”, un des fondements de la philosophie positive.
Estudos críticos em organização do conhecimento
57
La deuxième science étant l’astronomie, qui représente à la fois des
phénomènes simples et généraux, se trouve éloignée de l’Homme mais,
reste l’une des premières découvertes de l’Homme puisque, rappelons que
depuis l’Antiquité, l’Humanité n’a jamais cessé d’observer les étoiles et
d’essayer de comprendre les nombreux phénomènes observables. De plus,
l’astronomie ne peut exister sans les calculs et donne là un parfait exemple
de complémentarité. En troisième place la physique puis en quatrième la
chimie qui sont des sciences relativement proches. Ensuite la biologie ou
physiologie, c’est là que l’on peut observer les lois des phénomènes terrestres
ou célestes, science qui regroupe les êtres vivants de manière générale.
Enfin, la sociologie que Comte la définit comme: “une étude
positive de l’ensemble des lois fondamentales propres aux phénomènes
sociaux”. La sociologie est considérée comme l’aboutissement de toutes
les sciences. Cette science étudie les phénomènes les plus complexes, ceux
qui concernent au plus près l’être humain, est ainsi la plus générale de
toutes les sciences. Elle sera d’abord introduite et définie dans le Cours.
Au début, ce terme se retrouve “sociologie” sous le vocable de “physique
sociale”, mais le terme sera abandonné en 1836 pour le nom commun de
sociologie”. Comte affirme qu’il n’est pas l’inventeur de ce terme.
La troisième période
La troisième période est représentée par les activités florissantes de
ce que nous appelons en France les précurseurs (Palermiti, 2000) parmi
lesquels on peut citer Eric de Grolier, Jean-Claude Gardin, Robert Pagès,
Robert Escarpit, Robert Estival, Jean Meyriat et Jacques Maniez (voir aussi
Mustafa El Hadi, 2018a). Le onzième colloque ISKO-France organisé
à l’UNESCO en hommage aux pionniers français a permis de retracer
l’apport français à la science de l’information et du document. L’apport
spécifique à l’OC et démontré par l’examen des positions spécifiques
d’Eric De Grolier (1911-1998) pour le rôle qu’il a joué dans la définition
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
58
et l›élargissement des catégories de Ranganathan. Celui de Jean-Claude
Gardin (1925-2013), considéré comme un précurseur des Humanités
numériques et dans sa relation avec la discipline sciences de l’information,
avec un accent particulier sur l’OC.
L’apport de ces pionniers a fait l’objet du colloque ISKO-France
réuni à Paris en 2017 dont les actes ont été rassemblés et publiés (Mustafa
El Hadi, 2018a). A la suite de cette publication nous avons publié un
numéro spécial des Cahiers du numérique (Couzinet; Mustafa El Hadi;
Papy, 2020) afin de couvrir les pionniers qui n’ont pas fait l’objet d’articles
dans les actes de Paris. Nous avons ainsi publié deux articles sur De Grolier,
une contribution sur Gabriel Naudé et une troisième sur Eric de Grolier.
Michèle Hudon (2021) mis l’accent sur Éric de Grolier et son
apport à l’organisation des connaissances. Éric de Grolier (1911-1998) a
mené une carrière professionnelle longue et diversifiée. Il fut tour à tour,
et parfois même simultanément, libraire, bibliographe, documentaliste,
bibliothécaire, enseignant, éditeur, traducteur, chercheur et consultant. On
lui reconnait une forte personnalité, une curiosité insatiable, une érudition
exceptionnelle, une prodigieuse capacité d’absorption de connaissances,
une étonnante aptitude à la synthèse, un esprit critique aiguisé et une
qualité d’expression adroitement mise au service de ses intérêts pour la
linguistique et la terminologie, la science politique, l’économie, la lecture
publique, la communication et la science de l’information (SI). De Grolier
se présente comme un être interdisciplinaire (Grolier et Fayet-Scribe,
1996, 287, cité par Hudon 2021) et Vickery dit de lui qu’il peut débattre
de tous les sujets, fort d’un savoir étendu parfaitement intégré et classifié
(Vickery, 1991,p. 170, cité par Hudon 2021).
Les deux écrits majeurs dans ces deux écrits publiés à quelques
années d’intervalle et au sein desquels on retrouve toutes les connaissances
accumulées par De Grolier, alors au sommet de sa carrière. éorie et
pratique des classifications documentaires (1956) Cette monographie est
un ouvrage monumental, désigné par B.C. Vickery comme le “Big Book
Estudos críticos em organização do conhecimento
59
on classification” (Vickery, 1991, p. 170, cité par Hudon, 2021). Dans un
compte rendu de l’ouvrage, Vickery le qualifie de “most comprehensive
study of classification that has yet appeared” (Vickery, 1991, p. 170),
prédisant que le nom de son auteur commencerait à circuler davantage
dans les milieux anglophones qu’il ne l’avait fait jusque-là. Vickery
déplore que le document ne soit pas plus largement distribué, car il
juge son contenu d’un grand intérêt pour toute personne intéressée à
la classification documentaire. L’ouvrage compte plus de 400 pages et
propose 827 notes dont certaines se développent sur une page complète.
De Grolier utilise ces notes pour y consigner les nombreuses références
bibliographiques qui soutiennent son propos, pour inclure des citations,
pour ajouter un commentaire ou une critique sur un élément du texte
principal ou de la note elle-même. Complété par un index alphabétique
détaillé des noms propres et des sujets, l’ouvrage ne contient cependant pas
de bibliographie; on doit déplorer que le choix de citer les sources dans les
notes nous empêche de dresser aisément la liste des ouvrages consultés qui
constituent, d’une part, un inventaire de systèmes de classification depuis
l’Antiquité sans doute plus complet que ce qui a été proposé ailleurs et,
d’autre part, une liste des nombreux écrits de l’auteur lui-même qui n’ont
pas été publiés et sont aujourd’hui difficilement repérables.
Etude sur les catégories générales applicables aux classifications et aux
codifications documentaires (1962). Ce rapport a été préparé en réponse à
une demande de l’UNESCO “d’organiser une recherche sur les catégories
les plus générales qui se retrouvent dans toutes les classifications ou
codifications consacrées à des disciplines particulières” (De Grolier, 1962,
p. 11). Mandaté pour mener cette étude qui lui permettait de combiner ses
intérêts pour la linguistique, les langages classificatoires et la transmission
d’informations plus généralement. De Grolier y a travaillé pendant plus de
deux ans, soulignant la difficulté d’analyser un si vaste ensemble de données
et surtout de se tenir au fait des innovations technologiques pertinentes à
la mécanisation de la recherche d’information. L’étude a été commandée
dans un contexte de prolifération des centres de documentation et des
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
60
structures classificatoires spécialisées, avec l’objectif de préparer la voie
à une norme universellement reconnue, qui contrôlerait notamment la
décomposition des sujets en facteurs simples et l’identification des relations
entre concepts.
Dans “e organization of knowledge based on the proposals of J.-C.
Gardin”, Wilhelmina Smit (voir Mustafa El Hadi, 2018a, introduction au
volume) et son équipe soulignent l’apport fondamental de cet archéologue
au processus d’automatisation du traitement de l’information (Lara; Smit;
Tálamo, 2018). Pour J.-C. Gardin, le travail intellectuel devrait être fondé
sur des processus de classification explicites et formels, pour que la machine
puisse manipuler les données (le calcul) et créer des conditions pour établir
des corrélations et des associations d’information. L’article revient sur des
propositions de J-C. Gardin qui le relient aujourd’hui aux développements
du web sémantique et aux ontologies et à leur rôle important pour les
sciences de l’information et du document.
Dans sa conférence invitée, ISKO-France 2017, “Jean-Claude
Gardin and the search for interdisciplinary methodologies and reliable
tools for the knowledge organization practices: analyse documentaire and
langage documentaire”, José Augusto Guimarães (2018) revient sur le rôle
de Paul Otlet et sa contribution majeure à l’élaboration de techniques et
de méthodologies destinés aux milieux documentaires, participant ainsi
à promouvoir l’accès le plus large possible à l’information. Guimarães
rappelle le rôle majeur de l’OC comme médiateur entre les contextes de
production et d’utilisation des connaissances. Il met par ailleurs en exergue
le rôle fondamental de J.-C. Gardin dans la construction de la dimension
épistémologique de l’OC et du développement d’une méthodologie
interdisciplinaire, basée sur des modèles logiques et linguistiques,
l’“analyse documentaire”, ainsi que sur la recherche d’outils fiables destinés
à construire des ponts solides entre le document, le système documentaire
et l’utilisateur: les “langages documentaires”.
Estudos críticos em organização do conhecimento
61
5 CLASSIFICATION DU SAvOIR: DES BIBLIOTHÈQUES AUX WEB
Avant la notion élargie de l’OC, ce mode opératoire était le
plus souvent fondé sur une approche strictement disciplinaire de la
connaissance, les livres pouvaient être divisés en catégories thématiques
telles que: théologie, philosophie, histoire, littérature etc. ce qui supposait
que chaque livre était effectivement rattaché à une discipline. Cependant,
de nouveaux médias sont apparus progressivement et devaient eux aussi
être organisés: images imprimées, supports digitaux, information en réseau,
ceux-ci sont désormais intégrés et convergents grâce à de multiples supports
interopérables: contenu multimédia, pouvant facilement être transmis d’un
téléphone portable à un ordinateur, ou un système de navigation routier,
équipements interactifs dans des foyers connectés et équipés d’objets
communicants etc. Face à cette situation, l’interdisciplinarité s’impose
dans la conception de nouveaux systèmes d’organisation des connaissances
(SOC). L’approche par facettes semble répondre à cette exigence. En effet,
la Classification à facettes de S. R. Ranganathan (1892-1972), également
connue sous le nom de “Classification Colon (CC)”, met au cœur de la
structure classificatoire, non pas le sujet comme unité sémantique de base
mais plutôt le concept, que Ranganathan nomme “isolat”, (Hudon; Mustafa
El Hadi, 2017; Maniez, 2002), les tables de la CC se comparent donc à des
inventaires de concepts. Cette particularité met en évidence une rupture
paradigmatique de l’approche traditionnelle (Maniez, 1999). Elle permet
de se libérer de structures hiérarchiques complexes et critiquées, tout en
préservant la logique de navigation dans un domaine de la connaissance ou
dans une collection documentaire. Les facettes, très présentes sur le web,
occupent une place privilégiée au sein d’un environnement technologique
qui permet de tirer parti de leur simplicité, de leur flexibilité, de leur
adaptabilité et de leur potentiel d’interopérabilité.
Avec de nouvelles formes de métadonnées descriptives apparues pour
traiter de nouvelles formes de documents, la modification de la description
des sujets, l’amélioration des outils d’organisation de l’information, l’OC
reste au cœur de la science de l’information. Cependant, les classifications
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
62
énumératives sont, malgré leur limitation, toujours les principaux outils
utilisés dans les notices de catalogue des bibliothèques et servent à organiser
les ressources Internet dans certains portails web (Hjørland, 2012).
Largement utilisées au niveau international, leur révision, généralement
confiée à des comités internationaux, se fait lentement. Désormais, les
distributeurs de supports numériques poussent à converger vers l’utilisation
d’un espace de représentation unique pour tout échantillon de savoir. Une
tendance confirmée par l’intégration croissante des principes du catalogage
et de plans de classement comme le FRBR ou le CIDOC-CRM, à des
disciplines telles que la bibliothéconomie, l’archivistique et la muséologie.
5.1 LE RôLE DES SOC DANS LENvIRONNEMENT NUMÉRIQUE:
DIMENSIONS MULTILINgUE, SOCIALE ET INTERCULTURELLE
L’un des défis auxquels nous sommes confrontés dans l’OC est
l’hétérogénéité des systèmes, tant au niveau des expressions que dans celui
de la structure et du contenu conceptuel. De même, les préoccupations
linguistiques et le rôle de la langue et des cultures rejoignent les réflexions
menées en Sciences de l’information. En effet, la mise en œuvre de
l’interopérabilité dans les SOC soulève de nombreuses difficultés car au-delà
des questions techniques premières, les problèmes liés aux communications
entre des cultures différentes sont évoqués de manière récurrente. Ceux-ci
sont considérés comme étant une dimension déterminante de l’éthique de
l’organisation des connaissances (Mustafa El Hadi, 2017, 2019, 2021).
Par ailleurs, dans le cadre du web des données les enjeux liés à l’ouverture
et l’interopérabilité des données dans un espace de publication commun
renouvellent l’importance des normes et standards et interrogent leur
degré de pertinence. La nouvelle norme répond aux insuffisances repérées
et propose notamment l’établissement de passerelles entre diverses formes
de langages documentaires pour favoriser “l’interopérabilité sémantique des
systèmes de représentation et de recherche d’information”, (Favier; Mustafa El
Hadi, 2013). Elle accorde en effet, plus d’attention aux questions touchant
Estudos críticos em organização do conhecimento
63
le multilinguisme et le multiculturalisme dans les langages et les systèmes
de représentation et de recherche d’information. Leur prise en compte
conditionnera l’avenir du web de données et l’enrichissement sémantique
de contenus.
6 LA DIMENSION ÉTHIQUE DANS LORgANISATION DES CONNAISSANCES:
QUELQUES POSITIONNEMENTS
L’acte de classifier, aussi invisible et banal soit-il, n’est pourtant
pas sans conséquence (Mustafa El Hadi, Hudon, 2010). Bowker et Star
(1999) considèrent que la classification est au cœur de toute vie sociale
et insistent à juste titre sur les dimensions éthiques de l’acte. Le choix
d’une caractéristique de division, la création de regroupements et la
séquence de présentation de ceux-ci valorisent nécessairement un point
de vue particulier et condamnent à l’invisibilité d’autres critères valables
d’analyse et de regroupement. “Il peut en résulter des déductions ou
interprétations erronées, et dans les cas extrêmes, une discrimination liée
au placement d’une entité ou d’un individu dans un groupe particulier. En
outre, le problème des entités, individus et situations jugés inclassables est
critique, car si la classification permet de regrouper les entités, elle doit en
même temps assurer à chaque entité un positionnement approprié dans
la structure d’organisation ainsi constituée”, (Bowker; Star, 1999, p. 5-6,
cités par Mustafa El Hadi; Hudon, 2010, p. 5).
L’éthique de l’organisation des connaissances est considérée en tant
que processus intimement lié à la langue et aux cultures (Mustafa El Hadi,
2017). D’un point de vue historique l’éthique dans l’OC s’est ancrée
dans les premières critiques adressées aux systèmes de classification. Dès
1973, l’IFLA a lancé le programme de contrôle bibliographique universel,
(Universal Bibliographic Control Program) demandant aux bibliothèques
nationales de partager leurs fonds et de les indexer en accordant une
attention particulière aux spécificités culturelles. Mais cette initiative n’a
pas abouti et l’OCLC et récemment Google en ont repris le contrôle.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
64
La plupart des critiques ont été fondées sur le fait que les SOC
n’offrent qu’une représentation particulière de la langue et que leur
structure modifie notre interprétation de la langue d’une manière inutile
ou fausse. C’est pour cette raison que nous devons tenir compte du poids
des cultures et des langues dans la conception des SOC.
L’éthique comme composante de l’organisation des connaissances a
fait l’objet de nombreuses rencontres et publications. Deux mouvements
ont renforcé ces approches critiques: le Postmodernisme et les études de
genre. Les excès de présomption et de confiance observés dans la période
positiviste et moderniste ont déclenché une réaction à long terme dans les
environnements intellectuels, qui ont évolué vers la période postmoderne.
La mondialisation des échanges a montré comment les mêmes sujets
peuvent être vus de différentes manières par différents peuples, tout
comme ils le sont par différentes classes sociales, différents genres etc.
Le postmodernisme a mis l’accent sur la relativité des manifestations des
connaissances et du savoir, d’autant plus que le savoir n’est plus considéré
comme un produit exclusif de la culture occidentale. Les exemples classiques
des systèmes de classification bibliographique dits “universels”, développés
depuis la fin du e siècle par les bibliothécaires américains qui ont fait
l’objet des critiques, sont la classification décimale de Dewey (CDD) ou
la classification de la bibliothèque du Congrès d’Amy Cutter. Bien qu’ils
aient constitué des avancées importantes dans le domaine de l’organisation
des connaissances grâce à leurs caractéristiques techniques (la CDD est
devenue une norme internationale) et qu’ils soient toujours très utiles dans
les bibliothèques du monde entier, une analyse critique de ces systèmes a
révélé de nombreux préjugés, dus à la perspective occidentale particulière
de leurs auteurs, surtout pour la classification décimale de Dewey.
Par ailleurs, les travaux de quatre auteurs spécialistes de l’OC ont
porté sur l’importance de respecter la diversité culturelle et linguistique
dans la conception des SOC. Ce respect constitue l’un des principes
d’éthique dans l’organisation des connaissances et est considéré comme l’un
des fondements des droits de l’Homme (Déclaration universelle des droits de
Estudos críticos em organização do conhecimento
65
l’Homme). Antonio García Gutiérrez plaide pour l’inclusion de différents
points de vue culturels et de leurs relations, en établissant une éthique
transculturelle de la médiation (cross-cultural ethics of mediation). Michèle
Hudon milite pour le multilinguisme dans l’organisation des connaissances.
Pour elle, les recherches impliquant des thésaurus multilingues dans le
domaine de l’organisation des connaissances conduisent à la nécessité
d’une prise en compte de la dimension éthique, qui doit être respectée
lors de la construction d’outils, mais aussi dans l’exercice des pratiques
professionnelles. Elle prône les approches multilingues et la prise en
compte des minorités linguistiques. Dans ce sens, Clare Beghtol propose
des concepts théoriques pour soutenir un système d’organisation des
connaissances qui soit éthiquement acceptable, fondé sur des approches
qui tiennent compte de la diversité culturelle et linguistique. Beghtol
(2002) prône l’accès à l’information et aux connaissances comme droit
fondamental de l’humain. Elle a analysé dans son travail le problème
de parvenir à créer des SOC culturellement acceptables, fondés sur un
traitement éthique des cultures différentes, telles que définies par la
Déclaration universelle des droits de l’Homme, ce qui supposerait la garantie
d’un accès tant global que local aux informations et aux connaissances,
dans n’importe quelle langue, qui soit disponible à n’importe quel endroit,
et ce à tout moment, dans n’importe quel but, au bénéfice de n’importe
quel individu, de n’importe quelle culture, groupe ethnique ou domaine.
Elle propose le concept “d’hospitalité culturelle / Cultural hospitality”, un
principe qui doit sous-tendre la construction de SOC, afin de garantir le
respect de l’éthique de l’information13.
Hope Olson publie en 2002 son livre e Power to Name (le pouvoir
de nommer). D’après l’auteur, le pouvoir de nommer affecte directement
la construction de l’information et l’OC. Les classifications, les listes de
vedettes-matières, les thésaurus reflètent la culture dominante d’une société
et jouent donc un rôle clé dans le contexte des bibliothèques. Ces outils ont
été construits et maintenus par le courant dominant, et les bibliothécaires
13 Traduction libre du texte de Beghtol 2002
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
66
n’ont qu’une faible marge et ne pourront inclure différents points de vue.
Olson est parmi les pionniers de l’analyse critique des SOC, notamment
grâce à son livre e Power to Name, qui montre que les préjugés à l’égard
des classes dominées par les classes dominantes sont souvent cachés dans
les rubriques et autres classifications des savoirs. Les minorités discriminées
comprennent souvent des femmes, des homosexuels, des personnes en
situation d’handicap, ou des migrants d’origines ethniques diverses (Asian-
American, Black-American, Latinos, etc.). Récemment, un débat a eu lieu,
impliquant de nombreux bibliothécaires américains, sur la rubrique illegal
aliens, qui a été jugée offensante pour les étrangers cités dans les documents
sur l’immigration et a été retirée de la liste des vedettes-matières de la
bibliothèque du Congrès (Library of Congress Subject Headings, LCSH).
Dans son article séminal “Priorities of Arrangement” or “Hierarchy
of Oppressions?”, M. J. Fox (2016) a apporté une contribution majeure
à “l’intersectionnalité” générée par les systèmes de classification. Elle
décrit les oppressions transformatrices, imbriquées et conflictuelles qui
se produisent lorsque les humains appartiennent à plus d’une catégorie
d’identité – avec les femmes noires (mais ne se limite pas aux femmes) –
et s’est depuis étendue à différentes variables au-delà du genre, de la race,
de la religion, jusqu’aux orientations sexuelles, aux origines nationales,
aux handicapés etc. L’oppression peut avoir des conséquences allant de la
discrimination par inadvertance au harcèlement, en passant par la violence
ou la mort, résultant uniquement de l’appartenance à un groupe humain
(Mustafa El Hadi, 2019). Un vaste mouvement de bibliothéconomie
critique se développe actuellement en Amérique du Nord, encourageant
les bibliothécaires et les utilisateurs à “décoloniser”, (La Barre, 2007)
l’organisation des connaissances et le LIS (Library and Information Science)
en général. Une plus grande attention a été accordée, par exemple, aux
cultures indigènes d’Amérique du Nord ou d’Océanie, qui peuvent
développer leurs propres SOC, comme la classification de Brian Deer. Le
système de classification de Brian Deer est un système de classification de
bibliothèque utilisé pour organiser les documents dans les bibliothèques
Estudos críticos em organização do conhecimento
67
avec des collections autochtones spécialisées. Le système a été créé dans
les années 1970 par le bibliothécaire canadien Mohawk de Kahnawake
(Mustafa El Hadi, 2021).
D’autres exemples tirés de la littérature montrent que les perspectives
de connaissances, par exemple, changent non seulement dans l’espace
mais aussi dans le temps. Un concept développé dans la culture d’une
certaine époque peut changer lentement au fil des ans, tout comme la
signification d’un terme correspondant dans un SOC. Cette évolution
a été décrite comme l’ontogénie du sujet (Tennis, 2002; Adler; Tennis,
2013). L’exemple donné est l’eugénisme, qui peut être désigné comme
“l’ensemble des méthodes et pratiques visant à sélectionner les individus
d’une population en se basant sur leur patrimoine génétique et à éliminer les
individus n’entrant pas dans un cadre de sélection prédéfini14. Le concept
et le domaine de l’eugénisme peuvent nous donner un autre exemple de
préjudice. L’eugénisme est un terme qui apparaît pour la première fois
dans la classification décimale de Dewey, en 1911. À cette époque, il est
considéré comme relevant de la biologie, mais à partir des années 1950,
suite aux massacres des Juifs, des homosexuels et des Tziganes par les
gouvernements nazis et leurs alliés pendant la Seconde Guerre mondiale,
il devint impossible pour un classificateur de placer un livre portant
principalement sur l’eugénisme au sein de la biologie. L’eugénisme devint
après 1945 un élément d’idéologie et non plus de biologie. Les autres
options sont les sciences sociales, les sciences appliquées, la philosophie et
l’éthique. Et si l’eugénisme a actuellement un ensemble varié de domaines
connexes, allant du planning familial à l’anthropométrie, nous pouvons
constater sa disparation sous certaines rubriques de la classification Dewey.
Cela est d’autant plus vrai que l’eugénisme est toujours utilisé dans les
travaux de génétique des populations, même s’il existe un débat ouvert
sur ce qui constitue un travail et une pensée eugéniques (Paul, 1995 cité
par Adler; Tennis, 2013). Pourtant, même avec ce débat, la génétique des
populations est carrément une science biologique, de sorte que l’effacement/
14 Traduction libre du texte d’Adler et Tennis 2013
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
68
disparition du terme semble plutôt viser à éviter un mot qui pourrait avoir
des conséquences négatives, alors qu’il s’agit en fait du terme utilisé dans la
littérature. L’eugénisme a été classé dans la CDD, alternativement à 575,1
(avec la génétique avant la 16e édition) et 363,92 (sous “Problèmes sociaux
et population”), (Tennis, 2002).
Par ailleurs de nombreux auteurs affirment que tous les SOC, qu’ils
se concentrent sur un domaine ou en englobent plusieurs, sont biaisés non
seulement en ce qui concerne la race, le genre, la religion, les orientations
sexuelles, mais aussi en raison de l’absence de versions spécifiques, précises
(Mustafa El Hadi, 2019; Casenave; Mustafa El Hadi, 2019).
LES BIAIS/PRÉjUgÉS DES CLASSIFICATIONS AUTOMATIQUES, CAS DE LA
SUPRÉMATIE DUNE LANgUE ET DE SA CULTURE
Nous pouvons également relever un parallèle entre le contrôle,
c’est-à-dire “le pouvoir de nommer/e power to name”, exercé par l’usage
dominant et acté à travers les systèmes de classification bibliographique
d’une part et la puissance des algorithmes utilisés actuellement par
l’intelligence artificielle d’autre part. Bowker et Star (1999) considèrent
que toutes les classifications sont des “technologies puissantes” qui,
une fois intégrées dans des infrastructures de travail, peuvent “devenir
relativement invisibles sans perdre aucune de leurs puissances”. Notre
position (Casenave; Mustafa El Hadi, 2019) concernant le contrôle par
le pouvoir de la “nomination/désignation”, e Power to Name, c’est-à-
dire la classification, la catégorisation et le contrôle par les algorithmes
d’Intelligence artificielle est en accord avec la position de Bowker.
Un exemple de “pouvoir de nommer” donné aux classificateurs
classiques est comparable au contrôle par les algorithmes de fonctions
(Timimi, 2021) telles que l’indexation et le référencement, la classification
automatique de textes et d’images (par similarité), le filtrage par profils, la
traduction automatique utilisant l’anglais comme langue pivot etc.
Estudos críticos em organização do conhecimento
69
Afin de traiter efficacement leurs problèmes éthiques, les professionnels
des bibliothèques, les institutions fournisseuses d’information doivent avoir
une bonne connaissance pratique de l’éthique de l’information. Les codes
d’éthique professionnelle peuvent aider à fournir de telles connaissances,
mais ils ne sont pas suffisants. Malheureusement, il n’existe pas d’ensemble
de principes éthiques universellement acceptés qui pourraient aider. Pour
aller plus loin, des formations sur l’éthique de l’information doivent faire
partie de la formation des professionnels de l’information et des concepteurs
de systèmes d’OC. Ces formations devraient permettre aux professionnels
de l’information et à ceux qui s’occupent de la recherche de comprendre les
principes éthiques et la manière dont elles s’appliquent à des cas pratiques
et rendre explicite le lien entre l’éthique de l’information et la mission du
professionnel des bibliothèques, les infrastructures de recherche.
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3
ESTUDOS CRÍTICOS E SISTEMAS
DE ORgANIZAÇÃO DO
CONHECIMENTO: ASPECTOS
CONCEITUAIS E ÉTICOS
CritiCal studies and
KnoWledGe orGaniZation
sYstems: ConCePtual and
etHiCal asPeCts
Suellen Oliveira MILANI
Universidade Federal Fluminense – UFF
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-485-1.p73-104
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
74
Resumo: O catálogo deve atuar como um mediador justo e confiável entre as necessidades
informacionais dos usuários e os itens presentes no acervo. Quando a representação do
conhecimento não é realizada de forma defensável, pode-se afastar ou excluir comunidades
de usuários do sistema de informação. Alternativas de negociação de espaços para
inclusão das comunidades de usuários configuram-se como uma preocupação global
da Organização do Conhecimento, Substituir por: porém as soluções, geralmente, são
locais e contextualizadas. Os sistemas de organização do conhecimento podem auxiliar os
bibliotecários a trabalharem nas margens ou nos limites sociais e epistemológicos visando
a uma representação do conhecimento equitativa. Para tanto, um exercício constante
de ampliação de consciência e compreensão da responsabilidade ética é necessário. O
presente estudo traz uma discussão sobre valores e dilemas éticos e apresenta o método
desconstrução, mais especificamente as desconstruções transgressivas, como alternativas
teóricas para se pensar a inclusão de comunidades de usuários que se encontram às
margens do sistema de informação.
Palavras-chaves: organização do conhecimento; sistema de organização do conhecimento;
valor ético; dilema ético; desconstrução.
Abstract: Library catalog must act as a fair and reliable mediator between the users
information needs and the items of the collection. However, when knowledge
representation is not held in a defensible way, user communities of the information system
can be set aside or excluded. Alternatives for spaces negotiation aiming to include user
communities are a global concern of Knowledge Organization, but solutions are local.
Knowledge organization systems can help librarians to act at the margins or social and
epistemological boundaries for equitable knowledge representation. For that, a constant
exercise to increase awareness and understanding of ethical responsibility is necessary.
is study address a discussion about ethical values and dilemas, and presents the
deconstruction method, more specifically the transgressive deconstructions, as theoretical
alternatives for the inclusion of user communities that find themselves on the margins of
the information system.
Keywords: knowledge organization; knowledge organization system; ethical value;
ethical dilemma; deconstruction.
Estudos críticos em organização do conhecimento
75
1 INTRODUÇÃO
As comunidades de usuários de bibliotecas buscam por diferentes
tipos de informação e se valem de diferentes caminhos para acessá-la, mas
também buscam por voz e representatividade nesse universo, e a Organização
do Conhecimento (OC) pode ampará-las nessa construção. Nesse sentido,
o catálogo construído a partir dos sistemas de organização do conhecimento
(SOC) deve atuar como um mediador justo e confiável entre as comunidades
de usuários e os itens informacionais presentes no acervo.
As formas pelas quais comunidades de usuários se encontram repre-
sentadas nos SOC impulsionam estudos críticos desde ao menos 1971,
quando Sanford Berman publicou o livro “Prejudices and antipathies: A
Tract on the LC Subject Heads Concerning People”, cuja segunda edição foi
publicada em 1993, contendo o mapeamento de inconsistências, precon-
ceitos ou traços de preconceitos presentes na Library of Congress Subject
Headings (LCSH) (Berman, 1993). Essa lista de cabeçalho de assuntos foi
criada e é gerenciada pela Biblioteca do Congresso nos Estados Unidos e
a sua versão em português, no Brasil, é materializada na Terminologia de
Assuntos da Fundação Biblioteca Nacional. Na ocasião, o autor sugeriu
alterações, inclusões e exclusões de cabeçalhos de assunto e referências cru-
zadas. Trabalhos sobre o que foi alterado, parcialmente alterado ou perma-
nece como estava na LCSH são publicados até os dias de hoje.
Anthony C. Foskett publicou, também em 1971, o artigo
“Misogynists All: A study in Critical Classification” quando declarou que
os responsáveis pelas classificações sempre evitaram classificações críticas,
isto é, pensar sobre a influência que as suas próprias inclinações e precon-
ceitos exercem nos SOC (Foskett, 1971).
Como pano de fundo dessas e outras obras clássicas estão os impac-
tos que podem ocorrer a partir do contato dos usuários com os substitutos
documentais1 tendenciosos ou preconceituosos (com biases, em inglês) em
bibliotecas e sistemas de informação.
Em bibliotecas, registros catalográficos são criados para substituir os documentos no catálogo de um
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
76
Os substitutos documentais são os registros catalográficos que repre-
sentam os documentos presentes no acervo, ou seja, os produtos construí-
dos pelos bibliotecários que contêm representações do documento, “ficam
no lugar dele”, para fins de recuperação da informação. Esses produtos
são compostos por termos utilizados na catalogação e indexação do acervo
para designar pontos de acesso que serão utilizados na busca e recuperação
da informação. Esses termos são designados a partir dos SOC que, além
dos tradicionais sistemas de classificação (linguagem documentária nota-
cional), incluem vocabulários controlados que contêm formas de nomes de
pessoas (listas de autoridades) e termos tópicos, descritores de indexação
ou cabeçalhos de assunto (linguagens documentárias alfabéticas).
Quando se fala sobre biases na OC, são evocadas várias conotações.
Se, por um lado, as conotações podem salientar aspectos discriminatórios
ou preconceituosos de um determinado tópico no contexto de um sistema
de informação; por outro lado, algumas conotações revelam um direciona-
mento, uma inclinação visando garantir especificidade na recuperação da
informação, conforme explica Milani (2014).
Os preconceitos ou direcionamentos podem ocorrer a partir da for-
ma como a representação descritiva ou temática foi realizada pelo profis-
sional; a partir das políticas adotadas pela instituição e pelo profissional,
incluindo sua consciência ética sobre os processos; a partir dos SOC adota-
dos; ou a partir dos tópicos e abordagens presentes no próprio documento
que está sendo representado.
Quando os processos de representação, denominados representação
do conhecimento no âmbito da OC, não são realizados de forma defensável,
pode-se privilegiar, censurar, omitir e distorcer informações. Nesse sentido,
estudos críticos sobre a OC, incluindo os SOC, devem ser conduzidos em
busca de estruturas e orientações para auxiliar a promoção do acesso e apro-
priação da informação a partir da tomada de decisão ética em bibliotecas.
sistema de informação. Olson (2002, p. 3) explica que “[c]ada registro catalográfico é um substituto
de um documento de algum tipo (livro, recursos de som, páginas da Internet etc.) e contém diferentes
tipos de representações informacionais daquele documento. Na corrente de pensamento francesa Análise
Documentária, tais substitutos são denominados informação documentária.
Estudos críticos em organização do conhecimento
77
Assim, parte-se de uma trajetória de pesquisa sobre estudos éticos
em OC e representação do conhecimento preconceituosa para propor uma
reflexão sobre aspectos conceituais e éticos que permeiam os SOC e a ne-
cessidade de ampliação de consciência ética dos profissionais que tratam o
conhecimento de forma a disponibilizá-lo como informação, aqui deno-
minados bibliotecários.
2 ORgANIZAÇÃO DO CONHECIMENTO E ATUAÇÃO PROFISSIONAL:
vALORES ÉTICOS MOvEM ATITUDES
No atual contexto de proliferação de notícias falsas, personalizações
irresponsáveis (e criação de bolhas no big data), mais a falta de avaliação
de fontes de informação pelos usuários da Internet, aspectos sobre com-
portamento informacional e necessidade de informação emergem como
reveladores de padrões que envolvem comunidades de usuários. Essa si-
tuação levou a OC a levantar uma discussão sobre aspectos relacionados à
relevância, valor e medida almejados pela Biblioteconomia e pela Ciência
da Informação, e a verdade, valor discutido pela Filosofia, e seus papéis na
promoção da justiça social.
É tarefa dos teóricos da OC refletir sobre as seguintes presunções2:
fornecer aos usuários o que eles disseram que querem e fornecer aos usuários o
que julgamos que eles precisam, bem como “[...] reconhecer o vazio moral
em ambas as posições e promover uma justificação a uma OC que seja con-
sistente às concepções contemporâneas e pluralistas de verdade” (Furner,
2018, p. 474).
A verdade não é algo eterno e externo a ser retratada de forma ob-
jetiva nos SOC, como já alertava Foskett (1971), porém esses sistemas
refletem a realidade. Mai (2013) lembra que a realidade é “tendenciosa,
injusta e cheia de contradições”, e os bibliotecários têm o grande desafio de
amenizar os possíveis danos causados pelos sistemas de informação.
Presunção é uma premissa subjacente inquestionável e não declarada. Olson (1996) explica que uma das
presunções da área de Biblioteconomia e Ciência da Informação consiste em considerar que as linguagens
documentárias universais seriam sempre as nossas opções mais acertadas.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
78
Os bibliotecários compromissados têm o objetivo de promover jus-
tiça, principalmente justiça social e, para isso, estudos críticos sobre a bi-
blioteca e seus serviços, incluindo os SOC, deverão ser conduzidos, atesta
Furner (2018).
Há diferentes teorias acerca da justiça social que
[...] podem ou não ser simultaneamente teorias sobre justiça
distributiva, destacam a importância de indivíduos se identificarem
com certos grupos – raças, gêneros, e classes, por exemplo – e de
assegurar que esse pertencimento será levado em consideração de
forma apropriada em qualquer medida de justiça (Furner, 2018,
p. 471).
O autor diz que muitos educadores na OC se comprometem com a
justiça social em termos distributivos ao reduzir as divisões e disparidades,
por exemplo, entre ricos e pobres, realizar uma distribuição justa de opor-
tunidades sociais, culturais, econômicas e políticas e construir comunida-
des em que direitos humanos básicos e liberdade são respeitados, porém
essa perspectiva ignora um dos maiores tipos de injustiça da sociedade, o
qual é causado, conforme explica Furner (2018, p. 471), “[...] pela opressão
sistêmica ou discriminação de grupos sociais específicos”.
Nesse contexto, os bibliotecários observam os objetos que estu-
dam, tais como os usuários e os responsáveis pelos SOC, a partir de suas
lentes subjetivas individuais. Milani, Guimarães e Olson (2014) reforçam
que os usuários e os responsáveis pelos SOC também produzem camadas
de subjetividade.
Bibliotecários possuem crenças, posicionamentos perante diversos
assuntos, visões de mundo diferentes, ou seja, não são neutros3. A consci-
ência sobre essa característica humana e a reflexão sobre os valores éticos
que permeiam suas vidas exigem um exercício constante; não é possível
dissociar as crenças pessoais da atuação profissional. Por atuarem na pro-
Sandel (2018, p. 268) esclarece que “[...] o atrativo de uma estrutura neutra está exatamente na recusa a
determinar qualquer preferência em relação à melhor maneira de viver ou à concepção do bem.
Estudos críticos em organização do conhecimento
79
moção do acesso e apropriação da informação, parte-se do pressuposto de
que os bibliotecários atuam para o bem4.
Budd (2006) explica que cabe tanto à Biblioteconomia quanto a qual-
quer profissão decidir o que é bom, por ser algo pretendido5, o que é inde-
pendente de nós e o que tem valor, isto é, que pode ser usado por nós para
compreendermos algumas balizas éticas e objetivos que traçamos. Algumas
dessas premissas poderão ter caráter global, não universal, mas uma reflexão
local ou contextualizada é a chave para lidarmos com opressões.
Nesse sentido, Froehlich (2011) atesta que os bibliotecários deve-
riam “[…] querer ampliar sua consciência ética – especialmente no que diz
respeito ao entendimento das dimensões éticas de um contexto ou ativida-
de específica – e considerar a diversidade de pontos de vista e valores que
vêm à tona na deliberação ética”, isto é, valores que vêm à tona ao se ana-
lisar problemas éticos que podem surgir no atendimento aos usuários. Essa
ampliação de consciência ética exige o estudo de modelos epistemológicos.
2.1 AMPLIAÇÃO DA CONSCIêNCIA ÉTICA: MODELOS EPISTEMOLógICOS
NO CONTEXTO DA OC
Uma vez que cada tomada de decisão ética contém valores e implicações
morais, podemos afirmar que não devemos contar com o bom senso, afinal
[...] [c]ada um de nós tem a sua própria visão de mundo. Tendemos
a esquecer isso e a agir como se as pessoas com as quais interagimos
compartilhassem das nossas perspectivas ou até mesmo das
nossas opiniões. No entanto, quando indexamos, precisamos
A tentativa de dissociar os argumentos de justiça e direitos dos argumentos da vida boa é equivocada por
duas razões: primeiro porque nem sempre é possível decidir questões sobre justiça e direitos sem resolver
importantes questões morais; segundo, porque, mesmo quando isso é possível, pode não ser desejável
(Sandel, 2018, p. 312).
O bem “[…] apresenta uma qualidade ontológica; seu próprio ser incorpora o bem (por exemplo: ter
integridade é bom). De alguma maneira, essa definição de bem é semelhante ao imperativo categórico de
Kant (algo que é um fim em si mesmo). Valor, no entanto, é tornar-se real a partir de sua aplicação; há um
atributo pragmático atrelado a ele (fornecer acesso à informação solicitada da forma mais rápida possível
tem valor)” (Budd, 2006, p. 255).
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
80
estar conscientes de que a maneira como percebemos o mundo
pode ser muito diferente daquela de um autor em particular e,
certamente, das maneiras como determinados usuários percebem
o mundo. A única solução real consiste em estar o mais consciente
possível das nossas próprias presunções quando encontrarmos [tais
disparidades] no documento. (Jacobs, 2007, p. 163).
O autor constata que há uma carência de literatura no tocante ao
modo pelo qual os bibliotecários constroem suas bases filosóficas, incluin-
do a ética, e isso é grave. As reflexões sobre ética têm caráter interdiscipli-
nar, com muitas tradições de pesquisa e envolvem os mais variados mode-
los epistemológicos.
Diferentemente dos estudos descritivos ou que examinam situações
reais, Fox e Reece (2012) apresentam e explicam seis modelos epistemo-
lógicos que poderiam oferecer subsídios para o embasamento de decisões
éticas do bibliotecário, cada qual com os seus prós e contras. São eles:
Modelo utilitarista: somente as consequências importam ao de-
terminar o valor moral de uma ação, e o bem comum do cole-
tivo é o foco. Se uma ação serve ao bem comum, mas se vale
de mentiras ou violência, a ação mantém o seu valor moral. Na
OC, a bondade pode se equiparar à promoção de acesso; lem-
brando que esse processo é realizado por profissionais especiali-
zados. Por exemplo, na Classificação Decimal de Dewey, a classe
200 – Religião – foca no Cristianismo. Se for demonstrado que
a maioria dos usuários se beneficia desse arranjo, respondendo
ao princípio de utilidade, esse direcionamento será aceito. O uti-
litarismo parece ser o modelo em uso na OC, embora o bem
comum acabe amparando a cultura dominante. Nesse contexto
utilitarista, o bibliotecário pode julgar os SOC a partir de seu
próprio conhecimento, além de poder aplicar as políticas locais
para adaptá-los aos usuários.
Estudos críticos em organização do conhecimento
81
Modelo deontológico de Kant: para considerar uma ação correta,
considera-se mais do que as suas consequências. Para ser consi-
derada ética, a ação deve ser realizada como um dever, ou seja,
seguindo os imperativos categóricos que são valores absolutos,
universais, incondicionais e cujo cumprimento compõe a mo-
ralidade que conduz ao bem moral. A limitação desse modelo
inclui a presença de regras sem exceção e o poder ilimitado dado
à imaginação dos bibliotecários. Por exemplo, ao deparar-se com
um documento que julgue ofensivo, o bibliotecário pode, deli-
beradamente, classificá-lo de forma enviesada e, caso alguém não
veja contradição nessa ação, ela se torna lícita.
Modelo de Rawls – Justiça ética: Para Rawls, a principal questão
da ética seria decidir o que é justo. Assim como a deontologia de
Kant, percebe-se que a neutralidade deveria regular o campo por
meio dos padrões e, assim, os dilemas éticos seriam vistos sob a
égide das normas do campo e não a partir do contexto. A nor-
matividade determinaria por meio de regras qual decisão deverá
ser tomada e os detalhes individuais seriam desconsiderados. Na
OC, sob essa perspectiva, os usuários deveriam adaptar-se aos
sistemas e às regras, as quais os bibliotecários deveriam seguir
uma vez que são consideradas universais nesse contexto.
Ética feminista – Ética do cuidado: A Ética do cuidado não im-
plica afeto, mas uma estratégia que visa incluir colaboração, re-
lacionamentos e contexto ao processo de tomada de decisão ética
ao analisar os dilemas em seus contextos específicos e acomodan-
do as exceções. Na OC, considerar ou conhecer todos os aspec-
tos de um indivíduo que poderia realizar uma busca no sistema
de informação é inviável, mas as pesquisas vêm buscando ma-
neiras criativas de acomodar o contexto dos usuários mantendo
o controle bibliográfico necessário; esse parece ser o paradigma
atual da OC.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
82
Ética de Derrida: evoca o direito à diferença, o qual permitiria ao
outro permanecer como outro e não ser reduzido ao mesmo pelo
sistema; todo outro seria bem-vindo ao sistema e, já que os limi-
tes são inevitáveis, as bordas entre uma categoria e outra devem
ser porosas para acomodá-los. Na OC, a estrutura de Derrida
fomentaria sistemas hospitaleiros ao extremo incluindo todos os
pontos de vistas e terminologias, similares aos ambientes de ta-
gging, nos quais os bibliotecários seriam vistos como restrições e
caberia ao usuário julgar a informação que precisa.
Ética pragmática de John Dewey: várias ações e consequências
e todas as possibilidades lógicas que pertencem ao contexto da
ação devem ser consideradas, testando-as com o auxílio de uma
comunidade definida levando em conta sua vida moral. Não há
uma realidade universal e o significado é criado socialmente.
Na OC, as decisões do bibliotecário considerariam as possíveis
consequências para os usuários e seriam julgadas socialmente de
modo a verificar a sua razoabilidade.
Um modelo epistemológico será adotado pela equipe responsá-
vel pela criação dos substitutos documentais, afinal, como reforça Mai
(2013), não há como evitar tomada de decisão ética em bibliotecas e
sistemas de informação.
2.2 DILEMAS ÉTICOS NA OC E SEUS EFEITOS
Tem-se uma melhor noção de ética quando valores éticos são vio-
lados ou quando nos deparamos com uma situação problemática, ensina
Froehlich (2011).
Em síntese, um dilema ético na OC pode ocorrer quando:
Estudos críticos em organização do conhecimento
83
uma ação não condiz com os valores éticos de quem a está
executando;
uma ação envolve dois ou mais valores éticos conflitantes entre si;
uma ação não ampara um valor ético que a pessoa que a está
executando julga ser essencial para o fim ao qual ela se propõe;
uma ação difere do proposto pela política adotada pela instituição.
Fox, Martínez-Ávila e Milani (2017) afirmam que as pessoas se im-
portam com as representações que envolvem a si mesmas. Sendo assim,
quando um tópico de assunto é tratado como uma exceção no sistema
de informação6, quando há a guetização de um tópico7, omissão de um
tópico8, quando se observa uma estrutura inadequada nos SOC9 e uso
de terminologia preconceituosa10, as comunidades de usuários sofrerão o
prejuízo de não se verem ali representadas ou representadas de forma pre-
conceituosa ou opressiva, como demonstra os estudos de Olson (2002).
6 Nas classificações, o tratamento da literatura a partir da língua em que está escrita causa problemas aos
países colonizados, pois, além de vir primeiro na estante, ter maior espaço e subdivisões cronológicas mais
específicas, são dados à língua dos colonizadores, o que não ocorre com a literatura indígena de um país,
por exemplo (Olson; Schlegl, 2001).
No contexto dos estudos de gênero e sobre mulheres, a guetização tem sido vista cada vez menos como
uma conveniência (isto é, deixar juntas todas as obras que tratam desse tema) e cada vez mais como uma
limitação (isto é, por que retirar as obras do contexto geral da coleção?) (Olson; Schlegl, 2001).
Nos sistemas de classificação CDD, CDU e LCC, as religiões independentes da África não podem
ser representadas, enquanto a Cristandade dominante na África, outras religiões africanas e igrejas
independentes dos Estados Unidos o são (Olson; Schlegl, 2001).
Problemas para representar comunidades africanas consistem em: entendimento impreciso da língua
africana, representação das pessoas de acordo com a maneira como estão agrupadas, má alocação no tocante
às culturas africanas se comparadas ao espaço destinado às culturas europeia e norte-americana branca e
mecanismos de divisão inapropriados (por exemplo, língua). Ao confiarmos na habilidade dos usuários em
executar buscas, utilizando operadores booleanos, podemos estar colocando as obras referentes aos grupos
marginalizados fora do seu alcance (Olson; Schlegl, 2001).
10 O exemplo utilizado pelas autoras diz respeito à discussão que se deu no contexto da American Library
Association sobre a sugestão de Sanford Berman de se evitar nomear pessoas somente utilizando um adjetivo.
Por exemplo: o cabeçalho de assunto “pobre” ressalta apenas um elemento da existência de um indivíduo
excluindo todos os outros. Uma solução seria a mudança do cabeçalho para “pessoas pobres” (Olson; Schlegl,
2001). Para mais exemplos, consultar o levantamento bibliográfico realizado por Milani (2014).
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
84
Observemos o exemplo a seguir: por muito tempo, a representação
descritiva foi entendida como menos suscetível a dilemas uma vez que os
dados presentes em suas representações seriam mais fáceis de identificar no
documento, porém Moulaison, Dykas e Budd (2014) discutem como o
conceito de autoria poderia ser ampliado para o aprimoramento do acesso
à informação indo além da simples identificação de “quem é o autor” de
um documento. Nessa perspectiva mais abrangente, os pontos de acesso
referentes à autoria de uma obra seriam compostos também pelos atribu-
tos (gênero, estado civil, título, profissão, vocação etc.), relações (filiações,
autores que o influenciaram etc.) e eventos de vida e carreira (campos de
estudo etc.) de cada autor.
Ao inserir dados sobre os atributos de um autor, suas relações pessoais
e eventos de sua vida e carreira nos substitutos documentais, alguns dilemas
éticos relacionados à privacidade podem surgir, uma vez que o bibliotecário
lidaria com informações de natureza privada. Mesmo que pontos de acesso
compostos por elementos relacionados à autoria figurariam como excelentes
pontes temáticas entre as necessidades informacionais do usuário e os docu-
mentos do acervo, tais como: pesquisas sobre obras produzidas por autores
nascidos em determinada época, que frequentaram determinado local, que
lutaram em uma guerra específica, que têm determinada orientação sexual
etc., contudo deve-se respeitar os desejos dos autores em relação a expor esses
dados levando em conta a política da biblioteca.
Uma alternativa oferecida por Moulaison, Dykas e Budd (2014) se-
ria manter esses dados pessoais do autor em sigilo e autorizar apenas os
bibliotecários daquela instituição a acessá-los. Se esses dados se tornarem
públicos em algum momento por meio de outra instituição, os bibliote-
cários poderiam torná-los disponíveis no catálogo, tomando cuidado com
questões relacionadas à violação de privacidade.
Szostak (2015) reforça tal constatação quando diz que os usuários se
beneficiariam se os pontos de acesso dos substitutos documentais também
veiculassem dados sobre as teorias aplicadas, métodos aplicados, perspecti-
Estudos críticos em organização do conhecimento
85
vas filosóficas e disciplinares e visões de mundo do autor identificadas no
documento representado.
Assim como no exemplo apresentado, o bibliotecário sempre tomará
decisão diante de um dilema ético e essa decisão, mesmo que seja ignorar a
situação, gerará consequências. A seguir, são apresentadas possíveis conse-
quências da não resolução de dilemas éticos na OC:
1. Impacto na autoimagem do usuário: difícil de ser mensurado ou
mesmo comentado. A literatura especializada evita abordar esse
aspecto de modo a evitar julgamentos, mas há alguns estudos
nesse sentido11.
2. Impacto na construção do conhecimento pelo usuário: não ofe-
recer contextualizações sobre os motivos pelos quais um deter-
minado espaço foi reservado àquele assunto nos SOC, ou acesso
ao histórico das mudanças, inclusões e exclusões pelas quais os
cabeçalhos de assunto e notações de classificação passaram. Isso
deixaria os usuários insatisfeitos e poderia, inclusive, sugerir que
alguns pontos de vista são normais e outros incomuns.
3. Indução a crenças falsas ou preconceituosas, incluindo a estig-
matização de determinados grupos de pessoas, principalmente
os não pertencentes aos grupos dominantes.
4. Reforço da crença de que o objetivo de todos os SOC é amparar
os sistemas universais de recuperação da informação visando à
padronização e à internacionalização dos registros catalográficos,
notações de classificação e descritores de indexação, e que pensar
em soluções locais para a promoção do acesso e apropriação da
informação dos usuários poderia prejudicar a sua função.
11 Fox (2016, p. 583) explica que “[...] [p]essoas intersexuais como conceito certamente ‘existem’; no entanto elas
não estão sendo classificadas, e sim a literatura sobre elas está sendo classificada, e a literatura oferece a percepção
de como o conceito deveria ser considerado. Se a literatura os retrata ontologicamente como seres místicos ou
como pessoas normais com corpos atípicos, a epistemologia examina quem e como esses entendimentos se
formaram e perpassam as relações de poder que podem encorajar ou limitar o agenciamento.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
86
5. Reforço da crença na neutralidade, objetividade e universali-
dade, presunções ainda pouco questionadas pela literatura de
Biblioteconomia e de Ciência da Informação.
Uma questão recorrente no âmbito dos estudos éticos na OC diz res-
peito às maneiras pelas quais as comunidades de usuários da biblioteca que
não são incluídas podem ser identificadas. Uma das formas de se estimular
essa reflexão é por meio da identificação de valores e, consequentemente,
problemas éticos que perpassam o campo.
2.3 IDENTIFICAÇÃO DE vALORES E PROBLEMAS ÉTICOS NA OC: UM
EXERCÍCIO CONSTANTE
É sabido que a identificação teórica e conceitual dos domínios do
conhecimento mais consultados no sistema de informação e a atenção às
discussões relacionadas aos grupos que não pertencem à cultura dominante,
uma vez que estes já se encontram amparados pela biblioteca, são recursos
apropriados, assim como os estudos de usuários e de comportamento
informacional. Nesse cenário, o entendimento sobre os valores e
problemas éticos que permeiam a sua atuação profissional é um exercício
complementar valioso para o bibliotecário12.
Budd (2006) esclarece que a identificação e reflexão sobre um con-
junto de valores éticos requer uma explicação sobre quais atributos estão
associados a determinado valor, para quem tal valor é importante e por quê.
O valor ético “garantia cultural”13, tão caro às reflexões contemporâ-
neas, possui os seguintes atributos: apresentação de diferentes tipos de in-
formação e construção de diferentes caminhos para uma mesma informa-
12 Ver exemplos em Pinho e Milani (2021).
13 “Garantia cultural significa que qualquer tipo de sistema de organização e/ou representação do
conhecimento pode ser sumamente apropriado e útil para os indivíduos de uma cultura somente se for
baseado nas premissas, valores e predisposições daquela mesma cultura (Beghtol, 2002, p. 511). Por essa
razão, os SOC são considerados artefatos culturais.
Estudos críticos em organização do conhecimento
87
ção. É importante para todas as comunidades de usuários, principalmente
aquelas que não pertencem ao contexto dominante porque diferentes usu-
ários têm diferentes identidades e necessidades informacionais específicas,
as quais devem ser respeitadas.
Da negação deste valor ético, tem-se “má representação ou incom-
pletude”. Esse problema ético consiste na falha da representação do co-
nhecimento ocasionada por aplicação inapropriada dos SOC ou materia-
lização de um preconceito do bibliotecário nas representações presentes
no substituto documental. Nesse caso, não houve uma preocupação ou
cuidado com as necessidades dos usuários, o que resulta em ruídos na re-
cuperação da informação, recuperação da informação imprecisa ou, ainda,
impactos negativos na autoimagem dos usuários.
No contexto da OC, destaca-se ainda o valor ético “privacidade”,
cujos atributos incluem o sigilo sobre as informações relacionadas aos usu-
ários, bem como ao seu histórico com a instituição (buscas, empréstimos,
opiniões, problemas etc.). É importante para todos os usuários da insti-
tuição, porque apesar de a biblioteca geralmente se configurar como um
espaço público, a sua relação com o usuário deve ser privada uma vez que o
seu comportamento informacional pode revelar características de sua iden-
tidade que ele não deseja compartilhar com outras pessoas.
O problema ético decorrente da negação desse valor é a “vigilância”.
Ações que violem a privacidade do usuário devem ser evitadas a menos que
questões legais se apresentem. Caso haja qualquer registro ou filtro que
exporia a identidade do usuário em suas atividades na instituição, essa ação
deve ser informada.
O grande desafio para os bibliotecários é a criação de uma ética ins-
titucionalizada, constata Budd (2006), arrolando objetivos específicos a
partir de noções de direitos e deveres. É claro que ao se deparar com um
dilema previsto na legislação, o bibliotecário possui diretrizes concretas
para tomar decisão, mas isso não garante que ele não entrará em conflito
quando um valor ético inviabilizar outro valor ético, por exemplo.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
88
O mapeamento dos problemas éticos enfrentados pelas comunida-
des de usuários e pelos bibliotecários pode partir de uma reflexão sobre va-
lores éticos, como no exercício realizado acima, que permeiam as relações
do bibliotecário com o usuário, com a organização, com a informação,
com a profissão e consigo mesmo, conforme explica Guimarães (2000),
porém há outras possibilidades.
Estudos críticos ou que se valem de Teorias Críticas têm sido de-
senvolvidos no âmbito da OC com o intuito de observar presunções do
campo ou para propor soluções para problemas endereçados a ele.
3 ESTUDOS CRÍTICOS ACERCA DOS SISTEMAS DE ORgANIZAÇÃO DO
CONHECIMENTO
Uma vez que os documentos adentram os acervos, a forma pela qual
são representados e organizados nas bibliotecas e em seus catálogos pode
causar impactos na vida e na autoestima dos usuários, como visto na seção
anterior, e nas suas construções de conhecimento. Em outras palavras, ao
refletir sobre os processos intermediários entre um contexto de produção
documental e um contexto de uso informacional, a OC também “fala pelas
pessoas” e, consequentemente, influencia sua representatividade.
Partindo da premissa de que as formas pelas quais as bibliotecas e os
sistemas de informação são construídos e atuam têm um importante papel
na produção do conhecimento, observa-se que os bibliotecários estão ap-
tos a “[...] amparar a avaliação crítica sobre declarações de conhecimento,
o crescimento do conhecimento individual e coletivo, e o espaço onde as
pessoas podem se engajar em conexões sociais que produzem conhecimen-
to [...]” (Budd, 2004, p. 367).
Na representação do conhecimento, principalmente a partir da re-
presentação temática, as tendenciosidades e preconceitos não estão limita-
dos a descrições individuais, mas relacionados a “[...] gênero, sexualidade,
raça, idade, habilidade, etnicidade, linguagem e religião, [as quais] têm
Estudos críticos em organização do conhecimento
89
sido descritas como limites para a representação da diversidade e para os
efetivos serviços biblioteconômicos a populações diversas” (Olson, 2002,
p. 7). Nesse contexto, destaca-se o importante papel dos SOC.
Os estudos sobre os SOC são denominados críticos quando abordam
ou tangenciam um tema político ou social. Esse tema pode dizer respeito
à própria designação de um termo, suas relações hierárquicas, associativas
ou às remissivas presentes nos SOC. Estudos críticos no âmbito da OC
podem ainda alertar ou avaliar o impacto que os substitutos documentais
que veiculam termos advindos de determinados SOC pode ter em um
determinado contexto.
Por outro lado, estudos críticos podem ser assim denominados pe-
las escolhas feitas pelo pesquisador ao construir a base metodológica da
pesquisa, isto é, ao “ajustar a lente” para a coleta de dados e análise dos
resultados de uma pesquisa.
3.1 POSTURAS EPISTêMICAS E MÉTODO NO CONTEXTO DAS TEORIAS
CRÍTICAS
Geralmente, pesquisadores buscam por uma metodologia e métodos
no contexto das Teorias Críticas, pois consideram que os fatos, inclusive
os fatos científicos, não são dados por meio das perguntas feitas sobre os
eventos, mas, sim, construídos. Desse modo, “[...] [t]odos os pesquisa-
dores constroem o seu objeto de investigação com os materiais que a sua
cultura fornece, e os valores desempenham um papel central nesse projeto
integrado em termos linguísticos, ideológicos e históricos que chamamos
de ciência” (Lather, 1991, p. 105).
Ao procurar alternativas que não possuem uma base teórica po-
sitivista, destacam-se as Teorias Críticas, o Pós-Modernismo e o Pós-
Estruturalismo, que são teorias que apresentam uma ou mais maneiras de
se fazer e/ou ver as coisas, ressaltando, para tanto, as diferentes perspectivas
presentes em uma mesma realidade.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
90
Essas teorias têm como foco interrogar suposições tomadas como
verdades e rejeitam o conceito de uma representação sem pressuposição,
uma vez que tal representação é politicamente indesejável e filosoficamente
impossível, alerta Agger (1991).
O direcionamento do olhar do pesquisador é evidenciado a partir da
postura epistêmica adotada por ele, a qual além de explicitar as suas pre-
missas ontológicas, epistemológicas e sobre a humanidade, registra a sua
proximidade, enquanto pesquisador, com o objeto da pesquisa.
Ao refletirem sobre a OC e epistemologias feministas, Olson e Fox
(2012) oferecem exemplos de posturas epistêmicas e suas premissas, as
quais foram organizadas na figura 1.
Figura 1 – Teorias do conhecimento/Epistemologias feministas
Fonte: Baseado em Olson e Fox (2012).
Pesquisas que rejeitam verdades universais e aceitam múltiplas rea-
lidades, que necessitam de uma vertente crítica e uma abordagem teórica
têm no Pós-Estruturalismo uma postura epistêmica promissora. O objeti-
vo não é reconstruir nenhuma realidade permanentemente, mas mostrar
que há outras maneiras de se pensar e que existem posturas epistêmicas
Estudos críticos em organização do conhecimento
91
as quais oferecem subsídios para desmistificar algumas premissas tomadas
como verdade.
Cada domínio do conhecimento constrói as suas próprias formas
simbólicas e não uma verdade singular. Essas formas simbólicas refletem
os discursos que as permeiam. Formas simbólicas são as construções que
compõem o mundo, isto é, as construções que concedem ao mundo e à
sociedade a sua forma. Por exemplo, a linguagem e os mitos são formas
simbólicas que modelam a maneira pela qual o mundo será interpretado,
assim como o racismo, a irracionalidade etc. (Cornell; Panfilio, 2010).
Uma vez definida a postura epistêmica, métodos e técnicas apropria-
dos deverão ser escolhidos para compor a base metodológica da pesquisa,
isto é, os métodos e técnicas deverão estar alinhados às premissas da postu-
ra epistêmica adotada.
Para os estudos críticos sobre SOC desenvolvidos pela renomada
pesquisadora Hope Olson e seus seguidores, o método desconstrução
tem sido adotado desde 1996, ocasião de defesa de sua tese de doutora-
do. Olson (2003, p. 732) explica que “[...] como resultado do poder de
revelar a natureza construída e temporária dos alicerces, a desconstrução
é uma excelente ferramenta para identificar e questionar as nossas pre-
sunções, aquelas não declaradas, frequentemente não reconhecidas, bases
do nosso pensamento”.
Ao realizar a desconstrução14, o pesquisador busca entender o porquê
de as coisas estarem construídas da maneira como estão, para, então, oferecer
uma possibilidade de resposta. Meneses (2013) comenta que a desconstru-
ção de Jacques Derrida15 é uma estratégia geral de abertura dos possíveis.
Olson (2003) explica que a desconstrução é amplamente usada
como técnica no criticismo literário e tem o texto como sua fonte de coleta
14 As etapas do método e exemplos de aplicação na OC são apresentadas por Olson (1996, 2002), que
descentralizou a oposição binária “universalidade versus diversidade” e Milani (2014, 2017), que
descentralizou a oposição binária “neutralidade versus interesses especiais”.
15 Derrida considera a desconstrução como “[...] um evento, não uma teoria ou filosofia ou um discurso ou
um ato ou uma prática ou mesmo um método” (Olson, 2003, p. 733).
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
92
de dados. Jacques Derrida partiu da ênfase semiótica do conceito de dife-
rença para desenvolver o seu conceito de différance, base da desconstrução.
Ao aplicar o método de desconstrução a textos importantes para um
campo ou uma prática profissional, será identificada uma oposição binária.
A oposição binária consiste em uma combinação, um par, um dualismo e
representa a oposição extrema entre um conceito e o outro, como bom e
mau, verdade e erro.
Na oposição binária, o primeiro termo, denominado mesmo, define
e é definido pelo segundo termo, denominado outro, que frequentemente
está escondido textualmente. A oposição binária contém hierarquia, em
que o mesmo é o dominante, e o outro é o subordinado. Os termos são,
então, invertidos, e essa nova relação entre os dois é discutida a partir da
aplicação de técnicas apropriadas16 em textos relevantes. A autoridade para
este exercício vem da autoridade dos textos escolhidos. É importante res-
saltar que o que será desconstruída será a oposição binária17 e não o campo
ou a prática profissional estudada.
A desconstrução mostra que as oposições binárias são construídas,
não inatas. Elas são constituídas por oposições aparentemente
opostas, que são caracterizadas pelo termo différance utilizado
por Jacques Derrida. Différance combina as palavras difference
(diferença) em francês e defer [adiamento] [...] Isto é, os
componentes de uma oposição binária são definidos por meio das
diferenças entre si, mas a desconstrução mostra que essa diferença
não pode ser fechada, em última análise. Ou seja, a definição é
permanentemente adiada. Assim, a desconstrução não destrói as
oposições binárias, mas revela como elas são construídas sob areias
movediças (Olson, 1996, p. 76-77).
16 Exemplos de técnicas são a iteração (Calás; Smircich, 1991) e o close reading (Kain, 1998; Mcclennen, 2001).
17 As diferentes significações de um texto “[...] poderão ser descobertas, decompondo a estrutura da linguagem
na qual ela é redigida. Desta feita, Derrida estima que a descontrução seja uma ‘prática narrativa.’” (Meneses,
2013, p. 180).
Estudos críticos em organização do conhecimento
93
As oposições binárias são as sementes da desconstrução e, por lida-
rem com representação, hierarquias e textos, a OC é um campo fértil para
sua aplicação.
A maneira como uma comunidade de usuários é posicionada em um
sistema específico ditará como as outras comunidades serão representadas,
pois, como explicam Martínez-Ávila, Semidão e Ferreira (2016, p. 120),
“[...] a ordenação espacial de um sistema sempre será relativa às e depen-
dente da posição de seus componentes”. Todos os SOC são compostos por
termos e relacionamentos e têm um núcleo dominante e as margens.
Por essa razão, não há como representar todas as comunidades de
usuários de forma igualitária, mas há ferramentas para promover uma re-
presentação equitativa e isso não é possível sem considerarmos o conceito
de diferenças. Ao inserirmos o conceito de diferenças aos processos de OC,
as comunidades de usuários passam a ser vistas como comunidades de pes-
soas, e o respeito ao seu direito de serem informadas vem à tona, assim
como o dever dos bibliotecários de informar.
3.2 DESCONSTRUÇÕES TRANSgRESSIvAS DE HOPE OLSON
O entendimento pragmático dos SOC é sine qua non; é preciso reco-
nhecer os esforços das instituições que os gerenciam, mas as reflexões sobre
essas práticas devem ser discutidas constantemente. Na OC, a desconstru-
ção não rejeita os seus princípios ou práticas, mas a universalidade deles.
Assim, apresentam-se as desconstruções transgressivas propostas por
Hope Olson em um capítulo do livro “Tendencias de investigación en
organización del conocimiento” publicado em 2003. A autora apresenta
duas adaptações do método desconstrução, o qual possui limitações como
todos os métodos. A partir de uma abordagem feminista e uma pós-colo-
nial, Olson (2003) apresenta possibilidades de transcendência das oposi-
ções binárias, que foram identificadas e descentralizadas, as quais são rele-
vantes para OC.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
94
As desconstruções transgressivas:
[...] sugerem que as fronteiras da desconstrução derridiana
são passíveis de desconstrução para permitir uma mudança
concreta – para um agenciamento material. Por essa razão que
as desconstruções transgressivas – feminista e pós-colonial – são
prontamente aplicáveis à organização do conhecimento uma vez
que a organização do conhecimento envolve uma prática concreta
no mundo material assim como uma teoria (Olson, 2003, p. 734).
As desconstruções transgressivas revelam a natureza construída dos
alicerces e, ao fazê-lo, identificam as suas premissas e questionam as suas
presunções. Elas rejeitam o conceito de verdade universal enquanto aco-
lhem múltiplas realidades e, principalmente, promovem agenciamento.
Agenciamento se refere à capacidade de agir ou realizar uma ação.
Na teoria contemporânea, ele se articula com a questão de saber se
os indivíduos podem iniciar uma ação de forma livre e autônoma,
ou se as coisas que eles fazem são, de alguma forma, determinadas
pelas maneiras pelas quais sua identidade foi construída. O
agenciamento é particularmente importante na teoria pós-colonial
porque se refere à capacidade dos sujeitos pós-coloniais iniciarem
ações no engajamento ou na resistência ao poder imperial. O termo
tornou-se um problema nos últimos tempos como consequência
das teorias pós-estruturalistas da subjetividade. Uma vez que a
subjetividade humana é construída pela ideologia (Althusser),
linguagem (Lacan) ou discurso (Foucault), o corolário é que
qualquer ação realizada por aquele sujeito também deve ser, em
certa medida, uma consequência dessas coisas. Para a teoria do
discurso colonial de Bhabha e Spivak, que corrobora grande parte
da posição pós-estruturalista acerca da subjetividade, a questão
do agenciamento tem sido problemática. No entanto, muitas
teorias nas quais a importância da ação política é soberana tomam
o agenciamento como certo. Eles sugerem que, embora possa
ser difícil para os sujeitos escaparem do efeito das forças que os
constroem”, não é impossível. O próprio fato de tais forças
poderem ser reconhecidas sugere que elas também possam ser
revogadas (Ashcroft; Griffiths; Tiffin, 2007, p. 9-10).
Estudos críticos em organização do conhecimento
95
Tanto as reflexões feministas quanto as pós-coloniais veiculam exem-
plos de oposições binárias, pois os binários veiculam as lutas de gênero e
refletem a estrutura patriarcal.
Os binários são de gênero. Ao buscar agenciamento, um
emparelhamento adicional é necessário, qual seja o do sujeito
conhecedor versus objeto conhecido emerge como chave para o
entendimento. Enquanto o sujeito conhecedor estiver ligado à
masculinidade, atividade será um traço masculino com o objeto
conhecido feminino ligado à passividade. Agenciamento requer a
desconstrução da oposição binária (Olson, 2003, p. 735).
A autora explica que abordagens feministas como a de Drucilla
Cornell transcende as barreiras da desconstrução derridiana. Cornell
(1992) “[...] focaliza as fronteiras construídas ou limites entre o dominante
mesmo e o outro como local para se negociar uma relação diferente entre os
dois” (Olson, 2001, p. 5), conforme apresentado na figura 2.
A linha pontilhada simboliza o catálogo da biblioteca; o outro são
as comunidades de usuários que ainda não se encontram ou se encontram
representadas de forma preconceituosa ou incompleta no catálogo; o mes-
mo representa as comunidades de usuários pertencentes aos grupos domi-
nantes, as quais já se encontram amparadas pelo sistema, e os bibliotecá-
rios, que têm o compromisso ético de agir. O agenciamento ocorre a partir
da ação ética do bibliotecário.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
96
Figura 2 – Negociação com o Outro no catálogo da biblioteca
Fonte: Olson (2003) baseado em Cornell (1992).
Deve-se deixar o outro falar por si mesmo por meio dos limites dos
sistemas, os quais são construídos. Neste caso, o limite do sistema pode
ser o catálogo da biblioteca, composto pelos substitutos documentais. A
desconstrução transgressiva feminista de Drucilla Cornell se materializa
por meio de agenciamento e pressupõe atuação ética.
Já a desconstrução transgressiva pós-colonial18 revela a natureza mu-
tável das barreiras entre as culturas. Parte-se do pressuposto de que não há
cultura pura por conta da diáspora e hibridação e se questiona a oposição
binária universalidade imposta versus diversidade local.
Spivak (1999, p. 173) elenca algumas posições de dominação advin-
das do colonialismo, expostas como oposições binárias, quais sejam: oeste/
leste, norte/sul, colonizador/colonizado, arrogância eurocêntrica/nativis-
mo não examinado. A hierarquia entre os termos deve ser observada.
Olson (2003, p. 736) explica que “[...] a postura crítica reconhece os
impactos sociais e políticos da colonização e a diasporização e hibridação
das pessoas e culturas. O período da colonização europeia foi concomitan-
18 “O pós-colonialismo deriva da dominação imperial pelas potências europeias de grande parte do resto do
mundo à medida que se expandiu a partir do século XVI” (Olson, 2003, p. 736).
Estudos críticos em organização do conhecimento
97
te ao desenvolvimento do mercantilismo, o legado do qual é nossa atual
globalização corporativa”.
A autora defende que apesar de as relações entre o pós-colonialismo
e a desconstrução não terem sido estabelecidas antes da oportunidade da
publicação da obra aqui abordada, o pós-colonialismo traz elementos que
se assemelham à desconstrução transgressiva, sendo assim “[...] pode-se
inferir que, a partir de uma crítica desconstrutiva feminista e pós-colonial,
a discussão de Gayatri Spivak de uma desconstrução tão aberta à cultura
quanto à diferença sexual confirma algumas frutíferas concatenações pos-
síveis entre a desconstrução e o pós-colonialismo” (Spivak, 1993, p. 132-
13319 citado por Olson, 2003, p. 736).
A autora explica que os conceitos pós-coloniais de diáspora20 e hi-
bridação de pessoas e culturas implica uma desconstrução das diferenças.
Homi Bhabha propõe que a hibridação é um espaço de transição,
um entre espaços onde o significado cultural é enunciado. Ele
se refere a esse espaço como ird Space (BHABHA, 1994, p.
3821). A partir de uma abordagem desconstrutivista, esse termo
é particularmente interessante uma vez que sugere outros dois
espaços: um binário (Olson, 2003, p. 737).
A intenção de Homi Bhabha é evitar a artificialidade do multicultu-
ralismo ligado exclusivamente a questões referentes a vestimenta, comida
e dança, exemplifica a autora. O ird Space é “[...] dinâmico – constitui
as condições discursivas de enunciação que assegura que os significados e
símbolos de uma cultura não têm uma unidade primordial ou imutabilida-
de; que os mesmos signos podem ser apropriados, traduzidos, historiciza-
dos e lidos de uma nova maneira” (Olson, 2003, p. 738). Quando inserido
no processo de desconstrução, o ird Space promove agenciamento.
19 SPIVAK, G. C. Feminism and deconstruction. In: SPIVAK, G. C. Outside in the teaching machine. New
York: Routledge, 1993. p. 121-140.
20 Diáspora: “Dispersão de um povo ou de uma classe pelo mundo ao longo dos anos ou dos séculos, por
perseguição política, religiosa ou étnica” (DIÁSPORA, 2021).
21 BHABHA, H. K. e location of culture. New York: Routledge, 1994.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
98
A autora conclui que a OC reflete a tradição baconiana ou o padrão
de disciplinas acadêmicas atuais e que se faz necessário que os estudos crí-
ticos continuem expondo as presunções escondidas nas práticas da OC,
porém o ativismo é necessário. As desconstruções transgressivas apresenta-
das expõem possibilidades de reconstrução dos limites tornando-os perme-
áveis, ou seja, a negociação com as comunidades de usuários no catálogo
da biblioteca é um caminho possível.
3.3 NEgOCIAÇÃO COM AS COMUNIDADES DE USUáRIOS NO CATáLOgO
DA BIBLIOTECA
Martínez-Ávila e Guimarães (2013) lembram que as críticas às abor-
dagens universais utilizadas pelos sistemas de classificação, assim como a
visão positivista do século XIX, podem ser consideradas como as principais
conquistas dos estudos críticos, e de cunho ético, na OC22. Os autores
constatam que, apesar das muitas sugestões dos estudiosos da área terem
sido acatadas pelos responsáveis pelos SOC, as questões profundas perma-
necem intocadas.
Os SOC promovem uma mediação entre um contexto de produ-
ção de informações e documentos e um contexto de uso de informações
e documentos, sendo assim “[…] desempenham um papel de ponte na
possível integração entre informação e conhecimento entre as fronteiras
culturais, sociais, nacionais, espaciais, temporais, linguísticas e de domí-
nio” (Beghtol, 2005, p. 903).
Esses sistemas são produtos de seus tempos, “[...] impregnados pe-
las concepções dominantes, pelos paradigmas e pelas tendências e até os
preconceitos de uma época” (Barité, 2001, p. 50). Por se valerem de uma
22 Leazer, Montoya e Furner (2018, p. 70) lembram que “[...] as investigações culturais – sobre como as
classificações são construídas a partir de presunções culturais e sobre como as classificações reforçam as
presunções culturais – formam um paradigma básico de pesquisa para a classificação por refletirem sobre
como elas podem limitar ou reformular a prática classificatória”.
Estudos críticos em organização do conhecimento
99
construção abstrata, a partir de pressupostos particulares, sua organização
é artificial, provisional e determinista, conclui o autor.
Os SOC são constantemente avaliados, atualizados e aperfeiçoados,
contudo as denominadas análises críticas dos SOC “[...] torna[m]-se menos
sobre correção e mais sobre localizar as rupturas na estrutura” (Drabinski,
2013, p. 101) para que as negociações ocorram.
Olson (2001) sugere que as orientações de Cornell (1992) sejam
seguidas e, então, sejam desenvolvidas técnicas e tecnologias que tornem os
limites dos sistemas permeáveis, conforme demonstrado na figura 2.
Os SOC permitem que os bibliotecários trabalhem nas margens ou
nos limites sociais e epistemológicos visando incluir diferentes pontos de
vista23 por meio de um exercício constante de responsabilidade ética com
o outro, enfatiza Olson (2001, 2003).
Mai (2013, p. 251) corrobora essa declaração quando explica que
“[...] [a] base ontológica e epistemológica para o trabalho de classificação
mudou, nos últimos anos, de uma concepção essencialista de um universo
de conhecimento para uma visão pluralista e pragmática dos domínios e da
prática como seu fundamento”.
Os bibliotecários aplicam a ética baseados em seus próprios julga-
mentos morais. Ao solicitar mudanças aos SOC por eles utilizados, por
exemplo, mesmo que essas mudanças envolvam processos burocráticos e
muitas vezes longos, percebe-se que tanto os sistemas quanto os bibliotecá-
rios “[...] têm os mesmos interesses, mas a distribuição desproporcional do
poder e do agenciamento podem levar aos excessos e abusos de poder em
detrimento dos mais fracos” (Fox; Reece, 2012, p. 378). Em outras pala-
vras, o metavalor de todos os envolvidos com OC é a promoção do acesso
e da apropriação da informação pelos usuários, porém a diferença entre
o catalogador e os responsáveis pelos SOC está na distribuição de poder,
sendo o destes últimos maior.
23 Para tanto, podem contar com o apoio de líderes de movimentos sociais, de coletivos universitários, de
especialistas etc. para a realização dos ajustes terminológicos.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
100
O bibliotecário tem o poder de promover negociações de espa-
ços no bojo dos SOC que a biblioteca utiliza ao inserir notas de esco-
po, ao construir definições, ao explorar e utilizar a sua rede sintagmática
e ao ressaltar as remissivas nos catálogos de biblioteca24 (Milani, 2023).
Provavelmente, muitos bibliotecários vêm adotando posturas que promo-
vam representatividade, posturas éticas, mesmo sem se darem conta disso
epistemologicamente.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A biblioteca é um microuniverso e tudo que ocorre na sociedade
também ocorre ali, em proporções menores. Sendo assim, o bibliotecário
deve estar atento às questões que envolvem o seu contexto de atuação pro-
fissional e atualizado em relação às suas dinâmicas.
Parte-se do pressuposto de que a biblioteca trabalha para a promoção
da justiça, principalmente da justiça social, por lidar com a gestão de acer-
vos com o intuito de promover o acesso à informação, o desenvolvimento
de pesquisas científicas, a preservação da memória e o lazer por meio da
leitura e ações culturais. Apesar de seu importante papel,
[...] [n]ão se pode criar uma sociedade justa simplesmente
maximizando a utilidade ou garantindo a liberdade de escolha.
Para alcançar uma sociedade justa, precisamos raciocinar juntos
sobre o significado da vida boa e criar uma cultura pública que
aceite as divergências que inevitavelmente ocorrerão. (Sandel,
2018, p. 322).
Embora o objetivo possa não ser o de exercer poder, exceto o poder
da recuperação da informação, os bibliotecários atuam no âmbito desse
poderoso discurso cultural, como enfatiza Olson (1999). Nesse sentido,
a partir da construção e aplicação de SOC, em um determinado espaço
24 O catálogo pode atuar, inclusive, como uma ferramenta pedagógica ao explicar aos usuários o porquê
tratamos e organizamos as informações e documentos de determinada forma, sugere Drabinski (2013).
Estudos críticos em organização do conhecimento
101
e em um determinado tempo, levando em consideração a diversidade das
necessidades locais e a reflexão sobre o seu agenciamento, os bibliotecários
podem promover equidade na representação do conhecimento.
Alternativas de negociação de espaços para a inclusão das comunida-
des de usuários que não pertencem aos grupos dominantes no catálogo da
biblioteca ou sistema de informação configuram-se como uma preocupação
global da OC, porém as soluções serão sempre locais e contextualizadas.
Diante dos dilemas éticos que exigem tomada de decisão, o biblio-
tecário terá que considerar valores éticos e barreiras culturais e linguísticas
e os estudos críticos, também denominados políticos ou sociais, configu-
ram-se como uma subárea da OC adequada para abrigar tais discussões.
Por fim, é importante lembrar que outras abordagens podem ser
usadas para se pensar a tomada de decisão do bibliotecário com vistas à
representação equitativa do conhecimento. Nesta oportunidade, discor-
reu-se sobre valores e dilemas éticos na atuação profissional, espaços de
negociação via catálogo e apresentou-se o método desconstrução, mais es-
pecificamente as desconstruções transgressivas, com alternativas teóricas
para se pensar a inclusão de comunidades de usuários ao universo das bi-
bliotecas e sistemas de informação.
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105
4
ORgANIZAÇÃO DO
CONHECIMENTO E
COMPLEXIDADE: ASPECTOS
HISTóRICOS, FILOSóFICOS E
EPISTEMOLógICOS
orGaniZation of KnoWledGe
and ComPleXitY: HistoriCal,
PHilosoPHiCal and
ePistemoloGiCal asPeCts
Daniel Abraão PANDO
Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia de São Paulo - IFSP
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-485-1.p105-138
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
106
Resumo: Aborda questões relacionadas à temática da Organização do Conhecimento
(OC) no contexto do pensamento complexo e da Pós-Modernidade sob a perspectiva da
teoria da classificação. Tendo como delineamento metodológico uma revisão bibliográfica,
buscou-se registrar o teor dessas questões na literatura do campo. Constatou-se que: a) o
pensamento pós-moderno viabiliza um meio, uma possibilidade real e necessária para se
olhar o campo da Organização do Conhecimento a partir de uma perspectiva complexa;
b) o pensamento complexo privilegia a ontologia do “vir a ser”, que contrapondo a um
mundo pronto e determinado e enfatiza uma realidade múltipla, transitória, efêmera
e emergente; c) as teorias classificatórias que foram criadas para um mundo estável e
previsível vêm sendo questionadas e postas em xeque, por não mais responderem à
complexa dinâmica da contemporaneidade. Assim, a centralidade da classificação
universal é questionada e novas formas de organizar o complexo mapa do saber humano
vão surgindo de forma a dar respostas satisfatórias e personalizadas em um mundo onde
as diferenças são respeitadas e não mais engessadas em concepções anacrônicas que não
dão conta das complexidades inerentes aos novos tempos.
Palavras-chave: organização do conhecimento; complexidade; Pós-Modernidade;
classificação; epistemologia.
Abstract: is chapter deals with issues related to Knowledge Organization (KO) in the
context of complex thinking and post-modernity from the perspective of classification
theory. Using a bibliographic review as a methodology, we aimed to record the content of
these issues in the literature of the field. It was found that: a) the post-modern thinking
provides a means, that is, a real and necessary possibility to look at the field of knowledge
organization from a complex perspective; b) complex thinking privileges the ontology of
“becoming”, which, in contrast to a ready and determined world, emphasizes a multiple,
transitory, ephemeral, and emergent reality c) classificatory theories that were created for
a stable and predictable world have been questioned as they no longer respond to the
complex dynamics of contemporaneity. us, the centrality of universal classification
is questioned and new ways of organizing the complex map of human knowledge are
emerging in order to provide satisfactory and personalized answers in a world where
differences are respected and no longer embodied in anachronistic conceptions that do
not account for the complexities inherent to the new times.
Keywords: knowledge organization; complexity; Post-Modernity; classification;
epistemology.
Estudos críticos em organização do conhecimento
107
1 INTRODUÇÃO
No presente capítulo buscamos, em um primeiro momento, apre-
sentar uma breve revisão histórica e conceitual concernente ao campo de
Organização do Conhecimento (OC), enfatizando tanto os estudos teó-
ricos quanto as transformações causadas pelas novas configurações sociais
que lançam alguns desafios epistemológicos e configurativos para esse im-
portante campo no momento atual. Em seguida, desenvolvemos um diá-
logo com a ideia de complexidade através de uma reflexão a respeito dessa
noção epistemológica que tem sido debatida em alguns campos científicos
e suas possíveis implicações para a OC.
Verticalizando a abordagem, em um terceiro momento destacamos
alguns aspectos relacionados à teoria da classificação por entendermos essa
atividade como central nos processos de OC. Para tanto, reportamos a
um momento histórico denominado de pós-modernidade onde importan-
tes discussões vêm sendo desenvolvidas por diversas formas de pensar essa
nova realidade, privilegiando nesse contexto a epistemologia da comple-
xidade que tem como um de seus principais representantes Edgar Morin.
2 O CAMPO DA ORgANIZAÇÃO DO CONHECIMENTO
A preocupação com a organização do conhecimento não é um fato
recente, já que na própria história da humanidade este fato está evidencia-
do como uma preocupação do homem. Como afirma Moreira (2018, p.
23): “[...] o conhecimento é uma das questões mais antigas, fundamentais
e essenciais à ideia de civilização que a humanidade produziu”. Ainda se-
gundo o referido autor “[...] dele ocupou-se, inicialmente, a filosofia anti-
ga, quando os gregos [...] deixaram de contemplar o universo para tentar
efetivamente compreendê-lo”.
Dessa forma, a ideia de organização do conhecimento é algo que
o homem tem convivido e provém, basicamente, da Filosofia e da classi-
ficação das ciências. Percebe-se uma influência da tradição filosófica nos
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
108
sistemas modernos de classificação, atividade central da OC, seja como
método (micronível) seja como base para classificar e organizar o conheci-
mento (macronível) (Monteiro; Giraldes, 2008). De acordo com Araújo,
Guimarães e Tennis (2021, p. 2) “[...] a organização do conhecimento
(OC) é tanto a atividade de ordenar e representar informações quanto o
campo de estudo que se preocupa com a natureza e a qualidade dos pro-
cessos e sistemas de OC”.
O termo Organização do Conhecimento (Knowledge Organization),
como é trabalhado atualmente, é relativamente recente, surgindo por volta
da década de 70. Sua fundamentação histórica, no entanto, surgiu nas pri-
meiras décadas do século 20 ao ser utilizado, entre outros, por Henry E. Bliss
(1870-1955), Charles A. Cutter (1837-1903), W.C. Berwick Sayers (1881-
1960) e Ernest C. Richardson (1860-1939) (Hjørland, 2008). Dentre esses
autores, Bliss é o autor de três obras relacionadas aos estudos da Organização
do Conhecimento, sendo elas: e Organization of Knowledge and the System
of Sciences (1929), Organization of knowledge in libraries and subject approach
to books (1933) e A system of bibliographic classification (1935), que foram
consideradas precursoras para a constituição do campo.
Dalhberg (2006), no seu artigo sobre Knowledge Organization:
a new science e em uma entrevista concedida ao periódico Knowledge
Organization (2007), relata como se deu historicamente a consolidação
do termo como ele é atualmente conhecido. De acordo com a referida
autora, o grupo de pesquisadores, do qual fazia parte, procurava um nome
mais abrangente do que classificação (primeiro nome pelo qual a área era
conhecida). A primeira ideia para o nome foi pensada a partir da tradução
de Wissensordnung1, título do seu livro, de 1974. Como a tradução para o
inglês não era adequada, ela propôs o uso da expressão que foi utilizada
por Bliss, em 1929, Organization of Knowledge, mas na ordem inversa
Knowledge Organization.2 (Lima; Alvares, 2012).
Algo como “ordem do conhecimento”, a partir de uma tradução livre.
A questão da adoção do termo Knowledge Organization, a exemplo de outras é algo controverso. Barité
(2001) aponta que foi o autor alemão Soergel que propôs em uma conferência realizada, em 1971, a
expressão “Knowledge Organization”, sugestão imediatamente acolhida pelos demais investigadores que
Estudos críticos em organização do conhecimento
109
De acordo com Arboit (2014), além dos trabalhos de Bliss (1929,
1935), Dahlberg (1995) cita a dissertação de Soergel, de 1971, “Organization
of knowledge and documentation”, e a sua, de 1973, “Foundations of organi-
zation universal of knowledge”, também como os primeiros trabalhos vol-
tados para OC.
Arboit (2014) argumenta que tanto Soergel quanto Dahlberg com-
partilham a concepção de que a Ciência da Informação e a Teoria da
Classificação devem se referir às estruturas conceituais e o processo de for-
mação dos conceitos. Porém, enquanto a linha de pensamento de Dahlberg
volta-se para um enfoque filosófico, uma vez que ela defende a ideia de que
a OC está mais próxima da Filosofia do que da Ciência da Informação a
de Soergel volta-se para a Documentação ou Ciência da Informação. “Em
outras palavras, enquanto a preocupação de Dahlberg é formular a Teoria
do Conceito e demais fundamentos filosóficos da nova disciplina, a de
Soergel era como aplicar esses fundamentos na construção de sistemas de
recuperação da informação” (Arboit, 2014, p. 120-121).
Necessário, no entanto, se faz destacar que foi a partir de 1989, com
a fundação da International Society for Knowledge Organization (ISKO3),
considerada como a primeira sociedade acadêmica internacional dedicada
à teoria e prática da organização do conhecimento (Mcilwaine; Mitchell,
2008), sob a presidência de Ingetraut Dahlberg, que se começou a delinear
com mais profundidade a consolidação científica do campo. Desde sua
fundação, a referida instituição tem se voltado aos estudos que abordam
aspectos interdisciplinares na questão de organização do conhecimento e
tratamento da informação destacando, nesse contexto, os trabalhos da pró-
pria Ingetraut Dahlberg (Alemanha), de Clare Begthol (Canadá), Francisco
Javier Garcia Marco (Espanha), Miguel Angel Esteban Navarro (Espanha),
Mário Barité (Uruguai) e Birger Hjørland (Dinamarca), dentre outros.
compartilhavam a mesma linha de pensamento, inclusive Dahlberg e outros que saíram da Society for
Classification para fundar a ISKO em 1989 (Arboit, 2014, p. 120).
A Sociedade Internacional de Organização do Conhecimento – ISKO tem uma contribuição especial,
uma vez que é considerado um espaço para discussões científicas sobre a organização do conhecimento,
bem como pelo estudo de diferentes métodos e abordagens para facilitar o acesso ao conhecimento pela
sociedade (Guimarães; Oliveira; Grácio, 2012, p. 31).
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
110
De acordo com Barité (2013, p. 120), a Organização do
Conhecimento é “[...] uma disciplina de formação recente que estuda as
leis, os princípios e os procedimentos pelos quais se estrutura o conheci-
mento especializado em qualquer disciplina”. De certo modo, é uma dis-
ciplina de convergência teórico-metodológica, pois se nutre de elemen-
tos da Linguística, da Documentação, da Informática e da Comunicação
(Barité, 2000). Além disso, mantém vínculos com os âmbitos que se ocu-
pam da produção, do pensamento científico (Ciência da Ciência, Filosofia
da Ciência, Sociologia da Ciência, e de sua classificação - a Taxonomia
e a nomenclatura entre outros). Todo empenho realizado em função da
Organização do Conhecimento se justifica porque a humanidade só avan-
ça na medida em que sistematiza o saber acumulado para cumprir determi-
nados propósitos e só por meio do estabelecimento de consensos sobre este
saber, torna-se possível o intercâmbio, a comunicação, o debate, a difusão
e os modos de circulação do conhecimento especializado (Barité, 2001).
Dessa forma, torna-se uma necessidade premente a questão da
organização do conhecimento, uma vez que isso demanda pensar em
formas de acesso mais qualificados, o que pode, em última instância,
proporcionar importantes subsídios para a tomada de decisão em vários
âmbitos da sociedade.
No que diz respeito ao seu desenvolvimento, Barité (2001) esclarece
que a evolução do campo se confunde em sua origem e, em seus primeiros
passos, com as histórias particulares da Ciência da Informação (e mais es-
pecificamente da Biblioteconomia), contribuindo para formação e desen-
volvimento destas disciplinas, desde a parcela que se ocupa dos princípios
e das técnicas de tratamento documental de conteúdo.
O estudo a respeito da organização do conhecimento, ao longo do
tempo, passou por distintos interessados. No período pré-científico da
antiguidade, foram os filósofos, como Aristóteles, que tiveram (e ainda
tem) grande influência nas bases lógicas e epistemológicas do pensamen-
to ocidental (Barité, 2001; Miranda, 1999). A partir da separação entre
Estudos críticos em organização do conhecimento
111
ciência e filosofia, a tentativa de sistematização do conhecimento coube
primeiro aos monges e, em seguida, aos primeiros científicos laicos res-
ponsáveis pelas grandes revoluções intelectuais da história da humanida-
de (Barité, 2001). Na era Moderna, passou a ser alvo dos enciclopedistas
como Avicenna, Hugo de São Vitor, Vincente de Beuvais, Bartholomaeus
Angelicus e também de educadores como Comenius, J.H. Alsted, W.
Ratke (Amorim Neto, 2013).
A partir do século XIX, com a expressiva generalização das biblio-
tecas públicas como suporte educativo e cultural da expansão econômi-
ca, impulsionada pela Revolução Industrial, começa-se a pensar com mais
profundidade na necessidade de criação de instrumentos específicos para
o armazenamento e a recuperação de documentos de um modo estrutu-
rado, sendo também a partir do “[...] terceiro quartel do século XX [...]
preocupação também dos Cientistas da Informação” (Miranda, 1999, p.
68). Com o crescente desenvolvimento das tecnologias e o acúmulo cada
vez mais intenso de informações e conhecimentos que são produzidos e
disponibilizados, observa-se que, até o tempo presente, muitos filósofos,
epistemólogos, científicos e historiadores da ciência moderna continuam
preocupados por organizar o cada vez mais complexo mapa do saber hu-
mano (Barité, 2001).
Hjørland (2003), por sua vez, lembra que o conceito da Organização
do Conhecimento é muito amplo, pois este se encontra envolvido com a
divisão social do trabalho (disciplinas); as instituições sociais (universida-
des); as linguagens e sistemas simbólicos; os sistemas conceituais e teóricos;
e, ainda, com as literaturas e gêneros. O autor acredita que muitas vezes
a Ciência da Informação tem ignorado o amplo significado das teorias da
Organização do Conhecimento, essenciais para a construção de eficientes
sistemas de organização de informação (SOCs).
Nesse sentido, Hjørland (2008) conceitua a organização do conheci-
mento a partir de dois significados, sendo um mais restrito e o outro mais
amplo. Como significado mais restrito, o autor assim se expressa: “[...] a
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
112
Organização do Conhecimento se relaciona com atividades como: des-
crição de documentos, indexação e classificação realizada em bibliotecas,
bases de dados bibliográficas, arquivos e outros tipos de instituições de me-
mória [...]” (Hjørland, 2008, p. 86, tradução nossa). Já na concepção de
significado mais amplo, o autor entende a Organização do conhecimento
como sendo aquela atividade que “[...] trata da divisão social e mental do
trabalho, a organização das universidades e outras instituições de pesquisa
e educação superior, a estrutura das disciplinas e profissões, a organiza-
ção social da mídia, a produção e disseminação do conhecimento etc.
(Hjørland, 2008, p. 86, tradução nossa).
Assim, subentende-se que, a organização do conhecimento, como
um campo de estudo, tem como fundamento de suas preocupações a na-
tureza e a qualidade desses processos e também com os sistemas de orga-
nização do conhecimento que são utilizados para organizar documentos,
representações de documentos, obras e conceitos (Hjørland, 2008).
Historicamente, pode-se constatar, então, que a organização do co-
nhecimento procurou, segundo a visão de Barité (2001, p. 39-40, grifos
do autor):
[...] oferecer um modelo conceitual adequado com as diversas práticas
e atividades sociais vinculadas com o acesso ao conhecimento e
pretende operar como instrumento de tratamento da informação e de
gestão de uso da informação, abarcador e integrador dos fenômenos
e aplicações vinculados com a estruturação, a disposição, o acesso e
a difusão do conhecimento socializado. 4
No mesmo sentido, Rabello e Guimarães (2006, p. 9) argumentam
que a Organização do Conhecimento “apresenta como principal núcleo
epistemológico o conhecimento registrado, ou seja, aquele materializado
em documentos”. Como disciplina, dá conta do desenvolvimento de téc-
nicas para a construção, a gestão, o uso e a avaliação de classificações cien-
Essa expressão é utilizada para exprimir o mesmo conceito utilizado por Guimarães (1994), conhecimento
registrado, e Jaenecke (1994), conhecimento documental (Rabello; Guimarães, 2006, p. 14).
Estudos críticos em organização do conhecimento
113
tíficas, taxonomias, nomenclaturas e linguagens documentárias. Aporta,
por outra parte, metodologias de uso e recuperação por linguagem natural
(Barité, 2001).
Esta visão integral do conhecimento é de suma importância já que
a ela se associam as classificações filosóficas ou científicas do saber com
as classificações destinadas a organização de documentos em bibliotecas,
arquivos e outras unidades de informação abrindo, assim, maiores perspec-
tivas para um importante desenvolvimento disciplinar e interdisciplinar
no âmbito da Biblioteconomia, da Documentação e da própria Ciência da
Informação.
No entanto, Andersen (2002), ao analisar o campo da Organização
do Conhecimento, afirma que o mesmo tem uma longa história no con-
texto da Ciência da Informação, porém, essa tradição da área tem sido
marcada pela busca de técnicas, normas e regras para a Organização do
Conhecimento em vez de haver se esforçado para uma compreensão mais
profunda de seu papel na produção e na comunicação do conhecimento
na sociedade.
O resultado disso, segundo o autor, é uma concepção bastante res-
trita da Organização do Conhecimento no contexto da Biblioteconomia e
Ciência da Informação, ignorando a ampla organização social do conhe-
cimento. Deve-se ressaltar, no entanto, algumas exceções como os estu-
dos de Bliss (1929), Egan e Shera (1952), Patrick Wilson (1968) e Birger
Hjørland (1994, 1997), os quais têm defendido o papel da Organização
do Conhecimento na produção e na comunicação do conhecimento na
sociedade (Andersen, 2002).
Nesse contexto, percebe-se que a busca de um entendimen-
to melhor a respeito da própria constituição do campo de Organização
do Conhecimento é algo que ainda faz parte da agenda de pesquisa do
campo. Como afirma Arboit (2014, p. 13), “[...] a área ainda busca
consolidar-se de modo consistente via construção e revisão da sua base
teórico-epistemológica”.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
114
Essa temática constitui em importante objeto de estudo e, por
esse motivo, a busca de uma visão mais integralizadora do campo de
Organização do Conhecimento é um assunto que vem sendo debatido
no contexto da International Society for Knowledge Organization (ISKO).
López-Huertas e Jimenez Contreras (2004, p. 137) já pontuavam que a
organização do conhecimento “[...] é um campo cujos limites nem sempre
são claramente definidos. Ele se apresenta como um conceito amplo, e
nem todos os autores explicitam sua compreensão”.
Smiraglia (2005, p. 139), nessa mesma linha, também questionou o
que exatamente seria a organização do conhecimento e, ele mesmo consta-
tou que: “[...] existem muitas definições diferentes e nem todos os estudio-
sos do domínio concordam”. No mesmo sentido, López-Huertas (2008, p.
114) posicionou-se afirmando que: “[...] o conceito de OC está em revisão
hoje em dia. Estudiosos da Ciência da Informação (CI) argumentam que
os limites conceituais do que foi entendido por OC não correspondem
com a forma como OC é visto hoje. Ele pede reconsideração”.
Conforme relatam McIlwaine e Mitchell (2008), na nona confe-
rência internacional da ISKO, realizada em Viena (2006), durante con-
versas informais e discussões no seio do Conselho Consultivo Científico,
ficou claro que havia uma necessidade de apresentar uma definição com-
partilhada do campo Organização do Conhecimento, uma vez que, em-
bora a maioria dos membros da ISKO fosse proveniente dos campos de
Biblioteconomia e Ciência da informação, o interesse nessa temática não
está restrito a eles. O interesse de outras áreas nessa questão, segundo os
autores, acabou levando também a uma confusão sobre o significado de
organização do conhecimento e a sua relação com outros campos como a
gestão do conhecimento.
Como se pode perceber, a relação da Organização do Conhecimento
com outras áreas passa também pela própria denominação do campo.
Nota-se, assim, que a questão conceitual é de interesse para o campo, pois
a partir do trabalho desenvolvido por Matos, Guimarães e Grácio (2015)
Estudos críticos em organização do conhecimento
115
identificou-se, considerando a análise de publicações de dois capítulos da
ISKO (Ibérico e brasileiro), que a questão conceitual do campo ainda é
tímida. Segundo os autores, isso poderia sinalizar para uma sedimentação e
uma superação dessas questões “[...] mas, dada a diversidade de abordagens
conceituais quanto ao objeto da área, observa-se que o tema ainda se en-
contra em fase de construção” (Matos; Guimarães; Grácio, 2015, p. 553).
Assim, nota-se que o campo ainda convive com questões funda-
mentais para o seu pleno desenvolvimento. Como aponta Lopez-Huertas
(2008) o campo não possui um corpo bem articulado, consistente e co-
erente de teorias e métodos. Isto dá origem a um panorama geral confli-
tante e uma ausência de comunicação entre os diferentes pontos de vis-
ta. Segundo a referida autora, não podemos esquecer a percepção da OC
como um campo preenchido por modelos teóricos e métodos sem muita
conexão interdisciplinar e sem muita consciência das dimensões exatas de
seus limites conceituais – duas noções que têm muito a ver com identidade
interdisciplinar. Em outras palavras, existem problemas epistemológicos
para lidar.
Hjørland (2008), destaca que a questão epistemológica é fundamen-
tal para que um campo possa se consolidar no rol dos assim denominados
campos científicos. No entanto, é preciso considerar que os campos conso-
lidados preocupam-se menos com questões epistemológicas. Assim, se um
determinado campo ainda se preocupa com suas delimitações epistemoló-
gicas subentende-se que ainda não atingiu sua plena maturidade científica.
Percebe-se pelos questionamentos apontados acima que, apesar de
todo o avanço ocorrido desde sua fundação, o campo da Organização do
Conhecimento ainda busca uma melhor estruturação teórica e epistemo-
lógica, o que pode resultar em uma melhor fundamentação de suas bases
científicas. Uma dessas configurações, que atualmente vem sendo debatida
para uma melhor estruturação do campo é aquela voltada para a questão
da complexidade e todas as suas conformações que tem se tornado em uma
agenda de pesquisa promissora para o campo da OC.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
116
Como forma de melhor analisar esse contexto, passamos, no próxi-
mo tópico, a tecer algumas considerações a respeito do pensamento com-
plexo evidenciando como essa nova configuração tem, de fato, exercido
influência nas discussões que são realizadas nesse campo do conhecimento.
3 COMPLEXIDADE E PENSAMENTO COMPLEXO: ANTECEDENTES
HISTóRICOS, FILOSóFICOS E EPISTEMOLógICOS
O pensamento complexo ainda não é um corpo sistematizado de
pressupostos que configurem uma disciplina específica. Pensando a sua
designação como uma questão epistemológica, pode-se situar seu surgi-
mento a partir de estudos levados a cabo por diversos pensadores e cien-
tistas como Gregory Bateson (1904-1980), Heinz von Foerster (1911-
2002), Gordon Pask (1928-1996), Norbert Wiener (1894-1964), Henri
Atlan (1931), Humberto Maturana (1928-2021), Francisco Varela (1946-
2001), Gaston Bachelard (1884-1962), Abraham Antoine Moles (1920-
1992), K. L. Von Bertalanffy (1901-1972), Ilya Prigogine (1917-2003) e
Edgar Morin (1921) dentre outros (Gustsack; Pellanda; Boettcher, 2017;
Francelin, 2003).
Embora se reconheça o valor das diversas propostas elaboradas pelos
autores citados acima que destacam uma visão mais aprofundada a respeito
das mudanças que vêm ocorrendo nas concepções científicas, no presente
texto daremos uma maior atenção aos estudos desenvolvidos por Edgar
Morin. Francelin (2003) destaca que a complexidade proposta por Morin
se refere a um conjunto de eventos, primordialmente aqueles ligados à área
científica, que passaram a ocorrer com mais frequência a partir do final
do século XIX e que foram sendo debatidos, combatidos e assimilados no
decorrer do século XX até o momento atual.
Baseado no pensamento de autores como Japiassu (1986), Kuhn
(2001) e Epstein (1988), Francelin (2003) considera que o que houve
na realidade foi um certo tipo de Revolução pois foram quase três sé-
Estudos críticos em organização do conhecimento
117
culos de determinismo, de racionalismo, de univocidade, de concepção
mecânica de mundo e, principalmente, da certeza que se transferia ao
experimento científico.
Esse entendimento também é defendido por López-Huertas (2013,
p. 400) ao argumentar que “[...] estamos diante de uma grande revolução
que exige uma nova epistemologia; ou seja, uma epistemologia baseada em
premissas de acordo com as demandas da sociedade atual, um novo olhar
para a pesquisa, novas metodologias, novas lógicas, etc.”.
De acordo com Nicolescu (1999, p. 2) a ciência moderna era obce-
cada pela ideia de leis e ordem. Nessa busca estabeleceu “[...] três postula-
dos fundamentais: a existência de leis universais, de caráter matemático; a
descoberta destas leis pela experiência científica; a reprodutibilidade per-
feita dos dados experimentais”. Esse período foi denominado por Bauman
(2001, p. 10) como modernidade sólida, em que a lógica científica começa
por “[...] eliminar as obrigações ‘irrelevantes’ que impediam a via do cálcu-
lo racional dos efeitos [...]”.
Esse modelo de ciência promoveu a separação entre as ciências na-
turais e as ciências sociais. Nicolescu (1999, p. 12) denominou esse pro-
cesso de big-bang disciplinar afirmando que suas causas respondem “[...]
às necessidades de uma tecnociência sem freios, sem valores, sem outra
finalidade que a eficácia pela eficácia”. Ou seja, uma ciência tecnicista com
pouca ou nenhuma consideração para seus efeitos na realidade à sua volta
(Moraes; Campos, 2019). No entanto, tudo isso passa a ser contestado
com as descobertas da própria ciência, como aponta Morin em vários de
seus estudos (1996, 1998, 1999, 2002, 2011, 2015).
Assim, uma das vozes mais destacadas quando nos referimos ao pen-
samento complexo e ao desenvolvimento de uma teoria da complexidade é
sem dúvida a de Edgar Morin, filósofo e historiador francês que, ao longo
de vários anos e de diversas obras publicadas se propôs a fornecer um en-
tendimento dessa forma de enxergar as atuais configurações sociais e cien-
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
118
tíficas com as quais nos deparamos atualmente. Segundo López-Huertas
(2013, p. 400):
Morin (1992) com seu pensamento complexo é um bom
exemplo de um novo movimento que vai abarcar, com o
tempo, correntes de pensamento que têm sido chamadas
de pós-modernismo, ciência pós-moderna, conhecimento
multidimensional (interdisciplinaridade e transdiscipli-
naridade).
Edgar Morin, frequentemente, se refere à teoria da complexidade
apenas com o termo “Complexidade”. Para tentar esclarecer as suas ideias,
Morin (1998, p. 176), propõe que sejam superados dois mal-entendidos
sobre a Complexidade. O primeiro é o de concebê-la “[...] como receita,
como resposta, ao invés de considerá-la como desafio e como motivação
para pensar”; o segundo é “[...] confundir a complexidade com completu-
de”: não é, diz ele; é antes o problema da “incompletude do conhecimento
humano”. Morin (2011) ainda levanta uma terceira possibilidade que é
confundir “complexidade” com “complicação”.
Por essa razão muitos acreditam que agir e decidir diante da comple-
xidade somente é sinônimo de desordem ou de obstáculos. Morin (2011,
p. 377-378), no entanto, demonstra uma forte diferenciação entre a com-
plexidade e a complicação:
A complexidade não é a complicação. O complicado pode reduzir-
se a um princípio simples, como um novelo enredado ou um nó
de marinheiro. É claro que o mundo é muito complicado, mas se
fosse apenas complicado, ou seja, embaralhado, multidependente,
etc. bastaria realizar as reduções que todos conhecemos [...]. O
verdadeiro problema não é, portanto, reduzir a complicação dos
desenvolvimentos a regras com uma base simples. A complexidade
está na base.
Morin (2011, p. 14) considera que “[...] a dificuldade do pensa-
mento complexo é que ele deve enfrentar o emaranhado (o jogo infinito
das inter-retroações), a solidariedade dos fenômenos entre eles, a bruma, a
Estudos críticos em organização do conhecimento
119
incerteza, a contradição”. Segundo Morin (2011), temos a capacidade de
elaborar algumas ferramentas conceituais, alguns princípios para essa ação,
além de pressentir a visão de um novo paradigma de complexidade que
seria necessário emergir. Semelhantemente a esse pensamento, o filósofo
Gaston Bachelard, (2017, p. 21) aponta também para um rompimento
com as ciências anteriores, especialmente no que se refere à filosofia das
ciências de uma maneira geral. Isto porque, para ele, as filosofias do conhe-
cimento parecem desfavorecidas e maculadas pelo utilitarismo.
Morin (2011, p.34) define complexidade como “[...] um tecido
(complexus: o que é tecido junto) de constituição heterogênea, insepara-
velmente associada”. Nesse sentido, a complexidade pode ser entendida
como um tecido de fatos, ações e interações que constituem um deter-
minado fenômeno. No entanto, é preciso levar em conta que a comple-
xidade apresenta momentos de desordem, ambiguidades e incertezas, tor-
nando necessário ordenar esses fenômenos e, consequentemente, livrar-se
das certezas. Porém, essas ações necessárias à nossa inteligibilidade podem
provocar aquilo que Morin vai chamar de a cegueira do conhecimento
(Menezes; Barbosa, 2018).
De acordo com Morin (2011) pode-se pensar a complexidade a
partir de três princípios5 fundamentais: o dialógico, a recursão organiza-
cional e o hologramático. O princípio dialógico pode ser exemplificado
pela organização da vida, que nasce da junção de dois tipos de entidades
químico-físicas, o DNA. Por um lado, essa junção traz uma memória es-
tável, com características hereditárias e, por outro lado, os aminoácidos
formam os mais variados arranjos-roteiros, caracterizados pela instabilida-
de de desagregação e reconstituição incessante a partir de mensagens do
DNA. Isso exemplifica a existência de duas lógicas: de um lado uma das
proteínas instáveis interagem com o meio, e de outro, o DNA assegura a
reprodução. Essas duas lógicas não se apresentam como justapostas, mas
como complementares entre si e necessárias uma à outra. Em termos dia-
Posteriormente Morin (2015) expandiu estes princípios para sete esclarecendo que todos estes princípios
são complementares e interdependentes. No entanto, para os propósitos do presente estudo iremos adotar
apenas estes três princípios.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
120
lógicos, a ordem e a desordem são antagônicas, suprimindo uma a outra,
mas ao mesmo tempo contribuem para a organização da complexidade.
Para Morin (2011, p. 74) o princípio dialógico “[...] nos permite manter a
dualidade no seio da unidade”.
O segundo princípio denominado de recursão organizacional, é um
processo em que os produtos e os efeitos são simultaneamente produto
e produtor, ou seja, os produtos e os efeitos são ao mesmo tempo cau-
sadores do que os produz. Como exemplo desse princípio, o autor cita a
sociedade, que é produzida por meio de interações com os indivíduos, mas
também produz os mesmos. Assim, a recursividade é “[...] uma ideia em
ruptura com a ideia linear de causa/efeito, de produto/produtor, de estru-
tura/superestrutura, já que tudo o que é produzido volta-se sobre o que o
produz num ciclo [...] autoconstitutivo, auto-organizador e autoprodutor
(Morin, 2011, p. 74).
Araújo (2007), ao analisar a diferença entre a causalidade linear e a
recursiva aponta que enquanto a linear está fundamentada na racionalida-
de cartesiana e indica uma única metodologia, uma única maneira de fazer
algo, a causalidade recursiva, descoberta através da física quântica, indica
uma metodologia dinâmica, não linear, “[...] implicando um pensamento
aberto ao inesperado, ao desconhecido, ao acaso, pressupondo que não
existe nem início nem fim, que cada final é sempre um novo começo e cada
início emerge de um final anterior [...]” (Araújo, 2007, p. 519).
O terceiro princípio é intitulado como princípio hologramático.
Este princípio traz a ideia do holograma e vai além do reducionismo que
só vê as partes e do holismo que só vê o todo. No holograma a menor parte
de uma imagem possui a totalidade da figura, assim, não apenas a parte
está no todo, como o todo está igualmente em cada parte. Na biologia
temos o exemplo da célula como um princípio hologramático, sendo que
cada unidade celular de nosso corpo possui a totalidade das informações
genéticas do organismo. Como num sistema vivo e autopoiético qualquer,
Estudos críticos em organização do conhecimento
121
somos uma espécie de rede também e por isso, estamos interligados siste-
micamente ao todo.
Segundo Morin (2011) esse princípio é um pouco a ideia de Pascal,
que afirmava que não podia conceber o todo sem as partes, assim como
não podia conceber as partes sem o todo. Outro exemplo do princípio ho-
logramático que rompe com as ideias fragmentadas, reducionistas e simpli-
ficantes está no fato da sociedade ser entendida como um todo, ao mesmo
tempo em que se encontra presente em nosso interior, já que trazemos
conosco a linguagem e a cultura.
Aliado a esse entendimento, e de forma mais objetiva para os propó-
sitos do presente capítulo, De Santis e Souza (2017, p. 154) argumentam
que na contemporaneidade, a Organização do conhecimento tem se de-
frontado com os limites do que eles denominam de “paradigma disjunti-
vo6” e tem “[...] investigado bases teóricas mais adequadas para lidar com a
multidimensionalidade do conhecimento”. Uma dessas bases é voltada jus-
tamente para a questão da complexidade e todas as suas conformações que
tem se tornado em uma agenda de pesquisa promissora para o campo da
OC, dentre as quais podemos apontar como exemplo o encontro da ISKO
realizado no Brasil em 2015 cuja principal temática foi “Organização do
conhecimento e complexidade”.
Ainda de acordo com De Santis e Souza (2017, p. 161), uma conse-
quência mais próxima da Organização do Conhecimento quando discuti-
mos questões relacionadas à complexidade é que:
[...] a oposição entre ordem e desordem deixou de fazer sentido,
uma vez que as leis da termodinâmica (e seus princípios de entropia
e neguentropia) mostraram que ordem e desordem são faces de
um mesmo processo e que cooperam de maneira inseparável para
“Foi nas ditas ‘ciências tradicionais’, como a Física e a Biologia, que ocorreu a problematização da visão
disciplinar do conhecimento e a constatação da falência de um modo disjuntivo de lidar com os saberes.
O deflagrador dessa ruptura no quadro epistemológico do conhecimento foi a enunciação da segunda e da
terceira leis da termodinâmica que, ao provarem a interdependência entre sujeito e objeto, promoveram a
desreificação da noção de matéria, unindo em uma mesma entidade as noções de espaço e tempo. Com isso,
as categorias da física clássica que desde o século XVII fundamentavam o pensamento do homem ocidental
sobre as coisas do mundo foram colocadas em questão” (De Santis; Souza, 2017, p. 160).
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
122
estabilizar” o universo. Em suma, as transformações ocorridas ao
longo de mais de vinte séculos em relação às formas de se encarar
o conhecimento e o consequente esvaziamento causado pela
constatação de que o homem não encerraria em si a capacidade
explicativa do mundo, levou a ciência da segunda metade do
século XX a um ponto de inflexão: o conhecimento científico já
estabelecido não era capaz de explicar o conhecimento prático do
mundo. (De Santis; Souza, 2017, p. 160-161).
Assim, entendemos que as considerações de Edgar Morin sobre as
contingências do século XX como facilitadoras de uma nova organização
do conhecimento em bases complexas e transdisciplinares, bem como so-
bre a emergência de um “pensamento ecologizado”, permitem compreen-
der o estatuto epistemológico da ciência do complexo no mundo atual.
Dito de outro modo, longe de um modismo, de um operador cog-
nitivo abstrato, ou mesmo do surgimento de mais uma teoria para in-
terpretar o mundo, as noções de complexidade, pensamento complexo e
religação de saberes podem ser compreendidas como imperativos do nosso
tempo, como uma forma de organizar conhecimentos em estreita ligação
com o modo de organização dos domínios físicos, materiais, simbólicos,
ecológicos, educacionais etc. Se é correto afirmar que a compreensão da
interdependência múltipla dos fenômenos (sejam eles físicos ou culturais)
só poderia emergir de uma sociedade-mundo em intensa interdependên-
cia, “[...] é igualmente razoável afirmar que uma ‘reforma do pensamento
em bases complexas configura, ao mesmo tempo, ferramentas cognitivas
e sugestões pragmáticas essenciais para viver, conhecer e projetar novos
horizontes civilizacionais” (Almeida, 2008, p. 50).
Esses princípios traduzem a necessidade de uma visão integradora,
superando as fragmentações a que estamos sujeitos. Esse conceito vem li-
gado aos princípios da transdisciplinaridade, da complementaridade e da
incerteza, fazendo emergir novas concepções de conhecimento e, de forma
complementar, a sua organização em um contexto pós-moderno como ve-
remos a seguir.
Estudos críticos em organização do conhecimento
123
4 ORgANIZAÇÃO DO CONHECIMENTO E COMPLEXIDADE NO CONTEXTO
DA PóS-MODERNIDADE
Para entendermos de forma mais aproximada as questões relaciona-
das à organização do conhecimento e a complexidade no contexto pós-mo-
derno, necessário se faz destacar que é imprescindível considerar as novas
configurações pelas quais o conhecimento, objeto central desse campo,
vem passando nos últimos tempos. Como apontam Alexiev e Marksbury
(2010, p. 364, tradução nossa) “[...] a base epistemológica de qualquer
teoria de OC é um postulado aceito. Em outras palavras, como o conheci-
mento é organizado e representado depende em grande parte da compre-
ensão de como o conhecimento é gerado e percebido”.
Nesse sentido, Langridge (1976, p. 3) destaca que: “[...] nosso pro-
blema é a organização do conhecimento para uso, e nosso interesse central
deve ser a natureza do conhecimento em si”. Do mesmo modo, Shera
(1970) declara que o estudo da natureza do conhecimento é tão importan-
te para os profissionais da informação como o estudo de anatomia é para
o cirurgião.
A partir desse entendimento, podemos verificar na literatura do
campo alguns autores que se dedicaram a estudar e delinear novas configu-
rações epistemológicas para se entender melhor como o conhecimento, ou
pelo menos o seu entendimento, vem sendo discutido. Um desses autores
é Pombo (2003) que, pensando sobre essa temática, afirma que o conheci-
mento é marcado por transformações em sua estrutura. Fundamentando
suas ideais na visão de filósofos e eruditos, a autora destaca que o conheci-
mento apresentou nos primórdios características de um corpo unificado,
de abrangência geral, depois passou a um período de fragmentação em
campos ultra especializados e atualmente continua esse processo de trans-
formação com movimentos em suas fronteiras qualificados pelos estudos
chamados interdisciplinares. Termo este que coloca em relação outros qua-
tro: pluridisciplinaridade, multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e
transdisciplinaridade (Pombo, 2003).
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
124
No presente estudo, esse conhecimento será abordado como multi-
dimensional7. Vale lembrar que esse termo já foi utilizado por Ranganathan
(1967), Morin (2002) e López-Huertas (2013) em distintos momentos,
mas com o mesmo sentido: o da multiplicidade de saberes reunidos para
responder a problemas da realidade. Logo, o termo “[...] conhecimento
multidimensional” é utilizado como um conceito de maior abrangência
para se referir ao conhecimento inter-trans-multidisciplinar” (Moraes;
Campos, 2019, p. 3).
Nesse contexto, De Santis e Souza (2017, p. 156) afirmam que:
[...] a partir da segunda metade do século XX, novos caminhos
vem sendo buscados para se estudar os sistemas de organização
do conhecimento. Um dos principais desafios é refletir a natureza
multidimensional do conhecimento, ou seja, as suas múltiplas
possibilidades de relação com o mundo social.
Segundo os referidos autores, “René Descartes fundou o que veio a
se converter no paradigma científico predominante da cultura ocidental
desde o século XVII: a separação entre o sujeito pensante (ego cogitans)
e a coisa entendida (res extensa)”. Este paradigma, que foi logo adotado
pela comunidade científica, “estabelece um princípio de verdade baseado
na descoberta de uma ‘ordem perfeita’ na realidade e foi com ele que o
conhecimento científico e a reflexão filosófica lograram progressos inau-
ditos, mas sempre evoluindo em paralelo, como se houvesse uma ‘linha
separando o sujeito e as coisas no mundo”. No entanto, durante o século
XX, “[...] chegou-se a um ponto de inflexão no qual a ciência constatou os
limites do modo de pensar cartesiano e também a sua própria incapacidade
de ultrapassá-los a partir da adoção de um conhecimento independente do
sujeito, como estava sendo proposto no momento semiótico” (De Santis,
Souza, 2017, p. 157-158).
“O conhecimento multidimensional enfatiza um caráter mais reticular do conhecimento e a necessidade
de superação de sua fragmentação e setorialização que caracterizaram a visão moderna do conhecimento
(López-Huertas, 2013, p. 400, tradução nossa).
Estudos críticos em organização do conhecimento
125
Este movimento da própria ciência conduziu a uma necessidade ine-
quívoca de atualização das teorias de conhecimento, face à inadequação de
se continuar concebendo qualquer objeto ou entidade como fechados em
si mesmos. A ciência passou a se ver diante do desafio de lidar com sistemas
abertos, nos quais “[...] a realidade está tanto no elo quanto na distinção
entre o sistema aberto e o seu meio ambiente” (Morin, 2011, p. 19).
Concomitantemente a estas questões, as mudanças que vêm ocor-
rendo na sociedade, como as novas concepções sociais, políticas e econô-
micas com as quais a humanidade tem convivido, afetam de forma direta
as concepções e o desenvolvimento das ciências. Uma dessas mudanças
diz respeito ao debate instaurado pela pós-modernidade que impacta nos
problemas da Ciência da Informação (CI) e, mais especificamente, na
Organização do Conhecimento (OC). No entendimento de Smit, Tálamo
e Kobashi (2004), a passagem da modernidade à pós-modernidade foi tão
rápida e intensa que diversos domínios não empreenderam a necessária
reflexão sobre o próprio trajeto de sua constituição.
Uma dessas mudanças diz respeito às discussões sobre as questões
relativas à complexidade que, a partir da década de 70, começaram a se
instalar de forma mais efetiva nos debates epistemológicos sobre as novas
configurações sociais e científicas. Esse debate, como não poderia deixar de
acontecer, acabou também afetando o campo das ciências informacionais
e vem, ao longo do tempo, causando diversas discussões como forma de
entender essa nova configuração mundial que acaba impactando no desen-
volvimento de estudos que tentam dar uma melhor compreensão a estes
fenômenos.
Esse movimento não tem passado despercebido na comunidade de
organização do conhecimento, tanto que em 2007, em um congresso da
ISKO foi lançado o que se denominou de Manifesto de Leon em que al-
gumas dessas preocupações são discutidas e apontadas algumas soluções.
Dentre os aspectos que foram discutidos no citado manifesto, e que trazem
uma relação direta com a OC, Gomes (2009, p. 68) destaca as seguintes:
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
126
A tendência corrente em direção a uma crescente interdisciplinaridade
do conhecimento requer, essencialmente, novos sistemas de OC,
baseados numa revisão substantiva dos princípios subjacentes nos
tradicionais sistemas de organização do conhecimento baseados em
disciplinas;
- A inovação não somente é desejável, mas factível, e deve ser
implantada pelo desenvolvimento real de algum novo sistema de
organização do conhecimento;
- Em vez das disciplinas, a unidade básica dos novos sistemas de
organização do conhecimento deve ser fenômeno do mundo real
como representado no conhecimento humano;
- Os novos sistemas de OC devem possibilitar aos usuários mudar
de uma perspectiva ou ponto de vista para outro, refletindo
a natureza multidimensional do pensamento complexo. Em
particular, devem possibilitar que possam buscar um fenômeno
particular de modo independente, bem como teorias particulares
sobre fenômenos (e sobre relações entre fenômenos), e métodos
particulares de investigação;
- As conexões entre fenômenos, entre os fenômenos e as teorias
que os estudam, e entre fenômenos e os métodos para investigá-
los devem poder ser expressos e gerenciados por técnicas analítico-
sintéticas já desenvolvidas na classificação facetada.
Mas como estas questões se inserem dentro de um contexto pós-
-moderno? Como já apontado em outro estudo (Pando; Almeida, 2016),
entender o que é a pós-modernidade não é uma tarefa tão simples uma vez
que diversos autores tentaram defini-la, mas ainda não há um consenso a
respeito. Harvey (1994) e Santos (2000, 2003), por exemplo, coincidem
ao considerar a pós-modernidade mais como uma instância de reflexões ou
período de autoanálise sobre a modernidade que uma nova etapa histórica.
Nesse contexto, a pós-modernidade seria muito mais inclusiva dos proble-
mas socioculturais, portanto, não é sem-razão que surge neste ambiente
discursivo a voz dos atores sociais ligados aos movimentos sexistas e étnicos
(movimentos por direitos civis, por igualdade de gênero etc.). Também é
oportuno destacar o aparecimento do movimento linguístico conhecido
Estudos críticos em organização do conhecimento
127
como politicamente correto que procura, por meio da linguagem regu-
lar, as relações humanas e evitar a reificação do preconceito endereçado às
minorias.
Contrariamente à modernidade em que a história e as relações hu-
manas seriam pouco importantes, pois os projetos, o planejamento e as
mudanças súbitas pareciam como inevitáveis, a pós-modernidade se apre-
senta como um ponto de inflexão e se converte em espaço de interlocução
e de problematização da situação que nos deixou a modernidade. Os pro-
blemas questionados pela pós-modernidade impactam nas formas de pro-
duzir conhecimento e propor soluções práticas a diversas áreas, incluindo,
sobretudo, a organização do conhecimento.
Assim, se considerarmos o postulado defendido por Alexiev e
Markburu (2008) levando em consideração que a maneira como um co-
nhecimento é organizado, depende da forma como ele é gerado e compre-
endido, podemos verificar que as mudanças na concepção do conhecimen-
to trazidas sobretudo pelo advento das teorias complexas, inevitavelmente
acabam também por influenciar no formato e nas ferramentas que são
utilizadas para sua efetiva organização.
Nesse sentido, o pensamento pós-moderno e complexo privilegiam
a ontologia do “vir a ser”, que contrapondo a um mundo pronto e deter-
minado enfatiza uma realidade múltipla, transitória, efêmera e emergente.
No contexto pós-moderno e complexo, a realidade passa a ser percebida
como continuamente em fluxo e transformação e, dessa forma, impossível
de ser representada sob qualquer senso estático. Corroborando tal afirma-
ção, Parker (1992) entende que a realidade é construída pelo discurso e
pelas concepções discursivas coletivamente sustentadas e continuamente
renegociadas ao longo do próprio processo de “dar sentido”. Assim, para
os pensadores pós-modernos, o papel da linguagem na construção da re-
alidade é central, e toda e qualquer tentativa de descobrir a verdade única
soa como um meta-discurso. Além disso, se a sociedade é entendida como
um contínuo e complexo processo de “vir a ser”, novas formas de discurso
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
128
e novas metodologias são necessárias para esses novos tempos, assim como
se faz necessário um novo olhar sobre os processos sociais e consequente-
mente os processos de organização do conhecimento.
De acordo com Rendon Rojas e Herrera Delgado (2010), um dos
aspectos pelos quais a pós-modernidade alcança o problema da organização
do conhecimento pode ser delineado a partir da introdução do relativismo,
subjetivismo e certa “desordem” na organização (uso da linguagem livre, de
lógicas difusas) como influência de uma pós-modernidade antimoderna.
Nesse sentido podemos inferir que a complexidade é algo que não pode ser
desconsiderado quando se pretende estudar as questões relativas à OC no
atual contexto.
Mas por qual via poderíamos pensar as questões relacionadas entre
as abordagens delineadas pela epistemologia complexa, a organização do
conhecimento e os pressupostos pós-modernos? Pode-se apontar que, den-
tre as várias possibilidades, uma que talvez pareça mais perceptível seja pela
via da classificação. Esse entendimento pode ser corroborado pelo pen-
samento de Campos, Gomes e Oliveira (2013, p. 1) ao defenderem que
“[...] organizar um dado domínio implica em classificar, separar por se-
melhanças e diferenças, estabelecer relações de identidade, de similaridade
e de associações e expressar tais relações através de classes de conceitos” e
por Gomes (2009, p. 60, (grifo nosso) ao enfatizar que:
[...] a Organização do conhecimento é uma área que procura
estabelecer suas bases teóricas, incluindo as diversas abordagens
epistemológicas com suas implicações na elaboração de sistemas
de organização do conhecimento, em que releva o papel da
classificação.
Neste aspecto, princípios para a construção de sistemas de classifi-
cação também se incluem no problema da OC. “Se tomarmos OC como
foco, a classificação está no conjunto das atividades com ela relacionadas
(Gomes, 2009, p. 62).
Estudos críticos em organização do conhecimento
129
A autora ainda enfatiza que, cursos de Biblioteconomia e Ciência
da Informação no exterior associam bibliografia, catalogação, classificação,
vocabulários controlados, bases de dados, indexação, metadados, processa-
mento de linguagem natural, ontologia, como tópicos incluídos em orga-
nização do conhecimento. Mas as classificações bibliográficas, pela possi-
bilidade de produzirem notação que representa o conhecimento registrado
nos documentos continuam despertando interesse dos pesquisadores. “De
fato, artigos que incluem histórico da OC referem-se, em grande parte, à
classificação bibliográfica como primeira iniciativa de organização do co-
nhecimento; [...] Afinal, sistemas de classificação bibliográfica, desde Bliss,
são considerados como sistemas de OC” (Gomes, 2009, p. 62-63). Da
mesma forma, Moreira (2018, p. 11) afirma que “[...] a teoria da classi-
ficação forma a base teórica das discussões sobre organização do conheci-
mento”. Assim, podemos inferir que a classificação exerceu (e ainda exerce)
uma centralidade nas discussões relativas à OC e ainda desperta o interesse
de muitos pesquisadores.
Desse modo, delineando a classificação como uma possibilidade
concreta de análise, podemos apontar, a partir dos postulados propos-
tos pela visão complexa juntamente com as novas configurações sociais,
epistemológicas e científicas trazidas pela pós-modernidade, os seguintes
pressupostos: a tradição clássica da teoria da classificação baseada em uma
visão moderna (e estática) do mundo inclui a ideia de que as classificações
podem ser um espelho neutro e objetivo de um universo do conhecimen-
to; contrariamente, a teoria pós-moderna (e complexa) de organização do
conhecimento rejeita tal hipótese e coloca o foco sobre a práxis social e
a linguagem da comunidade; enquanto a classificação moderna visa re-
presentar o universo do conhecimento a classificação pós-moderna visa
fornecer uma ferramenta pragmática para domínios específicos; na moder-
nidade a classificação tinha uma centralidade na OC devido a fisicalidade
dos documentos, com o advento das novas tecnologias e um novo espaço
de produção de informações digitais os estudos relacionados à classifica-
ção parecem sofrer um deslocamento. A crítica pós-moderna sugere, em
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
130
definitivo, que as formas de organizar o conhecimento podem não estar
refletindo o contexto sociocultural, nem mesmo sendo tão pragmáticas
como pensávamos com as estruturas de saber da modernidade (Pando;
Almeida, 2016).
Nesse mesmo sentido, López-Huertas (2013, p. 403) alerta que:
Considerando que a abordagem tradicional na organização do
conhecimento é baseada na noção de hierarquia lógica (estilo
árvore), mais ênfase deve ser dada aos links transversais e estruturas
conceituais em rede, como é evidente a partir do conhecimento
multidimensional e do pensamento pós-epistemológico.
Atualmente, o mundo vive um momento de transformações acele-
radas em todos os campos e a imobilidade e imutabilidade das coisas se
torna uma utopia. O momento é realmente de mudanças que acontecem
de forma cada vez mais rápidas. Nesse contexto, e levando em conta as
discussões acima relativas à complexidade, podemos conjecturar que as te-
orias organizacionais, dentre as quais inserimos também as classificatórias
que foram criadas para um mundo estável e previsível vêm sendo questio-
nadas e postas em xeque, por não mais responderem à complexa dinâmica
da contemporaneidade.
Como apontam Araújo, Tennis e Guimarães (2021, p. 12): “[...] en-
tende-se que a pesquisa e a prática da OC tendem ao modelo socialmente
pluralista, o que pode estar relacionado ao pensamento pós-moderno sobre
a relação entre as pessoas, o conhecimento como construção social e a in-
fluência de várias perspectivas”.
Pensando especificamente no que nos propomos a discutir no pre-
sente capítulo, podemos inferir que a Organização do conhecimento vem
sendo impactada de forma direta e permanentemente com tais mudanças.
A lógica classificatória, que é central no campo, e norteou todo o desenvol-
vimento do mesmo, cada vez mais é confrontada com as novas perspectivas
e transformações que ocorrem na sociedade. Nesse sentido, a centralida-
de da classificação universal é questionada e novas formas de organizar o
Estudos críticos em organização do conhecimento
131
complexo mapa do saber humano vão surgindo (ontologias, taxonomias,
folksonomias, tesauros semânticos, mapas conceituais, etc.) de forma a dar
respostas satisfatórias e personalizadas em um mundo onde as diferenças
são respeitadas e não mais engessadas em concepções anacrônicas que não
mais dão conta das complexidades inerentes aos novos tempos.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Como podemos observar, o pensamento pós-moderno viabiliza um
meio, uma possibilidade real e necessária para olharmos a Organização do
conhecimento a partir de uma perspectiva complexa, como uma forma de
interligar os saberes, buscando uma compreensão de realidade que contem-
pla a complexidade do mundo que vivemos e da multidisciplinaridade na
avaliação e entendimento dos fenômenos. Como aponta Beghtol (1998, p.
2, tradução nossa): “[...] a multidisciplinaridade em todas as áreas do co-
nhecimento tornou-se a norma e não a exceção”. Por isso, em sua opinião,
a multidisciplinaridade é um aspecto importante a ser considerado na cria-
ção de novas tabelas gerais de classificação, as quais precisam ter maior hos-
pitalidade e flexibilidade e os estudos devem considerar necessariamente
os requisitos dos documentos multidisciplinares e o ambiente eletrônico.
Da mesma forma De Santis (2016, p. 28) destaca que atualmente
pesquisas em Organização do Conhecimento “[...] vem afirmando a ne-
cessidade de se considerar a complexidade (e não mais evitá-la) e apon-
tam os avanços da lógica matemática e da computação como ferramen-
tas que possibilitariam a concepção de novos sistemas de organização do
conhecimento”.
Considerando que a busca pelo conhecimento tem como objetivo
contribuir para o melhoramento da qualidade de vida das pessoas, para
sua emancipação enquanto ser psicossocial, percebe-se a importância so-
cial que uma efetiva organização do conhecimento desempenha na vida de
uma comunidade e mesmo de uma sociedade.
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132
Nesse contexto, a epistemologia da complexidade supera a ideia de-
terminista e estática do mundo e das suas configurações sociais, políticas e
científicas, não recusando de modo algum a clareza, a ordem e o determi-
nismo mas entendendo que precisamos estar preparados para o inespera-
do não resolvendo por si só os problemas, mas fornecendo subsídios para
uma estratégia que poderá nos ajudar a resolvê-los diante de uma realidade
incerta. O mundo contemporâneo está cada vez mais complexo. Assim,
as dúvidas, a falta de certeza e a divergência são aspectos consubstanciais
com os quais o profissional da informação terá que conviver (Imbernón,
2006). Vivenciamos hoje o esgotamento dos modelos baseados na busca
da redução e simplificação da realidade assentes na crença na estabilidade
do mundo (Lara, 2015).
Nesse sentido, Gnoli (2004) destaca que a pesquisa científica mo-
derna lida com o conhecimento cada vez mais em termos de um quadro
unitário, sem fronteira fixa entre as disciplinas, nem qualquer domínio
separado e independente dos outros. Isso contrasta totalmente com as divi-
sões tradicionais de disciplinas, nas quais se baseia a maioria dos esquemas
de organização do conhecimento.
Tomando como pressuposto básico que os parâmetros de organiza-
ção do conhecimento espelham lógicas dominantes da ciência, observar
com consciência para as ciências, para uma nova epistemologia do pensa-
mento que leve em conta a complexidade dos fenômenos e acontecimentos
atuais é o primeiro passo para superar uma visão fragmentada e unidimen-
sional do pensamento a fim de que possamos estabelecer uma visão global
de mundo para sermos capazes de enfrentar os problemas complexos da
contemporaneidade como preconizado por Edgar Morin.
Estudos críticos em organização do conhecimento
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138
139
5
EPISTEMOLOgIA: UM CONCEITO
EM ANáLISE NO DOMÍNIO
DA ORgANIZAÇÃO DO
CONHECIMENTO
ePistemoloGY: a ConCePt under
domain analYsis in tHe field of
KnoWledGe orGaniZation
Paula Carina de ARAÚJO
Universidade Federal do Paraná - UFPR
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-485-1.p139-164
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
140
Resumo: A epistemologia é compreendida sob duas perspectivas para fins desta pesquisa.
A primeira como estudo do conhecimento e crenças justificadas, e a segunda, sob uma
perspectiva ampla, a epistemologia estuda questões relacionadas à criação e à disseminação
do conhecimento em diferentes domínios. Discute-se o conceito de epistemologia
apresentado de forma explícita nos anais dos Congressos da International Society for
Knowledge Organization do Capítulo Espanha-Portugal de 2013 a 2021 e desenvolve
uma pesquisa descritiva e qualitativa, além de utilizar a categorização para apresentar,
para discutir e para analisar os dados. O significado restrito e o significado amplo do
conceito de epistemologia são as categorias de análise dos conceitos de epistemologia.
Um total de 13 artigos apresentam o conceito de epistemologia de forma explícita.
O estudo possibilita reconhecer as diferentes formas e finalidades da apresentação do
conceito de epistemologia nos artigos analisados e reconhece a importância do estudo da
epistemologia no domínio da Organização do Conhecimento.
Palavras-chave: epistemologia; organização do conhecimento; estudos críticos;
International Society for Knowledge Organization.
Abstract: Epistemology is understood from two perspectives in this study. e first as a study
of knowledge and justified beliefs and the second, from a broad perspective, epistemology
studies issues related to the creation and dissemination of knowledge in different domains.
It discusses the concept of epistemology explicitly presented in the proceedings of the
Congresses of the International Society for Knowledge Organization of the Spain-Portugal
Chapter from 2013 to 2021 and develops descriptive and qualitative research and uses
categorization to present, discuss and analyze the data. e narrow meaning and the broad
meaning of the concept of epistemology are the categories of analysis of the concepts of
epistemology. A total of 13 articles present the concept of epistemology explicitly. e study
makes it possible to recognize the different forms and purposes of the presentation of the
concept of epistemology in the articles analyzed and recognizes the importance of studying
epistemology in the field of knowledge organization.
Keywords: epistemology; knowledge organization; critical studies; International Society
for Knowledge Organization.
Estudos críticos em organização do conhecimento
141
1 INTRODUÇÃO
Compreende-se que “[...] qualquer teoria da Organização do
Conhecimento deve envolver considerações relacionadas às bases epis-
temológicas da teoria e relacionadas à utilização prática da teoria” (Mai,
1999, p. 547, tradução nossa). Além disso, “[...] as diferentes interpreta-
ções da epistemologia, posições epistêmicas e de seus gêneros tornam a de-
finição e o uso da epistemologia uma questão difícil para os pesquisadores
de organização do conhecimento” (Tennis, 2008, p. 103).
Araújo (2012) reconhece que há pelo menos duas diferentes abor-
dagens relacionadas ao conceito de epistemologia. Ambos são oriundos
da palavra grega episteme. Considerando a abordagem tradicional, episte-
mologia é o estudo do conhecimento ou gnosiologia. Por outro lado, há
uma abordagem específica, que apresenta a epistemologia como o estudo
crítico dos princípios, hipóteses e produção do conhecimento de várias ci-
ências, olhando mais de perto para a estrutura cognitiva do conhecimento
científico, valores e objetivos. Mais do que isso, epistemologia preocupa-se
com as características do conhecimento científico, delimitações e processos
metodológicos em cada domínio (Araújo, 2012).
Este texto pretende aprofundar os estudos sobre a concepção da epis-
temologia na Organização do Conhecimento (Araújo; Tennis; Guimarães,
2017; Araújo, 2019; Araújo; Guimarães; Tennis, 2021). Busca ainda am-
pliar a compreensão da importância da epistemologia para o domínio
da Organização do Conhecimento e, portanto, discutir o conceito de
epistemologia apresentado de forma explícita nos artigos dos Anais dos
Congressos da ISKO Espanha-Portugal de 2013 a 2021.
Para fins desta pesquisa, compreende-se a epistemologia sob duas
perspectivas: definida de forma restrita como o “[...] estudo do conheci-
mento e das crenças justificadas e [...], entendida de forma ampla, episte-
mologia é sobre questões relacionadas à criação e disseminação do conhe-
cimento em áreas particulares de investigação” (Steup, 2018).
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
142
Hjørland (2020, p. 462, tradução nossa) afirma que a “[...] episte-
mologia é uma parte da filosofia, mas desenvolve-se em paralelo com a ci-
ência e outros fenômenos culturais”. Além disso, “[...] nenhum argumento
científico pode ser completo se não incluir argumentos epistemológicos,
e este pode ser dito sobre argumentos políticos, ex. argumento feminista
sobre igualdade”.
A próxima seção traz aspectos sobre conceitos da pesquisa em epis-
temologia da Organização do Conhecimento para fundamentar este capí-
tulo. É seguida pela descrição do caminho metodológico percorrido para
apresentar então os resultados da análise proposta que é complementada
pelas considerações finais e, por fim, apresentam-se as referências utilizadas.
2 EPISTEMOLOgIA DA ORgANIZAÇÃO DO CONHECIMENTO
O estudo da epistemologia da organização do conhecimento é no-
tadamente importante para o reconhecimento e desenvolvimento desse
domínio. É possível encontrar argumentos a esse respeito nos estudos da
abordagem sociocognitiva na organização do conhecimento, desenvolvi-
dos por Hjørland, por exemplo. O autor compreende que o “[...] conheci-
mento epistemológico forma um fundamento interdisciplinar para teorias
gerais sobre organização do conhecimento, recuperação da informação, e
outras questões básicas de ciência da informação” (Hjørland, 2002a, p.
268, tradução nossa).
Hjørland também explica que os pesquisadores devem conhecer as
epistemologias, interpretar os padrões de influências históricas e reconhe-
cer as diferentes posições tomadas ao longo da história da ciência. A epis-
temologia é “[...] a interpretação e generalização das experiências coletivas
dos cientistas” (Hjørland, 2002a, p. 263, tradução nossa).
Para reconhecer o conceito e a importância da epistemologia para a
Organização do Conhecimento também é fundamental contextualizar o
Conceito de Organização do Conhecimento. Dahlberg (1993) explica que
Estudos críticos em organização do conhecimento
143
a necessidade de organizar o conhecimento em tempos antigos foi sempre
relacionada aos bibliotecários e aos filósofos, entretanto outros profissio-
nais têm se engajado nessa atividade ao longo dos anos.
Foi no campo da biblioteconomia que o termo e o campo de
Organização do Conhecimento tiveram sua origem. Pessoas como Charles
A. Cutter, W. C. Berwick Sayers e Ernest Cushington Richardson esta-
beleceram o campo “Organização do Conhecimento” como um impor-
tante campo acadêmico por volta de 1920 (Hjørland, 2008, 2016). O
livro de Bliss (1929) “e organization of knowledge and the system of the
sciences representa uma das principais contribuições intelectuais do campo
(Hjørland, 2008).
Nessa obra, Bliss (1929, p. xi, tradução nossa) afirma que a organi-
zação do conhecimento, em sentido amplo, compreende “[...] os processos
mentais, o desenvolvimento de conceitos e a síntese conceitual do conhe-
cimento”. Inclui também a “[...] correlação intelectual e sistematização de
conhecimentos válidos, desde a síntese social mais simples da experiência
comum e da educação elementar até os sistemas conceituais mais comple-
xos da ciência e da filosofia”.
De um ponto de vista prático da Organização do Conhecimento,
Esteban Navarro e García Marco (1993, p. 149, tradução nossa) afirmam
que Organização do Conhecimento é uma “[...] disciplina devotada ao
estudo e desenvolvimento dos fundamentos e técnicas de planejamento,
construção, gerenciamento, uso e avaliação dos sistemas de descrição, de
catalogação, de organização, de classificação, de armazenamento, de comu-
nicação e de recuperação de documentos [...]”.
Jaenecke (1994) afirma que o principal objetivo da Organização
do Conhecimento é o ordenamento e o fornecimento de conhecimento.
Ele faz essa afirmação enquanto questiona os propósitos da Organização
do Conhecimento. A disponibilização de conhecimento, apontada por
Jaenecke (1994), diz respeito à recuperação da informação, uma vez que
a informação é organizada para ser encontrada por quem dela necessita.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
144
Estudos contemporâneos do conceito de Organização do
Conhecimento, como os de Sales (2015a, 2015b, 2016) reconhecem que
há pelo menos duas perspectivas relacionadas à natureza da Organização
do Conhecimento: Organização do Conhecimento como uma atividade
de natureza operacional e como um campo de estudo que busca seu desen-
volvimento teórico, metodológico e prático. Hjørland (2016) complemen-
ta que a Organização do Conhecimento é um campo de pesquisa, ensino e
prática que é relacionado com a ciência da informação.
Sales (2015a, 2015b, 2016) apresenta uma compreensão mais pro-
funda do conceito relacionado ao domínio de Ciência da Informação
e discute três diferentes perspectivas do conceito de Organização do
Conhecimento: - primeira perspectiva: OC como uma disciplina cientí-
fica independente e um subcampo da ciência da ciência, da mesma forma
que é afirmada por Dahlberg (1993, 1995, 2006); - segunda perspectiva:
OC usa, às vezes, assuntos da CI aplicados à OC, o que se relaciona ao
pensamento de Hjørland; - terceira perspectiva: OC como um campo de
pesquisa que lida com o desenvolvimento da teoria, métodos e práticas que
conectam o contexto de produção e uso da informação. Esta perspectiva
considera OC como parte da CI (Sales, 2015a, 2015b, 2016). Na discus-
são aqui apresentada, adota-se a terceira perspectiva, ou seja, da OC como
parte da CI.
Pando e Almeida (2019, p. 105) afirmam que “[...] o campo de
Organização da Informação vem, gradativamente, desenvolvendo-se em
termos científicos e epistemológicos buscando uma inserção oficial no rol
dos assim denominados campos científicos [...]”. Os autores chegaram à
conclusão de que “[...] o campo de Organização da Informação, apesar de
seu inegável avanço e de sua importância no atual contexto informacional,
ainda não atingiu a sua plena consolidação científica”, especificamente no
contexto brasileiro (Pando; Almeida, 2019, p. 118). Essa constatação evi-
dencia a importância dos estudos epistemológicos, teóricos e metodológi-
cos no domínio da Organização do Conhecimento para que seja também
discutida a cientificidade do campo.
Estudos críticos em organização do conhecimento
145
Portanto, é fundamental contextualizar o conceito de epistemolo-
gia relacionado à Organização do Conhecimento. Parte-se, inicialmente,
do conceito geral de epistemologia. Compreende-se que a epistemologia
e a teoria do conhecimento são conceitos distintos, como afirma Lalande
(1993), uma vez que os conceitos de ciência e de conhecimento tiveram o
mesmo significado, historicamente; assim episteme e gnose foram conside-
radas o mesmo conceito por um período.
A partir das ciências modernas, o conceito de ciência se transfor-
mou, ficou mais específico e foi considerado um tipo de conhecimento
sistemático e metódico. Consequentemente, a teoria do conhecimento ou
gnoseologia passou a ser descrita como o estudo sobre o conhecimento,
sobre suas possibilidades e sobre o enfoque no sujeito ou no objeto. Por
outro lado, a epistemologia enfoca o conhecimento científico (Bachelard,
2006; Hessen, 2012).
Ao revisar o conceito de epistemologia, Pando e Almeida (2021,
p. 688) afirmam que “[...] a epistemologia pode ser compreendida como
uma disciplina cujo objetivo é a qualidade do conhecimento científico”.
E alertam ainda que “[...] a epistemologia não pode ser um termo usado
de forma absolutamente trivial e vulgar no contexto científico”. Afirmam
que “[...] seu emprego deve ser feito de forma consciente e preciso sob
pena de não se conseguir extrair de sua utilização todo seu potencial
acadêmico-científico”.
Para estudar o conceito de epistemologia na Organização do
Conhecimento, parte-se do conceito de Steup (2018), que afirma que a
epistemologia, como estudo do conhecimento e das crenças justificadas,
preocupa-se com questões como: quais as condições necessárias e suficien-
tes do conhecimento? Quais são seus recursos? Qual é sua estrutura? E
quais são seus limites? Como nós compreendemos o conceito de justifi-
cação? O que torna as crenças justificadas, justificadas? A justificação é
interna ou externa para a mente de cada um? O autor ainda afirma que
de forma ampla, a epistemologia é sobre questões relacionadas à criação e
disseminação do conhecimento em áreas particulares de investigação.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
146
As crenças e pensamentos individuais influenciam as opiniões e até
mesmo as decisões de cada pessoa. No que diz respeito à representação
do conhecimento, criação de Sistemas de Organização do Conhecimento
(SOC) e organização da informação e do conhecimento não é diferente.
Cada posição epistêmica determina qual conhecimento é criado. Nessa
perspectiva, Tennis (2008, p. 103, tradução nossa) afirma que “[...] episte-
mologia é como nós sabemos”.
Hjørland afirma que a epistemologia é “[...] o mais importante cam-
po relacionado à ciência da informação”; “[...] o melhor conhecimento ge-
ral que é possível ensinar as pessoas na ciência da informação” (Hjørland,
2013, p. 179, tradução nossa) e ainda enfatiza que “[...] qualquer questão
teórica em ciência da informação é no final baseada em suposições episte-
mológicas” (Hjørland, 2002b, p. 439, tradução nossa).
As posições epistêmicas influenciam a Organização do Conhecimento
e qual tipo de conhecimento é criado. “Uma organização do conhecimento
não pode ser epistemologicamente neutra” (Mai, 1999, p. 547, tradução
nossa). Dessa forma, concorda-se com Mai, ao afirmar que “[...] o trabalho
prático e discussão no campo da organização e representação do conheci-
mento devem ser fundamentados em uma tradição epistemológica” (1999,
p. 547, tradução nossa).
Acrescenta-se ainda que “[...] qualquer teoria da organização do
conhecimento deve envolver considerações relacionadas às bases epis-
temológicas da teoria e relacionadas à utilização prática da teoria”, re-
forçando a importância do estudo epistemológico na Organização do
Conhecimento para um entendimento melhor do domínio (Mai, 1999,
p. 547, tradução nossa).
Em estudos direcionados ao campo da Ciência da Informação, aqui
discutida especialmente a Organização do Conhecimento, com o aporte
da epistemologia, a relação entre o sujeito cognoscente e seu objeto de
estudo passa a se dar de uma forma mais qualificada e menos ingênua
(Pando; Almeida, 2021).
Estudos críticos em organização do conhecimento
147
Fato é que a epistemologia orienta o processo de organização do co-
nhecimento, é essencial para o desenho e implementação de SOC, e tam-
bém possibilita reconhecer as posturas epistêmicas que influenciam domí-
nio. Dessa forma, compreende-se que a epistemologia é o estudo crítico
dos princípios, hipóteses e produção do conhecimento das várias ciências.
Além disso, as características do conhecimento científico, as delimitações e
o processo metodológico em cada domínio são de interesse epistemológico
(Araújo, 2019).
3 DESCRIÇÃO DO PROCESSO DE ANáLISE DOS ARTIgOS
Amparado em uma pesquisa qualitativa e descritiva que utiliza a ca-
tegorização para apresentar e analisar os dados, os resultados aqui apresen-
tados foram desenvolvidos, tendo em vista que já foi aplicado e validado
em pesquisas anteriores (Araújo, 2019; Araújo; Tennis; Guimarães, 2017).
Os Anais dos Congressos da ISKO Espanha-Portugal de 2013,
2015, 2017, 2019 e 2021 foram localizados na página do capítulo da
ISKO Espanha-Portugal. Os arquivos em formato pdf foram baixados, sal-
vos e exportados para o software Atlas.ti, que foi utilizado para a análise
dos dados.
Por meio do software Atlas.ti, buscou-se pelo termo “epistem” em
cada um dos arquivos dos anais do congresso. A Tabela 1 descreve a fre-
quência dos termos em cada anais. Buscou-se dessa forma para identificar
termos como: epistemologia, epistemology, epistemológico, epistemológi-
ca, epistemological, episteme, epistemic. Aqui pode-se apontar a presença
de características de uma pesquisa terminológica (Mardegan; Cervantes,
2015), uma vez que se partiu de termos pré-definidos que pudessem di-
recionar para o conceito de epistemologia nos artigos que compõem o
corpus da pesquisa.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
148
Quadro1 - Frequência do termo “epistem” nos Anais
Congresso Frequência
ISKO Espanha-Portugal 2011 245
ISKO Espanha-Portugal 2013 245
ISKO Espanha-Portugal 2015 148
ISKO Espanha-Portugal 2017 209
ISKO Espanha-Portugal 2019 47
ISKO Espanha-Portugal 2021 247
Fonte: Araújo, 2021
Após localizar os termos, foram analisadas as ocorrências, uma a
uma, para identificar se estavam contidas em um contexto de apresentação
e/ou descrição do conceito de epistemologia de forma explícita. A análise
dos conceitos considerou o contexto em que o termo estava inserido por
meio das frases, parágrafos e títulos das seções. A partir da análise desses
textos, selecionados aqueles que apresentavam o conceito de epistemologia
de forma explícita, considerando a definição de Steup (2018). A partir
dessa análise, foram identificadas 22 ocorrências do conceito de epistemo-
logia nos artigos dos anais da ISKO Espanha-Portugal das edições de 2013,
2015 e 2021.
Esses conceitos são apresentados na próxima seção, partindo da
definição de epistemologia de Steup (2018), apresentado na introdução
deste trabalho e as categorias pré-definidas são: significado restrito e sig-
nificado amplo.
4 O CONCEITO DE EPISTEMOLOgIA NA ORgANIZAÇÃO DO
CONHECIMENTO
O significado restrito da epistemologia, segundo Steup (2018), é
relacionado ao “estudo do conhecimento e das crenças justificadas”. Já
o significado amplo da epistemologia apresenta-a como área relaciona-
Estudos críticos em organização do conhecimento
149
da às questões de criação e disseminação do conhecimento em aborda-
gens particulares de pesquisa. Nesta seção, apresentam-se os conceitos de
epistemologia utilizados pelos autores nos anais dos congressos da ISKO
Espanha-Portugal de 2013, 2015 e 2021. Cabe destacar que a edição de
2015 do congresso teve como uma das linhas temáticas a epistemologia da
Organização do Conhecimento.
A Tabela 2 demonstra quais os artigos dos anais em que são apresen-
tados os conceitos de epistemologia.
Quadro 2 - Artigos que apresentam o conceito de epistemologia
Congresso Artigos
ISKO Espanha-Portugal 2013 Alvares Júnior e Saldanha (2013); Campos (2013);
Moura (2013); Oliveira e Dodebei (2013); Semidão,
Almeida e Moreira (2013); Aldeias e Soares (2013)
ISKO Espanha-Portugal 2015 Ohly (2015); Varela, Farias e Barbosa (2015); Farias e
Almeida (2015)
ISKO Espanha-Portugal 2021 Almeida, San Segundo Manuel e Martínez-Ávila
(2021); Almeida (2021); Martines, Pascoal e Almeida
(2021); Veronez Júnior, Almeida, Martínez-Ávila e
Troitiño Rodriguez (2021)
Fonte: Araújo, 2021
A partir das análises realizadas, reconhece-se que há pesquisas que
apresentam conceitos próprios de epistemologia no contexto de seus es-
tudos e algumas vezes recorrem a outros autores para fundamentar toda a
pesquisa. Além disso, as questões epistemológicas permeiam todo o traba-
lho, de forma explícita, para pesquisas como a de Alvares Júnior e Saldanha
(2013), Campos (2013) e Moura (2013), Almeida, San Segundo Manuel e
Martínez-Ávila (2021), Almeida (2021).
O artigo de Alvares Júnior e Saldanha (2013, p. 83), por exemplo,
aponta como objetivo da pesquisa “[...] reconstituir a epistemologia
histórica dos estudos de representação temática no âmbito da epistemologia
da organização do conhecimento, tendo como foco central de análise
os acontecimentos do século XIX, seus antecedentes e suas perspectivas
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
150
abertas”. Os autores demonstram, de forma completa e profunda, a apro-
ximação entre abordagens sociais e políticas, bem como técnicas e a emer-
gência da indexação no século XIX. Registram ainda a necessidade de pes-
quisas que permitam uma análise complexa que envolva história e filosofia,
epistemologia e sociologia, do saber produzido no âmbito da Organização
do Conhecimento.
Nesse estudo, foram levantadas questões como “[...] qual é o ‘conhe-
cimento’ que se ‘organiza’, que noção de ‘conhecimento’ aqui se impõe e
que noção de ‘ordem’ aqui se aplica? Estas questões são fundamentais para
o reconhecimento histórico-epistemológico do atual campo em constru-
ção” (Alvares Júnior; Saldanha, 2013, p. 82). Essas perguntas e a afirmação
aqui posta demonstram a aderência do estudo com as questões epistemo-
lógicas do campo.
Ao abordar a emergência da indexação como teoria da epistemolo-
gia biblioteconômica, Alvares Júnior e Saldanha (2013, p. 89) falam de
um posicionamento epistemológico como uma das questões demarcadas
na Modernidade que atestam o surgimento dessa teorização sobre a
representação temática naquele período. Nesse contexto defendem um
“[...] posicionamento epistemológico, ou uma teoria do conhecimento
que se pauta na realidade física e coloca o ‘mundo, a natureza, como
objeto de análises privilegiado.’”. Dessa forma, aproximam o conceito
de epistemologia do conceito de teoria do conhecimento e revelam ade-
rência ao significado restrito do conceito de epistemologia proposto por
Steup (2018).
O trabalho de Campos (2013, p. 142) tem como objetivo discutir
“[...] necessidade de estudos mais aprofundados de teorias e métodos relati-
vos à elaboração de estruturas classificatórias para a representação e recupe-
ração de conhecimento/informação, para o contexto da Web Semântica”.
De forma mais específica, a pesquisa pretende “[...] contribuir para a for-
mação de profissionais que possam desenvolver estratégias e abordagens
para a construção de modelos, independente de problemas específicos de
Estudos críticos em organização do conhecimento
151
domínios através de ferramentas representacionais como as Ontologias de
Fundamentação”. A autora inicia a discussão do conceito de epistemologia
ao afirmar que sua investigação é de base epistemológica e ontológica em
modelos de representação para a organização de conhecimento e, portanto,
requer uma definição sobre o que se entende por tais conceitos em uma
aplicação para estudos de domínios.
É interessante notar que Campos (2013, p. 145) argumenta que a
epistemologia apresenta questões que visam responder sobre a natureza
do conhecimento de um domínio e focaliza a discussão da relação entre
conhecedor e o que pode ser conhecido. Acrescenta também que a “[...]
perspectiva epistemológica diz respeito à natureza do conhecimento, ou
seja, a maneira como a realidade é percebida, medida e compreendida
e, além disso, “[...] é apoiada por crenças sobre a natureza da realidade e
da verdade, que podem ser adotadas a partir de um acordo em um dado
domínio” (Campos, 2013, p. 146). Esses argumentos colocam o conceito
apresentado pela autora em uma perspectiva de compreensão da epistemo-
logia em seu significado amplo, conforme Steup (2018).
Também analisamos o artigo de Moura (2013, p. 437) que bus-
cou “[...] identificar as possibilidades e os desafios da incorporação das
considerações epistemológicas sobre o ato de conhecer na consolidação de
processos e dispositivos de organização e mediação da informação na emer-
gência dos fenômenos”. De forma explícita, a autora faz menção ao pensa-
mento de Gnoli (2011), de que as dimensões ontológica, epistemológica
e pragmática são fatores que influenciam as estruturas da Organização do
Conhecimento. Então explica que a “[...] dimensão epistemológica envol-
ve os propósitos, os aspectos culturais, disciplinares e metodológicos que
são considerados e discutidos na organização do conhecimento” (Moura,
2013, p. 440). Dessa forma, nessa definição também fica evidente a abor-
dagem do significado amplo do conceito de epistemologia, conforme pro-
posto por Steup (2018).
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
152
O estudo de Almeida, San Segundo Manuel e Martínez-Ávila (2021)
revisa os anais dos congressos da ISKO Espanha e capítulos ibéricos de
1993 a 2019 para analisar os avanços da pesquisa sobre epistemologia fe-
minista da organização do conhecimento. Partem da compreensão que,
apesar dos estudos críticos terem se tornado um tema de interesse geral, a
epistemologia feminista não tem atraído a mesma atenção.
Os autores afirmam que “[...] uma das principais contribuições da
teoria feminista é a epistemologia do conhecimento, a qual questiona os
fundamentos de muitos problemas atuais da sociedade” (Almeida; San
Segundo Manuel; Martinez-Ávila, 2021, p. 554). Destaca-se que a defi-
nição do conceito de epistemologia feminista ao longo do texto, ampara-
do em outros teóricos, retorna ao conceito primeiro de epistemologia de
forma geral. Os autores citam Serret Bravo (2020, p. 85) que afirma que
a epistemologia feminista aponta “[...] as falhas e incongruências da epis-
temologia tradicional”. Os autores acrescentam ainda que a epistemologia
feminista pode ser compreendida em termos de níveis de crítica à ciência
que tratam de questionar a baixa presença de mulheres cientistas e também
a busca por pensar em outras formas menos machistas e masculinizadas
de fazer ciência. A forma como os conceitos são mobilizados nesse estudo
demonstram a relação com o conceito amplo de epistemologia e seus
contrapontos no que diz respeito à epistemologia feminista.
Almeida (2021) afirma que pragmatismo e pragmática encontram
pontos em comum e algumas divergências. O autor considera ainda que a
inclusão dessas correntes na Organização do Conhecimento pode tratar-se
de um paradigma. Portanto, Almeida examinou as linhas pragmatistas e
pragmáticas presentes em estudos da Organização do Conhecimento para
entender esse possível paradigma. E aqui, mais uma vez, percebe-se a pre-
sença do conceito amplo de epistemologia.
Ao argumentar sobre uma possível mudança de paradigma, Almeida
(2021) mobiliza estudiosos de temas relacionados à epistemologia da orga-
nização do conhecimento. Ainda se aproxima da conceituação de epistemo-
Estudos críticos em organização do conhecimento
153
logia ao recorrer a San Segundo e Martínez-Ávila (2012), que consideram
que a epistemologia tradicional sofreu muitas objeções e seria importante
quebrar tal legitimidade. Consideram que “[...] a epistemologia faz um
discurso que analisa a ciência, mas na realidade observa o mundo e termi-
na elaborando a sua construção, pois sempre estamos imersos na episteme
vigente” (San Segundo; Martínez-Ávila, 2012, p. 415).
Nesse contexto, Almeida (2021, p. 674) considera que “[...] a orga-
nização do conhecimento pode ser pensada como um reflexo ou subpro-
duto das epistemes que se encarregam de guiar a interpretação do mundo”.
Além disso, “[...] o que estaria na base desta crítica à organização do conhe-
cimento seria a contestação das epistemologias modernas”, o que levaria
ao olhar mais atento às teorias críticas como a epistemologia feministas e
também às epistemologias do sul, “[...] mais voltadas ao reconhecimento
da diversidade de saberes e de soberania intelectual questiona a epistemo-
logia moderna, a qual se converteu em um projeto normativo que procura
distinguir a ciência da não ciência, o científico do não científico” (Almeida,
2021, p. 675).
Por outro lado, na análise do corpus deste estudo também se depa-
rou com pesquisas que de forma explícita citam ou relacionam o concei-
to de epistemologia postulado por outros teóricos como complemento à
discussão que está posta, entretanto a dimensão epistemológica permeia o
trabalho de forma implícita. Entre essas pesquisas estão Oliveira e Dodebei
(2013), Semidão, Almeida e Moreira (2013, p. 597), Martines, Pascoal e
Almeida (2021). Nos escritos desses autores não se percebe um aprofun-
damento do conceito como fundamento da pesquisa em questão. É sobre
esses artigos que argumentamos nos próximos parágrafos.
A análise conceitual do periódico ‘A Lavoura’ (2002-2012) e do
Esquema de Classificação AGRIS⁄CARIS foram considerados para verifi-
car o benefício de se utilizar o princípio da garantia literária e do consen-
so entre especialistas na delimitação de um domínio do conhecimento,
por Oliveira e Dodebei (2013). Ao discutir a dimensão social do conhe-
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
154
cimento, os autores reconhecem a importância da abordagem ontológica,
epistemológica e sociológica para a definição de um domínio (Hjørland;
Hartel, 2003). Nessa perspectiva, defendem que “[...] os conceitos epis-
temológicos dizem respeito à maneira como se percebe a existência das
coisas, o que significa que um dado domínio pode ter diferentes definições
para diferentes visões teóricas ou diferentes interesses associados” (Oliveira;
Dodebei, 2013, p. 498). Nesse estudo, também se percebe a relação com o
significado amplo do conceito de epistemologia.
Da mesma forma, Semidão, Almeida e Moreira (2013, p. 597) dis-
correm sobre a concepção de epistemologia recorrendo a Hjørland (2009)
ao analisarem as perspectivas da análise dos conceitos trazidas no bojo das
teorias de Hjørland (2009), Dahlberg (1978) e Lakoff (1990) para am-
parar uma reflexão sobre a análise do conceito no âmbito da Organização
do Conhecimento. Definem a epistemologia como a melhor forma de se
compreender e classificar as teorias do conceito, assim como Hjørland
(2009) e demonstram uma compreensão e aderência ao significado amplo
de epistemologia ao discutirem também as posições epistêmicas.
Soma-se a esse grupo, o texto de Aldeias e Soares (2013), ao descre-
ver o desenvolvimento de um modelo conceitual e processo de mapeamen-
to de competências numa instituição acadêmica na área das engenharias.
Os autores recorrem a Zins (2006) para explicar que os saberes decorrentes
da experiência e da prática são reconhecidos como conhecimento prático
pela epistemologia tradicional. Portanto, trata-se de uma abordagem da
epistemologia sob o seu significado amplo, assim como já foi constado por
Araújo (2019), ao analisar as definições de epistemologias propostas por
Zins.
O texto de Ohly (2015) também faz parte desse grupo ao citar a
definição de Hjørland (2013) de epistemologia como o melhor pano de
fundo ao explicar o que é a organização do conhecimento. Portanto, assim
como em Araújo (2019) reconhece-se esta definição relacionado ao signi-
ficado restrito do conceito, segundo Steup (2018).
Estudos críticos em organização do conhecimento
155
O estudo de Martines, Pascoal e Almeida (2021) desenvolve pes-
quisa de natureza epistemológica e esta abordagem permeia todo o texto
que objetivou aplicar as teorias desenvolvidas por C. S. Peirce acerca das
categorias fenomenológicas e do pragmatismo para compreender a cons-
tituição do conceito a partir da perspectiva da experiência e da construção
de valores mediante a inquirição.
Os autores recorrem a Hjørland (2009) para definir e contextuali-
zar uma das teorias epistemológicas apresentadas pelo autor no contexto
da teoria do conceito, o pragmatismo. Este é considerado “[...] o ideal de
basear o conhecimento na análise de objetivos, propósitos, valores e conse-
quências” (Hjørland, 2009, p. 1526, tradução nossa).
Também apresenta-se no corpus desta pesquisa a definição de “ti-
pos de epistemologias” específicas, a epistemologia genética (Piaget, 1974)
em Varela, Farias e Barbosa (2015), a epistemografia interativa (García
Gutierrez, 1998, 2004, 2006) em Farias e Almeida (2015) e a epistemo-
logia social (Egan; Shera, 1952) apresentada por Veronez Júnior, Almeida,
Martínez-Ávila e Troitiño Rodriguez (2021). Ambos são apresentados sob
uma perspectiva ampla do conceito de epistemologia, relacionados à cria-
ção e disseminação do conhecimento em diferentes domínios.
O conceito de epistemologia genética é apresentado no estudo
sobre sistema de informação aberto como recurso de Organização do
Conhecimento e de mediação da aprendizagem, na seção que visa apresen-
tar pensadores que estudaram sobre o processo de aprendizagem (Varela;
Farias; Barbosa, 2015).
Já o conceito de epistemografia interativa é utilizado por Farias e
Almeida (2015) ao descrever o tratamento transcultural à representação
do conhecimento ou ética transcultural da mediação proposta por García
Gutiérrez (1998). Destaca-se que os autores explicam a epistemografia in-
terativa como uma proposta de abordagem crítica que se opõe à epistemo-
logia em seu caráter tradicional. Portanto, percebe-se a presença da relação
com o conceito de epistemologia no seu sentido amplo, uma vez que esse
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
156
conceito envolve dimensões éticas, políticas e socioculturais que se relacio-
nam ao conhecimento dos domínios.
Veronez Júnior, Almeida, Martínez-Ávila e Troitiño Rodriguez
(2021) apresentam uma reflexão do ponto de vista teórico, conceitual e
histórico sobre a vinculação entre Epistemologia Social de Jesse Shera e
Margaret Egan e a Organização do Conhecimento. O estudo apresenta a
epistemologia social como uma teoria baseada no processo de produção,
distribuição e utilização dos produtos intelectuais sob um ponto de vista
coletivo, ou seja, uma perspectiva social. Afirma-se que “[...] o aspecto
coletivo é fator determinante no entendimento e desenvolvi- mento des-
sa teoria do conhecimento com propostas que pudessem estabelecer um
diálogo mais profícuo da sociedade com as bibliotecas do ponto de vis-
ta social e humano” (Veronez Júnior; Almeida; Martínez-Ávila; Troitiño
Rodrigues, 2021, p. 754).
Foram analisadas nesta pesquisa 22 ocorrências do conceito de episte-
mologia, de forma explícita, em nove trabalhos publicados em 2013, 2015
e 2021 nos Anais dos Congressos da International Society for Knowledge
Organization do Capítulo Espanha-Portugal de 2013 a 2021. Esta pesquisa
possibilitou reconhecer as diferentes formas e finalidades da apresentação
do conceito de epistemologia nos artigos que compõe o corpus da pesquisa
e, portanto, a partir daqui é possível traçar algumas considerações finais.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante do resgate teórico realizado neste capítulo, é possível reafir-
mar a importância da epistemologia para o domínio da Organização do
Conhecimento, no que diz respeito às questões teóricas e metodológicas da
pesquisa em organização do conhecimento e também da sua prática, por
exemplo, no desenvolvimento dos SOC.
Observou-se o uso e contextualização do conceito de epistemologia
a partir da perspectiva do seu significado amplo e também do seu signifi-
Estudos críticos em organização do conhecimento
157
cado restrito. Observa-se que esse uso se dá conforme as características da
pesquisa e do pensamento do autor que os aplica. Além disso, contatou-
-se que há pesquisas que utilizam conceitos próprios de epistemologia no
contexto de seus estudos e algumas vezes recorrem a outros autores para
apoiar seus argumentos. Nessas pesquisas, as questões epistemológicas per-
meiam todo o trabalho de forma explícita e são seu fundamento. Por outro
lado, também há estudos que se apoiam diretamente em outros teóricos ao
apresentar o conceito de epistemologia e, apesar da questão epistemológica
permear o trabalho, acontece de forma implícita.
Esta pesquisa possibilitou reconhecer as diferentes formas e finalida-
des da apresentação do conceito de epistemologia nos artigos publicados
nos anais dos congressos da ISKO Espanha-Portugal de 2013 a 2021, es-
pecialmente, aqueles que o apresentam de forma explícita. Entretanto, fica
evidente que o conceito de epistemologia está presente nos artigos de for-
ma implícita e o uso da Teoria Fundamentada em Dados e da Metateoria
podem proporcionar esse reconhecimento e contextualização em pesquisa
futura.
A análise ainda revela que há um movimento no sentido de voltar
o olhar para as teorias críticas como a epistemologia feminista e as episte-
mologias do sul, especialmente, se considerados os anais mais recentes do
congresso de 2021. Nessa perspectiva, fica evidente a preocupação com as
abordagens socioculturais da Organização do Conhecimento a partir de
uma compreensão plural e diversa da epistemologia.
Reforça-se a compreensão de que a epistemologia da Organização
do Conhecimento permeia as pesquisas do domínio, bem como a impor-
tância do reconhecimento do conceito, das suas contribuições e também
das posições epistêmicas presentes nas diferentes pesquisas e atividades
inerentes a esse domínio. O que efetiva o conhecimento anterior sobre a
concepção da epistemologia da Organização do Conhecimento como o
estudo crítico dos princípios, hipóteses e produção do conhecimento em
um domínio, além de que a epistemologia se relaciona ao conhecimento
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
158
científico produzido em um domínio, mas também com a sua aplicação
no desenvolvimento e modelagem dos SOC e no suporte à Organização
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164
165
6
ASPECTOS ÉTICOS EM
ORgANIZAÇÃO DO
CONHECIMENTO: UMA ANáLISE
DISCURSIvA DOS EvENTOS DA
ISKO INTERNACIONAL
etHiCal asPeCts in KnoWledGe
orGaniZation: a disCourse
analYsis of tHe isKo
international eVents
iago Henrique Bragato BARROS
Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS
Isadora Victorino EVANGELISTA
Universidade Federal de São Carlos - UFSCAR
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-485-1.p165-192
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
166
Resumo: As novas tecnologias, os efeitos da globalização, multiculturalismo e um
acesso à informação cada vez mais imediatista demonstram que os dilemas éticos estão
consideravelmente mais presentes no desenvolvimento dos processos de informação.
Assim, considerando a International Society for Knowledge Organization (ISKO) como
um espaço de institucionalização internacional no trabalho de temáticas voltadas para
a Organização e Representação do Conhecimento, questiona-se às temáticas éticas
constantemente discutida em seus anais. Como principal objetivo, pretende-se demonstrar
um panorama sobre esses estudos, de forma a auxiliar teoricamente pesquisas sobre a
temática e expressar qual é a principal visão dos pesquisadores sobre essa abordagem,
considerando as ideias não apenas declaradas no texto, mas sob uma perspectiva que
está além das construções por trás dessas investigações. Para tanto, iremos nos utilizar
da análise do discurso como fundamento metodológico, metodologia esta que surge por
meio dos estudos de Pêcheux e relacionada aos textos de Foucault. A fonte de informação
da pesquisa foi os anais dos eventos internacionais da ISKO. Pode-se concluir, a partir
dessa análise, que o discurso sobre esses termos no ambiente ISKO em torno de questões
como a representação equivocada em linguagens consideradas universais, a exclusão de
grupos marginalizados na sociedade e a mudança de paradigmas do acesso à informação
a partir do desenvolvimento tecnológico.
Palavras-chave: ética; organização do conhecimento; ISKO; análise do discurso.
Abstract: New technologies, the effects of globalization, multiculturalism and an
increasingly immediate access to information demonstrate that ethical dilemmas are
considerably more present in the development of information processes. Considering
the International Society for Knowledge Organization (ISKO) as an institutionalized
international space in the work of themes focused on Knowledge Organization and
Representation, it is questioned concerning the ethical themes regularly discussed in
its annals. As a primary objective, it was intended to demonstrate an overview of these
studies, to theoretically assist research in this sense and express what is the main view
of the researchers on this theme, considering the ideas not only stated in the text but
from a further perspective, of the buildings behind these investigations. For that, we used
discourse analysis as a methodological foundation, a methodology that arises through the
studies of Pechêux and related to Foucault’s texts. e research information source was
the annals of ISKO’s international events, in which terms that characterized this universe
were applied as a search strategy, such as culture, ethic*, gender, privacy, prejudice, and
bias. ese terms were searched in the areas with the most informational contente in the
articles, that is, title and abstract. After recovery, the corpus was applied to the qualitative
analysis software Sketch Engine and systematically analyzed from the discourse analysis
approach. It can be concluded from this analysis that the discourse on these terms in
the ISKO environment around issues such as misrepresentation in languages considered
universal, the exclusion of marginalized groups in society, and the change of paradigms of
information access from the technological development.
Keywords: ethics; knowledge organization; ISKO; discourse analysis.
Estudos críticos em organização do conhecimento
167
1 INTRODUÇÃO
Considerando a relevância dos estudos éticos em Organização do
Conhecimento, diante de um mundo cada vez mais globalizado e múlti-
plo, o presente estudo pretende analisar como a International Society for
Knowledge Organization, enquanto uma importante representante dos es-
tudos em Organização do Conhecimento, vem discutindo sobre essa te-
mática. Por meio da análise, pretende-se demonstrar como esses estudos
vêm sendo desenvolvidos, de modo a produzir um arcabouço teórico sobre
as abordagens dos principais pesquisadores desse tema e a revelar quais são
seus pontos de vista e ideias não expressas de maneira explícita em seus
textos.
A análise do discurso desenvolve-se sob um olhar teórico-metodo-
lógico que estabelece uma teoria crítica sobre o corpus analisado e, neste
sentido, trata-se de uma teoria tradicionalmente atrelada à análise crítica.
2 ORgANIZAÇÃO DO CONHECIMENTO E ESTUDOS CULTURAIS
O campo da Organização do Conhecimento pode ser compreendi-
do como uma área de estudos, que engloba a pesquisa, a prática e a teoria
de um subdomínio da Ciência da Informação. De acordo com Hjørland
(2016), esse campo diz respeito à “[…] descrição, representação, registro,
organização de documentos, assuntos e conceitos”, por isso são necessárias
algumas ferramentas como sistemas de classificação, listas de cabeçalhos de
assunto e tesauros.
A construção e análise de desempenho dessas ferramentas podem
ser consideradas como os elementos centrais do campo de estudo da
Organização do Conhecimento (OC). Nesse sentido, a área deve ser com-
preendida sob dois pontos principais: por um lado, realizar uma represen-
tação do conhecimento adequada e atual e; por outro lado, manter um
certo nível de estabilidade, de forma a evitar uma eventual reclassificação
dos materiais (Hjørland, 2016).
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
168
Algumas abordagens foram teoricamente desenvolvidas nesse âmbi-
to, destacadas por Hjørland (2016) como praticalista – nesse viés, um certo
nível de padronização é buscado, como o uso do mesmo sistema de clas-
sificação por diferentes unidades informacionais, visando à praticidade e à
centralização de processos, assim temos as classificações consideradas univer-
sais como CDD e CDU; outra abordagem destacada pelo autor é a baseada
no consenso, caracterizada pelos trabalhos de Henry Bliss, que declara que
as classes devem ser definidas a partir do assenso científico dos teóricos da
área, consultando seus trabalhos e buscando um padrão de concordância,
como destacado no parágrafo anterior; uma terceira abordagem é a faceta-
da, constituída principalmente pelos trabalhos de Ranganathan e Grupo de
Pesquisas em Classificação Britânico, que acreditam que o conhecimento
deve ser dividido a partir de uma perspectiva de divisão lógica, em que blo-
cos são construídos de acordo com características do documento.
Essas representações de mundo são criadas com o propósito prá-
tico de sistematização de documentos em bibliotecas, tendo por base o
conhecimento que já foi anteriormente sistematizado pela ciência. Dessa
forma, esse universo é tanto sistemático quanto conceitual, uma vez que as
classes são relacionadas a um termo e esses, por sua vez, representam um
conceito, de maneira inseparável. Essas sistematizações são influenciadas
pelas classificações filosóficas, que refletiam sobre a evolução, progresso e
fé no desenvolvimento científico, no entanto se diferenciam na abstração
de conceitos, buscando uma aplicação prática (Arboit, 2018).
Nesse âmbito, ainda podemos considerar outros tipos de aborda-
gens, como a baseada em usuários, em que os sistemas são desenvolvidos a
partir da perspectiva de quem os utiliza, a partir das informações produzi-
das por esse grupo ou por meio de estudos de usuários; há ainda a aborda-
gem da análise de domínio ou espistemológica, em que o documento deve ser
representando a partir de diferentes perspectivas sobre esse mesmo objeto,
com base no que o grupo determina como informativo. Algumas aborda-
gens de fora do campo também podem se relacionar com a Organização do
Estudos críticos em organização do conhecimento
169
Conhecimento, como os estudos bibliométricos, recuperação informacional,
ontologias e estudos de gênero (Hjørland, 2016).
Fundamentos da Organização do Conhecimento podem ser encon-
trados em diversos espaços e instituições, devendo ser abordado de manei-
ra interdisciplinar. Em bibliotecas, podem ser identificados principalmen-
te nos sistemas de classificação e linguagens documentárias, utilizados na
organização dos livros nas estantes e na recuperação de documentos nos
catálogos. Em arquivos, diferentemente de bibliotecas, os documentos são
únicos, estabelecendo-se como o mais relevante princípio da proveniência,
ou seja, na organização em arquivos, a origem dos documentos é um dos
elementos mais importantes na cadeia de custódia.
Já os museus possuem uma tipologia de documentação semelhante
aos arquivos – trabalham com documentos únicos e, dessa forma, possuem
elementos específicos para a organização de elementos iconográficos. A
Organização do Conhecimento também pode ser encontrada em bases de
dados, por meio das linguagens controladas, utilizadas na indexação dos
registros, nos relacionamentos entre os pontos de acesso e o cuidado em
uma representação adequada, em construção de linguagens documentárias
em domínios específicos e na utilização de análises bibliométricas nos re-
sultados. No âmbito da Internet, a engenharia de busca faz-se necessária,
com a utilização do aporte teórico da Organização do Conhecimento, para
a construção de uma arquitetura da informação (Hjørland, 2016).
Todo esse domínio tem origem, de forma consensual entre Hjørland
e Dahlberg - teóricos seminais na área - em um livro de Henry Bliss (1929)
denominado e Organization of Knowledge and the System of Sciences, em
que o autor reforça a importância das bases filosóficas na construção de
classificações bibliográficas e estabelece o termo “organization of knowled-
ge” como representativo da área (Arboit, 2018).
Na década de 70, após um período voltado para os estudos classifi-
catórios, Dahlberg e Soergel buscam esforços para melhor compreender o
que envolve esse campo, rejeitando a abordagem matemática que até então
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
170
era utilizada pela Sociedade para Classificação. À vista disso, em 1989,
o termo organização do conhecimento é então selecionado pelos autores
como representativo do âmbito, uma vez que “organização” é compreen-
dida na língua alemã como algo além de apenas ordem, mas também en-
quanto um planejamento estruturado (Arboit, 2018).
É nesse contexto que há o surgimento da International Society for
Knowledge Organization (ISKO), como o principal espaço de discussão
de teorias, de ferramentas e de processos desenvolvidos para organização
e representação do conhecimento, além de evidenciar a sua interdiscipli-
naridade com outras áreas de interesse. Atualmente, a sociedade possui
cerca de 600 membros ao redor do mundo, em campos como ciência da
informação, filosofia, linguística, ciência da computação, dentre outros.
Para tanto, a instituição promove conferências internacionais a cada dois
anos, conferências regionais em cerca de quinze países, publicação de um
dos mais importantes periódicos na área – Knowledge Organization e a
série proveniente dos anais de seus congressos internacionais, Advances in
Knowledge Organization (ISKO, 2008).
Dessa forma, é possível conceber a ISKO como um dos espaços
mais importantes para o compartilhamento de informações, promover
pesquisas, experiências, desenvolvimento de sistemas, de maneira a pro-
ver o avanço filosófico, cognitivo e semântico para ordenar o conheci-
mento. Além disso, a instituição é responsável por promover um espaço
profícuo para o desenvolvimento de um networking entre seus membros
e um arranjo entre diferentes instituições e universidades preocupadas
com a evolução da Organização do Conhecimento como um campo de
estudos (ISKO, 2008).
Atualmente, vivemos em uma fase denominada por Pando e Almeida
(2016), como o período pós-moderno na organização do conhecimento. Para
os autores, esse novo período demonstra-se mais inclusivo em questões
relativas a problemas socioculturais, como discussões sobre gênero, etnici-
dades, direitos civis, igualdade, dentre outros aspectos. Os problemas sus-
Estudos críticos em organização do conhecimento
171
citados por esse novo período, causam impacto na forma como o conhe-
cimento é produzido e sugerindo novos problemas a serem investigados,
inclusive no âmbito da Organização do Conhecimento.
Nesse contexto, muda-se de uma perspectiva dicotômica até então
aceita, caracterizada pela busca por uma neutralidade e objetividade, em
que aspectos considerados predominantes são os únicos aceitos, para uma
nova perspectiva, em que a visão positivista é criticada e há uma maior
reflexão ideológica, cultural e política (Pando; Almeida, 2016).
Em uma visão pós-estruturalista, Martínez-Ávila e Beak (2016) de-
claram que a Organização do Conhecimento possui algumas instâncias e
princípios aceitos como absolutos na área, e questionamentos ou críticas
a essa visão de mundo podem ser compreendidas como falta de conheci-
mento das normas ou uma potencial ameaça ao campo. Dessa forma, o
pós-estruturalismo constitui-se como uma rejeição às verdades considera-
das universais e à exposição de realidades a partir de discursos construídos
pela comunidade.
Essa compreensão pós-estruturalista é uma forma de analisar o
conhecimento por meio de uma interpretação mais próxima da subje-
tividade, em que realidades múltiplas são consideradas, realidades estas
construídas a partir da perspectiva dos indivíduos e de seus discursos,
descobrindo pressupostos subjacentes a essas realidades. Ela se opõe à
visão objetiva até então aceita na Organização do Conhecimento, em
que a área é visualizada como algo concreto e imutável, baseada em expe-
riências empiristas e em busca da construção de uma ciência positivista
(Martínez-Ávila; Beak, 2016).
Nesse sentido, algumas pesquisas socioculturais foram realizadas,
de maneira a refletir sobre o desenvolvimento das práticas na área. Wang
(2019) alerta sobre a importância de estudos nesse âmbito, especialmente
considerando o mundo globalizado, em que vivemos na atual sociedade,
em que não apenas há uma alteração de interações econômicas, mas tam-
bém o surgimento de novos conflitos culturais. A diversidade cultural é
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
172
refletida nas pesquisas desenvolvidas nesse domínio, em que estudos são
realizados a partir de perspectivas de gênero, de orientação sexual, de reli-
gião, de idioma, de etnia, dentre outros, buscando romper uma tradição
de investigações em Organização do Conhecimento a partir de um viés
objetivo, que preza por um certo nível de neutralidade, muitas vezes, im-
possível de ser alcançado.
De acordo com o estudo realizado por Wang (2019), que bus-
cou identificar os autores principais nas pesquisas no âmbito da ética
em Organização do Conhecimento, foi possível perceber que os traba-
lhos nessa perspectiva podem ser divididos em temáticas relacionadas à
padronização de sistemas bibliográficos considerados universais, como
Dewey Decimal Classification ou Library of Congress Subject Headings, que
possuem uma visão masculina e branca como mainstream; perspectivas
de gênero na representação do conhecimento, como a visão feminina ou
homoafetiva nas linguagens de representação; análises a partir de uma te-
oria crítica racial, étnica, e indígena na Organização do Conhecimento,
dentre outros aspectos.
Esses estudos influenciaram inclusive a forma como a Organização
do Conhecimento é ministrada nas universidades em cursos de Ciência da
Informação. Mai (2019) questiona quais são as habilidades necessárias a
esses profissionais diante da explosão informacional vivida na atualidade.
Para o autor, algumas recomendações devem ser levadas em conta ao pre-
parar os futuros profissionais da área: deve-se abandonar o pensamento da
neutralidade como único viável.
Além disso, Mai (2019) afirma que os estudantes devem ser ensina-
dos a serem céticos, de maneira a questionar os sistemas e saber que há vá-
rias respostas a uma mesma pergunta, podendo, assim, elaborar sistemas e
serviços que considerem a multiplicidade dessa realidade. Ademais, os do-
centes devem ler de maneira detalhada os sistemas e técnicas utilizadas na
área, demonstrando a maneira que essas ferramentas moldam a forma com
que a informação é passada aos usuários e interferindo na posterior intera-
Estudos críticos em organização do conhecimento
173
ção destes. Por último, o autor sugere que os alunos devem compreender
de forma pormenorizada as classificações, para que possam conceber, desde
o nível mais básico, como as categorias são parte da cultura, da cognição e
da linguagem e como elas influenciam a recuperação da informação, atra-
vés de qualquer meio (Mai, 2019).
Uma forma de analisar os estudos culturais no âmbito da Organização
do Conhecimento é utilizando-se da análise do discurso, que será mais
bem descrita na próxima seção.
3 ANáLISE DO DISCURSO
Baseada nos trabalhos de Michel Foucault e sistematizada por
Pêcheux e seu grupo, a Análise do Discurso possui seu quadro epistemo-
lógico delimitado a partir da articulação de três áreas: o materialismo his-
tórico, a partir da construção ideológica e das formações sociais; a linguís-
tica, em que a sintática e os enunciados são compreendidos; e a teoria do
discurso, em que se determina a historicidade dos processos semânticos
(Pêcheux; Fuchs, 1997).
Para tanto, é necessário que em um primeiro momento haja uma in-
terpelação – ou assujeitamento – do sujeito, de forma a identificar suas ins-
tâncias ideológicas e reprodução dessas relações, que conduz o indivíduo
sem que esse se dê conta, acreditando estar exercendo sua própria vontade,
a ocupar seu lugar em determinada classe, categoria ou camada social, não
apenas considerando os aspectos econômicos, como também os não-eco-
nômicos. Essa reprodução contínua das relações de classes é designada por
Althusser como “aparelho ideológico do Estado” (Pêcheux; Fuchs, 1997).
Consequentemente, ocorre o afrontamento entre essas classes, por
meio de lutas entre classes antagônicas, que decorrem no interior desses
aparelhos, a partir de diferentes posições políticas e ideológicas, determi-
nando alianças e relações de dominação. Esse afrontamento pode ser deno-
minado como formação ideológica e que pode ser mais bem definido pelos
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
174
autores como “[…] suscetível de intervir como uma força em confronto
com outras forças na conjuntura ideológica característica de uma formação
social em dado momento” (Pêcheux; Fuchs, 1997, p. 166). Essa formação
é responsável por determinar o que pode e deve ser dito em dada classe
social, formalizado por registros, como panfletos, exposições ou programas
e é identificada por meio de uma condição de produção, designada a partir
das instâncias expostas anteriormente.
Na Ciência da Informação (CI), os estudos fundamentados em
Análise do Discurso tiveram seu início a partir de pesquisas realizadas por
Frohmann (1992), que buscou analisar o poder das imagens, analisando o
discurso a partir de imagens sob um ponto de vista cognitivo. Para o autor,
a justificativa para utilização dessa metodologia na análise de Ciência da
Informação é o fato de que a teoria em si é uma prática social, como um
processo de trabalho intelectual, configurado por forças sociais, econômi-
cas, políticas e culturais.
O autor ainda sugere que a partir do momento em que a CI é com-
preendida como um fenômeno discursivo, é necessário que se compreenda
as formações históricas que levaram à construção de suas teorias, trazendo
à tona os aspectos políticos que envolvem a concepção e a interpretação
desses conceitos. Aspectos como informação, necessidade informacional e
organização do conhecimento não são simplesmente concebidos de ma-
neira neutral ou universal, mas são construídos a partir de interpretações
pessoais e de grupos sociais dominantes (Frohmann, 1992).
Ainda que a CI esteja intrinsecamente relacionada a conflitos eco-
nômicos e políticos institucionais, há uma carência de reflexão sobre esses
aspectos na literatura da área e sobre como a invisibilidade de certas pers-
pectivas da área pode ser uma consequência de uma estratégia discursiva
de poderes dominantes. Isso é constituído a partir de uma autoridade por
meio da retórica, que se utiliza de um discurso cercado de confiança e au-
toridade para que os textos sejam assimilados enquanto eventos e objetos
naturais (Frohmann, 1992).
Estudos críticos em organização do conhecimento
175
De acordo com o autor, a área se utiliza de mecanismos como o im-
perialismo da teoria, colonização de territórios e a apropriação de discursos
por meio de traduções e repetição de termos, para estabelecer uma área
estável, objetiva e reconhecida, unificando todo o conhecimento da área
como um processo contínuo de informação, que é dado por meio de uma
construção mental determinista e que pode ser medido a partir de desloca-
mentos de discursos (Frohmann, 1992).
Posteriormente, Frohmann (1994) busca expressar como a Análise
do Discurso pode ter seu espaço como uma metodologia a ser utilizada na
CI, uma vez que o objeto analisado não é ao que o discurso se refere, mas
o discurso em si, enquanto atos realizados por aqueles institucionalmente
privilegiados. Esses atos determinam a forma com que se expressam sobre
informação, seu uso e a forma com que é organizada, além de definir quem
utiliza e a quem não é permitido o uso dessa informação. Essa definição
determina quais serão os aspectos sociais e culturais das organizações res-
ponsáveis pela custódia dessas informações.
Para o autor, a literatura da área demonstra um conjunto de práticas
discursivas inerentes, fundamentadas por instituições que atuam de forma
central, construindo redes que permitem configurar os discursos de manei-
ra a solucionar os problemas do campo. Essas construções não são neutras
e respeitam as estruturas institucionais, de forma que o discurso compar-
tilhado por essas instituições ganha significado quando compartilhado por
essas instituições (Frohman, 1994).
No âmbito da Organização do Conhecimento, alguns estudos em
Análise do Discurso merecem destaque, como Campbell (2007) que bus-
cou investigar como a web semântica transformou processos de organiza-
ção e representação da informação, tomando por base a análise foucaultia-
na do surgimento de clínicas médicas; Campbell (2011) que, de maneira
mais específica, analisa a relações dos códigos de catalogação RDA e RDF,
por meio de uma análise comparativa do discurso; Barros (2012), que re-
alizou uma análise do discurso dos manuais de arquivologia, de maneira
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
176
a melhor compreender esse campo e Barros e Moraes (2012), que buscou
demonstrar as relações entre os conceitos de classificação na arquivologia e
de organização do conhecimento, de maneira a contribuir conceitualmen-
te e sistematizar a classificação no âmbito da arquivologia.
De maneira semelhante, a presente pesquisa busca contribuir para
as investigações em análise do discurso e Organização do Conhecimento,
mais especificamente no âmbito dos aspectos culturais e sociais nesse cam-
po. Para tanto, utilizou-se da metodologia descrita na próxima seção.
4 METODOLOgIA
Como método, iremos aplicar a análise do discurso, que surge por
meio dos estudos de Pêcheux com base nos textos de Foucault. Essa meto-
dologia busca evidenciar rupturas ideológicas e relações entre dominados
e dominantes. Para realizar a análise, foi realizada uma busca nos anais dos
eventos internacionais da ISKO, por meio de termos como ethic*, gender,
privacy, culture, prejudice e bias presentes nos títulos e resumos dos artigos.
Foram então recuperados 72 artigos, que por sua vez, foram inclu-
ídos no software de análise qualitativa Sketch Engine. Essa ferramenta per-
mite analisar como a linguagem é aplicada, a partir da análise dos termos
presentes no texto e as formas que eles foram encontrados – como subs-
tantivos, os verbos que os acompanham, como objeto ou como assunto,
dentre outros aspectos. Na nuvem a seguir, é possível verificar como a
representação de um dos termos de busca se apresenta:
Estudos críticos em organização do conhecimento
177
Figure 1 – Culture cloud
Fonte: Elaborado pelos autores
A partir da visualização de como os termos se apresentavam nos ar-
tigos, em conjunto com a análise do corpus, foi possível chegar a elementos
caracterizadores de como o discurso dos elementos éticos e sociais se cons-
truíram em um ambiente institucionalizado e de destaque em uma área
como a ISKO.
5 RESULTADOS
O primeiro termo analisado foi o conceito de cultura. De manei-
ra geral, a palavra aparecia em artigos que trabalhavam com a análise de
ferramentas e instrumentos de Organização do Conhecimento, tendo sua
primeira ocorrência logo no primeiro evento da ISKO Internacional, em
artigo de autoria de Raju (1990), que tratava sobre como elementos da cul-
tura indiana eram mal representados na Classificação Decimal Universal
(CDU) e na Cólon Classification. É possível perceber logo a partir des-
se primeiro caso, que o conceito está diretamente ligado à representação
de culturas marginalizadas em linguagens de representação consideradas
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
178
universais, no entanto foram criadas em um ambiente ocidental, tendo o
homem, branco e cristão como regra.
O principal modificador da palavra “cultura” nos textos é o termo
diferente”, ou seja, há uma preocupação por parte dos autores sobre como
a representação das concepções acerca daquilo que se define como diferen-
te é atribuída nas linguagens utilizadas. Nesse sentido, pode-se inferir que
o que é considerado fora da normalidade, é representado de modo inade-
quado nas linguagens. Outro modificador realçado na nuvem é o conceito
de “outro”, ou seja, aquele que está além do limite do que é considerado
normal e aceitável na sociedade, revelando uma perspectiva de que o que é
além, não é necessário ser representado.
Essa lógica é reforçada quando outros modificadores de destaque
são relativos à comunidades específicas, como conhecimento indíge-
na compartilhado pelos moradores de munícipios próximos à Floresta
Amazônica e sua representação; a utilização de ferramentas criadas para
contextos ocidentais, mas aplicadas a contextos orientais, não respeitan-
do as diversidades culturais (Raghavan; Neelameghan, 2012), ou ainda, a
proposta de um sistema que represente termos da cultura folk polonesa,
como sugestão para construção de sistemas de representação do conheci-
mento (Babik, 2014).
Um substantivo relacionado ao conceito de “cultura” que merece
ênfase é o conceito de “fé”, ou seja, a forma como as culturas são represen-
tadas no sistema, garante que os usuários inseridos nessa cultura podem ter
fé” na qualidade e consistência do sistema de representação do conheci-
mento, e por consequência, na unidade informacional que utiliza o siste-
ma. O conceito de preservação e resgate também são identificados como
relacionados ao termo cultura, compreendendo-se que é de responsabilida-
de das unidades informacionais a preservação cultural, por meio de acervos
que compreendam a diversidade e multipluralidade dos usuários, de forma
a resgatar comunidades até então marginalizadas e excluídas do sistema.
Estudos críticos em organização do conhecimento
179
Em uma análise do discurso desses elementos, é possível perceber a
partir das críticas dos autores que as linguagens de representação do co-
nhecimento, compreendidas como universais, na verdade reafirmam uma
visão tendenciosa intrinsecamente presente na sociedade, que adota como
correto apenas aquilo que está dentro de uma normalidade construída a
partir de valores e visões de mundo sob uma perspectiva branca, masculina
e cristã.
Nessa perspectiva, aqueles que fogem a essa normalidade são excluí-
dos do sistema, sendo desamparados pela própria unidade informacional,
o que anula o principal objetivo da biblioteca que é permitir o acesso à
informação de maneira igualitária, compreendendo toda a diversidade de
usuários. Além disso, uma vez que o material sobre essas culturas margina-
lizadas não é representado, os documentos que tratam sobre esses aspectos
não são preservados, ou seja, como se excluindo essas comunidades, elas de
fato não existissem.
No que diz respeito ao radical “ethic*”, a nuvem de relacionamentos
ficou da seguinte forma:
Figure 2 – Ethic* cloud
Fonte: Elaborado pelos autores
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
180
Observa-se que a maior incidência de modificador do termo pes-
quisado é “transcultural”, em especial por conta de um artigo de García-
Gutiérrez (2002), que propôs a utilização de uma ética transcultural para
representação do conhecimento. Diretamente relacionado ao termo de
análise anterior – cultura -, o autor afirma que é necessária uma cultura de
fronteira, em que sistemas rígidos são rejeitados, abordando-se e aceitando
a perspectiva da permanente mutação dos indivíduos e das sociedades.
Na ética transcultural, as diversas culturas que podem ser compreen-
didas na unidade informacional são aceitas pelo esquema de representação,
que se configura de maneira aberta e horizontal, em contraposição aos
sistemas tradicionais, visualizados de maneira hierárquica, uma classe que
pertence a todas às anteriores em que está incluída. A partir da perspectiva
da análise do discurso, vê-se que, se há a necessidade dos estudos sobre a
inclusão de culturas, então a exclusão é a regra atual. Uma vez que se ado-
tam sistemas hierárquicos, as classes ficam sempre relacionadas à classe an-
terior, mesmo quando o grupo não se sente representado pela classe maior.
Nesse sentido, diversos preconceitos são evidenciados e sustentados pelas
linguagens de representação, marginalizando comunidades que muitas ve-
zes já são excluídas na sociedade em que estão inseridas.
Outros termos que modificam são voltados a áreas do conhecimen-
to, como Filosofia, História e Sociologia. Essas ocorrências se justificam
considerando o universo científico em que o estudo da Ética está inserido
– enquanto área de estudo da Filosofia, que busca o bem-estar e o bom
convívio em sociedade, que se altera conforme diferentes períodos históri-
cos e alterações de costume. A preocupação em remeter às áreas da ciência
em que o domínio da Ética se encontra, demonstra as bases teóricas que
os autores se fundamentam para o estudo científico em um contexto espe-
cífico, como a representação do conhecimento – o que também remete à
alta ocorrência do termo em associação ao termo Epistemologia. Também
demonstra profunda relação com a própria análise de discurso, que tam-
bém se encontra inserida nesses três universos científicos – uma análise a
partir da historicidade, da semântica e de ideologias em torno de discursos,
Estudos críticos em organização do conhecimento
181
inseridos institucionalmente a partir de linguagens aceitas e utilizadas pelas
unidades informacionais, como representantes de um todo e que poten-
cialmente, podem ser utilizadas como instrumentos de exclusão.
É importante destacar que na grande maioria dos artigos que apa-
reciam termos com radical ethic*, geralmente o relacionavam às ações e às
práticas no universo da Organização do Conhecimento, como agir etica-
mente, implicações éticas dos sistemas, o potencial dos questionamentos
éticos, dentre outros sentidos nesse mesmo universo. À vista disso, pode-se
inferir que quando os autores se referem ao agir eticamente, estão consi-
derando a raiz dos estudos éticos, ou seja, o bom convívio em sociedade e
quais ações ou valores implicam nessa prática, como a correta representa-
ção da diversidade cultural, a abordagem da pluralidade dos usuários nas
linguagens e sistemas documentários e o acesso à informação de forma
igualitária, em especial diante dos novos cenários tecnológicos.
A nuvem de relacionamentos do termo “gender” apresenta-se de ma-
neira mais dispersa, conforme pode ser visualizado a seguir:
Figura 3 – Gender cloud
Fonte: Elaborado pelos autores
O verbo de maior destaque em relação ao termo gender é o próprio
verbo “be”, ou seja, os estudos nesse sentido dizem respeito à questão do
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
182
direito de ser ou de pertencer a algo, de existir de acordo com a realidade
em que se sente correspondido. Outra crítica encontrada nas pesquisas e
que pode ser visualizada na nuvem é a questão das perspectivas dicotômi-
cas e oposições binárias.
Nas linguagens de representação, essas concepções são adotadas: ou
você pertence a uma classe, ou você pertence à outra classe, geralmente em
relação de oposição. No entanto, a legitimação desse discurso é prejudicial
para aqueles que se encontram no meio entre essas duas noções, que não se
sentem representados por nenhum dos dois extremos. Além disso, a pró-
pria visão de oposição é negativa, uma vez que coloca os termos de maneira
antagônica, reforçando a desigualdade entre os conceitos. Nesse sentido,
aqueles que fogem às regras legitimadas pelas linguagens, mais uma vez é
excluído, considerado como anormal, errado ou não pertencente ao grupo.
Os estudos feministas também encontram-se diretamente relaciona-
dos aos estudos de gênero. Nessa lógica, destaca-se o estudo de Romero-
Millán e Naumis-Peña (2016), que investigaram as terminologias e a re-
presentação de conteúdo em documentos relativos à participação feminina
no mercado de trabalho, contidas no acervo de diferentes bibliotecas. Para
as autoras, a terminologia utilizada reflete diretamente a forma como essa
comunidade é vista, ou seja, qual é a posição da mulher em cenários como
gênero, educação e atividades diárias. Pelos resultados, as autoras identifi-
caram que a concepção da mulher na sociedade é cultural e sua contribui-
ção para o desenvolvimento econômico muitas vezes ignorada.
Esse tipo de discurso apropriado pelas bibliotecas, reforça o homem
como dominante na sociedade, como provedor, colocando a mulher em
posição inferior e subordinada a ele. Quando há uma mulher bem-sucedi-
da no mercado de trabalho e é compreendida como exceção na linguagem,
ela também infere que essa não é uma posição a ser adotada por ela como
norma, como frequente, ignorando a sua posição de destaque no avanço
profissional e econômico das sociedades.
Estudos críticos em organização do conhecimento
183
Outro estudo nessa perspectiva é a relação de gênero com os mo-
vimentos sociais e políticos ocorridos nos últimos anos. (Moura, 2018).
Assim, as pesquisas em relação ao gênero podem ser inferidas como lutas
contra entidades de poder e dominantes que atuam no contexto atual e
como as linguagens documentárias podem ser utilizadas para perpetuar
essas relações de dominação e subordinados.
O termo privacidade aparece de maneira mais discreta no corpus,
conforme a imagem a seguir:
Figure 4 – Privacy cloud
Fonte: Elaborado pelos autores
O que merece destaque nessa figura é a questão da presença do ter-
mo em prepositional phrases, em especial to privacy or of privacy, o que
não havia ocorrido com os termos anteriores. Nos documentos analisados,
essas preposições aparecem referentes às questões éticas relativas to priva-
cy – particularmente na proteção dos dados na internet, o anonimato na
busca e na proteção das informações (Rockenback; Silva, 2018) e o right
to privacy em um mundo cada vez mais globalizado e sem barreiras para
acesso a dados pessoais (Bezerra; Sanches, 2018).
Os artigos também trabalham the nature of privacy, ou seja, seus fun-
damentos legais em relação aos aspectos da propriedade intelectual, isto é,
sua perspectiva legal (Hajibayova; Salaba, 2018). Percebe-se que quando
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
184
se trata da privacidade, os estudos giram em torno das novas abordagens
necessárias diante dos desenvolvimentos tecnológicos, em que as informa-
ções pessoais estão cada vez mais facilmente disponibilizadas, provocando
o questionamento de até onde as facilidades proporcionadas por esse avan-
ço tecnológico são eticamente éticas.
Por meio da análise do discurso, é possível perceber da mesma for-
ma que esses avanços tecnológicos implicaram em novas formas de acesso
informacional que anteriormente não eram possíveis, esse acesso também
atingiu as informações pessoais, o que leva a novas habilidades do uso des-
sas tecnologias, reiterando maiores investigações sobre a concepção de pri-
vacidade nos dias atuais.
O que também merece destaque nos termos relacionados à privaci-
dade é o conceito de copyright. Também notadamente diante do progresso
tecnológico, os direitos dos autores e da propriedade intelectual estão cada
vez mais blurred, ainda mais considerando o contexto de ciência aberta e
acesso informacional a todos. Nesse sentido, podemos inferir que os pa-
radigmas nesse sentido foram alterados, levando a área a questionar so-
bre quais são os possíveis problemas éticos enfrentados pela segurança dos
autores e o acesso à informacional igualitário. Um caso recente de como
essas questões estão em evidência – e de como implicam decisões éticas, é
o embargo da editora Macmillan a novos títulos de e-books em bibliotecas
públicas (Ala, 2019).
O conceito de prejudice também é abordado de maneira discreta nos
artigos, segundo a imagem:
Estudos críticos em organização do conhecimento
185
Figure 5 – Prejudice cloud
Fonte: Elaborado pelos autores
É dada a ênfase à conexão do termo com os conceitos de bias e
preconception, o primeiro em relação às tendenciosidades que podem ser
encontradas nas linguagens de representação; e o segundo, as ideias pré-
concebidas sobre determinado assunto, representando aquele grupo de
maneira pejorativa. Nos documentos analisados, essas ideias são trabalhadas
em consonância como termo de justiça no tratamento às pessoas, de acordo
com Furner (2018), ou com os preconceitos que podem ser difundidos nas
redes sociais (Origgi; Simon, 2010), o que justifica a destacada presença do
termo technology. Diante desse contexto, é possível perceber que mais uma
vez, a ideia do discurso dessas ideias visa à compreensão da presença do
outro nesses espaços, como essas tendenciosidades e preconceitos podem
afetar o espaço de fala dessas comunidades, como esses fatores podem
ser prejudiciais não apenas nas relações pessoais desses indivíduos, como
também no ambiente virtual em que estão inseridos, em mais uma mudança
de paradigma justificada pelo desenvolvimento de novas tecnologias.
O último termo analisado e que possui forte relação com o termo
prejudice, é o próprio conceito de bias, conforme pode ser visualizado na
imagem a seguir:
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
186
Figura 6 – Bias cloud
Fonte: Elaborado pelos autores
Percebe-se que o termo bias possui forte relação com o primeiro
termo analisado, relativo às temáticas culturais. Essas relações podem ser
identificadas em investigações sobre os conceitos de garantia e hospitali-
dade cultural em linguagens de representação inseridas em contextos mul-
ticulturais (Guedes; Moura, 2018) e como as classificações podem levar a
uma visão culturalmente enviesada do conhecimento (Zamboni; Francelin,
2016), mesmo aquelas consideradas universais, podem ser consideradas
prejudiciais em contextos específicos (Olson, 1996). Analisando a partir
de uma perspectiva discursiva, pode-se deduzir que a elaboração de ferra-
mentas de representação do conhecimento pode agir como instrumentos
de popularização de preconceitos, quando construídas a partir de visões
de mundo enviesadas e considerando uma única cultura – geralmente oci-
dental. Considerar a multiculturalidade na produção desses instrumen-
tos, pode implicar diretamente a ampliação do acesso dessas comunidades,
além de promover nas unidades informacionais que essas ferramentas estão
inseridas em um espaço de diálogo e de aceitação.
A construção desse termo tem forte ocorrência no ambiente da ISKO
a partir de trabalhos de Milani e Guimarães (2010) e Milani, Guimarães
Estudos críticos em organização do conhecimento
187
e Olson (2014). Os autores buscaram conceituar o termo no âmbito da
Organização do Conhecimento e identificar como ele de fato pode causar
algum dano na representação - quando utilizado para promover precon-
ceitos e discriminações – e também a partir da visão positiva desse ter-
mo, quando empregados para representação de comunidades específicas.
Analisando o discurso dessas investigações, é possível identificar a partir
das duas conotações a importância da representação de grupos considera-
dos minorias, uma vez que as tendenciosidades podem ser utilizadas para
excluir esses grupos ou ainda, para dar voz. Diante desse contexto, mais
uma vez é reafirmada a visão preconceituosa que linguagens de representa-
ção podem possuir.
6 CONCLUSÕES
O presente capítulo buscou fazer uma análise da presença de concei-
tos do universo ético e social em Organização do Conhecimento, os quais
foram construídos em um importante ambiente científico como a ISKO, a
partir de uma análise do discurso. Foram explorados 72 artigos, utilizando
como ferramenta de suporte para análise o software SketchEngine, em espe-
cial seu recurso WordSketch, que verifica a presença das palavras a partir de
um contexto semântico.
A partir da referida análise, foi possível identificar que esses conceitos
têm sua presença desde o primeiro congresso realizado e que as principais
questões trabalhadas nesse contexto dizem respeito a questões relativas às
representações culturais, aos grupos marginalizados e às novas perspectivas
a partir do contexto tecnológico.
De maneira mais específica, comprovou-se quão prejudicial pode ser
a utilização de ferramentas consideradas universais aos contextos específi-
cos, uma vez que a construção dessas ferramentas partem de uma visão que
compreende o universo a partir de pontos de vistas masculinos e brancos,
excluindo aspectos que fogem a essa dita normalidade, marginalizando in-
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
188
divíduos considerados como “outro”. Essas interpretações podem ser mais
bem visualizadas quando considerados contextos específicos evidenciados
pelos autores, como questões feministas e a respeito de culturas não oci-
dentais. Também foi possível compreender como as novas tecnologias alte-
raram o paradigma da utilização do conhecimento nesses novos ambientes,
modificando a forma como conceitos como privacidade e lei de direitos
autorais eram visualizados até então.
Sugere-se como futuros estudos análises mais detalhadas desse
conjunto de artigos, buscando identificar cronologicamente como esses
conceitos se alteraram ou foram construídos ao longo do tempo, além de
uma ampliação para os capítulos regionais da ISKO, buscando identificar
se as perspectivas sobre esses conceitos se alteram em diferentes regiões
geográficas.
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and conceptual systems in knowledge organization: Proceedings of the Eleventh
International ISKO Conference 23-26 February 2010 Rome, Italy, Advances in
knowledge organization 12. Würzburg: Ergon Verlag, p. 398-404, 2010. p. 398-404.
193
7
FUNDAMENTOS SEMIóTICO-
CULTURAIS PARA A ORgANIZAÇÃO
DO CONHECIMENTO
semiotiC-Cultural foundations
for KnoWledGe orGaniZation
Mona Cleide Quirino da Silva FARIAS
Grupo de Pesquisa Fundamentos Teóricos da Informação - FTI
Carlos Cândido de ALMEIDA
Universidade Estadual Paulista - UNESP
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-485-1.p193-240
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
194
Resumo: A Organização do Conhecimento tem se dedicado a sugerir soluções para
resolver de modo pragmático os problemas de representação do conhecimento e da
recuperação. Assim, utiliza-se de conceitos ou se apropria de definições de conceitos para
validar os processos de representar e recuperar o conhecimento. A linha interpretativa que
nos serve de apoio nessa discussão é a Semiótica da Cultura. O objetivo é apresentar os
fundamentos semióticos dessa linha à Organização do Conhecimento, pois consideramos
que as teorias críticas em Organização do Conhecimento podem beneficiar-se da
abordagem argumentativa e dos conceitos propostos pela Semiótica da Cultura. Para
repertoriar os fundamentos que permeariam uma semiótica apropriada aos estudos da
Organização do Conhecimento, especificamente os temas relacionados às abordagens
socioculturais, destacamos as bases semióticas e as bases socioantropológicas. A intenção
é destacar alguns conceitos nem sempre sublinhados pela literatura para dar conta do
problema semiocultural, que é examinado pela Organização do Conhecimento.
Palavras-chave: organização do conhecimento; fundamentos semiótico-
culturais; semiótica da Cultura; abordagens socioculturais; bases semióticas e bases
socioantropológicas.
Abstract: Knowledge organization has dedicated to suggesting solutions to pragmatically
solve problems of knowledge representation and retrieval. us, it uses concepts or
appropriates concept definitions to validate knowledge representation and retrieval
processes. e interpretive line that supports the present discussion is the Semiotics of
Culture. e aim is to present the semiotinowledge organization can benefit from the
argumentative approach and the concepts proposed by the Semiotics of Culture. To
underpin the foundations that would permeate a semiotics appropriate for the studies of
knowledge organization, and specifically the themes related to sociocultural approaches,
we highlight the semiotic bases and the socio-anthropological bases. e intention is to
highlight some concepts that are not always underlined in the literature to resolve the
semio-cultural problem that is examined by Knowledge Organization.
Keywords: knowledge organization; semiotic-cultural foundations; semiotics of culture;
sociocultural approaches; semiotic bases and socio-anthropological bases.
Estudos críticos em organização do conhecimento
195
1 INTRODUÇÃO
A Organização do Conhecimento, campo que se dedica propor so-
luções pragmáticas para resolver os problemas de representação do conhe-
cimento e sua recuperação, tem considerado o conceito um elemento nor-
teador para organizar os discursos em qualquer que seja o campo.
Para Cabré (2000, p. 124, grifo da autora) “Un concepto puede par-
ticipar en más de una estructura con el mismo o diferente valor. Los tér-
minos no pertenecen a un ámbito sino que son usados en un ámbito con un
valor singularmente específico”. Em outras palavras, a autora entende que
o conceito não é algo fixo, por isso possui caráter dinâmico na medida em
que é desenvolvido e utilizado em determinado campo. Segundo Hjørland
(2008), o conceito consiste na descrição das propriedades de um objeto
ou para construir um enunciado lógico e verdadeiro sobre uma “coisa do
mundo”. Para Morin (2005), os conceitos precisam “viajar”, isto é, migrar,
pois: “[...] é melhor que viajem sabendo que viajam. É melhor que não
viajem clandestinamente [...]” (Morin, 2005, p. 117).
Várias áreas como, por exemplo, a Lógica, a Linguística, a Filosofia, a
Semiótica, as Ciências Cognitivas, a Terminologia, a Ciência da Informação
etc. trabalham com conceitos ou ainda com a definição de conceitos, tendo
em vista dar base para as reflexões e/ou soluções a problemas práticos.
Contudo, algumas linhas da Semiótica têm proporcionado uma es-
trutura teórica suficiente para compreender a relação dos conceitos com
a cognição e com a sociedade. O objetivo deste capítulo é apresentar os
fundamentos semióticos da linha conhecida como Semiótica da Cultura
importantes à Organização do Conhecimento. As teorias críticas em
Organização do Conhecimento podem beneficiar-se da abordagem argu-
mentativa e dos conceitos propostos pela Semiótica da Cultura, no entanto
essas bases precisam sofrer certas adaptações e ajustes para conformar-se
aos problemas da área.
Assim, destacamos dois tópicos, as bases semióticas e as bases socio-
antropológicas, para repertoriar tais fundamentos que permeariam uma
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
196
semiótica apropriada aos estudos da Organização do Conhecimento, espe-
cificamente os temas relacionados às abordagens socioculturais. Aqui des-
tacaremos alguns conceitos nem sempre sublinhados pela literatura para
dar conta do problema semiocultural que é examinado pela Organização
do Conhecimento.
2 FUNDAMENTOS SEMIóTICO-CULTURAIS PARA A ORgANIZAÇÃO DO
CONHECIMENTO
2.1 BASES SEMIóTICAS
Objetivamos resumir aqui conceitos básicos da Semiótica e da
Semiótica da Cultura, importantes à nossa estruturação teórica. Desse
modo, iniciaremos pelos conceitos de signo, semiose, representação e an-
tropossemiose. Na sequência, serão comentados os conceitos de cultura,
modelização, linguagem e tradução, esses últimos apresentados a partir da
Semiótica da Cultura.
Ao tratar os termos signo, semiose e representação, seguimos a teoria
semiótica de Charles Sanders Peirce (1839-1914), que se dedicou aos estu-
dos da semiótica em geral. Assim, entendemos que a semiótica peirceana
toma como base a filosofia em busca de verificar o(s) significado(s) de algo,
desde a apresentação do signo na mente humana até o seu desenvolvimen-
to/transformação, partindo, é claro, de uma relação triádica envolvendo
signo, objeto e interpretante.
Os estudos da semiótica se desenvolvem a partir de contextos dife-
rentes como, por exemplo, na Rússia, na Europa Ocidental e na América,
apresentando consequentemente fundamentos e abordagens distintas dos
seus objetos. Diante disso, podemos citar alguns nomes que representam
esse campo, como Peirce, Saussure, Hjelmslev, Greimas, Jakobson, Morris,
Eco, Ogden & Richards, Port Royal, Leibniz, Santaella (Nöth, 2003), en-
tre outros.
Estudos críticos em organização do conhecimento
197
De modo geral, a Semiótica não se limita a signos que estabeleçam
uma comunicação verbal, isto é, um único sistema. As possibilidades síg-
nicas são diversas, por isso a Semiótica peirceana não se reduz a uma úni-
ca linguagem para compreender os(s) processos(s) interpretativos dados a
partir do signo.
O signo é entendido como tudo que sob certo aspecto ou modo
representa algo para alguém, ou ainda, dirige-se a alguém, podendo criar
na mente de uma pessoa um signo equivalente ou até mesmo um mais
desenvolvido (Peirce, 2012) e é definido como:
[…] um cognoscível que, por um lado, é determinado (i.e.,
especializado, bestimmt) por algo que não é ele mesmo,
denominado de seu Objeto, enquanto, por outro lado, determina
alguma Mente concreta ou potencial, determinação esta que
denomino de Interpretante criado pelo Signo, de tal forma que
essa Mente Interpretante é assim determinada mediatamente pelo
Objeto. (Peirce, 2012, p. 160, grifo do autor).
Nesse sentido, verifica-se que o signo está na relação com o objeto e
com o interpretante, logo o signo pode ser caracterizado como aquilo que
é determinado por um objeto que, por conseguinte, determina um inter-
pretante1 e disso tem-se a ação do signo denominada de semiose.
A semiose enquanto ação dos signos é “[...] o processo pelo qual algo
funciona como signo podendo ser chamado de semiose” (Morris, 1976,
p. 13). A semiose é, segundo Peirce apud Nöth (1995, p. 66), “[...] o pro-
cesso no qual o signo tem um efeito cognitivo sobre o intérprete”. É uma
ação que envolve a cooperação de três elementos: o signo, seu objeto e seu
interpretante.
O signo se refere a seu objeto para uma interpretação, ou seja, o
signo significa seu objeto por meio da interpretação. Sobre a interpretação
está um processo semiótico. Nesse processo semiótico interpretativo da
ação do signo, a semiose é a “[...] produção de sentido. Processo infinito
Para Santaella (1995, p. 89) “[...] todo interpretante é um signo, assim como todo signo é um interpretante.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
198
pelo qual, através de sua relação com o objeto, o signo produz um inter-
pretante que, por sua vez, é um signo que produz um interpretante e assim
por diante” (Pinto, 1995, p. 49).
Para Santaella (1992), a semiose é a ação do(s) signo(s), mas não
uma simples ação, pelo contrário, é qualquer tipo de ação provocada pelo
signo. Assim, pode-se dizer que é a ação do signo, ação esta que determina
um interpretante.
Quando o signo é interpretado se produz um efeito chamado inter-
pretante, este é capaz de gerar outro signo e contribui para o crescimento
da semiose que faz parte de um continuum” de acontecimentos os quais
podem ser antecipados pela capacidade interpretativa.
Para a Semiótica da Cultura, a semiose representa os processos de
veiculação dos signos e ainda, podemos dizer, que é a própria evolução dos
signos. “O mecanismo elementar de produção da semiose é a transforma-
ção da informação percebida em informação codificada, isto é, em texto.
A cultura não apenas é um centro produtor de textos como, ela própria, se
manifesta como texto para o observador” (Machado, 2013, p. 64).
No âmbito dos sistemas da cultura, a semiose representa e implica
processos complexos, pois na medida em que se processam os significados
estes podem ser alterados em decorrência da dinâmica da cultura e das
relações estabelecidas pelos sujeitos em determinados contextos culturais.
Sendo o signo composto por três elementos na visão peirceana, tais
elementos apresentam a seguinte configuração sobre ele: signo ou repre-
sentamen, objeto e interpretante. Na primeira relação, o representamen não
possuirá subdivisões, mas o objeto, como um segundo, será subdividido
em Objeto Imediato – aquele contido no signo – e Objeto Dinâmico – o
objeto ele mesmo, ou objeto real.
De modo geral, podemos entender que o signo como um elemento
potencial da relação com o objeto e o interpretante, traz em si o objeto
imediato e uma referência ao objeto dinâmico, sendo o primeiro uma apre-
Estudos críticos em organização do conhecimento
199
sentação do objeto dada pelo signo e o segundo uma possibilidade, uma
possível caracterização do objeto que será interpretado via um interpretan-
te imediato, um interpretante dinâmico e um interpretante final.
As reflexões trazidas pela semiótica, mais precisamente a peircea-
na, têm sido resgatadas em diversas pesquisas na Ciência da Informação a
exemplo de: Lara (1993), Moura (2006), Barbalho (2006) e mais recentes:
Barros (2017), Café e Barros (2014), entre outras que representam inte-
resse pelo tema da semiótica e ainda, entendemos nestas possibilidades de
análises sobre a informação e o conhecimento.
Contudo, reconhecemos que as reflexões semióticas trazidas pelas
pesquisas acima e por outras que certamente surgirão, presenteiam-nos
com análises distintas sobre as questões da representação da informação e
da representação do conhecimento. Nesse sentido, compreendemos que o
tema da semiótica, em alguma medida está concatenado com várias temá-
ticas como, por exemplo, a da representação, mais precisamente no campo
da Organização do Conhecimento.
A representação é analisada em diversas perspectivas de estudos,
como por exemplo, a das representações sociais, em que a representação é
entendida por Lefebvre (1983, p. 99) como “[...] uma presença na ausên-
cia”. Signos, crenças, visões de mundo, que se representam é, na maioria
das vezes, algo ausente, presentificado, pois “As pessoas se representam a
si mesmas através daquilo que lhes falta ou acreditem faltar” (Lefebvre,
1991, p. 20).
A noção de representação é, segundo Santaella (2001), desde o século
XIX, um conceito importante na semiótica e, a partir de meados do século
XX, passou a ocupar o terreno da ciência cognitiva. Para Santaella (2001),
a representação é apenas uma face da mediação, cuja outra face está na de-
terminação. Assim, a função do signo é de atuar como uma mediação. Vale
destacar que, embora a representação não seja um termo utilizado por Peirce,
podemos entendê-la na configuração da terceira tricotomia, dada pela re-
lação do signo objeto como o signo interpretante, no discurso dissertativo
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
200
argumentativo. Assim, consideramos a representação um produto da
mediação, resultante da referida relação motivada pelo signo. Também,
entendemos que a noção de representação implica o reconhecimento do
contexto, isto é, o espaço e o tempo que se deseja representar.
Dessa maneira, entendemos que a representação enquanto uma ação
de representar está presente nas práticas e processos de organização e repre-
sentação do conhecimento.
Nesse escopo, resgatamos o termo representação no âmbito da
Organização do Conhecimento em que a ação de representar é proporcio-
nada por um instrumento, seja este um tesauro, uma ontologia, seja ainda
de linguagens documentais etc.
O termo representação de conhecimentos ou de informação resulta
em produtos que se relacionam com objetos, no sentido peirceano. Ou
seja, representar significa reapresentar algo, apresentar a coisa por meio de
alguma entidade de representação, essa abordagem se aproxima do concei-
to de signo (Monteiro; Carelli; Pickler, 2006).
Entretanto, é preciso saber que, para a representação, é necessário
atentar para a análise do contexto, pois o contexto não corresponde a en-
tidades que podem ser identificadas e também representadas. O contexto
consiste no conjunto de noções intangíveis que potencialmente criam sig-
nificados e, consequentemente, a compreensão (Mai, 2005).
A partir desse posicionamento, resgatamos a ideia de domínio como
enfatizada nos estudos de Hjørland (1997, 2002a), que reconhece o sig-
nificado da língua como algo construído e usado para ser entendido por
um grupo de pessoas e, por essa razão, é coerente estudar os domínios que
envolvem as comunidades discursivas.
Entendemos que, para compreender melhor as comunidades discursi-
vas na Organização do Conhecimento, devemos ater-nos aos enfoques cul-
turais desenvolvidos nas pesquisas desse campo. Nos fundamentos de uma
perspectiva sociológica do conhecimento, em que se encontra a análise de
Estudos críticos em organização do conhecimento
201
domínio proposta por Hjørland e Albrechtsen (1995), não é trazida uma
explicação detalhada do que é uma comunidade discursiva. Ao que parece
a noção de comunidades discursivas está relacionada à ideia de domínio,
enquanto um campo, área ou conjunto de pessoas com objetivos comuns.
Para Smiraglia (2002, p. 114), o domínio é entendido como “[…]
um grupo com uma base ontológica que revela uma teleologia subjacente,
um conjunto de hipóteses em comum, consensos epistemológicos sobre
abordagens metodológicas e uma semântica social”. No entanto, compre-
endemos que o domínio deve corresponder às comunidades discursivas,
as quais são constituídas por concepções comuns, relacionadas em uma
esfera social e cultural e, por isso, não são estritamente ligadas ao espaço
acadêmico ou mesmo de uma área de pesquisa. Em resumo, o traço se-
miótico-cultural é o elemento fundador de um domínio, pois pertencer
a uma área acadêmica, grupo profissional ou de práticas comuns não é
suficiente para caracterizar um domínio. É preciso ressaltar que, na análise
dos contextos, tal domínio não deve se restringir a um campo científico.
Por isso, entendemos que a noção de domínio e também de comunidades
discursivas não deve ser restrita.
Para tanto, a representação é a forma que buscamos para interpretar
os contextos em que estamos inseridos. E, embora saibamos que “Nossas
idéias (sic), nossas representações são sempre filtradas através do discurso
de outros, das experiências que vivemos, das coletividades às quais perten-
cemos” (Moscovici, 2009, p. 221), não podemos reduzir nossas interpre-
tações sobre um determinado contexto. Precisamos consultá-lo, recuperar
elementos suficientes para que a representação faça jus à realidade.
Por isso, precisamos reconhecer que algumas representações não são
neutras ideologicamente e, por isso, não podem ser limitadas a uma única
expressão da realidade, com base em um único signo, tendo em vista que o
signo é uma entidade em potencial desenvolvimento e, por conseguinte, a
representação é um processo evolutivo.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
202
Contudo, temos que toda representação carrega em si, os valores, as
intenções e ideologias, portanto ela não é neutra e muito menos fixa. Um
objeto representado em uma determinada cultura pode não ter o mesmo
significado em outra, pois são os contextos em relação às linguagens e os
sujeitos envolvidos que atribuem interpretações àquilo que lhe é particular.
Como na Organização do Conhecimento, a representação é viabi-
lizada por um instrumento, sendo este construído, analisado e validado
por uma comunidade de profissionais, é claro que esta representação não
se dará por completo, tampouco implicará neutralidades, pelo contrário,
será um processo de apresentação de um elemento da realidade que está
sendo mediado por um signo e, por isso, não pode ser a representação fiel
da realidade em sua totalidade. Porém, a representação deve conter o olhar
dos sujeitos e não apenas as conclusões dos profissionais que subsidiam os
processos de representação.
Salientamos que, das concepções de signo e semiose trazidas pela
teoria semiótica de Peirce, assim como a noção de representação, enquanto
uma mediação, uma possibilidade de ampliação das linguagens compre-
endida em Santaella, somada à perspectiva de representação de Moscovici,
como uma síntese de nossa relação com o outro e com os contextos de
que fazemos parte, presenteia-nos com um olhar amplo do signo como
uma possibilidade de representação de algo para uma determinada pessoa
e que é potencializado na semiose, como um processo de transformação
do signo.
Dito isso, apresentaremos a seguir a antropossemiose como um des-
dobramento da semiose que se revela como um dos níveis de semiose.
A antropossemiose se caracteriza por processos sígnicos que envol-
vem o ser humano e o ambiente em que está imerso (Deely, 1990). No es-
copo de tal discussão, entendemos que o ser humano é produtor de signos,
pois sua própria natureza é sígnica, desde sua constituição genética até sua
formação sociocultural, isto é, o ser humano é em si um signo ao passo que
Estudos críticos em organização do conhecimento
203
também é um objeto – em caráter dinâmico – e ao mesmo tempo, inter-
pretante dos demais objetos com que se confronta.
No contato com a natureza e os sistemas culturais, o ser humano se
depara com as linguagens. Não apenas a linguagem em seu aspecto verbal,
com fim de comunicar-se, mas um sistema de linguagens que é composto
de códigos, de elementos simbólicos apresentados na cultura, na relação
que ele mesmo possui com a natureza.
Entendemos que linguagens são mecanismos necessários para a
constituição do diálogo e da comunicação entre seres humanos e o univer-
so do qual fazem parte. A consideramos como signos de mediações, tanto
para as relações estabelecidas entre seres humanos-natureza – e seu contex-
to sociocultural –, como para elaboração, organização e compartilhamento
de conhecimentos, embora entendamos que, no aspecto da comunicação
humana, a língua também é necessária.
A antropossemiose é apresentada na tentativa de refletir, em meio a
esse nível de semiose, sobre o aspecto das linguagens como sistema de sig-
nos que permitem ampliar o desenvolvimento das semioses humanas, não
se restringindo ao âmbito das semioses linguísticas. Nesse sentido, a an-
tropossemiose poderia ser analisada como uma possibilidade de entender
como seres humanos, em suas relações com o meio social e cultural, podem
elaborar significados e traçar interpretações a partir dos signos produzidos
na esfera bio-sócio-cultural.
Em outras palavras, a antropossemiose atuaria como um método
para analisar os seres humanos em sua relação com as diversas esferas da
natureza, com o desenvolvimento das semioses, atentando para as suas
competências, enquanto ser que interpreta e representa sua realidade.
Vale destacar que a antropossemiose apresenta-se como um nível
mais alto de semiose (Deely, 1990). São vários os desdobramentos da ação
do signo, isto é, da semiose, pois ao lado de uma antropossemiose, estão
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
204
também outros tipos de semiose como, por exemplo, zoossemiose2, a fi-
siossemiose3 e a fitossemiose4.
Para Deely (1990), há uma divisão semiótica que se apresenta em
quatro níveis de semiose: a que caracteriza a semiose cognitiva, isto é, a
antropossemiose e zoossemiose, e os níveis “inferiores” de semiose, aqueles
não dependentes da cognição, como é o caso da fitossemiose e fisiossemiose.
Entretanto, Deely (1990) busca compreender o objeto da semiótica
por uma forma mais segmentada. Assim, considera as particularidades
e potencialidades de cada um e, ao mesmo tempo, enfatiza os níveis de
aproximação entre eles, destacando as variadas possibilidades de investigação
do objeto da semiótica, a semiose. Para tanto, a antropossemiose compõe-
se dos processos sígnicos nos quais os seres humanos se relacionam.
Há outra perspectiva da antropossemiose que é delineada pela língua
como elemento primário (Deely, 1990, p. 47). Entendemos que a segunda
perspectiva se reduz à questão da língua, como elemento único de comuni-
cação, o que inviabiliza a análise de outros sistemas sígnicos que interagem
na natureza e na cultura da qual os seres humanos fazem parte.
A antropossemiose inclui todos os processos sígnicos e, por isso,
não caberia considerar apenas a língua como elemento determinante para
leitura e interpretação dos signos constituídos em toda esfera da semiose
cultural humana.
Embora a língua seja dada como um sistema primário, do ponto de
vista de uma semiose linguística, na visão de Deely (1990), é caracterizada
como um sistema modelador secundário e não um sistema primário. A
Se refere “[...] as linguagens animais (cerca de 600), caracterizadas – em suas formas primitivas – por uma
comunicação à base de sinais, mas capazes de atingir certo grau de complexidade, tanto na sua articulação
sintagmática (entre os pássaros, por exemplo) quanto paradigmática (entre as abelhas), constituem o campo
das investigações da zoossemiótica” (Greimas; Courtés, 2008, p. 538).
Se refere a atividade virtual em comparação com a biossemiose – mundo orgânico. A fisiossemiose “[…] é um
processo através do qual primeiro as estrelas e depois os sistemas planetários a partir de uma ‘poeira’ atômica e
molecular mais primitiva” A fisiossemiose “[…] cria condições que tornam possíveis estruturas atômicas cada
vez mais complexas (tais como uma atmosfera oxigenada, por exemplo)” (Deely, 1990, p. 50).
A fitossemiose, ou ainda rede semiótica das plantas é a ação semiótica que ocorre através do desenvolvimento
na interação entre vegetais, plantas e o ambiente físico (Deely, 1990).
Estudos críticos em organização do conhecimento
205
língua estaria mais para um sistema com potencial de descrição “[...] muito
embora, relativamente ao desenvolvimento da civilização e das tradições
culturais distintamente humanas, a língua seja o medium capacitador pró-
ximo e a rede sustentadora da semiose”. (Deely, 1990, p. 47).
A antropossemiose, embora implique a subjetividade do indivíduo
para a produção de signos, não acontece individualmente, pois entendemos
que é pela relação interativa, entre a natureza e a cultura que a antropos-
semiose se realiza, isto é, pela conexão entre os seres humanos e todos os
sistemas sígnicos culturais, sociais, que envolvem o bio, o sócio e o cultural.
Assim, a subjetividade se constitui por meio de processos antropos-
semióticos em que os indivíduos podem se reconhecer como sujeitos e
como parte daqueles espaços. O ser humano é dialético e onde houver
signos, haverá representação e interpretação, isto é, a produção e desenvol-
vimento da semiose.
A ação dos signos na antropossemiose caracteriza-se também pela
identificação dos seres humanos no ambiente em que faz parte. À noção
de identificação, consideramos o ato semiótico de identificar suas necessi-
dades de sobrevivência, de compreender do que podemos nos alimentar,
da caracterização de seus predadores, identificação entre grupos, espécies
comuns etc. da configuração de uma identidade cultural.
Esse exercício de identificação, das necessidades de convívio, de so-
brevivência, de se reconhecer de fato, implica a formulação de informações.
Na antropossemiose, os seres humanos enfrentam etapas de adapta-
ções, processos modelizantes promovido pelos signos culturais. Contudo,
pressupomos a necessidade da elaboração de linguagens que, além de re-
presentar um dado contexto, um conhecimento, também resulte no en-
tendimento e modos de comportamento, como a maneira de comer, de
se portar diante de uma situação, no uso de determinadas vestimentas etc.
Em outras palavras, na antropossemiose verifica-se a necessidade de
processos civilizadores. Tudo isso representa atividades semióticas de orga-
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
206
nização de conhecimento, de práticas culturais. A antropossemiose nos pos-
sibilita lidar com o contexto que estamos inseridos, nos adaptando em um
primeiro momento, para traçar análises e reflexões de nós para com o mundo
e, em seguida, poder transformar nossos conhecimentos, alcançando inter-
pretações amplas sobre a realidade que compartilhamos. Esse exercício nos
prepara para conhecer e aceitar outras culturas, tendo em vista interagir e
trocar experiências, isto é, renovar nosso repertório de conhecimento.
Em resumo, a antropossemiose não se reduz a um processo fisioló-
gico, mas acontece no próprio ser humano, condicionado, em um deter-
minado tempo e espaço histórico, social e cultural. A semiose humana nos
deixa uma questão que é entender como um sujeito compreende, decodifi-
ca e representa os processos sígnicos e em que nível tais signos são alterados
para que façam sentido no espaço e tempo em questão.
Para tanto, com a necessidade de tratar com mais afinco as questões
de linguagem, cultura e demais sistemas semióticos da cultura, a noção da
antropossemiose, no cerne do desenvolvimento do objeto da semiótica, fa-
z-nos refletir sobre as possibilidades de investigação dos signos processados
por e para seres humanos, ou seja, os signos desenvolvidos e organizados a
partir de uma lógica sociocultural, o que requer um exercício ilimitado de
interpretação e, por conseguinte, de competência semiótica5.
A antropossemiose nos propõe traçar análises de autoavaliação,
considerando que esta implica a identificação, a organização e a represen-
tação do conhecimento humano em três esferas sígnicas, o bio, o sócio e
o cultural. Consideramos que toda atividade e prática semiótica impli-
ca processos auto-organizáveis e isso não é diferente à antropossemiose,
como um nível mais alto da semiose. A antropossemiose poderia ser com-
preendida com esse fim, tendo em vista, auxiliar, por um viés reflexivo,
os profissionais envolvidos com a organização, com o tratamento e com
a representação do conhecimento, no sentido de estes reconhecerem, a
A noção de “competência semiótica” se refere ao processo interpretativo sobre os sistemas de signos da
cultura que se origina de um conhecimento sobre o contexto de elaboração dos sistemas de signos no espaço
da cultura, enquanto um sistema semiótico complexo.
Estudos críticos em organização do conhecimento
207
partir dos seus valores e visões de mundo, que, são muitas vezes, parte do
contexto a ser representado.
Nesse caso, o domínio científico e de pesquisa no qual estão inseri-
dos não deve estar fechado, por isso as questões éticas envoltas na atuação
do profissional seja este classificador, seja indexador, com base numa pers-
pectiva sociocognitiva (Hjørland, 2002b), não estão deslocadas do domí-
nio em que as representações foram criadas e validades.
Tratar as antropossemioses no contexto plural da cultura e das ma-
nifestações do conhecimento é um exercício de interpretação que nos faz
reavaliar o modo como pensamos, (r)elaboramos e tratamos linguagens
que garantem as representações de conhecimentos, produzidos e resseman-
tizados em distintos contextos culturais.
Assim, conhecer e compreender o mundo em sua dinâmica significa
processar o mundo numa lógica do contínuo. A questão da interpretação
é de fato uma necessidade, não somente no contexto da antropossemiose,
como também em outros níveis e/ou categorias de semioses. A interpreta-
ção deve ser entendida como um exercício semiótico de reconhecimento
dos discursos desenvolvidos no contexto das comunidades, por isso a inter-
pretação não pode se distanciar dos contextos analisados, pois ela acontece
antes no contexto e depois adquire uma nova perspectiva daqueles que
observam a cultura.
Para tanto, sabemos que os seres humanos, na sua relação com a
natureza, traçam análises interpretativas e tais análises caracterizam-se
como um problema semiótico, que, embora não pareça para muitos, é
uma questão semiótica e não está condicionada apenas à Antropologia ou
à Sociologia.
Ainda na fase de apresentação das bases semióticas, seguiremos com
os conceitos da Semiótica da Cultura, cujo objetivo é sinalizar a compre-
ensão desses conceitos para o seu campo de aplicação e desenvolvimento.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
208
A cultura aparece em muitos estudos como um conceito desprendi-
do da condição interpretativa dos sujeitos. Muitas vezes mal compreendi-
do por ser entendida apenas por uma configuração simbólica como, por
exemplo, quando reduzimos a cultura aos atos de se vestir, comer, falar etc.
Nesse sentido, o conceito de cultura estaria em um nível para dife-
renciar uma determinada cultura de outra. É claro que a tudo isso a cul-
tura é determinante, pois diante das simbologias existentes das linguagens
e mesmo dos códigos, por exemplo, os códigos genéticos, como sendo
parte do sistema sígnico da cultura, algumas determinações sobre nossa
aparência, nossas características físicas são decorrentes de códigos genéticos
enquanto signo cultural.
O conceito de cultura é apresentado inicialmente na Antropologia,
por Edwar Burnett Tylor (1832-1917), que a define como um complexo
de conhecimentos, de crenças, da arte, da moral, das leis, dos costumes,
ou ainda se refere à capacidade sobre os hábitos adquiridos pelo homem
enquanto parte de uma sociedade (Laraia, 2009, p. 25). Para Lévi-Strauss
(1976), a cultura é parte de um sistema simbólico. Ou ainda, compreendi-
da como um processo acumulativo (Kroeber, 1949).
Contudo, o conceito de cultura é entendido sob um viés semiótico,
mas reconhecemos que tal conceito também perpassa as investigações da
Sociologia e da Antropologia interpretativa.
Lotman (1990) apresenta não apenas a perspectiva semiótica dos
estudos russos, como uma Semiótica da Cultura, mas também enfatiza
sobre a ideia de cultura para entender o sistema dos signos – como no caso
da linguagem –, no ambiente cultural. Em seu livro “Universo da mente”,
discorre sobre a cultura como um espaço aberto e esta possui relação com
a sua ideia sobre a semiosfera (Lotman, 1990). Nesse sentido, a cultura
como um espaço amplo composta por uma diversidade de sistemas de
signos é, em si, a própria semiosfera, isto é, o espaço cultural.
A concepção de sistema é citada na Semiótica da Cultura como
“Unidade aberta traduzida em termos de um conjunto de variantes que
Estudos críticos em organização do conhecimento
209
se constituem graças às relações complementares com as invariações e, por
conseguinte, aberta às mudanças” (Machado, 2003, p. 165).
Segundo Schnaiderman (2010), o conceito de semiosfera surge
nos trabalhos de Lotman, com base na noção de biosfera de Vladímir
Viernádski. Tal afirmação é também reforçada por Machado (2003), quan-
do: “A semiosfera diz respeito à diversidade, condição para o desenvolvi-
mento da cultura […]” O conceito de semiosfera gravita entre dois campos
teóricos precisos: a teoria do dialogismo de Mikhail Bakhtin, que pensou
o diálogo da mente com o mundo e a estrutura semiótica da consciência
responsiva; e a teoria da biosfera ecológica do biólogo e filósofo da ciência
V.I. Vernádski (1863-1945), que estudou o relacionamento de estruturas
binárias, assimétricas, mas ao mesmo tempo unitárias. Assim como a bios-
fera designa a esfera da vida do planeta como em Vernádski, a semiosfera
designa o espaço cultural dos signos (Machado, 2007, p. 16).
Nas palavras de Lotman (1990, p. 213, tradução nossa), “[...] nós
somos tanto um planeta na galáxia intelectual quanto a imagem de sua
universalidade”. A partir disso, Nöth (2007, p. 81) entende que os para-
doxos enigmáticos apresentados nas metáforas descritas na teoria semiótica
de Lotman, refletem a ideia de cultura como um sistema autorreferencial,
em que os “[…] espaços semióticos encontram-se enraizados em mais es-
paços isomórficos envolventes da semiose cultural”.
Desse modo, a cultura é destacada como um sistema semiótico ca-
racterizado por sua capacidade dinâmica e transformadora sobre os textos
criados e desenvolvidos por uma memória coletiva (Machado, 2003). Tal
reflexão nos leva a entender que a cultura ganha uma dimensão maior, ela
é um campo dinâmico e plural para o desenvolvimento dos signos.
No âmbito da concepção de semiosfera, a cultura é considerada
como um processo e não como um produto. Segundo Machado (2007, p.
19), “[…] a capacidade de estabelecer diálogo entre diversidades (códigos,
linguagens, cultura) tornou os sistemas semióticos os objetos privilegiados
dos estudos sobre a semiosfera”, isto é, sobre o espaço semiótico da cultura.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
210
Portanto, a semiosfera funciona como um mecanismo único, como
um organismo:
[...] todo espaço semiótico pode ser considerado como um
mecanismo único (se não como um organismo). Então é
primordial não um ou outro tijolo, mas o “grande sistema”,
chamado semiosfera. A semiosfera é o espaço semiótico fora do
qual a própria existência da semiose é impossível. (Lotman, 1996,
p. 24, tradução nossa).
Nesse contexto, entendemos que a cultura é o ambiente no qual os
signos interagem, por isso, enquanto espaço dinâmico, dialógico e infini-
to, é denominada como sendo a própria semiosfera. Em outras palavras,
a semiosfera é: “[...] o que está sendo estudado na e como cultura e é
também o método de estudo da cultura” (Machado, 2007, p. 50). Nessa
perspectiva, a semiosfera atua tanto como objeto quanto método, para o
desenvolvimento dos estudos dos sistemas de signo no campo da Semiótica
da Cultura.
Segundo Nöth e Santaella (2017, p. 229), “A descrição da semiosfe-
ra realizada por Lotman é uma descrição de um sistema autorreferencial.
É uma descrição coerente da cultura no estágio em que a cultura cria e é
criada pela cultura”. No texto sobre: “Relações entre sistemas no interior da
semiosfera, Fiorin (2006, p. 175) admite que a semiosfera “[…] é o do-
mínio que permite a uma cultura definir-se e situar-se para poder dialogar
com outras culturas”.
Cultura é um sistema de dois espaços e está relacionado a dois ní-
veis de semiose. O primeiro é o espaço textual determinado nas artes, nos
mitos, nos códigos sociais ou nas ideologias; outro é o espaço metatextual
decorrente de autodescrições culturais (Nöth; Santaella, 2017). A cultura
é compreendida como um grande texto, principalmente pelo seu caráter
dinâmico e dialógico. A cultura é natureza, isto é, encontra-se na essência
da natureza humana (Machado; Romanini, 2010; Kull, 1998).
Estudos críticos em organização do conhecimento
211
Também a partir de uma perspectiva semiótica, Geertz considera
que o “[...] homem é um animal amarrado por uma teia de significados
tecida por ele mesmo. Contudo, a cultura aparece como “[...] uma ciência
interpretativa, à procura do significado” (Geertz, 2008, p. 4).
Não obstante, o termo cultura está relacionado à informação, sendo
a cultura um conjunto de informações não-hereditárias, isto é, de con-
teúdos armazenados e comunicados por grupos distintos. Cultura é um
sistema semiótico, que implica a produção de textos culturais, e, enquanto
tal, é um sistema perceptivo de processos que permitem a comunicação de
informações (Machado, 2003).
Como os processos perceptivos são inseparáveis da memória, na es-
trutura de todo texto este se manifesta na orientação para um certo tipo de
memória, não aquela individual, mas a memória coletiva. Cultura é assim
memória coletiva não-hereditária (Machado, 2003).
Sobre a noção da cultura como um grande sistema de textos, Lotman,
(1996, p. 86, tradução nossa) descreve que:
Não só os elementos advindos de diferentes tradições culturais
históricas e étnicas como também os constantes diálogos
intratextuais entre gêneros e ordenamentos estruturais de diversa
orientação formam esse jogo interno de recursos semióticos que,
manifestando-se com a maior claridade nos textos artísticos,
resulta, na realidade, uma propriedade de todo texto complexo.
Precisamente essa propriedade realiza ao texto um gerador de
sentido e não apenas um recipiente passivo de sentidos nele
colocados de fora. [...] Texto como dispositivo poliestrutural da
cultura como consciência coletiva.
Para Lotman (1999, p. 109, tradução nossa), “[...] a cultura em seu
conjunto pode ser considerada como texto”. Em torno desse texto é que
direcionamos nossas ideias sobre as linguagens e seus mecanismos de ex-
pressão como um texto representativo da cultura, criados no campo da se-
miosfera. Vale destacar que, quando nos referimos a textos, queremos dizer
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
212
sobre os textos culturais, além das manifestações da escrita, isto é, todas as
manifestações artísticas, as pinturas, as imagens, as músicas, os vídeos etc.
Com base nisso, afirmamos que a cultura possui a capacidade de
gerar novos textos, por se tratar de um texto aberto, em que vários sistemas
de signos interagem e desenvolvem outros mais. No entanto, vale acrescen-
tar que “O texto não é a realidade, mas o material para a sua reconstrução
(Lotman; Uspensky; Mihaychuk, 1978, p. 216, tradução nossa).
Nesse universo plural de textos culturais inseridos numa mesma na-
ção, a brasileira, os textos produzidos por uma determinada cultura são
muitas vezes repassados para seus “iguais”, não necessariamente como ele
se apresentou em momento anterior da sua formação histórica e sociocul-
tural, mas são processados e difundidos com uma nova roupagem, sem que
percam seu sentido, seus valores e sua potencialidade de transformação,
pois “O homem em sua especificidade humana sempre exprime a si mes-
mo (fala), isto é, cria texto (ainda que potencial)” (Bakhtin, 2003, p. 312).
Para tanto, podemos dizer que ao tempo que a cultura representa um
espaço semiótico, ela é também um espaço em potencial desenvolvimento
em que podemos verificar que as narrativas elaboradas são constituídas de
linguagens que se expressam mutualmente. Segundo essa linha de raciocí-
nio, Machado e Romanini (2010, p. 160) entendem que “[...] signo gera
signo, do mesmo modo que texto gera texto. O texto da cultura pressupõe,
portanto, a semiotização do entorno”.
Tendo em vista que o universo semiótico da cultura em potencial
desenvolvimento gera uma diversidade de textos, temos que, a essa ati-
vidade de geração de novos textos, a semiótica da cultura denomina de
processo de modelização. Segundo Machado (2007, p. 29), a modelização
é “[…] entendida como um ‘programa para análise e constituição de ar-
ranjos’ e não simples ‘reprodução de um modelo’” Se trata da “[...] chave
para compreender a produção de mensagens resultantes das relações entre
as mais variadas linguagens ou os mais variados sistemas semióticos da co-
municação social” (Machado, 2003, p. 150). Consideramos tais processos
Estudos críticos em organização do conhecimento
213
como ações interpretativas da cultura, pois entendemos como relacionado
à noção de semiose definida a partir da semiótica peirceana.
Entender a cultura na sua diversidade e sua extensão entre espaço e
tempo é exercer também uma gestão semiótica a qual implica compreen-
der como os diversos complexos sígnicos se relacionam mediante os espa-
ços culturais e ainda como exercem significados a partir de um contexto de
leitura, isto é, de análise dos signos da cultura (Machado, 2008).
A gestão semiótica atua como um dispositivo tradutório pelo qual
é possível analisar a mobilidade dos signos. No entanto, é preciso destacar
que não se trata de perceber o transporte dos signos de um ponto a outro.
A gestão semiótica é parte do processo de modelização.
A modelização é em si um processo de interpretação. Vale dizer que
tal conceito é desenvolvido na Semiótica da Cultura, tendo em vista com-
preender como se dá a semiose, ou seja, “[...] para que um modelo repre-
sente uma coisa diferente para alguém, quanto a determinados aspectos ou
capacidades, deve haver uma continuidade nos vínculos entre modelans e
modelandum (Merrell; Anderson, 1990, p. 31).
Sendo assim, a modelização é o meio pelo qual é possível alcançar
um conhecimento sobre o mundo (Machado, 2003). O termo modelizar
é compreendido como um processo reflexivo e interpretativo que a partir
do uso de linguagens possibilita a comunicação da cultura. É “[...], um
esforço de compreensão da signicidade dos objetos culturais, modelizar é
semioticizar” (Machado, 2003, p. 163).
Do ponto de vista do desenvolvimento do signo na semiosfera, a
modelização é relacionada à ideia de semiose como dito anteriormente.
Assim, a modelização, enquanto um processo semiótico da cultura, é mui-
to enfatizada nos estudos da Semiótica da Cultura, como um mecanismo
para compreender a semiose dos sistemas culturais.
Por isso, vale ressaltar que a modelização não desconsidera elementos
anteriormente admitidos na elaboração do conhecimento, pelo contrário,
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
214
todo o conjunto de saberes envolvidos na constituição de um conhecimento
torna-se elemento representativo para construção de outro conhecimento.
Os códigos culturais passam por processos de transcodificação e não
é uma mera decodificação (Machado, 2003). A cultura é composta de có-
digos, por exemplo, a língua se utiliza do código verbal, a música possui o
código musical etc. O código visto pelo viés da Semiótica da Cultura não
se limita a um signo, uma estrutura, pelo contrário compartilha da estru-
turalidade6 destacada pelas linguagens.
O termo transcodificação é:
Derivado de codificação, por meio do prefixo trans - (“para além”, em
latim). Em semiologia, o termo transcodificação designa a tradução
de uma informação de um código para o outro. Em tradutologia,
o termo qualifica as equivalências semânticas estabelecidas fora de
todo o contexto, por distinção com o termo tradução, reservado á
equivalências contextuais. (Neveu, 2008, p. 293).
A decodificação é um termo relacionado com a codificação. Desse
modo, a codificação implica:
No domínio da comunicação e da informação, […] operação
que consiste em transformar a forma de uma mensagem em uma
outra forma para realizar a transmissão […]. Em Linguística […]
a codificação é a operação que consiste em selecionar e explorar
uma linguagem de descrição do formato e das unidades textuais
reunidas em corpus [...] (Neveu, 2008, p. 70).
Em consonância com a noção de códigos como “[...] signo conven-
cional ou uma organização de caráter genérico a partir da qual é possível a
constituição dos sistemas e, consequentemente da linguagem” (Machado,
2003, p. 155), os códigos culturais são “[...] criadores de linguagem e, con-
sequentemente, de textos culturais se dão a entender como som, imagem,
movimento, textura, cheiro, paladar” (Machado, 2003, p. 156).
“Dinamismo modelizante que garante a organização de um sistema semiótico como a linguagem, ainda que
não possua uma língua, ou seja, uma estrutura regulada por um código definido (Machado, 2003, p. 158).
Estudos críticos em organização do conhecimento
215
Em suma, por meio de processos modelizantes podemos criar novos
códigos culturais. “A modelização, tomada nesse sentido, acarreta um mo-
vimento sígnico contínuo ao longo dos trilhos do significado em direção a
um fim qualquer, indefinido e indefinível. Nada permanece imóvel, nada é
absolutamente determinado” (Merrell; Anderson, 1990, p. 35).
No contexto da cultura, a modelização possibilita a tradução da tra-
dição, isto é, o mecanismo para compreender a intervenção semiótica na
cultura. É a partir da utilização de uma análise semiótica em torno dos
complexos de signos produzidos na cultura. Consiste em “[...] um encon-
tro entre diferentes culturas a partir do qual nascem códigos culturais que
funcionam como programas para ulteriores desenvolvimentos” (Machado,
2003, p. 30).
Para entender a tradução da tradição podemos recuperar a perspectiva
de Hall (2009) de que a cultura pressupõe tradição e esta interfere na recons-
trução de nossa identidade. Portanto, não pode se dissociar dessa herança
em processo de construção. Consideramos que a tradução da tradição “[...]
decorre da análise da compreensão do encontro entre culturas como uma
experiência dialógica e, portanto, semiótica” (Machado, 2003, p. 28).
A partir da perspectiva da tradução mencionada no campo da
Semiótica da Cultura, recuperamos também a descrição dos três mode-
los de tradução de Jakobson (1995, p. 64-65): 1-traduções de signos em
outros signos de uma mesma língua, a qual se refere como “tradução in-
tralinguística ou paráfrase”; 2-traduções entre línguas diferentes, que ele
chamou de “tradução interlinguística ou tradução no sentido estrito da
palavra”; e 3-consiste na interpretação de signos verbais por meio de siste-
mas de signos não-verbais, que é o mesmo que a “tradução intersemiótica
ou transmutação”.
Já a noção de modelização no campo de investigações semióticas, se
apresenta como possibilidades de leituras interpretativas sobre os textos pro-
duzidos na cultura com o apoio dos sistemas modelizantes. Os sistemas mo-
delizantes são “[...] manifestações, práticas ou processos culturais cuja orga-
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
216
nização depende da transferência de modelos estruturais, tais como aqueles
sob os quais se constrói a linguagem natural” (Machado, 2003, p. 49).
Sobre os sistemas modelizantes, Lotman (1978), na obra “A estru-
tura do texto artístico”, destaca que a linguagem além de um sistema de
comunicação, é também um sistema modelizante. No entanto, é necessá-
rio entender pontualmente que os sistemas modelizantes se dividem em
dois aspectos: os sistemas modelizantes primários e sistemas modelizantes
secundários.
O sistema modelizante primário é representado pela língua, porque
a partir desta é possível o desenvolvimento de diversos outros sistemas
como literatura, mitos os quais são construídos em analogia dos sistemas
primários, a língua (Machado, 2003). Enquanto sistemas modelizantes se-
cundários são a literatura, mito, religião, arte.
Tais sistemas modelizantes secundários possuem na linguagem ver-
bal uma estrutura referencial, com base na qual se reconhece, num dado
sistema, sua estruturalidade (Machado, 2007). Porém, os sistemas mode-
lizantes secundários, ao contrário do primário, levam em conta a língua
como código principal, isto é, como estrutura, mas os sistemas de cará-
ter secundário possuem uma dinâmica que interfere na sua expressão por
meio da linguagem. Isto ocorre pelo fato de existir uma diversidade de
linguagens que desenvolvem estruturalidade com base nas suas particulari-
dades, como numa pintura, na música etc.
No sentido de definir o sistema de nível primário, a semiótica da
cultura aponta como sendo a linguagem verbal, por esta ser dotada de
estrutura (Machado, 2007) reconhecida a partir da língua. A estrutura é
um sistema que se define pela organização inerente a toda língua (Ducrot;
Todorov, 1988). Quanto aos sistemas modelizantes secundários estão as
linguagens como: os mitos, as artes etc., que não prescindem de uma “es-
trutura” como a da língua. Para Torop (1999), os sistemas modelizantes
de segundo nível relacionam-se com todas as linguagens em seu sentido
Estudos críticos em organização do conhecimento
217
mais amplo da cultura como, por exemplo, mitologia, religião, normas de
comportamento etc.
Nesse sentido, a linguagem como um sistema social e dialógico, cria-
do e elaborado na esfera cultural não se limita em uma estrutura como
a linguagem verbal, mas destaca em si sua estruturalidade. Entretanto, é
necessário entender que as linguagens assim como a língua, enquanto sis-
temas modelizantes, são construídas a partir de uma intervenção cultural
(Machado, 2003). Ou seja, o sujeito fará uso de uma língua e de lingua-
gens a partir do momento que interage numa determinada cultura, com
isso pode aprimorar os códigos e reeditá-los na medida do possível.
Lotman (1999, p. 101, tradução nossa) entende que as linguagens
podem ser compreendidas como “[...] texto dentro do texto [...]”. Nesse
aspecto, “[...] o texto não é a realidade, mas o material para a reconstituir
(Lotman, 1981, p. 43, tradução nossa). Em outras palavras, quando o au-
tor se refere ao texto dentro do texto, é para explicar que os textos que
produzimos na cultura resgata a memória, enquanto uma manifestação
do conhecimento e esta pode gerar novos sentidos e interpretações em um
mesmo contexto cultural.
As linguagens, em seu sentido mais amplo, são potenciais represen-
tativos da cultura, de uma realidade que é representada a partir das relações
socioculturais, cujo propósito não se resume apenas em comunicar algo,
mas de entender o mundo em sua totalidade.
Sobre “entender o mundo em sua totalidade” ou ainda de represen-
tá-lo, implica refletir sobre a concepção de linguagem evidenciada nos es-
tudos semióticos de Lotman, pois a linguagem, mais precisamente àquela
concebida como um sistema de modelização secundário é uma linguagem
imbuída de ideologias e ao visar a comunicação ou mesmo a representação
da cultura ela não abrange uma representação direta e total da realidade.
Em síntese, tentamos destacar aqui as discussões que envolvem os
conceitos semióticos (signo, semiose, representação, antropossemiose,
cultura, modelização, linguagem, tradução), os quais desencadeiam as re-
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
218
flexões em atenção aos contextos dinâmicos da cultura, assim como dos
sistemas de signos, dos processos semióticos de tradução, que a questão
da interpretação é algo inevitável no tratamento semiótico da cultura.
Consequentemente, o tratamento semiótico da cultura condiciona o tra-
tamento da informação e a organização do conhecimento, tendo em vista
sua gestão, organização e representação.
A seguir, damos sequência às bases socioantropológicas na intenção
de sinalizar as perspectivas de cunho socioculturais que podem subsidiar as
análises interpretativas.
2.2 BASES SOCIOANTROPOLógICAS
A partir de uma revisão da literatura sobre estudos socioculturais da
Organização do Conhecimento, buscamos identificar algumas bases socio-
antropológicas, pois defendemos uma análise sobre o tratamento de tais
bases, principalmente quando se arriscam modelos de representação cujo
objetivo é representar um contexto cultural.
Tratamos como bases socioantropológicas os conceitos que, no es-
copo da Organização do Conhecimento, abrangem desde análises sociais
até culturais.
Aqui trataremos do transculturalismo, da interpretação das culturas
e da desclassificação que deveriam ser mais bem aplicadas aos estudos da
Organização do Conhecimento. Esses temas se alinham às bases semióticas
comentadas anteriormente e compõem um quadro conceitual que poderia
ser explorado pela Ciência da Informação.
O objetivo é compreender a configuração dessas concepções no âm-
bito desse campo para então tentar verificar o impacto dos conceitos so-
cioantropológicos nos processos de representação e organização do conhe-
cimento. Acreditamos que algumas concepções, desde seu viés teórico até
conceitual, transitam em distintos campos e áreas do conhecimento, mas
Estudos críticos em organização do conhecimento
219
com aspectos diversos, consequência das interpretações feitas e também
dos interesses acadêmicos e da ciência em geral.
Partiremos das concepções de transculturalismo na medida em que
pretendemos não apenas a identificação dos temas/estudos que tratam de
perspectivas multi e transcultural na/para a Organização do Conhecimento,
mas também refletir sobre como tais concepções podem ser introjetadas e
interpretadas a partir das perspectivas socioculturais.
Em primeiro lugar, sobre a concepção do transculturalismo, enten-
demos que este pode permitir que as culturas estejam abertas para aquilo
que as transversaliza e as transpõe, eliminando sua redução a teorias sim-
plistas, acolhendo a complexidade e atualizando potencialidades do ser em
tempos e lugares distintos (Nicolescu, 2005). O transculturalismo é carac-
terizado como uma necessidade de fusão cultural, ou seja, da mescla entre
culturas distintas em respeito à dinâmica contemporânea da sociedade.
Nesse sentido, o transculturalismo se distingue do multiculturalismo por
este último estar relacionado estritamente a evidenciar questões associadas
às diferenças culturais, especificando expressões da cultura A, B etc.
Para García Gutiérrez (2002a, 2004), o transculturalismo propõe
um olhar crítico e transversal sobre os fenômenos culturais, considerando
a dinâmica na construção de conhecimento a partir dos diversos contex-
tos culturais. Tal concepção permite refletir também sobre os contextos
sociais, políticos e culturais que são determinantes nas atividades de repre-
sentação (Hjørland, 2002a).
A perspectiva transcultural é também verificada na abordagem da
ética transcultural proposta por García Gutiérrez, cujo objetivo é fornecer
uma análise da transculturalidade entre diversas culturas, isto é, permitir
entender a cultura como um sistema aberto, dialógico e dinâmico.
Com base nessa ideia, entendemos que as linguagens atuam junto à
cultura para a compreensão dos diversos contextos culturais dos grupos e
comunidades.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
220
Nesse sentido, é preciso se voltar a questões éticas de caráter trans-
cultural, pois devemos entender até que medida as linguagens, no sentido
de códigos verbais, podem auxiliar na compreensão de contextos híbridos
das culturas. Com isso, retomamos a questão da ética transcultural que
surge no contexto da Organização do Conhecimento para a compreensão
da cultura e seu caráter dinâmico e plural.
Guimarães et al. (2005) entendem que a proposta de ética transcul-
tural se apresenta como um fundamento e, desse modo, pressupõe possi-
bilidades de surgimento de um novo paradigma que se mostra capaz de
garantir o suporte necessário para a emergência de novas construções no
campo da Organização do Conhecimento.
A “ética transcultural da mediação” como tratada por García
Gutiérrez (2002a), visa o estabelecimento de condutas profissionais que
priorizem a diversidade cultural. Tal perspectiva possui relação com a no-
ção de “epistemografia interativa7”, a qual visa a integração de elementos
éticos, culturais e políticos no conhecimento para sua posterior organiza-
ção e representação (Farias, 2014).
Assim, a ideia da ética transcultural no contexto da Organização
do Conhecimento, compreende a cultura como um fenômeno dinâmico
com predisposição de ser submetido a processos interpretativos. No escopo
das discussões transculturais, a noção de transculturalismo aparece como a
descrição de um ambiente de diálogo cultural, desvinculada de uma base
territorial que busca transcender às mais diversas culturas, as quais se en-
contram em processos de incompletudes culturais8. Utilizam dos atuais ar-
tefatos tecnológicos de uma maneira agregada e adaptada para a produção,
a difusão, o compartilhamento e a preservação das diversas culturas.
A noção de transcultural torna-se a condição de ser das culturas
contemporâneas possibilitando seu movimento e impedindo sua desin-
“[...] destaca-se, em primeiro lugar, a necessidade de incorporar ao conhecimento e à sua organização as
questões éticas, culturais e políticas” (García Gutiérrez, 2006, p. 1).
Nos referimos às incompletudes culturais para afirmar que as culturas são processos abertos e não possui um
fim, por isso também consideramos o caráter híbrido e dinâmico das culturas.
Estudos críticos em organização do conhecimento
221
tegração. É provocador de tensões e de inquietações sobre como somos
povoados pelos outros, sobre como podemos ser na mestiçagem e ainda
como assimilamos saberes híbridos. A hibridização consiste em processos
socioculturais em que as estruturas ou as práticas discretas que existiam se-
paradamente passam a se combinar, tendo em vista gerar novas estruturas.
O cenário cultural contemporâneo não é visto de maneira estanque,
dicotomizando culturas, mas sim, como cenário de hibridização, isto é, a
recombinação, a ressignificação de modos culturais desvinculados de suas
matrizes, constituindo-se em novas práticas culturais (Canclini, 2008).
Entendemos que o transculturalismo no campo da Organização do
Conhecimento considera a cultura como um elemento que transcende
universos e espaços culturais, em virtude da diversidade que deve ser con-
templada na organização e representação. O modelo do transculturalismo
pode permitir o diálogo entre as mais diferentes culturas e impede a sua
homogeneização.
Vale dizer que a perspectiva do transculturalismo não busca reduzir
uma cultura assim como sua identidade, pelo contrário, implica uma rela-
ção de conhecimentos e trocas culturais.
O transculturalismo está baseado na reunião entrelaçada dos diferen-
tes povos e culturas. Em outras palavras, a identidade de alguém não é sin-
gular, mas múltipla. Ao contrário do multiculturalismo, que a maioria das
experiências têm evidenciado limites com base em patrimônios culturais do
passado, enquanto o transculturalismo baseia-se na quebra de limites.
Embora o multiculturalismo remeta às diferenças culturais com base
em questões étnicas, raciais, de religião etc., entendemos que “O multi-
culturalismo não é apenas uma perspectiva teórica, exotérica, alijada da
prática, mas é a própria realidade social, a condição de nossas sociedades
(Farias; Almeida; Martínez-Ávila, 2015, p. 635). Numa breve análise, é
possível entender que:
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
222
Se atravessarmos o Brasil, encontramos culturas milenares
coexistindo com simulacros europeus de sociedade, no que tange
às condições materiais de vida. Essas culturas, que representam
a maior parte das mais de 200 línguas faladas no Brasil não são
representadas adequadamente por sistemas de organização do
conhecimento. Do mesmo modo, se passamos a países europeus,
notamos a complexidade que é o planejamento das políticas
linguísticas, pois ademais das 24 línguas oficiais da União
Europeia, existem muitos outros grupos linguísticos não incluídos.
Consequentemente, o multiculturalismo não pode ser usado
apenas como discurso pela organização do conhecimento, pois,
por detrás dele, há uma realidade cultural híbrida a qual devemos
empreender ações de mediação. (Farias; Almeida; Martínez-Ávila,
2015, p. 635).
Vale dizer que, embora o multiculturalismo corresponda às diferen-
ças, estas devem ser percebidas por uma perspectiva do transculturalismo,
como um elemento potencial para se pensar as relações transculturais, isto
é, entre culturas distintas, pois a ideia de multicultural implica um olhar
necessário sobre a cultura em sua diversidade e isso nos motiva a rever não
apenas as diferenças, mas de reconhecê-las mediante um sistema multi-
cultural que destaque tais diferenças e compreenda que nelas está outra
questão: a identidade.
Na perspectiva dos estudos culturais, Hall (1996) entende que as
identidades culturais têm raízes, assim como histórias, mas passam por
constantes transformações. São ainda pontos de identificação. A ideia de
transculturalismo implica ver-se no outro, por isso propõe uma perspectiva
interativa e de reconhecimento das peculiaridades culturais. Os Sistemas
de Organização do Conhecimento (SOC) devem perseguir o intercultural
e pensar transculturalmente, o que é mais difícil, pois o multicultural tem
simplificado a questão.
Em linhas gerais, a ideia do transculturalismo visa respeitar as pecu-
liaridades culturais das mais diversas culturas. Tal respeito implica no co-
Estudos críticos em organização do conhecimento
223
nhecimento mínimo das questões sociais, econômicas, éticas e linguísticas
que formam uma cultura.
O transculturalismo prevê também as garantias sociais, a garantia
cultural das comunidades, tendo em vista que a ênfase dada nessa perspec-
tiva socioantropológica é entender que em meio aos conflitos sociocultu-
rais e políticos que separam as culturas, devemos atentar para os pontos em
comum entre elas que podem potencializar diálogos menos conflituosos,
mediante, assim como evidenciados, na concepção de multiculturalismo.
Em segundo lugar, outra categoria a somar aos estudos semióticos é
a perspectiva interpretativa da cultura. Partimos da ideia de que a cultura
como um universo sígnico condiciona a visão de mundo dos sujeitos numa
sociedade, ao mesmo tempo em que também é condicionada pelas relações
históricas, sociais e biológicas.
A noção de “interpretação das culturas” de Geertz (2008) sustenta
uma visão interpretativa ou hermenêutica do fenômeno cultural e dá-se
ênfase não só ao ato interpretativo, mas à reflexão que desencadeia as pos-
sibilidades de interpretações entre culturas distintas. As culturas são resul-
tantes de processos semióticos, de elaboração e ressemantização e implicam
relações individuais e coletivas.
O “sentido” é para Geertz (2001) um movimento espiralado do pen-
samento, que não é relativista, nem absolutista, pois o primeiro inviabili-
zaria o julgamento, o segundo retiraria o poder da história. Para Geertz
(2008), a concepção interpretativa da cultura destaca a necessidade de ve-
rificação do sentido da cultura projetada nas práticas sociais, pois a cultura
não é apenas uma questão de indumentária ou aparência, como afirma o
autor. Esse sentido que deveria ser buscado pelas práticas de organização
do conhecimento.
Geertz (2008, p. 27) argumenta que “[...] a humanidade é tão varia-
da em sua essência como em sua expressão” e “[...] um ser humano pode
ser um enigma completo para outro” (Geertz, 2008, p. 10). O autor segue
sua reflexão em busca de elucidar sua noção de cultura e por isso relata que:
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
224
Na tentativa de alcançar uma imagem mais exata do homem, quero
propor duas ideias. A primeira delas é que a cultura é melhor vista
não como complexos padrões concretos de comportamento –
costumes, usos, tradições, feixes de hábitos –, como tem sido caso até
agora, mas como um conjunto de mecanismos de controle – planos,
receitas, regras, instruções (que os engenheiros de computação
chamam “programas” – para governar o comportamento. (Geertz,
2008, p. 32).
O conceito de cultura na teoria interpretativa parte da sua intenção
em destacar a integração entre ser humano e cultura. Para tanto, é preciso
entender que a cultura é mais do que padrões complexos de comportamen-
to, isto é, a cultura é algo inerente ao ser humano, está em sua natureza.
Partindo disso, o autor menciona que não haveria cultura sem homens,
mas sem cultura não haveria homens (Geertz, 2008).
No nosso entendimento, as reflexões trazidas no mecanismo semió-
tico de interpretação das culturas demonstram que “[...] o estudo da ma-
quinaria que os indivíduos ou grupos de indivíduos empregam para orien-
tar a si mesmo num mundo que de outra forma seria obscuro” (Geertz,
2008, p. 150). Dessa forma, esse tipo de reflexão implica um exercício
semiótico que deve considerar na análise dos fenômenos culturais e da sua
relação com as fronteiras sociais.
Sobre as fronteiras, Geertz (2001) destaca no seu texto sobre “Os
usos da diversidade” que no âmbito das culturas e com base na tentativa
de interpretá-la em referência com a cultura alheia é necessário reconhecer
não apenas o que está próximo de um “nós”, é também importante enten-
der os “outros”. Em outras palavras, interpretar uma cultura é um exercício
semiótico e torna-se complexo porque precisamos nos entender em relação
ao outro.
Essa perspectiva demarca a crítica ao etnocentrismo marcado nos
trabalhos sobre antropologia de Malinowski e Lévi-Strauss, nos quais apre-
sentam uma distância (tanto espacial, quanto existencial) destacada na re-
lação entre o “nós” e os “outros”. Dessa forma, Geertz (2001, p. 81) reflete:
Estudos críticos em organização do conhecimento
225
[...] que esses mundos e essas mentalidades alheios, em sua maioria,
não estão realmente noutro lugar, mas são alternativas para nós,
situadas bem perto, ‘lacunas instantâneas entre mim e os que
pensam diferente de mim’, parece haver necessidade de certo
reajuste de nossos hábitos retóricos e nosso sentimento de missão.
(Geertz, 2001, p. 81).
Em outro estudo dedicados ao saber local, Geertz (1998) destaca
a importância de uma antropologia direcionada pela “hermenêutica” ou
“interpretativa” na qual indica que o conhecimento, assim como sua com-
preensão, refere-se aos significados localizados, próprios dos contextos cul-
turais em que são produzidos.
Geertz (2001) critica a perspectiva de que possamos lidar com as
culturas como “sistemas fechados”, que nos permitiriam raciocinar que
cada uma das culturas existentes no mundo possa ser pensada como passí-
vel de isolar-se de todas as outras. Para tanto, o autor sugere que o essencial
é anotar e interpretar o discurso social e não apenas dicotomizar a cultura,
torná-la pedaços desprovidos de sentido.
Outra definição que segue correlacionada à perspectiva interpreta-
tiva é a que verifica a cultura a partir de um olhar sobre a totalidade do
real (Coll, 2000). Em outras palavras, para entender a cultura, em sua
totalidade, identificamos o quão esta é plural e requer atenção para suas
peculiaridades que dialogam com o externo, isto é, aquilo que está fora da
sua semiosfera.
Coll (2000) entende que as culturas passam a estar em toda e qual-
quer parte, sendo este um fenômeno caracterizado como transculturalida-
de, o qual já mencionamos anteriormente. Nesse sentido, consideramos
que cada cultura explica, justifica e consolida um tipo de racionalidade que
interfere diretamente no pensar, no agir, no sentir, nas memórias escolhi-
das e nas ideologias.
Na Organização do Conhecimento, por exemplo, temos pesquisas
desenvolvidas por Smiraglia e Lee (2012), Tennis (2013), Lee (2015), que
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
226
retomam a concepção de cultura, objetivando refletir sobre questões asso-
ciadas à linguagem e diversidade cultural, mais precisamente para as pers-
pectivas de garantia cultural, literária etc.
Lee (2015), a partir da base teórica da Antropologia, buscou elu-
cidar sobre a função do conceito de cultura para a Organização do
Conhecimento. A ideia de Lee (2015) parte das questões da classificação,
por conseguinte das questões éticas que não estão deslocadas do fazer pro-
fissional quando da adaptação de esquemas padronizados de classificação
que valorizem os contextos locais.
Em meio aos quadros de concepções apresentados por Lee (2015),
a autora afirma que cultura é uma estrutura cognitiva estruturada por co-
munidades, por isso a cultura é aprendida, possui o caráter dinâmico e
coexistente. Entendemos que a intenção da autora em apresentar o con-
ceito de cultura para o campo da Organização do Conhecimento é com-
preender que há influências mútuas entre a noção de cultura e esquemas
de classificação.
O olhar sobre a cultura discutido até aqui está conectado à perspecti-
va semiótica de Lotman quando este entende a cultura como uma semios-
fera aberta e em potencial, bem como com a matriz dialógica da linguagem
de Bakhtin, quando defende a linguagem como um signo ideológico-so-
cial. Além da proposta da teoria interpretativa da cultura de Geertz (1926-
2006), que nos presenteia considerando a interpretação da cultura como
um exercício para compreender o que somos a partir do que os outros são.
Por fim, outra discussão que consideramos para as bases socioantro-
pológica, – no contexto das perspectivas socioculturais da Organização do
Conhecimento –, é a concepção desclassificacionista de García Gutiérrez.
Embora pareça confuso pensar numa desclassificação no fazer da
classificação bibliográfica, o prefixo “des-” não pressupõe desfazer ou até
mesmo ignorar a classificação, mas sim rever as estratégias autoritárias que
desprivilegiam determinados conhecimentos. Por exemplo, quando defini-
mos categorias que não estão ajustadas à realidade, aos contextos das comu-
Estudos críticos em organização do conhecimento
227
nidades discursivas e, dessa forma, não consideramos questões éticas e cul-
turais na organização, assim como para a representação do conhecimento.
Isto posto, entendemos que a noção de desclassificação introduzida
por García Gutiérrez como uma proposta de contraponto à ideia de classi-
ficação visa ser empregada amplamente na Organização do Conhecimento
para que ao menos seja refletida as condições e modelos de classificação.
Classificar é um processo que oculta e separa conhecimentos, na
medida em que privilegia determinada cultura em detrimento de outras
expressões ou ideologias. Nessa mesma linha, Phillips (1955) entende
que a classificação implica processos de agrupamento ou separação de
objetos ou ideias em grupos. Para Souza (1943, p. 21), em uma acepção
mais restrita, a classificação “[...] é o arranjo dos livros em classes de as-
suntos, ao mesmo tempo em que se lhes destinam lugares nas estantes,
de acordo com esses assuntos”.
Para Mai (2013, p. 242), as classificações refletem a realidade, que é
tendenciosa, injusta e cheia de contradições. Para o autor, é tarefa do pro-
fissional da informação buscar minimizar o dano causado por essa caracte-
rística das classificações que são relativas, atreladas a contextos específicos e
também culturalmente motivadas.
Olson (2002, p. 382) entende que “A classificação é um sistema e
sistemas têm limites que excluem, pois eles são como territórios finitos”.
A autora se posiciona e explora o problema de classificar pelas essências,
tal como muitas propostas de Organização do Conhecimento. Para Olson
(2001), as instituições que organizam o conhecimento “[...] refletem as
marginalizações e exclusões da sociedade a que servem” (Olson, 2001, p.
639). Para a autora, a estrutura imposta pela categorização dos sistemas de
organização potencializa os conhecimentos que neles se encaixam e elevam
tais conhecimentos à condição de verdades, ao mesmo tempo que estes
desqualificam ou anulam aqueles que não se enquadram nos modelos e
categorias sustentados pelos grupos de determinam a classificação.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
228
Frente a isso, consideramos que a proposta da desclassificação, se-
gundo os trabalhos examinados de García Gutiérrez (2002a, 2002b, 2007,
2011a, 2011b e 2012), representa um posicionamento que se contrapõe a
posicionamentos autoritários, burocráticos e conservadores, absorvidos e
executados por profissionais da informação no ato de classificar e organizar
o conhecimento.
Para García Gutiérrez (2011a), o processo de classificação é comu-
mente visto como um elemento neutro e não ideológico, apesar de produ-
zir ideologia e cultura. Assim, a classificação entendida e utilizada até agora
teria em seu caráter redutor metonímico um elemento poderoso de con-
versão das culturas do mundo em visões parciais e tendenciosas. Portanto,
a classificação implica em operações essencialistas de organização do mun-
do a partir de uma lógica reducionista.
García Gutiérrez (2011a, p. 8, tradução nossa) aponta como cons-
tituintes da prática de classificação: a redução metonímica, a redução di-
cotômica e a redução analógica. A redução metonímica é entendida como
uma ferramenta epistemológica que prevê a identificação da parte com o
todo. Trata-se da redução das reduções cujo objetivo é encurtar, simplificar
e fragmentar. É um dos elementos que mais se destacam, pois consiste
na fragmentação dos objetos classificados. Na redução dicotômica, García
Gutiérrez (2011a) destaca duas propriedades: o deslizamento e a dicoto-
mização. A primeira envolve um movimento incontrolável que permite
passar injustificadamente de uma instância a outra pelo fato de possuir
representações homônimas, homográficas e homofônicas.
Na dicotomização, todas as instâncias são construídas por modo
de pares opostos como, por exemplo, homem/mulher, norte/sul etc. Para
redução analógica, García Gutiérrez compartilha de um exemplo clássico
do ornitorrinco, o qual apresenta em sua taxonomia uma variedade de
características que poderiam resultar numa classificação mais plural. Neste
caso, como em tantos outros, o que prevalece é a categoria mamífero, pois
representa uma posição privilegiada no contexto animal, e ocasiona na
Estudos críticos em organização do conhecimento
229
desvalorização de demais classes e/ou características que pudessem explicar
e desenvolver variáveis para a classificação.
Por sua vez, a desclassificação está voltada para uma reflexão que
antecede o fazer da classificação e não se caracteriza como um elemento
de caráter substitutivo. Nesse escopo, entendemos que a ideia de desclas-
sificação traz para o campo da Organização do Conhecimento a noção de
desconstrução que implica em alternativas de cunho pós-epistemológico,
tendo em vista ampliar as reflexões sobre as questões que envolvem a orga-
nização e representação do conhecimento.
Tal posicionamento indica por parte de García Gutiérrez, uma pers-
pectiva pluralista. Como bem enfatiza García Gutiérrez (2011a, p. 98, tra-
dução nossa):
Minha reivindicação irredutível é a [...] substituição do espírito,
linguagem e procedimentos da Epistemologia da Documentação
por uma Hermenêutica da Organização do Conhecimento [...]
uma hermenêutica crítica e envolvida com uma produção e trocas
igualitárias que redignifiquem conhecimento e memórias não
percebidos.
García Gutiérrez busca promover uma perspectiva dialógica que
priorize a memória, identidade, linguagem, cultura, tecnologia e conhe-
cimento. A desclassificação envolve a suposição metacognitiva de uma ló-
gica diferente, plural e não-essencialista. Ela introduz o pluralismo lógico,
mundos possíveis, dúvida e contradição nas proposições, provocando um
pensamento antidogmático (García Gutiérrez, 2011a). Ao contrário dis-
so, a classificação, como tradicionalmente compreendida, implica o ato de
classificar, isto é, escolher uma entre outras classificações logicamente pos-
síveis, procurando encontrar, para a escolha feita, um conjunto de razões
suficientes (Pombo, 2003).
A introdução do pluralismo na classificação através do processo de
desclassificação, implica uma operação que necessita a consciência da in-
completude do viés e da subjetividade. A desclassificação propõe o prin-
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
230
cípio da contradição na classificação, admitindo que “[...] uma coisa tam-
bém é sempre outra coisa [...]” e que “[…] uma coisa pode sempre ser
outra coisa” (García Gutiérrez, 2011a, p. 11).
A contradição pode nos permitir a ver a lógica como uma estrutu-
ra culturalmente determinada e não universal. García Gutiérrez (2011a)
defende que todas as culturas e matrizes cognitivas buscam evitar a con-
tradição em seu interior. Também a utilizam para apontar a falha no pen-
samento do outro. No território da contradição que García Gutiérrez
(2006) introduz a desclassificação. Para o autor: “[...] desclassificar, isto
é, desmontar uma estrutura de ordenação dominante –geralmente hierár-
quica – implica reclassificar com parâmetros diferentes aos dessa estru-
tura. Como consequência, desclassificar suportaria, no limite, classificar”
(García Gutiérrez, 2006, p. 110).
Orientado por uma pragmática contextual, García Gutiérrez apre-
senta algumas propostas que implicam em adotar uma teoria de conceitos
abertos9 e inacabados, que visem uma prática da desclassificação e sua apli-
cação nos processos de organização da memória registrada.
Notamos um interesse quanto à temática da desclassificação na
Organização do Conhecimento, tendo em vista que esta vem sendo am-
pliada e discutida no campo em distintos trabalhos (Soares; Martins;
Francelin, 2013; Padilha; Barros, 2015; Farias; Almeida, 2016; Amorim;
Bräscher, 2017).
A desclassificação relaciona-se a algumas concepções resgatadas da
Filosofia, como a ideia de razão dialética, razão ética e política, razão im-
perfeita, razão contrafática, razão quântica, razão falibilista e razão para-
consistente. O autor sugere a adoção da paraontologia, tendo em vista que
organizar o conhecimento a partir da ideia de que uma instância concei-
tual não é somente algo, mas pode também ser outra coisa. Desse modo,
À ideia de conceitos abertos, entendemos que García Gutiérrez toma como base sobre os diversos sentidos
que um conceito pode adquirir. Assim, reconhecemos que este olhar sobre a mutabilidade dos conceitos
se refere à dinâmica dos contextos históricos, sociais e culturais e também locais, os quais influenciam na
elaboração e na alteração dos conceitos.
Estudos críticos em organização do conhecimento
231
García Gutiérrez entende que tudo pode ser sempre outra coisa (García
Gutiérrez, 2011a), isso dependerá o alcance do olhar.
Ao que corresponde a aplicação da desclassificação no campo da
Organização do Conhecimento, mais precisamente quando se refere ao
conhecimento registrado, García Gutiérrez (2011a) propõe o estabeleci-
mento de dois operadores:
1. o operador complexo10, que trabalha para garantir de modo
igualitário a expressão de todas as posições e cosmovisões a res-
peito de um tema; e
2. o operador transcultural que, por sua vez, decide e executa de-
mocraticamente a partir de um consenso amplo, com revisão
periódica numa síntese transcultural, baseada no levantamento
feito pelo operador complexo.
Nesse sentido, a desclassificação para a Organização do Conhecimento
implicaria uma prática interpretativa de revisão que envolve tanto proces-
sos complexos de tradução, como a suspensão de suposições ou transfor-
mação formal de modos que se adaptam à liberalização de uma matriz
cognitiva de caráter ampla e inclusiva. Desclassificar seria, ao fim e ao cabo,
propor um sistema aberto, tendo em vista a reabilitação de recursos do
conhecimento por meio de uma leitura de caráter pós-epistemológico. A
desclassificação supõe a introdução do pluralismo como núcleo lógico do
processo de classificação. É uma operação metacognitiva e não simples-
mente automática que em cada momento requer uma consciência de in-
completude, assim como de vieses e de subjetividade.
García Gutiérrez (2002a) defende um novo paradigma, combinando
Teoria Crítica e Hermenêutica, cujo ponto de partida é a teoria e a prática da
classificação na Organização do Conhecimento. Mais uma vez, esbarramos
10 O operador complexo representa o equilíbrio democrático e hermenêutico, pelo qual o operador
transcultural busca respaldo. Quanto ao operador transcultural, este é, conforme o autor, o antídoto para o
relativismo do qual o operador complexo poderia ser acusado (García Gutiérrez, 2011a).
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
232
no transculturalismo, pois este enxerga nas práticas multiculturais uma certa
fragilidade no que concerne a compreensão de cultura. Assim, é preciso que
antes de propor categorizações sobre elementos culturais, deve-se entender a
cultura como um sistema aberto com capacidade de interação e que não se
trata de algo limitado derivado de uma análise reducionista.
A desclassificação nos condiciona a compreender que, em vez de re-
alidades culturais simplificadas, necessitamos trabalhar para construir uma
ética transcultural que forneça apoio à construção social da exomemória11
que utiliza categorias transculturalmente aceitáveis e um conjunto de re-
gras que ajude a detectar preconceitos raciais, étnicos ou quaisquer outros
(García Gutiérrez, 2002a).
À medida que a cultura for simplificada, reforçaremos a concepção
do multiculturalismo, ou seja, se aceitarmos todas essas coisas como
entidades constantes, permitindo a sua fragmentação em subconjuntos
independentes e paralelos, conceberemos armações culturais limitadas e
isoladas que não corresponderão à realidade (García Gutiérrez, 2002a).
García Gutiérrez (2011a) considera a desclassificação como a herme-
nêutica da Organização do Conhecimento, pois esta é um modo dinâmico
de organização que, a priori, deveria satisfazer uma razão de mudança que
corresponde aquela dos próprios objetos organizáveis simbólicos uma vez
que, conforme o autor, a redução da paralisia cognitiva tradicional, isto é,
do tipo de classificação que normalmente praticamos já foi superada.
A proposta da desclassificação, apesar de provocar interesse no cam-
po da Organização do Conhecimento, ainda representa desconforto tendo
em vista que a classificação tradicional estabelece uma zona de conforto
entre muitos pesquisadores e profissionais do campo. De qualquer forma,
o tema de pesquisa iniciado por García Gutiérrez nos impulsiona a rever
a posição epistemológica dominante na Organização do Conhecimento e
11 Por exomemória entendemos que são as múltiplas formas de registrar o conhecimento como, por exemplo,
livros, fotografias, gravuras, quadros, esculturas etc. À noção de exomemória destaca-se também outras
concepções atribuídas por García Gutiérrez (2002a), como conhecimento, memória compreendido como
sinônimos.
Estudos críticos em organização do conhecimento
233
sugerir uma perspectiva alternativa e que não substitui necessariamente a
noção de classificação, pois como o autor defende, o ato de desclassificar é
também uma maneira de classificar (García Gutiérrez, 2006, 2007).
Em suma, a perspectiva desclassificacionista nos recomenda revisar
tanto as práticas interpretativas como processos complexos de tradução.
Ela alerta para um compromisso de caráter metacognitivo e pluralista que
auxilie ultrapassar os automatismos e preferências hierárquicas que tradi-
cionalmente a classificação nos condiciona.
3 ALgUMAS PALAvRAS FINAIS
As discussões relativas às bases teóricas semiótico-culturais para
Organização do Conhecimento buscaram, de algum modo, sumarizar as
contribuições semióticas e socioantropológicas, no intuito de alertar que o
campo não está dissociado da vida social, portanto deve incorporar novos
conceitos para explicar a realidade sociocultural.
O trabalho também nos permitiu identificar a necessidade de uma
representação que reveja os contextos culturais, o que implica reavaliar
posicionamentos autoritários sobre a noção de representação. Além disso,
a análise interpretativa da cultura e a investigação aprofundada das comu-
nidades devem ser objeto de reflexão detida.
A questão da tradução é um outro elemento que devemos dar aten-
ção, pois para alcançar uma representação que pressupõe uma interpre-
tação semiótica dos contextos das comunidades, precisamos considerar o
caráter semiótico da tradução e refletir sobre tal atividade nos ambientes
físico e não físicos.
Nesse sentido, temos a oportunidade de reeditar não apenas nossos
posicionamentos teóricos, mas principalmente a nossa postura ética ante
os processos de organização, tratamento e representação do conhecimento.
A Organização do Conhecimento tem como tópico de estudo um fenôme-
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
234
no simbólico, portanto cultural e semiótico. Nesse sentido, a sua aborda-
gem deve corresponder ao carácter de seu objeto.
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8
A ORGANIZAÇÃO DO
CONHECIMENTO E OS SABERES:
ELEMENTOS DE REFLEXÃO
CRÍTICA SOBRE O PROCESSO DE
REPRESENTAÇÃO
KnoWledGe orGaniZation
and KnoWledGe Communities:
elements of CritiCal
refleCtion aBout tHe
rePresentation ProCess
Marcio Ferreira da SILVA
Universidade Federal do Maranhão - UFMA
Carlos Cândido de ALMEIDA
Universidade Estadual Paulista - UNESP
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-485-1.p241-258
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
242
Resumo: A padronização de comportamentos e homogeneização cultural são tencionadas
e confrontadas pelas comunidades de saberes por novas perspectivas de representação ante
modelos universalizantes. Nessa condição, a cultura torna-se dispositivo teórico elementar
para pensar os processos de Organização e Representação do Conhecimento. Na busca por
compreender esses elementos e validar termos e conceitos, nosso objetivo neste capítulo
é reconfigurar a discussão de comunidades discursivas acadêmicas e altamente ativas no
capitalismo global para comunidades de saberes. A noção do saber é compreendida como
uma categoria ampla por reunir diversas expressões culturais. Dessa maneira, ao entender
como os conhecimentos dos grupos sociais são agrupados e representados, teremos meios
para entender os territórios. Assim, corroborar a elaboração de critérios de validação dos
termos e dos sistemas de representação escolhido por um determinado grupo.
Palavras-chave: organização do conhecimento; comunidades de saberes; cultura; Ciência
da Informação; representação da informação.
Abstract: Behavior standardization and cultural homogenization are pressured and
confronted by knowledge communities through new representation perspectives in
the face of universalizing models. In this condition, culture becomes an elementary
theoretical agent to think about Knowledge Organization and Representation processes.
To understand these elements and validate terms and concepts, the aim of this chapter
is to shift the discussion from academic and highly active discourse communities in
global capitalism to knowledge communities. e notion of knowledge is understood
as a broad category for comprehending more cultural expressions. In this sense, by
understanding how knowledge in social groups is grouped and represented, we have the
means to understand territories; and thus, support the elaboration of validation criteria
for representing the terms and systems chosen by the group.
Keywords: knowledge organization; knowledge communities; culture; Information
Science. information representation.
Estudos críticos em organização do conhecimento
243
1 INTRODUÇÃO
As consequências da incorporação das características civilizatórias
contemporâneas na cultura podem ser creditadas aos processos de apro-
priação de modelos uniformes e universais de representação da realidade.
A padronização de comportamentos e homogeneização cultural sugere um
sentido da experiência humana limitada para algo restrito e de mesma na-
tureza ou de expressão idêntica, sem a consideração da diversidade.
Isso ocorre sobretudo nos diferentes espaços institucionais que uti-
lizam estratégias e procedimentos de representação da informação, mas
deslocadas de elementos identitários em relação a um dado universo cul-
tural. Ocorre que o padrão delineador na dimensão capitalista vai operar
na dimensão da raça para tomar o controle de corpos, mentes e das prá-
ticas através de categorias de classificação humana em inferiores/superio-
res, irracionais/racionais, primitivos/civilizados e tradicionais/modernos
(Quijano, 2010).
Todavia, as experiências históricas e o aprendizado coletivo geram
expectativas de novas formulações sobre as comunidades locais, seja na
política, religião, educação, economia, seja nas ciências. Tensionadas pelas
comunidades de saberes, novas perspectivas de representação ante mode-
los universalizantes das culturas surgem na cena atual e demandam novos
paradigmas à Ciência da Informação e à Organização do Conhecimento.
Cabe destacar que as comunidades de saberes consistem em todas as co-
munidades e grupos culturais residentes além das fronteiras institucionais
acadêmicas.
Sendo assim, a cultura é o dispositivo teórico elementar para pensar
os processos e produtos da Organização do Conhecimento e as práticas de
representar o conhecimento produzido socialmente. A elaboração de ins-
trumentos de classificação do conhecimento - estruturas que estabelecem
hierarquias -, categoriza conceitos admitidos globalmente como superiores
e requer de profissionais da informação a percepção fina das manipulações
e desarticulações da dinâmica social. Assim, desvelam-se os interesses dos
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
244
contextos que impulsionam a escolha de termos, bem como sua validação
e reconhecimento cultural pelos grupos representados.
Não obstante, em seu sentido etimológico e polissêmico, observa-se
a dificuldade conceitual e a complexidade que o termo cultura nos impõe.
Isto exposto, implica à Organização do Conhecimento aproximar-se do
assunto para conhecer, reconhecer e reavaliar as escolhas para organizar e
representar as informações.
Do ponto de vista histórico, considerando as relações de poder que
entrecortam as populações tradicionais como os povos negros, sequestra-
dos do continente africano e os povos indígenas, originários no Brasil,
verificamos que estas são alijados do processo de distribuição das riquezas
nacionais. É ilustrativo o fato de as populações negras ao longo da história
serem alijadas da concepção de “civilização”. Tais culturas foram fortemen-
te impactadas pela prática do racismo no Brasil, como os saberes das religi-
ões de influência africana, dos quilombos urbanos e rurais, dentre outros.
Esse aspecto relevante foi estudado por Almeida (2020) e apresenta-
do em três formulações conceituais que definem o fenômeno do racismo
em individual, institucional e estrutural. Esses conceitos são operados para
assegurar as relações de poder, na cena das disputas individuais e coletivas
para desqualificação do outro pelo racismo. O racismo individual é conce-
bido na ação do indivíduo ou do coletivo, como uma “patologia”, postura
irracional “a ser combatida no campo jurídico”. Essa concepção, segundo
Almeida (2020, p. 36-37) é frágil por desconsiderar sociedades ou institui-
ções como racistas.
A acepção do conceito institucional sugere que as instituições alar-
gam as possibilidades do racismo pela via da regulamentação e normaliza-
ção dos comportamentos: “No caso do racismo institucional, o domínio
se dá com o estabelecimento de parâmetros baseados na raça, que servem
para manter a hegemonia do grupo racial no poder” (Almeida, 2020, p.
40). A concepção do racismo estrutural está diretamente relacionada ao ra-
cismo institucional normatizador das relações de poder e ao “[...] estabele-
Estudos críticos em organização do conhecimento
245
cimento e manutenção da ordem social”. O racismo estrutural decorre dos
padrões racistas impostos por instituições para proteger a ordem social pela
qual estão inseridas. Em suma, as acepções estão interligadas e “[...]as ins-
tituições são racistas porque a sociedade é racista” (Almeida, 2020, p. 47).
Com efeito, as ideologias naturalizam de forma consciente ou in-
consciente o racismo via práticas culturais, profissionais, científicas e cor-
roboram a operação do racismo na política, no direito, na economia, na
educação, na comunicação e na informação para sustentar representações
da realidade que favoreçam os grupos privilegiados.
Para Souza (2021, p. 45-57) essas disputas resultam de uma dimen-
são mais profunda e complexa umbilicalmente vinculada à moral enraiza-
da no processo de dominação social, na desarticulação das ideias morais
compartilhadas coletivamente:
Assim pode-se manipular a raiva do próprio oprimido contra ele
mesmo ou contra os outros oprimidos[...]. Gostaria de chamar
de racismo precisamente esse processo de tornar inarticulado esse
mundo compartilhado coletivamente de modo a manipular o
sofrimento social para jogar os oprimidos uns contra os outros e
convencer as vítimas da própria inferioridade. (Souza, 2021, p. 54).
Exposta essas considerações iniciais, este capítulo parte do pressu-
posto que para o processo de representação da informação de comunidades
discursivas, a aproximação junto aos seus espaços de resistência é um ele-
mento essencial para conhecer com profundidade as dimensões utilizadas
pelo grupo. Em consequência, para validar termos e conceitos de um siste-
ma de organização do conhecimento, demanda-se a compreensão da cul-
tura, dos aspectos identificadores do comportamento, das condutas sociais
e do reconhecimento da diversidade dos saberes e valores existentes em um
grupo. Objetiva-se assim deslocar a discussão das comunidades discursi-
vas acadêmicas e altamente ativas no capitalismo global para comunidades
de saberes como categorias de análise mais abrangente. A noção de saber
deve ser a categoria mais ampla a ser discutida no ensino da Ciência da
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
246
Informação por conter o maior número de expressões culturais, sendo as
comunidades acadêmicas, intelectuais e profissionais apenas os tipos mais
valorizados desta.
2 A ORgANIZAÇÃO DO CONHECIMENTO E OS SABERES
A tarefa da Organização do Conhecimento é complexa por reu-
nir, discutir e propor soluções à produção do conhecimento humano.
Corresponde a uma disciplina investigativa que analisa leis e princípios,
procedimentos para organizar um conhecimento com objetivo de recu-
peração (Barité, 2001, Barité et al., 2015; Cunha; Cavalcanti, 2008). O
campo preocupa-se com a “[...] natureza e qualidade dos processos de
Organização do Conhecimento, bem como dos Sistemas de Organização
do Conhecimento” (Hjørland, 2008, p. 86, tradução nossa).
A natureza epistemológica dual, dedicada aos processos e aos produ-
tos resultantes, mostra a dificuldade para deslocar o campo a outros objetos
de análise. Os produtos dos saberes não científicos, os processos não con-
vencionais de representação, as comunidades não acadêmicas e sistemas de
organização de áreas não convencionais tendem a receber menos atenção
dos especialistas, seja na pesquisa, seja na formação.
A Organização do Conhecimento, com vistas ao contínuo desenvol-
vimento teórico e conceitual, tem desenvolvido seus fundamentos teóricos
e metodológicos em constantes diálogos com outros ramos do saber como
Filosofia, Sociologia, Comunicação, Estudos da linguagem, o que precipi-
ta o surgimento de abordagens críticas.
As abordagens críticas consistem, portanto, na contestação da am-
pliação de procedimentos com critérios objetivos à representação do co-
nhecimento e ausentes de desvios. Uma das ênfases dessas abordagens recai
sobre as práticas que visam organizar e representar a informação, quando
atribuímos ou omitimos características (identitárias) aos termos escolhi-
dos (Olson, 2002), que sustentarão sub-representações não reconhecidas
Estudos críticos em organização do conhecimento
247
pelos segmentos sociais mais abastados. A outra é a suposta perspectiva da
neutralidade como prática na elaboração dos sistemas de representação do
conhecimento requisitados como condutas eficientes para a construção de
sistemas de Organização do Conhecimento (Hjørland, 2007, p. 8), re-
gulados por uma dimensão imperativa de observar e entender o mundo
(Guimarães; Pinho, 2007).
Para tanto, entendemos que ação efetiva deve ser pactuada pelo re-
conhecimento cultural e da diversidade de saberes dos grupos sociais re-
fletido nas práticas da representação ancoradas em dimensões multidisci-
plinares orientadas pelas especificidades das comunidades discursivas, as
quais são apartadas das narrativas globais e consideram a pós-modernidade
como momento de inflexão e questionamentos entres saberes (científicos
e narrativos).
Assim, há necessidade de um movimento de complementaridade,
qual seja, assim estreitar as relações com segmentos não científicos por
entender que há elementos desconhecidos, necessários para refinar as in-
terpretações dos fenômenos sociais. De modo específico, áreas de pesquisa
como Organização do Conhecimento e Ciência da Informação terão so-
mado significativas contribuições para identificar e solucionar os proble-
mas de suas pesquisas para proporcionar representações mais próximas da
realidade crível nos ambientes das comunidades de saberes:
Quanto mais ampla for a realidade credível, mais vasto é o
campo dos sinais ou pistas credíveis e dos futuros possíveis e
concretos. Quanto maior for a multiplicidade e diversidade das
experiências disponíveis e possíveis (conhecimentos e agentes),
maior será a expansão do presente e a contração do futuro.
(Santos, 2002, p. 259).
As comunidades de saberes emergentes estão conscientes do perten-
cimento de um espaço singular estabelecido por conexões e características
essenciais ao desenvolvimento de seus membros. Estas são nutridas pelas
rotinas de compartilhamento de conjunto de valores éticos, morais, reli-
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
248
giosos, socioculturais, históricos, políticos e interesses comuns em espa-
ços físicos ou virtual, categorizados socialmente. Nesse sentido, Hjørland
(2002) ressalta a importância do contexto cultural, social e histórico nas
tarefas de representação do conhecimento de um domínio face à elabora-
ção de sistemas de representação. Ademais, o domínio significa interação
e entendimento sobre um pensamento ou discurso de uma comunidade
(Hjørland; Albrechtsen, 1995), seja escolar, religiosa, agremiação, política,
seja comercial, dentre outros (Hjørland, 2004).
Entendemos o domínio para além dos segmentos da fronteira insti-
tucional e formal em direção a um universo mais amplo de trocas e com-
partilhamentos. Eles devem possibilitar entrever novas experiências acerca
da elaboração de sistemas de classificação bibliográficas, dos processos de
representação no tratamento temático da informação e dos produtos como
índices e resumos, na composição de listas de cabeçalhos de assuntos, de
tesauros, de terminologias e de ontologias (Guimarães, 2009).
Em linhas gerais, quanto à aproximação da análise de um domínio
ou dos saberes de uma cultura sub-representada, poderá descortinar expec-
tativas das comunidades discursivas em relação à constituição de represen-
tações adequadas aos seus produtos. Isso posto, ampliar-se-á a identificação
de componentes de pertencimento validados pelo grupo social da comuni-
dade de saberes e a viabilização das etapas de organização e representação
do conhecimento.
Toda confluência de garantias (literária, documental, usuário, cul-
tural) das representações arroladas por meio do vínculo científico ou ní-
vel de instrução da comunidade discursiva tem garantido a validação das
representações (Hjørland; Albrechtsen, 1995; Barité, 2010). Outrossim,
a garantia dos instrumentos de representação do conhecimento não é anu-
lada pela coexistência de formas de validação das representações por meio
das comunidades criadoras do conhecimento, como os saberes ancestrais
indígenas e dos afrodescendentes. Pelo contrário, isso complementa uma
ação regular e conectada às narrativas desses grupos, fixadas pela ligação
Estudos críticos em organização do conhecimento
249
entre os termos e a experiência, do envolvimento com o local em oposição
às perspectivas generalizantes e afastadas da realidade.
A Organização do Conhecimento deve conduzir-se pela diversidade
de espaços de produção cultural dos saberes: territórios urbanos ou rurais,
grupos étnicos e segmentos coletivos como negros, populações indígenas,
mulheres, moradores de rua, imigrantes, refugiados, homossexuais, pessoas
idosas, obesos, moradores de comunidades ou “favelas”, grupos portadores
de alguma deficiência física e ainda outros mais específicos como os ter-
reiros de Umbanda e de Candomblé, Jurema Sagrada, Bumba-meu-Boi,
Samba, Capoeira, dentre outros que compõem a cultura brasileira.
O processo mental de classificar as coisas (Cunha; Cavalcanti,
2008), como identificar, separar assuntos, ideais, coisas (Vickery, 1980, p.
23) por semelhanças e diferenças, segundo um ponto de vista, bem como
estabelecer elementos hierarquizados entre rótulos (classes e subclasses)
sobre determinado conhecimento por meio de sistemas de classificação
do conhecimento, teve ao longo do percurso teórico da Organização do
Conhecimento sustento nos princípios aristotélicos e na árvore de Porfírio,
ainda predominante para sua organização, influenciando os sistemas de
classificação atuais (Monteiro; Giraldes, 2008, p. 19)
Ao trabalhar com o conhecimento produzido pela humanidade, re-
gistrado e divulgado por meio de consenso socializado (Barité, 2001, p.
39, tradução nossa), reivindica-se ao profissional da informação identificar
a dinâmica que esse processo provoca nas comunidades autoras e na sua
diversidade. Dessa maneira, possibilita conhecer além do registrado, os ele-
mentos da subjetividade da cultura dos grupos sociais e tomar contato com
paradigmas e tradições para entender a realidade de seu território.
Ainda que cada classificação imponha o reconhecimento do mo-
mento histórico de sua origem – como na classificação dos seres próxima
das ideias de Aristóteles e de interesse de lógicos e cientistas – é relevante
a elaboração de sistemas de classificação e representação do conhecimento
para pensar seus limites. É o que observa quando se analisa sistemas em
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
250
uso, como a CDD e CDU atualizados com relativa periodicidade e a co-
bertura adequada da representação dos assuntos em determinado situação
e local.
Obviamente, os sistemas de classificação do conhecimento foram
elaborados em diversos contextos e situações históricas. Ainda assim,
muitas críticas aos sistemas têm sido recorrentes na literatura acusando as
inconsistências e sub-representações de saberes de determinados grupos
sociais. A noção de saber é a categoria adequada para compreender as
produções intelectuais de diversas comunidades, contudo a forma de
acercar-se a ele é dificultada pelas propostas metodológicas que temos
utilizado em Organização do Conhecimento para extrair informação dos
documentos ou organizar coleções.
3 REFLEXÕES SOBRE A REPRESENTAÇÃO SOCIAL DOS SABERES
Os sistemas de classificação, os processos e os produtos podem apre-
sentar elementos desalinhados com a cultura representada. No âmbito da
Organização da Conhecimento, podemos localizar reflexões e esforços de
natureza crítica à compreensão das realidades e das dinâmicas sociocultu-
rais, cada vez mais complexas, no que tange à cobertura dos sistemas de re-
presentação do conhecimento e na identificação de sub-representações do
conhecimento de grupos sociais ignorados historicamente pelas narrativas
globais. Essas diferenças de representação impõem uma postura crítica e
contrária aos discursos de cunho universalista. A cena pós-moderna inclui
mudanças culturais que demandam espaços mais reflexivos e acolhedores
(Lyotard, 1988), bem como sugere aos campos científicos refletirem sobre
suas técnicas e métodos.
Este tipo de análise, para Semprini (1999, p. 155), torna-se mais im-
portante que a “...significação estabelecida pelos enunciadores institucio-
nais (poderes públicos, forças políticas)” e na generalização imposta pela
globalização. A narrativa da nação e a ênfase na tradição que pavimenta o
Estudos críticos em organização do conhecimento
251
caminho para a identidade nacional, bem como a invenção de tradições de
uma cultura nacional e o mito fundacional são destacados por Hall (2001,
p. 52-56) como mecanismo para entender como as narrativas nacionais são
universalizantes e apagaram as expressões de grupos inteiros.
Para Rufino (2014), aproximar o fazer científico dos saberes assegura
o diálogo com conhecimentos sobre outras modalidades de experiências
no mundo:
[...] o que se pretende é a proposição de uma nova forma de
relacionamento entre os conhecimentos científicos e outras
formas de conhecimento, favorecendo não somente a superação
da monocultura do conhecimento científico, como também a
noção de que outras formas de conhecimento são opções ao saber
científico [...] (Rufino, 2014, p. 154).
Essas premissas retomam a questão sobre o fazer representacional e
a constituição de instrumentos cuja neutralidade é impossível em decor-
rência de ideologias, dilemas éticos e preconceitos culturais que interferem
direta e indiretamente na prática de representação da informação. As prá-
ticas de classificadores e de indexadores são fazeres representacionais, que
atuam na Organização do Conhecimento tido como válido e na extração
de assuntos tomados como objetivos.
A análise crítica dos sistemas de classificação visa contestar as pro-
posições metodológicas e teóricas para o reconhecimento de outras nar-
rativas em uma ação dialógica urgente entre ciência e saberes locais. Esse
processo tem sido explorado por pesquisadores da Ciência da Informação
e Organização do Conhecimento, com as produções de dossiês temáticos
de periódicos da área e a articulação de coletivos de profissionais e pesqui-
sadores negros do campo, por exemplo.
Sobre a questão da representação, observamos críticas contundentes
sobre os sistemas de classificação utilizados para representar a informação
como CDD e CDU (Afolabi, 1992; Furner, 2007; Miranda, 2007, 2009,
2011, 2019, 2020; Silva; Almeida, 2018). Esses estudos e reflexões de-
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
252
monstram que, para determinados segmentos e culturas, os sistemas não
conseguem representar seus saberes, como aqueles de origem e influência
africana no contexto brasileiro. Isso exposto, é imperativo alcançar maior
profundidade nas abordagens e construir técnicas que concebam estruturas
mais adequadas de representação dos grupos.
Ao panorama apresentado, devemos discutir ainda sobre as dimen-
sões das representações que se somam aos contornos sociais das trocas
culturais para contribuir no processo pelos quais elementos subsidiam a
validação dos termos que compõem sistemas e os produtos destinados à
Organização do Conhecimento.
Está em jogo também a própria noção de conhecimento, contrastan-
do uma entidade construída coletivamente e um fenômeno mental ocorri-
do no cérebro de um indivíduo. Para superar essa pseudodicotomia, suge-
re-se refletir acerca das representações sociais apresentadas por Moscovici
(1978, p. 26), “[...] uma modalidade de conhecimento particular que tem
por função a elaboração de comportamentos e a comunicação entre indiví-
duos”. Esse produto da representação tem relação direta com a realidade do
grupo, o qual reinscreve algo não-familiar como familiar de acordo com o
olhar dos saberes existentes. Ou seja, quando se integra um elemento novo
ao preexistente, passa-se a compor um novo senso comum, representando
algo não-familiar e tornando-o reconhecido, familiar e comum. Deve-se,
sobretudo, atentar-se para como as coletividades significam e operam as
representações (Crusoé, 2004).
Dois aspectos que podemos considerar como fundamentais ao to-
mar as representações sociais como suporte teórico e metodológico do pro-
cesso de validação. A objetivação como primeiro enfoque do processo das
representações do objeto consiste na busca da materialidade dos conceitos
ao converter o abstrato em algo representativo da realidade como uma
imagem, ou seja, não-familiar para familiar.
Essa transição para a objetivação supõe dois procedimentos funda-
mentais na abordagem de Moscovici (2003). O primeiro, a seleção e a
Estudos críticos em organização do conhecimento
253
contextualização na extração de elementos do objeto social no contexto de
surgimento, considerado aqui os aspectos contextuais aos quais o sujeito
desloca informações conforme conhecimento prévio com base em critérios
culturais. Assim, forma-se um núcleo figurativo com elaboração de um
modelo de representação dos conceitos e naturalização de elementos para a
cristalização dos conceitos, isto é, tornar-se concreto, quase palpável, pas-
sando a fazer parte da própria realidade (Santos; Almeida, 2005).
O segundo procedimento é a ancoragem, que consiste nas escolhas
para representar alguma coisa ou lugar, atribuir nome, marcação simbólica
para fixar o não-familiar. Consiste em encaixar o objeto em um conjunto
de valores ou redes de significações ou sistema de pensamentos preexisten-
tes, algo desconhecido se estabelece nas conexões com o comum (Santos,
1994; Santos; Almeida, 2005).
Desses dois procedimentos do processo das representações sociais,
poderá derivar um conjunto de categorias e classificações elencadas a partir
das significações do sujeito social – sujeito nessa concepção sempre é so-
cial - e da carga de interferência externa e interna da interação ao qual está
cercado, na perspectiva de proporcionar validação pelo grupo em relação
ao que se deseja representar. O passo inicial para esse reposicionamento é
compreender como os grupos e os saberes pensam e materializam as repre-
sentações desses conceitos.
A Organização do Conhecimento deve seguir esses macroprocedi-
mentos da teoria das representações sociais para derivar suas categorias,
classes e demais representações. Sem o aval dos saberes locais, não é possí-
vel identificar o familiar, constructo fundamental para representar a reali-
dade social e, consequentemente, os materiais de informação.
4 CONSIDERAÇÕES DERRADEIRAS
Como visto, devemos seguir a fase das representações sociais para
reforçar a abordagem crítica dos sistemas de classificação, especialmente
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
254
os universais. Objetivamos chamar a atenção para a necessidade de deslo-
camento da discussão, das comunidades discursivas, tomadas unicamente
como acadêmicas, para as comunidades de saberes locais. Os saberes como
categoria teórica mais abrangente devem tomar como fundamento a repre-
sentação coletiva objetivada nas práticas locais. Isso é fundamental para a
valorização, o reconhecimento e a própria existência de vários grupos.
Ao entender como os conceitos são agrupados e representados pelos
grupos sociais nos aproximamos das experiências dos territórios. Há uma
estreita relação entre saberes e territórios que tem sido negligenciada pe-
las perspectivas isonômicas, supostamente neutras e imparciais. Vejamos
o caso da teoria crítica da raça. Essa perspectiva tem reforçado o enten-
dimento sobre a inviabilidade de se forjar uma neutralidade das classifi-
cações e coloca-se como uma sequência de métodos destinados a refletir
criticamente sobre as questões relacionadas à raça, ao racismo e ao poder
(Delgado; Stefancic, 2021). Sendo assim, julgamos plenamente aplicável
ao cenário da informação.
Furner (2007) indica alguns passos necessários para refletir e identi-
ficar desvios nos sistemas de classificação. Em primeiro, que desenvolvedo-
res e demais envolvidos reconheçam e localizem, em seus sistemas, desvios
(sub-representações, inadequações terminológicas). Em seguida, adotar o
reconhecimento transparente quanto a não incorporação da neutralidade
para o sistema. A seguinte corrobora em certo aspecto as representações
sociais sobre a localização de expressões mediante nova coleta que denotem
relação de sentimentos e crenças daqueles usuários identificados com o
sistema. Devemos constituir e ampliar os sistemas específicos para atender
determinadas comunidades locais. Tais comunidades isoladas são subjuga-
das pelo sistema do capitalismo global, como as religiões de matriz africana
no Brasil (Umbanda, Candomblé, Tambor de Mina, Jurema Sagrada etc.).
Por fim, devemos elaborar e disponibilizar, em conjunto, critérios
que permitam às comunidades de saberes produzirem, além da valida-
ção dos termos, a avaliação dos sistemas conforme o interesse do grupo
Estudos críticos em organização do conhecimento
255
(Furner, 2007; Martínez-Ávila; Ferreira; Magro, 2015). Em outros termos,
chegamos à urgente discussão da autodeterminação cultural e representa-
cional como ferramenta para a recuperação ética da informação.
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258
PARTE II
DESCLASSIFICAR E
RECLASSIFICAR
261
9
LUTA DE CLASSES E LUTA
DAS CLASSES: DO TRIvIUM E
DO QUADRIvIUM AO DEvIR
DIALÉTICO ANTIEPISTEMICIDA
EM ORgANIZAÇÃO DO
CONHECIMENTO
Class struGGle and struGGle
of tHe Class: from tHe triVium
and tHe QuadriVium to tHe
anti-ePistemiCide dialeCtiCal
BeCominG in KnoWledGe
orGaniZation
Gustavo SALDANHA
Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia - IBICT
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-485-1.p261-286
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
262
Resumo: a proposta de reflexão aqui desenvolvida coloca em discussão as teorias críticas da
Organização do Conhecimento a partir da filosofia da linguagem, tendo como panorama
o debate sobre a estrutura do trivium e do quadrivium, as teorizações de Emanuele Tesauro
e Robert Estivals, bem como a práxis do grupo de pesquisa Ecce Liber nos experimentos
dialéticos em organização dos saberes.
Palavras-chave: teoria crítica – organização do conhecimento; trivium; quadrivium; luta
de classes; devir antiepistemicida.
Abstract: this research puts into question the critical theories in knowledge organization,
from the philosophy of language, having as an overview the debate on the structure of the
trivium and quadrivium, the theories of Emanuele Tesauro and Robert Estivals, as well as
as the praxis of the research group Ecce Liber in knowledge organization.
Keywords: critical theory – knowledge organization; trivium; quadrivium; class struggle;
anti-epistemicide becoming.
Estudos críticos em organização do conhecimento
263
1 INTRODUÇÃO
É frevo foguete / Subindo que nem a porra / [...] / Entrando
na avenida / Com seu frevo foguete / Em órbita da terra / [...] /
É isso aí meu irmão Não perca tempo / Monte logo seu sound
system satélite / Em volta da órbita da terra / E faça para toda a
humanidade / O seu carnaval.
(Baiana System, 2010).
A “crítica” na Organização do Conhecimento possui uma longa tra-
jetória se considerados os fundamentos filosóficos do que se problematiza
e do que se enxerga na paisagem científica e social quando enunciamos
tal expressão – “organização do conhecimento”. Nós podemos abordar a
crítica” a partir de “rupturas epistemológicas” de ordem histórica, ampla-
mente rediscutidas na doxografia epistemológica, como a ruptura com o
mito; a ruptura com a metafísica; a ruptura com a neutralidade do método
(ou, a partir de um dos consagrados modos de interpretação epistemoló-
gica, o movimento sociocrítico contra o positivismo). Nesse último caso,
as duas categorias, que compõem a expressão que nos identifica hoje no
cenário internacional, a saber, “organização” e “conhecimento”, podem ser
justamente objeto dessa ruptura.
A noção de “organização”, do ponto de vista do método iluminis-
ta-positivista (para reunir aqui o desdobramento de uma macromodelar
epistemologia da Física para sua aplicação matemático-estatística nas ci-
ências humanas), pode ser reconhecida como estrutura clássica da forma-
ção positivista de uma futura “organização do conhecimento” (pós-século
XVIII). Pelo termo, ou seja, pela ação enunciada pelo verbo “organizar” e
sua substantivação, não se busca, nesse sentido epistemológico-histórico,
outra operação que não a demarcação espaço-temporal de uma ordem ar-
bitrariamente tecida por uma superestrutura (fundada em um ethos domi-
nante) que, como produtos, encontra classificações internacionais desde o
século XIX – que estará sustentado pelo quadrivium, como mais à frente
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
264
veremos. Essa superestrutura será basicamente a religião (mesmo perante
o Iluminismo), incluindo a “religião científica”, o positivismo e sua igreja.
Por “conhecimento”, por sua vez, não se considera, nessa paisagem
epistemológica, os saberes em sua dimensão local e em transformação.
“Conhecimento” representará, como em uma cadeia mecânica não só
espelhada, mas fundacional do Iluminismo, a construção de uma visão
de ciência estável, neutra e salvacionista – ou religiosa -, como uma ar-
quitetura perspectivista, em sua proporção áurea. Em outros termos, o
que se diz “conhecimento” na expressão “organização do conhecimento”,
repousa na historicidade da própria fundamentação do positivismo, a
organização do conhecimento como uma das máquinas de afirmação da
própria ciência positivista.
Deste modo, dado o panorama epistemológico-histórico, partimos
do pressuposto de que as teorias críticas em Organização do Conhecimento
se constituem socialmente como uma crítica ao positivismo e, posterior-
mente, ao estruturalismo (talvez a característica mais marcante nas cor-
rentes recentes orientadas para as fraturas interseccionais dos sistemas de
Organização do Conhecimento).
Na raiz, porém, dessas macrocorrentes epistemológicas, está a in-
fraestrutura do trivium e do quadrivium (luz e sombra do Iluminismo).
As “reviravoltas” nos modos de interpretar e aplicar essas duas formações
clássicas do pensamento ocidental (presentes também, sob diferentes con-
figurações no pensamento oriental), permitem, a nosso ver, entender os
sentidos da “crítica” quando enunciamos o conceito “crítica” no solo da
Organização do Conhecimento e quando agimos na e pela sua práxis.
Essa reflexão parte, pois, das condicionantes socioteóricas apon-
tadas até aqui, para refletir o desenvolvimento das teorias críticas em
Organização do Conhecimento entre as estruturas do trivium e do quadri-
vium, junto dos aportes epistemológico-históricos de Emanuele Tesauro
e Robert Estivals, como recorte de fundamentação selecionada em razão
dos resultados dos projetos que desembocam neste texto. O estudo igual-
Estudos críticos em organização do conhecimento
265
mente procura, a partir da experiência do grupo de pesquisa “Ecce Liber:
filosofia, linguagem e organização dos saberes”, indicar os caminhos do
grupo nesse percurso dialético, descrevendo as movimentações do coletivo
sob as abordagens críticas. A proposta parte, ainda, do reconhecimento
de um longo caminho de reflexões em teoria crítica da organização do
conhecimento, o que permite um caminho sólido para o desenvolvimen-
to da reflexão dialética, tendo como referências a trilha de análises como
de Antonio García Gutiérrez, Hope Olson, Maria Nélida González de
Gómez, Maria Aparecida Moura, Melissa Adler, José Augusto Guimarães,
Daniel Martinez-Ávila, Rosa San-Segundo, Carlos Cândido de Almeida,
Fabio Pinho, dentre outras fontes que nos conduzem a um vasto potencial
de fundamentação sociocultural do gesto classificatório.
A estrutura teórica da reflexão tem como base a crítica da linguagem
presente na obra do filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein, centralmente,
nas reflexões presentes nas obras “Tratado Lógico-filosófico”, “Investigações
filosóficas”, “O livro azul”, “O livro castanho”. A problemática aqui discu-
tida tem relação direta com o conjunto de pesquisas oriundas das reflexões
sobre lógica e discursividade ordinária, presentes na obra wittgensteiniana.
No plano objetivo dos projetos que permitem a construção dessa re-
flexão, a discussão aqui desenvolvida advém de três projetos intercruzados,
elaborados e aplicados entre 2019 e 2021, no Brasil, e no contexto do Ecce
Liber, a saber:
“Epistemologia histórica da Ciência da Informação e Organização
do Conhecimento: dos fundamentos filosóficos da linguagem à
teoria crítica da classificação”, sob financiamento da Bolsa de
Produtividade em Pesquisa do CNPq;
“Organização dos saberes no domínio de povos e comunidades
tradicionais do Brasil: linguagens, tecnologias, instituições infor-
macionais e integração pragmática de dados”, sob financiamento
do Edital Universal 2018 do CNPq;
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
266
“Linguagens documentárias fluminenses para a inovação:
Organização do Conhecimento para ciência, cultura e sociedade
no Estado do Rio de Janeiro”, sob financiamento da Faperj no
edital Jovem Cientista do Nosso Estado.
Está em questão nesses projetos justamente reflexões que procuram
reconhecer o papel crítico-político da Organização do Conhecimento na
realidade social.
2 trivium E Quadrivium: A FORMA DA METARREPRESENTAÇÃO NO
ESPAÇO E NO TEMPO
Quando examinamos estas formas simples de linguagem, a névoa
mental que parece encobrir o uso habitual da linguagem desaparece.
Descobrimos atividades, reações, que são nítidas e transparentes.
Por outro lado, reconhecemos, nestes processos simples, formas
de linguagem que não diferem essencialmente das nossas formas
mais complicadas. Apercebemo-nos da possibilidade de construir
as formas complicadas pela adição gradual de novas formas a partir
das formas primitivas (Wittgenstein, 1992a, p. 47).
Partimos do pressuposto que o trivium e o quadrivium constituem
os pontos de partida e de chegada da crítica que se constitui sob e sobre
a Organização do Conhecimento – a forma da linguagem que nos funda.
O trivium constitui a estrutura das artes liberais da linguagem, com gra-
mática, com retórica e com lógica (Joseph, 2008). O quadrivium, por sua
vez, integra as teorias do espaço (geometria), e sua aplicação (astronomia),
e do número (matemática), e sua aplicação (música). Uma outra forma
de dizê-lo seria sintetizar essa afirmação da identidade epistemológica da
Organização do Conhecimento como fundada nas duas grandes categorias
kantianas do tempo e do espaço: é a partir desse caminho que podemos
socio-historicamente compreender a construção das ideias e a crítica das
Estudos críticos em organização do conhecimento
267
ideias dentro da Organização do Conhecimento. O horizonte das artes
liberais está na expressão da ordenação do real, integrante os valores da
Verdade, da Beleza e da Bondade para constituir o valor de essência e de
harmonia da Totalidade.
Com Otlet (1934), conseguimos adentrar de modo preciso a
condição do trivium e do quadrivium nos estudos de Organização do
Conhecimento desde o Iluminismo (não com produto do século XVIII,
mas como acúmulo das transformações do tomismo, desde o século XIII)
sem recorrer à necessidade da vasta revisão histórica da estrutura que tem
início no pitagorismo (ou seja, podemos encontrar já na Filosofia Pré-
Socrática os preceitos de uma configuração pedagógico-científica – ensino
para busca da verdade – balizada pelas relações entre as artes da linguagem
e as artes do espaço-tempo).
Paul Otlet nos reconduz ao Fedro de Platão para tecer a crítica e o
contraponto da crítica à linguagem. A posição otletiana nos permite iden-
tificar a fundação de nossa filosofia – antes de nossa epistemologia – no
clássico diálogo platônico sobre o problema da linguagem na cidade, ou,
mais precisamente, na democracia grega na Antiguidade. Otlet (1934)
compara o nascimento da Documentação, voltado à tentativa de ordena-
ção da massa de documentos da Modernidade tardia, à confusão concei-
tual provocada pelos retóricos na Grécia clássica, e derrotados, segundo
sua visão, por Aristóteles. O bibliólogo reconhecerá, contudo, a Retórica,
assim como o Fedro e a própria Poética de Aristóteles – no mínimo, aceitará
uma “retórica positiva”, que fundaria a “retórica bibliológica”.
Otlet (1934) recorre amplamente ao trivium, ou seja, à divisão
clássica das artes da linguagem, isto é, é através das próprias artes que o
advogado belga nos leva aos indícios da enorme sombra do trivium na
organização do conhecimento”. A retórica é um recurso permanente na
construção otletiana. O pesquisador discute instinto e experiência, apro-
ximando-se de Nietzsche e do reconhecimento da retórica que concebe da
linguagem e da performance. A lógica – método da verdade – e a gramá-
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
268
tica – construção de símbolos para comunicação -, complementam-se na
estrutura do pensamento de Paul Otlet e podem ser empiricamente ob-
servadas e testadas na construção e na conclusão da Classificação Decimal
Universal. Retórica, gramática e lógica juntam-se “sociocientificamente” à
Documentação” (Otlet, 1934).
Por sua vez, os esquemas e a visualização do conhecimento, em
Otlet (1934), colocam-nos objetivamente diante do quadrivium, ou seja,
a Organização do Conhecimento como um imbricamento histórico fru-
to das metodologias do espectro do quadrivium na experiência científica
desde o Iluminismo. Da esfera das listas aos construtos de visualização de
dados em sua complexidade digital, o espaço e matematização (numera-
tização ou digitalização) do conhecimento encontram nos construtos da
Organização do Conhecimento do passado, do presente e do futuro.
Conforme Martineau (2014), as quatro artes liberais clássicas do
quadrivium, Aritmética (Matemática), Geometria, Música e Cosmologia
(Astronomia) compõem a investigação dos padrões nos céus, via método
dos números inteiros. Trata-se de uma configuração metodológica via lin-
guagens universais – ou linguagens formais da matemática, ou ainda, as
“linguagens mentais”, fundamentadas na lógica.
Apagada na discursividade histórica da Organização do
Conhecimento, a categoria (junto do seu método e de sua aplicação) do
quadrivium está presente na formalização (no sentido da teoria formal,
analítica e estatística) que aproxima e sobrepõe as relações entre as metrias
informacionais e a sistemática (a teoria dos sistemas específica do gesto
classificatório) fundante da Organização do Conhecimento. São exemplos,
o método da lista estrutural (presente nos vocabulários controlados), das
hierarquias (presente desde os primeiros sistemas bibliográficos), do espe-
lho semântico (presente na estrutura dos primeiros glossários, monumen-
talizado na relação verbete-acepção da Encyclopédie), chegando até às com-
plexas relações tesaurianas (desde Emanuele Tesauro, no século XVII) aos
espectros de uso de sistemas web de relações entre termos. Nesse instante, a
Estudos críticos em organização do conhecimento
269
música reencontra a gramática, a gramática reencontra a retórica, a retórica
reencontra o número, e as disciplinas “liberais” do trivium se entrelaçam
com as quatro ferramentas do quadrivium.
Esse caminho, pois, faz, a partir de correntes do “mil e seiscentos”,
a abertura para uma interpretação do trivium e do quadrivium como re-
construção hermenêutica da epistemologia-histórica da Organização do
Conhecimento, pois podemos, ali e hoje, com o uso do termo “ontologia
para fins de sistemas bibliográficos online, por exemplo, perceber que é jus-
tamente em cima da estrutura dos elos das duas figurações científicas (tri-
vium-quadrivium), costurando retórica e espacialidade, gramática e lógica,
numeratização (digitalização) do real e discursividade da vida social. Aqui
as teorias críticas da Organização do Conhecimento avançam na reflexão
sobre os saberes e suas interseccionalidades. É, pois, no século XVII, sob
uma teoria barroca da Organização do Conhecimento, quando acredita-
mos surgir o solo das raízes dialéticas das teorias críticas do domínio aqui
discutido.
3 TESAURO, INvENTOR DE MUNDOS: O BARROCO, A NEBULOSIDADE E O
ESPELHO
Quando posicionamos os modelos epistemológicos e as inovações
técnicas diante do contexto sociopolítico de vivência dos atos
classificatórios, reconhecemos uma instabilidade constante do
sentido, posicionamo-nos diante do espelho turvo. Ele, pois,
não é “o” problema. O caos não está na nebulosidade. (Saldanha;
Fernandez, 2017, p. 23).
A investigação epistemológico-histórica em Organização do
Conhecimento tecida no grupo de pesquisa Ecce Liber levou à consti-
tuição do Círculo de Estudos Tesaurianos, dedicado ao pensamento de
Emanuele Tesauro (1670) e sua filosofia barroca. O Círculo constitui-se
centralmente a partir do diálogo e interesse comum das pesquisas de Rosali
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
270
Fernandez de Souza, Naira Silveira, Tatiana de Almeida, Giulia Crippa,
Maria Helena Silva, Vinícios Menezes.
Destacam-se aqui as publicações e o exercício de tradução a seguir:
SALDANHA, Gustavo S.; SOUZA, Rosali F. Teoria barroca da
organização do conhecimento: Emanuele Tesauro e o espelho
turvo das tensões entre epistemologia, metodologia e sociedade.
Informação & Informação (Online), v. 22, p. 11-32, 2017.
SALDANHA, Gustavo S.; ALMEIDA, Tatiana; SILVA, Maria
Helena T. Emanuele Tesauro nos trópicos: caminhos de uma tra-
dução e crítica teórico-histórica em organização do conhecimen-
to. In: IV Congresso ISKO España-Portugal, 2019, Barcelona.
Anais do IV Congresso ISKO España-Portugal, 2019.
ALMEIDA, Tatiana; SALDANHA, Gustavo S. Epistemic loci:
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nization. In: 15th International ISKO Conference, 2018,
Porto. Anais da 15th International ISKO Conference. Porto:
Universidade do Porto, 2018. v. 1. p. 1-15.
SALDANHA, Gustavo S.; SILVEIRA, Naira C.; CRIPPA,
Giulia; ALMEIDA, Tatiana. Who is Tesauro? e man, the
words and the things. In: 15th International ISKO Conference,
2018, Porto. Anais da 15th International ISKO Conference.
Porto: Universidade do Porto, 2018. v. 1. p. 1-15.
A teoria barroca que irá repercutir em Emanuele Tesauro (1670),
que nos permite ao vasto diálogo com a futura teoria queer, aponta estru-
turalmente para o “formato anômalo” do real, ou irregular, ou estranho,
ou fora do comum, ou ainda, singular em suas subjetividades múltiplas e
dinâmicas. A partir de sua Luneta Aristotélica, Emanuele Tesauro (1670)
revisita a lógica, a gramática e a retórica, recolocando o trivium a serviço
Estudos críticos em organização do conhecimento
271
da representação e da visualização das ideias. Porém, para além dessas duas
direções, outra se destaca: a descoberta de novos conhecimentos.
Figura 1 - Capa
Fonte: TESAURO, E. Il Cannocchiale Aristotelico. Berlin: Verlag Gehlen; Zürich: Bad Homburg, 1670.
A pluralidade de saberes e formas de saber (métodos não-analíticos
fechados), abre para Tesauro (1670) os caminhos para a construção de
seu Índice Categórico como modo de metarrepresentação do mundo. Em
outras palavras,
A cumulatividade das linguagens e das coisas e a capacidade de
significar dessas instâncias como marcas do Barroco inspiram
diretamente o pensamento de Emanuele Tesauro. A figura da
alegoria no diálogo com as Categorias e a Retórica aristotélicas terá
lugar central em sua tentativa de, no plano da linguagem, abrir as
possibilidades de uma visão formal e precisa do mundo e compreender
as dinâmicas variáveis de construção/ ou na construção do sentido.
Transposta ao longo do decurso de luta por uma positivação do real
representado, ou, ainda, da invenção do real através da representação,
encontramos essa manifestação na construção de uma teorização e de
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
272
uma metodologia para as práticas de organização e de representação
do mundo das palavras e das coisas nos últimos 400 anos. (Saldanha;
Fernandez, 2017, p. 18-19).
Via teoria do conceit (presunção, projeção da imaginação, poie-
sis, abertura de sentido), e não uma teoria do concept (conceito), Tesauro
(1670) abre o caminho para uma teoria não-binária da Organização do
Conhecimento, aberta à diversidade das ideias na e para linguagem, atin-
gindo diretamente os focos reflexivos de uma futura discursividade in-
terseccional da metarrepresentação, presente, por exemplo, na obra de
Guimarães e Pinho (2007), de Pinho (2014), Hope Olson (2011), de
Martínez-Ávila, Daniel, Semidao e Ferreira (2016), de Adler (2017), de
Maria Aparecida Moura (2018, 2021).
O exercício tesauriano é, pois, uma abertura para a criticidade em or-
ganização do conhecimento por conta do pensamento “turvo” do Barroco
em sua obra e as experiências do seu método.
Todo esse processo se constitui, assim, como parte do cotidiano
das futuras tentativas de construção teórico-(meta)metodológica da
OC: recorrer a Aristóteles, projetar os exercícios de categorização,
representar coisas, processos e palavras, eliminar a nebulosidade
das sobreposições semânticas da vivência do mundo social e de
suas disputas simbólicas (usando, ironicamente, seus mesmos
processos de hierarquização, de isolamento, de agrupamentos
arbitrários), eis construtos comuns no contexto pós-Tesauro. Uma
teoria barroca se coloca, pois, na centralidade do pensamento em
OC [organização do conhecimento], diante do espelho turvo da
realidade sociopolítica. (Saldanha; Fernandez, 2017, p. 19).
É esse caminho que nos leva à compreensão das condicionantes his-
tóricas e sociopolíticas da construção da Organização do Conhecimento,
desde ali iluminando a fundação turva das classificações, ou seja, identifi-
cando falsa linha de fuga do real produzido pela, na e para linguagem – ou,
apenas, o espelho da realidade em sua dinâmica viva, não perspectivista.
Uma pretensa “imperfeição” dos regimes simbólicos que “representariam
Estudos críticos em organização do conhecimento
273
o real “perfeito” é desanuviada: a “imperfeição” (o turvo, o estranho, o
extravagante, o queer) é a condição da própria plurivocidade dos sentidos
do mundo (Saldanha; Fernandez, 2017), ou a vida em sua ordinariedade
da linguagem, como a pragmática wittgensteiniana (Wittgenstein, 1979,
1992a, 1992b, 2002).
A metodologia tesauriana encontrará, pois, no século XX, uma lista
de potenciais nós para conexão com as aberturas de sua teoria do conceit.
Umberto Eco (1984) relaciona o pensamento de Tesauro como uma das
sólidas fundações da semiótica, permitindo um elo com diferentes formas
de compreensão semiológica em Organização do Conhecimento – como a
reflexão dos estudos de Carlos Cândido Almeida (2011).
Como síntese dessa posição, via uma epistemologia histórica, os
cinquenta anos de produção teórico-crítica e aplicada de Robert Estivals
(Saldanha, 2018) na França nos permite chegar, a partir dos anos 1960, no
coração da crítica entre trivium e quadrivium, pela exploração intensiva do
conceito de esquema como cofundador da Organização do Conhecimento.
Aqui o devir dialético do gesto classificatório parece atingir um dos grandes
cumes de reflexão crítica, trazendo o signo ao esquema e o esquema ao
mundo das lutas sociais.
4 O ESQUEMA REvOLUCIONáRIO: AS CLASSES EM LUTA NA TEORIA
CRÍTICA ESTIvALSIANA DA ORgANIZAÇÃO DO CONHECIMENTO
I have developed an epistemic foundation that serves as a basis for
my perspective. e assumptions under which I operate are: - I am
skeptical of universal applications; - I doubt the validity of universal
one-size-fits-all goals; - I mistrust pre-defined values; and - I am
suspicious of findings that are overly uniform. It boils down to
question everything” Questioning and critiquing are not the same
as rejecting and criticizing. Given the power of classification and
other instruments of knowledge organization (KO), I believe that
researchers have a responsibility to reveal what is behind/beneath
our practice. (Olson, 2018, p. 491).
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
274
Se a teoria do conceit em Emanuele Tesauro (1670) nos coloca na
centralidade da relação entre metáfora e imagem, chegamos de modo mui-
to direto, do trivium ao quadrivium, ao território dos esquemas. A pro-
posição de imagens aponta para a figuração do real (nossa capacidade de
apreensão, de seleção, de separação, de ordenação, de uso das estruturas
materiais do mundo). O processo de esquematização do real é, pois, um
coprocesso de constituição do próprio real.
Essa teorização acima encontra em Robert Estivals uma longa tra-
dição de reflexão com foco no horizonte crítico. Tal posição do papel das
“imagens” de mundo na Organização do Conhecimento poderá tam-
bém ser observada na grande obra crítica de García Gutiérrez (2011) e
em Frohmann (1990), como na busca histórica pelo esquema-síntese, em
Otlet (1934), e suas condições políticas, em González de Gómez (1996).
Com Estivals (1968), funda-se uma escola de pensamento orien-
tada para filosofia e práxis do esquema, ou, objetivamente, a esquemato-
logia – dentro da Documentação. A partir de 1968, via revista Schéma et
Schématisation, posteriormente Revue de Bibliologie: schéma et schématisa-
tion, o grupo liberado por Robert Estivals procura recolocar a cientifici-
dade do gesto documentalista no coração dos dilemas sociais. Destaca-se
no movimento a argumentação materialista histórica e a crítica social
como estrutura da epistemologia do campo informacional a partir do
conceito de esquema.
“Esquema” pode ser considerado, nesse sentido, o conceito nucle-
ar, o principal conceito da Organização do Conhecimento. Os estudos
esquematológicos nos levam à diferenciação do scheme e do schèma, ou
seja, figurações mentais e figurais materiais (visuais), respectivamente. Em
ambas as dimensões, a construção social do esquema é refletida. Das for-
mações mentais ao mundo da meterrapresentação dos saberes, o esque-
ma está inserido em toda a construção epistemológica da Organização
do Conhecimento como forma de luta, estabelecendo o elo integral entre
trivium e quadrivium não fora, mas dentro das estruturas desiguais (não
Estudos críticos em organização do conhecimento
275
perspectivistas) da ordinariedade da realidade social, em que impera a in-
justiça e o modelo liberal de opressão.
Como evoca Popov (1977), via Robert Estivals, desenvolve-se a re-
flexão sobre a relação entre esquema e epistemologia do campo – denomi-
nado ali Bibliologia – no âmbito da análise das manifestações das classes
médias, como o motor da história e da regulação do sistema. Na produção
teórica, pode-se encontrar o discurso sociocrítico do coletivo esquemato-
lógico da Revue de Bibliologie, por exemplo, de modo direto, em Estivals
(1970), no próprio Popov (1977) e em Martin (1979).
Em “Luttes de classe et schématisation”, Robert Estivals (1978) nos
abre os caminhos para compreensão do jogo de “luta de classes” no plano
da abordagem marxiana, via diretamente o materialismo histórico, a “luta
das classes” e a dialética social aplicada à compreensão da dinâmica da
construção esquemática do real nas classificações bibliográficas.
Em outros termos, uma leitura crítica da Organização do
Conhecimento à luz da rede trivium-quadrivium é agora permitida, de
modo direto, pelas lentes das contradições do regime capitalista: os esque-
mas, dos mentais aos visuais, conformam o mundo. Estes esquemas são os
mesmos que estabelecem as políticas de Organização do Conhecimento, as
teias de classificações, suas pretensões universais e a máquina de opressão e
de injustiça que seu movimento provoca na realidade. São ferramentas de
exclusão e de silenciamento, de massacre e de violência simbólica – como
também será observado em diferentes configurações das teorias críticas em
Organização do Conhecimento, ou seja, por exemplo, em Melissa Adler
(2017) e Hope Olson (2011, 2018).
A luta das classes nos sistemas de Organização do Conhecimento
dentro, sob e sobre a luta de classes na materialidade da vida social con-
voca, pois, as experimentações nas e por múltiplas teorias críticas da orga-
nização dos saberes (para muito aquém e muita além do “conhecimento
positivado” do Iluminismo), como procuramos demonstrar a seguir pela
via das experimentações transgramaticais do Ecce Liber.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
276
5 EXPERIMENTÕES TRANSgRAMATICAIS: O ECCE LIBER, O
TRIvIUMLAB E A ORgANIZAÇÃO ORDINáRIA DOS SABERES SOCIALMENTE
OPRIMIDOS
Le schématisme [...] réduit à une théorie formaliste, n’était-il pas
une expression de la société libérale, une manifestation nouvelle de
celle-ci, dans le cadre des travaux actuels sur la communication?
(Estivals, 1978, p. 5).
Como revelar a relação científica entre as linguagens esquemáticas
(todos os sistemas de Organização do Conhecimento) e a sociedade que as
concebem, visto que socialmente constituídas são, perguntava-se Robert
Estivals (1978) em sua reflexão sobre as lutas de classe e a esquematização
no final dos anos 1970. A partir dos pressupostos discutidos aqui, desde
2011, o grupo de pesquisa “Ecce Liber debate: filosofia, linguagem e orga-
nização dos saberes”, constituído entre o Instituto Brasileiro de Informação
em Ciência e Tecnologia (IBICT), a Universidade Federal do Estado do
Rio de Janeiro (Unirio), em parceria com a Universidade Federal do Rio
de Janeiro (UFRJ), tece a procura do mesmo horizonte no território brasi-
leiro. O percurso tem como resultado debates teóricos e experimentos no
escopo da organização dos saberes como exercício orientado para a com-
preensão e aplicação das teorias críticas da Organização do Conhecimento.
Sob a condição entrelaçada do trivium e do quadrivium, a categoria de
transgramáticas é tecida. Joseph (2008, p. 27) nos ensina que a gramática re-
presenta a arte da linguagem que trata da “coisa-tal-como-ela-é-simbolizada”.
Pelo prefixo latino trans, que vem significar o “através”, o
movimento para além de”, “posição além de”, buscamos construir
a noção de uma teia de gramáticas que procuram, a partir de uma
linguagem específica, emancipar esta linguagem e construir elos
entre esta e as demais linguagens existentes. A partir da noção de
transgramáticas, podemos estabelecer “categorias de regramatização
fundadas no devir metainformacional do organizador dos saberes
(Saldanha, 2012, p. 37).
Estudos críticos em organização do conhecimento
277
Trata-se de um “quase-conceito” voltado para o exercício de preser-
var, de reconstituir, de provocar, de fazer comunicar o “universo simbólico
dos saberes e suas transversalizações. Seus polos são: educação, comunica-
ção, política e poiesis (criação). Os processos de transgramatização desem-
penhados na organização dos saberes fundamentalmente compreendem a
Organização do Conhecimento como ato político, donde a urbes transver-
salizada pelas teias de acesso aos saberes é permitida e potencializada pela
transgramaticalização, constituindo metacidades (cidades de cidades en-
trelaçadas dentre cidades). (Saldanha, 2013). Estas sobre-camadas podem
assim ser definidas.
[...] “metacidades”: as transgramáticas ora estabelecem vias de acesso
aos indivíduos de uma língua de especialidade, ora criam trilhas que
conduzem esta língua até as comunidades heterogêneas. Há que se
perceber que na OS não podemos nada além das metalinguagens;
estamos “retidos” dentro das camadas intradiscursivas de uma
realidade” que só existe por acontecer enquanto força simbólica
(Saldanha, 2012, p. 415).
Os exercícios de transgramaticalização na polis do Ecce Liber le-
vam à criação do “TriviumLab: laboratório de transgramáticas”, em 2016,
junto à exposição “Ecce Liber em Cena”, realizada no Centro de Ciências
Humanas e Sociais (CCH), da Unirio, no Município do Rio de Janeiro,
em abril do mesmo ano. São fruto do TriviumLab o “Liber Lexicon:
linguagens em filosofia da informação e epistemologia da Ciência da
Informação”, bem como o observatório das teorias críticas em Organização
do Conhecimento, ou, O²S²O.sat, satélites em organização ordinária dos
saberes socialmente oprimidos. As figuras 2 e 3 apresentam a página prin-
cipal das fontes abertas de produção manifestas pelo TriviumLab na web.
Essa é a procura transgramatical que o coletivo ecceliberiano procura tecer
desde então nas atividades de ensino, pesquisa e extensão.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
278
Figura 2 - Página principal do Liber Lexicon: linguagens em filosofia da
informação e epistemologia da Ciência da Informação
Fonte: Ecce Liber -TriviumLab - https://www.lexiconecceliber.org/
Sob influência de Emanuele Tesauro e Robert Estivals, a proposta do
Liber Lexicon é experimentar linguagens com foco em filosofia e epistemo-
logia que nos une na construção de pressupostos de constituição do cam-
po. O primeiro experimento resultou no Capurrianas, glossário dedicado
às ideias da obra filosófica de Rafael Capurro.
Figura 3 - Página principal do portal O²S²O.sat, satélites em organização
ordinária dos saberes socialmente oprimidos
Fonte: Ecce Liber -TriviumLab - https://www.osoecceliber.org/
Estudos críticos em organização do conhecimento
279
O observatório das teorias críticas da Organização do Conhecimento
é fruto de uma procura, desde Emanuele Tesauro, das teorias críticas que
constituem o campo informacional, com foco na reflexão sobre a construção
ordinária de metalinguagens sobre saberes oprimidos na realidade social.
Respondem ainda por essa trajetória de experimentações, dois dossi-
ês resultantes do trabalho de discussão e de investigação das teorias críticas,
a saber:
1. Dossiê Organização do Conhecimento e gênero, publicado na
Revista Informação & Informação, da Universidade Estadual de
Londrina (UEL), em maio de 2017, sob organização de Rosali
Fernandez de Souza e Gustavo Saldanha. Aqui, processos, práti-
cas, instrumentos, teorias e métodos foram debatidos nos cons-
trutos de metarrepresentações de gênero, atraindo e comparti-
lhando pesquisas de verticalização em dadas conformidades das
relações entre as linguagens documentárias e o universo social.
2. Dossiê “Organização do Conhecimento: agendas sociopolíticas
e seus conflitos históricos”, sob organização de Rosali Fernandez
de Souza, Luana Sales e Gustavo Saldanha. O dossiê foi pu-
blicado na Liinc em Revista, periódico do Instituto Brasileiro
de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT), em seu vo-
lume 14, número segundo, procurou reunir pesquisas orienta-
das para as pluralidades das teorias críticas da organização do
conhecimento.
Destacamos a experiência do último dossiê como uma das principais
tentativas de integração, discussão e visibilidade das diferentes linhas de
reflexão crítica em Organização do Conhecimento. Contando com a en-
trevista à pesquisadora Hope Olson, realizada por Daniel Martinez-Ávila,
Gustavo Silva Saldanha, Rosali Fernandez de Souza e Luana Sales, o dossiê
colocou em debate as grandes categorias críticas, a saber:
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
280
Organização do Conhecimento entre ciência e sociedade;
as dimensões sociopolíticas da classificação;
abordagens dialógicas da Organização do Conhecimento;
tecnologias da informação e da comunicação e as agendas socio-
políticas emergentes;
diversidade cultural e os instrumentos de recuperação da in-
formação e gestão do conhecimento: tesauros, esquemas de
classificação, taxonomias e outros modelos de Organização do
Conhecimento;
web semântica e sistemas de Organização do Conhecimento: on-
tologias, linked data, SKOS, linguagens de representação (RDF,
OWL, RIF, EARL);
tecnologias da informação e da comunicação, mutações da web
(internet das coisas, big data);
modelagem e modelização do conhecimento em cenários de
conflitos sociais;
indexação social, folksonomia e representação da alteridade;
representação do conhecimento e decolonialidade;
desclassificação e epistemologia crítica da Organização do
Conhecimento;
métodos e técnicas de Organização do Conhecimento orienta-
dos para a transformação social;
ética na, para e da Organização do Conhecimento;
movimentos sociais, interseccionalidades e abordagens alternati-
vas de representação do conhecimento;
gênero e organização do conhecimento; ações afirmativas e orga-
nização do conhecimento.
Estudos críticos em organização do conhecimento
281
Fruto ainda das experimentações, dentre outras configurações de de-
bate, destacamos para essa reflexão os estudos realizados sobre as metalin-
guagens em produção na direção do mal, diante dos assassinatos, discursos
da e contra a deputada do Município do Rio de Janeiro, Marielle Franco,
entre 2018 e 2019. A partir dos estudos de Franciele Silva, Graziela Lima,
Dirnele Garcês, Natália Romeiro e Gustavo Saldanha, foi realizada a pes-
quisa sobre a produção discursiva dos ataques à figura pública feminina
negra de Marielle, assassinada em março de 2018, via as publicações:
SALDANHA, Gustavo S.; SILVA, Franciele C. G.; LIMA,
Graziela S.; GARCES, Dirnele C.; ROMEIRO, Nathalia. O as-
sassinato de Marielle Franco e os algoritmos racistas: dimensões
aplicadas da teoria crítica da organização do conhecimento. In:
IV Congresso ISKO España-Portugal, 2019, Barcelona. Anais
do IV Congresso ISKO España-Portugal, 2019;
SALDANHA, Gustavo S.; SILVA, Franciele C. G.; LIMA,
Graziela S.; GARCES, Dirnele C.; ROMEIRO, Nathalia. Quem
matou Marielle? Organização do conhecimento e os caminhos do
tesauro do mal. In: ENANCIB XIX, 2018, Londrina. Anais do
XIX Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação
(XIX Enancib), 2018.
Desdobram-se desses estudos, práticas na comunidade ecceliberia-
na em ensino, pesquisa e extensão orientadas para as teorias críticas em
Organização do Conhecimento. Essas ações são compreendidas, no laço
entre teoria e aplicação, como práxis experimental da criticidade social de
nosso gesto classificatório, mobilizando mentalidades, compartilhando
métodos e técnicas e mirando horizontes críticos de intervenção na cidade
viva e opressora.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
282
6 trivium E Quadrivium INCONCLUSOS: CONSIDERAÇÕES FINAIS
O que vão dizer de nós? / Seus pais, Deus e coisas tais / Quando
ouvirem rumores do nosso amor?
(Hooker, 2017).
Para debater a pluralidade e a solidez das teorias críticas em
Organização do Conhecimento, a proposta dessa reflexão estabeleceu
uma relação teórica entre a epistemologia histórica da Organização do
Conhecimento, via estrutura do trivium e do quadrivium e as fundamen-
tações de Emanuele Tesauro e Robert Estivals, até chegar ao solo de expe-
rimentações do grupo de pesquisa Ecce Liber.
Da metafísica da lógica convertida em números e da proporção áu-
rea das formas geométricas, bem como do mundo simétrico da natureza
essencializada, observa-se a construção de um modo lógico-arquitetônico
de fundamentação da Organização do Conhecimento pela via positivista.
Esse exercício já encontra, desde o século XVII, uma outra fundamentação
para nos levar ao universo da pluralidade e da paisagem “impura”, que-
er”, diferente e aberta à transformação, segundo o pensamento barroco de
Emanuele Tesauro.
O segundo caminho nos leva às teorias críticas em Organização do
Conhecimento – mais especificadamente, ao reconhecimento, à visibili-
dade e à construção da organização dos saberes. O mundo das digitalida-
des, ao contrário de renunciar e/ou abandonar os dilemas do trivium e do
quadrivium, justamente se estabelece sob suas estruturas. Espaço e tempo
numeratizados reencontram, pois, os dilemas silogísticos, e a multiplicida-
de dos problemas socioculturais que a luneta tesauriana enfrentara desde
o Seiscentos.
Nossa reflexão sintetiza esse debate com algumas categorias que cir-
culam as reflexões ecceliberanias entre educação, comunicação, política e
poiesis no observatório da organização ordinária dos saberes socialmente
oprimidos, a saber:
Estudos críticos em organização do conhecimento
283
Algoritmos racistas;
Vulnerabilidade informacional;
Decolonialidade classificatória;
Democracia documentária;
Devir antiepistemicida.
Essas são categorias relevantes, dentre tantas outras apresentadas pela
literatura crítica em Organização do Conhecimento, lançadas aqui como
provocações a exercícios de operacionalização com vistas à transformação
social e à luta contra as desigualdades pela via das lentes teórico-metodo-
lógicas do gesto classificatório, na permanente passagem do conhecimen-
to aos saberes. Trata-se de observar a luta das classes em Organização do
Conhecimento como luta contra o epistemicídio constituído pelas próprias
estruturas da mesma Organização do Conhecimento. Em outras palavras,
a questão “como estabelecer o ‘político’ (raiz constituída pelo ‘discursivo’)
na fundamentação epistemológica das práticas de metarrepresentação do
conhecimento”, segue como uma pergunta central para nossa reflexão na
realidade social transgramaticalizada.
FINANCIAMENTO
A pesquisa foi desenvolvida a partir do fomento do Conselho Nacional para
o Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Fundação Carlos
Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e
da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
284
AgRADECIMENTO
À comunidade ecceliberiana de discentes e pesquisadorxs, que con-
tribui com a energia e a coragem para os estudos em teorias críticas da
Organização do Conhecimento.
REFERêNCIAS
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Estudos críticos em organização do conhecimento
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10
ORgANIZACIóN CRÍTICA DEL
CONOCIMIENTO EN SISTEMAS DE
INFORMACIóN DE MEDIOS
CritiCal orGaniZation of
KnoWledGe in mass media
information sYstems
Antonio L. GARCÍA GUTIÉRREZ
Daniel MARTÍNEZ ÁVILA
Universidad de León
Un versión modificada y traducida al inglés de este trabajo fue publicada en: García Gutiérrez, Antonio and
Daniel Martínez-Ávila. 2014. “Critical Organization of Knowledge in Mass Media Information Systems”.
Knowledge Organization 41, no.3: 205-16. doi.org/10.5771/0943-7444-2014-3-205
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-485-1.p287-316
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
288
Resumen: La presente investigación centra el antiguo mito de la objetividad del discurso
periodístico en la acción de uno de los actores más relevantes y desapercibidos de su proceso
de construcción: el documentalista de medios de comunicación. El resultado de su proceso
de selección, análisis y representación de millones de textos escritos y audiovisuales de
actualidad en diferentes lenguajes, canales y soportes, constituye la memoria mediática
mundial y es, en buena medida, una fuente para la narración histórica de nuestras sociedades.
Pero, el proceso, lejos de ser neutral, presenta altas cotas de mediación y opacidad. Siendo
un hecho la presencia subjetiva del documentalista en sus producciones, este trabajo opta
por el reconocimiento y la explicitación de la misma mediante actuaciones esbozadas aqui,
sin embargo que han de ser objeto de un programa de investigación más amplio, arbitrando
medidas procedimentales y tecnológicas de modo que las posiciones de estos mediadores
queden explícitas en los registros de modo que contribuyan a un mayor pluralismo y
democracia de la memoria generada por los medios.
Palabras-clave: organizadores del conocimiento de medios; médios; organización del
conocimiento; operador; información; memoria
Abstract: is research focuses on the presence of subjectivity in the core tasks of mass
media knowledge organizers (MKOS) dealing with press, radio and TV records, such
as classification, representation, and any other process related to content analysis and
organization in News information systems. Far from rejecting subjectivity and ideological
bias in these operations - since they coparticipate in the media construction of reality—
the authors consider MKOS to be genuine ideological and cultural mediators with the
right and social responsibility to explicitly state the results of their “objectifiable” work
(obtained through KO protocols and procedures determined by the media/company,
classifications, thesauri, ontologies, etc.) and differentiate them from those of their
political, ideological, cultural and, in sum, subjective stances. In order to achieve this,
we propose the application of critical operators that should be followed by technical,
collaborative and even technological actions geared to investing information systems with
the capacity to consider those stances and allowing users to distinguish them. In short, it
is the theoretical recognition of the subjective and biased presence of media knowledge
organization operators in a job that is usually considered neutral, banal and even objective,
and the initial development of tools for critical, self-critical, technical, and technological
training keyed to its practical solution. is paper outlines the lines of work of a broader
research study on the critical function of KO in the field of global media memory.
Keywords: mass media knowledge organizers; media; knowledge organization; operator;
information; memory
Estudos críticos em organização do conhecimento
289
1 INTRODUCCIóN
Los sistemas y bases de datos de información periodística no solo
registran todos los acontecimientos y relatos planetarios de los que los
medios de comunicación han dado cuenta, sino también una gran cantidad
de información no publicada que, de igual modo, sustenta las lecturas
e imaginarios sobre el pasado. Tales depósitos de datos constituyen, en
consecuencia, una de las mayores narraciones de todo lo que acontece en
el mundo. En verdad, una narración con la superestructura de los grandes
metarrelatos, de acuerdo a la terminología posmoderna de Lyotard (1979),
o incluso propia del “cuarto bios”, un “bios mediático” de acuerdo con
el teórico brasileño Muniz Sodré (2002), desde la óptica, el discurso y la
agenda de los medios, no superada por la información que los Estados
tienen sobre los ciudadanos o, incluso, por la propia memoria registrada
que los ciudadanos tienen sobre sí mismos.
Billones de datos de actualidad en distintos formatos y soportes
visuales y audiovisuales se incorporan anualmente filtrados y canalizados
por los medios a la exomemoria digital, el conjunto de las inscripciones
mediáticas en la red, lo que viene a sumarse a la ingente exomemoria
analógica existente desde que comenzaron las primeras operaciones
de archivo de necrológicas en las oscuras “morgues” de los periódicos
americanos o en las primeras news libraries británicas, descritas en el
pionero libro del archivero de la BBC Geoffrey Whatmore (1978).
La producción digital de noticias que directa y automáticamente pasa
a formar parte de la exomemoria digital mundial es acompañada entonces,
a un ritmo más lento, pero inexorable, de la digitalización de los viejos
soportes analógicos de televisión, cine, radio y de medios impresos, de
todos los países, regiones y de culturas, de modo que la memoria registrada
global existente se duplicará a sí misma cada vez en menor lapso de tiempo,
alcanzando un crecimiento exponencial que puede condenarla al colapso
por saturación (Huyssen, 2000; Todorov, 2000).
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
290
En el proceso de construcción de la memoria mediática no solo
intervienen los actores que la producen en primera instancia: editores,
redactores, reporteros y todo tipo de personal técnico o responsable de la
producción. Aunque desde la constitución del primer fondo organizado en un
periódico, hace más de un siglo, podríamos hablar de una responsabilidad de
los archiveros, bibliotecarios y documentalistas en la construcción del relato
que elaboran los medios sobre el presente y del pasado, definitivamente el
trabajo de estos organizadores del conocimiento adquiere un rol sumamente
relevante desde el momento en que la digitalidad acoge en su territorio la
narración periodística del mundo. Informáticos y gestores de sistemas de
archivos entran en escena y los organizadores del conocimiento de medios han
de redefinir permanentemente sus funciones técnicas, sus responsabilidades
éticas e incluso políticas y el rol que desempeñan como especialistas anónimos
que operan en el corazón del motor de la memoria global.
Su trabajo, siempre considerado más próximo a estantes,
archivadores y carpetas - sean manuales, sean digitales - que a operaciones
ideológicas decisivas como seleccionar, descartar, clasificar, ordenar,
analizar, representar, normalizar, organizar… la información, adquiere con
lo digital especial trascendencia global, no solo para delimitar y clarificar
sus funciones y responsabilidades sociales arbitrando mecanismos de
control de sus operaciones, sino, especialmente, para también convertirlos
en garantes del pluralismo y la libertad en la circulación de la memoria
generada por los medios y alertar de las repercusiones que sus operaciones
de organización del conocimiento puedan tener en la construcción de la
historia local y global.
Usemos un ejemplo de la polarización con la que se encuentra el
organizador del conocimiento de medios en su trabajo cotidiano de
selección, organización y representación de noticias para iniciar nuestro
estudio: una noticia sobre enfrentamiento entre policías y manifestantes
podría ser representado desde las siguientes posiciones ideológicas (y desde
multitud de posiciones intermedias): fuerza del orden/violencia policial,
Estudos críticos em organização do conhecimento
291
rebelión/derechos sociales, bajas/asesinatos e incluso terrorismo, callejero/
autodefensa ciudadana.
En su teoría de la coproducción textual, Eco (1993) analiza cómo
el autor del texto “dice” una serie de ideas en tanto omite otras para que
su “lector modelo” las “diga”. Los “lectores” (oyentes, telespectadores...)
del medio forman parte, naturalmente, de ese proceso colaborativo, pero
¿cuál es el rol de los organizadores del conocimiento de medios en ese
proceso a través de operaciones de organización del conocimiento? ¿tiene
la mediación a través de procesos de organización del conocimiento una
dimensión coproductora? ¿hasta qué punto tiene este mediador el derecho
y el deber de explicitar los sesgos en sus producciones, reproducciones y
coproducciones?
Tradicionalmente, el organizador del conocimiento de medios no
ha sido un “lector-modelo” para los autores de producciones periodísticas,
sin embargo, en los últimos decenios, y del mismo modo que en el
discurso científico, se constata un avance de la necesidad de participar
en la organización de sus propias producciones por parte de los autores
mediáticos (periodistas, reporteros, editores...), es decir, la organización
del conocimiento y los organizadores del conocimiento en el ámbito de
los media son operaciones y operadores más intuídos – “modelizados”, en
el sentido de Eco - por los productores, a la vez de extenderse la evidencia
empírica del rol mediador (coproductor) de organización del conocimiento
y organizadores del conocimiento de medios en la construcción de la realidad
por los media de acuerdo a la célebre teoría de Berger y Luckmann (1995),
realidad de la que forman parte los modos de organizarla y conservarla.
El organizador del conocimiento de medios es esencialmente un
lector de textos, en el más amplio sentido de la expresión. Su actividad
central se basa en la lectura, pero no se trata de una lectura realizada
para sí mismo o por placer, ni de una lectura neutral, sino de una lectura
para terceros y se tratará, sea cognitiva, sea metacognitivamente, de una
operación ideológicamente dirigida. La orientación de esta lectura en
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
292
los procesos de organización del conocimiento mediática puede que no
sea deseable, pero es inevitable e inocultable. De ahí que este artículo se
empeñe en su detección y aprovechamiento antes que en su camuflaje o
negación.
En este sentido, no son muchos los estudios en el campo de la
Organización del Conocimiento que se han dedicado a la reivindicación
del papel crítico de los organizadores del conocimiento de medios y las
prácticas de organización en los sistemas de información de medios de
comunicación. No solo eso, ha existido un cada vez mayor interés en
la organización de noticias y artículos periodísticos utilizando técnicas
automáticas como la clasificación de texto y los algoritmos de indexación
(por ejemplo, Chen; Lin, 2000; Evan; Klavans, 2003; Casillas et al., 2003;
Mamakis et al., 2011; Rocha; Cobo, 2011), y en las características y
comportamientos de los usuarios, en un contexto de paradigma centrado
en el usuario, incluyendo el resumen y la categorización automática
de noticias derivadas de las elecciones del usuario (Banos et al., 2006),
modelado del usuario (Wongchokprasitti; Brusilovsky, 2007), y perfil de
usuario (Bouras; Tsogkas, 2010), pese a que tal como han señalado algunos
autores (como por ejemplo, Segev, 2009; Hjørland, 2013), la indexación
automática y los sistemas de recuperación basados en el usuario como el
de Google tampoco están exentos de sesgo y subjetividad. Por otro lado,
la importancia e interés de los aspectos éticos de la Organización del
Conocimiento para la comunidad científica también se ha visto reflejado
en diferentes eventos como por ejemplo las ediciones de la Conferencia
sobre Organización de la Información y Ética organizadas por la University
of Wisconsin-Milwaukee, y las publicaciones de, entre otros autores, Clare
Beghtol (2002, 2005), José Augusto Chaves Guimarães y Juan Carlos
Fernández-Molina (2002, 2010) y Hope Olson (2002a, 2009). También
Sasaki et al. (2012) han propuesto la organización de noticias utilizando un
enfoque análisis de dominio y que Living Knowledge Project ha estudiado
la descripción de noticias y otras informaciones de la Web en relación con
aspectos como la diversidad, la opinión, el sesgo y el contexto, aunque
Estudos críticos em organização do conhecimento
293
centrándose en técnicas como la clasificación automática y facetada y
otros aspectos como la imagen pública de una empresa, las campañas de
relaciones públicas y predicciones de futuro (Giunchiglia et al., 2009;
Madalli; Prasad, 2011).
En lo que respecta a la subjetividad en la Organización del
Conocimiento, en líneas generales, aunque también ha habido estudios
que han trabajado con metodologías estadísticas en combinación con
métodos de selección de características para extraer la subjetividad de los
documentos (Sarvabhotla et al., 2011), una posición ética, dejando a un
lado las visiones positivistas en las que la subjetividad es descartada por
ser algo no deseado, ha sido la discusión de un sesgo deliberado como
algo positivo (Feinberg, 2007; Hjørland, 2008) o como parte de una
construcción plural y legítima de la realidad (García Gutiérrez, 2002, 2007,
2011c). Considerando esto, la construcción de la memoria mediática sería
uno de los campos aplicados de la Organización del Conocimiento con
un mayor riesgo sociocultural y vulnerabilidad, por lo que este trabajo se
centra en algunos de sus itinerarios y dimensiones estratégicas.
2 ORgANIZADORES DEL CONOCIMIENTO DE MEDIOS y EL PROCESO DE
CONSTRUCCIóN DE LA MEMORIA RECIENTE
Todas las producciones periodísticas, publicadas o no, son filtradas
y organizadas en mayor o menor medida por unos profesionales de la
información de actualidad (bibliotecarios, archiveros, documentalistas),
que vamos a llamar en este trabajo, de modo genérico, organizadores del
conocimiento de medios. El organizador del conocimiento de medios, es
decir, el profesional de la información, que procesa el discurso periodístico
producido por cualquier entidad informativa con el objetivo de convertirlo
en exomemoria mediática, opera con contenidos altamente sensibles desde
el punto de vista social, político, cultural, ideológico y su intervención en
ese proceso no es aséptica ni está exenta de prejuicios como suele parecer
a primera vista por efecto de la mitología positivista. El organizador del
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
294
conocimiento de medios realiza una labor lógica y culturalmente orientada,
ya no solo hacia los propios periodistas de la empresa para la que trabaja,
sino con incidencia global de cada una de sus acciones u omisiones a través
de la red.
Su trabajo no es objetivo, por más que pueda asociarse a maquinaria,
aplicaciones electrónicas y formatos, sino que, muy por el contrario, su
intervención en la construcción de la memoria es altamente subjetiva,
activa e interesada, incluso en el caso de que el propio organizador del
conocimiento de medios no lo reconozca o crea sinceramente no hacerlo.
Puesto que es irrefutable el argumento de su intervención en la elaboración
de la memoria mediante instrumentos (tesauros, ontologías...) u operaciones
de organización del conocimiento como la selección en las que elige u omite
sentidos, clasificación en las que etiqueta de un modo u otro, generaliza o
restringe mediante jerarquizaciones y asociaciones de todo tipo, de ordenación
en las que privilegia posiciones, de representación en las que decide semánticas
y términos, nunca exentos de ideología y sesgo, el objetivo de este artículo
no es denunciar esa innegable mediación ideológica de los organizadores
del conocimiento de medios ni evidenciar la inexistente objetividad en su
trabajo sino, muy por el contrario, a partir del reconocimiento de su presencia
subjetiva en todo el proceso, hacer ganar fiabilidad a sus operaciones mediante
mecanismos de explicitación y, por tanto, de control, supervisión y verificación
en cada fase, reservando un lugar para que el propio documentalista exprese
su posición u opinión, de otro modo, indescifrables, pero decisivas en la
producción de la memoria mediática.
Melanie Feinberg, basándose en la idea de los conocimientos situados
de Donna Haraway, lo expresó de la siguiente manera: “si no podemos
eliminar el sesgo, entonces debemos intentar ser más responsables sobre el
sesgo y de forma explícita decidir y defender las perspectivas representadas
en nuestros sistemas de información”. La subjetividad inevitable de la labor
del documentalista se transforma, así, en un recurso positivo y enriquecedor
del proceso de construcción y circulación mundial de esa misma memoria.
Estudos críticos em organização do conhecimento
295
Una subjetividad, entonces, al servicio de la transparencia, del pluralismo,
de la democracia y de la propia deontología de oficio.
No es particularmente necesaria, a efectos de este trabajo y a
menos que concretamente deba ser indicada, la precisión semántica
de los conceptos “opinión”, “crítica” o “sesgo”, por lo que serán usados
indistintamente o bajo el sentido dominante de “posición” subjetiva en
las acepciones genéricas que encontramos en Giunchiglia et al. (2009). El
organizador del conocimiento de medios es un “mediador” adicional en el
complejo proceso de producción del discurso periodístico. Su acción no es
solo informativa, sino opinativa y si se quiere, en un peldaño más, crítica.
Trataremos de justificar esa actividad doblemente como un derecho
y de asumirla como realidad que hay que canalizar ética y técnicamente
para elevar su nivel de credibilidad. El organizador del conocimiento
de medios, en mayor medida si cabe que cualquier otro organizador
del conocimiento, opina con persistencia a lo largo de todo el proceso
documental-informativo. Incluso si es “obligado” por la política editorial
del medio a canalizar y representar la información afín a su ideología,
este mediador aún tendría amplios márgenes de actuación para ubicar
su subjetividad opacando, camuflando o saturando de forma sutil pero
efectiva el sistema de modo que los registros se obtengan con mucho nivel
de ruido o que, aun existiendo, no puedan ser recuperados. Reglas, libros
de estilo, lenguajes controlados y otros instrumentos de referencia para
desarrollar el proceso documental a la medida del medio, no evitarán la
presencia constante y subliminal del organizador del conocimiento de
medios en todos los registros.
Por tanto, lejos de arbitrar más mecanismos para mitigar o reprimir
las opiniones, la intención de este artículo es liberarlas, tratarlas como un
derecho, sumarlas al proceso polifónico general que constituye la memoria
social inscrita, en la que los documentalistas son privilegiados actores a los
que hay que concienciar sobre la responsabilidad social real de su sigiloso
trabajo. Por tanto, no solo no habría que “ocultar” o negar la presencia
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
296
de subjetividad en los resultados de las operaciones de organización del
conocimiento, sino que se pondría bajo el amparo de los derechos básicos
ciudadanos protegidos en la mayoría de las constituciones democráticas y
en la carta fundamental de los derechos humanos.
La explicitación de la opinión de los organizadores del conocimiento
de medios en la organización y clasificación de los registros de un medio
no solo sería, entonces, la garantía de transparencia de buena parte de las
operaciones elaboradas sobre cada registro consultable, sino la plasmación
del derecho de todo organizador del conocimiento de medios a expresar
abiertamente su opinión y, más específicamente, su posición crítica
respecto a los mensajes y contenidos de los registros de memoria que
pone en circulación (y en ese sentido sería un co-productor textual, en el
sentido de Eco, del propio periodista). Porque es obvio: el organizador del
conocimiento de medios no solo reproduce los datos, sino que también
coproduce y produce.
En consecuencia, desvelar tal función históricamente negada solo
contribuye a la higiene, diversidad y pluralismo de la memoria, además de
introducir unos mínimos criterios de cientificidad en un proceso regido
por parámetros ingobernables como la intuición, la experiencia, el sentido
común o las “tendencias” personales. Los problemas señalados deben ser
abordados a partir de distintas actuaciones: en la formación curricular
de los organizadores del conocimiento de medios, en la confección de
procedimientos e instrumentos de organización del conocimiento y en las
oportunas adaptaciones tecnológicas que faciliten la canalización de esas
transformaciones. El primer punto ya fue tratado en (García Gutiérrez;
Martínez-Ávila, 2014). En este trabajo nos aproximaremos teóricamente,
ciñéndonos a las operaciones de orden discursivo, a la confección de
procedimientos e instrumentos de organización del conocimiento.
Estudos críticos em organização do conhecimento
297
3 RAÍCES DEL INMOvILISMO y CAMBIO DE PARADIgMA: EL REgRESO DEL
SUjETO
La supuesta asepsia en el trabajo del organizador del conocimiento de
medios procede del falso objetivismo que proclama el positivismo comteano
del que surgió la Documentación como disciplina científica en el último
cuarto del siglo XIX, en un inicio enfocada al universo de las ciencias,
ámbito teórica y metodológicamente de subjetivismo tan extirpado como
su propio proceso documental. Sin embargo, los giros epistemológicos
habidos en todas las ciencias ya bien entrado el siglo XX, e incluso una
vez fracasado el proyecto de formalización neopositivista encabezado por
lógicos y matemáticos en torno al Círculo de Viena, como Carnap, Frege
o Ayers, no hicieron mella en la posición de la documentación científica.
Incluso tras la convulsión que la mecánica cuántica infligió en
el espectro científico a partir de posiciones como la de Heisenberg
(el observador modifica lo observado) produciendo transformaciones
de alcance en la investigación social, la Documentación otletiana
permaneció aferrada a un paradigma en disolución, dogmática respecto
a saberes y prácticas de cuya evolución y reconfiguraciones emergentes
había de dar cuenta mediante rígidas clasificaciones (“una cosa para
cada lugar y un lugar para cada cosa”, rezaba un postulado del Traité
de Documentation, de 1934), o reduciendo la disciplina al formalismo
de reglas catalográficas en tanto se refugiaba en curiosos medios
analógicos a la espera de la rehabilitación que, a su alma positivista, le
ha proporcionado el medio digital.
Poco importaron a la Documentación determinantes corrientes que
sí marcaron a la investigación social como, entre otros, el movimiento
constructivista encabezado por Von Foerster (cfr. Paul Watzlawick;
Peter Krieg, 1995), el paradigma complejo en la aproximación de Edgar
Morin (1996) e incluso toda la cultura académica posestructuralista o
poscolonial que sí fue determinante, por ejemplo, en algunas decisivas
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
298
contribuciones a la organización del conocimiento como las de Olson
(cfr. 2000, 2002b, 2003).
En este sentido, las más importantes transformaciones provendrían
no desde dentro de la disciplina - reforzada por el neomecanicismo creciente
- sino por algunas de las aplicaciones y discursos con los que se las tendría
que ver tarde o temprano. Sin embargo, durante gran parte del siglo XX, la
influencia del espíritu y la letra del Traité en la formación y las prácticas en
organización del conocimiento de la “documentación periodística” en buena
parte de Europa y América Latina, entre otras regiones, fue decisiva aunque
llegara de un modo menos sistemático que al ámbito de la organización del
conocimiento en la documentación científica por la propia idiosincrasia del
discurso mediático y de las empresas que lo producen.
Con la tecnología digital, la precaria e incipiente investigación sobre
organización del conocimiento en medios de comunicación reencuentra
la vieja utopía mecanicista y retrocede al servicio de un modo dominante
de hacer ciencia que ella misma se aplica: la medición y cuantificación,
la objetividad, la separación de sujetos y objetos, el tecnicismo, la
protocolización de las ciencias, el liderazgo de las disciplinas duras, la
fragmentación del conocimiento, la hiperespecialización. El auge de lo
digital revitaliza los antiguos modos objetivistas de hacer organizar el
conocimiento periodístico junto a una mayor dejación, si cabe, de los
organizadores del conocimiento de medios respecto a los discursos e
ideologías que rigen su acción profesional diaria.
En ese contexto, la llamada “documentación periodística” - una de
las aplicaciones de más alto contenido cultural e ideológicamente sensible
de las materias en torno a la Biblioteconomía y Documentación y la
Organización del Conocimiento y de mayor trascendencia sociohistórica
en países como Francia o España, por ejemplo - se adhiere al avance
tecnológico entregando su discurso a la asepsia de la tecnología. Pero
ninguna tecnología es neutral. Muy por el contrario, toda tecnología es
Estudos críticos em organização do conhecimento
299
bien antes una “tecno-lógica”, esto es, en sí misma inscribe las claves de la
cultura que la inventa al conocimiento que traslada.
De este modo, formatos, campos, protocolos o reglas técnicas
procedentes de la teleinformática, someten la natural rebeldía textual a
rígidos corsés esculpidos por su (tecno)lógica esparciendo, de paso, el
espejismo de la objetividad del sistema y de sus operadores. A partir de
ese punto de inflexión, las gramáticas de la historia serán interferidas por
máquinas. El algoritmo somete al discurso en la producción de verdad
en el mundo científico en tanto la retórica política domina la sociedad
que lo envuelve. Un producto de los azares combinatorios inherentes a
los motores de búsqueda, en los cuales - es certo - la libre decisión de los
ciudadanos en las carambolas conceptuales dentro de los sistemas podría
ser cada vez menor.
El caso de los registros periodísticos escritos, visuales y audiovisuales
como base de la narración histórica se vuelve mucho más dramática con la
globalización. Hoy día, la historia de más raigambre local puede ser narrada
por la máquina más extraña y distante a “los narrados” (heteronarración).
Las noticias del Punjab llegan al Punjab filtradas por fuentes, medios,
mediaciones y servidores americanos o europeos. La red digital proporciona
un creciente acceso, e incluso una participación visible, pero prácticamente
irrelevantes para la narración histórica que se sigue haciendo desde una
descentralidad metropolitana. Ésa es una de las piezas claves del discurso
poscolonial. La pseudoneutralidad maquinista lleva la voz cantante en la
cada vez más apagada polifonía cultural mundial.
Ante esta descentralización que favorece lo digital, y que es en verdad
una sigilosa neocentralización encubierta de una cultura dominante, otro
dulce totalitarismo” del consumo como diría Marcuse, la responsabilidad
social del organizador del conocimiento de medios como mediador y
pre-narrador de la historia y de la memoria recientes es incalculable. De
ahí que, lejos de abundar en su pseudo-objetivismo e impulsar planes y
actividades formativas orientadas a crear la imagen de un profesional que
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
300
no se corresponde con la realidad de su oficio, debe reivindicarse, también
en nuestro campo, el “regreso del sujeto” (Ibañez, 1994): la rehabilitación
y reconocimiento de su subjetividad en la construcción de la memoria
mediática mundial bajo ciertas condiciones. De momento, los sistemas
solo cuentan con dosis ingentes de subjetividad desregulada, caótica y
opacada, canalizada por protocolos formales que aparentan transparencia
y objetividad.
Las condiciones de la presencia de subjetividad en la gestión de los
registros de procedencia mediática han de regirse por nuevas metodologías
que recojan, paradójicamente, tres viejos e insistentes principios
epistemológicos que han solido compartir incluso opuestos paradigmas
con el fin de dar fiabilidad a los procesos metacognitivos en juego: 1)
detección y explicitación de posiciones, 2) supervisión y reproducción de
fases y procedimientos y 3) verificación por terceros. El cumplimiento de
estas condiciones aumenta la confiabilidad y versatilidad del proceso con
los siguientes resultados y valores añadidos:
a) La dispersión subjetiva resultante de un proceso analítico no es solo
tolerable sino beneficiosa si está controlada e identificada como tal
ya que aumenta los niveles de transparencia, pluralismo, democracia
y diversidad en la organización del conocimiento mediática.
b) Los usuarios del sistema conocen, de modo diferenciado, las razones
objetivas y subjetivas que subyacen en cada análisis y representación
por lo que disminuye el riesgo de manipulación.
c) Las posiciones subjetivas pueden contrastarse con datos objetivos
extraídos del análisis para valorar el juicio de la fuente y de los
mediadores.
d) La identificación de un organizador del conocimiento de medios
dado propicia el seguimiento de su actividad mediadora en otros
registros e incluso en grandes relatos de actualidad, desbordando y
prestigiando esta (su) actividad profesional habitualmente anónima.
Estudos críticos em organização do conhecimento
301
e) Cualquier supervisor u organizador del conocimiento de medios
del mismo campo de aplicación y con los mismos materiales e
instrumentos podría incorporarse o verificar el camino recorrido
por un organizador del conocimiento, comprendiendo la lógica de
los pasos efectuados, aislando las posiciones subjetivas y llegando a
resultados analíticos de gran similitud en los aspectos objetivables de
las operaciones de organización del conocimiento.
Para llevar a cabo este tan ambicioso como modesto objetivo
debería cambiar la mentalidad de muchos responsables de medios
que, sin sospecharlo, ellos mismos son presa del falso objetivismo de la
memoria mediática anónima que circula en internet. Este aspecto debe
ser abordado imperativamente en otro trabajo: las modificaciones que
habrían de ser llevadas a cabo en los sistemas y redes de documentación
periodística de modo que la explicitación de las subjetividades de quienes
operan sobre los registros de las memorias mediáticas sea algo técnica,
profesional, económica, cultural y políticamente posible. Las asociaciones
de organizadores del conocimiento de medios, los sindicatos e incluso la
legislación habrían de recoger el derecho y el deber de estos mediadores a
ofrecer opiniones y críticas explícitas en los análisis que llevan a cabo y en
lugar distinto del registro del resto del análisis supuestamente objetivo.
De este modo, también el usuario tendría más elementos de
juicio sobre la procedencia y fuentes de la información, del nivel de
manipulación que contiene, sobre los datos que recibe diferenciados
de las opiniones e incluso una posición de mayor alerta respecto a la
posibilidad constante de que, sigilosamente, las opiniones sean tomadas
por los hechos mismos. Eludimos en esta afirmación, no obstante, la
interesante posición constructivista radical (debunking constructivism)
de autores como Latour y Woolgar (1979), por ejemplo, para quienes,
como ocurre con las explicaciones de los hechos, también los hechos
mismos serían construcciones.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
302
El usuario tiene derecho a conocer la posición de quien le suministra
un registro, razón de más para enfatizar el deber y derecho del organizador
del conocimiento de medios de hacerla explícita. Además, los usuarios
tienen derecho a conocer todas las posiciones posibles en torno a un asunto,
es decir, a acceder sin restricciones ni censura a todos los juicios de valor
existentes acerca de un tema. El propio uso de determinado vocabulario, los
eufemismos y otras retóricas del poder desvían las búsquedas. El organizador
del conocimiento de medios tiene en sus manos la responsabilidad
democrática de desvelar al usuario todas las posiciones y manipulaciones en
torno a un asunto, incluyendo las propias como mediador.
4 MEDIDAS TECNOÉTICAS: OPERADORES CRÍTICOS
La continuación, se ensaya teóricamente con la posibilidad de un
operador crítico” complementario y transversal de las funciones asociativas
y relacionales, de uno u otro modo existentes en tesauros y ontologías,
y reflejable en campos adhoc de la representación y reservados a recoger
la legítima opinión de los documentalistas en los registros del discurso
periodístico.
El operador crítico supone un desarrollo del denominado operador
complejo (García Gutiérrez, 2004, 2011a, 2011b). Sin embargo, también
mantiene alianzas evidentes con el que ha sido llamado, en otros trabajos,
operador transcultural (García Gutiérrez, 2004, 2007, 2011b). Ambos
operadores, a un nivel obligadamente teórico en esta fase de los estudios,
abren paso y canalizan las legítimas posiciones éticas y políticas que, se
quiera o no, fluyen abierta o sigilosamente a través de las reestructuraciones
discursivas que los organizadores del conocimiento introducen en los
resultados de sus operaciones. Pero, a nivel a un nivel superior y de orden
ontológico y epistemológico, apuntan a la inscripción de la organización del
conocimiento, como materia científica, en el conjunto de las llamadas por
Jürgen Habermas “ciencias emancipatorias” (Habermas, 1971). Veamos,
Estudos críticos em organização do conhecimento
303
resumidamente, las propiedades teóricas de estos operadores previos para
a continuación ubicar las funciones específicas y el espacio destinado al
operador crítico.
A) OPERADOR COMPLEjO Λ
El conjunto de las posiciones sobre un asunto puede recogerse
en lo que se ha llamado, en otro lugar, operador complejo. El adjetivo
complejo”, adjudicado a este operador, y su sentido se inspira en la teoría
de la complejidad de Edgar Morin (1996) y el rol decisivo que los “opuestos-
complementarios” tienen en ella para una compresión compleja de la
realidad. Se trata de un operador analítico y de representación, transversal
a otros operadores de tesauros u ontologías, y con posibilidad de presencia
en los campos de representación de los registros de la memoria mediática
organizando las posiciones sobre un asunto a partir del abanico semántico
que ofrecen las dicotomías. La dicotomía es un recurso reductor que
domina la construcción del conocimiento, pero construye conocimiento
(un conocimiento nuevo, aunque necesariamente dicotómico). Una
atención primordial a ese recurso automático de organización cognitiva,
aplicado a la organización del conocimiento se encuentra en estudios de
Olson (1997, 2003) y (García Gutiérrez, 2011c).
En este caso, se trata de poner la reducción dicotómica al servicio
del pluralismo, es decir, contra sí misma. Con el fin de crear un espacio
complejo en operaciones o instrumentos de organización del conocimiento,
es necesario partir de posiciones antónimas, esto es, instituir dos conceptos
opuestos como polos de un espacio dicotómico. Los ejemplos pueden ser
miles en un sistema de información mediática. Veamos algunos:
Asunto posición inicial/posición terminal
velo islámico derecho cultural/opresión cultural
aborto derecho de la mujer/infanticidio
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
304
zapatistas liberación nacional/terrorismo
consumo libertad/alienación
régimen castrista dictadura/democracia popular
intervención en Irak solidaridad/invasión
intervención policial fuerzas del orden/violencia de Estado
bombardeo operativo militar/acción criminal
Entre los polos de cualquiera de las dicotomías anteriores se abre
un espacio de 180º (el abanico invertido que simboliza Λ), que admite
infinitas posiciones sobre un asunto que se sitúa en el vértice superior.
Entre los extremos de las varillas se ubican dos conceptos polarizados, con
posibilidad de ser superados por otros más polarizados y, entre ellos, se
ordenan, al igual que podría gradarse con las posiciones intermedias entre
sí/no, 1/0, bueno/malo, bonito/feo, todas las opiniones posibles.
Los sistemas digitales que soportan operaciones de organización
del conocimiento deben disponer de algoritmos que hagan posible
técnicamente del operador complejo para dar garantías democráticas
a todas las posiciones en sus procesos e instrumentos. La opinión del
organizador del conocimiento de medios es una de esas posiciones que ha
de estar democráticamente representada en virtud de los fines del operador
complejo, pero no se trata de una posición más puesto que el organizador
del conocimiento de medios, como mediador, ostenta un lugar privilegiado.
Los resultados de sus operaciones de lectura, organización y representación,
además, no se elaboran para consumo propio sino para terceros. Son, por
tanto, consecuencias simbólicas de su oficio con ilimitado poder anónimo
y diferido de manipulación de las conciencias en un incontrolable proceso
de, digamos, “semiosis doxológica”.
Para situar correctamente el espectro del operador crítico, esto es, de la
herramienta - y objetivo de este artículo - que debe tener a su disposición el
Estudos críticos em organização do conhecimento
305
organizador del conocimiento de medios con el fin de expresar explícitamente
su opinión, en el conjunto de operadores ético-políticos imprescindible para
dar transparencia y fiabilidad a las operaciones documentales, veamos a
continuación un esbozo del operador transcultural.
B) OPERADOR TRANSCULTURAL v
El operador transcultural es una categoría de organización colectiva
y recuperación de registros basada en el acuerdo. Sus características, a
diferencia del operador complejo, son:
Proceden del consenso sobre un asunto entre interlocutores
institucionales o colectivos ideológicos y culturales públicos
y privados no anónimos asociados con el fin de velar por el
respeto a principios éticos, democráticos e interculturalmente
aceptables, trasladando esos principios a representaciones y
metadatos de modo que se garanticen la dignidad, la libertad
de expresión y queden explícitas las posibles manipulaciones y
sesgos que acompañen a determinados registros, respetando la
presencia de dichos registros en la red independientemente de su
tendenciosidad, mala fe o evidente manipulación.
Tal consenso se obtiene a partir de la aplicación de la ética
dialógica de Otto Apel (1985) en el contexto de un desarrollo
pragmático de la dialéctica erística de Schopenhauer (2002)
Su aplicación sería obligatoria por parte de los documentalistas
que trabajan en instituciones y medios comprometidos con una
asociación internacional de ética transcultural en la red digital,
que habría de ser creada al efecto2.
De acuerdo con el “dilema del prisionero”, ampliamente estudiado desde la teoría de la racionalidad
imperfecta, desarrollada por Jon Elster (1979), pensamos que la opción de llegar a un acuerdo global sobre
determinadas etiquetas y metadatos sería la solución “maximinizada”, es decir, la mejor solución de entre
las peores elegibles desde un punto de vista de racionalidad práctica y, por tanto, los medios serían proclives
a llegar a un consenso en ciertas cuestiones sensibles.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
306
El operador transcultural acompaña críticamente a cualquier
registro y, en aras de la libertad de expresión, no puede suplantarlo.
No modifica ni elimina los metadatos cuestionados en un
registro sino que los complementa, cuando es necesario, en tres
posibles direcciones: 1) fusionando posiciones originariamente
divergentes mediante acuerdo; 2) potenciando la difusión y uso
del registro mediante el prestigio y la confianza en una etiqueta
respaldada y certificada transideológica e interculturalmente
por los mediadores3; 3) criticando y alertando del interés
o peligrosidad de un registro en relación a otras directivas
internacional o interculturalmente adoptadas como los derechos
humanos.
El operador transcultural solo debe actuar en casos de relevancia
mundial en los que se juzgue una lesión grave o irreversible en el
universo simbólico o en los derechos democráticos y humanos de
los ciudadanos y, por extensión, del derecho a la autonarración
de las culturas y civilizaciones.
El riesgo de este operador estribaría en la posibilidad de
concentración de intereses para imponer una posición
dominante, pero dicha posición también podría ser denunciada
por la acción del operador complejo - libre de normativas y
acuerdos - al garantizar todas las voces y, más particularmente,
por el operador crítico, al garantizar la voz del organizador del
conocimiento crítico y autocrítico. El escenario de este posible
debate estaría en operaciones, instrumentos y representaciones
de organización del conocimiento que recogerían esta particular
semiosis” de la memoria mediática de modo que las etiquetas
transculturales colectivas no se solapen o borren, sino, en lugar
de ello, complementen a las utilizadas por los mediadores en
general (en virtud del operador complejo) y por los mediadores
Algunos proyectos internacionales de los años noventa, como el “esaurus FID/Unesco on Information
and Communication” de Jean Aitchison, así como la política sobre organización del conocimiento de la
propia UNESCO, ya apostaron por una fundamentación interculturalmente asumible.
Estudos críticos em organização do conhecimento
307
críticos en particular. Los registros relevantes no se convertirían en
palimpsestos que silencian opiniones previas, sino en verdaderos
relatos plurales de una memoria colaborativa y participativa.
C) OPERADOR CRÍTICO
Hemos visto que en tanto los operadores transculturales se centran
en el consenso obtenido a través de una interlocución entre posiciones
respecto a un asunto, el operador complejo tiene por objeto el disenso.
La expresión de crítica, por parte del organizador del conocimiento de
medios, en los procesos e instrumentos que intervienen en la organización
del conocimiento, podría ser considerado como un derecho democrático a
la libertad de expresión, derecho político que recoge el operador complejo.
De hecho, y como desarrollo de éste, podríamos hablar del operador crítico
como una modalidad de operador complejo, si bien, entendido como un
recurso restringido al mediador, dado que ya el propio operador complejo
tiene como objetivo proteger y canalizar la visión de todas las posiciones sobre
un asunto. El operador crítico, en consecuencia, sería el espacio reservado
en el operador complejo a la libre expresión (y podría incluso tipificarse
según su rango) del organizador del conocimiento de medios quien, en
el sistema de información, no aporta una posición más - como tampoco
lo hace el autor de un texto - en el conjunto de todas las posiciones, sino
una posición de privilegio y, por tanto, simultáneamente objeto de mayor
influencia y vigilancia. Si la opinión de cualquier posición (salvo la de los
grandes portavoces y oráculos de lo actual, como corporaciones y grupos
mediáticos) se suma a un conjunto, la de los documentalistas atraviesa ese
conjunto por lo que es consustancial con el riesgo de manipulación que
conlleva su mediación.
El operador crítico es un espacio tecno-ético destinado a recoger la
posición personal, ideológica, cultural, social del mediador documentalista,
su subjetividad en suma, con el fin de diferenciar sus legítimos sesgos
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
308
respecto a los resultados derivados del uso de “plantillas” e instrumentos de
organización del conocimiento, cualesquiera que sean su estatuto y nivel
de aplicación.
En sus operaciones habituales, el organizador del conocimiento de
medios juega en un escenario supuestamente carente de subjetividad, siendo
su rol la reproducción de los sesgos y posiciones del autor. No obstante,
tales operaciones suelen tener una base “cognitiva”, es decir, basada en
un automatismo que refleja el “sentido común” o el buen oficio de los
organizadores del conocimiento. Frente a la reproducción, una simple falacia
del sistema, es necesario reivindicar no solo la contribución coproductora del
documentalista (en la que coopera con el sentido textualizado por el autor),
sino también productora (en la que opera con independencia al mismo).
Para establecer la diferencia entre la obtención de resultados
objetivados mediante procedimientos e instrumentos de organización
del conocimiento y los derivados de la subjetividad, es indispensable la
capacitación previa del organizador del conocimiento en dos frentes: 1) en el
de la crítica misma, con el fin de construir objeciones y observaciones sobre
resultados de organización del conocimiento (a ser posible fundamentados
en su independencia y no en la política editorial del medio), para lo que
es necesaria una formación académica adicional a la existente y acorde
con el objetivo crítico, y 2) en el de la reflexividad, esto es, en la acción
de autodesvelarse para discernir entre resultado objetivo y sesgo, entre
hecho, dato e interferencia cultural o ideológica. Como puede intuirse,
la actividad reflexiva debe contener una fuerte dosis autocrítica, pues es
justamente la ausencia de autocrítica lo que determina que identifiquemos
el interés personal y local con el interés colectivo y universal.
La organización del conocimiento tiene raigambre occidental y
occidente (y los occidentales) siempre ha estado convencido de que sus
principios, procedimientos y tecnologías locales tienen valor universal.
Puede ser éste un autorreconocimiento legítimo - el derecho a defender
una posición con todos los argumentos - pero implacable hacia quienes
Estudos críticos em organização do conhecimento
309
no comparten esa posición y deben asumirla mediante violencia militar,
económica o propagandística, o hacia las minorías (o mayorías marginales)
que ni siquiera tienen el derecho de expresión y difusión de su propio
conocimiento o exomemoria colectiva a través de la red. No es de extrañar
que nuestra civilización haya usado las armas, no ya para defender, sino
muy por el contrario para colonizar con estos principios y tecnologías al
resto del planeta. Y tal vez no pueda dudarse de la buena fe de muchos
occidentales que colaboran en ese descomunal proyecto - los organizadores
del conocimiento de medios entre ellos - aunque sí parece irrefutable la
ausencia de autocrítica y reflexividad en sus operaciones.
El operador crítico transformaría todas estas funciones de raíz
cognitiva en operaciones metacognitivas, esto es, no-automáticas,
conscientes y reflexivas, y así deben recogerlo los formularios de análisis
y los instrumentos de organización del conocimiento implicados en el
procedimiento teóricamente propuesto. Veamos algunas situaciones
indicativas por las que atraviesa la organización del conocimiento de
medios y habrían de ser objeto de estudio empírico y pormenorizado: en
el caso de texto periodístico escrito, puede ocurrir que el sesgo del autor
esté deliberadamente explícito, como en los llamados géneros de opinión
(editorial, crítica, análisis, columna...).
En ellos no habría opción hermenéutica por parte del organizador
del conocimiento de medio convencional ya que el sentido y la expresión
conceptuales serán evidentes. Sin embargo, los organizadores del
conocimiento de medios, conscientes o inconscientemente, podrían
respetar la visión del autor o iniciar una representación gradualmente
dispar hasta situarse en una posición enunciativa antónima.
Tomemos el ejemplo de un artículo de opinión sobre: “El terrorismo
zapatista ataca a la policía”. En el ejemplo, las palabras claves se usan con
independencia de que procedan de un sistema basado en lenguaje libre o
controlado. Las opciones de representación son las siguientes:
a) reproducción: EZLN/ terrorismo/ ataque/ policía
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
310
b) producción: EZLN/ liberación nacional/ autodefensa/ ataque
policial
c) coproducción mediante operador crítico:
index reproducción: EZLN/terrorismo/ataque/policía
index coproducción de documentalista simpatizante zapatista:
EZLN/ liberación nacional/ autodefensa/policía
Si se trata de géneros informativo (noticia, reportaje, entrevista),
esto es, tipología acorde con los cánones enseñados en los manuales
de periodismo tiene pretensiones de objetividad, el organizador del
conocimiento de medios convencional encontrará una mayor legitimación
interpretativa y margen conceptual, en tanto que el documentalista crítico
adoptará una posición ética, manteniendo la función reproductora junto
a la coproductora:
Ejemplo de una noticia sobre hechos contrastados: “Carga policial
contra la huelga de mineros produce varios muertos”.
Opciones de representación:
a) reproducción: carga policial/ mineros/huelga/ muertos
b) opciones de producción:
en favor de policía: policía/ empleo de fuerza/ mineros/
rebelión/ bajas
en favor de los mineros: policía/ violencia/ mineros/
reivindicaciones sociales/ asesinatos
c) coproducción:
index reproducción: carga policial/ mineros/ huelga/ muertos
index coproducción:
perspectiva 1: a favor de policía
Estudos críticos em organização do conhecimento
311
perspectiva 2: a favor de mineros
perspectiva 3: en contra de policías y mineros
perspectiva 4: a favor de policías y mineros
perspectiva 5: reproducción
- perspectiva 6: variantes de opciones 1 a 4.
Otro extenso escenario, que merece todo un programa de
investigación empírica desde esta misma aproximación debido a su
crecimiento exponencial, es el caso de la producción mediática visual y
audiovisual, y especialmente los documentos de escasa o nula textualidad,
es decir, acompañados por insuficientes o inexistentes pies de foto o audio
de locutor-exceptuando los “totales” - que trasladen una terminología oral
o escrita determinante. Las operaciones de organización del conocimiento,
en estos casos, alcanzaría cotas mucho más altas de interpretación dada la
polisemia inagotable de la imagen, y suponen un desafío y mayores dosis
de responsabilidad cotidiana, no amparada por procedimientos solventes
suministrados por la teoría de la organización del conocimiento, para los
organizadores del conocimiento de medios audiovisuales.
En cualquier caso, tampoco hemos tenido en cuenta la política
editorial o libro de estilo del medio que impondrá criterios en el
análisis y representación, restringiendo las posibilidades de producción
y coproducción por parte de los organizadores del conocimiento de
medios. No obstante, unos organizadores del conocimiento entrenados
en una capacitación crítica siempre dispondrán de un pequeño margen
mediante el uso de omisiones, por ejemplo, que no serán captadas por el
más desconfiado supervisor.
Además de permitir la presencia crítica de organizadores del
conocimiento de medios en los procesos e instrumentos de organización
del conocimiento aplicada a los media, el operador crítico puede tener
otras utilidades. En el caso de los miles de erratas o reducciones de
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
312
origen cultural o metonímico, por ejemplo, el espacio reservado a la
interpretación o posición de los organizadores del conocimiento de
medios podría ser usado para salvar errores con riesgo de perpetuación
y universalización inmediata.
No es extraño ver imágenes en las que el locutor confunde a los
yekwuana con los yanomami, a soldados afganos con pakistaníes o, como
era habitual en el cine hollywoodiano de los años cincuenta - aunque la
identificación persiste en foros que no son de entretenimento - se oiga
flamenco en un local mexicano del siglo XIX o se homologue lo latino a lo
hispano y a lo español. La metonimia no encuentra obstáculos culturales,
geográficos o cronológicos (particularmente relevantes para la memoria
colectiva) en su avance reductor. Como contrapartida, la hermenéutica
diatópica sería un ejemplo de aproximación crítica integrada que estaría por
desarrollarse en todas las dimensiones de la organización del conocimiento
aplicada a los media y, a través de cautelosas extrapolaciones, a otros discursos
socioculturales que sean objeto de la formación de organizadores del
conocimiento y de la implementación del operador crítico aquí propuesto.
5 CONCLUSIONES
De los argumentos expuesto, se extraen las siguientes conclusiones y
líneas de actuación:
La subjetividad de opiniones y sesgos de los organizadores
del conocimiento de medios se trasladan a las operaciones e
instrumentos de organización del conocimiento aplicados al
discurso mediático a pesar de todas las medidas que se adopten
para prevenirlos.
Tales sesgos y opiniones inevitables pueden ser explicitados
como expresión de una posición e incluso contemplados como
un derecho de los organizadores del conocimiento de medios
como coproductores textuales.
Estudos críticos em organização do conhecimento
313
Las operaciones e instrumentos de organización del
conocimiento pueden y deben abrir espacios para la libre
circulación y complementación de opiniones, posiciones y
consensos respecto a un asunto presididos por los operadores
transculturales que garantizan la dignidad de la memoria, por
los operadores complejos que garantizan la democracia y, como
modalidad de estos, por los operadores críticos propuestos en el
presente artículo, que implican explícitamente al organizador del
conocimiento como coproductor activo, visible y responsable de
la construcción de la memoria mediática.
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317
11
A METáFORA NA ORgANIZAÇÃO
DO CONHECIMENTO DA MÚSICA
tHe metaPHor in tHe
orGaniZation of musiC
KnoWledGe
Camila Monteiro de BARROS
Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-485-1.p317-336
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
318
Resumo: No presente texto, retomamos a relevância das metáforas para a representação
do conhecimento, especificamente no que concerne à música e seus significados
emocionais. A expressão verbal da experiência do ouvinte com a música escapa ao uso de
conceitos referenciais (referencialidade) e aparece representada por meio de conjunturas
probabilísticas, frequentemente relacionadas à apreciação e às emoções alcançadas na
escuta musical. A metáfora é discutida na perspectiva da semiótica de Peirce, sendo
aquela um tipo de signo. Complementarmente, a metáfora também encontra suporte
na linguística cognitiva, que discute sua função e funcionamento no discurso e na
cognição. Damos especial atenção a seu uso no âmbito da música e tentamos demonstrar
as possibilidades de entender a metáfora na OC como recurso de representação cultural
plural, com inspiração nos escritos de García Gutiérrez.
Palavras-chave: metáfora; música; representação do conhecimento.
Abstract: In the present text, we resume the relevance of metaphors for knowledge
representation, specifically with regard to music and its meanings. A verbal expression
of the listener’s experience with the music escape from the use of referential concepts
(referentiality) and appears represented by probabilistic conjunctures, often related to the
appraisal and emotions achieved in music listening. e metaphor is discussed from the
perspective of Peirces semiotics, in which it is a type of sign. Complementarily, metaphor
also finds support in cognitive linguistics, which discusses its function and functioning in
discourse and cognition. We give special attention to its use in the field of music and try
to demonstrate the possibilities of understanding the metaphor in the KO as a resource
for plural cultural representation, inspired by the writings of García Gutiérrez.
Keywords: metaphor; music; knowledge representation.
Estudos críticos em organização do conhecimento
319
1 INTRODUÇÃO
Se antes, a designação única da metáfora era de compor o sistema
linguístico como uma figura de linguagem, depois da proposta de Lakoff
e Johnson (1980), na linha da linguística cognitiva, a metáfora passou a
ser entendida também como constitutiva do pensamento e da ação, como
recurso recorrente no uso cotidiano da língua. Isso não é diferente na
Organização do Conhecimento (OC), em que a metáfora é muito relevan-
te ao discurso que pensa a área como um todo. Por exemplo, a discussão das
metáforas de “tempo”, empregadas na análise e na avaliação de sistemas de
organização do conhecimento (SOC) (Tennis, 2013), as bem conhecidas
referências ao âmbito do conhecimento como “árvore”, “círculo”, “rede”,
“labirinto” (Robinson; Maguire, 2010; Hansson, 2013; Mazzocchi, 2013),
a referência ao “rizoma” na perspectiva da OC e dos SOC (Sales, 2018;
Robinson; Maguire, 2010; Monteiro, 2003; Monteiro; Abreu, 2009), as
críticas ao papel dessas metáforas na OC (Hetmanski, 2014), a metáfora do
colisor de partículas” em paralelo ao “colisor de conhecimento” (Heuvel;
Smiraglia, 2010), as metáforas “terrestres” e “aquáticas” na referência ao
conhecimento e suas possibilidades de favorecer ou não a multidisciplina-
riedade (Marras, 2013), entre outros estudos. Por outro lado, apesar do seu
proeminente potencial para explicitar entendimentos inclusive no âmbito
científico, a metáfora em si não é comumente trazida às discussões da OC
como expressão linguística de representação do conhecimento.
Alguns estudos podem ser apontados nesse sentido, como em Orrico
(2006), que propõe a metáfora como unidade informacional para a repre-
sentação do conhecimento. Em Orrico e Oliveira (2005) e Orrico (2017)
as autoras trazem o uso da metáfora como metafiltro para organização e re-
cuperação da informação. As autoras realizam o levantamento com mem-
bros da Rede de Estudos de Engenharia e Socioeconômicos de Transportes
(RESET), que puderam sugerir, de forma aberta, metáforas que se carac-
terizariam como representativas da área. Entre o que as autoras chamam
de condições fundamentais e acessórias da constituição de um campo de
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
320
conhecimento, as metáforas comporiam as primeiras, associadas à noção
das facetas de Ranganathan.
Mesmo se tratando de âmbito científico, Orrico (2017) registra que
percebe a metáfora “menos como recurso de estilo literário que tende à
imprecisão, e mais como grau de representação que tende a especificar con-
ceitos utilizados em um campo de conhecimento”. Essa mesma proposta
metodológica foi aplicada por Pinho (2014), no âmbito da homossexua-
lidade masculina, a partir da coleta de metáforas empregadas em publica-
ções científicas sobre o tema. A discussão proposta pelo autor traz como
fundamento e é reforçada como conclusão do estudo que as metáforas
da homossexualidade masculina, muitas delas historicamente construídas
com base em preconceitos e violências sociais, foram apropriadas pelo gru-
po e, em alguns casos, tiveram seus significados reconsiderados (Pinho,
2014).
Se a expressão metafórica é constituinte de uma noção identitária
de grupo, essa deve ser incorporada à representação desse conhecimento.
Pinho (2017) revisita seu percurso investigativo, com enfoque na contex-
tualização das metáforas e incluindo, além da garantia literária, a garantia
do usuário. Esta última foi realizada, por meio da validação, por membros
de entidades representativas de homossexuais, dos termos coletados e da
indicação da significância do termo, ou seja, se adequado ou inadequado,
inconsistente, discriminatório. O autor também alcança o contexto socio-
linguístico dos termos metafóricos, já que vários deles, quando traduzidos
do inglês para o português, traduzem também perspectivas culturais que
modificam o significado dos termos.
No presente texto, retomamos a relevância das metáforas para a re-
presentação do conhecimento, especificamente no que concerne à música
e seus significados emocionais. A expressão verbal da experiência do ouvin-
te com a música escapa ao uso de conceitos referenciais (referencialidade)
e aparece representada por meio de conjunturas probabilísticas, frequente-
mente relacionadas à apreciação e às emoções alcançadas na escuta musical.
Estudos críticos em organização do conhecimento
321
García Gutiérrez (2021, p. 12, tradução nossa1) lembra que “[...] a música
é um dos espaços que dá mais voz às emoções”, daí supomos o rico uso de
metáforas e analogias na sua descrição. O uso de metáforas na representa-
ção da música não é novidade para os ouvintes, mas sua discussão ainda é
expressiva na OC.
Conforme defende Vereza (2010), a expressão literal não é oposta à
expressão metafórica, já que a primeira não pode ser tomada como indi-
cativo de verdade, e muito menos a segunda como indicativo de engodo.
Além disso, várias metáforas encontram certo nível de convenção e reforço
pragmático de significado que chegam a ser percebidas como literais pelos
usuários da língua (Shutova; Devereux, Korhonen, 2013). Trata-se de uma
questão de construção de significado, de natureza do signo e sua forma de
representação.
No âmbito da informação musical em serviços web, é recorrente o
uso de expressões metafóricas como forma de nomear textualmente catego-
rias e gêneros musicais. Na perspectiva da Organização do Conhecimento,
esses conjuntos de expressões podem ser entendidos como taxonomias ou
sistemas de classificação, portanto tipos de sistemas de organização do co-
nhecimento (SOC) aplicados ao domínio da música como fonte de in-
formação para recreação. Podem ainda ser originados colaborativamente,
conformando folksonomias.
A representação do conhecimento relacionado à música com o uso
de metáforas suscita relações variadas de significância por meio da percep-
ção do usuário e de todo o contexto cultural do qual é parte. Tais relações
trazem reflexões à área da OC no que concerne às análises semânticas dos
elementos dos SOC, apoiadas na noção de percepção.
Smiraglia (2008) faz uma aproximação com a fenomenologia quan-
do traz à discussão a relevância da percepção nas classificações que opera-
mos no dia a dia, já que essas são recorrentes indicações da conformidade
cultural da percepção. Para Martínez-Ávila e Smiraglia (2013), a percep-
1 “La música es uno de los espacios que más voz presta a las emociones”.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
322
ção constitui um fundamento epistemológico para o desenvolvimento de
SOC, pois revela uma moderação cultural cujo princípio é a fluidez do
processo perceptivo. Para os autores, abordar a percepção no contexto da
OC, revela a não neutralidade e não naturalidade da construção de concei-
tos, já que “[...] experiências individuais vividas conformam classificações
individuais que são diferentes daquelas de outros com diferentes experiên-
cias vividas” (Martínez-Ávila; Smiraglia, 2013, p. 223, tradução nossa2).
A inclusão de historicidades particulares, mais ou menos conven-
cionadas, na representação do conhecimento é mais uma possibilidade de
discutir a ética cultural tão cara aos fazeres da OC. De forma pragmática,
entendemos que o uso de metáforas é um recurso para a objetivação da
percepção - conservando certa subjetividade - que os usuários constroem a
respeito da música e se torna também um recurso para que tais percepções
estejam contempladas nas classificações desse tipo de informação.
Considerando a pluralidade das percepções, a emoção como cons-
tituída de hipóteses e não de argumentos lógicos, a figuração expressiva
das metáforas que dão lugar a não estabilidade conceitual tão relevante
para a referência às emoções, propomos aqui uma abordagem ensaística.
A metáfora é discutida na perspectiva da semiótica de Peirce, sendo aque-
la um tipo de signo. Complementarmente, a metáfora também encontra
suporte na linguística cognitiva, que discute sua função e funcionamento
no discurso e na cognição. Damos especial atenção a seu uso no âmbito
da música e tentamos demonstrar as possibilidades de entender a metáfora
na OC como recurso de representação cultural plural, com inspiração nos
escritos de García Gutiérrez.
2 METáFORA SEMIóTICA E METáFORA LINgUÍSTICA
A metáfora como conceito semiótico engloba distintos sistemas de
signos extrapolando a linguagem verbal. Ferraz Junior (2011) atenta para o
“individual lived experiences conform individual classifications that are different from those of others with
different lived experiences
Estudos críticos em organização do conhecimento
323
fato de que Peirce não restringe o signo icônico a um fragmento do discur-
so verbal com significado figurativo, mas que pode ocorrer com base em
imagens, palavras, combinações de diferentes signos. A metáfora é então
definida como um tipo de signo icônico, de estrutura complexa que de-
signa diferentes objetos e cujas relações implicam um tipo de empréstimo
de significados entre tais objetos, criando uma nova forma de significá-los.
A tríade ícone, índice e símbolo é bastante conhecida e se refere ao
modo como o signo se relaciona com o objeto que representa. Enquanto
o índice apresenta correspondência fatual com o objeto e o símbolo cor-
respondência por força de convenção, de acordo com Peirce (CP 1.558,
1974), o signo icônico (ou hipoícone) apresenta relação de semelhança to-
tal ou parcial, semelhança esta que é percebida pelo compartilhamento de
certas qualidades entre signo e objeto. Os signos icônicos podem ocorrer
de três formas: a imagem, o diagrama e a metáfora. Por gentileza, colocar
o ano da obra
No caso da imagem, a representação se dá pela “semelhança sen-
sorial” (Reis, 2006), como cor, forma, conforme em uma pintura. Peirce
(CP 2.277, 1974) se refere à “primeira primeiridade” cujas relações são
na maior parte diádicas. O diagrama representa pelas correspondências de
traços entre signo e objeto, como um mapa. Para Peirce (CP 2.277, 1974),
ocorre uma analogia com as partes do objeto representado. A metáfora es-
tabelece a representação entre signo e objeto por meio de um paralelismo
(CP 2.277, 1974), em geral envolvendo signos de outras categorias como
índices ou símbolos.
A Semiótica peirceana traz três níveis de experiência dos fenômenos
(emocional, energético - respostas físicas - e lógico), cada nível é dependen-
te do anterior. Por exemplo: para experienciar o nível energético, é necessá-
ria uma espécie de transbordamento do nível emocional. Mas é importante
dizer que essas cadeias semióticas não são em momento algum lineares. A
semiose ocorre constantemente, ad infinitum, criando e recriando novos
signos e interpretações, ou seja, o transbordamento dos níveis de inter-
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
324
pretantes pode levar a uma ressignificação da emoção, como corre com a
metáfora que, tendo seu fundamento icônico, busca referências simbólicas
para sustentá-lo.
De acordo com a semiótica de Peirce (1995), tanto no nível de in-
terpretante emocional (sensações e emoções), quanto nos níveis energético
(experiências particulares) e lógico (convenção, estabilidade), a primeirida-
de (própria do signo icônico e eminente no interpretante emocional) está
presente. Dessa forma, a emoção em si (interpretante emocional), tradu-
zida em palavras (interpretante lógico) necessita um entendimento proba-
bilístico do seu significado3. A noção de probabilidade desprende o signi-
ficado da expressão verbal do compromisso com a convenção socialmente
estabilizada da língua, sendo que a metáfora, como reflexo da terceiridade
na noção de ícone, representa uma tendência de significação. Tal tendência
pode se configurar de maneira mais reconhecida, com significados meta-
fóricos mais usualmente adotados, ou criativa e mais próxima da noção de
descoberta, quando os significados são renovados (Reis, 2006).
Nessa perspectiva, Reis (2006, p. 2) aponta uma correspondência
entre a estrutura das metáforas e a estrutura da inferência abdutiva (desco-
berta) que pode favorecer “[...] uma abordagem semiótica ‘não-objetivista
das metáforas e do significado”, como na linha da linguística cognitiva.
Com o uso da metáfora, ocorre uma transferência de significados
de um objeto para outro objeto que, tendo imputado a si tais significa-
dos, torna-se figurativo, como um tipo de ilustração, de intensificação ou
esclarecimento do significado que se quer expressar. Trata-se de uma visão
pragmática em que o significado é conhecido pela sua função no mundo
real, embutido no discurso. O uso de metáforas na linguagem se dá, para
Peirce (1995), quando da necessidade de nomear novo fenômeno sendo
a metáfora um recurso que utiliza conceitos já conhecidos colocando-os
em paralelo para criar um novo significado. Para Reis (2006), as metáforas
Abordagens mais específicas dos níveis de interpretante com relação à música e a respeito da transição
entre diferentes tipos de signos, ou seja, de experiências sensoriais e emocionais para sua representação em
linguagem verbal são apresentadas em Barros, Café e Laplante (2016, 2018, 2019).
Estudos críticos em organização do conhecimento
325
trazem uma “tensão figurativa” que suporta uma analogia entre indicações
de qualidades e signos literais.
A circunstancialidade do sentido da metáfora é aspecto sustentado
também na linguística cognitiva, já que seu uso implica no “[...] esque-
cimento de vários atributos que o termo metaforizado evoca em nós em
seu emprego normal” (Ricoeur, 2005, p. 166). Dessa forma, pensamos a
metáfora a partir de uma lógica de empréstimo semântico, configurando
uma espécie de prática de desvio.
Ao se afastar da função de referencialidade, ou seja, da pretensão de
descrição de objetos e fenômenos do mundo, o uso da metáfora implica a
construção de novos objetos e de fenômenos a partir das práticas discursi-
vas (Mondada; Dubois, 2003). Não se trata, portanto, da simples extensão
de significados de palavras por similaridade, mas da reconceitualização, de
fato, das experiências semióticas em relação a outras (Shutova; Devereux;
Korhonen, 2013). De acordo com Vereza (2017, p. 140), a metáfora seria a
construção metafórica do objeto A, a partir da construção-suporte do obje-
to B”, sendo que os objetos A e B seriam oriundos de domínios diferentes.
Vejamos um exemplo: “música para sair da fossa”. Nesse caso, “música” é o
objeto A, cuja significação se dá pela definição habitual também metafórica
de “fossa”, que é o objeto B e significa, nesse exemplo, momento triste ou
difícil. Nesse exemplo, uma cadeia de metáforas é necessária para a compre-
ensão do sentido da expressão, englobando objeto A, B, C, D..., questão essa
que foi investigada por Shutova, Devereux e Korhonen (2013).
A linguística explora outros vieses da constituição das metáforas, for-
mas de comparação, de enunciação metafórica mais ou menos explícitas,
relações com o discurso proposto etc. No presente texto, basta-nos pensar
a metáfora como possibilidade de linguagem de forma mais geral.
Para Vereza (2007), a metáfora fortalece a argumentação do discur-
so por oferecer uma cadeia de desdobramentos que favorecem a língua
como meio de textualização. Por sua vez, como afirmam Lakoff e Johnson
(1980), esses desdobramentos fundamentam-se na cultura que os ancora e,
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
326
portanto, têm em seu bojo relações cognitivas mais estáveis e socialmente
compartilhadas que concorrem para sua compreensão. Para fazer sentido,
é necessário que a metáfora, ainda que descolada de um discurso, possa
ser relacionada a algo conhecido, de consenso social, podendo ser outra
metáfora ou mesmo a referência a um objeto do mundo real. A referência
da metáfora é, portanto, o contexto cultural do interlocutor que interpreta
a metáfora ou, como coloca Peirce, é a relação de qualidade que invoca e
desloca conceitos já conhecidos.
Quando a criatividade associada a uma metáfora se desgasta em
função do uso recorrente, parece começar a transição para seu entendi-
mento como referencialidade descritiva, ainda que, como toda descrição,
permaneça sendo uma metáfora em algum nível (García Gutiérrez, 2022).
Portanto, não faz sentido buscar uma delimitação clara entre metáfora e
linguagem literal, mas sim reconhecer que essas formas de linguagem são
decorrências de diferentes relações com os objetos que representam.
3 MÚSICA, METáFORA E ORgANIZAÇÃO DO CONHECIMENTO
No âmbito da OC, especificamente no desenvolvimento de SOC, a
argumentação e construção do objeto do discurso como discutida na lin-
guística não é tida como foco, já que esses instrumentos privilegiam frag-
mentos textuais fragilmente conectados pela sua disposição. No entanto,
as delimitações de cobertura e estrutura dos SOC podem fornecer alguns
parâmetros para a interpretação contextual dos conceitos ali representados.
Ainda que nem toda representação seja conformada em conceito,
como as emoções sentidas, a OC lida com essa forma de representação.
Entretanto, permanece indissociável a relação entre linguagem e represen-
tação. Mas de que representação estamos falando no contexto dos ouvintes
da música? Com o que a OC se ocupa na discussão da representação da
música para não-especialistas? Acreditamos que a OC lida com o significa-
Estudos críticos em organização do conhecimento
327
do que a música tem para essas pessoas, sendo esse o gatilho que motiva e
dá subsídios para a busca por informação musical.
São os significados da experiência imediata da primeiridade (ícone),
que estão transferidos e objetivados no uso da linguagem verbal acionada
pela terceiridade (símbolo) nos nomes metafóricos das categorias que de-
signam, por exemplo, gêneros musicais (como música clássica, sertanejo),
emoções ligadas à música (alegria, raiva) etc. Em outras palavras, é a ex-
periência em si (fenômeno) transformada em objeto do conhecimento da
CI, na perspectiva da classificação (Gnoli, 2016). García Gutiérrez (2021,
p. 11, tradução nossa4), colocando-se na perspectiva de ouvinte, afirmou:
“[...] a capacidade que tem para suspender a racionalidade: isso é o que
mais me atrai na boa música”, arrematando com a seguinte frase: “[...]
não selecionamos a música boa, é boa porque a selecionamos”. Assim, o
objeto de conhecimento do domínio dos ouvintes não-especialistas é a sua
experiência com a música, cuja vontade de repeti-la, modificá-la, evitá-la
ou renová-la é o mecanismo motivador da interação e, portanto, precisa
estar abarcado na OC.
A noção de fenômeno é entendida na perspectiva semiótica peircea-
na como aquilo que acessamos por meio da experiência com signos (Peirce,
1995). Uma vez que o sentido despertado em uma experiência é, antes de
tudo, um fenômeno (não uma disciplina ou uma divisão social do traba-
lho), o fenômeno é justamente a base da representação da música na pers-
pectiva da OC. Dessa forma, o fenômeno da experiência é o objeto com
o qual o usuário de música tem ou deseja ter contato e é isso que motiva a
busca de informações. Toda experiência é resultante de processos semióti-
cos, no entanto é especialmente relevante no âmbito da música compreen-
der a força constitutiva da experiência imediata na sua representação.
Considerando a linguagem verbal, podemos pensar duas etapas de
significação. A primeira etapa é a significação da música que resulta da
experienciação do fenômeno, ou seja, a experiência em si que o fenômeno
“La capacidad que tiene para suspender la racionalidad: eso es lo que más me atrae de la buena música”.
“No seleccionamos la música buena, es buena porque la seleccionamos”.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
328
desencadeia, como sentir alegria, vontade de dançar, relaxamento etc. A
segunda etapa seria o relato desse significado com o uso de outros signos
para fins de comunicação dessa experiência a outras pessoas, como da lin-
guagem verbal, imagens etc. Obviamente, a suposição de “duas etapas
é extremamente reducionista, já que não se trata de algo linear ou niti-
damente “mapeável”. Várias outras relações compõem a representação da
experiência fenomenológica, que é complexa.
É importante ressaltar que esse relato como recurso de
compartilhamento com outros da experiência vivenciada mantém sua
relação com o fenômeno que está sendo descrito, já que é uma representação
deste fenômeno. Por exemplo, em Barros (2020), mais de 300 comentá-
rios de usuários da web com relação a uma música específica foram analisa-
dos e a expressão “Domingo cedinho a caminho da praia
” foi um deles
(importante dizer que a música não faz referência direta à praia, nem na
letra nem no videoclipe). Quando lemos essa frase é possível compreender
que a música gerou um sentimento positivo na pessoa que faz a afirmação.
Ainda que não seja possível descrever em signos verbais a exata natureza do
sentimento, a metáfora do domingo, da praia, o uso do diminutivo “cedi-
nho” e a complementação com o desenho de coração fornecem o contexto
que torna possível compreender o que está sendo expresso. Vale pontuar
que o sentimento expresso está carregado de outras relações diversas que
dependem de outras experiências, como nostalgia, excitação, experiências
com “praia” etc.
Desse contexto, depreendemos que a metáfora pode ser a forma
mais precisa de representar o âmbito da música. O lugar de reconciliação
e empatia às subjetividades já foi apontado por García Gutiérrez (2014,
2018) como necessário à revisão crítica da sociedade, da qual a OC não
escapa. García Gutiérrez (2022) comenta que em domínios humanos pos-
sivelmente mais comprometidos com o fluxo emocional, como seria o caso
da música, a representação em SOC precisaria recorrer a formas de lingua-
gem mais abstrata, metafórica etc., no sentido de abandonar o imobilismo
da representação.
Estudos críticos em organização do conhecimento
329
Chiantore (2017) tece uma extensa análise crítica sobre a tradicional
classificação estética historiográfica da música que coloca, por exemplo,
Haydn e Mozart como cânones representativos do estilo Clássico. O autor
acusa a pretensa objetividade desses parâmetros extensamente utilizados e
difundidos por websites indicando que “[...] quando você tenta encaixar
qualquer definição das diferentes características de um ou outro ‘estilo’ aos
primeiros cinco minutos da Criação de Handy ou do Requiem de Mozart,
algo falha” (Chiantore, 2017, p. 111, tradução nossa5).
O autor indica, inclusive, que tais classificações limitam a própria
performance e escolha de repertório, sendo que músicos, ouvintes, promo-
tores podem criar trajetórias muito surpreendentes no que se refere ao en-
tendimento plural que têm sobre estilo musical. A referência que fazemos
aqui ao estudo de Chiantore (2017) não é uma indicação de total falha da
tradicional classificação de estilos musicais com base na cultura europeia,
é, antes, um apelo que mostra que, nas situações já fundamentalmente abs-
tratas, de difícil correspondência com a linguagem descritiva como são as
emoções, uma possível solução para sua verbalização em SOC, é a adoção
de linguagem que permita suposição igualmente abstrata.
A metáfora traz um empréstimo de significado que implica uma sig-
nificação cruzada, bem distante da ideia da univocidade entre termo e con-
ceito perseguida nos SOC. Sua constituição desconstrói, de certa forma, a
relação termo-conceito , pois perpassa por termos, significados, conceitos,
contextos. Abre, assim, espaço para a multiplicidade, plena de ambiguida-
de e, logo, passível de ancorar a contradição.
García Gutiérrez (2022) comenta que talvez a metáfora tenha uma
clara dimensão contraditória. A forma de expressão metáfora aceita con-
tradições na sua estrutura fundante e permite que essas fiquem visíveis no
enunciado. Obviamente, não se trata da contradição ontológica nem da
amplitude do pluralismo cultural tratado por García Gutiérrez, mas é uma
5 when you try to fit any definition of the distinctive features of one or other “style” to the first five minutes
of Haydns Creation, or to Mozart’s Requiem, something fails
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
330
forma de expressão dessas noções nos enunciados. Por exemplo, as expres-
sões “coração de pedra”, “silêncio ensurdecedor”.
4 APONTAMENTOS SOBRE O USO DA METáFORA NA ORgANIZAÇÃO DO
CONHECIMENTO
Como já discutido, não se pode limitar as referenciações suscitadas
pelas metáforas, mas, a exemplo do que mostrou Pinho (2017), relações
são passíveis de serem estabelecidas para fins de representação, desde que
ancoradas majoritariamente em associações e não em hierarquias e consis-
tentemente amparadas pelos grupos utilizadores das metáforas. Listas de
música nomeadas como “pulando da cama”, “churrasco e caipirinha”, ou
indicações do tipo “amor é bossa nova, sexo é carnaval6” fazem sentido na
cultura brasileira e, mais que isso, deixam em destaque em seu enunciado
algumas identidades culturais que permeiam a música no Brasil. A refe-
rência, como já discutido anteriormente, não é direta, é hipotética e não é
descritiva, mas expressiva. São adjacentes os aspectos sociais e políticos, no
entanto mais participativos na constituição do enunciado do que aqueles
baseados, por exemplo, na epistemologia da própria música.
As metáforas são criadas e empregadas em contextos limitados e são,
portanto, parte do autorreconhecimento da identidade do grupo que as
utilizam (Orrico, 2017). A metáfora, então, não pode ser generalizada. Na
OC, podem ser pensadas como uma espécie de insurgência em que ques-
tões linguísticas relacionadas a contextos culturais mais restritos (não “glo-
balizados”), como a metáfora, podem ser inputs para o pluralismo cultural.
É uma forma linguística instável, hipotética (pode ou não se confirmar
quando da experiência de fato), que se modifica ou que tem seu significado
modificado no tempo e no uso. Tais características parecem adequadas para
as representações livres e ambíguas necessárias aos conceitos emocionais.
Trecho da letra da música Amor e Sexo, de Rita Lee.
Estudos críticos em organização do conhecimento
331
A prática da ordenação de conceitos na OC, fundamentalmente
classificatória, se defronta aqui com a eminente multiplicação das rela-
ções associativas que se posicionam antes das propostas hierárquicas. Gnoli
(2017), por exemplo, afirma que a classificação precisa, apresentar alguma
linearidade lógica diferenciando-se de formas arbitrárias ou variantes de
princípios intuitivos para que o usuário possa encontrar o que busca. Para
o autor, a relação de dependência se constitui na medida em que um fe-
nômeno de nível mais “complexo” é resultado da interação de elementos
referentes ao fenômeno anterior da cadeia de classificação.
Tal princípio não é coerente com a proposta que aqui trazemos. Por
exemplo, para compreender o conjunto de músicas nomeado “Songs to
sing in the shower7”, parece que não basta saber o que é um chuveiro, o
mesmo ocorre com a lista “Just get going” ou “Pink noise”. A lógica da
representação nesse caso é a lógica da interpretação subjetiva, por isso os
apontamentos à relevância das associações e não hierarquizações. Ao usar
a metáfora, o que está sendo descrito é o provável significado (no sentido
semiótico) que o usuário alcançará a partir da experiência de ouvir aquele
conjunto de músicas. A metáfora linguística é culturalmente localizada, é
específica e a insurgência das especificidades é o que configura o pluralismo.
Voltando a García Gutiérrez e compreendendo que esse ensaio tra-
ta de passos (bem) iniciais, observamos que a linearidade e o princípio
que guia a progressão das categorias aparentes na estrutura dos esquemas
de classificação não é a melhor via de abordagem da representação da
música. Quais seriam as vias para incorporar as metáforas nas discussões
da OC é uma questão que deixaremos em aberto. Mas ao flertar com as
noções de contradição e pluralismo cultural, podemos considerar um
vislumbre à desclassificação.
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Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
332
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336
337
12
CONTRADISPOSITIvOS
RIZOMáTICOS PARA INQUIETAR
A ORgANIZAÇÃO DO
CONHECIMENTO: UMA TENTATIvA
DECOLONIAL
rHiZomatiC CounterdeViCes to
sHaKe KnoWledGe orGaniZation:
a deColonial attemPt
Rodrigo de SALES
Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC
Dirnèle Carneiro GARCEZ
Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-485-1.p337-366
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
338
Resumo: Este ensaio se sustenta no desejo de proporcionar caminhos decoloniais no
âmbito instrumental da Organização do Conhecimento. O objetivo principal é especular
possibilidades de se construir contradispositivos como alternativa decolonial para a
Organização do Conhecimento, com vistas à abordagem rizomática. Para tanto, desenhou-
se algumas aproximações entre o conceito de dispositivo, de Foucault e Agamben, o
conceito de decolonialidade, de pesquisadoras e pesquisadores latino-americanos, a ideia
de abordagem intercultural, de Natalia Duque Cardona, e a perspectiva rizomática de
Deleuze e Guattari. Infere-se, como resultado, o fato de que ao se desvencilhar das amarras
ordenadoras e preestabelecidas que operam para a colonialidade, abre-se espaço para um
devir intempestivo que pode interferir nos instrumentos que organizam conhecimentos,
de forma a resistir ao próprio processo colonizador.
Palavras-chave: rizomas; decolonialidade; contradispositivo; sistemas de organização do
conhecimento; violência epistêmica.
Abstract: is essay is based on the desire to provide decolonial paths in the instrumental
scope of knowledge organization. e main objective is to speculate possibilities of
building counter-dispositifs as a decolonial alternative for knowledge organization
aiming at a rhizomatic approach. erefore, some relations were proposed between the
concept of dispositif, of Foucault and Agamben, the concept of decoloniality, of some
Latin American researchers, the idea of an intercultural approach, by Natalia Duque
Cardona, and the rhizomatic perspective of Deleuze and Guattari. It is inferred, as a
result, that when freeing itself from the ordering and pre-established ties that operate
towards coloniality, roomed is made for a sudden becoming that can interfere with the
instruments that organize knowledge in order to resist the colonizing process itself.
Keywords: rhizomes; decoloniality; counter-dispositif; knowledge organization systems;
epistemic violence.
Estudos críticos em organização do conhecimento
339
1 INTRODUÇÃO
No campo da Organização do Conhecimento, a representação de as-
suntos e de domínios de conhecimento ganha forma por meio da constru-
ção de instrumentos sistemáticos chamados de Sistemas de Organização do
Conhecimento (SOC). É possível afirmar que tais instrumentos operam
como dispositivos estratégicos que, se por um lado, auxiliam eficientemen-
te o processo de recuperação de informações; por outro, são capazes de nos
capturar de tal forma que, voluntariamente ou não, acabamos reprodu-
zindo pensamentos vindos de culturas hegemônicas e, por consequência,
consolidamos a colonização do saber e a violência epistêmica.
A construção deste ensaio se fundamenta na ideia de que ao ‘pro-
fanarmos’ (no sentido dado por Giorgio Agamben) dispositivos vigentes,
temos chances de abrir espaço para a criação de contradispositivos que,
no mínimo, poderão perturbar ou confundir o processo colonizador ain-
da presente na Organização do Conhecimento. Assim, a questão que nos
orienta nesta especulação teórica é: será possível construir contradisposi-
tivos como alternativa decolonial para a Organização do Conhecimento?
Do ponto de vista da abordagem teórico-metodológica, este texto
está respaldado por reflexões teóricas e produções científicas de pessoas in-
dígenas, negras e de outros grupos étnico-raciais, assim como por ideias de
filósofos europeus ligados ao pós-estruturalismo. O objetivo principal é es-
pecular possibilidades de se construir contradispositivos como alternativa
decolonial para a Organização do Conhecimento, com vistas à abordagem
rizomática definida por Deleuze e Guattari. Para tanto, traçamos algumas
aproximações entre o conceito de dispositivo, de Foucault e Agamben, o
conceito de decolonialidade, de pesquisadoras e pesquisadores latino-ame-
ricanos, a ideia de abordagem intercultural, de Natalia Duque Cardona, e
a perspectiva rizomática de Deleuze e Guattari.
No que se refere à estrutura do ensaio, o texto está composto por uma
seção destinada à urgência da decolonialidade para enfrentarmos a violên-
cia epistêmica; uma seção dedicada à criticar os sistemas de Organização do
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
340
Conhecimento, que operam como dispositivos potencialmente coloniais;
ainda, uma seção que propõe a abordagem rizomática como alternativa
para a construção de contradispositivos decoloniais no âmbito instrumen-
tal da Organização do Conhecimento e; seções relativas às conclusões e às
referências bibliográficas.
2 UM POUCO SOBRE A DECOLONIALIDADE: UMA URgêNCIA
A decolonialidade surgiu no instante em que o colonizado inter-
veio e se opôs às pretensões de seus colonizadores (Bernardino-Costa;
Grosfoguel, 2016). E, desde então, interlocuções têm sido realizadas por
meio de abordagens contra as perspectivas hegemônicas no conhecimento.
Os estudos decoloniais partem de pensamentos de grupos colocados em
lugares de opressão e de sub-representação, como mulheres, grupos étnico-
-raciais e povos originários de populações que estão à margem da socieda-
de, como é o caso dos de origem latina, indígenas, entre outros.
A decolonialidade tem sido debatida em estudos de diversas áreas
do conhecimento, dentre elas as Ciências Sociais, a Geopolítica, o Direito
e áreas afins. Isso demarca o percurso de uma (re)existência epistêmica
(Passos, 2019) presente em textos que objetivam estabelecer diálogos entre
os atores sociais como no caso de negros, de indígenas, de ameríndios e
outros. Entretanto, muitos dos discursos que se propõem decoloniais estão
atribuindo relações entre os sujeitos que foram marginalizados colocando-
-os no lugar do outro quando abordam a produção de conhecimentos, o
que torna então uma recolonização do conhecimento elaborado, em que
tais perspectivas são fundamentadas em “[...] um multiculturalismo teóri-
co, racializado e que exotiza estes corpos” (Silva Viana; Moura, 2019, p. 4).
O antropólogo Gálvez González (2018) chamou a atenção para o
fato de que o conhecimento hegemônico ocidental, em grande medida,
constituiu-se por meio da construção estereotipada das diferenças cultu-
rais e/ou da cultura do outro. Segundo o autor, o conhecimento ociden-
Estudos críticos em organização do conhecimento
341
tal “[...] fosilizó lo ‘otro’ en una entidad ‘exótica’ radicalmente diferente
(Gálvez González, 2018, p. 20). Essa polarização do nós-eles parece ser um
componente ontológico estratégico que cumpre a missão de maquiar uma
construção histórico-colonial que fundamenta a separação das culturas e
dos povos por meio das mais variadas distinções colonizadoras, civilizados-
-selvagens, civilizados-primitivos, civilizados-exóticos etc.
A distinção colonizadora pode ser entendida de forma ainda mais
profunda quando vista aos olhos de alguns povos originários indígenas.
Como nos alerta o pensador e ativista político indígena Ailton Krenak, a
enganosa distinção se dá já na separação do humano com o planeta, des-
conectando a vida/natureza como um todo, promovendo, com isso, uma
relação de dominação-exploração ao invés de uma vivência plena. Segundo
Krenak (2020), optou-se pelas explorações e dominações desenfreadas ao
invés da experiência de se estar ‘radicalmente vivo’, sob a compreensão de
que todos os corpos estão relacionados a tudo que é vida na Terra. A he-
rança grega, que em determinado momento da história ocidental resolveu
entender o mundo como um mecanismo, e que este mecanismo poderia
ser compreendido e dominado pela humanidade, decididamente é uma
afronta aos pensadores dos povos originários.
[...] o desvio dos humanos em seu sentimento de pertencimento
à totalidade da vida se deu quando descobriram que podiam se
apropriar de uma técnica. Atuar sobre a terra, sobre a água,
sobre o vento, sobre o fogo, até sobre as tempestades que antes
interpretavam como sendo fruto de um poder sobrenatural. Nas
tradições que eu compartilho, não existe poder sobrenatural. Todo
poder é natural, e nós participamos dele. (Krenak, 2020, p. 56).
Entendemos que distinções pautadas em dominantes-dominados
ou exploradores-explorados são componentes coloniais, que potencializam
violências diversas, como é o caso da violência epistêmica. A socióloga
Gaytán Zamudio (2018, p. 31), afirma que a violência pode ser exercida de
diversas formas e “la mayoría de las veces se hace de forma imperceptible,
no porque su fuerza sea menos destructiva, sino porque dicho ejercicio es
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
342
parte ya de nuestra cotidianidad”. Segundo a autora, a violência epistêmica
faz parte de uma violência objetiva que opera tanto no processo de invisi-
bilização e de exclusão de quem é oprimido, quanto na demasiada visibi-
lização e afirmação de quem é opressor, dando vez, assim, a uma realidade
condicionante de dominação colonial.
É importante frisar que a colonialidade já vem sendo criticada desde
as décadas de 1960 e 1970, numa perspectiva anticapitalista limitadamente
solidária aos chamados povos de “terceiro mundo”. Mas, segundo Gaytán
Zamudio (2018), esse movimento não questionou o quadro epistemológi-
co do próprio discurso, marcado ainda pela lógica eurocêntrica. Nesse sen-
tido, a autora afirma ser hora de avançarmos a discussão e ultrapassarmos
o estágio da denúncia (crítica aos dispositivos coloniais) para um estágio de
criação de caminhos decoloniais.
O caminho de decolonialidade que pretendemos criar se situa em um
espaço proposto pela pesquisadora colombiana Natalia Duque Cardona,
chamado de paradigma intercultural. A construção de uma abordagem
que dê conta da diversidade cultural produzida pela grande pluralidade
de existências precisa, segundo Cardona (2020), ser concebida por meio
do diálogo de saberes. Ainda, segundo a autora, isso implicaria em estar-
mos atentos aos diversos modos de produção de informação e aos diversos
modos de construção do conhecimento, verificáveis a partir da relação dia-
lógica dos saberes produzidos e disseminados pela pluralidade dos povos
étnicos e dos grupos locais e regionais.
Trata-se, em última análise, de um esforço de construir uma abor-
dagem que combata a lógica hegemônica de violências epistêmicas, como
denunciada por Gaytán Zamudio (2018). No entanto, para evitar desa-
justes conceituais e não colidir com a ideia de paradigma cunhada por
omas Kuhn, que serviu de base para a identificação dos paradigmas da
Ciência da Informação de Rafael Capurro, preferimos não fazer uso do
termo paradigma intercultural, como o fez Cardona, mas sim ‘abordagem
intercultural’. Tal postura se explica pelo fato de que, para Kuhn (1997), os
Estudos críticos em organização do conhecimento
343
paradigmas seriam uma espécie de arquétipos ou modelos de pensamentos
e de resoluções de problemas identificáveis em determinado período da
história da ciência. Nos parece que a ideia kuhniana de paradigma remete
sempre ao reconhecimento do que já existiu enquanto modelo de fazeres
científicos, assim, impossível de ser proposto a priori, mas sim identificado
e analisado a posteriori.
Procuraremos ocupar esse espaço de interculturalidade para a cons-
trução de um possível caminho decolonial explorando, mesmo que provi-
soriamente, a ideia de que instrumentos de Organização do Conhecimento
podem se tornar ‘contradispositivos’ se concebidos sob uma perspectiva ri-
zomática. Em suma, abordaremos o conceito de “dispositivo” como aquilo
que potencialmente coloniza e especularemos a ideia de “contradispositi-
vo” como aquilo que pode decolonizar.
3 PERTURBANDO OS DISPOSITIvOS
Embora seja um conceito de destaque na obra de Michel Foucault,
não é tarefa muito fácil encontrar onde o autor explicitamente definiu o
conceito de dispositivo. Mas é possível encontrar no livro Microfísica do
Poder, no ensejo de uma entrevista concedida ao final da década de 1970, a
afirmação mais direta que Foucault fez a respeito da definição de dispositivo:
Um conjunto decididamente heterogêneo que engloba discursos,
instituições, organizações arquitetônicas, decisões regulamentares,
leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições
filosóficas, morais, filantrópicas. Em suma, o dito e o não dito
são elementos do dispositivo. O dispositivo é a rede que se pode
estabelecer entre estes elementos. (Foucault, 2010, p. 244).
O autor considerava que um dispositivo era “[...] um tipo de for-
mação que, em um determinado momento histórico, teve como função
principal responder a uma urgência. O dispositivo tem, portanto, uma
função estratégica dominante” (Foucault, 2010, p. 244).
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
344
Agamben (2009), na tentativa de identificar onde Foucault teria se
inspirado para criar e fazer uso deste termo técnico (dispositivo), esboçou
uma genealogia filológica discorrendo a respeito de termos anteriormente
usados como, por exemplo, oikonomia, que para os teólogos fazia refe-
rência ao cuidar ou administrar o local. O filósofo italiano fez referência
também ao termo positividade (positivité), trabalhado por Jean Hippolite,
que havia sido professor de Foucault. Tanto o termo positividade quan-
to ao termo oikonomia, segundo Agamben (2009), possuíam um sentido
convergente que estaria presente no dispositivo foucaultiano, uma vez que
todos os citados termos queriam estrategicamente governar a humanidade,
queriam aquilo que Foucault costumava chamar de governabilidade.
Nessa empreita, Agamben parece ter sido mais meticuloso ao deta-
lhar um pouco melhor a ideia de dispositivo, alargando, assim, o conceito
de Foucault:
[...] chamarei literalmente de dispositivo qualquer coisa que tenha
de algum modo a capacidade de capturar, orientar, determinar,
interceptar, modelar, controlar e assegurar os gestos, as condutas, as
opiniões e os discursos dos seres viventes. Não somente, portanto,
as prisões, os manicômios, o Panóptico, as escolas, a confissão,
as fábricas, as disciplinas, as medidas jurídicas etc., cuja conexão
com o poder é num certo sentido evidente, mas também a caneta,
a escritura, a literatura, a filosofia, a agricultura, o cigarro, a
navegação, os computadores, os telefones celulares [...] (Agamben,
2009, p. 40-41).
Para Agamben, existem de um lado os seres viventes (as coisas, as
substâncias) e do outro, os dispositivos. Entre esses dois lados, existem os
sujeitos. Assim, os sujeitos seriam o resultado da relação estabelecida entre
as coisas e os dispositivos. Observa-se, aqui, o quão capturados, contro-
lados e governados podemos estar, na concepção de Agamben, enquanto
sujeitos. O processo de subjetivação, de tornar-se sujeito, passaria já pelas
redes estabelecidas, pelas coisas e pelos dispositivos. Ao concordarmos com
Estudos críticos em organização do conhecimento
345
Agamben, podemos chegar à preocupante constatação de que somos, en-
quanto sujeitos, frutos de articulações de dispositivos.
Uma vez que a captura parece ser a certeza, o próprio Agamben
(2009, p. 44) nos apresenta o que podemos entender como uma possibili-
dade de libertação: “[...] a estratégia que devemos adotar no nosso corpo a
corpo com os dispositivos não pode ser simples, já que se trata de liberar o
que foi capturado e separado por meio dos dispositivos e restituí-lo a um
possível uso comum”. Segundo o autor, os dispositivos consagraram o que
precisamos profanar. Para as religiões e para o Direito Romano, tornar sa-
grado seria, de algum modo, tirar algo da esfera humana e passar para uma
esfera divina. O que é sagrado não pertence ao indivíduo, não é de uso hu-
mano, aos deuses pertence. Profanar o que é sagrado seria restituir ao uso
humano, deixar de pertencer ao divino e voltar a pertencer à humanidade.
A profanação é o contradispositivo que restitui ao uso comum aquilo que
o sacrifício tinha separado e dividido” (Agamben, 2009, p. 45).
Nesse sentido, o que gostaríamos aqui de extrair de Foucault e de
Agamben são alguns aspectos que nos permitam a construção de um ar-
gumento contradispositivo. De Foucault, pegaremos o fato de que um
dispositivo é uma rede de elementos heterogêneos, discursivos ou não,
que assumem uma função estratégica para responder a uma urgência. De
Agamben, pegaremos a ampliação do conceito de dispositivo e sua ideia de
profanação como liberação.
Buscando ‘profanar’ para tentar desestabilizar os dispositivos que sa-
cralizam nossas ações, nossas falas, nossas instituições etc., nos alimentare-
mos de uma postura que de modo algum negará os dispositivos, mas que
tentará superá-los pela intempestividade, pelas fissuras, por meio daquilo
que pode os tornar mais porosos e menos poderosos.
Os dispositivos que queremos aqui profanar são os chamados
Sistemas de Organização do Conhecimento (SOC). Em outras palavras,
queremos restituí-los ao uso comum para aproximá-los de realidades
concretas.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
346
Os SOC são, segundo Bräscher e Café (2010), instrumentos que
representam dado domínio de conhecimento por meio da formalização
sistemática de relações semânticas de conceitos. O termo sistemas de orga-
nização do conhecimento foi proposto no âmbito do Networked Knowledge
Organization Systems Working Group, em 1998, e se refere ao conjunto
de instrumentos voltados à organização e representação do conhecimento,
tais como sistemas de classificação, listas de cabeçalhos de assunto, arqui-
vos de autoridade, taxonomias, vocabulários controlados, tesauros, mapas
conceituais, redes semânticas e ontologias (Hodge, 2000). Cada um desses
instrumentos possui formas distintas de representar o conhecimento.
Os sistemas de classificação, por exemplo, sistematizam classes de
assuntos e de conceitos, enciclopédicos ou especializados, a fim de pro-
porcionar a recuperação temática de documentos por meio de notações
classificatórias (Foskett, 1973; Vickery, 1980). As listas de cabeçalhos de
assunto, os vocabulários controlados e os tesauros, por sua vez, contribuem
para a representação e para a recuperação de informações por meio do con-
trole terminológico, em que os assuntos e os conceitos são representados
em linguagem textual (Dodebei, 2002; Sales 2008). Cabe ressaltar que es-
ses instrumentos de representação verbal se distinguem quanto ao nível de
formalização de sua estrutura e de complexidade das relações conceituais
possíveis (Brascher; Carlan, 2010).
Os tesauros, por exemplo, proporcionam relações semânticas que
não são possíveis nas listas de cabeçalhos de assunto. Já as taxonomias,
que se caracterizam pela hierarquização sistemática de conceitos, ope-
ram como instrumentos de navegação em plataformas digitais capazes de
fornecer maior precisão para os sistemas de recuperação da informação
(Campos; Gomes, 2008). As ontologias consistem em artefatos digitais
que concedem especificações conceituais formalizadas para a representação
de assuntos e conceitos de determinados domínios, pois lançam mão de
algoritmos informáticos que viabilizam a operacionalização de regras de
inferência (Sales; Café, 2009). Todos esses instrumentos, que compõem
juntos o rol dos SOC, possuem o objetivo precípuo de representar co-
Estudos críticos em organização do conhecimento
347
nhecimentos para fins de recuperação da informação, por isso inserem-se
naquilo que podemos chamar de perspectiva instrumental da Organização
do Conhecimento.
Experimentar alternativas teóricas que transbordem as capacidades
dos instrumentos já consolidados na área pode promover avanço no desen-
volvimento instrumental da Organização do Conhecimento. Inúmeras são
as abordagens que vêm, ao longo da história, subsidiando a estruturação
dos SOC. A construção de sistemas de classificação, por exemplo, desde
a segunda metade do século XIX, especialmente nos Estados Unidos e na
Europa ocidental, vem se apoiando em perspectivas filosóficas de auto-
res que acreditavam ser possível conceber uma classificação universal do
conhecimento.
A dialética empirista concebida por Francis Bacon (no século XVII)
e a dialética idealista/racionalista de Georg W. F. Hegel (alavancada em
meados do século XIX), por exemplo, serviram de base para a elabora-
ção de classificações bibliográficas repercutidas internacionalmente, tais
como a Classificação de Livros de Harris (1870), a Classificação Decimal
de Dewey (1876), a Classificação da Library of Congress (1901) e a
Classificação Decimal Universal (1906) (Eaton, 1959; Leidecker, 1946; La
Montaigne, 1961, Comaroni, 1976; Weigand 1996, 1998; Olson, 2001,
2011). Em suma, podemos afirmar que a Organização do Conhecimento
concebida pelos sistemas de classificação vem, ao longo dos anos, reprodu-
zindo perspectivas universalistas e idealistas, que correspondem a visões de
mundos próprias do século XIX e do hemisfério norte.
A construção dos SOC, especialmente aqueles de representação verbal,
como os tesauros e as ontologias, vem sendo amparada por abordagens ad-
vindas das mais variadas áreas: da Filosofia, como a Teoria do Conhecimento,
a Teoria do Conceito e a Filosofia da Linguagem; da Linguística, como
a Sociolinguística, a Gramática Funcional, a Socioterminologia, a Teoria
Geral da Terminologia e a Teoria Comunicativa da Terminologia; da
Classificação, como a Teoria da Classificação Facetada; e, mais recente-
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
348
mente, da Psicologia, como as Ciências Cognitivas. Ademais, uma vez que
os SOC servem para representar o conhecimento e, consequentemente,
aprimorar a organização da informação, é evidente que as áreas da infor-
mação, como a Biblioteconomia, a Arquivologia e a Ciência da Informação
tecem interfaces com todas essas áreas. Essa interdisciplinaridade pode ser
observada em trabalhos como os de Campos (2001), Café (2003), Sales e
Café (2009), Fujita et al. (2009), Gracioso e Saldanha (2011), entre ou-
tros. A viabilização tecnológica para a elaboração dos SOC se aproxima
também de estudos vindos da Ciência da Computação, Engenharia da
Computação, Inteligência Artificial, Sistemas de Informação etc.
Entendemos que o desenvolvimento dos SOC, desde os tradicio-
nais sistemas de classificação até as sofisticadas ontologias, ancora-se em
abordagens teóricas e metodológicas já consolidadas que, por sua vez, re-
fletem um modelo epistemológico pré-estabelecido e hegemônico. Assim
como as relações dos assuntos nos sistemas de classificação são definidas
previamente por uma perspectiva teórica, e seus desdobramentos são pré-
-estabelecidos por cânones e princípios, as possibilidades de inferências
das ontologias são igualmente predeterminadas por axiomas que operam
como sentenças verdadeiras. Embora o avanço proporcionado pelas tec-
nologias de informação tenha promovido um aumento exponencial nas
possibilidades de relacionamentos conceituais nos diferentes instrumentos
de Organização do Conhecimento, notamos que todos eles operam com
base em definições e relações pré-concebidas. Para que uma ontologia, por
exemplo, infira algumas instâncias como resposta a uma busca de informa-
ção, é necessário que algum axioma seja pré-definido por seus criadores.
Ou seja, suas possíveis relações de conceitos, embora altamente sofisticadas
do ponto de vista tecnológico, operam, assim como nas classificações, nas
taxonomias e nos tesauros, de maneira previamente definida, reproduzin-
do uma lógica marcadamente estruturalista e formalista.
Diante desse cenário, não é difícil considerar que os SOC, via de
regra, operam como verdadeiros dispositivos que consistem em estruturas
conceituais que representam e organizam o conhecimento sob a égide de
Estudos críticos em organização do conhecimento
349
um discurso hegemônico e autorizado. Mais que isso, a postura que vem
sustentando a construção dos SOC é demasiadamente ancorada por um
discurso eficientista de recuperação da informação que poucas vezes ques-
tiona a sub-representação, o silenciamento e a violência do aculturamento
vindo quase que exclusivamente de países dominantes e colonizadores, fato
que, por consequência, ajuda a perpetuar violências epistêmicas e invisibi-
lizações culturais. Somos, ainda hoje, impelidos a organizar conhecimento
com base em definições prévias de categorias, classes, hierarquias, centra-
lidades, territorialidades, estratificações, ou, ainda, por meio de relacio-
namentos cristalizados por meio de cânones e axiomas. Somos, portanto,
capturados por dispositivos que cumprem a função estratégica de serem
eficientes ao colonizador, reafirmando e supervalorizando as lógicas vigen-
tes que não foram feitas por nós. Evita-se, com isso, a fuga, o escape, os
devires que geram o ineditismo. Tem-se o dispositivo operando com êxito
em sua função de controle e governabilidade.
A base estruturante dos SOC é, podemos afirmar, formada por dois
componentes: os conceitos e as relações entre eles. Deixaremos a questão
dos conceitos para ser discutida em outra oportunidade, que por si só já é
um tema fundamental para se buscar a decolonialidade. Nos concentrare-
mos aqui na questão das relações entre os conceitos. Se os conceitos podem
ser visualizados, por analogia, como pontos em uma estrutura qualquer, as
relações entre eles podem ser vistas como linhas que interligam os pontos,
e, nessa discussão, nos interessam justamente as linhas. Posto isso, temos
nos SOC linhas que dão formas a relações de diversos tipos: subordinadas-
-hierárquicas (gênero/espécie e todo/parte), coordenadas – não-hierárqui-
cas (associativas e funcionais), instanciativas (exemplificações) etc. Fato é
que todas essas relações são definidas previamente quando da montagem
do arranjo de cada SOC e obedecidas quando, salvaguardadas algumas
regras, tais arranjos são utilizados. Isso significa dizer que as ordenações, as
categorizações, as classificações, as hierarquizações, as territorialidades, os
avizinhamentos e as estratificações são predefinidas e cristalizadas em um
modelo de representação de conhecimento. Por mais que os pontos (con-
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
350
ceitos) possam ser modificados e atualizados e as linhas (relações) possam
ser repensadas e rearranjadas, tudo isso acaba por ser resolvido de maneira
predeterminada.
Nesse sentido, os SOC acabam operando como um dispositivo que
captura, por meio das relações conceituais, o próprio ato de organizar o
conhecimento. Com isso, não é descabido afirmar que os SOC inibem a
possibilidade do ineditismo e da autonomia, agem de forma implacável
contra os devires que podem ocorrer quando da experiência com o próprio
conhecimento. A preconcepção das estruturas dos atuais SOC refletem
uma cultura arborescente que raramente consegue escapar dos estereótipos
ou do caráter previsível da organização do conhecimento. Considerando
que organizar conhecimento numa sociedade líquida (Bauman, 2001) e
complexa (Morin, 2015) não se limita a seguir formas pré-concebidas,
propomos, com base na abordagem rizomática de Deleuze e Guattari, es-
pecular uma alternativa para a perspectiva instrumental da Organização do
Conhecimento. Propomos, em última análise, abrir espaço para a criação
de contradispositivos.
Para isso, perturbaremos, no melhor dos sentidos, a base estruturan-
te dos dispositivos chamados de SOC. Em outras palavras, procuraremos
desestabilizar o dispositivo (que coloniza) para criar possíveis contradispo-
sitivos (que podem decolonizar).
5 RIZOMAS COMO CONTRADISPOSITIvOS PARA A ORgANIZAÇÃO DO
CONHECIMENTO
Não queremos sugerir que a abordagem rizomática, enquanto pos-
sível contradispositivo, não será por vezes composta por coisas ditas e não-
-ditas ou, talvez, por alguns elementos semelhantes aos que existem nos
dispositivos relatados por Foucault e Agamben. Tampouco queremos in-
genuamente afirmar que esse contradispositivo se libertará de uma vez por
todas das redes e estratégias que nos capturam. Não procuraremos equivo-
Estudos críticos em organização do conhecimento
351
cadamente num gesto de mera oposição sugerir que um dispositivo possa
virar um contradispositivo se alguns ajustes de enfoque forem realizados,
como se uma simples negação fosse capaz de fazer um dispositivo operar
de modo adequado.
Agamben (2009) já foi esclarecedor ao afirmar que é o dispositivo
que nos captura, e não o contrário – nem tentaremos aqui em vão persu-
adir o leitor e a leitora de que teríamos alguma espécie de controle sobre
os dispositivos. O que pretendemos, mesmo que em nível especulativo, é
criar uma ideia de que os rizomas podem ‘estrategicamente’ operar como
uma espécie de contradispositivo. E fazemos isso, porque entendemos que
para construir um instrumento-ferramenta como contradispositivo não
basta substituir seus elementos de captura por outros, mas sim livrá-los
de seus caracteres de previsibilidade e determinismo que, até o momento,
parece ter acolhido somente o colonizador.
Acreditamos que esforços que trabalham para aperfeiçoar ou atuali-
zar os elementos que já existem, contribuem muito mais para a sofisticação
do dispositivo do que para seu rompimento. Ou seja, tal postura ajuda a
consagrar ainda mais o que já está consagrado enquanto dispositivo. Como
dito anteriormente, investimos aqui na ideia de profanar o que está consa-
grado, mas não como mera arbitrariedade e teimosia, sim como proposta
de restituir ao uso comum.
Consideramos que se as relações conceituais que formam os ins-
trumentos que pretendem organizar o conhecimento não forem dadas de
antemão, estrategicamente as funções de orientação, disciplinarização, or-
denação, controle, captura e modelização, que marcam um dispositivo,
perderão, em grande medida, seus efeitos. Assim, a não definição prévia
das relações que compõem o instrumento, ou seja, a imprevisibilidade de
seus elementos e relações, pode enfraquecer de maneira importante o dis-
positivo colonizador.
Para isso, adotamos como horizonte teórico a ideia-imagem de ri-
zoma desenhada por Deleuze e Guattari (2014). O rizoma de Deleuze e
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
352
Guattari é uma metáfora para a concepção de uma nova abordagem episte-
mológica que pode servir tanto à Filosofia, à Política e à Sociologia, quanto
à Linguística, à Psicanálise e à Educação. Aqui, trabalharemos a aborda-
gem rizomática para ampliar o debate sobre a organização e representa-
ção do conhecimento. Trata-se de uma tentativa de romper com os mo-
delos organizacionais vigentes, que refletem estruturas estratificadas que
dão contornos nítidos ao pensamento arborescente ocidental, pautado na
centralidade e no determinismo prévios. Em outras palavras, procuramos
desestabilizar modelos que operam como dispositivos.
Para escapar das previsíveis relações hierárquicas e das limitadas
bifurcações representadas nas relações dicotômicas, Deleuze e Guattari
(2014) tomam de empréstimo da Botânica o termo rizoma para nomear
uma nova imagem epistemológica. O termo se refere a hastes subterrâneas
que crescem para qualquer lado e tomam as mais variadas formas de ma-
neira imprevisível. A grama é um bom exemplo de rizoma, assim como
os bulbos e os tubérculos. Segundo Deleuze e Guattari (2014, p. 22), “O
rizoma nele mesmo tem formas muito diversas, desde sua extensão superfi-
cial ramificada em todos os sentidos até suas concreções em bulbos e tubér-
culos”. De antemão, percebemos na abordagem rizomática uma negação à
previsão, tanto no que se referem às formas quanto no que dizem respeito
às ligações (conexões).
Os autores caracterizam o rizoma com base nos seguintes aspectos:
1 e 2 – Princípios de conexão e de heterogeneidade: Qualquer ponto de
um rizoma pode e deve ser conectado a qualquer outro ponto. Os
elementos de um rizoma podem pertencer a diferentes grupos semi-
óticos, não se prendendo exclusivamente ao signo linguístico. Podem
se conectar elementos muito diversos, como linguísticos, perceptivos,
mímicos, gestuais e cognitivos, bem como elementos das mais varia-
das áreas, como das artes, das ciências, da política e da biologia em
uma ou em várias cadeias semióticas. O rizoma, diferentemente da
árvore, é antigenealógico (Deleuze; Guattari, 2014, p. 22).
Estudos críticos em organização do conhecimento
353
3 – Princípio de multiplicidade: “[...] somente quando o múltiplo é
efetivamente tratado como substantivo, multiplicidade, que ele não
tem mais nenhuma relação com o uno como sujeito ou como objeto
[...] uma multiplicidade não tem nem sujeito nem objeto” (Deleuze;
Guattari, 2014, p. 23). Para os autores, a inexistência de uma uni-
dade que sirva como pivô ou como elemento centralizador é uma
característica marcante do rizoma. Trata-se de um múltiplo em cons-
tante movimento e transformação. O rizoma possui tão somente de-
terminações, grandezas e dimensões que se modificam ao crescerem.
4 – Princípio de ruptura assignificante: “Um rizoma pode ser rom-
pido, quebrado em um lugar qualquer, e também retoma segundo
uma ou outra de suas linhas” (Deleuze; Guattari, 2014, p. 25). Todo
rizoma possui linhas de segmentaridades, que dão forma a estrati-
ficações, territorialidades, organizações, significados e atribuições,
mas é rompido por linhas de desterritorialização que escapam cons-
tantemente. O rizoma não tem nem início nem fim, ele apenas se
move e ganha velocidade por meio de linhas de fuga e de movimen-
tos de desterritorialização e desestratificação. Isso não significa dizer
que não haverá no rizoma articulações, segmentaridades, estratos e
territorialidades, porém esses se moverão constantemente por meio
de conexões e rompimentos imprevisíveis.
5 e 6 – Princípio de cartografia e de decalcomania: Diferentemente
da árvore ou da raiz-pivotante ou fasciculada (representações meta-
fóricas de Deleuze e Guattari para relações centralizadas e dicotômi-
cas), o rizoma não é decalque, é mapa.
Se o mapa se opõe ao decalque é por estar inteiramente voltado
para uma experimentação ancorada no real [...] O mapa é aberto,
é conectável em todas as suas dimensões, desmontável, reversível,
suscetível de receber modificações constantemente. Ele pode ser
rasgado, revertido, adaptar-se a montagens de qualquer natureza,
ser preparado por um indivíduo, um grupo, uma formação social.
(Deleuze; Guattari, 2014, p. 30).
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
354
Assim como o mapa, o rizoma tem múltiplas entradas e múltiplas
saídas. Provavelmente, a comparação que Deleuze e Guattari fazem entre o
rizoma e o mapa se refere ao caráter de construção e reconstrução constan-
tes, ou seja, à característica de não fechamento de ambos. Diferentemente
do ato de decalcar, em que os contornos se fecham e dão formas definiti-
vas, o “mapear” respeita a não previsibilidade da experiência real.
Após apresentarem as características do rizoma, Deleuze e Guattari
(2014) intensificam suas oposições ao pensamento hierárquico afirmando
que “O pensamento não é arborescente e o cérebro não é uma matéria
enraizada nem ramificada” (Deleuze; Guattari, 2014, p. 34). “A árvore e
a raiz inspiram uma triste imagem do pensamento que não para de imi-
tar o múltiplo a partir de uma unidade superior, de centro ou segmento
(Deleuze; Guattari, 2014, p. 35).
No contexto da Organização do Conhecimento, parece ainda que
os SOC não conseguiram escapar da reprodução de um pensamento hie-
rarquizante e/ou centralizador baseado em determinações pré-concebidas.
Olson (2001) já destacou o fato dos sistemas classificatórios vigentes até
hoje no mundo ocidental serem ainda dependentes da rigidez hierárqui-
ca e da lógica de diferenciação pautada exclusivamente no binômio se-
melhança-diferença, que, na tentativa de promoverem formas universais
de representação do conhecimento, acabam ignorando questões culturais
fundamentais como, por exemplo, o fato de que semelhanças e diferenças
podem variar radicalmente em culturas distintas. A autora, de certo modo,
nos coloca diante do desafio de criar formas de representação do conheci-
mento que escapem das já consolidadas e notadamente limitadas noções
ocidentais de hierarquização e diferenciação, evidenciando a necessidade
de se criar instrumentos que respeitem o relativismo cultural.
Essa perspectiva de Olson (2001) converge com ideia de Mai (2011),
para quem, num contexto de modernidade tardia, o trabalho do classificacio-
nista deveria se aproximar mais da realidade social contemporânea que, por
sua vez, está cada vez mais afastada das armadilhas dos universalismos rígidos.
Estudos críticos em organização do conhecimento
355
Outra tentativa de se desvencilhar da tônica estruturalista e deter-
minista proporcionada pelos esquemas classificatórios, que vigoram na
cultura ocidental, é encontrado nos trabalhos de García Gutiérrez (2007,
2018), em que o autor trabalha o conceito de desclassificação. Aderente
à perspectiva pluralista da sociedade contemporânea e crítico severo da
lógica hierárquica na qual nos inserimos, García Gutiérrez (2007) traz em
sua desclassificação a alternativa de reconhecermos e aceitarmos em nossas
representações conceituais a lógica da contradição.
Provavelmente o trabalho mais declaradamente empenhado em
combater o engessamento estrutural das formas de representação do co-
nhecimento na área da Ciência da Informação na atualidade seja o livro
de García Gutiérrez publicado em 2007, intitulado “Desclassificados: plu-
ralismo lógico y violência de la classificación”. Nele, o autor propõe uma
contraposição à epistemologia classificatória dominante no ocidente, apre-
sentando um modelo alternativo para se pensar as representações conceitu-
ais, que o autor denominou de epistemografia. Podemos afirmar que o fio
condutor desse novo modelo, que se vê na obrigação de compreender ou,
ao menos, aceitar os relativismos e as mobilidades culturais, é o princípio
da contradição.
Para García Gutiérrez (2007), a contradição não significa mera
oposição, em que um conceito tem de ser necessariamente negado por seu
oponente, como na relação pura e simples do claro-escuro, em que uma
coisa ou é clara ou é escura. A contradição, segundo o autor, abriga também
relações que podem ser complementares em vez de excludentes, como, por
exemplo, o dia pode estar claro e ao mesmo tempo estar escuro se observado
de outra maneira. Com a lógica pluralista e com o princípio da contradição,
o autor parece querer abrir espaço para afirmações que não obedecem às
lógicas determinísticas preestabelecidas pelo pensamento hierárquico
arborescente. Assim, dá lugar a um modelo que não necessariamente nega
a existência das classificações orientadas pela epistemologia dominante,
mas promove a existência incômoda de uma desclassificação orientada pela
epistemografia, ou seja, orientada por um modelo teórico-metodológico
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
356
mais móvel, mais plural e mais condizente com a heterogeneidade cultural
do cenário atual.
É possível afirmar que o modelo epistemográfico de García Gutiérrez
guarda fortes relações com o aspecto cartográfico (mapear) do rizoma de
Deleuze e Guattari, uma vez que ambos parecem querer contemplar o
caráter móvel, indefinido, sem contornos nítidos, marcadamente plural
e em constante construção das relações possíveis. De especial maneira,
ambas as perspectivas parecem direcionar a atenção à experiência real, em
oposição à experiência ideal. Todas essas perspectivas, que tornam justas as
buscas por representações mais plurais e mais condizentes com a sociedade
atual, encontram espaço de interlocução na contemporaneidade definida
por Agamben (2009). Para o filósofo italiano, ser contemporâneo não con-
siste necessariamente em aderir às coisas de seu tempo ou se revestir dos
traços que o identifica como pertencente ao seu tempo, mas sim lançar
luz àquilo que seu tempo ainda não iluminou. Ser contemporâneo, para
Agamben (2009), consiste em buscar incessantemente o não-vivido, aqui-
lo que foi ofuscado pelas luzes do presente, o inédito. Consiste em criar
possibilidades ainda não experimentadas.
Em sociedades marcadas pelo traço colonizador, possibilidades ain-
da não experimentadas podem ser possibilidades de decolonização. Por
isso, buscamos no caminho cartográfico promovido pela abordagem rizo-
mática meios para decolonizar o aspecto instrumental da Organização do
Conhecimento. E faremos isso ponderando veementemente que rizomas
podem ser construídos em ambientes digitais de modo a dar vez a uma
ferramenta de Organização do Conhecimento decolonial.
Antes de expor nossa experiência teórica, é importante considerar
que há um aspecto enunciado por Dahlberg (1993, 2006, 2014) que pa-
rece não ter sido ainda explorado totalmente, notadamente aquele que diz
respeito a outra função da Organização do Conhecimento. Quando a au-
tora reivindica uma autonomia à Organização do Conhecimento, alegan-
do que os esforços de se organizar sistematicamente o conhecimento são de
Estudos críticos em organização do conhecimento
357
interesse das mais variadas áreas, tais como educação, economia, indústria
e política, ela nos mostra que essa empreitada não se resume ao pragmatis-
mo de se recuperar informação em sistemas informacionais, nem se resume
a dar conta das necessidades de se organizar e recuperar documentos.
Por essa razão, a autora foi categórica ao afirmar que a Organização
do Conhecimento, enquanto campo autônomo, não poderia se prender
exclusivamente ao universo documental, biblioteconômico e informacio-
nal, pelo contrário, deveria dele se desligar para alcançar sua real função -
conceber formas de se organizar os mais variados conhecimentos nos mais
diversos campos do saber.
Para Dahlberg (1993, 2006, 2014), todo e qualquer sujeito aprendiz
deveria ter interesse em dispor de meios para organizar sistematicamente
seus conhecimentos e assim acessá-los, mas não necessariamente em bases
documentais ou unidades de informação, e sim em um sistema conceitu-
al abstrato e organizado. Entretanto, ao buscar tais formas de organiza-
ção do conhecimento, Dahlberg se deteve aos princípios classificatórios
aristotélicos e a concepções de caracterizações e definições de conceitos.
Definitivamente, não é este o caminho aqui vislumbrado.
Porém, a perspectiva de que podemos servir à função de proporcionar
meios de se organizar o conhecimento a despeito do utilitarismo da recupera-
ção da informação em sistemas informacionais é algo que nos interessa. Nos
inspiramos justamente nessa perspectiva para promover uma Organização
do Conhecimento que proporcione meios de se saber mais, como que uma
criança organizando suas ideias, seus pensamentos e seus conhecimentos,
estabelecendo incessantemente suas associações e conexões.
Tomemos, por exemplo, um conjunto limitado de objetos digitais
(termos, textos, áudios, imagens, vídeos, hiperlinks etc.) provenientes de
bases de dados on-line e gratuitas. Com tais objetos podemos construir um
ambiente digital que proporcione um conjunto difuso de atributos que
apontem” para os objetos; esse conjunto não terá fronteiras nítidas, mas
difusas, podendo encolher e expandir à medida que mais objetos vão sendo
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
358
encontrados e relacionados. O que estamos dispensando é uma estrutura
prévia de relações entre objetos. Essa “dispensa” de uma estrutura prévia
de relações entre objetos, que possibilite um conjunto difuso (sem nitidez)
de atributos que apenas apontam para objetos, pode ser a chave para nos
aproximarmos da lógica rizomática.
Assim, as relações serão reveladas na medida em que o ambiente for
explorado. Quanto menos previsão, mais rizomático será. Quanto mais
houver a possibilidade de expansão e encolhimento indefinidamente, mais
próximo do rizoma estaremos.
Ao utilizarmos, por exemplo, o Unity (https://unity.com/), progra-
ma que tradicionalmente é utilizado para a criação de videogames, temos
condições de preparar e desenvolver um ambiente digital capaz de viabili-
zar a construção do rizoma. Temos várias ferramentas úteis para o desen-
volvimento de rizomas já integradas ao próprio Unity, fazendo com que
não precisemos nos preocupar com fundamentos como câmeras, rende-
rizadores de objetos 2D e 3D, interfaces básicas etc. Assim, os códigos de
programação a serem utilizados na construção de um rizoma podem ser de
nossa autoria se, por exemplo, empregarmos uma linguagem de programa-
ção multiparadigmática como o C# (C sharp), e isso se deve a dois motivos
principais: a) a C# possui uma excelente integração com o Unity, e; b) C#
é uma linguagem de programação orientada a objetos, fato que converge
com as propriedades que um rizoma necessita ter.
O uso de um programa de construção de games (como o Unity)
atrelado a uma linguagem orientada a objeto (como o C#) torna possível,
por exemplo, a elaboração de uma abstração autônoma de conhecimentos,
em que um grupo de atributos, métodos e relações são tratados individu-
almente, como uma única unidade (objeto).
Nesse sentido, percebemos um espaço perfeitamente capaz de tra-
balhar relações entre objetos e conceitos sem o estabelecimento prévio de
conexões pautadas em características ou qualquer outro tipo de ordenação.
Um espaço que se aproxima muito mais do imprevisível do que das confir-
Estudos críticos em organização do conhecimento
359
mações de expectativas. Um espaço cujas estruturas já não são mais estru-
turas, mas sim formas móveis e nunca acabadas, pois estarão em constante
movimento e construção; construção colaborativa, plural e indefinida. Se
as possibilidades trazidas pelos softwares de construção de games permitem
formas indeterminadas de relações entre objetos digitais, estamos poten-
cialmente próximos da concretização de rizomas. Esse cenário sugere que
tecnologias para tal experiência rizomática já existe.
Se retomarmos os princípios do rizoma, entenderemos que o univer-
so dos games pode sim viabilizar a construção de rizomas:
1 e 2 - Princípios de conexão e de heterogeneidade: um computador
dotado por um software de elaboração de games e de uma linguagem
de programação multiparadigmática orientada a objetos permitirá
conexões entre objetos digitais heterogêneos;
3 – Princípio de multiplicidade: objetos provenientes de cadeias semi-
óticas distintas (textos, imagens, vídeos etc.) e suas relações incessan-
tes formam multiplicidades;
4 - Princípio de ruptura assignificante: softwares de construção de
games, como o Unity, são capazes de acolher as relações estabelecidas
sejam elas quais forem, não descartando incertezas, ruídos, brechas
e/ou linhas de fuga;
5 e 6 - Princípio de cartografia e de decalcomania: a construção de
um ambiente digital pautada na experiência e no uso que se faz
do programa, a fim de mapear relações que podem ser alteradas
constantemente, dialoga expressivamente com este princípio rizo-
mático. A própria experiência de uso dos softwares de construção
de games para desenvolver rizomas já é uma espécie de cartografia
de relações possíveis.
Diante disso, podemos ver nos programas de construção de games
um atalho para a construção de rizomas. Se as exigências para ser rizoma
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
360
são conectividade, heterogeneidade, multiplicidade, ruptura e cartografia,
é possível afirmar que os citados programas as atendem potencialmente.
Quais as vantagens de ferramentas dessa natureza, e como elas
podem ser consideradas contradispositivos decoloniais à Organização
do Conhecimento?
A perda da exclusividade e da autoridade nas tomadas de decisões
quanto às relações estabelecidas entre os objetos, uma vez que as relações
serão criadas colaborativa e horizontalmente pelos próprios utilizadores (lei-
gos ou especialistas) do rizoma, amplia as chances de um número plural de
perspectivas culturais habitarem e preencherem o espaço rizomático. A inter-
culturalidade, de certa forma, infiltrar-se-ia de dentro para fora, de fora para
dentro e de todos os lados, permeando toda a existência e funcionamento do
rizoma. A imprevisibilidade das relações aliada à não exclusividade de quem
as definem pode ser um caminho para um contradispositivo.
Estrategicamente, se as relações entre os objetos não são previamente
determinadas por saberes exclusivos, o dispositivo fica instável, fragilizado
pela falta de controle e de captura. E isso não significa dizer que pessoas
deixarão de acessar informações, culturas e conhecimentos, mas, pelo con-
trário, passarão a experenciar e a vivenciar a informação, a cultura e o co-
nhecimento em um ambiente que é seu, pois decidiram como usá-lo, ou
seja, construíram seu próprio instrumento. Restituíram para si o uso comum
do instrumento por meio da profanação daquilo que o consagrava como
dispositivo. Chamaremos esse ambiente-rizoma, desprendido dos elementos
ordenadores do dispositivo, de “contradispositivo”. E ele não rivaliza com os
tradicionais SOC por oposição direta, mas sim pelo transbordamento e pela
promoção de uma rede mais horizontal, autônoma e imprevisível.
Se a diversidade de culturas, de gêneros, de sexualidades, de etnias, de
origens e de regionalidades estiver na própria concepção do instrumento,
esse instrumento se rebela contra as ordenações prévias e exclusivas e, assim,
estaremos potencialmente diante de um contradispositivo de resistência ope-
rando a favor da decolonialidade. O enfrentamento aos dispositivos coloni-
Estudos críticos em organização do conhecimento
361
zadores (SOC) pode ser mais contundente e lograr mais êxito quando as re-
gras de construção dos dispositivos forem colocadas à prova. Se o dispositivo,
como visto, arquiteta o controle e a salvaguarda de uma lógica vigente (do
hemisfério norte), o contradispositivo pode abrir fissuras no rígido silencia-
mento epistêmico e na violenta invisibilização do hemisfério sul. Profanar os
consagrados dispositivos pode ser o caminho para visibilizar as epistemes do
sul, restituindo, assim, ao uso comum a diversidade dos saberes e a diversida-
de nos instrumentos que organizam conhecimentos.
Se levarmos tal experiência aos espaços de ensino (que precisam ur-
gentemente de um processo de decolonialidade), temos também no ri-
zoma uma potente ferramenta no que concerne um contradispositivo à
Organização do Conhecimento.
De acordo Ferreira e Silva (2015, p. 82), o currículo escolar é “[...]
um território epistêmico onde foram plantadas as sementes da árvore do
esquecimento, sendo regadas através de práticas curriculares eurocentra-
das”. Para Miranda (2013), práticas curriculares elegidas pelas instituições
de ensino devem ser debatidas como elementos de um mesmo constructo
de inspiração, e isso configura um revés para os atuantes nos embates an-
tirracistas e anticoloniais.
Passos e Pinheiro (2021) afirmam que para a emancipação e deco-
lonização de currículos escolares é necessário um ato de insurgência. Os
currículos insurgentes devem partir de instituições que se opõem às matri-
zes hegemônicas do saber, tendo seus currículos direcionados pelos limites
teórico-práticos decoloniais.
Com isso exposto, imaginemos crianças do ensino básico construin-
do, por meio da linguagem dos games, seus próprios rizomas de conheci-
mento, estabelecendo suas próprias relações entre os objetos (textos, ima-
gens, sons e vídeos), a despeito das classificadas grades curriculares, e com
nenhuma instrução ordenadora dada de antemão. Tais crianças estariam
estabelecendo conexões de objetos de acordo com suas próprias realidades.
Elas estariam organizando suas próprias impressões, seus próprios sabe-
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
362
res. Em última análise, estariam potencialmente organizando um conhe-
cimento real, sem serem necessariamente conduzidas por lógicas vigentes
e cristalizadas por culturas que não são as suas. A chance de termos nessa
experiência rizomática uma organização decolonial e intercultural do co-
nhecimento nos parece grande e promissora.
Acreditamos que profanar os dispositivos colonizadores pode ser um
caminho libertador e favorável à construção de contradispositivos deco-
loniais no espaço próprio da Organização do Conhecimento. Ou seriam
organizações dos conhecimentos?
6 CONSIDERAÇÕES
Nos inspiramos no conceito de dispositivo de Foucault e Agamben
para argumentar a favor da construção de seu potencial inimigo – o con-
tradispositivo. Nosso experimento teórico explorou a abordagem rizo-
mática como um contradispositivo, que não apenas se opõem ao dispo-
sitivo, mas o confunde, o perturba, o desgoverna. Ao se desvencilhar das
amarras ordenadoras e preestabelecidas que operam para a colonialidade,
abre-se espaço para um devir intempestivo que pode interferir nos ins-
trumentos que organizam conhecimentos, de forma a resistir ao próprio
processo colonizador.
Nos inspiramos também em Natalia Cardona para habitar o espaço
da interculturalidade e criarmos nossa abordagem libertária em busca do
combate à violência epistêmica, ressaltada por Gaytán Zamudio, que são
reforçadas pelos dispositivos que nos disciplinam com vozes hegemônicas.
Introjetar a interculturalidade nos instrumentos que organizam conheci-
mento requer abrir fissuras em todas as bases que ajudam a consolidar os
dispositivos que nos colonizam. Para isso, apostamos na profanação do
consolidado dispositivo-SOC para fazer existir uma resistência em prol de
um processo decolonial na Organização do Conhecimento.
Estudos críticos em organização do conhecimento
363
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367
13
gARANTIA TRANSCULTURAL EM
vOCABULáRIOS CONTROLADOS:
ELEMENTOS PARA UMA DISCUSSÃO
SOBRE REPRESENTATIvIDADE NOS
SISTEMAS DE ORgANIZAÇÃO DO
CONHECIMENTO
transCultural Warrant in
Controlled VoCaBularies:
elements for a disCussion
aBout rePresentatiVeness
in KnoWledGe orGaniZation
sYstems
Ricardo BISCALCHIN
Universidade Estadual Paulista – UNESP
Walter MOREIRA
Universidade Estadual Paulista – UNESP
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-485-1.p367-396
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
368
Resumo: Este capítulo apresenta a garantia transcultural e outros conceitos que, aplicados
em conjunto, possibilitam a construção de vocabulários controlados multilíngues
equitativos, de modo que possam contribuir de modo mais efetivo nos processos de
representação, disseminação e visibilidade dos documentos. A adoção dessa postura visa
criar condições para tornar a busca e a recuperação da informação mais inclusivas em
respeito a diferentes localidades geográficas e culturais e tendo em vista a geração de novos
conhecimentos que promovam o desenvolvimento social, de modo amplo. O ponto de
partida para a discussão que se propõe é a crença na construção de sistemas de organização
do conhecimento, nos quais os usuários, em sua diversidade, sintam-se culturalmente
representados e identificados com o vocabulário e seu conjunto terminológico,
independentemente da sua cultura ou língua materna. Assim, defende-se a adoção de
princípios da garantia transcultural em vocabulários controlados como instrumento
para socializar o conhecimento e aprimorar a sua disseminação de maneira plural e não
excludente, buscando aproximar pessoas, culturas, sistemas e unidades de informação em
diferentes estágios, níveis culturais e de desenvolvimento, mediante o contexto global e
plural em que nos encontramos inseridos.
Palavras-chave: garantia transcultural; terminologia; interoperabilidade; vocabulário
controlado multilíngue; transculturalidade.
Abstract: is chapter presents the transcultural warranty and other concepts that, applied
together, enable the construction of equitable multilingual controlled vocabularies, so
that they contribute to the representation, dissemination and visibility of documents in
order to allow and optimize the search and retrieval of information in different geographic
and cultural locations for the generation of new knowledge applicable to society, so that
users feel culturally represented and identified with the vocabulary and its terminological
set, regardless of their culture and mother language. e transcultural warranty seeks
to socialize knowledge and improve its dissemination in a plural and non-excludable
manner, seeking to bring people, cultures, systems and information units together at
different stages, cultural and developmental levels, through the global and plural context
in which we find ourselves inserted.
Keywords: transcultural warranty; terminology; interoperability; multilingual controlled
vocabulary; transculturality.
Estudos críticos em organização do conhecimento
369
1 A gARANTIA TRANSCULTURAL NA CONSTRUÇÃO DE vOCABULáRIOS
CONTROLADOS MULTILÍNgUE
A Ciência da Informação apresenta uma natureza interdisciplinar,
uma relação com as tecnologias da informação e uma forte dimensão social
e humana (Saracevic, 1996). Considerando-se apenas essa última dimen-
são e atendo-se à nuclearidade dos processos e aos sistemas de organização
do conhecimento para o seu atendimento efetivo, faz-se necessário aplicar
conceitos e metodologias que considerem as características e particularida-
des do contexto sócio-histórico-cultural dos usuários de sistemas de orga-
nização do conhecimento (SOC).
SOC é um termo genérico, utilizado para se referir a uma diversi-
dade de itens, tais como, tesauros, sistemas de classificação, ontologias,
topic maps, entre outros, todos com histórias, configurações e finalidades
distintas. Na definição de SOC, apresentada por Mazzocchi na ISKO
Encyclopedia of Knowledge Organization, verbete cujo texto foi posterior-
mente também publicado no periódico Knowledge Organization, Mazzochi
(2018, p. 54, tradução livre) também destaca sua diversidade, mas reúne-
-os pelo elemento comum às suas concepções, assim os SOC são:
[...] caracterizados por diferentes estruturas e funções específicas,
variadas formas de se relacionar com a tecnologia e usados em uma
pluralidade de contextos por diversas comunidades. No entanto, o
que todos têm em comum é que foram concebidos para apoiar a
organização do conhecimento e da informação de forma a facilitar
a gestão e a recuperação.
Numa acepção teleológica, portanto, os SOC têm por objetivo a
organização e a representação do conhecimento para fins de tratamento e
recuperação da informação. Para tanto, empregam-se estruturas termino-
lógicas que identificam e formalizam relações lógicas e semânticas entre
os conceitos. Os vocabulários controlados, na condição de SOC, possibi-
litam a representação temática do conteúdo dos documentos por meio de
seleção e aplicação de termos representativos de conceitos relativos à área
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
370
de especialidade que motivou sua construção. Assim, cabe enfatizar, um
vocabulário controlado não consiste apenas em uma lista de termos, pois,
na condição de linguagem documentária, além de um vocabulário propria-
mente dito, isto é, de um conjunto de descritores, demanda também uma
sintaxe que permita expressar uma rede de relações que forma um sistema
conceitual orientado semântica e pragmaticamente.
Considerando-se, portanto, o fenômeno linguístico e semântico
que envolve a questão da representação do conhecimento, para atender
de modo equitativo a um conjunto de usuários de diferentes realidades
culturais, é necessário que, no momento da construção do vocabulário
controlado, sejam aplicados aportes teórico-conceituais advindos da ga-
rantia transcultural, da terminologia e da interoperabilidade. Esses aportes
auxiliam na recolha terminológica e na estruturação do vocabulário con-
trolado, representando a informação de forma a atender diferentes grupos
de usuários. Como condição mínima de interoperabilidade, recomenda-se
que um vocabulário controlado seja multilíngue, atendendo assim a cada
cultura que pretende alcançar do modo mais próximo possível a sua re-
alidade cultural. Defende-se esses valores, pois as imposições culturais e
barreiras linguísticas muitas vezes se apresentam como práticas excludentes
limitando o acesso à informação a apenas alguns grupos seletos.
Um vocabulário controlado multilíngue apresenta um grande po-
tencial para uma representação da informação equitativa e que compre-
enda diferentes culturas, desde que no momento de sua construção ou
reorganização seja ancorado nos valores da garantia transcultural, da ter-
minologia e da interoperabilidade.
Para a busca por uma representação equitativa da informação que
possa alcançar diferentes usuários em diferentes culturas é preciso repensar
algumas das práticas tradicionais de Organização do Conhecimento ainda
assentadas em alguns princípios de universalidade e de isenção que carac-
terizaram os sistemas de classificação surgidos entre o final do século XIX
e começo do século XX. Como insumos teóricos para sustentar acepções
Estudos críticos em organização do conhecimento
371
mais sintonizadas com as questões apresentadas, discorre-se, na sequência,
sobre alguns elementos subsidiários à compreensão dos conceitos de voca-
bulário controlado, garantia cultural, hospitalidade cultural, multicultura-
lidade, transculturalidade e garantia transcultural.
2 vOCABULáRIO CONTROLADO MULTILÍNgUE
Um vocabulário controlado, mono ou multilíngue, consiste em um
instrumento que visa ao controle terminológico dos descritores utilizados
para a representação do conteúdo dos documentos com fins de recupera-
ção e organização da informação em catálogos de bibliotecas, arquivos,
museus e outras unidades de informação.
Um vocabulário controlado deve apresentar padrões inerentes aos
valores culturais de grupos que podem estar localizados em vilas, cidades,
bairros ou até mesmo em diferentes países. Para que o controle aplicado
ao vocabulário não se torne ele mesmo instrumento de coerção, faz-se ne-
cessário que um termo eleito como termo preferido, possua outros termos
que se lhe relacionem por equivalência, de modo a serem relacionados e
identificados como termos não preferidos e se tornem diferentes pontos
de acesso para viabilizar a pesquisa por diferentes grupos culturais, reali-
zando uma conexão com os termos selecionados visando à recuperação da
informação.
Para a construção de um vocabulário controlado, as normas técnicas
e científicas podem ser aplicadas, de forma que este se apresente normali-
zado e estruturado conforme princípios apresentados sobre relações para-
digmáticas e relações sintagmáticas, homonímias, sinonímias, polissemia e
ambiguidade.
Em concordância com Hudon (1997), destaca-se que um vocabulá-
rio controlado multilíngue não consiste em um conjunto de vocabulários
monolíngues combinados. Um vocabulário controlado multilíngue con-
siste na possibilidade de uso de cada versão linguística presente, podendo
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
372
cada uma delas ser utilizada de forma independente das outras, porém sem
perder a interconexão, sendo esta uma condição necessária, e de apresentar
inventários conceituais e terminológicos completos para cada idioma, pos-
suindo uma estrutura totalmente desenvolvida (ou seja, todas as relações
semânticas de equivalência, hierarquia e afinidade) para cada língua. Um
vocabulário controlado multilíngue, portanto, precisa estar atento à repre-
sentação das particularidades das estruturas lexicais e conceituais de cada
uma dessas línguas.
Para isso, recomenda-se o uso da estrutura assimétrica na construção
de vocabulários controlados multilíngues, pois ela possibilita a representa-
ção em conformidade com a realidade específica de cada língua/cultura, ao
contrário da estrutura simétrica, na qual o número de termos e a organiza-
ção hierárquica devem ser iguais entre as diferentes línguas.
Além desses conceitos para a construção de um vocabulário contro-
lado multilíngue, são essenciais para a busca da equidade na representação
e organização da informação, os conceitos da garantia transcultural, da
terminologia e da interoperabilidade.
3 gARANTIA TRANSCULTURAL
O conceito de garantia transcultural é abordado por Biscalchin
(2021), em sua tese de doutorado, intitulada “Garantia transcultural e ter-
minologia: subsídios para a construção de vocabulários controlados mul-
tilíngues interoperáveis”. A garantia transcultural consiste, de acordo com
Biscalchin (2021, p. 161),
[...] na representação da informação pautada nos valores
éticos, evitando a reprodução de biases, nos valores da garantia
cultural, buscando representar a informação pauta na realidade
dos usuários, sendo apoiada pela hospitalidade cultural, onde
essa representação deve ser apropriada a esses usuários, na
multiculturalidade, reconhecendo a existência de múltiplas
realidades culturais e a importância de representá-las, e por fim os
Estudos críticos em organização do conhecimento
373
valores da transculturalidade, que complementa esses conceitos
reconhecendo além da multiplicidade cultural, as relações que elas
estabelecem e exercem entre si, de forma a se interconectarem,
mas não se homogeneizarem.
A garantia transcultural apresenta a intersecção de alguns conceitos
advindos da hospitalidade cultural, da garantia cultural, da multiculturali-
dade, da transculturalidade e da ética.
Um vocabulário controlado multilíngue deve ser pautado no respei-
to e no reconhecimento da diversidade cultural, representando-os de for-
ma equitativa. Esse cuidado na representação da informação é a base para
um sistema de representação e organização do conhecimento que busque
mitigar valores preconceituosos ou excludentes na representação da infor-
mação, possibilitando equidade na busca e na apresentação de resultados
aos pesquisadores.
A garantia transcultural visa estabelecer condições para o reconheci-
mento da pluralidade cultural e da existência de relações entre as culturas,
não realizando a superposição de uma cultura sobre as demais, de modo
que, não se reproduzam “[...] valores preconceituosos, ou tão pouco se
sobreponham culturalmente umas às outras. Elas se interconectam e rela-
cionam, mas não se sobrepõem ou homogeneízam” (Biscalchin, 2021, p.
162). A Figura 1 representa graficamente as intersecções conceituais que
constituem a garantia transcultural.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
374
Figura 1 – Intersecção entre os conceitos da ética, da garantia cul-
tural, da hospitalidade cultural, da multiculturalidade e da transculturali-
dade, constituindo a garantia transcultural
Fonte: Adaptado de: Biscalchin (2021, p. 162).
Para a compreensão plena da garantia transcultural, faz-se necessário
antes conhecer cada um dos conceitos que inter-relacionados a constituem.
Todos esses conceitos se complementam de modo dialógico, sem serem
conflituosos e possuem equidade em valor de importância na constituição
da garantia transcultural.
Estudos críticos em organização do conhecimento
375
4 gARANTIA CULTURAL, HOSPITALIDADE CULTURAL E ÉTICA
A garantia cultural é um termo proposto por Lee (1976) e definido
por Beghtol (2002, p. 511) como um conceito que pressupõe que “[...]
qualquer sistema de organização e/ou representação do conhecimento
pode ser apropriado e útil para os indivíduos em alguma cultura, somente
se ele for baseado nas suposições, valores e preocupações dessa mesma cul-
tura” (Begthol, 2002, p. 511).
Cabe ao profissional da informação buscar a equidade na represen-
tação e organização da informação e do conhecimento de modo crítico,
evitando de modo sistemático favorecimento de um grupo em detrimento
de outro.
O profissional da informação deve:
[...] assegurar a diversidade de acesso às informações culturais
e pessoais, os quais atuam no sentido de projetar, avaliar, dar
manutenção e revisar os sistemas de representação, de forma
que esses se ajustem aos princípios éticos. É seu papel evitar
que os desvios sejam disseminados através do fazer profissional.
(Guimarães; Pinho, 2007, p. 11).
Para tanto, o profissional da informação precisa empregar, no mo-
mento da construção de vocabulários controlados multilíngues, os prin-
cípios da garantia cultural, da multiculturalidade, da transculturalidade,
da ética e da hospitalidade cultural, ou seja, o conjunto de conceitos que,
inter-relacionados entre si, definem a garantia transcultural.
A língua e o conhecimento estão entrelaçados e a cultura, sem dúvi-
da, “[...] desempenha um papel importante nesse entrelaçamento, porque
representa um entendimento comum que permite que o conhecimento
seja amplamente inferencial dentro de um domínio cultural” (Smiraglia,
2012, p. 12).
Um vocabulário que não represente os termos de forma equitativa
pode gerar estranhamento e prejudicar ou até mesmo impedir o acesso de
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
376
alguns grupos de usuários ao conhecimento, pelo fato de não encontrarem
representados os termos e as relações paradigmáticas e sintagmáticas em
conformidade com a sua cultura, causando conflitos de identidade.
A garantia cultural fornece os fundamentos e a base de critérios para
orientar as decisões sobre a seleção dos conceitos e identificação das rela-
ções semânticas que guardam entre si e que podem se mostrar adequadas
a um determinado sistema. Ela tradicionalmente decorre das necessida-
des de informação advinda dos supostos potenciais utilizadores do sistema
(Beghtol, 2005).
Reforça-se aqui a importância de se aplicar na construção de vocabu-
lários, além desses conceitos, as normas técnicas e científicas existentes ou
algum outro conjunto de diretrizes que cumpra a mesma função, sempre é
claro, com reflexões críticas sobre sua aplicação, e considerando o contexto
sócio-histórico-cultural dos usuários.
Além do conceito da garantia cultural, outro importante conceito
é o da hospitalidade cultural, que se propõe a reconhecer a variedade cul-
tural, servindo como importante ponto de apoio à garantia cultural. A
hospitalidade cultural possibilita a um mesmo vocabulário agregar diversas
garantias culturais, que assegurem a representação dos valores, suposições
e crenças dessas culturas. Para Beghtol (2005), ela consiste no fato de que
um SOC pode acomodar garantias de diferentes culturas, refletindo ade-
quadamente as suposições de qualquer indivíduo, grupo ou comunidade.
Reconhecer a diversidade cultural existente é o primeiro passo, pois
“[...] ao identificar quais são as vozes excluídas no contexto da nossa biblio-
teca e tentar convidá-las a estar presentes, estaremos em busca de espaços
de negociação, isto é, espaços onde esses usuários se sentirão à vontade
para interagir [...]” (Milani, 2017, p. 67). Mais que representar a informa-
ção em diferentes línguas, portanto, o vocabulário controlado multilíngue
deve representar a diversidade cultural existente entre as diferentes cultu-
ras, não se limitando a traduções literais e a adaptações de uma língua para
a outra. Dessa forma, a garantia cultural “[...] contribui com a integração
Estudos críticos em organização do conhecimento
377
cultural, reafirmando ao mesmo tempo a identidade das culturas locais, e
inclusive neutralizando nos Sistemas de Organização do Conhecimento
os efeitos de aculturação associados com a globalização e com os processos
políticos e econômicos de exclusão social” (Barité, 2011, p. 9).
Para complementar essa representação plural, a ética ergue-se como
um importante pilar na Organização do Conhecimento. Guimarães
(2000) apresenta cinco níveis éticos de compromissos que o profissional
da informação precisa assumir, a saber: com a instituição, com o cliente/
usuário, com a informação, com a própria profissão e com ele mesmo,
como profissional.
A postura ética na Organização do Conhecimento é primordial, pois
conforme destaca Milani (2014, p. 115)
[...] é impossível entendermos o outro como entendemos a nós
mesmos e, quando conseguimos enxergá-lo e aceitá-lo como
sendo outra pessoa, o fazemos a partir das nossas experiências e
expectativas. Assim, é somente a partir de uma postura ética
pautada pelo empenho em tratar o outro com dignidade, que
os bibliotecários constroem, adaptam e utilizam substitutos
documentais, os quais mereceriam ser metaforicamente chamados
de pontes temáticas para o documento. Tal postura evocaria valores
morais, como respeito, honradez e honestidade.
Compreender a visão de mundo do outro, pensar nos valores distintos
daqueles por nós aceitos, é o que determina a postura ética na Organização
do Conhecimento, pois um profissional da informação, assim como qual-
quer outro, aliás, nunca estará absolutamente isento dos valores e crenças
que constituem sua compreensão de mundo, cabendo para isso a adoção
da postura ética, por meio da qual será exercitado um posicionamento que
possibilite visualizar os diferentes modos de entendimento sobre um mes-
mo conceito, para representá-los aos usuários do vocabulário controlado.
O cuidado ético na escolha e validação dos termos é essencial para
mitigar a representação de valores excludentes e/ou preconceituosos que pos-
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
378
sam incitar, por exemplo, a violência ou que sejam ofensivos. Assim é impor-
tante a aplicação da ética na construção de vocabulários controlados, pois ela
[...] apresenta uma busca sobre valores que não ofendam grupos
sociais, de modo que a representação da informação de maneira
ética precisa respeitar as diferentes interpretações de mundo. Sua
busca parte da empatia, de se posicionar mediante ao pensamento
de distintos grupos em distintas culturas ou meios culturais/
acadêmicos (Biscalchin, 2021, p. 54).
A presença da ética na construção de vocabulários controlados e na
organização do conhecimento possibilita tornar a informação acessível aos
usuários reais e potenciais do sistema, de modo equitativo, incluindo mi-
norias e maiorias sociais sem distinções de classe, gênero, raça ou qualquer
outra forma de diferenciação.
A ética é um importante pilar no contexto de qualquer atividade
humana, assim como a cultura e sua diversidade.
5 MULTICULTURALIDADE E TRANSCULTURALIDADE
A multiculturalidade corresponde ao reconhecimento da existência
de múltiplas culturas em diferentes níveis: global, nacional ou até mesmo
de grupos menores, como os familiares ou regionais.
A perspectiva multicultural enriquece a representação da informa-
ção por não se limitar a apenas uma realidade cultural, mas a uma plu-
ralidade delas.
Conforme Hall (2006, p. 13), acreditar em uma identidade cultural:
[...] plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma
fantasia. Ao invés disso, à medida em que os sistemas de significação
e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por
uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades
possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar - ao
menos temporariamente.
Estudos críticos em organização do conhecimento
379
A existência de múltiplas culturas é evidente e a busca por uma unifi-
cação das identidades culturais é algo ilusório, pois cada indivíduo, já é por
si só multicultural, com alternâncias de suas percepções e valores culturais
com o decorrer do tempo, conforme as experiências e vivências acumula-
das em uma sociedade cada vez mais interconectada. A multiculturalidade
“[...] designa a característica de sociedades formadas por múltiplas comu-
nidades culturais, que convivem entre si” (Lazzarin, 2008, p. 122).
Se tomarmos um país, como exemplo, nota-se que ele não pode ser
definido por apenas uma identidade cultural, pois se constitui por uma
diversidade delas. O Brasil, seguindo no mesmo exemplo, constitui-se por
diversas e distintas realidades culturais em diversos aspectos, como a religião,
a culinária, a arquitetura, entre outros. Tomando como exemplo as religiões,
nota-se que existem diversas delas no país, inclusive dentro de vertentes
como o cristianismo, que possuem diversas culturas distintas para essa
crença, como o catolicismo e distintas igrejas pentecostais e neopentecostais.
O reconhecimento e a representação da diversidade cultural em
vocabulários controlados necessitam ser sempre pautados na ética, não
replicando de forma alguma, preconceitos ou apologias a violências de
nenhuma ordem. Por isso, a inclusão de usuários de distintas realidades só-
cio-histórico-culturais possibilitará uma maior disseminação da informa-
ção que pode, como fato consequente, potencializar a produção de novos
conhecimentos.
A multiculturalidade é contemplada quando diferentes grupos po-
dem “[...] ver atendidas suas reivindicações de reconhecimento e identi-
dade, preservando ao mesmo tempo a possibilidade de existência de uma
dimensão coletiva - ultrapassando os horizontes da etnia - e de instituições
igualitárias e democráticas” (Semprini, 1999, p. 144). A multiculturalida-
de possibilita, desse modo, o reconhecimento da diversidade e o direito à
cidadania, combatendo uma visão homogeneizadora e padronizadora de
grupos dominantes, buscando alcançar a equidade na representação das
múltiplas culturas.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
380
A representação de termos, conceitos, ou até mesmo de estruturas
hierárquicas preconceituosas (biased) em um vocabulário controlado pro-
duz “[...] uma imagem [...] que afeta a autoestima de um indivíduo e acaba
sendo interiorizada e instalada no âmago de sua identidade” (Semprini,
1999, p. 105).
Na construção de um vocabulário controlado multilíngue essa com-
plexidade é ampliada pela maior diversidade de culturas existentes, além da
língua. Ainda que a questão da linguagem por si só, já se apresente como
um grande desafio, pois
[...] é identificada não apenas como lugar onde as relações de
dominação e exclusão se cristalizam, mas também onde essas
relações são negociadas, produzidas e reproduzidas. De um ponto
de vista cognitivo, enfim, a linguagem desempenha um papel ativo
na produção da realidade, pois ela fornece o instrumental conceitual
(categorias, conceitos) sem o quê a realidade - principalmente
a realidade social - não seria identificável nem compreensível.
(Semprini, 1999, p. 66-67).
O contexto sócio-histórico-cultural dos usuários é fator de extrema
importância para sua representação e identificação multicultural na repre-
sentação da informação. Nesse sentido, Hudon (1997) traz importantes
considerações sobre a construção de vocabulários controlados multilín-
gues, dentre elas, a questão da estrutura hierárquica simétrica. Para manter
simetria de uma língua com a outra, faz-se necessária, por vezes, a supres-
são ou a criação de termos entre as línguas, o que desrespeita os preceitos
culturais apresentados e, portanto, leva a representações duvidosas, que
podem ser ofensivas ou até mesmo irreconhecíveis aos usuários das línguas
que foram “adaptadas”.
A multiculturalidade reflete a ética, em sua essência, à medida em
que busca a defesa de um valor maior: a inclusão, ou seja, o resguardo dos
direitos de todos os cidadãos, tal como expresso na Declaração Universal
dos Direitos do Homem (Milani et al., 2009).
Estudos críticos em organização do conhecimento
381
A multiculturalidade busca o entendimento das diversas culturas,
inclusive das minorias culturais. Nela, as culturas não se sobrepõem, pos-
suem o mesmo valor e importância, sendo sempre reconhecida a hete-
rogeneidade cultural existente. Assim, a multiculturalidade “[...] traz, à
sociedade, a necessidade do reconhecimento e do respeito pelas diferenças
na tentativa de promover a coexistência do respeito aos indivíduos e às co-
munidades cuja importância é ignorada e, consequentemente, pelo recha-
ço a atitudes monoculturais de grupos dominantes” (Milani, 2010, p. 64).
Desse modo, a política da multiculturalidade converte-se em “[...]
um mecanismo para lutar contra toda forma de intolerância e em favor
de políticas públicas capazes de garantir os direitos civis básicos a todos
(Mortali et al, 2002, p. 56).
A multiculturalidade busca reconhecer e respeitar as distintas cultu-
ras, sem mensurar a influência de uma cultura sobre as outras, buscando
equidade no tratamento entre as culturas, tendo todas elas como iguais
em termos de valor e importância. É importante destacar que a repre-
sentação da informação personalizada, destinada a um usuário específico,
nesse contexto, é totalmente inviável, sendo necessário ater-se a grupos e
a comunidades.
Em síntese, a multiculturalidade consiste no reconhecimento de
múltiplas culturas em um contexto, porém sem prever, necessariamente,
como ocorrem interações entre elas. As interações entre essas múltiplas
culturas são abordadas pela transculturalidade.
O prefixo “trans” em latim pode significar “além de”, “através”,
para trás”, “para além de”. Desse modo, “transcultural” pode significar
para além do cultural”, “através de todo o cultural no sentido de por todo
o cultural” ou “para além do cultural no sentido de acima do cultural”.
Diferentemente dos prefixos “inter” e “multi”, que têm um significado
pluralístico, o prefixo “trans” refere-se a uma dimensão uniforme que não
é ultrapassada nem penetrada (Elberfeld, 2008).
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
382
O uso do prefixo “trans” com termos constituintes de comuni-
dades tais como nação, cultura e estado possibilita concluir tanto uma
suspensão de demarcações como também uma reassociação aos mesmos
(Hühn et al., 2010).
A transculturalidade, para Beghtol (2002, p. 509), “[...] descreve,
em geral, os diversos fenômenos que compõem as crenças coletivas e as
atividades de algumas pessoas de um grupo”. Essa diversidade de espaços
culturais transnacionais carrega junto de si uma diversidade transcultural
que perpassa as barreiras geográficas das nações além de se apresentar, ao
mesmo tempo, dentro dessas barreiras, como por exemplo, “[...] pequenas
atividades socioculturais de unidades (tais como as organizações religio-
sas, educacionais ou econômicas e as instituições, grupos de discussão na
Internet, e os vários domínios das artes), que podem existir dentro de uma
cultura nacional [...]” (Beghtol, 2002, p. 509).
A transculturalidade pode se apresentar, portanto, também por meio
de processos de migração, exílio, trabalho, turismo e intercâmbio, que po-
tencializam essa interação entre diferentes realidades culturais, ou seja,
uma pessoa pode “[...] viver dentro do contexto de uma cultura nacional,
mas estar sobre a influência de uma outra cultura, replicando costumes e
línguas de outras culturas” (Biscalchin, 2021, p. 43).
O contexto sócio-histórico-cultural do indivíduo é um fator chave
na forma pela qual ele compreende o mundo, sendo essa direcionada em
conformidade com as percepções e com os valores que ele conhece.
Cabe evidenciar que não se refere a uma cultura única, mas sim a
uma pluralidade cultural, uma diversidade que necessita ser reconhecida,
compreendida e respeitada conforme os pressupostos advindos da garan-
tia cultural. Vertentes culturais que se destacam por serem utilizadas pela
maioria dos usuários não devem ser as únicas a serem representadas em um
vocabulário controlado, as minorias culturais também necessitam encon-
trar representados seus valores e compreensões culturais.
Estudos críticos em organização do conhecimento
383
A transculturalidade parte de uma interação cultural, que “[...] tenta
pensar a universalidade das normas como princípio comum e aspirar uma
atuação correspondente” (Dhouib, 2011, p. 292).
Nas discussões sobre garantia cultural, Beghtol (2002) demonstra que
um indivíduo não se encontra necessariamente preso a uma única cultura,
podendo pertencer a um número diverso de culturas em distintos níveis.
A transculturalidade usufrui o aspecto crítico de todas as culturas
para determinar simultaneamente, de modo transversal e transcendente
o que poderia ser universal e criar, assim, um corpo crítico e valores co-
muns permanentemente renováveis, que devem valer a humanidade (Triki,
2005). Desse modo, pela perspectiva do conceito de transculturalidade, a
cultura é vista como “[...] dinâmica e ativa, interativa e isenta de preferên-
cias. Ela se baseia em valores éticos e busca a interação sócio-histórico-cul-
tural a ponto de permitir compreender e conceituar essas interações entre
distintas culturas” (Biscalchin, 2021, p. 44).
Os vocabulários controlados precisam contemplar em seus funda-
mentos princípios éticos que promovam uma visão transcultural, propor-
cionando a divulgação de variados aspectos relacionados à informação
(Pinho, 2006).
A transculturalidade ultrapassa a “[...] interpretação de uma cultura
por outra cultura e também não se restringe a fecundação de uma cultura
por outra cultura, mas a mesma assegura a tradução de uma cultura para
qualquer outra cultura, através do sentido que une as mais diferentes cul-
turas, mesmo que as ultrapassando” (Neiva; Alonso; Ferneda, 2007, p. 6).
A transculturalidade busca compreender as distintas culturas de for-
ma que nenhuma se sobreponha a outra,
[...] como uma concepção teórico-ideológica que suplanta o
aspecto da compreensão de uma cultura por outra cultura e garante
a tradução de uma cultura para qualquer outra cultura, por meio
do sentido que une as mais diversas culturas, privilegiando a
constituição de uma identidade cultural supranacional, sem a perda
das identidades culturais. (Boccato, Biscalchin, 2014, p. 240).
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
384
A transculturalidade reconhece a existência de múltiplas culturas
(multiculturalidade) e realiza conexões para uma representação ética e igua-
litária da informação entre essas diferentes culturas. Para García Gutiérrez
(2002), o multiculturalismo apresenta uma frágil compreensão de cultura,
pois é preciso entender a cultura como um sistema que interage e que ul-
trapassa o contexto local, pois se aceitarmos todas essas coisas como entida-
des constantes, permitindo a sua fragmentação em subconjuntos indepen-
dentes e paralelos, conceberemos armações culturais limitadas e isoladas
que não corresponderão à realidade.
O conceito de cultura homogênea e separatista pode ser superado
por meio da rede externa de culturas. Hoje as culturas estão extremamen-
te interligadas e enredadas umas nas outras, de modo que os estilos de
vida ultrapassam as fronteiras das culturas nacionais, sendo encontrados da
mesma maneira em outras culturas. O modo de vida de um economista,
um acadêmico ou uma lista de profissionais não é mais alemão ou francês,
mas sim um estilo global (Welsch, 2001).
No atual contexto global:
[...] ao invés de realidades culturais simplificadas, estudantes e
praticantes têm que trabalhar juntos para construir uma ética
transcultural que dê legítimo apoio à construção social da
exomemória1, usando categorias transculturalmente aceitáveis e,
um conjunto de regras que ajude a detectar preconceitos raciais,
étnicos ou quaisquer outros. (García Gutiérrez, 2002, p. 519).
Para essa construção transcultural, a ética é um dos pilares que de-
vem ser seguidos para que discriminações e preconceitos sejam eliminados
na representação terminológica no vocabulário controlado.
A transculturalidade não é sinônimo de homogeneidade cultural.
Nela são reconhecidas a interação entre múltiplas culturas, assim forman-
Exomemória, de acordo com García Gutiérrez (2002), são as diversas formas de registrar o conhecimento
como livros, fotografias, esculturas, quadros e tantos outros que atualmente compartilham sua forma
de disponibilização e acesso em rede digital, enquanto que o processo de mediação estará a cargo de
interventores, manipuladores, fiscalizadores, censores, delegados, uma vez que essas mediações contribuem
para a reinterpretação da memória e, assim, constituir a cultura, a consciência e as identidades atuais.
Estudos críticos em organização do conhecimento
385
do uma cultura supranacional, mas não necessariamente homogênea.
Sobre homogeneização cultural, Hall (2006, p. 75) a apresenta como “[...]
as diferenças e as distinções culturais, que até então definiam a identidade,
ficam reduzidas a uma espécie de língua franca internacional ou de moeda
global, em termos das quais todas as tradições específicas e todas as diferen-
tes identidades podem ser traduzidas”.
Na construção de um vocabulário controlado multilíngue, deve-se
tomar como ponto de partida a identidade cultural dos usuários e o modo
como a própria área de especialidade é tratada nas diferentes culturas, res-
peitando a diversidade e a maneira como os usuários realizam suas buscas
e demandam informações em sua área.
Ou seja, reconhecer a transculturalidade e a multiculturalidade na
construção de vocabulários controlados possibilita uma representação da
informação potencialmente mais condizente com a realidade dos usuá-
rios, por meio da identificação da pluralidade cultural presente na relação
transcultural, o que possibilita atender também aos preceitos da garantia
cultural e da ética.
Assim, a transculturalidade consiste no reconhecimento da exis-
tência de múltiplas culturas e na sua interação, levando a novas visões e
percepções de mundo, transpassando barreiras geográficas e políticas, ou
seja, a garantia cultural, a multiculturalidade e a transculturalidade não se
excluem, mas complementam-se.
Sobre a constituição e a influência do contexto sócio-histórico-cul-
tural, o filósofo Kwame Appiah afirma que:
[...] toda identidade humana é construída, historicamente; cada um
tem a sua parte de pressuposições falsas, de erros e imprecisões que
a cortesia denomina como “mito”, “religião”, “heresia”, “ciência
e “mágica”. Histórias inventadas, biologias inventadas, afinidades
culturais inventadas vêm com uma identidade; cada uma é um tipo
de papel que deve ser roteirizado, estruturado por convenções de
narrativa. (Appiah, 2001, p. 373).
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
386
Para evitar a disseminação de valores preconceituosos ou excluden-
tes, deve-se aplicar a ética para que esses valores distorcidos não sejam dis-
seminados. Esse cuidado é importante, pois, por vezes, mesmo em dis-
cursos oficiais de governos ou de autoridades, valores preconceituosos e
discursos de ódio acabam sendo disseminados, cabendo, portanto, uma
análise cultural para verificar o quanto um discurso, uma representação
terminológica e conceitual é ética ou não.
A transculturalidade apresenta uma:
[...] concepção onde a pluralidade cultural convive de maneira
harmoniosa, se combinando e interagindo assim a um bem comum,
a integração cultural. O reconhecimento da transculturalidade e
a construção de um sistema apoiado nessa concepção possibilita
a representação da informação de forma a atender essas culturas,
ou melhor, essa cultura, fruto dessa multiplicidade transcultural.
(Biscalchin, 2021, p. 48).
A representação da informação deve ser mediada pelo profissional da
informação. García Gutiérrez (2002), inclusive, substitui o termo profis-
sional da informação por mediador da informação, pois espera-se que ele
seja capaz de abordar os mais diversos aspectos possíveis de um assunto,
ainda que isso se dê ante a impossibilidade de remover seus valores pessoais
no momento da representação da informação.
Esse cuidado na representação da informação busca a equidade na
representação da informação, buscando mitigar a exclusão de usuários per-
tencentes a minorias e grupos sociais marginalizados pela sociedade domi-
nante, que naturaliza e impõe diversos preconceitos e agressões a esses con-
juntos. Cabe ao mediador da informação, realizar uma análise crítica de
seu trabalho no momento da representação da informação, de modo que
não reproduza preconceitos ou exclua culturas por convenções sociais im-
postas pela cultura/política dominante. O mediador da informação deve
ser extremamente questionador e apoiado nos valores da garantia cultural,
da multiculturalidade, da transculturalidade e da ética.
Estudos críticos em organização do conhecimento
387
O Quadro 1 demonstra a compatibilidade entre os conceitos de
garantia cultural, multiculturalidade e transculturalidade, de modo que
não se excluem, mas se complementam. Entende-se que um vocabulário
controlado só é efetivamente multilíngue se além de apresentá-lo em vá-
rias línguas, ele represente terminológica e culturalmente cada uma delas
(Biscalchin, 2013).
Quadro 1 – Síntese conceitual da garantia cultural, da multiculturalidade
e da transculturalidade
GARANTIA CULTURAL MULTICULTURALIDADE TRANSCULTURALIDADE
Retrata que qualquer tipo de
representação da informação e/
ou sistema de organização pode
ser maximamente apropriado e
útil para indivíduos em algumas
culturas, apenas se for baseado
em pressupostos, valores e
predisposições daquela cultura
(Beghtol, 2002, p. 511).
Respeito às minorias culturais e
reconhecimento pela sociedade
da sua existência, influência e
importância cultural.
Pode ser visto como a
disseminação da informação
visualizando os diversos aspectos
referentes a um mesmo assunto.
Vocabulário controlado
multilíngue ou qualquer sistema
de disseminação e representação
da informação precisa tentar
alcançar o maior número de
usuários (individuais ou grupos)
possível, abrangendo para isso
a informação, conforme a visão
cultural de cada grupo/indivíduo.
Nenhuma cultura se sobrepõe
as demais, possuindo todas, o
mesmo valor e importância,
devendo ser reconhecida e
respeitada a heterogeneidade
cultural.
Precisa ser isenta de preconceitos,
abrangendo desde as grandes
culturas até as minorias culturais,
buscando inibir práticas de poder
de modo que a disseminação da
informação ocorra de maneira
pura”, isenta de influências
pessoais e imposição de opinião.
A garantia cultural “[...]
fornece os fundamentos e a
autoridade para as decisões
sobre os conceitos e quais as
relações existentes entre eles são
adequadas para um determinado
sistema [...] decorre[ndo] das
necessidades de informação dos
supostos potenciais utilizadores
do sistema” (Beghtol, 2005, p.
904).
[...] traz, à sociedade, a
necessidade do reconhecimento
e do respeito pelas diferenças
na tentativa de promover a
coexistência do respeito aos
indivíduos e às comunidades
cuja importância é ignorada e,
consequentemente, pelo rechaço
a atitudes monoculturais de
grupos dominantes (Milani,
2010, p. 64).
A representação da informação
deve ser conduzida de forma
crítica, para que não reproduza
preconceitos ou exclua culturas
por convenções sociais impostas
pela cultura/política dominante.
Busca pela aproximação do
sistema com a linguagem do
usuário, levando em consideração
seus valores, crenças e suposições
Busca pela paridade na valoração
no tratamento das culturas, sendo
todas elas vistas como iguais em
valor e importância.
Possibilita aos usuários o acesso à
informação e a formação da sua
própria opinião, por meio da
leitura.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
388
Reconhece e respeita a cultura do
usuário, o contexto ao qual ele se
encontra inserido, respeitando
as diferenças sócio-histórico-
culturais (linguagem conforme o
contexto cultural do usuário).
Respeito à diversidade cultural,
reconhecimento de múltiplas
culturas dentro de um grupo ou
contexto cultural.
Respeito à diversidade cultural
e reconhecimento da interação
entre as culturas, formando
uma nova cultura, uma cultura
transcultural.
Fonte: adaptado de Biscalchin (2021, p. 49)
Essa tríade conceitual possibilita o reconhecimento de múltiplos as-
pectos no tratamento da informação e no entendimento de cultura, con-
forme o contexto sócio-histórico-cultural em que se apresentam. Esses
conceitos, apesar de distintos, são complementares aos parâmetros para a
construção de vocabulários controlados orientados pela busca por respeitar
e representar adequadamente os diferentes contextos culturais.
O contexto cultural nos influencia e interfere no modo como
percebemos e interagimos com as coisas. Assim como valores cotidianos
são impactantes na vivência, em relação à produção científica, a experiência
acumulada em pesquisa, no conhecimento de termos e conceitos, de
estruturas hierárquicas também são, pois são incorporados conforme sua
aplicação no decorrer do tempo. Encontrar um vocabulário que contemple
a especificidade cultural do pesquisador, da sua área de estudo, da sua
cultura local/regional/nacional, sem dúvida é um importante caminho
para aperfeiçoar as pesquisas e aprimorar a produção de informação em
diferentes localidades.
O uso de sistemas de organização do conhecimento “[...] fortemente
impregnados com os valores de uma cultura acaba sendo excludente em
questões relevantes para uma comunidade, em relação às demais” (Barité,
2011, p. 7). Para tanto, os Direitos Humanos2 se apresentam como um im-
portante fator para a representatividade de múltiplas culturas de modo éti-
Em 10 de dezembro de 1948, a Organização das Nações Unidas promulgava a Declaração Universal
dos Direitos Humanos (DUDH). Era uma resposta imediata às atrocidades cometidas nas duas guerras
mundiais, mas não só isso. Era o estabelecimento de um ideário arduamente construído durante pelo menos
2.500 anos visando a garantir para qualquer ser humano, em qualquer país e sob quaisquer circunstâncias,
condições mínimas de sobrevivência e crescimento em ambiente de respeito e paz, igualdade e liberdade
(Agência Senado, 2018).
Estudos críticos em organização do conhecimento
389
co e segundo Hunt (2009, p. 19) apresentam três qualidades conectas “[...]
serem naturais (inerentes nos seres humanos), iguais (os mesmos para todo
mundo) e universais (aplicáveis por toda parte)” De tal forma, bastaria
aos indivíduos serem seres humanos, inseridos em uma sociedade e repre-
sentados de forma semelhante, porém estamos em um contexto de ampla
diversidade e apesar de extremamente importantes, os Direitos Humanos
não são isentos de críticas e, por décadas, aceitavam valores questionáveis,
pautando-se em uma homogeneização que, sabemos, é inexistente.
Como possível solução, Santos (2001, p. 20) aponta para um diá-
logo intercultural “[...] que pode levar, eventualmente, a uma concepção
mestiça de direitos humanos, uma concepção que, em vez de recorrer a
falsos universalismos, se organiza como uma constelação de sentidos locais,
mutuamente inteligíveis, e se constitui em redes de referências normativas
capacitantes”.
Para tanto, deve-se escolher o conjunto com mais reciprocidade e
respeito dentro de uma cultura e o direito dos grupos sociais de serem
iguais quando a diferença os “inferioriza”, e diferentes quando a igualda-
de os “descaracteriza”. “No contexto da representação do conhecimento,
dois pontos devem ser negociados: amparar as especificidades culturais de
comunidades discursivas não negando a necessária “compatibilidade uni-
versal” visando à comunicação científica” (Milani, 2010, p. 68). Assim, o
vocabulário controlado, ou qualquer outro sistema de organização do co-
nhecimento, necessita buscar representar todas as culturas de seus usuários
reais e potenciais.
Guimarães e Pinho (2007, p. 15) elencam três cuidados a serem
aplicados para essa representação:
a ética transcultural de mediação, que considera a cultura como
um sistema dialógico e interativo, superando visões dominantes
e reducionistas;
a hospitalidade cultural, que possibilita a uma mesma notação
bibliográfica agregar diversas garantias culturais;
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
390
e o multilinguismo, que referenda o tratamento igualitário entre
as línguas envolvidas em um vocabulário controlado multilíngue.
Por meio desse conjunto, o vocabulário controlado poderá ser orga-
nizado de modo a auxiliar indexadores e pesquisadores a construir repre-
sentações mais efetivas e que respeitem a existência de múltiplas culturas
que se misturam e interagem, formando uma identidade cultural, com-
plementando com a acomodação de diferentes garantias culturais e com a
representação da multiplicidade cultural.
A terminologia e a interoperabilidade também se apresentam como
importantes pontos para a construção de vocabulários controlados mul-
tilíngues. A terminologia é aplicada na construção de vocabulários con-
trolados multilíngues, servindo como ponte para comunicação entre os
especialistas, auxiliando na representação dos conceitos por meio de ter-
mos. Kobashi, Smit e Tálamo (2001, p. 5) afirmam que na Ciência da
Informação “[...] a terminologia surge da necessidade de denominar os
sistemas de conceitos das diferentes disciplinas, com o objetivo de permitir
uma comunicação eficiente entre especialistas”, revelando seu caráter ex-
tremamente aplicado nesse caso.
Dentre as diferentes vertentes terminológicas existentes, a teoria co-
municativa da terminologia (TCT) é a que se mostra a mais adequada
para a construção de vocabulários controlados equitativos, pois, nessa te-
oria, o conteúdo dos termos não é fixo ou imutável, mas sim passível de
alterações em conformidade com o contexto sócio-histórico-cultural a que
pertencem. Essa premissa da TCT possibilita aplicar os termos conforme
o contexto em que se apresentam, de modo a permitir a representação de
forma equitativa entre diferentes realidades culturais.
Soma-se à terminologia como suporte para a construção de voca-
bulários controlados multilíngues equitativos, a interoperabilidade, que é
definida pela norma Iso 25964-2 (2013, p. 7) como a “[...] capacidade de
dois ou mais sistemas ou componentes de trocarem informações e utiliza-
Estudos críticos em organização do conhecimento
391
rem as informações que foram trocadas”, de modo a permitir o “diálogo
entre diferentes sistemas. Ela deve cumprir com os atributos de comunica-
ção entre os diferentes sistemas conectados e a conversão automática dessas
linguagens, ou seja, ela deve possibilitar o diálogo entre os sistemas, de
modo a possibilitar aos usuários acesso à informação em todos os sistemas,
por meio da busca no catálogo de um deles.
A interoperabilidade possibilita que a busca realizada em um catálo-
go mais conhecido possibilite o acesso à informação em catálogos menos
conhecidos, ampliando a disseminação e acesso à informação.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Representar a informação de modo equitativo contemplando usu-
ários de diferentes culturas é um desafio contínuo, cujo resultado é, con-
tudo, extremamente necessário para mitigar diferenças na representação
e inclusão de diferentes culturas no acesso à informação. Para tanto, é
necessário que biases sejam devidamente identificadas e eliminadas, pois
a apresentação de termos, conceitos, ou até mesmo estruturas hierár-
quicas preconceituosas ofendem, agridem e desmoralizam os usuários,
afetando sua autoestima e confiança no vocabulário e na organização,
que pode inclusive responder a processos por reproduzir preconceitos,
ofensas, entre outros.
Sabe-se que a representação da informação não é isenta de valores,
pois a neutralidade não é alcançável, já que carregamos valores e perspec-
tivas pessoais e que, voluntária ou involuntariamente, os reproduzimos no
momento da estruturação e representação da informação nos vocabulários
controlados. Por isso, faz-se necessária a aplicação dos princípios da garan-
tia transcultural, com o objetivo de minimizar essas inconsistências.
Além desses cuidados, é importante que seja aplicada uma política
que possibilite o diálogo com os usuários na construção do vocabulário
controlado e na sua manutenção/atualização, de modo que os usuários
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
392
possam sinalizar eventuais deslizes ou inconsistências na representação da
informação em relação às suas percepções culturais.
O uso dos conceitos da terminologia, da interoperabilidade e da ga-
rantia transcultural possibilita uma ampliação na conectividade entre dife-
rentes vertentes culturais e científicas, auxiliando no acesso a informações
de diferentes áreas e culturas, ampliando potencialmente o desenvolvimen-
to científico e mitigando as diferenças de acesso à informação impostas
pela língua e por valores culturais por meio da representação e de acesso em
conformidade com a realidade dos usuários em sua cultura.
Alcançar a equidade na representação da informação é sem dúvida
um grande desafio, pois nos leva a um exercício de empatia, de nos colo-
carmos no lugar do outro, e isso não é uma atividade fácil e simples, pois
diariamente somos ‘bombardeados’ com influências da nossa realidade
sócio-histórica-cultural, por isso a desatenção aos conceitos apresentados
pode levar a reprodução de erros e representações preconceituosas para
usuários de realidades culturais distintas da nossa.
Encerra-se este capítulo com a reflexão de que a Organização do
Conhecimento deve recorrer a todas as áreas de conhecimento que a auxi-
liem e viabilizem a construção de instrumentos para pesquisa que incluam
os usuários de diferentes realidades culturais, cumprindo com seu papel
principal, a socialização e disseminação do conhecimento, para desenvol-
vimento cognitivo, social, humano e científico.
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CLASSIFICAÇÃO, ESTEREOTIPIA E
SILENCIAMENTOS NO DOMÍNIO
DAS DISSIDêNCIAS SEXUAIS E DE
gêNERO
ClassifiCation, stereotYPes
and silenCes in tHe domain of
seXual and Gender dissidenCe
Francisco Arrais NASCIMENTO
Doutor em Ciência da Informação – UNESP
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-485-1.p397-426
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
398
Resumo: Objetivou-se, neste capítulo, compreender como as relações de poder têm
influenciado na compreensão e na classificação do domínio das dissidências sexuais e
de gênero. Para tanto, elegendo-se a Análise de Domínio como metodologia, alicerçada
em dois recursos metodológicos, Etnografia e Observação de modo a subsidiarem as
Cartografia de documentos e Cartografia de sentimentos. Ao término das observações,
compreende-se que o estado de exceção simbólico construído socio-historicamente sobre
e em torno dos sujeitos que borram, desvia ou não baliza suas identidades, práticas e
orientações do desejo pela norma vigente, norteada por proselitismos sociais, em
que o sistema patriarcal utiliza-se de estratégias e métodos sexistas para arraigar um
comportamento machista, em um invólucro capitalista, que se utiliza de dispositivos de
controle social para tornar os corpos politicamente dóceis e economicamente produtivos,
gestando oprimidos e excluídos em um jogo de poder complexo em que “lembrança e
esquecimento” são partes de um mecanismo de controle social.
Palavras-chave: organização do conhecimento; práticas sexuais não hegemônicas;
homossexualidades; garantia autopoiética.
Abstract: e objective was to understand how power relations have influenced the
understanding and classification of the domain of sexual and gender dissidences. For that,
Domain Analysis was chosen as a methodology, based on two methodological resources,
Ethnography and Observation, in order to subsidize the Cartography of documents
and Cartography of feelings. At the end of the observations, it is understood that the
symbolic state of exception socio-historically constructed on and around the subjects that
blur, deviate or do not mark out their identities, practices and orientations of desire for
the current norm, guided by social proselytism, where the patriarchal system uses sexist
strategies and methods to root a sexist behavior in a capitalist envelope, which uses social
control devices to make bodies politically docile and economically productive, creating
oppressed and excluded people in a game of power complex in which “remembering and
forgetting” are part of a mechanism of social control.
Keywords: knowledge organization; non-hegemonic sexual practices; homosexualities;
autopoietic assurance.
Estudos críticos em organização do conhecimento
399
1 INTRODUÇÃO
Ao adentrar ao universo dos estudos culturais, tomando por aporte
as construções acerca dos gêneros e das sexualidades, compreendendo os
mesmos enquanto um domínio complexo, dada a influência das relações
de poder construídas histórica e culturalmente, podendo-se vislumbrar
que a divisão binária (Feminino/Masculino) imposta pelo processo de
colonização do conhecimento e imposição da cultura eurocêntrica acerca
dos gêneros balizada pelo cristianismo, no decorrer do processo de “colo-
nização” do Brasil ainda ecoa em tempos hodiernos, limitando de forma
contundente o próprio entendimento acerca das diferenças conceituais
próprias deste domínio.
Nesse interim, firmando-se sob o viés dos “desvios” da norma
(Heterossexualidade), situando-se no domínio segundo a perspectiva de
(Hjørland; Albrechtsen, 1995; Hjørland, 1997) das dissidências sexuais
e de gênero, que englobam conceitos como: Gênero1, Sexo2, Expressão
de gênero3, Identidade de gênero4 e Orientação sexual5, comumente si-
lenciados pelos discursos hegemônicos, se pode vislumbrar em função da
diversidade de comunidades discursivas6 e estratos sociais que compõem
Segundo Jesus (2012, p. 24) pode ser definido como: “Classificação pessoal e social das pessoas como
homens ou mulheres. Orienta papéis e expressões de gênero. Independe do sexo”.
Pode ser definido como: “Classificação biológica das pessoas como machos ou fêmeas, baseada em
características orgânicas como cromossomos, níveis hormonais, órgãos reprodutivos e genitais. Ao contrário
da crença popular, reiterada em diferentes discursos, a categoria sexo não se configura como uma dualidade
simples e fixa entre indivíduos deste e daquele sexo (binarismo ou dimorfismo sexual), mas, isso sim, como
um contínuo complexo de características sexuais” (Jesus, 2012, p. 24).
Definida como: “Forma como a pessoa se apresenta, sua aparência e seu comportamento, de acordo com
expectativas sociais de aparência e comportamento de um determinado gênero. Depende da cultura em que
a pessoa vive” (Jesus, 2012, p. 24).
Definida por Jesus (2012, p. 24) como “Gênero com o qual uma pessoa se identifica, que pode ou não
concordar com o gênero que lhe foi atribuído quando de seu nascimento. Diferente da sexualidade da
pessoa. Identidade de gênero e orientação sexual são dimensões diferentes e que não se confundem. Pessoas
transexuais podem ser heterossexuais, lésbicas, gays ou bissexuais, tanto quanto as pessoas cisgênero”.
Pode ser definida como: “Atração afetivossexual por alguém. Vivência interna relativa à sexualidade.
Diferente do senso pessoal de pertencer a algum gênero” (Jesus, 2012, p. 26)
Nascimento (2015, p. 63), em diálogo segundo Hjørland e Albrechtsen (1995) e Hjørland (1997),
afirma que os autores “[...] expõem sua teoria, afirmando primeiramente, que a unidade de análise da
Ciência da Informação é formada pelos campos coletivos de conhecimento ou domínios de conhecimento
concernentes às suas comunidades discursivas” (discourse communities).
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
400
tal domínio, que o mesmo pode ser compreendido enquanto estratificado,
polimorfo e hipersegmentado, que apesar da delimitação conceitual acerca
das sexualidades e das práticas sexuais que vêm sendo construídas e exaus-
tivamente debatidas de modo a sanar lacunas de conhecimento, precon-
ceitos e proselitismos, para além, de ações diretas e indiretas das relações
de poder no decorrer da construção histórica e cultural, se pode observar
que o domínio ainda é atravessado por silenciamentos, incompreensões e
distorções conceituais que valem-se da estereotipia para replicar e preservar
a condição hegemônica de determinados estratos sociais.
Em contrapartida, o entendimento de que classificar algo sem a
compreensão acerca desse algo, é uma atividade impossível, caso o objetivo
dessa classificação seja a verossimilhança, a ética e a eficiência para além
da humanização no tratamento destinado ao outro, impulsiona o diálogo
e construção do conhecimento, ao compreender que a Organização do
Conhecimento (OC) “[...] enquanto um domínio autônomo que se pre-
ocupa com o desenvolvimento de meios de se organizar às mais variadas
áreas e para a mais variadas finalidades” (Sales, 2021, p. 13). Tal entendi-
mento desvela a essência de tal domínio, podendo vir a aproximar-se do
domínio das dissidências sexuais e de gênero e consequentemente de seus
desdobramentos, vindo a contribuir sob a forma de relação simbiótica para
a organização, representação, recuperação e disseminação não apenas da
informação produzida pelos e para os estratos sociais compreendidos no
desvio da norma, mas atuando de forma a promover uma representação
verossimilhante, ética e eficiente frente aos proselitismos, preconceitos e
antipatias que incidem sobre tais estratos sociais.
Assim, ao voltar-se para a teoria discursiva desconstrucionista de
base foucaultiana e se pensar acerca da engenharia social composta essen-
cialmente por dispositivos de controle e suas relações de poder edificadas
histórica e culturalmente, se é levado a uma compreensão de que os dispo-
sitivos são instrumentos externos ao sujeito e que atuam enquanto forças
que modelam, adestram e docilizam os corpos. No entanto, tal entendi-
mento margeia o engano, uma vez que parte do dispositivo é de natureza
Estudos críticos em organização do conhecimento
401
subjetiva, logo interna, ou seja, uma vez que, a “[...] maneira de se julgar
as qualidades e defeitos é meramente subjetiva. Cada qual tem a sua moral
particular” (Silva, 1986, p. 118).
Tal entendimento pode ser vislumbrado rotineiramente no cotidia-
no dos papéis de gênero7, onde os sujeitos são compilados a crer e repro-
duzir de forma acrítica performances e não aquilo que de fato se é, em
função dos discursos hegemônicos e do uso exacerbado de estereótipos8
que apenas simplificam de forma grosseira e superficial aquilo que se de-
seja representar. Logo, o que comumente se classifica em meio social são
os estereótipos e não os sujeitos em si, em função da falta de profundidade
no entendimento acerca daquilo que se classificou, consolidando precon-
ceitos9 e respaldando o discurso hegemônico que faz uso dos estereótipos
para sua manutenção. Assim, o ser, estar e parecer são alocados como sinô-
nimos, quando na verdade são conceitos independentes.
Nesse interim, segundo Sales (2021, p. 14) “[...] ferramentas clas-
sificatórias são dispositivos de poder que ordenam e legitimam discursivi-
dades, compreendemos que os sistemas de organização do conhecimento
impactam, em maior ou menor medida, toda uma esfera social”. De tal
modo, em um primeiro momento, aparentemente, os atos de nomear, clas-
sificar e consequentemente de existir são ações corriqueiras, simples dadas
sua ocorrência no cotidiano. Sob as linhas de Melo (2010, p. 178) “[...]
o ato de nomear e organizar objetos, seres e fenômenos ao nosso redor
responde a um apelo de nossa mente por referenciais que dêem [sic] senti-
do a caleidoscópica realidade”. No entanto, ao voltar-se para a rotina dos
sujeitos em sociedade e imergir em contextos específicos, tais ações aden-
Segundo Jesus (2012, p. 25) papel de gênero pode ser definido como: “Modo de agir em determinadas
situações conforme o gênero atribuído, ensinado às pessoas desde o nascimento. Construção de diferenças
entre homens e mulheres. É de cunho social, e não biológico”. Logo, compreende-se que, o entendimento
de que se existe uma divisão/classificação em “[...] ser masculino ou feminino é porque houve, previamente,
uma atribuição coletiva de significado nesse sentido” (Araújo, 2011, p. 61).
Segundo Jesus (2012, p. 28) estereótipo pode ser compreendido como a “[...] imagem fixa e preconcebida
acerca de algo ou alguém. É o fundamento das crenças e dos preconceitos”.
Neste estudo, adotou-se o conceito de preconceito proposto por Jesus (2012, p. 28), a saber: “Juízo
preconcebido acerca de algo ou alguém, com base em estereótipos. Predispõe a determinadas atitudes com
relação ao objeto do preconceito, que pode ou não se manifestar na forma de discriminação”.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
402
sam-se revelando uma tessitura complexa e multifacetada inscrita em um
cenário rizomático (Deleuze; Guattari, 2000), construído histórica, geo-
gráfica e culturalmente, que tutelam relações de poder que atuam de forma
incessante e em todas as direções (horizontal e vertical) incidindo sobre
os corpos de forma a torná-los politicamente dóceis e economicamente
produtivos (Foucault, 1987) do ponto de vista dos discursos hegemônicos,
em uma complexa engenharia que agrega tecnologias (Lauretis, 1994), sis-
temas (Foucault, 1987; 2000; Nunes, 2016; Rubin, 2017) e dispositivos
de controle social (Foucault, 2020a, 2020b). Ressalta-se que, o poder tem
dupla natureza, sendo ele coercitivo (lei) e produtivo (pedagógico), no en-
tanto, o que seria o poder? De acordo com Ríos (2005) o poder é:
[...] a capacidade de decidir sobre a própria vida: como tal, é um
fato que transcende o indivíduo e se plasma nos sujeitos e nos
espaços sociais: aí se materializa como afirmação, como satisfação
de objetivos [...]. Mas o poder consiste também na capacidade
de decidir sobre a vida do outro, na intervenção com fatos que
obrigam, circunscrevem ou impedem. Quem exerce o poder se
arroga o direito ao castigo e a postergar bens materiais e simbólicos.
Dessa posição domina, julga, sentencia e perdoa. Ao fazê-lo,
acumula e reproduz o poder10. (Ríos, 2005, p. 154).
Segundo Revel (2011, p. 27-28) ao dissertar sobre as ações do poder
em sociedade e sobre os corpos, a mesma esclarece que:
O controle social não passa só pela justiça, mas também por
uma série de outros poderes laterais (as instituições psicológicas,
psiquiátricas, criminológicas, médicas, pedagógicas; a gestão dos
corpos e a instituição de uma política de saúde; os mecanismos
de assistência, as associações filantrópicas e os patrocínios etc.)
que se articulam em dois momentos: trata-se, por um lado, de
construir populações nas quais inserir os indivíduos – o controle
10 Citação original: “[...] la capacidad de decidir sobre la propia vida; como tal es un hecho que trasciende al
individuo y se plasma en los sujetos y en los espacios sociales: ahí se materializa como afirmación, como satisfacción
de necesidad, y como consecución de objetivos. Pero el poder consiste también en la capacidad de decidir sobre la
vida del otro, en la intervención con hechos que obligan, circunscriben, prohíben o impiden. Quien ejerce el poder
se arroga el derecho al castigo y a conculcar bienes materiales y simbólicos. Desde esa posición domina, enjuicia,
sentencia y perdona. Al hacerlo, acumula y reproduce poder (Ríos, 2005, p. 154).
Estudos críticos em organização do conhecimento
403
é basicamente uma economia do poder que gerencia a sociedade
em função de modelos normativos globais num aparelho estatal
centralizado -; mas, por outro lado, trata-se também de tornar o
poder capilar, quer dizer, de instalar um sistema de individualização
que se destine a modelar cada indivíduo e a gerenciar sua existência.
Tal aspecto duplo do controle social atua de forma contundente so-
bre os corpos configurando-se enquanto variáveis fundamentais para o en-
tendimento do estudo aqui apresentado, uma vez que, alicerça a gênese da
análise realizada e ancora o entendimento acerca da engenharia de poder
criada em torno do objeto estudado, para além, de permitir a compreensão
da tríade (pecado-crime-doença11) que comporta a produção do conheci-
mento acerca dos estratos sociais compostos por Lésbicas, Gays, Bissexuais,
Travestis, Transgêneros, Transexuais, Queer/Questionando, Intersexo,
Assexuais, Arromânticas, Agênero, Pansexuais, Polissexuais e não-cis que
não se considere trans ou ainda qualquer uma das definições atribuídas
na sigla (LGBTQIAP+) (Vainfas, 1989; Prado; Machado, 2008; Barbosa;
Medeiros, 2018; Nascimento; Massoni; Shirakava; Pinho; Martínez-Ávila,
2020).
Compreendendo a informação “[...] no sentido de conhecimento
comunicado”, ciente de seu “[...] papel central na sociedade contemporâ-
nea” (Capurro; Hjørland, 2007, p. 148), norteando-se sob a compreensão
de “[...] informação como coisa” (Buckland, 1991), emerge de tal cenário,
indagações como: Como a Ciência da Informação tem lidado com infor-
mações e conhecimentos oriundos de grupos marginalizados? Os sistemas
de Informação têm acompanhado as demandas das comunidades discur-
sivas tidas como desviantes e subversivas? A representação da informação
tem sido verossimilhante, ética e eficiente frente aos proselitismos, precon-
ceitos e antipatias? Sales (2021, p. 13) indagando-se ainda, para além da
informação, problematiza: “[...] como ser responsável ao sugerir ordena-
ções ao conhecimento? Como promover sociedades democráticas e inclusi-
11 Em 17 de maio de 1990, a Organização Mundial da Saúde (OMS) retirou a homossexualida-
de da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID).
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
404
vas?”. Ressalta-se que, no âmbito deste estudo, a inclusão é compreendida
não como um ato de tolerância, mas sim, um espaço de construção social.
Logo, tais indagações, tornam-se essenciais para a compreensão daquilo
que se analisa neste estudo.
Segundo Bourdieu (2012) por tratar de compreender como se cons-
truir e representar uma categoria social dominada, uma vez que, a classi-
ficação binária a qual são submetidos todos os sujeitos e a todo momento
(Centro/Margem) e sendo as margens constituídas sobre termos negativos,
deve-se levar em consideração que sua representação envolve o rompimen-
to com as categorias de percepção que fundamentam a inferioridade.
Esse rompimento permitiria que experiências vividas de forma tácita
ou dissimulada ganhassem visibilidade a partir de sua enunciação pública
e que se construam em signos de pertencimento a um grupo social, a uma
identidade. Bourdieu (2012, p. 148) ainda discorre que:
[...] o objetivo de todo movimento de subversão simbólica é operar
um trabalho de destruição e de construção simbólicas visando a
impor novas categorias de percepção e de avaliação, de modo a
construir um grupo, ou, mais radicalmente, a destruir o princípio
mesmo de divisão segundo o qual são produzidos não só o grupo
estigmatizante, como também o grupo estigmatizado.
Logo, compreende-se assim, que a questão da construção dos estere-
ótipos, ao imergir nos processos que resultam na abjetificação dos corpos,
sujeitos e estratos sociais histórica e culturalmente marginalizados tem-se
a construção dos mesmos, que atuam enquanto um fenômeno não natu-
ral, componente comum nos mais diversos mecanismos de controle social,
construídos sob a égide de discursos hegemônicos que objetivavam a im-
plementação e manutenção do poder, interferindo diretamente nos mar-
cadores sociais da diferença (Derrida, 1971, 1997, 2013; Silva, 2000) alar-
gando a mesma, entrelaçando-se de forma profunda nas tessituras oriundas
das relações sociais.
Desse modo,
Estudos críticos em organização do conhecimento
405
[...] é também por meio da representação que a identidade e a
diferença se ligam ao sistema de poder. Quem tem o poder de
representar tem o poder de definir e determinar identidade. É por
isso que a representação ocupa um lugar tão central na teorização
contemporânea sobre a identidade e nos movimentos sociais
ligados à identidade. (Silva, 2000, p. 91).
Frente a isso, objetivou-se compreender como as relações de poder
tem influenciado na compreensão e classificação do domínio das dissidên-
cias sexuais e de gênero, utilizando-se da estereotipagem, silenciamentos e
esquecimento para alicerçar os discursos hegemônicos.
2 ASPECTOS METODOLógICOS
A pesquisa aqui apresentada configura-se como um recorte da tese
de doutorado do autor que adotou os procedimentos metodológicos ne-
cessários para obter respostas aos questionamentos que comumente emer-
gem do processo investigativo e atender ao objetivo supra citado, elegen-
do-se a Análise de Domínio (AD) como metodologia, alicerçada em dois
recursos metodológicos que atuaram de forma colaborativa para alcançar
o resultado aqui apresentado, a saber Etnografia e Observação (Silverman,
2009; Flick, 2009) e Cartografia (Cartografia de documentos e Cartografia
de sentimentos) (Rolnik, 2016).
De forma a situar o viés metodológico, ancorando-se sob uma
abordagem discursiva, alinhando-se com o pensamento de Hjørland e
Albrechetsen (1995), que definem a AD e estabelecem um diálogo com
a Ciência da Informação, sob a óptica do paradigma domínio-analítico,
onde o mesmo
[...] primeiramente, um paradigma social que considera a CI
[Ciência da Informação] como uma das muitas ciências sociais,
fomentando [...] perspectivas psicossociais, sociolinguísticas,
sociológicas do conhecimento e sociológicas da ciência no contexto
da Ciência da Informação. O paradigma domínio-analítico é,
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
406
em segundo lugar, uma abordagem funcionalista, com o intuito
de entender as funções implícitas e explícitas da informação
e da comunicação, e de delinear mecanismos subjacentes ao
comportamento informacional a partir desta visão. Em terceiro
lugar, é uma abordagem filosófico-realista, tentando constatar as
bases da CI por meio de fatores que sejam externos às percepções
individualístico-subjetiva dos usuários em oposição, por exemplo,
aos paradigmas comportamentais e cognitivos12 (Hjørland;
Albrechtsen, 1995, p. 400).
O diálogo e aplicação de tal entendimento são fortalecidos pelas
linhas de Kobashi (1994), Abrahamsen (2003), Hjørland (1997, 2002,
2016, 2017), Nascimento (2006) e Tennis (2012a, 2012b) no âmbito da
Ciência da Informação, além de Pinho (2010), Guimarães e Pinho (2011,
2012), Guimarães, Nascimento e Pinho (2017), Campbell, Guimarães,
Pinho, Martínez-Ávila, Nascimento (2017) sob o viés mais específico da
Organização do Conhecimento.
3 DISCUSSÕES E RESULTADOS
Segundo a interpretação da obra de Judith Butler por Salih (2012,
p. 232):
Na medida que a nomeação da “menina” é transitiva, isto
é, em ela inicia o processo pelo qual é imposto um certo
tornar-se menina”, o termo ou, mais precisamente, o seu
poder simbólico, determina a formação de uma feminilidade
corporalmente encenada que nunca preenche plenamente a
norma. Essa é, entretanto, uma “menina” que está obrigada
a “citar” a norma para se qualificar e se manter como um
12 Citação original: “[…] firstly a social paradigm, conceiving of IS as one of the social sciences, promoting a
social psychological, a sociolinguistic, a sociology of knowledge, and a sociology of science perspectives on IS.
e domain-analytic paradigm is secondly a functionalist approach, attempting to understand the implicit and
explicit functions of information and communication and to trace the mechanisms underlying informational
behavior from this insight. irdly it is a philosophical-realistic approach, trying to find the basis for IS in factors
that are external to the individualistic-subjective perceptions of the users as opposed to for example the behavioral
and cognitive paradigms (Hjørland; Albrechtsen, 1995, p. 400).
Estudos críticos em organização do conhecimento
407
sujeito viável. A feminilidade não é, então, a consequência
de uma escolha, mas a citação forçada de uma norma,
cuja complexa historicidade é indissociável de relações de
disciplina, regulação, punição.
É fundamental compreender que a biopolítica não se apropria da
vida para suprimi-la, mas sim para administrá-la em termos regulatórios,
ou seja, trata-se de distribuir o vivente em um domínio de valor e de
utilidade (Castro, 2011). Ressalta-se ainda que a “performance” não ocor-
re sempre de forma consciente; quando se fala de determinados conceitos,
os dispositivos de coerção social e a biopolítica dos corpos e de produção
dos mesmos são tão dissolvidos na tessitura social que acabam por ser in-
ternalizados pelos sujeitos, que não percebem a extensão de sua ação sobre
o seu corpo.
Logo, Butler (2003, p. 162) afirma que
A marca do gênero parece ‘qualificar’ os corpos como
corpos humanos; o bebê se humaniza no momento em que
a pergunta ‘menino ou menina?’ é respondida. As imagens
corporais que não se encaixam em nenhum desses gêneros
ficam fora do humano, constituem a rigor o domínio do
desumanizado e do abjeto, em contraposição ao qual o
próprio humano se estabelece. Se o gênero está sempre
presente, delimitando previamente o que se qualifica como
humano, como podemos falar de um ser humano que se
torna de seu gênero, como se o gênero fosse uma pós-escrito
ou uma consideração cultural posterior?
Rich (1993) e Butler (2003) ao situarem tal entendimento na nor-
ma vigente (Heteronorma), ambas afirmam que a heteronormatividade
é uma “‘[...] ordem compulsória’ que exige dos sujeitos a coerência total
entre um sexo, um gênero e uma conduta/desejo/afeto, que são obriga-
toriamente heterossexuais”. A exemplo do que foi posto, o discurso re-
ducionista da ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos do Brasil
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
408
Damares Alves “Menino veste azul, menina veste rosa13”, onde os sexos
masculino e feminino “[...] são vistos como opostos e complementares:
correspondem a determinada configuração física, suscitam determinados
comportamentos e disposições e dão ensejo a desejos e práticas sexuais
em direção ao sexo ‘oposto’” (França, 2019, p. 45) inscrito em um siste-
ma (Patriarcado14) sendo passível de identificar o mesma como heteropa-
triarcado. Assim, “[...] o gênero, enquanto organizador da cultura, e em
articulação com sexualidade, modula o modo heteronormativo de como
homens e mulheres ‘devem’ se comportar, como seus corpos podem se
apresentar e como as relações interpessoais podem se constituir, nesses
domínios” (Petry; Meyer, 2011, p. 195).
Diante disso, segundo Freire (2012, p. 88) ao utilizar-se das linhas
de Goffman (1988) afirma que, “[...] os ‘normais’ são aqueles que apresen-
tam as características esperadas de acordo com o grupo em que estão inse-
ridos”. No entanto, cabe ressaltar que “[...] como toda norma, porém, essa
também se explicita pelos seus limites. A diversidade de corpos, relações e
sujeitos que habita nosso cotidiano constantemente a desafia e expõe seu
próprio caráter cultural” (França, 2019, p. 45)15.
Segundo Preciado (2017, p. 91-92) “[...] a heterossexualidade é uma
paródia do gênero sem original na qual as posições de gênero que acredita-
mos naturais (masculinas ou femininas) são o resultado de imitações sub-
metidas a regulações, repetições e sanções constantes”. Para Lanz (2014, p.
41) em diálogo com (Kitzinger, 2005, p. 478) a heteronormatividade “[...]
é, pois, um dispositivo totalitário e hegemônico resultante da aplicação
compulsória das normas binárias de conduta de gênero a todas as relações
estabelecidas entre as pessoas na nossa sociedade”. Sob as linhas de Hannah
13 Clarissa Pains. “‘Menino veste azul e menina veste rosa’, diz Damares Alves em vídeo”. O Globo, 3 jan.
2019. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=XneG8mC5CGo. Acesso em: 28 mar. 2021.
14 Segundo Costa (2000, p. 4) o Patriarcado pode ser definido como a: “[…] organização sexual hierárquica
da sociedade tão necessária ao domínio político. Alimenta-se do domínio masculino na estrutura familiar
(esfera privada) e na lógica organizacional das instituições políticas (esfera pública) construída a partir de
um modelo masculino de dominação (arquétipo viril)”.
15 Citação original: “[…] the way how men and women should behave, how their bodies should be represented and
how their interpersonal relations can be composed, in these fields (Petry; Meyer, 2011, p. 195).
Estudos críticos em organização do conhecimento
409
Arendt (2012) “[...] o domínio total, que procura sistematizar a infinita
pluralidade e diferenciação dos seres humanos como se toda a humanidade
fosse um só indivíduo, só é possível quando toda e qualquer pessoa seja
reduzida à mesma identidade de reações” (Arendt, 2012, p. 582).
Assim, ao representar o que a norma pretende ao limitar as práticas
sexuais, as identidades de gênero, além de impor uma vertente universal
aos corpos sexuados (Figura 1) elaborou-se uma representação das dobras
que se sobrepõe na construção dos sujeitos. Logo, se pode compreender
que a coerência do gênero se realiza na criação de uma dupla ilusão, a sa-
ber: a ilusão do que seria “natural” para o corpo sexuado e do que pareceria
natural” para aqueles que afirmam ter esse corpo por agirem sob a égide
do que se enquadra como “natural”.
Figura 1 - Representação do sistema de dobras na composição dos cor-
pos sexuados.
Fonte: Nascimento (2021).
No cenário aqui apresentado, segundo Butler (2003, p. 196)
[...] há três dimensões contingentes na corporeidade significante:
sexo anatômico, identidade de gênero e performance de gênero. Se
a anatomia do performista já é distinta de seu gênero, e se os dois se
distinguem do gênero da performance, então a performance sugere
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
410
uma dissonância não só entre sexo e performance, mas entre sexo e
gênero, e entre gênero e performance. Por mais que crie uma imagem
unificada da ‘mulher’ (ao que seus críticos se opõem frequentemente),
a travesti também revela a distinção dos aspectos da experiência do
gênero que são falsamente naturalizados como uma unidade - através
da ficção reguladora da coerência heterossexual. Ao imitar o gênero,
o drag revela implicitamente a estrutura imitativa do próprio gênero
- assim como sua contingência.
Ao longo de tal raciocínio, ao criar o que seria “natural” e natura-
lizadamente aceito, também se cria aquilo que não é “natural”, ou seja,
tudo o que não é natural não é considerado normal pelos classificadores
sociais construídos sob a égide desse raciocínio, é marginal, sai da nor-
ma, do padrão, do foco do sistema de organização do conhecimento e
é impelido às margens (Olson, 1997; Cornell, 1992). Aqueles que não
se adequam a essa ordem são alocados na zona de exclusão, tornando-
-se ininteligíveis como pessoa, porque a identidade só pode ser estabe-
lecida dentro das “[...] leis que buscam estabelecer as linhas causais ou
expressivas de conexão entre sexo biológico, gêneros constituídos cultu-
ralmente e a ‘expressão’ ou ‘efeito’ de ambos nas manifestações do desejo
sexual nas práticas sexuais” (Butler, 2007, p. 72). Nascimento, Massoni,
Shirakava, Pinho e Martínez-Ávila (2020) afirmam que “[...] toda polí-
tica identitária é ‘anti-diversitária’, uma vez que a identidade não apenas
não comporta, mas sim segrega toda e qualquer singularidade, ‘minoriti-
za’ nos sistemas de classificação” (Campbell, 2000). Para Silva (2000, p.
82) “[...] a afirmação da identidade e a marcação da diferença implicam,
sempre, as operações de incluir e de excluir”. Logo, “[...] a identidade
[...] teria um efeito de homogeneização que suprimira a diversidade, a
diferença na igualdade” (Leopoldo, 2020, p. 160).
Desse modo, sob o ponto de vista das classificações, Costa (1998, p.
66) declara que
Estudos críticos em organização do conhecimento
411
Encontramos inúmeros exemplos de classificação inscrita e actuantes
[sic] nos mais variados domínios das relações sociais, tal como
se apresentam no quotidiano. Basta pensar na maneira como as
pessoas tratam umas às outras, ou se referem a terceiras, atribuindo
estatutos de superioridade ou inferioridade social, considerando
umas distintas e outras vulgares, umas sérias e outras desonestas,
umas competentes e outras incapazes, umas merecedoras de mais
respeito e outras de menos.
Costa (1998, p. 66) prossegue suas análises afirmando que
[...] com frequência, nas relações entre pessoas, classificações deste e
doutros tipos são verbalizadas, embora não sejam em regra objecto
[sic] de grandes delongas reflexivas. Na maioria dos casos, tais
classificações estão presentes de forma implícita. Muitas vezes não
chegam se quer a ser ditas. Mas comandam os comportamentos
e as avaliações, dão o tom aos modos de interação, conduzem as
práticas relacionais de diferência ou arrogância, de intimidade ou
distanciamento, de atenção ou alheamento, entre muitas formas
de modulação do relacionamento humano e de organização das
relações sociais.
Segundo Melo (2010, p. 178) ao refletir “[...] sobre o problema de
representação do conhecimento e os seus desdobramentos deste processo”,
ao qual nomeia por “[...] categorização, na vida em sociedade”, prossegue
ao traduzir as linhas de (Cuenca; Hilferty, 1999, p.32) definindo que “[...]
categorização constitui um mecanismo de organização da informação [por
generalização ou abstração e discriminação] obtida a partir da apreensão da
realidade16. Albuquerque (2013, p. 48) afirma ainda que “[...] enquanto
fenômeno social, a classificação, devido ao seu formato e ao seu tratamen-
to, torna-se a representação temática do conhecimento, visto que as diver-
sas sociedades existentes são agrupadas para atenderem às necessidades de
organização e de comunicação”. Ressalta-se que, “[...] as classificações são
sempre feitas a partir do ponto de vista da identidade. Isto é, as classes nas
16 Citação original: “La categorización es un mecanismo de organización de la información obtenida a partir de la
aprehensión de la realidad, que es, en sí misma, variada y multiforme (Cuenca; Hilferty, 1999, p.32).
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
412
quais o mundo social é dividido não são simples agrupamentos simétri-
cos. Dividir e classificar significa, neste caso também hierarquizar” (Silva,
2000, p. 82).
4 ONDE COLOCAR O DESEjO?
“Todo dia, toda noite
Toda hora, toda madrugada
Momento e manhã
Todo mundo, todos os segundos do minuto
[...] A gente não sabe o lugar certo
De colocar o desejo
(Veloso, Pecado Original17, 1978)
A canção de Caetano Veloso vivifica a forma como o desejo se mani-
festa de forma contundente, insistente e global, afirmando com veemência
que “[...] a gente não sabe o lugar certo de colocar o desejo”. Ressalta-se
que, o interprete e compositor usou termos êmicos utilizados por estratos
sociais marginalizados, como “lobisomem18”, para não sofrer censura, uma
vez que, o Brasil se encontrava sob a atuação de uma ditadura civil-militar
que teve início com o golpe de 1964 e perdurou até 1985. O regime atu-
ava de forma extensiva nos meios de comunicação e nas mais diversas lin-
guagens artísticas, censurando, limitando e agindo em muitos casos com
violência para inibir a atuação dos ditos “subversivos”.
Assim, compreende-se que, imergir no domínio das classificações,
nomeações e representações é imergir em um cenário marcado por relações
de poder, processos de estereotipagem e principalmente de silenciamentos.
Uma vez que, ao se tornar um discurso oficial, todos os outros tornam-se
17 Canção composta e gravada originalmente para a trilha do filme “A Dama do Lotação” (1978) dirigido por
Neville de Almeida, e estrelado por Sônia Braga. Foi o único tema do filme. Nunca foi lançada a trilha do
filme, sendo lançado apenas em compacto (33 1/3) simples na época do filme.
18 Termo utilizado para designar homossexuais masculinos.
Estudos críticos em organização do conhecimento
413
marginais, soterrados ou sem importância dada a posição que ocupa na
hierarquia estabelecida pelos proselitismos sociais.
Na última década do século XX e primeira década do século XXI,
segundo Araújo (2018, p. 58) eclodem diversos estudos sobre “[...] as-
pectos diversos nos processos de representação e recuperação como, por
exemplo, aspectos éticos e as questões de gênero”. Produções como (Olson,
2001; López-Huertas; Ramírez, 2005; Pinho, 2009) marcam a emergên-
cia do viés de gênero enquanto um domínio de atuação da Ciência da
Informação. Não obstante, Dahlberg (1992) já apontava para a necessida-
de de um aprofundamento nos estudos acerca e sob o viés da ética no tra-
tamento da informação. Ressalta-se que, os estudos das primeiras décadas
sobre o domínio do gênero atuam de forma muito generalista, sob o objeto
gênero, e mesmo nos estudos mais contemporâneos a visão do gênero sob a
óptica biologizante ainda é aguda na área de Ciência da Informação.
Os estudos de Olson (1997; 2002), Campbell (2000), Silva e Lara
(2004), Pinho (2010), apresentam-se de forma diferenciada frente ao que
vinha sendo construído no âmbito da Ciência da Informação, construindo
estudos não generalistas, apresentando um aprofundamento temático que
possibilita um entendimento crítico acerca do domínio de gênero e seus
desdobramentos. Lima e Santos (2019, p. 50) afirmam que “[...] a politi-
zação do gênero é uma inovação, pois traz para a cena do debate as pautas
de ordenamento das vidas humanas”.
Logo, os arranjos de gênero são, ao mesmo tempo, fontes de prazer,
reconhecimento e identidade, mas fontes de injustiça e dano. Isso
significa que o gênero é inerentemente político – mas também
significa que essa política pode ser complicada e difícil. Na ordem
de gênero, a desigualdade e opressão têm levado repetidamente a
demandas por reformas. Movimentos que buscam essa mudança
incluem campanhas pelo voto feminino, pela presença das mulheres
em movimentos anticoloniais e na representação de governos
independentes. Há campanhas por salários iguais, pelo direito das
mulheres à propriedade de terras e bens, por reformas da legislação
que regula os direitos e práticas homossexuais, pelo sindicalismo
feminino, por oportunidades iguais de emprego, por direitos
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
414
reprodutivos, por direitos humanos para homens e mulheres
transexuais e pessoas transgênero, contra a discriminação na
educação, contra a discriminação na educação, contra o machismo
na mídia de massas, contra estupros e violência doméstica (Connel;
Pearse, 2015, p. 43).
Pinho, Melo e Oliveira (2019, p. 38), ao evocarem o discurso de
Louro (2008, p. 21) de forma a alicerçarem seu estudo acerca dos assuntos
de gênero e sexualidade nas representações temáticas nos sistemas Sophia
e Pergamum, vislumbram que “[...] no terreno dos gêneros e da sexualida-
de, o grande desafio, hoje, parece não ser apenas aceitar que as posições
se tenham multiplicado, então, que é impossível lidar com elas a partir
de esquemas binários (masculino/feminino, heterossexual/homossexual)”.
Em consonância com Louro (2008), Pinho (2010, p. 31) ao inserir o de-
bate na Ciência da Informação, já identificava os subgrupos “[...] lésbicas,
travestis, transexuais, transgêneros, bissexuais, drag queens, crossdressers,
intersexo, assexual e simpatizantes”, “[...] evidenciando, mais uma vez, a
pluralidade existente na temática e a necessidade de representá-la com mais
especificidade” (Pinho; Melo; Oliveira, 2019, p. 40).
Em diálogo com o que foi supracitado, Preti (1983, p. 153) afirma
que “[...] os estereótipos têm sido objeto de estudo de diversas áreas, como
a Sociologia, a Psicologia da Comunicação, a Semiologia, a Linguística e
outras”. No estudo aqui apresentado, questões acerca dos estereótipos apro-
ximam-se dos estudos históricos e no âmbito da Ciência da Informação.
Nesse interim, Preti (1983, p. 153) discorre que “[...] o processo de este-
reotipia surge, numa sociedade, provavelmente, do conflito entre o fenô-
meno da ‘mente coletiva’ e da ‘mente individual’, na medida em que esta é
sufocada por aquela, tendo em vista os interesses do grupo”. Tal pensamen-
to fora norteado pelo entendimento de “consciência coletiva” proposto por
Durkheim (1972, p. 90-91) que compreende que
Estudos críticos em organização do conhecimento
415
[...] a sociedade não é simples soma de indivíduos, e sim sistema
formado pela sua associação, que representa uma realidade
específica com seus caracteres próprios. Sem dúvida, nada se pode
produzir de coletivo se consciências particulares não existirem;
mas esta condição necessária não é suficiente. É preciso ainda que
as consciências estejam associadas, combinadas, e combinadas de
determinadas maneiras; é desta combinação que resulta a vida social
e, por conseguinte, é esta combinação que a explica. Agregando-se,
penetrando-se, fundindo-se, as almas individuais dão nascimento
a um ser, psíquico se quisermos, mas que constitui individualidade
psíquica de novo gênero. É, pois, na natureza desta individualidade,
e não nas unidades componentes, que é preciso buscar as causas
próximas e determinantes dos fatos que nela se produzem. O grupo
pensa, sente, age diferentemente da maneira de pensar, sentir e agir
de seus membros, quando isolados. Partindo, pois, desses últimos,
não poderíamos compreender nada do que se passa no grupo.
Preti (1983, p. 154) em consonância com o pensamento de
Durkheim (1972) afirma que, “[...] trata-se, sem dúvida, de uma forma
que a própria sociedade encontrou de simplificar a visão da realidade, dis-
tribuindo pessoas, coisas e fatos em escaninhos determinados e previamen-
te rotulados”. Bhabha (1998, p. 110) em uma tentativa de conceituar o
estereótipo afirma que “[...] o estereótipo é um modo de representação
complexo, ambivalente e contraditório, ansioso na mesma proporção em
que é afirmativo”, apontando ainda que, “[...] o estereótipo não é uma
simplificação porque é uma falsa representação de uma dada realidade
(Bhabha, 1998, p.117). Para Bosi (1992, p. 113) “[...] no processo da este-
reotipia, os padrões correntes interceptam as informações no trajeto rumo
à consciência”, Baccega (1998, p. 8) dá continuidade ao discurso ao citar
Bosi (1977, p. 98) afirmando que, “[...] quando procuramos conhecer a
realidade, ocorre ‘um processo de facilitação e de inércia. Isto é, colhem-se
aspectos do real já recortados e confeccionados pela cultura. O processo
de estereotipia se apodera da nossa vida mental’”. Bosi (1977, p. 99) res-
salta que “[...] o repouso do estereótipo, nas explicações dadas pelo poder,
conduz a uma capitulação da percepção e a um estreitamento do campo
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
416
mental”. Bosi (1992, p.113) alerta que “[...] o estereótipo nos é transmiti-
do com tal força e autoridade que pode parecer um fato biológico”.
Albuquerque Junior (2010, p. 30) acerca do “discurso da estereoti-
pia” é incisivo ao afirmar que,
[...] é um discurso assertivo, repetitivo, é uma fala arrogante, uma
linguagem que leva à estabilidade acrítica, é fruto de uma voz segura
e autossuficiente que se arroga o direito de dizer o que é outro em
poucas palavras. O estereótipo nasce de uma caracterização grosseira
e indiscriminada do grupo estranho, em que as multiplicidades e
as diferenças individuais são apagadas, em nome de semelhanças
superficiais do grupo.
Para Lippman (1970, p. 156)
As mais sutis e penetrantes de todas as influências são as que criam
e mantêm o repertório de estereótipos. Dizem-nos tudo sobre o
mundo antes que o vejamos. Imaginamos a maioria das coisas
antes de experimentá-las. E a menos que a educação nos tenha
tornado agudamente conscientes, essas preconcepções governam
profundamente todo o processo da percepção.
Lippmann (1970, p. 151), discorre ainda que, ao nos aproximarmos
da realidade, “[...] não vemos primeiro para depois definir, mas primeiro
definimos e depois vemos”. “Aí está o estereótipo: são ‘os tipos aceitos, os
padrões correntes, as versões padronizadas’. Eles interferem na nossa per-
cepção da realidade, levando-nos a ‘ver’ de um modo pré-construído pela
cultura e transmitido pela linguagem” (Baccega, 1998, p. 8).
Segundo Preti (1983, p. 159) “[...] podemos entender os estereó-
tipos, portanto, como atitudes ligadas a um mecanismo de defesa da so-
ciedade, em particular no que se refere à ideologia sexual”. Nesse interim,
“[...] desde que certas práticas se tornem convenientes para a comunidade,
passam a ser esperadas [...], e os estereótipos prolongam essa expectativa
através das gerações. Quaisquer outras oferecidas em seu lugar provocam
Estudos críticos em organização do conhecimento
417
reações na ‘mente coletiva.’” (Preti, 1983, p. 159). Silva (2000, p. 76)
aponta ainda que
[...] identidade e diferença são vistas como mutuamente determinadas.
Numa visão mais radical, entretanto, seria possível dizer que,
contrariamente à primeira perspectiva, é a diferença que vem em
primeiro lugar. Para isso seria preciso considerar a diferença não
simplesmente como resultado de um processo, mas O processo mesmo
pelo qual tanto a identidade quanto a diferença (compreendida aqui,
como resultado) são produzidas. Na origem estaria a diferença –
compreendida, agora, como ato ou processo de diferenciação.
Diante disso, Candau (2003) afirma que “[...] os preconceitos são
realidades historicamente construídas e dinâmicas; são reinventados e
reinstalados no imaginário social continuamente” (Candau, 2003, p. 17).
Rios (2007) discorre que os preconceitos são “[...] percepções mentais ne-
gativas em face de indivíduos e de grupos socialmente inferiorizados, bem
como as representações sociais conectadas a tais percepções” (Rios, 2007,
p. 27-28). Assim, Denizart (1997, p. 9) ao desenvolver sua etnografia ur-
bana acerca das subjetividades travesti no Rio de Janeiro – RJ, afirma: “Um
jovem gay chegando do Nordeste é execrado por ser pobre, homossexual e
do interior”. A afirmação de Denizart (1997) denuncia a tessitura social, a
relação simbiótica estabelecida entre o preconceito por origem geográfica19
(Albuquerque Júnior, 2007), o preconceito por orientação sexual e o pre-
conceito econômico ou de classes sociais que vigoram na sociedade. Diante
disso, “[...] compreender como se dão estes processos é condição impres-
cindível para desvelá-los e combatê-los, na perspectiva da construção de
uma cultura dos direitos humanos” (Candau, 2003, p.18).
Sob as linhas da obra de Foucault (2010, p. 30) “[...] o poder produz
saber [...], não há relação de poder sem constituição correlata de um campo
de saber, nem saber que não suponha e não constitua ao mesmo tempo re-
19 Para uma compreensão mais aprofundada acerca dos preconceitos geográficos referentes ao Brasil
ver o capítulo “A formação do Estado Nacional brasileiro e os preconceitos por origem geográfica
ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. Preconceito contra a origem geográfica e de lugar: as
fronteiras da discórdia. São Paulo: Cortez, 2007.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
418
lações de poder”. Dessa forma, já conhecido na análise do discurso que há
interpelações do indivíduo em sujeito a ideologia. É assim que se considera
que o indivíduo se constitui em sujeito por ser afetado pelo símbolo. D
seu assujeitamento, ou seja, para que o sujeito seja sujeito é necessário que
ele seja submetido língua. E é por estar subordinado a língua, ao símbolo,
que ele, por outro lado, pode ser sujeito de, pertencente a, pois na sociedade
aqueles que se colocam como contrários ou desviantes da norma não tem
lugar ou papel definido, pois o espaço desse outro (LGBTQIA+, anão, defi-
ciente, prostituta(o), sujeitos em conflito com a lei, entre outros) é o do não
lugar, o esquecimento, a existência condicionada sob a égide da violência
marcada não apenas no discurso mas sim sob todas formas de exclusão social,
ou seja, o sujeito abjeto. Logo, pode-se compreender que o processo de ex-
clusão ao qual os sujeitos praticantes de modalidades alternativas de sexuali-
dades, que tem por natureza o desvio da norma vigente (a heterossexualidade
compulsória) (Rich, 1993; Anjos, 2000; Butler, 2002, 2003) instituíram um
movimento das “margens” para o “centro” que busca resistir ao que fora im-
posto pelo proselitismo social norteado em direção a binaridade de gênero e
da heterossexualidade. Cabe ressaltar que, essa binaridade tem sua gênese na
noção de gênero entendida como relações estabelecidas a partir da percepção
social das diferenças biológicas entre os sexos (Scott, 1995).
Desse modo, uma das garantias que podem devolver a tais sujeitos
uma possibilidade de representação verossimilhante, ética e humana é a
garantia autopoiética. Segundo Martínez-Ávila, Budd (2017, p. 706) em
diálogo com Mai (2011) a garantia autopoiética é compreendida como
uma incumbência “[...] em que a autoridade é criada dentro do sistema e
os usuários do sistema, de forma autorreferencial, estabeleceriam os termos
e classes a serem incluídos. Nesse caso, a autoridade do sistema emergiria
de seu uso20. Essa compreensão favorece o diálogo e a construção de uma
representação do conhecimento mais eficiente do ponto de vista da recu-
peração da informação, uma vez que, não evidencia relações de poder, mas
torna equânimes as nomeações.
20 Citação original: “[…] in which the authority is created within the system and the users of the system, in a
selfreferential manner, would establish the terms and classes to be included. In this case, the authority of the system
would emerge from its use (Martínez-Ávila; Budd, 2017, p. 706).
Estudos críticos em organização do conhecimento
419
Esse deslocamento do eixo discursivo, não apenas torna mais equâ-
nime o “poder de nomeação”, mas sim, aproxima o sujeito de uma clas-
sificação mais verossimilhante e amplia o grau de eficiência da mesma,
criando assim a possibilidade de que narrativas diferenciadas, destoantes
do discurso hegemônico possam emergir, conferindo aos sujeitos margina-
lizados no decorrer do processo de construção histórica a voz que lhe fora
retirada em tal processo, ao serem alocados em um “espaço” único, sejam
as margens, as bermas do próprio processo de representação e classificação,
ou a própria zona de abjeção que não pode ser compreendida como um
lugar, um espaço, mas sim, um não lugar.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Logo, o que se pode concluir ao término das observações é que, o
estado de exceção simbólico construído socio-historicamente sobre e em
torno dos sujeitos que borram, desviam ou não balizam suas identidades,
práticas e orientações do desejo pela norma vigente, eleita por proselitis-
mos sociais, de forma a melhor servir os grupos hegemônicos onde o siste-
ma patriarcal, utiliza-se de estratégias e métodos sexistas para arraigar um
comportamento machista, em um invólucro capitalista, que se utiliza de
dispositivos de controle social para tornar os corpos politicamente dóceis e
economicamente produtivos, gerando em seu interior oprimidos e excluí-
dos em um jogo de poder complexo em que “lembrança e esquecimento”,
são partes de um mecanismo de controle social, um instrumento que por
meio de uma consciência seletiva, tal qual uma marionete, lembra ou se
esquece daquilo que é conveniente apenas para ao grupo hegemônico.
Assim, ao vislumbrar os sistemas de saber/poder e patriarcal nos quais
está inscrito toda a engenharia social de controle dos corpos, engendrada em
uma interseccionalidade das relações de poder, raça, gênero e sexualidade
que incidem sobre os corpos de modo a controlar suas práticas em uma pro-
dução serializada de sujeitos dóceis e economicamente viáveis sob a perspec-
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
420
tiva do biopoder e consequentemente do capital. Não obstante, a criação de
um dialeto oriundo do marginalia que atua nas bermas da sociedade em uma
ação discursiva margem-centro que não almeja tornar-se centro, mas que
reverbera causando um movimento entre os sujeitos que de alguma forma
não se sentem completamente representados e/ou identificados nos espaços
destinados a eles no decorrer das construções sócio-históricas, coletivas e in-
dividuais, fazendo com que a garantia autopoiética torne-se uma alternativa
viável a esses estratos sociais alocados a marginalia, de forma a conferir a estes
uma representação verossimilhante, ética e humana.
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427
15
O FEMINISMO DECOLONIAL
NAS CATEgORIAS DE SHIyALI
RAMAMRITA RANgANATHAN
deColonial feminism in sHiYali
ramamrita ranGanatHan’s
CateGories
Marília Winkler de MORAIS
Universidade Federal de São Carlos - UFSCar
Luciana de Souza GRACIOSO
Universidade Federal de São Carlos - UFSCar
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-485-1.p427-456
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
428
Resumo: O objetivo central deste estudo é o de recorrer às categorizações ranganathainas
(PMEST - Personalidade, Matéria, Energia, Espaço e Tempo) para auxiliar na identificação
de elementos e fenômenos que compõe o Feminismo Decolonial, viabilizando, assim,
uma compreensão mais ampliada, engajada e fortalecida sobre os temas e as ações que são
constitutivas desse movimento. A justificativa para esse recorte temático se dá justamente
pela complexidade envolta na interseccionalidade dos sujeitos sociais, que neste lugar, são
as mulheres latino-americanas, cujas lutas por direitos transpõem as questões individuais
e ativam a discussão e a reivindicação por direitos políticos, ambientais, econômicos e
culturais. Este exercício possibilitou fazer outras leituras, mais amplas e completas do
Feminismo Decolonial, reconhecendo as narradoras, as agentes e as sujeitas da ação, as
personagens, os objetos de uma ação ou manifestação, os objetos simbólicos, as ações, as
funções, os métodos, os eventos, os acontecimentos, os espaços, as ambiências, os lugares,
e os pontos de vista deste importante e necessário movimento feminista contemporâneo,
latino-americano, transgressor e revolucionário.
Palavras-chave: feminismo; decolonialidade; feminismo decolonial; organização do
conhecimento; Ranganathan
Abstract: e central objective of this study is to resort to Ranganathainas categorizations
(PMEST - Personality, Matter, Energy, Space, and Time) to help identify the elements
and phenomena that make up Decolonial Feminism, thus enabling a more expanded,
engaged, and strengthened understanding of the themes and actions that are constitutive
of this movement. e justification for this thematic approach is precisely the complexity
involved in the intersectionality of social subjects, which in this place are Latin American
women, whose struggle for rights transcends individual issues and activates the discussion
and demand for political, environmental, economic, and cultural rights. is exercise,
made it possible to do other, broader and more complete readings of Decolonial
Feminism, recognizing the narrators, the agents and subjects of the action, the characters,
the objects of an action or manifestation, the symbolic objects, the actions, the functions,
the methods, the events, the events, the spaces, the ambiences, the places, and, the points
of view, of this important and necessary contemporary, Latin American, transgressor and
revolutionary feminist movement.
Keywords: feminism; decoloniality; decolonial phenism; knowledge organization;
Ranganathan
Estudos críticos em organização do conhecimento
429
“No momento em que escolhemos amar, começamos a nos mover
contra a dominação, contra a opressão. No momento em que
escolhemos amar, começamos a nos mover em direção à liberdade, a
agir de formas que libertam a nós e aos outros”.
bell hooks (1952-2021) In memorian
1 INTRODUÇÃO
O Feminismo Decolonial é central neste trabalho, tanto pelo que ele
promove e articula, mas também por ser representativo dos deslizamentos
de símbolos históricos que precisam ser revistos, pelos deslocamentos se-
mânticos que sugerem e pelas incompletudes que evidenciam em relação às
nossas existências coletivas. Argumentamos em defesa do uso da proposta
de S. Ranganathan como base para categorização e análise dos conteúdos
decoloniais latino-americanos por considerarmos que, ao pensar estas cate-
gorias PMEST (Personalidade, Matéria, Energia, Espaço e Tempo), o filó-
sofo indiano, que também ocupou o lugar da subalternidade nos processos
de colonização, conseguiu visualizar uma possibilidade de Organização do
Conhecimento e de leitura das narrativas produzidas pela humanidade, de
modo universal. Campos, Gomes e Oliveira (2013) sumarizam a proposta
de Ranganathan e confirmam que o pensador apresenta em sua Teoria
da Classificação Facetada, as Categorias PMEST e suas facetas, como um
método de raciocínio para explicitar diversos domínios de conhecimento
através de classes e conceitos.
De modo complementar, identificamos para a proposta do presente
estudo, que é a de recorrer às categorizações Ranganathainas para auxi-
liar na identificação de elementos e fenômenos que compõe o Feminismo
Decolonial, que as categorias PMEST poderiam ser mais bem compreen-
didas quando ampliadas e adaptadas à luz da Teoria Literária, tal como su-
gerido por Costa (2008). Isso porque as categorias literárias nos fornecem
a percepção de aspectos conotativos e denotativos presentes nos discursos
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
430
e que são essenciais para melhor nos auxiliar nas categorizações das expres-
sões decoloniais na CI.
A temática decolonial, em geral, irá configurar alguns exemplos para
melhor compreensão da ampliação dessas categorias no presente estudo
e especificamente será desenvolvido um ensaio de categorização PMEST
sobre os assuntos e as ações envoltas ao feminismo decolonial e que serão
alocadas nas categorias Ranganathianas, com o objetivo de melhor reco-
nhecê-las, compreendê-las e fortalecê-las enquanto assunto, discurso, nar-
rativa e atitude.
Para tanto, o percurso metodológico desenvolvido se dá, inicial-
mente, pela introdução das discussões sobre os principais dispositivos que
configuram as narrativas e ações do feminismo decolonial, evidenciando e
justificando a necessidade de trazermos à tona as questões que acionam o
movimento e os resultados políticos e sociais que decorrem dele.
Sequencialmente, são apresentados, de modo descritivo, os princi-
pais elementos que orientam a compreensão sobre a proposta de categori-
zação Ranganathiana e, nesse ensejo, já serão feitas as relações dessas cate-
gorias, a partir da proposta de Costa (2008). Como dito, nesse percurso,
algumas relações com elementos da decolonialidade serão estabelecidas,
com estratégia de validação da proposta de aplicação metodológica que se
quer desenvolver.
Assim, é desenvolvido, para fins de identificação dos assuntos que
compõem o universo do feminismo decolonial, uma leitura documen-
tária do texto de Heloísa Buarque de Hollanda, que introduz o livro
“Pensamento feminista hoje: perspectivas decoloniais”, organizado por ela
e publicado em 2020. Essa obra reúne os principais textos e obras artísticas
que foram decisivas na construção do movimento Feminista Decolonial e,
neste sentido, por fazer uma síntese primorosa desses materiais na intro-
dução do livro, recorreremos a essa garantia, que ao nosso entendimento é
cultural, além de literária, por apresentar “conceitos-outros”, relacionados
aos modos de vida decoloniais. Após leitura e fichamentos temáticos dos
Estudos críticos em organização do conhecimento
431
assuntos arrolados pelo feminismo decolonial, estes foram distribuídos nas
categorias ranganatianas, ampliadas por Costa (2008).
2 Qamasa Warminanaka E OS FEMINISMOS DECOLONIAIS: “É A PARTIR
DO CORAÇÃO QUE DEvEMOS FALAR1
Não há dúvidas de que os debates teóricos desenvolvidos no bojo da
teoria feminista colaboram para o avanço contra as amarras do sexismo,
que tanto impedem a ampliação das condições necessárias à autodetermi-
nação das mulheres. Faz-se essencial, entretanto, adotar uma abordagem
crítica que nos permita analisar o percurso do movimento feminista pelo
prisma de mulheres negras, indígenas e suas contribuições imprescindíveis
para o debate e para a construção de discursos contra-hegemônicos.
Nesse contexto, vamos ao encontro do pensamento de Djamila
Ribeiro (2020), quando propõe que pensar sobre um feminismo negro
é refletir sobre “[...] novos projetos e marcos civilizatórios para que se
pense um novo modelo de sociedade” (Ribeiro, 2020, p. 14). Este texto
não visa a impor a tecitura de uma nova epistemologia, mas sim de co-
laborar para a discussão e se aproximar dos ideais de um feminismo que
seja efetivo na construção de um modelo alternativo de sociedade, um
feminismo decolonial.
Em 1988, Lélia Gonzales já problematiza que as conquistas do mo-
vimento feminista, como as discussões em torno do conceito de capitalis-
mo patriarcal, de sexualidade, de violência, de direitos reprodutivos etc.
Falharam em levantar também as discussões sobre a discriminação racial.
A questão racial, “esquecida” no discurso feminista latino-americano, apre-
senta um histórico intrínseco às sociedades hierárquicas que emergiram do
cenário de colonização ibérica.
De acordo com Lélia, Portugal e Espanha tiveram uma formação
histórica fortemente hierárquica, culminando em um tipo de estrutura que
Paredes (2019, p. 30).
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
432
não abria espaço para o conceito de “igualdade”, principalmente em rela-
ção aos grupos étnicos, como os mouros e os judeus. Herdeiras históricas
dessa ideologia, as sociedades latino-americanas se desenvolveram de for-
ma estratificada, o que garantiu, no contexto racial e igualmente no con-
texto sexual, a superioridade dos homens brancos como grupo dominante.
Trata-se de uma dupla discriminação de mulheres não brancas
na região: as amefricanas e as ameríndias. O caráter duplo de sua
condição biológica — racial e/ou sexual — as tornam as mulheres
mais oprimidas e exploradas em uma região de capitalismo
patriarcal-racista dependente. Precisamente porque esse sistema
transforma diferenças em desigualdades, a discriminação que
sofrem assume um caráter triplo, dada a sua posição de classe: as
mulheres ameríndias e amefricanas são, na maioria, parte do imenso
proletariado afro-latino-americano. (Gonzales, 2020, p. 145).
Angela Davis (2016) nos mostra como, no cenário dos Estados
Unidos, o movimento sufragista se opunha ferrenhamente ao sufrágio ne-
gro, acabando por reproduzir o racismo dentro do movimento feminista.
No século XIX, a conquista do espaço público pelas feministas brancas
norte-americanas delegou às mulheres negras e imigrantes as obrigações de
suas tarefas domésticas, o que acabou por naturalizar e reproduzir a exclu-
são e relações de dominação de classe no movimento feminista.
No Brasil, movimentação parecida é narrada por Sueli Carneiro
(2011), quando a filósofa expõe como as mulheres negras assistiram à temá-
tica específica da mulher negra ser secundarizada na suposta universalidade
de gênero. “Ou seja, o movimento feminista brasileiro se recusava a reco-
nhecer que há uma dimensão racial na temática de gênero que estabelece
privilégios e desvantagens entre as mulheres” (Carneiro, 2011, p. 121).
A problematização acerca da recusa em reconhecer as questões ra-
ciais dentro do movimento feminista encontra eco nas teorias decoloniais,
em especial quando estas abordam o conceito de universalismo abstrato.
Estudos críticos em organização do conhecimento
433
Ramón Grosfoguel (2012) define esse universalismo abstrato como
um tipo de particularismo que se estabelece como hegemônico e se apre-
senta como “desincorporado”, escondendo seu lugar de enunciação, trans-
passando, assim, uma neutralidade de caráter. Em outras palavras, uma
abordagem desse tipo assume um caráter impessoal: separa-se o sujeito do
contexto, do objeto, generalizando os discursos a fim de se fazer emergir
uma “voz universal”, na qual não existem diferenças.
Um exemplo: transplantado ao cenário de lutas feministas, o univer-
salismo se enxerta na noção da igualdade reivindicada. Entretanto, o an-
seio das mulheres em serem reconhecidas cidadãs assim como os homens
é impossível de configurar-se neutro, uma vez que “[...] a própria ideia de
cidadania foi construída tomando por base a posição do homem (e, em
particular, do homem branco e proprietário) numa sociedade marcada por
desigualdades de gênero, raça e classe” (Miguel, 2014, p. 64).
Quando do recorte de raça, Ribeiro (2020) assinala que a negação
da temática negra no movimento feminista hegemônico, tratada como su-
bitem da questão “geral” da mulher, acarretou o esquecimento de potentes
vozes que demoraram muito tempo para finalmente serem ouvidas.
Assim, podemos assumir que dessa abordagem universalista, irradia
o risco de se obliterar as perspectivas das mulheres em todas as suas in-
tersecções: de raça, de orientação sexual, de identidade de gênero. Assim
que muito mais importante é levar em conta que “[...] a diferença que se
associa à igualdade é aquela que permite a livre expressão das individuali-
dades, não a que aprisiona indivíduos e grupos em posições estereotipadas
(Miguel, 2014, p. 77).
A recusa à universalização do masculino, ou do branco, através da
valorização e aceitação das diferenças e da pluralidade é importante para
evitar a aceitação acrítica de um conjunto de valores vinculados às relações
de dominação. Nesse sentido, Carneiro (2011) também ressalta como a
consciência da exclusão determinou a aliança de mulheres negras no com-
bate ao racismo e ao sexismo, resultando em participações políticas de re-
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
434
sistência, que visavam à superação da inferioridade social que o racismo
produz.
Um dos exemplos mais expressivos desse movimento de resistência
está nas produções de Lélia Gonzales. Irreverente, a intelectual nos mos-
tra em muitas de suas produções como sempre confrontou o paradigma
dominante, utilizando-se de uma linguagem que não obedece às regras
da gramática normativa, reforçando sua proposta com a decolonização do
conhecimento. Gonzalez (1984) também reflete sobre a ausência de mu-
lheres negras e indígenas no feminismo e critica a insistência das ativistas
em somente reproduzirem um feminismo europeu, sem dar importância à
realidade das mulheres de países colonizados.
Tal realidade contribui para o afastamento de muitas mulheres de
grupos étnicos explorados e oprimidos do movimento feminista e, como
pontua bell hooks, é preciso recuperar, reforçar e manter o significado po-
lítico positivo desse movimento (hooks, 1984).
Na esteira desta discussão, a pensadora boliviana Julieta Paredes
(2010) nos narra um exemplo sobre como as mulheres indígenas da comu-
nidade aimará tinham ressalvas em relação ao se denominarem feministas.
Ao invés disso, elas utilizavam o termo Q’amasa Warminanaka, que signi-
fica “a força das mulheres”, na linguagem Ayamara. No entanto, Paredes
encontra refúgio na abordagem decolonial para além da carga histórica que
o termo feminismo isoladamente carrega.
Em entrevista ao grupo de pesquisa ¡DALE! – Decolonizar a América
Latina e seus Espaços, Paredes (2019) aponta que a iniciativa de reconcei-
tuar o feminismo, o patriarcado e o gênero como forma de construir uma
proposta decolonizadora a partir de seus povos foi o que o originou o
Feminismo Comunitário:
Por isso, nós falamos de comunidade e da comunidade de
comunidades, nós não nos definimos antipatriarcais, nem
anticapitalistas, nem anticoloniais. Por quê? Assim estaríamos
reforçando o colonial, o patriarcal. Não... Nós temos que buscar
nos definir com base na nossa proposta e não com base no que
Estudos críticos em organização do conhecimento
435
lutamos contra e queremos destruir. Para que vamos reedificá-los?
O que necessitamos é pensar melhor sobre o que é nosso. É a partir
do coração que devemos falar. Por que lutamos? Pela comunidade.
O que queremos? Uma comunidade de comunidades. (Paredes,
2019, p. 30).
No cenário da produção de conhecimento, Hollanda (2020) aborda
como as questões coloniais já tem se configurado prioritárias na agenda fe-
minista. Para a autora, as contraepistemologias delineadas pelas intelectuais
latino-americanas impulsionam o enfrentamento ao império cognitivo eu-
ropeu e norte-americano, uma vez que a abordagem decolonial propõe re-
visar e refletir sobre as teorias feministas eurocentradas (Hollanda, 2020).
E tal abordagem é imensamente necessária, pois reforça o entendimento de
que o aspecto gênero não deve ser abstraído do contexto social e de outros
sistemas de hierarquia. Entendemos, frente a esse brevíssimo panorama,
que o enfoque feminista nas discussões decoloniais anuncia sua contribui-
ção na reestruturação de uma sociedade, de uma política, economia, cultu-
ra e formas de produção de conhecimento, que não se conformam com o
imperativo da colonialidade. Assim, atendendo ao que foi sugerido pela fi-
lósofa Yuderkys Espinosa Miñoso, de que temos que “enfrentar o monstro
e repensar conceitos básicos da teoria feminista frente a um contexto que
cada vez mais aflora a importância das abordagens decoloniais, é que traze-
mos esta proposta de percebermos e nos apropriarmos desse movimento, a
partir das ampliações sugeridas pelas categorias PMEST Ranganathianas.
3 O UNIvERSO DAS IDEIAS: A CLASSIFICAÇÃO FACETADA DE S. R.
RANgANATHAN E AS CATEgORIAS PMEST
Os fundamentos da Teoria da Classificação Facetada foram elabo-
rados pelo indiano Shiyali Ramamrita Ranganathan, na década de 1930,
e publicados em sua obra Prolegomena to Library Classification. Conforme
Ranganathan (1967), o estudo sobre a classificação facetada foi fruto de
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
436
dez anos de trabalho construindo a Cólon Classification e oito anos dedica-
dos a lecionar comparações entre esta e a Classificação Decimal.
Para Campos (2001), o que Ranganathan evidencia, com sua clas-
sificação baseada em facetas, é a necessidade de se construir um esquema
capaz de acompanhar a evolução do conhecimento. Isso porque o bibliote-
cário indiano considerava o conhecimento como um continuum, oriundo
do que chama de universo dos assuntos, sendo impossível desenvolver um
assunto sem que igualmente haja algum desenvolvimento em todos os ou-
tros assuntos relacionados (Ranganathan, 1967).
Até aquele momento, no âmbito da Documentação, as tabelas
existentes não apresentavam as bases teóricas para sua elaboração.
Ranganathan foi o primeiro a evidenciar os princípios utilizados na
elaboração de sua tabela, proporcionando uma verdadeira revolução
na área da Classificação Bibliográfica. (Campos, 2001, p. 27).
A classificação facetada trata-se, pois, de um tipo de classificação
que identifica características comuns de um determinado assunto e as
organiza em diferentes facetas. Esse processo consiste em duas etapas: a
análise de assuntos e a síntese dos elementos que constituem esses assun-
tos (Sales, 2016, p. 67). Ranganathan (1967) discorre sobre como a es-
sência do homem é a mente, de acordo com as escrituras religiosas hindu
chamadas Upanixade. A mente seria o local de origem das ideias, sendo
a linguagem o meio de comunicação que interliga as ideias das pessoas.
Nesse contexto, considera a essência dos assuntos a partir do processo de
formação de conceitos.
Para ele, o ponto de partida seria o chamado Percepto Puro. O
Percepto Puro é a impressão que depositamos na memória, oriun-
da de qualquer entidade, através de nossos sentidos. Como analogia,
Ranganathan (1967) utiliza o exemplo de uma estrela. A luz emitida pela
estrela gera em nós, a partir de nosso sentido da visão, uma impressão
que é depositada em nossa memória, sendo essa impressão o Percepto,
enquanto a estrela em si seria a entidade (que ele também chama de
Estudos críticos em organização do conhecimento
437
Percepção). A impressão que geramos a partir da associação de dois ou
mais Perceptos Puros dá-se o nome Percepto Composto.
Assim, Percepto Puro e Composto, quando depositados na memó-
ria, associam-se formando os conceitos. Esses conceitos podem assimilar
Perceptos recém-recebidos bem como outros conceitos recém-formados,
dando origem ao que Ranganathan nomeia Massa de Apercepção. A Massa
de Apercepção (conceitos depositados na memória) se conecta com o que
apreendemos pela nossa intuição e com os produtos obtidos do processo
de pensar, refletir, imaginar etc., dando origem às ideias.
A totalidade das ideias preservadas pela humanidade determinaria
o que chamamos de conhecimento e o que Ranganathan considera ser
o Universo das Ideias. E é no Universo das Ideias que o Universo dos
Assuntos é concebido, pois este se configura como um corpo de ideias
organizadas e sistematizadas, conforme demonstrado no diagrama a seguir.
Figura 1: Diagrama do Universo das Ideias.
Fonte: Adaptado de Ranganathan (1967).
Uma ideia isolada é a ideia adequada para formar um componen-
te do assunto, mas não é o assunto em si. Assim, a palavra “estrutura”,
por exemplo, denota uma ideia isolada que se adapta à composição de
muitos assuntos como “estrutura física”, “estrutura química”, “estrutura
linguística” etc. (Ranganathan, 1967). Os assuntos podem ou não se re-
lacionar com ideias isoladas, assumindo três tipos: básicos, compostos e
complexos.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
438
Os assuntos básicos são aqueles assuntos tidos como um todo, mas
que não possuem correlação com nenhuma ideia isolada, como Literatura,
Educação, Geometria etc. Quando uma ou mais ideias isoladas compõem
um assunto básico, temos o assunto do tipo composto: Literatura brasilei-
ra, Educação de jovens e adultos, Geometria de sólidos etc. Já os assuntos
complexos são formados pelo acoplamento de dois ou mais assuntos ou
com base em alguma relação entre eles: “Geopolítica – isto é, a influência
da geografia na formação política” (Ranganathan, 1967, p. 85).
Apesar dessas questões terem um cunho filosófico, Ranganathan
deixa evidente, a todo momento, sua preocupação em relacioná-
las com o universo de trabalho da documentação (...). Esses
assuntos se apresentam e são analisados na área da documentação
a partir dos documentos produzidos por um grupo de falantes de
determinado universo de discurso. Dessa forma, a garantia literária
e a dinâmica do conhecimento andam juntas, e são esses fatores
que determinam a relação do documento com o conhecimento e
influenciam a elaboração de esquemas classificatórios para a área da
documentação. (Campos; Gomes, 2003, p. 155).
A partir da análise de um assunto complexo é possível fragmentá-lo
em suas partes constituintes mais simples, as facetas, até que se esgotem as
possíveis divisões. As facetas se consistem, então, em classes reunidas por
um mesmo princípio de divisão, sendo que “[...] dentro de cada faceta
os termos que as constituem são suscetíveis a novos agrupamentos, pela
aplicação de outras características divisionais, dando origem a subfacetas
(Lima, 2002, p. 190). Essa fragmentação é feita com base nas chamadas
Categorias Fundamentais, anteriormente mencionadas, de: Personalidade,
Matéria, Energia, Espaço, Tempo – PMEST.
Essas categorias podem ser consideradas como “[...] categorias gené-
ricas e, como tais, passíveis de se manifestarem de diversas formas” (Costa,
2008, p. 78). Ademais, Costa (2008) ainda aborda o fato de que as catego-
rias se expressam por meio de conceitos amplos, o que deixa margem para
possíveis expansões e adaptações conceituais conforme seu uso.
Estudos críticos em organização do conhecimento
439
A categoria Tempo se relaciona com as ideias isoladas de tempo,
como dias, meses, anos etc., bem como o período das estações, o dia e a
noite. A categoria Espaço compreende continentes, países, cidades, assim
como igualmente pode compreender o espaço geográfico da localização de
um assunto ou documento. A categoria Energia se relaciona com a ação
que ocorre em torno de um assunto, podendo “[...] ser inanimada, ani-
mada, conceitual, intelectual e intuitiva entre todos os tipos de entidades
(Ranganathan, 1967, p. 400).
A categoria Matéria pode se manifestar de duas formas: como ma-
téria e como propriedade. Ranganathan (1967) utiliza o exemplo de uma
mesa para demonstrar a diferença entre as duas manifestações: uma mesa
pode ser feita pela matéria madeira. A madeira é um material intrínseco à
mesa, mas não é a mesa em si, podendo servir para a composição de várias
outras entidades além de uma mesa. Assim como a matéria, a propriedade
de uma mesa ser rígida ou suave não define o que seria uma mesa em si.
Assim, podemos considerar que essa categoria pode compreender materiais
físicos e propriedades abstratas.
A categoria Personalidade é de difícil explicação, sendo considerada
“inefável”, indescritível. Para identificar uma manifestação como integran-
te da categoria Personalidade, utiliza-se o método de resíduos. Por exclusão,
se uma entidade não cabe em nenhuma das outras quatro categorias an-
teriores, ela se enquadra na categoria Personalidade (Ranganathan, 1967).
Vickery (1980) apresenta algumas facetas que podem exemplificar a cate-
goria Personalidade, como “[...] bibliotecas, números, equações, compri-
mentos de ondas de irradiação, obras de engenharia, substâncias químicas,
organismos e órgãos, adubos, religiões, estilos de arte, línguas, grupos so-
ciais, comunidades” (Vickery, 1980, p. 212 apud Campos; Gomes, 2003,
p. 161).
Cada faceta isolada que compõe um assunto composto pode ser con-
siderada como manifestação de uma e apenas uma categoria fundamental.
Assim, as facetas podem ser básicas (FB) e ter relacionamento com o assun-
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
440
to de um documento ou podem estar relacionadas com as cinco Categorias
Fundamentais, formando as Facetas de Personalidade (FP), Facetas de
Matéria (FM), Facetas de Energia (FE), Facetas de Espaço (FE) e Facetas
de Tempo (FT), conforme exemplo a seguir:
Quadro 1: Facetas de um assunto composto
Título Facetas
Lavagem de carvão Carvão (FP); Lavagem (FE); Mineração (FB).
Controle da doença viral do caule da
planta do arroz no inverno de 1967
em Madras
Controle (FE); Doença viral (FM); Caule (FP);
Planta de arroz (FP); Inverno (FT); 1967 (FT);
Madras (FE); Agricultura (FB).
Fonte: adaptado de Ranganathan (1967, p. 405).
A principal diferença entre o sistema criado por Ranganathan em re-
lação aos outros sistemas com estruturas hierárquicas (como a Classificação
Decimal de Dewey e a Classificação Decimal Universal) é que a classi-
ficação por facetas não se utiliza de classes pré-estabelecidas às quais os
títulos devem se relacionar, mas sim de uma análise segundo os elementos
conceituais de um assunto (Dahlberg, 1976). Campos (2001) afirma que
“[...] naqueles esquemas, não ocorre a ligação entre o conhecimento e as
classificações, mas entre os assuntos dos documentos e as classificações
(Campos, 2001, p. 32).
Tal fator implicaria em um tipo de classificação que coíbe a autono-
mia do classificador, uma vez que os sistemas hierárquicos são marcados
por estruturas rígidas, nas quais os assuntos se relacionam uns com os ou-
tros sob uma lógica de subordinação.
Ao mesmo tempo em que refletia sobre essa questão, Ranganathan
percebeu, na época em que estudou na Inglaterra, que a CDD era
largamente utilizada, mas frequentemente adaptada e modificada.
Quando, a partir de 1931, começou a compor um novo sistema,
idealizou uma estrutura bem mais elástica do que as já existentes, isto
é, que permitisse a síntese, o agrupamento de vários componentes
para a especificação do assunto. (Araújo, 2006, p. 126).
Estudos críticos em organização do conhecimento
441
Na Classificação Facetada, os assuntos deixam de ser classificados
sob uma perspectiva que parte do geral para o mais particular. Pelo con-
trário, os assuntos passam a ser classificados do mais específico para o mais
geral, pois para garantir a efetiva análise e compreensão de um assunto, o
caminho deve ser iniciado pela identificação de suas partes constituintes.
Nesse sentido, a Teoria da Classificação Facetada “[...] possibilita suporte
na organização do conhecimento, tendo como ponto de partida a modela-
gem de uma estrutura semântica” (Duarte, 2010, p. 54).
Assim, o processo de classificação formulado por Ranganathan dei-
xa de adotar uma hierarquia como a apresentada na árvore de Porfírio. A
representação da árvore de Porfírio segue uma base dicotômica, ou seja, a
cada característica que é adicionada sucessivamente aos elementos os dis-
tinguem, a derivação conceitual decorrente se torna mais intensa conforme
o aumento das diferenças (Dodebei, 2001).
Em contraposição a esse modelo, Ranganathan propõe uma “[...]
visualização do universo de assuntos de forma bem diferente das classifi-
cações hierárquicas e rígidas que refletem uma determinada visão filosó-
fica de mundo, de acordo com o grau de influência recebida das ciências
evolucionistas” (Costa, 2008, p. 68). Ao invés de se utilizar da analogia da
árvore de Porfírio para a classificação de assuntos, Ranganathan se orienta
para outra analogia: a árvore Baniana.
A árvore Baniana, um tipo de figueira indiana, cujos galhos se espa-
lham para o solo, criando raízes que formam outros troncos, seria a me-
lhor representação para uma árvore de classificação. No que Ranganathan
chama de “a verdadeira árvore dos assuntos”, a complexibilidade está no
envolvente entrelaçamento de galhos e troncos de tal forma que se torna
difícil distinguir a qual tronco cada galho pertence. Assim, devemos consi-
derar que o mesmo ocorre com o Universo dos assuntos. Esse modelo, que
demonstra a importância de analisar as temáticas de um documento com
abrangência conceitual, permite flexibilidade aos sistemas e transforma o
rumo dos estudos em classificações bibliográficas no século XX, tornando-
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
442
-se referência para a organização de assuntos multidisciplinares (Barbosa,
1972). Nas palavras de Saldanha (2016):
A demonstração deste ‘modo peculiar’ não apenas de pensar,
como de tratar do pensamento como matéria de linguagem, está
duplamente espelhado em Ranganathan: tanto sua estrutura de
pensamento não é típica das visões ocidentais (e certamente está
aqui, em grande parte, a ‘intraduzibilidade’ ranganathaniana
expressa no modo, por vezes, contraditório de expressar a
transcendência e a pragmática das 5 ‘leis’), como sua expressão
discursiva, seu ‘estilo de redação’, é radicalmente distinto dos
discursos de fundamentação do pensamento ocidental (marcado,
por exemplo, pela conjugação de verso e prosa, de aproximações
dedutivas e indutivas para a mesma demonstração, de evocação de
elementos sagrados, literários e científicos no mesmo argumento).
(Saldanha, 2016, p. 48).
A utilização da árvore Baniana por Ranganathan atesta uma pers-
pectiva decolonial, uma vez que prioriza seu locus enunciativo e evidencia
a importância da conexão entre lugar e pensamento na elaboração de um
conhecimento contra-hegemônico.
4 AS CATEgORIAS PMEST AMPLIADAS À LUZ DAS CATEgORIAS
LITERáRIAS
A pesquisa de Costa (2008) tem como objetivo contribuir para a for-
mulação de procedimentos metodológicos, no âmbito da análise de conte-
údo de cartazes, tendo em vista a geração de produtos documentais. Para
tanto, desenvolve uma aproximação teórico-conceitual entre as Categorias
Essenciais e os elementos que compõem a estrutura do discurso retórico e
as categorias da narrativa literária. Essa opção foi feita pela autora, diante
da potencialidade que os enunciados literários suscitam em contribuir para
um processo de ampliação conceitual das categorias ranganathianas. Ao se
utilizar das categorias PMEST para analisar anunciados extraídos das obras
Estudos críticos em organização do conhecimento
443
“O sertanejo” e “O gaúcho” de José de Alencar, Costa (2008) pôde elencar
um conjunto de palavras relevantes que expressam cada uma das categorias
de Ranganathan de forma mais aguda. Isso porque, na literatura, os termos
não aparecem apenas em seu sentido literal, denotativo.
Por vezes, as palavras e conceitos estão permeados de sentidos co-
notativos que são igualmente essenciais para a construção de sentido e
demandam análise mais cuidadosa. A seguir, iremos explorar como ficam
cada uma das categorias PMEST ampliadas à luz das categorias literárias de
Costa (2008). A temática decolonial irá configurar alguns exemplos para
melhor compreensão da ampliação dessas categorias e especificamente será
desenvolvido um ensaio de categorização PMEST sobre os assuntos e as
ações envoltas ao Feminismo decolonial e que serão alocadas nas categorias
Ranganathianas com o objetivo de melhor reconhecê-las, compreendê-las
e fortalecê-las enquanto assunto, discurso, narrativa e atitude.
personaLidade
Costa (2008) nos diz como as personagens, na literatura, não são
apenas humanos, mas podem aparecer como animis ou outros elemen-
tos da natureza que preenchem o mesmo espaço de importância que as
pessoas. Por essa razão, é mais apropriado se utilizar do termo “ator” do
que “personagem”, uma vez que personagem sugere figuras humanas. Já o
ator seria, de forma geral, aquele ou aquilo que é agente do ato. Tal noção
estende-se, inclusive, aos elementos do mundo cósmico, seres divinos ou
até mesmo elementos “[...] noológicos como: amor, ódio, virtude, dentre
tantos outros termos” (Costa, 2008, p. 127).
Assim, a categoria Personalidade é composta pelos seres sujeitos das
ações e resultam da pergunta “Quem faz?”. Em seu sentido denotativo, a
resposta apresenta uma linguagem de caráter onomástico, já que é compos-
ta por nomes próprios ou comuns. Já em seu sentido conotativo, a resposta
para essa pergunta pode se configurar como um adjetivo, qualificação, ou
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
444
com alguma característica particular que legitime sua personalização en-
quanto sujeito da ação.
Como exemplo, podemos pensar no contexto da decolonialidade,
sendo esta a ação. Ao considerarmos o sentido denotativo e onomástico
de uma resposta para a pergunta “Quem faz (a ação decolonial)?”, pode-
ríamos elencar uma série de nomes comumente abordados enquanto ato-
res do pensamento decolonial, como Franz Fanon, Aimé Césaire, Edward
Said, entre tantos outros.
Ainda considerando o contexto denotativo, podemos esperar uma
outra resposta para a pergunta “Quem faz?”: os grupos de estudo que se
dedicaram a investigar e discutir os efeitos da colonização, como o Grupo
de Estudos Subalternos e o Grupo Modernidade/Colonialidade. Ademais,
todas as movimentações de resistência, como os movimentos afro, movi-
mentos indígenas, zapatistas, feministas, dos trabalhadores rurais sem-ter-
ra, são consideradas decoloniais e configuram-se, portanto, na categoria
Personalidade.
Enquanto isso, os sentimentos de desobediência epistêmica, de insu-
bordinação, entre outras conotações, representam também atores decolo-
niais. São conceitos que visam fortalecer as culturas e os lugares epistêmi-
cos subalternizados pelo projeto eurocêntrico da modernidade e que visam
a um diálogo crítico como um convite a todos para a produção de saberes
mais decoloniais (sendo estas as características que o legitimam enquanto
sujeitos da ação decolonial).
matéria
Ranganathan (1967) nos apresenta como a categoria Matéria é com-
posta pelas manifestações material e propriedade, utilizando-se do exem-
plo da mesa de madeira suave ou rígida. Assim, como o tipo de material
possui propriedades que vão originar outros objetos, eles devem sua forma
Estudos críticos em organização do conhecimento
445
não somente às características desses materiais, mas igualmente às proprie-
dades inerentes à sua configuração como textura, cor, volume etc.
Linguisticamente falando, os objetos podem se expressar “[...] por
meio do uso de substantivos e por propriedades que podem ser absoluta-
mente abstratas, adjetivadas, que somam matéria e propriedade para criar
suas características físicas” (Costa, 2008, p. 133). A pergunta que se faz
aqui é “O que?”, que nos leva ao entendimento que a categoria pode abar-
car o assunto predominante de cada enunciado.
Posto isto, podemos considerar a pergunta “O que (é abordado nos
estudos/enunciados decoloniais)?” para obter respostas de sentido deno-
tativo e temos que, os assuntos predominantes dos estudos decoloniais se
assemelham, pois se trata de estudos que abordam pontualmente sobre os
efeitos da colonização, sobre o eurocentrismo, sobre a modernidade, sobre
os fatores históricos envolvidos no contexto decolonial.
enerGia
Segundo nos diz Ranganathan (1967), a categoria Energia se rela-
ciona com a manifestação de uma ação. Depreende-se daí que tal ação
pode ser realizada por qualquer entidade, seja ela de ordem animada, seja
inanimada, intuitiva, intelectual ou conceitual e podem até mesmo ocorrer
ao mesmo tempo (Costa, 2008).
Assim, a identificação dessa categoria se dá através de expressões lin-
guísticas verbais, uma vez que são as estruturas que indicam o tipo da ação
ou intervenção provocada por um sujeito ou personalidade. Costa (2008)
acrescenta que a indagação sobre como se dá algo nos leva à identificação
da ação, sendo a pergunta “Como?” central aqui.
No caso da decolonialidade, tal pergunta nos leva ao entendimen-
to de que ela pode ser interpretada da seguinte forma: “Como é feita (a
ação decolonial)?”. Portanto, entendemos que essa categoria Energia está
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
446
relacionada às formas de análise e aos procedimentos metodológicos que
são utilizadas nos estudos decoloniais, pensando a partir de um sentido
denotativo.
Em um sentido conotativo, a priori, podemos considerar a desclas-
sificação de García Gutiérrez. O autor narra sobre como, desde o início de
suas concepções, a produção e a organização do conhecimento são orien-
tadas por ações colonizantes e é nesse âmbito que define a desclassificação
enquanto ação que “[...] propõe a reabilitação de antigos valores banidos
pelo pensamento hegemônico, como estesia, incerteza, provisionalidade,
retórica ou contradição” (García Guitérrez, 2013, p. 93).
espo
A categoria espaço se relaciona ao local em que determinado obje-
to, fenômeno, indivíduo ou entidade se situam. Em Ranganathan (1967),
como o espaço é pensado no bojo da superfície da Terra, de seu interior
e o que está além dela, no espaço cósmico, tal categorização se restringe
à concepção de lugares reais. Costa (2008) nos mostra como, através da
literatura, é possível expandir essa categoria e passar a considerar os lugares
virtuais ou imaginários, além dos físicos ou dos psicológicos. Sendo assim,
a categoria espaço emerge enquanto resposta à pergunta “Onde?”.
Costa (2008) chama a atenção para duas tipologias: os espaços fi-
nitos e delimitados conceitualmente, de fácil identificação, e os espaços
imaginários e abstratos que, por serem subjetivos e imprecisos, são mais
difíceis de se identificar. Esses espaços subjetivos se agregam de elementos
simbólicos, sagrados, alegóricos, utópicos:
[...] tais como o espaço cultura, o espaço não-euclidiano, o
espaço virtual. Conceitualmente, esse tipo de espaço tanto pode
ser um intervalo ou distância entre dois pontos de referência,
como pode abarcar o infinito. Agregam-se a essa tipologia os
espaços imaginários e, ainda, os lugares metafóricos (...). (Costa,
2008, p. 142).
Estudos críticos em organização do conhecimento
447
Assim, pensando no sentido denotativo de um espaço físico que res-
ponda à pergunta “Onde (ocorre a ação decolonial)?”, temos a América
Latina como palco do grupo Modernidade/Colonialidade e ponto de
partida do pensamento decolonial no continente, conforme já abordado
previamente.
Pensando a partir de uma perspectiva conotativa, a transmoder-
nidade, sugerida por Dussel (2001), pode compor esta categoria, uma
vez que o autor a define como um mundo pluriversal, que pode forne-
cer uma multiplicidade de repostas críticas, decoloniais, oriundas do sul
global. Grosfoguel complementa que “[...] podemos começar a imaginar
mundos alternativos para lá do eurocentrismo e do fundamentalismo. A
transmodernidade é o projeto utópico que o filósofo da libertação Enrique
Dussel propõe para transcender a versão eurocêntrica da modernidade
(Grosfoguel, 2008, p. 139).
O que fica claro nessas palavras é como a transmodernidade é consi-
derada um espaço metafórico, como uma estrutura ou uma rede capaz de
resgatar os sujeitos subalternos e excluídos no processo “civilizatório” em
favor da igualdade e da diversidade epistêmica.
tempo
Tempo se apresenta como uma categoria abstrata. Ranganathan
(1967) aborda como a categoria que demanda uma relação dos aconteci-
mentos a um espaço de tempo, podendo este ser dias, meses, anos, déca-
das, séculos etc., ou outras formas que os humanos criam para mensurar a
cronologia de tempo. Ademais, configuram-se nesta categoria fragmentos
de tempo, como as estações do ano e períodos como o dia e a noite.
Costa (2008) acrescenta que para abranger o entendimento desta ca-
tegoria é necessário considerá-la a partir de um entendimento metafísico,
a fim de se levar em consideração todas as possibilidades de tempos reais
e imaginários. Assim, é possível abarcar variações cronológicas, históricas,
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
448
psicológicas ou metafísicas. Aqui, nos perguntamos “Quando?” como re-
ferência temporal.
Futuro, passado, presente ou, ainda, um tempo metafísico e subje-
tivo, que se situa no âmbito das experiências individuais, todas as varia-
ções de tempo apresentam relação com o espaço em que são desenvolvi-
das. Mignolo (2008) ao resgatar o conceito de Pacha, dos povos Ymaras e
Quechuas nos fornece um exemplo preciso de como os elementos tempo e
espaço sempre estiveram intrinsecamente conectados:
Os Ymaras e Quechuas (assim como as comunidades Anáhuac e
Abya Yala) não tinham um conceito como o atual de “vida” (...).
Pacha era um conceito complexo em que as noções de espaço
e tempo se agrupavam no correr das estações, no movimento
do sol e da lua, o crescimento das plantas e dos animais, a
queda das folhas no inverno, o fim do movimento nos seres
vivos em um determinado momento de sua ocorrência, desde
o nascimento, a queda da chuva, o movimento das nuvens etc.
(Mignolo, 2008, p. 267).
O tempo e, a partir da perspectiva desses povos, o tempo-espaço
Pacha, pode ser descrito como um tempo metafísico. Além de estarem liga-
dos, tempo e espaço por vezes se sobrepõem, como nos diz Costa (2008):
O espaço, o lugar é uma referência mais concreta e dele decorre um senti-
mento de origem e de pertencimento. Assim, o apego ao lugar e às relações
afetivas estabelecidas entre esse espaço e seus habitantes são variantes que
influenciam na passagem e mensuração do tempo.
Em um sentido denotativo, temos vários exemplos de tempos exatos,
cronológicos e históricos abordados nos estudos decoloniais, que podem res-
ponder à pergunta: “Quando (é feita a ação decolonial)?” e que configuram
a seção anterior. Aqui, podemos demarcar o exemplo do século XVI como
tempo histórico decolonial, marcado pelo Taki Unquy, movimento indígena
dos Andes peruanos de oposição à expansão espanhola (Mignolo, 2008).
Estudos críticos em organização do conhecimento
449
ponto de vista
Como vimos, Costa (2008) aponta semelhanças conceituais entre as
categorizações Personalidade, Matéria, Energia, Espaço e Tempo da teoria
ranganathiana com a teoria da narrativa literária. Tal abordagem possibili-
tou um alargamento teórico e uma indicação de parâmetros para se estabe-
lecer os procedimentos metodológicos utilizados neste projeto.
Além dessas categorias, Costa (2008) estende-se para mais uma,
chamada Ponto de vista. A autora justifica essa categoria tomando por
base a necessidade de se considerar alguns aspectos quando da análise das
obras, como tipo de linguagem, entorno sociocultural, contexto situacio-
nal. Assim, a categoria Ponto de vista é definida como “[...] contextual
e de caráter subjetivo envolvendo aspectos conotativos que perpassam as
categorias” (Costa, 2008, p. 101).
Assim, tem-se que os propósitos dos estudos influenciam no resulta-
do da ação, ou seja, na argumentação utilizada ao longo da obra e recupe-
ram a noção de ponto de vista. A pergunta que cabe aqui é “Por quê?” e,
aplicada ao contexto dos estudos decoloniais, podemos entender essa cate-
goria como a responsável por abarcar as justificativas e também as finalida-
des (adaptando-se à pergunta para “Para quem?”) dos estudos decoloniais.
5 RESULTADO: DESCRITORES DO FEMINISMOS DECOLONIAL
CATEgORIZADOS A PARTIR DE S. RANgANATHAN E COSTA (2008)
Costa (2008), ao aferir afinidades conceituais das categorizações
antevistas nas teorias ranganathianas, retóricas e narrativas, estabeleceu,
entre elas, termos de comparação que viabilizaram a ampliação conceitual
das categorias Personalidade, Matéria, Energia, Espaço e Tempo. Em sua
metodologia, foi estabelecido um alinhamento teórico-conceitual que via-
bilizou a análise de conteúdo cartazístico e de sua representação (via resu-
mos). Esse processo de análise viabiliza que se contemple tanto os aspectos
denotativos, quanto os conotativos presentes nos cartazes estudados, e esse
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
450
procedimento, segundo a autora, tem por intuito: “[...] gerar um produto
documental eficaz que apresente substância para se realizar os processos
técnicos biblioteconômicos de representação documental descritiva e te-
mática em linguagem natural e especializada” (Costa, 2008, p. 09).
Para o presente estudo, avançamos na etapa metodológica, que diz
respeito à análise de conteúdo textual e posterior categorização temáti-
ca do Feminismo Decolonial, mas reconhecemos que o desenvolvimento
do processo metodológico completo e aplicado também em outras fontes
(como imagens, vídeos e outras mídias) surtiriam efeitos surpreendentes
em relação às manifestações do Feminismo Decolonial.
No Quadro 01, adaptado de Costa (2008), apresentamos o resultado
do exercício de olharmos para os assuntos representativos do Feminismo
Decolonial, via categorias Ranganathianas e Teoria Literária.
Quadro 1: Descritores do Feminismos Decolonial categorizados a partir
de S. Ranganathan e Costa (2008).
CATEGORIZAÇÃO PMEST
AMPLIADA POR
COSTA (2008).
DESCRITORES FEMINISMO DECOLONIAL
Personalidade/ Narrador/
Agente, sujeito da ação/
Personagens/Figuras
mitológicas/Atores
Onomástico/Quem?
Acadêmicas feministas
brasileiras e latino-
americanas;
Coletivos de feministas
anarquistas bolivianas;
Comunidade feminista;
Grupo de estudos
subalternos;
Grupo modernidade/
colonialidade
Sujeito Político;
Sujeito Social;
Adriaan Varejão;
Angela Figueredo;
Beatriz Nascimento;
Cherrie Moraga;
Cinzia Arrazza;
Consuêlo Pereira dos
Santos;
Fithi Battacharua
Glória Anzaldúa;
Grada Kilombra;
Julieta Paredes;
Lélia Gonzales;
Luiza Bairros;
Marcela Cantuária;
Maria da Graça Costa;
Maria Elvira Díaz-Benítez;
Maria Galindo;
María Lugones;
Marina Lazreg;
Nancy Fraser;
Ochy Curiel;
Oyérónké Oyewúmí
Ranajit Guha;
Rita Segato;
Sueli Carneiro;
Suely Messeder;
Susana Castro;
ula Pires;
Yuderkys Espinosa Miñoso;
Estudos críticos em organização do conhecimento
451
Matéria/O objeto de uma ação
ou manifestação/Item /Objeto
simbólico /Temáticos formais/
Conceitual/O Quê?
Ativismo midiático;
Margaridas na Paraíba;
Marcha das margaridas;
Movimento de mulheres
camponesas;
Articulação nacional de
agroecologia;
Rede carioca de agricultura
urbana;
Feminismo comunitário;
Energia /Ação/Função/Método
Evento/Acontecimento
Temáticos/ Causa e efeito /
Conceitual/Como?
Amefricanidade;
Branquitude patriarcal;
Colonialismo;
Crise do capitalismo global;
Darwinismo social;
Democracia racial (mito
fundador da identidade
latino-americana e
brasileira);
Epistemologias
heteronormativas e
coloniais;
Filosofia feminista africana;
Giro decolonial;
Positivismo;
Racismo; científico
Racismo;
Sexismo;
Contraepistemologias;
Epistemologias originárias;
Narrativas contraoficiais;
Pensamento crítico
decolonial;
Espaço /Ambiência /Lugar/
Local/Conceitual/Topográfico/
Onde?
Améfrica (Lelia Gomzález)
Tempo /Topográfico
Quando?
Ponto de vista
Temático não referencial
Por quê?
(COSTA, 2008).
Mátria Livre
Fonte: As autoras. Adaptado de Costa (2008).
Em síntese, reconhecemos os limites deste exercício inicial que se
apresenta, mas, ao mesmo tempo, identificamos, a partir de seu desenvol-
vimento, o quanto que analisar assuntos a partir das teorias e das metodo-
logias da Organização do Conhecimento pode alargar os horizontes sobre
a compreensão de fenômenos, de eventos, de seus movimentos e de suas
relações, dinâmica esta, essencial e talvez, universal, para qualquer conhe-
cimento em construção. Este exercício, continuará sendo desenvolvido e
aprimorado como pesquisa de mestrado.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
452
6 REFLEXÕES FINAIS: “AgORA SOMOS TODAS DECOLONAIS?2
Olhar para o Feminismo Decolonial, a partir das categorias rangan-
thianas, possibilitou-nos realizar outras leituras, mais amplas e completas,
reconhecendo as narradoras, as agentes e as sujeitas da ação, as persona-
gens, os objetos de uma ação ou manifestação, os objetos simbólicos, as
ações, as funções, os métodos, os eventos, os acontecimentos, os espaços,
as ambiências, os lugares e os pontos de vista, desse importante e necessá-
rio movimento feminista contemporâneo, latino-americano, transgressor
e revolucionário. Para além disso, permitiu-nos repensar nossos lugares,
nossas ações, nossos afetos, nossos desafios e superações, que se constroem
diariamente, no Universo das ideias (e dos atos) femininos, que se expan-
de e retroalimenta, como a árvore Baniana, nutridas pela nossa Q’amasa
Warminanaka.
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16
PANORAMAS TEMáTICO
E BIBLIOgRáFICO SOBRE
HOMOSSEXUALIDADES NO
SISTEMA DE BIBLIOTECAS DA UFPE
tHematiC and BiBlioGraPHiC
oVerVieW on HomoseXualities
in tHe ufPe liBrarY sYstem
Diogo Lopes NOGUEIRA
Universidade Federal de Pernambuco - UFPE
Jéssica Oliveira da SILVA
Universidade Federal de Pernambuco - UFPE
Murilo Artur Araújo da SILVEIRA
Universidade Federal de Pernambuco - UFPE
Fabio Assis PINHO
Universidade Federal de Pernambuco - UFPE
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-485-1.p457-486
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
458
Resumo: Esta pesquisa objetivou reconstruir temática e bibliograficamente as fontes de
informação, especificamente livros, que compõem as coleções presentes no acervo do SIB/
UFPE de 1950 a 2018, por meio de uma pesquisa exploratória e documental, dispondo
de características qualitativas e indutivas. O universo de 82 obras e 216 exemplares foi
analisado com técnicas de tratamento temático, análise bibliográfica e representação
cartográfica, a fim de promover a reconstrução dessa memória científica, que está
acumulada, salvaguardada e sob custódia da instituição ao longo do seu funcionamento.
Os resultados demonstraram que há predominância masculina e cisgênera dentro do
universo estudado, pois à medida que as obras são analisadas, se tem a noção da influência
da dominação patriarcal na produção desse conteúdo e que, novas obras que surgem
nesse campo temático, trazem consigo vozes que antes eram silenciadas (lésbicas, queers,
homens e mulheres trans), agregando outras visões, vivências e experiências.
Palavras-chave: organização do conhecimento; bibliografia; homossexualidade; gênero;
sistemas de bibliotecas da UFPE.
Abstract: is research aimed to thematic and bibliographically reconstruct the sources of
information, specifically books, which make up the collections present in the SIB/UFPE
collection from 1950 to 2018, through an exploratory and documentary research, with
qualitative and inductive characteristics. e universe of 82 works and 216 copies was
analyzed using thematic treatment techniques, bibliographic analysis and cartographic
representation, in order to promote the reconstruction of this scientific memory that is
accumulated, safeguarded and under the institutions custody throughout its operation.
e results showed that there is a male and cisgender predominance within the studied
universe, because as the works are analyzed, there is a notion of the influence of patriarchal
domination in the production of this content and that new works that arise in this
thematic field bring with them voices that were previously silenced (lesbians, queers,
trans men and women), adding other views, experiences and experiences.
Keywords: knowledge organization; bibliography; homosexuality; gender; library system
of UFPE.
Estudos críticos em organização do conhecimento
459
1 INTRODUÇÃO
O Sistema Integrado de Bibliotecas da Universidade Federal de
Pernambuco (SIB/UFPE) é um órgão suplementar que atende uma co-
munidade universitária formada por mais de 10 mil usuários, além de uma
comunidade externa significativa. Formada por quatorze unidades, o SIB/
UFPE é composto pela Biblioteca Central, doze bibliotecas setoriais nos
Centros Acadêmicos e uma biblioteca no Colégio de Aplicação, reunindo
cerca de 300 mil títulos e mais de um milhão de exemplares (Universidade
Federal De Pernambuco, 2016). O acervo e suas coleções são formados
por livros, periódicos, teses, dissertações, materiais audiovisuais, nas ver-
sões impressas e digitais em todas as áreas do conhecimento e distribuídas
nas unidades que compõem o Sistema.
O acervo e suas distintas e variadas coleções foram formados a partir
da criação da Universidade do Recife e que logo em seguida se federalizou,
tornando-se a Universidade Federal de Pernambuco, em que faculdades,
institutos e escolas de formação universitária se reuniram (Verri, 2002).
Tal reunião proporcionou a formação de um acervo bibliográfico diversifi-
cado, apensado e ampliado por outras compras e doações ao longo de sua
trajetória institucional.
O alcance e a variedade de publicações que se aglutinaram ao longo
do tempo no SIB/UFPE não se expressam, de maneira clara e objetiva
(dadas as devidas ressalvas): a) a amplitude do repertório bibliográfico e
temático das coleções em uma escala longitudinal; b) a transversalidade
das coleções e do acervo em uma perspectiva integrada; c) a mensuração
econômica e simbólica das publicações presentes nas coleções; e d) a di-
mensão memorial e científica das publicações, das coleções e do acervo
num contexto institucional de guarda e disseminação.
Os aspectos destacados e suas relações apontam para duas perspecti-
vas de estudo no campo da Biblioteconomia e Ciência da Informação: os
estudos bibliográficos, com enfoque a) na produção, organização e disse-
minação de registros e fontes de informação; e b) na perspectiva analítica
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
460
dos elementos descritivos e temáticos que formam as coleções em unidades
de informação. Segundo Saldanha (2013), os estudos bibliográficos e do-
cumentais, na contemporaneidade, operacionalizam não somente projetos
descritivos e pragmáticos, mas também analíticos e empíricos. Nessa pers-
pectiva, os documentos adquirem novas funções instrumentais, as teorias,
os métodos e as técnicas desenvolvidos dialogam com outras perspectivas
e correntes epistêmicas e os produtos oriundos buscam não mais o con-
trole bibliográfico de outrora, mas também a reconstrução fundamentada
de memórias (social, institucional, cultural, entre outras) (Crippa, 2015;
Araújo, 2018).
Procedendo dos elementos evidenciados acerca dos estudos biblio-
gráficos e documentais, pretende-se realizar uma pesquisa com os registros
bibliográficos disponíveis nas unidades do Sistema Integrado de Bibliotecas
da Universidade Federal de Pernambuco (SIB/UFPE), que abrangem os
estudos de gênero no âmbito das homossexualidades. Uma vez que seu
acervo e suas distintas coleções reúnem cerca de 300 mil títulos e mais de
1 milhão de exemplares (Universidade Federal De Pernambuco, 2016).
Sendo formado por livros, artigos, revistas, teses, dissertações, materiais
audiovisuais, em suportes analógicos e digitais, distribuídas nas unidades
que compõem o Sistema. Pretende-se, portanto, analisar os registros bi-
bliográficos disponíveis nas unidades do Sistema que contemplem os estu-
dos voltados para as homossexualidades.
A proposta de realização da pesquisa compreendeu a promoção da
reconstrução da memória científica acumulada, salvaguardada e sob custó-
dia da instituição ao longo do seu funcionamento. À vista disso, entender
como as homossexualidades são representadas dentro das bibliotecas é de
extrema importância, pois elas são responsáveis por influenciar toda for-
mação cultural de indivíduos que frequentam essas unidades informacio-
nais, colocando o aprendizado da academia na prática.
A justificativa da pesquisa se ampara nos estudos bibliográficos e
documentais, de forma a evidenciar os registros bibliográficos presentes
Estudos críticos em organização do conhecimento
461
nas bibliotecas que integram o SIB/UFPE para fins da reconstrução da me-
mória científica acumulada, direta ou indiretamente, bem como os propó-
sitos deliberados no processo de formação e desenvolvimento de coleções.
Mapeando as tendências temáticas, seus desdobramentos e suas caracterís-
ticas em relação às homossexualidades, para revelar e dar visibilidade às fon-
tes e coleções que tratam da temática. Visto que a formação bibliográfica
do Sistema amplia o diálogo do campo da Ciência da Informação com os
estudos de gênero e sexualidade, de modo que suas contribuições científicas
se incorporem ao fundo de conhecimento acumulado e legitimado.
O objetivo geral da pesquisa foi reconstruir de forma temática e bi-
bliográfica as fontes de informação, especificamente os livros, que com-
põem as coleções sobre as homossexualidades, presentes no acervo das bi-
bliotecas do SIB/UFPE de 1950 a 2018.
2 APONTAMENTOS SOBRE HOMOSSEXUALIDADE
Atualmente, entende-se que não é possível explicar os gêneros mas-
culino e feminino apenas pelo prisma biológico, visto que os papéis exer-
cidos pelos seres humanos têm muito a ver com o aspecto social. De certa
forma, explicar a homossexualidade não é tão simples quanto parece,
mesmo porque seu entendimento é objeto de estudo até hoje. Por volta
de 1950, a homossexualidade era considerada, em grande parte da lite-
ratura médica, uma patologia, ou seja, encarada como um distúrbio psi-
cossocial, um desvio, uma perversão (Giddens, 1993). Por isso, deve-se
ter certa cautela quando se invoca determinado conceito e, em especial,
a sua ordem cronológica.
Spencer (1996, p. 11) ensina que “[...] a palavra ‘homossexualida-
de’ apareceu pela primeira vez em inglês na década de 1890, usada por
Charles Gilbert Chaddock, tradutor de Psychopathia Sexualis, de R. von
Krafft-Ebing. O termo aparecera originalmente em alemão, em 1869,
num panfleto anônimo”. O autor explica ainda que, à época, muitas pa-
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
462
lavras estavam sendo criadas para designar o relacionamento entre pessoas
do mesmo sexo e que tal fato revelava um sinal de mudança social, pois
esse relacionamento existia em épocas anteriores, entretanto, não estava
nomeado, inclusive porque em sociedades antigas não havia a necessidade
de distinguir o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo e do sexo
oposto (Spencer, 1996).
Por isso, faz-se necessário recorrer ao conceito como no caso do di-
cionário de termos homossexuais de Albert Ellis (c1965, p. 22) que traz
homossexualidade como “[...] um termo genérico para atração sexual de
pessoas do mesmo sexo ao invés do sexo oposto”, além desse termo, Ellis
(c1965, p. 18) revela também que gay é um termo que “[...] denota homos-
sexualidade, usado para homossexuais”.
Dessa maneira, percebe-se que o conceito de homossexualidade foi
construído em um determinado período histórico, especialmente porque
os termos aplicados aos homossexuais foram sendo modificados ao longo
dos tempos. A homossexualidade, por ser historicamente datada, depende
da noção de sexualidade; dessa maneira, a palavra sexo abarca, atualmente,
questões relativas à conduta, ao prazer, à anatomia e às funções biológicas
(Foucault, 1999).
Nunan (2003, p. 24) explica que o termo homossexualidade, “[...]
não designa uma realidade em si, mas uma coisa que é produto do voca-
bulário moral da modernidade: o conceito de homossexual é tão históri-
ca e socialmente construído como qualquer outro termo”. A autora que
pesquisou as características do mercado homossexual no Rio de Janeiro
destaca, ainda, duas características inerentes à homossexualidade: o com-
portamento sexual, ou seja, as práticas eróticas ou afetivas homossexuais;
e a identidade sexual que trata da definição do indivíduo enquanto ho-
mossexual (Nunan, 2003).
Para Nunan (2003, p. 19), levando em consideração os diversos
componentes que são construídos socialmente para se classificar a sexu-
alidade humana, têm-se: sexo biológico (macho, fêmea ou intersexual
Estudos críticos em organização do conhecimento
463
anatômico e fisiológico); orientação sexual (atração sexual por pessoas
do sexo oposto ou do mesmo sexo biológico, ou seja, heterossexual, ho-
mossexual e bissexual); identidade de gênero (ser homem ou mulher);
papel de gênero (comportamento masculino, feminino ou andrógeno);
e, papel sexual (a forma como o indivíduo se insere na relação sexual, ou
seja, ativo, passivo ou versátil).
De acordo com essa classificação, a homossexualidade, enquanto
orientação sexual onde um indivíduo se relaciona com outro indivíduo do
mesmo sexo, está passível de entendimentos confusos, especialmente, com
relação à identidade de gênero e ao papel de gênero, como por exemplo,
um homossexual masculino com um comportamento feminino, ou ainda,
homossexuais masculinos que buscam mudar sua identidade de gênero.
Picazio (1998, p. 19-20), por sua vez, divide a composição da sexua-
lidade em quatro aspectos: sexo biológico, identidade sexual, papel sexual e
orientação do desejo sexual. O sexo biológico é resultado das características
fenotípicas e genotípicas, resultando no sexo masculino e feminino e, tam-
bém, em alguns casos na presença simultânea dos dois sexos. A identidade
sexual resulta na maneira como indivíduo se identifica, isto é, como é para
ele a sua autoimagem enquanto homem ou mulher, não apenas pelo sexo
biológico, mas por toda a referência e tratamento pelo qual o indivíduo
formou sua referência. O papel sexual é o comportamento, construído
histórica e socialmente, entendido como masculino e feminino. A orien-
tação do desejo sexual é um sentimento de atração, expressado pelo indi-
víduo, direcionado à pessoa que se deseja relacionar afetiva e sexualmente,
de forma espontânea imbuído de afetos e emoções e que, pode ser mudado
devido aos preconceitos e discriminações.
Essas classificações auxiliam na compreensão de aspectos da constru-
ção do conceito de homossexualidade e, nesse sentido, Fernández-Martos
e Vidal (1985, p. 8) afirmam que, com isso, “[...] entendemos a condição
humana de um ser pessoal que, ao nível da sexualidade, caracteriza-se pela
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
464
peculiaridade de sentir-se constitutivamente instalado na forma de expressão
exclusiva com um parceiro do mesmo sexo”.
Para Fernández-Martos e Vidal (1985, p. 9-10) a homossexualidade
pode ser entendida levando-se em consideração a sua tipologia. Dessa ma-
neira, pode-se compreendê-la a partir dos diferentes níveis de atração pelo
mesmo sexo e também pelos diversos estilos de afeminação.
Segundo os autores, no âmbito dos diferentes níveis de atração pelo
mesmo sexo, encontram-se o predomínio sexual, ou seja, onde o desejo
predomina por meio da atração pelo corpo, pelo sexo ou genital; a pessoa
é atraída pela beleza, não resultando em um compromisso de relaciona-
mento. Além desse, tem-se também predomínio anímico-sensual, ou seja,
a atração se dá pelos valores da outra pessoa buscando, assim, um comple-
mento de um horizonte em si mesmo. Por fim, tem-se o predomínio do
pessoal anímico-espiritual, ou seja, o indivíduo conhece e se relaciona com
o outro, não apenas no sexo e nos seus valores, mas na existência integral
do companheiro.
Vê-se, então, que não é de todo fácil conceituar homossexualidade,
uma vez que diversos fatores interagem. Entretanto, o conceito inicia sem-
pre que se faz referência sobre o desejo sexual que recai sobre alguém do
mesmo sexo, mas há que considerar a limitação que esse conceito impõe,
ligada ao comportamento sexual.
A palavra homossexualidade é formada pela raiz grega homos (que
significa semelhante) e pela raiz latina sexus, dessa maneira, seu significado
etimológico remete à sexualidade semelhante, ou seja, sexualidade que é
exercida com alguém do mesmo sexo.
Nesse sentido, devido ao peso que a conotação sexual dá ao con-
ceito, uma proposta alternativa tem sido forjada, qual seja: homofilia.
Etimologicamente, homofilia é formada pelas raízes gregas homos (que
significa semelhante) e philein (que significa amar), ou seja, uma atração
afetiva para com o seu semelhante. Daniel e Baudry (1977, p. 20) revelam
que, esse conceito deveria “[...] ser utilizado sobretudo quando se trata
Estudos críticos em organização do conhecimento
465
de insistir sobre o aspecto global da atração para o mesmo sexo (física e
afetivamente), reservando-se ‘homossexualidade’ aos aspectos puramente
físicos; mas, na prática esses dois termos são muitas vezes confundidos”.
Sob esse aspecto, Costa (1992) propõe que o termo homossexualida-
de seja substituído por homoerotismo, que foi estabelecido pela primeira
vez por F. Karsh-Haak no ano de 1911 e utilizado no mesmo ano pelo
psicanalista de Budapeste Sandor Ferenczi. O autor destaca que conceito
de homoerotismo se refere à possibilidade que certos sujeitos têm de sentir
diversos tipos de atração erótica ou de se relacionar fisicamente com outros
do mesmo sexo biológico. Por isso, homossexualidade e homossexualismo
estariam carregados de preconceitos, pois remeteriam ao vocabulário cien-
tífico-moral dos séculos XVIII e XIX, que originaram a ideia de homosse-
xual (Costa, 1992).
Convém observar que antes de o termo homossexualidade ser usado,
utilizava-se homossexualismo. Contudo, o uso do sufixo -ismo, geralmen-
te, indica uma posição filosófica ou científica, o que a partir dessa postura
passa-se, através de algumas teorias e posições acadêmicas a indicá-la como
doença ou patologia. Por isso, não será utilizado o termo homossexualismo
neste trabalho, uma vez que o sufixo ‘ismo’ nos remete, frequentemente, à
ideia de doença (por exemplo: alcoolismo, tabagismo etc.), além de já ser
constatada a sua substituição por homossexualidade.
O termo homossexualismo foi cunhado numa época em que as pes-
soas ainda não entendiam certos aspectos da sexualidade e, dessa forma,
foram criadas muitas suposições baseadas em preconceitos carregadas de
uma carga negativa e pejorativa em relação às possibilidades da sexualidade
humana, como por exemplo, a possibilidade de que a homossexualidade
poderia ser uma doença.
O fato é que a homossexualidade teve, ao longo da História, pouco
espaço de estudo e discussão, em especial por se considerar um assunto
tabu na sociedade. No entanto, quando a sexualidade é entendida livre de
preconceitos, a homossexualidade nela encontra o seu lugar.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
466
Pode-se afirmar que, as atitudes das variadas sociedades em relação à
homossexualidade podem ser reunidas em três categorias, a saber: aprova-
ção e valorização, seguida pela de indiferença ou neutralidade e, por fim, a
de reprovação e condenação (Daniel; Baudry, 1977).
São por esses aspectos que podemos entender de que maneira os
conceitos que permeiam o domínio da homossexualidade estão carregados
ou não de conotações pejorativas ou de preconceitos.
Os estudos sobre a sexualidade enfatizam que a história da homos-
sexualidade e da criação de seus termos permitem compreender o fato
de que a “normalidade” depende da estigmatização e subalternização de
identidades para se consolidar socialmente. Dessa forma, a invenção dos
termos homossexualidade, homossexualismo, homossexual e outros termos
frequentemente usados de forma pejorativa, contribuem para estabelecer
uma “naturalidade” do comportamento heterossexual em detrimento do
homossexual.
Nessa perspectiva e no contexto desta pesquisa, Pinho, Melo e
Oliveira (2019, p. 39) ao pesquisarem os temas gênero e sexualidade em
catálogos, diagnosticaram que “[...] a produção de conteúdos cada vez
mais específicos e segmentados indica a necessidade de averiguar se a re-
presentação ainda está de acordo com a realidade da temática, uma vez que
passaram por grandes modificações no contexto social atual”.
3 MÉTODO
Ao analisar o perfil das coleções presentes nas bibliotecas que com-
põem o SIB/UFPE, suas características e marcas bibliográficas nos dife-
rentes e distintos períodos de tempo, este estudo se configurou como uma
contribuição de natureza bibliográfica e exploratória, dentro dos domínios
teóricos e aplicados da Ciência da Informação.
Estudos críticos em organização do conhecimento
467
Do ponto de vista procedimental, esta investigação utilizou o méto-
do de análise de domínio (Hjørland; Albrechtsen, 1995), contemplando
nas pesquisas de organização e representação do conhecimento. Uma vez
que já existe um certo conhecimento acerca da área proposta, pois a pesqui-
sa foi realizada primeiramente através do levantamento de obras referentes
à temática das homossexualidades, também foi fundamental compreender
os conceitos que configuram essa comunidade.
No tocante aos procedimentos técnicos, além de amparar-se nas téc-
nicas de tratamento temático e de análise bibliográfica na coleta e organi-
zação de dados - dispondo de características qualitativas e indutivas -, a
pesquisa também se valeu das técnicas de representação cartográfica para
analisar, comparar e discutir os dados encontrados.
Desse modo, para realização do objetivo que aqui foi apresentado, a
investigação foi dividida numa sequência de etapas para coleta, organiza-
ção, análise e discussão de dados e distribui-se da seguinte forma:
a) Coleta e Organização dos Dados: levantamento dos registros bi-
bliográficos (livros) relacionados a cobertura temática da pesquisa - as ho-
mossexualidades - no sistema Pergamum da UFPE; descrição topográfica,
física e temática dos registros bibliográficos (livros) relacionados ao escopo
da pesquisa do SIB/UFPE; organização dos registros bibliográficos no SIB/
UFPE por períodos de aquisição (descrição topográfica) e por abrangência
temática (descrição temática); e correções das descrições topográficas, físi-
cas e temáticas das dissertações e teses encontradas no SIB/UFPE.
b) Análise e Discussão de Dados: verificação dos registros bibliográfi-
cos e das coleções de livros, que versem sobre as homossexualidades, das
bibliotecas do SIB/UFPE em relação ao tempo e as temáticas; elaboração
de representações cartográficas sobre os registros e as coleções de livros so-
bre as homossexualidades presentes nas bibliotecas do SIB/UFPE; análise e
discussão dos registros bibliográficos das coleções de livros relacionados às
temáticas das homossexualidades presentes nas bibliotecas SIB/UFPE em
relação ao tempo de aquisição e as temáticas.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
468
Diante disso, no que se refere a primeira etapa desta pesquisa (co-
leta e organização dos dados), contando com as técnicas de tratamento
temático e de análise bibliográfica, foi o momento ao qual sucedeu-se pela
definição dos descritores que viriam participar do processo de busca dos
documentos inseridos no sistema Pergamum. Pois, quando inseridos na
plataforma, iriam retornar as obras que abordam a temática das homos-
sexualidades, foram eles: sexualidade, homossexualidade, homossexuais,
gays, lésbicas, homossexualismo e lesbianismo.
Logo em seguida, dada a definição desses vocábulos, foram intro-
duzidos os marcadores do Pergamum, por sua vez, responsáveis por filtrar
os documentos retornados a partir desta busca, sucedendo na execução de
três etapas em questão, sendo eles: 1) Unidade de Informação: responsável
por selecionar todas as setoriais que compõem o SIB/UFPE; 2) Tipo de
obra: especificamente os livros que compõem o acervo do SIB/UFPE; e 3)
Título e/ou Assunto: encarregado de optar pelos documentos que contém
todos os termos anteriormente citados, até mesmo novos, se possível, que
relacionam-se diretamente com os livros que compõem o acervo do SIB/
UFPE, seja no título ou assunto.
Nesse contexto, assim que realizada a busca e exaurido as possibi-
lidades imaginadas durante a coleta, todos os registros bibliográficos en-
contrados seriam organizados para fins de averiguação e debate, sejam por
períodos de aquisição (descrição topográfica) e/ou por abrangência temá-
tica (descrição temática). De modo que, os dados reunidos até aqui virão
a compor as atividades referente a segunda etapa desta pesquisa, a análise
e discussão de dados.
Por conseguinte, nesta segunda fase, ocorreram as análises e discus-
sões acerca dos dados viabilizados nos registros bibliográficos encontrados,
dispondo de informação de aquisições e temática expondo através das téc-
nicas de representação cartográfica. Diante disso, é importante destacar
que para realização da pesquisa, no que se refere aos dados de aquisição,
Estudos críticos em organização do conhecimento
469
demandou-se de apoio do SIB/UFPE para ceder as informações relativas
aos documentos encontrados nesta pesquisa.
Por fim, após a averiguação de tempo (produção e aquisição) e área
temática, foram desenvolvidos gráficos para comparar e estabelecer uma
relação entre as obras coletadas. Pensando em compreender como se confi-
gura a produção bibliográfica sobre as homossexualidades, promovendo a
reconstrução da memória científica reunido e salvaguardado pela institui-
ção no decorrer de sua história.
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Por meio da proposta de reconstruir a linhagem temática e biblio-
gráfica das fontes de informação, especificamente livros, que compõem as
coleções sobre as homossexualidades, presentes no acervo das bibliotecas
do SIB/UFPE de 1950 a 2018, este projeto pretende entender como as
obras dessas coleções evoluíram no decorrer de sua aquisição dentro das
unidades informacionais e estão dispostas entre si, bem como os termos
descritores e sua área de classificação, que podem surgir ao fazer a busca
informacional do tema.
Com essa finalidade, o corpus averiguado nessa pesquisa foi alcança-
do através de buscas no sistema Pergamum da UFPE, seguindo os processos
evidenciados na sessão anterior. Dessa forma, pode se suceder a análise dos
registros bibliográficos identificados nesse levantamento.
A busca pela temática das homossexualidades no catálogo reuniu
cerca de 82 títulos e 216 exemplares. Ademais, como era pressuposto, po-
de-se observar o surgimento de temas pertinentes que a acompanham e
desdobram-se dela. Sendo assim, permitindo agrupar essas obras, em cinco
conjuntos distintos e com suas respectivas subcategorias - como evidencia-
do no Quadro 1.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
470
Quadro 1 – Distribuição dos registros por temáticas.
Assuntos Total
Principais Secundários Específico Geral Absoluto
Título Exemplar Título Exemplar Título Exemplar
Sexo Intersexo 1 1 1 1
82 216
Gênero Identidade de
gênero 25 33 22 33
Papel de
Gênero
----------------------- 3 5
7 17Feminino 1 1
Masculino 3 11
Orientação
sexual
Sexualidade 9 33
49 160
Homossexualidade 30 111
Gay 2 5
Lésbica 6 8
Bissexualidade 2 3
Queer ----------------------- 3 5 3 5
Fonte: Dados da pesquisa.
Diante disso, vale ressaltar que a distinção entre essas categorias em
específico, aconteceu ao observar-se que algumas dessas obras, a partir
do foco estar centrado nas homossexualidades, está voltado para além
da temática de orientação sexual. Algumas delas estão diretamente re-
lacionadas com a expressão e/ou identidade de gênero, até mesmo com
sexo biológico. Ou seja, estas três categorias estão interligadas, de modo
que, é necessário compreender os conceitos que caracterizam os estudos
sobre gênero para compreender os conceitos que cercam a sexualidade
trabalhada nesta pesquisa.
Desse modo, de acordo com Jesus (2012) esses quatro conceitos
identificados no corpus, podem ser hierarquizados da seguinte maneira:
A primeira é o sexo biológico que determinado indivíduo nasce, o que
existe são órgãos, hormônios e cromossomos que os definem como macho,
fêmea e/ou intersexo. Em seguida vem o gênero, definido quando o indiví-
duo toma consciência como sujeito, é a relação como se enxerga no gênero
Estudos críticos em organização do conhecimento
471
- masculino, feminino, agênero etc. -, e a maneira como vai expressá-los
em seus comportamentos. Por fim, com a identidade construída, surge a
orientação sexual, uma inclinação involuntária de cada pessoa em sentir
atração sexual, afetiva e emocional por indivíduos de gênero diferente, de
mais de um gênero ou do mesmo gênero.
Em vista disso, a primeira categoria Sexo, compete ao assunto sexo
biológico, reúne apenas um título e um e que se desdobra na subcatego-
ria Intersexo. Segundo Jesus (2012, p. 13) sexo é uma “[...] classificação
biológica das pessoas como machos ou fêmeas, baseada em características
orgânicas como cromossomos, níveis hormonais, órgãos reprodutivos e ge-
nitais”, nessa visão, intersexo é um termo voltado para pessoas (pessoas in-
tersexuais) que cuja a anatomia física dos órgãos genitais variam do padrão
masculino ou feminino, aqui visto como macho e fêmea.
A segunda, categoria Gênero, reúne 22 livros e 33 exemplares com
o enfoque nas questões de gênero, entendida aqui como uma construção
social que busca distinguir as pessoas em diferentes identidades, como ho-
mem e/ou mulher (Jesus, 2012). Ela se estende numa subcategoria que
aborda os temas de Identidade de gênero, num contexto geral, explicando
o gênero com uma construção social ao qual pessoas se identificam ou não
com que lhe foi atribuído a partir do sexo biológico em seu nascimento, ou
seja, cisgênero ou transgênero (National Geographic, 2017).
A terceira categoria, Papel de Gênero, trabalha com o modo que os
sujeitos agem em determinadas situações sociais conforme o gênero que
lhes foram atribuídos (Jesus, 2012), tanto num contexto binário especifico
- homens e mulheres cisgêneros e transgêneros - para a Masculinidade e
Feminilidade, quanto no geral, que amplia essa discussão - representado
pelo espaço aberto no Quadro 1, destacado pelo tracejado ( --- ).
A quarta categoria, no que concerne ao assunto principal Orientação
Sexual, possui 49 livros e 160 exemplares que versam sobre as homossexu-
alidades nas temáticas da sexualidade, descrita por Jesus (2012) como uma
atração afetivo-sexual por alguém do mesmo gênero, do oposto, de ambos
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
472
ou nenhuma referência a gênero. Em suas subcategorias, encontram-se as
obras que versam sobre as questões de Sexualidade, explorando defini-
ções acerca desse universo, não se limitando apenas na homossexualida-
de, abordando outros desejos humanos. Ademais, sem exceção, a própria
Homossexualidade, em num âmbito generalista e em suas particularida-
des: a) Gay (para homossexualidade masculina); e b) Lésbica (para ho-
mossexualidade feminina), tal como a Bissexualidade, que concerne um
relacionamento homo e heteroafetivo.
Por fim, a quinta e última, categoria Queer, com três títulos e
cinco exemplares. Ela integra na temática da pesquisa com documentos
que abordam tanto assuntos de gênero quanto sexualidade. O termo é
voltado para pessoas que não se identificam com rótulos socialmente
estabelecidos na sociedade, não se restringindo a amplitude e a vivência
de suas sexualidades e corpos (Cult, 2014). Tal como foi apresentado em
“Papel de Gênero”, ela apresenta traços, sinalizando que a bibliografia
contida nela aborda o tema num contexto geral, sem haver necessidade
de uma secundária.
Assim sendo, toda bibliografia levantada e organizada, está disposta
e presente em 10 das 14 bibliotecas do SiB/UFPE, são elas: a Biblioteca
Central (BC), a Campus Agreste (CAA), a Biblioteca do Centro de Artes
e Comunicação (CAC), Colégio de Aplicação (CAp), Campus Vitória
(CAV), Centro de Ciências Jurídicas (CCJ), Centro de Ciências Saúde
(CCS), Centro de Ciências Sociais Aplicadas (CCSA), Centro de Educação
(CE) e a Biblioteca do Centro de Filosofias e Ciências Humanas (CFCH)
- de acordo com o Quadro 2.
Estudos críticos em organização do conhecimento
473
Quadro 2 – Distribuição dos registros por bibliotecas.
Total
Absoluto
216
Fonte: Dados da pesquisa.
Geral
1
33
17
160
5
Específico
1
33
5
1
11
33
111
5
8
3
5
Biblioteca
CFCH
0
3
0
1
1
15
7
0
1
0
1
CE
0
5
0
0
0
2
13
0
0
0
1
CCSA
0
2
0
0
0
3
1
0
0
0
0
CCS
0
5
0
0
0
0
1
0
1
0
0
CCJ
0
5
2
0
0
0
10
0
0
0
0
CAV
0
3
3
0
0
6
3
0
1
0
2
CAP
0
0
0
0
0
3
13
0
0
0
0
CAC
1
4
0
0
10
0
17
0
1
1
1
CAA
0
2
0
0
0
0
8
0
0
0
0
BC
0
4
0
0
0
4
38
5
4
Assuntos
Secundário
Intersexo
Identidade de gênero
-----------------------
Feminino
Masculino
Sexualidade
Homossexualidade
Gay
Lésbica
Bissexualidade
-----------------------
Principal
Sexo
Gênero
Papel de
G
Orientação
sexual
Queer
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
474
Dessa maneira, concentrando a maior parte desse acervo nas biblio-
tecas cujo foco são as ciências humanas e as sociais aplicadas. Tanto que,
os livros coletados e aqui analisados reforçam esta afirmação, pois eles mes-
clam a temática das homossexualidades com as questões no âmbito jurídi-
co, comunicativo, linguístico, sociológico, histórico e psicológico.
Partindo deste cenário, ao analisar essas obras num contexto geral,
os assuntos principais nesse caso, a “Orientação Sexual” ganha um desta-
que maior na coleção quando equiparado às outras categorias, possuindo
uma grande disponibilidade de livros, onde a BC lidera em quantidade,
seguida pelo CFCH e CAC. Entretanto, quando se visualiza a diversidade
dos conteúdos, as bibliotecas do CFCH, CAC e CAV aparecem com mais
relevância em detrimento das demais - de acordo com o Gráfico 1.
Gráfico 1 – Distribuição dos registros por bibliotecas a partir das
temáticas.
Fonte: Dados da Pesquisa.
Nessas bibliotecas, estão centralizadas as produções em que as ho-
mossexualidades são problematizadas na sociedade, seja num campo
Estudos críticos em organização do conhecimento
475
linguístico, comunicativo, sociológico, histórico, psicológico e/ou edu-
cacional. Trazendo um breve recorte dos livros coletados, seus discursos
iluminam em diferentes perspectivas a história da existência dessa sexuali-
dade, desde a relação de dominação e opressão sofridas por essas pessoas, as
suas conquistas por direitos sociais, prezando por uma inclusão e proteção
desses indivíduos.
Desse modo, ao aprofundar-se no campo dos assuntos principais,
indo em direção dos secundários, com o intuito de revelar mais da temá-
tica. Observou-se que os títulos referentes a homossexualidade feminina
(Lésbica) são mais diversos, quando comparadas às de homossexualida-
de masculina (Gay), respectivamente, possuindo cerca de seis títulos e o
outro, apenas dois. Ademais, com relação a disponibilidade essa situação
permanece constante, onde o primeiro apresenta oito exemplares, já o se-
gundo, com cinco exemplares - como indica o Quadro 1.
Diante das diferenças quantitativas sobre as obras das homossexu-
alidades feminina e masculina, evidenciou-se que mesmo em livros que
teoricamente estariam incluindo todas as expressões da homossexualidade
- como no subconjunto “Homossexualidade” -, eles priorizam um olhar
masculino e cisnormativo em grande parte de seu conteúdo, que acaba
invisibilizando outras formas de expressões do universo que permeia essa
sexualidade, como exemplificado no Quadro 3.
Quadro 3 – Detalhamento dos registros por item.
Categoria Título Descritores Referência
Homossexualidade
Parada: 10 anos
do orgulho GLBT
em SP
1 Homossexualismo -
História
2 Direitos dos
homossexuais
NETTO, Fernando Costa;
FRANÇA, Isadora Lins;
FACCHINI, Regina
(coord.). Parada: 10 anos do
orgulho GLBT em SP. São
Paulo: Produtiva, 2006. 89 p.
Born to be
gay: história da
homossexualidade
1 Homossexualismo -
História
NAPHY, William. Born
to be gay: história da
homossexualidade. Lisboa:
Edições 70, 2006. 301 p.
Fonte: Dados da Pesquisa.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
476
A própria “Bissexualidade”, tanto a categoria aqui presente quanto
a orientação sexual, sofrem interferências diretas dessa ação e o material
bibliográfico referente a ela foi retornado no catálogo dentro das buscas
pelo assunto homossexualidade. Vale destacar que esses itens não possuem
termos que representam esse conteúdo - como apresenta o Quadro 4 -, a
maneira a qual foi possível entender que sua temática tratava sobre a bis-
sexualidade, quando foi realizada a procura pelas suas respectivas sinopses.
Entretanto, por mais que essa sexualidade possibilite um relacionamento
homoafetivo, é equivocado dizer que se trate de apenas disso, pois ela tem
seus próprios conceitos que a caracterizam e a definem como algo único.
Quadro 4 – Detalhamento dos registros por item.
Categoria Título Descritores Referência
Bissexualidade
A regra de três
1 Ficção espanhola
2 Literatura espanhola -
ficção
GALA, Antonio. A regra
de três. Rio de Janeiro:
Record, 1998. 315 p.
(Coleção Contraluz).
ISBN 8501048313
(broch.).
O 3º travesseiro 1 Ficção brasileira
2 Literatura brasileira - Ficção
CARVALHO, Nelson
Luiz de. O 3º travesseiro.
São Paulo: Mandarim,
1998. [210 p.] ISBN
8535400850 (broch.).
Fonte: Dados da Pesquisa.
Contudo, à medida que são adicionados às outras categorias como
“Sexo”, “Gênero”, “Papel de Gênero” e, consequentemente, suas subca-
tegorias - “Identidade de gênero”, “Feminino” e “Masculino” - são res-
ponsáveis por acrescentar um grande repertório temático que contestam
e desvinculam a imagem da homossexualidade desse paradigma restritivo.
Em especial, vale destacar o “Queer”, que abrange novas visões a respei-
to dessa problemática, envolvendo características e concepções que eram
desprezadas, tanto no âmbito de gênero quanto ao de sexualidade. Desse
modo, podendo citar alguns exemplos no quadro 5:
Estudos críticos em organização do conhecimento
477
Quadro 5 – Detalhamento dos registros por item a partir das categorias.
Categoria Título Descritores Referência
Identidade de
Gênero
Gênero: a
diversidade além
da gaveta
1.Identidade de
gênero
2.Feminismo e
educação 3.Mulheres
- Condições sociais
MENINO, Silvana;
CAMPELO, Lúcia Barreto;
MENEZES, Walfrido ((Org.)).
Gênero: a diversidade além da
gaveta. Recife: Libertas, 2013.
Papel de
Gênero
Conjugalidades,
parentalidades
e identidades
lésbicas, gays e
travestis
1.Família -- Aspectos
sociais 2.Casamento
entre homossexuais
3.Parentesco
GROSSI, Miriam Pillar;
UZIEL, Anna Paula; MELLO,
Luiz. Conjugalidades,
parentalidades e identidades
lésbicas, gays e travestis. Rio de
Janeiro: Garamond, [2007].
Feminino Mulheres:
violências vividas
1.Violência contra
as mulheres
2.Feminismo
3.Identidade de
gênero
SOARES, Suane; DIAS, Maria
Clara ((Org.)). Mulheres:
violências vividas. Rio de
Janeiro: Ape’Ku, 2019.
Masculino Masculinidades:
teoria, crítica e
artes.
1.Masculinidade
2.Homens
3.Identidade de
gênero
4.Sexo - Aspectos
sociais
PENTEADO, Fernando
Marques; GATTI, José (Org.).
Masculinidades: teoria, crítica
e artes . São Paulo: Estação das
Letras e Cores, 2011.
Queer
Queering:
problematizações
e insurgências
na...
1.Teoria Queer
2.Comportamento
sexual - Aspectos
psicológicos
3.Identidade de
gênero
TEIXEIRA FILHO, Fernando
Silva (Org.). Queering:
problematizações e insurgências
na psicologia contemporânea.
Cuiabá: EdUFMT, 2013.
Fonte: Dados da Pesquisa.
Assim, garantindo uma bibliografia, ainda que pouca - reunindo 32
títulos e 55 exemplares -, necessária para fomentar debates mais inclusivos
e abrangentes, quando bem processados (indexados e catalogados) e disse-
minados pelos bibliotecários.
Todavia, quando partimos para o campo descritivo, as palavras-cha-
ves mais utilizadas para indexar esses livros foram “homossexualismo” e
“lesbianismo” - pode-se ver alguns exemplos no Quadro 6 -, que por sua
vez, o sufixo “ismo” denota “condição patológica”, é o mesmo que usa-
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
478
mos para indicar “doutrina, escola, teoria ou princípio artístico, filosófico,
político ou religioso”; “ato, prática ou resultado”; “peculiaridade”; “ação,
conduta, hábito, ou qualidade característica” (Houaiss; Villar, 2008). Ou
seja, esses termos e tratamentos relacionados a essas pessoas, comuns até
a década de 1990, desde então, são considerados de caráter ofensivo, am-
pliando a ideia de discriminação na utilização desses descritores e um juízo
de valor, tanto na questão sexual quanto na questão sexista.
Quadro 6 – Detalhamento dos registros por item a partir da categoria
Orientação Sexual.
Categoria Título Descritores Referência
Homossexualidade A questão
homossexual
1 Homossexualismo
2 Homossexualidade -
História
3 Direitos dos
homossexuais
MARC, Oraison. A
questão homossexual.
Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1977.
Lésbica Homossexualidade
feminina
1 Comportamento
sexual
2 Homossexualismo
3 Lesbianismo
CAPRIO, Frank
Samuel, 1906-.
Homossexualidade
feminina. 2. ed. -. São
Paulo: IBRASA, 1965.
323p.
Gay As aventuras de
um garoto de
programa
1 Ficção Americana
2 Literatura americana
- ficção
3 Homossexualismo
ANDROS, Phil. As
aventuras de um garoto
de programa. São
Paulo: Edições GLS,
1998. 176 p. ISBN
8586755060 (broch.).
Fonte: Dados da Pesquisa.
Por isso, um questionamento surgiu com o contexto levantado: a
indexação só reflete o conteúdo discriminatório e justificável pelo período
em que se passa, ao qual os descritores são apresentados, no caso entre as
décadas de 1960 à 1990, ou o indexador está despreparado para represen-
tar essas obras de maneira correta?
Contudo, quando se delimita a linha temporal dessas obras, pode-se
presumir que o material é predominantemente antigo - pelo modo como
Estudos críticos em organização do conhecimento
479
essas obras são indexadas -, pois os diferentes perfis em que a homossexua-
lidade foi inserida durante esse tempo, passando por problemas neurológi-
cos ao condicionamento social, justificaria a utilização desses indexadores
nesses livros. Entretanto, a grande maioria dos títulos encontrados são das
décadas de 2000 e 2010, cada uma respectivamente com 36,6% e 37,8%
- juntas reunindo 74,4% - dos 82 livros coletados nesta pesquisa, como
pode-se visualizar no Gráfico 2.
Gráfico 2 – Distribuição dos registros bibliográficos por ano de
publicação.
Fonte: Dados da Pesquisa.
O material encontrado é predominantemente atual, revelando o
equívoco de como essa literatura está sendo tratada pelos profissionais da
informação. Em 1960, era comum atribuir esses descritores para referir-
-se ao conteúdo de livros que tratassem da homosexualidade, pois era um
campo novo e totalmente desconhecido para estudo. Tanto que, eviden-
cia-se o crescimento exponencial dessa literatura no decorrer dos anos, mas
desde 1991, de acordo com Vidale (2017), a Organização Mundial de
Saúde (OMS) não considera essa expressão da sexualidade como doença
ou condição patológica. Tanto que as novas obras literárias trazem e traba-
lham essas problemáticas linguísticas e sociais consigo, visando modificar
as estruturas de uma sociedade opressora.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
480
Ainda, quando se relaciona os termos utilizados na indexação ao
tempo de aquisição desses livros, ficam evidentes os equívocos feitos com
algumas dessas obras. Pois, todo corpus coletado, foi adquirido pelo SIB/
UFPE entre os anos 2000 a 2019, de acordo com os dados de aquisi-
ção disponibilizados pela Biblioteca Central, onde, só na década de 2010
- como apresenta o Gráfico 3 - foram inseridos 50,1% desses livros nas
bibliotecas. Assim, reforçando a afirmativa da necessidade de correção e
revisão desses termos no acervo.
Gráfico 3 – Distribuição da Aquisição dos títulos na Coleção sobre
Homossexualidades no Sistema de Bibliotecas da UFPE.
Fonte: Dados da Pesquisa.
Por fim, ainda dentro dessa perspectiva de recorte temporal, como
apontado anteriormente, houve um crescimento exponencial na produção
desse material no decorrer dos anos, em relação a aquisição dessas obras
não seria diferente, conforme evidenciado no Gráfico 4. Os assuntos de
“Sexo” e “Queer” surgem nas bibliotecas durante a década de 2010, já os
de Gênero, Papel de Gênero e Orientação Sexual aparecem nessas unida-
des desde a década de 2000. Indicando que cada vez mais há um processo
de inserção e debate desses conteúdos na sociedade.
Estudos críticos em organização do conhecimento
481
Gráfico 4 – Distribuição dos registros por ano de aquisição e categorias.
Fonte: Dados da Pesquisa.
De início, pressupõe-se que um assunto é priorizado em detrimento
do outro, entretanto, vale lembrar que os estudos de gênero são relativa-
mente novos em comparação aos de sexualidade. Cada vez mais, eles vêm
ganhando destaque no campo acadêmico, tanto que, das obras apanhadas,
eles surgem com força entre as décadas de 2000 e 2010, indicando cres-
cimento elevado e rápido, como pode ser visualizado no Gráfico 5. Já a
“Sexualidade” manteve uma certa constância durante os anos, atingindo
seu ápice no período dos anos 2000.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
482
Gráfico 5 - Título por década da bibliografia coletada.
Fonte: Dados da Pesquisa.
No total, cerca de 82 títulos estão presentes no sistema Pergamum -
quando acrescentado o número de exemplares, esse número sobe para 216
-, todos dispostos em 10 bibliotecas do SIB/UFPE, concentrando-se nas
unidades de ciências humanas e sociais aplicadas da Universidade, todos
adquiridos entre os anos de 2000 a 2019. Sua variedade de assuntos foi
tamanha, que possibilitou na divisão de cinco conjuntos distintos, e cada
um seus subconjuntos, resultado de 5 décadas de produção científica, ini-
ciados em 1960.
Contudo, mesmo com a evolução desse material científico durante
os anos, alguns procedimentos de processamento técnico se mostraram
insuficientes para atender às novas necessidades dos usuários, gerando bar-
reiras informacionais e até mesmo a perpetuação de preconceitos.
Estudos críticos em organização do conhecimento
483
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Visando reconstruir a linhagem temática e bibliográfica das fontes
de informação que compõem as coleções sobre as homossexualidades, os
estudos bibliográficos disponibilizam um conjunto de teorias e procedi-
mentos que permitem a identificação e representação adequada desses do-
cumentos. Dessa forma, sendo possível entender a evolução dessas obras
no decorrer de suas aquisições dentro das bibliotecas e como elas estão
representadas e dispostas nesses ambientes.
Para esse fim, fez-se necessário identificar, coletar e organizar os li-
vros que abrangem sobre esse assunto no catálogo Pergamum da UFPE,
caracterizando essas coleções e os registros bibliográficos pelos pontos de
vista temático e descritivo, pré-estabelecidos de acordo com os referenciais
teóricos acerca dessa ciência. Tendo em vista os resultados obtidos a partir
dos doze meses de pesquisa, é possível compreender como as homossexua-
lidades são vistas pelos usuários dentro do sistema.
A bibliografia disponibilizada atua como registro histórico e temáti-
co, seja físico e/ou virtual, característico de sua época de desenvolvimento
em que toda a produção científica construída no decorrer do tempo carre-
ga consigo a história e as marcas da construção político-social das homos-
sexualidades na sociedade.
Desse modo, de acordo com corpus aqui identificado, a homossexu-
alidade por muito tempo foi associada ao pecado, à imoralidade e às doen-
ças neurológicas. Premissas essas, apoiadas e firmadas por ideais religiosos
- neste recorte especificamente - cristãos, cuja heterossexualidade era tida
como padrão para o “normal” e “correto”, que se perpetuou na concepção
do Estado na sociedade patriarcal ocidental. Ou seja, toda e qualquer ex-
pressão de sexualidade que não se igualasse a ela seria vista como anormali-
dade e enfermidade, muitas vezes, valendo-se de uma união com a ciência
para justificar comportamentos excludentes e marginais, respaldados pelo
governo, para essas pessoas.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
484
Contudo, as concepções sobre essa temática e esses indivíduos sofre-
ram mudanças significativas no decorrer da história, consequência das mo-
vimentações sociais promovidas por essa minoria e seus aliados. Pois, elas
foram responsáveis por desencadear nos sujeitos uma série de questiona-
mentos voltadas para esse universo, incentivando novas pesquisas científi-
cas e fomentando debates que contestavam esse modelo de “normalidade”
imposto na sociedade.
Desta forma, definindo as homossexualidades (feminina e masculi-
na) como uma expressão natural de outra faceta da sexualidade humana.
Onde o Estado, consciente dessa discriminação e desigualdade infundadas,
assumiu seu papel em fornecer direitos e efetivar leis que protegessem e
garantissem igualdade para esses cidadãos. Ainda assim, essa evolução foi
lenta e ainda está em progresso, porque se depara com resistência de gru-
pos conservadores que desejam manter esse status quo.
Assim, é possível afirmar que há uma predominância masculina e
cisgênera dentro desse universo. À medida que essas obras são explana-
das, se tem a noção da influência da dominação patriarcal na produção
de obras com esse conteúdo. Aos poucos, as novas obras que surgem
nesse campo temático, trazem consigo novas vozes que antes eram silen-
ciadas - lésbicas, queers, homens e mulheres trans -, adicionando novas
visões, vivências e experiências.
À vista disso, ressalta-se a importância de analisar a linha temporal
dessas obras, pois é nela que se pode visualizar os diferentes perfis
que essa temática esteve inserida durante seu contexto de produção e
justificá-lo. No total, foram 82 títulos coletados, resultado de 5 décadas
de construção científica, iniciadas em 1960 e tendo seu ápice entre os
anos de 2011 a 2019. Apesar do conteúdo das obras encontradas ser
majoritariamente atuais, eles carecem de uma representação documental
adequada. Pois muitos apresentam uma indexação errônea e tendencio-
sa, que reforçam preconceitos.
Estudos críticos em organização do conhecimento
485
Com esse universo temático sendo amplamente estudado na atuali-
dade, surge a necessidade de determinar terminologias apropriadas a essas
obras, que evitem termos equivocados como “homossexualismo” ou “les-
bianismo” e generalistas como “homossexualidade”, dado que, esse termo
não é suficiente para contemplar essas produções.
Por isso, é importante alertar como esse material demanda de novas
formas de processamento técnico. Dada a relevância das unidades informa-
cionais que compõem o SIB/UFPE para os indivíduos que as frequentam,
pois essas bibliotecas são responsáveis por influenciar na formação cultural
e acadêmica de seus frequentadores. Portanto, é necessário adequar-se às
novas necessidades requeridas por seus usuários, garantindo a quebra de
barreiras informacionais durante a busca por obras que versam sobre a ho-
mossexualidade e a visitação entre os demais centros de informação.
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487
17
gêNERO, vIOLêNCIA E
LEgISLAÇÃO: INTERPELAÇÕES
ACERCA DO FEMINICÍDIO NO
ESTADO DE SÃO PAULO – BRASIL
Gender, ViolenCe, and
leGislation: interPellations
aBout feminiCide in tHe state
of são Paulo - BraZil
Denise Cristina BELAM
Universidade Estadual Paulista - UNESP
Francisco Arrais NASCIMENTO
Doutor em Ciência da Informação pela UNESP
Deise Maria Antonio SABBAG
Universidade de São Paulo - USP
Daniele ACHILLES
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - UNIRIO
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-485-1.p487-510
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
488
Resumo: Objetivou-se, neste capítulo, compreender a evolução da notificação após a
promulgação de legislações específicas no Brasil acerca da violência de gênero, como a lei
sancionada em 9 de março de 2015, a Lei nº 13.104, que alterou o código penal incluindo
a figura do feminicídio como uma das formas qualificadoras do homicídio no Brasil. Para
tanto, fez-se uso da análise de domínio como metodologia, alicerçada em cartografia de
documentos, o que evidencia a natureza exploratória do estudo. Este texto foi pensado
sobre a maneira como é realizada a classificação e a representação da informação e supondo
as grandes dificuldades na recuperação da informação ao que se diz respeito aos crimes
de Feminicídio. Para isso, foi necessário analisar as notificações dos processos crime com
indexação “Perspectiva de Gênero” alocado enquanto “Mortes Violentas de Mulheres –
Feminicídios no Estado de São Paulo - Brasil”, para traçar uma compreensão acerca das
evoluções e involuções relativas à temática nos dois territórios analisados.
Palavras-chave: análise de domínio; classificação; mortes violentas de mulheres.
Feminicídio. São Paulo - Brasil.
Abstract: e objective was to understand the evolution of notification after the enactment
of specific legislation in Brazil about gender violence, such as the law enacted on March
9, 2015, Law No. qualifiers of homicide in Brazil. For this purpose, domain analysis was
used as a methodology, based on document cartography, which highlights the exploratory
nature of the study. About the ways in which the classification and representation of
information are carried out and assuming the great difficulties in retrieving information
regarding the crimes of Feminicide, this text was thought. For this, it was necessary to
analyze the notifications of the crime processes with indexing “Gender Perspective”
allocated as “Violent Deaths of Women - Feminicides in the State of São Paulo – Brazil”,
to draw an understanding of the evolutions and involutions related to the theme in both
cases. analyzed territories.
Keywords: domain analysis; classification; violent killings of women; femicide; São Paulo
- Brazil.
Estudos críticos em organização do conhecimento
489
1 INTRODUÇÃO
Compreender a violência é necessário enquanto um domínio, e não
como um fenômeno social, para além do vislumbrado cotidianamente
como um marcador social que atravessa a sociedade de forma horizontal
sendo passível de observação sob os mais diversos recortes (gênero, raça,
economia, política, cultura, entre outros) tornando-se passível de observa-
ção, uma vez que, (Brah, 2006, p. 351) “[...] estruturas de classe, racismo,
gênero e sexualidade não podem ser tratadas como ‘variáveis independen-
tes’ porque a opressão de cada uma está inscrita dentro da outra – é cons-
tituída pela outra e é constitutiva dela”.
Logo, ao imergir no contexto dos Estudos Culturais (EC), sob o viés
dos Estudos de Gênero (EG) e égide da Violência de Gênero (VG), se pode
observar toda uma engenharia social alicerçada sobre diversas formas de
violência que compreendem desde agressões de caráter físico, psicológico,
sexual e patrimonial que ocorrem em um continuum que podem culminar
com a morte por homicídio (Meneghel; Portella, 2017).
Logo, a pergunta que origina tal estudo norteia uma ação de pes-
quisa atrelada aos desdobramentos que se desvelam no decorrer do mes-
mo, alicerçando-se em inquietações diante dos crimes cometidos com
Perspectiva de Gênero alocado enquanto Mortes Violentas de Mulheres
– Feminicídios no Estado de São Paulo - Brasil. Ressalta-se que o recorte
geográfico aplicado, não foi feito de forma aleatória, mas sim por apresen-
tar os maiores índices de inquéritos abertos nos dois anos de aplicação Lei
nº 13.104, de 9 de março de 2015 (Brasil, 2015), que altera o art. 121 do
Decreto-Lei no 2.848, de 7 de dezembro de 1940 – do Código Penal (CP),
para prever o feminicídio como circunstância qualificadora do crime de
homicídio, e o art. 1º da Lei no 8.072, de 25 de julho de 1990, para incluir
o feminicídio no rol dos crimes hediondos tal qual o estupro, genocídio e
latrocínio, entre outros.
A violência contra mulher também conhecida de forma generalista
como violência de gênero, pode ser compreendida como um mal que afeta
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
490
a dignidade e o bem-estar das vítimas e de toda a sociedade, considerada
uma das formas mais graves de discriminação sendo acompanhada por uma
sequência de agressões que possuem caráter psicológico, físico, sexual e
patrimonial podendo culminar com a morte por feminicídio ou femicídio.
É importante conhecer abordagens que tratam a questão de gênero
fora do contexto heteronormativo e binário (homem e mulher), onde as
relações partem de indivíduos que não se encaixam perante termos eleitos
pela sociedade, como é o caso de transgêneros, transexuais e travestis
que, apesar de performarem as características do Gênero com o qual se
identificam, são abjetificados pela sociedade, pois naturalizou-se a categoria
gênero como um sistema binário, dicotômico, inscrito em um sistema de
saber/poder (Foucalt, 1987) patriarcal, que faz uso de estratégias sexistas
estimulando o comportamento machista (Hartmann, 1984 [1979]; Sau,
2000; Nunes, 2016; Nascimento, 2021).
Em agosto de 2006, a Lei Maria da Penha foi sancionada pelo presi-
dente Luiz Inácio Lula da Silva (Brasil, 2006). Com 46 artigos distribuídos
em sete títulos em conformidade com a Constituição Federal (art. 226, § 8°)
e os tratados internacionais ratificados pelo Estado brasileiro (Convenção
de Belém do Pará, Pacto de San José da Costa Rica, Declaração Americana
dos Direitos e Deveres do Homem e Convenção sobre a Eliminação de
Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher), a lei (11.340/06)
(Brasil, 2006), criou mecanismos para prevenir, punir e erradicar a violên-
cia contra a Mulher por Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra
a Mulher estabelecendo medidas de assistência e proteção às mulheres em
situação de violência doméstica e familiar. Foi começo por maiores penali-
dades pelos crimes cometidos contra mulheres já que a violência acontece
não apenas pela misoginia de parte dos homens, mas também por circuns-
tâncias externas que as propiciam, um exemplo claro é a falta de punição
por parte da justiça.
Há sete anos entrava em vigor no Brasil pelas mãos da então presi-
denta Dilma Rousseff a Lei do Feminicídio (13.104/15) (Brasil, 2015), al-
Estudos críticos em organização do conhecimento
491
terando o Código Penal Brasileiro que passou a prever o feminicídio como
uma das circunstâncias qualificadoras do homicídio, conforme disposto no
artigo 121 do Código Penal Brasileiro (1940), além de incluir feminicídio
como crime hediondo previsto no artigo 1º da Lei nº 8.072, de 25 de julho
de 1990 (Brasil, 1990). Desse modo, feminicídio é o homicídio praticado
contra a mulher em decorrência do fato de serem mulheres (misoginia e
menosprezo pela condição feminina ou discriminação de gênero, fatores
que também podem envolver violência sexual) ou em decorrência de vio-
lência doméstica.
Em contrapartida, emerge do contexto da violência de gênero a
própria aplicação da pena de feminicídio, uma vez que existem muitas
discussões acerca da aplicação da pena de Feminicídio em razão de gê-
nero nos casos de violência de mulheres Transexuais1. Por outro lado,
jurisprudências sobre o tema vão sendo construídas a favor da igualdade
penal. Em uma decisão unânime, no dia 15 de dezembro de 2020, a 5ª
Turma do Superior Tribunal de Justiça não concedeu Habeas Corpus2
impetrado por réus que acusados de tentativa de homicídio buscavam
excluir a qualificadora do feminicídio em razão da vítima ter “nascido
homem” sob o ponto de vista biológico.
Segundo Jesus (2012, p. 15) Transexual é “Termo genérico que caracteriza a pessoa que não se identifica
com o gênero que lhe foi atribuído quando de seu nascimento. Evite utilizar o termo isoladamente, pois
soa ofensivo para pessoas transexuais, pelo fato de essa ser uma de suas características, entre outras, e não
a única. Sempre se refire à pessoa como mulher transexual ou como homem transexual, de acordo com
o gênero com o qual ela se identifica”. Nas últimas décadas ancorando-se nas múltiplas narrativas dos
sujeitos transsexuais e de suas vivencias para além das demandas por visibilidade e representatividade dos
movimentos sociais, a indústria cinematográfica, por exemplo, tem vivificado personagens transsexuais
auferindo espaço a tais sujeitos nas produções cinematográficas e sociais. Ressalta-se que, o discurso das
produções cinematográficas acerca de personagens transsexuais tem evoluído no decorrer das últimas
décadas conferindo a tais personagens um largo grau de verossimilhança, a exemplo disso, ver: Bernadette
(Terence Stamp) da obra “e Adventures of Priscilla, Queen of the Desert” (1994), Brandon Teena
(Hilary Swank) da obra “Boys Dont Cry” (1999), Hedwig Robinson/Hansel (John Cameron Mitchell) da
obra “Hedwig and the Angry Inch” (2001), Calpernia Addams (Lee Pace) da obra “Soldier’s Girl” (2003),
Nong Toom/Parinya Charoenphol (Asanee Suwan) da obra “Beautiful Boxer” (2004), Lukas Leonhard
(Rick Okon) da obra “Romeos” (2011), Laure/Michaël (Zoé Héran) da obra “Tomboy” (2011), Laurence
Alia (Melvil Poupaud) da obra “Laurence Anyway” (2012), Einar Wegener/Lili Elbe (Eddie Redmayne)
da obra “e Danish Girl” (2015), Nomi Marks (Jamie Clayton) da obra “Sense8” (2015-2018), Marina
Vidal (Daniela Vega) da obra “Una mujer fantástica” (2017), Óscar Ruiz/Sara Millán (Ana Polvorosa) da
obra “Las chicas del cable” (2017), Lara (Victor Polster) da obra “Girl” (2018).
O Habeas Corpus inscrito sob o código (HC 541.237).
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
492
O Crime supracitado aconteceu em 2018 em Taguatinga (DF),
ganhou destaque pois os acusados agrediram a vítima com chutes, pau-
ladas, pedradas e cadeiradas. Segundo a acusação foram motivados por
ódio por se tratar de uma transexual, a violência foi praticada aos gritos
de “vira homem3. Para eles, a denúncia trouxe elementos claros e sufi-
cientes que a tentativa de homicídio teria sido praticada à condição de
mulher transgênero da vítima, que adota a identidade de gênero feminina
e inclusive fez a correspondente alteração do registro civil.
Segundo o ministro relator Joel Ilan Paciornik:
A Constituição deve ser levada a sério, numa hermenêutica
responsável, cumprindo ao juiz, ao verificar a violação de direitos,
fazê-los respeitar. Somente através dessa prerrogativa constitucional
irrenunciável é que se evita a banalidade do mal (Vital, 2021).4
Neste cenário, os dados acerca da violência de gênero, o Brasil ocu-
pa posição de destaque no cenário mundial, sendo alocado na 5º posição
no ranking da violência de gênero. Segundo dados do Atlas da Violência
no Brasil (Cerqueira, 2019) as taxas apresentam-se em curva ascendente
(Figura 1).
No dia 13 de junho de 2019, durante julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão
nº 26 e do Mandado de Injunção nº 4733, o Plenário do Supremo Tribunal Federal (STF), baseando-se
na omissão do Congresso Nacional, equiparou a homofobia e a transfobia como crimes de racismo. O
que não confere equidade de direitos aos sujeitos LGBTQIAP+, principalmente as travestis, transsexuais e
transgêneros. Ressalta-se que mesmo após anos da aprovação da equiparapção da homofobia e da transfobia
ao racismo pelo STF, ainda se encontram diversas barreiras e impedimentos para a efetiva atuação da lei, o
que promove uma subnotificação em casos de homofobia e transfobia.
Disponível em: https://www.conjur.com.br/2021-jan-29/qualificadora-feminicidio-vitima-trans-decisao-
juri. Acesso em: 20 mar. 2022.
Estudos críticos em organização do conhecimento
493
Figura 1 - Número e taxa de homicídio (2007-2017)
Fonte: Adaptado de Cerqueira (2019)
Diante do levantamento global acerca da taxa de homicídio (2007-
2017) pode-se aplicar o marcador de gênero que possibilita a visualização
do seguinte cenário (Figura 2):
Figura 2 - Índices de base 100 da evolução das taxas de homicídio de mu-
lheres dentro e fora da residencia e ainda por arma de fogo (2007-2017)
Fonte: Adaptado de Cerqueira (2019)
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
494
Das mortes femininas ocasionadas por agressão no período de 1980-
2019, e coeficientes de mortalidade que passaram de 2,3/100.000 para
4,8/100.000, representam um aumento de 111% no período (Meneghel;
Portella, 2017). Ressalta-se que, segundo Cerqueira (2014), a cada 1% a
mais de armas de fogo em circulação há um aumento de 2% na taxa de
homicídio. Resultados qualitativamente idênticos foram obtidos em duas
teses de doutorado na Escola Brasileira de Economia e Finanças (EPGE/
FGV) e na Universidade de São Paulo (USP), onde os autores utilizaram
métodos quantitativos também sofisticados. Além disso, nesses trabalhos
não se verificou qualquer relação da difusão da arma de fogo com a dimi-
nuição de crimes contra o patrimônio.
Ao imergir-se de forma horizontal zonas de sombra da sociedade
passam a desvelar-se frente aos dados investigativos que emergem do dis-
curso oriundo dos dados de violência (Figura 3) em anexo.
Logo, percebe-se que os maiores índices de registros de inquéritos
abertos pela lei do feminicídio estão fora das regiões que apresentam os
maiores índices de homicídios de mulheres. Assim, indagações como:
Existe uma classificação adequada para crimes com perspectiva de gênero
alocado enquanto Mortes Violentas de Mulheres – Feminicídios no Brasil
e, consequentemente, no Estado de São Paulo? Os processos crimes apre-
sentam alguma diferenciação amparando-se em perspectiva de gênero?
Existe um proselitismo social que atravessa a esfera jurídica de forma a
promover a dispersão, apagamento e/ou esquecimento ancorando-se em
perspectiva de gênero? As inquietações que permeiam os debates contem-
porâneos na esfera dos Direitos Humanos (DH) e dos estudos memoriais
tem auferindo espaço à medida que vidas são ceifadas e negligenciadas
fazendo-se perceber que algumas existências são alocadas em uma zona
onde a humanidade é desconstruída, os direitos são cerceados e a própria
materialização do sujeito torna-se impraticável.
Visando contribuir para uma identificação e caracterização dos
crimes contra a mulher o Escritório da Organização das Nações Unidas
Estudos críticos em organização do conhecimento
495
(ONU) Mulheres no Brasil em parceria com a Secretaria de Políticas para as
Mulheres promoveram um processo de adaptação à realidade nacional do
protocolo latino-americano para investigação dos assassinatos de mulheres
por razões de gênero. Este processo culminou na formulação das Diretrizes
Nacionais para Investigar, Processar e Julgar com Perspectiva de Gênero as
Mortes Violentas de Mulheres – feminicídios em 2015. Instaurando assim
treze diretrizes para identificar as razões de gênero nas mortes de mulheres,
(Tabela 1) em anexo.
Diante disso, o estudo aqui apresentado visa compreender a evolu-
ção da notificação após a promulgação de legislações específicas no Brasil
contribuindo, desta forma, para o desenvolvimento futuro de processos e
elementos para a organização da informação no domínio dos Estudos de
Gênero. Ressalta-se que, o cenário analisado é povoado por distorções,
dispersões e inconsistências que dificultam a recuperação de informações
verossimilhantes acerca da temática.
2 ASPECTOS METODOLógICOS
A pesquisa tem como percurso metodológico uma análise de domí-
nio, orientando-se sob as linhas de Tennis (2002, 2003), Smiraglia (2007,
2009), Hjørland e Albrechtsen (1995) e Hjørland (1997, 2002, 2003), ali-
cerçada pela cartografia de documentos estruturada sob as linhas de Rolnik
(1989), o que evidencia a natureza exploratória da proposta de estudo.
A Cartografia como princípio de um método suspende uma abor-
dagem clássica da noção de método e de epistemologia da ciência. Para
a Ciência (ou os tratados científicos e seus cânones epistemológicos), o
conhecimento é produzido a partir de uma ação ativa do sujeito sobre o
objeto pronto à espera de ser compreendido. Para atender ao objeto pensa-
do é imprescindível que realize uma sustentação teórico-metodológica que
possibilite lançar-se sobre ele com subsídios adequados.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
496
Diante disso, Nascimento (2006, p. 31) afirma que:
A análise de domínio reconhece que as comunidades discursivas
compõem-se de atores com pontos de vista distintos, estruturas de
conhecimento individuais, predisposições, critérios de relevância
subjetivos, estilos cognitivos particulares. Mas se fazem presentes
no jogo entre as estruturas de domínio e o conhecimento individual
e na interação entre o nível individual e social. A história do
indivíduo, inserida dentro de uma história coletiva, apresenta suas
variáveis e diferenças, e são estas que caracterizam as possibilidades
de diferentes percepções, trajetórias, propósitos e apreciações em
cada domínio de conhecimento.
Ainda segundo Nascimento (2006, p. 32) ao citar Hjørland, (1997):
[...] ao considerar as abordagens da Ciência da Informação é
importante distinguir os diferentes níveis de questionamento:
holísticas ou atomísticas, individuais ou sociais, subjetivas ou
objetivas, formalistas ou determinadas por conteúdo, históricas ou
situacionais, simbólicas ou conexionistas, dinâmicas ou estáticas,
entre outros. Mas, a investigação de domínios, grupos de trabalho,
disciplinas ou comunidades discursivas, ao contrário das estruturas
de conhecimento individuais, permite-nos colocar a hipótese
de que, assim, a aproximação da Ciência da Informação com as
Ciências Sociais é possível.
Logo, diante de tal aproximação, arraiga-se o estudo em uma carto-
grafia de documentos que contribui com a ideia de movimento, permitin-
do acompanhar trajetórias e compor um mapa em movimento, permeado
por desejos, percebidos enquanto fluxos que transbordam e se desenvolvem
durante a caminhada. O limiar é algo sempre presente nesse método, em
um constante reconstruir-se diante do objeto que atravessa o pesquisador,
e tem no provisório, no temporário, a sua marca. Rolnik (1989) conside-
ra o cartógrafo um verdadeiro antropófago, vivendo de expropriar-se e se
apropriar, devorar e desovar, numa constante desconstrução. A partir daí,
a pesquisa em questão seguiu o seguinte roteiro:
Estudos críticos em organização do conhecimento
497
Levantamento dos dados acerca dos crimes de Identificação dos cri-
mes que serviram de amostra para a pesquisa, sendo estes selecionados
segundo:
Território geográfico marcadamente delimitado no Estado de
São Paulo – Brasil;
Recorte cronológico compreendido 2003-2019, para que se pos-
sa vislumbrar o período anterior à implementação da lei do fe-
minicídio e o impacto dela em seus primeiros anos de aplicação.
A escolha metodológica realizada foi imperativa para reconhecer as
relações entre o feminicídio, sua representação temática no contexto da
Ciência da Informação assegurando, assim, a estruturação das argumenta-
ções teóricas.
3 FEMINICÍDIOS E CIêNCIA DA INFORMAÇÃO
Para que se possa compreender melhor a atuação de tal pesquisa no
âmbito da Ciência da Informação (CI), sob a óptica da Organização do
Conhecimento (OC), aloca-se o argumento na natureza interdisciplinar
da CI (Le Coadic, 2004; Saracevic, 1996), que como outros campos inter-
disciplinares, a CI emerge no contexto social no período dito da revolução
técnica e científica que eclode no cenário pós segunda guerra mundial.
O relevo dado à área da CI é devido ao esforço para enfrentar os
problemas de organização, crescimento e disseminação do conhecimento
registrado, que teve acentuado crescimento desde a invenção da imprensa,
apresentando desde então um crescimento exponencial. Compreende-se
que os objetos da CI, fazem parte de um processo dinâmico de desen-
volvimento, constituído de relações com outras áreas do conhecimento,
como as ciências Humanas, Sociais e Exatas, o que estimula uma relação
de interação entre áreas que propicia uma abordagem, que perpassa as mais
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
498
diversas áreas com o objetivo de compreender, organizar, preservar e disse-
minar a informação.
Assim, Saracevic (1996) afirma ainda que a CI, configura-se como
campo interdisciplinar de conhecimento, uma vez que responde aos pro-
blemas informacionais da sociedade, de sua origem voltada ao uso da in-
formação nos diferentes contextos humanos. Nesse sentido, nas subáreas
da CI, a preservação é um aspecto central no cenário contemporâneo e em
que nos voltamos para a representação, classificação e a própria preservação
da memória nas suas mais variadas vertentes. Aqui se coloca a importância
de tal estudo, uma vez que existe uma escassez de pesquisas no tocante a in-
dexação e classificação nos processos crime com Perspectiva de Gênero alo-
cado enquanto Mortes Violentas de Mulheres – Feminicídios no Estado de
São Paulo - Brasil. Esse recorte é norteado pelas contribuições de Hjørland
e Albrechtsen (1995) e Hjørland (2002) que segundo Pinho (2010, p. 4)
“[...] versa sobre o entendimento do objeto de estudo da CI – a informação
registrada e socializada – por meio da análise dos domínios do conheci-
mento como um todo ou de comunidades discursivas, sendo como uma
das abordagens os estudos terminológicos”.
De tal modo, compreende-se que as iniciativas de organizar a infor-
mação para o público em geral considerando a classificação adequada para
que sejam devidamente recuperadas, de modo a refletir o universo idios-
sincrático da Violência de Gênero. Esses estudos terminológicos para o do-
mínio Violência de Gênero consideram as garantias literária, cultural e de
uso (Beghtol, 1986, 2002, 2005; Barité; Fernández-Molina; Guimarães;
Moraes, 2010), respeitando uma ética transcultural de mediação (García
Gutiérrez, 2002) e impondo limites a um “poder de nomear” do indexador
(Olson, 2001, 2002) em seus eventuais preconceitos e antipatias (Berman,
1993).
Deste modo, ao voltarmo-nos para a CI, sob a ótica de sua conceitu-
ação e prática em Borko (1968), alinhado com o referencial da OC, sob as
linhas de Hjørland (1995, 1997) que expõe em sua teoria, afirmando pri-
Estudos críticos em organização do conhecimento
499
meiramente, que a unidade de análise da CI é formada pelos campos cole-
tivos de conhecimento ou domínios de conhecimento concernentes às suas
comunidades discursivas (discourse communities). Estas comunidades não
são entidades autônomas, mas distintas construções sociais compreendidas
por indivíduos sincronizados em pensamento, linguagem e conhecimento,
e constituintes da sociedade moderna. Naturalmente, concatenadas às di-
mensões culturais e sociais.
No contexto da OC, Brascher e Café (2008, p. 6) apontam que: “A
organização do conhecimento, por sua vez, visa à construção de mode-
los de mundo que se constituem em abstrações da realidade”. De acordo
com o estudo das autoras, a OC está permeada pela análise do conceito e
visa desenvolver mecanismos de representação do conhecimento, de modo
que estes conceitos possam delinear a construção de um dado domínio,
em consonância com o entendimento apresentado por Esteban Navarro e
García Marco (1995).
Logo, pode-se compreender que a OC, enquanto uma área de estudos
da CI, apresenta largo potencial de contribuição para as investigações
propostas neste projeto, pois a natureza de tal campo de estudo apresenta-
se de forma essencial, principalmente por tratar reflexões teóricas acerca
das concepções e métodos que caracterizaram a atividade mediadora entre
a produção e o uso do conhecimento.
Assim, propõe-se adentrar ao campo da CI, com o auxílio da OC
sob o viés da classificação e da indexação, ancorando-se na terminologia e
na terminografia, onde aqui segundo as linhas de Sonneveld (1993) que
conceitua de forma ampliada a terminologia como sendo qualquer ativida-
de relacionada com a sistematização e representação de conceitos ou apre-
sentação de termos baseados em princípios e métodos estabelecidos. Para
tanto, torna-se claro o direcionamento da problemática a qual norteia este
estudo, a saber: Ocorreu uma evolução nas notificações dos crimes contra
a mulher no Estado de São Paulo - Brasil?
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
500
Existe uma demanda social que emerge dos movimentos sociais tan-
to Feministas, LGBTQI+ quando de Direitos Humanos por uma equi-
dade de direitos que vêm auferindo largo espaço nos debates acadêmi-
cos e que necessitam de dados confiáveis para que possam mensurar com
verossimilhança o cenário nacional para que assim se possa impulsionar,
criar e acompanhar políticas públicas protetivas dos direitos das mulheres.
Ressalta-se que, os dados apresentados são na verdade esforços individuais
de instituições independentes e/ou órgãos internacionais que visam de-
nunciar o que vem acontecendo, mas que devido às divergências de classi-
ficação, indexação e representação da informação, tais esforços em recupe-
rar e representar a informação de forma a disseminar a mesma se tornam
impossíveis, inverossimilhanças e não exatos.
4 RESULTADOS E DISCUSSÕES
De forma a tentar sanar os problemas causados por proselitismos,
antipatias e preconceitos no tocante aos crimes com Perspectiva de Gênero
alocado enquanto Mortes Violentas de Mulheres – Feminicídios no Estado
de São Paulo – Brasil, a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São
Paulo (SSP - SP) criou uma classificação/categorização (Figura 4) no ano
de 2014 com o objetivo de caracterizar o contexto ou possível motivação
do homicídio de acordo com as informações disponíveis no Boletim de
Ocorrência (BO) da polícia Civil por meio de consulta ao sistema Registro
Digital de Ocorrências (RDO)5.
Site da Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP – SP) com os dados acerca dos homicídios dolosos
no Estado de São Paulo qualificando as informações indicadas criminalmente desde 2001. Disponível em:
http://www.ssp.sp.gov.br/Estatistica/PerfilHomicidio.aspx. Acesso em: 10 out. 2023.
Estudos críticos em organização do conhecimento
501
Figura 4 - Classificação da possível motivação do homicídio
Fonte: Elaborado pelos autores, 2022.
As variáveis compreendidas neste estudo foram: Sexo, Raça/Cor,
Idade, Local e Motivação dos Homicídios. Ressalta-se que, este estudo in-
dica o perfil dos homicídios dolosos no Estado de São Paulo, qualificando
as informações indicadas criminalmente desde 2001. No perfil apresenta-
do cabe salientar que o termo feminicídio não aparece.
Gráfico 1: Ocorrências de Dezembro de 2017 a Dezembro de 2018
segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do
Estado de São Paulo (SSP-SP)
Fonte: Elaborado pelos autores, 2019, a partir de dados extraídos do Boletim Estatístico
Eletrônico (B.E.E.)
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
502
A criação de classificação que contemple a perspectiva de Gênero
alocado enquanto Mortes Violentas de Mulheres contribuiria efetivamente
para a indexação e recuperação da informação dos registros/processo de fe-
minicídio. Importante ressaltar que atualmente a indexação do registro de
feminicídio depende no início do processo totalmente da interpretação da
autoridade policial. A grande questão problematizadora é que não existem
diretrizes nacionais claras para que o processo receba termos representa-
tivos que nomeiem adequadamente o crime praticado contra à mulher
fazendo com que prevaleçam as relações de poder e domínio dos homens
também no âmbito da Justiça.
As ocorrências registradas, classificadas e indexadas, narram uma
história de silêncio que está entre o dizer e não dizer; localizando-se no
entremeio. Os efeitos da identificação e registro do feminicídio promovem
a invisibilidade, uma cortina de fumaça, corroborando para a produção de
sentidos silenciados.
Tomemos como exemplo as categorias: Conflito Interpessoal I;
Conflito Interpessoal II; e Conflito Interpessoal III. A primeira inclui
homicídio derivado do conflito entre conhecidos ou desconhecidos onde
ocorrem brigas, discussões em locais variados como rua, bares, comércio,
trânsito e vizinhança. Na segunda o homicídio ocorre no âmbito dos con-
flitos familiares levando em consideração relações parentais como entre
irmãos, pais e filhos, sendo originadas por uma diversidade de motivos.
A terceira, Conflito Interpessoal III, considera dentro de seu campo con-
ceitual a morte originada de brigas entre companheiros, casais, conflitos
envolvendo relações de gênero, afetivas, ex-namorados, ex-companheiros
(o tempo de duração o relacionamento pode ser recente ou longo) englo-
bando, também, terceiros que sejam mortos por agressões de sentimento
de posse de um dos parceiros, como os ciúmes e a ofensa.
O quadro 1 - Vítimas segundo o contexto ou possível motivação
do homicídio e sexo% com dados do ano 2022, Estado de São Paulo,
apresenta dados de acordo com as categorias Conflito I, II e III. De sua
Estudos críticos em organização do conhecimento
503
análise infere-se que os crimes de violência contra à mulher ficam diluídos,
pulverizados, espalhados, em disposição fragmentadas que proporcionam
deslizamentos de efeitos de sentido entre as categorias Conflitos, apaga-
mento que ocorre também com as outras categorias da Classificação de
homicídios dolosos.
Quadro 1 - Vítimas segundo o contexto ou possível motivação do
homicídio e sexo%
Vítimas segundo o contexto ou possível motivação do Homicídio e sexo % 2022
CATEGORIAS Masculino Feminnino
Conflito interpessoal I 98,40% 1,6%%
Conflito interpessoal II 54,50% 45,50%
Conflito interpessoal III 5,60% 94,40%
Fonte: Elaborado pelos autores, 2022.
Neste contexto, a classificação de homicídios demonstra sua repre-
sentação tendenciosa, sendo acentuada no caso brasileiro o termo femini-
cídio não é uma categoria, mas um qualificador em relação ao delito homi-
cídio não possibilitando a autonomia do termo, por conseguinte impondo
limites ao poder de nomear (Olson, 2001; 2002). Mesmo com a contin-
gência da conciliação de qualificadores objetivos e subjetivos a lógica da
descrição conceitual composta pelas características gerais e específicas do
conceito fica prejudicada, a ordem para a característica de constituição do
conceito acaba arbitrando em favor da ordenação classificatória dos con-
ceitos e respectivos índices, definição dos conceitos e formação dos nomes
dos conceitos (Darhlerg, 1978) intensificando a estrutura de força inexo-
rável do sistema social patriarcal, de papéis de poder fálicos; o direito e a
justiça são feitos por homens e para homens, na defesa dos homens.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
504
Gráfico 2 - Categoria Conflito
Fonte: Elaborado pelos autores, 2022
A categoria conflito interpessoal pode ser analisada na perspectiva
classificatória dentro a Organização do Conhecimento, e dos Sistemas de
Organização do Conhecimento, hierárquicos e alfabéticos, pelo viés da po-
lítica da palavra (Orlandi, 2007) que separa, exclui, verticaliza, põe a parte,
desconsidera, elege, desqualifica, subjuga, maltrata e silencia.
Nesta perspectiva de compreensão o homem mata o conhecido e
os desconhecidos, mata na briga, na discussão, no bar, na rua, no trânsi-
to, na vizinhança, nas relações parentais e mata a mulher. O feminicídio
vira mera soma e a mulher é assassinada de novo, e de novo, e de novo na
classificação.
O universo idiossincrático da Violência de Gênero precisa ser atra-
vessado pelo acontecimento (Foucault, 1987) para produzir singularidades,
diferenças e subjetividade. De tal modo, compreende-se que as iniciativas
de organizar e recuperar a informação considerando a problematização e a
atualidade também precisam considerar o acontecimento para que a clas-
sificação também promova singularidades, diferenças e o cuidado de si.
Estudos críticos em organização do conhecimento
505
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em vista do que foi mencionado, o feminicídio é um crime ligado
à misoginia e ao menosprezo pela condição de ser mulher, um desdobra-
mento dos crimes domésticos e sexuais.
A questão da coisificação da mulher, da posse está intimamente liga-
da ao tipo penal do feminicídio, que é reflexo do machismo ainda muito
presente na sociedade patriarcal. Em decorrência dos altíssimos índices de
crimes cometidos contra as mulheres que colocam o Brasil no rol mundial
da violência contra o gênero, houve uma necessidade imediata de leis que
tratem com rigidez tal prática como crime hediondo. Dados do mapa da
violência contra a mulher revelam que a cultura brasileira ainda se acomo-
da com a discriminação do gênero feminino, através da prática expressa ou
velada da misoginia e do patriarcalismo.
Apesar da implementação da Lei nº 13.104/2015 ser um avanço,
ela não é suficiente, à medida que ainda não revela a total invisibilidade
que grande parte das mulheres vivem. A partir desse cenário, é possível
tecer uma série de questionamentos que estão para além das questões
plantadas no campo da CI, tais como: A invisibilidade é proposital, in-
tencional? A quem interessa esse jogo? A conformação da classificação
e indexação também corresponde a uma lógica de manutenção do pa-
triarcado? Por que é necessário descortinar essa problemática? Seria uma
espécie de luta e resistência discursiva? Tantas e tantas reflexões podem
ser traçadas principalmente quando a análise se coloca diante do movi-
mento das linhas da cartografia, no entanto uma coisa é fato: as mulheres
continuam sendo vítimas da violência a ponto de morrerem, ou melhor,
sendo apagadas, silenciadas.
A vida é o maior bem jurídico que possuímos enquanto humanos,
todos os outros são decorrentes dele. Além do feminicídio constituir um
novo tipo penal e qualificado, é necessário educação e políticas públicas
que coloquem as mulheres na posição de isonomia de fato e não apenas no
campo teórico, ratificado pela Constituição Federal de 1988.
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
506
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Estudos críticos em organização do conhecimento
511
Figura 3 - Taxa de homicídios de mulheres por 100 mil habitantes por UF (2007-2017)
Fonte: Diest/Ipea e FBSP, 2019.
512
Tabela 1 - Diretrizes para identificar razões de gênero nas
mortes de mulheres
Item Diretriz Definição
1 Íntimo
Morte de uma mulher cometida por uma pessoa com quem a vítima
tinha, ou tenha tido, uma relação ou vínculo íntimo: marido, ex-
marido, companheiro, namorado, ex-namorado ou amante, pessoa
com quem tem filho(a)s. Inclui-se a hipótese do amigo que assassina
uma mulher – amiga ou conhecida – que se negou a ter uma relação
íntima com ele (sentimental ou sexual)
2 Não íntimo
Morte de uma mulher cometida por um homem desconhecido,
com quem a vítima não tinha nenhum tipo de relação. Por
exemplo, uma agressão sexual que culmina no assassinato de uma
mulher por um estranho. Considera-se, também, o caso do vizinho
que mata sua vizinha sem que existisse, entre ambos, algum tipo de
relação ou vínculo.
3 Infantil
Morte de uma menina com menos de 14 anos de idade, cometida
por um homem no âmbito de uma relação de responsabilidade,
confiança ou poder conferido pela sua condição de adulto sobre a
menoridade da menina.
4 Familiar Morte de uma mulher no âmbito de uma relação de parentesco entre
a vítima e agressor. O parentesco pode ser por consanguinidade,
afinidade ou adoção.
5 Por conexão
Morte de uma mulher que está “na linha de fogo”, no mesmo local
onde um homem mata ou tenta matar outra mulher. Pode se tratar
de uma amiga, uma parente da vítima – mãe, filha – ou de uma
mulher estranha que se encontrava no mesmo local onde o agressor
atacou a vítima
6Sexual
sistêmico
Morte de mulheres que são
previamente sequestradas,
torturadas e/ou estupradas.
Pode ter duas modalidades.
Sexual sistêmico organizado. Presume-
se que, nestes casos, os sujeitos ativos
atuam como uma rede organizada de
feminicidas sexuais, com um método
consciente e planejado por um longo e
indeterminado período de tempo.
Sexual sistêmico desorganizado.
Quando a morte das mulheres está
acompanhada de sequestro, tortura e/
ou estupro. Presume-se que os sujeitos
ativos matam a vítima num período de
tempo determinado.
7
Por
prostituição
ou ocupações
estigmatizadas
Morte de uma mulher que exerce prostituição e/ou outra ocupação
(como strippers, garçonetes, massagistas ou dançarinas de casas
noturnas), cometida por um ou vários homens. Inclui os casos nos
quais o(s) agressor(es) assassina(m) a mulher, motivado(s) pelo ódio e
misoginia que a condição de prostituta da vítima desperta nele(s). Esta
modalidade evidencia o peso de estigmatização social e justificação da
ação criminosa por parte dos sujeitos: “ela merecia”; “ela fez por onde”;
era uma mulher má”; “a vida dela não valia nada”.
513
8Por tráfico de
pessoas
Morte de mulheres produzida em situação de tráfico de pessoas.
Por “tráfico”, entende-se o recrutamento, transporte, transferência,
alojamento ou acolhimento de pessoas, valendo-se de ameaças ou
ao uso da força ou outras formas de coação, quer seja rapto, fraude,
engano, abuso de poder, ou concessão ou recepção de pagamentos
ou benefícios para obter o consentimento da(s) pessoa(s), com fins
de exploração. Esta exploração inclui, no mínimo, a prostituição
alheia ou outras formas de exploração sexual, os trabalhos ou serviços
forçados, a escravidão ou práticas análogas à escravidão, à servidão ou
à extração de órgãos.
9Por
contrabando
de pessoas
Morte de mulheres produzida em situação de contrabando de
migrantes. Por “contrabando”, entende-se a facilitação da entrada
ilegal de uma pessoa em um Estado do qual a vítima não seja
cidadã ou residente permanente, no intuito de obter, direta ou
indiretamente, um benefício financeiro ou outro benefício de ordem
material.
10 Transfóbico Morte de uma mulher transgênero ou transexual, na qual o(s)
agressor(es) a mata/m por sua condição ou identidade de gênero
transexual, por ódio ou rejeição.
11 Lesbo e
bifóbico Morte de uma mulher bissexual ou lésbica, na qual o(s) agressor(es) a
mata(m) por sua orientação sexual, por ódio ou rejeição.
12 Racista Morte de uma mulher por ódio ou rejeição de sua origem étnica,
racial ou de seus traços fenotípicos.
13 Por mutilação
genital
feminina
Morte de uma menina ou mulher resultante da prática de mutilação
genital.
Fonte: Baseado em Ipea, 2019 e Cerqueira, FBSP, 2019.
514
515
SOBRE OS AUTORES
Antonio García Gutiérrez
Professor catedrático da Universidad de Sevilla, de 1994 a 2019, e professor
da Universidad Complutense de Madrid, de 1980 a 1994. Autor de diversos
obras como La memoria subrogada (Granada, 2002), Fijaciones (Madrid, 2005),
Desclasificados (Barcelona, 2007), Outra memória é possível (Río de Janeiro,
2008), La identidad excesiva (Madrid, 2009), Epistemología de la Documentación
(Barcelona, 2011), Pensar en la transcultura (Madrid, 2011) e Frentes digitales
(Salamanca, 2016).
desclasificar@gmail.com
ORCID: 0000-0001-5217-2611
Widad Mustafa El Hadi
Professora do Departamento de Ciências da Informação e Documentação,
Université de Lille. É membro do laboratório de pesquisa GERiiCO. Entre as suas
áreas de interesse estão as abordagens teóricas em Organização do Conhecimento,
linguagem e cultura e seus impactos na Organização do Conhecimento, avaliação
dos sistemas de organização do conhecimento, recuperação transcultural da
informação, ética na Organização do Conhecimento e humanidades digitais. Co-
fundadora do capítulo francês da ISKO (International Society for Knowledge
Organization).
widad.mustafa@univ-lille.fr
ORCID: 0000-0002-6057-4861
Ismaïl Timimi
Pesquisador do Departamento de Ciências da Informação e Documentação,
Université de Lille. É membro do laboratório de pesquisa GERiiCO, UFR
DECCID.
ismail.timimi@univ-lille.fr
ORCID: 0000-0001-8317-4900
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
516
Suellen Oliveira Milani
Professora Adjunta do Departamento de Ciência da Informação, Universidade
Federal Fluminense, atuando nos cursos de Graduação em Biblioteconomia
e Documentação e Arquivologia. Realizou Estágio de Pós-Doutorado na
Universidade Estadual Paulista “Júlio Mesquita Filho”, com financiamento da
CAPES, o qual possibilitou a verticalização de algumas reflexões sobre os estudos
éticos em Organização do Conhecimento desenvolvidos durante a sua formação
acadêmica, principalmente em sua tese de doutorado em Ciência da Informação.
Currículo disponível em
suellenmilani@id.uff.br
http://lattes.cnpq.br/2821128318835622
ORCID: 0000-0001-7183-6030
Daniel Abraão Pando
Possui Graduação em Biblioteconomia pela Universidade Estadual Paulista
Júlio de Mesquita Filho (1999), Especialização em Uso Estratégico das Novas
Tecnologias em Informação pela Universidade Estadual Paulista “Júlio Mesquita
Filho” (2001), Mestrado em Ciência da Informação pela Universidade Estadual
Paulista “Júlio Mesquita Filho” (2005), Doutorado em Ciência da Informação,
Unesp/Marília (2018). Tem experiência na área de Ciência da Informação, atuando
principalmente nos seguintes temas: organização da informação, organização
do conhecimento, formação profissional, fluxo informacional, terminologia
e qualidade na prestação de serviços. Atuou como docente nas Faculdades
Integradas Rui Barbosa nos cursos de graduação, Pós-graduação e capacitação/
aperfeiçoamento além de Editor da Revista InterAtividade. Atualmente ocupa o
cargo de Bibliotecário no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de
São Paulo - IFSP (Birigui, SP).
danielabraaopando@gmail.com
ORCID: 0000-0001-7126-0385
Paula Carina de Araújo
Docente do Departamento de Ciência e Gestão da Informação e do Programa
de Pós-graduação em Gestão da Informação da Universidade Federal do Paraná
(UFPR). É consultora do projeto de modernização de políticas científicas do
Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR) e atua como Editora Associada do
Directory of Open Access Journals (DOAJ) e da Revista AtoZ: novas práticas em
informação e conhecimento. É líder do Grupo de Pesquisa Metodologias para Gestão
da Informação. Doutora em Ciência da Informação pela Universidade Estadual
Paulista “Júlio Mesquita Filho”. Foi Bolsista Fulbright/CAPES do Programa
Estágio de Doutorando nas Ciências Humanas, Ciências Sociais, Letras e Artes na
Estudos críticos em organização do conhecimento
517
e Information School - University of Washington (UW) nos Estados Unidos,
sob supervisão do Prof. Joseph Tennis (2016-2017). Mestre em Ciência, Gestão e
Tecnologia da Informação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). É Bacharel
em Biblioteconomia com Habilitação em Gestão da Informação pela Universidade
do Estado de Santa Catarina (UDESC). Também atua como professora do Programa
de Pós-graduação em Gestão da Informação da Universidade do Estado de Santa
Catarina (UDESC). Os principais interesses de pesquisa são nas seguintes temáticas:
comunicação e produção científica, ciência aberta, organização do conhecimento,
epistemologia da organização do conhecimento, serviço de referência e informação.
paulacarina@ufpr.br,
ORCID: 0000-0003-4608-752X
iago Henrique Bragato Barros
Professor Adjunto no Departamento de Ciência da Informação da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), professor permanente nos Programas de
Pós-Graduação em Ciência da Informação da UFRGS e UFPA. Pós-doutorado em
Ciência da Informação pela Universidade de Brasilia (2018-2019). Pesquisador
em grupos de pesquisa da UNB, UFPA, UFSCAR e UFRGS. Presidente eleito
da International Society for Knowledge Organization (2020-2024). Deputy
Editor da revista Knowledge Organization. Coordenador do Programa de
Pós-Graduação em Ciência da Informação - PPGCIN UFRGS (2020-2022).
Membro da Comissão Editorial da Emquestão. Tem experiência na área de
Arquivologia e Ciência da Informação, atuando principalmente nos seguintes
temas: Abordagens linguísticas em Ciência da Informação e Representação e
Organização do Conhecimento.
bragato.barros@ufrgs.br
ORCID: 0000-0001-7439-5779
Isadora Victorino Evangelista
Bibliotecária da Universidade Federal de São Carlos, Campus de Lagoa do Sino.
Doutora e mestre pelo Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação
da Universidade Estadual Paulista “Júlio Mesquita Filho” (UNESP), vinculada
à Linha de Pesquisa: Produção e Organização da Informação, Eixo Temático -
Organização da Informação. Graduada em Biblioteconomia pela Universidade
Estadual Paulista “Júlio Mesquita Filho” (UNESP) - Campus de Marília.
Possui experiência na área de Ciência da Informação, com ênfase em Ética na
Representação do Conhecimento. Atualmente, financiada pela Fundação de
Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.
isadora.evangelista@unesp.br
ORCID: 0000-0002-4682-9813
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
518
Mona Cleide Quirino da Silva Farias
Doutorado e Mestrado em Ciência da Informação pela Universidade Estadual
Paulista “Júlio Mesquita Filho” - Campus Marília. Graduação em Biblioteconomia
pela Universidade Federal de Alagoas. Membro do Grupo de Pesquisa
Fundamentos Teóricos da Informação - FTI na UNESP, Campos de Marília,
SP. Interesse nas áreas da Semiótica, Mediação, Comunicação, Organização do
Conhecimento e Representação do Conhecimento.
monaquirino@gmail.com
ORCID: 0000-0003-2911-328X
Carlos Cândido de Almeida
Docente do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual
Paulista “Júlio Mesquita Filho” (UNESP), campus de Marília, com atuação nos
cursos de Arquivologia, Biblioteconomia, Mestrado e Doutorado em Ciência da
Informação. Professor visitante na Universidad Carlos III de Madrid (Espanha,
2021) e Universidad Nacional de Misiones (Argentina, 2012). Pós-Doutor em
Biblioteconomia e Documentação pela Universidad de Zaragoza, Espanha.
Doutor em Ciência da Informação pela UNESP, mestre em Ciência da Informação
pela Universidade Federal de Santa Catarina e graduado em Biblioteconomia
pela Universidade Estadual de Londrina. Tem interesse nas áreas: Epistemologia,
Ciência da Informação, Semiótica, Comunicação, Organização da Informação,
Organização do Conhecimento e Mediação.
carlos.c.almeida@unesp.br
ORCID: 0000-0002-8552-1029
Márcio Ferreira da Silva
Docente do Departamento de Biblioteconomia do Centro de Ciências Sociais/
CCSO da Universidade Federal do Maranhão. Doutorado e Mestrado em
Ciência da Informação pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da
Informação da Universidade Estadual Paulista “Júlio Mesquita Filho”, campus
Marília. Atuou como professor substituto na Universidade Federal de Rondônia,
no Departamento de Ciência da Informação, curso de Biblioteconomia. Possui
graduação em Biblioteconomia pela Universidade Federal de Alagoas (2009).
marcio.ferreira@ufma.br
ORCID: 0000-0002-4929-4009
Estudos críticos em organização do conhecimento
519
Gustavo Saldanha
Bacharel em Biblioteconomia pela Escola de Ciência da Informação da
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); Mestre em Ciência da
Informação pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação
da UFMG; especialista em Filosofia Medieval (Faculdade São Bento - Rio de
Janeiro); Doutor em Ciência da Informação pelo PPGCI IBICT UFRJ. Realizou
estágio pós-doutoral na Université Toulouse III - França entre 2017-2018. É
pesquisador titular do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia
(IBICT), coordenador da unidade de Ensino e Pesquisa, Ciência e Tecnologia
da Informação (COEPE) do IBICT e docente permanente do Programa de Pós-
Graduação em Ciência da Informação do convênio IBICT - Universidade Federal
do Rio de Janeiro (UFRJ); professor adjunto da Escola de Biblioteconomia
da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e docente
permanente do Programa de Pós-Graduação em Biblioteconomia (UNIRIO);
coordenador do Programa do PPGCI IBICT UFRJ (gestão 2019-2022). Vice-
presidente da International Society for Studies of Information (IS4SI) (gestão
2022-2024). Bolsista de produtividade 2 do CNPq. Bolsista Jovem Cientista do
Nosso Estado - Faperj.
gustavosaldanha@ibict.br.
ORCID: 0000-0002-7679-8552.
Daniel Martínez-Ávila
Professor Titular da Universidad de León. Professor Permanente do Programa de
Pós-Graduação em Ciência da Informação (PPGCI) da Universidade Estadual
Paulista “Júlio Mesquita Filho (UNESP). Possui graduação em Biblioteconomía
y Documentación pela Universidad Carlos III de Madrid (2005), Licenciado
en Documentación pela Universidad Carlos III de Madrid (2007), Mestrado
em Investigación en Documentación pela Universidad Carlos III de Madrid
(2009), e Doutorado internacional pelo Programa Oficial de Doctorado en
Documentación pela Universidad Carlos III de Madrid (2012). Foi Pesquisador e
Instrutor Adjunto na University of Wisconsin-Milwaukee até setembro de 2014,
Professor Assistente Doutor da Universidad Carlos III de Madrid até agosto de
2013 e desde setembro de 2019 até agosto de 2021, e Professor Assistente Doutor
da Universidad Complutense de Madrid de setembro de 2021 até fevereiro
de 2022. Tem experiência na área de Ciência da Informação, com ênfase em
Organização da Informação. Membro do International Society for Knowledge
Organization (ISKO) Scientific Advisory Board e editor da série Advances in
Knowledge Organization da ISKO.
dmarta@unileon.es
ORCID: 0000-0003-2236-553X
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
520
Camila Monteiro de Barros
Doutora em Ciência da Informação pela Universidade Federal de Santa Catarina
(UFSC), com período sanduíche na Université de Montréal (UdeM, Canadá),
mestre em Ciência da Informação pela Universidade Federal de Santa Catarina
(UFSC), graduada em Biblioteconomia pela Universidade do Estado de Santa
Catarina (UDESC). Professora do Departamento de Ciência da Informação
(CIN/UFSC), subcoordenadora do Programa de Pós-Graduação em Ciência
da Informação (PGCIN/UFSC). Líder do Grupo de Pesquisa Representação e
Organização do Conhecimento (ROC/UFSC). Membro do grupo de pesquisa
Fundamentos Teóricos da Informação (FTI) da Universidade Estadual Paulista
Júlio de Mesquita Filho (UNESP). Atua nas áreas de Organização e Representação
do Conhecimento e da Informação, com ênfase teórico-metodológica nos
sistemas de organização do conhecimento. Tem interesse nas questões relativas à
informação musical.
camila.c.m.b@ufsc.br
ORCID: 0000-0002-9207-5565
Rodrigo de Sales
Professor Associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade
Federal de Santa Catarina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência
da Informação da Universidade Federal de Santa Catarina. Doutor em Ciência da
Informação pela Universidade Estadual Paulista “Júlio Mesquita Filho” (UNESP),
campus Marília. Mestre em Ciência da Informação e Bacharel em Biblioteconomia
pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Pesquisador do grupo de
pesquisa Representação e Organização do Conhecimento (ROC-UFSC) e do
grupo de pesquisa Ecce Liber: filosofia, linguagem e organização dos saberes
(IBICT/UFRJ). Temas de estudo: organização do conhecimento, sistemas de
organização do conhecimento e epistemologia da Ciência da Informação.
rodrigo.sales.s@gmail.com
ORCID: 0000-0002-8695-9807
Dirnèle Carneiro Garcez
Doutoranda em Ciência da Informação pelo Programa de Pós-Graduação em
Ciência da Informação - PPGCIN/UFSC com bolsa CAPES-DS.. Mestra
em Ciência da Informação pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da
Informação - PPGCIN, da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC
(2018.1-2020.1). Bacharela em Administração pelo Centro Universitário
Leonardo da Vinci - UNIASSELVI (2013.1-2016.2). Compõe o quadro de
integrantes do Grupo de Pesquisa Ecce Liber: Filosofia, linguagem e organização
dos saberes e é membro do Satélites em Organização Ordinária dos Saberes
Estudos críticos em organização do conhecimento
521
Socialmente Oprimidos (O²S².sat) vinculado ao Grupo de Pesquisa Ecce Liber -
IBICT/UFRJ. É integrante do Grupo de Estudos Intelectuais Negras na Ciência
da Informação e membro do Grupo de Pesquisa Representação e Organização
do Conhecimento (ROC - UFSC) e do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre
Recursos, Serviços e Práxis Informacionais (NERSI). Possui interesse nas temáticas
relacionadas à comunicação científica, gestão da informação, organização dos
saberes, organização do conhecimento, feminismo negro e mídias sociais.
dirnele.garcez@yahoo.com.br
ORCID: 0000-0002-3061-9352
Ricardo Biscalchin
Doutor em Ciência da Informação pelo Programa de Pós-Graduação em
Ciência da Informação da Universidade Estadual Paulista “Júlio Mesquita
Filho” (Unesp), campus Marília. Mestre em Ciência, Tecnologia e Sociedade e
Bacharel em Biblioteconomia e Ciência da Informação na Universidade Federal
de São Carlos (UFSCar). Membro do grupo de pesquisa Organização do
Conhecimento para Disseminação da Informação, atuando como pesquisador
na área de Representação Temática da Informação, com foco em vocabulário
controlado multilíngue pela perspectiva da garantia cultural, da Terminologia e
da Interoperabilidade. Participou de atividades de intercâmbio na Universidade
de Coimbra pelo período de abril a junho de 2019. Bibliotecário responsável pela
Unidade Especial de Informação e Memória (UEIM) do Centro de Educação e
Ciências Humanas (CECH-UFSCar).
ricardo.biscalchin@unesp.br
ORCID: 0000-0001-8099-206X
Walter Moreira
Possui graduação em Biblioteconomia pelas Faculdades Integradas Teresa
vila (1990), mestrado em Biblioteconomia e Ciência da Informação pela
Pontifícia Universidade Católica de Campinas (1998), doutorado em Ciência da
Informação pela Universidade de São Paulo (2010), livre-docência em Sistemas
de Organização do Conhecimento pela Universidade Estadual Paulista “Júlio
Mesquita Filho” (2018). Professor associado do Departamento de Ciência da
Informação da Universidade Estadual Paulista, em Marília-SP, com atuação nos
cursos de graduação em Arquivologia, em Biblioteconomia e no Programa de
pós-graduação em Ciência da Informação. Desenvolve pesquisas sobre sistemas
de organização do conhecimento, linguagens documentárias, terminologia,
ontologias e teoria da classificação.
walter.moreira@unesp.br
ORCID: 0000-0001-9454-441X
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
522
Francisco Arrais Nascimento
Doutor em Ciência da Informação pela Universidade Estadual Paulista “Júlio
Mesquita Filho” (2021). Mestre em Ciência da Informação pela Universidade
Federal de Pernambuco (2015) e Bacharel em Administração pela Universidade
Federal do Ceará - Campus Cariri (2012). Tem experiência na área de Ciência
da Informação com ênfase em organização da informação, organização do
conhecimento, memória, sexualidades, autonomeação e classificação, atuando
principalmente no domínio das dissidências sexuais e de gênero.
francisco.arrais.nascimento@gmail.com
ORCID: 0000-0003-4424-8844
Marília Winkler de Morais
Bibliotecária e Mestranda em Ciência da Informação junto ao PPGCI UFSCar.
Bolsista Fapesp desde 2020 com o projeto: A decolonialidade no pensamento
informacional latino-americano: uma proposta de sistematização a partir de S.
Ranganathan. É bacharela em Biblioteconomia e Ciência da Informação pela
UFSCar. Foi membro do Programa de Educação Tutorial de Biblioteconomia e
Ciência da Informação (PET BCI) em 2015.
winklermariliam@gmail.com
ORCID: 0000-0002-5234-7239
Luciana de Souza Gracioso
Pós-doutorado em Ciência da Informação pela Universidade de Coimbra (2019).
Doutora em Ciência da Informação pelo Instituto Brasileiro de Informação em
Ciência e Tecnologia e Universidade Federal Fluminense (2008). Professora
Associada III no Departamento de Ciência da informação da UFSCar. Chefe
do Departamento de Ciência da Informação (2019-). Foi Coordenadora do
Programa de Pós-graduação em Ciência da informação - PPGCI (2016 - 2017)
e Coordenadora de Curso de Graduação (2009-2014). Atua como docente
permanente no PPGCI e no Programa de Pós-graduação em Ciência, Tecnologia
e Sociedade (PPGCTS). Foi Professora Visitante no Exterior (PVE CAPES)
junto ao Departamento de Filosofia, Comunicação e Informação, pela Faculdade
de Letras da Universidade de Coimbra (2018-2019). É associada a Information
Society for Knowledge Organization (ISKO) e a Associação Nacional de Pós-
Graduação em Ciência da Informação (ANCIB). Foi tutora do Programa de
Educação Tutorial do Curso de Biblioteconomia e Ciência da informação PET/
BCI (2013 - 2018). É coordenadora responsável pelo Termo Aditivo de Cooperação
Internacional com a Universidade de Coimbra, pelo Departamento de Ciência
da informação. É líder do Grupo de pesquisa: Pragma: estudos pragmáticos
em ciência da informação. Coordenou projetos financiados pelo CNPQ sobre
Estudos críticos em organização do conhecimento
523
Plataformas interativas e desenvolvimento de Bibliotecas para ambientes de
Educação à distância. Participou como pesquisadora de projetos financiados
pela FAPESP sobre as Fazendas Históricas Paulistas. Atua principalmente nos
seguintes temas: Estudos da linguagem em Ciência da informação, Organização
do conhecimento e Epistemologia da Ciência da informação. Possui graduação
em Biblioteconomia e Documentação pela Universidade Estadual Paulista
“Júlio Mesquita Filho” (1998); especialização em Uso estratégico da tecnologia
em informação pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho
(2000). Mestrado em Ciência da Informação e Biblioteconomia pela Pontifícia
Universidade Católica de Campinas (2002). Bolsista produtividade PQ/2 desde
2022 com o projeto: Indexação decolonial enquanto tecnologia emancipatória:
uma possível proposição.
luciana@ufscar.br
ORCID: 0000-0002-6320-4946
Diogo Lopes Nogueira
Graduando em Biblioteconomia pela UFPE. Bolsista de PIBIC/CNPq
diogo.nogueira@ufpe.br
Jéssica Oliveira da Silva
Graduanda em Biblioteconomia pela UFPE. Bolsista de PIBIC/CNPq
jessica.osilva@ufpe.br
Murilo Artur Araújo da Silveira
Possui Graduação em Biblioteconomia pela Universidade Federal de Pernambuco
(2005), Mestrado em Ciência da Informação pela Pontifícia Universidade Católica
de Campinas (2008) e Doutorado em Comunicação e Informação pela Universidade
Federal do Rio Grande do Sul (2016), com realização de estágio sanduíche na
Universidad Carlos III de Madrid. Recebeu o prêmio de segunda melhor tese
em Ciência da Informação no Brasil pela Associação Nacional de Pesquisa e Pós-
graduação em Ciência da Informação (ANCIB) em 2017. Atualmente é Professor
Adjunto na Universidade Federal de Pernambuco e Diretor do Centro de Artes e
Comunicação. Tem experiência na área de Ciência da Informação, com ênfase em
Organização da Informação e Comunicação Científica, atuando principalmente
nos seguintes temas: bibliometria, cienciometria, representação da informação,
produção científica, periódicos científicos, indicadores científicos, estudos de
citações, documentação e memória social.
muriloas@ufpe.br
ORCID: 0000-0002-9708-6001
Carlos Cândido de Almeida, Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila (Org.)
524
Fabio Assis Pinho
Professor Associado do Departamento de Ciência da Informação, atuando
nos cursos de Graduação em Biblioteconomia, em Gestão da Informação e no
Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação (Mestrado e Doutorado
Acadêmicos) da Universidade Federal de Pernambuco. Possui Graduação (2002)
em Biblioteconomia e Ciência da Informação pela Universidade Federal de São
Carlos, Mestrado (2006) e Doutorado (2010) em Ciência da Informação pela
Universidade Estadual Paulista “Júlio Mesquita Filho”. Foi Subchefe (2009-
2011) e Chefe (2011-2013) de Departamento. Foi Secretário (2015-2017) e
Conselheiro Fiscal (2011-2015) da ISKO - International Society for Knowledge
Organization (Brasil). Foi Vice-Coordenador do GT2 da ANCIB (2014-2016).
Foi Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação
da UFPE (2014-2017) e Membro do Fórum de Coordenadores de Programas
de Pós-Graduação da ANCIB (2014-2017). É Líder do Grupo de Pesquisa:
Organização e Representação do Conhecimento. É Coordenador Adjunto da
CAPES (Área: Comunicação e Informação) e Pesquisador em Produtividade 2 do
CNPq. Tem interesse nas linhas de pesquisa de Organização e Representação do
Conhecimento e Memória da Informação Científica e Tecnológica.
fabio.assis@ufpe.br
ORCID: 0000-0003-1346-3808
Denise Cristina Belam
Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela Universidade Estadual Paulista
“Júlio de Mesquita Filho”. Possui graduação em Biblioteconomia pela UNESP,
campus de Marília. Tem experiência na área de Ciência da Informação, com ênfase
em Organização e Representação da Informação, atuando principalmente nos
temas: feminismo, movimentos sociais, organização do conhecimento, violência
doméstica e feminicídio.
denisebfioravanti@gmail.com
ORCID: 0000-0002-0333-1601
Deise Maria Antonio Sabbag
Professora Doutora da Universidade de São Paulo (USP), Faculdade de Filosofia,
Ciências e Letras de Ribeirão Preto, Departamento de Educação, Informação e
Comunicação. Docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Ciência
da Informação da UNESP, campus de Marília. Doutorado (2013) e Mestrado
(2008) em Ciência da Informação pela Universidade Estadual Paulista “Júlio
Mesquita Filho”. Líder do Grupo de Pesquisa ECOAR - Estudos Contemporâneos
em Organização, Análise e Recuperação da Informação.
deise.sabbag@unesp.br
ORCID: 0000-0001-6392-4719
Estudos críticos em organização do conhecimento
525
Daniele Achilles
Professora do Departamento de Biblioteconomia da Universidade Federal do
Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), do Programa de Pós-Graduação em Memória
Social (PPGMS) e do Programa de Pós- Graduação em Biblioteconomia (PPGB)
da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Doutorado
(2018) e Mestrado (2008) em Memória Social pela Universidade Federal do
Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Líder do Grupo de Pesquisa Bibliotecas,
Memória e Resistência.
daniele.achilles@unirio.br
ORCID: 0000-0002-3648-7282
Rosa San Segundo
Professora catedrática da Universidade Carlos III de Madrid na área de
Informação e Documentação. Presidente da Plataforma Universitária de Estudos
Feministas e de Gênero. É especialista em igualdade de gênero e violência, sistema
de classificação, organização do conhecimento e estudos de gênero. Participou
de inúmeros trabalhos coletivos e publicou artigos especializados sobre violência
de gênero, além de mais de 20 projetos de investigação (MINECO, FECYT,
Regional e IMIO), vários dos quais investigam a violência de género. Pertence
ao ISKO Advisory Board, UDC Consortium Advisory Board e atua em diversos
comitês nacionais e internacionais de padronização e normas ISO, Comitê 50 de
padronização da AENOR e Reuniões da ISO.
rsan@bib.uc3m.es
ORCID: 0000-0002-1449-8175
CATALOgAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP)
Telma Jaqueline Dias Silveira
CRB 8/7867
NORMALIZAÇÃO
Maria Elisa Valentim Pickler Nicolino
CRB - 8/8292
CAPA E DIAgRAMAÇÃO
Gláucio Rogério de Morais
PRODUÇÃO gRáFICA
Giancarlo Malheiro Silva
Gláucio Rogério de Morais
ASSESSORIA TÉCNICA
Renato Geraldi
OFICINA UNIvERSITáRIA
Laboratório Editorial
labeditorial.marilia@unesp.br
FORMATO
16 x 23cm
TIPOLOgIA
Adobe Garamond Pro
2024
SOBRE O LIvRO
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Carlos Cândido de AlmeidaCarlos Cândido de Almeida
Rosa San SegundoRosa San Segundo
Daniel Martínez-ÁvilaDaniel Martínez-Ávila
(Organizadores) (Organizadores)
ESTUDOS
CRÍTICOS EM
A primeira parte do livro, dedicada
ao pensar o classificar e o desclassificar,
faz alusão à terminologia do autor García
Gutiérrez, indicando que tal parte dedi-
ca-se em entender (classificar) as caracte-
rísticas gerais das práticas de classificação
e os conceitos associados à desclassifica-
ção. Por seu turno, a segunda parte,
busca dar caminhos teóricos e alguns
aplicados que respondem ao intento da
desclassificação e a consequente reclassifi-
cação ou a um novo arranjo que devem
assumir os sistemas, incorporando novas
perspectivas aos conceitos dados. Embora
os estudos relacionados nessa obra não
estejam todos vinculados à teoria da des-
classificação, será possível notar desdo-
bramentos da aplicação dessa abordagem
em vários capítulos.
Esperamos que a leitura das ideias,
provocações e pesquisas presentes neste
livro possa contribuir para a estruturação
teórica dessas abordagens no futuro, bem
como facilitar acesso às indicações biblio-
gráficas aos interessados. Agradecemos
a todas as autoras e autores pela energia
e pela vontade de mudança depositadas
nestes capítulos.
ESTUDOS CRÍTICOS EM ORGANIZAÇÃO DO CONHECIMENTO
Carlos Cândido de Almeida | Rosa San Segundo | Daniel Martínez-Ávila (Orgs.)Carlos Cândido de Almeida | Rosa San Segundo | Daniel Martínez-Ávila (Orgs.)
Programa CAPES-PRInt-UNESP, Código de Financiamento 001
Processo: 88887.571329/2020-00.
Auxílio para impressão: CAPES-PROEX - Auxílio - 1628/2024 -
Processo: 88881.974501/2024-01
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
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Coleção Estudos em
Ciência da Informão
Coleção Estudos em
Ciência da Informão
Nº 1 - Estudos críticos em organização do
conhecimento
Organizadores: Carlos Cândido de Almeida,
Rosa San Segundo e Daniel Martínez-Ávila
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