Dando continuidade às suas pesquisas de iniciação cientíca e de mes-
trado, as quais problematizaram, com referencial pós-crítico, respectiva-
mente, uma possível proposta de paradigma multidimensional da Ges-
tão Educacional e os elementos contidos na história do conhecimento
em Administração Escolar no Brasil que se conguraram como regra de
construção e impediram um olhar crítico sobre si, o autor tinha como
ponto de partida da escrita desta obra, além do desconforto em relação
às regras que constituíram o conhecimento e o impediram de expandir
seus contornos, o desejo de materializar uma ferramenta metodológica
que possibilitasse aos pesquisadores “ir a campo para construir, junto ao
cotidiano, novas formas de enxergá-lo e novos conceitos de gestão, de
educação, de política, da função do diretor, da composição com a comu-
nidade, ou também que estes desaparecessem ou dessem lugar às novas
ideias isso sem contar às novas formas de se fazer pesquisa e de trabalhar
em conjunto com outros pesquisadores”.
Programa PROEX/CAPES:
Auxílio 0039/2022
Processo 23038.001838/2022-11
POR UMA CARTOGRAFIA DA POLÍTICA E GESTÃO EDUCACIONAL NO BRASIL
Paulo Henrique Costa Nascimento
POR UMA CARTOGRAFIA
DA POLÍTICA E GESTÃO
EDUCACIONAL
NO BRASIL
POR UMA CARTOGRAFIA DA
POLÍTICA E GESTÃO EDUCACIONAL
NO BRASIL
Paulo Henrique Costa Nascimento
Paulo Henrique Costa Nascimento
POR UMA CARTOGRAFIA DA POLÍTICA E GESTÃO
EDUCACIONAL NO BRASIL
Marília/Oficina Universitária
São Paulo/Cultura Acadêmica
2024
UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS FFC
UNESP - campus de Marília
Diretora
Dra. Claudia Regina Mosca Giroto
Vice-Diretora
Dra. Ana Claudia Vieira Cardoso
Conselho Editorial
Mariângela Spotti Lopes Fujita (Presidente)
Célia Maria Giacheti
Cláudia Regina Mosca Giroto
Edvaldo Soares
Franciele Marques Redigolo
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Conselho do Programa de Pós-Graduação em Educação -
UNESP/Marília
Henrique Tahan Novaes
Aila Narene Dahwache Criado Rocha
Alonso Bezerra de Carvalho
Ana Clara Bortoleto Nery
Claudia da Mota Daros Parente
Cyntia Graziella Guizelim Simões Girotto
Daniela Nogueira de Moraes Garcia
Pedro Angelo Pagni
Auxílio Nº 0039/2022, Processo Nº 23038.001838/2022-11, Programa PROEX/CAPES
Parecerista: Alexandre Simão de Freitas (Universidade Federal de Pernambuco)
Capa: imagem gratuita de pixabay
Ficha catalográfica
Nascimento, Paulo Henrique Costa
N244p Por uma cartografia da política e gestão educacional no Brasil / Paulo Henrique da Costa
Nascimento. Marília : Oficina Universitária ; São Paulo : Cultura Acadêmica, 2024.
259 p.
Inclui bibliografia
ISBN 978-65-5954-510-0 (Impresso)
ISBN 978-65-5954-511-7 (Digital)
DOI: https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-511-7
1. Prática de ensino - Brasil. 2. Educação e Estado Brasil. 3. Educação Aspectos políticos. I.
Título.
CDD 371.20981
Catalogação: André Sávio Craveiro Bueno CRB 8/8211
Copyright © 2024, Faculdade de Filosofia e Ciências
Editora afiliada:
Cultura Acadêmica é selo editorial da Editora UNESP
Oficina Universitária é selo editorial da UNESP - campus de Marília
Para Durvalina Maria dos Santos Costa (in memoriam):
“Se quiser vir, vem!”.
Fora do mapa
Com tantos instrumentos pra guiar
Quanto mais depressa e estranho for
Todos os planos óbvios aos pedaços
Tentando esconder uma certa frustração
Fingir, dissimular, tentar fugir
Sem encontrar o que procurou
Por vir o presente e o perigo
Deixar cair até não poder mais sentir a dor
O inusitado é o que faz sorrir
Frio no estômago, luz em tudo que se pode ver
E o que é estável?
Desejos tão incontroláveis
Fingir, dissimular, tentar fugir
Sem encontrar o que procurou
Por vir o presente e o perigo
Deixar cair até não poder mais sentir a dor
Tão longe do destino que planejei
E devia acontecer
Sem trilhas e caminhos
Fora do mapa, onde estou?
É fácil acusar, desviar a atenção
Por vir, o futuro está perdido
Permitir que a realidade seja aqui
Que seja sem destino
Que seja sem razão
Que seja tão intenso como tudo deve ser
Eterno como um minuto sem explicação
Dead Fish® (2006)
AGRADECIMENTOS
Sou imensamente grato à toda minha família por se
constituírem como alicerce e ponto de partida para minha jornada.
Em especial para Elvia Aparecida dos Santos Costa, José Rubens
Nascimento, Quitéria Alves Barbosa Nascimento, Sebastião Souza
Costa, Vivian Regina Costa Nascimento, Eliana dos Santos Costa,
Jean Gabriel Costa Nascimento, Thamyris Rodrigues de Souza
Nascimento, Éder dos Santos Costa, Camila Antônio Galceran,
Ednéia Costa da Silva, Gilberto da Silva, Tânia Mara Nascimento e
Priscila Mara Gomes por comporem em minha vida um lugar especial
para onde se pode voltar.
Sou imensamente grato à Graziela Zambão Abdian por toda
sua paciência, generosidade, bom senso, caráter e inteligência que
transformou essa dura jornada em um leve passeio cheio de
aprendizado e conquistas. Obrigado por ser a melhor companhia que
se poderia ter nessa viagem.
Aos amigos do Centro de Estudos e Pesquisas em
Administração da Educação CEPAE pelos diálogos, desafios e pela
vontade de abrir novos caminhos de pesquisa.
O presente trabalho é resultado de pesquisa desenvolvida no
curso de Doutorado do Programa de Pós-Graduação em Educação da
Faculdade de Filosofia e Ciências da Unesp/Marília e foi realizada
com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível
Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001
SUMÁRIO
Prefácio | Graziela Zambão Abdian..........................................................13
Introdução..............................................................................................19
Capítulo 1 Política e Gestão educacional no Brasil e Cartografia
esquizoanalítica: entre a metodologia do trabalho científico e a estratégia
flexível de análise crítica...........................................................................43
1.1 Conhecimento em Política e Gestão educacional no Brasil: entre a
ideologia e os processos de subjetivação
1.2 Em que se pode reconhecer a Cartografia esquizoanalítica? Estratos de
saber, Diagramas de poder e Dobras do pensamento
1.3 Introdução à Cartografia esquizoanalítica: rizoma, linhas e planos
Capítulo 2 As regras básicas de produção do conhecimento em Política e
Gestão educacional no Brasil: dualidade e prescrição..............................123
2.1 A dualidade da Gestão educacional no Brasil: o verdadeiro, o falso e a
periferia
2.2 Dualidade concreta e prescrição na Política educacional no Brasil
Capítulo 3 Por dentro da escola pública ou nas vísceras das regras de
formação?.............................................................................................181
3.1 A edificação do social como ponto de partida e chegada na
“Introdução crítica”
3.2 Aplicando a teoria: etnografia da escola e fortalecimento das regras em
“Por dentro da escola Pública”
Considerações finais.............................................................................235
Referências...........................................................................................247
Sobre o autor.......................................................................................259
12
13
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-511-7.p13-18
PREFÁCIO
Pensamos que a construção de cada escola, mesmo imersa num
movimento histórico de amplo alcance, é sempre uma aversão
local e particular neste movimento […] É uma trama em
permanente construção que articula histórias locais pessoais e
coletivas , diante das quais a vontade estatal abstrata pode ser
assumida ou ignorada, mascarada ou recriada, em particular
abrindo espaços variáveis a uma maior ou menor possibilidade
hegemônica. Uma trama, finalmente, que é preciso conhecer,
porque constitui, simultaneamente, o ponto de partida e o
conteúdo real de novas alternativas tanto pedagógicas quanto
políticas (ROCKWELL; EZPELETA, 2007).
A transcrição do trecho de Rockwell e Ezpeleta (2007) me
proporciona iniciar esse Prefácio de forma metafórica e também fiel
aos dizeres das autoras.
Em relação à primeira forma, destaco que este livro é o
coroamento de um projeto acadêmico e de vida do jovem autor,
iniciado entre os anos 2011 e 2012 quando ele cursava o segundo ano
de licenciatura em Pedagogia e assistia às minhas aulas da disciplina
“Administração educacional: teoria e prática”, problematizando
aspectos que até aquele momento me pareciam sedimentados. “Existe
apenas essa forma de narrar a história da Administração
Educacional?” talvez tenha sido a questão chave que nos fez iniciar
uma relação de orientação com a integração do ainda graduando no
Centro de Estudos e Pesquisas em Administração Educacional
(CEPAE) e a construção de seu primeiro problema de pesquisa, a qual
14
foi realizada com bolsa CAPES, advinda de minha participação em
uma pesquisa interinstitucional do Observatório da Educação. Com
a epígrafe, quero destacar que a construção da relação de cada
orientação (escola) é única, é uma “trama” que articula cada
particularidade, com suas histórias pessoais, que “é preciso conhecer”
porque constitui o “conteúdo real” de alternativas. Especialmente esta
construção social quase 12 anos de orientação consolidou uma
amizade por meio da qual estamos, constantemente, aprendendo um
com o outro a lidar com nossas angústias, dificuldades e conquistas
cotidianas. Portanto, não me resta dúvidas de que ela é parte da obra
que se apresenta ao leitor.
Referente à segunda forma, posso dizer que este breve artigo
das autoras apresenta um conteúdo relevante que nos acompanhou ao
longo deste percurso, justamente por elas se colocarem em um lugar
que o autor deste livro me levou com ele: como dar conta da análise
da escola com perspectivas que a reduzem a uma face? O que se
encontra fora da teoria ou é por ela apagado/a? Ou, até mesmo, pelo
motivo de as autoras compartilharem conosco aquilo que Paulo
questiona no início de seu texto: “O que seria de nós se não fossem as
crises?”
Desde o início da graduação, Paulo apresentou-me
problematizações de cunho epistemológico, por isso, após
transcorridos quase 12 anos de estudo, ele não escreve um livro de
leitura simples e muito menos o que costumeiramente encontramos a
respeito de Política e Gestão Educacional em materiais acadêmicos.
No entanto, indica-nos problemas epistemológicos sobre os quais
temos de nos debruçar como pesquisadores e profissionais da
Educação se quisermos, de alguma forma, avançar na produção do
conhecimento.
15
Dando continuidade às suas pesquisas de iniciação científica
e de mestrado, as quais problematizaram, com referencial pós-crítico,
respectivamente, uma possível proposta de paradigma multidimen-
sional da Gestão Educacional e os elementos contidos na história do
conhecimento em Administração Escolar no Brasil que se
configuraram como regra de construção e impediram um olhar crítico
sobre si, o autor tinha como ponto de partida da escrita desta obra,
além do desconforto em relação às regras que constituíram o
conhecimento e o impediram de expandir seus contornos, o desejo de
materializar uma ferramenta metodológica que possibilitasse aos
pesquisadores “ir a campo para construir, junto ao cotidiano, novas
formas de enxerga-lo e novos conceitos de gestão, de educação, de
política, da função do diretor, da composição com a comunidade, ou
também que estes desaparecessem ou dessem lugar às novas ideias
isso sem contar às novas formas de se fazer pesquisa e de trabalhar em
conjunto com outros pesquisadores”.
Entretanto, a “trama do cotidiano” ou a “construção social”
da pesquisa deu lugar ao acontecimento: o pesquisador deixou-se ser
presenteado pela problemática de sua inserção no contexto da
produção do conhecimento em Política e Gestão Educacional e isso
o fez como real campo de sua investigação. Contextualizada no
âmbito das problemáticas centrais que constituem a história do
conhecimento em Política e Gestão Educacional e no recente
referencial pós-crítico sendo construído no CEPAE, o autor teve
como objetivo central do livro analisar as regras de formação em
Política e Gestão Educacional, a forma que se constituem e operam
na história desse conhecimento, impedindo-o de avançar em outras
direções. A ideia central foi executar, com subsídios metodológicos da
cartografia esquizoanalítica de Deleuze e Guattari, um trabalho que
16
desenhasse linhas de fuga na composição de uma nova perspectiva na
área. O autor apresenta o livro organizado em três capítulos.
No primeiro capítulo, considero que Paulo inova
sobremaneira na forma de contemplar o lugar, a forma e a função da
metodologia na pesquisa e constrói uma trama singular de análise ao
estabelecer uma condição de reciprocidade e revezamento entre a
Cartografia esquizoanalítica (sua ferramenta conceitual) e o
conhecimento e Gestão Educacional (seu objeto de estudo). Para
isso, inicialmente, ele busca nos fundamentos da ideologia que
conduz as discussões sobre a Política e Gestão Educacional “o lugar
onde ela toca e faz aparecer os processos de subjetivação como modo
de operar a visão de mundo e as práticas de pesquisa”, sendo a
consequência desse desenvolvimento é a inserção do pesquisador em
um lugar de completo desconforto, onde pode se reconhecer não mais
como uma figura vanguardista, mas como próprio objeto de desejo
da ideologia. Posso dizer, então, que além de me levar com ele para o
lugar do desconforto teórico-metodológico, o leitor que mergulhar na
leitura dessa densa obra, em especial, deste primeiro capítulo, será
conduzido a esse lugar.
Após encerrar o primeiro capítulo com o delineamento da
cartografia esquizoanalítica como alternativa estrategicamente flexível
de análise crítica em relação à metodologia do trabalho científico, o
autor é conduzido por ela na leitura da trajetória da área buscando
nas perspectivas que foram delineadas historicamente empresarial e
democrática os elementos comuns que permitiram sua edificação e
consolidação. Ao identificar as “linhas flexíveis”, “linhas duras”, a
“periferização” e as “linhas de fuga” nas perspectivas de Política e
também de Gestão, o segundo capítulo mostra que “existe um
movimento que garante a sua especificidade de modo que esta
sustente uma diferença fora de cada uma”, mas, ao mesmo tempo, há
17
elementos que não garantem essa sustentação dual. A principal
consequência revelada pela análise é a proposição ao leitor de uma
problemática seguida de novos encaminhamentos: como construir
conhecimento sem lavar em conta a dualidade e a função que ela vem
exercendo na pesquisa e nos pesquisadores? Não posso deixar de
evidenciar outra problematização proposta na análise que é a divisão
entre Política e Gestão, como própria ao movimento dual, e sua
consolidação histórica que vem tratando a segunda como meio (ou
mediação) para execução da primeira. O resultado dessa análise é o
entendimento que o autor traz de que a Política e a Gestão formam
uma área do conhecimento que não precisa ser dividida, daí a
composição do título da obra.
O livro é finalizado com a proposta de um terceiro capítulo
brilhante. Tendo como material de análise um estudo de caso
etnográfico realizado com o suporte teórico de uma das perspectivas
teóricas (PARO, 1987; PARO, 2000), Paulo analisa o conteúdo
teórico e seu movimento de ir a campo, considerando que a função
do conhecimento “foi a de aludir propostas para os problemas
educacionais muito mais para se manter e estender sua legitimidade,
conduzindo obstáculos para sua diferenciação, do que de fato para
resolvê-los.” De forma coerente com seu referencial, o autor indica os
limites de sua análise ao evidenciar que não foi possível “realizar uma
cartografia em sua completude” principalmente porque o trabalho de
campo que poderia possibilitar uma inversão ou conversão dos dados
teóricos ainda não aconteceu. No entanto, de forma potente aponta
novos horizontes de pesquisa que, sem dúvidas, passam pela escola
como produtora desse conhecimento.
Ao questionar os modos de se fazer pesquisa e de se relacionar
com a escola como objeto de estudos, o conjunto dos três capítulos
coloca o problema de como as instituições e suas práticas legitimam a
18
forma de fazer pesquisa (produção do saber) e sua relação de poder
com a escola, impossibilitando seu questionamento e sua consequente
modificação para o avanço do conhecimento. A leitura desta obra em
sua integridade não tem como não desestabilizar o
profissional/pesquisador da Educação no sentido de provoca-lo a
repensar seu lugar e sua função.
Todos esses anos de construção social do cotidiano de
pesquisa com o autor foram, talvez, um dos melhores encontros que
tive na universidade. Por isso, convidar o leitor a mergulhar nesta
construção de pesquisa que agora se apresenta em livro é compartilhar
esse encontro e, também, presenteá-los com um rigoroso trabalho
teórico-metodológico, tão raro na atualidade acadêmica que
vivenciamos cotidianamente.
Graziela Zambão Abdian
Dezembro de 2023
19
INTRODUÇÃO
O que seria de nós se não fossem as crises? Claro que se nos
situarmos em um modelo teórico repetidamente utilizado nos
permitiremos avançar para um lugar seguro diante delas:
conheceríamos os temas de pesquisa, os métodos mais utilizados e
aceitos, os problemas e resultados corriqueiramente experimentados,
as possibilidades colocadas e os âmbitos institucionais, sociais, que
poderíamos alcançar e explorar. Poderíamos caminhar linearmente
nesse território, neste caminho de pesquisa.
Porém, esse mesmo modelo, cerceia, delimita, cerca esse
território, marca até onde é possível ir; nos debatemos no muro que
delimita o espaço restrito nesse território fechado. Deste modo, sim,
podemos seguir circularmente de maneira restrita em todas as suas
direções possíveis. Define-se, então, o mapa. A biruta nos aponta o
deslocamento dos ventos que podem ser seguidos; a rosa dos ventos
mobiliza as direções e a bússola marca o Norte de todas as coisas; o
sol, a lua e as estrelas indicam onde possivelmente estamos;
meridianos, paralelos, latitudes e longitudes marcam e dividem o
espaço, a dinâmica do tempo e a média da temperatura; os satélites
marcam e o GPS mostra a localização precisa e os caminhos seguros e
curtos gerando toda uma economia espaço-temporal no modelo.
Deleuze e Guattari imaginavam que o progresso ou avanço
teórico se é que se pode assim nomear não ocorre em torno do
autor, sua obra, sua coerência, seu modelo e das instituições que
remontam seus caminhos e seus mapas seu método enquanto
bússola –, mas sim, por meio das estagnações que o cerceamento faz
passar e das crises que os diversos problemas sem solução fazem o
20
pensamento escapar, fugir. Problemas esses que o modelo tende a não
resolver, mas somente administrar. A ideia é que cada vez mais
possamos criar mais problemas, problemáticas, campos problemáticos
para forçar a emergência das crises e forçar o pensamento a delinear
saídas. Fugir não para se esconder, claro, mas para buscar outros
lugares possíveis. Suely Rolnik (2018) nos fala de um alerta vital:
mesmo quando tudo vai bem nestes meios institucionais, mesmo
quando tudo se encontra coerente, mesmo quando temos as melhores
condições de deslocamento nos âmbitos de pesquisa, às vezes, nos
sentimos estranhos frente a ele, dotados de um enorme desconforto.
Não se trata, no entanto, de angústia e, menos, das doenças
deslumbradas pela Psiquiatria ou pelos diversos ramos da Psicologia.
O que há de errado conosco?
Ela nos diz que são forças que nos atravessam e nos fazem
perder, enquanto fundamento, as referências sensoriais que temos,
nos sentimos deslocados mesmo estando em um mapa diagramado,
são forças que se encontram em nós, portanto, enquanto problemas,
andamos aqui e ali, de lá para cá, nos debatendo circularmente e não
nos sentimos pertencentes a esses locais, como se essas forças nos
fizessem estrangeiros de nós mesmos, estrangeiros desse lugar de onde
nos fizemos, que fez sermos o que somos, e não deveria propor-nos
nenhum estranhamento.
Fugimos, portanto, para encontrar nosso lugar, ou melhor,
criar esse lugar: queremos ler de outra forma, estudar de outra forma,
escrever de outra forma, nos posicionar de outra forma, praticar a
pesquisa com os cotidianos de outra forma ao invés de nos remodelar,
ao invés de voltar ao modelo, queremos problematizar justamente esse
estranhamento, ter o direito de problematizar essas situações e locais
aparentemente estáveis. Será que o problema não poderia talvez estar
na prática de se fazer pesquisa ao invés de nós que nos deparamos sem
21
querer com estas questões? Como se nos dissessem: viva o modelo e
não sua vida! Não dissemos tudo isto para reivindicar uma pesquisa
pessoal ou intimista, mas para reclamar a colocação de outros
problemas e que não vêm de nós essencialmente e sim do cruzamento
de forças múltiplas e problemáticas que nos atravessam. Claro que o
modelo enxerga algumas delas, porém, o corpo sente muitas outras.
Rolnik (2018) nos ajuda a indagar: como nos conectarmos
com esse ambiente que promove uma desconexão absoluta a todo
momento? Como nos reconectarmos habitados por essas forças
problemáticas? Como nos sentirmos pertencentes se as representações
sensoriais que tínhamos já não nos servem mais? E mais uma vez os
problemas.
Curioso isso, pois me recordo do primeiro semestre do
primeiro ano no curso de graduação em Pedagogia em 2010 no
qual tínhamos que apresentar individualmente, para disciplina de
Metodologia do Trabalho Científico, um pré-projeto, um projeto e
uma monografia. Além da dificuldade que consumia a maioria dos
alunos, a minha em específico foi advinda de uma experiência de
escola pública em que sempre se exigiu o mínimo possível de
desempenho escolar e social e se quer me lembro de ter escrito uma
redação a não ser as que rascunhei para vestibular. Isso sem contar
toda a sistematização prática que também nunca fez parte da minha
vida: ler muitos textos, interpretá-los, ter aprendizado e visões
próprias sobre eles, enfim, uma gama de práticas que incluía, tamm,
comprá-los.
Seja como for, os discursos que circulavam entre nossos
professores eram sobre a importância da autonomia, da crítica e do
papel que tudo aquilo desempenha na sociedade, e na docência em
especial. Sem querer, naquele momento, me fiz problema, utilizei
minha vida e minha própria situação de formação tornou-se problema
22
central do pré-projeto, do projeto e da monografia. Cerquei-me de
alguns autores da Filosofia, como Rousseau e Kant, até mesmo de
Goethe que não era filósofo, acima de tudo Nietzsche, e pesquisei
como o último poderia contribuir para uma autoformação, uma
educação de si, no ensino superior, baseado na autonomia que era
amplamente discursada: o devir-criança aparecia como uma
alternativa após atravessar o devir-camelo e o devir-leão.
A ideia era aprender e carregar uma tradição pedagógica nas
costas como um camelo; se revoltar com essa tradição munido da
ferocidade crítica de um leão buscando seu lugar no contexto do saber
para, enfim, devir-criança e brincar com essa tradição, reinven-la,
trazer outras relações, ser leve, uma criança descompromissada até
com os perigos que os movimentos anteriores a coloca: “Os caminhos
percorridos por um devir-criança traz benefícios ao pensamento, onde
se pode de muitos ângulos e sem a influência de valores morais já
colocados, observar conceitos que regem como verdade
momentaneamente.” (NASCIMENTO, 2010, p. 17). Apesar da
ingenuidade do momento, essa situação trouxe grande aprendizado e
principalmente me inseriu nas práticas que sua instituição exigia e que
eu não tinha: escreva isso, leia aquilo, isso é importante e aquilo não,
preste atenção nesta disciplina, naquela nem tanto, siga as regras da
ABNT, pois sem ela não existe Ciência, etc.
Com essa ingenuidade e esse aprendizado, percorri vários
caminhos e aprendi que autonomia, crítica e preocupação com a
função social disso não importava tanto na maioria dos âmbitos que
se sucedem na universidade: como se falássemos uma coisa e
praticássemos outra. Inclusive, esse discurso é amplamente solicitado
em muitos momentos da vida acadêmica, mas apesar de vivermos
todos os dias situações de ensino-aprendizagem nunca problemati-
zamos a maneira como nos ensinam e como aprendemos na
23
graduação; problematizamos somente as situações de aprendizado da
escola de educação básica, do outro, e não a nós mesmos. Inclusive,
foi com essa mentalidade que partimos seguros para realizar estágio
nas escolas.
Curioso, também, que, ao mesmo tempo, ainda no primeiro
semestre do primeiro ano, me deparei, nas aulas da disciplina
Psicologia da Educação, com um Freud que “explica” tudo e que
desvendou a natureza humana, tudo girava em torno do inconsciente
familiar e do falo, bom, pelo menos essa foi a impressão e a linha de
explicação que foi desenvolvida na disciplina, e isso me fez perguntar:
será que a vida se resume a esse jogo do inconsciente familiar? Por que
será que mesmo com essas descobertas de Freud as coisas não haviam
melhorado na vida das pessoas na medida em que se avançaram as
possibilidades de soluções clínicas? Será que algum autor critica
Freud? Será que se pode criticar ou enfrentar uma obra, ou um autor
de renome que, por acaso, viemos a discordar de algumas de suas
proposições?
Minha ideia foi simples: pesquisar na internet, literalmente,
“autores que criticam Freud”. Para minha surpresa existia e me
deparei com a capa do livro O anti-Édipo (DELEUZE; GUATTARI,
2010). Claro que aquilo significou muitas coisas antes mesmo de eu
ler e em seguida peguei o livro na biblioteca da faculdade, que,
inclusive, pesava nas mãos. Ao ler as primeiras páginas, entendi o que
Luiz Orlandi descrevia como “a solidão povoada” e, ao ler sobre as
máquinas e o presidente Shreber, senti o que aquilo queria dizer, não
pelos seus conceitos inéditos para mim e o modo hermético como
aquilo soava, completamente diferente das coisas que havia lido até
aquele momento, mas pelas forças de sua diferença, linguagem e
estética. Levei-o comigo no restante do percurso de formação.
24
No ano seguinte, nas aulas de Administração educacional:
teoria e prática, me deparei com mais uma problemática: a questão da
dualidade na história do conhecimento em Política e Gestão
educacional no Brasil. A ideia é que esta área de conhecimento se
configura sob a disputa entre duas perspectivas principais: a gestão
empresarial da escola e a gestão democrática da escola. Ambas
sustentam, cada uma a seu modo, a melhor maneira de administrar
uma escola para que ela alcance os fins educacionais, seja elevando os
índices de desempenho ou somando forças para a transformação
social garantindo a soberania popular. De qualquer modo, o que
seguia era um espaço mapeado em que era possível se movimentar
linear ou circularmente dentro dele. Era possível perceber, de certa
maneira, essa dinâmica também nas áreas da Didática, Sociologia,
Teoria do currículo, Educação inclusiva etc. E pelos motivos que
veremos no decorrer deste livro, mais uma vez não concordando nem
com uma e nem com outra perspectiva do conhecimento em Política
e Gestão educacional, seguia o desconforto. Será que existiria algo fora
deste registro?
Foi com essa indagação que iniciei minha participação no
Centro de Estudos e Pesquisas em Administração da Educação
(CEPAE), compartilhando e pesquisando sobre a possibilidade de
trabalhar com a teoria da Política e Gestão educacional no Brasil fora
destes dois caminhos de pesquisa possíveis. Para minha sorte,
encontrei pessoas que compartilhavam dessa mesma problemática e
me deparei com Benno Sander (1982; 1983; 1984; 2007), autor que
propunha, desde a década de 1980, um paradigma multidimensional
de gestão escolar, ou seja, existia alguém que concordava com a
dinâmica da dualidade e ainda colocava possibilidades de se pensar o
conhecimento em Política e Gestão educacional de uma maneira
diferente, ao invés de dual, agora, múltipla.
25
Nenhum autor levou adiante a empreitada de Benno Sander,
mesmo assim, aquele espaço por ele explorado poderia significar uma
saída para essa ideia de pensar de outra forma, sob outras bases. E,
também, apesar de, ao final, ser constato que ele não possuía uma
teoria das multiplicidades, o fato de abrir espaço para tentativas que
possam pensar de outra forma, de outra maneira, aspirava um
otimismo que direcionava para um lugar de possibilidade para
pesquisar como pensar de maneira múltipla este espaço aberto por
ele.1 O resultado desta pesquisa transformou-se em um trabalho de
conclusão do curso de graduação e muito mais que caminhos
alcançados, gostaria de resgatar aqui o seu início que remonta,
também, uma problemática atual de início deste livro.
Mais uma vez os problemas: “Será que um autor ou
pesquisador pode escolher uma temática de acordo com suas
afinidades e gostos? Alguns parecem saber desde sempre o que gostam
e querem, como uma empatia quase natural pela temática”, a
trajetória que foi construída até ali “[...] testemunha um movimento
contrário: o autor é escolhido pela temática”, pois ao surgir um
problema “[...] sua solução desencadeia outros e outros problemas, é
possível chegar a um lugar onde todos eles até os solucionados
aparecem relacionados, emaranhados.”
Alguns se sentem aterrorizados e logo procuram outra temática
em que o conforto e os acertos são quase certos. Outros se
maravilham com a oportunidade de viajar na instabilidade e na
1 Naquele momento o objetivo da pesquisa foi analisar, por meio do método bibliográfico, a
possível relação entre Sociedade de controle, Educação e Gestão escolar para entender como
a teoria das multiplicidades de Gilles Deleuze poderia contribuir para o conhecimento em
Gestão escolar e problematizar o paradigma multidimensional de gestão escolar de Benno
Sander (NASCIMENTO, 2014).
26
fragilidade do pensar a educação, em suas pontas, e enxergam um
mundo de possibilidades naquilo que querem fugir ou
diferenciar-se. É a empatia natural pelos problemas: não é um
caso de escolha de temáticas, mas de arbitrariedade dos
problemas. (NASCIMENTO, 2014, p. 9).
As forças que se passaram naquele momento advém hoje
atualizadas, diferentes e, ao mesmo tempo, iguais na medida em que
impulsionam e levam o corpo e a pesquisa mais uma vez aos seus
desconfortos. Estes nos impulsionam diretamente às crises e à ideia
de ter que se conduzir para uma perspectiva ou outra de gestão, e esse
movimento demonstra que o próprio conhecimento em Política e
Gestão educacional possui um modo específico de condução a este
espaço circular ou linear do qual havíamos falado. Entretanto, Benno
Sander ajuda a remontar a crise que existe no conhecimento em
Política e Gestão educacional e propõe uma solução que não permite
ultrapassá-la, mas mostra que existem caminhos possíveis para pensá-
la e para, talvez, ultrapassá-la.
Pois bem, mas o que se passou especificamente na trajetória
do conhecimento em Política e Gestão educacional no Brasil? Esta
trajetória inicia-se ao final da década de 1930 por meio da adaptação
dos princípios teóricos da Teoria Geral da Administração (TGA)
assumida como científica e utilizada na gestão de fábricas e empresas
para a área educacional: encontrada, principalmente, nos escritos de
Querino Ribeiro (1938; 1952; 1968) e Myrtes Alonso (1976). Esta
adaptação foi possível porque os autores assumem que administrar
uma escola e uma fábrica são atividades praticamente idênticas e
servem para qualquer organização desde que se tenha como base os
princípios gerais da TGA.
Até este período, o conhecimento na área foi entendido como
universal, pois era válido para as organizações de modo geral e,
27
também, neutro na medida em que se mantém técnico e não
imbricado ao contexto político e social. Esse primeiro movimento na
trajetória do conhecimento em Política e Gestão educacional no
Brasil constitui-se como perspectiva empresarial de gestão educacio-
nal e se centra no papel funcional do diretor escolar para condução
das atividades situadas especificamente na escola em busca de
eficiência e eficácia pedagógica.
Ao final da década de 1970 e ao longo da década de 1980,
iniciaram-se trabalhos na área baseados na ideia de que administrar
uma fábrica é atividade completamente diferente de administrar uma
escola, pois seus processos e seu produto final são de naturezas
essencialmente distintas, ou seja, os processos educacionais são
distintos dos processos fabris e empresariais e seu produto final, o
aluno, difere de um produto consumível como a fábrica realiza até
se pensarmos no setor de serviço uma empresa assim visa o lucro e a
escola pública visa a transmissão do conhecimento historicamente
acumulado. Com base no referencial teórico marxista, Arroyo (1979),
Félix (1985) e Paro (1986) iniciam um movimento crítico à
perspectiva empresarial de gestão educacional demonstrando sua
conivência com o modo de produção capitalista e destacando a
especificidade do trabalho escolar em relação ao trabalho fabril.
O conhecimento a partir de então é entendido como
específico, ao invés de universal, ele não é devidamente situado na
escola porque é relacionado com o contexto social e político,
portanto, ele também não é neutro, pois influencia e é influenciado
por esse contexto social dando inclusive condições de possibilidade,
junto a outros meios institucionais, para transformação do meio social
atingindo o modo de produção. Nesta perspectiva, a gestão da escola
não é mais centralizada no diretor e prevê a participação de todo
conjunto escolar e a comunidade. Conhecida como perspectiva crítica
28
ou democrática de gestão educacional, ela pressupõe que esta escola
socialmente situada pode, fundamentalmente, contribuir para a
transformação social por meio de sua gestão democrática: por meio
da participação fundamentada na soberania popular.
O que podemos observar é que o conhecimento, até então, é
constituído, ou classificado em duas perspectivas notadamente
antagônicas, é uma dualidade do conhecimento em Política e Gestão
educacional como havia dito: uma empresarial e outra democrática.
A implicação é que esse antagonismo ou dualidade se torna
fundamento do conhecimento em Política e Gestão educacional com
o passar dos anos. Isso significa que para construirmos conhecimento
em Política e Gestão educacional precisamos trabalhar com e por
meio dessa dualidade, pois ela se constitui como uma regra de
formação do conhecimento na área. Neste livro a ideia de regras de
formação é entendida como o conteúdo de saber e poder que tornam
possíveis os processos de subjetivação do pesquisador em Política e
Gestão educacional no Brasil e montam seu perfil de conduta. Em
geral, elas servem para manter, administrar e reproduzir uma situação
ou problemática.
Tem funcionado mais ou menos assim: determinado
pesquisador é adepto a uma das perspectivas e, por isso, parte do
imaginário de que existem somente elas ou pode-se também pensar,
quando raramente se pensa nisso, que como elas se constituem como
hegemônicas qualquer outra não constitui corpo de análise suficiente
para tal; com uma das perspectivas em mãos o pesquisador realiza um
trabalho crítico desconstruindo os aspectos mais significantes da
perspectiva oposta a sua, isso para impor e evidenciar os aspectos
relevantes da perspectiva da qual faz parte.
Esta ideia tem conduzido, seja em uma perspectiva ou em
outra, a base para construção de análises na área acadêmica,
29
construção de políticas públicas para educação, enfrentar problemas
e multiplicar temáticas no âmbito do conhecimento em Política e
Gestão educacional no Brasil. Ou seja, o foco no momento de
construção do conhecimento ou de pensar políticas públicas, ou
situações de gestão fica restrito ao aprimoramento ou à reprodução
dessas duas perspectivas. A grande preocupação dos pesquisadores
atualmente será justamente lutar contra a perspectiva empresarial,
seus processos de alargamento da divisão de classes e manutenção do
modo de produção capitalista ou, do lado contrário, lutar contra a
perspectiva democrática alegando que suas injustiças sociais são
combatidas com resiliência, condições meritocráticas justas e que a
qualidade educacional não vem com a participação de todos de
maneira livre, mas que essa participação deva ser conduzida por um
gestor (líder) que saiba manejar as emoções e organizar racionalmente
o espaço, o cotidiano e o clima escolar.
Levando adiante a constatação de que a dualidade tem se
fundamentado como uma regra de construção do conhecimento
podemos ver o período atual tentando dar conta de manter as duas
perspectivas como modelos coerentes, confortáveis de pesquisa, que
não permitem adentrar à possível crise que poderia existir no
conhecimento em Política e Gestão educacional. A experiência de
trabalhar com Benno Sander e Gilles Deleuze naquele momento
inicial de pesquisa foi uma tentativa de fazer emergir essa crise e
entender o modo como estes modelos ou perspectivas se constroem e,
indo além, contrabalanceiam outras formas de pensar esse
conhecimento fora dos modelos propostos.
Podemos destacar algumas consequências institucionais e
acadêmicas em que este primeiro movimento do conhecimento em
Política e Gestão educacional teve influência importante. Em 1961,
os professores universitários que buscavam fomentar esse
30
conhecimento fundaram a Associação Nacional dos Professores de
Administração Escolar (ANPAE) e criaram seu próprio periódico e
eventos acadêmicos com a intenção de se reunir para divulgar os
escritos e as discussões sobre as diversas temáticas e problemáticas
contidas na área.
Um dado interessante que podemos destacar aqui é que a
dualidade também atravessou os escritos dos membros da ANPAE,
por exemplo, no trabalho de Maia (2004) podemos observar que
apesar das diversas temáticas e referenciais teóricos inéditos e
diferentes utilizados para pensar o conhecimento em Política e Gestão
educacional2, ele ainda se direcionava para as discussões colocadas
pela dualidade. A autora faz um levantamento sobre os escritos
contidos nos periódicos3 da ANPAE e ao final coloca como grande
questão se o debate poderia ser fundamentado entre a administração,
legado dos primeiros escritos e da TGA, e a Gestão, legado das
discussões sobre participação, especificidade da educação e a
transformação social, como modelos possíveis para alcançar a
qualidade educacional e fundamento do conhecimento em Política e
Gestão educacional no Brasil. Destaca-se, também, que os princípios
da perspectiva democrática tomaram força a partir deste momento e
influenciaram parte do conteúdo da Constituição Federal (BRASIL,
1988) que, por consequência, prevê a gestão democrática da escola na
forma da lei e, posteriormente, influencia também a Lei de Diretrizes
e Bases da Educação (BRASIL, 1996).
2 Mousquer (2003), Alves (2007), Catapan (1995), Junquilho, Almeida e Silva (2012),
Menin (1997), Santos (2008).
3 A autora relata que a ANPAE mantém, desde 1983, uma revista científica que foi
denominada Revista Brasileira de Administração escolar (RBAE), posteriormente, Revista
Brasileira de Administração da Educação (RBAE) e, atualmente, Revista Brasileira de Política
e Administração da Educação (RBPAE).
31
Seguindo o curso, ao final da década de 1980, segundo Souza
(2006, p. 98), o aumento das pesquisas acadêmicas na área
educacional, especialmente pesquisas de campo, influenciaram a área
da Política e Gestão educacional e, ao fundamentar-se na perspectiva
democrática e nos avanços legais alcançados, realizou trabalhos de
campo na intenção de investigar as possibilidades de aplicação dos
princípios da gestão democrática na realidade escolar: foi um
momento de “[...] apresentação de novos temas ao universo da gestão
escolar e com a procura crescente por pesquisas que visam observar o
funcionamento das escolas e dos seus processos de organização e
gestão”, sendo que
[...] esses temas todos foram discutidos de forma mais próxima
às realidades escolares, tanto quanto é possível ser verificado.
Isso, contudo, não significou modificações sentidas nos rumos
do pensamento sobre a gestão escolar nesse período, pois
parecem ainda fortes as marcas deixadas pelo período anterior
(SOUZA, 2006, p. 124).
Assim, podemos ver principalmente nos trabalhos de Mello
(1993), Alonso (1995), Oliveira (1997), Lück (2006; 2011) na
década de 1990 e na primeira década dos anos 2000 a insistência e
o aprimoramento da dualidade que estamos falando. Agora, ambas as
perspectivas sustentam, cada uma à sua maneira, que a participação
na gestão da escola é caminho para qualidade educacional. Temos
também neste período uma pluralidade de temáticas na pesquisa
32
acadêmica da área 4 e um aumento significativo das pesquisas de
campo5.
Esse contexto colocou um problema para o conhecimento em
Política e Gestão educacional, em especial para as pesquisas de campo,
que desvendam a problemática entre teoria e prática que concomi-
tantemente se estabeleceu. Segundo Souza (2006), estes trabalhos
acadêmicos, por um lado, constituíram-se como prescritivos na
medida em que indicam o que a escola deveria fazer para ter uma
gestão democrática e de qualidade e, por outro lado, os trabalhos
acadêmicos ficaram restritos aos relatos e denúncias de problemas e
experiências de gestão. Ou seja, relatam experiências problemas ou
criam uma lista de boas práticas que a escola deveria seguir para
realizar uma gestão democrática. Desde que, claro, a relação teoria e
prática não fosse problematizada em seu conjunto.
Desta situação destacam-se duas implicações. A primeira é a
implicação do por- vir6. A perspectiva democrática é entendida como
4 Wittmann e Gracindo (2001) são onze: Direito à Educação e Legislação; Escola Instituições
Educativas e Sociedade; Financiamento da Educação; Gestão da Escola; Gestão da
Universidade; Gestão de Sistemas Educacionais; Municipalização e Gestão Municipal;
Planejamento e avaliação de Sistemas Educacionais; Políticas da Educação; Profissionais de
Educação; Público e Privado na Educação.
5 São elencadas quatro categorias no Estado da arte: gestão, autonomia escolar e órgãos colegiados
de Martins (2011): Relações e Práticas Intra-escolares; Programas e Projetos; Espaço e Canais
de Participação Intra-escolares; teorias e conceitos Martins, Silva e Tavares (2011). 5
Segundo Martins, Silva e Tavares (2011), na produção científica discente são 174 produções
42% sobre as Relações e Práticas Intra-escolares que analisam as organizações e as
vivências humanas no cotidiano escolar e 161 produções 40% sobre Programas e Projetos
que analisam a repercussão dos programas nas escolas.
6 Necessariamente, essa implicação tem relação com a teleologia e sabemos que esta exige
aprofundamento conceitual e analítico. Como neste livro privilegiamos a discussão da
dualidade e da prescrição o por-vir, foi contemplado como implicação, deixamos nesta nota
apenas a explicitação de seu entendimento teleologia no autor que subsidiou os
33
paradigma e unidade de análise única para os problemas e temas da
Política e Gestão educacional, ademais, é constituída como modelo
de gestão para as escolas públicas tanto no âmbito da formação de
professores quanto para a aplicação de políticas públicas. Isso vale
também se no caso exemplificado considerarmos a gestão empresarial
como unidade de análise. Há toda uma implicação teórico-prática de
esperar a gestão democrática acontecer e, ainda, que ela irá solucionar
os problemas educacionais e trará qualidade pedagógica.
Esse suposto por-vir parece ainda não vingado, ao menos na
investigação científica. Há, em parte considerável da produção,
um compasso de espera por novas teorias, por trabalhos que
apontem novos rumos. Enquanto isso, a pesquisa caminha, mais
próxima é verdade dos casos empíricos, relatando alguns bem (ou
mal) sucedidos casos de democratização da gestão escolar e,
muitas vezes, normatizando ou prescrevendo as formas pelas
quais as escolas devem se orientar para alcançar aquele por-vir.
(SOUZA, 2006, p. 124 destaques do autor).
Decorrente disso, destacamos a segunda implicação: a
prescrição. Por um lado, a espera deste porvir no âmbito acadêmico-
teórico causa uma estagnação do conhecimento que reproduz a
pesquisadores da perspectiva democrática ou crítica. Em Marx (1983), a teleologia é
exemplificada em uma passagem na qual ele compara o homem tecelão à aranha, indicando
que é próprio/natural do primeiro a intencionalidade que põe no trabalho: Uma aranha
executa operações semelhantes às do tecelão, e a abelha supera mais de um arquiteto ao
construir sua colméia. Mas o que distingue o pior arquiteto da melhor abelha é que ele figura
na mente sua construção antes de idealmente na imaginação do trabalhador. Ele não
transforma apenas o material sobre o qual opera; ele imprime ao material o projeto que tinha
conscientemente em mira, o qual constitui a lei determinante do seu modo de operar e ao
qual tem de subordinar sua vontade”. (MARX, 1983, p. 149-150).
34
dualidade e, por consequência, também uma regra de construção do
conhecimento, e permanece esperando novas teorias e caminhos
metodológicos, sem se modificar, ou melhor, sem modificar
justamente seu modo de construção do conhecimento. Por outro
lado, no âmbito da prática ou vivência escolar, mesmo contando com
o receituário, a gestão democrática não se realiza e se contenta em
acertar problemas aqui e ali que a teoria tem mostrado por meio de
pesquisas de campo e da análise de experiências de políticas e de
gestão. Se em âmbito teórico a perspectiva da gestão democrática
parece ter a solução para os problemas educacionais, já em âmbito
prático os integrantes da escola não captam os reais problemas do
contexto escolar, e talvez por isso precisam de um pesquisador que os
desvendam, ou, talvez, não realizem de maneira eficaz o receituário
de boas práticas lançado por esses pesquisadores.
Podemos apontar também que o problema a ser enfrentado
ou o empecilho no caminho da realização da gestão democrática se
deve ao fato justamente de o Estado estar conivente com o modo de
produção capitalista e seu aprimoramento. O que implicaria também
no modo como as pessoas do cotidiano não contrabalanceiam uma
crítica a estas práticas e se movimentam em torno das demandas do
Estado e não junto ao movimento estabelecido pelos pesquisadores.
Considerando que a educação é um direito assegurado pelo Estado,
na Constituição Federal (1988) e, por isso, ela deveria movimentar
socialmente e tecnicamente a instituição escolar para realização deste
direito, Paro (2000, p. 19) coloca em dúvida a ideia de que exista “[...]
real interesse do Estado em dotar a população, em especial as amplas
camadas trabalhadoras, de um mínimo de escolaridade, expresso na
própria Constituição, mas que não encontra correspondente em
termos de sua concretização.”
35
Eis o problema: será que a teoria está captando os reais
problemas de gestão vivenciados nas práticas escolares? Por que a
culpa desse suposto fracasso fica localizada naqueles que deveriam
implantar e realizar as práticas democráticas ou localizada no Estado
como mobilizador de políticas públicas da educação sem interesse
comum com as camadas populares? Será que ao prescrever um
receituário de boas práticas de gestão para o cotidiano da escola o
conhecimento não acaba por indicar para si mesmo uma receita, uma
regra de formação desse conhecimento, que o impede de olhar novos
rumos teóricos e problemas teóricos e práticos? Em suma, e
recapitulando, o grande problema é que a gestão democrática não se
realizou e a culpa disto é comumente tratado como um problema de
implantação, ou seja: os integrantes da escola não realizam os
receituários dos pesquisadores ou mantém-se alienados sob os
aspectos ideológicos que a visão de mundo empresarial os coloca, ou
o Estado, por não ter interesse que a classe trabalhadora tenha acesso
ao conhecimento, preocupa-se em manter o status quo e o modo
capitalista se perpetua.
O fato é que analisar e construir conhecimento na escola
significa um passo importante para as pesquisas educacionais e de
modo geral cria espaços de experimentação dos propósitos teóricos e
das políticas públicas enviesadas por eles, multiplicando as temáticas.
Mas é fato também que na área de Política e Gestão educacional no
Brasil construir conhecimento a partir da escola não significa construir
conhecimento com a escola e para a escola como vimos com o
problema da prescrição ou seja, não há
[...] garantia alguma de que não sejam estudos prescritivos e que,
ao irem até a escola para analisar sua gestão, acabem por vezes
mais preocupados em ou relatar experiências (bem) sucedidas de
36
gestão (o que em si não é um problema) ou, de outro lado,
terminem por apresentar um receituário de como as coisas
deveriam ocorrer para o bom funcionamento (leia-se
democrático) da instituição escolar. (SOUZA, 2006, p. 122).
Pesquisas situadas no âmbito do CEPAE, o qual integro desde
2012, aderem a este campo problemático e puderam destacar em
sua trajetória dois desafios principais para as pesquisas em Política e
Gestão educacional (ABDIAN; NASCIMENTO; SILVA, 2016). Os
efeitos deste campo sentidos na trajetória do CEPAE começaram com
pesquisas analisando problemáticas envolvendo a formação, função e
formas de provimento do cargo do gestor. Este momento foi muito
importante, pois as pesquisas destacaram que a formação e a forma de
provimento do cargo do gestor não garantem necessariamente uma
gestão democrática ou encaminham necessariamente a escola para
uma gestão empresarial. Tinha-se a ideia de que um gestor que
assumiu o cargo por eleição poderia estar mais próximo dos
propósitos dos que o elegeram e um gestor concursado não e, neste
caso, ele poderia estar distante de quem o elegeu e mais próximo de
executar as diretrizes tendencialmente vinculadas ao modo de
produção que o Estado impõe como demanda educacional.
Posteriormente, o grupo analisou a relação da gestão com a
qualidade da educação entendendo, mais uma vez, que gestão
democrática não garante qualidade de ensino e, ainda, que as mais
variadas concepções de qualidade educacional não permitem avaliar
essa relação direta entre gestão democrática e qualidade da educação,
assim, o grupo chega aos mesmos problemas anteriormente
destacados: os fundamentos democráticos ou empresariais não
garantem qualidade educacional seja lá o que for isso a priori. O
que se pode enfatizar é que no âmbito destes problemas não adianta
37
termos uma virada teórica que explica a especificidade da escola ou
que realiza pesquisas de campo a partir do cotidiano “[...] se não nos
voltarmos para nosso modo de construir o conhecimento e de
interagir com o cotidiano escolar” (ABDIAN; NASCIMENTO;
SILVA, 2016, p. 472).
A busca por novos referenciais teóricos vem da defesa de que
precisamos modificar nosso modo de construir e ensinar o
conhecimento na área e que ele precisa ser produzido e/ou (re)criado.
No percurso do grupo por novos referenciais, ao longo destes anos,
foram trabalhados autores como Pierre Bourdieu, Michel de Certeau,
Boaventura de Sousa Santos, Michel Foucault, Norman Fairclough,
Gilles Deleuze, Félix Guattari, Chantal Mouffe e Ernesto Laclau
juntamente com bibliografia secundária sobre Política e Gestão
educacional que ajudaram a investigar essa ideia de construção do
conhecimento, os empecilhos e as dificuldades de realizá-la.
Esses autores e as pesquisas do grupo permitiram concluir que
o conhecimento não vem pronto, nos esperando para ser descoberto
e vivenciado em um por-vir, no futuro, mas precisa ser criado neste
momento presente com a crítica ao conhecimento produzido na área
que os problemas atuais permitiram enxergar, ou seja, “[...] o estão
prontos e homogêneos para serem descobertos delineando seu
progresso, mas fragmentados e heterogêneos para serem construídos
delineando sua dispersão” (ABDIAN; NASCIMENTO; SILVA,
2016, p. 473), em seus efeitos de variação e não de repetição.
Eis os desafios que este contexto e os novos referenciais nos
colocam. O primeiro é a “[...] possibilidade de repensarmos a própria
função da teoria e, consequentemente, a forma como ela é
construída.”, ou seja, se a teoria da Política e Gestão educacional “[...]
não tiver o teor prescritivo, de dizer à escola o que ela deve fazer,
teremos que buscar nova relação teoria e prática, que exigirá a busca
38
de novos horizontes teórico-metodológicos” (ABDIAN;
NASCIMENTO; SILVA, 2016, p. 475). Como seria essa nova
relação da teoria com a prática que busca construir um conhecimento
em conjunto com ela? Em que ela se diferencia das pesquisas recentes
que foram a campo?
Outro desafio é justamente realizar uma crítica radical a este
conhecimento prescritivo entendendo que ele é limitado e impõe uma
regra de formação que o impede de avançar. A ideia é inverter o
direcionamento da crítica que se debruça sobre o cotidiano e o Estado
e direcioná-la ao próprio conhecimento, ou no mínimo incluí-lo, isso
porque, esse contexto problemático alimenta a ideia de que talvez o
problema não seja o de implantação da gestão democrática no
cotidiano, ou não somente, mas que o problema pode ser do
conhecimento que não capta outros problemas deste contexto e não
se movimenta para isso, ou seja, este contexto problemático
demonstra os limites e vacilos da própria teoria. Assim, poderíamos,
com o cotidiano,
[...] utilizar ferramentas conceituais que nos destaquem das
teorias tradicionais (no caso da gestão, da teoria geral da
administração) e das teorias críticas (no caso da geso, da teoria
prescritiva da gestão democrática) na medida em que nos
afastemos ‘de explicações universais’ e busquemos ‘explicões e
narrativas parciais’, situadas no local e no particular. (ABDIAN;
NASCIMENTO; SILVA, 2016, p. 477).
Após o percurso que fizemos, incluindo minha inserção nas
pesquisas com a temática deste livro e os desafios que fomos
encontrando ao contatar os principais escritos da área desde 2012
como aluno da graduação em Pedagogia, temos todos os elementos
39
para esboçar o problema central tratado aqui, nossa hipótese e o
caminho teórico-metodológico que percorremos.
Nosso problema é: como as regras de formação em Política e
Gestão educacional se constituem e operam na história deste
conhecimento, impedindo-o de avançar em outras direções em sua
produção? A hipótese que nos acompanhará no decorrer desse livro
foi a de que a investigação e o mapeamento dos elementos que
constituem essas regras dualidade e prescrição podem possibilitar
definirmos a maneira como elas operam na construção desse
conhecimento, impedindo-o de avançar em outras direções. Ou seja,
admitimos que somos governados por um modo de se fazer pesquisa
e não é possível não sermos, mas queremos explicitar o modo operante
para podermos, quem sabe, pensarmos se é assim que queremos ser
governados.
Entendemos o conhecimento da temática como aquele que se
iniciou com os principais autores que buscaram construir uma
“teoria” de Administração escolar e que continuou com autores que
buscaram compreender a “prática” de Administração escolar, após
considerarem suficientemente munidos conceitualmente. Nesse
sentido, para dar conta dos elementos que constituíram nossa
hipótese, o material de análise se compõe de autores clássicos da
Administração escolar, um conjunto de pesquisadores que fazem
trabalho de revisão da literatura da área e Estados da Arte do
conhecimento. O material será apresentado de forma pormenorizada
durante a construção dos capítulos.
Como caminho metodológico, utilizamos a cartografia
esquizoanalítica de Gilles Deleuze e Félix Guattari porque, além de
estes autores comporem junto às indagações de pesquisas anteriores
que nos permitiram chegar até aqui, possuem um mapeamento destas
regras baseados em uma perspectiva de análise das multiplicidades.
40
Para nós, portanto, “cartografar implica produzir uma diferença de
natureza na forma como entendemos o fazer metodológico,
realocando-o para uma posição de mobilização, maquinismo que lida
com trajetos e devires e não mais com pessoas e objetos” (REGIS;
FONSECA, 2012, p. 273).
Poderíamos até dizer, de maneira demasiadamente grosseira,
que o conhecimento em Política e Gestão educacional fora mapeado
até então sob teorias duais de análise. Porém, Deleuze e Guattari nos
permitem mapear essas regras em direção à produção de
subjetividade, à concepção do pesquisador, em nosso caso, alinhados
com a produção de verdade e as relações de poderes envolvidos nesta
construção:
[...] trata de movimentos, relações, jogos de poder,
enfrentamentos entre forças, lutas, jogos de verdade,
enunciações, modos de objetivação, de subjetivação, de
estetização de si mesmo, práticas de resistência e de liberdade ou
mesmo formas históricas de estetização e produção de si mesmo.
(REGIS; FONSECA, 2012, p. 47).
Nesses termos, podemos, enfim, delinear os contornos do
campo problemático que envolve nossa pesquisa. Podemos demarcar
os desafios do conhecimento em Política e Gestão educacional no
Brasil como demandas que podem redimensionar o modo que ele
próprio dimensiona as situações de pesquisa para que, justamente, ele
não se diferencie e desmorone todo o aparato de pesquisa conquistado
ao longo dos últimos anos. Em outros termos, podemos dizer que ao
não conquistar a gestão democrática da escola pública e a qualidade
de ensino esperada, modificamos a direção da crítica apontada para o
cotidiano da escola ou para o Estado respectiva e supostamente
alienado e interessado no status quo e a direcionamos para o próprio
41
conhecimento. E voltamos a indagar: por que a culpa da gestão
democrática não se realizar recai somente sobre o cotidiano da escola
e não no conhecimento que busca pensá-lo se a criação da teoria seria
uma relação? Os problemas que identificamos são, justamente, os
fundamentos que delineiam essa relação: prescrição; pois, agora,
sabemos que existe todo um aparato teórico, não só teórico como
veremos, que sustenta a suposta fidedignidade científica nos meios de
pesquisa da qual pretendemos investigar.
Em termos estruturais, esse livro é constituído por três
capítulos. No capítulo um, construímos as condições de possibilidade
de nosso objeto de pesquisa por meio da análise do referencial teórico
que embasa as pesquisas atuais sobre Política e Gestão educacional no
Brasil e remontamos seu espaço cartográfico adentrando aos processos
de subjetivação e de funcionamento da ideologia. Ainda neste
capítulo, com as condições de possibilidade do objeto de pesquisa em
mãos, delineamos contornos da cartografia esquizoanalítica como
estratégia flexível de análise crítica em contraposição à metodologia
do trabalho científico. O objetivo foi construir uma trama singular de
análise ao estabelecer uma condição de reciprocidade e revezamento
entre a Cartografia esquizoanalítica e o conhecimento em Política e
Gestão educacional no Brasil.
Constituindo-se por material de pesquisas coletivas Estados
da Arte, revisão de bibliografia, levantamento bibliográfico -, o
capítulo dois contém o mapeamento e análise dos elementos
principais de funcionamento das regras de formação na área,
considerando a divisão proposta entre Política e Gestão e
investigamos, na Gestão, como a dualidade impõe uma regra
particular de formação e, na Política, como a prescrição funciona
como uma prática de suporte à dualidade.
42
No capítulo três, trazemos a explicitação dos elementos que
constituem as regras de formação em operação no exercício teórico-
prático de um autor representativo no conhecimento em Política e
Gestão educacional (PARO, 1987; PARO, 2000) cuja extensa obra é
composta, entre outros, por dois livros que são, respectivamente, a
prática da construção teórica da perspectiva democrática ou crítica e
a pesquisa de campo em uma escola pública estadual paulista. A
construção deste capítulo permitiu-nos construir as Considerações
finais, explicitando as regras de formação em exercício na história da
produção do conhecimento e, em conjunto com os capítulos
anteriores, responder às questões lançadas nesta Introdução.
Sobretudo, defender a tese de que a forma que as regras de formação
operam em Política e Gestão educacional constituem um modo de
produção que impede o conhecimento de diferenciar-se e se fazer
avançar em outras direções.
43
CAPÍTULO 1
Política e Gestão educacional no Brasil e
Cartografia esquizoanalítica: entre a metodologia
do trabalho científico e a estratégia flevel de
análise crítica
Foucault não ignora de modo algum a repressão e a ideologia,
mas, como Nietzsche já havia visto,
elas não constituem o combate de forças,
são apenas a poeira levantada pelo combate.
(DELEUZE, 1988, p. 38-39).
O principal objetivo deste capítulo é estabelecer uma
aproximação, um entremeio, entre a cartografia esquizoanalítica, a
qual também denominamos análise cartográfica, e a área de
conhecimento em Política e Gestão educacional no Brasil para
delinear nosso objeto de pesquisa, os critérios e características do
modo de análise do qual procedemos. A distância que se segue em
relação às temáticas e objetos destas duas perspectivas teóricas não
impede uma aproximação que se dá em torno dos problemas e
desafios de uma e da ocupação da outra.
Não podemos simplesmente entender a cartografia
esquizoanálitica como um método de análise e o conhecimento em
Política e Gestão educacional como um objeto de pesquisa. O que
podemos e pretendemos é estabelecer uma relação em que a
44
cartografia se modifique em torno dos problemas e desafios da área
da Política e Gestão educacional e localizar o nível cartográfico em
que se encontram as regras de formação do conhecimento em Política
e Gestão educacional para delinear uma estratégia flexível de análise
crítica em contraposição a uma análise proveniente da tradição
colocada pelos manuais gastos de metodologia do trabalho científico
que a área de Política e Gestão educacional tem se valido.
Enfatizamos que, se caso este modo tradicional fosse feito
abordar a cartografia esquizoanalítica como método e o
conhecimento em Política e Gestão educacional como objeto , seria
apenas a imposição de uma perspectiva teórica sobre a outra. Ao
contrário, a ideia é a criação de revezamentos entre os elementos de
uma sobre a outra para constituírem um espaço singular de análise.
Isso porque, como bem nos lembra Prado Filho e Teti (2013, p. 46),
[...] ainda que existem tantas cartografias possíveis quanto
campos a serem cartografados, o que coloca a necessidade de uma
proposição metodológica estratégica em relação a cada situação
ou contexto a ser analisado, indicando que dessa perspectiva
método e objeto são figuras singulares e correlativas, produzidas
no mesmo movimento, e que não se trata aqui de metodologia
como conjunto de regras e procedimentos preestabelecidos, mas
como estratégia flexível de análise crítica.
Pois bem, os problemas específicos do conhecimento em
Política e Gestão educacional do qual trataremos aqui emergem a
partir do momento em que entendemos que ele possui limites de
análise por não responder efetivamente às demandas colocadas pelo
cotidiano da escola e por fazer questão de deixar esses problemas em
segundo plano para que outros problemas talvez os mesmos dos
45
últimos trinta anos tomem seu lugar por serem considerados
essenciais e/ou urgentes.
E, claro, isto já é entendido aqui como um problema central.
Ou seja, a própria ideia de considerar os limites do conhecimento em
Política e Gestão educacional como um problema de análise faz parte
deste movimento, porém, é comum colocá-lo em segundo plano e
isso ocorre por um deslocamento específico: o conhecimento é
dividido em duas perspectivas e uma perspectiva coloca sobre a outra
o problema dos limites de análise para, em seguida, sugerir que o
problema também é que o cotidiano da escola não segue de maneira
efetiva os indicativos contidos nos resultados destas pesquisas.
Entendemos que estes limites de análise se formam, de alguma
maneira, como resultado de regras de formação que impõem,
sutilmente, uma maneira específica de se fazer pesquisa que perdura
há algum tempo. Nossa hipótese é que o problema da dualidade, da
prescrição e do porvir são evidências que formam a sintomatologia
dessas regras de formação e que mantém o conhecimento em Política
e Gestão educacional estagnado e impõe os desafios que nos
ocuparemos, a saber: pensar como esse conhecimento é produzido a
fim de entender seus limites diante das regras de formação ao qual
está submetido, uma espécie de autocrítica do conhecimento em
Política e Gestão educacional.
Outro desafio é discutir o modo como ele é construído e
seguir pistas que vislumbrem outros modos de produzi-lo ao invés de
reiterar a espera da qualidade educacional e, por consequência, a
solução dos problemas educacionais estrategicamente deslocados para
segundo plano. Faremos operar uma maneira de pesquisa que entende
o cotidiano não somente como receptor e operador das teorias e
receituários, como se a gestão da escola fosse um meio para se atingir
fins colocados antes e acima dela pelo Estado ou pelos teóricos,
46
constituídos a priori, que visam ser implantados no cotidiano escolar
como único modo de enfrentar os problemas educacionais, mas,
também e acima disso, torná-lo lugar de criação e produção histórica
do conhecimento em Política e Gestão. Dessa forma,
A cartografia coloca-se o desafio de conduzir a heterotopias:
espaços outros, novos mundos, novas paisagens, novas relações,
também novas formas de existência e de subjetividade, novos
modos de relação do sujeito consigo mesmo que possibilitem
exercício de liberdade não liberdade como ideal abstrato, posto
a priori, mas como prática concreta, como linha de fuga.
(PRADO FILHO; TETI, 2013, p. 50).
Nesse contexto, a cartografia esquizoanalítica se ocupa
exatamente desse espaço onde o pesquisador se depara com essas
regras de formação, com essa norma, essa forma, as quais designam a
maneira pela qual ele e os integrantes da escola devem ocupar os
espaços de pesquisa, do trabalho escolar e, fundamentalmente, da
relação entre eles. Ou seja, ela se ocupa dos processos de subjetivação
os quais
[...] implicam um movimento do sujeito em relação a si mesmo
no sentido de reconhecer-se como sujeito de um enunciado, de
um preceito, de uma norma, fazendo com que estes operem no
seu próprio corpo, o que envolve um conjunto de trabalhos e
práticas de si visando estetizar-se e produzir-se conforme
enunciado pelo preceito ou pela norma (PRADO FILHO;
TETI, 2013, p. 50).
E como acabamos de ver, a ideia é exatamente fugir desta
conformidade com a norma para estabelecer outras maneiras de fazer
pesquisa e de participar de seu conjunto. Eis que chegamos aos
47
pressupostos básicos que permitem destacar a aproximação entre a
cartografia esquizoanalítica e o conhecimento em Política e Gestão
educacional, pois a “[...] subjetividade constitui objeto privilegiado
para a cartografia” (PRADO FILHO; TETI, 2013, p. 57).
Portanto, nossos objetivos para este capítulo são: em um
primeiro momento, estabelecer o nível cartográfico do conhecimento
em Política e Gestão educacional no Brasil, ou seja, localizar o lugar
preciso, talvez não seja o único, claro, que permita a investigação
sobre os elementos do conhecimento que estabelecem as regras de
formação, as quais delineiam um modo específico de se fazer pesquisa
e permitem, também, a construção de nosso objeto de pesquisa; em
um segundo momento, trataremos de entender em que se pode
reconhecer a cartografia esquizoanalítica e como ela pode se
aproximar da área de conhecimento da Política e Gestão educacional,
ou seja, contextualizar a cartografia esquizoanalítica no plano das
Ciências Humanas como lugar de produção do conhecimento e
delinear as características, elementos, critérios e categorias básicos
para o desenvolvimento de estratégias flexíveis de análise crítica dos
problemas do conhecimento em Política e Gestão educacional.
1.1 Conhecimento em Política e Gestão educacional no Brasil:
entre a ideologia e os processos de subjetivação
Precisamos, portanto, estabelecer e alcançar o lugar em que se
opera exatamente a produção de subjetividade no conhecimento em
Política e Gestão educacional. As pistas para se alcançar esse lugar se
encontram exatamente nos fundamentos teóricos que se
estabeleceram na relação entre os pesquisadores e a prática da escola,
mas poderia ser outro, talvez. Lugar esse que é considerado um dos
maiores avanços do conhecimento em Política e Gestão educacional,
48
o qual monta e indica o ponto de partida para os pesquisadores e o
modo ético que eles ocupam na dinâmica de construção do
conhecimento. Ou seja, o trabalho de pesquisa com o cotidiano
escolar ou o que podemos chamar de pesquisas de campo pode
ser demarcado como um dos principais avanços na área de
conhecimento em Política e Gestão educacional no Brasil. Isto tanto
pela oportunidade de experimentar e vivenciar estes avanços teóricos
em torno da teoria e perspectiva da gestão democrática da escola
pública, quanto por agregar o princípio democrático de participação
de todo conjunto escolar pais, alunos, professores, diretores, serviços
gerais, merendeiras, supervisores, etc. na construção histórica da
Política e Gestão educacional brasileira.
Esse movimento indica que existe uma prática dialética em
que os avanços teóricos fazem parte da criação das políticas
educacionais e da gestão da escola e que estas fazem parte, por sua vez,
da construção histórica do conhecimento em Política e Gestão
educacional no Brasil.
Essa relação entre teoria e prática, em seu movimento
dialético, soma forças contra os poderes ideológicos investidos pelo
modo de produção capitalista que perpassam as práticas de Estado e
de suas políticas públicas, também educacionais, e o modo social de
vida precarizados pelas relações de classe. Eles, agora, são tensionados
pelo princípio de soberania popular o qual constitui a participação
democrática na criação das políticas públicas e da gestão da escola em
um processo de perquirição da ideologia: demarcando, assim, uma
maneira de resistir, uma espécie de contrapoderes ao modo de
produção capitalista e seus processos ideologizantes.
Esses modos de resistências agem contra os aspectos
ideológicos tradicionais que estariam arraigados nas práticas escolares,
a saber, a perspectiva empresarial de gestão educacional. E, com sorte,
49
culminaram em contrapoderes que potencializariam a transformação
social deste modo de produção. É necessário lembrar que para a atual
conjuntura do conhecimento em Política e Gestão educacional essas
frentes ideológicas estariam sobrepostas as práticas escolares e as
perspectivas teóricas advindas da gestão empresarial e jamais nas
perspectivas democráticas ou críticas de gestão educacional.
É importante destacar que o modo injusto de desenvolvi-
mento da sociedade, para esse modo de entender a escola, age por
meio da ideologia e é contra ela que as pesquisas em Política e Gestão
educacional lutaram e que hoje em dia ainda lutam contra.
Seguiremos, a partir de então, as pistas deixadas por Gallo (2009) para
dar conta dessas questões. Pois bem, a ideia de ideologia pensada por
Karl Marx e Friedrich Engels (2007) que se encontra no âmago
destas discussões sobre o conhecimento em Política e Gestão
educacional se edificou como forma de contrapor o modo de se
fazer ciência em seu período histórico, século XIX, pensados na
época principalmente por Destutt de Tracy e o idealismo neo-
hegeliano7 e é um “[...] conceito de apoio, um apêndice que o
auxilia na construção de sua filosofia social” (GALLO, 2009, p. 11).
Segundo Gallo (2009), o motivo se deu ao fato de que essas
perspectivas neo-hegelianas não passavam de falsas ideias sobre a
realidade na medida em que sua construção não tinha vínculo
imediato com a realidade social e, por consequência, tendiam a
mascará-la. Eis que a contraposição de Marx e Engels em relação a
esses autores foi a de pensar uma teoria que fizesse esse vínculo
imediato com a realidade social, ou seja, uma teoria material da
realidade.
7 Bruno Bauer, Ludwig Freuerbach, Friedrich Strauss e Max Stiner.
50
Para isso, segundo Gallo (2009, p. 13), seu primeiro passo foi
criar uma noção material de homem: “[...] procurando entender o
homem concreto e como esse homem, consciente, produz suas idéias
acerca do mundo.” Ao contrário do idealismo neo-hegeliano, Marx e
Engels (2007) entendem que o homem não era um produto ideal do
pensamento e sim um produto concreto de seu momento histórico e
dos instrumentos e utensílios que manufaturava para se sustentar,
sobreviver, conquistar o mundo, e, fundamentalmente, produzir
historicamente sua ação. Pontuando que este contexto histórico lhe
dá limites para criação de sua ação visto que lhe dá condições materiais
para algumas delas e outras não: “Ninguém produz a vida que quer,
desvinculada do mundo, mas produz a vida que é possível com base
naquilo que o mundo lhe oferece” (GALLO, 2009, p. 13).
Se o homem produz nessas condições materiais, então a sua
relação com elas também o produz, e não o contrário como era
veiculado na época pensamento desvinculado da realidade material
e, a partir daí, podemos acrescentar que outros homens também
fazem parte dessa relação, produzindo-se em sociedade. Portanto,
cada “[...] indivíduo será um espelho das relações sociais que participa
com o intuito de sobreviver” (GALLO, 2009, p. 14) facilitando e
aprimorando a vida cotidiana em sociedade. Em suma, o “[...] que
eles são coincide, pois, com sua produção, tanto com o que produzem
como também com o modo como produzem. O que os indivíduos são,
portanto, depende das condições materiais de sua produção” (MARX;
ENGELS, 2007, p. 87 grifos dos autores).
Assim como Marx e Engels apontam que a sociedade e a sua
organização não são o fruto de nossas idéias, mas dos
relacionamentos básicos que tratamos para garantir a nossa
sobrevivência e dos meios naturais disponíveis, procurarão
também mostrar que a produção do conhecimento humano, de
51
modo análogo, é determinada pelas condições materiais de
existência e pelo relacionamento ativo com o mundo e a
sociedade. (GALLO, 2009, p. 15-16).
Isso porque se distanciando da ideia de que o pensamento
produz a consciência do homem, é a produção material que a produz
e, desta forma, o conhecimento que o homem produz é uma
representação dessa realidade material. Assim, qualquer ideia que não
esteja vinculada a ela será considerada, por consequência, uma
anomalia, ou uma falsa ideia sobre a realidade, ou uma consciência
falsa sobre sua configuração: um processo de falseamento da
realidade. Aí está a explicação sobre o modo como os neo-hegelianos
construíam o conhecimento desvinculado da realidade da qual Marx
e Engels criticavam e buscavam se distanciar e, claro, em suas
consequências sociais, entenderemos o porquê.
Considerando a realidade social coletiva e sua dinâmica,
apresentada por Marx e Engels, a “[...] origem da consciência
desvinculada do mundo está no processo de divisão do trabalho”
(GALLO, 2009, p. 17). É na distribuição das tarefas no capitalismo
que aparecerá uma distinção fundamental para operacionalização do
falseamento da realidade: o trabalho espiritual e o trabalho material.
O trabalho “[...] está socialmente cindido quando existem pessoas que
apenas exercem funções de planificação e coordenação, enquanto
outras vão executar fisicamente materialmente os planos
intelectuais espirituais idealizados por outros” (GALLO, 2009, p.
18).
Notadamente esta dicotomia instaura a própria “definição de
classe”. Portanto, uns constroem algo que não planejam ou pensam e
outros planejam, organizam e controlam essa dinâmica social de
modo que, por consequência dessa divisão, elas passam a não possuir
52
as mesmas necessidades sociais visto que a partir de então ocupam
posições diferentes no corpo social: “[...] surge, assim, a base da
desigualdade e da injustiça” (GALLO, 2009, p. 18) que afeta,
principalmente, a maneira de enxergar essa realidade na produção
material da consciência.
Gallo (2009) salienta que isso ocorre porque o processo de
produção material ligado à organização da sobrevivência acaba
esquecido por uma dessas classes uma vez que já não tem mais tempo
para pensar essa organização material da sociedade e cria
representações outras dela, de certa maneira, fragmentadas. Por outro
lado, a outra classe social tende a minimizar a importância do trabalho
físico e manual para a sobrevivência da sociedade e enfatizar a
importância do trabalho de planejamento e organização intelectual.
E, indo além, busca elaborar ideias que mascarem o modo injusto
como a sociedade é planejada, organizada e produzida, pois a
distribuição da riqueza produzida em sociedade é dividida também de
maneira desigual e, deste modo, injusta, dando à classe que planeja
sua maior parte, fomentando, inclusive, privilégios sociais para ela.
Para selar esse contexto, não podemos esquecer de mencionar
que a classe que planeja e organiza possui os meios de produção
material e fortalece o seu poder de impor suas ideias e mascarar a
realidade enquanto os que não possuem os meios de produção têm,
talvez como único artifício, que vender sua força de trabalho, ele é
livre para isso, por isso mencionamos que é uma especificidade do
capitalismo e não possui tempo e força para pensar a maneira como
a sociedade está sendo planejada e organizada, ou seja, sem meios para
pensar um conjunto total da sociedade, sem noções parciais e
fragmentadas.
Isso facilita o processo de abstração pelo qual a ideologia
funciona enquanto procedimento de imposição da visão de mundo
53
de quem possui os meios de produção. Esse processo de abstração dá
a entender, por um lado, que as ideias da classe dominante, detentora
dos modos de produção e do trabalho intelectual, são desvinculadas
da realidade material, ou seja, são autônomas em relação à realidade
e, por outro lado, são desvinculadas também da classe social que a
produz já que espelhariam a realidade natural e necessária da vida em
sociedade. Em suma e
Para tornar simples a compreensão, podemos dizer que para,
Marx e Engels, a ideologia seria o conjunto das idéias produzidas
pela classe social dominante, idéias essas que são disseminadas
socialmente como expressões da realidade social completa e
abrangente, e não mutilada por um ponto de vista parcial. Mas
como o interesse básico dessa classe é manter sua posição de
domínio, essas idéias são introduzidas de modo que passem uma
visão de mundo que mostre a divisão de classes como um fato
natural e necessário, sendo que as funções de coordenação do
processo de produção podem ser exercidas por qualquer um: toda
pessoa pode ser ou vir a ser dona dos meios de produção,
bastando apenas que trabalhe para alcançar tal produção.
(GALLO, 2009, p. 24).
Marx e Engels utilizarão dois conceitos para trabalhar melhor
as ideias até aqui expostas: estrutura ou infra-estrutura e
superestrutura. O primeiro deles, segundo Gallo (2009, p. 24-25),
seria a própria base material do modo de produção capitalista e o
segundo seria o “[...] conjunto das interpretações teóricas que o
homem faz da realidade.” Ou seja, na relação destas duas instâncias
se daria o falseamento da realidade, a ideologia em ação, e as alterações
realizadas em uma seriam sentidas na outra. Inserido nesse contexto,
o conhecimento em Política e Gestão educacional no Brasil teria
como função desideologizar aspectos sociais da realidade educacional
54
e proporcionar processos de mudança social no modo de produção
por meio da educação seria ela um lugar, entre outros, onde esse
processo de conscientização e luta se tornaria possível junto aos meios
institucionais, proporcionando a transformação do modo de
produção vigente.
Esse contexto, apesar de muito importante, não é o que nos
interessa aqui fundamentalmente, mas sim as consequências,
principalmente as de pesquisa, de sua entrada na área de Política e
Gestão educacional no Brasil. A primeira destas consequências é o
fato de que essas ideias trazem, à área de Política e Gestão educacional,
também às Ciências da Educação, a noção de que existe um modo de
se construir conhecimento que é científico e verdadeiro e outro que
não é: o outro resultaria em ideologia ou senso comum. Ou seja, existe
[...] uma polarização entre ideologia e ciência. A primeira aparece
sempre como idéias desvinculadas da realidade entendido esse
vínculo com a série de ressalvas aqui apresentadas , falseadora
da realidade, contra um conhecimento científico, este, sim,
verdadeiro, plenamente vinculado ao real. (GALLO, 2009, p.
27).
A segunda consequência é que este modo científico de se
construir conhecimento além de se fazer verdadeiro se ligará, ou terá
como fundamento, à sociologia marxista. Podemos adiantar que o
contexto do modo de produção capitalista e essa maneira específica
de entendê-lo se fazem como verdade social absoluta da realidade. O
problema é que se formos pesquisar algo fora deste registro ele será,
de antemão, tomado como ideologia ou senso comum, ou seja, ele
não poderia diferenciar-se ou variar, ou avançar se for o caso, as
discussões por outros caminhos e noções de sociedade demarcados
aqui neste trabalho como um de nossos desafios. Poderia até não ser
55
ideologia por ter um vínculo com a realidade, mas a partir daí ele
poderia ser por não estar vinculado às discussões do contexto social
dos quais o marxismo prevê. Desse modo, não é incomum que um
grande número de pesquisadores, em especial da área de Política e
Gestão educacional, saibam minimamente o resultado de suas
pesquisas antes mesmo de realizá-la, pois a trama conceitual e o
contexto já estão previamente estabelecidos, cabendo ao pesquisador
realizar uma espécie de denúncia, uma vez que analisa processos de
ideologização dos contextos educacionais descrevendo as práticas que
são coniventes ao modo de produção capitalista e os desvios das
práticas de transformação social dele ou, também, realizando uma
espécie de receituário de boas práticas condizentes com processos de
desideologização, conscientização e transformação social como vimos
anteriormente. De outro modo, poderíamos entender que se trata de
um movimento para encaixar a realidade e o conhecimento em
Política e Gestão educacional nos moldes perspectivados pelo
marxismo de Engels e Marx.
A intenção, a partir daqui, não é de maneira alguma
estigmatizar esse modo de construir conhecimento dando a ideia de
previsibilidade de pesquisa e criticando-a, pois, veremos no decorrer
desse livro que ele será o menor de nossos problemas e assim como
nós “Foucault não ignora de modo algum a repressão e a ideologia,
mas, como Nietzsche já havia visto, elas não constituem o combate
de forças, são apenas a poeira levantada pelo combate” (DELEUZE,
1988, p. 38-39). Nossa intenção é, a partir do contexto descrito,
tornar possível a construção de nosso objeto de pesquisa: o
conhecimento em Política e Gestão educacional no Brasil. Ou seja,
trata-se de operar em seu espaço de produção de subjetividade, no
vel cartográfico de suas regras de formação, e não no espaço das
56
dualidades e suas operacionalizações prontas e antecipadamente
dadas.
Pois, se fizéssemos isso nesse momento, levando a cabo as
condições da ideologia descritas até aqui, o conhecimento em Política
e Gestão educacional no Brasil seria um modo científico e verdadeiro
capaz de desideologizar os contextos educacionais denunciando
práticas ideológicas condizentes com o modo de produção capitalista
e receitando práticas de resistência e transformação social. E pelo que
vimos, até nossa contemporaneidade, não tem sido o suficiente para
modificação dos modos de enfrentamento dos problemas
educacionais. O problema disso é, fundamentalmente, o papel que o
pesquisador e a universidade desempenham no abismo que se formou
entre aquilo que costumamos chamar de teoria dos pesquisadores e a
prática da escola.
Para podermos avançar e chegar em Deleuze e Guattari
teóricos da cartografia esquizoanalítica da qual nos ocuparemos
precisamos ainda dar alguns passos para trás na discussão sobre a
ideologia para fomentarmos, depois, as condições de possibilidade de
nosso objeto de pesquisa situado nesse combate de forças. Assim, a
partir de Gramsci que seguiu, avançou e permaneceu nas ideias
marxistas teremos uma mudança radical na ideia de ciência e
ideologia alcançadas até aqui por Marx e Engels. Trata-se de um
avanço baseado na ideologia pensada por Lênin: a ideologia é “[...]
um corpo de idéias de uma determinada classe social, não
necessariamente falsos, sendo o próprio socialismo científico encarado
como uma ideologia” (GALLO, 2009, p. 30).
Isso muda aquela premissa de dividir o conhecimento em
verdadeiro (científico) e falso, pois agora temos dois conhecimentos
dotados de aspectos ideológicos, constituindo-se como ideologia, em
que cada classe constrói sua visão de mundo e busca sua
57
operacionalização, não são necessariamente falsas. Vale ressaltar que a
intenção não é somente dar aspecto ideológico à ciência afirmando
que a ciência é também ideologia, portanto, falsa e sim dar aspecto
científico à ideologia, ou melhor, dar aspecto material à ideologia na
medida em que definimos as condições materiais e práticas para tal.
Ou seja, a intenção é fomentar, junto aos rastros deixados por
Gramsci, a carga material que a ideologia também possui. Visto que,
querendo ou não, ela desempenha na sociedade uma função de
condução material da vida, seja falsa ou não.
Gramsci coloca em jogo a ideia de que em determinado
período histórico as visões da realidade de determinada classe social
exercem domínio sobre outras, chamando esse efeito de hegemonia:
“[...] em cada período histórico, uma classe social é hegemônica, isto
é, que os interesses dessa classe são traduzidos como os da sociedade”
(GALLO, 2009, p. 30-31 destaque do autor). Em Marx e Engels
tínhamos uma ideologia deslocada da classe e parcialmente da
realidade, pois era possível mostrar ou revelar os processos
ideologizantes nos contextos de análise, lembrando que o
conhecimento vinculado à realidade é ciência e não ideologia para
estes autores.
Com Gramsci, a ideologia não funciona mais por abstração,
como queria Marx e Engels, mas “[...] tem de ser conquistada e
construída a cada dia” (GALLO, 2009, p. 31) e dois movimentos aí
são importantes: o da coerção, uso da força, e a aceitação pelo
consenso, sem o uso da força. Vimos que na relação entre
infraestrutura e superestrutura, a ideologia tinha seu terreno na
superestrutura, capaz de construir um conhecimento desvinculado da
realidade, ou seja, do modo de produção.
Segundo a sequência explicitada por Gallo (2009), a
superestrutura, agora, com Gramsci, obedece à dinâmica de duas
58
instâncias, da sociedade civil e da sociedade política: a primeira é o
conteúdo das ações individuais do sujeito e a segunda é conteúdo das
ações públicas no centro do Estado disseminado em sociedade, são
planos superestruturais. Nesse contexto, cada classe possui seus
próprios intelectuais seu conjunto forma a vanguarda de
determinada classe buscando exatamente constituir uma coerência,
sistematização e autoridade científica de acordo com as necessidades
sociais da classe aos quais está vinculado nos planos superestruturais.
Longe de ser somente um cientista, ele é, sobretudo, um
militante, um intelectual orgânico da classe. E ele não cria somente
essas noções de mundo ligados à sua classe, mas também tem a função
da atividade prática de organizar politicamente esta classe. A coerência
que a ideologia faz ocorrer entre essas duas instâncias, Gramsci
chamou de bloco histórico “[...] a unidade entre a estrutura e a
superestrutura forma aquilo que ele chama de bloco histórico.”
(GALLO, 2009, p. 38 destaque do autor) , pois a noção de que
o conhecimento científico e o conhecimento falso são também modos
de ser da ideologia de cada classe trará consequências na definição dos
elementos da superestrutura: “[...] é a ideologia que cimenta esse
bloco histórico, que o torna coeso, organizado, identificado por meio
de todo um aparato lógico-racional que estrutura a sociedade como
uma forma de arrostar e ‘utilizar’ o mundo natural” (GALLO, 2009,
p. 38).
Não é só por meio da realidade material do modo de produção
que se pode garantir um conhecimento científico, mas também por
meio das atividades de construção dessa lógica e das práticas
cotidianas, organizadas socialmente por intelectuais nos planos
superestruturais. Com essas ideias, podemos dizer que o mundo
funciona ideologicamente: “[...] é a ideologia que ‘cimenta’ o bloco
social, é ela que se encarrega de fazer a junção entre as diversas
59
atividades e as diversas pessoas e posições, garantindo a coesão que faz
daquela sociedade uma sociedade particular e definida” (GALLO,
2009, p. 32).
Todo indivíduo passa, portanto, no decorrer de sua vida, por
instituições de ensino que têm um papel fundamental nessa dinâmica,
pois têm justamente a função de criar e preparar esse intelectual
passando de maneira científica, portanto lógica, a visão de mundo no
qual ela irá participar na sua vida social. “Tomando a questão por um
lado, podemos dizer que se a relação da hegemonia é um ato de
educação, a escola é também, um centro semeador de ideologia sendo,
portanto, um local privilegiado para o desempenhar das tarefas de
hegemonia” (GALLO, 2009, p. 41).
Não há ideologia apenas nos pensamentos e na consciência,
mas nos espaços sociais onde todo este aparato toma forma prática e,
dialeticamente, forma a consciência e também a ação militante dos
indivíduos, pois não existe neutralidade nesse contexto onde tudo é
ideologia e visões de mundo. Talvez justamente o fato de a ideologia
não ser neutra e impor politicamente uma visão de mundo é que
possibilita dizer que ela não é falsa, é concreta nas mais ínfimas formas
da vida social. Assim sendo, não somente as dinâmicas sociais de
pesquisa e educação formam a ideologia, mas também a cultura, a
música, a literatura, a família, o cinema, os rituais de diversão,
religião, etc. O mundo é pedagógico e o problema é que a “[...] maior
parte dos indivíduos apenas ‘reproduz’ a ideologia, sem tomar parte
do processo de sua construção” (GALLO, 2009, p. 32-33). Ou seja,
torna-se um dos papéis fundamentais dos pesquisadores estimular
práticas de desideologização e conscientização da classe da qual faz
parte. Portanto, temos agora a noção de ciência que Gramsci nos
apresenta neste contexto.
60
O trabalho científico tem dois aspectos principais: um que
retifica incessantemente o modo do conhecimento, retifica e
reforça os órgãos sensoriais, elabora princípios novos e complexos
de indução e dedução, isto é aperfeiçoa os próprios instrumentos
de experiência e de sua verificação; outro que aplica êste
complexo instrumental (de instrumentos materiais e mentais)
para determinar, nas sensações, o que é necessário e o que é
arbitrário, individual, transitório. Determina-se o que é comum
a todos os homens, o que todos os homens podem verificar da
mesma maneira, independentemente uns dos outros, porque
foram observadas igualmente as condições técnicas de
verificação. ‘Objetivo’ significa precisamente, e tão sòmente, o
seguinte: que se afirma ser objetivo, realidade objetiva, aquela
realidade que é verificada por todos os homens, que é
independente de todo ponto de vista que seja puramente
particular ou de grupo. Mas, no fundo, também esta, é uma
concepção particular do mundo, uma ideologia. (GRAMSCI,
1995, p. 69).
Para não passarmos de maneira demasiado rasa por essas
ideias, destacamos que elas são estruturadas por três elementos
fundamentais: a “coerência lógica desta visão de mundo”, a
“organização deste sistema de ideias” em relação à organização social
e o “elemento autoritário” uma autoridade científica, por exemplo
(GALLO, 2009, p. 34). “A ciência então apesar de ser mais profunda
e abrangente, ainda é uma concepção ideológica” (GALLO, 2009, p.
44) que forma uma visão de mundo: “[...] ‘visão de mundo’, que pode
ser um processo dinâmico e articulado, que reflita a realidade, como
pode ser um conjunto de idéias fossilizadas, anacrônicas, sem
nenhuma vinculação com o real” (GALLO, 2009, p. 31), mas que,
mesmo assim, não é neutra e influencia a dinâmica de vida dos
indivíduos.
61
O seu anacronismo não forma de modo algum, ideias falsas
no sentido de ter existência metafísica, mas formam ideias que,
mesmo tendo a possibilidade de serem falsas, possuem uma realidade
material que delimita a maneira pela qual cada indivíduo deve agir no
modo de produção. Ou seja, já podemos adiantar aqui que a ideologia
funciona não como um reflexo da realidade e sim como um reflexo
da relação material dos homens, sejam elas ideológicas ou científicas:
criar modos racionais da realidade condizentes com a realidade que se
vive.
Mais uma vez, o que nos interessa são as consequências de
pesquisa que esse contexto científico nos implica. Dependendo da
classe na qual o indivíduo se situa, as instituições pelas quais ele
passou pela vida, fundamentalmente as de ensino, teremos os
referenciais pelos quais ele constrói sua visão de mundo. Ou seja,
dependendo desse contexto e do referencial teórico que ele utilizará
teremos uma visão de mundo e uma visão de pesquisa em que
realizará a sua militância e o seu papel intelectual.
Assim, os resultados das pesquisas e experiências serão sempre
interpretados (não conscientemente, mas como parte do próprio
mecanismo lógico da observação) segundo o referencial teórico
do cientista. A ciência é marcada, em última instância, pela visão
de mundo ou pela ideologia do cientista. (GALLO, 2009, p.
44).
Com essa ideia de que a relação do homem e o mundo não
têm uma ligação direta, pois é mediada pela visão de mundo, mediada
pelo referencial teórico que o cientista dispõe, e que sua interpretação
do mundo é dotada de aparatos próprios para construção de sua lógica
de observação, passaremos para algumas observações, trazidas por
Gallo (2009) e realizadas por Althusser, para podermos avançar
62
inserindo, ainda mais, uma diferença sutil entre essas noções de
ideologia e a construção do conhecimento e, principalmente, suas
implicações. Duas premissas são importantes, Althusser utiliza os
conceitos de infraestrutura e superestrutura de Marx e Engels e,
também, a ideia de cimento social de Gramsci para ir além delas,
como veremos.
Diante do que temos até aqui podemos dizer que as relações
sociais específicas com a classe social em que vivemos e as instituições
que passamos no decorrer da vida, de certa maneira nossa experiência,
dão a nós nossa visão de mundo. Althusser, segundo Gallo (2009),
coloca como base de sua discussão algumas condições para inserção
de sua noção de ideologia. Uma delas são as “condições de produção”.
Trata-se da ideia de que as condições de produção pressupõem os
“[...] meios existentes para produzir, as forças produtivas que
movimenta tal meio e as relações existentes entre esses dois fatores
(GALLO, 2009, p. 47).
A ideia de Althusser é que essas condições de produção para
poderem existir devem se reproduzir e garantir uma forma de
organização social que a sustentem, como vimos também em Marx,
Engels e Gramsci. Caso isso não ocorra, o próprio modo de produção
se desmorona, ressaltando que, em um caso, ela deve mascarar a
realidade e, no outro, ela impõe seu modo de ver o mundo. As
matérias primas, mecanismos e tecnologias que formam os meios de
produção conseguem se reproduzir de maneira natural visto que a
produção material vai se efetivando e aprimorando no decorrer do
tempo. Junto a ela, a força de trabalho também se reproduz
naturalmente na medida em que os meios organizam uma demanda
de suas operacionalizações, isso sem contar o “[...] crescimento
populacional das classes trabalhadoras e da massificação da
submissão” (GALLO, 2009, p. 47).
63
É na relação entre eles, os quem detém os meios e os que os
operacionalizam, que se encontram as relações de produção que
organizam as particularidades de cada modo de produção. Portanto,
são elas que devem ser o foco da reprodução. Isso porque elas não se
reproduzem naturalmente como os meios de produção e as forças
produtivas, elas devem ser movimentadas a cada dia buscando dar a
coerência lógica de aceitação das relações de produção e é justamente
esta a função da ideologia no pensamento althusseriano.
Segundo Gallo (2009), Althusser entende a infraestrutura e a
superestrutura como uma “descrição da realidade” e não como a
sociedade em si e que ela serve para descrever uma relação que na
realidade está imbricada e de difícil descrição pormenorizada de suas
diferenças, mas, ao aceitar alguns limites de sua descrição, é possível
utilizá-la. Ainda nos rastros dos autores, Althusser entende que o
Estado funciona como um aparelho de repressão social que fornece à
classe detentora dos meios de produção suprimir os ímpetos das
classes dominadas, bem como os germes de qualquer organização
política contrária as de domínio. Porém, este Estado não pode se
confundir com o próprio poder, e isso é um dado importantíssimo
para o destino de nosso objeto de estudo, se isso ocorre o que temos
é que “[...] mesmo quando uma classe ou facção política toma o poder
de estado, em muitos casos, ele permanece o mesmo, funcionando da
mesma maneira” (GALLO, 2009, p. 49-50).
O que se segue, assim como em Gramsci, é que a repressão
tem sua eficácia em segunda ordem quando os intelectuais já não
organizaram o trabalho político no âmbito do Estado para alcançar a
hegemonia. O que vem antes, outra característica do Estado, é a sua
dimensão e caráter ideológico, se constituindo, também, como
aparelho ideológico do Estado. São elas: “[...] as igrejas, as escolas
(públicas ou privadas), as famílias, o aparelho jurídico, as associações
64
e partidos políticos, os sindicatos, as instituições voltadas para
informação (televisão, rádio, jornal e etc.) as instituições culturais em
geral” (GALLO, 2009, p. 51). A ideia, segundo Gallo (2009, p. 51),
é que, enquanto o aparelho de repressão pertence à esfera pública
exército, polícia, etc. os ideológicos não e, dessa forma, garantem
uma disseminação onde a esfera pública não poderia alcançar: “[...]
ao mesmo tempo em que as engrenagens do aparelho repressor são
movimentadas pelo óleo da violência, as engrenagens do aparelho
ideológico são azeitadas pela ideologia”.
Ressaltamos o alerta de Gallo (2009, p. 51) de que elas estão
mais ou menos misturadas e não existe pureza em suas propriedades,
pois a repressão pode ser justificada ideologicamente e vice-versa,
portanto, “[...] violência e consenso, repressão e ideologia formam a
amálgama na prática cotidiana dos aparelhos.”. O que nos permite
afirmar que os aparelhos ideológicos não são meios onde passam a
reprodução da luta de classes, mas formam sim, a própria luta em
todos os seus processos institucionais e ritualísticos.
Nesse contexto, Gallo (2009, p. 54) salienta que, como em
Marx e Engels, “a ideologia não tem uma história por ser um rearranjo
idealista” que inverte as “reais situações históricas”; acrescenta
Althusser, que ela não tem história como uma possível teoria da
ideologia e, nesse sentido, ela poderia existir em qualquer período
histórico, assim, temos diretrizes gerais desmaterializadas da
ideologia: uma ideologia em geral. Mas que, por outro lado, as
especificidades de cada momento histórico a configuram de uma
maneira diferente, que garantem as particularidades do período e dos
movimentos que permitiram aquela ideologia específica de agir e
garantir a reprodução de determinado modo de produção distintas
da ideologia em geral.
65
O que ocorre a partir de então? Para Althusser “[...] a
ideologia é uma representação da relação imaginária dos indivíduos
com suas condições reais de existência” (GALLO, 2009, p. 55). Neste
caso, por um lado, os indivíduos não representam ou refletem na
ideologia suas condições materiais de existência, mas sim a sua relação
com essas condições materiais de existência, ou seja, não o objeto em
si, mas a relação com ele, ou melhor ainda, a sua relação imaginária,
aquilo que supõe, sobre o objeto isso vale inclusive para o contexto
científico: “A ideologia representa como os homens sentem, como
vivem as relações sociais básicas, os seus anseios desejos e apreensões
no que diz respeito a elas” (GALLO, 2009, p. 56). Porém, a sua
realidade material consiste na ideia de que não podemos vivê-la
plenamente “se não vivemos em sua verdade” (ALTHUSSER, 1985,
p. 87).
Toda ideologia representa, em sua deformação necessariamente
imaginária, não as relações de produção existentes (e outras
relações delas derivadas), mas, sobretudo a relação (imaginária)
dos indivíduos com as relações de produção e as demais que são
daí derivada. Então, é representado na ideologia não o sistema de
relações reais que governam a existência dos homens, mas a
relação imaginaria destes indivíduos com as relações reais sob as
quais eles vivem. (ALTHUSSER, 1985, p. 88).
Esta representação ocorre por três movimentos principais: um
planejamento, consciente ou não da ação “que traça o plano
estruturado de acordo com as condições observadas”, um vivenciar
que imediatamente processa a representação deste ato material que
acontece na prática e, por último, uma reflexão sobre a ação que a
articula (GALLO, 2009, p. 58). A vida humana e seus processos
representacionais só têm possibilidade de existir, neste caso, por meio
66
da ideologia em sua realidade material encarnada, e não mascarada ou
abstrata esperando reconhecimento dos indivíduos para ativá-la, ela é
material e, acima de tudo, prática.
Temos agora condições de tocar em outro elemento que
mostra o avanço de Althusser em relação a Marx, Engels e Gramsci:
“[...] a ideologia interpela os indivíduos enquanto sujeitos”
(ALTHUSSER, 1985, p. 93). A ideologia cumpre a função de tomar
o indivíduo parte da massa em sociedade para que se reconheça como
um sujeito dotado de características advindas de sua experiência com
os aparelhos ideológicos e de repressão. Ou seja, é por meio da
ideologia que o indivíduo realiza processos de reconhecimento de si,
torna-se sujeito a partir de então: “[...] a ideologia ‘interpela’ o
indivíduo e, no seu ‘reconhecimento ideológico’, ele se faz sujeito,
tornando-se apto para a prática cotidiana dos rituais que encarnam
aquela ideologia” (GALLO, 2009, p. 59).
Porém, esse movimento de tornar-se sujeito causa um efeito
de exterioridade. É claro que, a partir de Althusser, aquilo que se vive
na ideologia é vivido nela em sua verdade, mas tem-se a impressão de
que aquilo que se vive é vivido fora dela, fora de onde ela acontece, é
o efeito arraigado de agir negando o caráter ideológico de suas
práticas, o de não admitir que se faça ideologia. Por isso é comum
atualmente que tenhamos indivíduos que dizem estar pautados em
dados científicos e que, por essa razão, outros indivíduos estão
pautados em dados ideológicos, no sentido de falsa realidade como
vimos anteriormente.
[...] a ideologia nunca diz ‘eu sou a ideologia’. É preciso situar-se
fora da ideologia, isto é, no conhecimento científico, para poder
dizer: estou na ideologia (caso excepcional) ou (caso mais geral:
estava na ideologia). Sabemos que a acusação de estar na
ideologia vale apenas para os outros e nunca para si (a não ser
67
que se seja verdadeiramente spinozista ou marxista, o que,
quanto a este aspecto, vem dar no mesmo). O que nos faz dizer
que a ideologia não possui um exterior (para si mesma) mas que
ao mesmo tempo ela é exterioridade para a ciência e para
realidade. (ALTHUSSER, 1985, p. 97-98 destaques do autor).
E seria preciso, nesse caso, trazê-la de volta. Agora podemos
apontar algumas consequências para as pesquisas em Política e Gestão
educacional no Brasil. Poderíamos dizer que desde as décadas de 1970
e 1980 até os dias atuais a tão esperada gestão democrática das escolas
públicas não se realizou, a ponto de acontecer de fato como previsto
na legislação e no arcabouço teórico e de elevar o nível da qualidade
educacional seja lá o que for isso , que dirá a conscientização e a
transformação social do modo de produção como previsto: como
motivo, pode-se dizer que ela ainda está em processo de
desenvolvimento e que o tempo da história é um tanto quanto lento,
em relação ao tempo prático que vivemos, e precisa de dedicação e,
também, que os receituários sejam seguidos à risca para concretizá-
los. Mas isso é um problema que veremos depois perquirindo os
aspectos do porvir nas pesquisas em Política e Gestão educacional
já adiantando que o porvir tem a ver com essa espera do tempo
histórico.
Aquela relação teoria e prática ocasionou, além dos
maiores avanços na área, o maior desconforto e o maior abismo entre
os pesquisadores e os integrantes da escola uma vez que o pesquisador,
em Marx e Engels, detém o conhecimento científico e os que não
estavam com o pensamento alinhado com suas premissas vivem em
uma realidade falsa. No caso de nossa área de pesquisa, a gestão
democrática não se realiza de forma efetiva porque os indivíduos
baseiam a construção de sua consciência e suas práticas cotidianas
escolares no senso comum ou em falsas ideias sobre a realidade. Nesse
68
contexto, e somente nele, faz todo sentido essa distinção e o lugar
privilegiado que o pesquisador ocupa atrevemo-nos a dizer que se
ele não ocupa lugar privilegiado de classe, detendo os modos de
produção, ocupa lugar privilegiado de pesquisa.
Em Gramsci, esse lugar privilegiado e este abismo permane-
ceram aparentes, mesmo o conhecimento científico desdobrando-se
como ideologia ou o contrário também, porque o pesquisador
desempenha o papel de vanguarda e tem a função de educar e
organizar as massas em torno de sua ideologia. Sua ideologia parte de
referenciais teóricos específicos de acordo com o que sua classe fez
dele e, como vimos, dependendo do referencial específico que se vive
é possível ter outras visões de mundo. Apesar disso, se a gestão
democrática não se realizou é porque os indivíduos não seguiram o
receituário de acordo com o que sua vanguarda recomendou, o que
desse ponto de vista é ainda pior, pois os indivíduos “escolhem” a
ideologia, ou o referencial teórico, que não condiz com sua classe e
perpetuam as injustiças causadas pela divisão delas.
Podemos dizer que talvez essas posturas sejam salientadas
justamente pela exterioridade que o efeito da ideologia proporciona,
como acabamos de ver em Althusser, e o lugar privilegiado se
mantêm. Apesar de fundamentar uma crítica e uma justificativa, as
principais contribuições de Althusser para nossa discussão é saber que
é por meio dos processos de reconhecimento que o indivíduo se faz
sujeito, que é o processo do pesquisador fazer ciência mediado por seu
referencial teórico que se pode pensar os efeitos da ideologia em sua
esfera intimamente material e que neste processo o indivíduo pensa a
relação dele com a realidade e não a realidade em si. Eis que chegamos,
finalmente, no nível de ação dos processos de subjetivação. Portanto,
precisamos saber quais são os efeitos desse processo de tornar-se
sujeito para então pensarmos como o conhecimento se faz no sujeito
69
e, posteriormente, saber quais são os efeitos desse processo de tornar-
se sujeito pesquisador em Política e Gestão educacional no Brasil.
Longe de nos afastarmos de fato dos contextos descritos até
aqui, não no sentido dos atos de reconhecimento, mas sim da ideia
de que o capitalismo ainda é um acontecimento edificante e
territorializante, temos que admitir que ele se modificou e se modifica
cada vez mais rápido com o passar dos anos. O capitalismo se
aprimorou e encontrou um modo de se reproduzir sem ter o esforço
de produzir mercadorias quando adentrou aos meios de
financeirização da vida, isso para colocar uma dentre suas várias
modificações.
Trata-se de ir além da noção marxista de ideologia buscando suas
significações mais abrangentes, no interior de uma sociedade
bastante diferente daquela do século XIX, na qual as realidades
superestruturais a mídia, fundamentalmente estão muito
mais desenvolvidas e exercem sobre os indivíduos uma influência
impensável na época de Marx. (GALLO, 2009, p. 66).
Desse modo, Deleuze e Guattari podem nos ajudar a pensar
como a ideologia funciona enquanto processo de subjetivação, ou
seja, naquele momento em que o sujeito realiza os processos de
reconhecimento de si no terreno ideológico que o modo de produção
oferece para ele e “[...] podemos dizer que o processo de ‘nascimento
de uma ideologia é um processo no qual uma certa estrutura social é
inserida no homem, tornando-se a própria estrutura psíquica dele”
(GALLO, 2009, p. 83).
Neste contexto, temos uma mudança interessante na maneira
como o modo de produção se reproduz. Diria Althusser que a
ideologia é o terreno vivido externamente pelo indivíduo onde ele, de
certa maneira, escolhe um modo de vida, uma ideologia, para existir
70
e reproduzir a ideologia que as instituições o fizeram. Isso se faz para
que haja garantia da reprodução do modo de produção e não seu
desmonte.
Volto a afirmar: a ideologia deve ser compreendida sempre como
um fenômeno social, de massas; entretanto, ela só pode
funcionar quando se torna realidade em cada um dos indivíduos
dessa sociedade. Apenas quando cada indivíduo, em seus atos
mínimos e aparentemente irrelevantes no nível micropolítico
age no cotidiano, segundo certo esquema de ação, é que a
ideologia pode acontecer como um agenciamento no nível
macropolítico, no âmbito macrossocial, estruturando todo o
mundo da produção material e da abstrata, regulando toda a vida
do complexo social. (GALLO, 2009, p. 87).
O que temos, a partir daqui é uma ideologia que fabrica o
sujeito além de dar um território para que ele se reconheça, ou
melhor, reconhecer-se é um processo de fabricação de si e não de pura
e simplesmente reprodução por adesão a uma ou outra ideologia, mas
sim referências para que o sujeito se reconheça: “A ideologia ‘fabrica’
o indivíduo que a sociedade deseja e necessita”, ou seja, “A sociedade
cria as referências, as coordenadas nas quais o indivíduo poderá
encontrar-se facilmente, reconhecer-se, produzir-se” (GALLO, 2009,
p. 90).
Outro dado a acrescentar é que desde os avanços teóricos de
Freud entendemos que a psique humana, em seu nível inconsciente,
possui fluxos de desejos radicais e desorganizados, ilógicos se for o
caso, entendidos como libido, pulsão de vida, que buscam de
qualquer maneira se realizar, desejos esses que aderem à lógica social
organizada e que não se realizam sem o filtro inconsciente que os
tornam socialmente úteis para que de maneira sublimada se realizem
71
de modo que não desmoronem a vida social. Isso significa que é
preciso levar em consideração a libido, pulsão de vida, junto aos
processos de reconhecimento de si em relação à ideologia.
Nesse caso, podemos adiantar que não existe somente uma
economia do modo de produção agindo no nível material dos
indivíduos para mantê-lo na dinâmica do capitalismo, mas há
também uma economia libidinal agindo no nível dos fluxos desejantes
oferecendo um território com aspectos diferentes que complementam
esse território da produção material somados a ele que compõe sua
outra dimensão não reconhecida, ou pelo menos não explorada, nos
autores anteriores.
Acompanhando Guattari, podemos dizer que a sociedade
territorializa os indivíduos: oferece um território dentro do qual
eles podem viver, construir relações, produzir tanto no nível
material quanto no nível desejante , onde tudo é possível. O
território social permite e possibilita o reconhecimento, a
construção do sujeito, a percepção do ‘eu’, pois oferece um
panorama, um cenário que condiz perfeitamente, com essa
percepção individual de cada um, pois mesmo essa percepção
‘individual’ é socialmente produzida. (GALLO, 2009, p. 91).
A implicação que podemos apontar é que a ideologia não é
algo que uma classe produz, como queria Gramsci, ou uma simples
reprodução do modo de produção, como queria Althusser, ela é
produzida pelo próprio modo de produção e vai além da dinâmica de
classes isso porque ela ignora essa luta de modo que podemos ter
determinada classe “assumindo” o poder e mantendo-o mesmo assim
ela precisa produzir no sujeito aquela reprodução da qual queria
Althusser, a reprodução é produzida no sujeito, ou melhor, existe uma
máquina que produz as reproduções.
72
No final, o que conta é essa regra de produção, portanto, fica
difícil falar em “[...] ‘ideologia da classe dominante’ e em ‘ideologia
da classe dominada’, pois a ideologia não é produzida por uma classe,
mas pela estrutura da máquina de produção”, assim ela é produzida
por “[...] atos por todos e para todos: a ideologia seria a única
instância verdadeiramente democrática, distribuída por todo o
conjunto da sociedade.” (GALLO, 2009, p. 99). A cultura
institucional que vivemos e até o modo de vida como vimos, a mídia,
a escola, os sindicatos etc. formam uma verdadeira coletividade, uma
massificação das relações sociais.
Essa cultura de massa produz, exatamente, indivíduos:
normalizados, articulados uns aos outros segundo sistemas
hierárquicos, sistemas de valores, sistemas de submissão o
sistemas de submissão visíveis e explícitos, como na etologia
animal, ou como nas sociedades arcaicas e pré-capitalísticas, mas
sistemas de submissão muito mais dissimulados. E eu nem diria
que esses sistemas são ‘interiorizados’ ou ‘internalizados’ de
acordo com a expressão que esteve muito em voga numa certa
época, e que implica na idéia de subjetividade como ser
preenchido. Ao contrário, o que há é simplesmente uma
produção de subjetividade. Não somente uma produção de
subjetividade individuada subjetividade dos indivíduos mas
a produção da subjetividade inconsciente. A meu ver, essa grande
fábrica, essa grande máquina capitalística produz inclusive aquilo
que acontece conosco quando sonhamos, quando devaneamos,
quando fantasiamos, quando nos apaixonamos e assim por
diante. Em todo caso, ela pretende garantir a função hegemônica
em todos os campos. (GUATTARI; ROLNIK, 1986, p. 16
destaque dos autores).
A produção de subjetividade tem a intenção de tornar o
indivíduo um sujeito, ou seja, um indivíduo dotado de características
73
sociais que dão condições para ações sociais de acordo com as funções
possíveis e em determinados contextos: um marceneiro, costureira,
CEO, professor, pesquisadora, faxineiro, manicure, influenciador
digital, mendigo etc. A subjetividade busca significações, pois cada
uma destas atividades sociais prevê um modo específico de pensar essa
relação com o mundo e de se ligar às outras atividades sociais. Essas
significações precisam agir não na psique dando significações prontas,
no caso, não é somente isso, para sua maior eficácia ela age na
estrutura que cria as significações, ou seja, não age trazendo sentidos
e significados para o indivíduo exatamente prontos, mas, para além
disso, dá a regra de formação que estrutura as significações. Podemos
dizer, nos termos de Althusser e para melhorar essa afirmação, que a
produção da subjetividade age conduzindo a maneira como o
indivíduo irá estruturar o entender de sua relação imaginária com o
mundo. Portanto, se “[...] a subjetividade é um agenciamento vazio
de significações que deve constituir-se em seu próprio ato de relação
com o mundo, a ideologia apresenta-se como um agenciamento pleno
de significações, constituída pela máquina de construção” (GALLO,
2009, p. 106). Essa plenitude de significações tem seus objetos, suas
máquinas e regras.
O problema é que o processo de se tornar sujeito precisa agir
na estrutura de significação, na estrutura que pensa a relação do
sujeito com a realidade lembrando que não é a realidade em si e sim
a ideia que o sujeito tem de sua relação com ela , que precisa se
reproduzir, ser construída, e operar no pensamento, diminuindo os
detalhes lógicos que vislumbrem outros modos de pensar essa relação
do eu com a realidade. “Se todos agem no referencial da produção,
pensam e refletem balizados por tal referencial, nunca existirão outros
parâmetros para a prática social, o que garante a manutenção da
máquina de produção” (GALLO, 2009, p. 106). Em outros termos,
74
podemos dizer que uma ideologia dá o território para o sujeito, ele é
territorializado, mas pode, muito bem, balizado por outras demandas
que a ideologia precise para se sustentar, ser desterritorializado de um
terreno para ser territorializado em outro. Porque o que muda não é
exatamente o território, mas a maneira pela qual o indivíduo significa
esse território.
Como esse processo é feito pelo próprio sujeito, ele pode fazer
da realidade outras demandas que podem não corresponder às
demandas da ideologia. São subjetividades desterritorializadas
dotadas de fluxos desejantes na economia libidinal que não
correspondem às mudanças da ideologia. Elas são, portanto, alvo da
ideologia e não deveriam se diferenciar do território dado. “A função
da ideologia é não permitir a emergência dessas ‘subjetividades
desterritorializadas’, garantindo a territorialização no âmbito daquela
lógica social” (GALLO, 2009, p. 114). Ou seja, “[...] sua estrutura
básica é uma só: adaptar os fluxos desejantes ao mundo da produção
material, como já afirmei” (GALLO, 2009, p. 96). Deste modo o
“[...] capitalismo, por exemplo, não mascara a sua realidade para que
os indivíduos o assumam, mas insere essa realidade na estrutura
mesma destes indivíduos, não permitindo assim o vislumbre do
outro, do diferente” (GALLO, 2009, p. 108).
Podemos, enfim, delinear os contornos do campo
problemático que envolve nosso objeto de pesquisa, demarcando os
desafios do conhecimento em Política e Gestão educacional no Brasil
como demandas que podem desterritorializar o território que ele
próprio tem dimensionado, as situações de pesquisa, para que,
justamente, ele não se diferencie e desmorone todo o aparato de
pesquisa conquistado ao longo dos últimos trinta anos. Ao constatar
que não conquistamos a gestão democrática da escola pública e a
qualidade de ensino esperada, modificamos a direção da crítica
75
apontada para o cotidiano da escola supostamente alienado e
baseado no senso comum e a direcionamos para o próprio
conhecimento. E voltamos a indagar: por que a culpa da gestão
democrática não se realizar recai somente no cotidiano da escola e não
no conhecimento que busca pensá-lo se justamente a criação da teoria
seria uma relação? O problema que identificamos é justamente o
fundamento que delineia essa relação: a prescrição; pois, agora,
sabemos que existe todo um aparato teórico, não só teórico como
veremos, que sustenta a suposta fidedignidade científica nos meios de
pesquisa da qual pretendemos investigar.
1.2 Em que se pode reconhecer a Cartografia esquizoanalítica?
Estratos de saber, Diagramas de poder e Dobras do pensamento
Ao estabelecer o nível cartográfico do conhecimento em
Política e Gestão educacional estabelecemos também o terreno que
possui as condições de possibilidade do nosso objeto de pesquisa.
Portanto, dizer objeto de pesquisa e nível cartográfico significa dizer
a mesma coisa, pois o objeto aqui já não se encontra mais nos moldes
da tradição da metodologia do trabalho científico que distingue o
objeto de pesquisa de um lado e o referencial teórico que compõe a
metodologia de outro. Ressaltamos que estabelecer o nível
cartográfico não seria o bastante, pois se esse fosse o caso era só nos
voltarmos para cartografia e verificar como ela trata os processos de
subjetivação em geral e abordá-lo arbitrariamente como um caso do
conhecimento em Política e Gestão educacional. Ou seja, não se trata
dos processos de subjetivação em geral, mas o modo específico em
que ele se constitui no conhecimento em Política e Gestão
educacional. O que pretendemos não é isso, não só isso. Então, ainda
nos falta investigar e caracterizar quais elementos configuram a forma
76
específica das regras de formação em que se dão os processos de
subjetivação na pesquisa em Política e Gestão educacional, mas
veremos isso com calma e detalhe no capítulo dois.
A ideia de compor seu nível cartográfico é justamente
estabelecer um revezamento entre os campos de conhecimento que
estamos tratando aqui para nos distanciar, como dissemos, da
separação sujeito que pesquisa e objeto que é pesquisado, visto que ele
fomenta o abismo entre essas duas instâncias que permitem a
insistência no modo hierárquico de se fazer pesquisa com o cotidiano
da escola. Como o alvo das pesquisas nos moldes anteriores é sempre
o objeto analisado no caso, a escola a metodologia que o opera
não aparece como algo problemático e dotado de necessidades de
modificação, ou seja, ela não se mostra como um objeto também, não
existe esse revezamento.
A cartografia esquizoanalítica vai justamente apontar para o
fato de que esta metodologia também é construída, não vem pronta
para ser seguida enquanto doutrina ou ser um modelo aplicado a
qualquer realidade educacional em vista, como se toda metodologia
servisse para qualquer objeto educacional mesmo se entendêssemos
que ela estivesse pronta se constituindo como a verdade sobre as
coisas, ela precisaria se produzir para acontecer da mesma maneira, é
um caso de produção que pode ser encarado como reprodução no ato
de repetir-se. O sujeito e o objeto não se apagam da discussão como
algo inútil e normativo do conhecimento, o problema é exatamente a
maneira como eles são entendidos em determinada perspectiva de
análise e não sua utilização em si, eles são entendidos, a partir de
então, como evidências do elemento que pensa a relação entre os dois,
ou seja, evidenciam suas regras de formação. Isso significa que eles
“[...] não são mais realidades previamente dadas, mas se produzem
por efeitos de práticas” e transpassar essas “[...] dicotomias sujeito-
77
objeto, indivíduo-sociedade, natureza-cultura implicaria a
constituição de planos onde, ao mesmo tempo, sujeitos-objetos
adviriam.”, ou seja, “[...] o que vem primeiro é a relação, esta sim
constituidora dos termos” (REGIS; FONSECA, 2012, p. 273).
Poderíamos também pensar que depois disso colocado não
faria sentido levar a cabo um trabalho acadêmico dizendo que ele
possui tal teoria para analisar tal objeto, porém sua utilização serve no
mínimo para mostrar como eles se constituem alterados por um
campo problemático ou para, antes de utilizá-lo, mostrar que, a partir
de sua constituição, ele vai se esvaindo para dar lugar à relação que
pensa sua constituição: em dado momento objeto é sujeito e em outro
o sujeito é objeto e essa distinção vai perdendo sua presença enquanto
fundamento e o que temos são multiplicidades complexas e sem
fixidez: a
[...] Cartografia propõe aproximar-se de uma realidade complexa
vista como abordagem não dualista (não há separações entre
natureza/cultura, natural/artificial, objeto/sujeito etc.), com uma
postura sempre questionadora com relação às abordagens
tradicionais de produção de conhecimento. (OLIVEIRA;
MOSSI, 2014, p. 192).
Adotar essa postura nos permite operar não somente no
âmbito metodológico da Política e Gestão educacional, mas no
âmbito epistemológico demasiado em desuso contemporaneamente
na área e, essencialmente seu nível cartográfico; ele permite colocar
na jogada a própria metodologia deixada geralmente de fora dos
problemas na área e é justamente o que permitiria sulcarmos novos
caminhos de pesquisa:
78
A Cartografia como estratégia metodológica insurge justamente
da necessidade de métodos que não apresentem somente os
resultados finais da pesquisa desconsiderando os processos pelos
quais a mesma passou até chegar à sua instância final, mas que
acompanhem seu percurso construtivo sempre em movimento e
o percebam como algo incompleto, transitório e que multiplica
as possibilidades ao invés de restringi-las. (OLIVEIRA; MOSSI,
2014, p. 191).
Considerar a construção do objeto de pesquisa e da
metodologia que o analisa, por via de revezamento entre eles, nos
permite adentrar a estratégia que pensa essa relação habitando,
portanto, o seu nível epistemológico e cartográfico, mas como
veremos adiante o nível epistemológico ainda é o nível das formas e
pretendemos chegar ao nível cartográfico que corresponde ao âmbito
dos enunciados e das relações de força. Ou seja, sair do nível
epistemológico enquanto a ideologia, agenciamento pleno de
significações, para atingirmos seu nível cartográfico enquanto
agenciamento vazio de significações, que pode enxertar-se de
significações ou partir para o diferente e ter contato com os
assignificantes e enxertar-se de diferenças codificadas somente depois.
Nossa aposta e risco estão na ideia de que, por meio dessa
dinâmica não exercida no conhecimento em Política e Gestão
educacional, “[...] tanto os modos de investigar (esfera metodológica)
como de pensar a investigação (esfera epistemológica) sulcam
caminhos nunca antes vistos e reconfiguram novas paisagens
pensamentais.” (OLIVEIRA; MOSSI, 2014, p. 190 destaque dos
autores). Nesse sentido, os caminhos de pesquisa não serão fixos, de
modo que somente o objeto de pesquisa é problematizado, mas irá se
modificar ao mesmo tempo em que se adéqua às demandas dos
problemas estabelecidos pelo objeto e, a partir de então, estabelecer
79
estratégias de pesquisa, estratégias metodológicas, em cada passo dado
nesse caminho.
Podemos, inclusive, perceber que o método pronto tende a
encaixar seu objeto nos seus próprios moldes de realidade, pois aquilo
que se mostra diferente ou problemático só o é na medida em que se
mostra como problema para a sustentação da própria metodologia,
inclusive, a estratégia da metodologia é designar esses elementos
desruptores da metodologia como dados falsos ou dados não
científicos e, deste modo, devem ser descartados ou jogados para
segundo plano. Anteriormente, já vimos o porquê disso: aquilo que
poderia indicar outras possibilidades de pesquisa se torna descartável,
jogado para segundo plano, e o caminho torna-se seguro, claro, mas
também estanque e repetitivo. O que nos esquecemos ou o que “[...]
por vezes não nos damos conta é que a tal ‘ordem’ a que chamamos
de normalidade também é uma invenção, uma convenção” e, por isso,
“[...] pode ser revista, reinventada e reinterpretada quantas vezes
quisermos. E que a desordem não é nada além do que outra ordem”
(OLIVEIRA; MOSSI, 2014, p. 197 destaque dos autores).
Outro dado que esta tradição nos coloca é a própria noção do
fazer científico que há muito tempo tem se estabelecido no
conhecimento em Política e Gestão educacional, talvez nas Ciências
da Educação: a noção de que se faz Ciência para conhecer algo, ou
para representar a realidade, ou para explicar e interpretar os
acontecimentos da realidade, ou melhor, que conhecer, representar,
interpretar e explicar algo fosse alcançar a verdade sobre o que se
explica, representa, interpreta e conhece e, indo além, que o
conhecimento se aprimoraria nessa repetição. Nossa hipótese é que
aquilo que se aprimora é justamente a regra de formação, a máquina
que a conduz, que faz com que o conhecimento permaneça o mesmo
80
sob outras formas, com seu modo de construção e práticas intactos,
ou mesmo estagnados.
No caso do conhecimento em Política e Gestão educacional
nos parece evidente que pesquisar é trazer consciência revelando a
verdade, resistência mobilizando sua classe em nome de uma verdade
mais justa e verdadeira, ou, mesmo admitindo que se faça ideologia,
fazê-la em nome dessa suposta verdade socialmente ampla.
O problema é justamente o preço que se paga para manter
essa dinâmica de justiça que, no fundo, aparentemente, não se
estabelece , o preço que se paga por essa ética que tira dos que não
possuem suas condicionantes o poder de colocar na jogada as
experiências sensíveis pelas quais passam no cotidiano do trabalho
escolar. O fato é que se conseguíssemos atingir esses modos mais
justos de vida e de trabalho escolar seria um tremendo avanço no
âmbito das Ciências da Educação, mas se ele não ocorre deveríamos
no mínimo desconfiar que exista algo estranho nessa dinâmica e no
máximo que se algo estranho acontece podemos talvez não estarmos
inclinados para onde pretendemos chegar. Portanto, em
contraposição, temos a noção de que “Pesquisamos não para conhecer
o que não conhecíamos antes e assim nos tornarmos melhores e mais
apurados em determinados assuntos, mas para colocarmos em
movimento instâncias que estavam, ao menos para nós, estagnadas,
estabelecidas, dadas” (OLIVEIRA; MOSSI, 2014, p. 195). Indo
além, neste trabalho, a pesquisa não se contenta e
[...] não se apresenta somente como uma possibilidade
representativa de realidades, nem como algo a ser interpretado,
no sentido de um objeto que oferece verdades e significados
ocultos esperando por serem desvelados, mas como uma
antiestrutura inventiva, rizomática, que oferece elementos a
81
serem experimentados e sempre recriados na superfície.
(OLIVEIRA; MOSSI, 2014, p. 192).
Pretendemos operar em seu nível cartográfico para voltar de
lá, em seus outros níveis, modificados e que os modos de operação
sejam outros também, que, ao concluir parcialmente a análise, as
maneiras de olhar para a área de Política e Gestão educacional
também sejam modificadas. Desse modo, podemos “[...] afirmar que,
ao pesquisarmos algo, também estamos inventando aquilo que
pesquisamos, e mais: inventando também a própria forma de
pesquisar” (OLIVEIRA; MOSSI, 2014, p. 196). E,
fundamentalmente, que as posturas de pesquisa, exercidas pelo
pesquisador, sejam modificadas em relação aos outros; relação essa
intocável nas discussões sobre Política e Gestão educacional. Assim,
“[...] conhecer algo não se limita somente a reconhecer, ou
re(a)presentar algo, mas significa também criar/inventar aquilo que se
conhece, assim como produzir a si próprio nesse processo”, portanto,
a “Cartografia passa a ser não só uma estratégia metodológica, mas
também uma postura do pesquisador diante de sua própria vida”
(OLIVEIRA; MOSSI, 2014, p. 193). Exatamente, este é o nível da
produção de subjetividade do pesquisador em Política e Gestão
educacional, ou seja, seu nível cartográfico.
O que se pode perceber é que sujeito e objeto nesta dinâmica
de composição emergem em torno de problemas e se tornam um
próprio problema em sua composição. Os problemas daí advindos são
compostos pelos problemas e temáticas que foram direcionados para
segundo plano pelo método tradicional de entender o conhecimento.
O que surge com essa maneira inventiva do conhecimento é que
modificar sua postura de pesquisa e levar elementos do nível
cartográfico para outros níveis permite enxergar, neste caso também
82
criar, outros problemas de pesquisa: a cartografia “[...] não nos
ajudam apenas a compreender um problema, elas nos ajudam a
compor o problema. Ao problematizarmos um determinado campo,
objeto ou fenômeno, nós estamos inventando algo novo com as
nossas ‘lentes’” (OLIVEIRA; MOSSI, 2014, p. 193 apud COSTA,
2006, p. 72-73).
Para dar conta de trabalhar a ideia de metodologia, de
estratégia, em um campo acadêmico, é preciso voltar contra ela uma
metodologia que se configure como uma estratégia que fuja da
maneira tradicional de se fazer pesquisa colocando em prática a
percepção sobre como é construído cada elemento no caminho da
pesquisa. Não é com a metodologia tradicional que podemos ativar
esses elementos contidos em seu nível cartográfico, mas trazendo
consigo justamente uma estratégia que vise minar exatamente esses
laços com o modelo que nos volta à forma que, no nosso caso, é mais
uma regra do que uma forma, uma fórmula, um programa ou uma
receita. Entendemos que se faz isso muito mais como uma postura de
pesquisa, uma ética de pesquisa, do que com outra receita.
É por isso que falamos em estratégia flexível de análise crítica
ao invés de metodologia do trabalho científico. Com os motivos e os
alicerces prontos, mãos à obra! Afinal de contas, em que se pode
reconhecer a cartografia esquizoanalítica? Partiremos dos
apontamentos de Regis e Fonseca (2012), Prado Filho e Teti (2013),
Oliveira e Mossi (2014) e aprofundaremos em Deleuze (1988),
Deleuze e Guattari (2008) e Deleuze e Parnet (1998).
Com a ajuda de Prado filho e Teti (2013) iremos apontar
como a cartografia esquizoanalítica se compõe nas Ciências
Humanas, quais aspectos da obra e quais obras seus fundadores
mobilizam para edificá-la, para quais objetos e objetivos ela direciona
sua atenção e quais elementos compõem esse objeto e dão
83
fundamento a sua emergência, e, por fim, quais direcionamentos eles
tomam na obra de Deleuze e Guattari.
Apesar de coadunar com sua ideia principal, a cartografia que
tratamos aqui não é aquela ligada à grande disciplina da Geografia
que elabora os mapas “Ciência dos Mapas” edificada sobre
conhecimentos precisos fundamentados na matemática e estatística
que desenha os “[...] territórios, regiões e suas fronteiras, demarcações,
sua topografia, acidentes geográficos [...]”, ou trata da “[...]
distribuição de uma população em um espaço, mostrando suas
características étnicas, sociais, econômicas, de saúde, educação,
alimentação, entre outras”, aquele mapa que abrange a “[...]
representação de um território e das características de uma população
é um instrumento fundamental da Geografia física e da Geografia
humana, a Demografia” (PRADO FILHO; TETI, 2013, p. 47).
Veremos adiante que não se trata disso.
A cartografia da qual partiremos está ligada às Ciências
Humanas e Sociais e aborda os “[...] jogos de poder, enfrentamentos
entre forças, lutas, jogos de verdade, enunciações, modos de
objetivação, de subjetivação, de estetização de si mesmo, práticas de
resistência e de liberdade” (PRADO FILHO; TETI, 2013, p. 47) e
não se liga, de modo algum, às práticas metodológicas que se situam
como regras e procedimentos teóricos e fixos com ideais de aplicação
em uma dada realidade. Trata-se de uma [...] estratégia de análise
crítica e ação política, olhar crítico que acompanha e descreve
relações, trajetórias, formações rizomáticas, a composição de
dispositivos, apontando linhas de fuga, ruptura e resistência”
(PRADO FILHO; TETI, 2013, p. 47).
A ideia de cartografia que queremos alcançar advém, em
primeiro lugar, de “[...] algumas indicações de Foucault, apontadas
por Deleuze e Guattari [...]”, portanto, “[...] cartografia
84
[esquizoanalítica] é algo que Deleuze desenvolve a partir de algumas
indicações de M. Foucault [...]” (PRADO FILHO; TETI, 2013, p.
45). Desse modo, é justamente na filosofia de Deleuze e Guattari que
buscaremos os fundamentos da cartografia para entrelaçá-las com
conhecimento em Política e Gestão educacional. A ideia de
cartografia remete a um texto em que Deleuze aponta que Foucault
colocava ideias sobre uma “espacialização da história” na medida em
que se utilizava de certas “metáforas espaciais” para descrever os
planos e movimentos de ação no espaço-tempo, a saber: “[...] posição,
campo, deslocamento, território, domínio, solo, arquipélago,
geopolítica, paisagem, entre outras, dando mostras de uma dimensão
espaço-temporal em suas análises” (PRADO FILHO; TETI, 2013,
p. 46).
Prado Filho e Teti (2013) assinalam que essas indicações
podem ser observadas em uma entrevista que Foucault concedeu à
revista francesa Heródote em 1976. A discussão girou em torno dos
resquícios da disciplina Geografia que poderiam estar implicadas na
arqueologia de Foucault. Porém, Foucault explica que a Geografia
não foi foco em sua arqueologia e que grande parte das indicações não
partiu dela exceto arquipélago mesmo que tivesse utilizado
arbitrariamente algumas de suas discussões, mas se tratava do fato de
que todas essas indicações ou descrições espaciais dos “[...] fatos
discursivos desemboca na análise dos efeitos de poder que lhe estão
ligados” (FOUCAULT, 1999a, p. 159). Ou melhor,
Reprovaram-me muito por essas obsessões espaciais, e elas de fato
me obcecaram. Mas, através delas, creio ter descoberto o que no
fundo procurava: as relações que podem existir entre poder e
saber. Desde o momento em que se pode analisar o saber em
termos de região, de domínio, de implantação, de deslocamento,
de transferência, pode-se apreender o processo pelo qual o saber
85
funciona como um poder e reproduz os seus efeitos.
(FOUCAULT, 1999a, p. 158).
Essa colocação do autor nos permite entender o lugar preciso
em que sua análise está situada. Não é no nível da coerência e
linearidade bem estruturada dos métodos científicos e sim na
profundeza, no nível ofuscado, do saber em que as “regras primitivas”
de sua construção se ligam a determinadas práticas sociais. Ao falar
sobre o panoptismo8 Foucault (1999a, p. 160) afirma que, ligado ao
saber neste nível profundo, o poder se exerce em práticas sociais
corriqueiras em instituições como hospitais, escolas, exércitos etc.
e nelas se formam o ponto de ligação em que aparecem essas relações,
ou seja, aconteceu nesses “[...] lugares a experimentação da vigilância
integral. Aprendeu-se a preparar os dossiês, a estabelecer as notações
e as classificações, a fazer a contabilidade integrativa desses dados
individuais.”. Isso vale também para as instituições de ensino superior
e, em específico, para os pesquisadores em Política e Gestão
educacional inseridos nesse contexto claro que também vale para
estes que vos fala.
Ao tratar da pesquisa com as metodologias do trabalho
científico tradicionais, dividindo sujeito que pesquisa e objeto que é
pesquisado, não adentramos nestas práticas cotidianas em que o
conhecimento é construído na universidade, nos imunizamos das
práticas de análise de construção deste conhecimento, isso porque
“Eles não compreendem que, na demarcação das implantações, das
delimitações, dos recortes de objetos, das classificações, das
organizações de domínio [...]” que demarca exatamente o lugar onde
queremos adentrar, “[...] o que se fazia aflorar em processos
históricos certamente de poder. A descrição espacializante
8 Conferir Foucault (2013), capítulo III: O panoptismo. (p. 186-214).
86
desemboca na análise dos efeitos de poder que lhe estão ligados”
(FOUCAULT, 1999a, p. 159) e que mostra exatamente a prática
prescritiva edificante que tem se constituído nos últimos anos: nesse
nível de análise o “[...] poder não tem necessidade de ciência, mas de
uma massa de informações, que ele, por sua posição estratégica, é
capaz de explorar” (HÉRODOTE apud FOUCAULT, 1999a, p.
163). Por isso veremos mais adiante que saber não significa Ciência:
“O saber não é ciência, nem mesmo conhecimento [...]” (DELEUZE,
1988, p. 30).
Então poderíamos afirmar que, por considerar a teoria do
poder de Foucault, a cartografia esquizoanalítica tem em seu âmago
as três frentes de trabalho deixadas por ele: “O esboço de um método
cartográfico deve ser feito levando em conta as já conhecidas
perspectivas metodológicas de Foucault arqueologia do saber,
genealogia do poder e genealogia da ética [...]”, pois ela é “[...] ao
mesmo tempo uma derivação e uma incorporação dessas
perspectivas” (PRADO FILHO; TETI, 2013, p. 45-46), realizadas
por Deleuze e Guattari.
Assim, a cartografia aqui apresentada não se refere a territórios,
mas a campos de forças e relações; diz mais respeito a
movimentos do que propriamente a posições fixas; desdobra-se
no tempo, mas também no espaço, além de incorporar os
métodos históricos de Foucault o eixo metodológico saber-
poder-subjetividade à medida que se apresenta como método
de análise de dispositivos. (PRADO FILHO; TETI, 2013, p.
48).
Podemos incluir, além da produção de subjetividade, outros
elementos que compõem o dispositivo enquanto objeto de estudo da
análise cartográfica. Primeiramente, “É isto, o dispositivo: estratégias
87
de relações de força sustentando tipos de saber e sendo sustentadas
por eles” (FOUCAULT, 1999b, p. 246). Portanto, o objeto de
pesquisa dos dispositivos é uma rede de conjuntos díspares e
heterogêneos, “[...] tais como: discursos, instituições e aparelhos
diversos, organizações arquitetônicas, leis, regulamentos, decisões,
medidas administrativas, conceitos científicos, enunciados,
proposições filosóficas e morais [...]” (PRADO FILHO; TETI, 2013,
p. 49). Lembrando que é preciso especificar em cada caso quais são
esses elementos heterogêneos que compõem o nível cartográfico em
questão. É por meio dessa especificação que se pode ponderar a
condição de emergência dos elementos de cada dispositivo, pois ele
não nos é dado na superficialidade do conhecimento, ele precisa ser
evidenciado em seus efeitos, pois os conjuntos díspares e heterogêneos
“[...] não é fixo nem estável, sendo da ordem dos jogos das
alternâncias e mudanças de posição, das modificações funcionais e
reversibilidades o que dificulta a visibilidade destas conexões e a
resistência a estas práticas” (PRADO FILHO; TETI, 2013, p. 49).
A estratégia de construção do dispositivo não tem uma origem
precisa, por isso, é importante especificar cada caso, cada cartografia
específica, pois ele é um “[...] artefato histórico que se forma em torno
de problemas agudos e estratégicos para uma sociedade, tais como:
loucura, criminalidade, sexualidade, saúde e educação, entre outros”
(PRADO FILHO; TETI, 2013, p. 49). Que dirá a pesquisa em
Política e Gestão educacional e seus pesquisadores alienados,
fundamentados em falsas ideias e em noções não-cienficas, em
contraposição aos pesquisadores pautados na ciência e na realidade
material verdadeira e desideologizada, por exemplo.
Tomemos os problemas educacionais como agudos, no
sentido mais corriqueiro e grosseiro que poderíamos ensaiar nesse
exemplo: a evasão escolar que se desdobra em menos pessoas
88
escolarizadas que irão exercer certa atividade de trabalho, escrever,
enviar currículo, votar, ler um manual de instruções de algum
aparelho complexo e digitalizado, ou de crianças que não aprendem
por tal ou qual motivo de natureza psicológica, que não apresentam
as competências exigidas pelos currículos. Toda essa gama de possíveis
problemas que queremos mobilizar é justamente o que o dispositivo
irá capturar para manter certo ordenamento. O importante, no caso,
não é exatamente educar, mas conseguir distribuir no espaço social de
maneira que a sociedade não desarticule sua maneira produtiva de
vida. E certamente o conhecimento em Política e Gestão educacional
faz parte desse movimento e delineia a maneira pela qual a política e
gestão da escola devam operar e, para a surpresa dos pesquisadores,
também sua forma de fazer pesquisa. Não sem antes obedecer,
também, à certa regra de como olhar e enxergar essa realidade escolar.
O que queremos exatamente saber é como esse olhar é constituído em
seu nível cartográfico.
Na dinâmica do dispositivo é possível entender que ele é
composto, primeiro, por uma dimensão correspondente ao saber:
fazem circular “[...] linhas de visibilidade e enunciação, envolvendo
regimes de luz e de produção de verdades, além de jogos entre visível
x invisível, visível x dizível [...]” (PRADO FILHO; TETI, 2013, p.
50). Trata-se agora de saber como chegar a estas enunciações e linhas
de visibilidade. O primeiro dado que Deleuze (1988) nos traz é que
na dimensão do saber o que está em jogo é o exercício do movimento
de distanciamento daquilo que se poderia seguir em direção a uma
teoria das ideias ou um modo tradicional de se pensar o objeto que se
tem, como temos assinalado até então. Isso significa abandonar certas
categorias enraizadas em muitas tradições de pensamento, a de obra e
autor, por exemplo, que definiriam os limites a serem explorados em
89
uma análise e definem o ponto central de desenvolvimento de uma
análise.
Desse modo, o espaço que se busca não pertence a um
domínio de conhecimento por excelência na partida da análise, não
se trata de Sociologia, Linguística, História, Psicologia da educação,
Física, Política e Gestão educacional etc. Estes espaços, geralmente,
buscam um âmbito coerente e fundante, buscando descrever o que
foi dito para encontrar a possibilidade de novos temas, isso é a relação
de um enunciado com uma estrutura fundante. O que a dimensão do
saber busca não é uma relação com a estrutura fundante, mas a relação
de enunciados com outros enunciados para estabelecer quais conexões
eles fazem para entender porque alguns enunciados surgem e possam
surgir em determinado momento e o que eles excluem da jogada na
enunciação, trata-se de saber, então, qual a condição de existência dele
e não saber como ele funda um modelo coerente de análise. Trata-se
de saber, em sua função de exclusão e inclusão de outros enunciados,
quais direcionamentos ele faz. E encontramos o enunciado em sua
regularidade, em qual regra de formação que implica a hierarquia dos
conteúdos.
O que conta é a regularidade do enunciado: não uma média, mas
uma curva. O enunciado, com efeito, não se confunde com a
emissão de singularidades que ele supõe, mas com o
comportamento da curva que passa na vizinhança delas, e mais
geralmente com as regras do campo em que elas se distribuem e
se reproduzem. É isso que é uma regularidade enunciativa.
(DELEUZE, 1988, p. 16).
Deleuze (1988, p. 16-21) nos coloca três espaços contidos
nessa dinâmica dos enunciados: colateral, correlativo e
complementar. O primeiro é simples e remete ao espaço “[...]
90
associado ou adjacente, formado por outros enunciados que fazem
parte do mesmo grupo.” (DELEUZE, 1988, p. 16) que são outros
enunciados enquanto tais. O segundo espaço remete à “[...] relação
do enunciado, não mais com outros enunciados, mas com seus
sujeitos, seus objetos, seus conceitos.” (DELEUZE, 1988, p. 18) que
ele designa, remete, ou faz aparecer na dinâmica de sua enunciação,
não exatamente para fun-lo, mas para edificar em sua condição de
existência, é um objeto discursivo: o enunciado “[...] tem um ‘objeto
discursivo’ que não consiste de modo algum num estado de coisas
visado, mas, ao contrário, deriva do próprio enunciado” (DELEUZE,
1988, p. 19). Eles servem mais para estabelecer os pontos singulares
de relação a outros enunciados do que para estabelecer o objeto e o
sujeito, serve mais para designar a si mesmo, evidenciar sua trama e
suas regras do que para dizer como as coisas são: “O enunciado não
se define, de forma alguma, por aquilo que ele designa ou significa”
(DELEUZE, 1988, p. 86). Desse modo, o “[...] espaço correlativo é
a ordem discursiva dos lugares ou posições dos sujeitos, dos objetos e
dos conceitos numa família de enunciados. É esse o segundo sentido
de ‘regularidade’: esses diversos lugares representam pontos
singulares” (DELEUZE, 1988, p. 20-21).
Ao abordamos as falas de professores de uma escola, em uma
pesquisa de campo, por exemplo, que questiona as várias proposições
teóricas e remonta outros problemas da escola que poderiam remeter
a outros problemas de pesquisa, criamos pontos que remetem a outros
enunciados, esse movimento é entendido como desvio e como
problema para o conhecimento, entende-se como senso comum ou
falsa ideia, ou seja, “O que parece acidente, do ponto de vista das
palavras, das frases e das proposições, torna-se regra, do ponto de vista
dos enunciados” (DELEUZE, 1988, p. 21). Trata-se de fazer pulular
esses problemas que desmontam o modelo e fazer aparecer outros
91
enunciados na metodologia que analisa. O terceiro espaço trata das
“[...] formações não-discursivas (‘instituições, acontecimentos
políticos, práticas e processos econômicos’)” (DELEUZE, 1988, p.
21). Eles formam meios não-discursivos.
Os enunciados não são palavras, frases ou proposições, mas
formações que apenas se destacam de seus corpus quando os
sujeitos da frase, os objetos da proposição, os significados das
palavras mudam de natureza, tomando lugar no ‘diz-se’,
distribuindo-se, dispersando-se na espessura da linguagem.
Segundo um paradoxo constante em Foucault, a linguagem só se
agrega a um corpus para ser um meio de distribuição ou de
dispersão de enunciados, a regra de uma ‘família’ naturalmente
dispersada. (DELEUZE, 1988, p. 29 destaque do autor).
Isso porque os meios não-discursivos remontam os limites do
que é inserido e possível de ser enunciado e o que é excluído: a relação
entre o discursivo e os meios não-discursivos não remete a algo
externo aos enunciados e nem interno, só regula e distribui o possível
e o não permitido de enunciação, “[...] não são em si mesmos internos
nem externos ao grupo de enunciados, mas que constituem o limite
de que falávamos há pouco, o horizonte determinado sem o qual tais
objetos de enunciados não poderiam aparecer, nem tal lugar ser
reservado dentro do próprio enunciado” (DELEUZE, 1988, p. 21).
Portanto, isso não remonta a ideia de que os enunciados formam o
âmbito discursivo da realidade material e as instituições formem o
âmbito não-discursivo e material da realidade. Como se o discurso
designasse uma materialidade não-discursiva, não é isto. Mas como o
enunciado só remete a ele mesmo e suas regras, dispõe de objetos e
sujeitos em nome destas regras e de sua subsistência, ele encontra em
92
seu caminho todo um conjunto institucional que limita sua aparição
ou não em determinados lugares.
O espaço complementar é um lugar onde os enunciados
passam para serem recortados, recombinados, redirecionados. Ele
ainda é um elemento de discurso e não a realidade material, bom, não
a realidade material no sentido que o empirismo nos colocou. O
pesquisador encontra-se envolto a essa trama onde ele se faz, se
constrói, nessas passagens e tem movimentos de afetar essa dinâmica
e ser afetado por ela. E não existe nada mais material do que isso, pois
movimenta o corpo, porém, como o enunciado e os meios remetem
a eles mesmos e não no que designam, o que está em jogo é o que é
real ou não e não o que é material ou não.
Os meios formam lugares de visibilidade de enunciados
também. A discussão entre teoria e prática, demasiada utilizada no
meio educacional, tanto acadêmico quanto na escola afinal quem
nunca ouviu um aluno de licenciatura ou um professor de escola dizer
que na teoria é uma coisa e na prática outra? - cada um defende o seu
lugar de especialidade, acadêmicos na teoria e professores na prática,
isso torna visível outra evidência do abismo entre eles do qual temos
insistido e partido , porém, por causa disso mesmo, a distinção entre
teoria e prática deixará cada vez menos de fazer sentido, pois ela
remete ao âmbito do que é real ou não real e não do que é material
ou não, como dissemos.
O que temos agora é uma relação de prática com prática, cada
uma designando, claro, um âmbito teórico (no âmbito da teoria
temos a relação teoria e prática e no âmbito da prática temos teoria e
prática), material e real acima de tudo porque movimenta a vida. Essa
ideia, na verdade, é bem simples: um teórico que maneja sua teoria
para dar conta das situações da realidade, poderíamos pensar, neste
caso, que a realidade escolar seria o âmbito prático de sua teoria,
93
porém, sua prática está nas relações que estabelece na academia, por
exemplo, ler os textos, angariar fundos em agência de fomento,
aprimorar ideias em grupos de pesquisa, apresentar sua pesquisa em
eventos acadêmicos etc. Por outro lado, a vida cotidiana na escola
desenvolve-se em torno de seus dilemas práticos, porém, existe toda
uma teoria por trás de suas ações que ou são evidentes ou precisam
ser sistematizadas, até inventadas, para se evidenciarem. “Da mesma
forma, como vimos, é um erro crer que Foucault se interessa pelos
meios de internamento como tais: o hospital, a prisão, são, antes de
tudo, lugares de visibilidade dispersos numa forma de exterioridade,
remetendo a uma função extrínseca, a de isolar, a de enquadrar...”
(DELEUZE, 1988, p. 69).
Uma instituição comporta ela mesma enunciados, por exemplo,
uma constituição, uma carta, contrato, inscrições e registros.
Inversamente, os enunciados remetem a um meio institucional
sem o qual os objetos surgidos nesses lugares do enunciado não
poderiam ser formados, nem o sujeito que fala de tal lugar (por
exemplo, a posição do escritor numa sociedade, a posição do
médico no hospital ou em seu consultório, em determinada
época, e o surgimento de novos objetos). (DELEUZE, 1988, p.
21).
De qualquer modo, esse espaço complementar irá apresentar,
segundo Deleuze (1988), fundamentos definitivos que apontarão
para o acoplamento de uma teoria do poder à teoria dos enunciados
que, mais adiante veremos, se configurará como a dimensão do poder
dos dispositivos. Quando analisamos e estudamos os autores da
Política e Gestão educacional não é para remontar, de novo, o que
eles disseram; não para, a partir de então, pensar os problemas
educacionais o remetendo a dinâmica das soluções, até de problemas
94
que ele nem daria conta, mas para tratar a sua obra, suas frases, sua
escrita, os objetos que mobiliza, como uma curva, um lugar, por onde
se distribuem e dispersam outros enunciados. Ou seja, se voltarmos
às discussões sobre ideologia não é para definir os contornos de um
conceito fechado e intacto, o próprio Althusser já denuncia isso como
vimos, mas para saber quais diálogos podemos estabelecer por meio
dele e quais não podemos estabelecer e entender qual a regra que
permite estabelecer essas passagens e como modificá-la para que
outros enunciados também possam passar: “O que se pode concluir é
que cada formação histórica vê e faz ver tudo o que pode, em função
de suas condições de visibilidade, assim como diz tudo o que pode,
em função de suas condições de enunciado” (DELEUZE, 1988, p.
68).
É dessa maneira que os meios não-discursivos atuam, fazem
aparecer, lugares de visibilidade que dão suporte, seja excluindo ou
incluindo, limitando, ao enunciado. Reforçando: “Não é uma história
das mentalidades, nem dos comportamentos. Falar e ver, ou melhor,
os enunciados e as visibilidades, são elementos puros, condições a
priori sob as quais todas as idéias se formulam num momento e os
comportamentos se manifestam” (DELEUZE, 1988, p. 69).
Desse modo, é claro que o conhecimento em Política e Gestão
educacional “[...] atinge uma ‘epistemologização’, uma
‘cientificidade’, ou mesmo uma ‘formalização’”, não há problema
algum nisso, porém permanecer somente nelas implica que ela “[...]
nunca absorve a família ou a formação no interior da qual ela se
constitui [...]” (DELEUZE, 1988, p. 29), por exemplo, o “[...]
estatuto e pretensão científicos da psiquiatria não suprimem os textos
jurídicos, as expressões literárias, as reflexões filosóficas, as decisões
políticas ou as opiniões médicas que fazem parte integrante da
formação discursiva correspondente” (DELEUZE, 1988, p. 29-30).
95
Por isso, podemos, enfim, afirmar a possibilidade da dinâmica e
relação de heterogêneos na análise dos dispositivos. Portanto, não
deveria suprir as experiências desviantes relatadas pelos trabalhadores
escolares nas pesquisas de campo: essa supressão no máximo “[...]
orienta a formação, sistematiza ou formaliza algumas de suas áreas,
sob o risco de receber desta uma função ideológica que seria um
equívoco pensarmos ligada a uma mera imperfeição científica,” uma
falsidade, um senso comum, uma não-ciência, etc. Como vimos: “[...]
se localiza num domínio do saber que ela não absorve, numa
formação que é, por si própria, objeto de saber e não de ciência”
(DELEUZE, 1988, p. 30). Portanto, para reforçar, “O saber não é
ciência, nem mesmo conhecimento; ele tem por objeto as
multiplicidades anteriormente definidas, ou melhor, a multiplicidade
exata que ele mesmo descreve, com seus pontos singulares, seus
lugares e suas funções” (DELEUZE, 1988, p. 30). Em suma, a “[...]
arqueologia propunha a distinção entre duas espécies de formações
políticas, as ‘discursivas’ ou de enunciados e as ‘não-discursivas’ ou de
meios.”
Por exemplo, a medicina clínica no fim do século XVIII é uma
formação discursiva; mas ela o é em relação às massas e às
populações que dependem de outro tipo de formação, e
implicam meios não-discursivos, ‘instituições, acontecimentos
políticos, práticas e processos econômicos’. Certamente os meios
produzem também enunciados, e os enunciados também
determinam os meios. (DELEUZE, 1988, p. 40-41).
Vamos melhorar um pouco essas ideias e mostrar porque elas
nos remetem a um espaço diferente ao qual a metodologia tradicional
ou a teoria das ideias nos dão. Como a investida nos enunciados nos
leva ao visível e enunciável da dimensão do saber, o efeito prático que
96
a dimensão do saber nos leva é para a dinâmica dos estratos: “Os
estratos são formações históricas, positividades ou empiricidades.
‘Camadas sedimentares’, eles são feitos de coisas e de palavras, de ver
e de falar, de visível e de dizível, de regiões de visibilidade e campos
de legibilidade, de conteúdos e de expressões” (DELEUZE, 1988, p.
57). Ou seja, é por meio de uma certa historicização do conhecimento
em Política e gestão educacional que podemos adentrar seus
enunciados e atingir o nível cartográfico de sua análise, como vimos
com a ideia de ideologia, ela passa por enunciados, seus meios formam
uma zona de vizinhança, excluindo ou incluindo, e cada ponto
singular que ele faz emergir, como a relação sujeito, objeto e a relação
entre ambos nos permite vislumbrar os contornos da produção de
subjetividade aquilo que parecia uma falsa ideia, um desvio, uma
traição do referencial oficializado, se torna uma regra para inserção de
outros enunciados em seu âmago.
O conteúdo tem em sua composição a forma, que poderia ser,
no nosso caso, a construção de uma pesquisa acadêmica na
universidade, e uma substância que poderíamos designar como o
pesquisador. A expressão também possui o conhecimento em Política
e Gestão educacional como forma e o alienado como substância.
Assim como o conhecimento em Política e Gestão educacional “[...]
enquanto forma de expressão define um campo de dizibilidade [...]”,
como ideólogos e pesquisadores alienados, a universidade “[...] como
forma do conteúdo define um local de visibilidade” (DELEUZE,
1988, p. 57). O que temos aqui são equivalentes das coisas que
colocamos até então: “[...] o enunciável e o visível, as formações
discursivas e as formações não-discursivas, as formas da expressão e as
formas do conteúdo” (DELEUZE, 1988, p. 59). Porém, na relação
entre o visível e o enunciável existe um desnível na medida em que o
visível não possui o mesmo ritmo que o enunciável: “[...] os locais de
97
visibilidade não terão jamais o mesmo ritmo, a mesma história, a
mesma forma que os campos de enunciados, e o primado do
enunciado só será válido por isso, pelo fato de se exercer sobre alguma
coisa irredutível” (DELEUZE, 1988, p. 59). De modo que não
podemos adiantar certas questões antes de construí-los nos caminhos
da pesquisa e na composição do problema dela, então a metodologia
se compõe como estratégia justamente porque ela se forma na medida
em que os pontos singulares que o enunciado remete as fazem
aparecer, elas podem modificar essa ligação nos campos de
visibilidade e enunciabilidade.
Mas, na verdade, não há nada antes do saber, porque o saber, na
nova conceituação de Foucault, define-se por suas combinações
do visível e do enunciável próprias para cada estrato, para cada
formação histórica. O saber é um agenciamento prático, um
‘dispositivo’ de enunciados e de visibilidades. (DELEUZE,
1988, p. 60).
Esse desnível representa a diferença de natureza entre eles,
“[...] desde o princípio, uma das teses essenciais de Foucault é a da
diferença de natureza entre o visível e o enunciável (embora eles se
insiram um no outro e não parem de se interpenetrar, compondo cada
estrato ou cada saber)” (DELEUZE, 1988, p. 70), portanto, “As duas
formas não têm a mesma formação, a mesma gênese ou genealogia,
no sentido arqueológico de Gestaltung. E, no entanto, há encontro
[...]” (DELEUZE, 1988, p. 71). Isso porque se pode “dizer, com
efeito, que há ‘jogos de verdade’, ou melhor, processos (procédures) do
verdadeiro. A verdade é inseparável do processo que a estabelece [...]”
(DELEUZE, 1988, p. 72). Por isso conseguimos encontrar o nível
cartográfico das disciplinas. No caso “[...] o verdadeiro só se dá ao
saber através de ‘problemati/ações’ e que as problematizações só se
98
criam a partir de ‘práticas’, práticas de ver e práticas de dizer”
(DELEUZE, 1988, p. 72-73). Por isso o dispositivo se desenvolve em
torno de problemas urgentes dentro do campo social e dá, no nosso
caso, ao pesquisador, modos de ver e enunciar visíveis em suas práticas
de pesquisa. “Mas é preciso que as duas metades do verdadeiro entrem
em relação, problematicamente, no próprio instante em que o
problema da verdade exclui sua correspondência ou sua
conformidade” (DELEUZE, 1988, p. 73). O que ocorre entre eles?
Há disjunção entre falar e ver, entre o visível e o enunciável: ‘o
que se vê não se aloja mais no que se diz’, e inversamente. A
conjunção é impossível por duas razões: o enunciado tem seu
próprio objeto correlativo, que o é uma proposição a designar
um estado de coisas ou um objeto visível, como desejaria a lógica;
mas o visível não é tampouco um sentido mudo, um significado
de força que se atualizaria na linguagem, como desejaria a
fenomenologia. O arquivo, o audiovisual é disjuntivo.
(DELEUZE, 1988, p. 73).
Por um lado, “[...] ‘por mais que se diga o que se vê, o que se
vê não se aloja jamais no que se diz, e por mais que se faça ver o que
se está dizendo por imagens, metáforas, comparações, o lugar onde
estas resplandecem não é aquele que os olhos descortinam, mas o que
as sucessões da sintaxe definem’” (DELEUZE, 1988, p. 74-75). Esse
movimento remonta os enunciados em direção ao espaço que o define
e não o levam para os sujeitos e objetos que eles direcionam ou
significam: “Falar e ver ao mesmo tempo, embora não sejam a mesma
coisa, embora não se fale do que se vê e não se veja aquilo de que se
fala” (DELEUZE, 1988, p. 75).
Aqui, neste livro, quando falarmos mais adiante sobre
determinados autores da área de Política e Gestão educacional não
99
será exatamente para falarmos deles e de seus programas teóricos
como algo que designa o observável na escola e exercer um
tensionamento com a realidade para adequá-la à verdade descoberta
em cada autor, mas para fazer emergir, na disjunção entre aquilo que
eles falam e que designam, todo regulamento que constitui essa
verdade de designação e remontam às práticas de pesquisa a serem
exercidas por meio delas. Não para dizer que política e gestão na
escola é isso ou aquilo, mas para encontrar a regra que permite dizer
e ver isso ou aquilo sobre a escola e a pesquisa a regra que permite
dizer isso ou fazer aquilo, a regra que conduz à construção da verdade
enquanto designante da prática do pesquisador, de sua ética de
pesquisa.
A segunda dimensão do dispositivo é a do poder, que faz
circular “[...] linhas de força agindo como vetores que os atravessam
[...]”, “[...] linhas de objetivação e subjetivação, implicando práticas
produtoras de subjetividades e sujeitos [...]”, mas também “[...] linhas
de ruptura e fratura que se entrecruzam em constante movimento de
mutação, renovação e atualização.” (PRADO FILHO; TETI, 2013,
p. 50). Dessa maneira, o deslocamento social do dispositivo “[...]
envolve jogos singulares entre práticas de saber e poder,
estrategicamente articuladas tendo em vista o problema em torno do
qual se organizam, visando produzir as subjetividades daqueles que
estão sujeitos à sua ação ou que são objetos da sua ação.” (PRADO
FILHO; TETI, 2013, p. 50). Como cada dimensão do dispositivo
dispõe e produz coisas diferentes é possível perceber o desnível de suas
operações exigindo em cada uma delas uma perquirição diferente em
que se perceba o revezamento entre elas, disjunção, “pressuposição
recíproca” (DELEUZE; GUATTARI, 2008), ou seja, “[...] enquanto
saber e poder operam de forma ‘positiva’, produzindo ‘realidades’ e
sujeitos, a subjetividade é da ordem dos efeitos, sendo consequência
100
das relações saber x poder” (PRADO FILHO; TETI, 2013, p. 50).
Porém, vamos por partes. A dimensão do poder se forma nos aspectos
de visibilidade dos estratos, na disjunção, particularmente nos meios:
Quando Foucault define o Panoptismo, ora ele o determina
concretamente, como um agenciamento óptico ou luminoso que
caracteriza a prisão, ora abstratamente, como uma máquina que
não apenas se aplica a uma matéria visível em geral (oficina,
quartel, escola, hospital, tanto quanto a prisão), mas atravessa
geralmente todas as funções enunciáveis. (DELEUZE, 1988, p.
43).
É uma máquina abstrata que tratará de definir a forma de
regulação das forças que compõem esse espaço dos meios. Sua
regulação terá a função de trabalhar, cortar, compor, as linhas
singulares que os estratos formarão, veremos elas mais adiante: “A
fórmula abstrata do Panoptismo não é mais, então, ‘ver sem ser visto’,
mas impor uma conduta qualquer a uma multiplicidade humana
qualquer” (DELEUZE, 1988, p. 43 destaques do autor).
Pois bem, em primeiro lugar, o poder não é uma forma tal
como os estratos estes tinham conteúdo e expressão e, cada um,
contendo forma e substância ou seja, a relação de “[...] poder não se
estabelece entre duas formas, como o saber.” (DELEUZE, 1988, p.
78). E, em segundo lugar, “[...] a força não está nunca no singular, ela
tem como característica essencial estar em relação com outras forças,
de forma que toda força já é relação, isto é, poder: a força não tem
objeto nem sujeito a não ser a força” (DELEUZE, 1988, p. 78). Pode-
se até estabelecer uma lista, como exemplos, deste exercício
constituído sobre ações: “[...] incitar, induzir, desviar, tornar fácil ou
difícil, ampliar ou limitar, tornar mais ou menos provável... Essas são
as categorias do poder.” (DELEUZE, 1988, p. 78). Em Vigiar e
101
Punir, segundo Deleuze (1988), isso permitia Foucault fazer emergir
outras modalidades de poder em relação às práticas institucionais no
século XVIII:
[...] dividir no espaço (o que resultava nas práticas específicas de
internar, enquadrar, ordenar, colocar em série...), ordenar no
tempo (subdividir o tempo, programar o ato, decompor o
gesto...), compor no espaço-tempo (todas as maneiras de
‘constituir uma força produtiva cujo efeito deve ser superior à
soma das forças elementares que a compõem’). (DELEUZE,
1988, p. 78-79).
Poderíamos dizer que nos estratos, conteúdo e expressão
tinham entre si uma espontaneidade para emitir seus enunciados e
receptividade para aderir enunciados, por isso, a possibilidade de
relacioná-los em meios, nas zonas de vizinhança, no caso do poder
“Espontaneidade e receptividade adquirem agora um novo sentido
afetar, ser afetado. O poder de ser afetado é como uma matéria da
força, e o poder de afetar é como uma função da força.” (DELEUZE,
1988, p. 79 destaques do autor). Trata-se de saber, de agora em
diante, como a ideia de ideologia que circula no conhecimento em
Política e Gestão educacional é afetada pelos processos de subjetivação
no nível cartográfico e saber como ele afeta os processos de
subjetivação na especificidade de sua regra de formação da verdade
sobre a política e a gestão da escola. Ou seja, no item anterior,
definimos que a ideologia se constituía como um agenciamento
pleno, preenchido, de significações e os processos de subjetivação
funcionando como um agenciamento vazio de significações, mas
recheado de forças que afetam e deixam afetar-se. Poderíamos
também dizer que a ideologia está para os estratos assim como os
processos de subjetivação estão para o nível cartográfico.
102
Entrelaçamento viável que compõe nosso objeto de pesquisa ao
mesmo tempo que define a estratégia flexível enquanto metodologia
de pesquisa.
Se o poder não constitui um estrato, não tem conteúdo e nem
expressão, somente força, mas mesmo assim lida com enunciados e
emitem enunciados, quais elementos constituem sua especificidade?
“Foucault observa que uma instituição tem necessariamente dois
polos ou dois elementos: os ‘aparelhos’ e as ‘regras’, pois ela organiza
grandes visibilidades campos de visibilidade e grandes
enunciabilidades regimes de enunciados” (DELEUZE, 1988, p.
84). Com o poder lidamos com forças que organizam campos de
visibilidade e enunciabilidades não-estratificadas: ao contrário do
estrato, no âmbito do poder, do não-estratificado, “[...] as relações de
força permaneceriam transitivas, instáveis, evanescentes, quase
virtuais, em todo caso não-conhecidas, se não se efetuassem nas
relações formadas ou estratificadas que compõem saberes”
(DELEUZE, 1988, p. 82).
Com isso não quer dizer que “[...] as ciências do homem vêm
da prisão, mas que elas supõem o diagrama das forças do qual a
própria visão depende.” (DELEUZE, 1988, p. 82). Ou seja, não que
a universidade seja uma prisão, mas que ela comporta diagramas de
força que permitem vislumbrar, em suas práticas, relações de poder
que remontam as consequências de pesquisa, função da pesquisa,
conhecimento em Política e Gestão educacional que colocamos até
então, pelas suas zonas de vizinhança, por isso, elas valem para escolas,
hospitais, igrejas e etc. não para dizer que existe uma forma universal
do poder, uma verdade, mas para vislumbrar diante das forças que se
passam transversalmente nessa zona de vizinhança as práticas
específicas que cada área de conhecimento consegue vislumbrar
enquanto práticas de poder: “Se as combinações variáveis das duas
103
formas o visível e o enunciável constituem os estratos ou
formações históricas, a microfísica do poder expõe, ao contrário, as
relações de forças num elemento informe e não-estratificado”
(DELEUZE, 1988, p. 91).
Se elas compõem forças transitivas não-conhecidas é preciso
ver em cada caso quais campos de visibilidades e enunciabilidades elas
formam. Ressaltando suas devidas alterações acometidas também em
meio às mudanças do capitalismo, a entrada do meio tecnológico
informacional e as pesquisas realizadas por Deleuze deslumbrando os
novos poderes de uma sociedade de controle (DELEUZE, 1992).
Desse modo, as “[...] instituições não são fontes ou essências, e não
têm essência nem interioridade. São práticas, mecanismos operatórios
que não explicam o poder, já que supõem as relações e se contentam
em ‘fixá-las’ sob uma função reprodutora e não produtora”
(DELEUZE, 1988, p. 83).
O que temos agora em relação ao estrato do saber é o não-
estratificado ou as estratégias de poder. “As substâncias formadas se
distinguem pela visibilidade, e as funções formalizadas, finalizadas, se
distinguem pelo enunciado. Não se deve, então, confundir as
categorias afetivas de poder (do tipo ‘incitar’, ‘suscitar’, etc.) com as
categorias formais de saber (‘educar’, ‘tratar’, ‘punir’...) que passam
por ver e falar, para atualizar as primeiras” (DELEUZE, 1988, p. 85).
Não se pode confundir pesquisar, organizar o conhecimento
e transmitir esse conhecimento com excluir, limitar, permitir, que
alinha as consequências de análise que o conhecimento em Política e
Gestão educacional nos coloca. Analisar-se-á nesse caso um processo
de mutação diante da área de conhecimento em que se analisa num
processo que poderíamos até apontar como construtivista e
desconstrutivista na medida em que esse conhecimento não é mais
modelar e fixo para analisar um objeto. Na medida em que se forma
104
por meio de problemas que mobilizam suas formas, podemos
desconstruir o que está dado enquanto forma junto ao seu programa
de análise para reconstruí-lo junto aos dados que ele exclui ou leva
para segundo plano. Isso ocorre mais por acompanhar seus processos
de mutação, hierarquização, exclusão e inclusão de dados, do que fixá-
lo sobre um novo modelo de análise.
Então, “Foucault aponta a ‘regularidade’ como uma
propriedade do enunciado. Ora, a regularidade, para Foucault, tem
sentido bem preciso: é a curva que une pontos singulares (regra)”
(DELEUZE, 1988, p. 85). E, por outro lado, “[...] os próprios pontos
singulares, com suas relações de forças, já não eram um enunciado:
eram o lado de fora do enunciado, que pode lhe ser estranhamente
semelhante e quase idêntico” (DELEUZE, 1988, p. 86): portanto,
enquanto processo, observação das mutações, a “[...] curva-enunciado
integra na linguagem a intensidade dos afetos, as relações diferenciais
de forças, as singularidades de poder (potencialidades)” (DELEUZE,
1988, p. 87). Mas, justamente por isso, o não-estratificado “[...] como
ele mesmo não fala e não vê, faz ver e falar.” (DELEUZE, 1988, p.
89).
Ambos fazem aparecer algo, o poder remete ao saber e vice-
versa, eles somente pressupõem o outro e não fazem do outro o seu
lado de fora, ou seja, o saber não se constitui como o lado de fora do
poder e nem o poder se constitui como lado de fora do saber e o que,
na verdade, eles constituem é exterioridade um com outro, por isso
podemos ainda ter acesso a sua relação como processo disjuntivo, ou
seja, ainda formam uma relação entre si. Cada um tem sua existência
e propriedade específica, mas é, nesse caso, “[...] preciso distinguir a
exterioridade e o lado de fora” (DELEUZE, 1988, p. 93). “A
exterioridade é ainda uma forma, como na Arqueologia do Saber, e
mesmo duas formas exteriores uma à outra, pois o saber é feito desses
105
dois meios, luz e linguagem, ver e falar.” Por isso conseguimos
entender sua relação como uma relação enquanto tal.
Mas o lado de fora diz respeito à força: se a força está sempre em
relação com outras forças, as forças remetem necessariamente a
um lado de fora irredutível, que não tem mais sequer forma, feito
de distâncias indecomponíveis através das quais uma força age
sobre outra ou recebe a ação de outra. (DELEUZE, 1988, p. 93).
O que teremos então, quando atingimos a ideia de lado de
fora, é que ele, “[...] no espaço do Lado de Fora, precisamente onde a
relação é uma “não-relação”, o lugar um “não-lugar”, a história um
devir” (DELEUZE, 1988, p. 93) que formam as dobras, ou o lado de
dentro do pensamento. Explorando essa não-relação daremos conta
da última frente do trabalho de Foucault, a genealogia da ética, e
adentramos aos elementos da produção de subjetividade, que formam
a terceira dimensão dos dispositivos: subjetivação.
A produção de subjetividade, enquanto objeto por excelência
do dispositivo, opera processos de objetivação e subjetivação. A ideia
é que enquanto a objetivação “[...] refere-se à colocação dos corpos e
subjetividades dos indivíduos como objetos para o saber e o poder
modernos, implicando toda uma diversidade de sujeições e controles,
envolvendo a produção de corpos e de indivíduos concretos, presos a
identidades visíveis”, a subjetivação, como dissemos no começo deste
capítulo,
[...] implica um movimento do sujeito em relação a si mesmo no
sentido de reconhecer-se como sujeito de um enunciado, de um
preceito, de uma norma, fazendo com que estes operem no seu
próprio corpo, o que envolve um conjunto de trabalhos e práticas
de si visando estetizar-se e produzir-se conforme enunciado pelo
preceito ou pela norma. (PRADO FILHO; TETI, 2013, p. 50).
106
O que parece é que mesmo se desvendamos as regras de
formação, adentramos as forças que a compõem e a fazem compor,
voltamo-nos às realizações do mesmo processo. Com isso, queremos
dizer que ao realizarmos a emergência dos enunciados e das forças,
conseguimos mostrar os processos de hierarquização e trazer à tona
todos os elementos que são excluídos da enunciação. Será que se trata
somente de mapear esses elementos e pronto? Como chegar a esse
nível de modo que se possam criar modos de pesquisa ao invés de
reproduzir modos de pesquisa? “Se o poder é constitutivo de verdade,
como conceber um ‘poder da verdade’ que não seja mais verdade de
poder, uma verdade decorrente das linhas transversais de resistência e
não mais das linhas integrais de poder? Como ‘ultrapassar a linha’?
(DELEUZE, 1988, p. 103).
Pois bem, “Até agora, já encontramos três dimensões: as
relações formadas, formalizadas sobre os estratos (Saber); as relações
de força ao nível do diagrama (Poder) e a relação com o lado de fora,
essa relação absoluta, como diz Blanchot, que é também não-relação
(Pensamento). Quer dizer que não há lado de dentro?” (DELEUZE,
1988, p. 103). A ideia é que a relação do conteúdo e expressão nos
estratos já formaria, por assim dizer, um lado de dentro, mas veremos
que não se trata disso, pois ao pressupor o lado de fora, do poder, sua
interioridade pode ser alterada justamente naquilo que é modificado
em sua constituição, neste caso, a sua interioridade será formada por
aquilo que ela não consegue pensar: “[...] se o pensamento vem de
fora e se mantém sempre no lado de fora [pois é não-relação], por que
não surgiria no lado de dentro, como o que ele não pensa e não pode
pensar?” (DELEUZE, 1988, p. 104).
Essa exterioridade não é encontrada exatamente fora, mas é
encontrada dentro enquanto algo diferente e de segundo plano. É o
outro que já habita em mim e é formado por elementos já existentes,
107
são as forças que o forçam a se compor de outra maneira, é o diferente:
“[...] eu não me encontro no exterior, eu encontro o outro em mim
(‘trata-se de mostrar como o Outro, o Longínquo, é também o mais
Próximo e o Mesmo’)” (DELEUZE, 1988, p. 105). Como o
desconforto que nos tira as referências sensoriais do qual estamos
habituados e passamos a ser habitados por outras forças, como vimos
com Rolnik (2019) na introdução.
A ideia fundamental de Foucault é a de uma dimensão da
subjetividade que deriva do poder e do saber, mas que não depende
deles. (DELEUZE, 1988, p. 109). “Pois a relação consigo não
permanecerá como zona reservada e guardada do homem livre,
independente de todo ‘sistema institucional e social’. A relação
consigo entrará nas relações de poder, nas relações de saber.” “Ela se
reintegrará nesses sistemas dos quais começara por derivar. O
indivíduo interior acha-se codificado, recodificado num saber ‘moral’
e, acima de tudo, torna-se o que está em jogo no poder é
diagramatizado” (DELEUZE, 1988, p. 110). Portanto, só se pode
fugir deste diagrama na medida em que você faz uma cartografia
expondo os pontos de codificação e os pontos de fuga que permitirão
trazer para o mapa aquele plano territorial que ele não pensa.
Há uma relação com o outro na medida em que sou um
pesquisador e vou a campo e estou frente a outros sujeitos e objetos,
mas existe também uma relação consigo na medida em que lido com
as regras que dominam essa relação: “Por um lado, há uma ‘relação
consigo’ que começa a derivar-se da relação com os outros; por outro
lado, igualmente, uma ‘constituição de si’ começa a derivar do código
moral como regra de saber.” (DELEUZE, 1988, p. 107), “é um poder
que se exerce sobre si mesmo dentro do poder que se exerce sobre os
outros’” (DELEUZE, 1988, p. 107). A novidade da subjetividade, ou
do agenciamento vazio, é que ele pode afetar a si mesmo, o que não
108
ocorria se considerássemos uma relação teoria e prática, leia-se
prescritiva no conhecimento em Política e Gestão educacional, ao
invés de uma relação prática e prática, cada uma contendo uma
dimensão teórica claro. Como se não pudéssemos mais dizer: “Nós
temos uma identidade, nós sabemos o papel do diretor escolar”.
Deste modo, o que “[...] pertence ao lado de fora é a força,
porque em sua essência ela é relação com outras forças: em si mesma,
ela é inseparável do poder de afetar outras forças (espontaneidade) e
de ser afetada por outras (receptividade)”. Mas, o que decorre, então,
“[...] é uma relação da força consigo, um poder de se afetar a si
mesmo, um afeto de si por si. (DELEUZE, 1988, p. 108). É a
especificidade do funcionamento da dobra que colocamos
anteriormente. Se estamos sob efeito de saber e diagramatizados sob
efeitos de poder não podemos pensar o lugar que ocupamos neste
domínio. Observamos o conjunto de sujeitos e objetos sem pensar
essa regra, mas na medida em que dobramos esse conjunto sobre nós
e pensamos sobre as práticas de saber e poder ao qual estamos
acometidos, da qual estamos assujeitados, e como ela nos permite
dizer e falar encontramos as relações consigo que estabelecemos, mas
que antes não observávamos: “Como o pensar poderia inventar uma
moral, se o pensamento não pode encontrar nada em si mesmo,
exceto esse lado de fora do qual provém e que reside nele como ‘o
impensado’?” (DELEUZE, 1988, p. 126).
Eis o nosso desafio! Não acreditamos, de forma alguma, que
todas essas relações foram minadas pela progressão acadêmica na área
de Política e gestão educacional nos últimos anos. Nossas pesquisas
estão aí para deixar o indicativo. Então não é “[...] ‘o apego (de cada
um) à sua própria identidade mediante consciência e o conhecimento
de si’, com todas as técnicas das ciências morais e das ciências do
homem que vão formar um saber do sujeito.” (DELEUZE, 1988, p.
109
110), “[...] submissão ao outro pelo controle e pela dependência”,
porém, “[...] cabe à estratégia atualizar-se no estrato, cabe ao diagrama
atualizar- se no arquivo, à substância não-estratificada cabe
estratificar-se. Atualizar-se é, ao mesmo tempo, integrar-se e
diferenciar-se” (DELEUZE, 1988, p. 110).
Assim, chegamos à conclusão de todo percurso até aqui, como
se o conhecimento em Política e Gestão educacional neste trabalho
fosse afetando a si e recepcionando, sendo afetado por forças que
passam ao seu redor, em todas as direções. “O impensado
problemático dá lugar a um ser pensante que se problematiza a si
próprio, como sujeito ético” (DELEUZE, 1988, p. 126). Daqui em
diante não existem mais dificuldades, pois cada movimento aí
corresponde a variações estratégicas que se atualizam: “[...] isso não
será sinal de que o pensamento se afeta a si próprio, descobrindo o
lado de fora como o seu próprio impensado?” (DELEUZE, 1988,
p.126).
1.3 Introdução à Cartografia esquizoanalítica: rizoma, linhas
duras e seguimentares, linhas flexíveis e circulares e linhas de fuga
e ruptura
O que precisamos saber a partir de então sobre o dispositivo
não se resumirá à sua dinâmica, mas no plano do qual ele faz parte e
delineia três linhas possíveis que funcionam como descrições do que
acontece no mapa traçado: linhas seguimentares, duras ou duais;
linhas flexíveis, molares ou circulares; e linhas de fuga, fratura ou
ruptura. Elas seguem os princípios que encontramos na natureza do
rizoma: “O que chamamos por nomes diversos esquizoanálise,
micro-política, pragmática, diagramatismo, rizomática, cartografia
110
não tem outro objeto do que o estudo dessas linhas, em grupos ou
indivíduos” (DELEUZE; PARNET, 1998, p. 102).
Em sociedade somos atravessados contém em nós por pelo
menos três tipos de linhas, emaranhadas, de modo que poderíamos
até sugerir que temos só um tipo de linha demasiadamente complexa.
O primeiro tipo de linha possui uma seguimentaridade dura, linear,
“(na realidade há muitas linhas deste tipo); a família-a profissão; o
trabalho-as férias; a família-e depois a escola-e depois o exército-e
depois a fábrica-e depois a aposentadoria”, passamos de um “[...]
segmento a outro, nos dizem: agora você já não é um bebê; e na escola,
aqui você não é mais como em família; e no exército, lá já não é como
na escola...” (DELEUZE; PARNET, 1998, p. 151). São linhas ou
seguimentos “[...] bem determinados, em todas as espécies de
direcções, que nos fragmentam em todos os sentidos, pacotes de
linhas seguimentadas” (DELEUZE; PARNET, 1998, p. 151). São de
certa forma identificáveis na superficialidade dos discursos.
O segundo tipo de linha que nos habita, nos atravessa, são as
flexíveis ou de mutação, elas têm a função de exercer pequenas “[...]
modificações, fazem desvios, delineiam quedas ou impulsos: não são,
entretanto, menos precisas; elas dirigem até mesmo processos
irreversíveis”, elas fazem circular fluxos moleculares. Nesse caso, é
diferente da primeira linha: “[...] supera-se limiar, que não coincide
forçosamente com um seguimento das linhas mais visíveis. Passa-se muita
coisa neste segundo tipo de linha, de devires, de micro-devires, que
não têm o mesmo ritmo que a nossa ‘história’” (DELEUZE;
PARNET, 1998, p. 151 destaques dos autores). Esse segundo tipo de
linha menos visível precisa ser explicitado pela curva no espaço
complementar onde os enunciados são cortados, recombinados e
redirecionados. Ou seja, é na relação disjuntiva em que agem que há
a possibilidade de emergência dessas linhas justamente por estarem
111
implicadas na relação com os meios que formam as zonas de
visibilidade.
O fato de o conhecimento em Política e Gestão educacional
não conseguir dar conta dos problemas educacionais que lhes dizem
respeito, incluídas aí as diversas soluções projetadas, abala a possível
coerência existente nessa relação. O problema é como ele se sustenta
mesmo assim. Possivelmente, em suas linhas duras, existe toda uma
coerência que a dualidade, a prescrição e o por-vir dão suporte, mas
que todo aparato institucional, os meios, e suas linhas flexíveis vão
manejando a todo instante para dar sustentação a essas linhas duras,
como, por exemplo, os rituais na carreira acadêmica: processo
seletivo, créditos a cumprir, seguir essa perspectiva e não outra etc.
Por fim, a linha de fuga ou ruptura exerce em nós o
desconforto que temos tradado desde a introdução, é “[...] como se
algo nos levasse, através dos nossos seguimentos, mas também através
de nossos limiares, para um destino desconhecido, não previsível, o
preexistente” (DELEUZE; PARNET, 1998, p. 152). Esta linha tem
a estranheza de querer escapar das outras, mas, de “[...] qualquer
forma as três linhas são imanentes, imbricadas umas nas outras”
(DELEUZE; PARNET, 1998, p. 152). Na dinâmica dessas três
linhas, a especificidade da linha de fuga é a tendência a escapar das
outras linhas, porém, contendo propriedades das outras linhas
habitadas, também, por forças fortemente diferentes. Na medida em
que temos, de maneira hegemônica, duas grandes perspectivas no
conhecimento em Política e Gestão educacional, direcionadas pela
TGA e o marxismo, podemos nos esquecer, por exemplo, que existem
tantos outros trabalhos com referenciais de base completamente
diferentes como Maturana, Foucault, Deleuze, Guattari, Piaget,
Certeau e tantos outros (NASCIMENTO, 2018).
112
Esses trabalhos fogem ao mesmo tempo em que trabalham
temas e problemas específicos do conhecimento em Política e Gestão
educacional. Teria que saber, a partir de então, quais territórios esses
trabalhos tiveram que fazer processos de desterritorialização para
poderem variar: qual instituição pertencem, qual região do Brasil,
qual campo disciplinar, qual programa de Pós-graduação etc. Existem
muitas práticas cotidianas, também acadêmicas no caso, que o fizeram
variar, mas que já tinham de antemão um espaço para existir sem que
as duas grandes perspectivas fossem afetadas.
As linhas seguimentares são operadas por máquinas duais que
nos cortam, são elas as “[...] classes sociais, de sexos, homem-mulher,
de idades, criança-adulto, de raças, branco-negro, de setores, público-
privado, de subjetivações, em nossa casa-fora de casa” (DELEUZE;
PARNET, 1998, p. 155). Elas são mais dicotômicas, na verdade, do
que duais, pois, nos implicam escolhas sucessivas e não somente
simultâneas, ou seja, Deleuze e Parnet (1998, p. 155-156) explicam
que não se trata de uma escolha entre a e b, mas se não é nem a nem
b és c e assim sucessivamente, “podem operar diacronicamente”: “[...]
se não és nem a nem b então és c, o dualismo deslocou-se, e já não diz
respeito a elementos simultâneos a escolher, mas a escolhas sucessivas
[...]”, portanto, “[...] se não és branco nem negro, és mestiço; se não
és homem nem mulher, és travesti; a máquina dos elementos binários
produz constantemente escolhas binárias entre elementos que não
entravam no primeiro corte.”
Nessas linhas operam também os dispositivos que
conhecemos há pouco; nelas, eles operam “[...] fixando o código e o
território do seguimento correspondente” (DELEUZE; PARNET,
1998, p. 156) se não és a nem b logo em seguida está de prontidão
outro código correspondente a um território pré-fixado: “Cada
dispositivo de poder é um código-território complexo (não se
113
aproximem do meu território sou eu quem manda aqui...)”
(DELEUZE; PARNET, 1998, p. 156) ou: as regras estão aqui, sirva-
se. Com os elementos codificados em seus devidos territórios, as
seguimentaridades de uma máquina abstrata que tratará de fixar as
regras que os códigos terão que seguir; esse será um dos papéis
primordiais do Estado na dinâmica dos dispositivos. Essa ideia
deslocará a função das leis, do Estado e das políticas públicas na
cartográfica, elas compõem objetos heterogêneos do dispositivo e não
terão mais a função de centralidade na pesquisa ele funcionará como
uma realidade de sobrecodificação dessas regras, como se grande parte
dos fluxos tivessem que passar pelo Estado: “[...] na linha de
seguimentaridade dura, devem distinguir-se os dispositivos de poder
que codificam os diversos seguimentos, a máquina abstracta que os
sobrecodifica e regula suas relações e o aparelho de Estado que efectua
essa máquina” (DELEUZE; PARNET, 1998, p. 157 destaque dos
autores).
Essa dinâmica constitui para nós um plano de organização
porque traça um mapa de seguimentaridades duras: “[...] toda a
segmentaridade dura, todas as linhas de segmentaridade dura
envolvem um certo plano, que diz simultaneamente respeito às
formas e ao seu desenvolvimento, aos sujeitos e à sua formação.” É
um Plano de organização que dispõe sempre de uma dimensão
suplementar (sobrecodificação)”, ou seja, “A educação do sujeito e a
harmonização da forma não param de obcecar nossa cultura, de
inspirar as segmentações, as planificações, as máquinas binárias que as
cortam e as máquinas abstratas que as recortam” (DELEUZE;
PARNET, 1998, p. 157 destaque dos autores).
Para as linhas flexíveis e as de fuga não teremos um
dispositivo, apesar de sabermos que essas linhas também passam por
ele, mas que escapam, teremos uma máquina mutante, pois, trata-se
114
de saber a criação que se dá no entremeio entre os elementos a, b e c.
Elas marcam neles, mas principalmente entre eles, os pontos destas
mutações, pois, não vêm nem para complementá-lo ou opor-se a ele,
ele cria com os elementos que estão ali em jogo, traz o impensado já
contido no lado de dentro: “[...] são mutantes e não sobrecodificadas,
marcando a sua mutação em cada limiar e em cada conjugação
(DELEUZE; PARNET, 1998, p. 158). Nesse caso não formamos um
plano de organização, mas delineamos o seu plano de consistência ou
imanência. Nas linhas de fuga, especificamente, precisamos saber
quais são os processos de desterritorialização que arrebatam as linhas
seguimentares para o espaço de criação de outros territórios e os
processos de reterritorialização que as fixam de volta aos seguimentos.
Pode-se compreender melhor, então, por que ora dizemos que
há ao menos três linhas diferentes, ora apenas duas, ora até
mesmo apenas uma, muito complicada. Ora três linhas, com
efeito, porque a linha de fuga ou de ruptura conjuga todos os
movimentos de desterritorialização, precipita seus quanta,
arranca suas partículas aceleradas que entram em vizinhança
umas das outras, leva-as para um plano de consistência ou uma
máquina mutante e depois, uma segunda linha, molecular, onde
as desterritorializações são apenas relativas, sempre compensadas
por reterritorializações que lhes impõe voltas, desvios, equilíbrio
e estabilização; enfim, a linha molar a segmentos bem
determinados, onde as reterritorializações se acumulam para
constituir um plano de organização e passar para uma máquina
de sobrecodificação. (DELEUZE; PARNET, 1998, p. 164-165).
Ou também se pode ver um movimento contrário que apesar
de incomodo e de não ser o nosso caso não faremos desta forma
não há problema algum nisso: “Ou então há apenas uma linha, a linha
de fuga primeira, de borda ou de fronteira, que se relativiza na
115
segunda linha, que se deixa parar ou cortar na terceira” (DELEUZE;
PARNET, 1998, p. 165). Esse quadro monta a trama dessas linhas
onde podemos separá-las ou partir delas. O importante é que
podemos distinguir no mapa as dinâmicas de enrijecimento, mutação
e criação de subjetividades operando em qualquer lugar do mapa
quase que simultaneamente, não precisamos prolongar a história para
criar seus pontos, mas a partir deles existe uma geografia atemporal,
para não dizer sincrônica, que permite-nos deslocar instantaneamente
de um local do mapa para outro, ai entendemos as lentidões e
velocidades, para qualquer lugar: “A política é uma experimentação
ativa, porque não se sabe de antemão o que vai acontecer com uma
linha. Fazer a linha passar, diz o contador, mas justamente pode-se
fazê-la passar em qualquer lugar” (DELEUZE; PARNET, 1998, p.
166 destaque dos autores).
Decerto que não se trata de uma síntese dos dois, de uma síntese
de 1 e de 2, mas de um terceiro que vem sempre de outro lugar
e perturba a binaridade dos dois, uma vez que já não se inscreve
nem na sua oposição nem na sua complementaridade. Não se
trata de acrescentar, na linha, um novo seguimento aos seus
seguimentos precedentes (um terceiro sexo, uma terceira classe,
uma terceira idade), mas de traçar uma outra linha no meio da
linha seguimentária, no meio dos seguimentos, que os arrastará
segundo velocidades e lentidões variáveis num movimento de
fuga ou de fluxos. (DELEUZE; PARNET, 1998, p. 158).
Diante dessa complexa relação entre as linhas, os autores
indicam algumas questões problematizadoras que nos ajudam a lidar,
ou partir, com análise prática delas. São três questões primárias: “1)
Quais são os segmentos duros, suas máquinas binárias e de
sobrecodificação?” (DELEUZE; PARNET, 1998, p. 172). “2) Quais
116
são suas linhas flexíveis, quais fluxos e quais limiares? Que conjunto
de desterritorializações relativas, e de reterritorializações correlativas?
[...] 3) Quais são suas linhas de fuga, lá onde os fluxos se conjugam,
lá onde os limiares atingem um ponto de adjacência e de ruptura?”
(DELEUZE; PARNET, 1998, p. 173).
Os encaminhamentos que essas três perguntas nos remetem
nos ajudam a identificar no nível cartográfico a dimensão dos estratos,
dos dispositivos e do pensamento, e seus respectivos planos estão
alinhados com os princípios e natureza do rizoma. Deleuze e Guattari
(2011) vão distinguir três modos de pensamento para especificar a
natureza que designa os princípios do rizoma: o modelo-raiz, o
sistema-radícola e o rizoma propriamente dito. O modelo-raiz, ou
árvore-raiz, remete ao pensamento que possui raízes, bases, se
desenvolve verticalmente de maneira hierárquica: a dependência de
um centro, de um autor, de uma obra, de um conceito, o pensamento
enquanto “[...] realidade espiritual, a Árvore ou a Raiz como imagem,
não para de desenvolver a lei do Uno que se torna dois, depois dois
que se tornam quatro.... A lógica binária é a realidade espiritual da
árvore-raiz” (DELEUZE; GUATTARI, 2011, p. 20). O problema é
que existe uma raiz enquanto base, enquanto verdade, quanto mais
velha mais fixa sobre o chão, mais grosseira imóvel e preguiçosa.
Tendemos a colocar aqui a metodologia tradicional que alinha as
pesquisas na área da Política e Gestão educacional na medida em que
temos teorias que se dispõem e lutam para ser o fio condutor de
análise e de práticas de gestão na escola e na elaboração de políticas
públicas.
Isto quer dizer que este pensamento nunca compreendeu a
multiplicidade: ele necessita de uma forte unidade principal,
unidade que é suposta para chegar a duas, segundo um método
117
espiritual. E do lado do objeto, segundo o método natural, pode-
se sem dúvida passar diretamente do Uno a três, quatro ou cinco,
mas sempre com a condição de dispor de uma forte unidade
principal, a do pivô, que suporta as raízes secundárias. Isto não
melhora nada. (DELEUZE; GUATTARI, 2011, p. 20).
O sistema-radícola vem justamente abortar essa raiz enquanto
base ou centro para anunciar o passado de uma raiz ou desvendar os
contornos de seu futuro melhor, ampliado, apurado, mas que ao final
acaba por desempenhar a mesma função da árvore-raiz: “O sistema-
radícula, ou raiz fasciculada, é a segunda figura do livro, da qual nossa
modernidade se vale de bom grado. Dessa vez a raiz principal abortou,
ou se destruiu em sua extremidade: vem se enxertar nela uma
multiplicidade imediata e qualquer de raízes secundárias que
deflagram um grande desenvolvimento. Desta vez, a realidade natural
aparece no aborto da raiz principal, mas sua unidade subsiste ainda
como passada ou por vir, como possível” (DELEUZE; GUATTARI,
2011, p. 20). Eis o seu principal problema: “Toda vez que uma
multiplicidade se encontra presa numa estrutura, seu crescimento é
compensado por uma redução das leis de combinação” (DELEUZE;
GUATTARI, 2011, p. 21). Ou seja, o problema é que cada vez mais
o conhecimento tende a se repetir e variar menos por causa de suas
leis de combinação que se encontram restritas e reduzidas.
Por fim, temos o rizoma que é como um espaço do tipo grama
com suas diversas raízes se movimentando de maneira horizontal
criando pontos, zonas de passagem, demonstram limites de sua
planificação, mas também saídas delas: “Um rizoma como haste
subterrânea distingue-se absolutamente das raízes e radículas. Os
bulbos, os tubérculos, são rizomas” (DELEUZE; GUATTARI, 2011,
p. 21). Em contrapartida, a
118
[...] maior parte dos métodos modernos para fazer proliferar
séries ou para fazer crescer uma multiplicidade valem
perfeitamente numa direção, por exemplo, linear, enquanto que
uma unidade de totalização se afirma tanto mais numa outra
dimensão, a de um círculo ou de um ciclo. (DELEUZE;
GUATTARI, 2011, p. 21).
Podemos ver que a ideia da árvore, raiz e rizoma nos ajudam
a ilustrar as intenções e afetos de cada ponto da dinâmica que
colocamos até aqui. Além disso, assim como as questões primárias que
podemos fazer na análise das linhas, os autores dispõem sobre o
rizoma seis princípios práticos para elucidação de suas forças e
condicionantes da análise dessas linhas.
Vejamos os seus seis princípios. O princípio de
heterogeneidade nos permite almejar que os pontos do rizoma podem
ser heterogêneos e mesmo assim estabelecer algum tipo de conexão
em cada caso analisado. Trata-se de não deixar a análise proliferar por
um ponto comum fixado ou de ordem fixada. Coisas que não
apareciam ou não poderiam aparecer relacionadas, como a prática do
pesquisador e uma frente de dominação, emergir como uma nova
relação, que dentro da maneira tradicional não é possível de ser
pensada, em torno de problemas que as relacionam: “[...] qualquer
ponto de um rizoma pode ser conectado a qualquer outro e deve sê-
lo. É muito diferente da árvore ou da raiz que fixam um ponto, uma
ordem” (DELEUZE; GUATTARI, 2011, p. 22).
Uma cadeia semiótica é como um tubérculo que aglomera atos
muito diversos, lingüísticos, mas também perceptivos, mímicos,
gestuais, cogitativos: não existe língua em si, nem universalidade
da linguagem, mas um concurso de dialetos, de patoás, de gírias,
de línguas especiais. Não existe locutor-auditor ideal, como
119
também não existe comunidade lingüística homogênea.
(DELEUZE; GUATTARI, 2011, p. 23).
Quando buscamos os enunciados em relação a outros
enunciados delimitamos o espaço de sua regra no conjunto dos
heterogêneos estamos, concomitantemente, traçando linhas sobre
diversos lugares, são multiplicidades de natureza discursiva, se
fizéssemos uma linha da política e gestão, por exemplo, poderíamos
-la passar, talvez, por um sistema legislativo, social, psicológico,
histórico, didático, inclusivo, curricular etc. Esse é o segundo
princípio, o de multiplicidade: “Uma multiplicidade não tem nem
sujeito nem objeto, mas somente determinações, grandezas,
dimensões que não podem crescer sem que mude de natureza (as leis
de combinação crescem então com a multiplicidade)” (DELEUZE;
GUATTARI, 2011, p. 23), ou seja, “não existem pontos ou posições
num rizoma como se encontra numa estrutura, numa árvore, numa
raiz. Existem somente linhas” (DELEUZE; GUATTARI, 2011, p.
24).
Seu princípio de ruptura a-significante faz funcionar os
sistemas de máquinas abstratas e concretas, portanto, podemos cortar
os significantes, as multiplicidades, desviá-las para outras disciplinas
e mudá-las de natureza, trata-se de desterritorializá-las de um lugar
para outro, até acumulá-las em um território, um plano, totalmente
novo:
Um rizoma pode ser rompido, quebrado em um lugar qualquer,
e também retoma segundo uma ou outra de suas linhas e segundo
outras linhas. [...] Todo rizoma compreende linhas de
segmentaridade segundo as quais ele é estratificado,
territorializado, organizado, significado, atribuído, etc; mas
compreende também linhas de desterritorialização pelas quais ele
120
foge sem parar. Há ruptura no rizoma cada vez que linhas
segmentares explodem numa linha de fuga, mas a linha de fuga
faz parte do rizoma. Estas linhas não param de se remeter uma às
outras. É por isto que não se pode contar com um dualismo ou
uma dicotomia, nem mesmo sob a forma rudimentar do bom e
do mau. Faz-se uma ruptura, traça-se uma linha de fuga, mas
corre-se sempre o risco de reencontrar nela organizações que
reestratificam o conjunto, formações que dão novamente o poder
a um significante, atribuições que reconstituem um sujeito
tudo o que se quiser, desde as ressurgências edipianas até as
concreções fascistas. (DELEUZE; GUATTARI, 2011, p. 25-
26).
Seu princípio de cartografia e decalcomania complementa
enfatizando que o rizoma não pode ser edificado sob base de um “eixo
genético” ou uma estrutura fundante. Se isso ocorre não é caso de
rizoma, mas de uma árvore que se forma, pois ela se contenta em “[...]
decalcar algo que se dá já feito, a partir de uma estrutura que
sobrecodifica ou de um eixo que suporta. A árvore articula e
hierarquiza os decalques, os decalques são como folhas da árvore”
(DELEUZE; GUATTARI, 2011, p. 30). Em contraposição, o mapa
é “[...] aberto, é conectável em todas as suas dimensões, desmontável,
reversível, suscetível de receber modificações constantemente. Ele
pode ser rasgado, revertido, adaptar-se a montagens de qualquer
natureza, ser preparado por um indivíduo, um grupo, uma formação
social” (DELEUZE; GUATTARI, 2011, p. 30). O mapa não decalca
fixando, ele é a base móvel de modificações, “Um mapa tem múltiplas
entradas contrariamente ao decalque que volta sempre ‘ao mesmo’.
Um mapa é uma questão de performance, enquanto que o decalque
remete sempre a uma presumida ‘competência’.” (DELEUZE;
GUATTARI, 2011, p. 30). Porém, o decalque não é algo totalmente
descartável, ele assume função importante no rizoma, pois o
121
[...] inverso é também verdadeiro, é uma questão de método: é
preciso sempre projetar o decalque sobre o mapa. E esta operação
não é de forma alguma simétrica à precedente, porque, com todo
o rigor, não é exato que um decalque reproduza o mapa. Ele é
antes como uma foto, um rádio que começaria por eleger ou
isolar o que ele tem a intenção de reproduzir, com a ajuda de
meios artificiais, com a ajuda de colorantes ou outros
procedimentos de coação. (DELEUZE; GUATTARI, 2011, p.
31-32 destaque dos autores).
É partindo de um decalque, uma imagem, que podemos
perceber todos os processos que o estabilizaram e as regras de
formação que neutralizam seus pontos de variação e as forças que
podem habitar o espaço rizomático e criar outros modos de pensar o
conhecimento em Política e Gestão educacional. Isso porque
O decalque já traduziu o mapa em imagem, já transformou o
rizoma em raízes e radículas. Organizou, estabilizou, neutralizou
as multiplicidades segundo eixos de significância e de
subjetivação que são os seus. Ele gerou, estruturalizou o rizoma,
e o decalque já não reproduz senão ele mesmo quando crê
reproduzir outra coisa. Por isto ele é tão perigoso. Ele injeta
redundâncias e as propaga. O que o decalque reproduz do mapa
ou do rizoma são somente os impasses, os bloqueios, os germes
de pivô ou os pontos de estruturação (DELEUZE; GUATTARI,
2011, p. 31-32).
E é justamente a possibilidade de ver os impasses, bloqueios,
pontos de estruturação do decalque que podemos edificar uma
cartografia esquizoanalítica. Para edificá-la, nosso próximo passo será
identificar nos autores que realizam análises sobre a trajetória do
conhecimento em Política e Gestão educacional no Brasil,
considerando também os Estados da Arte e levantamentos
122
bibliográficos, quais são os elementos que permitem nos colocar neste
espaço onde a classificação habitual do conhecimento na área cede
lugar ao processo que lhe permite aparecer desta forma e não de outra.
Ou seja, ao invés de montarmos uma outra trajetória buscando novos
elementos que poderiam modificá-la, analisaremos nos autores que
a fizeram quais são as regras que eles utilizam para isso e entender o
porquê de ela aparecer para eles quase da mesma forma. Não sabemos
se, acaso refizéssemos a trajetória do conhecimento em Política e
Gestão educacional ao modo que os autores fizeram, ela também
apareceria de forma similar, entretanto, identificar as regras de
produção em sua trajetória nos abre a possibilidade de refa-la em
trabalhos futuros já sabendo como e o porquê esse processo exclui e
inclui dados da realidade, edificando-os de outra maneira.
123
CAPÍTULO 2
As regras básicas de produção do conhecimento
em Política e Gestão educacional no Brasil:
dualidade e prescrição
Não pense que o mundo acaba
Ali onde a vista alcança
Quem não ouve a melodia
Acha maluco quem dança
MONTENEGRO (2001)
Neste capítulo, nosso objetivo é cartografar as regras básicas
que compõem a maquinaria de construção do conhecimento em
Política e Gestão educacional no Brasil. Conduziremos uma leitura
interna de sua organização, evidenciando suas linhas duras e
superficiais fazendo emergir os espaços colaterais e correlativos que
dão forma ao seu plano de organização. Afinal de contas, o que posso
falar, ver e saber sobre Política e Gestão educacional no Brasil?
Não por acaso, na Introdução e ao longo do primeiro
capítulo, tratamos essa área de conhecimento como Política e Gestão
educacional para delimitar seu recorte espacial de pesquisas que
trabalham com a temática especificamente no Brasil e para analisar e
entender que a separação que hoje em dia soa corriqueira e tranquila
aos nossos sentidos estudos de Política de um lado e estudos de
Gestão de outro - sofreu um recorte decisivo em sua história. Talvez
124
este recorte tenha sido até mais significativo do que a própria
construção da perspectiva democrática.
Podemos ter como referência para essa constatação os livros
de Ribeiro (1938; 1952), pois a produção deste autor se apresenta
como um dos pontapés iniciais no processo de institucionalização da
disciplina na medida em que a Política e Gestão educacional no Brasil
constituíram-se como elementos fundamentais para organização do
trabalho na escola pública, que, na época, expandia seus serviços à
população da cidade que crescia devido ao processo de urbanização e
crescimento das indústrias. Portanto, esse conhecimento deveria
também ser sistematizado e organizado para ser ensinado aos futuros
profissionais da educação.
Segundo Ribeiro (1952), até aquele momento histórico, ele
foi “[...] um ramo de estudos que [entre nós], não mereceu nenhuma
tentativa de sistematização que lhe servisse de base conceptual,
permitindo compreendê-la com nitidez e utili-la com segurança” e,
por outro lado, seu ensino não possuía até então “[...] nenhuma obra
que sirva de ponto de partida para a apresentação geral da disciplina
e seu posterior e consequente desdobramento em setores
especializados” (RIBEIRO, 1952, p. 7).
Mas, o que nos interessa é que foi juntamente com o processo
de institucionalização desse conhecimento, tendo como suporte a
Cadeira de Administração Escolar na Faculdade de Educação da
Universidade de São Paulo, que este professor explicitou conceitos
que, de certa maneira, foram assumidos posteriormente por outros
autores e perduram até os dias atuais. Por Política educacional o autor
entende o “[...] ‘estilo’ de ação, o ‘modus faciendi’ com que se
pretende realizar, através de um sistema educacional, os objetivos
propostos pela filosofia de educação.” Ou seja, “[...] a filosofia
estabelece os ideais a atingir, a administração oferece os meios de ação
125
e a política determina em que estilo, de que maneira, os meios devem
ser estabelecidos e usados” (RIBEIRO, 1952, p. 47). Portanto, “[...]
ADMINISTRAÇÃO ESCOLAR é o complexo de processos
cientificamente determinados, que, atendendo a certa filosofia e a certa
política de educação, desenvolvendo-se antes, durante e depois das
atividades escolares para garantir-lhes unidade e economia” (RIBEIRO,
1952, p. 153 destaques do autor).
Em primeiro lugar, essa separação, além de visível de fato,
pelo menos em sua superficialidade nas obras dos autores
subsequentes da área, nos permitirá adentrar em cada uma de suas
propriedades, separadamente, e investigar os efeitos de cada uma
sobre o conhecimento em Política e Gestão educacional.
Em segundo lugar, optamos por, neste capítulo, trabalhar
com a Gestão e, posteriormente, com a Política, mantendo-nos
coerentes com a proposta do autor que divide as divide. Destacamos
que Ribeiro (1952) utiliza “teoria da administração escolar”, não
somente ele, para indicar o que neste livro designamos, desde a
Introdução, “conhecimento em Política e Gestão educacional no
Brasil”. Para estarmos mais próximos aos leitores, optamos por
manter a terminologia Gestão adotada de forma unânime na
Educação, a partir do final dos anos 1980. Mas é preciso dizer que
conhecemos a discussão que envolve a utilização desses termos e
identificamos a predominância que há no entendimento de que
Administração se associa aos valores da empresa tais como
eficiência, eficácia, resultados, avaliação, economia etc. sobre as
práticas escolares e, em contrapartida, o termo Gestão vincula-se à
democratização da educação por meio do direito à educação e da
126
organização coletiva do trabalho escolar9. Apesar de conhecermos as
discussões envolvendo as terminologias, cabe ressaltar que elas não
serão objetos de estudo deste livro, portanto, ressaltamos que a
utilização do termo envolve somente sua atualidade e garante a
padronização, ao invés do revezamento entre eles, já que neste
capítulo Gestão educacional e Administração escolar designam a
mesma coisa.
Em terceiro lugar, apesar de utilizarmos os livros de Ribeiro
(1938; 1952) para explicar esse fato importante para a área - separação
entre Política e Gestão -, não defendemos a ideia de que este autor
seja um ponto central por onde se ramificam, ou emanam, os
princípios do desenvolvimento do conhecimento, ao contrário, ele se
constitui como um ponto, dentre outros possíveis, por onde essa linha
de força passa. Ou seja, isso surge mais como uma exigência do nosso
problema de pesquisa do que uma imposição teórica da Gestão
educacional ou uma escolha aleatória dos pontos possíveis em
questão10. Não que os outros possíveis pontos não possam aparecer
no percurso da pesquisa, por isso a importância de descrever o
caminho que se desbrava mais do que delimitar a partida em torno de
um centro e do lugar que se queira chegar. Sabemos, neste caso, aonde
queremos chegar, mas não temos a mínima ideia se chegaremos e o
que estará à nossa espera quando chegarmos. De qualquer forma, o
trabalho de Ribeiro (1938; 1952) foi um ponto de referência, e
somente isso, e como os pontos do rizoma estão conectados
9 Mutim e Freitas (1999) Gracindo e Kenski (2001), Lück (2006), Souza (2006), Calixto
(2008) e Drabach e Mousquer (2009).
10 Essa ideia aparece também em outros autores edificadores da teoria da Gestão educacional
no Brasil como Alonso (1976), Félix (1985) e Paro (1986) e veremos as minúcias e
consequências dessa ideia na segunda parte deste capítulo.
127
poderemos passar de um lugar ao outro de acordo com os desvios que
o caminho da pesquisa propõe.
2.1 A dualidade da Gestão educacional no Brasil: o verdadeiro, o
falso e a periferia
Aceitando a divisão proposta por Ribeiro (1952), nesta
primeira seção, analisaremos as características e efeitos da Gestão
educacional no Brasil sobre ela mesma. Trata-se de saber qual função
específica que ela assume no quadro geral da constituição do
conhecimento em Política e Gestão educacional no Brasil. Precisamos
reconhecer como alguns autores fazem essa leitura da trajetória do
conhecimento em Gestão educacional para entendermos como é
possível montar e sustentar essa leitura em duas perspectivas.
Nosso primeiro passo será saber como se constitui o
conhecimento em Gestão educacional em perspectivas, ou seja, quais
elementos dão a alusão de duas possíveis perspectivas. Podemos
identificar que os pontos que captaram a função dessa força
encontram-se na ideia de “autor”. As leituras já existentes sobre a
constituição das perspectivas apontam os autores Querino Ribeiro e
Myrtes Alonso como os propulsores da perspectiva empresarial e
Maria de Fátima Félix e Vitor Paro como propulsores da perspectiva
democrática. Os autores que conduzem essa leitura sobre a
constituição das perspectivas também utilizam a própria perspectiva
democrática de Gestão educacional ou fundamentalmente as teorias
marxistas que as embasam para definir os trajetos que cada
perspectiva acabou traçando no decorrer da história. Isso significa que
a “função social” a qual a perspectiva corresponde e o “referencial
teórico” que cada uma se embasa acabam também por defini-la
enquanto perspectiva.
128
Se seguirmos o primeiro caso, da definição das perspectivas
em relação aos autores, podemos dizer que os primeiros escritos sobre
Gestão educacional estão profundamente ligados a eles, o problema é
que, por consequência, podemos também constituir a perspectiva
ligando-a ao referencial teórico que os autores utilizaram para
fundamentar sua abordagem. Sendo assim, podemos apontar a
existência de cada uma das perspectivas utilizando os autores sem citar
seus referenciais teóricos ou apontar sua existência utilizando cada um
destes autores ao encargo da função social que sua perspectiva teórica
desempenha na definição do papel da educação na sociedade, ou
talvez, a função social da escola. Ou, também, utilizar a função social
do respectivo referencial teórico sem citar o autor ou o referencial que
lhe fundamenta para definir a formação da perspectiva.
Ou seja, estas três peças ou categorias “o autor”, “o
referencial teórico” e a função social do referencial” estão
completamente entrelaçadas, podendo, inclusive, serem utilizadas de
forma concomitante, sendo que a presença de uma exige ou pressupõe
a presença da outra. Como se cada uma pudesse se desenhar como
três linhas flexíveis que se dinamizam em relação às duas linhas duras,
que são as perspectivas empresarial e democrática, que se apresentam
como limite uma para outra e formam um movimento circular que
permite revezamento entre elas sendo a linha da função social a mais
transitória e transversal dentre elas, isso significa que a função social
aparece como justificativa da divisão em perspectivas ou aparece como
resultado da edificação ou adoção de uma ou de outra perspectiva, ou
seja, essa última linha quase não sendo necessariamente mencionada,
aparece. Flexíveis, pois, apesar de assumirem propriedades específicas
quando habitam cada uma das perspectivas, podem aparecer em
ambas.
129
Ao invés de irmos aos autores de cada perspectiva para realizar
um novo modo de classificação sob viés da cartografia
esquizoanalítica, iremos analisar os autores que fazem uma leitura e
delineamento da trajetória do conhecimento em Gestão educacional,
pois eles colocam em prática um modo de enxergar e classificar esse
conhecimento e, por sua vez, esse movimento evidencia os elementos
de análise mobilizados que permitem classificá-lo de uma forma
precisa e não de outra. Quando nos debruçamos e analisamos alguns
autores que realizam uma leitura do desenvolvimento do
conhecimento em Gestão educacional no Brasil, podemos perceber o
revezamento dessas três categorias. Começaremos com Wittmann
(1987) e perceberemos que são ideias bem simples em que a lógica se
desdobrará também em Russo (2004) e Catani e Oliveira (1994).
Para o primeiro autor, o conhecimento em Gestão
educacional nada mais é que um reflexo imediato da infraestrutura
econômica e social, ou seja, a “[...] produção histórica da
administração da educação se faz na ambiguidade do concreto,
superando esta dicotomia” (WITTMANN, 1987, p. 01). Ele afirma
que a divisão de classes entre burguesia e proletariado nos planos
superestruturais dão também forma à divisão entre perspectivas no
conhecimento em Gestão educacional, teríamos, assim, uma gestão
empresarial baseada no ideário burguês que defende os pressupostos
do capitalismo e a manutenção da hegemonia desse modo de
produção, pois ela foi “[...] produzida no interior das relações sociais
mais amplas do modo capitalista de produção e, em consequência,
produziu-se como instância legitimadora dos interesses do capital” e,
em contrapartida, teríamos uma gestão democrática que assumiria os
ideários do proletariado e a soberania popular que estimulariam a
transformação social do modo de produção capitalista. Sendo assim,
130
[...] no interior das contradições da evolução da formação social
brasileira, se constrói a consciência e a busca da afirmação desta
autonomia e da dimensão sócio-política da prática da
administração da educação. Adensa-se, assim, progressivamente,
a administração da educação como instância de coordenação que
expresse e impulsione a produção concreta da educação
comprometida com os interesses da maioria da população,
identificados nas lutas, organizações e movimentos populares.
(WITTMANN, 1987, p. 03).
Deste modo, no desenvolvimento desta ambiguidade, a “[...]
administração da educação se constitui em instância de reforço,
legitimação e perpetuação de uma situação dada, ao mesmo tempo
em que se constitui como espaço e instrumento da construção
histórica de nova hegemonia” (WITTMANN, 1987, p. 01).
Seguindo esta mesma lógica, Catani e Oliveira (1994, p. 9) afirmam
que a teoria da Gestão educacional no Brasil tem se fundamentado
em dois enfoques, ou paradigmas, fundamentais: um que “[...]
privilegia o que pode ser chamado de ‘paradigma da empresa’; o
outro, que se contrapõe ao primeiro, concentra-se na exploração de
algumas dimensões que conduzem à ‘especificidade da escola’”.
O primeiro paradigma é sustentado, segundo os autores, por
Querino Ribeiro na medida em que afirma que a gestão de uma
empresa é similar à de qualquer instituição, inclusive a escola, por isso,
pode ser adotado amplamente e o outro paradigma é sustentado por
Maria de Fátima Félix e Vitor Paro na medida em que afirmam que
a natureza e os fins educacionais são completamente diferentes
daqueles almejados pelas fábricas e empresas. Catani e Oliveira (1994,
p. 9) também sustentam que para cada enfoque temos consequências
sociais observáveis em seu percurso: o paradigma empresarial “[...]
forneceu as concepções ideológicas e operacionais para a gestão
131
escolar como um todo”, ou seja, assume função ideológica de
manutenção da divisão de classes e do modo de produção capitalista
e o paradigma da especificidade da escola baseia-se na solidariedade e
tem como função ser crítica no sentido que vimos no capítulo um
ao enfoque anterior na medida em que se “[...] difunde com
facilidade entre os profissionais da área, uma vez, que a concepção
anterior degrada a ‘missão’, o ‘altruísmo’, e, até mesmo, a concepção
de classe intrínsecos ao magistério” (CATANI; OLIVEIRA, 1994, p.
10).
Ainda sobre este aspecto, Russo (2004) privilegia Querino
Ribeiro e Myrtes Alonso como fundadores da perspectiva empresarial
e Maria de Fátima Félix e Vitor Paro como fundadores da perspectiva
democrática de gestão escolar. A novidade de Russo (2004) é que,
pautado na ideia de paradigma científico de Thomas Kuhn, cada
perspectiva oferece alusão aos métodos, técnicas e visões de mundo
coerentes com sua respectiva configuração. Neste caso, o paradigma
empresarial ainda supõe a manutenção das classes sociais e do
capitalismo, pois se fundamenta “[...] teórica e praticamente, no
paradigma da administração empresarial que encontra na Teoria
Geral da Administração (TGA) a expressão do seu pensamento e a
formulação de suas práticas” e admite que “[...] administrar uma
escola é tarefa equivalente à administração de uma empresa qualquer
(RUSSO, 2004, p. 27-28).
O paradigma da especificidade da escola prevê, sob base na
soberania popular, a transformação social do modo de produção e
uma gestão popular da escola e a análise acadêmica deveria edificar-se
com estudos de campo visando construir o estudo sobre a organização
do trabalho escolar, pois, este “[...] passou a ser o fundamento para
pensar as questões da gestão escolar; a democratização da educação e
da escola assumiu centralidade entre os objetivos a serem alcançados.”
132
Ou seja, cada paradigma, enquanto fundamento de uma visão de
mundo, defende que “[...] administração escolar seja uma prática
mediadora dos interesses que se manifestam em relação à educação no
âmbito da sociedade e da escola” (RUSSO, 2004, p. 31 destaque
nosso).
Podemos perceber que em cada um dos autores aparece uma
e/ou outra das três categorias autor, referencial teórico, função social
- de sustentação da leitura do conhecimento em Gestão educacional
sob perspectivas. Porém, outro dado importante é que podemos
perceber, também, que a leitura que eles conduzem exerce,
concomitantemente, uma outra função, além de definir perspectivas:
é a função de definir entre elas, por meio da investigação dos aspectos
ideológicos do conhecimento em Gestão educacional, qual
corresponde à ideologia e qual corresponde à verdade. Podemos dizer
que essa investigação serve muito mais para classificar qual perspectiva
é científica e verdadeira e qual é falsa, ideológica e não-científica do
que definir qual é empresarial e qual é democrática.
É interessante destacar que no final dos anos 1990 foi
realizado um Congresso Luso-brasileiro de Política e Administração
da Educação e um dos pesquisadores brasileiros, Silva Junior (2002),
ao fazer um resgate da construção do conhecimento da área,
demonstra a não cientificidade da perspectiva baseada na
administração empresarial, justamente por alegar que esta não está
amparada nos suportes científicos da pesquisa que, necessariamente,
passam pela observação e análise da realidade (no caso, dos
“conglomerados empresariais”). O autor finaliza dizendo que é
preciso regressar ao início da história do conhecimento, citando,
então, autores clássicos, entre eles, Ribeiro (1952), juntamente com a
necessidade fazer uma outra história, baseada em uma perspectiva
científica, considerando os avanços da democracia (SILVA JUNIOR,
133
2002). Mas lembramos que, ao final, uma ou outra irá carregar o
destino científico que lhe será correspondente, ou seja, dizer
perspectiva empresarial será, nessa lógica dos autores, dizer
perspectiva ideológica, enquanto, dizer perspectiva democrática
equivalerá a dizer perspectiva verdadeira e científica e, indo além, será
o mesmo que dizer: “eu estou a favor da manutenção do capitalismo
ou estou a favor da transformação social”.
Podemos identificar a precipitação de linhas de força que
montam uma coerência que tem justamente a função, do ponto de
vista do saber, de sustentar essa divisão em perspectivas e sustentar
também, do ponto de vista do poder, práticas institucionais de acordo
com a condução ética de cada perspectiva. Afinal de contas,
dependendo de onde você estuda, esse campo de conhecimento se
constitui moral e academicamente malvisto ao defender o capitalismo
ou, outro caso, defender a transformação social; e isso conduz o corpo
do pesquisador às práticas previstas em cada caso. Temos pronto o
ciclo que conduzirá as pesquisas em Gestão educacional no Brasil. E
essa última função que apareceu nos conduzirá, agora, ao nosso
segundo passo.
Pois bem, é no momento em que a dualidade do
conhecimento, a divisão em duas perspectivas, é reconhecida
enquanto problema para os autores que realizam essa leitura em
perspectivas do desenvolvimento do conhecimento em Gestão
educacional que podemos perceber melhor o exercício dessa
classificação entre verdadeiro e falso. A consequência social de cada
perspectiva conduzirá o pesquisador ao papel ético que ele deverá
desempenhar no conjunto da produção acadêmica sobre Gestão
educacional no Brasil: a divisão entre perspectivas enquanto problema
e o papel social de cada uma das perspectivas permite propor soluções
134
“seguras” e científicas ao mesmo tempo em que define o que é e o que
não é verdadeiro.
Para Wittmann (1987), a divisão entre perspectivas
estabeleceu-se enquanto problema porque a dinâmica entre elas não
permite aos pesquisadores e trabalhadores da escola adentrarem ao
movimento de construção da realidade. Ambas se perdem em um
movimento que estagna o conhecimento. Por um lado, a perspectiva
empresarial “[...] denuncia a teoria e a prática da administração da
educação como uma instância do amplo processo de conservação,
sustentação e legitimação da situação dada” e permanece “[...]
vendida aos interesses hegemônicos do momento da evolução da
formação social [...]” e, por outro lado, a perspectiva democrática
“[...] anuncia a teoria e a prática da administração da educação como
instrumento de transformação estrutural da sociedade, pela sua
contribuição na construção de uma prática educativa comprometida
com os interesses coletivos das classes populares” e permanece “[...]
vendida e mergulhada no idílio revolucionário”. Desse modo, o
conhecimento em Gestão educacional “[...] se encontraria diante do
dilema entre a subserviência, rendida ao curso dos acontecimentos,
ou rendida ao sonho, perdida no dis-curso das palavras.”
(WITTMANN, 1987, p. 01 destaque do autor).
A Gestão educacional neste contexto, para Wittmann (1987),
está intimamente ligada à estrutura econômica, política e ideológica
que se desenvolve a serviço da hegemonia do capital, a serviço da
dominação e à dissimulação das atividades práticas de gestão
educacional, mas pode ser conduzida, por meio das contradições
sociais, para uma nova hegemonia: a socialização do poder e
desocultação dos aspectos ideológicos contidos em suas práticas. Mas,
para isso, a perspectiva democrática não deve se perder nos discursos
sobre a importância da educação embasada sobre um viés técnico, mas
135
sim como uma “[...] dimensão inerente ao pensar e fazer
administração da educação” a qual “[...] vem acompanhada de uma
crescente consistência da teoria e da prática. Com isso, se desocultam
as contradições pela emergência assumida dos conflitos resultantes
dos interesses antagônicos presentes no jogo de forças das relações
sociais” (WITTMANN, 1987, p. 04).
Isso significa que a divisão em perspectivas é, para Wittmann
(1987), um aspecto ideológico do conhecimento e o movimento real
do desenvolvimento da Gestão educacional fica comprometido
quando é assim abordado, já que a perspectiva democrática se
constitui como ferramenta de desocultação da ideologia, socializadora
do poder e transformadora da consciência e das práticas escolares, mas
não consegue cumprir seu papel. Assim sendo, para solucionar o
problema da dualidade é preciso ter a visão unitária de que a
perspectiva da gestão democrática é capaz de captar o movimento real
do social baseado na solidariedade. A outra perspectiva deve ser
extinta, não só por ser ideológica, não-científica e conduzir à
manutenção do capitalismo, mas, principalmente e por consequência,
conduzir uma ética de pesquisa que reverbera essas questões.
As condições históricas e objetivas do contexto determinam a
configuração teórico-prática da administração da educação. Esta
administração, tanto na sua construção teórica quanto na sua
função concreta, é construída no interior das relações sociais mais
amplas. Tende, portanto, a constituir-se como instância de
legitimação de uma prática social, que, por sua vez, legitima o
concreto social no qual se experiencia. De outro lado, a
contraditoriedade deste contexto abre a tendência para uma
administração da educação vinculada à transformação da
sociedade. Nesta tendência importa superar o risco de esvaziar-
se no discurso inconseqüente. A surda e penosa negação da
expropriação do poder de cada um dizer a sua palavra, no
136
enfrentamento do autoritarismo, pode levar à recriação do
próprio autoritarismo, tanto pela sua manutenção dissimulada,
quanto pela sua recomposição na falaciosa mudança do
‘democratismo’ ou ‘vanguardismo’. (WITTMANN, 1987, p.
07).
Catani e Oliveira (1994) e Russo (2004) parecem seguir a
mesma lógica de reconhecimento da dualidade como problema e sua
solução seria a extinção da perspectiva empresarial para a existência
hegemônica da perspectiva democrática. Para Catani e Oliveira
(1994), a perspectiva empresarial ofereceu concepções ideológicas
conduzindo a gestão da escola para as práticas de manutenção do
capitalismo, definindo-a, portanto, como uma perspectiva falsa de
pesquisa; a solução para essa divisão em perspectivas seria a adesão
natural dos indivíduos à perspectiva da especificidade da escola na
gestão educacional. Também neste caso, a divisão de perspectivas
seria um problema e sua solução seria o fortalecimento da perspectiva
da especificidade da escola ou democrática, e a dissolução ou
desaparecimento da empresarial. Na verdade, para Wittmann (1987),
Catani e Oliveira (1994) e, como veremos agora em Russo (2004), a
dualidade não é um problema em si dado que o problema se situará
muito mais na existência de uma perspectiva oposta, a empresarial,
do que na dualidade em si, por isso a importância em definir o que é
verdadeiro e justo do que é falso e injusto, ou seja, a dualidade é um
problema porque existe a outra perspectiva e não porque ela impede
a construção de outros modos de análise para além dos dois existentes.
Nessa tarefa de distinguir o que é científico e verdadeiro do
que não é, Russo (2004, p. 29) afirma que existe na perspectiva
empresarial uma “[...] incompatibilidade entre o fundamento
capitalista da teoria geral da administração produzida para mediar o
sistema de exploração da força de trabalho e maximizar a extração da
137
mais-valia”, em relação à “[...] natureza do método de atualização
cultural das novas gerações que, em última instância, representa a
produção e continuidade da humanidade.” E a solução para este
dilema seria, mais uma vez e para ele, o desaparecimento da
perspectiva empresarial e a adoção da perspectiva democrática pelos
pesquisadores e trabalhadores da escola.
No caso da administração escolar, vivemos um período de
transição paradigmática: na esfera da prática, o paradigma
dominante ainda é o burocrático; no âmbito da teoria, há um
movimento que se desloca do paradigma empresarial para o da
especificidade da escola. Quando esse deslocamento produzir um
maior peso específico para o paradigma de especificidade da
escola, certamente passará a influir de maneira mais decisiva na
prática que, assim, indicará a tendência de esse paradigma se
tornar dominante. (RUSSO, 2004, p. 40).
Dito isso, fica estabelecida nossa primeira forma de leitura
sobre a trajetória do conhecimento em Gestão educacional que se
embasa, fundamentalmente, na construção teórica que os principais
autores realizaram, o referencial teórico que eles utilizaram para essa
construção, sendo que tomam destaque em sua edificação as
consequências teóricas, ou função social, que a pesquisa adquiriu. Se
estabelece, também, que a divisão em duas perspectivas não se revela
como um problema em si, ou seja, como um problema para o avanço
na construção de quaisquer outras perspectivas que poderiam aparecer
em sua história, mas sim como um problema para evolução e
desenvolvimento da perspectiva democrática na medida em que ela é
estabelecida como científica e verdadeira em relação à outra que, por
sua vez, seria falsa, ideológica e não-científica.
138
E, ao estabelecer o verdadeiro e o falso, fica fácil apontar qual
tipo de pesquisa será eticamente apreciada pelos pesquisadores na
medida em que, ao seguir uma ou outra, se pode manter um modo
de produção justo ou injusto. Porém, continuar pensando a trajetória
do conhecimento em Gestão educacional sobre esse prisma seria
reduzir a produção das problemáticas na área em torno desse infinito
ciclo entre o verdadeiro e o falso. Desse modo, cabe ressaltar que a
ideia aqui não é, de forma alguma, defender a volta da gestão
empresarial como um modo verdadeiro, invertendo as posições, isso
seria se prender ao ciclo novamente, mas mostrar que a prisão no ciclo
é justificativa para a estagnação do conhecimento em Gestão
educacional. Como foi dito no primeiro capítulo, a dualidade seria o
menor de nossos problemas já que a modulação entre verdadeiro e
falso se mostra eficiente nisso, como podemos apontar agora, porém,
este é o marco de um de seus modos de operação.
Veremos que essa maneira de ler o desenvolvimento do
conhecimento em Gestão educacional não passará de uma, dentre
outras, maneiras de lê-lo. Porém, embora não seja exclusivo, esse
modo de classificação se conduzirá como fundamento de outras
leituras apesar de possuir elementos que permitem classificá-lo de
outra maneira. Investigar como essa classificação não se sustenta será
nosso terceiro passo.
Assim, observaremos que na primeira década dos anos 2000
se fortalecerá uma nova modalidade de leitura sobre a trajetória do
conhecimento em Gestão educacional, que são os Estado da Arte, ou
Estado do conhecimento, e levantamentos bibliográficos. Esses tipos
de pesquisas se tornam comuns quando a área acadêmica no Brasil já
apresenta um desenvolvimento significativo de pesquisas, não que isso
fosse inexistente antes, pois os resumos e discussões dos simpósios
139
sobre Gestão educacional já haviam sido realizados11, e, também, estes
tipos de pesquisa desempenharam, e continuam desempenhando, um
papel fundamental, principalmente, no que diz respeito ao
rastreamento e catalogação das pesquisas sobre Gestão educacional no
Brasil.
No entanto, elas não poderiam ignorar o modo dual que
vinha se estabelecendo desde então na classificação da produção do
conhecimento. Pois, o que parece mover os pesquisadores que levam
adiante esse tipo de análise é o de não saber o quadro geral de “[...]
estudos e pesquisas em determinada área de conhecimento que
apresenta crescimento tanto quantitativo quanto qualitativo,
principalmente reflexões desenvolvidas em nível de pós-graduação,
produção está distribuída por inúmeros programas de pós e pouco
divulgada” (FERREIRA, 2002, p. 258-259).
O principal desafio por trás de um Estado da arte é o de
mapear e discutir tomando como “[...] fontes básicas de referência
para realizar o levantamento dos dados e suas análises,
principalmente, os catálogos de faculdades, institutos, universidades,
associações nacionais e órgãos de fomento da pesquisa” (FERREIRA,
2002, p. 258) determinada área acadêmica “[...] tentando responder
que aspectos e dimensões vêm sendo destacados e privilegiados em
diferentes épocas e lugares, de que formas e em que condições têm
sido produzidas certas dissertações de mestrado, teses de doutorado,
publicações em periódicos e comunicações em anais de congressos e
de seminários” (FERREIRA, 2002, p. 258). De certo, estes trabalhos
apresentam, com razão, reais motivos para sua elaboração. Temos, no
caso da área de Alfabetização, um exemplo disso: por um lado,
11 Anpae (1962: 1968: 1971: 1986).
140
[...] a multiplicidade de perspectivas e pluralidades de enfoques
sobre Alfabetização não trarão colaboração realmente efetiva
enquanto não se tentar uma articulação das análises provenientes
de outras áreas de conhecimento, articulação que busque ou
integrar estruturalmente estudos e resultados de pesquisas, ou
evidenciar e explicar incoerências e resultados incompatíveis.
(SOARES, 1987, p. 3).
E, por outro lado, é uma necessidade notadamente científica
na medida em que ela,
[...] afim de que se ordene periodicamente o conjunto de
informações e resultados já obtidos, ordenação que permita
indicação das possibilidades de integração de diferentes
perspectivas, aparentemente autônomas, a identificação de
duplicações ou contradições, e a determinação de lacunas e
vieses. (SOARES, 1987, p. 3).
Desse modo, podemos ver que não se trata de um simples
levantamento, mas de uma condução sobre as linhas de força que
passam por esses trabalhos como temáticas, problemas, discussões etc.
Os catálogos são organizados pela idéia de acumulação reunir
tudo o que se tem de avanço da ciência em um único lugar; pelo
fascínio de se ter a totalidade de informações dominar um
campo de produção de um conhecimento, visão absoluta de
poder; pela possibilidade de otimização da pesquisa ganhar
tempo, recuperar velozmente informações, com menor esforço
físico; pelo mito da originalidade do conhecimento pesquisar o
que não se conseguiu ainda, fazer o que ainda não foi feito; pela
imagem de conectividade estar informado com tudo que se
produz em todos os lugares. Além disso, há várias outras razões e
estratégias de organização do catálogo: a disputa por verbas para
bolsas, convênios estimulando certos estudos, o sentimento de
141
poder das instituições que o produzem, um markenting da
própria pesquisa acadêmica que está colocada no mercado como
qualquer outra mercadoria. Os catálogos fazem, portanto, parte
da disputa política no interior dos Institutos de Ensino Superior.
(FERREIRA, 2002, p. 260-261 destaques da autora).
O que, por sua vez, nos permite indagar como elas modificam
as linhas mobilizadas pelos autores que tratamos, ou seja, podemos
desconfiar e querer saber o porquê de esse não ser o caso da Gestão
educacional no Brasil que, ao invés de delinear essa multiplicidade de
perspectivas, contribuições de outras áreas de conhecimento e
pluralidade de enfoques, manterá a dualidade como fundamento.
Vamos aos casos dos Estados da Arte e levantamentos
bibliográficos da área da Gestão educacional no Brasil. Embora Souza
(2006) deixe claro que seu trabalho não é de modo algum um Estado
da Arte, começaremos com ele, pois este autor tenta remontar,
realizando um levantamento bibliográfico, o que poderia ser um meio
caminho entre o Estado da arte e uma teoria das ideias, ou seja, ele é
dedicado a “[...] considerar o perfil das idéias no campo da gestão
escolar no Brasil, destacando os estudos mais importantes de
destacados autores brasileiros do campo da administração/gestão
escolar” (SOUZA, 2006, p. 26), pois “esse levantamento permite
deduzir tendências do pensamento nesse campo” (SOUZA, 2006, p.
27). Aqui, o que nos interessa, em especial, será a introdução e as
partes um e dois de sua tese. O autor classifica o conhecimento em
Gestão educacional em dois enfoques ou momentos: o pensamento
clássico e o pensamento crítico o que, por termos visto nos autores
anteriores, já sabemos ao que esses enfoques correspondem.
O levantamento de Souza (2006) revela outros autores que
fazem parte de cada enfoque. No primeiro, ele aglutina Leão (1939),
Ribeiro (1938; 1952), Lourenço Filho (1976), Teixeira (1961; 1968),
142
Alonso (1976) e Sander (1982; 1984), os quais mantiveram como
aspectos principais a “[...] preocupação mais voltada à elaboração de
ensaios, de estudos prescritivos, uma vez que voltados aos
profissionais que iniciavam sua atuação dirigindo as escolas do país”
e o “[...] reconhecimento do papel pedagógico do diretor, que se era
um chefe ou um político, não deixava de ser alguém que se encontrava
na escola para garantir as condições de desenvolvimento da educação”
(SOUZA, 2006, p. 65). No segundo enfoque, encontramos Arroyo
(1979), Gonçalves (1980), Félix (1985), Zung (1984) e Paro (1986)
que, segundo o autor, são devedores do trabalho de Tragtenberg
(1974) por realizar no “[...] país talvez uma das primeiras críticas ao
papel ideológico da teoria geral da administração” e fomentar a linha
crítica. O foco central desses estudos na área se localiza na crítica ao
[...] fato de os trabalhos anteriores apresentarem concepções por
demais técnicas da gestão escolar, colocando-a a serviço da
reprodução de um modelo de escola que não só não contribuiria
para a superação das bases capitalistas sobre as quais a sociedade
brasileira estava solidificada, como ainda auxiliaria a manutenção
do status social econômico e político. (SOUZA, 2006, p. 66).
Sobre essa mesma lógica, Drabach e Mousquer (2009)
denominam, por meio de pesquisa bibliográfica, o que conhecemos
anteriormente como perspectiva empresarial e democrática ou
estudos clássicos e críticos, por primeiros escritos sobre administração
e escritos de gestão democrática. No momento de escrita das autoras
e de grande parte dos autores que abordamos, a Constituição Federal
(1988) e a LDB (1996) já previam a Gestão democrática da educação
como princípio do ensino público e era compreendida como “[...]
conquista das forças civis-democráticas, visa introduzir um novo tipo
de organização escolar, calcado nos princípios da democracia,
143
autonomia e construção coletiva, em oposição ao caráter centralizador
e burocrático que vinha conduzindo este campo” (DRABACH;
MOUSQUER, 2009, p. 259).
Como, desde então, a Gestão democrática não havia se
concretizado, ou materializado, nas escolas, as autoras abrem caminho
para a ideia de que fosse possível que “[...] diferentes sentidos e
significados vem ocupando os espaços de gestão democrática, os quais
muitas vezes não refletem os ideais que impulsionaram a sociedade
civil a reivindicar este princípio para o campo educacional, o que
enseja uma análise crítica em torno de sua construção enquanto
princípio educacional”. Fica evidente uma certa distinção entre a
teoria e a prática, porém, já sabemos de antemão que, para as autoras,
o percurso do conhecimento que normatizou o princípio da gestão
democrática permite observar que a “[...] construção da legislação
educacional não se restringe a formalismos e aparatos normativos,
mas é, sobretudo em uma sociedade de classes, resultado de uma luta
histórica regada por interesses e práticas contraditórias” (DRABACH;
MOUSQUER, 2009, p. 259), o que conduzirá a leitura das autoras
aos mesmos resultados obtidos em Wittmann (1987), Russo (2004),
Catani e Oliveira (1994).
Por meio de pesquisa bibliográfica, Drabach e Mousquer
(2009) dispõem do referencial de Sander (1995), que classifica o
conhecimento em Gestão educacional sob dois enfoques, o
tecnocrático e o sociológico, e dos autores Leão (1939), Ribeiro
(1938; 1952), Lourenço Filho (1976) e Teixeira (1961; 1968) para
aglutinar no que elas chamam de primeiros escritos. Para as autoras,
este período foi edificado sobre o modelo tecnocrático que é inspirado
nos “[...] princípios da Abordagem Clássica da Administração,
admitindo a pretensa universalidade destas elaborações para o campo
educacional” (DRABACH e MOUSQUER, 2009, p. 260) que nada
144
mais é do que a ideia de que a gestão de uma fábrica pode servir de
modelo para pensar a gestão da escola.
Os autores que Drabach e Mousquer (2009) dispõem
centralizam-se, portanto, na transposição da teoria clássica de
Administração fabril para gestão educacional, centram-se na figura do
diretor como condutor da gestão e autoridade da escola. Por outro
lado, o enfoque sociológico se constitui com Arroyo (1979), Félix
(1985) e Paro (1986) e se fortalece “[...] principalmente a partir das
lutas em prol da democracia e da cidadania, da consolidação do
campo de estudos em nível de pós-graduação no país e a influência da
literatura sociológica com base marxista” (DRABACH e
MOUSQUER, 2009, p. 271) e realizam a denúncia da conivência do
enfoque tecnocrático com o modo de produção capitalista e sua
manutenção, admitindo a diferença de natureza do trabalho e
produto de uma gestão fabril em contraposição à gestão escolar.
Mas considerando as mudanças no capitalismo, nas esferas
político-econômicas, segundo Drabach e Mousquer (2009, p. 277),
há de se considerar também que com a queda da taxa de lucro, greves
e a condução do Estado de bem-estar-social, o capitalismo demonstra
um alerta para um momento de crise que deverá ser compensado por
meio de um “[...] processo de reorganização do sistema ideológico,
político e de reprodução do capital” o qual encontrará no toyotismo
o movimento de condução dessa crise. Desse modo, ao “[...] atuar
como organizador das relações no mundo do trabalho, o toyotismo
trouxe para este meio os princípios da flexibilização, o trabalho em
equipe, a participação, a autogestão (‘autonomia’), entre outros” que,
por coincidência ou não, são os princípios práticos norteadores de
uma gestão democrática, assim, de um “[...] modelo hierárquico de
produção e um Estado centralizador, passa-se a ter ênfase no trabalho
145
coletivo, na participação, na autonomia e na descentralização”
(DRABACH; MOUSQUER, 2009, p. 278 destaque das autoras).
Podemos observar uma renovação da dualidade que, agora,
está baseada na participação e descentralização da autoridade do
diretor, teremos, portanto, por um lado, uma gestão “[...] guardadora
de um projeto democrático com vistas à ampliação dos espaços de
cidadania e construção de uma educação de qualidade” e, por outro
lado, “[...] como estratégia do gerencialismo econômico global no
fortalecimento do sistema capitalista de sociedade.” (DRABACH;
MOUSQUER, 2009, p. 278). Genial, pois, “[...] correspondendo à
passagem do fordismo/taylorismo ao toyotismo no mundo das
fábricas, no campo educacional teve-se a passagem da administração
à gestão escolar” (DRABACH; MOUSQUER, 2009, p. 278). Porém,
o conhecimento em Gestão educacional apoia-se novamente na
dualidade como propulsora de um trabalho de pesquisa que funciona
como processo de desideologização dos contextos de pesquisa, na
verdade, ao assumirem como princípios a dualidade e o referencial
marxista, já sabíamos que este seria o possível resultado de pesquisa
das autoras.
Mas não é só isso. Ao analisarmos os textos de Souza (2006)
e Drabach e Mousquer (2009), identificamos que eles contêm
elementos/linhas que nos ajudam a montar o início de um espaço
complementar ou disjuntivo, em que a ideia de classificar o
conhecimento sob duas perspectivas não se sustenta. Interessante é
que apesar de a dualidade não se sustentar e dos próprios autores assim
constatarem, ela ainda continua sendo a regra reguladora da leitura
dual do conhecimento em Gestão educacional. Isso se deve à função
primordial que a categoria “referencial teórico” desempenha nesta
leitura dual, claro que com o suporte das duas outras categorias
“autor” e “função social” seja a partir de um referencial externo ao
146
conhecimento em Gestão educacional, o marxismo e a luta de classes,
por exemplo, ou por um elemento interno que é o próprio
conhecimento em gestão educacional, como Sander (1995), por
exemplo, que já está subjugado sobre um referencial dualista que o
edificou.
Em Drabach e Mousquer (2009), podemos identificar que a
substituição de perspectiva empresarial para primeiros escritos não
terá eficácia, pois uma corresponde fortemente à outra quando
chegamos aos resultados de sua pesquisa bibliográfica. Porém,
observando atentamente, constatamos que, por mais que se possam
aglutinar esses autores em uma perspectiva, eles possuem elementos
que não permitem fazer isso de uma forma coesa, por exemplo: se
observamos o aspecto do comportamento administrativo do diretor
na obra de Lourenço Filho, identificamos que sua ideia não se
enquadra na perspectiva em que ele se encontra classificado, claro que
com uma chuva de ressalvas, pois sua ideia se aproxima mais de Félix
(1985) e Paro (1986) do que seus companheiros de perspectivas.
Desse modo, o
[...] diferencial da perspectiva de Lourenço Filho é que na escola,
por se tratar serviços (serviço de ensino) e não de produtos (como
nas fábricas), as atividades administrativas devem levar em conta
as relações humanas, que são a matéria-prima da produção do
ensino, estabelecendo um trato entre elas, no sentido de ajustá-
las entre si. (DRABACH e MOUSQUER, 2009, p. 269).
E mais um exemplo disso está em Anísio Teixeira, pois ele se
diferencia dos “[...] autores antes abordados quando afirma que a
natureza da administração escolar é de ‘subordinação e não de
comando da obra da educação, que, efetivamente, se realiza entre o
professor e o aluno” (DRABACH; MOUSQUER, 2009, p. 271).
147
Este pensamento leva o autor a rejeitar a aplicação das teorias da
administração empregada nas fábricas no campo da educação, em
função dos diferentes objetivos que estes processos visam
(DRABACH e MOUSQUER, 2009, p. 271). A ideia de classificar a
perspectiva empresarial como autores clássicos, permite que Souza
(2006) realize algo parecido com Drabach e Mousquer (2009) e,
apesar de não incluir Lourenço Filho como um autor que entende a
diferença de natureza entre o produto e o trabalho fabril em relação
ao produto e o trabalho escolar, afirma, no entanto, que Teixeira foi
poupado das críticas pelos autores críticos no período posterior.
Assim,
a exceção recai nos textos de Anísio Teixeira, ao que parece, se
tratar de autor que conquistara o respeito e a simpatia acadêmica
de todas as linhas de pensamento da área àquela época e, mais
provavelmente, porque de fato abordava a problemática da
administração escolar numa perspectiva um tanto diversa dos
seus contemporâneos. (SOUZA, 2006, p. 66-67).
Esses aspectos que contemplamos abrem caminho para o
questionamento do modo de classificação do conhecimento em
Gestão educacional, porém, vamos, antes de aprofundar esse
questionamento, investigar como as pesquisas de Estado da arte e
levantamento bibliográfico dão suporte decisivo para a manutenção
da dualidade nos anos subsequentes à década de 1980. Começamos
por Gracindo e Wittmann (2001), Souza (2006; 2019) e Martins
(2011).
Gracindo e Wittmann (2001) desenvolveram uma grande
pesquisa em nível nacional envolvendo diversos pesquisadores
vinculados à ANPAE entre setembro de 1998 e novembro de 1999
por meio de levantamento de pesquisas desenvolvidas no Brasil entre
148
os anos de 1991 e 1997, incluem teses, dissertações e pesquisas
docentes categorização das pesquisas desenvolvidas que foram
incluídas no banco de dados da ANPAE e análise dos documentos, já
categorizados para apresentação dos resultados. Em termos de
limitação do levantamento, os autores afirmam não ser uma pesquisa
exaustiva, portanto, indicam que há pesquisas concluídas neste
período que não entraram para o levantamento por falta de dados,
como os Estado da arte e levantamentos bibliográficos os quais se
limitam aos resumos das pesquisas analisadas, sendo que muitas não
continham, por exemplo, descritores, metodologia, resultados,
resumos com naturezas variadas, e isso impôs “[...] limites ao
aprofundamento da análise neste estudo do estado do conhecimento”
(GRACINDO; WITTMANN, 2001, p. 10).
Houve um processo de seleção dos documentos resultantes do
levantamento inicial. Muitos referiam-se a outras áreas como
avaliação de aprendizagem e experiências didáticas e que foram
excluídos da análise por ‘impertinência temática’; outros
correspondiam a pesquisas que não haviam sido concluídas no
período de estudo (1991 a 1997), que também foram excluídos
por ‘impertinência temporal’ Um terceiro grupo foi excluído por
preenchimento inadequado ou falta de informações solicitadas
no instrumento de coleta, como autor, origem institucional,
natureza da pesquisa ou, até mesmo, o próprio resumo.
(GRACINDO e WITTMANN, 2001, p. 10).
A ideia de Gracindo e Wittmann (2001, p. 12) foi categorizar
os trabalhos de maneira simples contemplando os conjuntos que
estamos explorando: política e gestão. Porém, a diversidade contida
no material, inesperada pelos autores, os conduziu a elencar onze
grandes temáticas que se constituíram como objeto de análise dos
pesquisadores. E é curioso saber que foram “[...] analisados 1.170
149
documentos dos quais 248 foram excluídos da pesquisa por
impertinência (temática ou temporal) ou por insuficiência de dados.
Os demais, 922, foram incorporados ao estudo e distribuídos em 11
categorias”: Escolas/Instituições Educativas e Sociedade; Direito à
Educação e Legislação do Ensino; Políticas de Educação: Concepções
e Programas; O Público e o Privado na Educação; Financiamento da
Educação; Municipalização e Gestão Municipal da Educação;
Planejamento e Avaliação Educacionais; Profissionais da Educação:
Formação e Prática; Gestão de Sistemas Educacionais; Gestão da
Universidade; Gestão da Escola.
Souza (2006) realizou uma pesquisa abrangendo período de
1987 a 2004 e afirma que as pesquisas caminharam seguindo as
aspirações das temáticas que estavam na pauta do dia, portanto, é
possível perceber a ampliação das temáticas, inclusive a própria
pesquisa Estado da arte já é compreendida como uma delas, a
abrangência das pesquisas estudos de caso por meio da análise da
concretização de projetos político-pedagógicos, os modelos de gestão,
os diversos modos da gestão democrática etc. “O crescimento dos
estudos de caso e dos trabalhos com perspectivas ditas qualitativas
também merece um destaque, pois isto transgride parcialmente com
as formas que a pesquisa vinha sendo desenvolvida no início dos anos
80” (SOUZA, 2006, p. 122). São essas as temáticas: Diretor; Gestão
Democrática; Instrumentos de Gestão; Modelos de Gestão; Desafios
da Gestão Escolar; Conselho de Escola; Participação; Concepções de
Gestão Escolar; Processos de Gestão Escolar; Relações de Poder;
Autonomia; Cultura organizacional; Estado da Arte.
Em Martins (2011), o recorte foi o período de 2000 até 2008
com a intenção de captar os temas da gestão, autonomia e órgãos
colegiados para verificar a produção que reflete, acima de tudo, sobre
a unidade escolar e seu cotidiano: a pesquisa teve a intenção de “[...]
150
compreender e identificar de que forma os estudiosos de políticas
públicas vêm analisando a gestão das escolas, os órgãos colegiados e
seu papel na constituição da autonomia escolar” (MARTINS, 2011,
p. 28). A base do levantamento foi o banco de teses e dissertações da
CAPES por meio do programa W inisis da Unesco e sua categorização
girou em torno de perguntas norteadoras e o referencial da análise de
conteúdo de Bardin (1977):
Quais regiões do país concentram maior número de estudos
sobre o tema? Quais são os focos de interesse das investigações?
Em torno de quais categorias essas pesquisas poderiam ser
agrupadas? Predominam estudos empíricos ou teóricos? Quais
perspectivas metodológicas utilizadas? As pesquisas esclarecemos
procedimentos adotados? Existem referencias no que tange a
dificuldade ou facilidade na coleta de dados?” (MARTINS,
2011, p. 28)
E com isso foram estabelecidas quatro categorias temáticas:
Espaços e canais de participação; Relações e práticas intra-escolares;
Políticas, Programas e projetos governamentais e não governamentais;
Teorias e conceitos.
Souza (2019) realizou uma pesquisa que teve a intenção de
dar continuidade ao trabalho de Gracindo e Wittmann (2001)
mantendo as onze categorias dos autores, porém, sob recorte do
período entre 1999 e 2015 nos periódicos da ANPAE e na base de
dados do Scielo. No levantamento do autor, três dados são
importantes. O primeiro é que apesar de manter as categorias dos
autores, ele precisou adaptar seu levantamento para dar conta dos
aspectos variáveis das novas temáticas estudadas neste longo período,
o que, por sua vez, indica que para dar conta dessas categorias tiveram
que ser realizadas adaptações, mostrando o efeito muito comum na
151
área: ao invés de criar modos novos, busca-se readaptar as diferenças
em direção ao modelo hegemônico de classificação.
Em nossa investigação, por outro lado, vimos a necessidade de,
eventualmente, classificar alguns trabalhos em mais de uma
categoria, por termos encontrado estudos fronteiriços. Por
exemplo, um trabalho sobre o estado da arte em gestão escolar
(MARTINS; SILVA, 2011) aparece tanto na categoria estado da
arte; estado do conhecimento, como na categoria gestão escolar,
porque efetivamente ele trata de questões que afetam as duas
categorias. (SOUZA, 2019, p. 4).
Outro dado interessante, que utilizaremos na seção seguinte,
mas vamos aproveitar o destaque já que ele apareceu agora, é que estes
trabalhos terão uma preocupação e elementos comuns na pesquisa. Se
nos primeiros escritos a ideia era edificar um conhecimento para
desenvolver bases principais para construção de uma disciplina para
ensiná-las em cursos de graduação ou pós-graduação e nos estudos
críticos a preocupação era a luta contra o capital, agora, advinda talvez
das pesquisas de campo, a preocupação será a de perceber que o
[...] conjunto da produção está articulado à leitura do papel/da
ação do Estado nas mais diferentes frentes. Isso significa que a
definição do que se estuda no campo não está dada a priori, pois
depende em boa proporção dos próprios pesquisadores, que
reclamam a presença dos seus objetos de estudo e respectivas
abordagens no campo da pesquisa, em uma espécie de via de mão
dupla, no sentido de que tanto os pesquisadores buscam se
adequar aos objetos e às abordagens dominantes no campo de
pesquisa quanto eles próprios tensionam esse campo ao propor
novos temas e olhares de pesquisa. (SOUZA, 2019, p. 3).
152
Por último, o terceiro dado é como Souza (2019) indica o
papel do pesquisador a partir dos trabalhos mais recentes. Se, por um
lado, o papel dos pesquisadores não é o de “[...] proposição ou
implementação de políticas”, por outro lado, neste contexto, cabe a
eles, “[...] indicar elementos e conclusões que podem apoiar melhores
escolhas na direção política da educação, ou pelo menos nossas
sínteses, com as análises do estado do conhecimento, podem auxiliar
a se perceber caminhos e alternativas para a política e gestão da
educação” (SOUZA, 2019, p. 17). A pergunta que fazemos é: se o
que se estuda não vem a priori e depende das demandas sociais, por
que quando um pesquisador levanta uma temática diferente ou
consegue indicar novos caminhos e alternativas de pesquisa, estes
precisam encontrar-se no modo já preparado de classificação para
enquadrá-los?
O problema é que esses grandes catálogos de pesquisas da área
de Política e Gestão educacional irão desempenhar um movimento
decisivo na sustentação da dualidade na medida em que permitirão a
existência de outros referenciais teórico-metodológicos, além do
marxismo e da TGA, porém de modo que suas diferenças não
obtenham força de arrastar o conhecimento para um lugar diferente.
Chamaremos esse movimento de processo de periferização, pois ele
deixa existirem outros referenciais na área, porém de maneira
periférica, aliás é até bonito hoje em dia dizer que há diversidade. No
nosso caso, diversidade de temáticas e não de caminhos e modos de
produção da pesquisa.
Em pesquisa anterior, Nascimento (2018) mostra que nos
levantamentos bibliográficos e na revista da ANPAE, foi possível
identificar trabalhos de Política e Gestão educacional com autores não
antes vistos (Pierre Bourdieu, Michel de Certeau, Gilles Deleuze,
lix Guattari, Humberto Maturana, Jean Piaget entre outros), cujos
153
modos de desenvolvimento das pesquisas e seus resultados poderiam
trazer grandes contribuições para a área. Outro indicativo que este
autor nos traz é que não existem somente as leituras duais sobre o
conhecimento, pois, por exemplo, é possível entender também como
um processo linear e progressivo no pensamento de Heloisa Luck
(2011) na medida em que a autora indica a perspectiva democrática
como evolução da perspectiva empresarial; como múltipla no
Paradigma multidimensional de Benno Sander (1982; 2007) ao
afirmar que o conhecimento em gestão educacional passou por quatro
momentos principais no decorrer da história que tomam forma de
quatro dimensões que se revezam na condução de construção do
conhecimento; como um movimento de desenvolvimento entre o
revezamento em espiral de diversos modelos de gestão como mostra
Ribeiro (2001), Ribeiro e Machado (2003).
O que podemos concluir desde o primeiro movimento em
torno da dualidade é que ela possui linhas as quais permitem a
manutenção de sua estrutura em perspectivas. A primeira é que a
divisão de perspectivas se justifica e se mantém por uma coerência
lógica interna entre cada autor de cada perspectiva. Por um lado, a
perspectiva empresarial se mantém pelo fato de os autores
compartilharem do mesmo referencial teórico e função social da
pesquisa, sendo elas, a universalidade e neutralidade do conhecimento
fundamentado na TGA, na medida em que a gestão da escola e da
fábrica são parecidas e a sua utilização não altera o plano institucional
e objetivos da instituição que a utiliza, e tendo como principal
elemento a função do diretor e as práticas cotidianas reguladas na
escola por este profissional.
Por outro lado, a perspectiva democrática se mantém pelo fato
de os autores também compartilharem do mesmo referencial teórico
e função social da pesquisa, sendo elas, a especificidade do trabalho
154
escolar, que garante o cerceamento da universalidade e neutralidade,
e aponta para o contexto social interferindo na condução do trabalho
escolar e tem a participação popular na gestão da escola assumindo
frente à função centralizada no diretor escolar e esse movimento
influencia a transformação social, portanto, não é nem universal e,
menos ainda, neutra. Esse movimento garante que exista uma
diferença externa entre elas e uma semelhança interna entre os autores
de cada perspectiva, os quais, respectivamente, têm como suporte o
exercício de estabelecer qual delas é verdadeira e qual é falsa, para
garantir a diferença, na medida em que concorrem em toda prática de
pesquisa em que se queira construir conhecimento sobre Política e
Gestão educacional.
Em relação aos levantamentos bibliográficos e Estados da arte
é possível perceber que eles conseguem variar as temáticas, mas por
não aprofundarem as questões teóricas e de método acabam por
utilizar e manter a perspectiva democrática como base e fundamentar
suas pesquisas na relação entre as demandas sociais e o papel do
Estado em relação a elas. Ou seja, as pesquisas não aprofundam o
debate conceitual sobre qual sociedade e qual Estado estão falando.
Diante disso, exercem um processo de periferização dos trabalhos que
possuem aspectos e forças diferenciais de produção e condução que
poderiam fazer o referencial e o método variarem e acabam por
receber um lugar de despontencialização de suas forças na medida em
que são jogados em segundo plano, ou em uma prateleira, de
temáticas variáveis. Parece que a função dessas forças periféricas é de
não perturbação da linha estrutural que edificou e vem edificando o
conhecimento em duas perspectivas.
Em contrapartida, temos indícios fortes que nos permitem
também apontar que existem elementos que demonstram a
insustentabilidade da divisão em perspectivas: os autores que
155
compartilham o mesmo espaço dentro de uma perspectiva possuem
elementos diferenciais entre si que desmontam essa sustentabilidade,
na medida em que apresentam aspectos que não tornam coerente a
sua existência na perspectiva. Os dados que corroboram essa
insustentabilidade da dualidade de perspectivas estão, por exemplo,
nas especificidades de alguns autores como Teixeira (1968) e
Lourenço Filho (1976); e, também, na forma como autores
contemporâneos aglutinam seus antecessores, alterando a maneira de
reconhecer a existência dessas perspectivas (SOUZA, 2006;
DRABACH e MOUQUER, 2009) para dar conta da estrutura que a
sustenta. Por tais razões, é difícil reconhecer a existência de duas
perspectivas: a coerência interna entre os autores, que na prática
teórica é um dos elementos fundamentais para sua sustentação, não
existe. E o que teremos, então? Podemos dizer que há um conjunto
constituído por diversos autores da Política e Gestão educacional
operando, cada um, uma espécie de pensamento singular sobre a
gestão educacional.
Agora precisamos reconhecer, no desenvolvimento específico
da Política educacional, na próxima seção, como os autores de ambas
as perspectivas possuem semelhanças que permitem estabelecer, ao
invés de uma diferença entre perspectivas, uma linha de força que os
atravessam e os arrastma para uma maneira comum de construir
conhecimento que o estagna: movimentos de prescrição. E também
resgataremos alguns aspectos que já apareceram na leitura sobre a
trajetória da Gestão educacional.
2.2 A prescrição na Política educacional no Brasil
Estabelecidos alguns parâmetros da Gestão educacional,
podemos adentrar à trajetória da Política educacional e veremos em
156
que medida ela estabelece algumas indicações de seu
desenvolvimento, configuração e suas consequências em relação à
Gestão educacional.
O que podemos adiantar é que possivelmente essa trajetória
nos indicará o nicho em que emerge um espaço complementar, em
especial, o espaço de algumas instituições por onde se estendem as
relações de saber as quais evidenciam relações de poder, implicadas na
Política e Gestão educacional. Isso é possível, pois as análises que se
debruçam sobre a trajetória da Política educacional partem do
pressuposto de que ela emergiu compartilhando o mesmo espaço de
desenvolvimento da Gestão educacional. Desse modo, podemos dizer
que o nicho em que ambas se desenvolvem é composto por
instituições de diversas frentes que lhes permitem voz e vez na área da
Educação, a configuração de seus objetos de pesquisa e os referencias
que as compõem.
Nosso trabalho principal é a tese de Stremel (2016), pois ela
realizou um grande levantamento sobre a trajetória da Política
educacional no Brasil, considerando dados que se estendem de
meados de 1820 até a primeira década dos anos 2000. Para o
desenvolvimento do seu trabalho, a autora toma como referência
histórica para a Política educacional as variações do período em que
o Brasil se encontrava, considerando a divisão clássica: Brasil Império,
Primeira República, Estado novo etc; as instituições que concentram
e por onde passam a sua força; as instituições que são criadas a partir
de seus pontos de variação e as publicações que remontam suas
posições no mapa. Ou seja, é por meio de suas temáticas, problemas
e métodos suas variações que podemos conhecer a dinâmica de
seu objeto, seus modos de classificação, e os elementos que são
combinados para a sua definição.
157
De maneira geral, podemos destacar, no levantamento de
Stremel (2016), a própria atuação do Estado no desenvolvimento do
conhecimento em Política educacional por meio de programas e
projetos educacionais voltados para a pesquisa em Educação no Brasil,
os quais previam o estabelecimento de processos de instituciona-
lização de sua legitimação e tentativas de consolidação. É possível
entender, com a autora, que o desenvolvimento da Política
educacional está atrelado também ao desenvolvimento da pesquisa
científica em Educação no Brasil, sendo este marcado por fragilidades
e ambiguidades contidas em seus referenciais e conceitos os quais
demonstram que esta é uma área que ainda busca consolidação.
Grande parte dos trabalhos estudados pela autora possuem
múltiplas ferramentas analíticas e referenciais teórico-metodológicos
que configuram seu objeto de estudo como sendo as “[...] políticas
públicas como um conjunto de ações produzidas no interior do
Estado tendo em vista a solução de demandas sociais” (STREMEL,
2016, p. 55). O compilado dos dados mostra a
complexidade que envolve esse campo, especialmente no que se
refere à diversidade dos objetos de estudo que se articula com a
política educacional; às lutas dentro do campo em busca de
legitimidade e de hegemonia de discursos; bem como à influência
mútua entre campo político (Estado) e campo acadêmico, uma
vez que, por meio de suas regulações, o Estado influencia a
configuração desse campo, mas é também influenciado pela
atuação potica de representantes do campo que ocupam espaços
oficiais. (STREMEL, 2016, p. 56).
Isso ocorre porque “[...] possuem estreita sintonia com as
mudanças nas ações do Estado em termos de programas e projetos
educacionais” (STREMEL, 2016, p. 55). A autora indica que a área
158
da Política educacional percorreu um amplo campo disciplinar tendo
seus primeiros escritos influenciados pelas áreas das Ciências Sociais,
Políticas Públicas, dentre outras, nesse sentido, para ela, a área deve
ser tratada “como um campo acadêmico específico”, isso significa
entendê-lo como um lugar resultante de um processo histórico que
lhe confere certa autonomia em relação a outras disciplinas e
instituições que estão de alguma maneira articuladas. Assim, o campo
acadêmico da política educacional é estruturado por múltiplas
instituições, cujos agentes ocupam uma posição interna (como
professores, pesquisadores, coordenadores de grupos de pesquisa
ou de grupos de trabalho em associações, editores de periódicos,
etc.), mas também podem ocupar uma posição externa, em
outros campos (assumindo funções em instâncias representativas
do Estado, por exemplo). O Estado intervém como mediador,
pois define decisões e ações que são objetos de estudo do campo.
(STREMEL, 2016, p. 40).
Stremel (2016, p. 40) evidencia que há, na construção deste
conhecimento, uma relação estreita entre o “[...] campo acadêmico e
campo de atuação política, uma vez que as ações deste é objeto de
estudo daquele [...]”, fato que marca, para nós, o nicho principal do
seu desenvolvimento específico. Por isso, no início deste capítulo,
dissemos que não se pode abandonar as questões institucionais às
quais está o desenvolvimento de determinada área de conhecimento
relacionada. Um outro dado é a questão multidisciplinar que envolve
a definição do que é política que dará condições para o seu
desenvolvimento e de seu objeto de pesquisa discussões que se
encontram na relação entre a Política educacional e a Ciência Política,
Políticas Públicas etc.
159
Funciona assim: influenciada por autores internacionais, a
política pode ser entendida por três frentes principais. Em um sentido
geral, é tratada por polity indicando o processo governamental
enquanto sinônimo de “governo, regime e sistema político.”
(STREMEL, 2016, p. 64); pode ser entendida, em contraposição, por
politics que, por sua vez, designa a atividade humana que mobiliza
interesses e decisões envolvendo, dessa forma, a socialização entre as
pessoas; por último, temos a policy que envolve as ações que o Estado
toma para solucionar as demandas e/ou problemas sociais emergentes.
Apesar desses termos designarem múltiplos referenciais e
objetos de pesquisa, o último termo é o mais utilizado nas pesquisas
no decorrer da trajetória da Política educacional e, em certa medida,
tem dado o tom de seu desenvolvimento indicando, assim, que o
objeto de estudo privilegiado em suas análises é o Estado, ou melhor,
“[...] no Brasil, os estudos em política educacional estão articulados,
de maneira predominante, à leitura da ação (ou não) do Estado diante
das demandas da população por educação” (STREMEL, 2016, p.
69), podendo variar entre diferentes dimensões:
[...] a análise do processo de formulação de políticas; o conteúdo
propriamente dito da política ou do programa (discurso da
política); os processos de implementação, tradução e
interpretação da política ou programa no contexto da prática
(escolas, salas de aula, etc.); a avaliação de políticas, que pode
abranger análise de resultados e consequências. Desse modo, o
objeto de estudo com o qual se ocupa o pesquisador de políticas
educacionais é essencialmente a análise de políticas educacionais,
tarefa que é enfrentada pelos pesquisadores de formas
diferenciadas. (STREMEL, 2016, p. 70).
160
Dito isso, temos alguns elementos básicos que conduzem a
análise realizada por Stremel (2016). Sendo eles: a trama institucional,
situada no processo histórico que incorre nas relações práticas dos
agentes internos e externos e a trama conceitual, que se desenvolveu
em torno da terminologia política e, como veremos adiante, define o
Estado como seu principal e privilegiado, não único claro, objeto de
pesquisa.
Para dar conta desses elementos destacados no parágrafo
anterior, Stremel (2016) divide as observações sobre a trajetória do
conhecimento em Política educacional em três períodos principais: os
que antecederam seu aparecimento como se agregaram os elementos
que lhe dão condições de possibilidade para sua emergência no
período seguinte , os concomitantes ao seu aparecimento que são
proporcionados pelo seu processo de institucionalização e,
posteriormente, os que indicam sua expansão e momento atual.
A autora irá indicar que o período que antecede a emergência
da Política educacional foi movido por dois eixos principais: o eixo
dos estudos sobre a situação educacional do Brasil e o eixo dos estudos
sobre gestão escolar/educacional e educação comparada. São estes dois
eixos que deram condições de possibilidade da emergência da Política
educacional no Brasil no período seguinte. No primeiro eixo, situado
no primeiro período, segundo Stremel (2016), temos as primeiras
tentativas de organização do ensino oportunizada pela
descentralização, ocorridas entre as décadas de 1820 e 1930, portanto,
no Brasil Império e na Primeira República. Neste momento, foram
realizadas publicações relacionadas à política, organização e
administração do ensino em formato de memórias, relatórios de
discursos, relatos de práticas e experiências de ensino desenvolvidas
em instituições educacionais e, por isso, se constituíam, pelo menos
até 1920, de maneira subjetiva e assistemática.
161
Em 1924, temos a fundação da Associação Brasileira de
Educação (ABE) sendo ela imprescindível nas lutas e reformas
educacionais do período, realizando discussões sobre os problemas da
educação no âmbito de seus congressos, conferências e reuniões.
Estimulados pelo governo Capanema, a ABE constituiu-se
majoritariamente por relatórios situacionais cujo alvo principal era
fundamentar a elaboração de leis, regulamentos, projetos de lei e
discursos que reivindicavam a reorganização do ensino. Portanto, a
ABE constituiu “[...] papel importante no debate de questões
educacionais, na disseminação do ideário pedagógico e na influência
em relação à elaboração de leis e planos educacionais.”, foi nela que
se “[...] reuniu o grupo de educadores brasileiros responsável pelas
reformas educacionais empreendidas nessa época” (STREMEL,
2016, p. 94).
No que diz respeito ao segundo eixo, situado no primeiro
período, começam a surgir estudos que buscam, de maneira
sistemática, avaliar as experiências educacionais de outros países, bem
como sua organização, fundamentando a emergência dos trabalhos de
gestão educacional e educação comparada; e é neste momento que
aparecerá a utilização do termo política educacional em relação aos
temas educacionais como: política de ensino, programa de política
educacional, técnica e política educacional etc.
Segundo Stremel (2016), em meio à revolução de 1930,
temos a centralização das decisões administrativas do país
aumentando a atuação do Estado na organização da educação,
inclusive com a criação do Ministério da Educação e Saúde Pública,
e a emergência dos primeiros escritos sobre Gestão educacional e
Educação Comparada com os trabalhos de Anísio Teixeira (1961),
Carneiro Leão (1939) e Querino Ribeiro (1938). É importante
pontuar que os estudos históricos destacam que a Política
162
educacional, em seus primeiros escritos, se desenvolveu a partir de
discussões com as Ciências Políticas e estava fortemente “ligada à
administração da educação (tal como ocorreu nos Estados Unidos) e
à educação comparada.” (STREMEL, 2016, p. 72).
Entre o Estado Novo, em 1937, e a entrada de regimes
políticos democráticos de 1946 em diante, temos nacionalmente e
institucionalmente medidas de ação para centralizar concretamente as
decisões e o estabelecimento de uma educação nacional tecnicamente
organizada: a criação do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas
Educacionais Anísio Teixeira (Inep) em 1937, a Revista Brasileira de
Estudos Pedagógicos (RBEP) em 1944, a Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) vinculada ao
Ministério da Educação em 1951, o Centro Brasileiro de Pesquisas
educacionais (CBPE) e os Centros Regionais de Pesquisa
Educacionais (CRPEs) em 1955, estes dois últimos vinculados ao
INEP.
A principal função do INEP, vinculado ao Ministério da
Educação, foi a de coordenar pesquisas sobre a situação da educação
no Brasil, já que as teorias pedagógicas se pautavam em dados
científicos da realidade para organizar o modo de ensino, enfatizando
os problemas centrais de diversas naturezas focando no possível
diagnóstico para direcionamento das atenções do governo, ou seja, a
ideia era [...] sistematizar os conhecimentos educacionais para
subsidiar as ações governamentais” (STREMEL, 2016, p. 82)
processo que se pautava na ideia de que a educação está atrelada ao
próprio desenvolvimento do país, como um investimento nacional
que trará desenvolvimento econômico.
Dando continuidade à fórmula nas décadas seguintes, a RBEP
foi incumbida de realizar debates por meio da aglutinação e
divulgação pioneira das discussões científicas no meio educacional,
163
posteriormente, com a democracia ocupando o lugar privilegiado de
condução da vida educacional, o CBPE e os CRPEs tomam frente na
descentralização da pesquisa educacional no Brasil, visando ao
fortalecimento disseminado da educação e marcando, assim, o
surgimento da pesquisa em Educação no Brasil. Não que ela fosse
inexistente, mas, até tais acontecimentos, havia apenas espaços para
pesquisas pontuais, as quais não eram valorizadas e se realizarem com
investimento irrisório (STREMEL, 2016, p. 83).
Segundo Stremel (2016), podemos dizer que o primeiro
período do INEP, antes dos CRPEs, era voltado para quantificação
dos dados de pesquisa voltados para áreas da psicologia,
psicopedagogia, avaliação e organização do ensino e, posteriormente,
encontram-se na ordem do dia os estudos voltados para sociologia
focando as relações das escolas com as relações sociais, etnias,
processos de socialização e etc. Neste meio institucional, poderemos
perceber que os
[...] intelectuais envolvidos na emergência do campo educacional
(Anísio Teixeira, Lourenço Filho, Carneiro Leão, etc.),
ocupavam uma posição vinculada ao campo mais amplo do
poder, que garantiu legitimidade, estrutura e condições para a
emergência, o desenvolvimento e a divulgação dos estudos e
pesquisas em educação e política educacional. Desse modo,
verificamos que a pesquisa em educação não teve inicialmente
seu desenvolvimento no espaço da universidade, mas sim
impulsionada por órgãos governamentais com finalidades bem
definidas de subsidiar a política educacional brasileira.
(STREMEL, 2016, p. 86).
Podemos identificar algumas consequências do primeiro
momento da trajetória do conhecimento em Política educacional que
funcionam como condições de possibilidade para sua emergência na
164
década de 1960. Por um lado, a atuação científica da época na
realização de trabalhos diagnósticos da situação do Brasil os quais
ofereciam dados assistemáticos e sistemáticos para que os governantes
pudessem ser assertivos no desvelamento de possíveis problemas e
resolução dos mesmos para a organização da educação nacional.
Portanto, essa é uma das principais “[...] particularidades que
caracteriza o campo da política educacional, cuja interlocução entre
atividade política e campo científico impulsionará as possibilidades de
desenvolvimento como campo acadêmico no Brasil” (STREMEL,
2016, p. 101). Por outro lado, com a entrada dos primeiros trabalhos
de Gestão educacional e Educação Comparada e as atuações do
INEP, RBE, CBPE e CRPs ajudam a contrapor a assistematicidade e
subjetividade das pesquisas realizadas no começo do período e
garantem as condições para a Política educacional se construir como
um campo específico: é em meio à “[...] inter-relação com os campos
(político, econômico, científico, educacional) que os estudos sobre
administração escolar, administração educacional, educação
comparada e política educacional vão ganhando relevância e sendo
construídos como campos específicos” (STREMEL, 2016, p. 101).
Esses dois eixos selam nosso objeto de pesquisa já no primeiro
momento da trajetória em Política educacional, no momento em que
seus escritos estavam acabando de emergir:
Nesse sentido, a ação governamental é como uma ‘bússola’ que
orienta as dimensões do objeto de estudo do campo. Tal ação é
fruto das relações que se estabelecem entre o Estado e a sociedade
civil, na qual as pressões sociais em disputa intervém pelas
garantias de atendimento de seus interesses e das demandas
educacionais. Reafirma-se, assim, que os objetos de estudo da
política educacional são contextual e historicamente construídos.
(STREMEL, 2016, p. 109).
165
A década de 1960 marca a entrada do segundo período
indicado por Stremel (2016) e tem o processo de institucionalização
como característica da Política educacional, isso porque ela
acompanha as mudanças no mundo da pesquisa na Educação e passa
a ser, finalmente, produzida também pelo meio acadêmico ganhando
certa independência do campo político. Isso significa que o “[...]
desenvolvimento da produção na área da educação tem duas fases
distintas, caracterizadas por um período anterior e posterior à
implantação da Pós-Graduação [1965], quando a pesquisa é
incorporada pelo campo acadêmico” (STREMEL, 2016, p. 86).
Com isso, temos, nos anos seguintes, o aumento significativo
do termo Política educacional em artigos, teses, dissertações e livros
especializados. Logo no início da década, em 1961, temos a criação
da Associação Nacionais de Professores de Administração Escolar
(ANPAE) que, por dividir espaço com a Gestão educacional na
própria emergência dos debates em torno da Política educacional, irá
incorporar as demandas da área, algumas delas já direcionadas, como
vimos. Nos eventos acadêmicos que realizou na época, publicados em
seus Cadernos de Administração escolar, a ANPAE expressa uma
preocupação com questões de planejamento, organização e a
formação de profissionais especializados da administração
educacional para atuação em escolas.
A ideia principal desses pesquisadores foi incorporar as
discussões sobre administração educacional e educação comparada
em cursos de Graduação e Pós-graduação junto aos estudos
sistemáticos que realizaram na década de 1930 e, também, pensar
como essas premissas se relacionariam com as ações práticas em meio
ao Estado. Portanto, a ANPAE, segundo Sander (2011, p. 271-272),
se edificou sob a “missão de lutar pelo exercício do direito à educação
de qualidade para todos” por meio de sua “[...] participação na
166
formulação de políticas públicas de educação e na concepção e adoção
de práticas de gestão democrática, alicerçadas nos princípios e valores
da solidariedade e justiça social e da liberdade e igualdade de direitos
e deveres na educação e na sociedade.”
Posteriormente, foi em meio ao tecnicismo educacional do
Regime Militar que temos a organização da Pós-graduação de fato, a
criação de diversos periódicos da área educacional, a partir de 1971, e
da Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Educão
(ANPEd), em 1976. Um dado interessante é que neste ano, a ANPAE
muda sua nomenclatura para Associação Nacional de Profissionais da
Administração Escolar e, em 1976, para Associação Nacional de
Profissionais da Administração Educacional na tentativa de ir se
desenvolvendo em conformidade com as vicissitudes dos debates que
estavam se acirrando e com a ideia de ampliar a gama de interesse dos
diversos grupos implicados nas temáticas educacionais.
Em 1979, com a criação da Associação Nacional de Educação
(ANDE) e o Centro de Estudos Educação e Sociedade (CEDES),
ampliou-se o espaço de debate acerca da educação e dos temas da
Política educacional com seus Seminários e, especificamente o
CEDES, com a criação do periódico Educação e Sociedade, o qual
mobiliza até os dias atuais debates importantíssimos acerca dos
problemas educacionais. Juntas, ANPEd, CEDES e ANDE, se
mobilizaram para a realização, entre as décadas de 1980 e 1990, das
Conferências Brasileiras de Educação (CBEs) que ampliaram e
potencializaram ainda mais as discussões em torno dos problemas
educacionais.
Em 1980, a ANPAE modifica sua nomenclatura para
Associação Nacional de Profissionais da Administração Educacional,
mantendo sua sigla (ANPAE), mas esta ainda não foi sua última
modificação, fato este que[...] demonstra que o campo está sempre
167
em jogo como um espaço de lutas, embates, interesses específicos,
disputas entre diferentes capitais” (STREMEL, 2016, p. 86). Em
1983, a Associação cria seu periódico, a Revista Brasileira de
Administração da Educação (RBAE), para divulgação especializada
em Gestão educacional, incluindo também debates sobre temáticas
da Política educacional já que era um momento em que o Brasil abria-
se para a redemocratização do país e sofria fortes mobilizações sociais
em torno dela.
Por sua vez, desde a sua criação, a ANPEd promoveu um
processo de fortalecimento do debate educacional ao mesmo tempo
em que racionalizava a discussão dividindo-as em subáreas chamadas
de Grupos de Trabalho, os GTs. Mas foi somente em 1987 que houve
a criação do GT Estado e Política educacional nesta associação e, por
isso, no Brasil, a discussão específica da área se intensifica
academicamente. Tem-se, também, a mudança do GT Ensino de 1º
grau para Política do Ensino de 1º grau e o GT Ensino Superior para
Política de Ensino Superior, reunindo assim as “[...] evidências a
partir das quais é possível inferirmos que o período de 1986/1987
pode ser entendido como um marco explícito na institucionalização
do campo acadêmico da política educacional no Brasil” (STREMEL,
2016, p. 86). O GT Estado e Política educacional realizou e vem
realizando debates focando as ações do Estado em relação às
demandas sociais e aos mecanismos e formas de gestão da escola
pública. As abordagens deste GT estão ancoradas em perspectivas
macroestruturais as quais analisam a relação entre política, Estado e
educação não mais como técnicas neutras de planejamento e sim
como atividades política socialmente enviesadas. Outro dado é que
por mais que se possa entender a criação da ANPAE como o
168
[...] primeiro marco na institucionalização do campo, em virtude
da relação entre o campo da administração da educação e dos
estudos de política educacional, é com a criação do GT 5 que de
maneira mais explícita a política educacional é definida no
âmbito de um espaço institucional. (STREMEL, 2016, p. 118).
Na década de 1990, temos o último período que marca a
expansão da área da Política educacional. Em 1996, houve a última
mudança na nomenclatura da ANPAE para Associação Nacional de
Política e Administração da Educação e, em 1997, uma mudança na
nomenclatura de seu periódico para Revista Brasileira de Política e
Administração da Educação (RBPAE). Nesse mesmo período, há o
aumento significativo da disciplina Política educacional nos
currículos de cursos de licenciatura, em especial, nos cursos de
Pedagogia; a expansão e publicação massiva em periódicos, eventos
acadêmicos e nas redes de pesquisa; e o surgimento de inúmeras linhas
de pesquisa e grupos de estudo dedicados à pesquisa em Política
educacional, devido, principalmente, a um conjunto de propostas
lançadas pela CAPES para organizar os Programas de Pós-graduação
em linhas de pesquisa. Esse
[...] quadro de crescimento da linhas de pesquisa decorre da
própria dinâmica do Estado democrático pós-1986, do
acirramento das reformas educacionais de cunho neoliberal a
partir da década de 1990, da ampliação da Pós-Graduação e a
necessidade de organização em linhas de pesquisa, do movimento
internacional de interesse pelos estudos de política educacional e
dos movimentos de luta pela educação. Todos esses aspectos
contribuíram para o aumento do interesse pela pesquisa de/sobre
política educacional e o consequente crescimento das publicações
(livros, artigos, etc.). (STREMEL, 2016, p. 125).
169
Stremel (2016) compõe alguns apontamentos sobre o estado
contemporâneo da área da Política educacional destacando alguns
desafios que se impõem à sua expansão, especificamente três. O
primeiro refere-se ao estabelecimento de relações com outros campos
disciplinares como a Ciência Política e Economia, pois sua
interlocução encontra-se ainda incipiente; o segundo desafio refere-se
aos processos de internacionalização dos estudos para maior
interlocução com os trabalhos produzidos fora do país, o que poderia
trazer grandes contribuições não só para o enfrentamento do primeiro
desafio, mas também para lidar com outros modos de enfrentar
problemas de realidades diferentes da nossa; o último desafio refere-
se ao desenvolvimento de estudos teóricos sobre Política educacional
visto que ao longo dos anos esses tipos de publicações são de número
baixíssimo e acabam por negligenciar o estudo da dinâmica do
próprio campo, o que ajudaria a revisitar seus modos de análise e
produção. A autora destaca que isso funcionaria como um meio para
“[...] encontrar um equilíbrio entre as regras de filtragem que o campo
utiliza e as possibilidades de cobrir a diversidade de temas que
integram o campo” (STREMEL, 2016, p. 123).
O trabalho de Stremel (2016) nos ajuda a trazer à tona alguns
elementos não mencionados na trajetória da Gestão educacional, mas
que se encontram latentes e ajudam a formar o espaço complementar
que nos faltava, ou seja, são elementos que se estendem em direção às
instituições, nos mostram a dinâmica do saber e do poder que nos
interessa e que dão contorno às regras de formação da Política e
Gestão educacional.
O primeiro elemento é o nicho em que se desenvolve o
conhecimento em Política educacional. O processo de
institucionalização baseia-se na ideia de que uma disciplina toma
forma institucional quando amparada de diversas maneiras por uma
170
cadeia de instituições adquire independência relativa e consegue
impor e articular socialmente seus princípios de forma que não se
questione ou desconfie de suas atividades e os discursos em torno
delas, ou seja, consegue legitimidade e fidedignidade – claro que isto
não é valido para todos os casos.
Porém, no caso da Política educacional, seus primeiros passos
estão diretamente vinculados à emergência da pesquisa educacional
no Brasil por meio de atividades e trabalhos diagnósticos da situação
educacional, a pedido do governo. O trabalho realizado pelo INEP
continha como um de seus interesses coletar cientificamente dados
para que o Estado intervisse organizando e regulamentando o ensino
pautado na legitimidade dos intelectuais e fazendo desta legitimidade
também parte da sua. Os intelectuais da época viram oportunidade
de colocar suas ideias e, principalmente, criar o espaço para ampliação
e divulgação delas, advindas de dentro e fora do Brasil, visto que a
pesquisa acadêmica educacional da época se encontrava em fase inicial
e viria a criar corpo significativo nas décadas de 1970 e 1980.
Considerando, assim, os períodos históricos pelos quais o
Brasil passou e sua influência sobre as demandas do campo
acadêmico, podemos dizer que houve forte correlação entre o
desenvolvimento, a regulação e a organização do campo acadêmico
educacional e as ações que o Estado tomou. Os próprios diagnósticos
da realidade escolar tornaram-se objeto do conhecimento em Política
educacional e, nesse sentido, os pesquisadores influenciaram
politicamente as ações do Estado por meio de suas análises. Por que
isso é importante? Porque a partir desse momento é possível
evidenciar que, apesar de o âmbito Estado e o âmbito acadêmico
serem distintos, possuem, cada um à sua maneira, um modo de ação
sobre o cotidiano escolar pautado em uma ideia bem parecida.
171
A ideia é que os problemas sociais que acometem a educação
e suas demandas podem ser diagnosticados por eles e realizarem, a
partir de então, um trabalho de rearranjo, criação e organização com
planos práticos de ação movimentando diversas instituições para
implantá-los no cotidiano: essa é a ideia de prescrição explicitada em
nossa Introdução, na verdade, esse modo de ação prescritiva já era
corriqueiro no campo do Estado em relação às demandas sociais. Os
pesquisadores realizavam pesquisas diagnósticas pautadas em
referenciais teórico-metodológicos de diversas frentes para serem
“implantadas” soluções nas práticas onde realizavam suas análises e
encontravam diversos problemas. O detalhe é que o Estado passou a
ser um lugar onde a ideia dos pesquisadores poderia, enfim, se
materializar.
O problema é que essa ideia, ou esse movimento, desconsidera
dois fatores importantes. O de que o cotidiano não consegue absorver
ou se submeter completamente a todas as regulações impostas pelo
Estado ou pelo meio acadêmico justamente porque ele possui força e
regulações próprias e independente desse modo, não é de se
estranhar que a Política e Gestão educacional não conseguiu ajudar a
realizar a gestão democrática ideal nas escolas públicas. Poderíamos
dizer que esses três âmbitos acadêmico, estatal e cotidiano
disputam e colocam em circulação relações de saber e poder, para
imporem o seu modo de regulação um para o outro; só que, nesta
disputa, o cotidiano sofre de entrada um amortecimento de sua força
e seu modo de operar é desconsiderado das análises e intervenções do
meio acadêmico e do Estado, pois é justamente essas regulações e
forças que estes tentam subsumir e regular, ou seja, a regulação do
cotidiano não entra em consideração na criação das regulações que
organizam o Estado e o meio acadêmico. Ou entram de modo que
não atrapalhem as práticas de Estado e acadêmicas como vimos com
172
os casos de processos de periferização de referenciais na trajetória da
Gestão educacional. Subsumindo exatamente esses problemas
próprios da especificidade do cotidiano é que os âmbitos acadêmico e
estatal conseguem regulamentar a posição que o cotidiano terá.
Inferimos, da análise, que estes problemas é que possuem ou
poderiam possuir o potencial de desconstruir os modos de construção
do conhecimento em Política e Gestão educacional.
O segundo fator é que o meio acadêmico e o Estado também
possuem em seu âmago a singularidade das forças do cotidiano em
conjunto com as suas, mas em suas práticas, essas forças singulares
deixam de ser consideradas também. O espaço institucional descrito
por Stremel (2016), enquanto espaço complementar da Gestão
educacional, mostra como o nicho em que se desenvolveu a Gestão
educacional é repleto de movimentos institucionais que a posicionam
no espaço de desenvolvimento da pesquisa educacional visto que os
primeiros escritos da Gestão educacional foram um dos pilares do
processo de institucionalização da Política educacional. Mesmo
considerando as especificidades de cada uma Política e Gestão é
possível apontar que independentemente da perspectiva de Gestão
educacional empresarial ou democrática ambas dividem o mesmo
modo de ação prescritivo que a trajetória da Política educacional,
mesmo que por outros caminhos, faz questão de evidenciar. Portanto,
este é um fator interessante na medida em que demonstra a
semelhança externa entre as perspectivas, ou seja, esse delineamento
mostra que tanto a perspectiva empresarial quanto a perspectiva
democrática possuem semelhança entre os dados de produção de seu
conhecimento e, em alguns aspectos, não divergentes ressaltadas,
claro, suas especificidades.
Essa afirmativa é possível, também, porque a trajetória da
Política educacional coloca de maneira explícita nosso segundo
173
elemento: a figura do pesquisador, a qual só era possível apontar na
Gestão educacional por causa das consequências de análise dos
autores que delinearam os caminhos de sua trajetória no que diz
respeito à função que cada perspectiva adquiria manutenção do
capitalismo ou transformação da sociedade. Salvo suas diferenças, este
personagem se edificou na área trabalhando junto ao Estado em um
plano de desenvolvimento teórico da disciplina Gestão educacional e,
posteriormente, ganhando força junto ao Estado e suas instituições, a
disseminação e regulamento interno para expandir-se em periódicos,
cursos de graduação e Pós-graduação, grupos de pesquisa
devidamente cadastrados, eventos acadêmicos, marcando, assim, sua
presença e legitimidade em diversas instituições, leis, políticas
públicas, escolas etc.
A legitimidade dessas instituições faz-se como legitimidade do
próprio autor justificando a categoria “autor” mencionada na
primeira parte deste capítulo e mostrando de onde é possível edificá-
lo enquanto categoria. Podemos dizer ainda mais: como este
conhecimento vem da análise das situações e problemas sociais da
educação e os pesquisadores movem-se sendo influenciados pelo
Estado e, em contrapartida, influenciando-o, sua missão social e sua
ética de pesquisa passam a ser justamente atender a esses problemas.
Esse movimento justifica a categoria “função social” e seus modos de
análise por legitimar e serem legitimados em meio a essas instituições,
justificando, por sua vez, a categoria “referencial teórico-
metodológico”.
Por fim, podemos encontrar no trabalho de Stremel (2016)
discussões gerais sobre a concepção de Política e a elucidação de seu
objeto de pesquisa o qual se constitui nas ações do Estado em relação
às demandas sociais. Especialmente, o debate em torno dos termos
polity, politics e policy fornece forma ao objeto das pesquisas e, depois,
174
assistimos sua reconstrução e propagação junto ao desenvolvimento
da pesquisa educacional como objeto mais pesquisado em Política
educacional. O mesmo itinerário encontramos nos estudos de Gestão
educacional a partir da década de 1980, com os trabalhos que avaliam
a gestão no cotidiano por meio da análise de políticas públicas para a
gestão e as leis vigentes sobre essa matéria. Momento, também, em
que a prescrição se torna o mote nas pesquisas em Gestão educacional.
Após esses dois percursos, quais relações podemos estabelecer
entre as categorias iniciais que constituíram a estrutura e as linhas
despotencializadas dos estudos em Gestão educacional e o modo de
funcionamento dos estudos em Política educacional que constituíram
o que denominamos de regras de formação da área de Política e
Gestão educacional?
Herdados também desse movimento dos estudos em Política
educacional, teremos, à disposição, os elementos para produção do
conhecimento em Gestão educacional. A ideia que se propagou é a de
que a perspectiva empresarial manteve suas atenções voltadas para a
figura do diretor de escola por meio de uma abordagem técnica da
gestão sem levar em conta o meio social onde se desenvolve e atua
(FELIX, 1985) e, também, que ela não leva em conta as tendências
pedagógicas e os condicionantes políticos, sociais e econômicos por
ser uma atividade neutra em relação à instituição que atua (PARO,
1986). E, também, que a perspectiva empresarial ajudou a edificar a
disciplina em um plano junto ao capitalismo na burocratização da
educação por meio da ação do Estado e para o controle da educação
pelo Estado (FELIX, 1985).
Sobre a questão de desconsiderar os condicionantes sociais,
políticos, econômicos e suas relações com a Educação, podemos
afirmar que não é totalmente procedente, pois tanto Ribeiro (1938)
quanto Alonso (1989) não renunciam à discussão e lugar do Estado
175
nesta perspectiva empresarial. Ribeiro (1938) irá colocar que a gestão
é uma atividade humana, geral, que se baseia na luta que se faz
diariamente para sobrevivência, ou seja, é a própria experiência de
vida que faz com que administremos nosso alimento, as atividades de
trabalho, moradia etc. implicados na cooperação com outros
humanos, para sobrevivermos em sociedade. Porém, são os aspectos
de nossa sensibilidade e moralidade que atrapalham esse modo de
cooperação e a gestão científica viria para racionalizar esses dados
morais e sensíveis que poderiam desviar-nos dos objetivos que
determinada instituição possui. Por isso, neste momento, é possível
dizer que a gestão é neutra por ela racionalizar a conduta e não
implicar de modo algum nos objetivos que determinada instituição
possui, pois, só regula o que atrapalha os objetivos humanos de
educar, produzir mercadorias para subsistência, organizar e
administrar hospitais e etc.
Não é que Ribeiro (1938) faça questão de desconsiderar o
social, a questão é que o social que ele incorpora até por
consequências das pesquisas disponíveis em sua época, pois traz em
seu âmago as condicionantes da TGA ao seu escopo teórico não é
compatível com o social empregado no campo educacional da década
de 1970 e, principalmente, na década de 1980, salvo o trabalho de
Alonso (1976) que, apesar de importante e expressivo, segue e
aprimora as contribuições diretas deste autor. Outro dado é que
Ribeiro (1938) considera o Estado uma empresa na medida em que é
um empreendimento público que emprega esforços na organização
dos serviços públicos de sobrevivência e distribuição das atividades
sociais. Por consequência, a escola é vista por ele como um
empreendimento público que precisa ser organizado e administrado
pelo Estado visando à distribuição de educação de qualidade. Desse
modo, Ribeiro (1938) afirma que é imprescindível considerar os
176
dados, teorias e avanços pedagógicos na produção do conhecimento
em Política e Gestão educacional no Brasil.
Na teoria de Ribeiro (1938), a TGA não entra em seu escopo
sem receber determinadas críticas, pois, mesmo ao reconhecer o
Fayolismo como o mais adequado dentre as diversas correntes da
TGA veiculadas na época, na medida em que reconhece o caráter
humanístico das corporações, ele enfatiza que ela deveria se submeter
ao caráter pedagógico da gestão educacional. Paro (2007) é um autor
classificado na perspectiva democrática e reconhece essa faceta do
pensamento de Ribeiro (1938), porém, ela está envolta em um
aparente paradoxo que não permitiu certos autores reconhecê-la,
como vimos naqueles que realizaram estudos sobre a trajetória da
Gestão educacional no Brasil. Isso ocorre porque, segundo Paro
(2007, p. 563), a “[...] obra do Querino Ribeiro pode ser aproveitada
tanto pelos conservadores quanto pelos progressistas; e isso parece um
paradoxo”. Para o autor, esse paradoxo aparece justamente porque
determinados pesquisadores utilizam a teoria de Ribeiro (1938; 1952)
sem o devido aprofundamento e entendimento de que a “[...]
administração escolar, como qualquer administração, serve aos
objetivos da coisa administrada [...]” e que ela “[...] serve a uma
política e a uma filosofia de educação.” (PARO, 2007, p. 564 destaque
nosso).
Em relação ao destaque que teve a figura do diretor na
perspectiva empresarial de gestão educacional, no caso de Ribeiro
(1938), que é comumente classificado nela, desde seu primeiro texto
já alertava que a gestão da escola não é composta apenas pelo diretor,
como peça-chave, mas, acima de tudo, é composta e considera todos
os trabalhadores escolares envolvidos no processo educacional.
Outra questão é a burocratização do Estado, o problema não
parece estar exatamente na perspectiva empresarial visto que, na época
177
de Ribeiro (1938), ela foi por onde se pôde realizar a pesquisa e onde
passou a se organizar o ensino, pois, querendo ou não, os trabalhos
posteriores, junto aos movimentos sociais, tornaram a gestão
democrática pauta na ordem do dia das demandas do Estado e
conduziram modos de organização próprios. Talvez o problema
poderia ser o próprio Estado, já que ele realizou uma burocratização
massiva em sua gestão com o passar dos anos e não a teoria que deveria
lhe fundamentar.
Com esses dados, podemos dizer que a diferença externa entre
as perspectivas, do ponto de vista do desenvolvimento dos estudos em
Política educacional, não consegue se manter. Primeiro porque, como
dissemos na primeira seção deste capítulo, por mais que os autores de
cada perspectiva difiram em suas afirmativas, ainda temos as linhas de
força de sua produção o autor, o referencial e a função social como
uma regra que vale para ambas as perspectivas. Neste caso, estas
formam uma linha dura e suas categorias formam linhas flexíveis que
operam em ambas, fazem passar em ambas e podem dinamizar os
revezamentos entre elas, inclusive.
Em síntese, a dinâmica dessas linhas duras e as flexíveis
tomam como exercício de poder a legitimidade para dizer o que é
científico e o que não é, relembrando também que a dinâmica
institucional opera de maneira prática o revezamento desses
elementos com suas regras para compor artigos, disciplinas, eventos
acadêmicos, leis, políticas públicas etc. Assim, podemos ver que a
coerência interna entre os autores que diz sustentar a divisão em
perspectivas não consegue se manter, pois, para inserção de autores,
ela deve se modificar, claro sem modificar seu sentido e função, e
mesmo assim, alguns autores não possuem o padrão que a perspectiva
exige. Bom, acabamos de ver isso com Ribeiro (1938).
178
Vimos também que os trabalhos bibliográficos e Estados da
arte realizam uma catalogação priorizando o delineamento das
temáticas e deixando alguns elementos de lado para permitir a
existência de trabalhos diferentes de modo que não atrapalhe a
sustentação da dualidade: ou seja, produzem uma periferização.
Podemos apontar, por consequência, que os trabalhos bibliográficos
são sustentados por todo esse aparato institucional que assistimos se
edificar o autor, o referencial, a função social e, inclusive, os detritos
deixados de lado. As perspectivas de Política e Gestão educacional se
sustentam por uma coerência interna entre os autores e por uma
incoerência externa entre elas e, por sua vez, não se sustentam por ter
uma diferença interna entre os autores e uma coerência externa entre
elas.
Mas como havíamos dito anteriormente, a dualidade seria o
menor de nossos problemas visto que a divisão entre Política e Gestão
educacional poderia conter elementos imanentes que assumissem
papel importante na sustentação desta dinâmica. A mobilidade na
utilização da separação entre Política e Gestão educacional possui
uma linha de força que atravessa tanto a perspectiva empresarial
quanto a democrática e utiliza o campo acadêmico como canalizador
dessa força: o conceito de administração em geral.
A partir do momento em que os autores, de ambas as
perspectivas, aceitam UM conceito de administração em geral
“utilização racional de recursos para realização de fins determinados”,
leia-se administração como mediação para alcançar fins propositais e
intentadospartem da ideia de que ele precisa ser animado por
uma perspectiva educacional e uma perspectiva de política, aceitam,
também, o processo pelo qual o conhecimento é construído a partir
dessa dinâmica, ou seja, devem captar uma demanda para analisá-la
e, posteriormente, terem a criação de um pensamento que delineia
179
uma teoria sobre essa demanda que passa por métodos, teorias e os
meios institucionais de legitimação. A partir disso, o trabalho da
gestão, enquanto operação dela, é aplicação dessa teoria que já foi
dinamizada na e pela política, e o Estado tem junto ao meio
acadêmico de distribuir e dizer como as coisas deveriam acontecer na
prática.
Mesmo se considerarmos que a criação de uma política é
nutrida pelo cotidiano e que as pessoas participam da política, a
maneira como a maquinaria do conhecimento altera suas proporções
contribui para a dinâmica prescritiva da qual estamos falando, pois,
seus resultados se dão em forma de lista de problemas ou receituário
de boas práticas, como vimos. Por isso, afirmamos que este modo de
fazer pesquisa teria que encontrar outras formas de lidar com o
cotidiano da escola e de fazer pesquisa. São essas linhas de força que
atravessam o pesquisador e o fazem peça-chave para sustentar o modus
operandi de se fazer pesquisa.
Correspondendo às prerrogativas e participando do quadro
geral que se apresenta da década de 1960 em diante, a trajetória de
pesquisa de Vitor Henrique Paro é um exercício prático de alguém
que participou da edificação da perspectiva democrática de gestão
educacional e anos mais tarde realizou um trabalho de campo com
objetivo de analisar os elementos que impedem a participação dos
agentes escolares na gestão da escola, tomada como premissa para a
conscientização do trabalho escolar para transformação social.
De nossa parte, interessa saber em que medida essa
experiência do autor participa das regras de formação que destacamos
aqui e, também, em que medida sua teoria se modifica a ponto de
embasar a ideia de que é no cotidiano que se constrói conhecimento,
vendo a realidade concreta da escola. Em seguida, analisaremos em
180
que medida sua teoria sofre modificações constitutivas de sua base
construindo conhecimento junto ao cotidiano.
181
CAPÍTULO 3
Por dentro da escola pública ou nas vísceras das
regras de formação?
Não adianta querer, tem que ser, tem que pá
O mundo é diferente da ponte pra cá
Não adianta querer ser, tem que ter pra trocar
O mundo é diferente da ponte pra cá
Racionais Mc’s (2002)
No decorrer desses quatro anos de doutorado, os diálogos
com a orientadora e também com os colegas do grupo de pesquisa nos
indicaram que iríamos levantar e analisar um conjunto de material
formado por pesquisas que tem o exercício prático dos elementos que
compõem as regras de formação da Política e Gestão educacional, pois
poderiam representar o que elaboramos a partir da construção dos
capítulos anteriores. No entanto, quais e quantos poderiam nos
oferecer um conjunto para análise qualitativa de nossas constatações?
Essa pergunta nos conduziu a pensar que, mais do que dados
quantitativos, o que buscamos são evidências significativas que nos
permitam captar o movimento teoria e prática e o modo de se fazer
pesquisa na área. E assim, a escolha foi feita.
Em 1986, Vitor Paro elaborou sua tese analisando
criticamente os trabalhos que o antecedera destacando
principalmente a especificidade que o trabalho educacional possui em
182
relação ao trabalho e produto final de uma fábrica, bem como, a
potencialidade que a educação tem para somar forças em nome da
transformação social do modo de produção capitalista, pautada em
uma gestão democrática da escola e fundamentada na soberania
popular. Esta obra se constitui como uma das mais significativas no
movimento de ruptura com a perspectiva empresarial de gestão
educacional e edificação da perspectiva democrática sendo, com o
passar dos anos, obra obrigatória em cursos de formação de
professores e pesquisadores, concursos públicos e processos seletivos
em Programas de Pós-graduação, referencial para diversos grupos de
pesquisa, teses, dissertações, artigos, trabalhos completos etc.
(HOJAS, 2011; ORTEGA, 2017).
Arriscamos dizer que se trata do único estudo teórico que
explicita o que a segunda perspectiva denomina de especificidade da
escola, sustentada em análise marxista a qual compara, para fins de
diferenciação absoluta, o processo de produção fabril com o processo
de produção pedagógico. Além de ter um contexto nacional propício,
já que estávamos no momento de luta pela redemocratização do país
e a presença do referencial marxista era forte nas universidades, é
preciso destacar que Vitor Paro foi aluno de Querino Ribeiro no curso
de Pedagogia da USP e integrou movimento estudantil e
representação de sua classe na congregação da Faculdade de Educação
em que seu mestre era presidente e diretor. Tendo aprendido
Administração Escolar com este professor, Paro (1986), décadas
posteriores, intenta desconstruir os fundamentos que sustentavam a
teoria da Administração escolar.
Nos anos 2000, ele faz uma homenagem ao seu professor,
destacando a imprescindibilidade de lermos os clássicos da gestão
entre eles, Querino Ribeiro e evidencia o que denomina “paradoxo
na obra de Querino Ribeiro”, dizendo que apesar de se fundamentar
183
na TGA, ele considerava que a Administração escolar deveria ter
como diretriz uma Filosofia e Política que fossem da Educação
(PARO, 2009). Mas assim como também dissemos no final do
capítulo anterior, ambos apresentam elemento forte de manutenção
de linhas fixas, qual seja a mais importante: a gestão é um meio para
realização de fins postos fora e acima dela, ela é mediação para a
consecução de fins determinados.
Posteriormente à publicação de sua tese de doutorado, entre
os anos 1989 e 1990, o autor teve a oportunidade de experimentar
sua teoria por meio de uma pesquisa de campo com o cotidiano da
escola visto que, para ele, o conhecimento em Política e Gestão
educacional deveria ser constituído na escola, com ela e para ela. Este
pesquisador desenvolve sua tese de livre-docência intitulada “Por
dentro da escola pública”, publicada em livro em 1999.
Dito isto, este capítulo tem o objetivo de analisar os dois livros
do autor (PARO, 1987; PARO, 2000) entendendo, entretanto, que
ele participou, e participa ainda, de um longo período onde se
passaram inúmeros acontecimentos importantes na edificação do
conhecimento em Política e Gestão educacional no Brasil. Constitui
como material de análise também o trabalho de Rockwell (1986)
utilizado como teoria de suporte de Paro (2000) por ele considerar o
melhor e mais adequado referencial para este contato com a escola.
Mas não é só isso, será considerado todo o contexto que
identificamos nos capítulos anteriores, portanto, entendemos que
Vitor Paro seguiu, consciente ou não, as regras de formação do
conhecimento em Política e Gestão educacional e, na medida em que
realiza seus trabalhos, é diluído dentro dessa trajetória, sendo um,
entre outros, eventos singulares de seu desenvolvimento. O autor se
constitui para nós como um exemplo de como as regras de formação
funcionam em nossas práticas teóricas de pesquisa. Ele não se
184
constitui como um cientista que se encontra fora da ideologia, ao
contrário, ele a fortalece e ajuda a constitui-la e principalmente
mantê-la, pois sabemos que essa ideia era trabalhada pelo processo de
criação do verdadeiro e falso junto aos processos de periferização que
lhe dão suporte. As regras se modificaram a partir do momento em
que elas tomam forma na superfície e, com a ajuda da cartografia
esquizoanalítica, delinearemos seu plano de imanência e de
constituição bem como as linhas que as atravessam.
3.1 A edificação do social como ponto de partida da teoria e o
fortalecimento das regras na etnografia
Conhecendo as regras e os acontecimentos que estavam em
movimento ao final da década de 1970 e ao longo da década de 1980,
não é surpreendente que uma pesquisa com subsídios marxistas e com
críticas vinculadas à emergência e desenvolvimento do capitalismo
pudesse surgir ali, naquele momento e daquela maneira. Em nossa
análise, desenvolveremos a ideia que o primeiro livro Administração
escolar: introdução crítica (PARO, 1987) - marca muito mais um nó
na história da Política e Gestão educacional no Brasil do que algo
completamente original.
Paro (1987) inicia sua tese afirmando que a literatura
construída na área, até aquele momento, estava dominada por
trabalhos que enfatizavam os princípios e métodos utilizados na
empresa capitalista e que já eram amplamente difundidos em cursos
de graduação e habilitações bem como no cotidiano das escolas. Para
ele, a teoria da Política e Gestão educacional estava pautada na
“pretensa universalidade dos princípios da Administração adotados
na empresa capitalista” (PARO, 1987, p. 11). Apesar de o autor
deixar claro que existiam na época dois tipos de Gestão escolar
185
predominantes uma que aderia aos princípios da empresa capitalista
e outra que rechaçava a adesão e necessidade de qualquer gestão na
escola ambas incorriam no erro de “[...] não considerar seus
determinantes sociais e econômicos [...]”, ou seja, não mantinham
uma postura crítica sobre a realidade concreta e não se “[...]
aprofundavam na captação das múltiplas determinantes do real [...]
e, portanto, não poderiam se quer pensar em um trabalho voltado
para “transformação social” (PARO, 1987, p. 12). Assim, o objetivo
de Paro (1987, p. 13) foi o de “[...] examinar as condições de
possibilidade de uma Administração Escolar voltada para a
transformação social”.
A Gestão educacional estudada por ele não se pautará nem na
ideia de ela ser um conjunto de princípios, métodos e técnicas que são
convenientes ao universo educacional e nem na ideia de adesão aos
processos de gestão adequados visando seu melhor desempenho; ao
contrário, irá pautar-se na ideia de que a Gestão educacional não se
realiza livre das condicionantes sociais, econômicas e “[...] históricas
determinadas para atender à necessidade e interesse de pessoas e
grupos [...]”, ou seja, a análise se pautará em uma[...] íntima relação
com o exame da maneira como está a sociedade organizada e das
forças econômicas, políticas e sociais ali presentes [...]”, e que está
“[...] organicamente ligada à totalidade social, onde ela se realiza e
exerce sua ação e onde, ao mesmo tempo, encontra-se as fontes de
seus condicionantes”. Além de ter como base a bibliografia
relacionada ao seu referencial teórico e sua temática, segundo ele, é
subsidiado por toda sua vivência como pesquisador e docente na área,
destacando, o “permanente contato com a realidade escolar” junto às
suas orientações de estágio com alunos do curso de Pedagogia
(PARO, 1987, p. 13).
186
Dados os motivos e caminhos delineados pelo autor, sua
primeira tarefa foi retirar do conceito de gestão todos os conteúdos
ideológicos que o arrebatam em direção aos condicionantes da TGA
e ao modo de produção capitalista. A ideia de Paro (1987, p. 18),
portanto, foi analisar a gestão “independente de qualquer estrutura
social determinada” e isso implica examinar o conceito de
administração em geral, em sua essência. Ele conceitua a gestão em
geral como “[...] a utilização racional de recursos para realização de
fins determinados.” (PARO, 1987, p. 18).
O objetivo de Paro (1987) é esvaziar o conceito de gestão,
assim como fez Ribeiro (1938; 1952) afirmando que ela é uma
atividade humana que visa organizar uma cadeia de atividades em
função de uma demanda social ou institucional. A diferença é que, ao
final, Paro (1987) irá articulá-la a uma teoria que justifique esse
processo de esvaziamento. Para ele, subsidiado pela teoria marxista,
somente o homem é o ser social, em relação aos outros animais, capaz
de prospectar objetivos e funções que sua atividade, os materiais e
objetivos terão antecipadamente em seu intelecto. Ele diferencia,
por exemplo, o modo como um animal executa as suas funções sem
projetar ou analisar antecipadamente o modo como está realizando
uma atividade, ou seja, um “[...] animal, como ser indiferenciado da
natureza, não realiza o trabalho humano, já que não busca objetivos
livremente, colocando-se portanto no âmbito da pura necessidade
[...]”, assim, não aparece para ele, o animal, o “[...] problema da
utilização racional de seus recursos, já que suas ações são previamente
determinadas pela natureza, de modo necessário e imutável para cada
espécie [...]” (PARO, 1987, p. 19 destaque do autor). A diferença é
que o homem possui uma racionalidade que estabelece “livremente
objetivos a serem cumpridos”, ele “utiliza racionalmente os meios que
dispõe para realizá-los” (PARO, 1987, p. 18-19).
187
Os meios que se referem aos materiais disponíveis têm a ver
com a relação do homem com a natureza, as concepções e objetivos
dizem respeito à relação do homem com outros homens. A relação do
homem com a natureza se efetiva por meio do trabalho que é
propriamente uma “atividade orientada a um fim” (PARO, 1987, p.
20), assim, ele submete a natureza à sua vontade dominadora em seu
próprio proveito. Esse movimento não é isolado, pois, o homem o faz
em contato com outros homens, isso porque os trabalhos realizados
isoladamente não possuem o fator econômico, não só de materiais,
mas também da busca por objetivos que lhes são comuns. Na relação
homem com a natureza utilizam-se os recursos materiais e conceituais
de maneira racional para atingir um fim e isso exige uma gestão da
atividade. Para o autor, o problema está justamente quando na relação
de homens com outros homens atividades de “coordenação” , um
imputa sobre o outro uma relação homem e natureza, ou seja, toda
vez que se “[...] verifica uma dominação sobre o homem degrada-se-
lhe sua condição de humano para condição de coisa” (PARO, 1987,
p. 25).
Paro (1987) ainda se alonga colocando mais conceitos e
elementos sociais da teoria marxista justificando seu conceito de
gestão em geral, mas, será que é realmente possível abstrair a essência
deste conceito? O autor diz que fará uma abstração buscando a
essência do conceito ao mesmo tempo em que o enxerta com muitos
elementos que o tornam possível como as atividades humanas
coletivas, o homem enquanto ser diferenciado da natureza , ou seja,
as condições de possibilidade de uma abstração não vêm de um efeito
neutro e sem referencial teórico, pelo contrário, existe uma teoria que
lhe oferece suporte, portanto, a suposta essência do conceito já está
envolta dos elementos sociais, políticos e teóricos que lhe dão suporte.
188
O primeiro dado é que Paro (1987) realiza esse movimento
colocando à disposição todo aparato de pesquisa que se encontra em
evidência na época e lhe garante legitimidade. Além disso, uma das
características principais do momento era a assertiva de que todo
movimento teórico é também um movimento político. Assim, ele
participa de uma instituição histórica e filosoficamente situada e
realiza uma pesquisa embasado em um método e referencial teórico
que já o preenche de antemão. Não podemos ignorar esse fato, pois
se consideramos o período histórico na elaboração de conceitos, a
gestão em geral será imediatamente preenchida pelo referencial em
questão.
O intuito não é criticar a concepção do autor, mas sim
destacar o fato de que esse conceito é enxertado de alguma coisa e de
modo algum apresenta uma essência, na verdade, ele só está em jogo
em um momento histórico em que os dados empresariais apareciam
em seu modo primitivo. Ou seja, o conceito não consegue se despir
de uma estrutura social, pelo contrário, ele está transbordando social
por todos os lados e remete inclusive ao social do qual Paro (1987)
faz parte. Não existe gestão em geral neste caso, o que podemos
flexibilizar é que se trata de um, entre outros possíveis, conceito de
gestão e não ele em sua essência. Até porque, como seria possível
buscar a essência de um conceito, considerando, sobretudo, que toda
vez que isso é realizado por alguém, este pensa e é subsidiado por um
aparato que lhe oferece condições para tal?
Não queremos também dizer que a gestão seja isso ou aquilo,
mas o fato é que retirar e criticar a concepção capitalista de gestão e
colocar a democrática no lugar não modifica o modo como ela é
produzida e, indo além, que ela irá acontecer da mesma maneira que
foi idealizada no cotidiano, até porque sabemos que estes dados do
enunciado encontram limites em seu espaço complementar, ele não
189
se prolonga lá e essa é uma das grandes críticas que os autores que
realizam a trajetória destacam. Assim, há de se considerar que talvez
lix (1985) e o próprio marxismo fazem parte desta concepção, as
instituições e as disputas pelas concepções que estavam em voga no
meio acadêmico estão presentes, e Paro (1987) faz isso em um jogo
de poder que talvez na época ele já fazia ideia. O detalhe é fazer existir
uma teoria verdadeira e outra falsa e realizar a busca pela essência é
exercer a prática para realizar esse movimento.
Apesar de considerarmos que não é possível achar uma gestão
em geral, em sua essência, sem ser preenchida por uma estrutura
social, ela cumpre a função de justificar o preenchimento, ou melhor,
ela cumpre a função de justificar sua edificação sob outro viés. Esse
exercício justifica também a necessidade de existência de uma gestão
que não é essencialmente má, mas que foi utilizada para isso e agora
poderá ser utilizada em nome do bem, sendo científica ao invés de
ideológica.
Define-se assim, dentro do quadro do qual vimos
anteriormente, o papel do pesquisador que mostra os aspectos
ideológicos contidos nas teorias, para utilizar sua linguagem, e define
o que é verdadeiro ou falso em nome do bem e da justiça social os
quais oferecem suporte à sua prática. É possível também perceber que
a gestão em geral segue a proposta de Ribeiro (1938; 1952) na medida
em que Paro (1987) esvazia o mesmo conceito para submetê-lo a uma
nova Política e teoria pedagógica como havíamos salientado.
Com o autor, iremos marcar as principais características da
gestão capitalista, pois posteriormente ela poderá mostrar quais
elementos impedem a participação de todos os trabalhadores da escola
na gestão. Será importante marcar em primeiro lugar os processos de
produção, exploração na divisão do trabalho na sociedade capitalista
190
e, em segundo lugar, as possibilidades de transformação social e sua
influência sobre a Política e Gestão educacional.
Para Paro (1987, p. 35), as relações de produção acabam por
determinar, em certa medida e mesmo que “em última instância”, o
modo como a sociedade se organiza baseando-se na exploração do
trabalho alheio de parte da sociedade, como é o caso do capitalismo.
Isso só é possível pela criação do excedente no modo de produção
capitalista. Nas sociedades primitivas, exemplifica Paro (1987, p. 36),
o homem em seus aspectos rudimentares produzia com seu trabalho
o suficiente para sobreviver, em nossas sociedades modernas com os
novos modos de trabalho e tecnologia, acima de tudo os coletivos e
altamente numerosos, produzimos mercadorias para além das
necessidades de sobrevivência: a[...] produção de excedente não é,
pois, exclusiva do capitalismo, embora tenha atingido, nessa
sociedade, dimensões sequer imagináveis anteriormente [...]”; a
diferença é que no capitalismo teremos, dentre outros elementos, a
produção da mais-valia.
As mercadorias que vemos em nosso dia a dia possuem, do
ponto de vista da mais-valia, um valor de uso e outro de troca. No
primeiro caso, é uma mercadoria externa, objeto de consumo em
relação a um consumidor comum, somados a ela todo o
procedimento de produção que lhe imputa valor; por outro lado, o
valor de troca, o segundo caso, aparece quando os valores entre as
mercadorias são diferentes agregados a suas propriedades de uso
como trocar um quilo de açúcar por um armário ou um punhado de
milho, ou feijão etc. seja como for esse valor só aparece na troca.
Trata-se nestas duas circunstâncias de saber o que dá o valor a algo: a
“subsistência do valor é o trabalho” (PARO, 1987, p. 38) utilizado
em sua produção que, por sua vez, remonta o tempo utilizado e as
energias utilizadas para tal. O que interessa, fundamentalmente, é que
191
para a produção do trabalho acontecer necessita-se de uma divisão
pormenorizada e organizada para se atingir os fins do
empreendimento em questão, ou seja, depende de relações sociais de
homens com outros homens, a “mercadoria é, pois, a objetificação de
uma relação social” (PARO, 1987, p. 39).
O problema é que aos “olhos do senso comum”, ela possui
uma existência ou uma “[...] ‘forma mística’, as características sociais
do trabalho humanos são refletidas como se fossem características
suas, inerentes ao próprio produto deste trabalho” (PARO, 1987, p.
40). Assim, é possível perspectivar que exista um olhar ideológico
sobre as relações sociais de trabalho, pois de maneira mística e
fantasmagórica, ela acaba sendo vista e sentida como se fosse natural
e própria das relações de trabalho e sua organização.
Ao encobrir o verdadeiro cater social do trabalho que lhe dá
origem, a forma mercadoria dos produtos do trabalho acaba
também por dissimular as relações sociais que têm lugar dentre
os participantes do processo de produção capitalista,
apresentando-as, conforme vimos anteriormente, como relações
justas entre proprietários de mercadorias, impedindo que se
perceba a exploração do trabalho presente nessas relações.
(PARO, 1987, p. 40).
Os meios de produção, matéria-prima e os instrumentos de
produção, conhecidos como capital constante, entram em relação à
força de trabalho do operário, sua capacidade e energia que gasta na
produção, conhecida como capital variável, transforma o trabalho em
objeto de troca em relação a quem o emprega. Como um trabalhador
em um dia de trabalho, por exemplo, consegue reproduzir aquilo que
gasta de trabalho necessário para produzir uma mercadoria, o resto do
tempo que sobra é objeto da exploração daquele que o empregou
192
trabalho excedente ou mais trabalho. Claro que este trabalhador não
tem os meios de produção para produzir sua própria mercadoria e,
por consequência, tem sua força de trabalho para vender. Acha-se
nesta relação como se não pudesse existir outra forma possível, ou
seja, “o processo se dá de tal forma que não resta outra alternativa ao
capitalista se não explorar, e ao trabalhador sujeitar-se à exploração,
embora ambos estejam, no nível privado, apenas procurando ‘fazer o
melhor negócio’, num mundo onde domina a troca de mercadorias”
(PARO, 1987, p. 44-45).
Em relação à divisão especializada na fábrica, ela é um artifício
utilizado para gerir de maneira prática as relações de produção das
quais Paro (1987) destaca. Para ele, é pelo fato de a administração
possuir uma dimensão essencial que pode ser vista como algo
desestruturado de uma noção de sociedade que ela pode e adquire
características que tem em uma sociedade em que o capitalismo
assume o domínio das relações e as organiza.
Diferente da divisão do trabalho que destacamos aqui, a
divisão pormenorizada da divisão técnica do trabalho, segundo Paro
(1987), se faz no interior da sociedade capitalista em específico e neste
meio o produto do trabalho não pertence mais ao trabalhador e seu
trabalho está subordinado ao capital: subsunção formal.
Em seu início, a jornada e a intensidade do trabalho eram
aumentadas para gerar mais-valia absoluta, porém, com o
aprimoramento da produção e as lutas dos trabalhadores por melhores
condições de trabalho, os empregadores tiveram que dispor de meios
para aprimorar a mais-valia de modo que os trabalhadores tivessem
redução da jornada e intensidade do trabalho: mais-valia relativa. Por
que esse dado é importante? Porque os processos de trabalho foram
alvo de modificação de modo que o trabalho necessário para
confecção de determinada mercadoria diminuísse, assim, o
193
importante é que, nesse contexto, a divisão pormenorizada do
trabalho emerge. Nesta dinâmica, entram em cena o planejamento e
a cooperação para evitarem desperdício de matéria-prima, de tempo
de trabalho e energia dispendida, assim as operações de produção são
limitadas às pequenas partes do processo, o que agiliza e não exige
conhecimento total da produção, ao menos, claro, para aqueles que
vendem sua mão-de-obra.
É bem verdade que um operário que passa a vida repetindo uma
mesma tarefa parcial terá muito maior destreza e rapidez para
executá-la do que o artesão que precisa realizar todas as operações
de seu ofício. Não é menos verdadeiro, entretanto, que, ao
confinar o trabalhador durante toda jornada de trabalho e por
longos períodos a uma mesma atividade parcial, essa divisão do
trabalho acaba por transformá-lo num verdadeiro aleijão,
privado que ele fica de exercitar de exercitar e desenvolver suas
outras capacidades. (PARO, 1987, p. 51).
O interessante e terrível dessa operação é que “[...] não é mais
o trabalhador que utiliza os instrumentos de produção, para
transformar a matéria-prima em objeto útil; é, pelo contrário, a
máquina que utiliza o trabalhador, determinando-lhe o movimento e
o ritmo de trabalho”, realizando assim a “subsunção real do trabalho
ao capital”. Deste modo, o “trabalho não se subordina mais apenas
formalmente ao capital, mas o próprio processo real de produção foi
transformado de tal modo que o domínio do trabalho mortoaquele
incorporado nos instrumentos de produção sobre o trabalho vivo
o que se incorpora diretamente ao produto pelo trabalhador, no ato
da produção se torna um fato concreto e palpável.” (PARO, 1987,
p. 53 destaques do autor).
194
A ideia de razão dentro deste movimento pende para o lado
da racionalização do capital na medida em que o objetivo será a
expansão do capital, assim, tudo que for utilização de recurso para
esse fim será, por consequência, considerada racional. O que se pode
questionar neste sentido, segundo o autor, é justamente a validade
deste fim colocado, pois ela só funciona por meio da exploração do
trabalho alheio no capitalismo. Basicamente, a ideia é que a
racionalização é razoável, porém os motivos que a justificam não são
racionais, de forma alguma, quando se pensa na qualidade de vida de
modo geral; nesse sentido, revela-se o “[...] caráter particularista, não
universal, da racionalidade capitalista, ficando explícita sua condição
de racionalidade limitada pelos próprios objetivos particulares da
classe detentora do poder na sociedade” (PARO, 1987, p. 56).
A gerência tem como uma de suas grandes funções amenizar
nos grandes conglomerados de trabalhadores o desânimo e as
possibilidades de resistência movimentadas pelas relações desiguais
inerentes ao próprio trabalho. Ela é o controle do trabalho alheio.
Assim, as questões de pensar os objetivos fica centrada nos setores de
recrutamento e planejamento, porém, ele mesmo passa a ser um local
onde a pormenorização das atividades de trabalho torna-se
fundamentada nas regras das habilidades manuais e mais uma vez
vemos os trabalhadores se modificando em nome de uma organização
para a gerência em função da ampliação do capital.
Paro (1987, p. 68) irá colocar na jogada a diferença entre a
práxis burocratizadora natural nas atividades de gerência em nome da
ampliação do capital e a “[...] práxis verdadeiramente humana”. O
problema é que a práxis burocratizadora faz parte da repetição dos
movimentos, uma práxis mecânica, e não propõe criação humana
alguma e em certa medida impedindo a práxis criadora. Outro
problema é o sentido político que se desdobra, pois, ela consegue
195
manter o “controle do capital sobre o trabalho” (PARO, 1987, p. 69).
Todo esse movimento permitiu a ampliação das teorias que a
justificam, TGA, por exemplo, somadas inclusive com teorias
psicológicas e sociológicas de persuasão para serem utilizadas na
empresa.
Os administradores estão sim buscando objetivos que são seus,
mas dentro da margem de liberdade que lhes é proporcionada
para atender aos objetivos do capital. E é razoável que assim
aconteça, pois tal margem de liberdade existe precisamente para
ser utilizada, proporcionando melhores condições para se
atingirem de forma mais efetiva os fins da empresa. (PARO,
1987, p. 74 destaque do autor).
Em relação à práxis humanizadora, a grande determinante é
que isso dependerá, “na prática, da natureza dos fins que se procura
atingir”, a gestão só estará comprometida com a transformação social
na medida em que seus objetivos estiverem alinhados com ela; no caso
da gestão escolar, “[...] a análise de suas relações com a transformação
social deve passar, necessariamente, pelo exame das condições de
possibilidade da própria educação escolar enquanto elemento de
transformação social” (PARO, 1987, p. 81).
Paro (1987) afirma que nossa sociedade não é só dominada
pelo capital, mas acima de tudo, é hegemonizada pelo bloco histórico
formado em torno de si, sociedade civil e sociedade política
superestrutura pois eles dispõem de mecanismos para tal. Os
grandes responsáveis por isso foram os intelectuais que fizeram essa
ligação não só pelo próprio mover da história, mas também aqueles
que justificam suas modificações teoricamente e nas práticas de suas
empresas, uma grande militância em torno do capital, ou seja,[...] o
caráter dialético e orgânico do vínculo que existe entre a estrutura e
196
superestrutura se expressa concretamente nos grupos encarregados
precisamente de realizar essa ligação: os intelectuais.”
O intelectual colocado por Gramsci, segundo Paro (1987, p.
90), assumirá um papel diferente, pois ele “[...] tem sua significação
bastante precisa, que difere enormemente da maneira como o termo
é usualmente utilizado [...]” como veremos com o intelectual
tradicional e o orgânico. Nestes termos, poderíamos dizer que o
próprio desenvolvimento da Gestão educacional, ao olhar dos autores
utilizados, construído ao longo de nosso capítulo dois, se fez por essa
dinâmica e, indo além, podemos dizer que Paro (1987) participa dele
como um intelectual “orgânico” da perspectiva democrática. O autor
enfatiza que os intelectuais são “funcionários das superestruturas” e
que desempenham suas atividades específicas visando a buscar a
[...] homogeneidade do grupo social fundamental dando aos
seus membros a consciência da função que tem tanto no campo
econômico quanto no social e político bem como a levar tal
grupo a tornar-se hegemônico na sociedade proporcionando-
lhe a direção do bloco histórico” (PARO, 1987, p. 92).
É por isso que as atividades de gestão deveriam mudar e serem
participativas, pois não importa onde, mas sim a função que
desempenha e seu vínculo com a manutenção ou não do modo de
produção.
Paro (1987, p. 92) diferencia, também, os intelectuais
tradicionais e os orgânicos. Para ele, os intelectuais tradicionais, os
eclesiásticos, por exemplo, não se ligam a um “grupo fundamental no
nível da produção econômica”, pois sua classe ou pode ter
desaparecido ou não fazer parte significativa na disputa na
superestrutura e, por atuar de forma suspensa, possuem certa
autonomia e podem apoiar uma das duas classes que disputam a
197
hegemonia no capitalismo; os orgânicos, por outro lado, são aqueles
que se ligam às classes fundamentais que disputam a hegemonia
caso eles sejam cooptados ou caso um intelectual orgânico venha a
atender às demandas de outra classe que não seja a sua, pois existe um
transformismo em sua função.
Seja como for, teremos o intelectual que cria, o educador e o
gestor que desempenham a função de divulgar e praticar as ideologias
criadas, pois, não “[...] obstante tenham todos a mesma especificidade
quanto ao papel que desempenham como ‘funcionários da
superestrutura’, é possível identificar uma hierarquia dos intelectuais,
de acordo com a natureza intrínseca da atividade intelectual que
exercem” (PARO, 1987, p. 93). Assim, temos os grandes intelectuais
criadores importantes para a criação da ideologia no nível das
“ciências, filosofia, arte e direito”, por exemplo, e os “intelectuais
subalternos” que são organizadores ou gestores e os educadores que
“se encontram-no nível mais baixo”, divulgam e praticam
modestamente o grande conteúdo intelectual criado. Mas, é preciso
lembrar que “Essas três qualidades não são, toda via, inteiramente
dissociáveis, constituindo-se a práxis do intelectual numa combinação
delas em graus, evidentemente, variáveis.” (PARO, 1987, p. 93-94).
Apesar de o intelectual criador elaborar novas concepções de mundo,
o importante é não minimizar a importância dos demais intelectuais,
já que todos se identificam e possuem as singularidades dos outros,
pois eles são “[...] responsáveis por tarefas tão imprescindíveis quanto
a disseminação da nova ideologia da classe fundamental e a
organização dessa classe visando à hegemonia da sociedade” (PARO,
1987, p. 94). Para o autor, na conjuntura do capitalismo, o único
grupo social apto a conduzir esse movimento é a classe operária por,
sobretudo, traduzir os interesses de toda a sociedade.
198
Pelo que foi dito até aqui, podemos pressupor que outras lutas
existentes na sociedade, diferentes das de classe (como racismo,
gênero, feminismo etc.) não são importantes ou não conseguiriam
agir efetivamente na luta de resistência ao capitalismo? Claro que não,
porém essas lutas são consideradas particularidades na resistência que
se possa ter ao capitalismo e seu modo de ação poderia se dar por meio
da subsunção à luta da classe operária.
O autor exemplifica que todas as “[...] classes que, no passado,
conduziram uma revolução social, embora traduzissem seus interesses
particulares como se fossem os interesses de toda a população, o fizeram
apenas para tomar o poder e submeter os demais grupos sociais a suas
condições de exploração”. O que acontece é que, em certa medida, os
interesses particulares de outras classes deveriam engajar-se na luta
operária, pois esta luta diminuiria as desigualdades sociais abrindo
campo para o pensamento e abordagem de outras lutas importantes
em sociedade ou também poderíamos dizer que por essas demandas
não serem essencialmente contra o modo econômico de produção
talvez nem se constituiriam como classe. Deste modo, a “[...] classe
operária [...] cujo interesse fundamental é precisamente a eliminação
de toda exploração, só pode fazê-lo na medida em que realmente
expresse o interesse comum de toda a sociedade” (PARO, 1987, p. 95
destaques do autor).
Todo problema da transformação revolucionária da sociedade se
resume na criação de um novo bloco histórico. Isso só se faz a
partir de uma crise orgânica no bloco histórico vigente e da
constituição de um novo sistema hegemônico. A crise orgânica
se faz presente na medida em que se rompe o vínculo que liga a
estrutura à superestrutura. (PARO, 1987, p. 97).
199
Colocada a concepção de sociedade e o papel do pesquisador
nela, vamos para os conceitos de educação e gestão que coadunam
com a perspectiva transformadora de sociedade. A educação tem
papel relevante nesta dinâmica de transformação “[...] na medida em
que for capaz de servir de instrumento em poder dos grupos sociais
dominados em seu esforço de superação da atual sociedade de classe
(PARO, 1987, p. 103), até porque como vimos com Gramsci, Paro
(1987) se fundamenta nele e, assim, a escola assume lugar estratégico
na disseminação de uma ideologia, seja qual for, mas isso de modo
algum a define como lugar de reprodução, por excelência, de uma.
No que se segue, educação e política, segundo Paro (1987),
devem ser analisadas considerando suas especificidades, neste sentido,
a política acontece em uma relação entre antagônicos e a educação em
uma relação que se dá entre contrários não-antagônicos o que já nos
tira a ideia de escola como função de reprodução de uma ideologia.
Isso significa que na política tentamos vencer um adversário
baseando-se na coerção e a educação busca atender aos interesses do
outro baseando-se na persuasão. Porém, são duas dimensões
inseparáveis. “Assim, a educação se revela como elemento de
transformação social, por um lado, no caráter pedagógico que assume
a luta política da classe trabalhadora em seu esforço revolucionário
com vistas à desarticulação do poder da classe burguesa e à construção
do novo bloco histórico [...]” (PARO, 1987, p. 104).
Nesse contexto, a escola, com o passar do tempo, se tornou
complexa exigindo sistematização e organização do saber
historicamente acumulado passando a exigir certa divisão do trabalho,
ou seja, de modo análogo ao trabalho na sociedade em geral. Paro
(1987) enfatiza que seu vínculo com a transformação não é
espontâneo e precisa ser organizado, e, na sociedade capitalista, este
vínculo tem se dado no sentido de “[...] dotar as pessoas de
200
determinados requisitos intelectuais indispensáveis ao exercício de
uma função no campo da produção”, neste caso, ela funciona como
uma importante instituição de disseminação da ideologia (PARO,
1987, p. 106-107). Essa função pode ser diagnosticada ao
entendermos que na medida em que “[...] a burguesia assume a
direção da sociedade, a generalização da educação como dever do
Estado se apresenta como forma efetiva de consolidar sua hegemonia
no seio do novo bloco histórico” (PARO, 1987, p. 107-108).
Em relação ao conceito de Gestão em geral, Paro (1987)
defende que a ideia que concebe difere daquela colocada pela
perspectiva empresarial, pois ele abstraiu a estrutura social que
poderia influenciar a construção do conceito que está propondo, em
contraposição, a ideia dos autores da perspectiva empresarial
basearam-se no fato de que existiam elementos semelhantes entre a
gestão da empresa e da escola. Apesar disso, nosso ponto é a ideia de
que ambas servem para mediar os fins e objetivos postos por uma
filosofia, uma política ou uma estrutura social enquanto atividade
prática ou de aplicação.
Para o autor, a gestão que a escola vivencia, até a década de
1980, tem um apelo completamente técnico, pois os problemas em
que se envolve não buscam os condicionantes sociais de sua função e
dos problemas que ali estão, como se na escola a movimentação dos
recursos não estivessem adequados o suficiente. Ainda assim, os
autores da perspectiva empresarial reconhecem que o produto da
escola é de difícil mensuração e lida com o elemento humano e a mão-
de-obra na escola tem participação relevante, pois sua matéria-prima
é outra e a natureza de seu trabalho diversa, “[...] consiste na
transmissão crítica do saber, envolvendo, portanto, o comportamento
humano que não se contém nos estreitos limites da previsibilidade
inerente à máquina” (PARO, 1987, p. 126-127).
201
O problema é que a utilização do modo empresarial na escola,
segundo Paro (1987), em seu cotidiano, apresenta um número
excessivo de normas burocratizantes geralmente desvinculado da
realidade. Para aumentar esse alcance, ela ainda se pauta em uma
pedagogia de tipo tecnicista que reformula os currículos e planeja a
divisão do trabalho de modo que cada um faça especificamente uma
coisa sem levar em conta o todo, esvaziando automaticamente as
atividades livres de seu conteúdo tendo como maior problema a
degradação de seu produto. Somam-se a isso, baixos salários,
condições ruins de trabalho, ensino massivo, superlotação, que com
o passar dos anos, fizeram com que a educação deixasse de ser um
interesse e passou a ter cada vez menos investimento.
A gerência trazida para dentro da escola conduz o diretor ao
papel de líder no topo da hierarquia da escola responsável pela
supervisão e controle das atividades em nome das demandas e
ordenamento que o Estado propõe em função do capitalismo. O
diretor assume uma função essencialmente contraditória, pois deve
fazer com que se exerçam os objetivos educacionais pressionado por
professores, pais e alunos por melhores condições de estudo e trabalho
melhorando a qualidade de ensino e, por outro, sendo pressionado
pelo Estado para fazer cumprir os modos da lei envoltos de uma carga
excessiva de burocracia. O importante é que esses conflitos refletem
os “[...] interesses antagônicos que estão na base das relações sociais
de produção vigente” (PARO, 1987, p. 136). E isso é importante,
pois a escola, aos olhos de Paro (1987), não é um espaço físico fixo, é
um espaço de conflito diário em que se pode lutar por uma gestão
diferente. Desse modo, a gestão educacional “[...] precisa saber buscar
na natureza própria da escola e dos objetivos que ela persegue os
princípios, métodos e técnicas adequados ao incremento de sua
racionalidade” (PARO, 1987, p. 136).
202
Para facilitar uma supervisão, tal sistema hierárquico é
constituído de tal maneira que todos os que participam da vida
da instituição desde o pessoal de secretaria e os funcionários
subalternos (serventes, inspetores de alunos etc.), passando pelo
pessoal técnico -pedagógico (orientador educacional,
coordenador pedagógico etc.), até os professores e alunos
devem desempenhar funções precisas o suficiente para permitir
o controle e a cobrança no cumprimento das tarefas e atribuições
que estão sobre responsabilidade e obrigação de cada um. É bem
verdade que, na realidade prática como acontece em qualquer
sistema hierárquico burocratizado , essa delimitação de funções
não é adotada com rigor estabelecido nas normas escritas,
havendo uma margem de liberdade que permite sua adequação
às condições concretas da escola. De qualquer forma, essas
normas estabelecem um padrão a partir do qual é garantida a
hierarquia e o controle das ações dentro da unidade escolar.
(PARO, 1987, p. 132).
Paro (1987, p. 137) parece já anunciar o que faria
posteriormente, em sua pesquisa de campo, colocando a necessidade
de investigar a prática escolar para investigar os elementos de poder
que a escola sofre pelo capitalismo que impedem a participação e
efetivação de uma gestão para a transformação social: “De fato, um
simples exame das condições concretas em que se realiza a educação
escolar bastará para identificar elementos que são próprios da
produção que se realiza no nível da estrutura econômica” (PARO,
1987, p. 137).
Mas para o momento, uma maneira de dar conta destas
questões em âmbito teórico, segundo o autor, é preciso analisar a
diferença entre trabalho material e imaterial em âmbito educacional.
A característica é que o produto não é distinto do ato de produzir,
assim o capitalismo se impõe de forma restrita, ou seja, mesmo o
capitalismo operando na escola, a natureza da relação pedagógica
203
precisa ser realizada e toda vez que se tem um momento de
aprendizado esta margem de novos modos de ver o mundo é
oportunizada. Vamos aos casos: o papel do educando, o conceito de
produto da educação escolar e a natureza do saber no processo
educativo.
O aluno, além de um consumidor, participa das atividades
que fazem parte desta produção, afinal, este processo não poderia
ocorrer sem sua participação. Neste sentido a “[...] participação se
na medida em que o aluno entra no processo ao mesmo tempo como
objeto e como sujeito da educação” (PARO, 1987, p. 141). Ele é a
própria matéria-prima do trabalho pedagógico, que se constitui no
momento em que se aplica este trabalho. Nela, estão envoltos
“valores, atitudes, conhecimentos” etc. e a resposta que um aluno
pode dar, em termos de sua resistência ao trabalho pedagógico, pode
ser contrabalanceada na medida em que entende que sua atividade
está voltada para um fim educativo, afinal, o processo de
conscientização é realizado nele em coprodução com o professor que
direciona a antecipação de seus objetivos para execução do processo
dialético.
O produto da educação escolar, neste sentido, não se
somente uma aula, no caso do aluno ele não só consome a aula e as
outras atividades escolares na qual participa, mas também a incorpora
de modo que pode agir sobre ela, existe uma modificação na natureza
do objeto, não é somente um acréscimo de dados informativos, mas
“[...] supõe uma real transformação na personalidade viva do
educando”, é isso que se “[...] constitui no efetivo produto do
processo pedagógico escolar” (PARO, 1987, p. 144). Por um lado e
de modo geral, o saber é um instrumento mobilizado para se produzir
uma mercadoria ou um produto, por outro lado, apesar desta
dimensão também se dar na escola, enquanto técnica que[...]
204
instrumentaliza os métodos e técnicas de ensino aprendizagem”,
existe outra que é matéria-prima que se incorpora no sujeito (PARO,
1987, p. 137).
Em outras palavras, a escola se pauta por relações que dizem
respeito à forma pela qual os homens tomam consciência da
própria realidade concreta, descaracterizando-se, portanto, toda
a vez que ela deixa de fundar-se nessas relações para pautar-se por
relações próprias do nível econômico da sociedade. (PARO,
1987, p. 149).
Partindo dessas considerações da natureza específica do
trabalho pedagógico, é possível entendermos alguns pressupostos
básicos em que se poderia dar a gestão educacional para a
transformação social. O problema é que a apropriação do saber
historicamente acumulado em nome da consciência crítica é
negligenciada por permanecer no discurso, ou seja, em sua prática, o
conhecimento ainda é conservador e, assim, serve à conservação do
modo de produção explorador das minorias. Deste modo, não se
realiza a apropriação crítica do saber historicamente acumulado e a
escola acaba não desempenhando o seu objetivo.
Para se atingir os fins da transformação é preciso ir além da
racionalidade interna movimentada pela especificidade da escola
considerando os fins externos que coadunam com essa racionalidade
interna, ou seja, considerar sua racionalidade social. Essa ideia vem à
tona na medida em que se entende que as atividades escolares e seu
objetivo não são, de maneira alguma, neutros. Dever-se-ia praticar,
em nível de unidade escolar, a reinterpretação da realidade, discuti-la
e avaliar as determinações que vêm de órgãos superiores e perceber
em que medida elas condizem com a transformação social ou não.
205
De modo geral, segundo Paro (1987), as camadas populares
aceitam melhor os propósitos colocados pela classe dominante nas
propostas educacionais, curriculares, e metodológicas e isso não pode
de modo algum ser desconsiderado de seu trabalho. Por isso existe a
[...] necessidade da Administrão Escolar, ao mesmo tempo que
crie mecanismos que possibilitem a expressão e participação dos
membros da comunidade na escola, esteja também atenta no
sentido de melhor compreender os interesses manifestados pela
classe trabalhadora e isso não apenas na instituição escolar mas
em todas as instancias da sociedade. (PARO, 1987, p. 154).
O que podemos notar é que existe uma dimensão pedagógica
na prática da gestão escolar na medida em que ela mostra para a
comunidade as demandas e as possibilidades de uma educação de
qualidade, condizentes com a natureza do trabalho pedagógico,
sendo, necessariamente, coletiva. Deste modo, segundo Paro (1987),
é obvio que uma
[...] gestão de escolas estruturada em bases democráticas, fundada
na participação da comunidade, terá maiores facilidades de
conseguir a adesão de parcelas significativas dos pais de alunos,
para atividades culturais que visem à reflexão mais profunda dos
problemas educacionais de seus filhos, e que lhes propiciem, ao
mesmo tempo, a apreensão da concepção de mundo mais
elaborada e crítica. Isso não pode ser confundido, entretanto,
com a prática de mero proselitismo político ou da doutrinação e
da propaganda dogmática através da escola. (PARO, 1987, p.
155).
A construção de uma racionalidade interna, específica da
natureza do trabalho pedagógico, depende do que o autor denomina
206
da busca por uma racionalidade social, que vise, sobretudo, à
transformação social e não à reprodução das desigualdades e injustiças
que equivalem à irracionalidade social. Ele diz que “[...] esse processo,
como sabemos, não se dá de forma espontânea, mas a partir da
vontade e organização coletiva dos homens em torno de objetivos
comuns, aos quais se visa alcançar, lançando mão, da forma mais
apropriada possível, de todos os recursos que se dispõem” (PARO,
1987, p. 157).
O dado mais valioso desta relação escolar em função da
transformação social é a cooperação entre os homens enfrentando o
modo autoritário e que não consideram a participação da comunidade
nas atividades decisivas da escola, pois não “[...] coaduna com a
concepção democrática que se pretende chegar através da
transformação social.” (PARO, 1987, p. 160).
Assim, a escola que organiza sua gestão para transformação
social deve fazê-la com base na cooperação e gestão democrática. Ela
pode oportunizar a retirada do diretor como responsável último pela
gestão e colocar nas mãos dos demais integrantes da escola, incluindo
a comunidade, a busca pelo “novo trabalhador coletivo, mas, para
ele, “[...] a busca dessa forma de gestão cooperativa, na escola, não
deve ser feita de modo voluntarista, contra o diretor, mas a favor da
promoção da racionalidade interna e externa da escola” (PARO,
1987, p. 160 destaques do autor).
Apesar disso as condições concretas de possibilidade de uma
gestão democrática faz justamente a função, segundo Paro (1987, p.
161) de barrar a ideia de que se possa aplicá-la na escola como uma
“[...] receita que tenha a propriedade de resolver, apenas por si, os
problemas que a prática escolar apresenta.” no sentido que se possa
pensar em apenas aderir às práticas democráticas ao modo que a
perspectiva empresarial tem praticado, por tanto, “[...] não é possível
207
estabelecer a priori, com precisão, qual a forma mais adequada dessa
administração” (PARO, 1987, p. 161 destaques do autor). Isso
ocorrerá se as pessoas engajadas nessa nova empreitada que a gestão
democrática supõe aconteça de forma consciente e movimentada,
construída, no dia a dia com o trabalho de estar sempre refletindo
sobre o lugar onde se quer chegar e acertando os detalhes do caminho
que se pode percorrer para alcançar esse lugar em relação ao contexto
social abrangente no qual essas situações problemáticas se edificam.
Deste modo as ações coletivas da gestão democrática “[...] não se
referem apenas à democratização interna da escola, mas também ao
fortalecimento da unidade escolar externamente.” (PARO, 1987, p.
164).
Agir nessas condições concretas é importante para
movimentar cada elemento da gestão transformadora para não se
introduzir gestão “[...] um corpo estranho que viesse a desalojar as
condições anteriores e ocupar plenamente seu lugar.” (PARO, 1987,
p. 165). “[...] um processo de mudanças só se inicia com medidas no
nível da prática, que levem a romper com as condições presentes.
(PARO, 1987, p. 166). Agir nas condições da realidade de maneira
prática significa fazer uma transformação no poder ao invés de
conquistá-lo, em que o grande detentor de suas condicionantes é o
Estado e depois seus agregados como diretor, professores, patrão da
empresa, o padre, o dirigente de sindicato etc.
Assim poderíamos pensar que enquanto o diretor for o único
responsável pela gestão da escola fica suscetível as demandas do
Estado em função de suprimir as demandas da classe trabalhadora:
neste caso, poderíamos dizer que em uma gestão democrática “[...] o
grupo tem maior poder de resistência a pressões, já que as decisões
tomadas por um grupo são mais difíceis de serem revogadas do que
são tomadas por um indivíduo” (PARO, 1987, p. 164).
208
Considerar uma nova forma de gestão é estabelecer um
horizonte que precisa ser conquistado historicamente orientada por
esse horizonte com a cooperação e a racionalização das dificuldades
existentes em uma realidade concreta, ou seja, “[...] todo tipo de
transformação de caráter social, a adoção de uma nova Administração
Escolar deverá enfrentar as condições adversas da realidade na qual ela
procura aplicar-se” Isso porque podem colocar em “[...] risco o
projeto de mudança administrativa que se está procurando
implantar.” (PARO, 1987, p. 165).
Veremos adiante as consequências teóricas e práticas que
edificaram a pesquisa de campo de Paro em relação à sua introdução
crítica e o destino de suas duas pesquisas em relação ao desenrolar
histórico que se deu na área de conhecimento em Política e Gestão
educacional bem como as regras de formação que ali se construíram e
foram com o passar do tempo se disseminando e apontando os dados
da realidade que montam as possibilidades de se dizer e fazer na
pesquisa de campo nesta área.
3.2 Aplicando a teoria: etnografia da escola e fortalecimento das
regras em “Por dentro da escola Pública”
Na construção dessa “Introdução crítica”, Paro (1987) já
anunciava a necessidade de ir a campo para entender a escola por
dentro, em suas práticas e particularidades. Naquele momento, essa
ideia se justificava pela necessidade de se investigar, na realidade da
escola, as condições concretas de participação na gestão baseada na
soberania popular em busca da transformação social. Ideia essa que
permaneceu com ele na realização da pesquisa que deu origem ao “Por
dentro da escola pública”.
209
Existia também naquela época uma enorme desconfiança dos
propósitos do Estado com o desenvolvimento de um ensino de
qualidade e o real interesse em ensinar para as camadas populares os
saberes historicamente acumulados, na medida em que suas propostas
e modos de ação eram demasiadamente técnicos e se mantinham
alinhados à manutenção do modo de produção capitalista. Assim, a
ideia de ir a campo significou analisar como o diretor em conjunto
com a comunidade, em uma gestão democrática, conseguem
modificar e alinhar as práticas de gestão com os interesses da classe
trabalhadora.
A tese de livre docência de Paro (2000, p.19), marcado pela
ida à escola, foi elaborada baseada na dúvida de que o Estado
funcionaria (ou não) em favor de um ensino de qualidade, parecendo,
inclusive, “[...] haver pouca probabilidade de o Estado empregar
esforços significativos no sentido de socialização do saber, sem que
isso seja compelido pela sociedade civil”.
Por outro lado, o autor destaca que parte significativa dos
intelectuais da época, “[...] ao se referirem a escola pública, o fazem
sem conhecê-la, já que não a pesquisam empiricamente” e, por
consequência, suas contribuições “[...] teóricas em nada contribuem
para o aperfeiçoamento da prática dos que se dedicam a educação”
(PARO, 2000, p. 18). Portanto, sua pesquisa viria a contribuir em
todos estes aspectos mencionados, principalmente, explicar a
realidade escolar e estabelecer o “[...] diálogo com aqueles que,
cotidianamente, fazem a escola pública brasileira” (PARO, 2000, p.
18).
Ao defender que a comunidade escolar necessita participar da
gestão de modo autônomo em relação aos interesses de quem domina
o modo de produção (a classe dominante), o autor destaca ser preciso
investigar e explicar por que ela (a participação) não acontece e quais
210
são as reais condições para tal. O objetivo de Paro (2000, p. 20),
portanto, foi de “[...] examinar os problemas e perspectivas que se
apresentam à participação da comunidade na gestão da escola pública
de 1º grau”. Para atingir esse objetivo, ele sentiu a necessidade de
trazer junto ao seu “Introdução crítica” uma metodologia de suporte
própria para o contato com a escola em um trabalho de campo. Assim,
escolhe como metodologia qualitativa de análise e levantamento de
dados do cotidiano, o estudo de caso etnográfico (ROCKWELL,
1986).
A intenção de trazer Rockwell (1986) como suporte à
pesquisa de campo se deveu ao fato não só de ser uma metodologia
que dispõe de ferramentas de observação e coleta de dados, mas
fundamentalmente porque ela tem como subsídio a transvaloração da
etnografia em função dos resultados do trabalho de Gramsci que é,
também, fundamento da gestão democrática edificada em
“Introdução crítica”.
Rockwell (1986) afirma que as pesquisas etnográficas tiveram,
com o passar dos anos, contatos com diversas disciplinas e, por
funcionarem como metodologia para análise de campo, acabam por
receber diversas marcas. Em relação ao campo educacional, a pesquisa
etnográfica teve quatro modelos que proporcionaram uma exploração
da escola sob esse viés: os roteiros, a nova etnografia, a
microetnografia e a macroetnografia. No primeiro caso, os roteiros
permitiram, na educação, delinear inúmeras categorias universais,
transculturais e que elas eram, naquele momento, consideradas
neutras, pois, se tinha a ideia de que o trabalho etnográfico conseguia
absorver o conteúdo do cotidiano da escola com uma certa pureza nos
dados extraídos “[...] focando certos processos de socialização
primária” (ROCKWELL, 1986, p. 39). Assim, os dados objetivos das
realidades escolares eram fenômenos universais que se dariam em
211
qualquer realidade educacional. Há de se considerar também que
estes roteiros foram “projetados para provar certas hipóteses
psicanalíticas a nível transcultural” (ROCKWELL, 1986, p. 39).
Outro tipo de roteiro foi o que definiria a “cultura como um
sistema de valores” que incluíam o vestuário adequado, propriedade
privada, paz etc. todas divididas em três sistemas de valores primários:
religião, sistema econômico e estrutura social (ROCKWELL, 1986,
p. 40). Assim, a ideia é que os indivíduos se movimentam e
relacionam em razão destes valores e, por isso, o roteiro se mostra
como uma ferramenta que não é neutra em função das categorias que
constrói e fundamenta uma visão de sociedade. Deste modo, “[...]
longe de ser um instrumento ‘neutro’, o roteiro é coerente com a
teoria social funcionalista [...]” e seu ponto fraco possui “[...]
implicações teóricas e tende a conduzir a um tipo de etnografia em
que os elementos (freqüentemente pouco hierarquizados) são
descritos em correspondência às categorias do roteiro, sem abordar a
relação existente entre eles” (ROCKWELL, 1986, p. 40).
A nova etnografia conseguiu manter até certo ponto uma
coerência entre a teoria e o método etnográfico, pois parte da ideia de
que o indivíduo para participar de determinados grupos sociais teria
que crer, ou no mínimo saber, em determinados dados da realidade
demonstrando certo nível de competência cognoscitiva. O
importante desta corrente foi que ela formulou diversas técnicas de
entrevista e observação formalizando assim modos de análise
descritiva sobre os sujeitos, os tipos de sujeito e a comparação entre
eles buscando modos de convergência e também modos de
diferenciação e concretizando categorias em certos domínios avaliados
sob os aspectos de seus atributos. Busca-se com isso a gênese de seus
comportamentos sem importar se são reais ou coerentes com a
instituição da qual está vinculado; a nova etnografia “[...] supõe, além
212
disso, um grau de sistematização dos fenômenos culturais que
raramente acontece em nível global (ROCKWELL, 1986, p. 41).
Sem contar que essa perspectiva se destacou em suas análises sobre a
cultura escolar como uma categoria relevante para as abordagens
etnográficas da escola.
A abordagem sociolinguística, microetnografia, foca no
detalhe dos registros com gravadores de vídeo ou áudio, ou seja, as
interações verbais entre os participantes é um dado relevante para
análise em relação ao contexto observado em que é performada
considerando todas as regras implícitas no contexto escolar como o
currículo oculto que disciplina os atores sociais. A ideia é que na
medida em que os comportamentos socializados entre os atores não
correspondem ao contexto ou o código de socialização escolar fica
fácil apontar os elementos desviantes que explicam o fracasso escolar
e apontam para o foco de onde se deve realizar alguma intervenção
para se buscar qualidade educacional.
Rockwell (1986) considera que a microetnografia é de certa
maneira um retrocesso aos estudos etnográficos dos fatores globais da
educação. Em contrapartida, a perspectiva macroetnográfica busca
uma relação entre as questões levantadas pela microetnografia e a
estrutura econômica, como um sistema de troca entre micro e macro
como espaço de análise. De qualquer forma, estas perspectivas
estiveram embasadas em métodos e objetos tradicionais da etnografia
a cultura e a comunidade em sua relação com a educação.
O conceito de cultura deixou as análises abertas para entrada
de vários elementos ideológicos e de senso comum por relativizar
certas relações e categorizações, talvez, por considerar os contextos
escolares como um microssistema ou uma microssociedade com
conteúdo e práticas demasiado específicas. Até mesmo os estudos
macroetnográficos, apesar de fazerem uma relação com o contexto
213
global, acabam por considerar e permanecer nesta ideia de que o
âmbito da comunidade é o lugar onde se realizam as dinâmicas
relevantes para tratar os condicionantes culturais e sociais das práticas
escolares e isso dificultou a entrada de outros vieses teóricos para área
etnográfica que estariam contidos numa antropologia geral.
O problema é que a “[...] limitação a esta escala de análise é
insuficiente para abordar os tipos de problemas teóricos colocados
pela sociologia em torno das relações entre a escola e a sociedade e o
Estado.” Por isso, os “[...] estudos etnográficos existentes costumam
ser considerados ‘mera descrição’ empírica sem interesse para resolver
os problemas que se considerem relevantes dentro da sociologia
educacional” (ROCKWELL, 1986, p. 44-45).
Para Rockwell (1986, p. 45), a questão advinda é: como, a
partir das contribuições destas perspectivas, realizar uma descrição da
realidade que implique a articulação orgânica com a “estrutura de
determinada formação social?” O primeiro dado importante é que,
enquanto método, ela oferece condições espaço-temporais para
observar e documentar a realidade e processos escolares, mas encontra
o seu limite justamente aí: “[...] a etnografia propõe-se a conservar a
complexidade do fenômeno social e a riqueza de seu contexto
peculiar. Por isso, a comunidade, a escola ou, quando muito, o bairro
e a microrregião são o universo natural da pesquisa etnográfica”.
Deste modo, é necessário trazer as contribuições dos dados descritivos
para a perspectiva teórica e avaliar em que medida em que se pode
aplicá-la a qualquer realidade.
Segundo Rockwell (1986, p. 46) o movimento da Nova
Sociologia fez avançar significativamente neste sentido, pois essa “[...]
corrente aborda os processos escolares como manifestação da
reprodução da estrutura de classes, bem como da desigual distribuição
da cultura, do conhecimento e do poder. Ela considera que os
214
processos de “socialização dentro da instituição escolar” podem ser
estudados em “[...] função da divisão social do trabalho nas sociedades
capitalistas e não apenas em função dos valores sociais abstratos.”
Desse modo, pode-se reconhecer a etnografia como um “[...]
instrumento metodológico que permitirá demonstrar na escola as
relações sociais estabelecidas para outra escala” (ROCKWELL, 1986,
p. 46). A autora sugere, como alternativa, a integração da teoria
gramsciana ao repertório metodológico da etnografia, pois nela
[...] encontra-se a importância da história e a integração dos
conceitos e das relações que Gramsci desenvolve (senso comum,
folclore, concepção de mundo, bom senso, ideologia etc.) para
abordar os fenômenos ‘culturais’ ou ‘superestruturais’ nas
relações sociais e no movimento político da formação social que
os inclui. (ROCKWELL, 1986, p. 46).
Para realizar esta “parceria” seria preciso, em primeiro lugar,
investigar o contexto local em relação ao contexto social sem analisar
a dinâmica social totalmente em função deste contexto local e interno;
em segundo lugar, trazer para a análise o componente histórico como
elemento inevitável da pesquisa, pois ele resgata a multiplicidade de
processos que são constituídos por contradições e “[...] constrói-se,
assim, um ‘presente histórico’ em vez de um ‘presente sistêmico’ [...]”;
em terceiro lugar, os dois primeiros movimentos situam a “educação
formal como instituição” que questiona sua relação com o estado e a
sociedade civil modificando a “escala do estudo etnográfico”
(ROCKWELL, 1986, p. 47); em quarto lugar, as categorias
construídas com essas perspectivas não assumem o lugar completo e
sem contradições como as categorias culturais, assim, enquanto
categoria social ela só pode aparecer após reconstruir as relações e
processos históricos que as sustentam; por fim, os objetivos de estudo
215
privilegiado são processos sociais de produção e reprodução dos
contextos sociais, o importante é que os dados da análise não se
resumem a processos de comunicação, significação ou
comportamentais.
Mais que isto, a elaboração teórica da qual pretende este viés
se constitui como um “[...] excelente método para unir a pesquisa
empírica com o processo de construção teórica” (ROCKWELL,
1986, p. 49). Ou seja, para Rockwell (1986, p. 49), não é que o
conhecimento científico advenha de uma empiricidade, mas de uma
“[...] elaboração conceitual e a precisão da relação entre os conceitos
gerais e os fenômenos observáveis, o que permite o avanço teórico”.
A autora alerta que a etnografia não precisa de um referencial teórico
inicial acabado ou imutável que delimite todos os processos de coleta
de dados no trabalho de campo. O pesquisador neste contexto tem o
papel de perceber esse movimento dialético entre as relações sociais e
as categorias teóricas, interpretando, selecionando do “[...] contexto
o que há de significativo em relação à elaboração teórica que es
realizando. Cria hipóteses, realiza uma multiplicidade de análises,
reinterpreta, formula novas hipóteses. Constrói o conteúdo dos
conceitos iniciais, não o pressupondo” (ROCKWELL, 1986, p. 50).
Com essa perspectiva, o pesquisador analisa, a partir de
categorias que selecionou previamente, a realidade escolar e esse
movimento é importante para não cair na ideia de que se pode
observar tudo que existe naquela realidade, como se de alguma forma
pudesse esgotá-la, ou para não retirar de antemão os dados da
realidade que não considera relevantes: o “[...] trabalho teórico
fornece as categorias necessárias para tornar de novo observáveis os
indícios preliminares e ampliar a visão” (ROCKWELL, 1986, p. 51).
Para dar suporte e ajudar na coleta de dados e criação
minuciosa do roteiro, Paro (2000) baseou-se no questionamento
216
crítico de Thiollent (1987) para problematizar as falas e as atitudes
das pessoas analisadas em relação ao conjunto total da sociedade; para
Thiollent (1987,) a relação entre as pessoas é [...] visto como
comunicação num espaço sócio-político configurado em formas que
variam segundo as populações, os problemas investigados, sua relação
com o poder, os grupos e instituições de pesquisa, os interesses que
estão em jogo etc.” e, neste caso, o importante ter em mente é a “[...]
pertinência das questões e das respostas formuladas na interação entre
os dois polos” (PARO, 2000, p. 25). Ainda nesse quesito, Paro (2000)
afirma, baseado em Stake (1983), que esses dados críticos da pesquisa
de campo precisam ser interpretados pelo pesquisador no momento
de descrever e transcrever os dados obtidos da realidade ao invés de
intentar que exista alguma neutralidade no trabalho de pesquisa de
campo. A ideia é que não existe neutralidade em transcrições e
observações. Além disso, supor que exista neutralidade na pesquisa de
campo ocultaria os dados qualitativos da análise, pois se os
dados qualitativos forem adequadamente apresentados, o leitor
achar-se-á em condições de aceitar ou rejeitar as conclusões dos
pesquisadores, em posição de modificar ou aprimorar suas
próprias generalizações. A grande contribuição da pesquisa
qualitativa, para a maioria dos seus usuários, é a de proporcionar
uma oportunidade para examinar a experiência vicária do estudo
de caso com base em experiências anteriores. (STAKE, 1983, p.
22).
Esses dados qualitativos remetem à questão da
representatividade dos dados, suas potencialidades de explicitar
determinada situação em que se analisa, pois, apesar de Paro (2000)
escolher uma escola que se pareça com parte das escolas da rede
pública, ela ainda é uma só e não está sendo comparada com outras
217
escolas e outros cotidianos. Por isso ela é qualitativa, não se trata de
probabilidades estatísticas, ou seja, são “[...] escolhas que nada têm de
probabilistas e não constituem de modo algum uma amostra
representativa no sentido estatístico” (MICHELAT, 1987, p. 199).
O que acontece é que “encontra-se presente determinado fenômeno
ou particularidade do real, não significa que tal ocorrência seja
generalizada; nem se trata de prová-lo.” A ideia é a de “[...] procurar
a ‘explicação’ adequada para tal ocorrência, o que nos permitirá dizer
apenas que, em acontecendo tal fenômeno, sua explicação é a que
oferecemos ou na qual apostamos.” (PARO, 2000, p. 28).
Nesse sentido, após a realização das entrevistas, Paro (2000)
afirma que foram problematizadas as questões para aprofundar, junto
ao entrevistado, as reflexões sobre as questões divergentes dos dados
da entrevista e das práticas cotidianas dos entrevistados. As
transcrições das entrevistas foram realizadas pelos próprios
entrevistadores para assegurar a familiaridade com a investigação e
para não existirem omissões, pois, a “[...] complexidade dessa relação
social, e da riqueza de informações que se podem dela tirar, corre o
risco de perder se o analista se restringe ao conteúdo da fala.
Considera-se que, nesse caso, as “Pausas, exclamações, gestos,
hesitações, silêncios etc.” e “[...] tudo isso pode ser omitido se quem
faz o registro não tem condições de aferir em que dimensão cada um
desses comportamentos pode ser relevante para análise final” (PARO,
2000, p. 26).
Fundamentado nessa metodologia, Paro (2000) parte do
pressuposto de que para atingir os objetivos da pesquisa deve
considerar justamente os obstáculos contidos na relação entre a escola
e a comunidade que não permitiam a consolidação da gestão
democrática e o alinhamento de suas práticas com os interesses da
218
classe trabalhadora, pois as relações sociais escolares são resultados da
dinâmica social, política e econômica em sua volta.
Por isso, ele resgata e incorpora, como referencial teórico, sua
obra “Introdução crítica já que realizou um exame destes
condicionantes de modo que o “Por dentro da escola pública” se
constituiria como um “[...] prolongamento, daquele, na medida em
que, todos os condicionantes examinados neste trabalho anterior,
procura analisar de perto as formas concretas que os produtos de tais
condicionantes assumem” (PARO, 2000, p. 20), tanto na escola
como na comunidade.
Seus objetos de análise são a escola e a comunidade. Em
relação à comunidade, trata-se da escolha de um bairro de baixa renda
do município de São Paulo localizado próximo a três favelas com
“pavimento e iluminação precários”, com casas de alvenaria
construídas em etapas contendo um ou dois quartos, sala, banheiro e
cozinha. Paro (2000) relata que o bairro sofre com falta de energia
elétrica “calçamento, transporte coletivo e água”, inclusive a água é
obtida em uma bica distante, pois quando há desabastecimento ela
demora para se reestabelecer em todo bairro. Ao contrário do bairro,
as favelas à sua volta possuem água encanada, eletricidade e posto de
atendimento médico. Neste sentido, a comunidade é, na medida do
possível, unida e tenta reivindicar melhores condições de vida junto
ao Centro Comunitário e a Associação de Favelas do Bairro. Além
deles, existem moradores de prédios e sobrados à volta que são
denominados a “classe média local”, grande parte composta de
comerciantes que são considerados a elite local, pois, conseguem
realizar muita pressão ao reunir-se junto ao Clube de Lojistas e a
Sociedade de Amigos do bairro.
Os empregos locais são em sua maioria no comércio ou em
bancos e não existem locais para eventos culturais e esportivos ou
219
bibliotecas. As realizações culturais e de lazer são práticas de pequenos
jogos de futebol em campos de várzea. Essa área conta ainda com uma
creche e um centro socioeducativo para menores no mesmo terreno,
uma escola de Educação infantil e, outra próxima, de ensino de 1º
grau e mais duas de ensino de 2º grau.
Paro (2000) explica que sua ideia inicial era realizar sua
pesquisa em uma escola que tivesse experimentado alguma tentativa
de gestão democrática e que, seria até melhor, que o diretor já estivesse
envolvido nessa tentativa de trazer para escola a participação da
comunidade ou que, no mínimo, ele não se opusesse a ela. A ideia era
“[...] isolar a variável ‘intransigência da direção’, para que pudesse
pesquisar as dificuldades e potencialidades de participação da
comunidade numa situação em que o diretor não se colocasse como
obstáculo primeiro e quase absoluto a tal participação” (PARO, 2000,
p. 21).
Apesar de não ter encontrado uma escola com essas
características, o autor se deparou com uma escola que “muito
embora já anteriormente tivesse havido certa participação da
comunidade na escola, isso não ocorria” (PARO, 2000, p. 22). Esse
fato soou como uma certa desvantagem para a pesquisa, mas
oportunizou o contato com uma escola que possuía “[...]
características muito mais próximas às das escolas da rede em geral
[...]” e pelo fato de que a “[...] diretora não se colocava explicitamente
contra a participação, apresentando, inclusive, um discurso bastante
favorável a ela” (PARO, 2000, p. 22).
A pesquisa iniciou-se em junho de 1989 e terminou em abril
de 1990. Foram realizadas entrevistas, observação, análise dos
documentos da secretaria da escola, coleta de dados e informações
registradas em anotações em diário de campo e relatórios. O trabalho
de campo teve como modo de ação a criação de roteiros e esquemas
220
de ação previamente elaborado de maneira sistemática. Por outro
lado, tiveram atividades de entrevista e observação que emergiram e
seguiram de acordo com “[...] fatos ou relações que, não tendo sido
previstos, chamavam de atenção do observador que, ou apenas
registrava o evento ou também intervinha fazendo perguntas e
participando de conversas.” (PARO, 2000, p. 22).
Na comunidade, foram observadas a configuração do bairro e
as condições de moradia dos entrevistados, já as observações na escola
aconteceram com a participação em atividades e eventos dentro e fora
da sala de aula e as entrevistas ocorreram geralmente depois de
observado as ações em determinado lugar para levantar dados que
proporcionassem realizar a análise da relação entre o discurso e a
prática dos agentes.
Foram entrevistados seis professores, cinco alunos, a diretora,
uma secretária, uma inspetora, uma servente e quatorze alunos, esses
em grupo, totalizando dezesseis entrevistas dentro da escola. Para
escolha dos professores entrevistados foi considerada uma margem
que cobrisse os professores novos e antigos e que cobrisse as quatro
primeiras séries (5ª a 8ª serie) e os períodos diurno e noturno
considerando, também, os que tivessem licenciatura plena ou curso
superior incompleto e licenciatura curta e os que, depois de criteriosas
observações, se mostravam coniventes ou não com as “atitudes e
opiniões da Direção da escola.” (PARO, 2000, p. 23).
Para escolha dos entrevistados de fora da escola foram
selecionados sete pais de alunos dois pais e cinco mães, dois
representantes de sociedade de amigos e bairro, uma ex-professora que
mora no bairro, a presidenta da associação da favela próxima à escola,
uma assistente social e a supervisora de ensino totalizando treze
entrevistas. Os critérios para escolha foram de explorar uma margem
de pais que fossem engajados no conselho de escola e outros de fora
221
do conselho, pais de alunos que tinham filhos matriculados no
período diurno e noturno, pertencentes e não pertencentes à
associação de pais e mestres, pais agressivos e não agressivos com a
direção da escola, pais que tinham participação ativa e não ativa na
escola, pais articulados e não articulados com os “movimentos
populares no bairro” (PARO, 2000, p. 24).
As entrevistas foram de tipo semiaberto e com “roteiro
precário” (PARO, 2000, p. 24), pois a ideia era a de dar liberdade
para o entrevistado responder com fidedignidade às práticas que
vivenciava com a escola e para isso se estabelecia uma relação de
empatia” com eles apresentando de maneira simples os objetivos e a
natureza daquela pesquisa. Os roteiros, apesar de conter numerosos
itens e critério rígido, foi elaborado de maneira a garantir certa
flexibilidade e multidirecionalidade da entrevista: com esse “[...]
elenco quase-exaustivo de temas organizados em sua mente, o
entrevistador partia para a entrevista em condições de estar atento a
variedade de informações e representações que o entrevistado
apresentava, a partir de questões mais gerais [...](PARO, 2000, p.
24). A ideia era que o entrevistador falasse o menos possível para
deixar o entrevistado livre para dialogar e dar acesso à sua experiência,
já que foi acertado antecipadamente que o sigilo das conversas e
observações aconteceriam em absoluto sem que fosse preciso nomear
os proprietários das práticas e falas e que a pesquisa não
comprometeria de forma alguma seu trabalho ou vivência por
qualquer represália institucional por parte do e Estado ou de seus
superiores na escola.
O autor considera como elementos que compõem a
participação da escola a estrutura formal da escola e a distribuição
hierárquica que se dentro dessa estrutura, pelas relações
interpessoais somadas aos mecanismos de ação coletiva, o
222
atendimento à comunidade e o processo de ensino aprendizagem.
Apesar de não ter correspondência direta com a realidade, a estrutura
formal delineia o modo de ação dos agentes na escola.
A estrutura formal é composta pela direção por meio do
conselho da escola, a diretora e suas assistentes; pela assistência ao
escolar composta pelos órgãos do sistema de ensino, instituições
auxiliares e os recursos da comunidade; pelo núcleo pedagógico
composto pela coordenação pedagógica, orientação educacional,
conselho de classe e multimeios biblioteca, recursos culturais etc.
e pelo corpo docente; núcleo de apoio administrativo composto pela
secretaria e atividades complementares zeladoria, vigilância e
atendimento aos alunos; instituições auxiliares composto pelo centro
cívico, Associação de Pais e Mestres e grêmio estudantil; e os alunos.
Paro (2000) relata que em suas observações a estrutura da
escola analisada não se aproxima do regimento formal, que expomos
acima, pois a escola não possui coordenador pedagógico e orientador
educacional, exceto um coordenador para o ciclo básico que cobre
apenas duas séries das oito existentes na escola; as assistências aos
escolares são inexistentes e a APM tem funcionamento pífio; os
professores conselheiros de classe quase não desempenham essa
função; a biblioteca quase não funciona devido à falta de funcionário
para atendimento. Porém, existe algo na escola que se aproxima
bastante daquela prevista pelo Regimento: “a forma hierarquizada de
se distribuir a autoridade” e o poder (PARO, 2000, p. 77).
A autoridade, para o autor, está intimamente ligada à
probabilidade de impor a outrem um comando e que outrem pode
obedecer e o poder consiste na probabilidade de impor sua vontade
independente da resistência que se possa ter. “Na medida, então, em
que o poder consiste numa potencialidade de influir no
comportamento alheio, pode-se dizer que ter poder implica, mesmo
223
que apenas potencialmente, dispor de certa autoridade. Porém, isso
não significa, necessariamente, que “essas ordens representem sua
vontade” (PARO, 2000, p. 77 destaque do autor). O exemplo que
Paro utiliza é que no trabalho estatal ou em uma empresa os
proprietários formam um poder exterior ao gerente que tem sob seu
comando um conjunto de subordinados.
No caso da escola pesquisada, a autoridade está diretamente
ligada à responsabilidade que o cargo ocupado exige, portanto,
quanto maior o cargo ocupado maior sua autoridade. Os cargos mais
altos são considerados por aqueles que o ocupam um “[...] fardo
muito pesado e pouco compensador [...]” e os ocupantes dos cargos e
funções inferiores “[...] consideram que têm pouca autonomia para
tomar decisões” (PARO, 2000, p. 78).
Assim, a diretora alega que a participação se restringe a
obedecer às deliberações do conselho de escola e, neste sentido,
poderia haver maior participação de todos os setores que ali são
representados. A diretora também alega que seu cargo exige um duplo
contraditório de ser “Estado e reação contra o Estado” (PARO, 2000,
p. 91). Existe uma certa função de gerência somada a uma burocracia
que empaca seu serviço, pois as cobranças dos órgãos superiores caem
sobre ela e não no conjunto escolar.
Em sua conclusão, Paro (2000) diz que não quis em nenhum
momento afirmar que a participação era uma obrigação dos usuários
da escola e, menos ainda, que ela fosse considerada um movimento
capaz de remediar todos os problemas existentes no cotidiano.
No discurso dos participantes da pesquisa, Paro (2000)
encontra a ideia de que as atividades que compõem a participação
acabam por impor a eles deveres e o encargo de mais trabalho do que
aquele que já possuem e que, na verdade, o Estado deveria fazer
cumprir seu papel. Mesmo assim, sabiam quem tinha que lutar caso
224
quisessem uma educação de qualidade. Essas duas visões são barradas
por seus usuários na medida em que não prestam atenção na
complexidade da situação e não percebem que a gestão e a
participação são meios para atingir essa luta.
A insistência do autor na participação dos integrantes da
escola é a demonstração, “[...] um gesto de esperança nas
potencialidades da sociedade civil”. No entanto, concordamos com o
autor “[...] de que o fato de ser um espaço muito importante, não
pode deixar a vê-lo como único” (PARO, 2000, p. 331).
Após colocar os elementos principais de “Por dentro da escola
pública”, é preciso saber em que medida as regras de formação operam
na experiência completa de pesquisa do autor no que se refere à sua
construção teórica em “Introdução crítica” e em seu trabalho de
campo posterior constituído como seu prolongamento.
Como sabemos, a dualidade, muito mais do que projetar
conteúdos e separá-los em perspectivas, cumpre função primordial de
situar o que é verdadeiro e o que é falso de maneira a invalidar as
questões e premissas colocadas por aqueles que não fazem parte do
seu itinerário teórico.
Nesse sentido, precisamos ver quais elementos Paro (1987)
opera para realizar essa separação. Seu primeiro movimento é
justificar sua “Introdução crítica” afirmando que irá captar as
“múltiplas determinantes do real”, ou seja, de entrada ele diz que
buscará a verdade, a real situação da escola em uma visão real de
sociedade.
Ele retirou do conceito de gestão administração em geral
os conteúdos ideológicos, leiam-se falsos, para absorver a verdadeira
gestão educacional. Até porque retirados os elementos estruturais que
ela possa vir a ter se torna melhor e apurada a movimentação para
sobrepor os elementos teóricos convenientes.
225
Seu segundo movimento foi buscar elementos que
demonstrem a capacidade do humano transformar essa realidade,
nesse caso, é a capacidade que o ser humano tem de modificar essa
realidade projetando antecipadamente em si o que irá modificar, ou
seja, ele busca uma possibilidade mental de existência de um mundo
possível por-vir. Dessa maneira, ele remonta uma noção de sujeito
condizente com a noção de sociedade que pretende edificar e a gestão
que precisa, também, antecipar.
Além disso, Paro (1987) diferencia a relação entre os homens,
coletivamente, apontando para uma verdadeira e outra falsa, mas não
é só isso, elas possuem também a propriedade de serem boas ou ruins
para a vida em sociedade. Quando um homem tem uma relação de
natureza com outro homem, uma relação de dominação em que o
outro se torna para você uma coisa a coisificação do outro as
possibilidades mentais de modificar a realidade se extinguem. Assim,
é possível justificar, mais uma vez, a entrada de outro referencial
teórico, aquele que valoriza uma relação entre os homens que sejam
as que acompanham o processo real de produção da vida sobre o
conceito de gestão, neste caso, uma teoria realmente científica e
verdadeira.
A teoria da gestão de empresas não se configura ideológica
somente em seu aspecto de falsa realidade, mas também realiza com
seu modo de operação uma disseminação de obstáculos da relação
dialética que fundamenta as relações descritas acima. Ou seja, não que
a teoria empresarial não consiga em sua irracionalidade organizar os
indivíduos e a produção eficaz e econômica das mercadorias, mas que
ela, acima de tudo, coloca propósitos ruis de desenvolvimento social.
Poderíamos, neste caso, até vir a concordar com ele. Só que, por outro
lado, não concordamos quando o autor sobrepõe os problemas do
funcionamento do capitalismo e de suas relações de produção aos
226
outros modos de dominação presentes na sociedade como sendo
empecilhos para o desenvolvimento teórico e social. Além disso, não
concordamos quando ele abdica da dúvida de que os problemas
podem ser encontrados nas práticas que pareçam ser libertadoras,
como as de pesquisa ou das ações do intelectual orgânico.
Paro (2000) traz para discussão a ideia de que em
determinado momento do desenvolvimento, ao invés das maneiras de
produção se modificarem para atenderem aos trabalhadores, foram
eles, sua psique e suas práticas, que passaram a se modificar e adaptar
às vicissitudes da produção para atender o seu modo de operação.
Poderíamos, com isso, voltarmos à questão do porquê não duvidamos
de nossas práticas e nos indagamos se nós pesquisadores não
estaríamos também nos adaptando para atendermos aos modos de
produção do conhecimento em Política e Gestão educacional. Desse
modo, para surpresa de Paro (2000) essa ideia poderia servir também
para as práticas que edificaram sua teoria ao longo dos anos na medida
em que entendemos que o conhecimento em Política e Gestão
educacional é produzido por uma cadeia de instituições e, também,
que na dinâmica do dispositivo, os desejos dos sujeitos são alinhados
à dinâmica do modo de produção, neste caso, um modo de produção
acadêmico, que o faz se movimentar circularmente na cartografia da
área. Neste sentido, não há ninguém especial, com uma visão de
mundo especial, a ponto de se situar fora da ideologia.
O terceiro movimento do autor será o de diferenciar essa
racionalidade que modifica o trabalhador em nome dos modos de
organização da produção do capital com a ideia de que ela é operada
por uma práxis “verdadeiramente humana”, aquela capaz de
proporcionar o movimento dialético real. Aqui, o modo de relação
com o trabalho também se propaga dividindo-se em uma práxis ruim,
de um processo que domina o homem, e uma práxis boa que leva o
227
humano a realizar o processo de trabalho de acordo com a natureza
humana verdadeira.
Neste contexto, Paro (1987) explica que o intelectual acaba
assumindo frente, em suas práticas, no atendimento a uma ou outra
racionalidade e à prática social que ela exerce. Assim, ele diferencia os
intelectuais tradicionais que estão vinculados a grupos que não
atendem às demandas com impacto na disputa econômica, esses,
talvez, sob efeito ideológico, por não materializarem as demandas de
classe atendidas pelo outro grupo de intelectuais que, por sua vez, dão
coerência ao bloco histórico. Ainda sobre o papel do intelectual, Paro
(1987) salienta que ele pode desempenhar dois tipos de função, além,
claro, de defender uma racionalidade; assim, temos os intelectuais que
criam teorias e dão coerência ao bloco histórico e os que tem a função
de divulgar os avanços em torno da coerência que estão edificando.
O único grupo, segundo Paro (1987), capaz de conduzir a
força da mudança e que pode agir no modo de produção
representando as lutas sociais é a classe operária. Ela tem a
propriedade de atingir a real e verdadeira condução das práticas
teóricas dos intelectuais. Ela seria a única capaz de gerar uma “crise
orgânica” que romperia a ligação, a coerência, existente entre a
estrutura e a superestrutura, modificando-as. Para isso, é preciso que
exista uma consciência do grupo mobilizada por esse intelectual tal
qual declara também os autores que reconstroem a trajetória da
Gestão educacional no Brasil ao mencionar que Gestão democrática
se realizaria na medida em que seus princípios estiverem disseminados
na maior parte dos interessados pela educação e seus intelectuais.
Nesse processo de conscientização é onde se começa a ver
operar a prescrição, outra regra de formação, pois é justamente o
momento de dizer, estando sob o véu teórico e as instituições de
suporte, o que a escola deveria fazer para conduzir uma gestão
228
democrática para a transformação social. Na medida em que a
organização da escola e sua gestão se tornam cada vez mais complexas
e burocratizadas, o poder de articulação das classes dominantes se
torna cada vez maior e difícil de se desvencilhar de suas amarras e não
poderia contar mais com a espontaneidade dos agentes escolares
tendo, por sua vez, que organizá-los e ensiná-los sobre a luta, suas
funções e premissas. Ou seja, a prática do pesquisador se exerce
prescritivamente em função dos elementos teóricos que edificou e
assume a função que lhe é cabida.
Mesmo assim, ainda se pode justificar teoricamente o
exercício prescritivo endossando ou direcionando as práticas dos
agentes escolares com o movimento de conscientização. Paro (1987)
realiza uma distinção entre teoria e política e educação alegando que
a política se dá numa relação entre antagônicos: relação essa que
demanda coerção de um sujeito sobre o outro; e que a relação
educativa se dá entre contraditórios não-antagônicos que se
relacionam por meio da persuasão: relação essa onde quem educa tem
o mesmo interesse de quem é educado e, na relação entre eles, deve-
se ensinar ao educando os seus reais interesses e, indo além, que esses
interesses são comuns aos dois. Apesar de se configurarem em
dimensões diferentes, elas são, segundo o autor, inseparáveis, mas
ambas possuem uma dimensão dominadora. A diferença é que uma
delas, a educacional, o domínio que mantém é de acordo com um
interesse mútuo.
Nesse aspecto, Paro (1987) parte da ideia de gestão em geral
para tirar dela os princípios que poderiam lhe estruturar para dizer
que ela é conduzida por uma política, filosofia ou uma teoria uma
racionalidade. Apesar de a ideia de gestão ser um conceito demasiado
empresarial, ele tem a potencialidade de ser enxertado pelo referencial
teórico de Paro. Assim, podem-se criar diretrizes, sejam teóricas ou
229
práticas, para elucidar como a gestão deva ser, conduzindo, assim,
uma prescrição que liberta.
No contexto burocrático, o diretor assume o papel de líder no
topo da hierarquia da escola e tem como função exercer de maneira
prática a racionalização da organização escolar coordenando
demandas de múltiplas espécies do contexto escolar. Quanto menos
pessoalidade nas ações e dedicação as funções, indicadores de
qualidade e avaliação dos resultados, melhor será, pois, todo ato que
o desvie das metas estabelecidas compõem problemas para a gestão da
escola. Até porque a gestão da escola, do ponto de vista da perspectiva
empresarial, que o autor critica, baseia-se na ideia de que a natureza
da gestão da empresa é a mesma que a dela. Esse modo não condiz
em nada, segundo Paro (1987), com a natureza humana e é operado
de forma para que não seja de fato condizente. Neste caso, ela não é
verdadeira por não conduzir a natureza humana.
Ao contrário, a participação dos agentes educacionais em uma
gestão democrática proporciona, além da condução da escola, uma
ligação do trabalho escolar com a natureza humana. Paro (1987)
entende que a escola de seu período é gerenciada por uma
racionalidade burocrática na prática, porém, considera que no âmbito
teórico as possibilidades já foram alcançadas, inclusive pelo trabalho
dele, fazendo da gestão democrática um dos fundamentos para a
transformação social, no campo da possibilidade.
O problema é que além da burocratização, a escola conta com
um contexto de significativo descaso quando se observa os salários dos
professores, seu plano de carreira, formação, condições de trabalho
ruins, superlotação, escolas com condições péssimas de infraestrutura,
além de todos os problemas sociais gerados pelo capitalismo, que se
situam fora dela.
230
Porém, neste contexto, segundo o autor, o diretor é peça
chave na representação das contradições existentes na escola na
medida em que tem como função atingir os objetivos educacionais
pressionado, por um lado, pelos pais e alunos para fazer valer uma
educação de qualidade e, por outro lado, pelo Estado para fazer
cumprir o regimento formal da estrutura da escola. Situação essa que
reflete as contradições amplas da sociedade.
O próximo movimento de Paro (1987) será diferenciar o
trabalho material do imaterial colocando que o aluno é um produto
que participa de sua produção na medida em que é auxiliado por um
professor que lhe mostra os conteúdos para antecipar em sua mente o
que irá produzir: sua educação que extrapola conteúdos previstos por
uma didática e condizentes com sua verdadeira natureza. O caso
contrário, a produção imaterial, seria utilizada no momento de
ensino-aprendizagem considerando o aluno como matéria-prima que
ao professor só basta manipular, tratando-o como coisa.
Situação essa que extrapola o âmbito da sala de aula e faz da
gestão democrática uma grande máquina pedagógica a partir do
momento em que a comunidade da escola vem a participar e entender
os objetivos, elementos e configuração dos seus interesses num
contexto amplo de suas implicações, fazendo cumprir o papel do
intelectual em todas as suas funções. Fazer participar, neste caso, de
acordo com os interesses da classe dominada, que, no fundo, são seus
também, mas não sabem.
Nessa altura, 1986 a 1989, já havia mobilizações para a
inclusão do GT Política e Estado na Anped; o marxismo aumentava
seu ponto de influência nas Ciências da Educação e tínhamos como
ponto de referência os trabalhos de Tragtenberg (1974), Sander
(1983), Félix (1985) e Arroyo (1979), como experimentações
relacionadas à Sociologia, marxismo, Teoria Geral da Administração,
231
Educação, Política e Gestão educacional. Ribeiro (1939) e Teixeira
(1961; 1968) dá haviam colocado a necessidade de pensar a gestão da
escola por uma teoria pedagógica, criticando a adoção da TGA sem a
devida análise de suas condições de transposição. Legalmente, já
existiam também a APM, Grêmio estudantil e Conselho escolar. O
princípio democrático como condutor da educação estava se
articulando e estava prestes a assumir a forma da Lei em 1988; a pós-
graduação se disseminava, os trabalhos de Marli André e Menga
Lüdke (1986) impulsionavam as pesquisas de campo na área
educacional e os pesquisadores da área de Política e Gestão
educacional se sentiam cada vez mais à vontade para estudar o
cotidiano da escola.
Ainda sobre esse aspecto podemos ver a influência das
instituições sobre o autor quando ele se refere a publicação de sua tese
de livre-docência. O título original do seu trabalho, antes da tese de
livre-docência se tornar livro, era “Participação popular na escola
pública”, porém, por sugestão de sua banca de defesa sugeriu a
mudança no nome do trabalho para somente “Escola pública” e,
posteriormente, com a leitura de outros pesquisadores, o título foi
colocado para este que conhecemos, baseado na ideia de que o
trabalho iria muito além daquilo que anunciou e previu, pois, esse
título não “[...] abrangia todo o conteúdo do trabalho, conteúdo esse
que não interessava tão somente aos estudiosos sobre a participação
na escola, mas sim a todas as pessoas direta ou indiretamente
envolvidas com as questões da escola pública no Brasil” (PARO,
2000, p. 17).
Por questões editoriais, houve sugestão de diminuir
significativamente o conteúdo do material onde foram realizadas
pequenas alterações e supressão de sessenta e três anexos. Existiram
pareceres de pessoas que trabalharam essa tese por professores e alunos
232
em cursos de Pedagogia, Pós-graduação, diretores, professores e
outros profissionais da área educacional. Naquele momento, a editora
Xamã, que publicou o livro em 1999, teve interesse na tese, pois
existia uma demanda significativa na medida em que se viu aumentar
as “[...] excessivas reproduções xerográficas do original, para atender
o interesse, principalmente, de estudantes universitários e
profissionais da rede pública de ensino, renovavam minha intenção
de publicá-lo” (PARO, 2000, p. 17). O território torna-se propício
para executar uma pesquisa de campo, aliás, esse território convida o
autor a desejá-lo e querer realizar uma pesquisa de campo. Assim, foi
possível o autor propor um avanço com a ideia de ir a campo
pesquisar a realidade concreta, já que, apesar de existirem pesquisas
de campo elas não eram em quantidade tão alta, e grande parte dos
trabalhos se mantinham teóricos. Com a situação da educação e as
críticas que se disseminavam sobre o contexto da política educacional
no cotidiano da escola, torna-se propício desconfiar das ações movidas
pelo Estado e suas estratégias de condução da educação e do seu
alinhamento com a dinâmica do capitalismo.
Considerando os dados levantados em “Introdução crítica”, a
participação de todos envolvidos com a educação e sua relação com a
comunidade na gestão da escola, gestão democrática, torna-se uma
das possibilidades de uma educação de qualidade e transformação
social. Naquele momento, talvez, exista uma enorme esperança de
que a gestão democrática viria a se concretizar na escola. Paro (2000)
decide investigar quais elementos contidos em uma escola pública de
1º grau impediriam ou se configurariam como empecilho de sua
concretização, ou seja, especificando os problemas que se “[...]
apresentam à participação da comunidade”. Até porque as pesquisas
da época viriam a fazer esse movimento ou propor essa solução.
233
Como realizar um trabalho de campo sem uma teoria de
pesquisa de campo? Ainda mais: como realizar uma pesquisa de
campo com o referencial que Paro tinha como base? O autor escolhe
como referencial de sua pesquisa a etnografia, não só porque Rockwell
(1986) trata de trazer o referencial marxista de Gramsci justificando
um trabalho de campo composto por diversas ferramentas como
roteiros, entrevistas e observações direcionadas, mas também porque
não deixa de lado as discussões em torno do capitalismo e seus modos
de ação fazendo dessa metodologia uma articulação orgânica entre a
teoria e o real.
Além de Gramsci, Rockwell (1986) colocava em seu
referencial a ideia de que o conhecimento não se construía a partir
uma empiria, mas de uma relação entre conceitos prévios, um
referencial teórico inacabado e mutável, e os fenômenos observáveis e
isso permitiria o avanço teórico, a elaboração teórica acontece
concomitantemente com o desenvolvimento da pesquisa e as
observações.
Paro (2000) faz uma análise edificando os dados legais e
formais sobre a estrutura da escola, os quais elenca como
condicionantes da participação, para, em seguida, tratar de dizer o
que da estrutura formal da escola não existe na realidade e quais delas
existem, configuradas de modo a atender as premissas de uma gestão
empresarial. Uma ideia teórica que é garantida é a de que o diretor se
encontra em uma função contraditória, pressionado pela comunidade
e pelo Estado.
Sua introdução críticafundamenta a escolha da escola e do
bairro. Ele diz que até cogitou escolher uma escola que tivesse uma
tentativa de participação com o envolvimento do diretor, na intenção
de analisar suas potencialidades. No entanto, por diversas razões, que
foram justificadas, principalmente tendo em vista “as aspirações da
234
equipe de pesquisa”, não encontrou a realidade almejada e optou por
outra, assegurando, em nossa perspectiva, os elementos que desejava
encontrar. Concordamos que, quando se busca analisar os empecilhos
da participação, talvez pudesse ser complicado em uma escola que não
apresentasse esses elementos, mas, de todo modo, não seria impossível
e poderia oferecer novos dados. Outro aspecto direcionado por sua
teoria precedente é a generalização, pois diz que a escolha da escola
representa aquilo que há de comum entre as escolas da rede pública,
o que não deveria estar presente em uma pesquisa qualitativa,
sobretudo um estudo de caso. Apesar de sua intenção analítica ter sido
buscar os elementos que impedem a participação, o referencial teórico
cercou (e cerceou) o que deveria ser buscado na análise sem a
probabilidade de colher os pontos variáveis que pudessem modificar
seus objetivos e, principalmente, os próprios elementos teóricos, os
quais o passaram nem perto de aparecer em seu relato de pesquisa.
235
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A crise e o desconforto que nos conduziram encontraram pelo
caminho algumas surpresas, revelaram algumas possibilidades e,
também, outros modos de ação acreditando que, no mínimo, o que
poderíamos fazer era mostrar os detalhes dessa crise e desse
desconforto. Não só por acaso, no início, esse livro se intitulava
“Geografia da Gestão educacional no Brasilporque pensávamos que
a ideia de contrapor uma visão espacial de Gestão educacional à sua
História marcaria os pontos referenciais por onde se desloca o poder,
aos modos de Foucault, em seu sentido sincrônico ao invés de
diacrônico.
Mal sabíamos que nos depararíamos com a ideia de cartografia
no caminho e que ela nos traria uma relação superficial entre
diacronia e sincronia e conseguiríamos desenhar mapas com as
palavras advindas das forças dos pontos de referência e,
principalmente, do desconforto.
Em dado momento, achamos interessante que esse título
sofresse alteração, pois a ideia de desenhar mapas parecia marcar o
campo de expressão do desejo que se construía ali. A ideia foi
construir uma cartografia singular, aos modos de Deleuze e Guattari,
em que seu ponto de partida fosse uma bricolagem entre os elementos
e ocupações da cartografia e alguns problemas específicos da área de
conhecimento em Política e Gestão educacional. Inconformados com
o arrastar que se deu ao longo dos anos das possíveis soluções para
esses problemas, dentre eles o espírito de estagnação do conhecimento
que aborrecia alguns pesquisadores, queríamos executar um trabalho
236
que viesse a delinear linhas de fuga que comporiam uma nova
perspectiva na área. Então modificamos o título para “Cartografia da
Gestão educacional no Brasil”.
Em nossos devaneios, materializávamos, como sonhos, um
método, uma ferramenta metodológica, que nos oportunizaria ir a
campo para colher e construir, junto ao cotidiano, novas formas de
enxergá-lo e novos conceitos de gestão, de educação, de política, da
função do diretor, da composição com a comunidade, ou também
que estes desaparecessem ou dessem lugar às novas ideias isso sem
contar às novas formas de se fazer pesquisa e de trabalhar em conjunto
com outros pesquisadores. E ainda tínhamos um nome para tudo isso:
perspectiva do cotidiano em Gestão educacional. Até certo momento,
a ideia foi fazer um trabalho de campo em que se desse essa
composição.
Ao invés disso, ao trabalharmos com a bricolagem que
constituímos no início, fomos presenteados com a problemática do
pesquisador neste contexto de produção do conhecimento em Política
e Gestão educacional. Fizemos de nós mesmos o real campo de
investigação onde por mais que não se possa ver nas palavras que
compõem o conteúdo desse livro praticávamos a todo momento,
sem querer, a construção singular dessa área de conhecimento. Não
que em nós ela se tornasse ponto de representação, mas que ela toma
a forma singular de sua existência emaranhada com a nossa forma de
adentrar em suas, também emaranhadas, linhas. Cada dia de leitura,
reunião, comemorações, fracassos, exposição, discussões e sorrisos não
é escrito e somente compõe, nesse livro, forças.
Com os problemas da estagnação do conhecimento, tínhamos
como desafio repensarmos a função e a forma como ele é construído
alçando novos modos de fazer pesquisa e o de realizarmos uma crítica
à área considerando que ela possui regras que a impedem de variar e
237
realizar essa crítica radical. Nosso problema central foi: como as regras
de formação em Política e Gestão educacional se constituem e operam
na história deste conhecimento, impedindo-o de avançar em outras
direções em sua produção? A hipótese que tínhamos é que a
dualidade, a prescrição e o porvir seriam essas regras de formação ou
construção, mas não tínhamos ideia sobre seu modo de
funcionamento.
A primeira coisa que fizemos foi transvalorar as discussões e as
bases que a fundamentavam junto aos termos que a cartografia se
propõe. Trata-se de encontrar na discussão sobre o fundamento da
ideologia que movimenta as discussões sobre Política e Gestão
educacional o lugar onde ela toca e faz aparecer os processos de
subjetivação como modo de operar a visão de mundo e as práticas de
pesquisa. Lugar esse em que se poderia incluir o pesquisador e os
locais por onde circula, onde sua prática também acontece, como
efeito das dinâmicas do capitalismo que não opera só a produção das
mercadorias, mas fundamentalmente a produção do desejo, e não o
deixar mais de fora como uma figura vanguardista que enxerga os reais
problemas da pesquisa na área e não se inclui como objeto de desejo
da ideologia.
Após situar o objeto de discussão e o ponto nevrálgico dos
problemas da pesquisa na área, tratava-se, agora, de encontrar
caminhos possíveis dentro da cartografia esquizoanalítica. Como
suporte, os delineamentos da metodologia nos encaminharam para
uma leitura da trajetória da área onde ela não fizesse um resgate dos
autores e seus conceitos criando uma história das ideias, mas que a
partir deles se desenhassem categorias e funções para fazer aparecer o
espaço disjuntivo que abria seu discurso para os enunciados.
Então, ao invés de modelar os autores em determinadas
perspectivas há algum tempo estabelecidas empresarial e
238
democrática buscamos nelas os elementos comuns que permitiam
fazê-las se edificarem. Ambas se utilizavam de autores”, “referenciais
teóricos e função social de sua perspectiva como pontos de
sustentação dessa classificação. Essas três categorias formam uma, ou
três se vocês quiserem, linha flexível, transversal, que passa em ambas
as perspectivas e a cerceiam na medida em que o conteúdo de uma ou
outra fecha o espaço e delineia seu território. Ou seja, cada uma delas
possui seus autores, referenciais e funções sociais como linhas flexíveis
uma tem Querino Ribeiro e outra Maria de Fátima Félix; uma tem
o marxismo e a outra a TGA; uma busca manter o capitalismo e outra
a transformação social mas constituem, em seu conteúdo, duas
linhas duras da área. Formando assim, o estrato onde se pode
reconhecer, ver, falar e ser um pesquisador de modo que, mais tarde,
pode-se incluir a análise de outros âmbitos de saber e as instituições
que montam seu conteúdo e sua expressão. Chamamos essas duas
linhas duras de dualidade e destacamos seus modos do ponto de vista
do saber e as relações de poder que emanam dela.
A partir disso, aceitamos a divisão existente na área entre
Política e Gestão educacional proposta por alguns autores para
perceber como a trajetória de cada uma mostra modos de ação que
complementam e dinamizam processos de subjetivação e edificação
da figura do pesquisador.
No que se refere à Gestão, constatamos que os autores que
fazem uma leitura da trajetória do conhecimento remontam, mais
uma vez, infelizmente, as perspectivas que já haviam se edificado e
nos deparamos, no nível do saber, com uma vontade de poder
imanente consistido nessa prática. Ao fazer o trabalho de situar uma
ou outra perspectiva é impossível perceber o que ela tem de
perverso”: a intenção de dizer qual das perspectivas é verdadeira e
qual é falsa propondo a extinção da outra nas práticas de pesquisa. O
239
problema não é uma ou outra ser ruim, mas uma ou outra desejar ser
o único modo de se conseguir praticar a pesquisa na área, nesse
sentido, pode-se marcar essa função verdadeiro e falsocomo outra
linha flexível que arrasta as duas perspectivas, pois ela também se
mostra transversal.
Nos trabalhos bibliográficos e Estados da Arte, assistimos ao
que parecia ser um movimento inclusivo que abraçaria a diversidade
de temas, perspectivas e métodos, mas acabaram por justificar mais
uma vez a dualidade na medida em que se delineavam como linha
flexível que divide o conhecimento entre os referenciais úteis e os que,
apesar de poderem existir, não entravam no jogo de forças por não
atingirem às reais demandas da Política e Gestão educacional, ou seja,
não entravam no jogo de desideologizar os contextos analisados.
Chamamos esse movimento de processo de periferizaçãopor ele vir
a funcionar como suporte à dualidade já que no meio acadêmico a
diversidade tornou-se uma demanda da ética de pesquisa.
O que podemos ver são linhas de fuga que arrebatam essa
divisão em perspectivas e desmontam seus princípios de sustentação.
Podemos, assim, dizer, por um lado, que a divisão em perspectivas se
sustenta por manter uma coerência lógica entre os autores da
perspectiva em que se situa e, considerando essa coerência de cada
perspectiva, podemos dizer que ela se sustenta, também, por garantir
uma diferença externa à perspectiva, entre os conglomerados de
autores de cada uma. Ou seja, dentro delas existe um movimento que
garante a sua especificidade de modo que esta sustente uma diferença
fora de cada uma sou eu na medida em que não sou o outro. Só
que, por outro lado, podemos destacar elementos que não garantem
essa sustentação na medida em que encontramos dados que não
mantém a coerência lógica interna à perspectiva, cada autor
aglutinado em uma perspectiva possui elementos que o diferenciam
240
entre si, como se marcasse também o que cada um possui de singular.
Além disso, podemos ver com as categorias de edificação da
perspectiva autor, referencial, função social e periferização as
linhas que as compõem construindo elementos semelhantes agindo
no lado externo a elas. Se, no caso, não construirmos o conhecimento
por meio do autor, o referencial e a função social como realizaríamos
essa tarefa? Eis, pois, a questão!
Esse modo de produzir conhecimento não permite que outras
formas de conceber sua produção apareçam, é todo um esquema, toda
uma estratégia, para ele se formar sempre do mesmo jeito. Como seria
produzir um conhecimento sem considerar a dualidade e a função que
ela exerce? Precisaríamos, neste caso, propor e buscar outra forma para
construir esse conhecimento. Nesse sentido, apesar de todos esses
elementos já se constituírem como uma crítica a esse conhecimento,
eles compõem o nicho por onde podemos partir para realizar uma
crítica a ele.
Agora no que se refere à Política, encontramos o nicho que
deu possibilidade de sua existência e percebemos que a Gestão
educacional dividiu espaço com o lugar onde ela se edificou e se
institucionalizou. Assistimos, desta vez, a Política educacional surgir
como um dos temas da Gestão educacional e iniciar-se como
demandas de pesquisa que legitimavam a ação do Estado para
implantação das políticas públicas que entendiam ser mais
interessantes para sua sustentação e, se caso acontecesse, para solução
dos problemas educacionais. Aquilo que surgiu como modo de
operação do Estado foi ganhando corpo e lugar com o tempo e
tornou-se cada vez mais expressivo dentro das instituições e, com a
emergência do campo de pesquisa em Educação no Brasil, ela ganha
cada vez mais independência, embora relativa, pois manteve as ações
do Estado como objeto de estudo privilegiado. Essa cadeia de
241
instituições e campos em disputa colocam o pesquisador como um
produto de todos estes aparelhos que são capazes de conduzir seu
modo de ação e os conteúdos que irá manejar para se movimentar
dentro da área.
Ao compor espaço de desenvolvimento com as demandas do
Estado por um lado, influenciando e sendo influenciada por ele e,
por outro lado, compondo e dando suporte para legitimar as ações
um do outro a área acadêmica e o Estado acabaram por
desempenhar, cada um à sua maneira, a função de elaborar conteúdos
enquanto soluções e modos de captar os reais problemas educacionais.
Modos de captar e soluções que deveriam ser utilizados pelos agentes
escolares para fazer-se realizar os ideais e premissas postos pelos
autores. Assim, temos a ideia de prescrever tanto nas práticas de
Estado com suas políticas públicas quanto pelo campo acadêmico
com suas teorias e métodos.
Essa prescrição se torna problema quando o pesquisador
realiza um trabalho de campo que cumpre a função de descartar ou
subjugar, deixar para segundo plano, a potencialidade do cotidiano.
Afinal de contas: em que medida podemos dizer quais são os
problemas que determinada escola tem se quando o trabalho de
pesquisa é realizado esses problemas não são comuns aos dois ou não
existe uma construção conjunta deles? Indo além, como iremos
realizar uma pesquisa para dizer quais são os reais problemas das
escolas desconsiderando, ou movendo um referencial teórico que o
desloca, sendo que as pessoas que compõem o cotidiano enfrentam
esses problemas todos os dias? Elas sabem os problemas reais que
enfrentam ou no mínimo têm fortes pistas de onde eles se constroem.
O problema desta situação é que o modo como as instituições
e as práticas que dão suporte ao pesquisador legitimam essa forma de
se fazer pesquisa com o cotidiano e acabam efetuando uma
242
fidedignidade de suas práticas de modo que não se tem a ideia de
desconfiar delas ou meios de intervir considerando de fato que as
demandas do cotidiano entrem na pauta do dia das práticas de
pesquisa. Afinal de contas, ter que modificar o pesquisador, seus
discursos e modos de trabalho, o modo de se ensinar e profissionalizar
os trabalhadores da educação demandaria muito esforço e
desacomodaria a ilustre figura, fora da ideologia, que seria mais um
na multidão educacional. Neste contexto, temos uma novidade para
eles: para se fazer pesquisa precisa-se fazer pesquisa, não há outro jeito.
A operação que acontece diante disso é que assumir a divisão
entre Política e Gestão, entendendo a gestão como meio para se
atingir fins colocados por uma política, faz o pesquisador pensar que
ele deva somente elaborar modos de abordagens, captação e solução
de problemas para serem implantados por essa gestão, já que seus
conteúdos estão sempre dependendo dessa política ou de teoria que
institui suas diretrizes. Esse movimento de prescrever o que a escola
deve fazer, por meio da gestão, suspendeu o pesquisador do ponto
crítico que poderia receber, na medida em que os desafios se
constituíam mais como problemas de implantação do que de
construção teórica, lembrando também que aqueles problemas de
caráter teórico se localizariam somente na perspectiva oposta e não no
ponto intocável da perspectiva verdadeira.
E mais uma vez sentimos a necessidade de modificar o título
desse livro para “Cartografia da Política e Gestão educacional no
Brasilpor entender que a Política e a Gestão formam uma área de
conhecimento que não precisa ser necessariamente dividida e, caso
venha a ser considerada em sua divisão, que a gestão não venha a ser
tratada como um meio sem conteúdo estrutural e que a Política
educacional possa ser uma disciplina que considera os elementos
específicos da Gestão educacional e os incorpore a ela. As maneiras de
243
situar o verdadeiro, o falso, periferizar e prescrever são estratégias de
poder e relações de força aquelas dinamizadas pelas cadeias de
instituições e práticas de pesquisa que são sustentadas pelos
conteúdos do saber aqueles que formam as perspectivas e definem a
gestão como meio. Estes, por sua vez os conteúdos do saber , são
sustentados pelo poder e por relações de força. Há uma relação
disjuntiva entre eles que são mantidas pelas regras de formação. Este
é o dispositivo específico que opera a formação da subjetividade do
pesquisador na área de Política e Gestão educacional.
Quanto à análise da prática teórica, tivemos a oportunidade
de analisar o conteúdo teórico e seu movimento de ir a campo com a
teoria de um dos autores da área (PARO, 1987; PARO, 2000). Por
um lado, ele realiza um trabalho em que coloca em prática a dualidade
movendo os conteúdos de sua teoria para o campo do verdadeiro e os
conteúdos da perspectiva empresarial para o falso. O processo de
periferização que dá suporte à dualidade não precisou ser realizado
por ele, mas considerando que sua tese de livre-docência foi publicada
somente 10 anos depois de sua realização, a cadeia institucional tratou
de realizar esse movimento por ele. Isso desloca a ideia de se ter um
autor que representa um movimento teórico na medida que
consideramos as cadeias de produção em larga escala dos trabalhos
acadêmicos que, por sua vez, nos mostra que ela acontece muito mais
por uma multiplicidade de instituições e autores, como bem foi bem
apresentado por Stremel (2016), do que por um autor que
movimenta o conhecimento ao seu bel-prazer.
Assistimos o autor ir a campo para analisar as condições
concretas da realidade escolar balizando-se entre a estrutura formal da
escola, que permite a participação da comunidade na gestão, e os fatos
concretos, que não a permitem. Também podemos ver que muito
mais que uma espontaneidade e boa vontade com o meio acadêmico,
244
o autor é coagido a realizar as demandas exigidas por aquele momento
de desenvolvimento do campo acadêmico ou que, no mínimo, aquele
contexto lhe dava condições para fazer isso, se considerarmos que foi
espontâneo, mas isso de modo que não ultrapassasse a linha tênue
entre o que lhe permitia movimentar-se sem que se promovesse
qualquer ruptura com o conteúdo e as práticas postas por esse campo.
Por isso, não conseguimos enxergar em que medida seu trabalho
avança e se modifica para dar conta dos problemas educacionais e a
disseminação de novos modos de se fazer pesquisa. Isso ocorre porque
seu dever foi muito mais prescrever o que a escola deveria fazer para
obter uma gestão democrática participativa conivente com a
transformação social do que realizar os objetivos que sua teoria e a
etnografia estavam propondo. Isso sem contar todo o conteúdo por-
vir que balizou a dinâmica de seus argumentos.
De nossa parte, concluímos de maneira parcial que a função
do conhecimento em Política e Gestão educacional foi a de aludir
propostas para os problemas educacionais muito mais para se manter
e estender sua legitimidade conduzindo obstáculos para sua
diferenciação, ou até diluição, do que de fato para resolvê-los. Eles são
administrados e não resolvidos. Conseguimos, assim, edificar algumas
das formas específicas em que se dá essa operação, algumas das regras
de formação em que ela que se sustenta e os conteúdos e substâncias
que formam o dispositivo que a prendem e a impedem de se
diferenciar ou avançar. Conseguimos também delinear, no mínimo,
o caminho que não seria muito interessante para se seguir, vai de
cada um, e justificar, ao invés de propor, pelo menos por enquanto,
que se possa, enfim, repensar a maneira como esse conhecimento vem
sendo construído e se relacionando com o cotidiano da escola.
Nestes termos, entendemos, portanto, que não conseguimos
de fato realizar uma cartografia em sua completude, pois os dados do
245
por-vir não foram edificados e analisados e o trabalho de campo que
tanto queríamos e que depositamos nossas esperanças para converter
os dados teóricos em uma nova maneira de se fazer pesquisa não
ocorreu até o momento. Esses dados poderiam ajudar a especificar em
cada ponto o espaço disjuntivo em que os enunciados se estendem
para voltar aos estratos ou para dobrar o pensamento. Porém, sabemos
que é lá que podemos o destacar como um local onde se poderia
edificar esses novos modos de se fazer pesquisa, e que o modo como
vínhamos fazendo isso não traria, não contemplaria, os objetivos e
intenções que o campo acadêmico diz querer alcançar: a modificação
e avanço da teoria e a solução dos problemas educacionais.
No fim das contas, tratamos de acolher todos esses resultados
de pesquisa e carregá-los para que, muito mais do que expressar o
desconforto que nos mobilizou até aqui, eles se tornassem a forma do
desejo que move nossos esforços de pesquisa daqui em diante e,
enfim, temos a nossa última modificação do título desse livro que
marca no mapa o conteúdo de nosso desejo e nossa vontade de saber:
Por uma Cartografia da Política e Gestão educacional no Brasil”.
246
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SOBRE O AUTOR
Paulo Henrique Costa Nascimento é Pedagogo, Doutor em
Educação na Linha de Política e Gestão Educacional pelo Programa
de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Filosofia e Ciências,
UNESP campus de Marília, e Vice-líder do Centro de Estudos e
Pesquisa em Administração da Educação CEPAE.
260
SOBRE O LIVRO
Catalogação
André Sávio Craveiro BuenoCRB 8/8211
Normalização
Kamila Gonçalves
Diagramação e Capa
Mariana da Rocha Corrêa Silva
Assessoria Técnica
Renato Geraldi
Oficina Universitária Laboratório Editorial
labeditorial.marilia@unesp.br
Formato
16x23cm
Tipologia
Adobe Garamond Pro
Dando continuidade às suas pesquisas de iniciação cientíca e de mes-
trado, as quais problematizaram, com referencial pós-crítico, respectiva-
mente, uma possível proposta de paradigma multidimensional da Ges-
tão Educacional e os elementos contidos na história do conhecimento
em Administração Escolar no Brasil que se conguraram como regra de
construção e impediram um olhar crítico sobre si, o autor tinha como
ponto de partida da escrita desta obra, além do desconforto em relação
às regras que constituíram o conhecimento e o impediram de expandir
seus contornos, o desejo de materializar uma ferramenta metodológica
que possibilitasse aos pesquisadores “ir a campo para construir, junto ao
cotidiano, novas formas de enxergá-lo e novos conceitos de gestão, de
educação, de política, da função do diretor, da composição com a comu-
nidade, ou também que estes desaparecessem ou dessem lugar às novas
ideias – isso sem contar às novas formas de se fazer pesquisa e de trabalhar
em conjunto com outros pesquisadores”.
Programa PROEX/CAPES:
Auxílio 0039/2022
Processo 23038.001838/2022-11
POR UMA CARTOGRAFIA DA POLÍTICA E GESTÃO EDUCACIONAL NO BRASIL
Paulo Henrique Costa Nascimento
POR UMA CARTOGRAFIA
DA POLÍTICA E GESTÃO
EDUCACIONAL
NO BRASIL