A obra que tenho o prazer de
prefaciar representa a consolidação
do esforço do grupo de Professores
e Pesquisadores do Programa de
Pós-Graduação em Agronegócio e
Desenvolvimento (PGAD) da Universidade
Estadual Paulista no Campus de Tupã.
Não se engane o leitor caso entenda que se
trata de obra hermética e voltada para um
público restrito ao meio acadêmico. Ao ler
o material eu compreendi a sua utilidade
para a definição de políticas públicas
voltadas para a agricultura, agroindústria
e desenvolvimento regional, bem como
para a formulação de estratégias privadas,
seja dos produtores rurais e agroindústrias
como também das entidades coletivas
como cooperativas e associações de
produtores. Em adição, considero que os
capítulos que compõem a obra podem
atrair o olhar do público geral interessado
em temas contemporâneos que envolvam
o meio ambiente, a organização social e a
governança de organizações complexas.
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani
Angélica Gois Morales
Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto
Fabio Mosso Moreira
Luana Fernandes Melo
(Organizadores)
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030:
contribuições interdisciplinares
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales;
Eduardo Guilherme Satolo; Gessuir Pigatto;
Fabio Mosso Moreira e Luana Fernandes Melo (Org.)
Agronegócio,
desenvolvimento e a
agenda 2030
contribuições interdisciplinares
Processo CAPES: nº 88887.691405/2022-00
A, 
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Marília/Ocina Universitária
São Paulo/Cultura Acadêmica
2024
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Editora aliada:
Cultura Acadêmica é selo editorial da Editora UNESP
Ocina Universitária é selo editorial da UNESP - campus de Marília
Copyright © 2024, Faculdade de Filosoa e Ciências
Ficha catalográca
A281 Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030 : contribuições interdisciplinares / Ana Elisa
Bressan Smith Lourenzani ... [et al.] (organizadores). – Marília : Ocina Universitária ; São
Paulo : Cultura Acadêmica, 2024.
396 p. : il.
Apoio: CAPES
Inclui bibliograa
ISBN 978-65-5954-533-9 (Impresso)
ISBN 978-65-5954-534-6 (Digital)
DOI: https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-534-6
1. Agronegócio. 2. Trabalhadores rurais. 3. Inovações agrícolas. 4. Desenvolvimento sustentável.
5. Segurança alimentar. 6. Educação ambiental. 7. Agenda 2030. I. Lourenzani, Ana Elisa Bressan
Smith. CDD 338.1
Telma Jaqueline Dias Silveira –Bibliotecária – CRB 8/7867
Imagem capa: https://stock.adobe.com/br - Arquivo "AdobeStock_321197166". Acesso em 19/09/2024
Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives
4.0 International License.
UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
"JÚLIO DE MESQUITA FILHO"
Campus de Marília
Diretora
Profa. Dra. Claudia Regina Mosca Giroto
Vice-Diretora
Profa. Dra. Ana Cláudia Vieira Cardoso
Conselho Editorial
Mariângela Spotti Lopes Fujita (Presidente)
Célia Maria Giacheti
Cláudia Regina Mosca Giroto
Edvaldo Soares
Franciele Marques Redigolo
Marcelo Fernandes de Oliveira
Marcos Antonio Alves
Neusa Maria Dal Ri
Renato Geraldi (Assessor Técnico)
Rosane Michelli de Castro
Pareceristas:
Profa. Dra. Selene de Souza Siqueira Soares
Docente do Departamento de Engenharia Têxtil da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Campus Blumenau.
Recursos externos: Edital CAPES - Programa de Desenvolvimento da Pós-Graduação – Pós-Doutorado Estratégico, acessado
pelo PGAD sob o número de processo 88887.691405/2022-00, e intitulado “PPG em Agronegócio e Desenvolvimento:
Estratégias em Ação
5
A
Ao corpo docente, discentes e egressos do Programa de Pós-
Graduação em Agronegócio (PGAD) da Faculdade de Ciências e
Engenharia (FCE) da Unesp, Campus de Tupã, pelo empenho no compar-
tilhamento dos resultados de seus trabalhos expressos nos capítulos desta
obra. Aos participantes de pesquisas, agentes públicos e servidores que atu-
aram em conjunto para o desenvolvimento dos resultados. A Coordenação
de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), ao Conselho
Nacional de Desenvolvimento Cientíco e Tecnológico (CNPq) e a
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) pelo -
nanciamento de projetos de pesquisa e estágios de pós-doutoramento, bol-
sas de mestrado e doutorado, apoio à realização de eventos, entre outros,
possibilitando a construção do conhecimento contribuinte para o desen-
volvimento da ciência e para os pesquisadores, alunos e demais envolvidos
nas temáticas do Agronegócio e Desenvolvimento.
6
7
L  
Figura 1 – Ciclo do estresse ............................................................ 40
Figura 2 – Sintomas do estresse ....................................................... 41
Figura 3 – Níveis de estresse e sintomatologia da amostra ............... 44
Figura 4 – Dispersão das respostas em relação à média .................... 46
Figura 5 – Renda média mensal: comparativo entre Agricultor
Familiar (AF) com estresse dos sem estresse ..................................... 48
Figura 6 – Fatores que inuenciam o estresse: comparativo entre
AF com e sem estresse ..................................................................... 50
Figura 7 – Fatores moderadores do estresse ..................................... 52
Figura 8 – Grau de Satisfação com o trabalho: comparativo entre
AF com estresse dos sem estresse ...................................................... 53
Figura 1 – Rede de informação entre produtores e agentes de apoio 67
Figura 2 – Rede de informação sobre gestão de pessoas ................... 68
8
Figura 3 – Social Netchain da cadeia do pescado de Mundo Novo ... 70
Figura 1 – Atividades que geram perdas e desperdícios ao longo
da cadeia de suprimentos ................................................................. 143
Figura 2 – A concentração e distribuição da segurança alimentar
por gravidade diferem muito entre as regiões do mundo .................. 144
Figura 1 – Formas de diversicação da renda no meio rural e
principais benefícios ........................................................................ 171
Figura 2 – Evolução da concentração agrícola no Brasil, por
Mesorregião ..................................................................................... 173
Figura 1 – Cadeia de abastecimento de alimentos convencional
versus SFSC ..................................................................................... 188
Figura 2 – Funções de produtores e consumidores em alguns SFSC 192
Figura 3 – Localização dos casos estudados .................................... 193
Figura 4 – Modelos de comercialização utilizados pelos agricultores 197
Figura 5 – Formas de agregar valor aos produtos e serviços ofertados 199
Figura 6 – Café colonial servido em propriedades rurais, de acordo
com a estrutura local, permitindo experiências diferentes................. 201
Figura 7 – Cesta de piquenique semelhante ao que os agricultores
pesquisados oferecem ...................................................................... 203
Figura 1 – Máquinas e equipamentos utilizados pelos produtores
rurais versus ..................................................................................... 219
Figura 2 – Insumos utilizados pelos produtores rurais versus
produtividade (sc/ha) ...................................................................... 222
Figura 3 – Tipo de armazenagem utilizado pelos produtores rurais
versus produtividade (sc/ha) ............................................................ 224
Figura 4 – Instrumentos de gestão empregados pelos produtores
rurais versus produtividade (sc/ha) ................................................... 226
Figura 1 – Desempenho do PNAE em relação à pandemia ............. 269
9
Figura 1 – Proporção de alimentos referente ao ano de 2019 de
acordo com o Guia Alimentar, em termos de valores gastos (R$) ..... 290
Figura 2 – Percentual de Repasse do PNAE .................................... 291
Figura 1 – Processo cíclico de aprendizagem por meio da extensão
universitária ..................................................................................... 324
Figura 2 – Linha do tempo do Programa de Extensão Kamby “Boas
práticas na Pecuária Leiteira ........................................................... 328
Figura 3 – Municípios dos produtores leiteiros atendidos pelo
programa Kamby ............................................................................. 331
Figura 4 – Agentes participantes do programa Kamby .................... 332
Figura 5 – Quantitativo de discentes de graduação e de
pós-graduação orientados junto ao Grupo Kamby ........................... 333
Figura 6 – Relação das atividades extensionistas realizadas pelo
Grupo Kamby, o tipo e os agentes participantes .............................. 337
Figura 7 – Relacionamento entre atividades extensionistas do
Grupo Kamby com linhas de pesquisa, nível de pesquisa e ensino ... 340
Figura 8 – Atividades extensionistas do Grupo Kamby e tipos de
impacto ........................................................................................... 342
Figura 9 – Atividades extensionistas do Grupo Kamby e sua relação
com os ODS ................................................................................... 344
Figura 1 – Perl dos discentes e egressos do PGAD orientados pelas
docentes e líderes do grupo PGEA ................................................... 361
Figura 2 – Nuvem de palavras das dissertações analisadas ................ 362
Figura 3 – Os diálogos estabelecidos entre as dissertações e os ODS 366
10
L  
Quadro 1 – Estatística descritiva dos estressores nanceiros ............ 45
Quadro 2 – Renda versus estresse usando método Tukey e 95% de
conança ......................................................................................... 48
Quadro 1 – As categorias organizadoras das redes e alguns
indicadores de sua presença ............................................................. 71
Quadro 1 – Principais parâmetros a serem avaliados em águas
residuais .......................................................................................... 84
Quadro 1 – Parâmetros dos níveis de análise em relação às
características da transação e dos agentes para o caso selecionado ..... 102
Quadro 2 – Caracterização e estrutura de governança do estudo
de caso em laranja ........................................................................... 103
Quadro 3 – Caracterização e estrutura de governança no estudo de
caso do cacau ................................................................................... 109
Quadro 1 – Respostas de entrevistas realizadas com responsáveis pelo
setor de FLV de diferentes estabelecimentos varejistas nas cidades de
Tupã e Ribeirão Preto ...................................................................... 151
11
Quadro 1 – Multidimensionalidade da sustentabilidade ................. 163
Quadro 2 – Efeitos ambientais da atividade de produção agrícola ... 165
Quadro 3 – Estresses e choques ....................................................... 166
Quadro 4 – Efeitos sociais da atividade de produção agrícola .......... 167
Quadro 5 – Riscos associados às práticas da Agricultura
Convencional .................................................................................. 167
Quadro 1 – Caracterização das propriedades ................................... 195
Quadro 1 – Exposições agropecuárias adiadas ou canceladas entre
março e maio de 2020 e valores movimentados nas edições
presenciais em 2019 ........................................................................ 237
Quadro 2 – Informações do evento A ............................................. 243
Quadro 3 – Informações do Evento B ............................................. 246
Quadro 4 – Aspectos observações nos Eventos A e B....................... 251
Quadro 1 – Tipos de atividades extensionistas e suas denições ...... 325
Quadro 2 – Atividades extensionistas realizadas pelo Grupo Kamby,
seus objetivos e público-alvo ............................................................ 333
Quadro 3 – Atividades extensionistas e sua classicação quanto
ao tipo e agentes participantes ........................................................ 335
Quadro 4 – Atividades extensionistas e suas relações com as linhas
de pesquisa, o nível de pesquisa desenvolvido e o ensino .................. 339
Quadro 5 – Atividades extensionistas e o tipo de impacto gerado
para a sociedade ............................................................................... 341
Quadro 6 – Relacionamento das atividades extensionistas aos ODS
de atuação do Grupo Kamby ........................................................... 343
Quadro 1 – Dissertações e teses que passam pelas interfaces da
gestão, educação ambiental e comunicação ...................................... 356
12
L  
Tabela 1 – Reações do Reagente de Fenton ..................................... 90
13
L    
ABMRA - Associação Brasileira de Marketing Rural e Agronegócio
ACS - Agentes Comunitários de Saúde
A.F - Agricultor Familiar
AFN - Alternative Food Networks
ANA - Agência Nacional de Águas
APS - Atenção Primária à Saúde
ARS - Análise de Redes Sociais
ASA - Abordagem Sistêmica do Agronegócio
BCG - Boston Consulting Group
BNCC - Base Nacional Comum Curricular
CADE - Conselho Administrativo de Defesa Econômica
CAF - Cadastro da Agricultura Familiar
CAPES - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior
CCI - Congresso Cientíco Internacional
CE - Ceará
CEPP - Comitê de Ética em Pesquisa com Pessoa
14
CETESB - Companhia Estadual de Tecnologia de Saneamento Básico e
de Defesa do Meio Ambiente
CIMI - Conselho Indigenista Missionário
CNPq - Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientíco e
Tecnológico
CONAMA - Conselho Nacional do Meio Ambiente
CONSEA - Conselho Nacional de Segurança Alimentar
DAP - DAP
DBO - Demanda Bioquímica de Oxigênio
DCNTs - Doenças Crônicas Não Transmissíveis
DF - Distrito Federal
DQO - Demanda Química de Oxigênio
EAN - Educação Alimentar e Nutricional
ECP - Empresa Compradora Processadora
EMATER - Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural
EMBRAPA - Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
ENAPEGS - Encontro Nacional de Pesquisadores em Gestão Social
FAAC - Faculdade de Arquitetura, Artes, Comunicação e Design
FAO - Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação
FCE - Faculdade de Ciências e Engenharia
FETAG - Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do
Sul
FIDA - Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola
FLV - Frutas, Legumes e Verduras
FNDE - Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação
FUNAI - Fundação Nacional dos Povos Indígenas
GDWQ - Guidelines for Drinking Water Quality
GEDGS - Grupo de Estudos em Democracia e Gestão Social
GO - Goiás
GP - Gestão de Pessoas
GPS - Sistema de Posicionamento Global (GPS);
GPKamby - Grupo de Pesquisa Kamby
IA - Inteligência Articial
IBGE - Instituto Brasileiro de Geograa e Estatística
IoT - Internet das Coisas
15
IPA - Índice de Perda Alimentar
IPEA - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
ISSL - Inventário de Sintomas de Stress para Adultos de Lipp
LP - Linha de Pesquisa
MEC - Ministério da Educação
MID - Manejo integrado de doenças
MIP - Manejo integrado de pragas
MS - Mato Grosso do Sul
MT - Mato Grosso
NRDC - Natural Resources Defense Council
OC - Organização Coletiva
OD - Oxigênio Dissolvido
ODS - Objetivos de Desenvolvimento Sustentável
OMS - Organização Mundial da Saúde
ONGs - Organizações Não Governamentais
ONU - Organização das Nações Unidas
OPAS - Organização Pan-Americana da Saúde
PA - Pará
PAA - Programa de Aquisição de Alimentos
PANC - Plantas Alimentícias Não Convencionais
PDA - Perdas e Desperdícios de Alimentos
PGAD - Programa de Pós-graduação em Agronegócio e Desenvolvimento
PGEA - Pesquisa em Gestão e Educação Ambiental
pH - Potencial Hidrogeniônico
PIB - Produto Interno Bruto
PIBIC - Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Cientíca
PMVA - Programa Município Verde Azul
PNAE - Programa Nacional de Alimentação Escolar
PNEA - Política Nacional de Educação Ambiental
POAs - Processos de Oxidação Avançada
PRONAF - Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura
PRoNEA - Programa Nacional de Educação Ambiental
RA - Realidade Aumentada
REAP - Rede de Educação Ambiental da Alta Paulista
16
RedeCT - Rede Internacional de Pesquisadores sobre Povos Originários e
Comunidades Tradicionais
RS - Rio Grande do Sul
SAN - Segurança Alimentar e Nutricional
SFSC - Short Food Supply Chains
SGA - Sistema de Gestão Ambiental
SISAN - Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional
SP - São Paulo
SUS - Sistema Único de Saúde
TBA - Take-Back Agreement
TD - Transformação Digital
TDIC - Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação
THE - Times Higher Education
TO - Tocantins
UFNT - Universidade Federal do Norte de Tocantins
UFRR - Universidade Federal de Roraima
UFT - Universidade Federal de Tocantins
UNAMA - Universidade da Amazônia
UNEMAT - Universidade do Estado de Mato Grosso
UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e
Cultura
UNESP - Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho
UNICEF - Fundo das Nações Unidas para a Infância
UV - Ultravioleta
VAB - Valor Agregado Bruto
VMP - Valor Máximo Permitido
WFP - Programa Mundial de Alimentos
17
Sumário
Prefácio
Decio ZYLBERSZTAJN ........................................................................................ 21
Apresentação
Ana Elisa LOURENZANI, Sandra Cristina de OLIVEIRA,
Wagner Luiz LOURENZANI e Fábio Mosso MOREIRA ........................................ 27
Parte I
Capítulo 1 – O estresse nanceiro e a satisfação no trabalho: uma
análise entre agricultores familiares do município de Araçatuba (SP)
Fernanda Cristina PEREIRA, Luís Roberto Almeida GABRIEL FILHO e
Renato Dias BAPTISTA ........................................................................................ 35
Capítulo 2 – As interfaces entre gestão de pessoas, cultura e redes em
sistemas agrários
Fernanda YAMAUCHI, Timóteo Ramos QUEIROZ e Renato Dias BAPTISTA ...... 63
18
Capítulo 3 – Águas residuais agroindustriais: um dos desaos do
Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6
Maiara Aparecida Pessoa FRIGULIO, Felipe André dos SANTOS e
Juliane Cristina FORTI ........................................................................................ 77
Capítulo 4 - Governança e sustentabilidade em sistemas
agroalimentares do cacau e laranja
Giuliana Aparecida Santini PIGATTO, Ana Elisa Bressan Smith LOURENZANI,
Leandro Guedes de AGUIAR ................................................................................. 97
Parte II
Capítulo 5 – Educação alimentar e nutricional: uma análise das
consequências, estratégias de prevenção e o desenvolvimento escolar
Giseli Boiam Dall’ANTONIA e Angela Vacaro de SOUZA ..................................... 119
Capítulo 6 – Perdas e desperdícios: estudos de caso no varejo de
alimentos
Andréa Rossi SCALCO, Pamela Nayara MODESTO,
Suzana Márcia MARANGONI e Giuliana Aparecida Santini PIGATTO .............. 141
Capítulo 7 – Diversicação agrícola e a resiliência produtiva
Bruce Wellington Amorin da SILVA, Wagner Luiz LOURENZANI,
Gessuir PIGATTO e Vinicius PALÁCIO ............................................................... 161
Capítulo 8 – Estratégias de comercialização de agricultores familiares
que atuam em short food supply chains: casos em regiões do
Rio Grande do Sul
Amanda dos Santos Negreti CAMPOS e Gessuir PIGATTO ................................... 179
Capítulo 9 – Relação entre a infraestrutura de inovação tecnológica
e a produtividade na cultura do amendoim
Sandra Cristina de OLIVEIRA, Fabiano Pinto NEVES, Leandro Paloma MANTOVANI,
Adriana dos Santos DIAS, Mário Mollo NETO e Juliano Endrigo SORDAN ........ 211
19
Capítulo 10 – A transformação digital das feiras agropecuárias no Brasil:
uma análise sob a ótica de seus organizadores
Jéssica Dayane Nunes PESSÔA, Evellyng Munique Zago dos SANTOS,
João Guilherme de Camargo Ferraz MACHADO e
Cristiane Hengler Corrêa BERNARDO ................................................................. 233
Parte III
Capítulo 11 – Para além do empenho do Programa Nacional de
Alimentação Escolar (PNAE) nas escolas públicas do município de
Tupã (SP) durante a pandemia de Covid-19: impactos no cumprimento
dos objetivos de desenvolvimento sustentável
Stephen KUNIHIRO, Miguel Ângelo de MARCHI, Simone Lima Veronez BAUER ,
Mariana Vendrami Parra SANCHES, Camila Pires CREMASCO e
Luís Roberto Almeida GABRIEL FILHO .............................................................. 263
Capítulo 12 – Contribuições e desaos do Programa Nacional de
Alimentação Escolar (PNAE) na promoção de um ambiente alimentar
escolar saudável e adequado
Andréa Rossi SCALCO, Ana Elisa Smith Bressan LOURENZANI,
Karen Cristina de Andrade MAZIERO e Patrícia Cristina Melero Pereira LEITE .... 279
Capítulo 13 – A temática dos povos tradicionais dentro do Programa
de Pós-Graduação em Agronegócio e Desenvolvimento: convergências
possíveis e produtos importantes
Nelson Russo de MORAES, Angélica Góis MORALES,
Alexandre de Castro CAMPOS, Isaltina Santos da Costa OLIVEIRA e
Fernando da Cruz SOUZA ................................................................................... 297
Capítulo 14 – Práticas extensionistas associadas à pesquisa e ao
ensino: relato de experiência do Grupo Kamby
Eduardo Guilherme SATOLO, Priscilla Ayleen Bustos MAC-LEAN,
Isabela Garcia Mendes de Araujo SANTOS e Liliane Úbeda Morandi ROTOLI ...... 321
20
Capítulo 15 – Contribuições do Grupo de Pesquisa em Gestão e
Educação Ambiental para o diálogo interdisciplinar e a formação
socioambiental no Programa de Pós-Graduação em Agronegócio e
Desenvolvimento
Angélica Góis MORALES, Cristiane Hengler Corrêa BERNARDO,
Jéssica Dayane Nunes PESSÔA, Karina Abreu FINATI,
Monique Matsuda dos SANTOS e Valquiria Cristina MARTINS ........................... 349
Organizadores do livro .................................................................................. 379
21
P
A quem se dirige A obrA:
A obra que tenho o prazer de prefaciar representa a consolidação
do esforço do grupo de Professores e Pesquisadores do Programa de Pós-
Graduação em Agronegócio e Desenvolvimento (PGAD) da Universidade
Estadual Paulista no Campus de Tupã. Não se engane o leitor caso enten-
da que se trata de obra hermética e voltada para um público restrito ao
meio acadêmico. Ao ler o material eu compreendi a sua utilidade para a
denição de políticas públicas voltadas para a agricultura, agroindústria e
desenvolvimento regional, bem como para a formulação de estratégias pri-
vadas, seja dos produtores rurais e agroindústrias como também das enti-
dades coletivas como cooperativas e associações de produtores. Em adição,
considero que os capítulos que compõem a obra podem atrair o olhar do
público geral interessado em temas contemporâneos que envolvam o meio
ambiente, a organização social e a governança de organizações complexas.
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-534-6.p21-25
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
22
Para os prossionais dedicados à academia como eu, a obra de-
monstra o vigor de um grupo de pesquisadores que logrou êxito ao
instalar um programa de pós-graduação focalizado em Agronegócios e
Desenvolvimento abraçando o desao da interdisciplinaridade. Decorre
que esta obra é também uma celebração da qualicação dos pesquisado-
res da UNESP de Tupã, que se empenharam por uma década, na forma-
ção de mestres e doutores com um foco denido de competências. Os
resultados obtidos reetem o amplo relacionamento mantido com gru-
pos de pesquisa no Brasil e no exterior e a dedicação a temas aplicados ao
agronegócio e desenvolvimento. Para aqueles que conhecem os desaos
da pesquisa no Brasil e a atuação dos grupos de pesquisa e Universidades
no exterior, ca a mensagem da competência da realização cientíca bra-
sileira, que se por um lado tem desaos a superar, por outro demonstra
que existem possibilidades a serem exploradas por pesquisadores dedica-
dos ao trabalho acadêmico.
Aspectos A destAcAr dA obrA:
Entendo que merecem destaque cinco elementos que transparecem
da obra referida, direta ou indiretamente.
O primeiro elemento é a utilização do conceito de agronegócio se-
gundo a sua concepção original, cientíca, não corrompida por valores
ideológicos. Quando o Professor Ray Goldberg em conjunto com John
H. Davis no ano de 1957 na Universidade de Harvard publicou o livro
A Concept of Agribusiness”, abraçou a visão sistêmica que denominou de
Sistemas Agroindustriais, criando o termo “agronegócio”, então um ne-
ologismo. O termo, era e ainda é adotado para estudar fenômenos que
ocorrem nos Sistemas Agroindustriais independentemente da tipologia do
produtor rural, se grande, pequeno, se organização familiar ou corporação
de investidores. Voltando o olhar para a obra ca clara a preocupação dos
autores, e do próprio programa de pós-graduação, para com a fragilidade
da agricultura como parte de um sistema gerador de valor. Esta preocupa-
ção magnica a importância do programa da UNESP, os resultados que
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
23
compõem a obra reetem a preocupação integrada entre sociedade, meio
ambiente e governança, com foco na pequena produção, que é parte inte-
grante do agronegócio, fato nem sempre percebido por muitos.
Eu destaco a coragem do grupo de pesquisa da UNESP que não se
intimidou com a indevida corrosão do conceito de agronegócio, associado
de modo equivocado apenas com a atividade de larga escala, corporativa e
intensiva em capital sem preocupação com os aspectos sociais e ambientais.
Tal estereótipo não se coaduna com o conceito cientíco original do termo.
Apenas essa característica já valorizaria a obra, mas o trabalho vai além.
O segundo elemento que destaco é a preocupação do programa de
pesquisa que originou a obra com aspectos humanistas e sociais com ên-
fase na agricultura de médio e pequeno porte. Os temas abordados no
primeiro bloco, capítulos de 1 a 4, iluminam a temática social a partir de
temas como: gestão de pessoas, satisfação da pessoa do campo dedicada ao
trabalho de produção, cultura e clima organizacional, governança e susten-
tabilidade nas propriedades rurais. A preocupação com o tripé governan-
ça-sociedade-ambiente ca ressaltada na segunda parte do trabalho, nos
capítulos de 5 a 11, que apresentam resultados dos estudos realizados pelos
pesquisadores do programa. Destaco que nessa segunda parte, além dos
aspectos conceituais os estudos se preocuparam em inserir os impactos das
tecnologias digitais e de infraestrutura tecnológica. Deve ser reconhecido
um elemento presente nos estudos se nutre do cerne, ou seja do elemento
central do conceito de “agronegócio”: a responsabilidade compartilhada
para o atingimento de estratégias como as metas ambientais, que envolvem
todos os elos das cadeias de produção, inclusive o consumidor responsável.
A agricultura, portanto, não é um setor isolado, mas conectado organica-
mente aos demais setores que compõem os Sistemas Agroindustriais.
O terceiro elemento que destaco é o alinhamento da proposta do
PGAD reetido no conteúdo do livro com a característica primeira da
UNESP que nasceu com o sentido de organizar a pesquisa-ensino e exten-
são considerando a território do Estado de São Paulo. Os estudos aplica-
dos, componentes da obra, se baseiam em tendências globais e se aplicam
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
24
aos problemas regionais onde as pesquisas foram realizadas. A preocupação
com problemas locais, ampliam a importância dos resultados obtidos no
sentido de que os problemas e as temáticas se repetem em outras áreas de
produção agrícola, e que os resultados obtidos podem ser utilizados em ou-
tras áreas. Um bom exemplo é a preocupação com a gestão do uso da água.
O quarto elemento que destaco se contrapõe ao anterior, trata-
se da preocupação com os problemas e desaos globais, no presente
caso relacionados com a agenda 2030. O interessante contraponto do
foco local com visão global reetida nos objetivos de desenvolvimento
sustentável com os quais o Brasil está comprometido, aparecem com
nitidez nas temáticas abordadas pelos estudos. Destaco alguns elementos
que reetem a preocupação com as metas do milênio: Água limpa e
Saneamento, Trabalho Decente, Crescimento Econômico Sustentável,
Indústria, Inovação e Infraestrutura, Consumo e Produção Responsáveis.
O programa de pós-graduação em Agronegócios e Desenvolvimento, ao
considerar as preocupações denidas na agenda 2030, demonstra que a
regionalidade pode e deve estar alinhada aos amplos movimentos globais
que caracterizam o século XXI.
Para concluir, elaboro o quinto elemento de destaque que caracte-
riza a obra em epígrafe: interdisciplinaridade. Preferi deixar tal dimensão
como elemento conclusivo deste prefácio por considerá-lo o mais relevante
e de difícil implementação. Quando a maioria dos programas de pós-gra-
duação em diferentes disciplinas, se esmeram no avanço unidisciplinar,
o Programa de Agronegócio e Desenvolvimento da UNESP recoloca o
foco, desaa o ambiente acadêmico e propõe um projeto que busca explo-
rar as interfaces e a construção de ligações entre os corpos herméticos do
conhecimento cientíco. Tal atitude é corajosa e se alinha ao pensamento
de nomes importantes do mundo acadêmico que defendem a abordagem
interdisciplinar. Armo ser corajosa pois as estruturas de avaliação dos pro-
gramas de pós-graduação passaram muitos anos a privilegiar e induzir a
hiperespecialização. As revistas cientícas, em grande parte, não aceitam
submissões de artigos que não estejam alinhados aos elementos especializa-
dos de determinado campo de conhecimento. Ao ler a obra e compreender
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
25
a proposta do programa de pós-graduação, cabe louvar as instituições que
apoiaram a sua implementação ao longo de uma década, considerando que
o programa explicita a sua intenção de abordagem interdisciplinar.
A proposta interdisciplinar tem o aval de pensadores como Edgar
Morin, que o dene como o único meio para o enfrentamento dos pro-
blemas complexos enfrentados pela sociedade contemporânea. O mesmo
autor argumenta que a especialização excessiva pode levar a uma visão
fragmentada da realidade, e elabora como diferentes campos do saber po-
dem ser conectados para permitir a compreensão dos problemas. Segundo
Morin1, a multidisciplinaridade permite superar as limitações impostas
pela segmentação do conhecimento, crucial para enfrentar os complexos
desaos contemporâneos.
Concluo considerando que o presente texto representa não apenas
a celebração de uma década de um programa de pós-graduação, por certo
exigiu um olhar crítico dos autores para o trabalho realizado desde a sua
implantação, representa também uma exposição sincera dos pesquisadores
envolvidos para a sociedade que terá acesso a um conteúdo em geral cir-
cunscrito a grupos restritos de leitores conectados às revistas acadêmicas.
Tenho a certeza de que a próxima década ainda será um período de colhei-
ta dos resultados e desejo que os pesquisadores envolvidos mantenham o
tônus voltado para o enfrentamento dos problemas de alta complexidade
que estão no horizonte.
Parabenizo os Docentes e Alunos do PGAD e desejo que os leitores
utilizem o rico material aqui disponibilizado.
Decio ZYLBERSZTAJN
Edgar Morin. O Método: conhecimento do conhecimento. Porto Alegre: Sulina, 2008. 286 p.
26
27
A
O Programa de Pós-Graduação em Agronegócio e Desenvolvimento
(PGAD) foi criado no Brasil em 2014, e pertence à Câmara Temática
Agrárias e Meio Ambiente” da área Interdisciplinar da Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). O PGAD está se-
diado na Faculdade de Ciências e Engenharia da Unesp, Campus de Tupã,
e oferece os cursos de Mestrado e de Doutorado acadêmicos.
Atualmente, o PGAD é composto por 21 docentes permanentes, um
docente colaborador e dois docentes colaboradores internacionais, sendo
um da Itália e outro dos Estados Unidos. A característica multidisciplinar
da formação e atuação dos docentes (ciências exatas, humanas e biológicas)
e a diversidade de formação dos discentes e egressos subsidiam o diálogo
interdisciplinar no ensino, na pesquisa e na extensão do Programa.
A interdisciplinaridade implica um “processo de inter-relação de pro-
cessos, conhecimentos e práticas que transborda e transcende o campo da
pesquisa e do ensino no que se refere estritamente às disciplinas cientícas
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-534-6.p27-32
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
28
e as suas possíveis articulações” (LEFF, 2011, p. 3111), sendo necessária às
análises do agronegócio, buscando uma visão ampla à investigação de res-
postas para temas complexos e resolução de problemas multidimensionais.
Neste sentido, a missão do PGAD é promover a qualicação de pes-
soas, orientada por princípios éticos e humanísticos, a partir de pesquisas
interdisciplinares no âmbito do agronegócio, contribuindo para o desen-
volvimento sustentável.
A estrutura do PGAD apresenta uma área de concentração em
Agronegócio e Desenvolvimento” e compreende duas linhas de pesquisa:
Competitividade de Sistemas Agroindustriais (CSA), que visa desenvol-
ver análises que promovam os sistemas agroindustriais, do ponto de vista
da produtividade e da eciência econômica, gerencial, social e ambiental,
contribuindo para a melhoria da competitividade e do desenvolvimento
econômico e sustentável dos sistemas produtivos, das organizações e das
instituições; e Desenvolvimento e Meio Ambiente (DMB), que visa con-
tribuir para o desenvolvimento econômico, social, ambiental e institucio-
nal, sob a perspectiva do paradigma da sustentabilidade, inovando meto-
dologicamente na produção de conhecimento interdisciplinar para apoiar
a tomada de decisão de gestores públicos e privados.
Por meio de diferentes abordagens teórico-metodológicas, as pesqui-
sas desenvolvidas no PGAD permeiam a complexidade do agronegócio e
do desenvolvimento dentro de uma abordagem interdisciplinar. A dinâmi-
ca dos cursos promove a problematização, renovação e transformação dos
conhecimentos pelos diferentes saberes. Tais experiências ultrapassam as
fronteiras das disciplinas e são desenvolvidas pelos pesquisadores (docentes
e discentes) por meio de discussões em grupos de pesquisa, do desenvolvi-
mento de projetos de pesquisa, da participação em eventos cientícos e das
produções intelectuais construídas coletivamente.
Deste modo, a visão do PGAD é ser referência na formação de pes-
soas e na pesquisa interdisciplinar no âmbito do agronegócio e na sua con-
LEFF, Enrique. Complexidade, interdisciplinaridade e saber ambiental. Olhar de professor, Ponta Grossa, v.
14, n. 2, p. 309-335, 2011. DOI: 10.5212/OlharProfr.v.14i2.0007.
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
29
tribuição para o desenvolvimento sustentável. Os princípios do Programa
são baseados na excelência, conduta ética, comprometimento com a socie-
dade e cienticidade do conhecimento.
Em 2024, o PGAD completa 10 anos de atuação, nos quais foram
formados mais de 150 egressos entre mestres e doutores. Os objetivos e a
missão do Programa, bem como as dissertações e teses defendidas e os pro-
jetos desenvolvidos pelos pesquisadores do PGAD em cooperação cientí-
ca e tecnológica, nacional e internacional, estão fortemente alinhados ao
Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) da Unesp, às áreas tecnoló-
gicas prioritárias do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI)
e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030
das Nações Unidas (ONU).
Os resultados de uma pesquisa realizada recentemente com os
docentes do Programa mostram que, de uma forma geral, os ODS 12
– Consumo e Produção Responsáveis, 2 – Fome Zero e Agricultura
Sustentável e 8 – Trabalho Decente e Crescimento Econômico foram os
mais associados às temáticas das dissertações e teses defendidas no PGAD.
Em seguida, apareceram os ODS 9 – Indústria, Inovação e Infraestrutura;
ODS 4 – Educação de Qualidade; e ODS 6 – Água Potável e Saneamento.
Nesta trajetória de uma década, a maturidade acadêmica do corpo
docente é marcada por um grande dinamismo em busca da formação de
pessoas comprometidas com os problemas da sociedade e geração de pes-
quisas interdisciplinares capazes de gerar impacto para o desenvolvimento
sustentável na área do Agronegócio.
Finalmente, deve-se destacar o impacto regional do PGAD, uma
vez que é o único programa público de pós-graduação em Agronegócio e
Desenvolvimento do estado de São Paulo, e desempenha um papel rele-
vante na formação de pessoas, principalmente para a região Alta Paulista,
colaborando para o desenvolvimento regional e nacional, sob uma pers-
pectiva sustentável.
E é no seio da consolidação e do fortalecimento do PGAD que esta
obra foi elaborada para congregar resultados de pesquisas desenvolvidas
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
30
pelos docentes e discentes do programa, dando visibilidade para os traba-
lhos e iniciativas realizadas nos últimos anos. O o condutor desta obra
foi delimitado em três grandes partes, cada qual contendo um conjunto de
capítulos abordando temáticas que convergem para questões em comum.
O primeiro bloco temático é composto pelos quatro capítulos ini-
ciais e busca representar os três pilares mais importantes no debate do
desenvolvimento econômico atual: o social, o meio ambiente e as ações de
governança. No contexto desta obra, o primeiro pilar – social – é repre-
sentado por capítulos que abordam aspectos sobre o trabalho e a gestão de
pessoas no agronegócio, abordando questões sobre satisfação no trabalho,
cultura e clima organizacional em propriedades e empresas rurais. Os as-
pectos relacionados ao segundo pilar estão diretamente ligados ao social,
uma vez que é no ambiente que as pessoas desempenham suas atividades
prossionais e cotidianas. Ao buscar a sustentabilidade ambiental atrela-
da ao desenvolvimento social é fundamental que haja equilíbrio entre as
necessidades das pessoas e os ativos do meio ambiente, e neste sentido
são apresentados capítulos que tratam da questão hídrica e da preserva-
ção ambiental, elementos que geram grandes debates principalmente no
contexto da produção agropecuária. E há também um terceiro pilar que
se insere nesta dinâmica, representado pelas ações de governança das orga-
nizações. As decisões e estratégias demandam cada vez mais transparência,
prossionalização e compliance, e neste sentido a primeira parte desta obra
se encerra com um capítulo que trata das ações de governança alinhada às
práticas sustentáveis no agronegócio.
A segunda parte desta coletânea é composta por um bloco de seis
capítulos (Cap. 5, Cap. 6, Cap. 7, Cap. 8, Cap. 9, Cap. 10 e Cap. 11) e
apresenta resultados teóricos e práticos de trabalhos realizados sobre pro-
blemáticas que derivam da intersecção de fatores associados aos três pilares
representados na primeira parte desta obra: social, ambiental e governança.
Ou seja, este bloco enfatiza a relação da infraestrutura tecnológica e da
transformação digital junto as novas formas de diversicação da produção
agropecuária e dos meios de comercialização e consumo. Seus efeitos atin-
gem todos os elos da cadeia produtiva, desde o aumento da produtividade,
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
31
surgimento de formas inovadoras de comercialização e consumo respon-
sável, todos estes fundamentais para o alcance da sustentabilidade. É nesta
parte da obra que são destacados os papéis dos principais atores envolvidos
diretamente na dinâmica das cadeias produtivas agroalimentares, sendo
eles os produtores, as agroindústrias, os fornecedores de insumos, os pres-
tadores de serviços e os consumidores nais.
A busca pela sustentabilidade se estende por todos os elos das cadeias
produtivas em sistemas agroalimentares e depende do desenvolvimento de
novos recursos tecnológicos e da proposição de práticas inovadoras, que
são produtos geralmente associados aos agentes de mercado, como apre-
sentado na segunda parte. Assim, a terceira e última parte desta obra con-
grega um bloco contendo os cinco últimos capítulos que abordam o papel
de outros atores adjacentes às cadeias, mas fundamentais para esta dinâmi-
ca, sendo estes: o Governo e a Academia. Não deve car apenas na mão do
mercado a responsabilidade pela proposição de novas tecnologias e inova-
ções que proporcionem sustentabilidade para os sistemas agroalimentares.
No cenário nacional, o poder público e as Universidades são extremamente
relevantes para garantir essa dinâmica, seja por meio de instituições como
a Embrapa, órgãos de extensão rural, institutos de pesquisa ou laboratórios
localizados nas principais Universidades do país.
No que se refere ao agente público, a terceira parte contém dois
capítulos que expõem discussões sobre programas governamentais de fo-
mento ao desenvolvimento rural, como auxílio a comercialização e ali-
mentação escolar. A responsabilidade acadêmica é representada aqui por
outros três capítulos que trazem iniciativas do Programa de Pós-Graduação
em Agronegócio e Desenvolvimentismo, da Faculdade de Ciências e
Engenharia, UNESP/Tupã. Assim, a última parte desta obra consolida o
o condutor que estabelece as relações com os demais eixos – dos pilares
fundamentais e dos agentes econômicos, não negligenciando o papel do
Governo e da Universidade, que devem atuar sinergicamente em função
do desenvolvimento rural atrelado aos ODS, seja fornecendo evidências
cientícas para a formulação de políticas públicas, seja na relevância do
nanciamento público para as pesquisas que são desenvolvidas.
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
32
E com esse portifólio colaborativo de pesquisas teóricas e práticas
esta obra ganha corpo e seguirá na jornada de promover a disseminação
do conhecimento cientíco acessível e de qualidade, prezando pelos es-
forços conjuntos de todos os envolvidos no PGAD, sejam eles docentes
ou discentes. Com muita gratidão saudamos as importantes reexões aqui
apresentados, resultantes de estudos que convergem distintos domínios
cientícos para contribuir interdisciplinarmente com a evolução do agro-
negócio brasileiro.
Aproveitem a leitura.
Ana Elisa LOURENZANI,
Sandra Cristina de OLIVEIRA,
Wagner Luiz LOURENZANI e
Fábio Mosso MOREIRA
Construindo ciência em cooperação internacional acadêmico-cientíca
pArte i
35
cApítulo 1
O estresse nanceiro e a satisfação
no trabalho: uma análise entre
agricultores familiares do município
de Araçatuba (SP)
Fernanda Cristina PEREIRA 1
Luís Roberto Almeida GABRIEL FILHO 2
Renato Dias BAPTISTA 3
Programa de Pós-Graduação em Agronegócio e Desenvolvimento (PGAD), Faculdade de Ciências e
Engenharia, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil,
e-mail: fernanda.c.pereira@unesp.br
Departamento de Gestão, Desenvolvimento e Tecnologia, Faculdade de Ciências e Engenharia, Universidade
Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil, e-mail: timoteo.queiroz@
unesp.br.
Departamento de Gestão, Desenvolvimento e Tecnologia, Faculdade de Ciências e Engenharia, Universidade
Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil, e-mail: rd.baptista@unesp.br.
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-534-6.p35-62
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
36
introdução
As questões nanceiras exercem alta inuência na vida das pessoas,
sendo o dinheiro considerado uma fonte de estresse para 66% das pessoas
(APA, 2022). No Brasil, em 2021, 52% das pessoas caram estressadas
com as despesas e compromissos nanceiros (FSB, 2021). Algumas ativi-
dades, por causa de suas peculiaridades, apresentam maior instabilidade
nanceira, como é o caso da agricultura familiar.
A atividade agrícola familiar brasileira enfrenta vários desaos, tais
como a heterogeneidade dentro da própria categoria, a desigualdade de
renda, a capitalização, os sistemas produtivos e a variação do porte das
propriedades (Aquino; Gazolla; Schneider, 2018; Batalha; Souza Filho,
2013; Pereira, 2021; Preiss et al., 2020). Esses fatores, acompanhado das
utuações climáticas, das baixas qualicações dos agricultores, do cenário
político e econômico incerto e das variações nos custos de produção, tor-
nam o setor instável.
Segundo Heo, Lee e Park (2020), a agricultura familiar tem carac-
terísticas peculiares de mercado, que podem gerar insegurança nanceira.
Esta instabilidade coloca os agricultores numa situação nanceira única
e, muitas vezes, precária (Sprung, 2021). É importante ressaltar que essas
diculdades nanceiras por longo prazo podem causar estresse nanceiro.
Essa característica de estresse representa uma resposta corporal que envol-
ve aspectos físicos, psicológicos e biológicos à percepção de desequilíbrio,
incertezas, riscos na gestão dos recursos nanceiros pessoais e familiares,
assim como dívidas (Heo; Cho; Lee, 2020).
A satisfação com a vida e especialmente com o trabalho dos agricul-
tores familiares pode ser afetada pelo estresse nanceiro (Heo; Lee; Park,
2020). Para Besser e Mann (2015), a questão nanceira, o tamanho da
propriedade, o tipo e a forma de produção, inuenciam a satisfação com
o trabalho agrícola. Além disso, o estresse nanceiro é um dos principais
motivos de abandono do trabalho no campo (Waldman et al., 2021).
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
37
Embora a agricultura familiar no Brasil seja relevante e o estresse
nanceiro acarrete diversos problemas, não há estudos nacionais sobre a
inuência de estressores nanceiros no nível de estresse dos agricultores
familiares e se estes afetam o nível de satisfação deles. O estudo de Roy
e Tremblay (2015) realizado no Canadá, destaca que a carga de trabalho
tem sido considerada uma fonte de estresse principalmente quando as de-
mandas da propriedade confrontam com as exigências dos papeis de pai e
cônjuge. Segundo os autores, ocorre um elevado fator de estresse quando
o agricultor se defronta com as necessidades de provisão, bem como pela
concepção de ser nanceiramente responsável pela família.
Diante desses aspectos, o presente capítulo objetiva analisar uma
lista de estressores nanceiros e sua inuência no nível de estresse e na
satisfação com o trabalho de agricultores familiares do município de
Araçatuba, no estado de São Paulo. Especicamente, visa comparar com-
portamentos e percepções nanceiras entre agricultores familiares com
estresse e sem estresse.
Os resultados apresentados neste capítulo contribuem de forma
cientíca, econômica e social ao focar o estresse nanceiro dos agricultores
familiares. Primeiramente, o estresse nanceiro é um tema interdisciplinar
que abarca diversas áreas do conhecimento (psicologia, siologia, sociolo-
gia, neurociência, entre outras). A compreensão dos impactos dos estres-
sores nanceiros no nível de estresse e na satisfação dos agricultores fami-
liares, contribui cienticamente para a elaboração de protocolos de saúde
para o manejo do estresse e para a elaboração de programas educacionais
que fomente uma cultura nanceira. Contribui socialmente ao analisar um
fenômeno de alto impacto, porém, pouco estudado numa população re-
levante economicamente, mas que apresenta vulnerabilidades em diversos
aspectos. O conhecimento e manejo do estresse nanceiro pode proporcio-
nar uma melhor qualidade de vida e isso tem reexos na produtividade do
agricultor familiar, contribuindo para seu desenvolvimento socioeconômi-
co e sua permanência no campo.
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
38
Tais premissas vão ao encontro dos Objetivos de Desenvolvimento
Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU, 2015).
Em especíco aos ODS de número 2 – fome zero e agricultura susten-
tável; ODS 3 – saúde e bem-estar e ODS 8 – trabalho decente e cresci-
mento econômico.
AgriculturA fAmiliAr
No Brasil, a agricultura familiar é a atividade agrícola desenvolvida
em pequenas propriedades rurais, demarcadas por até quatro módulos s-
cais, com mão de obra preeminentemente familiar e a atividade exercida na
propriedade deve ser a principal fonte de renda da família (Brasil, 2021).
A agricultura familiar, em algumas regiões, é o setor que apresenta
maior potencial de vulnerabilidade social e econômica (Preiss et al., 2020),
pois seus integrantes, em sua maioria, são compostos por pessoas de faixa
etária mais avançada, baixo nível educacional, têm diculdades de acesso
a serviços de saúde, assim como de assessoria técnica e a empréstimos ban-
cários; fatores que situam a agricultura familiar em relativa desvantagem
quando comparado a grandes produtores.
Enquadram-se como agricultura familiar 3.897.408 estabelecimen-
tos agropecuários, que possuem área média de 21 hectares. Entretanto,
26,6% dos estabelecimentos possuem de um a cinco hectares de área
(IBGE, 2019). A atividade econômica predominante nos estabelecimen-
tos rurais da agricultura familiar é a pecuária e criação de outros animais
(48,82%), seguida por lavouras temporárias (32,60%), lavouras perma-
nentes (11,09%), entre outras de menor expressividade (IBGE, 2019).
Os agricultores familiares apresentam características socioeconômi-
cas que os distinguem das demais categorias. Em relação ao nível escolar,
18,06% declararam não saber ler e escrever, 66,85% possuem o ensino
fundamental, 12,39% possuem o ensino médio e o ensino superior apenas
2,70% dos agricultores (IBGE, 2019). O nível educacional impacta na
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
39
produtividade da propriedade, pois, como arma Lindoso et al. (2010), o
nível de escolaridade proporciona independência ao agricultor na busca de
informações disponíveis nos diversos meios, que podem instrumentalizá-
-lo nas tomadas de decisões. Clune e Downey (2022) acrescentam que a
falta de habilidade empreendedora dos agricultores familiares é consequ-
ência de fatores culturais mais amplos, que afetam a capacidade de tomada
de decisões assertivas.
estresse em Agricultores e estressores finAnceiros
Em diversos países, a agricultura tem sido considerada uma das ati-
vidades desencadeadoras de altos níveis de estresse, depressão e suicídio
(Henning-Smith et al., 2020; Keeney; Hernandez; Meng, 2020; Kolstrup
et al., 2013; Yazd; Wheeler; Zuo, 2019).
A agricultura é afetada por diversos fatores externos que estão além
do controle dos agricultores, tais como: alterações climáticas, economia,
pragas nas plantações, doenças do rebanho, altos custos de produção, osci-
lações no preço de venda dos produtos, entre outros, que geram incertezas
no agricultor e aumentam o risco de estresse e de doenças mentais (Heo;
Lee; Park, 2020; Yazd; Wheeler; Zuo, 2019). Ademais, em muitos casos
existem dívidas, longas jornadas de trabalho, solidão e estresse. O agri-
cultor tem que lidar com muitos fatores que estão fora do seu controle
(Finnigan, 2019).
O estresse é um conceito interdisciplinar e entendido como um
processo avaliativo que desencadeia respostas psicosiológicas que vi-
sam à adaptação de uma pessoa às situações percebidas como estressoras.
Quando os estressores são avaliados como excedendo às capacidades do
indivíduo de lidar com eles ou quando a exposição é reiterada ou longa
(Figura 1), pode acarretar prejuízos à saúde física e psicológica (APA,
2014; Lazarus; Folkman, 1987; Lipp; Lipp, 2020; McEwen; Wingeld,
2003; Pereira, 2023).
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
40
Figura 1 – Ciclo do estresse
Fonte: Elaborada pelos autores, com base em Lipp (2005).
Estressores são situações ambientais ou condições crônicas de estí-
mulo que são avaliadas como ameaçadoras ao bem-estar físico ou psicoló-
gico (Calvo; Gutiérrez-Garcia, 2016). Os estressores podem ser avaliados
como: irrelevantes, quando não ameaçam o indivíduo; positivos, quando
geram motivação na pessoa; ou estressantes, quando provocam malefícios
ao indivíduo (Alhurani et al., 2018).
O estresse nanceiro surge quando, de forma reiterada, o indivíduo
ou a família não consegue cumprir as obrigações nanceiras, o que pode
resultar em sintomas de ordem física, mental e comportamental (Friedline;
Chen; Morrow, 2021). A Figura 2 resume os principais sintomas do estres-
se. O estressor nanceiro envolve a diminuição ou perda de renda, ativos,
desemprego (Park; Kim, 2018), insegurança habitacional, dívidas (Kelley
et al., 2023), entre outros fatores.
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
41
Figura 2 – Sintomas do estresse
Fonte: Elaborada pelos autores, com base em: APA (2014); Bryant, Garnham (2014) e Lipp (2005).
Estudos realizados em países como Estados Unidos, Austrália,
França, Finlândia, Dinamarca, Índia, entre outros, retratam fatores nan-
ceiros como um dos principais estressores da atividade agrícola familiar
(Besseler; Stallones, 2020; Furey et al., 2016; Hagen et al., 2021; Keeney;
Hernandez; Meng, 2020; Olowogbon et al., 2018; Rudolphi; Berg; Parsaik,
2020; Sprung, 2021; Waldman et al., 2021).
Questões relacionadas às nanças dos agricultores, incluem dívidas,
diculdades de obtenção de crédito, aumento nos custos de produção e
variação no preço de venda dos produtos e têm sido citados pelas pesquisas
com alto potencial de desencadear estresse nos agricultores. Os pequenos
agricultores não conseguem exercer controle total sobre as decisões nan-
ceiras e gestão da propriedade (Heo; Lee; Park, 2020), pois a atividade está
sujeita a diversas intercorrências climáticas e macroeconômicas, como por
exemplo, secas e escassez de água (Fennel et al., 2016) que por sua vez, oca-
sionam aumento dos custos de produção e queda na quantidade colhida
(Henning-Smith et al., 2020).
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
42
A satisfação com o trabalho4 é a percepção afetiva (positiva ou nega-
tiva) que uma pessoa tem em relação aos aspectos do seu trabalho. É um
fenômeno multifacetado, resultado da interação entre as expectativas indi-
viduais do trabalhador e as condições do trabalho (Hansen; Straete, 2020;
Majdabadi et al., 2023). Já a situação nanceira é uma condição relevante
que inuencia na satisfação com o trabalho, pois o nível de satisfação é
uma equação entre o que se deseja e valoriza e o que se obtém do trabalho
(Locke, 1976). Hansen e Straete (2020) armam que, se a compensação
econômica estiver de acordo com os objetivos desejados, os trabalhadores
carão satisfeitos. Embora a satisfação com o trabalho envolva diversos as-
pectos, esta pesquisa concentra-se apenas no fator nanceiro da satisfação
com o trabalho do agricultor familiar.
os impActos dos estressores finAnceiros
Os dados utilizados neste capítulo foram coletados no município de
Araçatuba, localizado na região noroeste do estado de São Paulo (SP). É
um recorte de uma dissertação que visou analisar os níveis de estresse e os
estressores em agricultores familiares. A escolha do município deu-se em
razão de ser o maior da região geográca e pela importância econômica que
a agricultura exerce no município. É um município de aproximadamente
duzentos mil habitantes (IBGE, 2022) e conta com 776 estabelecimentos
que se enquadram como agricultura familiar (IBGE, 2019). Desse total,
286 estabelecimentos são de propriedade dos próprios agricultores.
Para medir o nível de estresse foi utilizado o Inventário de Sintomas
de Stress para Adultos de Lipp (ISSL). Trata-se de um inventário elaborado
em português por Lipp e validado por Lipp e Guevara (1994). O inventá-
rio é formado por três quadros referentes às fases do estresse e permite in-
ferir em qual fase de estresse a pessoa se encontra: alerta, resistência, quase
Salienta-se a diferença entre satisfação com o trabalho e satisfação com a vida. A primeira relaciona-se à
satisfação com o conteúdo, tarefas, renda e benefícios proporcionados pelo trabalho. Já a segunda, refere-se
aos demais aspectos da vida, sendo o trabalho apenas um deles (Besser; Mann, 2015; Herrera; Gerster-
Bentaya; Knierim, 2018).
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
43
exaustão e exaustão. Também permite vericar a prevalência dos sintomas,
quer sejam físicos ou psicológicos. A avaliação é feita por meio de tabelas
padronizadas para esse instrumento que transformam os dados brutos em
porcentagem. De acordo com o manual do inventário, o ISSL apresenta
alfa de Cronbach de 0,91 para escala geral.
Para identicação e mensuração dos estressores nanceiros foi ela-
borado um questionário baseado em uma revisão de literatura em artigos
arbitrados nas bases de dados Scopus, Web of Science e PubMed. O ques-
tionário foi validado por prossionais ligados à atividade agrícola familiar
(agrônomos da secretaria de agricultura do município e presidentes das
associações rurais) e por psicólogos.
O questionário continha os principais estressores nanceiros iden-
ticados na revisão de literatura como: renda mensal irregular e ou in-
certa; diculdades em obter nanciamento; dívidas com nanciamento
agrícola e outras e aumento dos custos de produção e variação no preço
de venda do produto. O questionário foi elaborado em escala Likert de
cinco pontos, no qual os agricultores deveriam assinalar: (0) não gera
estresse; (1) muito pouco estresse; (2) pouco estresse; (3) estresse mode-
rado e (4) muito estresse.
A amostra foi composta por 46 participantes (n=46), contatados por
meio dos presidentes das associações rurais do município. Destes, 57% são
do sexo masculino e 43% do sexo feminino. Dos participantes, 30% ti-
nham idades de 61 a 70 anos, 26% de 41 a 50 anos e 20% de 31 a 40 anos.
A média de idades cou em 53,23 anos e desvio padrão (DP 12,60). Em
relação ao estado civil, 76% eram casados, 9% solteiros, 9% viúvos e 7%
declararam a opção “outros”. A maioria da amostra, 59% foi composta por
pessoas que se identicaram como pele branca, 22% pele parda, 11% pele
preta e 9% pele amarela. Quanto ao nível de escolaridade, 57% possuíam
até o ensino fundamental, 26% o ensino médio e 17% ensino superior.
Sobre o tamanho da propriedade, 54% dos respondentes possuíam
propriedade de 10 a 20 hectares e as atividades predominantes eram: a
criação de gado e o cultivo de verduras, frutas e soja. A renda familiar au-
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
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ferida na atividade agrícola, para 9% era de até um salário-mínimo, 35%
dos respondentes eram de um a dois salários-mínimos, 15% tinham renda
dois a três salários-mínimos, 22% de três a cinco e 19% acima de cinco
salários-mínimos.
A amostra analisada no município de Araçatuba-SP apresentou con-
sideráveis níveis de estresse (Figura 3), sendo 34,8% na fase de alerta/alar-
me (primeira fase de estresse) e 28,3% na fase de resistência (segunda fase).
Embora a maioria da amostra apresente estresse nas duas fases iniciais,
ambas são acompanhadas por sintomas físicos e psicológicos que podem
comprometer a qualidade de vida do agricultor familiar. Quase 20% estão
nas fases mais altas do estresse, o que denota maiores atenções. Segundo
Lipp (2005), até a fase de quase-exaustão a pessoa consegue lidar com os
sintomas, já na fase de exaustão, a ajuda de médicos e psicólogos se faz ne-
cessária. Os sintomas físicos (47,8%) predominaram na amostra analisada.
Figura 3 – Níveis de estresse e sintomatologia da amostra
Fonte: Elaborado pelos autores (2024).
Os níveis de estresse dos agricultores familiares do município de
Araçatuba-SP são similares aos encontrados nos Estados Unidos por
Rudolphi, Berg e Parsaik (2020), no qual obtiveram os seguintes níveis
de estresse: sem estresse (29,4%), leve (35,9%), moderado (18,2%) e alto
(16,5%). Outros estudos realizados em países como Irlanda (Furey et al.,
2016), Finlândia (Kallioniemi et al., 2016), Estados Unidos (Kearney et al.,
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
45
2014; Keeney; Hernandez; Meng, 2020; Sprung, 2021; Waldman et al.,
2021), Austrália (Wheeler; Zuo; Loch, 2018) e França (Truchot; Andela,
2018), encontraram estresse moderado na maioria da amostra analisada. Já
o nível alto de estresse foi encontrado em estudos realizados na Austrália
(Gunn et al., 2022), no Canadá (Jones-Bitton et al., 2019; Hagen et al.,
2021), no Vietnã (Hoang et al., 2020. O questionário de identicação e
mensuração dos estressores revelou os estressores nanceiros que mais cau-
savam estresse nos agricultores familiares, conforme Quadro 1.
Quadro 1 – Estatística descritiva dos estressores nanceiros
Sigla Estressor nanceiro Média
F1 Renda mensal irregular e ou incerta 3,6
F2 Diculdades em obter nanciamento agrícola e outros 2,4
F3 Dívidas com nanciamento agrícola e outros 1,3
F4 Aumento dos custos de produção ou variação no preço de venda do produto 3,8
Fonte: Elaborada pelos autores (2024).
Dois estressores demonstraram exercer maiores preocupações nos
agricultores analisados, com médias mais altas. A Figura 4, mostra a dis-
persão das respostas em relação à média. Tal análise permite visualizar de
uma forma conjunta o comportamento de toda a entrevista realizada. Na
Figura 4 é possível ver certo padrão de respostas de F1 e F4, que culminou
na elevada média de ambos os estressores.
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
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Figura 4 – Dispersão das respostas em relação à média
Fonte: Elaborado pelos autores (2024).
Dos quatros estressores nanceiros avaliados pelos agricultores fa-
miliares, o de maior impacto foi a variação dos custos de produção e o
preço de venda dos produtos (3,8), numa pontuação máxima de 4. Estes
fatores impactam no resultado nanceiro da fazenda (Jahangiri; Molaeifar;
Rajabi, 2020; Keeaney; Hernandez; Meng, 2020; Wheeler, Zuo; Lock,
2018). Para produzir, quer seja na lavoura ou na pecuária, o agricultor
deve fazer investimentos, a um alto custo, entretanto, sem a garantia de
quanto valerá o produto no momento da venda, pois os valores são re-
gulados pelo mercado (demanda e oferta). O resultado encontrado em
Araçatuba é semelhante à pesquisa realizada por Liang et al. (2021), nos
Estados Unidos, que apontou o declínio nos preços de venda como um
fator gerador de estresse.
Isso reete no segundo estressor nanceiro, a renda mensal irregular
ou incerta (3,6). A irregularidade da renda é ocasionada pela sazonalidade
da produção, doenças no rebanho, pragas, preço regulado pelo mercado,
entre outros. A imprevisibilidade da renda mensal compromete o orça-
mento da propriedade e consequentemente da família. Isso faz com que
26% atrasem o pagamento das contas e 10,8% procurem trabalhos fora da
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
47
propriedade para complementar a renda. Segundo Logstein (2016), a di-
minuição da renda agrícola impacta diretamente no aumento das queixas
mentais. Ainda segundo o autor, quanto maior for a proporção da renda
agrícola no total da renda familiar, maior será o estresse provocado pela
queda da renda.
Diculdades em obter nanciamento agrícola (2,4) foi o terceiro
estressor nanceiro. Dos entrevistados, 48% armaram possuir algum tipo
de nanciamento agrícola e 78% relataram encontrar diculdades na ob-
tenção. O nanciamento, principalmente por meio do Programa Nacional
de Fortalecimento da Agricultura (Pronaf), é uma forma de gerar uxo
de caixa para fazer investimentos. Entretanto, os agricultores enfrentam
muita burocracia, extensa documentação e a exigência de bens em garantia
para a obtenção do nanciamento. Os agricultores com propriedades me-
nores, baixa renda e sem bens, enfrentam mais diculdades na obtenção
de crédito agrícola. Essa diculdade na obtenção de nanciamento causa
muita angústia nos agricultores (Pankey; Bandyopadhyay, 2019).
Dívidas com nanciamentos (1,3) se mostrou um estressor de bai-
xo impacto para os agricultores analisados. Dos respondentes, 50% de-
clararam ter algum tipo de dívida. Agricultores com dívidas têm maiores
níveis de estresse e menor nível de satisfação com o trabalho (Waldman
et al., 2021), além de desencadear desentendimentos entre os cônjuges
(Friedline; Chen; Morrow, 2021).
Todos os estressores nanceiros mencionados anteriormente impac-
tam diretamente na renda nal dos agricultores familiares. Entre os di-
versos fatores que predispõem ao estresse, a renda é considerada um fator
que gera consideráveis níveis de estresse (Orpana; Lemyre; Gravel, 2009).
Anova considerando-se renda/estresse e posterior teste de Tukey revelou
diferença signicativa (Quadro 2) entre a classe de agricultores estressados
e não estressados.
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
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Quadro 2 – Renda versus estresse usando método Tukey e 95% de
conança
Apresenta Estresse? N Média Agrupamento
o 8 3,875* A
Sim 38 2,158* B
Fonte: Elaborada pelos autores (2024). *Indica diferença signicativa entre os valores observados.
Os que não apresentam estresse ganham quase o dobro em compa-
ração aos que apresentam algum nível de estresse, conforme a Figura 5.
Além de pessoas de baixa renda estarem mais expostas a diversos estres-
sores, tal fator limita na busca de estratégias de enfrentamento ao estresse
(Demenech et al., 2022; Hobkirk; Krebs; Muscat, 2021), como o suporte
social e tratamento psicológico e médico. A renda mostrou-se um fator de
impacto no estresse dos agricultores analisados.
Figura 5 – Renda média mensal: comparativo entre Agricultor Familiar
(AF) com estresse dos sem estresse
Fonte: Elaborado pelos autores (2024).
A renda do agricultor é afetada por diversos fatores, como nível edu-
cacional, tamanho da propriedade, tipo de atividade e fatores incontro-
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
49
láveis, como questões econômicas e climáticas (Kohlbech et al., 2023) e
assim como na população geral, a renda afeta o estresse dos agricultores
familiares (Feng; Ji; Xu, 2015; Guan et al., 2022). Possuir outra fonte de
renda (36% da amostra) pode servir como um moderador do estresse -
nanceiro; ainda mais quando essa fonte de renda é de aposentadoria e ar-
rendamentos, que não sofrem oscilações.
Dados qualitativos levantados na entrevista com os agricultores
permitiram entender e comparar o perl comportamental de agriculto-
res familiares que apresentaram estresse daqueles que não apresentaram.
Observam-se fatores que inuenciam o desencadeamento do estresse re-
lacionado às nanças, outros que podem ser consequências do estresse e
ainda fatores que podem ser entendidos como moderadores do estresse.
Dentre os fatores que podem inuenciar o nível de estresse dos agri-
cultores familiares estão: não possuir outra fonte de renda, variação da ren-
da mensal durante o ano, diculdades em obter nanciamento e possuir
dívidas. A Figura 6 faz um comparativo das respostas entre os que apresen-
taram algum nível de estresse, daqueles que não apresentaram.
Depender exclusivamente da renda proveniente da propriedade pode
ser um fator gerador de estresse, pois a renda não é constante ao longo do
ano e os agricultores individuais não conseguem exercer controle total so-
bre os rendimentos da propriedade por fatores externos (Heo; Lee; Park,
2020). A porcentagem de agricultores com estresse que não possuem outra
fonte de renda é superior (65,79%) em relação aos que não tinham estresse
(34,2%). Os resultados da pesquisa mostram que o equilíbrio da renda
anual ocorre para a totalidade dos agricultores entrevistados sem estresse,
na qual, 100% declararam não haver oscilação da renda durante o ano.
Os com estresse, quase também em sua totalidade, têm comportamento
inverso, com variações da renda durante o ano (97,3%). Não ter renda su-
ciente para arcar com as obrigações nanceiras presentes ou futuras gera
insegurança nas famílias (Friedline; Chen; Morrow, 2021).
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
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Figura 6 – Fatores que inuenciam o estresse: comparativo entre AF com
e sem estresse
Fonte: Elaborada pelos autores (2024).
A oscilação anual da renda pode ocasionar acúmulo de contas e
dívidas. Dívidas levam ao estresse nanceiro (Brit, 2016; Feng; Ji; Xu,
2015; Heo; Cho; Lee, 2020). A pesquisa revelou que a quantidade de
pessoas estressadas com dívidas (55,26%) é bem maior das que não
possuem estresse (25%). Outrossim, a quantidade de agricultores com
estresse com diculdades em obter nanciamento agrícola é percentu-
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
51
almente superior (84,21%) ante 50% dos que não tinham estresse. O
nanciamento agrícola, permite ao agricultor investir em maquinário,
compra de fertilizantes, irrigação, entre outros, que podem aumentar a
produtividade da propriedade.
Alguns dados levantados para o capítulo podem ser considerados
como fatores moderadores do estresse. Os moderadores do estresse são fa-
tores ambientais ou características comportamentais das pessoas que po-
dem diminuir os efeitos negativos do estresse (Hirschle; Gondim, 2020).
Nos resultados, os moderadores, conforme Figura 7 são: ações para mini-
mizar o impacto da oscilação da renda e controlar os custos da proprie-
dade. São fatores que, quando bem empregados, contribuem para uma
melhor gestão da propriedade e melhoram a renda e consequentemente,
diminuem o estresse nanceiro.
A oscilação da renda mensal é uma realidade para 97% dos agricul-
tores com estresse e para minimizar isso, 28,95% fazem reserva nancei-
ra, 18,42% contenção de despesas, 10,52% fazem renda extra, que são
consideradas atitudes de enfrentamento. Entretanto, há uma discrepância
na atitude de atrasar as contas, pois 28,95% dos estressados praticam tal
comportamento, ante 12,5% dos sem estresse (Figura 4), o que demonstra
um comportamento mais assertivo dos sem estresse.
Outro comportamento que poderia minimizar as preocupações -
nanceiras é o controle dos custos da propriedade. O controle dos custos
gera uma melhor previsão nanceira, todavia, apenas 55,26% dos agricul-
tores com estresse o fazem, ante 87,5% dos sem estresse. Clune e Downey
(2022) reforçam que a falta de habilidade empreendedora dos agricultores
familiares é consequência da baixa escolaridade da maioria deles e impacta
nos resultados da propriedade.
A limitação nanceira das famílias5 torna-as mais vulneráveis ao es-
tresse (Dinterman; Katchova, 2018; Hagen et al., 2021), o que afeta a
satisfação com o trabalho (Guan et al., 2022). Observa-se na Figura 8,
O estresse na agricultura familiar atinge o (a) responsável pela propriedade e consequentemente todo
o contexto familiar envolvido na produção, gerando sofrimento no ambiente familiar e diculdades de
relacionamento conjugal e familiar (Friedline; Chen; Morrow, 2021; Sprung, 2021).
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
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uma divergência de percepção, dos agricultores familiares com estresse dos
sem estresse, em relação a satisfação no trabalho, visão de lucratividade da
atividade e pensamento de abandonar o campo.
Figura 7 – Fatores moderadores do estresse
Fonte: Elaborada pelos autores (2024).
A satisfação no trabalho inclui a visão positiva que uma pessoa tem
em relação ao seu trabalho e para os agricultores a renda e consequente-
mente o estresse advindo de fatores nanceiros são altamente impactantes
no nível de satisfação (Heo, Lee; Park, 2020; Herrera; Gerster-Bentaya;
Knierim, 2018; Majdabadi et al., 2022). Em relação ao grau de satisfação,
a maioria dos agricultores com estresse considera-se satisfeita com o traba-
lho, porém, deve-se destacar a atenção a baixa porcentagem (13,16%) dos
que se consideram muito satisfeitos em comparação a 50% dos sem estres-
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
53
se. Já o nível de insatisfação, teve pequena variação entre agricultores com
estresse (29,95%) dos agricultores sem estresse (25%). Os agricultores
com estresse são mais pessimistas em relação à lucratividade da proprie-
dade, pois para 55,26%, ela não é lucrativa, ante 25% dos sem estresse.
Os agricultores com estresse demonstram maior propensão a abandonar o
campo (Figura 8).
Figura 8 – Grau de Satisfação com o trabalho: comparativo entre AF
com estresse dos sem estresse
Fonte: Elaborada pelos autores (2024).
Apesar de a renda ser um fator relevante na satisfação com o traba-
lho, ressalta-se que há os benefícios não pecuniários que também inuen-
ciam na satisfação. Os benefícios sociais e o estilo de vida, a autonomia,
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
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entre outros, são fatores que promovem um equilíbrio na satisfação com o
trabalho do agricultor familiar.
considerAções finAis
O desenvolvimento socioeconômico sustentável de um sistema pro-
dutivo agroindustrial perpassa pela agricultura familiar. A agricultura fami-
liar é uma atividade social e econômica de grande relevância para diversos
países e entre eles, o Brasil. É responsável pela produção de alimentos e
geração de renda para diversas famílias. Como atividade econômica e labo-
ral, apresenta peculiaridades próprias que a distingue de outras atividades e
exige estudos especícos para a compreensão de sua dinâmica e elaboração
de estratégias que ajudem o seu desenvolvimento.
Assim como qualquer atividade laboral, a agricultura familiar gera
estresse em seus trabalhadores e mesmo a prevalência sendo nos níveis leve
e moderado, tais níveis já exigem certa atenção, pois afetam a qualidade
de vida e com o tempo podem evoluir para fases mais agressivas e causar o
comprometimento da saúde física e mental.
Como atividade econômica, a agricultura familiar apresenta uma
imprevisibilidade, pois depende de fatores climáticos, de mercado e pro-
dutivos para seu bom desempenho. Essa imprevisibilidade inuencia dire-
tamente na renda auferida no campo que pode comprometer a capacidade
de sustento da família. Diversos problemas nanceiros cercam os agricul-
tores familiares, no entanto, a irregularidade da renda, a oscilação dos cus-
tos de produção e a incerteza do valor da produção no momento da venda,
revelaram-se mais impactantes.
Agricultores com estresse apresentaram características (escolarida-
de, renda e diculdades na obtenção de nanciamento) e comportamen-
tos (controle dos custos de produção, reserva nanceira, entre outros)
diferentes dos agricultores sem estresse. Tais diferenças podem ser tanto
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
55
uma consequência do estresse, como por outro lado, algo que contribua
para o estresse.
Embora o estresse nanceiro interra no nível de satisfação com o
trabalho, muitos agricultores declararam estarem satisfeitos. A forma de
lidar com os estressores e a percepção de satisfação com o trabalho está
associada à avaliação cognitiva e às estratégias de enfrentamento utilizadas
pelas pessoas.
A identicação de como os estressores nanceiros afetam os agri-
cultores familiares é a primeira etapa para a elaboração de protocolos de
tratamento de estresse e para viabilizar programas de educação nanceira
especícos para esse grupo.
Essas ações contribuem com o desenvolvimento e a melhoria da
competitividade dos agricultores familiares (um dos objetivos do Programa
de Pós-graduação em Agronegócio e Desenvolvimento – PGAD). Além de
contribuir com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável ao promover
saúde e bem-estar (manejo do estresse); trabalho decente e crescimento
econômico (menores queixas de saúde física e mental causadas pelo estres-
se e letramento nanceiro que ajudará na gestão da propriedade) e fome
zero e agricultura sustentável (permanência dos agricultores no campo e
produção de alimentos).
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63
cApítulo 2
As interfaces entre gestão de pessoas,
cultura e redes em sistemas agrários
Fernanda YAMAUCHI 1
Timóteo Ramos QUEIROZ 2
Renato Dias BAPTISTA 3
Programa de Pós-Graduação em Agronegócio e Desenvolvimento (PGAD), Faculdade de Ciências e
Engenharia, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil,
e-mail: fer.yamauchi@gmail.com.
Departamento de Gestão, Desenvolvimento e Tecnologia, Faculdade de Ciências e Engenharia, Universidade
Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil, e-mail: timoteo.queiroz@
unesp.br.
Departamento de Gestão, Desenvolvimento e Tecnologia, Faculdade de Ciências e Engenharia, Universidade
Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil, e-mail: rd.baptista@unesp.br.
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-534-6.p63-76
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
64
introdução
O setor do agronegócio desempenha um papel fundamental na
economia brasileira, contribuindo para a geração de empregos e exporta-
ções, sendo responsável por um quarto da fatia do Produto Interno Bruto
(PIB) nacional. No entanto, a interface entre o agronegócio e as práticas
de Gestão de Pessoas (GP) apresenta desaos signicativos que precisam
ser superados para alcançar um desenvolvimento sustentável. A escassez de
mão de obra qualicada, as condições de trabalho no campo e a sazonali-
dade das atividades são algumas das questões que exigem atenção.
No cenário dinâmico do agronegócio brasileiro, a análise das
práticas de GP revela uma intersecção crucial com os Objetivos de
Desenvolvimento Sustentável (ODS) estabelecidos pelas Nações Unidas.
A GP em empresas agrícolas não se restringe apenas a questões operacio-
nais, mas abrange um espectro mais amplo que abarca a responsabilidade
social, econômica e ambiental.
No que diz respeito à promoção de condições de trabalho seguras
e saudáveis para os colaboradores rurais, o investimento em treinamento
para aumentar a eciência e a adoção de práticas inclusivas contribuem
diretamente para o ODS 8 que aborda sobre – “Trabalho Decente e
Crescimento Econômico”.
A análise das práticas de GP não pode prescindir do estudo das re-
des, uma vez que as organizações são inuenciadas pelo entorno. Esse grau
de inuência representa um elemento essencial para entender a dinâmica
das organizações nos diversos setores. Estilos de gestão são profundamente
inuenciados por fatores culturais, sejam organizacionais ou locais. A cul-
tura também possui inuência no comportamento das equipes de trabalho
e nas decisões estabelecidas por essas organizações. É necessário compreen-
der como os valores, crenças e normas reetem nas práticas de GP e como
elas podem promover um ambiente de trabalho saudável e produtivo.
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
65
A teoria das redes sociais, conforme desenvolvida por Granovetter
(2007), sugere que os laços estabelecidos nas redes podem ter um papel
crucial na disseminação de informações e na formação de conexões pros-
sionais. No setor de agronegócios, onde a colaboração e a troca de conhe-
cimento são vitais, é preciso entender como as redes sociais podem facilitar
ou dicultar as práticas de GP. Essas redes podem criar canais informais de
comunicação, acelerar a difusão de melhores práticas e até mesmo impac-
tar a inovação no setor.
Portanto, este capítulo tem como objetivo principal analisar as
práticas de GP no contexto do agronegócio brasileiro, considerando
os desaos e oportunidades à luz dos Objetivos de Desenvolvimento
Sustentável, especicamente o ODS 8, uma vez que está apresenta vín-
culos com a geração de emprego decente, inovação numa inter-relação
com a cultura e a dinâmica das redes sociais, possibilitando insights para
as organizações do agronegócio.
interfAces entre culturA, redes e gestão de pessoAs
Segundo Bohlander e Snell (2015), é possível observar que a GP
assumiu um papel estratégico, suplantando a tradicional função de suporte
e constituindo uma competência organizacional essencial, uma vez que as
pessoas são as principais protagonistas na consecução de resultados, já que
apresentam um potencial na produção do conhecimento e na inovação.
É importante destacar que segundo Pedraza-Rodriguez et al. (2023)
diferentes elementos culturais têm um efeito positivo no resultado da ino-
vação. Esse resultado sugere esforços ativos dos gestores visando desenvol-
ver uma cultura de inovação baseada em melhores práticas em detrimento
das tradicionais. Obviamente, as empresas necessitam de novas capacida-
des tecnológicas para alcançar vantagens competitivas, mas também re-
querem a adoção de sistemas de crenças, normas e regras para considerar a
inovação como um ativo chave.
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
66
Em síntese, a GP não deve ter apenas um papel tradicional, mas
sim, ampliar e constituir as competências essenciais ao alcance dos objeti-
vos organizacionais e individuais; as pessoas são valiosas e constituem uma
fonte de vantagem competitiva. As políticas e práticas de GP precisam
contribuir para um maior bem-estar, permitindo maior realização pessoal
e prossional. Essas ações reduzem o turnover e geram maior índice de sa-
tisfação no trabalho, destacando como estimular valores compartilhados e
a retenção dos funcionários (Pham et al., 2023; Fiusa, 2008).
A relevância e o reconhecimento das interações informais presentes
nas organizações têm adquirido importância crescente. Como resultado,
surgiram estudos que abordam as interseções entre redes sociais e organiza-
ções (Lazzarini, 2008). De acordo com Granovetter (2007), as atividades
sociais são fundamentais na conguração das ações econômicas.
A teoria das redes sociais surge com o objetivo de estabelecer uma
abordagem intermediária na caracterização das estruturas das interações
sociais na atividade econômica. Conforme a teoria das redes sociais, os
indivíduos não agem nem tomam decisões de forma isolada, como átomos
independentes, em vez disso, suas ações estão profundamente enraizadas
em sistemas complexos e contínuos de relações sociais (Granovetter, 2007).
Marteleto (2001) evidencia as redes sociais como constituídas por
conjuntos de participantes autônomos que compartilham de ideias e re-
cursos baseados nos mesmos valores, tornando-se sistemas de nós e elos a
partir de uma estrutura sem fronteiras geográcas.
As informações aqui apresentadas são alguns dos resultados de uma
pesquisa realizada junto ao Programa de Pós-Graduação em Agronegócio e
Desenvolvimento4. Essa pesquisa evidenciou a importância das formas de
relacionamento e trocas de informação entre os agricultores de amendoim
e agentes agrários com o objetivo de mapear as redes de informação sobre
a produção e as práticas de GP (Yamauchi, 2017).
Programa de Pós-Graduação em Agronegócio e Desenvolvimento (PGAD). Disponível em: https://www.
tupa.unesp.br/#!/ensino/pos-graduacao/programas/agronegocio-e-desenvolvimento/. Acesso em: 12 de
ago. 202.
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
67
Os dados obtidos para a conguração da rede social de trocas de
informações, (Figura 1), sobre a produção demonstraram a presença de
uma rede composta por sub-redes, onde a conexão dessas sub-redes é feita
por agentes chaves, sendo o principal deles fornecedores de insumo e tam-
bém pelos próprios produtores (P1, P2, P4, P6 e P13). Assim, é possível
identicar nas redes de informação os elementos que podem impulsionar
a adoção de novas práticas de GP como sendo: os fornecedores de insumo
devido à centralidade ocupada na rede e também os principais produtores
(P1, P2, P4, P6 e P13).
Figura 1 – Rede de informação entre produtores e agentes de apoio
Fonte: Yamauchi (2017).
A segunda rede identicada (Figura 2) apresenta os relacionamentos
sobre as trocas de informação a respeito das práticas de GP, revelando que
estes relacionamentos são escassos e demonstram fragilidade na troca de
informações dessa temática, sobretudo, quando comparada com a rede de
troca de informações sobre a produção. Essas análises demonstraram que
as circunstâncias de produção e produtividade ocupam papel mais impor-
tante para os produtores do que as questões relacionadas às práticas de GP,
mesmo para os que realizam exportação, P4, por exemplo, nem aparece
como ator nessa rede. A análise da rede de GP permitiu constatar a insu-
ciência mostrada anteriormente quando questionado aos produtores quais
eram as estruturas e modelos utilizados.
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
68
Figura 2 – Rede de informação sobre gestão de pessoas
Fonte: Yamauchi (2017).
Disso decorre a constatação de que os produtores que têm papéis
mais centrais na rede são os mesmos que realizam trocas de informações
sobre as práticas de GP. Nesse sentido, ainda que existam leis referentes
ao trabalhador rural e inuenciem direta ou indiretamente suas práticas,
as trocas de informações sobre produção ainda são mais elevadas que as
voltadas para a GP.
Sob esse ponto de vista, a produção e a produtividade estão em um
nível de maior atenção, mesmo entre os produtores que interagem com o
mercado externo. Aqui concentra uma especial atenção aos dados obtidos,
uma vez que não foram identicadas estratégias de GP direcionadas às de-
mandas futuras que podem ser incorporadas às certicações para participa-
ção no mercado internacional. Nos aspectos ambientais, por exemplo, há
uma pressão para que as empresas desenvolvam iniciativas sucientes para
reduzir os obstáculos e aumentar as exportações (Onjewu et al., 2023).
Para Kremer e Talamini (2018) a partir da caracterização da cadeia
de produção e das respostas obtidas nos questionários (Figura 3), foi
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
69
possível identicar as redes de relações pessoais presentes nas transações
entre os diferentes elos dessa cadeia. Vericou-se que as relações sociais
entre os indivíduos de um determinado elo, como os produtores, mos-
traram-se mais sólidas, impulsionadas pela organização em cooperativas
que promovem a troca de experiências e informações entre os coopera-
dos. Isso ressalta a importância da cooperação nesse contexto, onde a
formação de laços sociais pode contribuir para o compartilhamento de
conhecimento e vantagens competitivas.
Nota-se, entretanto, que este mesmo padrão de atores centrais é ob-
servado na apresentação do caso anterior com produtores de amendoim,
onde alguns ocupam este papel central bem como o apoio das cooperativas
como atores importantes para disseminação e aumento de informações.
Nos elos associados ao fornecimento e comercialização, as relações
sociais parecem ser menos proeminentes. No entanto, é relevante notar
que as relações de amizade e parentesco também desempenham um papel
na criação dessas redes de relações sociais, especialmente entre os produ-
tores, onde existem vínculos familiares que inuenciam diretamente nas
conexões sociais (Kremer; Talamini, 2018).
Para Kremer e Talamini (2018) os resultados deste estudo podem ser
aplicados de forma ampla na gestão da cadeia produtiva do pescado. No
contexto do agronegócio, onde a troca de experiências entre os produtores
desempenha um papel crucial, as redes de relações sociais se tornam um
terreno fértil para a obtenção de vantagens competitivas e o compartilha-
mento de conhecimento. Identicar os indivíduos centrais na rede, que
têm acesso à informação e atuam como intermediários entre os agentes,
pode facilitar o processo de disseminação de conhecimento e o uso desses
indivíduos como facilitadores na transmissão de informações.
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
70
Figura 3 – Social Netchain da cadeia do pescado de Mundo Novo
Fonte: Kremer e Talamini (2018).
É importante observar também que a identicação dos agentes cen-
trais na rede social pode ser aproveitada para respaldar a implementação de
políticas públicas e programas de desenvolvimento na cadeia que esteja em
análise. Assim, como apresentado no estudo do amendoim e no mercado
de pescados, esses agentes têm o potencial de inuenciar positivamente
os demais como forma de referência, tornando mais fácil a aceitação e o
engajamento de todos os participantes da rede. A gestão ecaz da infor-
mação, portanto, contribui para o desenvolvimento sustentável (Kremer;
Talamini, 2018; Yamauchi, 2017).
Ao considerar que os agentes centrais possuem maior inuência em
relação aos demais atores, é necessário ressaltar o impacto destes agentes
para o fomento e disseminação das informações atreladas a temática da
GP, à importância das categorias sociais de conança e comprometimento
como elementos essenciais para a formação de uma estrutura sólida e de
governança ecaz. Isso implica que a existência de relações baseadas em
conança e comprometimento contribui para estabelecer uma rede mais
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
71
equilibrada, que é capaz de abordar assimetrias e potenciais conitos de
forma sinérgica, com papéis bem denidos e regras estabelecidas e aceitas
pelo grupo (Bertóli; Giglio; Rimoli, 2015).
Algumas categorias revelam fatores importantes (Quadro 1), ao con-
siderar a utilização da organização das redes sociais como proposta de fo-
mento e disseminação das informações e práticas de GP no agronegócio.
Quadro 1 – As categorias organizadoras das redes e alguns indicadores de
sua presença
Categorias Conceito
Dominante Conteúdo a ser
observado Alguns indicadores
Comprometimento Colocar-se à
disposição para
ações coletivas.
Atitudes e
ações para
atingir objetivos
coletivos, ou
ajudar outro ator,
mesmo que nada
se ganhe.
1. Participar regularmente de
reuniões e decisões.
2. Ajudar o outro, mesmo
sem benefício próprio.
3. Assumir responsabilidades
de ações conjuntas.
4. Cumprir os acordos e agir
para que outros também o
façam.
5. Existência de promessas de
continuidade relacional entre
os parceiros.
Conança Colocar-se na
dependência do
outro.
Atitudes e ações
nas quais o
sujeito se expõe
ao coletivo,
ou ca na
dependência
do outro, sem
recorrer a
mecanismos
formais de
controle.
1. Contar um problema, ou
uma fraqueza de seu negócio
para os outros.
2. Assumir uma
responsabilidade cuja
execução depende de outro.
3. Dispor seus recursos,
de qualquer natureza, para
serem usados por outros, sem
necessidade de salvaguardas.
4. Sinais que um ator acredita
e segue as regras e metas
estabelecidas na rede mesmo
sendo informais.
5. Sinais que um ator acredita
na integridade das pessoas que
fazem parte da rede.
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
72
Conguração da
Estrutura
Papéis mais
denidos e
posição dos
atores na rede.
A repetição,
frequência e
conteúdo das
relações entre
atores, nos dois
sentidos (receber
e enviar) indicam
as posições dos
atores na rede
e a estrutura de
relações da rede.
A convergência
de respostas
sobre papéis
indica clareza
de ações e da
posição de cada
um.
1. Conhecimento sobre
quantos atores participam da
rede.
2. Posição de alguns atores,
conforme quantidade de
relações citadas.
3. Sinais de dominância do
conteúdo dos laços (mais
comerciais, mais sociais, mais
políticos, mais institucionais).
Governança
Conjunto
(ou sistema)
de regras de
incentivos,
proteção de
recursos e de
controle do
comportamento.
Toda e qualquer
regra explícita,
ou implícita
que coloque
restrições ao
comportamento;
protege os
recursos, sejam
coletivos, ou
individuais e
incentiva as ações
coletivas.
1. Regras sobre admissão e
exclusão de atores do grupo
mais restrito.
2. Regras sobre penalidades.
3. Controle por autoridade,
ou reputação (de um ator
mais poderoso, por exemplo),
ou domínio de conhecimento.
4. Controles sociais (por
exemplo, existência de blogs,
sites comunitários e outros,
com informações sobre os
participantes).
Fonte: Bertóli, Giglio e Rimoli (2015).
A análise das redes sociais apresenta uma interconexão signicativa
entre as categorias de comprometimento, conança, conguração da es-
trutura e governança no contexto do agronegócio. O comprometimento,
destacado como a disposição para ações coletivas, está essencialmente
ligado à conança, onde os atores se colocam na dependência uns dos
outros. O comprometimento se manifesta em ações como participar re-
gularmente de reuniões, assumir responsabilidades conjuntas e cumprir
acordos, enquanto a conança se evidencia quando os atores se expõem
ao coletivo e conam na integridade dos outros participantes (Bertóli;
Giglio; Rimoli, 2015).
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
73
Partindo desses pressupostos, a análise de redes sociais se torna uma
ferramenta valiosa para compreender as dinâmicas intrínsecas do agrone-
gócio e como as práticas de GP podem ser disseminadas. Por meio dessa
análise, é possível identicar os atores centrais que desempenham papéis
inuentes na rede, entender como o comprometimento e a conança afe-
tam a colaboração, analisar a estrutura das relações e as regras que a go-
vernam. Com essas informações, a GP pode ser direcionada de maneira
mais ecaz, promovendo a cooperação, a transmissão de conhecimento e o
desenvolvimento sustentável do setor do agronegócio.
Já cultura organizacional, conforme abordada inicialmente, também
está interligada com a análise de redes sociais, uma vez que, a cultura de
uma organização inuencia profundamente como as políticas de GP são
percebidas e adotadas pelos colaboradores e organizações no agronegócio.
Compreender essa interação é crucial para a implementação e aprimora-
mento das práticas de GP.
Do mesmo modo, os ODS, notadamente o 8, mencionados ante-
riormente, também estão relacionados a essas questões, pois a dissemina-
ção de práticas de GP alinhadas é fundamental para promover uma abor-
dagem mais sustentável no agronegócio. Assim, redes sociais possuem um
papel vital na sensibilização e na colaboração em torno desses objetivos,
conectando prossionais e organizações que buscam contribuir para um
desenvolvimento mais sustentável.
Com base nesses princípios, a pesquisa proposta neste capítulo bus-
cou apresentar como esses elementos se conectam e como podem ser otimi-
zados para alcançar práticas de GP mais ecazes no agronegócio brasileiro.
A análise de redes sociais e a cultura organizacional são peças fundamentais
desse quebra-cabeça, contribuindo para a promoção de um setor mais sus-
tentável, colaborativo e eciente.
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
74
considerAções finAis
Este capítulo explorou a complexa interação entre a gestão de pesso-
as, cultura organizacional, redes sociais e o Objetivo de Desenvolvimento
Sustentável (ODS 8) no contexto do agronegócio brasileiro especicamen-
te considerando os diferentes sistemas agrários.
O agronegócio desempenha um papel crucial na economia do
Brasil, no entanto, enfrenta grandes desaos relacionados à gestão de pes-
soas, como a escassez de mão de obra qualicada e as condições de trabalho
no campo. Neste cenário dinâmico, as práticas de gestão de pessoas não se
limitam apenas a questões operacionais, mas abrangem a responsabilidade
social, econômica e ambiental.
A análise das redes revelou que as relações sociais desempenham um
papel vital na conguração das ações econômicas e podem ser um terre-
no fértil para o compartilhamento de conhecimento e vantagens compe-
titivas. Identicar os atores centrais na rede, comprometidos e conáveis,
pode facilitar a disseminação de informações e o uso desses indivíduos
como facilitadores na transmissão de conhecimento.
A cultura organizacional tem um papel essencial na forma como as
práticas de gestão de pessoas são percebidas e adotadas pelas organizações
e colaboradores. É necessário compreender essa interação para programar
políticas de gestão de pessoas mais ecazes.
Por m, alinhar as práticas de gestão de pessoas aos ODS, especi-
camente ao ODS 8 – Trabalho Decente e Crescimento Econômico – pode
contribuir na promoção do desenvolvimento sustentável no agronegócio,
e as redes sociais são vitais na sensibilização desses objetivos, conectando
prossionais e organizações com as práticas de gestão de pessoas mais co-
laborativas e sustentáveis.
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
75
referênciAs
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Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
76
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Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Tupã, 2017. Disponível em:
http://hdl.handle.net/11449/151079. Acesso em: 18 set. 2023.
77
cApítulo 3
Águas residuais agroindustriais:
um dos desaos do Objetivo de
Desenvolvimento Sustentável 6
Maiara Aparecida Pessoa FRIGULIO 1
Felipe André dos SANTOS 2
Juliane Cristina FORTI 3
Programa de Pós-Graduação em Agronegócio e Desenvolvimento (PGAD), Faculdade de Ciências e
Engenharia, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil,
e-mail: ma.frigulio@unesp.br.
2 Departamento de Engenharia de Biossistemas/Faculdade de Ciências e Engenharia, Universidade Estadual
Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil, e-mail: felipe.andre@unesp.br.
3 Departamento de Engenharia de Biossistemas/Faculdade de Ciências e Engenharia, Universidade Estadual
Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil, e-mail: juliane.forti@unesp.br.
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-534-6.p77-96
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
78
O objetivo deste capítulo é apresentar uma breve contextualização
sobre os usos da água e a geração de águas residuais relacionando-os com
alguns indicadores e desaos do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável
(ODS) 6: água potável e saneamento. Além disso, são apresentados pa-
râmetros importantes para análises da água e proposição de tratamento
oxidativo avançado.4
usos dA águA
Discutir sobre segurança e proteção ambiental é extremamente im-
portante, principalmente, devido à escassez de água em algumas regiões
e o acelerado aumento populacional. Esses fatos vêm reduzindo de for-
ma signicativa os ecossistemas, dentre eles, o ecossistema aquático, onde
encontramos nos últimos anos diversos novos poluentes químicos. Estes
fatos têm alterado drasticamente o meio ambiente, por isso, precisamos
entender mais a fundo e rapidamente a maneira como o ser humano se
relaciona com a natureza.
Segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), apenas 2,5% dos re-
cursos hídricos do planeta são de águas doces e grande parte são encontra-
das nas geleiras e mananciais. O Brasil possui a maior reserva de água doce
do mundo, com aproximadamente 12% de água doce disponível (Brasil,
2021). Entretanto, não está igualmente distribuída pelo território brasilei-
ro, sendo, 9,6% na região amazônica e 2,4% nas outras regiões, onde está
presente 95% da população brasileira.
Atualmente o país enfrenta diculdades estruturais na gestão política
e administrativa dos recursos hídricos, tornando-se necessária a adoção de
estratégias e normativas nacionais para disponibilizar não apenas o acesso
à água potável de qualidade para o consumo, mas também para os diversos
setores de economia produtiva (Brasil, 2021; Lima, 2018).
Este texto é baseado em: FRIGULIO, M. A. P. Aplicação de pré-tratamento para redução de poluentes
orgânicos em euentes de uma agroindústria. Dissertação (Mestrado) - Universidade Estadual Paulista
(Unesp), Faculdade de Ciências e Engenharia, Tupã, 2023.
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
79
Nesse contexto, o relatório pleno “Conjuntura dos Recursos Hídricos
no Brasil 2021” (Brasil, 2021) descreveu que no ano de 2020, 1.947,55
m3/s de água foram retiradas e distribuídas nos seguintes setores: (a) irri-
gação 50%, (b) abastecimento urbano 25%, (c) indústria 9%, (d) animal
8%, (e) termelétricas 5%, (f) abastecimento rural 2% e (g) mineração 2%.
Nas últimas décadas, ocorreu um aumento de 80% na utilização de água,
bem como estima-se que até 2040 esse percentual aumentará 42%. Este
histórico está relacionado, sobretudo, à expansão urbana, agrícola e eco-
nômica do país. No que concerne à expansão da indústria destacam-se
quanto ao uso de água no Brasil em 2020, o setor de produção de açúcar e
etanol com 40% de demanda industrial seguido pelas indústrias de celulo-
se e papel, produção de carnes e de bebidas alcoólicas. Cabe ressaltar que o
setor sucroenergético se destaca pelo reúso de seus euentes na irrigação e
na fertirrigação dos canaviais (Brasil, 2021).
Não obstante, até a década de 1990, a água utilizada pelo setor in-
dustrial era considerada um insumo irrelevante, tanto em relação ao aspec-
to econômico quanto à sua disponibilidade. Com efeito, o uso de recursos
hídricos ocorria sem parcimônia e sem mecanismos adequados de contro-
le, seja para o atendimento da demanda como para a disposição nal de
euentes (Santos, 2009). Entretanto, atualmente, os diversos segmentos da
economia, assim como a sociedade civil, estão efetivamente preocupados
em adotar medidas concretas de redução de consumo de água e de geração
de euentes (águas residuais).
A produção de forma sustentável, isto é, produzir mitigando a de-
gradação ambiental e com a utilização consciente dos recursos naturais
limitados — dentre eles a água —, são os desaos vivenciados atualmente,
não apenas pelas indústrias, mas por toda a sociedade. Estes desaos estão
diretamente ligados aos ODS — estabelecidos pela Assembleia Geral das
Nações Unidas em 2015 —, especicamente ao ODS 6: água potável e
saneamento, assegurando a disponibilidade e gestão sustentável da água e
saneamento para todos (ONU, 2016).
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
80
Por sua vez, o ODS 6 apresenta em suas diretrizes oito metas e onze
indicadores, a serem alcançadas efetivamente até 2030 (ONU, 2016).
E, no contexto deste capítulo, destaca-se a meta 6.3 da Organização das
Nações Unidas (ONU, 2016), que relata:
Até 2030, melhorar a qualidade da água, reduzindo a poluição,
eliminando despejo e minimizando a liberação de produtos
químicos e materiais perigosos, reduzindo à metade a proporção
de águas residuais não tratadas e aumentando substancialmente a
reciclagem e reutilização segura globalmente (ONU, 2016).
No Brasil, a meta foi adequada para
Até 2030, melhorar a qualidade da água nos corpos hídricos,
reduzindo a poluição, eliminando despejos e minimizando o
lançamento de materiais e substâncias perigosas, reduzindo pela
metade a proporção do lançamento de euentes não tratados e
aumentando substancialmente o reciclo e reúso seguro localmente
(Brasil, 2019).
O termo “corpos hídricos”, de acordo com o Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada – IPEA (Brasil, 2019), foi acrescido para identicar
que a meta não trata apenas do uso da água, mas sim, da gestão de recursos
hídricos, ao passo que os termos “liberação de produtos químicos e mate-
riais perigosos”, “água residuais não tratadas” e “globalmente” foram altera-
dos, respectivamente, para “lançamento de materiais e substâncias perigo-
sas”, “euentes não tratados” e “localmente”, pois, neste contexto, atendem
de maneira especíca aos termos utilizados nas legislações brasileiras.
Essa meta possui como fator de avaliação dois indicadores: (a) 6.3.1
“Proporção de águas residuárias tratadas de forma segura” e (b) 6.3.2 “Proporção
de corpos hídricos com boa qualidade ambiental” (Brasil, 2019).
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
81
Entretanto, segundo a Agência Nacional de Águas, o indicador 6.3.1
ainda não possui dados sistematizados em âmbito nacional e regional de
tratamento de euentes industriais, visto que, para quanticação, este in-
dicador abrange os dados de euentes industriais, domésticos e totais. No
Brasil, os dados utilizados para cálculo deste indicador são provenientes da
pesquisa nacional realizada com prestadores de serviços de cada município,
ou seja, que trata de (a) euentes urbanos, (b) de atividades econômicas
(serviços e comércios) e (c) de uma pequena parcela de indústrias localiza-
das no perímetro urbano (Brasil, 2022).
Estes dados, em conjunto com os dados de fossas sépticas não
conectadas à rede pública de esgotos, são agregados e utilizados para
cálculo (Brasil, 2022). Com isso, tem-se que, no ano de 2019, por
exemplo, apenas 58,3% de euentes eram tratados de forma segura no
país, com uma evolução de 15,5% desde o ano de 2019 (Brasil, 2022),
sendo assim, necessárias melhorias para o monitoramento de tratamen-
to de euentes do país.
Ainda em relação ao segundo indicador da meta 6.3 (item 6.3.2),
observa-se que este possui estreita relação com o indicador anterior (6.3.1),
tendo em vista que este monitora a qualidade da água e, ocorrendo descar-
tes inadequados de euentes sem o devido tratamento, levar-se-á ao im-
pacto de seus corpos receptores. Entretanto, segundo a Agência Nacional
de Águas (Brasil, 2022), no Brasil os dados do indicador 6.3.2 demons-
tram que, no ano de 2018, 77,45% dos corpos hídricos possuíam uma
boa qualidade ambiental da água, ao passo, que o acompanhamento reali-
zado entre os anos de 2010 e 2018 apontou, respectivamente, melhora de
12,11% no referido período.
A quarta meta do ODS 6, meta 6.4, corresponde:
Até 2030, aumentar substancialmente a eciência do uso da
água em todos os setores e assegurar retiradas sustentáveis e o
abastecimento de água doce para enfrentar a escassez de água, e
reduzir substancialmente o número de pessoas que sofrem com a
escassez de água (ONU, 2016).
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
82
No que concerne ao Brasil, o texto da meta foi readequado apenas
para simplicação e maior clareza, sem alterar o seu signicado, retirando-se
um dos termos escassez de água que estava repetido, e denido como: meta
6.4: “Até 2030, aumentar substancialmente a eciência do uso da água em
todos os setores, assegurando retiradas sustentáveis e o abastecimento de
água doce para reduzir substancialmente o número de pessoas que sofrem
com a escassez” (Brasil, 2019).
Os indicadores responsáveis pelo levantamento de dados desta meta
são: (a) 6.4.1: “Alteração da eciência no uso da água ao longo do tempo
e (b) 6.4.2 “Nível de stress hídrico: proporção das retiradas de água doce
em relação ao total dos recursos de água doce disponíveis” (Brasil, 2019).
O indicador 6.4.1 visa avaliar a eciência do uso da água dos seguin-
tes setores usuários: serviços, agropecuária e indústria. E, tratando-se de
um indicador econômico — uma maior eciência repercute na redução
ou aumento do Valor Agregado Bruto (VAB) — esta avaliação reete até
que ponto o crescimento de um país depende da utilização dos recursos
hídricos. Neste ponto, de acordo com a Agência Nacional de Águas, entre
2010 e 2018 observou-se uma redução na eciência do uso da água, com
recuperação nos anos mais recentes, variando de 80,93 R$/m3 em 2010 a
78,02 R$/m3 em 2018 (Brasil, 2022).
Por sua vez, o segundo indicador da meta 6.4 (6.4.2) aponta uma
estimativa da pressão de consumo pelos recursos hídricos do país, além de
considerar a necessidade ambiental de água para a conservação dos ecos-
sistemas aquáticos. E, entre os anos de 2006 e 2019, a evolução do nível
de stress hídrico no Brasil variou de 1,33% a 1,72%, respectivamente, se-
gundo estimativas da Agência Nacional de Águas (Brasil, 2022), resultados
estes considerados como satisfatórios segundo a Organização das Nações
Unidas (ONU), que considera como tal percentual abaixo de 10%. Não
obstante, é importante o acompanhamento contínuo efetivo, pois mudan-
ças na intensidade das demandas ou balanços desfavoráveis podem gerar
escassez e conitos pelo uso em determinadas regiões.
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
83
águAs residuAis: pArâmetros importAntes
Para alcançar os desaos até aqui descritos, dever-se-á gerir com muita
precisão e eciência o uso dos recursos hídricos, antes, durante e após a produção
agroindustrial, incluindo a produção da matéria prima até a consecução
do produto nal. Com efeito, os resíduos líquidos e sólidos gerados pelas
indústrias de transformação precisam, necessariamente, antes de seu descarte
nal, serem classicados e identicados de acordo com suas especicidades
levando em consideração as leis vigentes do país. E, tratando-se de euentes
industriais, a Resolução Federal do Conselho Nacional do Meio Ambiente —
CONAMA no 430, de 13 de maio de 2011 — estabelece, em âmbito nacional,
as condições e padrões de lançamentos de euentes em corpos receptores de
água. Adicionalmente, cada estado da federação tem a sua própria legislação
que, normalmente, é mais restritiva do que a legislação federal.
No Estado de São Paulo, o Decreto no 8.468 de 8 de setembro de
1976, atualizado pelo Decreto no 54.487 de 26 de junho de 2009, dispõe
parâmetros para o lançamento de euentes tratados a serem despejados nos
rios ou nas redes de esgoto, em especial os artigos 18 e 19 do Decreto no
8.468/76, que abordam, especicadamente, cada caso. O decreto também
dene que, onde houver sistema público de esgotos em condições de aten-
dimento, os euentes de qualquer fonte poluidora deverão ser lançados
nele e estabelece que, a Companhia Estadual de Tecnologia de Saneamento
Básico e de Defesa do Meio Ambiente (CETESB), scalizará e denirá,
assim como, quando for o caso, indicará ao empreendimento o meio ade-
quado para realizar o lançamento de seu euente (São Paulo, 1976).
Além das questões legais, é de se observar — no que concerne aos as-
pectos técnicos —, que os diversos componentes presentes nas águas resi-
duais — que alteram o seu grau de pureza — são denidos e quanticados
por meio de parâmetros que avaliam a sua qualidade. Estes são compre-
endidos como: (a) características físicas, (b) características químicas e (c)
características biológicas. E, segundo Von Sperling (2005), os principais
parâmetros a serem analisados em águas residuais brutas e tratadas estão
apresentadas no Quadro 1.
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
84
Em relação à temperatura, esta deve ser inferior a 40 ºC pelos padrões
de emissão de euentes (São Paulo, 1976), pois o aumento da temperatura
provoca diminuição da viscosidade e da tensão supercial, enquanto a con-
dutividade térmica e a pressão de vapor aumentam. A redução da tensão
supercial do meio pode causar interferências nas taxas de aeração (reposição
do O2), fazendo com que as bolhas de ar permaneçam um menor tempo em
contato com meio aquático. Além disso, a solubilidade de um gás em um
líquido é inversamente proporcional à temperatura, portanto, o aumento da
temperatura diminui a concentração de gases na água, dentre eles o oxigênio
dissolvido na água, onde, de acordo com a Resolução CONAMA 430/2011,
para a preservação da vida aquática faz-se necessário 5,0 mg/L de oxigênio
dissolvido na água, visto que existe uma variação na tolerância de espécie
para espécie (Metcalf; Eddy, 2016). A variação da temperatura também in-
uencia organismos aquáticos pois esses possuem temperaturas ótimas para
crescimento, migração, desova e incubação do ovo (Metcalf; Eddy, 2016).
Mudanças na temperatura supercial dependem das estações do ano, do pe-
ríodo do dia, da altitude e latitude, taxa de uxo e profundidade, mas tam-
bém é provocada por despejos de euentes industriais.
Quadro 1 – Principais parâmetros a serem avaliados em águas residuais
Características Parâmetros Águas residuárias
Bruta Tratada
Físicos Temperatura (°C) x
Químicos
Potencial Hidrogeniônico (pH) x x**
Alcalinidade x
Nitrogênio x x
Fósforo x x
Oxigênio dissolvido (OD) x**
Matéria orgânica (DQO e DBO) x x
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
85
Biológicos
Organismos indicadores x x
Algas (diversas) x**
Bactérias decomp. (diversas) x**
Fonte: Von Sperling, 2005. Adaptado pelos autores. Notas: **controle de processo, durante o tratamento.
De se observar, ainda, que alterações no pH inuenciam os ecossis-
temas aquáticos devido aos seus efeitos sobre a siologia das diversas espé-
cies. Embora cada organismo aquático tenha um pH ideal, é necessário,
para a maioria, valores de pH entre 6,5 e 8,0 para crescimento, reprodução
e sobrevivência (Parron; Muniz; Pereira, 2011). A resolução CONAMA
430/2011 estabelece valores de pH entre 6 e 9 como proteção à vida aquá-
tica para várias classes de águas naturais e valores de 5 a 9 para lançamento
de euentes. Além de afetar diretamente a siologia dos organismos aquá-
ticos, aspectos adicionais da dinâmica dos lagos são inuenciados pelo pH.
O pH baixo pode causar a liberação de elementos e compostos tóxicos dos
sedimentos na água, onde podem ser absorvidos por animais ou plantas
aquáticas. Mudanças no pH também inuenciam a disponibilidade de nu-
trientes para as plantas, como fosfato, amônia, ferro e metais tóxicos, na
água (Addy; Green; Herron, 2004).
A alcalinidade é medida da capacidade que a água tem de neu-
tralizar ácidos, isto é, a quantidade de substâncias na água que atuam
como tampão, capacidade de resistir às mudanças de pH, sendo os prin-
cipais constituintes os íons bicarbonato (HCO3
-), carbonato (CO3
2-) e
os hidróxidos (OH-). A alcalinidade vem de rochas e solos, sais, certas
atividades vegetais e descargas de águas residuais industriais (detergentes
e produtos à base de sabão são alcalinos). Se a geologia de uma área con-
tém grandes quantidades de carbonato de cálcio (CaCO3, calcário), as
massas de água tendem a ser mais alcalinas. A adição de cal como correti-
vo do solo para diminuir a acidez nos gramados domésticos pode escoar
para as águas superciais e aumentar a alcalinidade. Níveis mais elevados
de alcalinidade nas águas superciais amenizam a chuva ácida e outros
resíduos ácidos, evitando alterações de pH. A alcalinidade também é im-
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portante considerando o tratamento de águas residuais e água potável
porque inuencia processos de tratamento como a digestão anaeróbica e
a coagulação (Metcalf; Eddy, 2016).
Ainda em relação aos parâmetros de características químicas tem-se
nitrogênio, fósforo e potássio (N, P e K), que são nutrientes essenciais para
o crescimento de plantas, mas quando descarregados em excesso no am-
biente aquático podem causar a eutrozação, isto é, o excesso de nutrientes
causa o crescimento excessivo de plantas aquáticas (plantônicas e aderidas)
levando a deterioração da qualidade do corpo d’água por acúmulo de ma-
téria orgânica em decomposição. Esse acúmulo diculta a penetração da
luz e diminui o oxigênio dissolvido, causando a morte de animais aquá-
ticos. As fontes são esgotos, euentes industriais e fertilizantes escoados
pelas águas pluviais a partir de áreas agrícolas (Fugita, 2018).
Como já citado, o oxigênio dissolvido é essencial para manter as
formas de vida e é fundamental para o controle da qualidade da água.
Além da temperatura, a descarga de euentes em um corpo d’água afeta
diretamente o balanço de oxigênio no sistema. Este descarte causa dimi-
nuição de oxigênio dissolvido pelo consumo deste pelos microrganismos
para degradar a matéria orgânica. Sendo assim, nas proximidades do ponto
de descarte ocorre proliferação de bactérias, diminuição do oxigênio dis-
solvido, resultando em zonas de decomposição e séptica, onde há ausência
de peixes. Com o processo de reaeração natural (oxigênio proveniente da
atmosfera e da fotossíntese) e ausência de novos descartes de euentes, o
corpo d’água poderá recuperar suas condições iniciais de oxigênio dissol-
vido quilômetros após o ponto de descarte, processo este denominado de
autodepuração (Manahan, 2013).
De maneira indireta duas análises são realizadas para a quantica-
ção da matéria orgânica, sendo elas: Demanda Bioquímica de Oxigênio
(DBO) e a Demanda Química de Oxigênio (DQO). A DBO mede-se a
quantidade de oxigênio que é utilizado pelos microrganismos durante a
oxidação bioquímica da matéria orgânica: valores altos de DBO indicam
poluição, pois é necessária uma grande quantidade de oxigênio para a bio-
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
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degradação da matéria orgânica. De acordo com a resolução CONAMA
430/2011, para lançamento de euentes a DBO máxima permitida é 120
mg/L, sendo que este limite somente poderá ser ultrapassado no caso de
euente de sistema de tratamento com eciência de remoção mínima de
60% de DBO (Brasil, 2011), mas no estado de São Paulo, pelo Decreto
Estadual 8468/1976, tem-se 60 mg/L O2 ou uma eciência global mínima
do processo de tratamento igual a 80% (São Paulo, 1976). A DQO é a
quantidade de O2 necessária para a oxidação da matéria orgânica por meio
de um agente químico, quando a DQO é alta representa que é necessária
uma grande quantidade de oxigênio para a degradação da matéria orgâni-
ca. Não há um Valor Máximo Permitido (VMP) para a DQO, mas essa é
muito útil quando utilizada conjuntamente com a DBO.
poluição dAs águAs: compostos orgânicos
A poluição das águas por compostos químicos orgânicos é ampla
sendo esses os responsáveis pela grande parte das causas de poluição aquá-
ticas, pois são de uso constante e estão presentes nos euentes domésticos,
industriais e agrícolas. Muitos são tóxicos, persistentes, apresentam alta
DQO e não são tratados por métodos convencionais. Dentre os compos-
tos orgânicos presentes nos euentes tem-se os biodegradáveis e os recalci-
trantes ou refratários.
Os compostos biodegradáveis são produtos químicos que, após de-
terminado tempo, são decompostos pela ação de microrganismos. Como
exemplo desses compostos tem-se: proteínas, carboidratos, lipídeos e sa-
bões. Há dois tipos de rotas de biodegradação: (1) rota aeróbia: decom-
posição por microrganismos usando O2 + fonte de carbono (glicose) e de
nitrogênio (NH3) + nutrientes essenciais (P, S, Fe) produzindo biomassa +
CO2 e H2O; (2) rota anaeróbia: decomposição por microrganismos usan-
do fonte de carbono (glicose) e de nitrogênio (NH3) + nutrientes essenciais
(P, S, Fe) + aceptores de elétrons (NO3
-, SO4
2-, Fe3+) produzindo biomassa
+ CH4 e H2O.
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
88
Os compostos orgânicos não biodegradáveis ou com taxa de bio-
degradação muito lenta são denominados de recalcitrantes ou refratários.
Esses compostos estão presentes na maior parte dos euentes agroindus-
triais. Em função da estrutura química complexa, muitos são estáveis
(persistentes) e, no caso de exposições prolongadas a concentrações muito
baixas (toxicidade crônica), alguns podem ser carcinogênicos, mutagêni-
cos (alterações nos genes e cromossomos) ou teratogênicos (problemas em
recém-nascidos), podendo ainda causar disfunções nos rins e fígado, este-
rilidade e problemas neurológicos. Além disso, podem atingir organismos
não-alvos (gado, abelhas, humanos) e geralmente seus subprodutos de de-
gradação parcial também são tóxicos e persistentes (Manahan, 2013).
Os compostos orgânicos chamados de micropoluentes ou contami-
nantes emergentes são substâncias que já vem sendo utilizadas há tem-
pos e novas substâncias que fazem parte de nossa rotina diária, tais como:
pesticidas, corantes, fármacos, produtos de higiene pessoal, cosméticos,
produtos de limpeza, aditivos químicos e plásticos/microplásticos. A abor-
dagem recente se deu pelo acesso a novas tecnologias capazes de detectar
compostos em concentrações muito pequenas, da ordem de micro (g/L)
ou nanogramas (ng/L) e, assim, foi possível quanticar centenas de com-
postos em diferentes áreas ambientais. As principais técnicas analíticas que
possibilitaram essas quanticações são as cromatograas, especialmente a
cromatograa líquida acoplada a espectrometria de massas.
Muitos destes micropoluentes não estão inseridos em normativas ou
legislações de controle ambiental e não estão incluídos em programas de
monitoramento de rotina pelos órgãos do meio ambiente e saúde. Em
vista disso, há necessidade de estudos que visem o tratamento de molécu-
las orgânicas refratárias na água, uma vez que os métodos tradicionais de
estações de tratamento de água e esgoto não mostram eciência satisfatória
para esses compostos que estão cada dia mais presentes em nossas águas.
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
89
AlternAtivA pArA trAtAmento
Dentre os diferentes processos disponíveis (físicos, químicos ou bio-
lógicos), os Processos de Oxidação Avançada (POAs) têm sido estudados
com sucesso para a degradação de poluentes orgânicos tóxicos e persis-
tentes. Os POAs são considerados uma tecnologia altamente competitiva
no que diz respeito ao tratamento de águas para a remoção de poluentes
orgânicos recalcitrantes não tratáveis por métodos convencionais (Wang;
Zhuan, 2020). O desenvolvimento e pesquisas de tais aplicações de POA
têm sido estimulados devido a poluição dos recursos hídricos através de
atividades agrícolas e industriais e pela exigência de que a indústria cumpra
os padrões de descarga de euentes.
Os POAs são baseados na geração do radical hidroxila (HO), um
oxidante forte (Eo = 2,80 V) e não seletivo, que reage com a maioria dos
compostos orgânicos de forma muito rápida, garantindo a ecácia dos
POAs tanto na capacidade de oxidação quanto do ponto de vista cinético
(Oturan; Aaron, 2014). Tais radicais atacam as cadeias carbônicas poden-
do degradá-las completamente em CO2, água e íons inorgânicos ou par-
cialmente, produzindo compostos menos tóxicos e mais degradáveis pelos
processos convencionais. Nos POAs a geração do HOpode ser realizada
por método químico, eletroquímico, fotoquímico e os mais recentes so-
noquímico e sonoeletroquímico. Se dividem em processos homogêneos
e heterogêneos (que utilizam catalisadores sólidos, eletrodos), podendo
ocorrer na presença ou na ausência de luz Ultravioleta (UV), que pode ser
de origem articial ou natural (solar).
A geração de HOpode ser obtida pela reação entre íons de ferro
e peróxido de hidrogênio, denominada de reação ou reagente de Fenton
(Fenton, 1894). A aplicação clássica do reagente de Fenton é um sistema
homogêneo, requerendo apenas da mistura dos reagentes à temperatura
e pressão ambientes, não necessitando de equipamentos sosticados. Por
isso, é considerada segura para manuseio e tem baixo impacto para o meio
ambiente (Oturan; Aaron, 2014).
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
90
As reações catalíticas de Fenton consistem basicamente na oxidação
de Fe2+ a Fe3+, produzindo HO, o qual oxidará qualquer composto orgâ-
nico presente na solução. As reações do Reagente Fenton e deste com a
molécula orgânica (R), de forma simplicada, estão mostradas na tabela 1.
Tabela 1 – Reações do Reagente de Fenton
Reação
Fe2+ + H2O2 Fe3+ + OH- + HO(início da cadeia de reação) (1)
RH + HO R + H2O (2)
R + Fe3+ R+ + Fe2+ (3)
Fe2+ + HO Fe3+ + OH-(nal da reação) (4)
Fonte: Moravia; Lange; Amaral, 2011. Onde: Fe2+ e Fe3+ representam moléculas hidratadas; R: molécula orgânica.
A eciência da degradação dos poluentes orgânicos durante a apli-
cação do processo Fenton dependerá de alguns fatores de operação, como:
concentração dos reagentes, pH de operação, temperatura e concentração
de contaminantes da água residual (Zhang et al., 2019).
A concentração molar da relação entre Fe2+/H2O2 é extremamente
importante, pois a eciência da degradação dos compostos orgânicos de-
penderá desta razão. Se as concentrações de Fe2+/H2O2 forem excessivas,
haverá baixas concentrações de HO para oxidar a matéria orgânica, pois
reações indesejadas poderão ocorrer com excesso de um dos reagentes
causando sua eliminação (Arslan-Alaton; Kabdali; Teksoy, 2007; Kallel
et al., 2009).
Apesar de inúmeras pesquisas, não existe um consenso da razão
molar adequada para oxidação entre Fe2+/H2O2, pois a depender do tipo
de euente/composto a ser tratado esta razão pode variar. Arslan-Alaton;
Kabdali e Teksoy (2007) relatam que para remoção da cor em euentes
contendo corantes apontam que a razão 1:3 foram ecientes, já Lange et
al., (2006) relatam que a faixa de concentração de Fe2+/H2O2 pode variar
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
91
de 1:5 a 1:25. Araújo et al. (2016), concluem que esta razão varia de acor-
do com o tipo de euente a ser tratado.
Em relação a faixa ótima de pH para aplicação desta técnica, es-
tudos relatam valores de 2 a 4, pois com o aumento do pH o H2O2 se
decompõe rapidamente em água e oxigênio e também pode ocorrer a
precipitação do ferro, fatos esses que diminuem a produção dos HO
e, consequentemente, diminuem a eciência do processo de oxidação
(Zhang et al., 2019; Ziembowicz; Kida, 2022). Bello, Raman e Asghar
(2019) relatam que o pH acima de 3,5 proporciona a precipitação de
Fe3+ na forma de hidróxido de ferro, o que diminui sua interação com
o H2O2 e, consequentemente, diminui a produção de HO. Além dis-
so, grandes quantidades de produtos químicos são gastas para ajustar as
águas residuais orgânicas em pH 2-4 antes da descontaminação, sendo
uma desvantagem a ser avaliada e aperfeiçoada.
Estudos foram realizados com a aplicação do processo Fenton a di-
versos tipos de euentes, como: de curtumes (Kalyanaraman et al., 2012),
de moinho de azeite (Lucas; Peres, 2009; Kallel et al., 2009), de papel
(Jamil et al., 2011) e celulose (Catalkaya; Kargi, 2007), de fermento (Pala;
Erden, 2005), de frigoríco (Almeida et al., 2015), de águas com substân-
cias húmicas (Júlio et al., 2006), de coque (Jiang et al., 2011), de lixiviado
de aterro sanitário (Lange et al., 2006; Moravia; Lange; Amaral, 2011)
e de pesticidas (Forti et al., 2020; Tadayozzi et al., 2021; Da Silva et al.,
2022). Em todas essas variedades o método aplicado em escala laboratorial
foi eciente apresentando redução de totoxicidade e redução de DQO.
A redução também garantiu melhora em outros parâmetros como cor e
DBO em todas as pesquisas.
A combinação do processo Fenton com o tratamento biológico foi
aplicada e avaliada por Kalyanaraman et al., (2012). O reagente Fenton foi
aplicado como pré-tratamento de euentes de curtumes antes do processo
biológico e mostraram resultados satisfatórios após a tratabilidade desta
combinação de métodos. O pré-tratamento melhorou a biodegradabilida-
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
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de do euente de curtumes, resultando na formação de hidrocarbonetos de
cadeia curta, reduzindo também sua carga de DQO e DBO.
É grande a aplicação do processo Fenton em diversos tipos de euen-
tes industriais; sendo assim, o estudo e aprofundamento do POA pelo pro-
cesso Fenton tem se tornado um tema de constante aperfeiçoamento e
investigação, visto que sua fácil aplicabilidade e alto benefício, podendo
tornar as indústrias mais competitivas, além melhorar a biodegradabilida-
de dos euentes de difícil tratabilidade.
Uma das formas é aplicar o reagente de Fenton com adição de irra-
diação, chamado de foto-Fenton, com o objetivo de aumentar a produção
dos HO v. Sob irradiação de luz, [Fe(OH)]2+ sofre excitação regenerando
Fe2+ que catalisa a decomposição de H2O2 e produzindo HO que deda os
poluentes orgânicos, de acordo com a reação 5. Além disso, fotólise direta
de H2O2 também produz HO (reação 6).
[Fe(OH)]2+ + hν Fe2+ + HO (5)
H2O2 + hν 2 HO (6)
A essência do processo foto-Fenton é acelerar a redução de Fe3+ para
Fe2+ usando a energia fornecida pela luz. Como o uso de luz articial torna
o processo oneroso, a utilização de luz solar pode remediar este inconve-
niente. A combinação de luz ultravioleta ou visível com Fenton conven-
cional pode aumentar a eciência de degradação de poluentes orgânicos,
reduzindo a formação do lodo.
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97
cApítulo 4
Governança e sustentabilidade
em sistemas agroalimentares do
cacau e laranja
Giuliana Aparecida Santini PIGATTO 1
Ana Elisa Bressan Smith LOURENZANI 2
Leandro Guedes de AGUIAR 3
Departamento de Gestão, Desenvolvimento e Tecnologia, Faculdade de Ciências e Engenharia, Universidade
Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil, e-mail: giuliana.santini@
unesp.br.
Departamento de Gestão, Desenvolvimento e Tecnologia, Faculdade de Ciências e Engenharia,
Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil, e-mail: ana.
lourenzani@unesp.br.
Programa de Pós-Graduação em Agronegócio e Desenvolvimento (PGAD), Faculdade de Ciências e
Engenharia, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, e-mail:
lelaaguiar@hotmail.com.
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-534-6.p97-116
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
98
introdução
Os sistemas agroalimentares têm adquirido diferentes formatos, em
função do número de agentes envolvidos e suas localizações, em virtude de
práticas de proximidade com o consumidor, avanços tecnológicos e logís-
ticos, entre outros. Todos eles, seja os de maior atributo de qualidade ou
de comoditização, requerem sistemas de governança que impliquem no
adequado gerenciamento das transações, com impactos nos níveis econô-
mico, social e ambiental. Nesse sentido, este capítulo visa discutir como
a governança estabelecida nos sistemas produtivos tem colaborado para a
sustentabilidade das cadeias produtivas. Para isso, traz a análise dos siste-
mas produtivos da laranja e do cacau.
A abordagens conceituais e procedimentos metodológicos envolve-
ram análises das abordagens de Economia dos Custos de Transação (carac-
terísticas da transação, dos agentes e governança,) e de Sustentabilidade, e
dois estudos de caso, sendo: a) uma cooperativa de pequenos produtores
de laranja do interior do estado de São Paulo, Bebedouro (SP). Os sujeitos
da pesquisa foram 29 cooperados e um representante da cooperativa anali-
sada4, em junho de 2019; b) um estudo de caso envolvendo produtores de
cacau certicados, localizados na região sul do estado da Bahia, nos anos
de 2016 e 2017, e empresas processadoras que comercializam para expor-
tação e mercado interno. Seis produtores (de certicação orgânica), uma
Organização Coletiva (OC) e uma Empresa Compradora Processadora
(ECP) formaram esse estudo de caso.
As evidências deste capítulo contribuem ao alcance do Objetivo de
Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas
(ONU) número 12, no sentido de assegurar padrões de produção e de
consumo mais sustentáveis.
Em termos de ordenação, as próximas seções deste capítulo se dedi-
cam a discorrer sobre os aspectos de coordenação e governança em sistemas
Foram utilizadas técnicas de estatística inferencial para coleta e análise geral dos dados, tendo-se início
com procedimento estatístico para determinação do tamanho amostral para variáveis qualitativas, a m de
selecionar o número exato de cooperados participantes.
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
99
de alta qualidade, os sistemas agroalimentares da laranja e cacau, com os
respectivos casos apresentados e analisados, e as considerações nais.
A coordenAção em sistemAs de AltA quAlidAde
A literatura nacional e internacional vem retratando os aspectos de
coordenação de sistemas e formas de governança ao objeto de estudo de
produtos diferenciados e com certicação na agricultura. Ménard (2022)
contribui ao tema, ao armar que, a cooperação entre parceiros distintos
e competidores, pode ser encontrada por meio de coordenação de menor
custo, e sem perda da vantagem de decisões descentralizadas, mantendo-se
a autonomia e interdependência transacional. Isso se torna possível, por
meio da utilização das formas de governanças híbridas e seus alinhamentos
com os tipos de transações realizadas.
Ménard (2004, 2013) e Aguiar (2020) armam que as transações
híbridas, que consistem em uma forma intermediária, têm se multiplicado
e são muito mais comuns se comparadas às transações via mercado ou
hierarquia. A crescente literatura acerca desse modo de governança fornece
uma indicação do aumento do interesse acerca de questões que cercam essa
temática. Para Ménard (2004, 2013) é alta a probabilidade de que o papel
considerável desses arranjos em moldar e monitorar as atividades econô-
micas continue a gerar um uxo de modelos teóricos e estudos empíricos
por parte da academia, em um quadro em que as organizações híbridas
são qualicadas como “estruturas institucionais de produção” e merecem
atenção por parte dos estudiosos da área.
Há senso comum sobre o conceito de “mercado” em que os meca-
nismos de oferta e demanda exercem papel central, e o preço é o item mais
importante na regulação de fatores, como a adaptação. Similarmente, o
conceito de “hierarquia” representa o papel central correspondente à rma,
acerca do formato verticalizado na tomada de decisões e ajustes internos
necessários. Já o conceito em relação às governanças híbridas não é estabi-
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
100
lizado, podendo envolver uma abordagem acerca de diferentes formatos,
como clusters, redes, alianças estratégicas, franquias, arranjos simbióticos,
cadeias de fornecimento, canais administrados, joint ventures, contratos
fora do padrão, entre outros (Aguiar, 2020; Ménard, 2004; Ménard, 2022).
Em termos de contribuições empíricas sobre os formatos híbridos,
ao avaliar fatores que contribuem para os investimentos em segurança do
alimento no setor de carne italiano, Marchini et al. (2020) mostram como
a regulamentação e a liberdade contratual atuam como impulsionadores
aos investimentos em segurança do alimento, em situações como rastrea-
bilidade e certicação. Em Wever et al. (2010), os autores investigaram a
relação entre sistemas de gestão da qualidade entre as rmas e as estruturas
de governança entre elas, levando a pensar que o não alinhamento entre
essas esferas pode resultar em altos custos de transação.
Na sequência, este capítulo apresenta como a governança estabele-
cida nos sistemas produtivos têm colaborado para a sustentabilidade nos
casos analisados.
o sistemA AgroAlimentAr dA lArAnjA
O Brasil destaca-se como o mais importante fornecedor de suco de
laranja do mundo, sendo responsável por 34% da produção mundial de la-
ranja e respondendo por 61% da produção mundial do suco, sendo, 95%
desse total, destinados às exportações (Citrusbr, 2019; Neves, Trombin,
2017). Em 2021, o País alcançou uma produção de 16 milhões de tone-
ladas, contabilizando aproximadamente o dobro do segundo colocado, a
Índia, que é seguida por China, México e Estados Unidos (FAO, 2023).
A produção de laranja para processamento industrial no Brasil é
concentrada no chamado cinturão citrícola, uma área que se estende pelo
estado de São Paulo, uma parte do Triângulo Mineiro e o sudoeste de
Minas Gerais (CITRUSBR, 2019).
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
101
De acordo com Stuchi, Girardi e Moreira (2021), há diversos aspec-
tos que afetam a sustentabilidade e competitividade da produção de citrus
no Brasil. Dentre eles estão: os problemas tossanitários, principalmente o
Huanglongbing (HLB) dos citrus, que demandam manejo adequado para
seu controle; adversidades climáticas e a necessidade de técnicas de manejo
e seleção de plantas adaptadas; demanda crescente por produtos diferen-
ciados, sustentáveis e agroecológicos; intensicação do uso da tecnologia,
como a agricultura de precisão.
Tanto a citricultura quanto a atividade industrial de processamento
de suco possuem muitos investimentos em ativos especícos, em que as
partes envolvidas cam expostas a ações de renegociações oportunistas,
em transações entre citricultores e processadores de suco (Aguiar, 2020;
Ito, 2014). Como exemplo, um processo de análise de cartel formado
por empresas processadoras foi encerrado em novembro de 2016, com a
conrmação, a partir do Conselho Administrativo de Defesa Econômica
(CADE). Em 2023, as empresas denunciadas viraram réus por meio de
uma ação movida pelo Ministério Público Federal, em conjunto com a
Justiça Federal de São Paulo, com a cobrança de R$12,7 bilhões em multas
(Brito, 2023).
estudo de cAso em lArAnjA
Por motivos estratégicos relacionados ao posicionamento de merca-
do e da marca, a partir de 2017 uma cooperativa agrícola5 optou por con-
centrar suas vendas somente na comercialização baseada no Fairtrade6. O
principal – e único – produto comercializado no ano de 2019 foi a laranja
in natura, que respondeu por 100% das vendas da entidade, sendo comer-
cializada integralmente no nível regional para uma empresa processadora
de grande porte, em suas sedes nas cidades do interior paulista, por meio
A cooperativa foi fundada em 2012, e conta com 90 citricultores.
 O Fairtrade é uma certicação de terceira parte, baseada numa relação de parceria entre produtores e
consumidores, possibilitando ampliar a possibilidade de melhora nas condições de vida e planejamento
futuro dos produtores (Fairtrade International, 2023).
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
102
da entrega direta do agente cooperado à processadora e sob intermédio e
negociação da cooperativa (Aguiar, 2020; Aguiar et al., 2021).
O Quadro 1 apresenta os parâmetros gerais utilizados quanto aos
níveis de análise em relação às características da transação e dos agentes
no caso em questão. O grau de investimento na produção de laranja do
cooperado para abastecimento à cooperativa foi classicado como alto, o
que inclui a necessidade de preparação da terra, utilização de implemen-
tos, fertilizantes e sistemas especícos, a m de atingir as especicidades
da fruta previstas em contrato (Aguiar, 2020; Aguiar et al. 2021). Assim,
pode-se armar que a especicidade do ativo (laranja) transacionado entre
cooperado e cooperativa classica-se como de especicidade alta. Para esta
vericação, toma-se como base o grau em que a laranja pode ser utilizada
para usos alternativos, tendo como exemplo a possibilidade de forneci-
mento direto ao atacado/ varejo e feiras, sem abdicar de seu valor, segundo
Williamson (1991) e Tadelis e Williamson (2013) apud Aguiar (2020);
Aguiar et al. (2021) (Quadro 2).
Quadro 1 – Parâmetros dos níveis de análise em relação às características
da transação e dos agentes para o caso selecionado
Parâmetros Baixo Médio Alto
Especicidade do
ativo
Utilização de
plantação e colheita
simples.
Utilização de
preparação da
terra, implementos,
fertilizantes e sistemas
em geral.
Utilização de
preparação da
terra, implementos,
fertilizantes e sistemas
especícos/exclusivos.
Incerteza
Alto conhecimento
acerca do ambiente
econômico (oferta,
demanda e preço da
laranja), institucional
(estatuto social da
cooperativa, regras
e leis vigentes) e
comportamental.
Conhecimento
mediano acerca do
ambiente econômico
(oferta, demanda e
preço da laranja),
institucional (estatuto
social da cooperativa,
regras e leis vigentes) e
comportamental.
Baixo conhecimento
acerca do ambiente
econômico (oferta,
demanda e preço da
laranja), institucional
(estatuto social da
cooperativa, regras
e leis vigentes) e
comportamental.
Frequência
Fornecimentos
esporádicos e sem
regularidade (ex: spot,
pontuais)
Fornecimentos
intervalados e com
certa regularidade (ex:
safras alternadas)
Fornecimentos
regulares (ex: toda
safra)
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
103
Parâmetros Baixo Médio Alto
Oportunismo
Baixa frequência
de utilização do
autointeresse
(distorções de
informação
de mercado e
rompimento
contratual) por parte
do principal.
Frequência mediana
de utilização do
autointeresse
(distorções de
informação
de mercado e
rompimento
contratual) por parte
do principal.
Alta frequência
de utilização do
autointeresse
(distorções de
informação
de mercado e
rompimento
contratual) por parte
do principal.
Racionalidade
limitada
Alta frequência
de utilização de
informações de
mercado (preço, oferta
e demanda da laranja)
e gerenciais (custos,
estoque, tecnologia).
Frequência mediana
de utilização de
informações de
mercado (preço, oferta
e demanda da laranja)
e gerenciais (custos,
estoque, tecnologia).
Baixa frequência
de utilização de
informações de
mercado (preço, oferta
e demanda da laranja)
e gerenciais (custos,
estoque, tecnologia).
Fonte: Aguiar (2020) e Aguiar et al. (2021), a partir de Williamson (1991, 2012), Balestrim e Arbage (2007),
e Tadelis e Williamson (2013).
Quadro 2 – Caracterização e estrutura de governança do estudo de
caso em laranja
Tipo Âmbito Produtor Âmbito Cooperativa
Caracterização
Quantidade: 29 produtores;
Classicação: Pequenos
produtores;
Nº Propriedades: 1 por produtor;
Tempo na atividade: Mais de 40
anos;
Visão sobre a atividade: Instável
(devido aos preços praticados,
pragas e doenças, e custos de
produção);
Meios de sobrevivência:
Cooperativismo e Fruticultura;
Principal destino da produção:
CL
Ano de Fundação: 2012;
Nº Cooperados (citricultura): 90
produtores;
Produto: laranja in natura;
Certicação: Fairtrade;
Destino da produção: indústria
processadora.
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
104
Comercialização e
Governança
Principal agente comprador: CL;
Produto: Laranja in natura;
Estrutura de Governança:
Contrato;
Especicidade do Ativo: Alta
(preparação da terra e utilização
de implementos, fertilizantes e
sistemas especícos);
Grau de Incerteza na Transação:
Baixa (alto nível de conhecimento
de oferta, demanda, preço e
estatuto da cooperativa);
Frequência da Transação: Alta
(fornecimentos regulares em toda
a safra);
Oportunismo (ex-ante e ex-post):
Baixo;
Racionalidade Limitada: Baixa-
média.
Principal agente fornecedor:
cooperados;
Produto: Laranja in natura;
Estrutura de Governança:
Contrato;
Especicidade do Ativo: Alta
(preparação da terra e utilização
de implementos, fertilizantes e
sistemas especícos);
Grau de Incerteza na Transação:
Baixa (alto nível de conhecimento
de oferta, demanda, preço,
estatuto e comportamento dos
agentes);
Frequência da Transação: Alta
(fornecimentos regulares em toda
a safra);
Oportunismo (ex-ante e ex-post):
Baixo;
Racionalidade Limitada: Baixa.
Fonte: Elaboração própria dos autores, a partir de Aguiar (2020) e Aguiar et al. (2021).
A incerteza envolvida na transação classica-se como baixa, tanto
por parte dos cooperados na venda da laranja para a cooperativa, quanto
por parte da cooperativa na aquisição da laranja do cooperado. Nesse sen-
tido, pontua-se o alto nível de conhecimento, por parte dos cooperados,
da oferta, demanda e preço da laranja, do estatuto social da cooperativa,
como também do comportamento da cooperativa na compra da laranja.
Da mesma forma posiciona-se a cooperativa, ao possuir alto conhecimento
da oferta, demanda e preço da fruta, do estatuto social, regras e leis vigen-
tes, como também do comportamento do cooperado na venda da laranja
à cooperativa.
A frequência com que ocorre a transação da laranja do cooperado
para a cooperativa classica-se como alta, pautada por fornecimentos re-
gulares que ocorrem em toda safra (Aguiar, 2020; Aguiar et al., 2021). Já a
frequência de utilização de informações de mercado (como preço, oferta e
demanda da laranja) e gerenciais (custos, estoque e tecnologia disponível)
por parte do cooperado, para a tomada de decisões na negociação para
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
105
a venda da laranja à cooperativa, classica-se como média, demonstran-
do um nível mediano de racionalidade limitada por parte do cooperado,
como também da impossibilidade dos agentes no domínio e processamen-
to da totalidade de informações necessárias para a tomada de decisão em
situações negociais, segundo Arbage (2004) apud Aguiar (2020); Aguiar et
al. (2021). A utilização dessas mesmas informações por parte da coopera-
tiva, para a tomada de decisões na negociação para a aquisição da laranja
do cooperado, classica-se como alta, demonstrando um nível baixo de
racionalidade limitada por parte da CL. Adiciona-se ainda, o fato da pro-
ximidade entre cooperativa e mercado, derivando no acesso mais facilitado
e rápido da informação por parte da instituição.
De maneira geral, na perspectiva de Aguiar (2020) e Aguiar et al.
(2021), as características da transação da laranja entre o cooperado e a coo-
perativa são compostas por um ativo de especicidade alta, com um baixo
grau de incerteza e alta frequência de fornecimento. As características dos
agentes (cooperados e cooperativa) são destacadas pelo baixo grau de opor-
tunismo e pela baixa média de racionalidade limitada, considerando-se as
respostas de ambas as partes.
Frente ao exposto, o contrato foi selecionado como meio regula-
dor da transação econômica, caracterizando a governança em sua instân-
cia híbrida. O contrato contempla itens, como: a especicidade necessá-
ria do produto para atendimento à demanda de exportação, por meio do
Fairtrade, o preço de compra da laranja pela cooperativa, a periodicidade
de fornecimento pelo produtor e a sua responsabilidade, quanto ao trans-
porte da mercadoria até a indústria processadora.
O baixo grau de incerteza da transação reete o preparo institucio-
nal por parte da cooperativa e sua propagação à classe cooperada, como
também o conhecimento prévio de atributos comportamentais por parte
dos agentes que transacionam, nesse caso, relacionando-se de maneira
positiva ao baixo oportunismo e riscos ex-ante e ex-post dessa relação eco-
nômica. Nesse sentido, a governança híbrida parece desempenhar bem
seu papel de coordenação transacional, minimizando o oportunismo nas
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
106
relações e garantindo uma eciente opção à problemática da diculdade
histórica de integração comercial entre os citricultores (Aguiar, 2020;
Aguiar et al., 2021).
Já na relação cooperativa - indústria processadora, a incerteza que
permeia essa transação também pode ser classicada como baixa, já que
o seu vice-presidente arma que a entidade possui um alto conhecimento
acerca das regras institucionais que envolvem a transação, como também
do comportamento da empresa processadora na aquisição da laranja.
Na perspectiva da cooperativa, a indústria processadora não se utili-
za do autointeresse, como a distorção de informações acerca da demanda,
preço e rompimento contratual na compra da laranja, classicando o nível
de oportunismo nessa relação como baixo ou nulo. A frequência de utiliza-
ção de informações de mercado (como preço, oferta e demanda da laranja)
e gerenciais (como os custos, estoque e tecnologia disponível) por parte
da CL, para a tomada de decisões na negociação para a venda da laranja
à indústria processadora, classica-se como alta, demonstrando um nível
baixo de racionalidade limitada por parte da cooperativa (Aguiar, 2020;
Aguiar et al., 2021).
De maneira geral e conforme destacado inicialmente na relação co-
operado – cooperativa, as características da transação da laranja entre a
cooperativa e indústria processadora são de um ativo com grau de investi-
mento alto, de baixo grau de incerteza e alta frequência de fornecimento.
As características dos agentes são destacadas pelos níveis baixos de opor-
tunismo e racionalidade limitada, na perspectiva cooperativa-comprador
(Aguiar, 2020; Aguiar et al., 2021).
o sistemA AgroAlimentAr do cAcAu
O Brasil vem realizando esforços no sentido de ampliar a produção
do cacau, já que a partir do nal do século XX, a cultura passou a enfrentar
estagnações, por razões diversas, como a queda de produtividade em fun-
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
107
ção de problemas tossanitários, principalmente a doença fúngica, vassou-
ra-de-bruxa (Moniliophthora perniciosa), do conservadorismo do segmento
produtor agrícola, entre outros. No período 2016-2021, o índice de cres-
cimento da cultura no Brasil foi de 42%, alcançando em 2021, uma pro-
dução de 302 mil toneladas da amêndoa (FAO, 2023). O crescimento da
produção vem acompanhado de novos arranjos institucionais das cadeias
motivados pela valorização de aspectos relacionados à sustentabilidade e
à origem. Neste contexto, as certicações cumprem um papel relevante.
Exemplos de certicações voluntárias utilizadas para a sustentabilidade no
setor são de orgânico, Fairtrade, UTZ e Rainforest Alliance. O Brasil parti-
cipou com 1% da produção mundial de orgânicos no ano de 2020 (Presse,
2020). A certicação orgânica é uma garantia de que produtos tenham de
fato sido produzidos dentro dos padrões da agricultura orgânica, decor-
rentes principalmente da ausência de agrotóxicos e adubos químicos, por
exemplo (Organicsnet, 2023).
estudo de cAso em cAcAu
Justica-se a análise para o estado da Bahia e, especicamente a re-
gião Sul da Bahia, pois este correspondia em 1990 a 83% da produção na-
cional, sendo esta produção de 51% em 2020 (Brainer, 2021). Essa região
do estado e outras organizações vêm desenvolvendo esforços para a imple-
mentação de produção de cacau com maior nível de qualidade por meio
de políticas de apoio e do estabelecimento de uma indicação geográca.
As ações envolvem tanto projetos de empresas processadoras e outras orga-
nizações adquirentes da matéria prima, quanto governança própria local.
Foram avaliadas as estruturas de governança estabelecidas na rela-
ção produtor-comprador, com foco nas vertentes econômica, ambiental
e social da sustentabilidade, a partir de contribuições de Sachs (1993) e
Elkington (2004, 2006). Em âmbito econômico, se utilizou das categorias
analíticas indicadas pela ECT, sendo adaptadas a partir dos trabalhos de
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
108
Reys, Arbage e Oliveira (2010, 2009) e Arbage (2004)7. No âmbito am-
biental e social, tendo como base os conceitos de sustentabilidade e autores
como Neumeier (2012) e Moulaert (2009).
O caso de produção de cacau analisado traz características da certi-
cação (orgânica) que carregam atributos de qualidade, como a não utili-
zação de insumos químicos, métodos de cultivo sustentáveis, preservação
ambiental e social. Tais atributos são difíceis de serem percebidos por meio
da observação, justicando a necessidade de terceiras partes para garanti-
-las. Assim, as certicações são utilizadas para tornar a informação evidente
a todos os agentes envolvidos nos processos produtivos ao longo do sistema
agroindustrial, inclusive para o consumidor (Santini Pigatto et al., 2020).
Pode se constatar que as exigências demandadas pelos agentes com-
pradores vão das relações contratuais, pois elas envolvem aspectos ligados à
certicação de produtos orgânicos. A organização processadora comprado-
ra tem focado em atender os mercados nacional e internacional com amên-
doas de cacau de qualidade superior que tragam melhor desempenho na
produção e sabor dos chocolates. Esses atributos da qualidade estão além
do padrão do produto estabelecido pelo governo por meio da IN38/20088
que estabelece os padrões para as amêndoas de cacau. Na relação entre os
agentes produtores e a organização coletiva não se vericou contratos for-
mais, contudo, o valor relacional envolvido é muito alto, devido a fatores
como: a origem dos produtores (muitos advindos da União Europeia, tra-
zendo consigo ‘valores’ da terra) e a natureza em si da produção, que por
ser em sistema cabruca9, motiva e reúne agentes que valorizam a preserva-
ção da natureza (Quadro 3).
No estudo de caso em cacau, a análise econômica pode ser realizada de modo completo, na perspectiva
da empresa compradora processadora para com a organização coletiva, mas não houve triangulação da
informação.
A instrução normativa n. 38/ 2008 apresenta um enquadramento das amêndoas de cacau de tipo 1 a 3
e fora de tipo, com percentuais de tolerância para defeitos como mofo, fumaça, danicação por insetos,
ardósia, germinação e achatamento, de menor para maior tolerância do tipo 1 a fora do tipo (Brasil, 2008).
Sistema cabruca consiste em um agroecossistema tradicional do cacau que envolve conhecimento
tradicional, conservação e preservação de espécies nativas, promovendo a interação com o ecossistema
(Setenta; Lobão, 2012).
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
109
Quadro 3 – Caracterização e estrutura de governança no estudo de
caso do cacau
Tipo Âmbito produtor Âmbito Empresa Compradora
(ECP1)
Caracterização
Seis produtores; Idade média: 58 anos
Tempo médio de atuação em cacau:
25,5 anos;
Formação educacional: maioria nível
superior ou pós-graduação;
Propriedades agrícolas de produção de
cacau: propriedades próprias (maioria)
e mais que uma propriedade (duas a
três);
Atividades econômicas: diversicada,
com cacau, cupuaçu, açaí, pupunha,
café, palmito, atividade de
processamento do cacau e serviço de
turismo rural;
Mão de obra utilizada: familiar – 01 a
02 pessoas; predomínio de mão de obra
permanente (média de cinco pessoas);
Sistema de produção do cacau:
Cabruca orgânico;
Média de produção 2013-2015: 845
arrobas;
Certicações: Orgânico Brasil (desde
2002), USDA organic (desde 2003)
e padrão equivalente para regulação
europeia (desde 2002).
Empresa nacional e de estrutura
familiar;
Ano de criação: 2005, com trajetória
prévia na produção de chocolates para
consumo nal;
Atividade econômica: primeiro
processamento do cacau;
Capacidade de esmagamento: 20 mil
toneladas por ano;
Portfólio de produtos: linha
convencional (80%) e especial (com
selos, 20%), referente a 2014-2015;
Certicações: Orgânico Brasil, USDA
orgânico, orgânico regulação da União
Europeia, Kosher, Fairtrade, Rainforest
e Raw;
Destino: 50% para o mercado externo
e 50% mercado interno, sendo
empresas de cosméticos, chocolateiros e
suplementação alimentar.
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
110
Tipo Âmbito produtor Âmbito Empresa Compradora
(ECP1)
Comercialização e
governança
Agentes compradores: Organização
Coletiva e mercado local;
Integração vertical com fabricação de
chocolate (um produtor);
Transação dos produtores com a
OC:
50-65% da média de produção de
2013-2015;
Produto comercializado: amêndoas
– Estrutura de governança: ausência
de contratos (com valor relacional
envolvido);
Forma de recebimento: À vista
Prêmio: 30% em relação ao preço
de mercado + percentual referente
aos ganhos líquidos do ano corrente,
proporcional ao volume que cada
agente produtor entrega durante o ano.
Transação OC a jusante (por
informações secundárias):
Agentes compradores: empresas
chocolateiras nacional (inclusive
ECP1) e internacional;
Produto comercializado: amêndoas.
Agentes fornecedores: produtores e
cooperativas dos estados da Bahia e
Pará;
Produto adquirido: amêndoas de cacau
orgânico (20% do total da produção,
com certicação) e convencional
(80%) (anos 2014-1015);
Transação da ECP1 com a OC:
Adquire aproximadamente 90% da
OC;
– Características da transação:
Alto tempo de transação (11 anos);
Incerteza: nível baixo, devido alto nível
de compartilhamento de informação
nas três variáveis (compartilhamento
de informação com o produtor-OC
quanto à sua previsão de demanda, de
produção por parte do produtor-OC
e de inovações na produção do agente
produtor-OC);
Especicidade do ativo: Físico,
locacional e dedicado – alta; Temporal
– média;
– Características dos agentes:
Oportunismo: nível baixo em ambos
(relação ECP1-OC e na visão da ECP1
sobre a relação OC-ECP1);
Racionalidade limitada (RL): nível
baixo de RL, muita informação quanto
a mercado de cacau com qualidade
(preço, demanda e oferta); a partir
do fornecedor quanto a tecnologias
utilizadas na produção e qualidade;
de tecnologias no seu processamento;
e gerenciais (custos, estoques e
marketing);
– Estrutura de governança (com
OC): contrato anual, com informações
do volume adquirido, prazo de
pagamento e preço;
Forma de pagamento: À vista;
Transporte realizado: pela empresa,
sem deságio;
Prêmio: 50% a 70% em relação ao
preço de mercado; balizamento de
preço a partir de empresa adquirente
a jusante.
Fonte: Santini Pigatto et al. (2020).
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
111
A transação da organização (OC) com o agente comprador (ECP) se
dá com contratos anuais de fornecimento. É possível notar nessa transação
uma governança econômica que se traduz não somente na existência de
um contrato, mas principalmente, na eciência e coordenação produtiva,
informacional e econômica entre ECP e seu cliente, que remete a uma
valoração do produto comprado, dado a vericação in loco pelo mesmo
dos aspectos de preservação e trabalho existentes na produção agrícola.
Valoração essa, que se dá tanto em questão econômica - maior prêmio
atribuído às amêndoas de cacau comercializadas como no aspecto de valo-
ração da Mata Atlântica, dada a produção no sistema cabruca. Outro fator
que se soma são as características da transação e do agente, observadas pela
perspectiva da ECP, que levam a inferir a uma governança mais efetiva,
como: alto tempo de relacionamento (mais precisamente: 11 anos); nível
baixo de incerteza; especicidade alta do ativo em fatores físico, locacional
e dedicado (menor somente no fator temporal, dada a capacidade de ar-
mazenamento das amêndoas); de nível baixo de oportunismo (na relação
da ECP com a OC e na visão desta sobre a atuação da OC); e nível baixo
de racionalidade limitada, ou seja, de um maior nível de utilização de in-
formação quanto a mercado, a partir do fornecedor quanto a tecnologias
usadas na produção e qualidade, de tecnologias no seu processamento e
gerenciais (Santini Pigatto et al., 2020).
Notou-se assim, uma governança econômica mais efetiva ao nível
do sistema agroindustrial, entre ECP e seu agente comprador a jusante,
que remete a uma valoração do produto comprado, que envolve aspectos
econômico e não econômico. A coordenação e eciência obtida – também
amparada pela governança contratual – se reete inclusive, no relaciona-
mento da OC com os produtores, dado os ganhos nanceiros líquidos
obtidos pelos mesmos a cada nal de ano corrente (obtidos proporcional-
mente ao volume que cada agente produtor entrega durante o ano).
Quando se analisa se essa governança econômica tem impactado
também nos aspectos sociais e ambientais, verica-se que não há uma
inuência ou coordenação direta do agente comprador nesse sentido,
por se congurar em uma relação comercial. Todavia, há de se desta-
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
112
car que a valoração das empresas compradoras processadoras em termos
de pagamento de preço premium pelas amêndoas de cacau pode ser um
incentivo aos produtores pela manutenção da qualidade e de sistemas
socioambientais sustentáveis.
No que diz respeito ao fator ambiental, nota-se pelas perspectivas
dos produtores uma busca por manutenção ou, até mesmo, ampliação de
áreas de preservação de oresta, realizando-se inclusive, com a produção (e
replantio) em sistema cabruca. No caso analisado, todas as fazendas pos-
suem nascentes protegidas que, além de abastecerem as famílias que vivem
na propriedade, contribuem para a preservação de rios da região (Santini
Pigatto et al., 2020).
Observa-se que o sistema de governança estabelecido fomenta a sus-
tentabilidade econômica e funciona a partir de incentivos próprios dos
agentes produtores ou de agentes compradores, assim as formas híbridas
adotadas se aproximam de estruturas de mercado, em que o preço fun-
ciona como um mecanismo de incentivo, a exemplo do pagamento de
preço premium por amêndoas de cacau de maior qualidade. No entanto,
há outros incentivos não nanceiros que indiretamente afetam a sustenta-
bilidade ambiental e social, a exemplo de ações como assistência técnica,
doação de mudas e de insumos orgânicos aos agentes produtores, de modo
a aperfeiçoar o processo produtivo. Outro ponto a ser destacado são as
certicações, que trazem uma série de requisitos sociais e ambientais.
Ainda sobre os aspectos sociais, ainda que haja programas estabele-
cidos por parte dos agentes compradores, não se pode notar mudanças em
termos de relações sociais ou nível de satisfação das famílias ou das comu-
nidades (Santini Pigatto et al., 2020).
considerAções finAis
Os casos analisados neste capítulo apontam sistemas produtivos re-
levantes ao país do ponto de vista econômico, social, ambiental, histórico
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
113
e cultural tanto para o caso da laranja quanto para o caso do cacau. Estes
sistemas vêm recebendo agregação de valor e promoção de coordenação
por meio de certicações que sinalizam informação, desde a produção agrí-
cola até o destino nal. Formas de governanças híbridas foram visualizadas
em ambos os casos em diversas transações entre os agentes dos sistemas,
especicamente, os contratos, uma vez que os atributos de maior nível de
qualidade são cruciais para ambos os sistemas.
No tocante aos aspectos de sustentabilidade, notou-se maior con-
vergência econômica, a partir de preços premium realizados. Todavia, o
formato em cooperativa, no caso de produção e venda da laranja, e de
coordenação exercida por agente comprador secundário (em preços), no
caso do cacau, denotam aspectos sociais importantes para a maior troca de
informação e reputação nos sistemas.
Vale ressaltar que as certicações utilizadas em ambos os sistemas
abrangem requisitos que vão além de aspectos técnicos, abrangendo tam-
bém aspectos sociais e ambientais. Assim, a governança estabelecida nos
sistemas produtivos do cacau e da laranja promovem a sustentabilidade,
principalmente econômica, no entanto, indiretamente contribuem tam-
bém para a sustentabilidade social e ambiental.
Em termos abrangentes, os resultados contribuem ao ODS 12 da
ONU, de modo mais especíco ao alcance de gestão sustentável e uso
eciente dos recursos naturais e ao incentivo às empresas a adotarem prá-
ticas sustentáveis e a integrarem informações de sustentabilidade em seus
relatórios (ODS 12.2 e 12.6, respectivamente).
Como contribuição deste capítulo, espera-se que os casos analisados
possam inspirar novas análises de coordenação e governança nos sistemas
agroalimentares brasileiros, tanto nos de maior ou de menor complexidade.
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
114
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Construindo ciência em cooperação internacional acadêmico-cientíca
pArte ii
119
cApítulo 5
Educação alimentar e nutricional:
uma análise das consequências,
estratégias de prevenção e o
desenvolvimento escolar
Giseli Boiam Dall’ANTONIA 1
Angela Vacaro de SOUZA 2
Programa de Pós-Graduação em Agronegócio e Desenvolvimento (PGAD), Faculdade de Ciências e
Engenharia, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil,
e-mail: giseli.boiam@unesp.br.
Departamento de Gestão, Desenvolvimento e Tecnologia, Faculdade de Ciências e Engenharia,
Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil, e-mail: angela.
souza@unesp.br.
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-534-6.p119-140
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
120
introdução
Na sociedade contemporânea, marcada por rápidas transformações
no estilo de vida e nos padrões alimentares, a questão da alimentação e
nutrição ganha destaque como um componente crucial para a saúde
e o bem-estar geral. No contexto desse cenário complexo, a Educação
Alimentar e Nutricional (EAN) emerge como uma abordagem estratégica
indispensável, visando não apenas a compreensão dos impactos negativos
de hábitos alimentares inadequados, mas também a implementação de
estratégias preventivas ecazes.
Este texto propõe-se a realizar uma análise abrangente das consequên-
cias associadas a práticas alimentares desequilibradas, destacando a necessi-
dade premente de intervenções educacionais. Nesse sentido, ao ser examina-
do o papel da EAN como ferramenta essencial na prevenção de problemas de
saúde relacionados à alimentação, de modo a contribuir para a formação de
hábitos saudáveis desde a infância. Além disso, o texto aborda o impacto des-
sa abordagem no contexto escolar, investigando como a promoção de uma
alimentação consciente pode inuenciar positivamente o desenvolvimento
acadêmico, cognitivo e social dos estudantes no ambiente escolar, integrando
o tema ao currículo escolar e nas práticas pedagógicas.
Ao explorar os vínculos entre a educação alimentar, as consequências
de hábitos alimentares inadequados e o desempenho escolar, este trabalho
busca fornecer insights valiosos para a formulação de estratégias preventivas
ecientes. A compreensão aprofundada dessas relações é essencial não ape-
nas para o desenvolvimento individual dos estudantes, mas também para a
construção de uma sociedade mais saudável e resiliente.
A sindemiA globAl entre sAúde e AlimentAção
A partir da década de 1970, a denição de fome pela Organização
das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) tornou-se
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
121
mais restritiva, vinculando-a à desnutrição crônica. Essa condição não ape-
nas implica a falta de alimentos, mas também está associada à insuciência
de vitaminas e minerais, contribuindo para a ocorrência dessas deciências
quando a desnutrição crônica está presente (Ribeiro Junior, 2021).
Por outro lado, surge a problemática da má nutrição como um dos
principais desaos para a saúde pública na contemporaneidade. Tanto a
desnutrição quanto a obesidade, acompanhado das ramicações das mu-
danças climáticas e seus impactos na saúde humana e nos ecossistemas
vitais para nossa sobrevivência, são agora amplamente reconhecidos como
componentes de uma síndrome ou sindemia global que afeta signica-
tivamente a população em todo o mundo. Os sistemas alimentares de-
sempenham um papel crucial nessa síndrome, abrangendo três elementos
fundamentais: a cadeia que vai desde a produção até a comercialização de
alimentos, o ambiente em que ocorre a alimentação e os hábitos alimenta-
res adotados pelas pessoas (Swinburn, et al., 2019).
É relevante ressaltar que além da fome literal e da má nutrição, há
uma “fome” relacionada ao conhecimento, caracterizada pela desinforma-
ção sobre certos alimentos. Frequentemente, essa falta de informação de-
corre de inuências familiares e da resistência em buscar ou experimentar
novas opções alimentares.
Frente aos desaos previamente mencionados, torna-se fundamental
integrar a EAN ao processo de ensino e aprendizagem, incorporando-a
de forma abrangente ao currículo escolar. Isso implica a abordagem de
temas como alimentação, nutrição e a adoção de práticas de vida saudá-
veis, com o propósito de promover a perspectiva da segurança alimentar e
nutricional. Essa abordagem deve fazer parte integrante da rotina escolar,
com papéis claramente denidos para diversos agentes, incluindo governos
em suas esferas diversas, sociedade, família, escola, professores e alunos. O
objetivo é reformular os conceitos estabelecidos na sociedade em relação à
alimentação e nutrição.
Um exemplo concreto dessa abordagem foi observado durante um
evento em Tupã/São Paulo (SP), uma feira de Divulgação Cientíca. Nesse
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
122
contexto, cou evidente a necessidade da educação alimentar desde a cre-
che, proporcionando aos alunos, dentro da educação formal, a oportu-
nidade de aprenderem sobre o ciclo completo de desenvolvimento das
plantas, desde o plantio e cultivo até a colheita e o consumo consciente,
saudável e sustentável. A proposta de uma horta pedagógica no ambiente
educacional se destaca como uma ferramenta prática para essa educação,
permitindo uma ampla divulgação no âmbito familiar e comunitário. O
intuito é romper com preconceitos arraigados nas famílias e promover uma
mudança na cultura local.
Essa temática e uma interessante iniciativa ocorreu em parceria com a
Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco)
e o Ministério da Educação (MEC), através do documento orientador do cur-
rículo escolar denominado Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Esse
documento, que incorpora habilidades a serem ministradas nas diferentes dis-
ciplinas como Temas Transversais, aborda os Objetivos de Desenvolvimento
Sustentável (ODS) (UNESCO, 2020), incluindo temas como a educação am-
biental e alimentar, os direitos humanos, a saúde, entre outros.
segurAnçA AlimentAr e nutricionAl: de onde pArtimos e o que
queremos AlcAnçAr
Há cerca de três milhões de anos, a base da alimentação humana
consistia principalmente em raízes, sementes e frutas ricas em açúcares.
Com o passar do tempo, ocorreram mudanças signicativas, como a intro-
dução de uma dieta rica em proteínas, demonstrando ser uma das formas
de desenvolvimento cerebral da espécie. No entanto, o cenário global se
transformou com o advento de uma vida mais acelerada, impulsionada
pela crescente globalização, aumento do tráfego, deslocamentos e migra-
ção de famílias do campo para as cidades em busca de emprego.
Nesse contexto, a industrialização desempenhou um papel crucial,
resultando no aumento da produção de alimentos processados pelas indús-
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
123
trias, impulsionado pelo avanço tecnológico. Isso culminou na prolifera-
ção em larga escala de alimentos e bebidas processados, acarretando con-
sequências signicativamente negativas para a saúde humana, conforme
destacado pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) em 2018.
Com a preocupação alimentar da população em nível global no mun-
do contemporâneo, acompanhada pelo aumento da obesidade e desnutri-
ção em todas as faixas etárias e classes sociais e de outras doenças relaciona-
das à alimentação, surgem de forma urgente novas diretrizes e documentos
em análise para promover mudanças nos sistemas alimentares. O objetivo
principal é torná-los saudáveis, sustentáveis e equitativos, considerando a
interligação com a saúde, o meio ambiente, o clima e a agricultura. É nesse
contexto que surge a Agenda 2030, que busca estabelecer metas a serem
cumpridas nos sistemas alimentares agroecológicos e promover a saúde em
âmbito local, regional, nacional e global (Burigo, 2021).
Os termos relacionados à má nutrição: desnutrição e obesidade, jun-
tamente com as mudanças climáticas, constituem uma sindemia global na
qual se tornam um o condutor, ou seja, a insustentabilidade dos atuais
sistemas alimentares. Neste contexto, as políticas nacionais que tratam dos
assuntos relacionados à alimentação e nutrição surgem como importantes
ferramentas intersetoriais para alcançar uma alimentação suciente, sau-
dável e com isso a segurança alimentar e nutricional. Além dos aspectos
anteriormente relacionados, o Guia Alimentar para a População Brasileira,
no qual apresenta informações, análises, modos de preparo e consumo dos
alimentos, é utilizado como ferramenta estratégica de apoio às iniciativas
de EAN. Essencialmente, as políticas de saúde, agricultura e meio ambien-
te precisam ser articuladas para alcançar o desenvolvimento sustentável.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece e prioriza ações
que enfoquem a Segurança Alimentar e Nutricional, a melhoria da nutri-
ção e a erradicação da fome, incluindo a sustentabilidade agrícola (Jones;
Ejeta, 2016). A melhoria da oferta global de vegetais continua sendo a cha-
ve para a redução das condições de desnutrição e obesidade. Dentro dessa
temática, em setembro de 2015, os ODS da Agenda 2030 foram adotados
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
124
por 193 países em busca de um futuro saudável para o mundo, sendo que
os aspectos voltados à alimentação e promoção à saúde possuem inserção
direta e adesão em cerca de 4 desses objetivos globais da Organização das
Nações Unidas (ONU), 2023, a saber:
Objetivo 1, erradicar com a pobreza em diversos lugares;
Objetivo 2, que propõe acabar com a fome, alcançar a segurança
alimentar e melhorar a nutrição e promover a agricultura sus-
tentável, fornecendo meios de subsistência da população global
atual e melhoria na renda dos produtores de alimentos;
Objetivo 3, que propõe assegurar uma vida saudável e promover
o bem-estar para todas e todos, em todas as idades. É notável
que alguns esforços estão sendo realizados pelos governos em
suas diferentes esferas para cumprir com as metas propostas, po-
dendo ser citado o Programa Nacional de Alimentação Escolar
(PNAE), Programa do governo federal que possui por objetivos
garantir uma adequada alimentação a escolares;
Objetivo 4, que visa garantir a educação inclusiva e equitativa de
qualidade, além de promover oportunidades de aprendizagem
ao longo da vida para todos em um de seus subtópicos (4.7) é
posto como meta a garantia de que os alunos adquiram conhe-
cimentos e habilidades necessárias para promover o desenvolvi-
mento sustentável incluindo estilos de vida. Com a qualicação
dos professores, garantias de equidade de acesso e permanência e
oferta gratuita na rede pública que conduza resultados de apren-
dizado satisfatórios e relevantes, a EAN pode ter um impacto
substancial no processo de ensino-aprendizagem e promoção da
saúde e bem-estar;
Objetivo 12, que visa garantir padrões sustentáveis de produção
e consumo, como melhor planejamento das culturas e, assim,
reduzir o desperdício e melhorar o aproveitamento de alimentos
diariamente.
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
125
Em 1988, foi instituído o Sistema Único de Saúde (SUS) com o
objetivo de promover a saúde geral da população em todo o país. Além de
ações como prevenção de doenças, vacinação e campanhas de prevenção
de doenças infecciosas. Nos últimos anos, o SUS avançou continuamente
na prestação de assistência universal e integral à saúde da população bra-
sileira, contribuindo para a redução das desigualdades no acesso à saúde
pela população. O SUS atua em conjunto com outras políticas públicas,
principalmente por meio da Atenção Primária à Saúde (APS) no combate
às epidemias globais, na contribuição para o controle das epidemias de
obesidade e desnutrição e na contribuição para a mitigação e adaptação às
mudanças climáticas (Ebi et al., 2017).
Em relação à alimentação, o SUS desempenha um importante papel
na atenção à alimentação e nutrição, na promoção e proteção da saúde,
bem como na prevenção, diagnóstico e tratamento de doenças relaciona-
das a esta temática. Suas ações estão integradas ao sistema alimentar atual
e têm o potencial de inuenciar diversas áreas desse sistema, como a cadeia
produtiva agroalimentar, o ambiente alimentar e o consumo de alimentos,
com impactos na saúde, no meio ambiente e na economia.
O SUS é, portanto, considerado uma ferramenta crucial para o de-
senvolvimento sustentável, e, portanto, é urgente a necessidade de conver-
gência de políticas, uma maior integração e uma atuação sinérgica entre as
ações, bem como o diálogo entre atores de diferentes setores. Os avanços
na área da Saúde da Terra, que envolvem o estudo coletivo do comporta-
mento humano no ambiente e seu impacto na saúde e na sustentabilidade
do planeta, desempenham um papel fundamental na promoção da susten-
tabilidade nas políticas de saúde pública.
Adicionalmente, as pessoas, com direitos e deveres relacionados à
educação, saúde e agência, podem atuar como cidadãos na exigência do
cumprimento dos direitos humanos à alimentação adequada e a um am-
biente alimentar mais saudável para todos. Assim, o SUS deve atuar como
um agente catalisador no desenvolvimento de um sistema alimentar mais
seguro, justo, saudável e sustentável (Machado, 2021).
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
126
má nutrição e desenvolvimento escolAr
Com o passar dos anos, a educação emerge como uma parceira cru-
cial na luta contra a desnutrição, uma vez que é por meio dela que se torna
possível estabelecer uma relação entre a alimentação e os problemas de
saúde. Nesse contexto, é fundamental a realização de uma educação popu-
lar aliada à educação nutricional, possibilitando o reconhecimento integral
da pessoa e a promoção de boas relações sociais (Quevedo Bolívar, 2019).
Relacionado à educação popular, torna-se imprescindível promover
uma conscientização crítica que permita a identicação dos problemas as-
sociados à má nutrição e das alternativas para modicar os hábitos alimen-
tares. É fundamental buscar a superação de situações opressivas com o
objetivo de efetuar transformações signicativas nesse contexto (Lorenzo,
2019).
A reorientação das concepções educacionais com modelos estabele-
cidos no processo sistemático de engajamento na prática cultural sugere
que a educação integra duas visões de mundo, reconhecendo que ambas
não impedem a formação de traços identitários, mas sim a emergência de
novos códigos e signicados. Nesse contexto, a educação da população por
meio escolar oferece um espaço intercultural onde diferentes mundos se
conectam e se inuenciam (FAO, 2019).
Uma alimentação precária é um dos fatores relacionados diretamen-
te com o processo de aprendizagem (Ferreira, 2019). Sabe-se que todo
nutriente apresenta sua particularidade, relevância e importância para o
desenvolvimento, principalmente o infantil, fase essa em que todo o siste-
ma orgânico e de aprendizagem está sendo constante transformação, sen-
do alguns nutrientes indispensáveis para o desenvolvimento cerebral, com
destaque nos nutrientes ferro, iodo, zinco, vitamina do complexo B, prin-
cipalmente a B12 e o zinco (Macedo, 2019). Uma criança que apresenta
diculdade de aprendizagem, tem baixo desempenho em atividades do dia
a dia, nos relacionamentos familiares e sociais (Cerqueira, 2022).
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
127
É de extrema importância que haja ações relacionadas a EAN nas es-
colas, pois, é uma das maneiras de inuenciar os discentes a aderirem me-
lhores hábitos alimentares com melhor qualidade de vida, alterando seus
hábitos construídos culturalmente (Magalhães; Cavalcante, 2019), sendo
os docentes os promotores e facilitadores das ações de EAN, no qual deve
constar, em seu planejamento escolar, conteúdos pedagógicos relacionados
com a alimentação saudável e saúde (Silva et al., 2018).
Neste contexto, a escola, como ambiente de aprendizagem, deve pos-
sibilitar a promoção e a prevenção de doenças, com o objetivo de inuen-
ciar hábitos alimentares saudáveis. As ações do EAN devem iniciar desde a
educação infantil para a prevenção de patologias futuramente (Magalhães;
Cavalcante, 2019).
É importante destacar que a colaboração entre a nutricionista, por
meio do PNAE, em conjunto com a escola, a comunidade e os docentes,
deve promover o acesso a alimentos saudáveis por meio de políticas pú-
blicas e ações ecazes (Vasconcelos, 2020). O pedagogo desempenha um
papel crucial como inuenciador e pode utilizar em suas aulas abordagens
de aprendizado envolventes, fazendo uso de personagens, desenhos anima-
dos e uma variedade de materiais lúdicos relacionados à alimentação como
recurso pedagógico (Maito, 2018). Sendo assim, o docente deve trabalhar
o tema nutrição e saúde na escola de maneira interdisciplinar, isso não sig-
nica prevenir ou tratar doenças, mas sim, ensinar os alunos, de maneira
a capacitá-los a tomarem suas próprias decisões (Silva et al., 2017). Bo
(2011), p. 143, relata “Não se trata de reexão sobre a prática embasada
somente nos saberes da experiência desconectada da teoria. Trata-se de um
prossional que reete sobre seus saberes, obtidos da prática e compreen-
didos à luz de uma teoria”.
Conforme relata Vigotsky (2008), “a criança pensa de forma sincré-
tica sobre assuntos de que não tem conhecimento ou experiência, mas não
recorre ao sincretismo com relação às coisas familiares ou que sejam de fácil
comprovação prática” (p. 27). Sendo assim, é essencial que as atividades
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
128
educativas sejam promotoras de interesse, articuladas e em consonância
com o Projeto Político Pedagógico da escola.
As crianças em idade escolar podem desempenhar um papel crucial
como agentes de mudança, uma vez que seus gostos e preferências estão sendo
moldados. Quando aliados a hábitos alimentares saudáveis, podemos formar
uma geração comprometida com a nutrição adequada. Portanto, transmitir
informações para diferentes grupos sociais pode contribuir para aumentar
a conscientização coletiva sobre saúde e nutrição (Quevedo Bolívar, 2019).
Vale ainda ressaltar que os alunos são importantes vetores na condução do
aprendizado escolar para dentro de suas casas de modo a inuenciar positi-
vamente a família e a comunidade que os cercam.
No Brasil, o PNAE, administrado pelo governo federal e mantido
pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) garante
que os alunos em idade escolar recebam alimentação durante o período
em que estão na escola. Esse programa assegura uma alimentação segura,
diversicada e saudável para os alunos do ensino infantil, fundamental e
médio (Cesar et al., 2018; Roque, 2017). O objetivo principal do PNAE
é erradicar a fome e a desnutrição, contribuindo para o aumento do
desempenho escolar e do aprendizado, uma vez que oferece alimentos
nutritivos e de qualidade auxiliando no crescimento, desenvolvimento
e na promoção da Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) dos estu-
dantes (Gomes, 2020) e traz como objetivos e benefícios desse programa
a educação para comer de modo a promover a saúde por meio de uma
alimentação adequada, saudável e sustentável privilegiando alimentos in
natura, respeitando os regionalismos e privilegiando os alimentos pro-
vindos da agricultura familiar.
A educação é um direito de todos, porém o sucesso escolar não pode
estar inserido apenas na esfera familiar e escolar, mas se faz necessário a
existência de políticas públicas e quando a educação traz consigo questões
que envolvem a promoção à saúde, o enfoque e o empenho devem ser
maximizados fazendo com que ao serem cumpridos os papéis dos gover-
nos em suas diferentes esferas, da escola, da comunidade, do docente e da
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
129
família, o aluno poderá se beneciar em diferentes vertentes de sua vida,
tornando-a mais saudável e rica em conhecimentos.
Ações do pnAe e fnde pArA A AlimentAção
Conforme Brasil (2020), o Programa Nacional de Alimentação
Escolar (PNAE) refere-se ao atendimento da alimentação escolar com re-
gulamento sob a resolução CD/FNDE nº 06, de 8 de maio de 2020, no
qual apresenta as diretrizes da alimentação escolar saudável com alimentos
seguros e variados que corroboram com o desenvolvimento integral, biop-
sicossocial e a aprendizagem dos educandos, utilizar em seu cardápio ali-
mentos preferencialmente in natura ou minimamente processados, com os
cuidados daqueles que apresentam restrições alimentares, alergias. A aten-
ção para a alimentação deve pautar-se em cardápios planejados de acordo
com a resolução vigente, no qual apresenta em seu artigo 18:
I – no mínimo 30% (trinta por cento) das necessidades nutricionais
de energia, macronutrientes e micronutrientes prioritários,
distribuídas em, no mínimo, duas refeições, para as creches em
período parcial;
II – no mínimo 70% (setenta por cento) das necessidades
nutricionais de energia, macronutrientes e micronutrientes
prioritários, distribuídas em, no mínimo, três refeições, para
as creches em período integral, inclusive as localizadas em
comunidades indígenas ou áreas remanescentes de quilombos;
IV – no mínimo 20% (vinte por cento) das necessidades
nutricionais diárias de energia e macronutrientes, quando ofertada
uma refeição, para os demais estudantes matriculados na educação
básica, em período parcial;
V - no mínimo 30% (trinta por cento) das necessidades nutricionais
diárias de energia e macronutrientes, quando ofertadas duas ou
mais refeições, para os estudantes matriculados na educação básica,
exceto creches em período parcial;
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
130
§ 1º Em unidades escolares que ofertam alimentação escolar em
período parcial, os cardápios devem ofertar, obrigatoriamente, no
mínimo 280 g/estudantes/semana de frutas in natura, legumes e
verduras, assim distribuídos:
I – frutas in natura, no mínimo, dois dias por semana; II
hortaliças, no mínimo, três dias por semana.
§ 2º Em unidades escolares que ofertam alimentação escolar em
período integral, os cardápios devem ofertar, obrigatoriamente, no
mínimo 520 g/estudantes/semana de frutas in natura, legumes e
verduras, assim distribuídos:
I – frutas in natura, no mínimo, quatro dias por semana;
II – hortaliças, no mínimo, cinco dias por semana (Brasil, 2020,
p. 7-8).
Ainda de acordo com o mesmo autor, o programa reforça a necessi-
dade de inserir o tema alimentação e nutrição nas atividades escolares de
modo a incentivar o processo de ensino e aprendizagem.
Um grande marco na história do município de Tupã é a parceria
da Universidade Estadual Paulista “Júlio Mesquita Filho” (UNESP), na
promoção de cursos com convites para a participação de professores da
rede municipal, diretores, coordenadores, e funcionários em geral. A insti-
tuição promoveu em 2022 um curso denominado Letramento Cientíco,
no qual possibilitou a participação do público em geral e serviu como base
para ampliação e divulgação dos cursos, eventos e parcerias de desenvolvi-
mento sustentável com foco na alimentação saudável. Resultou desse even-
to o anseio maior do município em cumprir os ODS, e procurar estratégias
para a conquista do selo de município verde e azul.
Com base nos critérios delineados anteriormente é digno de nota
que o município de Tupã está focado em cumprir as metas dos ODS e no
quesito alimentação e espera alcançar a posição de ser uma das primeiras
cidades em alimentação saudável e saúde. Esse fato foi comprovado por
meio da primeira conferência de segurança alimentar e nutricional em um
debate de propostas com o objetivo de erradicar a fome e as possíveis ações
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
131
do TUPÃ 2030 realizado em 2 de agosto de 2023. Relata a coordenadora
Gislaine Rodrigues Treviso, que o evento segue planejamento de acordo
com o Conselho Nacional de Segurança Alimentar (CONSEA). Relata
ainda que essa foi a primeira etapa de diversos debates, com o foco a nível
estadual e federal. O evento contou com a participação de 110 pessoas
de diversos setores, secretarias e munícipes e contou com a coordenação
do Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional (Comsea),
atuando em parceria com o comitê gestor do Programa municipal TUPÃ
2030, o evento debateu estratégias e políticas públicas de mitigação da
má-nutrição, partindo do tema “Erradicar a fome e garantir direitos com
comida de verdade, democracia e equidade” (Tupã, 2023).
As temáticas do evento seguiram os eixos: 1º eixo – fatores deter-
minantes estruturais e os macrodesaos em prol da soberania e segurança
alimentar e nutricional; 2º eixo – Políticas públicas que garantem o direito
à alimentação adequada, sistema nacional de segurança alimentar e nutri-
cional; e 3º eixo – Participação e democracia social.
A coordenadora Gislaine destaca que: “Dentre 21 propostas elenca-
das numa pré-conferência, os participantes elegeram 9 itens do Eixo 1, que
foram levados para a etapa regional. No Eixo 2, tivemos cinco, e votamos
em três. Do último eixo, também elegemos três propostas”.
O Programa TUPÃ 2030 está em seu 3º Fórum. Ainda, o professor e
secretário municipal da educação, esporte e cultura Valdir Pedro Berti, 2023,
relata que: “O projeto tem perspectiva intersetorial por natureza. Hoje, as
secretarias de Saúde, Desenvolvimento Social, Meio Ambiente, Agricultura,
Planejamento, Educação, Cultura e Esportes apresentaram o trabalho efeti-
vo e os projetos concretos que permitirão tornar Tupã um dos dez municí-
pios do estado de São Paulo com melhor índice nutricional na infância. Uma
meta audaciosa, mas que tem sido colocada em prática diariamente”.
De acordo com a nota do histórico do governo do Estado de São
Paulo relacionado ao município Verde Azul, Tupã/SP apresenta em seus
dados as seguintes notas: 2008 (79,96); 2009 (84,84); 2010 (87,29);
2011 (91,98); 2012 (79,65); 2013 (74,00); 2014 (12,28); 2015 (14,03);
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
132
2016 (10,22); 2017 (6,23); 2018 (24,72); 2019 (30,88); 2020 (40,23)
(Secretaria do Meio Ambiente, 2023). Atualmente, em conversa com o
secretário Municipal de Tupã/SP, Marco, da Gestão de 2023, o municí-
pio foi perdendo a nota mínima para a manutenção do selo, e atualmen-
te se encontra na média 4, ou seja, em agosto deste ano, o município
elaborou projetos para reconquistar o selo do Programa Município Verde
Azul (PMVA). Esse programa foi lançado pelo governo do Estado de São
Paulo em 2007, por meio da Secretaria do Meio Ambiente, com o objetivo
de avaliar e apoiar a ecácia da gestão ambiental, promovendo a descen-
tralização e valorização da agenda ambiental sustentável nos municípios
(Secretaria do Meio Ambiente, 2014).
A Secretaria do Meio Ambiente, em 2014, por meio de seu progra-
ma, estabelece a implementação das ações propostas com base em evidên-
cias, por meio de diretrizes para tornar-se um município mais sustentá-
vel. Isso envolve áreas como educação ambiental, biodiversidade, gestão
das águas, tratamento de esgoto local e outras iniciativas. O município
de Tupã/SP, em colaboração com as secretarias da Educação e do Meio
Ambiente, incorporará nas atividades diárias das escolas, evidências, traba-
lhos realizados em prol da sustentabilidade, da cultura e da biodiversidade
(Município Tupã, 2023).
estrAtégiAs pArA melhoriA dA quAlidAde AlimentAr e desenvolvimento
escolAr em consonânciA com os progrAmAs governAmentAis
As Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) em certa me-
dida oferecem a possibilidade de seu uso alimentício, dentre outras qua-
lidades também podem ser comercializadas contribuindo com a renda de
muitos agricultores familiares. Contribuem ainda, para complementar a
alimentação e enriquecê-la. Seu uso pode ser em várias utilidades gastro-
nômicas, como corantes, amaciantes de carnes, condimentos, obtenção de
óleos, onde mais de uma parte das plantas podem ser utilizadas (Kinupp;
Lorenzi, 2014).
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
133
Os países tropicais e subtropicais, como o Brasil, detém a maior di-
versidade de espécies vegetais, contudo, o número de frutíferas e oleráceas
autóctones proporcionalmente utilizadas é ínmo mostrando o potencial
do país em explorar diversos vegetais com potencial para alimentação. Por
exemplo, dentre as 10 espécies frutíferas mais produzidas no Brasil nenhu-
ma é nativa (Kinupp, 2009, p. 1). Como já comentado anteriormente, o
Brasil é um país que se destaca na produção de alimentos, entretanto, “a
insegurança alimentar e nutricional é determinada por fatores econômicos,
políticos, ambientais e educacionais” de acordo com (Santos, 2022, p.11).
Assim, a construção da sociedade é moldada incluindo seus padrões ali-
mentares. Porém, é possível buscar uma alternativa alimentar acessível de
baixo custo e privilegiando a regionalidade.
Pensando em sua versatilidade, na grande biodiversidade encon-
trada no território nacional, do seu potencial comercial e alimentício,
busca-se destacar a importância da utilização destas plantas como forma
de valorizar, promover a saúde, o desenvolvimento escolar e tornar visível
notadamente as PANC a partir da implementação destes alimentos nas
hortas escolares.
A horta escolar é uma estratégia de aprendizagem sobre alimentação
e nutrição onde as crianças possuem diversas experiências e o contato com
as hortaliças, no caso as PANC torna o aprendizado mais atraente e pra-
zeroso, contribuindo com o interesse em experimentá-las. Desta forma, o
planejamento, a execução e a manutenção destes espaços de ensino-apren-
dizagem visam a promoção de bons hábitos alimentares que atuarão na
promoção da saúde.
A horta escolar necessita de pequenas áreas para o cultivo das plan-
tas como hortaliças, temperos e ervas medicinais, que podem ser consu-
midos complementarmente à merenda escolar já oferecida, em ocinas
de culinária e no desenvolvimento de diversas atividades pedagógicas
(Santana, 2021).
Determinados autores reconhecem que PANC possuem fatores nu-
tricionais maiores até do que plantas convencionais, podendo assim subs-
tituir outras hortaliças, além de destacar sua versatilidade em espaços ur-
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
134
banos como jardins e seu potencial comercial (Silva Liberato; Lima; Silva,
2019). Padrões culturais podem ser um fator agravante no não reconhe-
cimento do potencial das PANC. Sendo assim, a possibilidade de apro-
veitar a biodiversidade de plantas que possuímos, dependerá também da
divulgação, disponibilidade, das tecnologias de processamentos para ativar
a valorização desse recurso natural (Kinupp; Lorenzi, 2014).
A fome faz parte de uma dinâmica social promovida pelas desigual-
dades sociais. É necessário que sejam criadas políticas públicas para sanar
esse problema. A soberania alimentar também faz parte desse processo, e
neste sentido, uma solução interessante seria incentivar a introdução de
PANC na alimentação, a m de mitigar os efeitos da insegurança alimen-
tar e na elevação da qualidade de vida (Kinupp; Lorenzi, 2014).
A realização de hortas nas escolas possibilita diversos benefícios
desde despertar a curiosidade nos alunos, um maior entendimento sobre
sustentabilidade, estimula o trabalho coletivo, estimula o contato com a
natureza e seus recursos trazendo impactos positivos no ensino-aprendi-
zagem, a partir das práticas além de estimular aos alunos a sensibilização
e torná-los mais responsáveis sobre os assuntos ambientais e alimentares
promovendo um equilíbrio entre a natureza, a educação e a alimentação
além de instruí-los a desenvolverem a visão crítica e transformarem o meio
em que estão inseridos.
Portanto, a elaboração e montagem das hortas em ambiente escolar
deve ser considerada como um laboratório vivo e em constante transfor-
mação e com estímulo ao plantio e consumo das PANC, será possível o
consumo de alimentos mais saudáveis, de maneira econômica, contribuin-
do para enriquecer nutricionalmente a alimentação já oferecida na escola,
que deve ter uma composição balanceada em calorias, proteínas, bras,
carboidratos e demais nutrientes para garantir que o aluno tenha sua refei-
ção estritamente equilibrada e o conhecimento de plantas alimentícias ain-
da não exploradas por este grupo, despertando o interesse e a curiosidade
e juntamente com o apoio e estímulo dos governos e comunidade, o aluno
poderá se beneciar da produção obtida durante todo o processo, desde
seu projeto, implementação, cuidados e nalmente no consumo.
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
135
considerAções finAis
O texto aborda diversas facetas interconectadas relacionadas à ali-
mentação, saúde, educação e sustentabilidade. Destaca-se o papel crucial
da industrialização, que, impulsionada pelo avanço tecnológico, resul-
tou no aumento da produção de alimentos processados. Contudo, essa
proliferação em larga escala de alimentos industrializados trouxe consi-
go consequências negativas para a saúde humana, conforme alertado pela
Organização Pan-Americana da Saúde em 2018.
A criação do Sistema Único de Saúde em 1988 representou um mar-
co no Brasil, visando promover a saúde da população por meio de ações
abrangentes, como prevenção de doenças, vacinação e campanhas de pre-
venção. O Sistema Único de Saúde evoluiu ao longo dos anos, desempe-
nhando um papel importante na redução das desigualdades no acesso à
saúde, atuando em conjunto com outras políticas públicas, especialmente
na atenção primária à saúde.
A educação emerge como uma parceira crucial na luta contra a des-
nutrição, possibilitando estabelecer uma conexão entre alimentação e pro-
blemas de saúde. Destaca-se a importância da educação popular aliada à
educação nutricional, promovendo o reconhecimento integral da pessoa e
a construção de boas relações sociais.
A reorientação das concepções educacionais, baseada no engajamen-
to sistemático na prática cultural, sugere que a educação integra diferentes
visões de mundo. No contexto escolar, ela oferece um espaço intercultural,
conectando e inuenciando diferentes realidades.
A relação entre alimentação precária e processo de aprendizagem é
explorada, destacando a importância de nutrientes como ferro, iodo, zinco
e vitaminas do complexo B no desenvolvimento cerebral, principalmente
na fase infantil. Ações relacionadas à Educação Alimentar e Nutricional
nas escolas são enfatizadas como uma maneira ecaz de inuenciar os alu-
nos a adotarem hábitos alimentares saudáveis.
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
136
A colaboração entre nutricionistas, escolas e comunidade, por meio
do Programa Nacional de Alimentação Escolar, é ressaltada como essencial
para promover o acesso a alimentos saudáveis através de políticas públicas
ecazes. O papel do pedagogo como inuenciador, utilizando abordagens
lúdicas, é destacado, e a necessidade de um trabalho interdisciplinar sobre
nutrição e saúde nas escolas é ressaltada.
A importância de atividades educativas que promovam interesse e
estejam alinhadas ao Projeto Político Pedagógico da escola é enfatizada,
reconhecendo o potencial das crianças em idade escolar como agentes de
mudança. O Programa Nacional de Alimentação Escolar é citado como
uma iniciativa que visa erradicar a fome, promovendo crescimento, desen-
volvimento e segurança alimentar dos estudantes.
A discussão se expande para a esfera da sustentabilidade, com men-
ção a ações municipais baseadas em evidências para tornar as cidades mais
sustentáveis. A importância das Plantas Alimentícias Não Convencionais é
ressaltada, não apenas como opções alimentares, mas também como fonte
de renda para agricultores familiares. Destaca-se o potencial dessas plantas
para enriquecer a alimentação e sua versatilidade em espaços urbanos.
O texto conclui enfatizando a necessidade de políticas públicas para
enfrentar a fome, destacando a soberania alimentar como parte desse pro-
cesso. Propõe-se a introdução das Plantas Alimentícias Não Convencionais
na alimentação como uma solução interessante para mitigar a insegurança
alimentar e melhorar a qualidade de vida. Em suma, o texto destaca a in-
terconexão entre diferentes áreas, enfatizando a importância de abordagens
integradas para promover uma vida saudável e sustentável.
A análise abrangente das consequências associadas a práticas alimen-
tares desequilibradas ressalta a urgência de intervenções educacionais. A
proposta de integrar a educação alimentar ao currículo escolar, com des-
taque para a criação de hortas pedagógicas, surge como uma estratégia
prática e ecaz para promover hábitos saudáveis desde a infância.
A pesquisa também explora a interconexão entre a educação alimen-
tar, as implicações de hábitos alimentares inadequados e o desempenho
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
137
escolar. Destacando a sindemia global que combina desnutrição e obesida-
de, a pesquisa sugere que os sistemas alimentares desempenham um papel
crucial nesse cenário complexo.
É relevante observar a ênfase dada à parceria com organizações in-
ternacionais, como a UNESCO, e o alinhamento com os Objetivos do
Desenvolvimento Sustentável. Isso proporciona uma base sólida para as
propostas apresentadas, destacando a importância da educação alimentar
no contexto mais amplo do desenvolvimento sustentável.
A inclusão de ações governamentais, como o Programa Nacional de
Alimentação Escolar, demonstra uma compreensão prática das iniciativas
em nível nacional. Além disso, iniciativas locais, como a conferência em
Tupã/SP, ilustram a implementação real das estratégias propostas e a parti-
cipação ativa da comunidade.
Sugestões para aprimoramento incluem uma ênfase mais detalhada
nas Plantas Alimentícias Não Convencionais, exemplos especícos dessas
plantas e seus benefícios nutricionais. Além disso, uma abordagem mais
aprofundada sobre os impactos da educação alimentar no desempenho
acadêmico e desenvolvimento social dos alunos, com dados especícos ou
estudos, poderia fortalecer ainda mais a pesquisa.
No geral, a pesquisa apresenta uma abordagem holística e prática
para abordar os desaos alimentares contemporâneos, destacando a im-
portância da educação alimentar como um catalisador para uma sociedade
mais saudável e sustentável.
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141
cApítulo 6
Perdas e desperdícios: estudos de
caso no varejo de alimentos
Andréa Rossi SCALCO 1
Pamela Nayara MODESTO 2
Suzana Márcia MARANGONI 3
Giuliana Aparecida Santini PIGATTO 4
Departamento de Gestão, Desenvolvimento e Tecnologia, Faculdade de Ciências e Engenharia,
Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil, e-mail:
andrea.scalco@unesp.br.
Programa de Pós-Graduação em Agronegócio e Desenvolvimento (PGAD), Faculdade de Ciências e
Engenharia, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil,
e-mail: pamela.modesto@unesp.br.
Programa de Pós-Graduação em Agronegócio e Desenvolvimento (PGAD), Faculdade de Ciências e
Engenharia, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil,
e-mail: suzana.marangoni@unesp.br.
4 Departamento de Gestão, Desenvolvimento e Tecnologia, Faculdade de Ciências e Engenharia, Universidade
Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil, e-mail: giuliana.santini@
unesp.br.
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-534-6.p141-160
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
142
perdAs e desperdícios de Alimentos: contexto e impActos
As perdas e desperdícios de alimentos podem ocorrer em toda a ca-
deia de suprimentos. Desde o produtor até o consumidor nal, os alimen-
tos são perdidos e desperdiçados (Horós; Ruppenthal, 2021; FAO, 2019).
Em 2011, um estudo da Food and Agriculture Organization of the United
Nations (FAO) apontou que cerca de um terço dos alimentos produzidos
no planeta é perdido ou desperdiçado todos os anos. Porém, a organiza-
ção passou a estudar novos índices para melhorar as estimativas de PDA.
O novo índice, o Índice de Perda Alimentar (IPA) sugere que 14% dos
alimentos produzidos se perdem antes mesmo de chegar ao varejo (FAO,
2019). Mesmo com a signicativa redução, o tema ainda é relevante, pois
representa perda não apenas econômica, mas ambiental, nutricional e mo-
ral, tendo em vista o número crescente de fome e insegurança alimentar
em todo o planeta (FAO, 2023).
Apesar de os termos “perdas” e “desperdícios” de alimentos serem
empregados no mesmo sentido, eles são conceitos diferentes. Ambos repre-
sentam a redução da disponibilidade de alimentos para consumo humano
ocorrida ao longo da cadeia de suprimentos, no entanto, as perdas aconte-
cem principalmente nas fases de produção, pós-colheita e processamento
(Partt et al., 2010). Já os desperdícios ocorrem ao nal da cadeia alimen-
tar (varejo e consumo), em decorrência dos comportamentos assumidos
pelos varejistas (em seus estabelecimentos comerciais) e consumidores (em
suas residências) (FAO, 2011; Gustavsson et al., 2011; Partt et al., 2010).
Estas denominações são úteis, uma vez que estratégias para redução de des-
perdícios, bem como suas causas, são diferentes entre as etapas iniciais da
cadeia produtiva e as etapas nais. A Figura 1 demonstra as fases da cadeia
de suprimentos onde ocorrem PDA.
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
143
Figura 1 – Atividades que geram perdas e desperdícios ao longo da cadeia
de suprimentos
Fonte: Papargyropoulou et al., 2014, p. 107.
No mundo, são desperdiçadas 1,6 bilhão de toneladas de alimentos
por ano. Sem ações globais, esse dado pode chegar a um gasto equivalente
a US$1,5 trilhão em 2030, de acordo com o Boston Consulting Group
BCG (2018). Segundo a FAO (2017), 54% das perdas ocorrem nas fases
de colheita e manipulação, e 46% nas fases de armazenamento, transporte
e consumo. Ao mesmo tempo em que é um dos maiores produtores de
alimentos do planeta, o Brasil descarta 37 milhões de toneladas por ano,
de acordo com dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária -
Embrapa (2018).
Esse desperdício representa uma perda econômica estimada em
R$61,3 bilhões por ano, considerando-se os impactos ambientais e sociais
causados pelo problema, e coloca o Brasil como o 10º país que mais des-
perdiça comida no planeta (FAO, 2017).
Com relação a dados em nível mundial, a última edição do relatório
‘O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo’ (Pincer, 2023),
trabalho conjunto de cinco agências especializadas da Organização das
Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, Fundo Internacional
para o Desenvolvimento Agrícola (FIDA), Fundo das Nações Unidas para
a Infância (UNICEF), Organização Mundial da Saúde (OMS) e Programa
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
144
Mundial de Alimentos (WFP) relatam que uma média de 735 milhões
de pessoas passaram fome em 2022, representando quase 10% da popu-
lação mundial. Este número cresceu rapidamente devido à pandemia do
Covid-19, que acrescentou cerca de 122 milhões de pessoas a essa condi-
ção, desde 2019. A Figura 2 apresenta a concentração e distribuição da
segurança alimentar por gravidade ao redor do planeta e as diferenças entre
as regiões do mundo.
Figura 2 – A concentração e distribuição da segurança alimentar por
gravidade diferem muito entre as regiões do mundo
Fonte: FAO adaptado, 2023, p. 22.
A má nutrição também é preocupante, pois atinge milhões de crian-
ças de menos de cinco anos, acarretando atraso no crescimento (148,1
milhões), desnutrição aguda (45 milhões) e sobrepeso (37 milhões). Além
disso, o Estudo “Global Burden of Disease” (2019) apontou o risco alimen-
tar como o segundo maior fator de risco de mortes entre o público femini-
no e o terceiro entre o público masculino (FAO, 2023).
A mesma situação é vericada em países em desenvolvimento, como
o Brasil. Neste país, cerca de 21,1 milhões de pessoas passam fome diaria-
mente e 70,3 milhões vivem em estado de insegurança alimentar. Além
disso, 10 milhões de brasileiros estão desnutridos (FAO, 2023).
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
145
Dez por cento das perdas/desperdícios dos produtos brasileiros ocor-
rem ainda no campo, 30% nas atividades relacionadas ao armazenamento
e distribuição, 50% no transporte e 10% nos domicílios (FAO, 2023).
Metade desses alimentos perdidos/desperdiçados é constituída por frutas e
legumes (Brasil, 2022).
Na tentativa de diminuir o problema, verica-se que dentre os
Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030, estão os ODS
2 (referente à erradicação da fome) e o ODS 12 (que diz respeito a padrões
de consumo e produção sustentáveis, com redução de metade das perdas
e desperdícios de alimentos ocorridos ao longo da cadeia de produção e
suprimentos). O alcance desses objetivos é de suma importância, dada a
projeção de uma população de mais de nove bilhões de pessoas em 2050
(FAO, 2015), o que exigirá um aumento em torno de 60% na produção de
alimentos para suprir as necessidades humanas. No entanto, a FAO alerta
que se as tendências permanecerem estima-se que até 2030, aproximada-
mente 600 milhões de pessoas passarão fome, evidenciando que, apesar da
redução de pessoas com fome no mundo, os objetivos da Agenda 2030 não
serão alcançados (FAO, 2023).
A FAO aponta que há maiores perdas e desperdícios para grupos
especícos de determinados alimentos, ocorrendo em diversos níveis da
cadeia de suprimentos, em maior ou menor grau (FAO, 2019).
Considerando as características de alta perecibilidade das FLV
(Gustavsson et al., 2011; Lana, 2018; Silva et al., 2021), seus percentuais
de PDA são elevados, principalmente nas fases de produção e distribuição
(Schneider, 2013), inclusive sendo o grupo de alimentos mais desperdi-
çados no varejo, de acordo com pesquisas em vários países, como Itália,
Dinamarca, Suécia, Estados Unidos, entre outros (Bilska; Piecek; Kołożyn-
Krajewska, 2018; Eriksson et al., 2012).
Os alimentos são essenciais à manutenção da vida e da saúde huma-
na. A OMS e o Ministério da Saúde recomendam o consumo diário de
400 g de frutas e hortaliças, divididos em cinco porções para cada pessoa.
No Brasil, menos de 10% da população tem acesso a essa quantidade.
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
146
Essa situação contrasta com a condição do país que está entre os maiores
produtores de alimentos do mundo (FAO, 2020) e que, ao mesmo tem-
po, desperdiça cerca de 37 milhões de toneladas de alimentos por ano
(EMBRAPA, 2018).
Quanto às perdas/desperdícios de hortaliças e frutas no Brasil, esti-
ma-se que entre 35% e 55% ocorram na fase pós-colheita. Porém, admi-
te-se que falta maior precisão desses valores, que foram obtidos a partir de
uma base de dados restrita e por meio de metodologias subjetivas, o que
diculta comparar resultados, quanticar o volume e identicar as causas
de maneira mais precisa, conforme alerta Lana (2016).
Apesar dos inúmeros esforços de reaproveitamento de alimentos,
como o reúso, a reciclagem e a recuperação, a m de evitar o descarte, é
primordial que sua destinação seja, antes de tudo, a alimentação humana.
Deste modo, a prevenção de perdas e desperdícios constitui a ação mais
recomendada e que mais contribui para a melhor utilização de recursos
naturais e ambientais, cada vez mais escassos no planeta (Hermsdorf et al.,
2017; Natural Resources Defense Council – NRDC, 2017; WRAP, 2018).
Para combater o problema, a prevenção e a redução de PDA devem
ser priorizadas por todos os elos da cadeia de suprimentos para conhe-
cer e compreender os diversos fatores causadores e inter-relacionados. No
entanto, é importante ressaltar o poder do varejo sobre os elos da cadeia
de produção e distribuição, tanto a jusante, quanto a montante (Mena et
al., 2014; Moraes et al., 2020; Silva et al., 2021), inuenciando desde os
alimentos produzidos no campo, causando perdas primárias (Lana; Banci,
2020), até os hábitos de consumo da população. Além disso, a padroniza-
ção estética dos alimentos comercializados, estimulada pelos varejistas de
FLV, nas últimas décadas, impactou os critérios dos consumidores na esco-
lha de frutas, legumes e verduras “perfeitos”, contribuindo para o desper-
dício desses produtos (Baker et al., 2019). Sendo o elo que liga a produção
ao consumo de alimentos, o varejo de alimentos é um importante elo que
pode ditar e sinalizar as mudanças necessárias na cadeia produtiva, seja na
produção, seja no comportamento do consumidor.
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
147
o pApel do vArejo AlimentAr
A discussão em torno das perdas e desperdícios de alimentos deve ser
suportada pela tríade da sustentabilidade: econômica, ambiental e social.
Winterich (2019) dene sustentabilidade como um conjunto de ideias,
atitudes, intenções e comportamentos que envolvem a consideração es-
tratégica de recursos econômicos, ambientais e sociais para o sucesso das
gerações atuais e futuras. Sanchéz-Bravo et al. (2021) agregam outros dois
fatores igualmente importantes, a saúde e a cultura, uma vez que os mode-
los de produção sustentável de alimentos, além de terem impacto direto na
alimentação e, consequentemente, na saúde da população, deve contem-
plar os elementos culturais das populações especícas, como por exemplo,
grupos de indígenas, quilombolas, africanos, entre outros.
A preocupação dos agentes da cadeia, em especial do varejo, passa
pela lucratividade, no entanto, tal lucratividade – como uma das dimen-
sões da sustentabilidade (econômica) - está atrelada às outras dimensões,
social e ambiental. A sustentabilidade na cadeia de abastecimento exige que
os varejistas implantem a integração de todo o sistema em toda a cadeia de
abastecimento para minimizar os danos ao meio ambiente e aos indivídu-
os. Para além de inserção de lixeiras para reciclagem em lojas de varejo, a
sustentabilidade inclui uma consideração completa do impacto ambiental
e social dos negócios, desde a aquisição dos produtos, descarte, reutilização
ou reciclagem; da segurança e bem-estar de colaboradores para a segurança
e o bem-estar da sociedade, em geral. Uma característica notável é avaliar
a ênfase na tríade econômica (lucro), social (pessoas) e ambiental (planeta)
das atividades da cadeia de abastecimento com um olhar em seu impacto
futuro de longo prazo (Vadakkepatt et al., 2020).
Benefícios econômicos à parte, os varejistas estão começando a con-
siderar os custos operacionais, limitando o uso de recursos naturais e mini-
mizando os danos ao ecossistema, por meio da redução das emissões. Por
exemplo, os varejistas de alimentos são responsáveis por aproximadamente
dez por cento do desperdício de alimentos nos Estados Unidos (Weigel,
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
148
2020). Respondendo a este desao, grandes varejistas de alimentos estão
implantando tecnologia para reduzir o desperdício de alimentos em toda
a cadeia de abastecimento, economizando dinheiro e recursos ambientais
(Kleinman; Schneider; Strumwasser, 2018).
Em termos de impactos sociais, os super e hipermercados impactam
e são impactados pelos seus funcionários, fornecedores, consumidores e
comunidades em que as lojas operam. Assim, algumas grandes redes va-
rejistas dos Estados Unidos, por exemplo, investem em treinamento aos
seus funcionários, treinamentos aos seus fornecedores diretos e indiretos
para redução de perdas, e em campanhas aos consumidores em compras de
alimentos locais (Weigel, 2020). A gestão eciente das cadeias produtivas
leva à prevenção das perdas e desperdícios, o que tem, como consequência,
a redução de preços dos produtos, impactando diretamente no desempe-
nho econômico do negócio e na acessibilidade de alimentos seguros e sau-
dáveis ao consumidor.
Segundo MAPA (2022), o desperdício de alimentos no setor super-
mercadista atingiu 1,79% em 2020, o que corresponde a R$7,6 bilhões.
Dentre as categorias de produtos alimentares, a FLV lidera em termos de
desperdícios. Há de se ressaltar que tais dados são apenas estimativas, o que
indica que ainda existe a necessidade de melhor mapeamento da situação e
pesquisas relacionadas ao tema.
O setor de varejo é particularmente afetado pela falta de estudos que
utilizem dados primários. Isso pode ser explicado pelo fato de que os da-
dos de resíduos alimentares são frequentemente informações condenciais
para varejistas e fornecedores, e estão sujeitos a acordos de condenciali-
dade. O Índice de Desperdício de Alimentos (United Nations Environment
Programme, 2021) relata que, em todo o mundo, não há dados sucientes
na maioria dos países no nível de varejo, e pede mais quanticação, parti-
cularmente em países de baixa e média renda.
A população mais pobre tem menos acesso aos produtos da categoria
de FLV, uma vez que se observou uma redução no consumo entre os anos
de 2008 e 2018 (MAPA, 2022). É urgente que para mitigar a problemá-
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
149
tica da insegurança alimentar e nutricional no país, além de desenvolver
políticas públicas que visem a fomentar a segurança alimentar, estratégias
sejam elaboradas para que se possa reduzir a disparidade entre perdas e
desperdícios de alimentos, de um lado, e a fome e insegurança alimentar,
de outro (Zaro et al., 2018).
No entanto, a denição de estratégias para redução das PDA, bem
como as políticas públicas necessárias primeiramente passam pela melhor
compreensão dos fatores que causam as perdas em toda a cadeia produtiva
(Lana; Banci, 2020). Tal compreensão é reforçada no relatório “Estratégia
Intersetorial para a Redução de Perdas e Desperdícios de Alimentos no
Brasil”, da Câmara Interministerial de Segurança Alimentar e Nutricional
(CAISAN, 2018),
E neste sentido, o conhecimento das práticas realizadas por empresas
do varejo supermercadista no que se refere aos desperdícios de alimentos,
sob a ótica da sustentabilidade, conforme apontado por Sánchez-Bravo et
al. (2021), se faz necessário.
Existem pesquisas que reforçam tal hipótese de que os desperdícios
– quando avaliados no varejo – devem ser considerados na relação for-
necedor-vendedor, uma vez que, muitas vezes, os produtos não vendidos
no varejo são devolvidos ao fornecedor, que arca com todas as despesas
(Brancoli et al., 2019). Segundo Brancoli et al. (2019), em estudos no
setor de padarias na Suécia, o modelo adotado pelas maiores padarias de
distribuição de pão na Suécia envolve um acordo de devolução total (Take-
Back AgreementTBA) entre varejista e fornecedor, no qual as padarias são
responsáveis pela previsão, pedido, colocação e retirada dos produtos das
gôndolas dos supermercados. Além disso, as padarias são nanceiramente
responsáveis pelos produtos não vendidos (incluindo sua coleta e gestão de
resíduos), operando em uma cadeia de suprimentos reversa ou circular, ao
contrário da maioria dos produtos vendidos no varejo. Quando tratamos
de FLV, sabe-se que muitos dos produtos comercializados nos super e hi-
permercados brasileiros são consignados, ou seja, caso não sejam vendidos
devem ser descontados no valor da compra e, em muitos casos, o fornece-
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
150
dor precisa ainda retirar os produtos das gôndolas, restando nesse sentido,
além do prejuízo, considerar o destino dos produtos recolhidos.
Neste sentido, ressalta-se a importância dos varejistas no que se re-
fere a PDA, uma vez que estão em uma posição única para inuenciar na
geração ou prevenção de resíduos em outros agentes da cadeia de supri-
mentos, como produção primária, distribuição e consumo nal.
O tópico a seguir aborda dois estudos de casos que foram realiza-
dos no varejo de alimentos, especicamente referente aos desperdícios
no setor de FLV, em dois municípios do estado de São Paulo (SP), Tupã
e Ribeirão Preto.
estudos de cAsos no vArejo AlimentAr
Estudos foram realizados nas cidades de Tupã e Ribeirão Preto, com
o objetivo de identicar e fazer uma análise das práticas para prevenção e
redução de PDA em estabelecimentos de varejo.
Para realização de ambos os estudos, as estratégias utilizadas foram as
entrevistas realizadas com os responsáveis pelo setor de FLV nos estabeleci-
mentos varejistas, observações diretas e análise de documentos secundários.
Para o estudo 1, as entrevistas foram realizadas em quatro estabele-
cimentos de varejo, sendo os estabelecimentos identicados da seguinte
maneira: Supermercado de pequeno porte (M1), Supermercado de médio
porte (M2), Supermercado de grande porte (M3) e supermercado peque-
no porte (M4). Já para o estudo 2, uma única loja de uma rede de super-
mercados foi avaliada (M5); e a escolha se deu pelo gestor da rede, que
aceitou participar da pesquisa, e a apontou como sendo o lócus de maior
índice de desperdício de FLV. No Quadro 1 é possível analisar as questões
abordadas e as respostas obtidas pelos entrevistados.
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
151
Quadro 1 – Respostas de entrevistas realizadas com responsáveis pelo
setor de FLV de diferentes estabelecimentos varejistas nas cidades de Tupã
e Ribeirão Preto
Existe algum planejamento de compra para FVL?
Lojas ESTUDO 1 (M1, M2, M3 e M4 – Tupã-SP) e ESTUDO 2 (M5 – Ribeirão Preto-SP)
M1 Histórico de venda do ano anterior
M2 Histórico de venda do ano anterior
M3 Histórico de venda do ano anterior e análise do funcionário responsável pelo setor
M4 Análise do funcionário responsável pelo setor
M5 Histórico de venda do ano anterior, análise do funcionário responsável pelo setor e
preço de compra dos produtos.
Quais os critérios para denir as formas de armazenamento de FLV?
M1 A central orienta que produtos mais perecíveis sejam colocados em câmaras frias até
serem disponibilizados na área de venda e depois depende de espaço.
M2 O funcionário do setor avalia e identica a necessidade ou não de câmara fria, já na área
de venda depende de espaço disponível.
M3 O funcionário do setor avalia e identica a necessidade ou não de câmara fria, já na área
de venda depende de espaço disponível.
M4 O funcionário do setor avalia e identica a necessidade ou não de câmara fria, já na área
de venda depende de espaço disponível.
M5 A maioria dos produtos segue para a área de vendas, porém, parte dos alimentos ca
armazenada no estoque comum, sem refrigeração. O funcionário do setor direciona
apenas produtos muito sensíveis à pequena câmara fria.
Quando há sobra desses produtos, de quem é o prejuízo?
M1 Depende do produto: folhosos são do produtor, os outros são do estabelecimento.
M2 Depende do produto: folhosos são do produtor, os outros são do estabelecimento.
M3 Depende do produto: folhosos são do produtor, os outros são do estabelecimento.
M4 Depende do produto: folhosos são do produtor, os outros são do estabelecimento.
M5 Depende do produto: folhosos e legumes picados consignados cam a encargo do
produtor, os outros são do estabelecimento.
Ao haver sobras, o que é feito com esses alimentos?
M1 São doados para agricultores que usam para alimentar animais.
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
152
M2 São doados para instituições de caridade da cidade.
M3 São doados para instituições de caridade da cidade e aquilo que é impróprio para
consumo humano, é doado para agricultores que usam para alimentar animais.
M4 São doados para agricultores que usam para alimentar animais.
M5 São doados a um criador de animais.
Há alguma prática que o mercado realiza com o objetivo de prevenir e reduzir a PDA?
M1 Não há.
M2 Não há.
M3 Não há.
M4 Não há.
M5
Na prevenção não há. Na tentativa de redução, alguns dos alimentos são processados
e embalados a vácuo; outros são transformados em saladas de frutas. Também é feita
a separação de tomates, batatas e outros legumes embalados em redes plásticas, que
voltam para a área de vendas. Nas bancas, os produtos mais maduros são colocados por
cima, durante o reabastecimento.
Fonte: Elaborado pelas autoras, com base nas respostas dos estabelecimentos pesquisados Mercado (M1),
sacolão hortifrutigranjeiro (M2), minimercado (M3), supermercado (M4) e supermercado (M5).
Não se vericou um padrão entre os casos estudados, quanto ao pla-
nejamento de compras para a seção de FLV, porém, entre as folhosas é
unânime que não há um planejamento de aquisição, uma vez que todos
os estabelecimentos relataram que seus produtos são consignados, sendo
assim, quando não há venda, a responsabilidade pela troca ou recolhimen-
to dos produtos são dos próprios produtores. Quanto às frutas e legumes,
basicamente os estabelecimentos baseiam-se em histórico de compras feito
em anos anteriores, ou contam com a “experiência” do funcionário respon-
sável pelo setor para novos pedidos, o que acaba contribuindo muito para
PDA, pois basear-se em anos anteriores não garante que o mesmo tipo ou
quantidade de frutas e legumes será vendido.
No estudo 2, além do histórico de vendas ser o guia para compras
de FLV, o funcionário citou que os preços encontrados para cada produ-
to, também contribuem. Se o produto é ofertado a preços mais altos, o
comprador pode diminuir as quantidades compradas; e no caso de pre-
ços atrativos, faz pedidos com maiores quantidades e, posteriormente, a
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
153
rede de supermercados realiza promoções em suas onze lojas distribuídas
pela região.
Ao serem questionados sobre os critérios para denição dos locais de
armazenamento de frutas e legumes, no estudo 1 foi relatado que é con-
siderado apenas o grau de maturação de cada tipo, então aquele alimento
que o funcionário identica que está mais maduro no recebimento irá
para a refrigeração até o momento da venda, podendo ou não depois ser
mantido, a depender da disponibilidade de câmaras frias e espaço nas áreas
de vendas.
Quanto ao armazenamento das hortaliças no estudo de caso 1, nos
estabelecimentos M1 e no M4 ocorre em câmaras frias do próprio estabe-
lecimento durante a exposição para venda; cada produtor possui o espaço
para acomodar sua mercadoria e são eles mesmos que fazem o recolhimen-
to e a reposição; já nos estabelecimentos M2 e M3, o cenário é diferente.
No M2, o próprio produtor disponibiliza uma câmara fria na área de ven-
das para garantir qualidade apenas do seu produto por mais tempo, porém,
de todos os fornecedores que eles possuem, apenas um disponibilizava a
câmara fria, enquanto hortaliças dos outros produtores eram mantidas em
temperatura ambiente.
No M3, também está disponível aos fornecedores de hortaliças uma
câmara fria (do próprio estabelecimento) que era possível de utilização,
mas também foram encontrados produtos em temperatura ambiente. Ao
ser questionado sobre o fato, o funcionário relatou que era um contra-
to novo e não havia lugar disponível na câmara fria, cando então, na
temperatura ambiente, além disso, aqueles produtos desse produtor que
chegavam frescos pela manhã e não eram vendidos, no nal da tarde eram
realizadas promoções (por conta do produtor) para que esse produto não
fosse perdido.
No estudo de caso 2, a maior parte dos produtos - ao serem recebi-
dos - vai diretamente para a área de vendas. O restante ca armazenado
no estoque comum, sem refrigeração e junto com os demais produtos de
mercearia do supermercado. Quando grandes quantidades de alimentos
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
154
são compradas, devido a preços baixos encontrados pelo comprador da
rede, ocorre sobreposição de produtos nas bancas (chegam até cinco ca-
madas, como o tomate, por exemplo). À medida que os alimentos das
bancas são vendidos, é feito o seu reabastecimento, com os produtos es-
tocados. Apenas produtos muito sensíveis ao calor são direcionados para
a pequena câmara fria da loja, que divide espaço com outros produtos
que não são FLV.
O descarte (de FLV que são considerados impróprios para venda),
em ambos os estudos de casos segue a mesma sistemática dos critérios para
denição dos locais de armazenamento dos produtos, ou seja, é baseado
em seleção visual, porém, não há nenhum treinamento especíco para esse
procedimento. A orientação que os funcionários relatam receber é: “aquilo
que você e sua família comprariam deve ser mantido, aquilo que não, deve ser
descartado”, segundo relatos dos funcionários.
Sobre a destinação dos alimentos no estudo de caso 1, dois dos es-
tabelecimentos relataram doar aqueles que não são considerados próprios
para venda, mas que estejam adequados para consumo. As doações são
feitas as instituições de caridades, as quais se responsabilizam pela seleção
e retirada. Os outros dois estabelecimentos destinam os alimentos (inde-
pendente de suas condições) para lixo comum ou a agricultores que so-
licitam para alimentação de seus animais. No estudo de caso 2, não há
doações para alimentação humana. Os produtos são doados a um criador
de animais.
Quando questionados sobre a adoção de práticas que podem contri-
buir para a prevenção de PDA nos estabelecimentos, todos os entrevistados
relataram que não há, mas todos eles citaram a necessidade de mais câma-
ras frias tanto para armazenamento durante o recebimento, como na área
de vendas, visando prolongar o tempo de vida dos alimentos, controlando
o processo acelerado de maturação e reduzindo as PDA.
Nesse contexto, diariamente, os estabelecimentos varejistas retiram
vários tipos de alimentos de suas gôndolas e a maior parte deles ainda está
apropriado para consumo humano. No entanto, as exigências dos consu-
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
155
midores contribuem para o aumento de desperdício, junto com a falta de
eciência – não apenas da loja –, mas desde o produtor, passando pelas
Centrais de Abastecimento S/A (CEASA) e centro de distribuição da rede.
Faz-se relevante então, a conscientização tanto dos funcionários do varejo,
como do consumidor sobre os impactos das PDA, e essa problemática deve
ser vista como algo urgente, a m de que se responsabilizem e desenvolvam
ações para a redução.
considerAções finAis
Ao tratar da temática de perdas e desperdícios de alimentos não é
possível abordar somente a perda econômica no que se refere aos custos
associados à produção e à distribuição dos produtos alimentares. Os im-
pactos relacionados a PDA reetem diretamente no preço ao consumidor
nal, mas a sua amplitude, em termos de consequências, impactam di-
retamente nos aspectos sociais quando se retira a possibilidade de abas-
tecimento de um número signicativo de uma população que sofre com
a insegurança alimentar e nutricional, e quando são utilizados recursos
naturais, tais como água e energia, e emitidos gases de efeito estufa para
produção, distribuição e disponibilização de produtos que não serão con-
sumidos, vindo a prejudicar a saúde do planeta.
O varejo é o membro do canal que liga o produtor e o consumidor, e
se torna relevante para direcionar mudanças de hábitos e comportamento de
consumo. Neste sentido, pode ser o agente que venha sinalizar as mudanças
necessárias. Conforme observado na apresentação dos estudos de casos estu-
dados, apesar de alguns esforços no que se refere a evitar os desperdícios de
alimentos, ainda se faz necessário que alguns elementos sejam incorporados,
como estratégias de prevenção e redução de desperdícios, tais como um pla-
nejamento mais eciente de compras, aquisição de produtos locais e no con-
trole e manutenção dos produtos adquiridos, a m de aumentar a vida útil
dos produtos. Além disso, se faz fundamental que o varejo lidere campanhas
na redução dos desperdícios, a m de que o consumidor adote uma postura
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
156
mais proativa neste processo como adquirindo produtos imperfeitos, mas
aptos ao consumo, manuseio adequado do produto na seleção dos produtos
adquiridos e priorizando os produtos de época.
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161
cApítulo 7
Diversicação agrícola e a
resiliência produtiva
Bruce Wellington Amorin da SILVA 1
Wagner Luiz LOURENZANI 2
Gessuir PIGATTO 3
Vinicius PALÁCIO 4
Programa de Pós-Graduação em Agronegócio e Desenvolvimento (PGAD), Faculdade de Ciências e
Engenharia, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil,
e-mail: bruce.wellington@unesp.br.
Departamento de Gestão, Desenvolvimento e Tecnologia, Faculdade de Ciências e Engenharia,
Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil, e-mail:
w.lourenzani@unesp.br.
Departamento de Gestão, Desenvolvimento e Tecnologia, Faculdade de Ciências e Engenharia, Universidade
Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil, e-mail: gessuir.pigatto@
unesp.br.
Programa de Pós-Graduação em Agronegócio e Desenvolvimento (PGAD), Faculdade de Ciências e
Engenharia, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil,
e-mail: vinicius.palacio@unesp.br.
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-534-6.p161-178
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
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introdução
A denição clássica para o conceito de desenvolvimento sustentável,
estabelecida pela Organização das Nações Unidas (ONU), é a busca por
atender as necessidades do presente, sem comprometer as necessidades das
próximas gerações atenderem às suas próprias.
Sabe-se, contudo, que nem sempre esse foi o conceito de sustenta-
bilidade. A primeira vertente focava na economia e tinha um viés desen-
volvimentista, desconsiderando as questões ambientais e sociais. Após a
Segunda Guerra Mundial, pensava-se somente no crescimento econômico
e o consumo desmedido de recursos naturais era visto como uma maneira
para que países em desenvolvimento pudessem se prosperar, assim como
os já desenvolvidos (Costabeber; Caporal, 2003; Pasqualotto; Stasiak;
Pasqualotto, 2012; SMA, 2011).
Tal conceito evoluiu, passou a considerar outras dimensões e foi
abordado em diversos eventos internacionais. Em 1968, no Clube de
Roma, os limites do crescimento com base na nitude dos recursos natu-
rais foram estabelecidos. Em 1972, na Conferência de Estocolmo, as diver-
gências entre países industrializados e não industrializados cou evidente
e o conceito de degradação ambiental se expandiu. Em 1987, tem-se a
denição clássica de desenvolvimento sustentável, abordado previamente.
Então, em 1992, na Conferência do Rio, foi determinado que a responsa-
bilidade pela degradação ambiental é maior nos países desenvolvidos que
nos em desenvolvimento (SMA, 2011).
A primeira vertente da sustentabilidade exposta é denominada
ecotecnocrática, enquanto a segunda é denominada ecossocial. A grande
diferença está no fato de que a segunda busca um equilíbrio entre meio
ambiente, crescimento econômico e sociedade (Pasqualotto; Kaufmann;
Wizniewsky, 2019). O conceito atual de sustentabilidade se pauta por sua
multidimensionalidade (Quadro 1). As seis dimensões adotadas deixam
clara a necessidade de se abordar holisticamente seu conceito.
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
163
Quadro 1 – Multidimensionalidade da sustentabilidade
Dimensão Descrição
Ecológica Para garantir a continuidade, deve-se preservar e conservar os recursos naturais.
Social O produto deve ser apropriado e usufruído pela sociedade de forma equitativa.
Econômica Não focar apenas na obtenção de lucro, mas também na subsistência, soberania
e segurança alimentar.
Cultural Conhecimentos e valores locais não podem ser desconsiderados.
Política Os segmentos da população rural devem ter participação e seus interesses e
necessidades devem ser ouvidos.
Ética Responsabilidade entre as gerações a respeito da preservação e conservação
ambiental.
Fonte: Costabeber e Caporal, 2003.
Na dimensão ecológica, trabalha-se com a preservação e conservação
dos recursos naturais. Na dimensão social, com os benefícios à sociedade.
Na dimensão econômica, entram não somente o lucro, mas a subsistência
e outras questões, como soberania e segurança alimentar. A frente cultural
visa o respeito à realidade cultural local. A questão política diz respeito a
ouvir os interesses e necessidades da comunidade local e por m, a questão
ética se refere à responsabilidade geracional, de forma a existir consciência
da importância da sustentabilidade para as futuras gerações.
Nessa perspectiva e considerando o contexto da Agenda 2030, fo-
ram formulados os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS). Os
ODS se constituem em 17 grandes objetivos para que o mundo busque
acabar com a pobreza, proteger o meio ambiente e o clima e garantir paz
e prosperidade às pessoas (ONU, 2015). Representam um plano de ação
global, baseado nos compromissos dos Estados membros da ONU em pro-
teger o planeta e promover sociedades pacícas e inclusivas.
Dentre os objetivos globais, tem-se o ODS 2 – Fome Zero e
Agricultura Sustentável, que trata especicamente do desenvolvimento
sustentável da agricultura e da questão da segurança alimentar. O item 2.4
traz mais detalhes sobre isso.
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
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Até 2030, garantir sistemas sustentáveis de produção de alimentos
e implementar práticas agrícolas resilientes, que aumentem a
produtividade e a produção, que ajudem a manter os ecossistemas,
que fortaleçam a capacidade de adaptação às mudanças climáticas,
às condições meteorológicas extremas, secas, inundações e outros
desastres, e que melhorem progressivamente a qualidade da terra e
do solo (ONU, 2015, p. 19).
Como estratégia para alcançar sistemas sustentáveis de produção de
alimentos e contribuir para práticas agrícolas resilientes, a estratégia de
diversicação produtiva tem sido uma pauta importante. Como ressalta
Michler e Josephson (2017), em outros tempos, as agências de desenvol-
vimento promoviam a produção de algumas culturas importantes para a
segurança alimentar, mas o foco mudou em direção à diversicação. Como
promotora da diversicação agrícola, a Organização das Nações Unidas
para a Alimentação e a Agricultura parte da premissa de que essa é uma
estratégia efetiva para lidar com a segurança alimentar e nutricional, de-
senvolvimento rural sustentável, geração de empregos, redução da pobre-
za e preservação e conservação ambiental e ecológica. Nesse sentido, esse
capítulo busca discutir a estratégia de diversicação dos sistemas de pro-
dução agrícola como forma de contribuir para o atendimento ao ODS 2.
Acrescenta-se ainda que esse debate tem o potencial de fomentar a for-
mulação de políticas públicas, bem como beneciar comunidades rurais,
principalmente as mais vulneráveis às mudanças econômicas, ambientais
e sociais, já que essa estratégia contribui para a resiliência e a preservação
dos recursos naturais.
AmeAçAs Aos sistemAs AgrícolAs
A grande ameaça aos sistemas agrícolas é denominada “Tripla
Ameaça do Antropoceno à Humanidade”, que é composta por: Mudanças
Climáticas; Perda de Biodiversidade e Insegurança Alimentar (Kremen;
Merenlender, 2018; Petersen-Rockney et al., 2021). As mudanças climá-
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
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ticas têm sido uma importante fonte de preocupação. Em situações extre-
mas, como ondas de calor, secas, ciclones e inundações, tem-se uma grave
interferência negativa à produtividade agrícola e à segurança alimentar.
Isso impacta, como consequência, a pobreza rural, promove a redução da
demanda por bens e serviços e induz à superexploração da água, terra,
orestas e outros recursos naturais (Birthal; Hazrana, 2019). O Quadro 2
ilustra esse tipo de situação, no que se refere à produção agrícola.
Quadro 2 – Efeitos ambientais da atividade de produção agrícola
Aspecto das atividades
produtivas5Efeito Recurso ou fenômeno
Positiva Melhora a produtividade
de recursos renováveis
Ar
Água de rio
Solo
Fertilidade orgânica de solos e
árvores
Negativa Piora a produtividade de
recursos renováveis
Deserticação
Desmatamento
Erosão
Entre outros.
Fonte: Chambers e Conway (1992).
As atividades positivas signicam que há benefícios aos recursos na-
turais renováveis, o que permite a sustentabilidade dos processos agrícolas.
As atividades negativas, por sua vez, pioram a produtividade e perturbam
a sustentabilidade. No longo prazo, a produção agrícola tende a se tornar
inviável e problemas socioeconômicos surgem ou deterioram. Percebe-se
aqui uma ligação entre problemas ambientais e socioeconômicos, sendo
o segundo a consequência do primeiro. As ameaças em aspectos sociais se
dão na forma de estresses e choques, destacados no Quadro 3.
As atividades produtivas se referem ao que os produtores fazem para produzir alimentos e seus impactos ao
meio ambiente.
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Quadro 3 – Estresses e choques
Estresses
Redução de mão de obra
Decréscimos reais de salários
Decréscimos do rendimento do solo
Choques
Guerras
Perseguição
Violência civil
Secas
Tempestades
Enchentes
Queimadas
Fonte: Chambers e Conway (1992).
Os estresses dizem respeito, portanto, à redução de mão de obra,
decréscimos reais de salários e decréscimos do rendimento do solo. São
interferências negativas na atividade produtiva da agricultura que não pro-
movem o colapso imediato, mas que a desgastam no longo prazo.
Os choques se referem às guerras, perseguição, violência civil, secas,
tempestades, enchentes e queimadas. Estes são de maior gravidade e a ca-
pacidade de reação do agricultor é ainda menor.
Em relação a problemas futuros na produção agrícola, existem os
aspectos proativo e reativo. No primeiro caso, é considerada a adaptação,
a geração de mudanças e a continuidade. No segundo caso, considera-se
lidar com estresses e choques. A diferença entre os aspectos está no fato de
que no primeiro caso, ocorre a prevenção, enquanto no segundo, espera-se
o problema surgir e então é tomada uma atitude (Chambers; Conway,
1992). Isso é ilustrado no Quadro 4.
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
167
Quadro 4 – Efeitos sociais da atividade de produção agrícola
Dimensão Aspecto Atitude
Positiva Proativo
Melhorar capacidade de se adaptar
Gerar mudanças
Garantir a continuidade
Negativa Reativo Lidar com estresses e choques
Fonte: Chambers e Conway (1992).
Por depender de agentes químicos, incentivo nanceiro e ser menos
resiliente, a agricultura convencional degrada os recursos naturais e não é
considerada sustentável no longo prazo. Esse processo pode levar a sérias
consequências: degradação do solo; desperdício e uso exagerado de água;
poluição do ambiente; dependência de insumos externos; perda da diversi-
dade genética; perda do controle local sobre a produção agrícola e desigual-
dade global (Gliessman, 2000; Kremen; Merenlender, 2018). As práticas
básicas da agricultura convencional são descritas no Quadro 5.
Quadro 5 – Riscos associados às práticas da Agricultura Convencional
Cultivo intensivo do solo
Cultivo regular deixa o solo sem cobertura vegetal por muito
tempo. Reduz a matéria orgânica e consequentemente a fertilidade.
Aumenta a probabilidade de compactação do solo e aumenta as
taxas de erosão.
Monocultura Cultivo de uma mesma cultura visando eciência dos processos
agrícolas e do uso de maquinário. Economia de escala.
Industrialização da agricultura. Demandam proteção química.
Aplicação de fertilizantes
sintéticos
Aumentam signicativamente a produção. Fornecem mais nutrientes
às plantas. Os agricultores ignoram a fertilidade do solo no longo
prazo. Facilidade de lixiviação dos nutrientes. Eutrozação de rios
e águas subterrâneas. Impactos na saúde pública. Dependência dos
preços do petróleo.
Irrigação Aumenta a lixiviação e eutrozação. Aumenta a taxa de erosão do
solo. Altera a hidrograa regional. Gasto excessivo de água.
Controle químico de
pragas e ervas adventícias
Reduzem signicativamente a população de pragas. As populações
podem se recuperar, contudo, o que demanda o uso por mais
controle químico. Impacto na saúde humana. Agentes químicos são
lixiviados e entram na cadeia alimentar de animais. Persistem por
décadas.
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Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
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Manipulação de genomas
de plantas
Obtenção de cultivos híbridos, incapazes de produzir sementes, são
mais produtivas, mas tornam o produtor agrícola mais dependente
de produtores comerciais.
Fonte: Gliessman (2000).
diversidAde AgrícolA como estrAtégiA produtivA
A diversicação agrícola e a preocupação com a segurança alimentar
não são novidades. Já no período colonial houve preocupação da Coroa
Portuguesa com a diversicação da produção agrícola no Brasil, visando
garantir o consumo de gêneros alimentícios. Havia, portanto, além dos
grandes produtores, um campesinato, dono de pequenas propriedades
(Fausto, 2006).
A diversicação dos sistemas produtivos é considerada como um dos
caminhos para lidar com a complexidade e a incerteza da atividade agríco-
la. Estratégia adequada especialmente em choques globais, como pande-
mias e secas prolongadas (Petersen-Rockney et al., 2021).
A ideia central é substituir sistemas simplicados ou de monocultura
por sistemas diversicados de produção. Nesse contexto se insere também
a importância da integração entre produção animal e vegetal. Vale ressaltar,
entretanto, que cada agrossistema possui suas particularidades e não há re-
ceita válida para todos os casos. Assim, deve-se conhecê-los e adotar formas
adequadas de diversicação (MMA, 2000).
A diversicação agrícola permite alcançar objetivos em diferentes di-
mensões. Considera-se, nesse sentido, que legados culturais também devem
ser considerados, de forma que denam alternativas adequadas para essa
estratégia produtiva. Por último, a dependência de agroquímicos também
deve ser reduzida (Petersen-Rockney et al., 2021; Spangler et al., 2022).
Reconhece-se que a estratégia da diversicação produtiva sofre forte
concorrência dos sistemas produtivos de culturas convencionais, uma vez
que não apresenta benefícios imediatos. Por outro lado, entretanto, deve-se
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
169
considerar que a diversicação ocasiona uma maior capacidade de adapta-
ção e resiliência, sendo possível resistir aos choques e estresses das ameaças
citadas previamente. A diversicação compõe, então, um ciclo virtuoso.
Considerando as mudanças climáticas e a desigualdade sociopolítica, sis-
temas agrícolas diversicados demandam uma mudança no paradigma
produtivista. Assim, deve-se considerar fatores biofísicos, como variabi-
lidade climática, nas políticas agrícolas, desde o nível local até o federal,
priorizando, então, adaptação climática aos sistemas agrícolas (Petersen-
Rockney et al., 2021; Revoyron et al., 2022; Spangler et al., 2022).
A literatura cientíca expõe resultados positivos referentes à estratégia
de diversicação. Em geral, essa prática é tida como promotora da resiliência
e auxilia na mitigação e adaptação às mudanças climáticas. Tem sido repor-
tada a redução de pesticidas, do consumo de energia, de água e de gases do
efeito estufa. No aspecto econômico, entretanto, a literatura indica que os
maiores retornos estão associados à especialização, porém com maior volatili-
dade; enquanto na diversicação, embora menores, está associada à maior es-
tabilidade nos retornos (Abson; Fraser; Benton, 2013; Alletto; Vanderwale;
Debaeke, 2022; Birthal; Harazna, 2019; Spangler et al., 2022).
Ademais, há muitas evidências cientícas que concordam com a di-
versicação agrícola6, nos mais diversos países, como Alemanha, Argentina,
Estados Unidos, Etiópia, Índia, Malawi, Nepal, Península Arábica e Zâmbia.7
oportunidAdes e desAfios dA diversificAção AgrícolA
A diversicação é um sinal de reorientação da agricultura para ati-
vidades multifuncionais que combinam qualidade alimentar, subsistência
rural, manutenção da paisagem, preservação ambiental e estabelecimento
de um melhor agroecossistema (Monteleone; Cammerino; Libutti, 2018).
Antonelli, Coromaldi e Pallante (2022), Garbelini et al. (2022), Godoi et al. (2022), Hao et al.
(2022), Mzyece e Ng’ombe (2021), Yan et al. (2022).
 Chapagain et al. (2018), Lal et al. (2017), Lydecker e Forman (2013), Maggio e Sitko (2021),
Mekuria e Mekonnen (2018), Meraner, Pölling e Finger (2018), Rao, Shahid e Shahid (2009),
Vázques (2019).
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
170
Algumas pesquisas armam que a diversicação de culturas permite
melhores rendimentos a longo prazo em comparação com a monocultura.
Outras dizem que não conduz necessariamente a meios de subsistência
estáveis. Argumenta-se que tal estratégia contribui para a redução da po-
breza, mas que o fornecimento de crédito, terras e tecnologia é importante.
De uma forma geral, a diversicação pode auxiliar a consolidar novas in-
dústrias e ajudar a compensar efeitos adversos de crises (Ceceñas-Jacquez;
Morales-Carrillo, 2015; Sène-Harper; Camara; Matarrita-Cascante, 2019;
Vázques, 2019).
Entretanto, existem várias barreiras à diversicação das culturas,
tais como: falta de variedades melhoradas; falta de métodos de proteção
tossanitária; falta de referências em rotação de culturas; complexi-
dade do conhecimento a ser adquirido pelos agricultores; limitações
logísticas e diculdade de coordenação com cadeias de valor. Estes são
obstáculos sistêmicos e precisam de muitos stakeholders para mudar
(Meynard et al., 2018).
Pesquisas indicam que o rendimento médio das famílias, a popula-
ção economicamente ativa e o valor adicionado bruto da agricultura têm
inuência positiva na diversicação das culturas; enquanto o nível de es-
colaridade (pessoas com mais tempo de estudo), a desigualdade no volume
de crédito, a taxa de desemprego e o valor adicionado bruto global têm um
impacto negativo (Pacheco, et al., 2018).
Relacionado a isso, é importante considerar a heterogeneidade dos
sistemas de cultivo ao fazer análises empíricas destinadas a fornecer dados
para políticas de diversicação. O espectro de fatores que levam à diversi-
cação das culturas é numeroso e complexo. Pode haver diversicação, por
exemplo, com a promoção da subsistência, da pluriatividade, da redução
da produção de commodities, da adoção de mercados alternativos e até
mesmo com a intensicação da mecanização, mas estratégias coletivas de-
vem estar associadas (Maggio; Sitko, 2021; Nera et al., 2020; Schneider;
Niederle, 2010).
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
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Pequenas propriedades adeptas da policultura podem ajudar a solu-
cionar problemas relacionados à segurança alimentar, mesmo em regiões
áridas. A diversicação de culturas é, então, essencial na manutenção de
um sistema dominado por pequenos produtores. A melhora da capacidade
adaptativa desses agricultores passa pela formulação de políticas públicas
que visam a expansão das tecnologias relacionadas à diversicação, incen-
tivar a expansão da produção para subsistência e diversicar a renda não
agrícola (Galeana-Pizaña et al., 2020; Laurenti; Pellini; Telles, 2015; Njira
et al., 2021; Venus et al., 2021).
A Figura 1 sistematiza a questão da diversicação agrícola em suas
mais diferentes possibilidades. Pode-se perceber que a literatura sugere be-
nefícios na segurança da renda, segurança alimentar e conservação am-
biental. Isso se dá por meio da diversicação da renda como um todo, mas
também traz questões importantes como a resiliência.
Figura 1 – Formas de diversicação da renda no meio rural e principais
benefícios
Fonte: Sambuichi et al. (2014).
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
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estudo de cAso: A evolução dA concentrAção AgrícolA brAsileirA
Levantamento realizado pelos autores deste capítulo permite visu-
alizar a evolução do nível de concentração agrícola no Brasil. A partir do
estabelecimento, por mesorregião, da porcentagem de ocupação das três
principais culturas agrícolas em relação à área agrícola total, é possível no-
tar ao longo do tempo esse fenômeno. A Figura 2 apresenta de forma geo-
gráca e temporal a dinâmica desse processo.
Em que pese a relativa simplicidade da mensuração da evolução da
concentração agrícola no país ao longo do tempo, e considerando a deno-
minada “Tripla Ameaça do Antropoceno à Humanidade”, faz-se as seguin-
tes indagações ao leitor:
a) Quais as consequências da evolução da concentração agrícola para
o clima?
b) Quais as consequências da evolução da concentração agrícola para
a biodiversidade?
c) Quais as consequências da evolução da concentração agrícola para
a segurança alimentar?
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
173
Figura 2 – Evolução da concentração agrícola no Brasil, por Mesorregião
Fonte: Elaborada pelos autores (2024).
considerAções finAis
Os desaos e oportunidades da diversicação agrícola são diversos,
mas a literatura converge para a ideia de que essa é uma das estratégias para
promover o desenvolvimento sustentável.
Numa visão produtivista, a diversicação é considerada negativa,
pois não maximiza os retornos. Entretanto, numa análise multidimensio-
nal da sustentabilidade, outros fatores devem ser considerados. Aqui en-
tra o tripé social, econômico e ambiental. Obviamente, nenhum produtor
rural quer abdicar dos ganhos de sua produção, mas é preciso pensar no
longo prazo. Assim, a diversicação agrícola se torna vantajosa e considera
fatores que a lógica puramente econômica desconsidera, como a segurança
alimentar, a subsistência e a resiliência. Essa última especialmente cada vez
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
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mais relevante no que se refere às ameaças já existentes e as que podem vir
a existir.
Por m, percebe-se que a diversicação agrícola, com base na litera-
tura e na política da ONU, permite o avanço no sentido do que se almeja
com o item 2.4 do ODS 2. Assim, os sistemas agrícolas podem aumentar
sua resiliência, se tornando mais capazes de se adaptar aos eventos naturais
e antropogênicos, além de serem capazes de impactar positivamente a se-
gurança alimentar.
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179
cApítulo 8
Estratégias de comercialização de
agricultores familiares que atuam em
short food supply chains: casos em
regiões do Rio Grande do Sul
Amanda dos Santos Negreti CAMPOS 1
Gessuir PIGATTO 2
Programa de Pós-Graduação em Agronegócio e Desenvolvimento (PGAD), Faculdade de Ciências e
Engenharia, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil,
e-mail: amanda.negreti@unesp.br.
Departamento de Gestão, Desenvolvimento e Tecnologia, Faculdade de Ciências e Engenharia, Universidade
Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil, e-mail: gessuir.pigatto@
unesp.br.
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-534-6.p179-210
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
180
introdução
A comercialização de produtos e serviços apresenta um papel rele-
vante na economia, integrando diferentes atores sociais ao vincular a pro-
dução do bem ou serviço com os consumidores. A organização desse pro-
cesso permite que os agentes consumidores (em diferentes níveis do canal
de distribuição) recebam produtos e serviços de acordo com as caracterís-
ticas esperadas. Conforme Mendes e Padilha Junior (2007), compreender
o funcionamento da cadeia de suprimento permite melhorar o processo
decisório, ao auxiliar a compreensão das variáveis que formam e afetam
essa cadeia.
A interação entre os atores sociais relevantes (compradores e ven-
dedores) envolvidos no processo de transação de algum serviço/produto
caracterizará a formação de um mercado. Conforme McMillan (2004), o
mercado pode ser considerado como um mecanismo utilizado pelas socie-
dades para coordenar a produção, a distribuição e as transações de todos
os tipos de produtos e serviços. Proudhon, citado por Braudel (1996),
armou que trabalhar e comer seriam as únicas nalidades aparentes do
homem, porém, entre esses dois universos se insinuaria, “[...] estreita, mas
vivaz como um rio: a troca ou, se preferir, a economia de mercado – im-
perfeita, descontínua, mas já coerciva durante os séculos e seguramente
revolucionária” (Braudel, 1996, p. 11). Dessa forma, o mercado pode ser
denido como um ponto de encontro (ambiente presencial ou virtual)
propício às condições de troca de bens (produtos e serviços).
Nessas condições, a alocação de recursos ocorre de forma descen-
tralizada, pela interação entre os atores econômicos (fornecedores, distri-
buidores, consumidores), cada um tomando decisões de acordo com os
seus próprios interesses. No caso dos alimentos, a forma como o consu-
midor terá acesso ao mesmo: escolha, aquisição e distribuição, tem levado
às organizações reverem suas estratégias de relacionamento, incluindo a
forma como o alimento alcança o consumidor nal. Conforme Pigatto e
Alcântara (2007), as alterações observadas no comportamento do consu-
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
181
midor e nas estratégias dos demais atores (fornecedores e distribuidores)
têm promovido alterações importantes na estrutura de muitos canais de
distribuição. O desenvolvimento de relacionamentos comerciais entre os
atores que formam e atuam nos canais de distribuição pode ser descrito,
conforme Abosag e Lee (2013), como um processo de estabelecer, criar,
desenvolver e manter relações, onde a satisfação, conança e o comprome-
timento são elementos importantes para o resultado nal das organizações
que atuam no canal de distribuição.
Novos canais de distribuição são criados diante da mudança de ati-
tude do consumidor, como mercados mais justos, de circuito curto, com
a aproximação dos consumidores e produtores, sem o intermédio e de-
pendência de programas e políticas governamentais (Ueno et al., 2016).
Nesse sentido, a comercialização direta se apresenta como uma alternativa
de distribuição de produtos agrícolas, por intermédio de diversos canais,
proporcionando melhoria na economia local e gerando relacionamento de
conança entre produtor e consumidor (Huygens, Lips; Aerts, 2010).
Os sistemas de alimentos locais, ou de circuitos curtos, envolvendo
vendas diretas já existiam no início da agricultura, em que agricultores
vendiam seus alimentos para consumidores no próprio local produtivo ou
realizavam trocas em locais próximos. Após a segunda guerra mundial,
esses sistemas de vendas diretas começaram a desaparecer com o surgimen-
to de mecanização, intensicação produtiva, adição de produtos quími-
cos. A partir de 1950, com a abertura das primeiras lojas de autosserviço
(hipermercados), os alimentos passaram a ser embalados, padronizados,
rotulados e, muitas vezes, processados. Dessa maneira, eram vendidos a
preços baixos e comprados de agricultores localizados em regiões remotas,
alterando os métodos produtivos e de canais de vendas (Kapala, 2022).
A partir de 1990, diante de questionamentos relacionados aos siste-
mas alimentares, a diminuição de preços de alguns produtos e problemas
ambientais, em razão do modo intensivo de produção de alimentos, alguns
agricultores optaram por modos alternativos de produção e comercializa-
ção (Lamine et al., 2012; Renting; Marsden; Banks, 2003). De forma si-
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
182
multânea, houve a mudança comportamental de consumidores sobre seus
hábitos alimentares, na busca por alimentos mais saudáveis e de qualidades
diferenciadas (Abatekassa; Peterson, 2011; Ilbery; Maye, 2005).
Assim, surgiram as Short Food Supply Chains (SFSC) em contraposi-
ção ao modo padronizado e industrial, bem como agricultores que desejam
atender as demandas de novos padrões de consumo, tendo como princi-
pais objetivos a redução de custos e agregação de valor ao produto (Belletti;
Marescotti, 2020; Renting; Marsden; Banks, 2003).
As SFSC ou cadeias curtas agroalimentares consistem na aproxima-
ção entre produtor e consumidor. Essa aproximação pode ser compreen-
dida por meio da redução da distância física entre produtores e consu-
midores, ao estarem próximos geogracamente; a redução do número de
intermediários que conectam os produtores e consumidores; e a redução
da distância cultural e social entre eles. Por exemplo, mesmo que os con-
sumidores estejam distantes geogracamente dos agricultores, ao visuali-
zarem os rótulos e informações presentes nos produtos, compartilham os
mesmos valores, associado a qualidade do item ofertado, com os métodos
produtivos, ou com o território e pessoas envolvidas (Ilbery; Maye, 2005;
Kneafsey et al., 2013). Assim, a diferenciação do produto está relacionada
com transparência nas relações de mercado, em que essas denições de
qualidade são transmitidas entre todas as partes envolvidas e comunica-
das ao consumidor, de forma a conscientizá-lo a pagar pelo preço prêmio
(Renting; Marsden; Banks, 2003).
No Brasil, há o destaque para os produtores rurais localizados no
estado do Rio Grande do Sul, em suas áreas rurais há uma extensa diversi-
dade de recursos naturais, paisagens e organização de estruturas produtivas
(Conterato; Strate, 2019). De todos os estabelecimentos rurais do estado,
80% são de agricultores familiares (IBGE, 2017).
Esses agricultores recebem incentivos governamentais que buscam
ampliar a participação de agricultores que atuam em vendas diretas, bus-
cando aproximação com o consumidor, com o objetivo de agregar valor
à produção (Schneider; Buzatto, 2023). Assim, esse capítulo apresenta
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
183
algumas estratégias de comercialização utilizadas por agricultores familia-
res, localizados no estado do Rio Grande do Sul, que atuam em Short Food
Supply Chain, com destaque para a agregação de valor de seus produtos e
serviços.
É importante ressaltar que, as SFSC contribuem com o alcance de
alguns Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), como o ODS 2,
no auxílio de acabar com a fome e a promoção de agricultura sustentável,
por proporcionar a venda de alimentos seguros, nutritivos, com métodos
agrícolas que auxiliam na preservação de ecossistemas (como o orgânico),
provenientes de uma produção local, contribuindo com a produtividade e
renda de agricultores familiares. Dessa forma, contribui com o ODS 10,
quanto à redução das desigualdades, por incluir agricultores familiares em
mercados alternativos. As SFSC também auxiliam o ODS 12, quanto ao
consumo e produção responsáveis, por reduzir perdas de alimentos, em
razão de algumas vendas serem diretas e os produtores estarem localizados
geogracamente próximos de seus consumidores, evitando possíveis per-
das durante longos percursos e em longas cadeias de distribuição. O ODS
12 também arma a implementação de ferramentas que desenvolvem um
turismo sustentável, ao gerar empregos e a promoção da cultura, com base
em produtos locais. Assim, uma das estratégias de comercialização de SFSC
envolve o turismo rural, incluindo múltiplas funções e serviços desenvolvi-
dos por agricultores, permitindo a agregação de valor em produtos agríco-
las locais, promovendo a cultura local, de modo a gerar empregos para os
agricultores, seus familiares e comunidade (Nações Unidas Brasil, 2023).
cAnAis de distribuição e o surgimento dAs short food supply chains
Há uma grande variedade de formatos de canais de distribuição
mercadológica, dependendo do número de agentes participantes envolvi-
dos e dos diferentes papéis que os intermediários desempenham na distri-
buição de produtos ou serviços (Betancour et al., 2016; Coughlan et al.,
2002). Para Coughlan et al. (2002), Rosenbloom (2002), Stern, El-Ansary
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
184
e Coughlan (1996) há diferentes denições de canais de distribuição, mas
esses autores convergem para a descrição como sendo grupos de empresas
interdependentes com a responsabilidade de disponibilizar no mercado
um produto para uso ou consumo.
Essa característica sugere que o canal de distribuição seja visto de
forma interorganizacional, ou seja, administrado por mais de uma em-
presa, o que necessariamente faz com que haja um relacionamento direto
entre os agentes ou parceiros externos à organização (Lin; Chen, 2008;
Rosenbloom, 2002).
Segundo Pigatto e Alcântara (2007), a estrutura do canal mais apro-
priada para a organização dependerá das estratégias adotadas para melhor
atrair os clientes nais nos segmentos-alvos de cada organização. Para isso,
o sucesso da estratégia de canal e da estrutura que o apoia é diretamente
dependente de como as pessoas de várias organizações de fato relacionam-se
umas com as outras no desempenho de suas atividades (Rosenbloom, 2002).
Os principais membros do canal de distribuição são formados por
produtores (produtores rurais, processadores e fabricantes), intermediários
(atacadistas, varejistas e especialistas) e usuários nais (clientes de empresas
ou consumidores individuais). A relação entre esses atores não ocorre so-
mente em uma direção, mas é bidirecional, começando no produtor rural
e chegando até o consumidor nal, podendo percorrer este caminho de
forma direta, ou passando por diversos agentes, sendo que a escolha depen-
derá da necessidade da empresa na distribuição (Deimiling et al., 2015).
Em relação à literatura econômica, as vendas diretas, para os con-
sumidores, estão relacionadas à questão do valor simbólico dos produtos
alimentares (locais, convencionais etc.), incluindo na escolha de onde
comprar, e, por outro lado, os agricultores escolhem o melhor canal de
comercialização (Corsi; Novelli; Pettenati, 2014).
A presença ou ausência de um determinado membro no canal é
determinada por sua habilidade em desempenhar os uxos necessários e
permitir agregar valor aos usuários nais (Coughlan et al., 2002). Assim,
o produtor rural pode denir se apresenta as capacidades necessárias e se,
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
185
por si só, desempenha todos os uxos de canal, sendo característica indis-
pensável para vender diretamente ao consumidor nal. Canais de venda
direta, além de fortalecer a relação entre produtor e consumidor, represen-
tam mercados extremamente dinâmicos e diversicados, não deixando de
revelar um sistema de distribuição intenso e complexo.
Assim, antes de discorrer sobre as SFSC é necessário realizar a sua
contextualização e preceitos históricos. Diante da revolução verde, houve
o aumento da produção de alimentos e investimentos para a melhoria da
produção agrícola. Essa modernização teve início a partir de 1960, com o
surgimento dos primeiros pesticidas usados a m de combater problemas
inesperados por agricultores. Assim, surgiram os primeiros inseticidas e,
a partir de 1970, foram criados os fungicidas e herbicidas sintéticos. Em
1980, o uso de fertilização precoce, a densidade e quantidade mais elevada
de semeaduras, entre outros. Esses produtos foram criados com o objetivo
de maximizar a produção e a renda (Lamine et al., 2012).
Enquanto ocorriam esses processos de mudanças tecnológicas, es-
pecialmente no nível da agricultura, também houve uma transformação
nos setores de processamento e distribuição de alimentos. Por exemplo, a
instituição de indústrias, com estratégias de gestão intensiva na colheita,
ultraprocessamento, bem como a padronização e entrega em massa de pro-
dutos (Lamine et al., 2012; Levidow; Sansolo; Schiavinatto, 2021).
Nesse tipo de sistema agroindustrial, a estrutura produtiva é muitas
vezes direcionada para uma vantagem competitiva em mercados distantes e
anônimos. Muitos agricultores que tentaram seguir esse modelo poderiam
ter fácil acesso ao crédito (ao investirem em tecnologia e aguardarem paga-
mentos para a colheita), porém enfrentaram desvantagens estruturais, ao
competirem nos termos estipulados em longas cadeias, acarretando a perda
de valor agregado. Essa perda, também estava relacionada com margens de
lucros direcionadas aos intermediários. Alguns agricultores, ao perceberem
que estavam endividados no longo prazo, tiveram que abandonar a agricul-
tura (Levidow; Sansolo; Schiavinatto, 2021).
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
186
De forma paralela, a partir de 1990, houve alguns questionamentos
relacionados aos sistemas alimentares, como enquanto os preços de alguns
produtos, como cereais, estavam diminuindo, os problemas ambientais esta-
vam aumentando (Lamine et al., 2012). A produção de alimentos de modo
intensivo pode estar relacionada às modicações das áreas terrestres, como a
perda da biodiversidade, erosão, desorestamento, poluição, deserticação,
escassez de água doce, entre outros (Maren, 2019). Esses fatores ambientais,
somados à diminuição de preços, em que os produtores não estavam rece-
bendo os lucros desejados, levaram a alguns deles a alterarem suas práticas,
tendo como principais objetivos a redução de custos e questões ambientais e
éticas (Lamine et al., 2012; Renting; Marsden; Banks, 2003).
As formas convencionais da agricultura estavam cada vez mais limi-
tadas para os agricultores permanecerem no campo. Assim, surgiram novas
respostas promissoras para eles aumentarem suas rendas, por exemplo, di-
versicação de novas atividades, por meio do turismo rural, bem como o
aumento do valor agregado dos produtos agrícolas, como uma produção
de qualidade e a venda direta (Renting; Marsden; Banks, 2003).
Essas novas formas de atuação dos agricultores permitem a compre-
ensão do surgimento de Redes Alternativas de Alimentos (Alternative Food
Networks – AFN) (Renting; Marsden; Banks, 2003). Assim, as AFN foram
desenvolvidas como uma maneira diferente de fornecer e consumir alimen-
tos (Pinna, 2017). O potencial das AFN é promover sistemas alimentares
sustentáveis, por meio de formas produtivas ecologicamente saudáveis e a
redução da distância física e social entre produtores e consumidores, pro-
movendo resultados socioeconômicos positivos (Zollet; Maharjan, 2021).
As AFN são consideradas como uma transição cultural, que envolve redu-
ção de escala, encurtamento de distâncias, compromisso com atores locais
e modos produtivos de forma orgânica e sustentável (Jarosz, 2008; Sellitto,
Vial; Viegas, 2018).
Por essa razão, Chioleau e Dourian (2020) mencionam que as
SFSC são uma das muitas formas de AFN, em que os valores éticos, sociais
e ambientais motivam os produtores a participarem de mercados alternati-
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
187
vos. Do mesmo modo, outros estudiosos caracterizam AFN e SFSC de for-
ma similar, por apresentarem estruturas que permitem contato direto entre
produtores e consumidores (Zoll; Specht; Siebert, 2021). Entretanto, há
diferenças conceituais entre AFN e SFSC. Enquanto as AFN abrangem
novas redes emergentes de produtores, consumidores ou outros atores que
adotam modos alternativos na cadeia de suprimentos de alimentos, em
contraposição ao modo padronizado e industrial, as SFSC abrangem os
produtores e consumidores. Os produtores, que além de cultivarem os ali-
mentos no campo, processam e distribuem diretamente ao consumo, de-
monstrando uma inter-relação entre produtores e consumidores (Renting;
Marsden; Banks, 2003). Desse modo, as SFSC buscam redenir a relação
entre produtor e consumidor, ao encurtar as distâncias entre eles, cons-
truindo um valor e signicado nessa interação, de modo que o preço dos
produtos esteja conectado com os critérios e construções de entre esse mo-
delo de oferta e demanda (Marsden; Banks; Bristow, 2000).
short food supply chains
Enquanto a cadeia de abastecimento de alimentos convencional
apresenta como principais características um modo de produção intensiva
de produtos padronizados e ultraprocessados, ao percorrer por diversos
níveis de fornecedores e, posteriormente, de intermediários até o produto
alcançar o consumidor, as SFSC envolvem uma aproximação entre produ-
tores e consumidores, estabelecendo relações diretas entre eles (Chaote;
Chioleau, 2007; Maren, 2019), conforme o exemplicado na Figura 1.
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
188
Figura 1 – Cadeia de abastecimento de alimentos convencional versus
SFSC
Fonte: Adaptado de Lamberte Cooper (2000), Belletti e Marescotti (2020).
É importante ressaltar que, nas SFSC, a forma de conexão entre pro-
dutor e consumidor não está relacionada com o número de vezes em que
o produto foi intermediado, ou a distância percorrida até o consumidor
nal, mas o fato de apresentar um produto com informações incorporadas.
Essas informações podem ser comunicadas por meio de embalagens e/ou
informações expressas nos produtos, como selos de Indicação Geográca,
ou até mesmo por meio de vendas que apresentam interações entre pro-
dutor e consumidor, em que o próprio agricultor comunica acerca de seu
produto. A partir dessas comunicações, o consumidor, muitas vezes, pode
criar conexões e atribuir valor ao produto com base no local produtivo e,
potencialmente, com os valores das pessoas envolvidas, como o envolvi-
mento dos agricultores, seus familiares, a promoção de empregos locais, os
métodos de produção, entre outros (Abatekassa; Peterson, 2011; Marsden;
Banks; Bristow, 2000).
Comumente, na literatura, três posições da SFSC são reconhecidas,
com seus respectivos modelos de atuação no mercado (Ilbery; Maye, 2005;
Marsden; Banks; Bristow, 2000; Renting; Marsden; Banks, 2003):
Face-to-face, em que os consumidores compram produtos dire-
tamente dos produtores, apresentando interações pessoais entre
os agentes e, muitas vezes, gera uma relação de conança, seus
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
189
modelos envolvem venda na propriedade, Pick-Your-Own, mer-
cado de produtores, entre outros;
Proximidade espacial, onde os produtos além de serem produ-
zidos e revendidos na região (ou local) especíca de produção,
os consumidores são informados acerca da origem e da natureza
do produto no ponto de venda. Esta categoria se sobrepõe à fa-
ce-to-face, ao incluir os mesmos locais citados no item anterior.
Além disso, inclui varejistas especializados que vendem produtos
locais, como empórios, mercearias, lojas locais, empresas turís-
ticas dedicadas ao varejo, vendas para instituições, como hoteis,
hospitais, escolas e, até mesmo, supermercados que vendem ali-
mentos de origem local;
Espacialidade estendida, onde os produtos são vendidos para
consumidores localizados fora da área local (de onde os produtos
foram produzidos), porém há informações no produto sobre o
modo produtivo, região ou produtor. Esse modelo envolve pro-
dutos com rótulos de certicação, ou efeitos de reputação, como
fair trade, selos de Indicação Geográca, entre outros.
Além dessas categorias, as SFSC também podem ser interpretadas de
acordo com três perspectivas: redução da distância física entre produtores
e consumidores (ao serem identicadas por meio de proximidades geo-
grácas ou local); a redução do número de intermediários que conectam
os produtores e consumidores (em que o número de intermediários entre
produtores e consumidores pode ser mínimo, ou idealmente nenhum);
o aumento da proximidade cultural e social entre produtores e consumi-
dores (os produtos apresentam informações de valor para o consumidor,
por exemplo, ao comunicar na embalagem o local e métodos de produção
permitirá que o consumidor, mesmo distante geogracamente, associe o
produto com o local, espaço, pessoas e seus métodos produtivos envolvi-
dos) (Kneafsey et al., 2013; Ilbery; Maye, 2005).
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
190
As sfsc e A AgregAção de vAlor Aos produtos
Para Renting, Marsden, Banks (2003) as SFSC também estão re-
lacionadas com as denições e convenções de qualidade. Por exemplo, a
diferenciação do produto está relacionada com transparência nas relações
de mercado, em que essas denições de qualidade são transmitidas entre
todas as partes envolvidas e comunicadas ao consumidor, de forma a cons-
cientizá-lo a pagar pelo preço prêmio (Renting; Marsden; Banks, 2003;
Sacchi et al., 2018).
Assim, há duas categorias de SFSC relacionadas com a convenção de
qualidade, apresentadas por Renting, Marsden e Banks (2003). A primeira
consiste na relação entre os atributos de qualidade de produto e o local de
origem, onde o produto foi produzido, ou informações sobre o produtor e
a segunda é acerca do modo produtivo, especialmente de forma orgânica.
Quanto à primeira categoria, as características especícas do local de
produção, envolvem fatores naturais, culturais, tradições gastronômicas,
entre outros. Esses são parâmetros que denem a qualidade do produto,
ao gerar, muitas vezes, um resultado típico, único na aparência ou sabor,
como aqueles que expressam a natureza artesanal de processo produtivo,
habilidades do produtor ao saber fazer, carregando a sua herança cultural.
Da mesma forma, consumidores atribuem a qualidade da SFSC por aces-
sar um mercado justo, considerando parâmetros éticos e de justiça, espe-
cialmente para os agricultores.
A segunda categoria dene a qualidade das SFSC ao relacionar o
modo produtivo alimentar e métodos produtivos ambientalmente corre-
tos, como a produção integrada, orgânica, alimentos livres de organismos
modicados geneticamente, um menor uso de aditivos químicos, entre ou-
tros. Há uma diversidade de produtos que podem apresentar embalagens
com informações sobre aspectos naturais, bem como se basear em imagens
românticas da agricultura, ao comunicar uma valorização de formas agrí-
colas multifuncionais, como opções de agroturismo que contribuem com
a natureza ao manter paisagens rurais e bem-estar animal.
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
191
Para Belletti e Marescotti (2020) e Renting, Marsden e Banks
(2003), os agricultores inseridos nas SFSC apresentam como principais
objetivos a redução de custos e agregação de valor ao produto. A forma de
distribuição mais adequada a cada tipo de produtor pode alterar de acordo
com a disponibilidade da mão de obra, infraestrutura, organização do sis-
tema produtivo (Rocchi et al., 2020). Por exemplo, há modelos de SFSC
que apresentam interações entre agricultores e consumidores que incluem
tanto os de face-to-face (loja dos produtores, Pick-Your-Own, empresas ru-
rais multifuncionais etc.) quanto os de proximidade espacial (rota temáti-
ca, eventos, entre outros). Assim, por meio desse contato direto entre eles,
o principal potencial valor agregado aos produtos está relacionado com o
fornecimento de informações mais detalhadas acerca dos métodos produti-
vos, sazonalidade, frescor do alimento, território, entre outros. Para Pinna
(2017) um dos fatores que mais gera conança no relacionamento entre
produtor e consumidor, é a capacidade do produtor contar histórias sobre
o produto e sua origem, incluindo a descrição de seu território. O autor
declara que esta é uma das melhores maneiras dos consumidores avaliarem
a qualidade do alimento, que está fortemente relacionado à identidade
local e regional de um território.
As empresas rurais multifuncionais, que oferecem a opção de agro-
turismo, além de ofertarem produtos agrícolas frescos, há outras oportu-
nidades de vendas diretas que agregam valor aos produtos, como a oferta
de serviços relacionados aos seus produtos agrícolas e território, incluindo
degustações, percursos gastronômicos, possibilitando experiências laborais
em seus métodos produtivos (Belletti; Marescotti, 2020).
Para Belletti e Marescotti (2020), a transformação das cadeias de dis-
tribuição que envolvem sistemas longos e padronizados para as SFSC leva
a eliminação de diversas funções que eram desempenhadas pelos atores
que foram retirados dessas cadeias. Essas funções são assumidas, ao menos
em partes, por atores integrantes das cadeias SFSC, isto é, agricultores e
consumidores. Esse é o caso, por exemplo, do Pick-Your-Own, conforme
demonstrado na Figura 2.
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
192
Figura 2 – Funções de produtores e consumidores em alguns SFSC
Fonte: Autores adaptado de Belletti e Marescotti (2020), Freepik (2023).
Comumente, em cadeias convencionais, ou em algumas cadeias de
SFSC, como feiras-livres, entregas de caixa, entre outros, os consumidores
não demonstram um papel ativo, por apenas realizarem seus pedidos e o
receberem em suas casas, ou até mesmo em locais de venda. No caso de
algumas formas de distribuição, por meio de SFSC, como Pick-Your-Own,
os consumidores se deslocam até o local de produção e fazem parte de um,
ou mais, dos processos produtivos, como a colheita.
Nesse contexto, onde os consumidores fazem parte do processo pro-
dutivo, atividades laborais no campo, criam experiências para os consumi-
dores, permitindo que os agricultores agreguem valor aos produtos, por
meio de diversas oportunidades de comercialização.
cAsos de Agricultores fAmiliAres gAúchos
Os agricultores que zeram parte do presente estudo estão localizados
em diferentes municípios gaúchos, conforme o demonstrado na Figura 3.
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
193
Figura 3 – Localização dos casos estudados
Fonte: Elaborada pelos autores, com base nos dados da pesquisa (2024).
É importante ressaltar que, alguns municípios como Bento Gonçalves
e Caxias do Sul fazem parte da região Serra Gaúcha, caracterizada pelo
cultivo de uvas e produção de vinhos. Esse território, por ser uma região
montanhosa, propicia encantadoras paisagens, as quais atraem turistas,
fomentando demais atividades econômicas das cidades e região, como a
instituição de redes hoteleiras, gastronomia, opções de lazer e eventos que
expressam a cultura local, como a imigração italiana (Dinis et al., 2022;
Fertenseifer, 2007; PPGQ, 2023). Da mesma forma, demais cidades como
Nova Petrópolis, Picada Café e Estância Velha, além de estarem localizadas
próximas a essa região, são municípios que fazem parte da Rota Romântica
do estado. Essa Rota é um percurso turístico formado por 14 municípios,
incluindo Gramado e Canela, em que os turistas podem realizar o trajeto
de carro, apreciando a natureza ao redor das estradas, formadas por plá-
tanos e há o destaque para o valor cultural, relacionado à preservação da
cultura alemã, herdada por imigrantes. Assim, há a presença de jardins,
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
194
casas enxaimel3, festas típicas germânicas, feiras coloniais, bandas típicas,
entre outras atrações (Rotas e Roteiros, 2023). Dessa forma, as estradas
que fazem parte da Rota Romântica permitem que os agricultores também
sejam beneciados com paisagens em torno de suas propriedades rurais.
Em relação aos principais produtos, apenas um caso (B) não benecia seus
produtos, ao produzir e comercializar Frutas, Legumes e Verduras (FLV).
Em relação a essa pesquisa, é importante ressaltar que, primeira-
mente, um agente-chave, da Federação dos Trabalhadores na Agricultura
no Rio Grande do Sul (FETAG) foi contatado e, posteriormente, a partir
dos contatos informados por esse agente, comunicou-se com os agri-
cultores familiares, por meio da Rede Social, o WhatsApp, ao informar
acerca dos objetivos da pesquisa e, conforme o interesse e disponibilidade
dos agricultores, a visita presencial foi agendada. Assim, os dados foram
coletados por meio de entrevista semiestruturada, com perguntas abertas
e observação das propriedades visitadas, totalizando a resposta de seis
agricultores familiares.
Sobre os agricultores que responderam à pesquisa, metade são do
sexo feminino (A, D, F) e 67% deles (A, D, E, F), apresentam uma idade
entre 40 e 45 anos, 33% (B, C) entre 50 e 55. Ao serem questionados
acerca de seu nível de escolaridade, metade responderam que estudaram
até o ensino médio (C, D, E), dois até o ensino fundamental (A, B) e um
apresenta o ensino superior completo, na área da viticultura (F). Todos
os pesquisados apresentam Declaração de Aptidão ao Pronaf (DAP) e es-
tão cientes sobre a mudança da DAP para CAF (Cadastro da Agricultura
Familiar). Esse resultado indica que todos os agricultores pesquisados es-
tão informados acerca do conceito de Agricultura Familiar, conforme a
Lei nº 11.326, de 2006 e o acesso ao crédito do Programa Nacional de
Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF).
As casas apresentam uma técnica de construção que utiliza as madeiras articuladas, encaixadas em posição
horizontal e vertical, formando uma estrutura que, posteriormente, tem os espaços preenchidos com outros
materiais, que podem variar entre pedra, tijolo, tabique, entre outros, ao deixar essas madeiras visíveis nas
fachadas, conferindo um contraste entre cores e materiais (Priberam Dicionário, 2023; Wittmann, 2016).
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
195
Em relação aos dados das propriedades, 50% (A, C, D), iniciaram
as suas atividades na agroindústria entre 2010 e 2013, 33% (B, E) entre
2000 e 2003 e 17% (F) foi fundada em 1970. Assim, a maioria iniciou as
suas atividades a partir dos anos 2000, conforme pode ser observado no
Quadro 1.
Quadro 1 – Caracterização das propriedades
Caso Principal
produto
ofertado
Ano de
fundação
Área
produtiva
(hectares)
Faturamento
bruto mensal
(mil – R$)
Nº de
pessoas da
família que
contribuem
A Chá 2013 Entre 1 e 10 Não informado 3
B
Frutas
legumes e
verduras
(FLV)
2003 Entre 1 e 10 Entre 11 e 20 4
C Geleia 2011 Entre 1 e 10 Acima de 50 3
D Laticínios 2010 Entre 21 e 30 Entre 11 e 20 3
E Biscoitos 2000 Entre 1 e 10 Entre 31 e 40 3
F Vinho 1970 Entre 1 e 10 Entre 21 e 30 3
Fonte: Elaborado pelos autores, a partir dos resultados da pesquisa (2024).
Sobre a área produtiva, a maior parte (83%, A, B, C, E, F) apresenta
uma extensão entre 1 e 10 hectares e 17% (D) entre 21 e 30. Esse resultado
não está relacionado diretamente com o nível de faturamento das proprieda-
des, visto que, os estabelecimentos que apresentaram um maior faturamen-
to, como os acima de R$50 mil (C), ou entre R$31 e R$40 mil (E), detém
uma área entre 1 e 10 hectares. De acordo com um dos entrevistados (D), o
agricultor familiar não tem a necessidade de comprar áreas extensas de terra
e sim, conforme a sua fala, “fazer render com o que tem”. Esse rendimento,
para o agricultor, está relacionado com a estratégia de diferenciação e agrega-
ção de valor ao produto, ao mencionar que existem consumidores dispostos
a pagarem um preço maior, por um produto de qualidade. Bem como, o
agricultor mencionou que, eles não vendem somente produtos e sim a his-
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
196
tória de suas vidas, dos produtos, contribuindo com o meio ambiente e com
a saúde dos consumidores. Esse resultado pode ser explicado por Bazzani e
Canavari (2017) ao citarem que a aproximação cultural e social, promovida
pelas SFSC, não apresenta somente como base os produtos que são reconhe-
cidos pelo local produtivo, mas há o interesse de consumidores pelo valor
cultural e simbólico do produto ofertado.
Todos os agricultores recebem contribuições de mão-de-obra entre
três e quatro membros da família, sendo uma agricultura familiar com-
posta por marido, mulher, lhos e/ou sogros. Em dois casos (A, B), os
lhos são adolescentes e além dos estudos, apresentam um papel ativo nos
empreendimentos rurais familiares, como a criação de produtos, auxílio
nas vendas que envolvem interações com os consumidores, como eventos
e feiras, mudanças na embalagem. Em um dos casos (A), a lha imple-
mentou a ideia de estampar QR Code nos rótulos, permitindo aos consu-
midores terem fácil acesso às informações do produto e empreendimento,
incluindo a história familiar e catálogo de produtos. Ainda, alguns lhos
realizam cursos voltados para a tecnologia, com o objetivo de expandir as
vendas, por meio de recursos on-line. Esse resultado indica estímulos para
a geração de renda, aumento de autonomia e sucessão rural, conforme o
exposto por Conterato e Strate (2019).
Em relação aos canais de comercialização, identicou-se que todos
utilizam as categorias identicadas como face-to-face e ou de proximidade
espacial, conforme pode ser observado na Figura 4.
Em relação aos principais modelos utilizados na categoria face-to-face
foram as vendas nas propriedades (83%, A, C, D, E, F), e feiras (50%, B,
D, E). As vendas nas propriedades incluem aqueles que apresentam lojas
(A, C, F), com a exposição tanto de produtos produzidos na propriedade,
como aqueles provenientes da região local. O caso F, por exemplo, vende
embutidos da cidade e região de Bento Gonçalves, bem como utiliza es-
ses produtos para os consumidores degustarem com vinhos, ao realizarem
diversas harmonizações. O agricultor, ao expor as suas bebidas, mantêm
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
197
parcerias com demais agricultores na revenda de produtos regionais, con-
tribuindo com o desenvolvimento local.
Figura 4 – Modelos de comercialização utilizados pelos agricultores
Fonte: Elaborada pelos autores, a partir dos dados da pesquisa (2024).
Sobre os modelos de comercialização na categoria de proximidade
espacial, as principais foram a participação em eventos (83%, A, C, D, E,
F) e vendas institucionais (50%, B, D, E). Os eventos são feiras expositi-
vas que incluem a agricultura familiar, como a Expodireto, Fenadoce e a
Expointer. Essa última, mais citada entre os pesquisados, corresponde a
uma feira agropecuária tradicional do estado gaúcho, com início em 1900
e, de acordo com um dos agricultores (A), é o evento mais esperado, dian-
te do número de visitantes e de comercialização. Entre 2022 e 2023, por
exemplo, houve um acréscimo de 6% do número de visitantes e 12% de
aumento sobre o volume de negócios (Rio Grande Do Sul, 2023). Mesmo
que alguns agricultores não participem de feiras livres (A, C, F) eles dire-
cionam seus esforços para participarem de eventos como esses, a m de
aumentarem a visibilidade da marca de seus empreendimentos, ao con-
siderarem uma vitrine para seus produtos e, muitas vezes, objetivam fo-
mentar negócios, na busca por revendedores de outros estados. Quanto às
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
198
vendas institucionais, essas incluem a comercialização para escolas (B, D,
E), instituições de assistência social (E) e restaurantes (B, E, F). Nas vendas
que incluem escolas e de assistência social, os agricultores participam do
Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e do Programa de
Aquisição de Alimentos (PAA). As vendas para escolas zeram com que al-
guns casos (D, E) apresentassem diferenciação em seus produtos, em razão
de nutricionistas demandarem produtos com um menor teor de açúcar,
porém sem perder a qualidade do aroma e sabor. Esses itens também pas-
saram a ser comercializados para os demais consumidores, especialmente
aqueles que se preocupam com a saúde.
Quanto às formas de agregar valor aos produtos e serviços, identi-
cou-se que, todos os casos investiram em variedade de produtos em cada
linha, conforme o observado na Figura 5. Por exemplo, no caso F, há a pro-
dução de uma só linha de produtos, sendo vinho, porém há uma variedade
deles, como vinhos nos, suaves, tintos e brancos.
Em seguida, 67% (A, C, D, E), investiram em novas linhas de pro-
dutos, diferenciação (67%, A, C, D, E), melhorias nas embalagens (67%,
A, D, E, F) e agregaram valor com a oferta de serviços, as principais foram
café colonial (50%, A, D, E) e degustação dos produtos agrícolas (50%, A,
C, F). Com exceção do caso B e F, além dos produtos principais, há a pro-
dução e comércio de outras linhas de produtos, como geleias, frutas desi-
dratadas, biscoitos (A), sucos de uva (C), iogurtes, manteigas, queijos (D) e
massas, como macarrão e agnolini (E). O fato de os agricultores investirem
em nova linha de produtos está relacionado com a economia de escopo
que, para Mendes (2009) é quando uma mesma planta industrial produz
vários produtos de forma simultânea, ou não, possibilitando vantagens re-
lacionadas ao custo unitário do produto, por meio de uma combinação de
fatores, como o aproveitamento do uso de maquinários, instalações, uso
do mesmo marketing e administração. Assim, a produção de um ou mais
produtos (diferentes) é proveniente do uso das mesmas instalações e mão
de obra, reduzindo os custos por unidade produzida.
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
199
Figura 5 – Formas de agregar valor aos produtos e serviços ofertados
Fonte: Elaborada pelos autores, com base nos dados da pesquisa (2024).
Os agricultores, além de reduzirem os custos por unidade, aumen-
taram a capacidade de negociação, ao produzirem e ofertarem demais li-
nhas de produtos, atendendo às diferentes demandas dos consumidores,
de forma a permanecerem competitivos no mercado. Por exemplo, o caso
E, comprou um maquinário mais moderno para a fabricação de biscoitos e
o utiliza, em turnos diferentes, para a fabricação de massas, especialmente
o agnolini. O mesmo se aplica ao caso C, em que o agricultor identicou
perdas durante o processo de fabricação de sucos. Desse modo, optou em
expandir a sua produção para geleias, a m de aproveitar o excedente da
uva. Nesse caso, também houve um aumento da variedade de produtos,
que está relacionada com o modelo de comercialização. Por meio do Pick-
Your-Own, ao expandir suas plantações para framboesa, morango, mirtilo,
physallis, entre outros, o agricultor utiliza esses frutos para a fabricação
de demais sabores de geleias, incluindo a combinação entre eles, como
frutas vermelhas e frutas roxas. Esses produtos são comercializados como
gourmet, com a aplicação de um preço superior, quando comparado com
geleias à base de um só fruto.
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
200
Quanto à diferenciação de produtos, alguns agricultores ofertam ali-
mentos com certicação orgânica, produtos integrais, diet, sem glúten e sem
lactose (A), menor teor de açúcar (D, E), isenção de sacarose e de conser-
vantes (C). Assim, além dos produtos apresentarem aspectos tradicionais em
sua fabricação, as diferenciações estão relacionadas com a saúde do consu-
midor. Os alimentos orgânicos, por exemplo, ao apresentarem certicações
está alinhado com Scalco (2019), ao explicar que os produtos com selos se
diferenciam dos convencionais por seguirem regras e normas determinadas
por entidades que regulam e certicam esses produtos, garantindo que os
processos de fabricação preservam a saúde dos consumidores e trabalhadores.
Nesse contexto, é importante ressaltar que, em exceção do caso B, to-
dos apresentam embalagens, rótulos com logomarca dos empreendimentos
e o Selo Sabor Gaúcho. De acordo com a Secretaria de Desenvolvimento
Rural, Pesca e Cooperativa (Porto Alegre, 2023) do estado do Rio Grande
do Sul, esse Selo surgiu em razão da necessidade de criar uma denomina-
ção de origem do produto, tendo como base uma procedência artesanal
da agroindústria familiar, em conformidade com as exigências sanitárias,
ambientais e de responsabilidade social. Assim, de acordo com Abatekassa
e Peterson (2011), as informações de origem e procedência podem ser co-
municadas por meio de embalagens, informações presentes nos rótulos,
como o uso de selos. O Selo Sabor Gaúcho permite que os agricultores
agreguem valor aos seus produtos, por informar aos consumidores a ori-
gem, sendo no estado gaúcho, a fabricação de modo artesanal, por meio de
uma agricultura que envolve famílias no campo e um alimento seguro para
consumo, atendendo as exigências sanitárias e ambientais.
Os agricultores também apresentaram agregação de valor aos produ-
tos por meio de investimentos em embalagens, como o Drip Tea (A), pos-
sibilitando o consumo do chá em qualquer lugar e momento, sem perder
a qualidade do produto. No caso D, a apresentação do iogurte passou a
ser em um pote transparente, evidenciando os pedaços da fruta, os quei-
jos, que antes eram embalados em plástico lme, passaram a ser selados a
vácuo, contribuindo com a qualidade do produto, mantendo as proprie-
dades e sabor do alimento. Houve a mudança de rótulos (E, F), em que os
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
201
nomes dos produtos, formas e cores das logomarcas passaram a representar
a cultura e descendência da família, a qual é italiana. Assim, incluíram na
identidade visual de sua marca as cores da bandeira da Itália.
Os modelos de comercialização que envolvem a exposição de produ-
tos, como lojas na propriedade, feiras, redes sociais, lojas locais e eventos,
mesmo que os agricultores apresentem interações com os consumidores,
houve investimentos na agregação de valor aos produtos, permitindo a
venda por meio da aparência e demais aspectos visuais, conforme a fala de
um agricultor: “primeiro, tu tem que vender um produto com os olhos.
Então, a gente procurou também já diferenciar nossa embalagem, para as
pessoas verem o nosso produto” (Entrevistado D).
Quanto às formas de agregar valor aos serviços, todas estão relaciona-
das às empresas rurais multifuncionais, que, conforme Belletti e Marescotti
(2020), além de oferecerem produtos agrícolas frescos, há a oferta de ser-
viços relacionados a esses produtos e o território. Assim, a maioria oferece
serviços que agreguem valor aos seus produtos, como café colonial (50%
A, D, E), visita guiada e degustação (50% A, C, F).
Os casos apresentaram peculiaridades em servir cafés coloniais em
suas propriedades, que dependendo do espaço, cada um agrega valor de
forma diferente, conforme pode ser representado por meio da Figura 6.
Figura 6 – Café colonial servido em propriedades rurais, de acordo com
a estrutura local, permitindo experiências diferentes
Fonte: 8photo (2023) e Vecstock (2023).
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
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No caso A, o café pode ser servido em uma área interna, de madeira,
próximo à lareira e/ou em um deck externo, com vista para paisagens ao
redor. Assim, a depender do clima, o consumidor poderá optar entre essas
duas opções. No caso D, o espaço é um anexo à residência do agricultor,
sendo uma cozinha feita de madeira, com fogão a lenha, mesas e banco de
madeira, com itens decorativos do próprio sítio, como chaleiras e panelas
de ferro, apresentando uma característica mais rústica. Na propriedade E,
os produtos são expostos em uma mesa comprida em uma área coberta e
externa à agroindústria, com mobília de pallets, em que as almofadas são
das cores italianas e os agricultores abordam os consumidores para desfru-
tarem da natureza do local e apreciarem histórias de gerações e cultura, por
meio da oferta de seus produtos.
Nos três casos (A, D, E), há a oferta de alimentos que apresentam o
resgate cultural, com produtos frescos, como doce de leite, bolo de milho,
biscoitos de nata, cucas recheadas, pão com queijo e linguiça tradicional,
entre outros que indicam alimentos caseiros. Esse resultado se alinha com
Renting, Marsden e Banks (2003) ao explicarem que as SFSC estão rela-
cionadas com a convenção de qualidade, em que uma das categorias está
relacionada com os atributos de qualidade do produto e o local de origem,
ao indicar onde o produto foi produzido, ou informações sobre o produ-
tor, envolvendo aspectos culturais e tradições gastronômicas. Dessa forma,
é possível que os consumidores atribuam qualidade ao produto e serviço
ofertado com base na qualidade do produto, ao relacionar com o local
produtivo e informações sobre o produtor, abrangendo aspectos culturais
e tradicionais.
Os mesmos casos que oferecem visita guiada, também despendem de
degustação (A, C, F). O caso C, por exemplo, apresenta uma parceria com
empresas de turismo em algumas cidades turísticas da região, como Canela
e Gramado. Essas companhias organizam grupos de turistas que desejam
visitar a propriedade e o ponto de partida é em hotéis e/ou demais locais.
A visita guiada também oferece experiências para o consumo, no caso F, os
consumidores precisam agendar a visita com antecedência e são guiados pela
proprietária, enóloga, que explica e tira diversas dúvidas sobre a fabricação
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
203
do produto. Em algumas ocasiões, recomenda os consumidores realizarem
a sabrage4. A visita inclui visualizar os tonéis e a cava, onde os vinhos cam
armazenados, com uma baixa iluminação, permitindo fotos originais, com
a logo da empresa em evidência e incluem a participação dos consumidores
em processos produtivos, como o auxílio na colagem de rótulos.
Poucos casos (igual ou abaixo de 33%, dois), oferecem demais servi-
ços que demandam investimentos na infraestrutura, como hospedagem e
cafeteria, ou a disposição de tempo e/ou contratação de mão-de-obra para
realizarem piquenique e atração festiva. O caso C, por exemplo, ao identi-
car um problema de mão-de-obra por oferecer o serviço de piquenique,
especialmente para servir as pessoas, implantou um sistema semelhante ao
utilizado em praças de alimentação dos shoppings centers. O consumidor
vai até o local realizar o seu pedido e lhe é entregue um dispositivo digital,
através do qual o consumidor é comunicado, por meio da vibração e ilu-
minação desse dispositivo, informando que a sua encomenda está pronta.
Dessa maneira, as pessoas se deslocam até o local de entrega e retira a sua
compra, com uma cesta de produtos, conforme o exposto na Figura 7.
Figura 7 – Cesta de piquenique semelhante ao que os agricultores pes-
quisados oferecem
Fonte: Vwalakte (2023).
Técnica para abertura de garrafas de espumantes com o uso do sabre (espada de lâmina curvada), mas a
garrafa também pode ser aberta por uma espada própria para Sommelier, ou uma colher. Dessa forma, ao
deslizar o sabre na ponta do gargalo da garrafa, em posição de 45º, a rolha é retirada (Yanomany, 2023).
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
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Os casos C e F oferecem aos consumidores serviço de piquenique,
realizado embaixo das parreiras, com a disposição de mesas e toalhas qua-
driculadas vermelhas. A localização das mesas permite a apreciação da vista
da natureza, contemplando a paisagem ao redor, com a opção de parqui-
nho próximo para as crianças. Em ambos os casos, há atrações festivas,
como a festa da pisa das uvas, em épocas de colheita, promovendo vivên-
cias únicas aos consumidores.
Quanto à hospedagem, há a oferta entre os casos B e C, porém com
propostas diferentes. O caso B oferece pousada no local, adaptando a resi-
dência familiar, com o acréscimo de quartos em sua estrutura, para estadia
e alimentação de grupos turísticos. Já o caso C, construiu chalés de ma-
deira, com lareiras, banheiras e decks privativos a céu aberto e, em razão da
propriedade estar localizada em um dos caminhos Germânicos da região,
oferece hospedagens com vistas panorâmicas e paisagísticas. Essa hospeda-
gem permite experiências aos hóspedes caminharem em jardins privativos,
colherem frutos diretamente do pé, por meio do Pick-Your-Own, entre
outras atrações proporcionadas pelos agricultores.
considerAções finAis
As SFSC surgiram em contraposição ao modo padronizado e in-
dustrial do sistema alimentar, fazendo com que os agricultores buscassem
modelos alternativos de comercialização. De modo paralelo, em razão de
novos padrões de consumo, relacionados às questões éticas, de valores cul-
turais e ambientais, os agricultores buscaram atender essa nova demanda,
apresentando como principais objetivos a redução de custos e agregação de
valor ao produto.
Assim, por meio desse capítulo, foram expostas algumas estratégias
de comercialização utilizadas por agricultores familiares do estado do Rio
Grande do Sul, que atuam em Short Food Supply Chain, que agregam valor
em seus produtos e serviços.
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
205
A agregação de valor aos produtos está relacionada com canais de
comercialização que envolvem a exposição dos itens ofertados, como
eventos, lojas nas propriedades, entre outros. Em paralelo a interação
entre agricultores e consumidores, os produtos são vendidos por meio de
seus aspectos visuais, como a presença de selos e certicação, indicando
diferenciação, investimentos em embalagens, envolvendo logomarca e
rótulo, a diversidade da linha de produtos, de modo a atender diferentes
preferências de consumo.
Quanto às formas de agregar valor aos serviços, todas estão relaciona-
das às empresas rurais multifuncionais, que, além de oferecerem produtos
agrícolas frescos, os agricultores ofertam serviços relacionados a esses pro-
dutos e o território, como café colonial, visita guiada, piquenique, atração
festiva, entre outros que promovem experiências únicas aos consumidores,
em contato com a natureza.
Essas formas de agregar valor aos produtos e serviços, por meio de
SFSC, contribuem com a geração de renda, melhorias de condições de
vida dos agricultores e família, sucessão rural, em razão de autonomia,
desenvolvimento local e territorial, por atrair turistas e atribuir valor às
origens e cultura regional, bem como auxílio na manutenção e preservação
de paisagens e demais recursos naturais das regiões onde as propriedades
rurais estão situadas.
referênciAs
8PHOTO. Algumas sobremesas turcas com copos de chá e bule em uma mesa com a vila no
fundo, vista lateral. Freepik. 2023. 1 fotograa. Disponível em: https://br.freepik.com/
fotos-gratis/algumas-sobremesas-turcas-com-copos-de-cha-e-bule-em-uma-mesa-com-a-
vila-no-fundo-vista-lateral_7757646.htm. Acesso em: 12 set. 2023.
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211
cApítulo 9
Relação entre a infraestrutura
de inovação tecnológica e a
produtividade na cultura do
amendoim
Sandra Cristina dE OLIvEIRA 1
Fabiano Pinto NEvEs 2
Leandro Paloma MANtOvANI 3
Adriana dos Santos dIAs 4
Mário MOLLO NEtO 5
Juliano Endrigo sORdAN
1 Departamento de Gestão, Desenvolvimento e Tecnologia, Faculdade de Ciências e Engenharia, Universidade
Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil, e-mail: sandra.oliveira@
unesp.br.
Programa de Pós-graduação em Agronegócio e Desenvolvimento (PGAD), Faculdade de Ciências e
Engenharia, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil,
e-mail: fabiano.neves@unesp.br.
Programa de Pós-graduação em Agronegócio e Desenvolvimento (PGAD), Faculdade de Ciências e
Engenharia, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil,
e-mail: l.mantovani@unesp.br.
Programa de Pós-graduação em Agronegócio e Desenvolvimento (PGAD), Faculdade de Ciências e
Engenharia, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil,
e-mail: adriana.s.dias@unesp.br.
Departamento de Engenharia de Biossistemas, Faculdade de Ciências e Engenharia, Universidade Estadual
Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil, e-mail: mario.mollo@unesp.br.
6 Faculdade de Tecnologia de Sertãozinho (FATEC), São Paulo, Brasil, e-mail: juliano.sordan@fatec.sp.gov.br.
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-534-6.p211-232
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
212
introdução
O amendoim (Arachis hypogaea L.) é uma planta herbácea, cujas se-
mentes contêm em torno de 25% de proteína e 50% de óleo comestível. O
grão é considerado um dos alimentos mais nutritivos e energéticos, sendo
utilizado na indústria de alimentos como matéria-prima para a fabricação
de produção de óleo e confeitos (Gerico et al., 2020).
Em 2020, os maiores produtores de amendoim do mundo foram
China, Índia, Nigéria, EUA, Sudão, Argentina e Brasil, respectivamente,
onde a China foi responsável por uma produção de aproximadamente 17,5
milhões de toneladas. Ainda em 2020, os maiores importadores de amen-
doim em grão foram Holanda, Indonésia, China, Rússia e Alemanha, res-
pectivamente (Food and Agriculture Organization of the United Nations,
2023). Nesse mesmo ano, o volume de importação do amendoim em grão
foi de aproximadamente US$ 3,3 bilhões e do óleo de amendoim foi de
quase US$ 440 milhões no mercado mundial, do qual o Brasil teve 7% e
13% de participação, respectivamente (Trade Map, 2022).
Com um crescimento exponencial de 100% na última década, a
produção de amendoim no Brasil chegou a quase 700 mil toneladas na sa-
fra 2021/22 (Companhia Nacional de Abastecimento - CONAB, 2022a).
Esse aumento se deve à adoção de novas tecnologias no segmento da pro-
dução, com novas cultivares mais adaptáveis, resistentes e produtivas, com
a inserção da colheita mecanizada e com as mudanças institucionais ocor-
ridas a partir da elaboração de normas e regras de produção visando asse-
gurar a sanidade dos produtos (Akram et al., 2022).
A cultura do amendoim é bastante relevante ao agronegócio do es-
tado de São Paulo, que é o maior produtor do país, tendo sido responsável
pela produção de 561,6 mil toneladas na safra 2021/22, ou seja, represen-
tando quase 90% da produção nacional (CONAB, 2022b).
As principais regiões produtoras de amendoim dentro do estado de
São Paulo são, a Alta Mogiana, na qual a produção se concentra prin-
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
213
cipalmente nos municípios de Ribeirão Preto, Dumont, Jaboticabal e
Sertãozinho; e a Alta Paulista, cuja produção é mais representativa nos
municípios de Tupã e Marília (Sampaio; Fredo, 2021). Além disso, esti-
ma-se que 80% das áreas de reforma de canaviais do estado são ocupadas
pela cultura do amendoim (Sampaio, 2016). Portanto, a inclusão dessa
cultura em áreas de renovação de canaviais vem tornando-a cada vez mais
competitiva no país.
Ainda que a cultura do amendoim seja explorada no estado de São
Paulo desde a década de 1940, reunindo mais de 80 espécies, observa-se
uma necessidade de mais investimentos em infraestrutura, máquinas, tec-
nologias e pessoal, de modo a gerar inovações capazes de alcançar maior
produtividade, rentabilidade e competitividade (Sampaio; Fredo, 2021).
Segundo Martins e Vicente (2010), a capacidade de inovar e de
adaptar-se às exigências e demandas de mercado depende em grande parte
das estratégias, adoção e desenvolvimento de novas tecnologias. Portanto,
deve haver “[…] a maximização e a criação de sinergias das partes envolvi-
das na cadeia produtiva para que haja o atendimento mais eciente e e-
caz, com menores custos, às necessidades do consumidor” (Armelin; Silva;
Colucci, 2016, p. 80).
De fato, as mudanças tecnológicas na produção e no beneciamento
de amendoim e as transições ocorridas nas instituições estão diretamente
ligadas ao atual cenário de produção da cultura, ou seja, elas vêm impactan-
do no volume de produção, na qualidade e competitividade do produto,
bem como na participação mais efetiva no atendimento às demandas do
mercado interno e externo (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
(EMBRAPA), 2014). Nesse sentido, a Tecnologia da Informação tem se
tornado cada vez mais relevante ao agronegócio, contribuindo para a ino-
vação na produção de alimentos e a segurança alimentar.
A Agricultura 4.0 consiste em um conjunto de tecnologias digitais
integradas (sistemas, aplicativos e máquinas) desenvolvidas para otimizar
a produção agrícola em todas as suas etapas, ou seja, desde o plantio até
a colheita (Pereira Silva et al., 2019). Portanto, o uso conjuntamente da
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
214
agricultura de precisão, big data e internet das coisas pode levar a uma
maior eciência da gestão e da produção agrícola, visto que tais tecnolo-
gias têm sido utilizadas no planejamento e controle de diversas culturas
(Braun; Colangelo; Steckel, 2018); no uso inteligente dos dados coleta-
dos por meio de tecnologias avançadas (Mancini; Frontoni; Zingaretti,
2019); assim como em práticas sustentáveis (Symeonaki; Arvanitis;
Piromalis, 2020).
As ferramentas da Agricultura 4.0 geram e analisam uma grande
quantidade de dados e, ao integrar os processos de gestão e de produção
e garantir a prossionalização das atividades e a sustentabilidade nos pro-
cessos produtivos, facilitam as tomadas de decisões proporcionando redu-
ção de custos e maiores produtividade e lucratividade (Pereira Silva et al.,
2019). Portanto, compreender a associação entre o uso das novas tecnolo-
gias e o efeito desse uso na produtividade da cultura do amendoim, possi-
bilita o estabelecimento de cenários que auxiliarão na tomada de decisão
quanto a melhoria da dinâmica e da competitividade da cadeia produtiva.
Esse capítulo apresenta a infraestrutura tecnológica, baseada na
Agricultura 4.0, relativa a máquinas e equipamentos, insumos, armaze-
nagem e gestão utilizados pelos produtores de amendoim na região Oeste
Paulista. Especicamente, é feita uma associação dessa infraestrutura à pro-
dutividade da referida cultura, de forma a vericar a implicação do uso
desses itens de inovação tecnológica sobre a produtividade.
O conceito de inovação tecnológica está associado ao surgimento
de tecnologias inéditas geradas em ambiente de pesquisa cientíca que
proporcionem maior qualidade e produtividade, fator essencial para o de-
senvolvimento da produção de amendoim, à semelhança de outras cultu-
ras e setores da economia (Sharif, 2012). Nesse sentido, o mundo está se
tornando “[...] dramaticamente mais interconectado, interdependente e
competitivo, onde fomentar a inovação surgiu como a principal estratégia
para a prosperidade socioeconômica” (Sharif, 2012, p. 599).
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
215
Diante desse contexto, a temática tratada nesse capítulo alinha-se
aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) nos termos das se-
guintes metas:
Meta 9.5 Fortalecer a pesquisa cientíca, melhorar as capacidades
tecnológicas de setores industriais em todos os países,
particularmente os países em desenvolvimento, inclusive, até
2030, incentivando a inovação e aumentando substancialmente
o número de trabalhadores de pesquisa e desenvolvimento por
milhão de pessoas e os gastos públicos e privado em pesquisa e
desenvolvimento.
Meta 9.b Apoiar o desenvolvimento tecnológico, a pesquisa e a
inovação nacionais nos países em desenvolvimento, inclusive
garantindo um ambiente político propício para, entre outras coisas,
a diversicação industrial e a agregação de valor às commodities
(GT Agenda 2023, 2022).
A temática e os objetivos deste trabalho estão inter-relacionados com
as áreas de Administração, Agronomia, Estatística, Sistemas de Informação,
Economia, dentre outras. Portanto, dada a abrangência multidisciplinar
das áreas relacionadas, considera-se que os resultados desta pesquisa contri-
buem à linha de Competitividade de Sistemas Agroindustriais do PGAD
ao propiciar informações importantes quanto às vantagens da utilização de
determinadas tecnologias nas atividades agrícolas para uma produção mais
limpa e sustentável.
Utilizou-se como instrumento de coleta um formulário com ques-
tões de múltipla escolha. Esse formulário foi aplicado a uma amostra ale-
atória de 29 produtores de amendoim da região Oeste Paulista (na qual
está inserida a região Alta Paulista) que utilizaram sistemas convencionais
e conservacionistas durante o segundo semestre de 2022 (safra 2022/23).
Os produtores pesquisados estão localizados nos principais muni-
cípios com produção de amendoim da região Oeste Paulista, sendo eles,
Adamantina, Arco-Íris, Bastos, Getulina, Guaimbé, Herculândia, Iacri,
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
216
Marília, Martinópolis, Nantes, Parapuã, Presidente Prudente, Quatá,
Quintana, Rancharia, Sagres e Tupã. A quantidade de produtores rurais
pesquisados corresponde a 20% de toda a área plantada na região Oeste
Paulista, representando um signicativo recorte da região produtora de
amendoim.
As questões do formulário são concernentes ao tipo de agricultor
(familiar ou não familiar), área plantada, destino da produção e produtivi-
dade de amendoim, bem como a adoção de itens de inovação tecnológica
(na safra 2022/23) relativos a:
Máquinas e equipamentos: Pulverizador automotriz; Colhedoras;
Sistema de Posicionamento Global (GPS); Barra de luzes; Corte
de secções no pulverizador; Piloto automático; Correção de sinal
GPS; Fertilizante em taxa variável; Aplicações utilizando Veículos
Aéreos Não Tripulados (Drones); e Sistema de telemetria.
Insumos: Análise anual de solo; Aplicação de macrobiológicos;
Manejo integrado de pragas (MIP); e Manejo integrado de do-
enças (MID)
Tipo de armazenagem: Secador; e Armazém.
Gestão: Assistência agronômica da cooperativa/revenda;
Assistência agronômica própria; Aplicativos voltados para o
agronegócio; Softwares de gestão de negócios; Operadores treina-
dos; Gestão do negócio realizada por prossional; e Certicado
de qualidade.
Os dados obtidos foram analisados usando estatística descritiva (grá-
cos e porcentagens) e, em seguida, foram aplicados testes G de indepen-
dência. O teste G é um teste não paramétrico, semelhante em todos os
aspectos ao teste do qui-quadrado (χ2), utilizado para vericar a associação
entre duas variáveis qualitativas, dispostas em tabelas de contingência ou
de dupla-entrada, especicamente quando o tamanho da amostra é me-
nor que 40 e ocorrerem frequências esperadas menores que ‘5’ (Fávero;
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
217
Belore, 2017). Nesse capítulo, as tabelas de contingência são mostradas
geometricamente, ou seja, foram resumidas por meio de grácos.
Os testes não paramétricos são recomendados para a formulação de
hipóteses sobre determinadas características qualitativas de uma popula-
ção, podendo ser aplicados para dados de natureza qualitativa, em escala
nominal ou ordinal (Fávero; Belore, 2017). Assim, para uma probabili-
dade de signicância obtida a partir dos dados (valor-p) menor ou igual ao
nível de signicância de 5% estabelecido para o teste, rejeitou-se a hipótese
nula Ho de independência entre as variáveis produtividade e um dado item
de inovação tecnológica, concluindo que existe uma associação signicati-
va entre as duas variáveis analisadas (Martins, 2005).
perfil do produtor rurAl, áreA plAntAdA, destino dA produção e
produtividAde de Amendoim nA região do oeste pAulistA
Segundo os dados da pesquisa, 35% dos produtores pesquisados po-
dem ser caracterizados como agricultores familiares, de acordo com a Lei
Federal n.º 11.326, de 24 de julho de 2006 – que estabelece as diretri-
zes para a Agricultura Familiar e Empreendimentos Familiares Rurais no
Brasil (Antunes, 2011; Brasil, 2006).
As vendas da produção de 83% dos produtores rurais são exclusi-
vamente ao mercado nacional. Do restante (17%), 7% são agricultores
familiares, com cultivo de 242 a 605 hectares, que possuem certicação de
qualidade da Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Amendoim
e Balas (ABICAB) e fornecem o produto para os mercados nacional e in-
ternacional. Já os outros 10% destinam seus produtos exclusivamente para
o mercado internacional, sendo que 3% desses produtores têm uma pro-
dução de até 1.815 hectares e 7% em torno de 2.420 hectares. Ainda des-
ses 10%, cerca de 70% dos produtores possuem certicação de qualidade.
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
218
Quanto ao destino das exportações, parte relevante do amendoim
produzido pelos produtores pesquisados vai para os seguintes mercados:
Rússia, Argélia, Ucrânia, União Europeia (14 países), Dubai, Marrocos e
Colômbia.
Além disso, cerca de 56% dos produtores rurais apresentaram pro-
dutividade acima de 165,30 sacas por hectare (sc/ha) na safra de 2022/23,
ou seja, acima de 4.132,5 quilogramas por hectare (kg/ha). Cabe ressaltar
que, nessa mesma safra, a produtividade média de amendoim no estado
de São Paulo foi de 3.848,0 kg/ha, ou equivalentemente, 153,92 sc/ha
(CONAB, 2022b), o que evidencia a representatividade da região Oeste
Paulista no cenário da produção de amendoim desse estado.
relAção entre A infrAestruturA de inovAção tecnológicA e A
produtividAde de Amendoim
Quanto à infraestrutura de inovação tecnológica, a Figura 1 mostra a
estrutura existente em termos de máquinas e equipamentos utilizada pelos
produtores rurais na produção do amendoim.
Observa-se que todos os produtores pesquisados possuem colhedo-
ras (Figura 1.b), e que uma porcentagem signicativa de produtores possui
pulverizador automotriz (Figura 1.a), utiliza GPS (Figura 1.c) e faz corte de
secções no pulverizador (Figura 1.e). Já uma porcentagem menos signica-
tiva utiliza piloto automático (Figura 1.f) e correção de sinal GPS (Figura
1.g). Por outro lado, a grande maioria dos produtores não faz aplicações
de fertilizante em taxa variável (Figura 1.h) ou utiliza Drones (Figura 1.i)
para tais aplicações, nem utiliza sistema de telemetria (Figura 1.j) ou barra
de luzes (Figura 1.d).
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
219
Figura 1 – Máquinas e equipamentos utilizados pelos produtores rurais
versus produtividade (sc/ha)
Pulverizador automotriz
G = 1,4819; graus de liberdade = 3; valor-p = 0,6865
Colhedoras
GPS
G = 2,1610; graus de liberdade = 3; valor-p = 0,5397
Barra de luzes
G = 5,4409; graus de liberdade = 3; valor-p = 0,1422
Corte de secções no pulverizador
G = 2,1610; graus de liberdade = 3; valor-p = 0,5397
Piloto automático
G = 1,2396; graus de liberdade = 3; valor-p = 0,7435
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
220
Correção de sinal GPS
G = 2,6384; graus de liberdade = 3; valor-p = 0,4508
Fertilizante em taxa variável
G = 2,7751; graus de liberdade = 3; valor-p = 0,4276
Aplicações utilizando Drone
G = 1,3518; graus de liberdade = 3; valor-p = 0,7169
Sistema de telemetria
G = 7,2075; graus de liberdade = 3; valor-p = 0,0656
Fonte: Elaborada pelos autores a partir dos dados da pesquisa (2022). *Signicativo a 5%, indicando que as
variáveis estão associadas.
O Sistema de Posicionamento Global ou GPS é um equipamento
utilizado para navegação, comunicação, medição e delimitação de áreas,
proporcionando uma redução nos riscos de perdas. Quanto aos sistemas de
piloto automático em tratores, colheitadeiras e outras máquinas agrícolas,
esses funcionam por meio de uma antena instalada no teto das máquinas
que recebe os sinais de satélite vindos do GPS, permitindo que o veículo
seja guiado automaticamente, sem a interferência do operador (Pereira Silva
et al., 2019). Já os veículos aéreos não tripulados ou drones são instrumen-
tos que podem ser utilizados na análise de áreas, na vericação de ataques
de pragas ou doenças e na investigação de falhas no plantio. A telemetria,
por sua vez, é um sistema que coleta e compartilha dados sobre máquinas,
equipamentos e veículos remotamente, monitorando trajetos, consumo de
combustível e reabastecimento, dentre outras nalidades (Pereira Silva et al.,
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
221
2019). A barra de luz é um equipamento utilizado para orientar um veícu-
lo em faixas adjacentes, de forma a obter mais precisão e uniformidade na
distribuição de corretivos e fertilizantes no solo. Já a aplicação de fertilizante
em taxa variável é um recurso que permite a aplicação de taxas diferentes de
fertilizante em cada parte do solo, de acordo com as suas características e o
rendimento planejado (Armelin; Silva; Colucci, 2016).
A Figura 1 mostra ainda os valores-p dos testes G aplicados à ve-
ricação da independência entre cada um dos itens de máquinas e equi-
pamentos utilizados (ou não) pelos produtores rurais e a produtividade.
Observou-se que nenhum item está signicativamente associado à produ-
tividade, de acordo com os testes estatísticos. De fato, os dados mostram
que a estrutura relativa às máquinas e equipamentos da Agricultura 4.0 na
região Oeste Paulista ainda é incipiente entre os produtores pesquisados.
Nesse sentido, Silva, Oliveira e Loureiro Junior (2019) ressaltaram
que existe pouco investimento em pesquisas sobre o uso de tecnologias no
cultivo de amendoim, inclusive no que diz respeito ao processo de colheita
mecanizada, se comparado a outras culturas. Porém, existem tecnologias
que possuem potencial relevante para melhoria no processo de colheita
dessa cultura, destacando-se o uso do piloto automático, mapeamento da
produtividade, a telemetria e a visão computacional.
A Figura 2 mostra o segundo grupo de itens de adoção tecnológica
relacionado aos insumos, os quais podem ser empregados visando a melho-
ria do solo e o combate às principais pragas e doenças que afetam a produ-
ção de amendoim, sendo a “mancha preta” (que aparece associada a outras
doenças) e a praga da “lagarta-do-pescoço-vermelho” as mais comumente
observadas na região Oeste Paulista. Já com respeito às ervas daninhas, há
uma incidência maior da “anileira” e da “corda de viola” nessa região.
Verica-se que a grande maioria dos produtores pesquisados despen-
de cuidados com o solo, sendo que mais de 90% deles fazem análise anual
de solo (Figura 2.a) e investem na aplicação de macrobiológicos (Figura
2.b), que é um procedimento de manejo de pragas e doenças que utiliza
organismos vivos (inimigos naturais) para controlá-las. Já o MIP e o MID
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
222
têm uma adesão bem menos efetiva por parte dos produtores de amen-
doim dessa região (Figuras 2.c e 2.d).
Quanto aos valores-p dos testes G aplicados na vericação da in-
dependência entre cada um dos itens de insumos utilizados (ou não) pe-
los produtores rurais e a produtividade, as Figuras 2.c e 2.d apontam que
dois deles estão signicativamente associados à produtividade, sendo eles,
o MIP e MID. De acordo com os dados, cerca de 80% de produtores não
fazem MIP nem MID, mas estão concentrados nas duas faixas centrais de
produtividade (entre 123,98 sc/ha e 206,60 sc/ha). No entanto, os produ-
tores que realizam MIP e MID são os que estão na maior faixa de produti-
vidade, ou seja, acima de 206,60 sc/ha.
Figura 2 – Insumos utilizados pelos produtores rurais versus
produtividade (sc/ha)
Análise anual de solo
G = 1,1680; graus de liberdade = 3; valor-p = 0,7607
Aplicação de macrobiológicos
G = 7,2075; graus de liberdade = 3; valor-p = 0,0656
Manejo integrado de pragas (MIP)
G = 8,0537; graus de liberdade = 3; valor-p = 0,0449*
Manejo integrado de doenças (MID)
G = 8,6997; graus de liberdade = 3; valor-p = 0,0336*
Fonte: Elaborada pelos autores a partir dos dados da pesquisa (2022). *Signicativo a 5%, indicando que as
variáveis estão associadas.
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
223
O manejo integrado de pragas e de doenças é um procedimento de
controle que visa preservar os fatores de mortalidade natural, por meio do
uso integrado de técnicas de combate, selecionadas com base em parâme-
tros econômicos, ecológicos e sociológicos. Assim, ao combater, de forma
assertiva, pragas e doenças existentes na cultura, esse tipo de manejo leva
a uma redução do uso de defensivos agrícolas e, consequentemente, dos
custos de produção, colaborando para o equilíbrio do meio ambiente e
para o aumento da produtividade e da rentabilidade da cultura (Norlia et
al., 2018).
A Figura 3 traz informações referentes aos tipos de armazenagem
utilizados pelos produtores pesquisados após a colheita do amendoim. Tais
cuidados são fundamentais à manutenção do produto, que exige certas
especicidades quanto à secagem, acondicionamento, transporte e arma-
zenagem, visando evitar a contaminação por Aatoxina, metais pesados e
outros patógenos (Yang et al., 2020).
Notadamente, investimentos em tecnologia e equipamentos de seca-
gem e armazém com controle de umidade possibilitam ao produtor maior
controle dos procedimentos e menor risco de contaminação por contato
com o amendoim de outras procedências, além do posicionamento estraté-
gico com a redução de custos logísticos externos, aumento da eciência no
uxo logístico e menor risco de deterioração do produto (Batalha, 2007;
Norlia et al., 2018).
De acordo com a Figura 3, todos os produtores pesquisados utilizam
secador e armazém para a manutenção do amendoim, sendo que mais da
metade dos produtores rurais utiliza secador próprio (Figura 3.a) e quase
75% possuem armazém próprio (Figura 3.b). Além disso, os valores-p dos
testes G aplicados na vericação da independência entre cada um dos tipos
de armazenagem utilizados (ou não) pelos produtores rurais e a produ-
tividade mostram que ambos (tipo de secador e tipo de armazém) estão
signicativamente associados à produtividade.
Nesse sentido, observou-se que os produtores rurais que possuem se-
cadores e armazéns próprios estão majoritariamente concentrados na faixa
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
224
de produtividade entre 165,31 sc/ha e 206,60 sc/ha, que é uma das mais
elevadas. De fato, isso permite que os produtores tenham maior controle
da taxa de umidade e dos riscos relacionados principalmente ao índice de
Aatoxina, reetindo no aumento da produtividade.
Figura 3 – Tipo de armazenagem utilizado pelos produtores rurais versus
produtividade (sc/ha)
Secador
G = 8,6312; graus de liberdade = 3; valor-p = 0,0346*
Armazém
G = 8,6703; graus de liberdade = 3; valor-p = 0,0340*
Fonte: Elaborada pelos autores a partir dos dados da pesquisa (2022). *Signicativo a 5%, indicando que as
variáveis estão associadas.
A Figura 4 traz a estrutura de gestão da produção de amendoim
empregada pelos produtores pesquisados. Observa-se que tecnologias na
gestão da cultura vêm sendo utilizadas pelos produtores da região Oeste
Paulista, de algumas formas, visando auxiliar no planejamento e execução
do plantio, a m de melhorar a eciência, aumentar a produtividade e
garantir a rentabilidade.
De acordo com as Figuras 4.e e 4.a, todos os produtores pesquisados
têm a gestão do negócio realizada por prossional (contratam gestores e
técnicos prossionais) e possuem assistência agronômica oferecida pelas
cooperativas/revendas (contam com competência técnica na assistência,
orientação e cuidados nos procedimentos da produção agrícola). Além dis-
so, cerca de 25% deles contam também com agrônomos em suas próprias
equipes de colaboradores.
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
225
Por outro lado, observa-se que as tecnologias associadas a softwares
de gestão de negócios (Figura 4.c), operadores treinados (Figura 4.d) e cer-
ticação (Figura 4.f) foram as que apresentaram menores percentuais de
adesão. Os softwares de gestão de negócios têm como objetivo proporcio-
nar uma gestão tecnológica com controle e informações mais acuradas que
viabilizem a tomada de decisões com maior assertividade (Hermans et al.,
2019). Nesse sentido, é importante que o produtor rural conte com uma
equipe de operadores habilitados à utilização desses softwares e aplicativos
voltados para a gestão, de forma que essas tecnologias possam melhorar os
resultados da produção (Rodrigues et al., 2020). A certicação de qualida-
de do produto (Pró-Amendoim-ABICAB ou outras), por sua vez, possibi-
lita ao produtor ter um ganho de competitividade por diferenciação e posi-
cionamento estratégico (Associação Brasileira da Indústria de Chocolates,
Amendoim e Balas - ABICAB, 2022; Nico et al., 2016).
Já os aplicativos direcionados ao agronegócio são utilizados por mais
de 30% dos produtores rurais pesquisados (Figura 4.b). Esses recursos tec-
nológicos são empregados com o propósito de obter melhores resultados,
minimizando perdas, danos e/ou impactos (Silva et al., 2020).
O uso de softwares de gestão e aplicativos na agricultura do amen-
doim, quando aplicados de forma integrada e bem planejada, pode ofere-
cer diversos benefícios. Essas ferramentas ajudam os agricultores a otimizar
o processo de plantio, monitorar o crescimento das plantas, gerenciar a
aplicação de fertilizantes e pesticidas de forma mais eciente, além de auxi-
liarem no controle de pragas e doenças. Os softwares e aplicativos também
permitem o registro e a análise de dados sobre as condições climáticas, o
manejo do solo e outros fatores relevantes para o cultivo do amendoim.
Com base nessas informações, os agricultores podem tomar decisões mais
embasadas e precisas, o que pode levar a uma maior produtividade e renta-
bilidade, com o auxílio desses instrumentos de gestão (Lima et al., 2020).
Além disso, a utilização dessas tecnologias na agricultura do amen-
doim também contribui para a sustentabilidade e a preservação ambiental,
pois permite um uso mais racional dos recursos naturais e reduz o desper-
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
226
cio de insumos. No geral, elas podem impulsionar o setor agrícola, tornan-
do-o mais eciente, competitivo e sustentável (Almeida; Buainain, 2016).
Figura 4 – Instrumentos de gestão empregados pelos produtores rurais
versus produtividade (sc/ha)
Assistência agronômica
G = 8,0451; graus de liberdade = 3; valor-p = 0,0451*
Aplicativos voltados para o agronegócio
G = 7,4476; graus de liberdade = 3; valor-p = 0,0589
Softwares de gestão de negócios
G = 7,2075; graus de liberdade = 3; valor-p = 0,0656
Operadores treinados
G = 5,1485; graus de liberdade = 3; valor-p = 0,1612
Gestão do negócio realizada por prossional Certicado de qualidade
G = 3,6911; graus de liberdade = 3; valor-p = 0,2968
Fonte: Elaborada pelos autores a partir dos dados da pesquisa (2022). *Signicativo a 5%, indicando que as
variáveis estão associadas.
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
227
Quanto aos valores-p dos testes G aplicados na vericação da inde-
pendência entre cada um dos instrumentos de gestão utilizados (ou não)
pelos produtores rurais e a produtividade, tem-se que apenas a assistência
agronômica está signicativamente associada à produtividade. Nesse senti-
do, observou-se que quase 70% dos produtores pesquisados que utilizam
somente assistência agronômica da cooperativa/revenda tiveram produti-
vidade acima de 123,98 sc/ha, mostrando que esse tipo de assistência tem
sido ecaz à gestão da produção do amendoim na região estudada.
Sampaio (2016) aponta que um dos desaos da produção de
amendoim encontra-se na relação que essa cultura tem com a produção
de cana-de-açúcar, evidenciando a importância de se realizar estudos
que mostrem o desempenho e a viabilidade das tecnologias de produção
presentes nas regiões Alta Mogiana e Alta Paulista, e se essas tecnologias
estão realmente adaptadas às diferentes condições que demandam as áreas
de renovação da cana-de-açúcar. O autor enfatiza ainda, a necessidade do
melhoramento de máquinas, implementos e equipamentos voltados ao
plantio e colheita nos sistemas de produção de amendoim, corroborando
os resultados obtidos nesta pesquisa.
considerAções finAis
Os resultados da pesquisa destacam a infraestrutura tecnológica ba-
seada na Agricultura 4.0 para produção de amendoim dos produtores ru-
rais da região Oeste Paulista e a sua relação com a produtividade da cultura.
Quanto às tecnologias em máquinas e equipamentos, observou-se
que os produtores pesquisados têm direcionado seus investimentos na im-
plementação de colhedoras, pulverizadores automotriz, GPS e corte de
secções no pulverizador. No entanto, a adesão às demais tecnologias é bem
menos efetiva. Nesse sentido, os testes estatísticos não apontaram uma as-
sociação signicativa entre a utilização dessas tecnologias e um aumento
de produtividade.
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
228
No que diz respeito aos insumos, observou-se que a grande maioria
dos produtores rurais faz a análise anual de solo e a aplicação de macrobio-
lógicos. Já os manejos integrados de pragas e doenças são pouco realizados,
ainda que, estatisticamente, vericou-se uma relação signicativa dessas
tecnologias com a produtividade.
Para as tecnologias em termos de armazenagem, os testes estatísticos
mostraram que os produtores rurais que possuem seus próprios secadores
e armazéns tendem a ter um ganho signicativo de produtividade, já que
têm maior controle dos procedimentos e, consequentemente, sofrem me-
nores riscos de contaminação e deterioração do produto.
Quanto às tecnologias voltadas para a gestão, observou-se uma ade-
são maior dos produtores rurais à gestão prossionalizada, assistência agro-
nômica e aplicativos direcionados ao agronegócio. Nesse sentido, os testes
estatísticos apontaram uma associação signicativa entre a assistência agro-
nômica e a produtividade, evidenciando que os produtores que utilizam
esse tipo de assistência tendem a alcançar maior produtividade.
As evidências mostradas neste trabalho indicam a incipiência das
tecnologias da Agricultura 4.0 nas lavouras de amendoim do estado de
São Paulo, tendo em vista que, além de instrumentos ecazes de gestão de
negócio, armazenagem e insumos agrícolas, esse paradigma prevê a ampla
utilização de tecnologias digitais, incluindo sistemas de informação geo-
gráca, GPS, monitores de rendimento, amostragem de solo de precisão,
sensoriamento espectroscópico proximal e remoto, veículos aéreos não tri-
pulados, equipamentos auto direcionados e guiados e tecnologias de taxa
variável (Kovács; Husti, 2018).
A principal limitação deste trabalho se refere a amostra da pesquisa,
restrita aos produtores rurais da região Oeste Paulista. No entanto, consi-
derando a natureza exploratória da pesquisa, espera-se que este trabalho
possa contribuir com a literatura ao expor um cenário preliminar a respeito
da implementação de tecnologias da Agricultura 4.0 no cultivo do amen-
doim e seus reexos na produtividade agrícola.
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
229
AgrAdecimentos
Os autores agradecem a empresa Solovita, por intermediar o contato
com os produtores rurais pesquisados e, especialmente, os produtores ru-
rais que concordaram em participar desta pesquisa. Os autores agradecem
ainda a Coordenação para Aperfeiçoamento do Ensino Superior (Capes)
pelo auxílio à pesquisa (Código 001) e pela bolsa de mestrado (Capes-DS).
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233
cApítulo 10
A transformação digital das feiras
agropecuárias no Brasil: uma análise
sob a ótica de seus organizadores
Jéssica Dayane Nunes PESSÔA 1
Evellyng Munique Zago dos SANTOS 2
João Guilherme de Camargo Ferraz MACHADO 3
Cristiane Hengler Corrêa BERNARDO 4
Programa de Pós-Graduação em Agronegócio e Desenvolvimento (PGAD), Faculdade de Ciências e
Engenharia, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil,
e-mail: jessica.pessoa@unesp.br.
Programa de Pós-Graduação em Agronegócio e Desenvolvimento (PGAD), Faculdade de Ciências e
Engenharia, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil,
e-mail: evellyng.zago@unesp.br.
3 Departamento de Gestão, Desenvolvimento e Tecnologia, Faculdade de Ciências e Engenharia, Universidade
Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil, e-mail: jg.machado@unesp.br.
4 Departamento de Gestão, Desenvolvimento e Tecnologia, Faculdade de Ciências e Engenharia, Universidade
Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil, e-mail: cristiane.bernardo@
unesp.br.
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-534-6.p233-260
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
234
introdução
A pandemia de Covid-19 tem desaado todos os setores, que preci-
saram se reinventar para minimizar os danos causados pela doença. Desde
o registro do SARS-Cov-2/Covid-19 na China em dezembro de 2019, a
humanidade tem enfrentado uma grave crise sanitária global (Aquino et
al., 2020; Souza et al., 2020).
Com as atividades presenciais suspensas, um dos setores afetados
pela pandemia foi o de eventos agropecuários. Em março de 2020, o can-
celamento ou adiamento de 13 eventos agropecuários do país até o nal
de maio (entre exposições agropecuárias, workshops, cerimônias, fóruns e
ações de pré-eventos) impactou este mercado em R$ 10,8 bilhões, tendo
como base os valores movimentados em 2019 (Soares, 2020).
Mesmo com diculdades, algumas empresas e organizações imple-
mentaram ações visando superar tal situação. Com o auxílio e o emprego
de tecnologias, inovação e criatividade, o setor das feiras e eventos agro-
pecuários têm dado continuidade às atividades por meio do uso de plata-
formas digitais (Associação Brasileira de Marketing Rural e Agronegócio
(ABMRA), 2021).
Algumas feiras do agronegócio se reinventaram e adotaram ferra-
mentas tecnológicas da Internet para viabilizar seus eventos e gerar negó-
cios, contando com a vantagem do maior alcance de público, sem a barreira
da distância física (ABMRA, 2021). Assim, a necessidade de manutenção
das relações sociais e atividades econômicas ocasionaram maior emprego
das ferramentas de comunicação digitais durante o período pandêmico,
rompendo estereótipos da sociedade atual (Ricarte, 2020).
Para este capítulo, interessa, em particular, a Transformação Digital
(TD) desencadeada durante a pandemia da Covid-19 no ambiente rural,
em especial, das feiras agropecuárias. Reconhecendo que o processo de
TD, nesse caso, não foi iniciado e conduzido de forma estratégica, mas
sim como forma de reação e ajuste à situação ocasionada pela pandemia,
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
235
as empresas organizadoras e expositoras apoiaram-se nas tecnologias digi-
tais para transformar suas ofertas e gerenciar diversas mudanças e barreiras
estruturais e culturais.
Nesse contexto, este capítulo tem como objetivo vericar a adap-
tação emergencial das feiras agropecuárias para o ambiente virtual, por
meio da identicação das estratégias e desaos dos eventos agropecuários
em virtude do período pandêmico, e da vericação dos benefícios e das
desvantagens dessa adaptação emergencial.
A temática apresentada neste capítulo contribui para o conhecimen-
to cientíco na área do desenvolvimento sustentável, o que está em sinto-
nia com os objetivos do Programa de Pós-Graduação em Agronegócio e
Desenvolvimento (PGAD) da Unesp, Campus de Tupã. Nesse sentido con-
tribui para discussões no âmbito do oitavo Objetivo de Desenvolvimento
Sustentável (ODS), que tem como meta “promover o crescimento econô-
mico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo e tra-
balho decente para todas e todos” (Nações Unidas Brasil, 2021). Ainda de
modo mais especíco, adentra no subitem 8.2 do ODS, que visa “atingir
níveis mais elevados de produtividade das economias por meio da diver-
sicação, modernização tecnológica e inovação, inclusive por meio de um
foco em setores de alto valor agregado e dos setores intensivos em mão de
obra” (Nações Unidas Brasil, 2021).
feirAs e eventos Agropecuários
As feiras agrícolas são eventos nos quais as informações sobre técnicas,
maquinários e outras inovações são apresentados ao público. Conguram-
se como espaços de exposição e para apresentação de informações relacio-
nadas às atividades agrícolas, de modo a suprir as necessidades informacio-
nais de produtores rurais, além de movimentar os negócios das empresas
expositoras (Savran et al., 2018).
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
236
Consideradas a vitrine do agronegócio no Brasil, as feiras agropecu-
árias estão presentes nos calendários de eventos dos estados e municípios, e
são relevantes por abrangerem informações relacionadas aos mais diversos
agentes da cadeia agropecuária. Zanella (2006) descreve como reuniões
entre pessoas ou entidades, realizadas em datas determinadas e que têm
por objetivo propiciar um ambiente para negócios, atividades sociais e
cientícas.
As feiras agropecuárias ocorrem por todo o Brasil e movimentam
bilhões de reais com a venda de máquinas, implementos agrícolas, insumos
e animais. De acordo com Soares (2020), o número de eventos na área
que entre os anos de 1990 e 2000 se aproximou de 500, atualmente só
permaneceram no mercado os mais estruturados e que hoje são referências
nacionais (cerca de 300 feiras).
Tais eventos compõem um importante canal para a pesquisa cien-
tíca captar as demandas dos produtores rurais e colaborar na resolução
dos problemas do campo. Realizadas a nível municipal ou regional, as fei-
ras agrícolas são organizadas por associações, cooperativas, instituições do
setor, empresas e órgãos públicos. Caracterizam-se como um mostruário
de tecnologias e serviços voltados ao agronegócio (Brannstrom; Brandão,
2012; Vieira, 2017).
Além de apresentar seus lançamentos aos produtores rurais, as em-
presas expositoras utilizam o espaço das feiras como uma importante es-
tratégia de marketing, realizando atividades que conectam um grande vo-
lume de clientes com compradores potenciais; espaço para a promoção
de produtos; estreitamento do relacionamento com os produtores rurais
clientes; coleta de informações sobre os concorrentes; realização de pes-
quisa de mercado e oportunidade para melhoria da imagem corporativa
(Situma, 2012).
Rzemieniak (2017) e Souza (2018) descrevem que as feiras dis-
põem de espaços para exposição de conteúdo para levar aos produtores
novas estratégias para o campo. Cada evento agrícola possui uma estraté-
gia, que varia entre a concretização de negócios; divulgação e implantação
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
237
das mais recentes tecnologias do mercado; exposição e venda de animais
(Brannstrom; Brandão, 2012), acompanhada, muitas vezes, da divulgação
cientíca e da assistência técnica e extensão rural.
De acordo Melo (2020) as 17 principais feiras do Brasil faturaram
juntas R$16,9 bilhões no ano de 2019. O Quadro 1 apresenta uma lista de
13 desses eventos cancelados e/ou adiados desde o início da quarentena, e
o montante nanceiro movimentado de cada uma em 2019.
Feiras como Expodireto Cotrijal, Coopercitrus Expo, Agrishow
Experience, Expointer Digital e Agrotins são uma amostra de eventos do
agronegócio brasileiro que adaptaram suas programações ao ambiente vir-
tual no ano de 2020. Alguns organizadores relatam que já existia a intenção
de apresentar conteúdos digitais durante seus eventos e que a pandemia
só acelerou esse processo. Foram adaptadas às plataformas virtuais rodas
de debates, leilões, estandes de empresas, mostras de equipamentos e até
mesmo feiras de produtos da agricultura familiar para o formato drive-thru
(Canal Rural, 2021a; Canal Rural, 2021b; Notícias Agrícolas, 2021).
Quadro 1 – Exposições agropecuárias adiadas ou canceladas entre março
e maio de 2020 e valores movimentados nas edições presenciais em 2019
Evento Local de realização Movimentação nanceira
(em R$)
TecnoShow Comigo Rio Verde – Goiás (GO) 3,4 bilhões
Agrishow Ribeirão Preto – São Paulo
(SP) 2,9 bilhões
AgroBrasília Brasília – Distrito Federal
(DF) 1,2 bilhão
Norte Show Sinop (MT) 1 bilhão
Rondônia Rural Show Ji-Paraná (RO) 703,5 milhões
ExpoLondrina Londrina (PR) 615,6 milhões
Femec Uberlândia (MG) 420 milhões
ExpoZebu Uberaba (MG) 220 milhões
Parecis SuperAgro Campo Novo do Parecis
(MT) 150 milhões
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
238
Evento Local de realização Movimentação nanceira
(em R$)
ExpoPec Porangatu (GO) 72 milhões
ExpoAgro Afubra Rincão Del Rey (RS) 70,6 milhões
ExpoGrande Campo Grande (MS) 26,5 milhões
ExpoJardimMS Jardim (MS) Sem dados
Fonte: Adaptado de Soares (2020).
Em 2021, outros eventos anunciaram um novo cancelamento ou
adiamento da próxima edição para 2022, como a Tecnoshow Comigo,
em Rio Verde-GO, e a Norte Show, em Sinop-MT. Outros eventos per-
maneceram com sua programação apenas no formato digital, em virtude
da inviabilidade do formato híbrido, como a feira paranaense Show Rural
Coopavel, em Cascavel (Toledo, 2021).
Nesse cenário, são três os formatos possíveis de eventos segundo
Martin e Lisboa, 2020 e Rêgo, Barros e Lanzarini (2021): feira virtual
(on-line), totalmente baseado na web, com as pessoas interagindo isolada-
mente em todas as pontas da conexão, eliminando aglomerações e desloca-
mentos, uma prioridade durante o período de pandemia e, por outro lado,
limitando atividades e tecnologias disponíveis; formato híbrido, que utiliza
tecnologias digitais (como o streaming e a Internet) para complementar a
experiência dos participantes, que podem estar presentes no local do even-
to ou conectados remotamente; formato presencial, que ocorre com todos
os participantes presentes no mesmo local, e que, considerando os tempos
de pandemia, depende de um novo comportamento social e protocolos de
segurança sanitária.
Esta nova realidade de eventos digitais, além de demandar novas ha-
bilidades e conhecimentos dos prossionais da organização, apontam tam-
bém para novas necessidades dos participantes. Remotamente, os eventos
são diferentes quando comparados às necessidades do formato presencial,
já que exigem adequações na dinâmica, no conteúdo e na escolha das pla-
taformas e ferramentas, entre outras ações e fornecedores (Eventos, 2020).
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
239
Enquanto os eventos digitais despontam como uma alternativa se-
gura, no que refere às restrições sanitárias durante o período da pandemia,
Rêgo, Barros e Lanzarini (2021) ressaltam que eles também modicam a
cultura e o comportamento de consumidores e empresários do setor. A
onda virtual’ que avançou no cenário pandêmico trouxe para muitos or-
ganizadores de eventos uma nova proposta, embora já fossem conhecidas
no meio digital, e atingiram também o setor do agronegócio, tornando-se
uma extensão das atividades presenciais.
Contudo, ainda que os eventos digitais estejam sendo considera-
dos uma alternativa temporária, para Rêgo, Barros e Lanzarini (2021) a
infraestrutura referente ao acesso dos participantes à tecnologia é limi-
tante, alertando para a possibilidade de os resultados nanceiros serem
signicativamente menores, principalmente quando se trata de feiras e
eventos agropecuários.
A trAnsformAção digitAl nA AdAptAção dos eventos Agropecuários
De acordo com Vial (2019, p. 118), a Transformação Digital (TD) é
um processo que visa melhorar uma entidade, desencadeando mudanças
signicativas em suas propriedades por meio de combinações de tecno-
logias de informação, computação, comunicação e conectividade”, o que
signica que ultrapassa os limites organizacionais e o local de trabalho,
ocorrendo e afetando diferentes esferas da vida das pessoas.
A sobrevivência em ambientes cada vez mais competitivos leva as
empresas a buscarem por redução de desperdícios, limitarem o consumo
de recursos e produzirem de forma mais eciente, agregando novas tecno-
logias de desenvolvimento às estratégias de negócios tradicionais (Caliskan;
Özkan Özen; Ozturkoglu, 2020).
Dentre as tecnologias disponíveis, a Realidade Aumentada (AR),
Inteligência Articial (AI), Internet das Coisas (IoT), computação em nu-
vem, análise de dados e segurança cibernética são ferramentas digitais que
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
240
inuenciam profundamente os processos de negócios, podendo ser apli-
cadas de diferentes formas como estratégias de marketing na busca pela
diferenciação da oferta, entregando uma maior experiência ao consumidor.
Pandey (2021) indicou a necessidade de adoção das tecnologias digi-
tais para gerenciar os efeitos da pandemia de maneira mais eciente, uma
vez que cada vez mais as pessoas estão conectadas em função dos bloqueios
impostos pelos governos dos diferentes países. Portanto, o uso do marke-
ting digital vem sendo imprescindível para alcançar os consumidores, res-
saltando a importância das ferramentas de comunicação de marketing di-
gital nas interações entre empresas e clientes.
O marketing digital é denido como ferramenta capaz de promo-
ver produtos ou serviços que alcançam os consumidores por meio das
plataformas digitais, possibilitando retê-los em relacionamentos mais ín-
timos e duradouros. Nesse sentido, o relacionamento digital, que antes
era uma opção, passou a ser indispensável durante a pandemia, forçando
as organizações a se adequarem às Tecnologias Digitais de Informação e
Comunicação (TDIC) para viabilizar a oferta de produtos e serviços aos
seus consumidores (Cani et al., 2020).
As TDIC estão cada vez mais inseridas na sociedade, seja nas em-
presas, escolas ou residências, proporcionando facilidades para a relação
homem-informação no dia a dia. Segundo Melović et al. (2020), a TD
constitui um processo evolutivo, modicando a vida das pessoas e as for-
mas como as organizações fazem negócios, disponibilizando soluções tec-
nológicas baseadas em serviços e tecnologias de informação.
A empregabilidade das TDIC beneciou, além das organizações urba-
nas, os negócios rurais que usufruem de tecnologias para impulsionar suas
atividades e compreender sobre o setor agrícola e seu contexto. À comunica-
ção atribui-se o avanço das TDIC, que têm levado ao produtor informações
desenvolvidas fora do âmbito rural, agregando competitividade ao agronegó-
cio em todos os elos da cadeia produtiva (Cardoso; Prado, 2008).
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
241
A digitalização da agricultura tem encontrado solo fértil no Brasil,
com 84% dos agricultores do país fazendo uso de, pelo menos, uma tec-
nologia digital no decorrer de seu processo produtivo (Bolfe et al., 2020).
Outros dados do setor também repercutem um cenário positivo nessa di-
reção, como aponta a última pesquisa nacional realizada pela Associação
Brasileira de Marketing Rural e Agronegócio (ABMRA), em 2017, sobre
os hábitos de consumo do produtor rural, ocasião em que se vericou que
alguns dos produtores rurais entrevistados utilizam os recursos da Internet
para realizarem atividades de compra, principalmente, de sementes (20%),
defensivos agrícolas (20%), fertilizantes (17%) e equipamentos agrícolas
(12%). Tal cenário demonstra a aproximação do produtor às tecnologias
de comunicação disponíveis, apesar do acesso à Internet ainda não ser ma-
joritário, já que 58% dos entrevistados ainda não dispunham da tecnologia
em suas propriedades (ABMRA, 2017).
A adaptação da indústria de eventos, segundo Campillo-Alhama e
Herrero-Ruiz (2015) depende das ferramentas digitais de comunicação
para estabelecer laços mais estreitos de interação, criando experiências de
proximidade e aumentando a sintonia da relação empresa-cliente. Essa co-
nexão mais direta também exige preocupação com os valores e a imagem da
marca que estão sendo propagados aos clientes, de modo que estejam co-
erentes com a identidade e a intenção que as empresas desejam transmitir.
Ao desenvolverem suas ferramentas de marketing, as empresas im-
pulsionam seus negócios e sobrevivem no mercado, transitando do marke-
ting oine para o marketing on-line por meio da digitalização das ferra-
mentas utilizadas, aproveitando o progresso da economia digital e a adoção
em massa dos smartphones, que inuenciaram profundamente o compor-
tamento e o estilo de vida dos consumidores (Petrů; kramoliš; stuchlík,
2020). Incluem-se, neste caso, os portais corporativos e as plataformas de
negócios na propagação de informações.
As estratégias de marketing das empresas contemporâneas estão
frequentemente associadas ao relacionamento digital com os clientes por
ferramentas de comunicação para a publicidade da marca e a promoção
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
242
de vendas a partir de sites, redes sociais e conferências on-line. O contato
cibernético com os consumidores ocorre desde a fase de pré-venda até o
acompanhamento do pós-venda e geração de potenciais novos negócios
(Labanauskaitė; Fiore; Stašys, 2020).
Para Kumari et al. (2021), os principais desaos na sua adoção das
tecnologias digitais no meio rural incluem a falta de infraestrutura tecno-
lógica, habilidades digitais e a inacessibilidade da Internet. No Brasil não é
diferente e, para avançar nessa TD, os desaos relacionados à infraestrutu-
ra e à conectividade precisam ser superados, com agravante que de acordo
com o Censo Agropecuário de 2017, divulgados em 2019 pelo Instituto
Brasileiro de Geograa e Estatística (IBGE), identicou que 71,8% das
propriedades rurais brasileiras não têm acesso à Internet.
A próxima seção apresenta os estudos de caso, realizados em dois
eventos, que foram denominados de Evento A e Evento B.
estudos de cAso - evento A
A primeira edição do Evento A aconteceu em formato digital duran-
te o segundo semestre de 2020, apresentando três dias de programações
com fóruns de discussão, debates com especialistas e políticos, leilões de
gado e estandes de empresas. A realização cou a cargo de uma instituição
do norte do Brasil e, por isso, a temática do encontro virtual foi voltada
ao agronegócio daquela região. O Evento A foi impulsionado pelo mo-
mento de difusão das lives e eventos digitais decorrentes da pandemia da
Covid-19 e da impossibilidade de ocorrência de outra feira agropecuária
tradicional da cidade de forma presencial. As principais informações cole-
tadas na entrevista encontram-se no Quadro 2.
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
243
Quadro 2 – Informações do evento A
Elementos Evento A
Tempo de organização da feira virtual 3 meses
Número de inscritos 3,6 mil pessoas
Satisfação do organizador com o evento
virtual Positivo
Programação Entrevistas, leilões e debates com especialistas
de toda a cadeia do agronegócio diante da
demanda dos produtores
Público-alvo Produtores rurais e demais interessados
Interação entre os participantes Não houve ferramenta disponibilizada pela
organização
Expositores Cerca de 300 empresas
Instituições bancárias Participação e oferta de linhas de crédito
especiais
Diculdades durante a realização dos eventos Conexão insuciente ou inexistente, manuseio
da plataforma pelo celular e a resolução da
plataforma pelo celular.
Feedbacks dos participantes 90% positivos
Divulgação cientíca e participação de
instituições de pesquisa
Participação da Empresa de Assistência
Técnica e Extensão Rural (Emater) e Empresa
Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)
Volume de negócios R$ 41 milhões – entre contratos fechados e
projetados nos próximos 12 meses
Benefícios dos eventos virtuais Adaptação e investimento dos eventos
agropecuários ao ambiente virtual
Expectativas sobre as próximas feiras Continuidade e início de uma transformação
digital
Fonte: Elaborado pelos autores (2024).
Embora seus organizadores tenham considerado o intervalo de tempo
curto entre o início do desenvolvimento da estrutura do site e a realização do
evento, o número de participantes inscritos, empresas expositoras e o volume
de negócios foi considerado bastante satisfatório pelos organizadores.
Apesar da feira virtual ter sido planejada inicialmente com foco nos
pequenos produtores rurais, o evento teve participação de agropecuaristas
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
244
de todos os portes e áreas de atuação, além de outros interessados, como
pesquisadores, políticos, empresas do ramo e imprensa.
Destaca-se que não houve interação do público com os palestrantes,
ou mesmo entre o público, pois não havia um espaço destinado à troca de
informação em tempo real. Alguns participantes apontaram essa diculda-
de e, por isso, os organizadores pretendem disponibilizar um chat na pró-
xima edição do evento, em 2021, conforme o relato dos organizadores: “As
pessoas realmente estão querendo isso, estão querendo se comunicar, né?
É uma oportunidade de colocar para o ano que vem, sim” (Organizador
A, 2020).
Os organizadores indicaram alguns desaos e experiências observa-
das em relação ao formato digital, como a infraestrutura de telecomuni-
cação (disponibilidade e estabilidade da conexão de Internet) no estado,
considerada de baixa qualidade, constituindo um dos fatores impeditivos à
participação de vários produtores rurais e demais interessados; a funciona-
lidade touch screen no manuseio da plataforma e a resolução da mesma para
quem acessou o evento por meio do smartphone, uma vez que por se tratar
de ambiente em 3D, a qualidade e facilidade de acesso foram maiores pelo
computador. Entretanto, os organizadores armaram que os participantes
tiveram menos diculdades do que se esperava.
As negociações realizadas durante o Evento A totalizaram R$41
milhões, considerando a conversão de transações em dólares e a projeção
dos expositores para os próximos doze meses em fechamento de contra-
tos decorrentes da feira virtual. Os organizadores enfatizaram que, além
das vendas efetuadas ou previstas, os expositores promoveram suas marcas
(Organizador A, 2020).
A experiência na organização da feira on-line, segundo os organiza-
dores do Evento A, evidenciou um benefício importante, por se tratar de
uma ‘virada de chave’ para a digitalização do agronegócio, como ressaltado
em um trecho da entrevista: “o início de uma transformação digital (…)
quem não tiver esse pensamento infelizmente não vai continuar no merca-
do de trabalho daqui a um certo tempo” (Organizador A, 2020).
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
245
Na ocasião da entrevista, os organizadores consideraram não saber
ainda, se os eventos futuros passariam a ser realizados somente em modo
virtual ou em formato híbrido, dada a possibilidade de alcançar um públi-
co-alvo maior, mas houve a compreensão de que a pandemia contribuiu
para oportunizar eventos agropecuários virtuais com boa aceitação pelos
produtores rurais. “O virtual veio pra car, não quer dizer que não vai ter
a presencial, porque mesmo que você consiga fazer muita coisa à distância,
as pessoas querem contato, querem esse convívio” (Organizador A, 2020).
estudos de cAso - evento b
O Evento B é uma feira internacional de tecnologia agrícola realiza-
da presencialmente todos os anos, desde 1994, em um estado do sudeste
brasileiro. É considerada não somente a maior feira de agronegócio do
Brasil, mas também a maior da América Latina em seu segmento e, atual-
mente, é organizada por um comitê de prossionais.
A edição on-line do Evento B ocorreu no segundo semestre de 2020
e foi a primeira versão digital desta grande e tradicional feira do agrone-
gócio brasileiro. A organização relata que foi uma forma emergencial de
manter a feira ativa, evidenciando seu nome, além de minimizar os prejuí-
zos que o cancelamento da edição presencial trouxe para os organizadores.
Dessa forma, o Evento B contou com rodas de debates com espe-
cialistas, estandes de empresas e uma live show de encerramento, ocasião
em que o público pôde acompanhar mais de 20 horas de conteúdo ao vivo
e gravado. As principais informações coletadas na entrevista referente ao
Evento B, encontram-se no Quadro 3.
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
246
Quadro 3 – Informações do Evento B
Elementos Evento B
Tempo de organização da feira virtual 4 meses
Número de inscritos 6 mil
Satisfação do organizador com o evento
virtual Positivo
Programação Webinars, entrevistas com especialistas das
principais áreas do agronegócio brasileiro e
show de encerramento.
Público-alvo Produtores rurais e demais prossionais da
área
Interação entre os participantes Baixa interação no chat e networking
Expositores 569 empresas participantes (71% do volume
presencial)
Instituições bancárias Não houve participação
Diculdades durante a realização dos eventos Não houve relatos sobre diculdades no acesso
e manuseio do site.
Feedbacks dos participantes 90% positivos
Divulgação cientíca e participação de
instituições de pesquisa Não houve
Volume de negócios Não houve negócios
Benefícios dos eventos virtuais Adaptação e investimento dos eventos
agropecuários ao ambiente virtual
Expectativas sobre as próximas feiras Maior investimento em tecnologias para
eventos virtuais
Fonte: Elaborado pelos autores (2024).
O tempo de organização da experiência virtual foi de quatro me-
ses, contando desde o planejamento e a realização, sendo o número de
participantes avaliado positivamente pela organização, que cou satis-
feita com os resultados, por ter cumprido com todos os seus propósitos,
acreditando ter promovido uma experiência inédita e inovadora para o
agronegócio brasileiro.
A edição virtual apresentou ao público um viés diferente das feiras
presenciais, uma vez que o propósito de sua realização é a venda e comer-
cialização dos produtos e serviços expostos no evento. Entretanto, durante
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
247
a versão virtual não houve fechamento de negócios, mas os organizadores
destacaram que esse não era o objetivo da feira.
Ela foi uma forma que nós tivemos de manter a feira viva, em ação,
o nome da feira sendo mantido em evidência. Para não dizer que a
feira acabou, porque não acabou, nós fomos forçados a não realizar
esse evento, enm, nenhum grande evento aconteceu esse ano,
então o que nós organizamos foi um ciclo de palestras, entrevistas
e webinars de alguns temas, foi uma feira totalmente temática, mas
sem negócio (Organizador B, 2020).
A prioridade do Evento B foi a interação entre o público participan-
te (de um lado produtores rurais, pesquisadores e demais interessados, e de
outro, palestrantes, empresas e prossionais dos mais variados setores das
cadeias produtivas do agronegócio). A interação ocorreu por meio de um
chat na plataforma e em um espaço disponibilizado ao público para realizar
conexões com empresas e networking pessoal e prossional.
Entre os expositores participantes da edição on-line do Evento B,
foi vericada a presença de um grande e variado número de empresas li-
gadas direta e indiretamente ao agronegócio, desde fornecedores de insu-
mos, produtores rurais, indústria de processamento e setores de apoio a
essas atividades. Em termos comparativos, enquanto o evento presencial
reúne tradicionalmente cerca de 800 marcas expositoras, a versão virtual
contabilizou 569 empresas participantes, pois muitas não acreditaram na
realização do evento no formato digital.
Uma importante ausência vericada foram as instituições nanceiras,
tal como ocorre na versão presencial, entretanto a organização relata que:
no virtual não houve tempo de fazer um acerto com os bancos, a gente não
conseguiu fazer isso (…) muito provavelmente no próximo ano nós iremos
ter alguma coisa mais prática nesse assunto” (Organizador B, 2020).
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
248
A organização do Evento B destacou diculdades e pontos positivos
para a realização da feira on-line, ressaltando que não a realizar implicaria
prejuízos contratuais:
O desao maior foi não realizar a feira presencial! E se você quer
saber não realizar feira, dá mais trabalho do que realizar a feira.
Porque custou muito dinheiro, nós estávamos com a feira pronta
(...) então é assim, a feira estava praticamente montada, as empresas
se mobilizando para fazerem os seus estandes, quando fomos
impedidos pela pandemia e os decretos. E ainda que não estivesse
os decretos em vigor seria muito imprudente realizar uma feira
(Organizador B, 2020).
Não foram relatadas diculdades no acesso e navegação do website
construído para o evento e o entendimento dos organizadores é de que o
agricultor brasileiro é bastante virtualizado, ou seja, cada vez mais faz uso
dos canais digitais para buscar informação e realizar compras, processo que
foi acelerado em 2020 em função do período de quarentena e de isolamen-
to social decorrentes da pandemia da Covid-19.
É uma agricultura jovem, podemos falar que tem muita gente
nova no mercado. O pessoal que estava assistindo e estava a m de
comprar e precisa de informação, o primeiro lugar que ele visita é
no site da empresa. Se você tem um evento ele busca informações
através deste evento. Mas o primeiro local que ele tem ido é no
site das empresa. E neste período de pandemia isso cresceu muito,
principalmente da parte das empresas em relação às ferramentas de
comunicação (Organizador B, 2020).
Um aspecto negativo do evento refere-se às interações entre os pro-
dutores rurais e os institutos de pesquisa, frequentemente presentes nas
edições presenciais da feira, e responsável pela divulgação das mais recentes
novidades de pesquisa e conhecimento cientíco. Dessa forma, o evento
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
249
virtual perdeu essa característica, apresentando-se de maneira mais comer-
cial ao público participante.
Na feira presencial todos os institutos de pesquisa de São Paulo estão
lá na feira, nós temos o Instituto da Pesca, Instituto Agronômico,
Instituto de Zootecnia e Instituto Biológico, todos estão lá presentes
(…) contamos também com a Embrapa, apresentando as últimas
novidades de pesquisa e conhecimento. Isso presencialmente é uma
coisa, e virtualmente é muito difícil de você montar isso em uma
plataforma (Organizador B, 2020).
A avaliação do Evento B é que desde a versão digital não será possível
realizar um evento somente de forma presencial, sendo necessário agregar
novos recursos para conquistar o público-alvo. Por isso, para os próximos
anos, a organização tem expectativa de que a feira ocorra em formato hí-
brido, com acesso de visitantes e público virtual.
Eu quero que você de onde estiver entre no estande, percorra a
máquina que você quiser, seja de onde você estiver. Parte do
público se acostumou com essa nova realidade virtual, e o público
irá procurar atividades que ofereçam seus produtos e serviços de
forma híbrida (...) as pessoas querem ver o que está acontecendo
no evento, como um sistema de notícias de tudo que acontece
dentro da feira, porque você chama o público para olhar o que
acontece na feira e consequentemente acontecem os negócios. Isso
nos despertou, precisamos investir cada vez mais em ferramentas
tecnológicas (Organizador B, 2020).
O entendimento dos organizadores é que os investimentos em fer-
ramentas melhoram a apresentação do evento, reetindo em retorno e ga-
nhos, uma vez que a tecnologia digital contribui para a virtualização das
feiras agrícolas.
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
250
discussão
Os eventos online A e B não alcançaram em sua totalidade os con-
tatos de natureza comercial, cultural, social e cientíca, ocorridos em anos
anteriores nos eventos presenciais. Essas características são importantes em
uma feira agrícola (Zanella, 2006). Ainda que o cenário virtual proposto e
as ferramentas utilizadas mostraram-se adequadas para o momento, dada
a imprevisibilidade dos acontecimentos – considerando que eventos desse
porte começam a ser estruturados assim que são encerradas as edições ante-
riores –, Campillo-Alhama e Herrero-Ruiz (2015) destacam a importância
da adaptação da indústria de eventos para intensicar a relação entre o
evento e seu público.
O ano de 2020 foi imprescindível para acelerar a TD das feiras e
eventos agropecuários, que ensaiavam uma tímida evolução em direção à
implementação de novas estratégias comunicacionais. Embora os ganhos
com esse processo devam tornar os eventos mais atraentes aos produtores
rurais, além de agregar ganhos para a organização e condução dos eventos,
é evidente que o avanço foi realizado sob a pressão por resultados que mi-
nimizassem as perdas com o cancelamento dessas feiras. Assim, entende-se
que o aprimoramento e planejamento de edições futuras tragam maiores
benefícios para todos os envolvidos na realização dos mesmos.
Durante a participação dos pesquisadores para a observação da re-
alização e condução das feiras virtuais, vericou-se que o Evento A inves-
tiu em uma experiência mais próxima à presencial, com uma plataforma
em ambiente em três dimensões (3D), mostra dos produtos e animais em
leilões virtuais, equivalentes ao que aconteceria presencialmente na feira
agropecuária. Enquanto isso, o Evento B, apresentou-se ao público como
um portal corporativo tradicional, destacando uma programação de deba-
tes e palestras, nalizado por uma live show com atração musical. Dessa
forma, por apresentarem-se de forma diferente, algumas comparações não
podem ser feitas entre os eventos, mas sim destacadas as experiências obti-
das com a transformação digital proposta.
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
251
O Quadro 4 colabora com a análise da problemática proposta, re-
sumindo alguns aspectos observados nos dois eventos, complementados
pelas entrevistas realizadas com seus respectivos organizadores.
Quadro 4 – Aspectos observações nos Eventos A e B
Observação Evento A Evento B
Programação incluindo palestras ou workshops Sim Sim
Interação dos palestrantes com o público o o
Interação entre os participantes o Sim
Disponibilidade de chats Não Sim
Linguagem acessível para todos os públicos Sim Sim
Comunicação técnica Sim Sim
Divulgação de serviços e produtos Sim Sim
Tecnologia de realidade virtual (3D) Sim o
Vendas e negócios Sim o
Área para networking o Sim
Temáticas ligadas ao setor rural Sim Sim
A organização buscou feedback dos participantes Sim Sim
Fonte: Elaborado pelos autores (2024).
Embora existam tecnologias de comunicação simultânea disponíveis
no mercado, no Evento A não houve vericação de interação entre os par-
ticipantes, pois não havia um espaço especíco (como um chat) para que
o público pudesse se comunicar entre si e com os expositores. Com um
propósito diferente, o evento B possibilitou a interação social entre os par-
ticipantes com áreas oportunizando o networking e chats. Apesar desse es-
paço, foi observado que o público participante não obteve devolutivas das
questões levantadas no chat, o que de maneira presencial, provavelmente,
não ocorreria.
Os participantes dos eventos on-line tiveram acesso às inovações e
informações técnicas do setor agropecuário, no entanto, não puderam par-
tilhar suas vivências com seus pares, como Zhong e Luo (2018) conside-
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
252
ram que tradicionalmente acontece. Neste caso, a absorção de informações
que transitam informalmente no contato pessoal e são imprescindíveis na
construção do conhecimento, segundo Nonaka e Takeuchi (1997), foi pre-
judicada nestas edições virtuais.
Também foi observado que as interações entre o público e a organi-
zação dos eventos foram simplicadas, esquecendo-se que a atenção dada
ao público participante é parte da experiência de consumo, principalmente
em uma versão digital de evento, na qual tudo é novidade. Soma-se a isso
o fato de que a facilidade em se conectar a um evento ou a outro inde-
pende de deslocamentos e hospedagem, economizando tempo e dinheiro
dos produtores rurais, deve criar um ambiente mais competitivo entre as
feiras agropecuárias, considerando uma competição pelos recursos dispo-
níveis do comprador. Por isso, o feedback é importante e de acordo com
Schermerhorn, Hunt e Osborn (1999), um fator imprescindível para a
promoção da comunicação efetiva.
Zanella (2006) e Soares (2020) reforçam que o objetivo dos eventos
é gerar relacionamento comercial, porém, o Evento B não realizou ne-
gócios, apesar de ser constatada a presença de estandes expositores par-
ticipando da sua programação. A relevância comercial dos eventos para
as instituições expositoras foi calculada em R$41 milhões no Evento A,
decorrentes das negociações realizadas on-line e previstas para os 12 meses
seguintes ao evento.
Ainda que não tenham sido fechados negócios no Evento B, as mar-
cas expositoras estavam presentes. Martin e Lisboa (2020) e Labanauskaitė;
Fiore; Stašys (2020) ressaltam a relevância da presença estratégica das em-
presas nos ambientes digitais, mantendo sua relação comercial onde seus
consumidores estão inseridos. É por isso que os organizadores do Evento B
consideraram que o objetivo da conferência foi alcançado, já que se preten-
dia manter a vivacidade da feira durante o período pandêmico.
A participação de empresas expositoras nos dois eventos foi diferen-
te, alcançando 300 empresas no evento A e 569 organizações no evento
B. Os números não alcançaram os resultados das versões presenciais, pois
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
253
algumas das empresas convidadas não participaram por não acreditarem
nos resultados positivos decorrentes da migração do evento presencial para
o virtual (Evento B), ou por já estarem com sua demanda anual de pedi-
dos completa para o ano de 2020 (Evento A). Esses posicionamentos são
contrários ao exposto por Labanauskaitė; Fiore; Stašys (2020) sobre a ne-
cessidade de o marketing organizacional transpor-se do ambiente o-line
para o on-line.
As feiras agropecuárias são eventos essenciais que contribuem para
o desenvolvimento dos negócios rurais, tornando-se importantes aliadas
na promoção do entendimento cientíco, facilitando a expansão de co-
nhecimentos e ideias aos agricultores e pecuaristas, como destaca Duarte
(2004). Entretanto, em um momento em que muita informação técnica e
gerencial foi disponibilizada pelos meios digitais, como as lives e webinars
de negócio, muitos gratuitos, na forma de geração de conteúdo digital, ob-
servou-se uma baixa participação de institutos de pesquisas e universidades
nestas versões virtuais das feiras agropecuárias. De um lado, o Evento A
contou com a participação de dois institutos de pesquisa em sua programa-
ção (Embrapa e EMATER), enquanto o Evento B não teve a participação
dessas instituições em sua versão virtual.
Após o encerramento das feiras virtuais, os organizadores dos
dois eventos coletaram o feedback dos participantes e expositores, ten-
do, de acordo com ambos, alcançado 90% das respostas positivas,
indicando a aprovação do evento e o desejo dos mesmos em participar
de próximas edições.
A pandemia Covid-19 acelerou a TD, forçando diferentes setores
da sociedade a dar um grande salto digital em suas práticas cotidianas,
incluindo os setores relacionados ao agronegócio, desde fechamento de
contratos até capacitações e treinamentos. Rapidamente, muitos negócios
passaram de uma abordagem tradicional para práticas digitalizadas e/ou
remotas, cabendo aos produtores rurais adequar-se às tecnologias disponí-
veis, gerenciando e dominando diferentes ferramentas digitais.
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
254
considerAções finAis
A reinvenção do mercado de eventos rurais em decorrência da pan-
demia da Covid-19 se deu de forma emergencial para amenizar os danos
econômicos provocados pelo cancelamento das edições presenciais dos
mesmos. Para isso, houve investimentos em ferramentas e plataformas di-
gitais, para que os Eventos A e B encontrassem novas oportunidades para
realização das feiras em formato virtual, garantindo ainda que parcialmen-
te os resultados positivos aos envolvidos, e que devem ser incorporados e
melhorados para suas próximas edições.
Entretanto, é importante ressaltar que, apesar dessa TD dos eventos
agropecuários seguirem uma tendência de outros tipos de negócio, há al-
guns entraves que devem ser pensados e solucionados ao longo do tempo:
a digitalização ao mesmo tempo que integra e conecta diferentes atores,
exclui aqueles que não possuem acesso às TDIC, seja por falta de aptidão
ao uso, pelas deciências técnicas e educacionais, ou ainda, pela ausência
de infraestrutura de telecomunicação adequada a uma grande parcela dos
produtores rurais.
Isso signica que a Internet e seus recursos são ferramentas essenciais
para a realização e participação nestes eventos, e enquanto os organiza-
dores utilizam os termos ‘virada de chave’ e ‘transformação digital’ para
denominar o atual momento de adaptação, o mesmo não ocorre com a
infraestrutura e a conectividade no campo. De um lado, a tecnologia posi-
ciona-se como a principal estratégia utilizada na articulação e execução dos
eventos agropecuários, enquanto de outro, os desaos esbarram nas muitas
propriedades rurais que ainda não dispõem de conexão com a Internet,
ausência de equipamentos tecnológicos e habilidades digitais, impondo
uma barreira comunicacional. Neste sentido, ajustes foram e ainda vêm
sendo necessários em todas as esferas, com empresas assumindo a liderança
do processo, que não é completo sem a participação dos produtores rurais.
Conclui-se, ao nal, que houve ganhos importantes com a edição
digital desses eventos, destacando a conveniência e o alcance ampliado.
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
255
Contudo, provavelmente, algumas particularidades dos eventos agrope-
cuários presenciais não possam ser completamente transferidas ao forma-
to digital, principalmente aquelas que promovem a troca de informação
tácita e geram conhecimento, como a interação pessoal mais íntima, o
contato físico ou até mesmo uma conversa e um café com um técnico.
Essa constatação aponta para um caminho de equilíbrio, possivelmente no
formato de eventos híbridos, sendo capazes de fornecer o melhor das duas
experiências, como uma tendência de uma nova era determinante para os
eventos do agronegócio brasileiro.
Nesse contexto, as reexões e discussões apresentadas neste capítulo,
no que se refere ao ODS 8, abarcam a perspectiva do desenvolvimento so-
cial, colaborando com subsídios que possam auxiliar pesquisas e ações em
direção ao cumprimento da Agenda 2030.
AgrAdecimentos
Os autores agradecem à Coordenadoria de Aperfeiçoamento de
Pessoal de Nível Superior (CAPES), pelo auxílio a esta pesquisa. CAPES/
DS Processo nº 88881.593696/2020-01.
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260
Construindo ciência em cooperação internacional acadêmico-cientíca
pArte iii
263
cApítulo 11
Para além do empenho do Programa
Nacional de Alimentação Escolar
(PNAE) nas escolas públicas do
município de Tupã (SP) durante a
pandemia de Covid-19: impactos
no cumprimento dos objetivos de
desenvolvimento sustentável
Stephen KUNIHIRO 1
Miguel Ângelo de MARCHI 2
Simone Lima Veronez BAUER 3
Mariana Vendrami Parra SANCHES 4
Camila Pires CREMASCO 5
Luís Roberto Almeida GABRIEL FILHO
Programa de Pós-Graduação em Agronegócio e Desenvolvimento (PGAD), Faculdade de Ciências e
Engenharia, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil,
e-mail: stephen.kunihiro@unesp.br.
2 Secretária de Saúde de Tupã SP, Tupã, São Paulo, Brasil, e-mail: secretariamedicina@fai.com.br.
3 Departamento de Atenção Básica em Tupã, Tupã, São Paulo, Brasil, e-mail: dir_atencaoasaude@tupa.
sp.gov.br.
Coordenadoria das Unidades de Estratégia de Saúde da Família da Secretaria Municipal de Saúde de Tupã/
SP, Tupã, São Paulo, Brasil, e-mail: marianavps@yahoo.com.br.
5 Departamento de Gestão, Desenvolvimento e Tecnologia, Faculdade de Ciências e Engenharia, Universidade
Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil, e-mail: camila.cremasco@
unesp.br.
6 Departamento de Gestão, Desenvolvimento e Tecnologia, Faculdade de Ciências e Engenharia, Universidade
Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil, e-mail: gabriel.lho@unesp.br.
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-534-6.p263-278
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
264
segurAnçA AlimentAr e nutricionAlumA visão muito Além do
combAte à fome e desnutrição
A temática da Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) abrange
vários segmentos da sociedade, muito além do combate à fome e desnu-
trição, que está entre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS
2), da Organização das Nações Unidas (ONU). As Doenças Crônicas Não
Transmissíveis (DCNT) constituem um grupo de doenças como diabetes,
hipertensão, doenças cardiovasculares, câncer, doenças respiratórias crô-
nicas, entre outras, podendo se relacionar ao debate do ODS 3, de Saúde
e Bem-estar. Tais doenças estão diretamente associadas a vários fatores de
risco, mas principalmente ao consumo de alimentos nocivos à saúde aos
longos períodos da vida. Isso inclui o consumo excessivo de alimentos ul-
traprocessados ricos em açúcar, gordura saturada e sódio, bem como a bai-
xa ingestão de frutas, legumes, bras e alimentos ricos em nutrientes (De
Moraes, 2013; Francischi et al., 2000).
A Desnutrição (ODS 2) se associa com as DCNT (ODS 3), que são
responsáveis por aproximadamente 71% de todas as mortes no mundo, ou
seja, pela morte de 41 milhões de pessoas a cada ano, que estes, 15 milhões
estão entre 30 a 70 anos, sendo que a metade destes, 7,2 milhões, são de
países com maior prevalência de Desigualdade Socioeconômica, portanto,
de pobreza no mundo (OMS, 2018; OPAS, 2020).
Sem a Redução da Desigualdade (ODS 10), não se combate uma das
principais causas de despesas em saúde globalmente, onde os custos asso-
ciados a essas doenças variam consideravelmente, inuenciados por fatores
como o tipo e estágio da doença, localização geográca, sistema de saúde do
país e acesso ao tratamento. O aumento das DCNT pode levar à pobreza de-
vido a diversos fatores, afetando desproporcionalmente as populações vulne-
ráveis. Isso ocorre devido à falta de acesso a informações de saúde, cuidados
médicos de qualidade e tratamentos adequados, o que resulta em maiores
despesas com assistência médica. Além disso, as DCNT não afetam apenas
o doente, mas também suas famílias, que muitas vezes precisam assumir o
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
265
papel de cuidadores, reduzindo sua capacidade de trabalhar e investir em
educação. Essa relação entre pobreza e DCNT cria um ciclo negativo, onde
as condições de vida precárias aumentam o risco de desenvolver DCNT, que,
por sua vez, agravam a situação econômica das pessoas e, consequentemen-
te, a pobreza, perpetuando a desigualdade social no mundo (Brasil, 2021;
Colon, 2018; Duarte; Shirassu; Moraes, 2023).
Para combater esse ciclo, é fundamental adotar uma abordagem abran-
gente que envolva políticas de saúde pública, acesso equitativo a cuidados de
saúde, educação sobre prevenção, medidas para reduzir as desigualdades so-
ciais e econômicas e promoção de ambientes saudáveis, o que contribui com
desenvolvimento socioeconômico sustentável de uma sociedade.
As questões de SAN e alimentação saudável são temas que envolvem
diversos fatores interligados e numa abordagem multi, trans e interdiscipli-
nar. Na multidisciplinaridade estão as mais diversas áreas como nutrição,
agricultura, economia, saúde pública, educação, sociologia, antropologia e
psicologia, que contribuem com diferentes perspectivas sobre o assunto. A
interdisciplinaridade busca uma maior compreensão dos fatores que afe-
tam a SAN e a alimentação saudável, considerando aspectos como acesso
aos alimentos, políticas públicas, economia, agronegócio, saúde, educação,
cultura e outros. Na transdisciplinaridade, identicam-se as conexões entre
esses fatores, como políticas agrícolas que inuenciam a disponibilidade
de alimentos saudáveis ou como a educação alimentar afeta as escolhas
alimentares (Banerjee; Van Der Heijden, 2023).
O município de Tupã, no estado de São Paulo (SP), foi uma das ci-
dades que adotou a prática de uma alimentação saudável, na qual envolve
educar para a promoção de hábitos e comportamentos para a escolha de
alimentos nutritivos e adequados às necessidades calóricas diárias, especial-
mente no ambiente escolar. É uma cidade na região da Alta Paulista com
cerca de 65.615 habitantes e 11.921 alunos matriculados na rede pública,
tendo a Secretaria Municipal de Educação como uma das principais res-
ponsáveis pelas políticas do Programa Nacional de Alimentação Escolar
(PNAE), incluindo aquisições de merenda escolar para os alunos matricu-
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
266
lados nas 32 escolas do município, sendo 19 geridas municipalmente e 13
pelo estado. O PNAE é uma importante ferramenta governamental para
promover esses hábitos saudáveis, sendo um dos maiores programas de
SAN no mundo, com abrangência e impacto signicativos na agricultura
(Rossetti; Da Silva; Winnie, 2016).
As políticas relacionadas à alimentação nas escolas e à segurança ali-
mentar passaram por alterações em todo o país, e isso também ocorreu em
Tupã, no estado de São Paulo. De forma excepcional, durante o período
de suspensão das aulas devido à pandemia, foi promulgada a Lei nº 13.987
em 7 de abril de 2020 (Brasil, 2020):
Autorizar, em caráter excepcional, durante o período de suspensão
das aulas em razão de situação de emergência ou calamidade pública,
a distribuição de gêneros alimentícios adquiridos com recursos do
Programa Nacional de Alimentação Escolar aos pais ou responsáveis
dos estudantes das escolas públicas de educação básica.
Que, em junho de 2009, modicou a Lei nº 11.947, para: “Dispõe
sobre o atendimento da alimentação escolar e do Programa Dinheiro
Direto na Escola aos alunos da educação básica” (Brasil, 2009).
Dessa forma, viabilizou-se a entrega da alimentação da merenda es-
colar diretamente nas residências dos estudantes das escolas públicas, e não
somente, das famílias mais vulneráveis contempladas pela Bolsa Família.
Na ocasião, o excedente produzido pelos agricultores familiares foi oferta-
do com venda direta ou pela feira livre aos consumidores da comunidade
local (Valadares et al., 2020).
Kunihiro et al. analisaram o desempenho do PNAE no município
de Tupã (SP) segundo os indicadores econômicos da produção ligados à
Agricultura Familiar nos períodos de 2017 a 2021. O estudo não con-
templou se as ações de distribuições de produtos alimentícios in natura
oferecidas aos familiares das escolas públicas acarretaram algum impacto
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
267
positivo no combate às DCNT, em especial, sobre as variáveis de risco des-
sas doenças como sobrepeso e obesidade (Kunihiro; Silva; Gomes, 2023)
O PNAE é responsável por direcionar recursos do Fundo Nacional
de Desenvolvimento da Educação (FNDE) para estados e municípios, que
são usados para adquirir alimentos escolares. A Lei Federal n°11.947 de
2009 incorporou a sustentabilidade e o fornecimento de uma alimentação
saudável e adequada como parte essencial do programa. Portanto, a ali-
mentação escolar é vista como um direito fundamental que também con-
tribui para a SAN dos estudantes (Paetzhold Pauli et al., 2018; Rossetti;
Da Silva; Winnie, 2016).
O PNAE, como política pública para a SAN e o fortalecimento da
Agricultura Familiar, também se alinha com os ODS 2 “Fome Zero” e
ODS 12 “Consumo e Produção Sustentáveis”. O ODS 2 visa combater a
desnutrição, aumentar a produtividade agrícola dos pequenos produtores e
garantir o acesso a alimentos seguros e nutritivos. O ODS 12 se concentra
na redução do desperdício de alimentos, promoção de compras públicas
sustentáveis e apoio ao desenvolvimento sustentável por meio de produtos
locais. Ambos os objetivos orientam políticas para o desenvolvimento local
sustentável, apoiando a agricultura familiar e a SAN (IPEA, 2019).
A pandemia de Covid-19 afetou a SAN no Brasil e no mundo. O
fechamento das escolas e a suspensão das aulas impactam o fornecimento
de alimentos pelo PNAE. Medidas emergenciais foram denidas na Lei
N° 13.987 de 2020 e na Resolução N°2 de 2020, mas enfrentam desa-
os na implementação devido à falta de repasses nanceiros efetivos. Para
apoiar os pequenos produtores e evitar perdas econômicas, alguns mu-
nicípios, como o Distrito Federal, utilizaram associações e cooperativas
agrícolas para distribuir alimentos. Políticas públicas, como o Programa
de Aquisição de Alimentos (PAA) e o PNAE, desempenharam um papel
importante na manutenção da produção, prevenção de perdas e apoio à
renda dos agricultores durante a pandemia. Para garantir o funcionamento
do PNAE, várias estratégias foram adotadas, como a distribuição de kits
de alimentos, incentivo à compra de alimentos da agricultura familiar, ava-
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
268
liação da Insegurança Alimentar entre os alunos, aumento do repasse per
capita em áreas de maior risco de Insegurança Alimentar e atendimento
durante as férias e recessos escolares (Alpino et al., 2020; Amorim; Ribeiro
Junior; Bandoni, 2020; Hossain, 2020; Nogueira; Marcelino, 2021).
O estudo teve como objetivo analisar o desempenho do PNAE, es-
tando sob efeito da pandemia do Covid-19, no Combate à Fome e garantia
da SAN das escolas no município de Tupã entre os anos de 2017 e 20217.
O resultado do desempenho do PNAE em relação à pandemia apre-
sentou variações como ilustra a Figura 1. Tendo valores ajustados, os va-
lores dos anos 2017 e 2021 serviram de benchmark dos últimos 10 anos
anteriores, 2007 a 2017. Mesmo que em valores absolutos, os valores não
sejam de grande valor nanceiro, mas observou-se que entre os anos 2017
a 2019 houve um signicativo aumento no desempenho do PNAE, atin-
gindo seu clímax na pandemia. Com a suspensão das aulas no período de
isolamento social, ao fechar a merenda escolar em vez de interromper a
aquisição da produção de alimento in natura, pelo contrário, houve um
aumento considerável na aquisição e produtos alimentícios dos agricul-
tores familiares, graças à colaboração entre as Secretarias Municipal da
Assistência Social, Meio Ambiente, Agricultura e Educação, para garantir
a nutrição dos alunos, mesmo estando ausentes nas escolas. Em 2020 por
questões burocráticas institucionais dos órgãos responsáveis pela regulação
do PNAE, houve uma diminuição e até interrupção temporária da aquisi-
ção dos produtos, até ao processo de retorno à normalidade nos meados de
2020 até 2021 (Kunihiro; Silva; Gomes, 2023).
Este estudo sobre a operacionalização do PNAE em Tupã adotou uma abordagem quanti-qualitativa,
incluindo análises bibliográcas, pesquisa documental e a coleta de dados por meio de mensagens no
aplicativo WhatsApp para atores institucionais. As respostas por parte dos participantes teve como foco
a compreensão das percepções e pontos de convergência ou divergência dos entrevistados. O sigilo e a
condencialidade foram mantidos por meio da anonimização dos entrevistados. Além disso, dados da
saúde foram coletados por meio de um questionário estruturado e grupos focais com diversos atores,
contribuindo para a análise do desempenho do PNAE de 2017 a 2021 (Kunihiro; Silva; Gomes, 2023).
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
269
Figura 1 – Desempenho do PNAE em relação à pandemia
Fonte: Kunihiro; Silva; Gomes, 2023.
Tendo em vista o incremento dos produtos alimentícios in natura
na cesta básica da população assistida pela bolsa família e o fornecimen-
to dos mesmos produtos a todas as famílias cujos lhos frequentavam as
escolas públicas, mesmo sem estar cadastrada na bolsa família, o fato é
que possibilitou à população o acesso aos alimentos naturais de grande
valor nutritivo durante o período da pandemia. Esse fornecimento, se-
gundo a Associação dos Banananicultores, existiu um fator até então não
percebido: por se assuntos concernentes a Agricultores Familiares, o valor
nutritivo agregado aos produtos entregues não havia sido então atribuído
(Kunihiro; Silva; Gomes, 2023).
Considerando que, os alimentos de fato chegassem aos consumidores
nais e que esses, os tivessem de fato consumido, ainda assim mesmo resta
algumas dúvidas, tais como: 1) Se de fato consumiram e apreciaram e, mes-
mo sem o fornecimento gratuito, continuariam consumindo os mesmos,
ou seja, ajudou os beneciários na mudança do estilo de vida? 2) Haveria,
de fato, adesão ao estilo de vida mais saudável pela população caso houvesse
uma política pública que favorecesse uma melhor condição de aquisição de
alimentos saudáveis? 3) Quais foram as estratégias mais efetivas para dimi-
nuir as barreiras para a população aderir a um estilo de vida mais saudável?
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
270
Tendo em vista esses questionamentos, o estudo deu continuidade em busca
de possíveis respostas ou esclarecimentos a essas perguntas.
A convergênciA intersetoriAl que possibilitA Atender os ods dA
AgendA 2030
Tendo em vista os questionamentos acima, compreendeu-se que
caso a execução do PNAE tenha sido efetiva no município de Tupã, os
ODS, como o 2 (Fome e Segurança Alimentar e Nutricional), o 3 (Saúde e
Bem-estar) o 10 (Redução da Desigualdade) e o 12 (Consumo e Produção
Sustentável), deveriam ser, mesmo que parcialmente, evidenciados.
Foi realizado uma pesquisa de caráter observacional e analítico8 para
analisar se a diculdade de adesão ao consumo de alimentação saudável
estava na falta de acesso pela inviabilidade econômica ou pela simples es-
colha dos indivíduos ou familiares quanto ao consumo para alimentos de
maior ou menor qualidade nutricional. O questionário composto por três
perguntas foi respondido inicialmente de forma individual por 21 agentes
comunitários de saúde do programa saúde da família. Em seguida os agen-
tes foram divididos de forma aleatória em cinco grupos, onde o mesmo
conteúdo foi discutido, mas buscou-se a percepção do grupo dentro da
temática proposta. No terceiro momento, os cinco grupos compartilharam
suas percepções sobre a mesma temática, tendo esse conteúdo sido gravado
pelo entrevistador9.
O estudo observacional apresentou algumas limitações como viés de seleção, amostragem e de não
resposta. Como viés de seleção, embora não exista nenhum mecanismo de intervenção ou controle, a
representatividade dos agentes comunitários de saúde é referente a 50% da população do município
de Tupã, portanto não tem a total representatividade, senão pela sua área de cobertura. Quanto ao viés
de amostragem, nas áreas cobertas pelo PSF, não houve uniformidade populacional no quesito variável
socioeconômica que permita fazer inferências e aplicar tal conhecimento em outras realidades.
Antes da realização das atividades, foi esclarecido sobre a pesquisa e a coleta de dados, sem qualquer
caráter pessoal ou nominal, mas que garantia o anonimato e da não causa de danos pessoais ou morais aos
participantes. As pessoas que sentissem constrangidas ou por qualquer motivo, não quisessem participar,
poderiam se abster ou mesmo retirar, sem qualquer perda ou constrangimento. Foi também solicitado
ao participante a assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, como também o Termo de
Condencialidade.
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
271
A primeira pergunta foi quanto a distribuição dos alimentos in natu-
ra na cesta básica poderia ajudar os beneciários na mudança do estilo de
vida. Dentre as respostas obteve-se dos indivíduos com maior destaque a
mudança dos hábitos alimentares que, segundo o relato dos próprios mo-
radores, a presença feminina nas casas durante o período de pandemia. As
respostas foram das mais diversas possíveis, até de certa forma, antagônicas.
Na ocasião, pelo fato de as pessoas serem obrigadas a carem mais tempo
em casa: mulheres cozinhavam mais, compravam e consumiam mais frutas
e verduras, sendo que as poucas que não retornaram às suas atividades,
mantiveram esse hábito. Com menos destaque, mas que esteve em foco, foi
a população mais vulnerável, onde foi o fator de acesso ao conhecimento
de outros alimentos, referindo-se aos alimentos mais saudáveis, poderia
provocar uma possível mudança, caso mantivesse a experiência de receber
gratuitamente o alimento in natura, como incremento na sua cesta básica.
No nível de grupo, dos cinco grupos, quatro armaram que em-
bora durante o período de pandemia houvesse aumento no consumo de
alimentos in natura, pós pandemia, não houve mudança efetivada nos há-
bitos alimentares, retornando aos velhos hábitos alimentares. O grupo que
armou ter mudado atribuir ao fato de ter cozinhado mais em casa e con-
sequentemente, ter consumido mais alimentos saudáveis dos demais, um
atribuiu a falta de acesso a esses alimentos por falta de subsídio nanceiro,
e outros três, pela falta de consciência da necessidade de mudança no há-
bito alimentar, corroborando-se assim, com os apontamentos individuais.
Em ambos os momentos ninguém conseguiu trazer evidência algu-
ma da efetiva modicação do estilo de vida como resultado do incremento
alimentar in natura durante a pandemia, ou seja, praticamente em 100%
dos relatos em grupo não foi possível evidenciar em consenso mudanças
que fossem signicativas.
A segunda pergunta foi quanto à garantia de adesão ao estilo de vida
mais saudável pela população caso houvesse uma política pública que favo-
recesse uma melhor condição de aquisição de alimentos saudáveis.
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
272
A nível individual, 30% admitiram que diminuir o custo de aqui-
sição poderia ajudar, mas não garantir a adesão ao novo estilo de vida.
40% ressaltaram que deveria concentrar os esforços na conscientização e
educação alimentar que reetisse na mudança cultural dentro dos lares. Os
demais 30% apontaram a aplicação da educação, não nos moldes tradicio-
nais como palestras, mas nas vivências in loco como hortas comunitárias,
workshops de culinária com degustação etc.
Em nível de grupos foi consentido que o foco esteve na educação
para a adesão e progressiva mudança do estilo de vida mais saudável, e
não no aumento da acessibilidade ou diminuição do custo de aquisição do
alimento saudável.
A terceira pergunta foi sobre as estratégias mais efetivas para dimi-
nuir as barreiras para a população aderir a um estilo de vida mais saudável.
A nível individual, a atenção foi voltada para a população mais vul-
nerável com o aumento de acessibilidade, conscientização e reeducação da
própria sociedade. E a estratégia mais aceita foi a da Horta comunitária.
Dos 60%, 35% acreditam que condução não deva estar sob a responsabi-
lidade da comunidade, mas sob a gestão municipal; os outros 25% cita-
ram que vai além da gestão pública, mas das parcerias com fornecedores
e técnicos agrícolas. Dos 40% que não acreditam em iniciativas de de-
senvolvimento de hortas comunitárias como estratégias de promoção para
mudança no hábito alimentar não creem no engajamento da população
no projeto, por uma cultura assistencialista instauradas que desencorajam
a população no seu protagonismo a m de obter a mudança no estilo de
vida mais saudável.
A nível coletivo foi citado a horta comunitária não somente como
um local de fornecimento ou de diminuição de custo de aquisição de pro-
dutos, mas como um local que transite do paradigma individualista para
um olhar coletivo, como efetiva estratégia de educação alimentar e pro-
moção de saúde. A referência para tal foi a própria escola, que divulga
aos pais semanalmente por meio do aplicativo WhatsApp o cardápio com
uma alimentação saudável. Quanto às cantinas, foi mencionado a não mais
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
273
comercialização de salgados fritos, mas somente assados. Nos bairros de
maior poder aquisitivo foi determinada a extinção gradual das cantinas e,
nos de menor poder aquisitivo, a extinção total das cantinas escolares.
Dos dados das ações do PNAE coletados e analisados sob a luz aos
ODS, percebeu-se nas falas dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) a
garantia da promoção da SAN (ODS 2) que o PNAE propunha. Isso foi
evidenciado dentre muitos relatos, sobre o fato das mulheres que cozi-
nharem mais em casa durante o período de isolamento, ter gerado maior
consumo de frutas e verduras. A repercussão desse resultado atinge outras
áreas como promoção de vida saudável e bem-estar, ligados ao ODS 3. Foi
também relatado pelas ACS que esse fenômeno foi limitado ao tempo de
isolamento durante a pandemia Covid-19, pois ao retorno das atividades
prossionais, principalmente das mulheres de menor escolaridade e renda,
juntamente com o corte desse benefício do incremento dos alimentos in
natura, tendeu-se a voltar ao estilo de vida alimentar anterior a pandemia.
Tendo em vista os fatores limitantes do PNAE no quesito promo-
ção de estilo de vida saudável, o estudo mostrou que a ênfase na cons-
cientização e educação alimentar que reita na mudança cultural dentro
dos lares é uma estratégia fundamental para a tratativa das desigualdades
socioculturais na barreira à adesão a um estilo de vida mais saudável. A
educação alimentar contextualizada pode ajudar a diminuir a lacuna de
conhecimento e promover escolhas alimentares mais saudáveis em todos
os grupos socioeconômicos, portanto atende ao ODS 10, na diminuição
das desigualdades.
considerAções finAis
Os resultados do PNAE durante a pandemia Covid-19 permitiu,
mesmo que parcialmente, comprovou a importância da atuação conjun-
ta da intersetorialidade como política pública, educação, assistência so-
cial, saúde, agronegócios em combate aos maiores desaos da sociedade
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
274
como a desnutrição que provém principalmente da desigualdade e vul-
nerabilidade social.
O relato destacou, principalmente, a importância da educação e da
conscientização como estratégias-chave para promover um estilo de vida
mais saudável, que está alinhado com o ODS 3 (Saúde e Bem-estar), 10
(Redução das Desigualdades), 12 (Consumo e Produção Sustentável).
Ao abordar esses aspectos, as políticas públicas podem desempenhar um
papel signicativo no combate às DCNT, na promoção da igualdade
de acesso a alimentos saudáveis e no estímulo de práticas de consumo e
produção sustentáveis.
Observa-se que apesar da não uniformidade socioeconômica, desta
pesquisa, o fator determinante na não-mudança no estilo de consumo ali-
mentar foi evidenciado, não pela falta de acesso aos recursos de aquisição
de tais alimentos, mas pela falta de cultura de consumo desses alimentos.
No viés de não-resposta, os respondentes em alguns momentos diferiram
uns dos outros. O ponto que houve maior divergência foi quanto à acessi-
bilidade dos produtos saudáveis pela população vulnerável, por motivo de
alto custeio. Enquanto alguns defendem que as pessoas não comprariam
os produtos, por serem por si só saudáveis, mesmo sendo de baixo valor
de aquisição, mas que somente consumiriam se esse for gratuito. Outros
defendem que a população mais vulnerável faria sim aquisição, se o preço
for acessível.
Sabe-se que a educação alimentar nutricional enfrenta grandes de-
saos, principalmente dos elementos socioculturais, no que tange romper
com a cultura da atratividade, facilidades de preparo e consumo e, baixo
custo desenvolvidas e oferecidas por décadas pela agroindústria. A educa-
ção tradicional não responde, seja para despertar para necessidade de mu-
dança e/ou para efetivação da mudança no estilo de consumo alimentar. O
foco em educação não tradicional, como hortas comunitárias e workshops
de culinária com degustação, tem sido amplamente discutido, no intuito
de promover práticas de produção sustentável até o consumo nal sem
desperdícios. Ensinar a adotarem um estilo de vida responsável, desde o
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
275
cultivo de seus próprios alimentos, preparo das refeições saudáveis, até
concretizar uma mudança positiva nos consumos saudáveis de alimentos,
alinhando-se assim com os ODS 3 e 12. Além disso, a conscientização da
importância da escolha de alimentos saudáveis, desperta para as práticas de
consumo mais sustentáveis, como o apoio a produtores locais e sazonais e
redução de desperdício de alimentos.
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278
279
cApítulo 12
Contribuições e desaos do
Programa Nacional de Alimentação
Escolar (PNAE) na promoção de
um ambiente alimentar escolar
saudável e adequado
Andréa Rossi SCALCO 1
Ana Elisa Smith Bressan LOURENZANI 2
Karen Cristina de Andrade MAZIERO 3
Patrícia Cristina Melero Pereira LEITE 4
Departamento de Gestão, Desenvolvimento e Tecnologia, Faculdade de Ciências e Engenharia,
Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil, e-mail:
andrea.scalco@unesp.br.
Departamento de Gestão, Desenvolvimento e Tecnologia, Faculdade de Ciências e Engenharia,
Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil, e-mail: ana.
lourenzani@unesp.br.
Programa de Pós-Graduação em Agronegócio e Desenvolvimento (PGAD), Faculdade de Ciências e
Engenharia, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil,
e-mail: karen.andrade@unesp.br.
Programa de Pós-Graduação em Agronegócio e Desenvolvimento (PGAD), Faculdade de Ciências e
Engenharia, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil,
e-mail: patricia.melero@unesp.br.
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-534-6.p279-296
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
280
sistemAs AlimentAres e seus componentes
A má nutrição, que abrange tanto a subnutrição como a obesidade,
compreende um dos grandes desaos globais de saúde (World Health
Organization (WHO), 2017; High Level Panel Of Experts (HLPE),
2017). A coexistência desses dois extremos, da fome e da obesidade, re-
presenta o fenômeno da “dupla carga da má nutrição” (WHO, 2017;
Wells et al., 2020). Diante de diversos desaos que o mundo enfren-
ta, dentre eles fome e a obesidade, em 2015 a Organização das Nações
Unidas (ONU) estabeleceu a Agenda 2030, composta por 17 Objetivos
de Desenvolvimento Sustentável (ODS), com o objetivo de erradicar a
pobreza e promover o bem-estar global. Dentre os 17 objetivos, o ODS 2
está alinhado ao desao da dupla carga da má nutrição, pois visa “Acabar
com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhorar a nutrição, e
promover a agricultura sustentável” (United Nations, 2015, p. 19), des-
tacando a importância da nutrição na agenda global (Organização Pan-
Americana Da Saúde (OPAS), 2017).
Contudo, um relatório da Organização das Nações Unidas para
Alimentação e Agricultura (FAO) (2020) sobre segurança alimentar e nu-
tricional enfatiza que alcançar os objetivos do ODS 2 requer não apenas
acesso a alimentos em quantidade suciente, mas também alimentos de
qualidade. A qualidade da dieta é vista como um elo vital na luta contra
todas as formas de má nutrição, incluindo subnutrição e obesidade. Além
disso, especialistas identicaram uma “Sindemia Global” composta por
três grandes desaos para a saúde pública global: obesidade, desnutrição
e mudanças climáticas. Esses desaos estão intrinsecamente ligados a um
modelo dominante de sistema alimentar global, que promove dietas não
saudáveis e perpetua desigualdades na distribuição de alimentos (Swinburn
et al., 2019).
Em 2017 a FAO apresentou um modelo teórico sobre sistemas ali-
mentares elaborado por um Painel de Especialistas de Alto Nível. O ob-
jetivo principal deste relatório foi analisar como os sistemas alimentares
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
281
inuenciam os hábitos alimentares das pessoas e destacar como programas
e políticas ecazes têm o potencial de moldar os sistemas alimentares, pro-
movendo a produção, distribuição e consumo sustentáveis de alimentos,
além de garantir o direito à alimentação para todos (HLPE, 2017).
De acordo com o relatório HLPE (2017, p. 11) o sistema alimentar
consiste na:
[…] reunião de todos os elementos (meio ambiente, pessoas,
insumos, processos, infraestruturas, instituições, etc.) e atividades
relacionadas à produção, processamento, distribuição, preparação e
consumo de alimentos, e os resultados dessas atividades, inclusive
socioeconômicas e ambientais”.
O modelo teórico de sistemas alimentares apresentado no relatório
de especialistas de alto nível da FAO (HLPE, 2017) é constituído por três
componentes, sendo eles, as cadeias de abastecimento alimentar, ambien-
tes alimentares e comportamento do consumidor. Tais elementos são in-
uenciados por drivers (fatores impulsionadores de mudança no sistema
alimentar), como: fatores biofísicos e ambientais; inovação, tecnologia e
infraestrutura; político e econômico; sociocultural; e fatores demográcos.
Os impulsionadores biofísicos e ambientais compreendem os recur-
sos naturais disponíveis, os serviços ecossistêmicos essenciais e as mudan-
ças climáticas. Enquanto isso, os impulsionadores políticos e econômicos
englobam fatores como liderança, globalização, investimento estrangeiro,
comércio internacional, políticas alimentares, questões relacionadas à pos-
se de terra, utuações nos preços dos alimentos, volatilidade desses preços,
conitos e crises humanitárias (HLPE, 2017).
No âmbito dos impulsionadores socioculturais, são destacados ele-
mentos como cultura, religião, rituais, tradições sociais e o empoderamen-
to das mulheres, todos exercendo inuência signicativa nos sistemas ali-
mentares. Por m, os impulsionadores demográcos, referem-se a aspectos
como o crescimento populacional, mudanças na distribuição etária, urba-
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
282
nização, migração e deslocamento forçado, que moldam a dinâmica dos
sistemas alimentares (HLPE, 2017).
No que diz respeito aos componentes que integram os sistemas ali-
mentares, a cadeia de abastecimento alimentar engloba uma série de ativi-
dades que abrangem desde a produção dos alimentos até o seu consumo
nal e a gestão dos resíduos decorrentes desses alimentos (HLPE, 2017).
O ambiente alimentar, refere-se ao “[...] contexto físico, econômico,
político e sociocultural no qual os consumidores interagem com o sistema
alimentar para tomar decisões sobre a aquisição, preparação e consumo
de alimentos” (HLPE, 2017, p. 28). Portanto, o ambiente alimentar de-
sempenha um papel fundamental na inuência das escolhas alimentares
dos indivíduos. É importante ressaltar que, embora ambientes alimentares
saudáveis proporcionem escolhas alimentares adequadas e nutritivas, atu-
almente, há uma prevalência signicativa de ambientes considerados “não
saudáveis” em todo o mundo, que promovem escolhas alimentares menos
saudáveis (HLPE, 2017).
Por m, o último componente é o consumidor, que se caracteriza
pelas escolhas realizadas pelos consumidores no que se refere à seleção,
armazenamento, preparação, e consumo de alimentos, seja em nível in-
dividual ou familiar. É importante salientar que as escolhas alimentares
são inuenciadas por fatores pessoais, questões de conveniência, aspectos
culturais, crenças e outros elementos. No entanto, é fundamental reco-
nhecer que o comportamento alimentar é substancialmente moldado pelo
ambiente alimentar. Esses três componentes que compõem os sistemas ali-
mentares (e que são inuenciados pelos impulsionadores) desempenham
um papel determinante na qualidade da dieta dos indivíduos, resultando
em consequências para a nutrição e a saúde, além de gerar impactos em
dimensões sociais, econômicas e ambientais (HLPE, 2017).
No contexto dos elementos que compõem os sistemas alimentares,
o ambiente alimentar se destaca signicativamente, pois exerce uma inu-
ência substancial no comportamento de consumo dos indivíduos e, por
conseguinte, na sua dieta. Diante disso, um estudo de grande relevância foi
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
283
elaborado pelos autores Glanz et al. (2005), que classicaram o ambiente
alimentar como: organizacional, da comunidade, do consumidor e am-
biente da informação.
Diversos são os ambientes alimentares que as pessoas convivem, no
entanto, vale a pena destacar o ambiente alimentar escolar, pois diversas
crianças passam grande parte do seu tempo na escola, além de realizar suas
principais refeições nesse ambiente. Uma das maneiras de promover que
as crianças tenham acesso a uma alimentação saudável e adequada no am-
biente alimentar escolar é por meio de políticas públicas, como o Programa
Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) que é um programa do governo
brasileiro que visa oferecer alimentação escolar de qualidade aos estudantes
da educação básica pública. O PNAE busca promover o desenvolvimento
educacional e contribuir para a formação de hábitos alimentares saudáveis.
Diante desse contexto, o presente capítulo teve por objetivo analisar quais
os desaos e contribuições do PNAE na promoção de um ambiente ali-
mentar saudável e adequado.
Para o presente capítulo, vale destacar o ambiente alimentar or-
ganizacional que abrange locais onde as pessoas passam grande parte do
tempo, como escolas, locais de trabalho e hospitais, por exemplo. A dis-
ponibilidade de alimentos saudáveis ou não saudáveis nessas instituições
pode inuenciar signicativamente as escolhas alimentares dos indivíduos.
Políticas alimentares em escolas, por exemplo, podem afetar o tipo de co-
mida que as crianças consomem diariamente (Glanz et al., 2005).
segurAnçA AlimentAr e nutricionAl
A Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) representa a concretiza-
ção do direito universal de todos à disponibilidade constante de alimentos
de alta qualidade, em quantidades adequadas, sem prejudicar o acesso a
outras necessidades essenciais. Esse objetivo é alcançado por meio de prá-
ticas alimentares que promovem a saúde, respeitam a diversidade cultural
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
284
e são sustentáveis em termos sociais, econômicos e ambientais (Conselho
Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA), 2004).
A segurança alimentar é frequentemente analisada sob quatro di-
mensões interdependentes, dentre elas disponibilidade de alimentos, aces-
so a alimentos, utilização de alimentos e estabilidade de alimentos. A dis-
ponibilidade de alimentos se refere à quantidade de alimentos disponíveis
em uma região ou comunidade. O acesso aos alimentos compreende os as-
pectos tanto econômico como físico. A acessibilidade econômica, refere-se
aos recursos necessários que as pessoas precisam ter para adquirir alimentos
de qualidade e nutritivos durante todo o ano (Leão, 2013).
A acessibilidade física diz respeito ao alimento que deve ser acessível
para todos os grupos populacionais, abrangendo desde lactentes até idosos,
bem como indivíduos com deciências físicas, pacientes terminais, aqueles
que enfrentam desaos de saúde, reclusos e outros. Além disso, é crucial
garantir o acesso à alimentação para aqueles que residem em regiões remo-
tas, enfrentam desastres naturais ou conitos armados, incluindo povos in-
dígenas e outros grupos em situação de vulnerabilidade (Leão, 2013).
A dimensão de utilização de alimentos e nutrientes corresponde à
utilização biológica e também abrange como as pessoas utilizam os ali-
mentos disponíveis para atender às suas necessidades nutricionais. Inclui o
conhecimento sobre nutrição, práticas de preparo de alimentos e hábitos
alimentares. Por m, a estabilidade alimentar, refere-se à consistência no
acesso a alimentos ao longo do tempo (Leão, 2013).
Diante disso, conforme estipulado no Decreto nº 7.272, de 25
de agosto de 2010 (Brasil, 2010), que segue as orientações do Sistema
Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (SISAN), é garantido a
todos não apenas o direito à alimentação como um mero requisito para a
sobrevivência, mas também o direito a uma alimentação saudável e ade-
quada, que seja capaz de promover e garantir a saúde e o bem-estar dos
indivíduos. No entanto, para assegurar esse direito, é fundamental que
sejam desenvolvidos sistemas alimentares sustentáveis, visando proporcio-
nar a todos o acesso a alimentos saudáveis, seguros, de qualidade e em
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
285
quantidade adequada (Global Panel on Agriculture and Food Systems for
Nutrition (GLOPAN), 2016).
Os sistemas alimentares inuenciam de forma direta o quadro de
SAN, pois são responsáveis pela natureza do alimento, sua produção e con-
sumo nal. As políticas, programas e ações institucionais inuenciam nos
sistemas alimentares no sentido de promover a SAN e dentre as políticas
que podem inuenciar os componentes do sistema alimentar destaca-se o
PNAE (HLPE, 2017).
o pnAe progrAmA nAcionAl de AlimentAção escolAr e seus desAfios
O PNAE vem ao encontro de orientações de organismos internacio-
nais como a FAO, que tem incentivado ações que garantam a SAN nos pa-
íses, indicando a adoção de políticas públicas que institucionalizem a busca
pela SAN. Um dos objetivos dos 17 ODS proposto pela FAO expressa essa
preocupação e orienta as tarefas a serem implantadas pelos governos, a so-
ciedade e o setor de produção para que até 2030 seja alcançado um mundo
mais sustentável, numa tentativa de integração entre os ODS e as ações
dos países envolvidos (ONU BR, 2021). O ODS 2, a saber, “fome zero e
agricultura sustentável”, focado no estímulo de práticas agrícolas sustentá-
veis por meio da agricultura familiar com acesso à terra, a tecnologias e ao
mercado, nesse cenário de preocupação global com políticas públicas que
garantam uma alimentação adequada às crianças é que se inserem progra-
mas como o PNAE.
O PNAE é uma política pública adotada no Brasil, que desempenha
um papel fundamental na promoção da educação e no combate à fome e
à desnutrição (AABRANDH, 2013; Lourenzani; Cardoso, 2020; Silva;
Hespanhol, 2019). O programa funciona por meio da transferência de re-
cursos nanceiros do governo federal para os estados e municípios, que são
responsáveis por sua execução. Os recursos devem ser utilizados na aquisi-
ção de alimentos e na preparação das refeições nas escolas. É fundamental
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
286
que esses alimentos sejam frescos, nutritivos e de qualidade, atendendo aos
princípios da alimentação saudável (FNDE, 2014).
A preocupação com a alimentação adequada tem sido objeto de po-
líticas públicas no Brasil desde os anos 50, essa preocupação evoluiu signi-
cativamente ao longo dos anos adquirindo contorno e relevância nacio-
nal como política pública de segurança alimentar no Brasil. A construção
do PNAE está em acordo com a determinação constitucional e encontra
respaldo na Constituição Federal de 1988, que assegura o direito à ali-
mentação como um dos direitos fundamentais. O artigo 208, inciso VII,
estabelece a obrigatoriedade do Estado em fornecer alimentação escolar
aos alunos da Educação Básica, promovendo a igualdade de oportunidades
no acesso à educação (Brasil, 1988).
A mesma Constituição determinou a obrigatoriedade do Ensino
Básico, o que levou um grande contingente de jovens e crianças a ingres-
sarem no ambiente escolar. Um grande desao e uma oportunidade de
oferecer a essa faixa da população uma alimentação saudável, para tanto
seria necessário um programa para gerenciar as políticas de alimentação
escolar e que auxiliasse estados e municípios, como o Fundo Nacional para
o Desenvolvimento da Educação (FNDE, 2014). A promulgação da Lei
nº 11.947/2009 determina que 30% do valor repassado pelo PNAE deve
ser investido na compra direta de produtos da agricultura familiar, medida
que estimula além da alimentação saudável aos escolares, o desenvolvi-
mento econômico e o acesso ao mercado da agricultura familiar (Brasil,
2009). Notou-se que indiretamente a lei veio garantir aos produtores ru-
rais da agricultura familiar participação no direito fundamental da alimen-
tação dos alunos do ensino básico, pela garantia de um mínimo percentual
presente na alimentação. Esta lei foi de fundamental importância por es-
tabelecer as diretrizes para a organização e funcionamento do programa,
promovendo o desenvolvimento local e o acesso a alimentos frescos e sau-
dáveis oriundos da agricultura familiar local.
O FNDE (2020) é o órgão responsável por executar o PNAE. Ele
emite diversas resoluções que detalham os procedimentos, critérios e nor-
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
287
mas para a operação do programa em parceria com os Estados e Municípios,
além disso, dene orientações em seus documentos que vão desde a com-
pra de alimentos até a prestação de contas, garantindo a transparência e a
eciência na utilização dos recursos públicos.
Embora o direito à alimentação tenha sido consagrado como um
direito humano universal e com todo avanço tecnológico e cientíco que
permite a produção abundante de alimentos, dados da FAO indicam que
ainda há grande número de pessoas passando fome no mundo e no Brasil
(ONU BR, 2014). Para fazer frente a esse universo de jovens com insegu-
rança alimentar e nutricional o PNAE se constitui regido pelo princípio da
universalidade, o que signica que ele deve atender a todos os alunos ma-
triculados na rede pública de ensino, independentemente de sua condição
socioeconômica, raça ou origem, em conformidade com a Constituição
Federal, que estabelece a igualdade de direitos para todos os cidadãos.
O PNAE também se baseia na participação e controle social garan-
tindo que a comunidade escolar e a sociedade civil tenham voz ativa na s-
calização e no acompanhamento da execução do programa. Isso é essencial
para prevenir desvios e garantir a qualidade da alimentação escolar (Silva;
Hespanhol, 2019).
O PNAE desempenha um papel crucial na promoção do direito à
alimentação adequada, contribuindo para o desenvolvimento físico e cog-
nitivo das crianças e adolescentes. Além disso, ele ajuda a combater a eva-
são escolar, pois a oferta de refeições atrativas nas escolas, incentiva a frequ-
ência dos alunos. Isso também contribui para a redução das desigualdades
sociais, uma vez que atende principalmente a população mais vulnerável
(FNDE, 2014).
Apesar de sua importância, o PNAE enfrenta diversos desaos. Um
deles é a garantia da qualidade dos alimentos, já que, em muitos casos, a
escolha dos produtos é feita com base no menor custo, comprometendo
a oferta de refeições saudáveis. Além disso, a infraestrutura das escolas,
como cozinhas adequadas, nem sempre está disponível, dicultando a pre-
paração das refeições. Outro desao é a scalização e o controle social. É
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
288
fundamental que a sociedade esteja envolvida na scalização do programa,
garantindo que os recursos sejam devidamente aplicados e que a qualidade
das refeições seja mantida (Leite, 2022).
Diante disso, o PNAE é uma política pública de extrema relevância
no contexto brasileiro. Ele desempenha um papel vital na promoção da
educação e na garantia do direito à alimentação adequada. No entanto,
é necessário superar os desaos existentes, assegurando que o programa
cumpra plenamente seus objetivos e contribua para a construção de um
país mais justo e igualitário. A participação da sociedade, a melhoria na
qualidade dos alimentos e a adequação das infraestruturas escolares são
passos essenciais nesse caminho (Leite, 2022).
No tópico a seguir será apresentada a implementação do PNAE no
município de Tupã, localizado no interior do estado de São Paulo (SP), de
maneira a identicar os agentes que participam do programa, os desaos e
os pontos principais que contribuem para fomentar a agricultura familiar
e também os desaos e contribuições do PNAE relacionados ao ambiente
alimentar dos escolares do município.
implAntAção do pnAe no município de tupã
O aprofundamento dos desaos à implementação de políticas públi-
cas de alimentação saudável exige estudos especícos que permitam que se
entenda a inter-relação entre a produção de alimentos, principalmente da
agricultura familiar, o PNAE e as atividades de gestão local do programa,
que podem ser indutoras de tais políticas.
O estudo de Leite (2022) apresenta-se como tentativa via disserta-
ção de mestrado de contribuir com essa discussão. A pesquisa levanta as
contribuições de uma Associação que fornece os alimentos da agricultura
familiar, realiza interface com os agricultores familiares, observando desa-
os e impactos na sua prática e bem como o papel dos gestores públicos
na articulação de políticas públicas que garantam a SAN, especialmente
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
289
das nutricionistas da cozinha piloto do município. A forma de levanta-
mento dos dados foi por questionário aberto, com abordagem direta aos
indivíduos selecionados: Secretário Municipal de Educação, nutricionista
responsável pela cozinha piloto, técnico responsável pela Associação dos
Bananicultores e agricultores associados selecionados.
Para a realização das entrevistas elaborou-se um roteiro tendo por
direção o levantamento das informações mais relevantes para o objetivo
da pesquisa; a primeira abordagem deu-se com o Gestor Municipal pela
atuação como Secretário Municipal da Educação e sua atuação decisória
no processo, realizou-se entrevista objetivando o mapeamento do processo
e suas diculdades; a seguir foi entrevistada a nutricionista responsável pela
cozinha piloto objetivando compreender seu papel no processo de compra
e na elaboração dos cardápios; na sequência entrevistou-se o responsável
pelos contratos da Associação dos Bananicultores de Tupã objetivando
entender seu papel na aquisição de alimentos nas chamadas públicas do
município; a última etapa das entrevistas foi com os agricultores familiares
fornecedores da Associação dos Bananicultores.
Foram selecionados 10 agricultores com vínculo ativo junto à
Associação dos Bananicultores utilizando-se do critério de disponibilidade
para as entrevistas, pois apenas estes se dispuseram a ceder as informações.
O Guia Alimentar para a População Brasileira (Brasil, 2014) foi utilizado
como ferramenta de análise no intuito de identicar se os itens adquiridos
pelo PNAE contribuem para um ambiente alimentar escolar promotor de
uma alimentação adequada e saudável aos escolares. O ponto de referência
quanto a essa análise foi o ano de 2019.
Ao analisar todos os alimentos comprados no ano de 2019, notou-se
a signicativa participação de alimentos in natura ou minimamente pro-
cessados (63%), bem como óleos, gorduras, sal e açúcar, na composição do
cardápio oferecido pela Cozinha Piloto, com signicativa participação dos
produtos ofertados pela agricultura familiar local por meio da Associação
de Bananicultores. Observou-se também o percentual superior de alimen-
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
290
tos ultraprocessados em relação aos processados, desao às ações de apri-
moramento do cardápio da merenda escolar (Figura 1).
Figura 1 – Proporção de alimentos referente ao ano de 2019 de acordo
com o Guia Alimentar, em termos de valores gastos (R$)
Fonte: Leite, 2022.
Quanto à SAN, a nutricionista considera equilibradas as refeições
servidas, procura variar e adaptar o cardápio aos alimentos ofertados pela
agricultura familiar na região. Alguns alimentos são difíceis de serem inse-
ridos na merenda uma vez que as crianças estão acostumadas com alimen-
tos ultraprocessados em seus lares. Mesmo com as resistências oferecidas
aos alimentos saudáveis, a nutricionista mantém o empenho de oferecê-los
nas refeições, como exemplo, colocando a cenoura e a vagem bem picada
junto com a carne, o repolho com a carne moída,
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
291
O trabalho ressalta os desaos enfrentados pelo PNAE em Tupã em
promover uma alimentação saudável no ambiente alimentar escolar, devi-
do à persistência do consumo de alimentos ultraprocessados. Além disso,
enfatiza a importância da agricultura familiar como uma parceira valiosa
para fornecer alimentos frescos e nutritivos para a merenda escolar, bene-
ciando ambos os lados. Fica evidente a necessidade de uma abordagem
colaborativa na implementação de políticas públicas relacionadas à alimen-
tação nas escolas.
A Associação de Bananicultores atua na organização dos pequenos
produtores rurais dando suporte e transferindo conhecimentos para que
os produtores possam atender as demandas no município de Tupã, mas
nem todos os municípios possuem essa associação, sendo necessários a
convocação de todos os pequenos produtores para participar do cha-
mamento público, e infelizmente muitos deixam de participar por não
possuir toda documentação exigida pelo PNAE. A hipótese do papel es-
tratégico da Associação se conrmou no levantamento de dados. Quanto
mais eciente a gestão da informação, mais oportunidades são geradas
aos produtores, a burocracia é superada pela transferência de informação
realizada pela Associação.
Figura 2 – Percentual de Repasse do PNAE
Fonte: Leite, 2022.
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
292
De tal modo que no estudo realizado, demonstra-se ser possível
cumprir os percentuais obrigatórios a m de incentivar hábitos saudáveis e
fortalecer a agricultura familiar, um trabalho conjunto dirigido a garantir a
SAN, conforme observado na Figura 2, em que se observa o percentual de
repasse dos recursos do FNDE para a aquisição de alimentos da agricultura
familiar entre os anos de 2016 a 2021.
considerAções finAis
A discussão sobre sistemas alimentares e ambiente alimentar é de
extrema relevância no contexto atual da saúde global, pois está diretamente
relacionada aos desaos da dupla carga da má nutrição, que abrange tanto
desaos atrelados à subnutrição (baixo peso e deciência de nutrientes)
como a obesidade (excesso de peso).
Com base nesse cenário, é importante a promoção de sistemas ali-
mentares saudáveis e sustentáveis. Mas é importante destacar que um
sistema alimentar saudável não se limita apenas ao acesso das pessoas a
alimentos em quantidade suciente, mas também à disponibilidade de
alimentos de qualidade. A qualidade da dieta é essencial na luta contra
todas as formas de má nutrição, incluindo a subnutrição e a obesidade, no
entanto, o modelo dominante de sistema alimentar global promove dietas
não saudáveis e proporciona desigualdades na distribuição de alimentos.
Os sistemas alimentares são complexos e compostos por vários ele-
mentos, incluindo a cadeia de abastecimento alimentar, ambientes alimen-
tares e o comportamento do consumidor. O ambiente alimentar inuencia
signicativamente o comportamento de consumo das pessoas e, conse-
quentemente, sua dieta. Ambientes alimentares saudáveis promovem esco-
lhas alimentares adequadas e nutritivas, enquanto ambientes alimentares
não saudáveis podem levar a escolhas menos saudáveis.
Uma forma de promover sistemas alimentares e ambientes alimen-
tares que possibilite o acesso das pessoas a uma alimentação saudável e
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
293
adequada é por meio de políticas públicas. Um exemplo relevante é o
ambiente alimentar escolar, em que as políticas públicas, como o PNAE,
desempenham um papel fundamental na promoção de uma alimentação
saudável entre as crianças. O PNAE atua como uma peça importante no
que diz respeito à promoção de um ambiente alimentar saudável nas esco-
las brasileiras. Este programa, alinhado com diretrizes nacionais e orienta-
ções internacionais de segurança alimentar e nutricional, desempenha um
papel vital na transformação do ambiente alimentar escolar em um espaço
propício para escolhas alimentares adequadas e saudáveis.
Ao observar a implementação do PNAE em diferentes municípios,
como o estudo de caso em Tupã, ca claro que esse programa não é ape-
nas uma iniciativa de fornecer refeições, mas também uma oportunidade
de inuenciar as escolhas alimentares e, consequentemente, a qualidade
da dieta dos alunos. Isso é particularmente relevante, considerando que
muitas crianças passam grande parte do seu tempo na escola e realizam
refeições cruciais para seu desenvolvimento neste ambiente.
A associação do PNAE com a agricultura familiar local é um exem-
plo valioso de como esse programa pode contribuir para um ambiente
alimentar mais saudável e um sistema alimentar mais sustentável, ao incen-
tivar a compra de alimentos frescos e nutritivos produzidos localmente, o
PNAE não apenas fornece refeições de qualidade, mas também fortalece as
comunidades locais e promove práticas agrícolas sustentáveis.
No entanto, o PNAE também enfrenta desaos signicativos, como
observado no estudo de caso, como a preferência por alimentos ultrapro-
cessados entre os alunos e a necessidade de garantir a qualidade dos alimen-
tos adquiridos. Superar esses desaos requer a colaboração de diferentes
atores, incluindo o poder público, agricultores, associações e a sociedade
civil. Assim, é necessário estabelecer uma governança que permita a articu-
lação e alinhamento entre os atores envolvidos para que sejam capazes de
enfrentar o problema da insegurança alimentar e nutricional e contribuir
para o alcance das metas estabelecidas no ODS 2.
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
294
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297
cApítulo 13
A temática dos povos tradicionais
dentro do Programa de Pós-
Graduação em Agronegócio e
Desenvolvimento: convergências
possíveis e produtos importantes
Nelson Russo de MORAES 1
Angélica Góis MORALES 2
Alexandre de Castro CAMPOS 3
Isaltina Santos da Costa OLIVEIRA 4
Fernando da Cruz SOUZA 5
Departamento de Comunicação Social, Faculdade de Arquitetura, Artes, Comunicação e Design,
Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Bauru, São Paulo, Brasil, e-mail:
nelson.russo@unesp.br.
Departamento de Gestão, Desenvolvimento e Tecnologia, Faculdade de Ciências e Engenharia, Universidade
Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil, e-mail: ag.morales@unesp.br.
Programa de Pós-Graduação em Agronegócio e Desenvolvimento (PGAD), Faculdade de Ciências e
Engenharia, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil,
e-mail: alexandre.c.campos@unesp.br.
Programa de Pós-Graduação em Agronegócio e Desenvolvimento (PGAD), Faculdade de Ciências e
Engenharia, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil,
e-mail: isaltina.costa@unesp.br
Programa de Pós-Graduação em Agronegócio e Desenvolvimento (PGAD), Faculdade de Ciências e
Engenharia, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil,
e-mail: fernando.cruz@unesp.br.
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-534-6.p297-320
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
298
introdução
O Programa de Pós-Graduação em Agronegócio e Desenvolvimento
(PGAD) tem trajetória recente, tendo sido criado em 2014, mas possui
grandes enfrentamentos teóricos, que se impõem como estruturantes ao
debate de sustentabilidade socioambiental, políticas públicas e direitos,
têm sido conduzidos em suas pesquisas e ações de extensão universitária,
gerando produtos muito importantes.
O PGAD, sediado na Faculdade de Ciências e Engenharia (FCE),
da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP),
Câmpus de Tupã/São Paulo – SP, foi idealizado e gradativamente estru-
turado como um espaço formativo para mestres e doutores que, em sua
trajetória de formação, pudessem tecer conhecimentos de modo crítico
e contextualizado, para além do agronegócio, dentro do amplo debate
acerca da ruralidade brasileira, da sustentabilidade, da cultura no espaço
rural e das diversas interfaces – inclusive conituosas e violentas – pre-
sentes neste cenário.
Oriundas dos debates próprios da Linha 2 do PGAD, intitula-
da “Desenvolvimento e Meio Ambiente”, a Sociologia Rural passou a
ser encarada como fundamental aos estudos básicos, compondo parte
importante da disciplina Abordagem Sistêmica do Agronegócio (ASA),
disciplina obrigatória, de oferta anual, para todos os estudantes. No
mesmo sentido, operacionalizou-se a disciplina Sociedade e Natureza,
de oferta bianual, que, mesmo sendo optativa, assumiu a responsabi-
lidade de contribuir para a promoção complexa e dialética do conhe-
cimento sobre a relação entre os seres humanos e o meio onde vivem.
Por m, ainda foram ministradas, tendo elevada procura, as disciplinas
optativas intituladas “Etnodesenvolvimento e Políticas Públicas para
Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais”, em 2020, e “Formação e
transformações do espaço rural e dos territórios tradicionais no Brasil”,
em 2021 (UNESP, 2023a).
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
299
No ano de 2015, alguns docentes do programa de pós-graduação
iniciaram trabalhos voltados aos povos originários e comunidades tradicio-
nais, incluindo tanto o âmbito acadêmico como o cientíco voltados à ru-
ralidade brasileira, em especíco junto aos indígenas, quilombolas, gerai-
zeiros, ribeirinhos e tradicionais letos. O zeram numa trilha que se replica
em tantos outros programas, por meio de grupos de pesquisa e reunindo
professores com atuação isolada em determinadas áreas.
Este capítulo tem como objetivo descrever como se estruturou a atu-
ação do PGAD/UNESP Tupã nas pesquisas junto aos povos originários e
às comunidades tradicionais. Assim, sendo clara a opção pela abordagem
qualitativa e pela pesquisa do tipo descritiva, esta pesquisa apoiou-se nas
técnicas de exploração bibliográca e documental para a coleta de evidên-
cias, sendo ainda utilizada a historiograa como estratégia de pesquisa e
também como técnica nal de análise e organização das evidências coleta-
das (Martins; eóphilo, 2009).
Este capítulo do Livro dedicado aos 10 anos do PGAD, narra de
modo descritivo, a trilha que levou e conduz o programa de pós-gradu-
ação a convergir com as demandas dos povos originários e comunidades
tradicionais, demarcando este território de produção de conhecimento
cientíco ou, em palavras mais efusivas deste campo, “demarcar a terra”,
fazendo-a território de saberes.
Outro aspecto central aos trabalhos do PGAD de modo geral, mas
neste recorte apresentado como um capítulo, em especíco, é a convergên-
cia com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável – ODS. Os estu-
dos acerca dos povos tradicionais dentro do PGAD convergem de modo
profundo com os ODS, em especial o ODS 11 – Cidades e Comunidades
Sustentáveis, uma vez que os diversos trabalhos de mestrado e doutora-
do abarcam temas que mantém a sustentabilidade como pano de fundo.
Outros ODS são referenciados em profundidade, na especicidade dos
trabalhos, como o ODS 1, 2 e 11 quando são estudados temas sobre a
pobreza, a fome e a desigualdade; ODS 6 quando a questão do acesso à
água é destacada e o ODS 4, quando a educação básica é estudada com
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
300
profundidade, sempre em convergência com a seara de povos originários e
comunidades tradicionais.
os desAfios socioAmbientAis dos povos trAdicionAis
Os Ameríndios ou Povos Originários da América são descendentes
de civilizações fortemente delimitadas pelos Maias, Incas e Astecas que,
povoando as terras americanas, já se encontram no atual território brasilei-
ro há mais de 10.000 anos. Os estudos mais aprofundados da Arqueologia
no Brasil destacam a presença humana há muitos milhares de anos no ser-
tão nordestino, nas chapadas das gerais, no alto Xingu e, em especial, nas
planícies da bacia do rio Amazonas (Neves, 2006).
As gerações descendentes destes povos teriam se espalhado pelos
planaltos e planícies, pelo litoral e rincões do atual território brasileiro
formando, ao longo dos séculos e milênios, diferentes povos indígenas.
Aportando-se à Boas (2004), entende-se que estes povos, dado o deter-
minismo biológico e geográco impostos sobre suas vidas, assim como
pelo particularismo histórico de cada uma das comunidades, geraram uma
imensa diversidade cultural e variedade étnica, que inclui os elementos
próprios das particularidades linguísticas das mais de 300 etnias indíge-
nas descritas, em tempos passados, por Curt Nimuendajú, Darcy Ribeiro,
Florestan Fernandes (1972) e mesmo por Marechal Rondon.
Com base nos apontamentos documentados por Curt Nimuendajú
em sua importante obra cartográca intitulada: “Mapa Etno-Histórico
do Brasil e Regiões Adjacentes”, em sua terceira versão, datada do ano de
1944, foram identicados aproximadamente 1400 povos indígenas no ter-
ritório brasileiro. As informações se referem a 974 referências bibliográcas
(Emmerich; Leite, 1987). A partir de minuciosa pesquisa, “o mapa resume
a bibliograa publicada até 1944” (Zarur, 1987, p. 33).
De acordo com os dados do Censo Demográco de 2010, a diversi-
dade de povos indígenas no Brasil se refere a 305 povos (Instituto Brasileiro
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
301
de Geograa e Estatística (IBGE), 2012). Contemporaneamente, este
mapa é constituído por 1.693.535 brasileiros indígenas, segundo o Censo
Demográco de 2022 (IBGE, 2023). Este dado populacional corresponde
a 0,83% da totalidade do país e, em comparativo com o Censo anterior,
identicou-se um aumento de 88,82% na população indígena (Fundação
Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI), 2023). A ciência e a lei conver-
gem na perspectiva de que todos os descendentes de indígenas, vivendo
em terras indígenas ou nas cidades são povos indígenas e, então, povos
originários do Brasil.
A Antropologia, em convergência com a Sociologia, pela obra de
Carlos Rodrigues Brandão, intitulada “A Comunidade Tradicional”, pu-
blicada como capítulo de livro, traz a denição de comunidade de cultura
total e de comunidade de cultura parcial, fundamentando noção angular
ao conceito de povos originários e comunidades tradicionais (Brandão,
2015). Por um lado, à luz da Teoria da Sociabilidade de Ferdinand Tönnies
(1855-1936) e da Teoria das Solidariedades de Émile Durkheim (1858-
1917), seriam comunidades de cultura total aquelas que são autossucien-
tes para a busca dos requisitos próprios das dimensões de bem-estar (como
traz, de modo detalhado, Amartya Sen em sua obra “Desenvolvimento
como Liberdade”). Seriam as comunidades que não foram tocadas pelo
modo de produção capitalista e que, autossucientes, vivem numa pers-
pectiva de mundo de comunismo tribal, conforme descreve o lósofo Jean-
Jacques Rosseau (1712-1778). Este era o modus vivendi (modo de vida)
dos povos originários antes do processo de colonização iniciado em 1500 e
ainda é a orientação de vida daqueles poucos grupos de indígenas isolados
(Laraia, 2006).
Ainda em Brandão (2015), comunidades de cultura parcial são to-
das aquelas que, tocadas pelo modo de produção capitalista, perdem sua
autossuciência e inserem-se na perspectiva da interdependência, alteran-
do profundamente suas culturas. Inúmeros processos de interação, cheios
de fricção e violência entre povos orientados por diferentes cosmovisões e
modos de compreender o mundo e as relações sociais, seriam úteis aqui
para simbolizar esta ruptura, dentre estes, o aprisionamento de africanos
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
302
para serem escravizados na América, a catequização de crianças indígenas
no Brasil Colônia ou mesmo a expropriação do acesso de quebradeiras de
coco babaçu às zonas babaçuais para a coleta de frutos caídos ao chão.
O fato social aqui é que as comunidades de cultura total (autossu-
cientes para o seu bem-estar) passaram à condição de comunidades de
cultura parcial (interdependentes para o seu bem-estar) e, com esta “acele-
ração evolutiva”, passam a coabitar na sociedade orientada pelo modo de
produção capitalista, que orienta a vida às perspectivas do consumo, do in-
dividualismo e da fragmentação social, geralmente em ambientes urbanos,
condominiais ou de extrema pobreza.
Contudo, mesmo quando os indígenas deixam de possuir as carac-
terísticas próprias da comunidade de cultura total, não deixam de ser po-
vos originários, conforme citado, ao passo que, quando as comunidades
tradicionais são formadas pelos diversos percursos violentos da história,
já são caracterizadas como comunidades de culturas parciais, pois já sur-
gem com dependência do modo de produção capitalista. Neste sentido,
no Brasil, são consideradas Comunidades Tradicionais, além dos indíge-
nas: quilombolas, caiçaras, pescadores artesanais, ribeirinhos amazônicos,
geraizeiros, pantaneiros, vazanteiros, povos de terreiro, povos de fundo de
pastos, faxinalenses e quebradeiras de coco babaçu, dentre outros (Brasil,
2007; Vieira, 2014).
Importante notar que todos os povos indígenas são povos originários
e também comunidades tradicionais, mas as comunidades tradicionais não
são necessariamente povos originários (exceto indígenas ao caso brasileiro,
ou tribais africanos ao caso de países da África, ou ainda os maoris neoze-
landeses). Por m, toma-se a terminologia Povos Tradicionais para desig-
nar, de modo geral, os povos originários (indígenas, no caso brasileiro) e as
comunidades tradicionais (quilombolas, caiçaras, geraizeiros, ribeirinhos
amazônicos, dentre outros).
Para melhor apresentação da expressão quilombola no país, é im-
portante destacar que, de acordo com os dados do Censo Demográco de
2022, a população quilombola no território nacional totaliza 1.327.802,
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
303
representando 0,65% da população total do Brasil, identicando-se 494
territórios quilombolas, estes, formalmente reconhecidos. Acrescenta-se a
informação de que somente 12,6% da população quilombola habita estes
territórios demarcados (IBGE, 2023).
Além dos elementos internacionais consagrados pela Declaração
das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas (ONU, 2007),
dos artigos especícos contidos na Constituição Federal do Brasil de 1988
(Brasil, 1988), são também importantes demarcadores legais, dentre outros,
o Estatuto do Índio (Brasil, 1973) e o Decreto 6040 (Brasil, 2007), que
tentam disciplinar as relações sociais e os direitos dos povos tradicionais.
Após a promulgação da Constituição Federal de 1988, os Povos
Tradicionais do Brasil, viveram momentos alternados de melhor e pior
atendimento aos princípios legais, de acordo com a tônica de cada gover-
no federal, mas também pelos desdobramentos efetivados pelos governos
locais (estaduais, distrital e municipais). Neste sentido, de forma transver-
sal à temporalidade dos governos, algumas organizações do terceiro setor
conduziram excelentes trabalhos de acompanhamento e apoio a esses po-
vos, dentre eles o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), que publi-
ca anualmente o seu documento Relatório de Violência contra os Povos
Indígenas no Brasil, que conta com amplo apoio acadêmico e legitimação
da sociedade, inclusive das associações representativas dos povos indígenas
(CIMI, 2023).
Os dados apresentados durante o período compreendido entre 2019
e 2022, indicam que os povos indígenas foram acometidos por diversas
maneiras de violência. Acerca dos conitos relativos aos direitos dos terri-
tórios, observou-se que “[…] houve o registro de 407 casos”. Consoante às
“[…] invasões possessórias, exploração ilegal de recursos naturais e danos
diversos ao patrimônio indígena, foram 1.133” (CIMI, 2022, p. 13). No
contexto dos crimes contra o indivíduo, constatou-se “[…] 795 óbitos por
omissão do poder público” e “[…] 3.552 crianças indígenas de até quatro
anos de idade morreram nesse período” (CIMI, 2022, p. 13).
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
304
O Relatório do CIMI aponta que o ano de 2022 marcou o término
de um período governamental caracterizado pelo agravamento da incidên-
cia de violência perpetrada contra as comunidades e territórios indígenas.
Nessa gestão governamental, não houve demarcação de nenhuma terra in-
dígena (CIMI, 2022).
Os povos indígenas têm lutado ao longo de décadas em defesa de
seus direitos e da preservação de suas culturas e modos de vida. “Que os
novos governantes busquem reparar o mal, garantindo aos povos indíge-
nas seu direito fundamental à terra e aos seus modos de ser e viver nas
diferenças” (CIMI, 2022, p. 11). Neste contexto, o projeto de lei 490 de
2007, tramitando atualmente como PL 2903 de 2023, que trata do marco
temporal para a demarcação de terras indígenas, traz um retrocesso e fere
os direitos dos povos indígenas em questão de justiça, já que a própria
Constituição de 1988 garante aos povos indígenas o direito à terra.
Neste ínterim, ao falar dos desaos socioambientais enfrentados pe-
los povos tradicionais, questiona-se o papel e a participação das universi-
dades no diálogo e produção de conhecimentos acerca desses temas tão
preciosos e delicados. Há muitos desaos postos, como as próprias ações
armativas e seus desdobramentos na oferta de educação indígena que ain-
da carecem de melhorias, como apontam Freitas et al. (2022) e Santos
e Cristofoli (2022). Tem-se a necessidade de fomentar um “desenho de
política pública que garanta investimentos nanceiros na permanência de
estudantes nas universidades, a preparação de material didático e capaci-
tação pessoal para lidar com a grande diversidade, em termos culturais”,
como cita Freitas et al. (2022). Neste contexto, Santos e Cristofoli (2022)
reforçam a necessidade de atuar no fomento de uma aproximação com os
povos indígenas e tradicionais, considerando os propósitos da política e a
realidade sociocultural da pluralidade dessas comunidades.
Neste contexto, o PGAD, por meio da linha de pesquisa
Desenvolvimento e Meio Ambiente, somado aos grupos de pesquisa, vem
desenvolvendo estudos no ambiente universitário, que serão abordados na
próxima seção.
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
305
trilhA de estudos e pesquisAs conduzidAs
Em 2014, na FCE/UNESP Tupã, dois grupos de pesquisas se
apoiaram e iniciaram estudos complementares: 1) o Grupo de Pesquisa
em Gestão e Educação Ambiental (PGEA)6, liderado pela Profa. Assoc.
Angélica Góis Morales, no qual os grandes temas são as relações da socie-
dade com a natureza; e 2) o Grupo de Estudos em Democracia e Gestão
Social (GEDGS)7, liderado pelo Prof. Assoc. Nelson Russo de Moraes,
cujas temáticas incluem as diversas interfaces das relações sociais humanas.
Ambos os grupos tratam importantes arenas para a produção de substrato
acadêmico à tratativa da temática de povos tradicionais.
Nesses grupos, diversos estudantes de graduação e de ensino mé-
dio ingressaram como bolsistas do Programa Institucional de Bolsas de
Iniciação Cientíca (PIBIC) e de Extensão Universitária, ao lado de outros
membros da comunidade acadêmica, interessados na temática. Destaca-se
como sendo de alta relevância esta informação, pois nenhuma disciplina
foi ministrada, orientação conduzida, ação de pesquisa ou de extensão exe-
cutada, sem que houvesse um amplo trabalho lastreador de estudos e de
articulação social e política com os ambientes exteriores à universidade.
Em 2017, foram iniciadas as duas primeiras pesquisas de mestra-
do, no âmbito do PGAD/UNESP Tupã, sob orientação do Prof. Nelson
Russo de Moraes, as quais voltaram-se aos povos tradicionais, ambas sendo
concluídas, com a defesa pública da dissertação, em 2019. Em uma delas,
intitulada “Análise dos impactos sociais da transição de modelos produti-
vos agrícolas em comunidades tradicionais: estudo de caso da comunidade
de geraizeiros da Matinha (Guaraí/Tocantins - TO)”, Alexandre de Castro
Grupo de pesquisa que emerge da interação de vários pesquisadores e que tem o objetivo de reetir o
processo da gestão e educação ambiental em vários contextos, possibilitando conexões, trocas, planejamento
e execução de projetos de pesquisa e de extensão. Neste processo colaborativo, destaca-se a Sala Verde Rede
de Educação Ambiental da Alta Paulista –REAP (Unesp, 2023).
Possui característica interdisciplinar, tendo por nalidade a construção de conhecimentos contributivos
para a resolução dos desaos enfrentados pela sociedade contemporânea, sobretudo pela promoção de
estudos, pesquisa e extensão alinhados a temáticas especícas. Dentre as importantes atuações do GEDGS,
destaca-se a Rede Internacional de Pesquisadores sobre Povos Originários e Comunidades Tradicionais
(RedeCT) (Unesp, 2023).
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
306
Campos estudou a história, as características, o modus vivendi e as relações
sociais daquela comunidade, articulando-a com os elementos legitimado-
res do “mundo geraizeiro” (Ribeiro, 2015; Dayrell, 1998; Nogueira, 2009).
A dissertação de Campos (2019), fundamentou-se na teoria do sociólogo
Ferdinand Tönnies e se debruçou sobre sociabilidade e a transição de mo-
delos agrícolas tradicionais para a agroecologia, explorando estes conceitos
teóricos. Campos (2019) discute o contexto socioeconômico e ambien-
tal das comunidades tradicionais brasileiras, ressaltando a importância da
agroecologia como uma alternativa sustentável à agricultura intensiva.
Já a pesquisa intitulada “Política pública indigenista brasileira:
análise das transformações a partir do estudo de caso da aldeia indígena
Vanuíre (Arco Íris/SP)”, conduzida por Ariane Taísa de Lima, tratou de
revisitar as transformações das políticas públicas indigenistas no Brasil,
desde a colônia até a contemporaneidade, culminando com a descri-
ção de como são os atendimentos feitos pelo Estado na Terra Indígena
Vanuíre, onde coabitam, principalmente, indígenas das etnias Kaingang,
Krenak e Terena, nas áreas de educação, saúde, assistência social e direito
à terra (Ribeiro, 1979; Lima, 2019). Evidenciando os desaos presentes,
Lima (2019) conclui ser urgente que as políticas promovam os direitos e
o desenvolvimento sustentável das comunidades indígenas, respeitando
suas culturas e identidades únicas.
Também sob a orientação do Prof. Assoc. Nelson Russo de Moraes,
em 2018 iniciou-se a pesquisa de mestrado de Cláudio Antônio Tavares,
intitulada “Cooperativismo como modelo organizacional e instrumento
de geração de renda para as comunidades tradicionais”, que teve defesa pú-
blica da dissertação em 2020. O trabalho foi dedicado aos estudos sobre os
modelos organizacionais juridicamente disponíveis no Brasil e a sua aproxi-
mação às necessidades de representação política de moradores e de melhor
competitividade de mercado dos produtos da Comunidade Tradicional de
Letos do Distrito de Varpa em Tupã/SP (Pinho, 2003; Tavares, 2020).
Tavares (2020) investigou o associativismo e o cooperativismo enquan-
to modelos organizacionais já experimentados pela referida comunidade
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
307
tradicional, examinando os desaos, benefícios e características distintivas
desse modelo organizacional.
No período de 2018 a 2020, sob a orientação do mesmo professor, a
pesquisa de mestrado de Valdemir Garcia Neto Melo, intitulada “Do glo-
bal ao tradicional: o uso da água para o consumo humano em uma comu-
nidade tradicional amazônica” levou o PGAD mais uma vez à Amazônia
Legal Brasileira, especicamente à Comunidade Tradicional Ribeirinha do
Povoado do Senhor do Bonm, localizado às margens do rio Piranha, ba-
cia do rio Araguaia, em Araguacema/TO. Os trabalhos iniciaram-se pelo
demarcador internacional dos direitos humanos de acesso à água potável
Guidelines for Drinking Water Quality (GDWQ) – ao qual o Brasil é
signatário e reproduz o direito por meio de sua Constituição Federal. Em
campo, a pesquisa realizou entrevistas, levantamento de dados fotográ-
cos e duas análises da água distribuída e consumida pelos moradores da
comunidade. Os resultados do trabalho indicaram cienticamente a baixa
qualidade da água, especialmente pela brusca oscilação de cloro (lançado
diretamente nas caixas d’água coletivas) e a presença de sedimentos de di-
versas naturezas. Por m, a dissertação, como de costume nos trabalhos
deste alinhamento, apresentou o conjunto de características históricas e
sociais que fazem do Senhor do Bonm (de Araguacema/TO) uma comu-
nidade tradicional de ribeirinhos (Melo, 2020; Brasil, 2007; Word Health
Organization (WHO), 2017). Dadas tais condições, Melo (2020) expõe
a necessidade de investimento em sistemas de abastecimento de água e
saneamento para povos tradicionais para que assim a saúde pública possa
também melhorar.
Em 2019, foram iniciadas quatro novas pesquisas de mestrado den-
tro do campo de povos tradicionais. O Prof. Assoc. Renato Dias Baptista
orientou o trabalho de Laís de Carvalho Pechula, intitulado “Conitos em
territórios indígenas: uma análise a partir das transformações dos direitos
territoriais dos povos indígenas”, com defesa pública em 2021, que, sob
um olhar interdisciplinar entre as áreas Social e do Direito, apresentou o
resgate da conitualidade prática e os desdobramentos da pacicação ju-
rídica para a questão de terras indígenas no Brasil (Brasil, 1988; FUNAI,
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
308
2013; Pechula, 2022). A análise de Pechula (2022) abrange os direitos
territoriais indígenas no Brasil a partir de suas transformações históricas,
aplicabilidade e conitos associados. Para esta nalidade, utiliza métodos
qualitativos e diversas fontes de dados para analisar as transformações e
os conitos em torno de tais direitos, com o objetivo de contribuir para
a promoção da paz, justiça e desenvolvimento sustentável. Pechula realiza
uma discussão sobre a construção da identidade étnica de povos indígenas
e sobre a importância das garantias constitucionais em face da crescente
violência, em especial, na questão de demarcação e proteção de terras indí-
genas, ameaçadas pelo Projeto de Lei n. 490/2007 (atual Projeto de Lei n.
2903) e seu impacto sobre os direitos territoriais indígenas, especialmente
no que se refere à teoria do “marco temporal”, contrário à Constituição de
1988 (Pechula, 2022). Conclui evocando o papel da Fundação Nacional
dos Povos Indígenas (FUNAI) e do Ministério Público para a necessidade
de medidas ecazes de preservação e aplicação plena dos direitos constitu-
cionais para garantir a integridade das terras indígenas e o bem-estar das
comunidades indígenas (Pechula, 2022).
A Profa. Assoc. Angélica Góis Morales orientou a então mestranda
Valquíria Cristina Martins em sua pesquisa “Saberes e práticas socioam-
bientais na Terra Indígena Vanuíre: compreensão do etnoconhecimento
dos Grupos Kaingang e Krenak”, que trata sobre uma análise abrangente
das práticas culturais e do conhecimento socioambiental dos grupos indí-
genas Kaingang e Krenak na Terra Indígena Vanuíre, com foco na agricul-
tura, culinária e artesanato. Martins (2021) explora a história, a migração e
a coexistência desses povos no mesmo território, ressaltando a importância
da preservação da cultura indígena e de seus direitos em face de desaos
como a colonização, deslocamento forçado e a pandemia da Covid-19.
Para isso, utiliza conceitos teóricos sobre o multiculturalismo, intercultu-
ralidade e o papel das instituições culturais na promoção da preservação
cultural e ambiental.
O estudo destaca o papel crucial do etnoconhecimento e das práti-
cas sustentáveis na relação dessas comunidades com o meio ambiente e na
preservação da biodiversidade, além de discutir as diculdades enfrentadas
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
309
pelas comunidades na preservação de suas tradições. Martins (2021) con-
sidera que, em um mundo cada vez mais globalizado, torna-se cada vez
mais importante o diálogo intercultural e a valorização do conhecimento
indígena para a promoção da sustentabilidade e da diversidade cultural.
A então mestranda Karen Cristina Andrade Pereira, sob orientação
da Profa. Assoc. Andréa Rossi Scalco conduziu a pesquisa “Inuência do
ambiente alimentar nos hábitos alimentares: contribuição de análise aos
povos indígenas no Brasil”. Pereira (2021), destaca que as decisões alimen-
tares são complexas por serem inuenciadas por fatores sociais, culturais,
econômicos e psicológicos, os quais são importantes na promoção de há-
bitos alimentares saudáveis. A análise se concentra em diversos aspectos do
ambiente alimentar, incluindo disponibilidade de opções saudáveis, preços,
promoções, informações nutricionais e sua relação com o comportamento
alimentar. Inclui também os contextos domésticos de trabalho e escolar, e
a inuência destes nas escolhas alimentares. Para Pereira (2021), conhecer
os aspectos mencionados se mostra importante para o enfrentamento da
dupla carga de desnutrição e obesidade, em cujo cerne estão as trajetórias
de vida e as experiências individuais na formação dos padrões dietéticos.
O estudo enfatiza a necessidade de políticas públicas que promovam
ambientes alimentares saudáveis e acessíveis para comunidades indígenas,
reconhecendo os desaos enfrentados por essas populações na busca por
uma dieta nutritiva e culturalmente apropriada, levando-se em considera-
ção que tais políticas geram implicações signicativas para a promoção da
saúde pública e o enfrentamento das questões de insegurança alimentar
(Pereira, 2021).
Neste mesmo período o Prof. Assoc. Nelson Russo de Moraes
orientou Cristiane Teixeira Bazílio Marchetti em sua pesquisa intitulada
“Políticas públicas de educação para povos indígenas no Brasil: transfor-
mações conceituais e legais”. Marchetti (2021) estudou a educação indí-
gena no contexto brasileiro, examinando sua transformação histórica, de-
saos e avanços. Para isso, utiliza como partida teórico as contribuições
sociológicas, antropológicas e losócas, tais como, as de Marx, Weber e
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
310
Freire, as quais informam uma compreensão crítica dos desaos e proces-
sos envolvidos na educação indígena. Marchetti, delineia a transição de
abordagens assimilacionistas e exploratórias no período colonial para um
reconhecimento mais positivo dos direitos e da autonomia dos povos indí-
genas na Constituição de 1988. Dentro dos marcos legais e políticas públi-
cas que inuenciaram a educação indígena, inclui a criação de Territórios
Etnoeducacionais, assim como os desaos enfrentados pelas escolas indíge-
nas em termos de reconhecimento, recursos e infraestrutura; a necessidade
de respeitar práticas alimentares indígenas nos programas de alimentação
escolar; e de reconhecer e respeitar as culturas e línguas indígenas como
parte integral da identidade brasileira. A partir de tal perspectiva, podem
ser incluídas, de fato, as diferentes visões culturais dentro das culturas in-
dígenas e o papel fundamental da participação e autonomia dos povos
indígenas nas decisões educacionais.
Importante destacar que estes trabalhos, iniciados em 2019, e ou-
tros, que se encerraram até 2023, foram severamente impactados pela pela
pandemia da Covid-19, inclusive com a inviabilização do ingresso em ter-
ritórios tradicionais, da realização de pesquisas in loco e de diálogos que,
em melhores circunstâncias, teriam sido realizados por meio de telefone
ou internet.
Neste tempo pandêmico, Fernando da Cruz Souza, sob orienta-
ção do Prof. Assoc. Nelson Russo de Moraes, realizou pesquisa intitulada
“Quebradeiras de coco babaçu: bem-estar humano na região do Bico do
Papagaio, Tocantins”. Souza (2023) identicou as diversas dimensões do
bem-estar humano em cenários rurais e tradicionais nas comunidades tra-
dicionais de quebradeiras de coco babaçu, na região do Bico do Papagaio,
TO. Baseando-se na abordagem das capacidades, de Amartya Sen (2010),
e na interseccionalidade das relações sociais, o autor enfatiza a interco-
nexão de fatores sociais, econômicos e ambientais e seu impacto na vida
de populações vulneráveis. São discutidos tanto o contexto histórico de
formação das comunidades rurais e tradicionais, muitas vezes enraizado na
exploração de recursos, como os desaos contemporâneos impostos pelas
mudanças climáticas e pelo desmatamento (Souza, 2023).
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
311
Entre as privações enfrentadas pelas comunidades pesquisadas gu-
ram o acesso limitado à educação, propriedade de terras e serviços básicos,
ao mesmo tempo em que chamam atenção à resistência coletiva produzida
pelas mulheres, que, por meio do capital social, apoiam-se em sua busca
pelo bem-estar. Além disso, o conhecimento tradicional e a representa-
ção coletiva nessas comunidades são fatores críticos na manutenção das
identidades culturais e na defesa da justiça social e ambiental para as que-
bradeiras. Diante de tal realidade, esta pesquisa enfatiza a necessidade de
políticas e intervenções direcionadas que reconheçam as dimensões únicas
do bem-estar em contextos rurais e tradicionais (Souza, 2023).
Por m, ainda dentro do recorte histórico da pandemia, a então
mestranda Isaltina Santos da Costa Oliveira, tendo também como orienta-
dor o Prof. Nelson Moraes, conduziu pesquisa intitulada: “Estudos sobre
a Origem e a Atual Paisagem Social e Geográca dos Povos Indígenas da
Amazônia Tocantinense”. Oliveira (2023) aborda as complexas questões
enfrentadas pelas comunidades indígenas na região, inclusive sob um pro-
cesso histórico violento. A autora assinala o crescimento e o impacto avas-
salador dos conitos em áreas rurais devido ao agronegócio, à mineração
e à formação de latifúndios, os quais ocorrem em detrimento da essencia-
lidade do território para culturas indígenas, que não o tem apenas como
base para sua continuidade cultural, ambiental, social e econômica, mas
também como um elemento fundamental de suas identidades. Destaca
também o desmatamento, a colonização e as táticas de extermínio trági-
cas empregadas contra comunidades indígenas e profundas repercussões
históricas de tais atos como entraves persistentes dos povos indígenas na
garantia de seus direitos à terra, incluindo os complexos processos de de-
marcação. Indica a necessidade de pesquisas mais precisas e narrativas mais
dedignas para o melhor entendimento da história da formação dos atuais
povos e culturas indígenas na região central do Brasil (Oliveira, 2023).
Em 2021, foram iniciadas as duas primeiras pesquisas de doutora-
do dentro da temática de povos originários e comunidades tradicionais,
sendo uma dentro de uma comunidade geraizeira e outra dentro de uma
comunidade quilombola, ambas da Amazônia Legal Brasileira. A primei-
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
312
ra é a pesquisa de doutorado de Alexandre de Castro Campos (ainda em
curso, sob orientação da Profa. Assoc. Angélica Góis Morales, com defesa
prevista para 2025), intitulada “Análise do modus vivendi e da sociabilidade
de comunidades tradicionais frente aos impactos das mudanças climáticas
globais: um estudo de caso da comunidade tradicional de geraizeiros da
Matinha (Guaraí/TO)”. A segunda é a pesquisa de Ana Maria Barbosa
Quiqueto (em curso, sob orientação do Prof. Assoc. Nelson Russo de
Moraes, com defesa prevista para 2025), intitulada “Educação escolar qui-
lombola frente às políticas públicas educacionais: os desaos e os impasses
no meio rural”, a partir de um estudo na comunidade de Lajeado/ TO”.
O estudo dos violentos processos de colonização nos Estados Unidos
e no Brasil a partir de duas obras clássicas é a pesquisa de mestrado de Luis
Guilherme Costa Berti (iniciada em 2022, sob orientação do Prof. Assoc.
Nelson Russo de Moraes), intitulada: “A comunicação da luta pela pacha-
mama entre os povos originários e os colonizadores da américa: análise das
obras ‘Os índios e a civilização’ (Darcy Ribeiro, 1979) e ‘Enterrem meu
coração na curva do rio’ (Brown, 2003)”.
Em 2023, duas novas doutorandas iniciaram suas pesquisas, contribuindo
para a consolidação do campo de estudos dentro do PGAD/UNESP Tupã.
Isaltina Santos da Costa Oliveira conduz, sob orientação do Prof. Assoc. Nelson
Russo de Moraes, a pesquisa “Museus e indígenas: A importância do Museu
Índia Vanuíre na comunicação histórica e cultural dos povos indígenas do
Oeste Paulista” e Valquíria Cristina Martins, sob orientação da Prof. Angélica
Morales, conduz a pesquisa “Compreensão do etnoconhecimento dos grupos
Kaingang e Terena: Terra Indígena Icatu - Braúna/SP”.
Importante destacar que a robustez do campo em construção dentro
do PGAD/UNESP Tupã fez reexos sobre outras orientações colaterais,
em outros programas, de seus docentes com participação em outros pro-
gramas de pós-graduação. Assim, sob orientação, co-orientação ou colabo-
ração do Prof. Assoc. Nelson Russo de Moraes, Bruno Ricardo Carvalho
Pires produziu a dissertação “As mídias digitais e a perspectiva comunica-
cional da oralidade para a produção e reprodução do conhecimento tra-
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
313
dicional em comunidade quilombola: estudo da comunidade tradicional
quilombola de Lajeado – Dianópolis – TO”; Marciley Alves Dias a disser-
tação “A inuência do radiojornalismo em comunidades quilombolas” e,
Laurenita Gualberto Pereira Alves produziu “Brincadequê: brinquedos e
brincadeiras no Quilombo de Lageado”, todas pela Universidade Federal
de Tocantins (UFT).
produtos importAntes produzidos
O primeiro produto é, em verdade, composto por diversas comuni-
cações cientícas. Todas as pesquisas desenvolvidas no âmbito do PGAD
são ocialmente ligadas à trilha formativa de seus alunos, sendo de mestra-
do ou de doutorado. Neste sentido, cada uma das pesquisas de mestrado
(ainda não houve conclusões de doutorado com esta temática até o nal
de 2023) gerou uma dissertação que traz, para além da consecução dos
objetivos e de resposta ao problema central, um capítulo todo de apresen-
tação das características da comunidade estudada, de modo a servir como
instrumento legitimador de que àquela comunidade é tradicional.
Este capítulo ou seção da dissertação traz, de modo geral, uma boa
apresentação da localidade geográca, uma descrição histórica detalhada
sobre a formação da comunidade, contando com datas e relatos. Traz ainda
características da cultura e do modus vivendi, bem como a checagem destes
itens com requisitos geralmente postos nas legislações e estado da arte teó-
rico como legitimadores de povos tradicionais.
Destaca-se que um importante produto deste recorte de trabalho do
PGAD foram as parcerias com instituições e comunidades. Neste sentido,
houve a aproximação concreta da FCE/Tupã com povos tradicionais de
modo geral e, em especial, das comunidades indígenas de Vanuíre, Icatu e
Araribá, assim como das comunidades tradicionais quilombola de Lageado,
geraizeira da Matinha, ribeirinha do Senhor do Bonm, da comunidade
leta de Varpa dentre outras. Não obstante, em boa medida, a aproximação
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
314
foi possibilitada pela edicação de uma parceria fundamental dos pesquisa-
dores com o Museu Histórico e Pedagógico Índia Vanuíre (Tupã/SP), que
sempre manteve forte interesse pelo êxito dos trabalhos.
Ainda no campo das comunicações cientícas, são produzidos ar-
tigos e capítulos de livros com recortes parciais do trabalho, resultando
em documentos cientícos mais objetivos com respostas mais práticas
às questões orientadoras da pesquisa ou mesmo aos desaos postos pelas
comunidades.
Com o alargamento da quantidade de trabalhos e o aprofundamento
teórico próprio deste movimento, algumas parcerias foram sendo estrutu-
radas para a composição de comitês de orientação e de bancas, para o diá-
logo acerca dos métodos, para o melhor entendimento de uxos especí-
cos junto ao Comitê de Ética em Pesquisa com Pessoas (CEPP) e FUNAI,
dentre outras demandas. Nesta seara, trabalhos conduzidos pelos grupos
de pesquisa GEDGS e PGEA, dentre outros, por docentes do PGAD/
UNESP Tupã foram estruturando o entendimento de que haviam muitos
pesquisadores, docentes, estudantes e grupos isolados em suas faculdades
que se dedicavam a esta temática.
Desta necessidade, o grupo de pesquisa GEDGS planejou e
criou a Rede Internacional de Pesquisadores sobre Povos Originários e
Comunidades Tradicionais - RedeCT, que foi ocialmente apresenta-
da ao público em 22/05/2018, na Universidade Federal do Cariri, em
Juazeiro do Norte – Ceará (CE), por ocasião do X Encontro Nacional de
Pesquisadores em Gestão Social – ENAPEGS.
A RedeCT, contando hoje com mais de 150 associados do Brasil e
de outros países, tem como objetivo promover a cooperação entre pesqui-
sadores, professores, estudantes e grupos acadêmicos acerca de pesquisa,
ensino e extensão sobre povos tradicionais. Como resultados concretos, a
Rede criou e mantém, para além de articulações possibilitadas por redes
sociais e grupos, uma série de livros pela Editora da Universidade Federal
de Roraima (UFRR) e Editora Fi, com 11 volumes publicados e 125 ca-
pítulos para acesso gratuito. Criou e mantém o Webinário Permanente da
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
315
RedeCT, em que recebe pesquisadores, extensionistas e autores para dialo-
gar e divulgar seus trabalhos.
Em 2020, a RedeCT (2018) criou, mantendo edições anuais, o
Congresso Cientíco Internacional – CCI, que já contabiliza mais de
3.000 participações, além da publicação dos documentos Anais de cada
congresso. Destaca-se que o CCI de 2020 foi realizado a partir da UNESP
Tupã; em 2021 a partir de Palmas/TO (UFT e Universidade Federal do
Norte de Tocantins – UFNT); em 2022 a partir da Faculdade Indígena
Intercultural da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT) em
Barra do Bugres/Mato Grosso – MT. Em novembro de 2023 será realizado
a partir da Universidade da Amazônia (UNAMA) (Belém/Pará – PA) e
em 2024 na Faculdade de Arquitetura, Artes, Comunicação e Design –
FAAC/UNESP Bauru.
considerAções finAis
A produção de um campo de estudos, pesquisa e extensão, dentro
de uma determinada linha de um programa de pós-graduação, não é algo
que se realiza sem o esforço continuado das pessoas envolvidas. O bom
embate teórico, que reete fenômenos práticos da sociedade, encorajam ao
aprofundamento epistemológico e causal acerca da temática e, fortalece os
trabalhos colaborativos dos grupos de pesquisa mais críticos.
Os desenvolvimentos das pesquisas interdisciplinares acima descri-
tas geraram interlocução direta da complexa temática circunscrita com a
UNESP, abrindo um novo campo dentro do programa. Os corajosos estu-
dantes (e seus orientadores) que acreditaram nesta seara de pesquisa, espe-
cialmente vinculada à Linha 2 do PGAD, produzindo conhecimento a ser-
viço dos povos tradicionais, cam aqui lembrados de modo historiográco.
Os desaos postos pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável
– ODS encontram, neste repertório de pesquisas apresentados neste capí-
tulo, valiosos subsídios para os devidos aprofundamentos temáticos, sendo
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
316
que as versões completas das dissertações se encontram disponíveis no re-
positório da universidade, com acesso livre e gratuito.
Ao encontro de tantas demandas da sociedade de modo geral e dos
povos tradicionais em especíco, no PGAD (UNESP/Tupã) a demarcação
do território para a produção de conhecimento especíco sobre a história,
cultura, cosmovisão, direitos e políticas públicas de indígenas, quilombo-
las, geraizeiros, quebradeiras de coco babaçu, povos de terreiro, ribeirinhos
amazônicos, dentre outras, está consolidada.
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321
cApítulo 14
Práticas extensionistas associadas
à pesquisa e ao ensino: relato de
experiência do Grupo Kamby
Eduardo Guilherme SATOLO 1
Priscilla Ayleen Bustos MAC-LEAN 2
Isabela Garcia Mendes de Araujo SANTOS 3
Liliane Úbeda Morandi ROTOLI 4
Departamento de Gestão, Desenvolvimento e Tecnologia/Faculdade de Ciências e Engenharia, Universidade
Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil, e-mail: eduardo.satolo@
unesp.br.
Departamento de Engenharia de Biossistemas/Faculdade de Ciências e Engenharia, Universidade Estadual
Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil, e-mail: priscilla.mac-lean@unesp.br.
Programa de Pós-Graduação em Agronegócio e Desenvolvimento (PGAD), Faculdade de Ciências e
Engenharia, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil,
e-mail: isabela.garcia@unesp.br
Grupo de pesquisa Kamby (GPKamby), Faculdade de Ciências e Engenharia, Universidade Estadual
Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil, e-mail: liliane.um.rotoli@unesp.br.
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-534-6.p321-348
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
322
contextuAlizAção
A extensão universitária é um processo educativo, cultural e cientí-
co, que articula o Ensino e a Pesquisa de forma indissociável e viabiliza a
relação transformadora entre universidade e sociedade. Sua execução ocor-
re por meio de atividades extensionistas desenvolvidas nas modalidades de
programas, projetos, cursos, eventos e prestação de serviços, inseridos em
áreas temáticas e as quais são conduzidas junto à sociedade. A extensão na
Educação Superior Brasileira se integra à matriz curricular e à organização
da pesquisa, constituindo-se em processo interdisciplinar, político educa-
cional, cultural, cientíco e tecnológico. Com isso, a extensão universitária
é capaz de promover benefícios mútuos para a sociedade local e para as
universidades, de tal forma que extensão é revestida de importância social
por atuar diretamente na assistência a grupos que necessitam de conheci-
mento (Deslandes; Arantes, 2017).
Em nível de pós-graduação, segundo Moita e Andrade (2009), a ex-
tensão “[...] termina por ser relegada a um lugar secundário, (…) contribuin-
do para práticas de pesquisa e ensino dissociadas da realidade”. Perpetuar
este modelo dissociado de ensino, de pesquisa e de extensão, resulta na perda
de em um espaço estratégico de geração do conhecimento, que favorece a
multidisciplinaridade, o desenvolvimento da consciência cidadã e humana,
bem como a formação de pessoas capazes de serem agentes proponentes de
mudança na sociedade com postura ativa e crítica (Castro, 2004).
O programa de Pós-Graduação em Agronegócio e Desenvolvimento
(PGAD), desde 2014, dentro de sua dinâmica de atuação interdiscipli-
nar, atrelada a seu objeto central de pesquisa, o agronegócio, tem sido um
meio propício e incentivador para os pesquisadores atuarem na extensão de
modo associado ao ensino e a pesquisa.
Neste cenário, este capítulo tem como objetivo trazer um relato de
experiência das atividades extensionistas associadas à pesquisa e ao ensino
desenvolvidas pelo Grupo de Pesquisa e Programa de Extensão Kamby
(Grupo Kamby). O Grupo Kamby tem atuado desde 2015 junto a cadeia
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
323
produtiva leiteira desenvolvendo a tríade ensino-pesquisa-extensão na bus-
ca da melhora da qualidade e quantidade do leite produzido na região da
Alta Paulista impulsionando a inovação e transformação social.
AtividAdes extensionistAs e suAs AbordAgens
A extensão universitária apresenta-se como uma ferramenta indis-
pensável de aproximação da população em geral às universidades, pois
realiza a interação transformadora entre a universidade e setores da so-
ciedade por meio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão
(Forproex, 2012). É considerada a principal maneira de mitigar a visão de
que o acesso à universidade ou faculdade é algo distante, e que era restrito
à elite econômica (Pinheiro; Narciso, 2022).
Sua construção histórica, no que remete a aplicação do conceito de
extensão universitária percorreu quatro vertentes ao longo do tempo. Em
um primeiro momento, a extensão era o processo de transmissão do co-
nhecimento da Universidade para a sociedade, perfazendo da Universidade
a detentora única do conhecimento. No segundo momento, inicia-se a
apresentação do conhecimento cientíco gerado em associação a cultu-
ra local para além dos muros da Universidade, sendo esta um meio de
transformação da sociedade. Retrocedendo, em um terceiro momento,
a Universidade retoma uma visão conservadora e antidialógica e torna
a extensão um papel assistencialista. Por m, em seu momento atual, a
Universidade apoiada por diretrizes, reconhece a indissociabilidade entre
o ensino, pesquisa e extensão, e sua execução está alicerçada em troca de
saberes, envolto ao diálogo entre acadêmicos e a sociedade, oportunizando
a práxis do conhecimento (Bolzan, 2023).
Desta forma, em sua visão atual, as atividades de extensão na
Universidade se caracterizam pelo caráter educativo, no sentido de tornar
as pessoas aptas a utilizar o conhecimento em suas próprias situações de
vida (Unesp, 2022). E ainda, tem o propósito interdisciplinar, político e
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
324
acadêmico por proporcionar a interação entre a universidade e os setores
sociais (Forproex, 2012)
Com isso, a extensão universitária passa a ter um importante papel
no processo de aprendizagem discente e da sociedade. Este processo cíclico
de aprendizagem (Figura 1) ocorre por meio da transmissão do conheci-
mento da teoria (práxis) advinda da universidade, por intermédio de seus
discentes (alunos) e docentes, que é levada à comunidade ao qual está in-
serida (comunidade beneciada). A transmissão do conhecimento teórico,
permite explicar situações e fenômenos cotidianos da população, disse-
minando o conhecimento acadêmico. A junção do conhecimento teórico
com o conhecimento empírico (prático) da sociedade, resulta na qualica-
ção por completo dos cidadãos (Pinheiro; Narciso, 2022).
Figura 1 – Processo cíclico de aprendizagem por meio da extensão
universitária
Fonte: Adaptado de Pinheiro e Narciso (2022).
O processo de transmissão deste conhecimento teórico da
Universidade para a sociedade, seja esta de setores públicos ou privados,
se dá por meio de atividades extensionistas (Quadro 1) desenvolvidas nas
modalidades de programas, projetos, cursos, eventos e prestação de servi-
ços (Brasil, 2018; MEC, 2018).
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
325
Quadro 1 – Tipos de atividades extensionistas e suas denições
Atividade
extensionista Denição
Programa
Caracteriza-se como o conjunto de atividades permanentes articuladas
ao ensino e à pesquisa, de caráter orgânico-institucional, direcionadas às
questões relevantes de toda a sociedade, de forma dialógica, buscando
a complementação da formação acadêmica, cientíca, tecnológica,
social, cultural, econômica, política e humanística dos discentes e ao
desenvolvimento sustentável, observada a legislação complementar e
especíca.
Projetos
Caracterizado por ações cientíco-acadêmicas integradas, realizadas em
prazo determinado, indissociáveis ao ensino e à pesquisa, visando à produção
e compartilhamento dialógico de conhecimentos e saberes que envolvam
problemas e/ou demandas da sociedade.
Cursos
Ofertados à comunidade externa, objetivam a socialização do conhecimento
acadêmico, potencializando o processo de interação entre Universidade e
demais setores da sociedade, mediante a execução de calendário próprio e
conteúdo programático.
Eventos
Caracterizam-se pela articulação primordial junto aos demais setores da
Sociedade e podem ser realizados sob a forma de mostras, encontros,
simpósios, ocinas, congressos, jornadas, conferências ou ciclos de
conferências, seminários, fóruns, debates ou ciclo de debates, reuniões
técnicas, concertos, festivais, manifestações artísticas e culturais, ateliês,
exposições e similares, dirigidos a públicos especícos.
Prestação de
serviços
Atividade de entrega de soluções inovadoras e troca de experiências com a
sociedade a partir do patrimônio intangível da universidade – compreendido
como conjunto indissociável de práticas, expressões, conhecimentos e
técnicas que contemplam a dimensão dialógica do Ensino, Pesquisa e
Extensão Universitária.
Fonte: Adaptado de Unesp (2022).
o progrAmA de extensão KAmby e suAs Ações de pesquisA e de ensino: A
origem
O programa de extensão Kamby, tem como marco temporal de cria-
ção o ano de 2015 na Faculdade de Ciências e Engenharia, da Universidade
Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Campus de Tupã.
Neste ano, o então projeto de extensão Kamby “De olho no leite” iniciou
suas atividades tendo como objetivo integrar estudantes universitários, téc-
nicos e produtores de leite da região de Tupã, através da troca de conheci-
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
326
mento técnico e prático, visando a melhora da produção leiteira da região,
tanto da qualidade quanto da qualidade do leite produzido.
O fato motivador para sua criação foi o impacto negativo gerado
pelo encerramento das atividades da cooperativa local, que suscitou insta-
bilidade nos produtores leiteiros da região, caracterizados principalmente
pelo perl de produção familiar, e que se viam desamparados quanto ao
futuro de suas atividades pecuárias.
Localizado na Alta Paulista, região de forte inuência indígena no
estado de São Paulo, o termo Kamby foi escolhido como forma de home-
nagear os povos originários locais, haja vista que a origem do termo kamby
provêm do dialeto Tupi-guarani, que é traduzido como leite proveniente
do seio.
Em seu primeiro ano, o foco das atividades se deu em atividades
extensionistas, nas quais buscou-se mapear e caracterizar os produtores
leiteiros da região e posteriormente levar informações técnicas sobre a
pecuária leiteira.
Em 2016, o projeto de extensão ganhou novas atividades com a vin-
culação de atividades de pesquisa em nível de graduação (por meio da
iniciação cientíca) e a vinculação com atividades de ensino junto a disci-
plinas do curso de bacharelado em Engenharia de Biossistemas.
A complexidade dos problemas identicados junto às atividades de
extensão promoveram no ano de 2017 a inserção de pesquisas em nível
de pós-graduação, vinculando o projeto de extensão Kamby ao Programa
de Pós-Graduação em Agronegócio e Desenvolvimento (PGAD) da mes-
ma instituição.
Em 2020, amparado pelo amadurecimento do projeto de exten-
são, que conduzia então atividades de ensino e de pesquisa em nível de
graduação, mestrado e doutorado, culminou na formalização perante o
Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientíco e Tecnológico (CNPq)
do Grupo de Pesquisa Kamby – GPKamby – Boas Práticas na Pecuária
Leiteira (CNPQ, 2023).
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
327
O GPKamby é formado por três Linhas de Pesquisa (LP), as quais são:
LP 1 – Boas práticas de fabricação e qualidade do leite: objetiva
estudar os meios de fabricação do leite e seus derivados de forma
que estes possam ser aperfeiçoados por meio de técnicas de boas
práticas sanitárias e de manejo. Além disso, pretende avaliar a
qualidade do leite de pequenos, médios e grandes produtores
de Tupã e região, além de associar as melhorias de boas práticas
de fabricação à melhoria da qualidade de acordo com as norma-
tivas de produção e qualidade do Ministério da Agricultura e
Pecuária.
LP 2 – Ambiência e pecuária leiteira 4.0: objetiva estudar o efei-
to do ambiente em rebanhos leiteiros de Tupã e região e de-
senvolver novas tecnologias para a melhoria do ambiente para
animais e trabalhadores do setor leiteiro. A manutenção do con-
forto térmico e o estudo do comportamento, assim como das
variáveis siológicas e imunológicas dos animais são ferramentas
que auxiliarão na tomada de decisão na propriedade e no projeto
de inovações tecnológicas voltadas ao setor.
LP 3 – Gestão da cadeia produtiva leiteira: objetiva estudar o
gerenciamento da cadeia de suprimentos leiteira. Contempla
aspectos de planejamento e o gerenciamento das atividades en-
volvidas no fornecimento e suprimento. Atua em estudos de co-
ordenação e colaboração com parceiros de canal (fornecedores,
intermediários, provedores de serviços terceirizados e clientes),
operações de fabricação, coordenação de processos e atividades
com e por meio de marketing, vendas, design de produtos, -
nanças e tecnologia da informação.
A concepção das linhas de pesquisa do GPKamby visa ir ao encontro
das atividades conduzidas pelo projeto de extensão, permitindo analisar os
avanços na cadeia produtiva, as exigências de qualidade do leite, a gestão
da cadeia leiteira, o crescimento da cadeia produtiva a nível regional, na-
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
328
cional e mundial, a organização dos produtores e demais elos da cadeia,
assim como as necessidades dos animais, produtores e mercado quanto aos
aspectos sanitários, de boas práticas e aplicação de novas tecnologias para a
melhoria deste setor agropecuário.
Consolidado pelas atividades extensionistas realizadas, e as quais se
articulam de modo indissociável ao ensino e a pesquisa, em 2022 os co-
ordenadores do projeto de extensão submeteram uma proposta para alte-
ração de status, formalizando a partir de 2023, o Programa de Extensão
Kamby “Boas práticas na Pecuária Leiteira” (Figura 2).
Figura 2 – Linha do tempo do Programa de Extensão Kamby “Boas
práticas na Pecuária Leiteira
Fonte: Elaborada pelos autores (2024).
Desta forma, em 2023, reassumindo seu propósito, o programa de
extensão Kamby reestabeleceu seu objetivo que é “melhorar a produção
leiteira na região de Tupã, tanto em quesitos quantitativos quanto qualita-
tivos do leite produzido, por meio da difusão do conhecimento e troca de
experiências entre o seu público-alvo”.
Por meio de suas atividades extensionistas de difusão do conheci-
mento, o programa contribui junto a política proposta pelos Objetivos
de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
329
(ONU). Tal política foi constituída por 17 Objetivos de Desenvolvimento
Sustentável (ODS), que juntos formam um quadro para orientar a atuação
dos governos, órgãos internacionais, sociedade civil e outras instituições ao
longo dos próximos 15 anos com a nalidade de promover uma agricultu-
ra sustentável, erradicar a pobreza extrema e a fome (FAO, 2015).
O programa de extensão Kamby em suas atividades extensionistas
favorece avanços para o desenvolvimento sustentável, uma vez que auxilia
diretamente no cumprimento dos ODS. Com destaque para os ODS 2
que retrata sobre o combate à fome e o planejamento de uma agricultura
sustentável, ODS 8 que versa sobre as condições de trabalho decente e
crescimento econômico regional e nacional e o ODS 12 que discorre sobre
consumo e produções responsáveis visando assegurar padrões de produção
e consumo sustentável dos alimentos (FAO, 2015).
o progrAmA de extensão KAmby e suAs metAs
As ações promovidas pelo programa Kamby estão planejadas para o
quadriênio 2023-2026, e tem oito metas de realização:
1. Fazer parceria com associações, prefeituras, casas da agricultura,
escolas, outros projetos e programas de extensão e outras entida-
des relacionadas a produção leiteira;
2. Mapear os produtores de leite e laticínios localizados na região
da Alta Paulista;
3. Disseminar conhecimento a produtores rurais, extensionistas e
laticínios por meio de workshops, dias de campo e reuniões téc-
nicas, por meio de eventos presenciais e on-line, alinhados às
diculdades técnicas, de gestão previamente levantadas, de co-
nhecimentos básicos e do consumo de leite;
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
330
4. Aumentar a difusão do conhecimento disseminado por meio de
redes sociais atingido o público-alvo direta e indiretamente en-
volvido pelas ações do programa (@kamby.unesp);
5. Promover a integração entre os diversos agentes da cadeia pro-
dutiva leiteira);
6. Promover a integração com a comunidade externa que não está
diretamente ligada a cadeia produtiva do leite, como estudantes
do ensino médio, idosos e crianças, e escolas da região;
7. Participar e apoiar feiras, exposições agropecuárias, torneios lei-
teiros que envolvam os diferentes elos da cadeia produtiva lei-
teira; e
8. Conciliar o programa de extensão com projetos de pesquisa da
unidade (GPKamby e outros).
O atendimento às metas traçadas para o quadriênio em questão
contemplam a continuidade do mapeamento de produtores de leite da
região da Alta Paulista, do estabelecimento de parceria com associações,
prefeituras, casas da agricultura, escolas, projetos e programas de exten-
são e outras entidades relacionadas à produção leiteira, a disseminação do
conhecimento a produtores rurais, extensionistas e laticínios por meio de
workshops, dias de campo e reuniões técnicas, presenciais e on-line, além da
preparação de materiais de apoio.
Todas estas metas estão alinhadas às diculdades técnicas, de gestão,
de conhecimentos básicos de manejo e sanitários, assim como do consumo
de leite, as quais foram previamente levantadas e conciliadas ao programa
de extensão pelos projetos de pesquisa realizados na Unidade, por pesqui-
sadores do Grupo de Pesquisa Kamby.
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
331
o progrAmA de extensão KAmby retrAtAdo em números e imAgens
Em seus 8 anos de atuação, o programa Kamby auxiliou mais de 180
produtores leiteiros distribuídos em 19 municípios do entorno da região
da Alta Paulista (Figura 3).
Figura 3 – Municípios dos produtores leiteiros atendidos pelo
programa Kamby
Fonte: Elaborada pelos autores (2024).
Para fomentar as diversas atividades extensionistas propostas pelo
programa Kamby é necessária a atuação de diversos agentes, que partici-
pam como parceiros. Para isso, o programa Kamby conta constantemente
com parcerias de entidades públicas e privadas que agregam apoio técnico
e conhecimento (Figura 4).
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
332
Figura 4 – Agentes participantes do programa Kamby
Fonte: Elaborada pelos autores (2024).
As ações de extensão e de pesquisa são conduzidas por discentes re-
gularmente matriculados nos cursos de graduação e pós-graduação, e que
são amparados pelos coordenadores do programa Kamby, que executam o
papel de orientação. Ao longo destes 9 anos 65 discentes foram orientados,
por vezes com bolsas de pesquisa e de extensão provenientes de agências
de fomento e da Universidade (Figura 5). O PGAD destaca-se neste ce-
nário como um propulsor das ações de ensino-pesquisa-extensão, atuando
em via de mão dupla por vezes, ao gerar temáticas de pesquisa que são
solucionadas com amparo da extensão e do ensino, e ao ser o meio cien-
tíco para solução de problemáticas identicadas por meio das atividades
extensionistas.
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
333
Figura 5 – Quantitativo de discentes de graduação e de pós-graduação
orientados junto ao Grupo Kamby
Fonte: Elaborada pelos autores (2024).
As AtividAdes extensionistAs reAlizAdAs pelo grupo KAmby
O Grupo Kamby é formado por membros atuantes no grupo de
pesquisa (GPKamby) e/ou no programa de extensão Kamby. Neste con-
junto encontram-se estudantes de graduação dos cursos de graduação em
engenharia de biossistemas e administração e de pós-graduação e pesquisa-
dores vinculados ao PGAD, que juntos conduzem as atividades extensio-
nistas, que possuem objetivos especícos e atinge a diversos públicos-alvo,
os quais são retratados no Quadro 2.
Quadro 2 – Atividades extensionistas realizadas pelo Grupo Kamby, seus
objetivos e público-alvo
Atividade extensionista Objetivo Público-Alvo
Protagonistas do Campo
Focada no público-alvo feminino que
traz difusão do conhecimento e troca
de experiências com mulheres que são
destaques em suas atividades no campo.
Estudantes universitários,
professoras, técnicas,
extensionistas, produtoras
de leite, laticínios e
população feminina em
geral.
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
334
Atividade extensionista Objetivo Público-Alvo
Torneio Leiteiro de Tupã
Torneio de leite, focado em produtores
leiteiros da região de atuação do
programa, e que busca por meio
da competição premiar por meio
da análise da qualidade de leite os
produtores de destaque.
Produtores de leite
Encontro de Boas
Práticas na Pecuária
Leiteira
Encontro anual promovido pelo GPE
Kamby desde 2016, que visa trazer
conhecimento a cadeia produtiva
leiteira da região de atuação do
programa por meio de palestras.
Estudantes universitários,
professoras, técnicas,
extensionistas, produtores
de leite e população
feminina em geral.
Atividades Junto a
Escolas de Educação
Infantil
Divulgação do conhecimento às
crianças do ensino fundamental sobre
a origem do leite, assim como seus
principais derivados e apresentar
in loco uma propriedade rural de
produção leiteira
Crianças do ensino
infantil e fundamental
Atividades Junto a Idosos
Divulgação do conhecimento a idosos
sobre a origem do leite, assim como
seus principais derivados e apresentar
in loco uma propriedade rural de
produção leiteira
Programas de extensão
que atendem a terceira
idade
Produtores de leite e
queijos
Atividades com os
Produtores Rurais
para melhorias nas
propriedades;
Divulgação do conhecimento de boas
práticas na pecuária leiteira, que podem
ter diferentes abordagens, como sanitária,
alimentação, manejo de ordenha, para
atender demandas especícas.
Estudantes universitários,
técnicos, extensionistas,
produtores de leite e
população em geral.
Divulgação de material
em aplicativos e redes
sociais
Divulgação de conteúdo associado
à pecuária leiteira em aplicativos e
redes sociais de modo a proporcionar
atualização de conhecimento.
Estudantes universitários,
técnicos, extensionistas,
produtores de leite e
população em geral.
Realização de “lives” para
atender demanda dos
produtores
Realização de lives em redes sociais com
agentes da cadeia leiteira abordando
conteúdo da pecuária leiteira de
modo a proporcionar atualização de
conhecimento.
Estudantes universitários,
técnicos, extensionistas,
produtores de leite e
população em geral.
Entrega da Cartilha de
Boas Práticas na Pecuária
Leiteira
Distribuição a produtores rurais leiteiros
de uma cartilha com as principais
orientações sobre o processo de boas
práticas de ordenha na pecuária leiteira
Produtores de leite
Programa de Extensão
Kamby
Melhorar a produção leiteira na
região de Tupã, tanto em quesitos
quantitativos quanto qualitativos do
leite produzido, por meio da difusão do
conhecimento e troca de experiências
entre o seu público-alvo
Produtores rurais,
prefeituras, empresas,
sindicatos, Instituição de
Ensino Superior, Escola
de Educação Infantil,
laticínios, associações,
cooperativas, instituições
extensionistas
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
335
Atividade extensionista Objetivo Público-Alvo
Gestão de indicadores
reprodutivos – Kamby:
difundindo dados e
conhecimento
Realizar ações de gestão de dados e
de difusão do conhecimento junto a
produtores leiteiro da região de Tupã,
atendidos pelo Programa +Pecuária
Brasil na busca da melhora dos índices
reprodutivos na propriedade e auxílio
na tomada de decisão
Produtores de leite
Fonte: Elaborado pelos autores (2024).
As atividades extensionistas realizadas pelo Grupo Kamby impactam
de modo direto e indireto os diversos agentes que atuam na cadeia produti-
va leiteira. Tal aspecto é favorecido pela diversidade do perl das atividades
extensionistas propostas. No Quadro 3 são apresentadas as relações para
cada atividade extensionista, junto a classicação quanto ao tipo e quais
são os agentes participantes envolvidos.
Quadro 3 – Atividades extensionistas e sua classicação quanto ao tipo e
agentes participantes
Atividade extensionista
Tipo de
atividade
extensionista Agentes participantes envolvidos
Evento
Curso
Programa
Projeto
Produtor Rural (PR)
Prefeitura (P)
Empresa (E)
Sindicato (S)
Inst. Ens. Superior (IES)
Esc. Educ. Inf. (EEI)
Laticínios (L)
Associações (A)
Cooperativas (C)
Inst. Extensionistas (IE)
Programa de Extensão Kamby x x x x x x x x x x x
Gestão de indicadores
reprodutivos – Kamby:
difundindo dados e
conhecimento
x x x x x
Protagonistas no campo x x x x x x x x
Torneio Leiteiro de Tupã x x x x x x x x x
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
336
Encontro de Boas Práticas na
Pecuária Leiteira x x x x x x x x x
Atividades Junto a Escolas de
Educação Infantil x x x x x
Atividades com os Produtores
Rurais para melhorias nas
propriedades x x x x x x x x x x
Divulgação de material em
aplicativos e redes sociais x x x x x x
Realização de “lives” para
atender demanda dos
produtores x x x x x x
Entrega da Cartilha de Boas
Práticas na Pecuária Leiteira x x x x x x x x
Fonte: Elaborada pelos autores (2024).
De modo a ilustrar as relações existentes entre as atividades exten-
sionistas, o tipo de atividade e os agentes participantes, empregou o uso da
teoria de redes, a qual advém da Análise de Redes Sociais (ARS), do inglês,
social network analysis. ARS é um método de pesquisa na área de ciências
sociais aplicadas que objetiva entender as relações entre diversos atores in-
ter ou intra conectados (Mollo Neto, 2015). A construção das redes foi
conduzida por meio do software Gephi® versão 0.10.0.
Desta forma, a Figura 6 apresenta as relações entre atividades ex-
tensionistas (em azul), o tipo de atividade extensionista (em amarelo) e os
agentes participantes (em verde). O tamanho do nó (círculo) representa o
nível de interação, sendo que quanto maior o nó, maior a representativi-
dade (Maciel, 2018).
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
337
Figura 6 – Relação das atividades extensionistas realizadas pelo Grupo
Kamby, o tipo e os agentes participantes
Fonte: Elaborada pelos autores (2024).
Em observação a Figura 6 nota-se que as atividades extensionistas
apresentam-se de quatro tipos: programa, evento, curso e projeto. A na-
tureza da história do Kamby fez com que em sua trajetória se tornasse um
programa, preconizando ações de longo prazo na cadeia produtiva leitei-
ra. Embora não seja visível, devido a classicação teórica das atividades
extensionistas, as atividades extensionistas conduzidas derivam do Grupo
Kamby, o qual apresenta-se como a linha condutora das atividades de ex-
tensão. Com isso, são realizadas atividades extensionistas de perl de even-
to (70%), de curso (10%) e de projeto (10%).
Todas estas atividades atingem a todos os agentes envolvidos na ca-
deia produtiva leiteira, sendo destaque os produtores rurais leiteiros (prin-
cipal sujeito das atividades) e os discentes da Universidade, que são 100%
envolvidos pelas atividades extensionistas. Destaca-se que os discentes são
agentes ativos de transformação, realizando o planejamento, organização e
execução das atividades extensionistas, o que permite ao Grupo Kamby co-
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
338
operar para o atendimento da curricularização da extensão, que se tornou
obrigatória para cursos de graduação a partir de 2023.
Outros agentes de destaque pelas atividades extensionistas realiza-
das são as cooperativas (90%), associações (80%) e laticínios (60%), que
se apresentam como os principais beneciários do produto gerado pelos
produtores. A relação entre estes elos torna-se importante, uma vez que a
partir das legislações IN nos 76 e 77 (Mapa, 2018a, 2018b), que entraram
em vigor em maio de 2019, houve mudanças sobre os padrões mínimos
de qualidade exigidos e o estabelecimento de punições em caso do não
atendimento. Neste ponto, prover o relacionamento entre estes agentes é
primordial para a competitividade da cadeia.
Agentes como prefeituras e instituições extensionistas potencializam
as atividades extensionistas conduzidas, principalmente por fazerem o pa-
pel, por vezes, de elo motivacional entre o produtor rural e as atividades
propostas. As parcerias entre governo e projetos de extensão é uma opção
na busca de soluções sustentáveis para problemas locais e regionais e re-
dução das desigualdades socioeconômicas (Lopes et al., 2013). Por m, as
escolas de educação infantil são um importante meio para demonstrar a
importância da cadeia e desmisticar falsos conceitos atribuídos ao leite.
A ciência tem em sua essência a busca pela solução de um problema,
que comumente é realizado por meio da sistematização de conhecimen-
tos, que são observados, identicados, categorizados, explicados e a partir
de então formuladas teorias para explicação e solução. Neste cenário, por
vezes, produtores leiteiros, associações, cooperativas, prefeituras e institui-
ções extensionistas contataram o Grupo Kamby para apresentar problemas
e solicitar apoio na busca por uma solução.
Os problemas trazidos por estes agentes da cadeia leiteira caracte-
rizam-se como problemas reais advindos da sociedade e que motivam a
pesquisa na busca por uma forma de solução. É interessante observar que
por vezes a solução do problema não passa apenas pela solução teórica, mas
pela condução de um conjunto de ações, que envolve por vezes diversas ati-
vidades extensionistas. Apresenta a relação entre as atividades extensionis-
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
339
tas, as linhas de pesquisa, o nível de pesquisa desenvolvido e se há relação
também com o ensino (Quadro 4).
Quadro 4 – Atividades extensionistas e suas relações com as linhas de
pesquisa, o nível de pesquisa desenvolvido e o ensino
Atividade extensionista
Vinculação com
pesquisa Vinculação
com ensino
Linha de Pesquisa
G M D LP 1 LP 2 LP 3
Programa de Extensão Kamby x x x x x x x
Gestão de indicadores
reprodutivos – Kamby:
difundindo dados e
conhecimento
x x x x x x x
Protagonistas no campo x x
Torneio Leiteiro de Tupã x x
Encontro de Boas Práticas na
Pecuária Leiteira x x x x
Atividades Junto a Escolas de
Educação Infantil x x x x x
Atividades com os Produtores
Rurais para melhorias nas
propriedades x x x x
Divulgação de material em
aplicativos e redes sociais x x x x x x
Realização de “lives” para atender
demanda dos produtores x x x x x x
Entrega da Cartilha de Boas
Práticas na Pecuária Leiteira x x x x x
Fonte: Elaborada pelos autores (2024). Legenda: G – graduação, M – mestrado, D – doutorado, LP – Linha
de Pesquisa
Neste contexto, a Figura 7 retrata a rede das atividades extensionistas
desenvolvidas pelo Grupo Kamby relacionam-se às linhas de pesquisa (em
amarelo), ao nível de pesquisa desenvolvido (em vermelho) e ao ensino
(em rosa). O tamanho do nó (círculo) representa o nível de interação,
sendo que quanto maior o nó, maior a representatividade (Maciel, 2018).
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
340
Figura 7 – Relacionamento entre atividades extensionistas do Grupo
Kamby com linhas de pesquisa, nível de pesquisa e ensino
Fonte: Elaborada pelos autores (2024).
Observa-se, na Figura 7, que as ações de pesquisa conduzidas pelo
Grupo Kamby envolvem suas três linhas de pesquisa. A linha de pesquisa
1, boas práticas de fabricação e qualidade do leite, destaca-se por ter re-
percussão junto a todas as atividades extensionistas, enquanto a linha de
pesquisa 3, gestão da cadeia produtiva leiteira e a linha de pesquisa 2, am-
biência e pecuária leiteira 4.0 possuem repercussão em 90% e 80% respec-
tivamente. Tal fato demonstra um alinhamento apropriado das atividades
extensionistas como meio para enfrentamentos e solução aos problemas
que são identicados na sociedade.
O desenvolvimento da pesquisa ocorre sob diversos níveis propostos
pela Universidade, com pesquisas em nível de graduação (iniciação cientí-
ca), mestrado e doutorado.
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
341
Por vezes, os problemas para sua solução não carecem apenas da
pesquisa e da ação do pesquisador, mas de ensinar como agir e criar uma
cultura perante o problema para que ele não volte a acontecer. Por isso,
o ensino tem signicativa importância dentre as atividades extensionistas
realizadas pelo Grupo Kamby, vinculada a 80% das atividades e resultando
na tríade indissociável ensino-pesquisa-extensão.
Desta forma, toda atividade extensionista conduzida gera um im-
pacto sobre a sociedade, seja esta de forma isolada, ou quando vinculada ao
tripé de pesquisa ou de ensino. O Quadro 5 apresenta como se relacionam
às atividades extensionistas e os impactos que são gerados para a sociedade.
Quadro 5 – Atividades extensionistas e o tipo de impacto gerado para a
sociedade
Atividade extensionista
Tipo de impacto
Social
Ambiental
Econômico
Político
Educacional
Programa de Extensão Kamby x x x x
Gestão de indicadores reprodutivos – Kamby: difundindo dados
e conhecimento x x x x x
Protagonistas no campo x x x
Torneio Leiteiro de Tupã x x
Encontro de Boas Práticas na Pecuária Leiteira x x x x x
Atividades Junto a Escolas de Educação Infantil x x x x x
Atividades com os Produtores Rurais para melhorias nas
propriedades x x x x
Divulgação de material em aplicativos e redes sociais x x x x
Realização de “lives” para atender demanda dos produtores x x x x
Entrega da Cartilha de Boas Práticas na Pecuária Leiteira x x x x
Fonte: Elaborada pelos autores (2024).
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
342
A Figura 8 ilustra por meio da rede como as atividades extensionistas
(em azul) atuam sobre os diversos tipos de impacto (em roxo). O tamanho
do nó (círculo) representa o nível de interação, sendo que quanto maior o
nó, maior a representatividade (Maciel, 2018).
Nota-se que o impacto do tipo econômico apresenta a maior repre-
sentatividade, seguido pelo impacto social e educacional. A representativi-
dade destes impactos é explicada pela própria natureza do Grupo Kamby
que busca atuar na melhoria da qualidade e da quantidade de leite produ-
zido. A melhora da qualidade está diretamente associada ao aspecto social
e educacional, enquanto a quantidade verte sobre o aspecto econômico.
Junto a isso, tem-se a conscientização sobre os impactos ambientais das
atividades, e as ações políticas que são desenvolvidas.
Figura 8 – Atividades extensionistas do Grupo Kamby e tipos de impacto
Fonte: Elaborada pelos autores (2024).
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
343
Por m, como descrito anteriormente, o Grupo Kamby dentro de
sua premissa atua em prol dos ODS 2, 8 e 12. As atividades extensionistas
então promovidas pelo Grupo Kamby relacionam-se a tais ODS, gerando
um impacto positivo na sociedade. O Quadro 6 retrata como as atividades
extensionistas relacionam-se aos ODS.
Quadro 6 – Relacionamento das atividades extensionistas aos ODS de
atuação do Grupo Kamby
Atividade Extensionista ODS 2 ODS 8 ODS 12
Programa de Extensão Kamby x x x
Gestão de indicadores reprodutivos – Kamby: difundindo
dados e conhecimento x x
Protagonistas no campo x
Torneio Leiteiro de Tupã x x
Encontro de Boas Práticas na Pecuária Leiteira x x x
Atividades Junto a Escolas de Educação Infantil x
Atividades com os Produtores Rurais para melhorias nas
propriedades xxx
Divulgação de material em aplicativos e redes sociais x x x
Realização de “lives” para atender demanda dos produtores xxx
Entrega da Cartilha de Boas Práticas na Pecuária Leiteira x x x
Fonte: Elaborada pelos autores (2024).
A Figura 9 ilustra, por meio da rede, as atividades extensionistas do
Grupo Kamby (em azul) e os ODS (em verde). O tamanho do nó (círcu-
lo) representa o nível de interação, sendo que quanto maior o nó, maior a
representatividade (Maciel, 2018).
Visualiza-se por meio da Figura 9 que o atendimento aos ODS é re-
alizado de diversas formas por meio das atividades extensionistas, havendo
uma pequena superioridade na representatividade do ODS 8 (consumo e
produção responsável), frente ao ODS 2 (fome zero e agricultura sustentá-
vel) e ao ODS 12 (trabalho decente e crescimento econômico).
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
344
Quando se confronta com os ODS desenvolvidos pelo PGAD deno-
ta-se uma sinergia com os conduzidos pelo grupo Kamby. O PGAD possui
uma elevada atuação nos ODS 2 e 12, tendo ainda o ODS 2 uma sinergia
com o ODS 8. Este aspecto demonstra o alinhamento estratégico das ações
propostas entre o grupo Kamby e o PGAD.
Figura 9 – Atividades extensionistas do Grupo Kamby e sua relação
com os ODS
Fonte: Elaborada pelos autores (2024).
considerAções finAis
O Grupo Kamby em seus anos de atuação é relevante ao gerar e
levar conhecimento a produtores rurais, técnicos, pesquisadores, alunos
de graduação e pós-graduação, de cursos técnicos, de ensino fundamental
e idosos.
As atividades extensionistas realizadas permitem que o público-alvo
aprimore seus conhecimentos sobre a cadeia produtiva leiteira, a m de
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
345
instigar o conhecimento e que estes sejam também atores na divulgação do
que foi aprendido.
A condução da extensão na Universidade é preconizada pela indis-
sociabilidade com a pesquisa e ao ensino, sendo que, como demonstrado
neste capítulo, por vezes a interação com a sociedade é o chamariz para
identicação de problemas de pesquisa, e o ensino um dos alicerces para a
difusão do conhecimento.
Em nível de pós-graduação, a atuação do Grupo de Pesquisa e do
Programa de Extensão Kamby, destaca-se por conduzir de forma indisso-
ciável suas atividades no que se refere ao ensino-pesquisa-extensão. Esta
construção coletiva apresenta-se complexa e envolve para sua realização
o emprego de diversas áreas de conhecimento e saberes, em um processo
interdisciplinar que promove resultados que impactam diretamente a so-
ciedade, em especíco aos agentes atuantes na cadeia produtiva leiteira.
Desta forma, a condução da extensão, no que remete ao Grupo
Kamby auxilia na superação dos problemas advindos da sociedade e im-
pacta positivamente em aspectos econômico, social, educacional, ambien-
tal e político.
Por m, destaca-se a contribuição à sociedade que o Grupo Kamby
reete junto aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, pro-
movendo atividades extensionistas, alinhadas a pesquisa e ao ensino em
prol do consumo e produção responsável (ODS 8), ao alcance da fome
zero e de uma agricultura sustentável (ODS 2) e do trabalho decente e
crescimento econômico (ODS 12).
referênciAs
BRASIL. Parecer CNE/CES nº 608/2018, aprovado em 3 de outubro de 2018 -
Diretrizes para as Políticas de Extensão da Educação Superior Brasileira. 2018.
Disponível em: http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=down
load&alias=102551-pces608-18&category_slug=novembro-2018-pdf&Itemid=30192.
Acesso em: 13 ago. 2024.
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
346
BOLZAN, L. M. Ação extensionista: uma oportunidade da universidade comilitar ao
lado de pessoas em vulnerabilidade de gênero. Expressa Extensão, Pelotas, v. 28, n. 2, p.
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MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, PECUÁRIA E ABASTECIMENTO (MAPA).
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2018. Brasília: Mec. Disponível em: https://normativasconselhos.mec.gov.br/normativa/
pdf/CNE_RES_CNECESN72018.pdf. Acesso em: 15 set. 2023.
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
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348
349
cApítulo 15
Contribuições do Grupo de Pesquisa
em Gestão e Educação Ambiental
para o diálogo interdisciplinar
e a formação socioambiental no
Programa de Pós-Graduação em
Agronegócio e Desenvolvimento
Angélica Góis MORALES 1
Cristiane Hengler Corrêa BERNARDO 2
Jéssica Dayane Nunes PESSÔA 3
Karina Abreu FINATI 4
Monique Matsuda dos SANTOS 5
Valquiria Cristina MARTINS 6
Departamento de Gestão, Desenvolvimento e Tecnologia/Faculdade de Ciências e Engenharia, Universidade
Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil, e-mail: ag.morales@unesp.br.
Departamento de Gestão, Desenvolvimento e Tecnologia/Faculdade de Ciências e Engenharia, Universidade
Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil, e-mail: cristiane.bernardo@
unesp.br.
Programa de Pós-Graduação em Agronegócio e Desenvolvimento (PGAD), Faculdade de Ciências e
Engenharia, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil,
e-mail: jessica.pessoa@unesp.br.
4 Programa de Pós-Graduação em Agronegócio e Desenvolvimento (PGAD), Faculdade de Ciências e
Engenharia, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil,
e-mail: karina.abreu@unesp.br.
Programa de Pós-Graduação em Agronegócio e Desenvolvimento (PGAD), Faculdade de Ciências e
Engenharia, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil.
Universidade De Wyoming, Laramie, Wyoming, Estados Unidos da América, email: mmatsud1@uwyo.edu.
Programa de Pós-Graduação em Agronegócio e Desenvolvimento (PGAD), Faculdade de Ciências e
Engenharia, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Tupã, São Paulo, Brasil,
e-mail: vc.martins@unesp.br.
https://doi.org/10.36311/2024.978-65-5954-534-6.p349-372
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
350
introdução
A relação sociedade e natureza caracterizada pela complexidade so-
cioambiental, vem sendo conituosa desde o início da humanidade, re-
sultando em diversas relações socioculturais e formas de conhecimento
que cada sociedade assume como postura em relação à natureza (Morales,
2012). Contudo, foi a partir da Revolução Industrial e de seus efeitos que
a crise ambiental se estabelece, marcando o século XX pela emergência
socioambiental (Morales, 2012).
É nesse contexto, entre as fronteiras da modernidade e pós-moder-
nidade, por meio da ciência moderna, que se direciona um olhar atento
às novas formas de ressignicação do mundo, na perspectiva da constru-
ção, reconstrução e integração das ciências que redenem as interpreta-
ções sobre a relação sociedade e natureza, mediante o campo da produção
do conhecimento, das práticas educativas, da gestão e da própria política
(Morales, 2012).
Assim, sob os aspectos de discussão de gestão e educação am-
biental no âmbito da complexidade, que nasce, em meados de 2011, na
Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” ((UNESP)7,
Campus de Tupã, o grupo de Pesquisa em Gestão e Educação Ambiental
(PGEA), com estudantes do curso de graduação em Administração. E, em
2012, é iniciada uma pesquisa direcionada à inserção da educação ambien-
tal nos processos do Sistema de Gestão Ambiental nas agroindústrias do
extremo oeste paulista e os diálogos estabelecidos com os órgãos públicos
ans. Tal pesquisa nanciada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento
Cientíco e Tecnológico (CNPq) - Edital Universal – envolveu áreas temá-
ticas de gestão, educação ambiental e comunicação, sob uma perspectiva
interdisciplinar. Desde, então, o PGEA inicia seu movimento interdisci-
plinar por meio dessa investigação cientíca que foi de 2012 a 2014, e que
começa agregar áreas diferentes, potencializando a interdisciplinaridade.
Do período de maio/2011 a dez/2022 o grupo PGEA teve a liderança da Profa. Angélica Gois Morales e
Profa Cristiane Hengler Corrêa Bernardo.
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
351
Também decorrente de um diálogo interdisciplinar, com um grupo ain-
da mais amplo de docentes, advindos de diversas áreas de formação e de
interesses de pesquisa, é que, em 2014, tem início no mesmo Campus, o
Programa de Pós-Graduação em Agronegócio e Desenvolvimento (PGAD).
Partindo da perspectiva de Japiassú (1976) de que três aspectos: pro-
blemas complexos; urgência por uma reorganização da pesquisa e preo-
cupação com a economia, justicam o trabalho interdisciplinar, é que o
PGAD encontra no PGEA um grande aliado, no sentido de empreender
o diálogo interdisciplinar, buscando soluções para problemas socioam-
bientais que não poderiam ser resolvidos disciplinarmente. Tal diálogo é
efetuado, principalmente, a partir das interfaces entre educação, gestão
ambiental e comunicação e dessas para com diversas outras áreas que
serão apresentadas neste capítulo a partir das dissertações de mestrado de-
fendidas junto ao PGAD e que são frutos dessa relação dialógica com o
grupo de pesquisa.
O PGAD está inserido na área de conhecimento interdisciplinar da
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES),
que compreende a interdisciplinaridade como uma maneira de produção
do conhecimento que engloba intercâmbios teóricos e metodológicos, no-
vas discussões metodológicas e conceituais, em busca de atender a comple-
xidade e multiplicidade dos fenômenos (CAPES, 2008).
É justamente baseada nas características da pesquisa e do ensino in-
terdisciplinar que o PGAD sustenta seus objetivos, que visam o desen-
volvimento de pesquisas interdisciplinares que abordem as demandas do
agronegócio, de modo a contribuir com o desenvolvimento socioeconômi-
co e ambiental, propiciando análises e soluções que fomentem o desenvol-
vimento local, regional e nacional (PGAD, 2023).
Dividido em duas linhas de pesquisa, uma voltada para a
Competitividade de Sistemas Agroindustriais e outra de Desenvolvimento
e Meio Ambiente (no qual o grupo PGEA tem mais contribuições de in-
vestigação cientíca), o PGAD tem, especicamente, ao longo desses dez
anos de existência, contribuído para o avanço do conhecimento interdis-
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
352
ciplinar por meio de pesquisas que reitam sobre: - os sistemas agroindus-
triais na perspectiva da competitividade sustentável; a heterogeneidade das
demandas sobre utilização de recursos e de gestão; - a formação de redes
que possam ser importantes canais para os diversos agentes sociais que atu-
am e/ou são impactados pelo setor e, por m, - a formação de prossionais
que atuem em equipes interdisciplinares que possam resolver os problemas
complexos da área.
Frente a contribuição do PGAD e o aporte do PGEA na produção
colaborativa e formação dos pós-graduandos, este capítulo teve como ob-
jetivo geral: apresentar as contribuições do grupo PGEA para o diálogo
interdisciplinar na produção de conhecimento cientíco, constituído nos
cursos de mestrado e doutorado e nos produtos oriundos do PGAD e
orientados pelas professoras líderes do PGEA, a partir das interfaces de
gestão, educação ambiental e comunicação.
Para as análises empreendidas neste capítulo adota-se o conceito de
interdisciplinaridade concebido por Fazenda (2002), que complementa a
visão de Japiassú (1976) e que vê a interdisciplinaridade muito mais como
uma atitude pessoal frente ao conhecimento8. Essa concepção entende
tal conceito a partir de uma perspectiva fenomenológica, como armam
Fazenda et al. (2010), uma vez que é uma visão focada na subjetividade dos
sujeitos, voltada para suas experiências e suas práxis; para a ação dialógica,
enm para uma atitude que atinja a dimensão do saber – ser.
Também vale destacar que tal estudo apoiou-se na abordagem quali-
tativa e nos métodos exploratório e descritivo. Para tanto, foi realizado um
levantamento documental no Repositório Institucional da Unesp9, a m
de vericar as teses e dissertações defendidas junto ao PGAD e orientadas
pelas docentes e líderes do PGEA, o que implica demonstrar como o grupo
de pesquisa em estudo tem contribuído para a formação do diálogo sistêmi-
co entre diversas áreas do conhecimento no Programa de Pós-Graduação.
De acordo com Satolo et al. (2019, p. 22) “[...] a atitude interdisciplinar pode ser resumida em estar
disposto ao diálogo; aceitar opiniões que fogem às certezas do seu campo do conhecimento; estar aberto ao
aprendizado constante; compreender o seu papel no processo e que diante de um determinado problema
você será mais ou menos exigido, portanto, não há lugar para vaidades acadêmicas
As produções cientícas podem ser consultadas no site https://repositorio.unesp.br/.
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
353
A seção a seguir trata dos resultados, sendo abordada a trajetória
do grupo PGEA e seu diálogo interdisciplinar com o PGAD, bem como
apresenta as publicações selecionadas e a correlação das dissertações ana-
lisadas com as interfaces em estudo e os Objetivos de Desenvolvimento
Sustentável (ODS).
relAções entre o pgAd e o pgeA
O PGEA está vinculado à Faculdade de Ciências e Engenharia (FCE),
da UNESP, Campus Tupã e tem interface diretamente com o PGAD por
meio da Linha de Pesquisa Desenvolvimento e Meio Ambiente, que por
sua vez faz parte da área de conhecimento interdisciplinar da CAPES, ofe-
recendo cursos de mestrado e doutorado.
Criado em meados de 2011, o PGEA é um grupo de pesquisa em
constante dinâmica e evolução, que emerge da interação entre vários mem-
bros da academia e da sociedade civil. Formado por pessoas das mais va-
riadas áreas, desenvolve estudos e pesquisas em gestão e educação socioam-
biental no âmbito formal e não-formal.
Desde a formação do grupo e com a aprovação e início do PGAD
em 2014, o trabalho do PGEA visa ampliar a formação de novos pesqui-
sadores, bem como reetir sobre o processo da gestão e educação socioam-
biental em vários contextos, possibilitando conexões, trocas, planejamento
e execução de projetos de pesquisa e de extensão, o que implica a (re)cons-
trução de conhecimento e também no aumento da produção cientíca na
área. O grupo PGEA atua em três frentes de atuação: - formação e aper-
feiçoamento, com reuniões de estudo, oferecimento de cursos e participa-
ção em eventos cientícos, - produção cientíca, que está mais centrado
ao desenvolvimento de pesquisas e publicações dos resultados e – ações e
projetos de extensão, com atividades de divulgação cientíca e outras por
meio do projeto de extensão Sala Verde Rede de Educação Ambiental da
Alta Paulista (REAP), vinculado à FCE. Dentro da sua dinâmica, o grupo
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
354
mantém reuniões quinzenais, nas quais são realizadas leituras de artigos
cientícos e seminários, além de fomentar a análise abrangente do processo
educacional direcionado à gestão e educação ambiental, por meio de uma
abordagem interdisciplinar dividida em duas linhas de pesquisas.
A Linha de Pesquisa 1 envolve os fundamentos teórico-metodoló-
gicos e formação em educação ambiental, e está dividida nas temáticas de
Formação em Educação Ambiental e a Interdisciplinaridade como campo
de conhecimento. Já a Linha de Pesquisa 2 envolve a gestão e educação am-
biental, e está dividida nas temáticas de análise da gestão social e educação
socioambiental nas organizações, políticas públicas ambientais, comuni-
cação ambiental, relação da agroecologia e educação ambiental, gestão de
resíduos, entre outros temas (FCE, 2023).
Portanto, tal grupo de pesquisa, explora desaos educacionais em
diversas esferas, e, essa perspectiva permite a criação de inúmeras cone-
xões, incentivando a partilha de ideias e o desenvolvimento de projetos de
pesquisa e extensão, resultando na construção contínua do conhecimento,
que por sua vez, impulsiona a produção cientíca colaborativa em diversas
áreas do conhecimento (FCE, 2023). Segundo Lopez e Barbosa (2019), a
interdisciplinaridade no ensino superior requer diálogo sobre as transfor-
mações dos paradigmas da educação, os quais envolvem questões políticas
e, principalmente metodológicas, o que faz do PGEA e do PGAD parcei-
ros nesta empreitada interdisciplinar.
Levando em consideração o caráter necessário ao trabalho interdisci-
plinar e o fato de que o conhecimento não tem como ser produzido sozi-
nho, ao longo da sua caminhada o grupo de pesquisa estabeleceu diferentes
parcerias, fortalecendo laços com instituições privadas e públicas e proje-
tos, inclusive com a Rede de Educação Ambiental da Alta Paulista (REAP).
Por meio de ações conjuntas o grupo PGEA e a REAP buscam pro-
mover, fortalecer e estreitar relações com a sociedade civil, Organizações
Não Governamentais (ONGs) e instituições públicas e privadas na região
da Alta Paulista, contando com a colaboração de graduandos, mestrandos
e doutorandos da FCE. Os discentes envolvidos nas referidas ações repre-
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
355
sentam diferentes formações e desempenham um papel fundamental na
construção de diálogos e reexões interdisciplinares nas abordagens pro-
postas. Essa parceria colaborativa é um compromisso do grupo de pesquisa
em traduzir o conhecimento cientíco em ações concretas, o que implica
fortalecer o vínculo entre a universidade pública e a sociedade.
Durante a caminhada do grupo PGEA, outras ações foram incluídas
no rol de atividades desenvolvidas, como a Semana do Meio Ambiente,
Ciclo de Palestras Ambientais, Integra Pesquisa, Feira de Prossões e as
Lives Mensais que divulgam as pesquisas socioambientais, estreitando rela-
ções com a REAP e o próprio PGAD, a partir das pesquisas desenvolvidas.
Todas essas ações colaboram com a educação ambiental e com a divulga-
ção cientíca, levando o conhecimento já produzido para fora dos muros
da universidade; colaborando com a formação de uma cultura cientíca
e tomada de decisão com base em evidências. Vale ressaltar que as ações
destacadas são abertas para o público em geral, dentro e fora da academia.
Análise dAs dissertões orientAdAs pelAs docentes e líderes do
pgeA: seleção dAs dissertAções defendidAs e A relAção com os ods
As publicações selecionadas para análise foram defendidas entre os
anos de 2016 a 2023, uma vez que com o início do programa em 2014,
as primeiras defesas ocorreram a partir de 2016. Durante esse período, as
docentes líderes do PGEA orientaram 21 (vinte e uma) pesquisas, sendo
10 (dez) orientadas pela Profa. Dra. Angélica Góis Morales e 11 (onze)
orientadas pela Profa. Dra Cristiane Hengler Corrêa Bernardo. É impor-
tante ressaltar que o PGAD que iniciou suas atividades em 2014, com o
seu primeiro curso de mestrado, em agosto de 2019 deu início ao curso de
doutorado (FCE, 2023a). Portanto, por ser um curso recente e que possui
duração de quatro anos, poucas teses já foram defendidas até 2023, sendo
que até o presente momento nenhuma orientada pelas docentes.
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
356
A análise dos documentos se deu por meio da leitura inicial dos
resumos, palavras-chaves, introdução e considerações nais de cada disser-
tação. Buscou-se vericar de que modo tais pesquisas se relacionam com
as interfaces de gestão, educação ambiental e comunicação. O quadro 1
apresenta uma síntese dos documentos analisados e também para quais
ODS10 as dissertações contribuem direta ou indiretamente.
Quadro 1 – Dissertações e teses que passam pelas interfaces da gestão,
educação ambiental e comunicação
Ano Autor Comitê de orientação Título ODS
2016 Caroline P.
Manoel
Cristiane H. C. Bernardo;
Ana Elisa B. S. Lourenzani
e Angélica G. Morales
Curso técnico em
agronegócio do Centro
Paula Souza: uma análise
da estrutura curricular.
04
2016 Silvia Cristina
Vieira
Cristiane H. C. Bernardo;
Ana Elisa B. S. Lourenzani
e Eduardo G. Satolo
O papel do extensionista
do uxo bilateral de
informações entre
pesquisadores do
agronegócio e produtores
rurais.
04; 12;
17
2016 Vanessa P. X.
Satolo
Cristiane H. C. Bernardo;
Ana Elisa B. S. Lourenzani
e Angélica G. Morales
A Interdisciplinaridade em
dois programas de pós-
graduação em agronegócio 04
2016 Carla N. B.
Flozi
Angélica G. Morales;
Cristiane H. C. Bernardo e
Sérgio S. Braga Júnior
Análise da educação
ambiental em uma
agroindústria: um estudo
de caso no município de
Guararapes/SP.
04; 09;
12 e 13
2017 Fábio F. dos
Santos
Angélica G. Morales;
Cristiane H. C. Bernardo e
Nelson R. de. Moraes
Comunicação e educação
ambiental: uma análise de
conteúdo da revista XXI
Ciência para a Vida da
Embrapa.
04; 09
e 17
10 ODS1 Erradicação da pobreza; ODS2 Fome zero e agricultura sustentável; ODS3 Saúde e bem-estar;
ODS4 Educação de qualidade; ODS5 Igualdade de gênero; ODS6 Água potável e saneamento; ODS7
Energia limpa e acessível; ODS8 Trabalho decente e crescimento econômico; ODS9 Indústria, inovação e
infraestrutura; ODS10 Redução das desigualdades; ODS11 Cidades e comunidades sustentáveis; ODS12
Consumo e produção responsáveis; ODS13 Ação contra a mudança global do clima; ODS14 Vida na
água; ; ODS15 Vida terrestre; ODS16 Paz, justiça e instituições ecazes e ODS17 Parcerias e meios de
implementação (ONU, 2015).
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
357
Ano Autor Comitê de orientação Título ODS
2018 Juliana C.
Bernardes
Cristiane H. C. Bernardo;
Ana Elisa B. S. Lourenzani
e Lorena C. Fleury
Da cidade ao campo:
análise das características
do jovem urbano
ruralizado
11
2018 Luana F.
Pires
Angélica G. Morales;
Fernando F. Putti e Sandra
Cristina. de Oliveira
Pegada Hídrica como
instrumento de gestão dos
recursos hídricos: análise
em fecularias do Escritório
de Desenvolvimento Rural
de Assis.
12
2019
Cristina V.
dos R.
Fernandes
Angélica G. Morales; Ana
Elisa B. S. Lourenzani e
Manoel B. B da Costa
Narrativas de agricultores
familiares: sob um olhar
agroecológico.
02; 03
12 e 15
2019
Omar
Fernando
de Carvalho
Júnior
Cristiane H. C. Bernardo;
Kássia Watanabe e
Eduardo Kawasaki
A correlação entre o
princípio da dignidade da
pessoa humana e o meio
ambiente com foco na
queima da palha da cana-
de-açúcar.
12
2020 Luiza R.
Trisoglio
Cristiane H. C. Bernardo;
Andrea R. Scalco e
Timóteo R. Queiroz
As redes sociais
como estratégia de
comercialização na Short
Food Supply Chain (SFSC):
um estudo de caso.
02 e 09
2020 Mara Sílvia
R. Ramos
Cristiane H. C. Bernardo;
João Guilherme de C. F.
Machado e Timóteo R.
Queiroz.
Potencial dos grupos
organizados em redes
sociais para adoção de
inovação na pecuária
brasileira: o caso do Grupo
Pecuária Brasil, GPB.
09 e 17
2020
Flávia Eliana
de
Melo Colucci
Angélica G. Morales;
Sandra Cristina. de
Oliveira e Pedro Fernando
Cataneo
A temática ambiental
no curso de graduação
em direito: um enfoque
sobre a ambientalização
curricular.
04
2020
Josiane
Tamires
S. Silva
Angélica G. Morales; Dra.
Sandra Cristina de Oliveira
e Wanda D. Miotto
Análise bibliográca e
documental da educação
ambiental na educação
infantil dos municípios de
Parapuã e Rinópolis-SP.
04
2021 José H.
Ndambuca
Cristiane H. C. Bernardo;
Ana Elisa B. S. Lourenzani
e Roberto Bernardo
Histórias cruzadas:
extensão rural no Brasil
(Do Oiapoque ao Chuí)
e Angola (De Cabinda ao
Cunene).
17
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
358
Ano Autor Comitê de orientação Título ODS
2021 Júlio Martins
J. Muhongo
Angélica G. Morales e
Ana Elisa B. S. Lourenzani
Aplicação do Método
IDEA para avaliação
da sustentabilidade de
estabelecimentos de
agricultores familiares nos
municípios de Tupã/São
Paulo e de Ebo/Cuanza
Sul.
02 e 12
2021
Valquiria
Cristina
Martins
Angélica G. Morales;
Marilia X. Cury e Nelson
R. de Moraes
Saberes e práticas
socioambientais na Terra
Indígena Vanuíre:
compreensão do
etnoconhecimento dos
Grupos Kaingang e
Krenak.
11 e 15
2022 Jéssica Dayane
N. Pessôa
Cristiane H. C. Bernardo;
João Guilherme de C. F.
Machado e. Ricardo C. G.
Sant’Ana.
As estratégias de divulgação
cientíca dos
Institutos Agropecuários
de Pesquisa do estado
de São Paulo voltadas ao
público rural.
09;12 e
17
2022 Monique M.
dos Santos Angélica G. Morales e
Roberto Bernardo
Sistema de gestão
ambiental NBR ISO
14001:2015-análise
das diculdades para
manutenção em uma
empresa do setor
alimentício.
04; 09;
12 e 13
2022 Karina A.
Finati Angélica G. Morales e
Rodrigo L. Manzione
Educação Ambiental
no contexto do Comitê
das Bacias Hidrográcas
Aguapeí e Peixe.
04 e 06
2023 Evelin
Aparecida F. P.
Miyahara
Cristiane H. C. Bernardo;
Roberto Bernardo e
Angélica G. Morales
Análise das atualizações
da ISO 14001:2015 em
relação a ISO 14001:2004
na comunicação ambiental
em uma indústria de
alimentos e bebidas.
04;09, 12
e 13
2023 Luís Fernando
P. P. Tavares
Cristiane H. C. Bernardo;
Angélica G. Morales e
Luciana F. Leal
O Discurso em Torto
Arado e o ODS 5: vozes
femininas enunciam o
conito entre sociedade e
natureza.
05
Fonte: Elaborado pelas autoras.
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
359
Cabe destacar que as pesquisas interdisciplinares produzidas no
PGAD demonstram a importância dos comitês de orientação com áreas
distintas e a relevância da capacidade de diálogo e raciocínio sistêmico no
desenvolvimento de soluções potenciais para os problemas relacionados
ao meio ambiente (Satolo, 2016). Além disso, expressam como as orga-
nizações podem se beneciar da gestão consciente de recursos naturais,
valendo-se de ferramentas de comunicação para divulgar suas ações de
responsabilidade socioambiental (Flozi, 2016; Santos, 2022). Portanto, o
desenvolvimento de pesquisas dentro das interfaces em análise colabora
diretamente para o atingimento dos ODS de maneira ampla.
Análise dAs dissertões orientAdAs pelAs docentes e líderes do
pgeA: perfil dos orientAdos e de suA produção
Ao longo dos dez anos de história do PGAD, inúmeros estudos e
pesquisas interdisciplinares foram desenvolvidas. Nesse sentido, esta seção
destaca de que forma as pesquisas orientadas pelas docentes Angélica Góis
Morales e Cristiane Hengler Corrêa Bernardo estão relacionadas com as
interfaces da gestão, educação ambiental e comunicação. Além disso, de-
monstra como o PGEA, direta ou indiretamente, tem contribuído para o
diálogo de saberes interdisciplinares nas dissertações orientadas por ambas
as docentes, tendo em vista que a maioria dos pós-graduandos aqui indica-
dos foi ou é membro ativo do PGEA.
A missão do PGAD é desenvolver pesquisas interdisciplinares e for-
mar recursos humanos para a pesquisa cientíca e docência de alta quali-
dade, capazes de atuar em instituições públicas e privadas, antevendo-se
às demandas e problemáticas do agronegócio, contribuindo com o desen-
volvimento socioeconômico e ambiental, e com análises e soluções para
incremento da sua competitividade e desenvolvimento regional e nacional
(PGAD, 2023). Assim, no que diz respeito aos estudos sobre o agrone-
gócio, cabe destacar que ele é um campo interdisciplinar e frutífero de
investigação para as áreas de educação e gestão ambiental, tendo a comu-
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
360
nicação como ferramenta de disseminação do conhecimento cientíco e,
também como aporte teórico fundamental para a compreensão de como se
estabelecem as relações entre sociedade e natureza. Também vale destacar
que no PGAD, há a disciplina obrigatória “Construção do Conhecimento
Interdisciplinar” em que a as duas docentes ministram de forma conjunta,
e outras duas disciplinas optativas, sendo “Relação Sociedade e Natureza
“Divulgação Cientíca”, sob a responsabilidade da Profa. Angélica e
Cristiane, respectivamente, que permeiam as suas áreas de formação aca-
dêmica e de atuação no grupo PGEA e PGAD.
A m de identicar as áreas do conhecimento que englobam as
formações dos egressos e discentes orientados pelas docentes e líderes do
PGEA, a Figura 1 retrata o perl dos pós-graduandos.
Das 21 pesquisas investigadas, 76% foram realizadas por mulhe-
res e 24% por homens. Desse montante, 47% dos pós-graduandos re-
ceberam bolsas de auxílio para desenvolverem suas pesquisas. Segundo a
Organização das Nações Unidas para a Educação (Unesco), nas áreas da
ciência e da cultura há uma disparidade de gênero; os dados apontam que
as mulheres representam apenas 30% dos cientistas no mundo (Unesco,
2019). Nesse sentido, é possível destacar que o PGEA tem colaborado para
a inserção de mais mulheres na pesquisa.
Outro ponto destacado, está atrelado às áreas do conhecimento
(gura 1), uma vez que existe uma heterogeneidade nas formações dos
discentes. Entre as áreas prossionais estão as formações em: medicina ve-
terinária; gestão ambiental; comunicação social/jornalismo; biologia; en-
genharia ambiental; pedagogia; administração; direito; losoa; geograa;
arquitetura e urbanismo e letras. Essa heterogeneidade ocorre porque o
PGAD é um programa interdisciplinar, e, portanto, recebe pós-graduan-
dos cujas formações estão nas mais variadas áreas do conhecimento.
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
361
Figura 1 – Perl dos discentes e egressos do PGAD orientados pelas
docentes e líderes do grupo PGEA
Fonte: Elaborado pelas autoras.
No bojo desta pesquisa, vericou-se ainda os membros ativos do
PGEA. Dos 21 discentes e egressos orientados pelas docentes Angélica
Gois de Morales e Cristiane Hengler Corrêa Bernardo, 66% zeram ou
fazem parte do PGEA. Torna-se importante esclarecer que foram consi-
derados apenas os membros que estão cadastrados ocialmente junto ao
Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientíco e Tecnológico (CNPq)
e tiveram participação ativa nas atividades do PGEA. A partir da análise
das palavras-chave das dissertações analisadas, percebe-se a ampla varieda-
de de temáticas estudadas no PGAD (Figura 2).
O mapeamento realizado refere-se às temáticas utilizadas para o de-
senvolvimento das 21 dissertações analisadas. Conforme evidenciado na
Figura 2, as palavras ambiental, educação, rural, comunicação e susten-
tabilidade ganham destaque. Observa-se que as ocorrências apresentadas
nas dissertações são bastante próximas. Tal fato corrobora a ideia de que as
pesquisas estão alinhadas às interfaces do PGEA. Deste modo, apresenta-se
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
362
a seguir as categorias de análise das produções, os diálogos estabelecidos
entre elas, e suas interfaces com os ODS.
Figura 2 – Nuvem de palavras das dissertações analisadas
Fonte: Elaborada pelas autoras (2023).
gestão AmbientAl (iso 14001)
A gestão ambiental compreende as diretrizes e as atividades admi-
nistrativas realizadas por uma organização para alcançar efeitos positivos
sobre o meio ambiente, para reduzir, eliminar ou compensar os problemas
ambientais decorrentes de sua atuação e evitar que outros ocorram no fu-
turo (Barbieri, 2016). Desse modo, dentre os trabalhos realizados, a pes-
quisa de Flozi (2016) teve como objetivo analisar de que forma a educação
ambiental está inserida na estrutura organizacional de uma agroindústria
do município de Guararapes/SP. A autora destaca o desenvolvimento de
ações como treinamentos e palestras sobre educação ambiental desenvolvi-
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
363
dos pela gestão da agroindústria estudada e demonstra relação direta entre
a gestão e a educação ambiental no contexto empresarial.
Além disso, o trabalho de Flozi (2016) se relaciona com os estudos
realizados por Santos (2022). Com o objetivo de “[...] analisar as diculda-
des encontradas por uma empresa do setor alimentício no processo de ma-
nutenção de um Sistema de Gestão Ambiental (SGA), conforme requisitos
da norma ABNT NBR ISO 14001:2015,” a pesquisa de Santos (2022, p.
15) evidenciou os desaos enfrentados desde a implementação da certica-
ção ABNT NBR ISO 14001:2015. A autora destacou diversas atividades
de Gestão e Educação Ambiental realizadas pela empresa estudada. Além
disso, conforme os resultados da pesquisa, os desaos de manutenção de
SGA envolvem as três interfaces estudadas.
Ademais, Miyahara (2023, p. 15) investigou “como uma indústria
do setor de alimentos e bebidas enfrentou a atualização da certicação
ABNT NBR ISO 14001:2015 em relação a ISO 14001:2004, no que se
refere à comunicação ambiental”. A autora destacou a importância do uxo
de comunicação organizacional durante a implementação das atualizações
da certicação, o que envolve estratégias de gestão e educação ambiental.
Desse modo, a pesquisa contribui para as três interfaces em análise.
educAção AmbientAl: divulgAção científicA, ensino e currículo,
recursos hídricos e etnoconhecimento
A educação ambiental, concebida como um processo de formação
continuada e interdisciplinar em todos os níveis de ensino, é fundamental
para a construção de valores, conhecimentos e habilidades voltados à con-
servação do meio ambiente e à promoção da sustentabilidade. A Política
Nacional de Educação Ambiental (PNEA), estabelecida pela Lei 9.795/99,
e o Programa Nacional de Educação Ambiental (ProNEA) enfatizam a
universalidade desse direito, garantindo acesso democrático à informação
ambiental (Brasil, 1999).
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
364
No contexto formal de ensino, diversas pesquisas destacam a impor-
tância da integração da Educação Ambiental de maneira interdisciplinar
nas disciplinas curriculares. A interligação entre comunicação e educação
ambiental é explorada por Santos (2017) na divulgação cientíca, promo-
vendo conscientização e transformação social. Silva (2020) focaliza na edu-
cação infantil, Manoel (2016) no ensino técnico de Agronegócio e Colucci
(2020) no curso de graduação de direito, ressaltando a necessidade de prá-
ticas interdisciplinares para desenvolver o pensamento crítico em relação
às questões ambientais.
No âmbito acadêmico, a pesquisa de Satolo (2016) investiga pro-
gramas de pós-graduação em Agronegócio, sublinhando a importância da
abordagem interdisciplinar para entender a complexidade desse campo.
A Educação Ambiental é abordada por Finati (2022) em comitês de ba-
cias hidrográcas, enfatizando a relevância de uma abordagem crítica para
a gestão participativa dos recursos hídricos. A pesquisa de Flozi (2016)
analisa a incorporação da Educação Ambiental em uma agroindústria,
evidenciando a aplicação prática e atividades internas de formação para a
conscientização.
Por m, o estudo de Martins (2021) retrata o etnoconhecimento dos
grupos indígenas Kaingang e Krenak, bem como ressalta a importância do
respeito pelo conhecimento tradicional e a preservação de práticas socio-
ambientais valiosas.
Em suma, a abordagem interdisciplinar da educação ambiental, sus-
tentada pela PNEA e pelo ProNEA, permeia em diversos contextos educa-
cionais e práticas de pesquisa. Essa abordagem é crucial para desenvolver
o pensamento crítico, a reexão, a conscientização e ações sustentáveis em
relação ao meio ambiente, fortalecendo a gestão participativa e promoven-
do a valorização do conhecimento tradicional.
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
365
comunicAção e suAs interfAces: divulgAção científicA, extensão
rurAl, culturA, direito e comerciAlizAção
Segundo Vilalba (2006, p. 5) comunicação é “uma palavra deriva-
da do termo latino communicare e signica “tornar comum”, “associar”.
Assim, num primeiro momento, podemos dizer que comunicar é a ação
social de tornar comum”.
Por sua relevância, a comunicação é objeto de estudo de muitas pes-
quisas, pois essa assume papel determinante no desenvolvimento da pes-
quisa cientíca, causando inuência direta sobre o objeto de estudo e sobre
a problematização (Bernardo, 2014). Desse modo, dentre as pesquisas ana-
lisadas no campo de estudo da comunicação, tem-se os estudos de Vieira
(2016), Santos (2017), Ramos (2020), Trisoglio (2020) e Pessôa (2022).
Além da comunicação, as pesquisas têm em comum o desenvolvimento do
contexto rural como pano de fundo.
Todavia, o campo da comunicação também foi observado nas pes-
quisas de Satolo (2016), Flozi (2016), Bernardes (2017), Martins (2021),
Santos (2022) e Finati (2022). A comunicação se deu nas interfaces com
outras áreas do conhecimento, proporcionando um saber especíco, con-
forme destaca Braga (2004). Um exemplo é a pesquisa de Finati (2022)
que teve educação ambiental como campo de estudo, entretanto, também
fez interface com o campo da comunicação ao abordar a importância da
atividade na governança participativa dos comitês de bacias hidrográcas.
Essa articulação entre as áreas acontece principalmente em pesquisas de
abordagem interdisciplinar, proporcionando novas reexões e ampliando
o conhecimento cientíco.
Conforme apresentado nos tópicos anteriores, dentre as produções
oriundas do PGAD, destaca-se que seis (06) estão relacionadas à interface
de gestão ambiental, doze (12) à educação ambiental e onze (11) à co-
municação. Torna-se importante destacar que os estudos fazem interface
com mais de uma das áreas investigadas. Além disso, os temas estudados
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
366
demonstram a conexão do PGEA com o desenvolvimento de pesquisas
interdisciplinares no PGAD, e também contribuem para os ODS.
Nos últimos anos, a Organização das Nações Unidas (ONU), via
Agenda 2030, propôs um pacto global em prol do desenvolvimento sus-
tentável, que tem como nalidade garantir o desenvolvimento humano,
atendendo às necessidades básicas da sociedade por meio de um processo
político, econômico e social que respeite o ambiente e a sustentabilidade
(ONU, 2015). Além disso, a Agenda 2030 engloba 17 ODS. A Figura 3
demonstra os diálogos estabelecidos entre as dissertações e os ODS.
Figura 3 – Os diálogos estabelecidos entre as dissertações e os ODS
Fonte: Elaborada pelas autoras (2023).
De acordo com o Instituto Internacional de Pesquisa Times Higher
Education (THE, 2023), a UNESP faz parte do ranking que aponta as
universidades mais alinhadas aos ODS e o PGAD, em com conjunto com
o PGEA, muito tem contribuído com o desenvolvimento de pesquisas que
colaboram para se atingir as metas propostas pela Agenda 2030 (THE,
2020).
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
367
considerAções finAis
Este capítulo, que teve como objetivo apresentar as contribuições
do PGEA para o diálogo interdisciplinar na produção de conhecimento
cientíco, constituído nos cursos de mestrado e doutorado e nos produtos
oriundos junto ao PGAD e orientados pelas docentes líderes do PGEA,
apresentou um panorama sobre o estabelecimento das relações dialógi-
cas, tanto no PGAD, quanto nas relações estabelecidas no próprio grupo
PGEA. Além disso, buscou vericar de que modo tais pesquisas se relacio-
nam com as interfaces de gestão, educação ambiental e comunicação.
Tal cenário permitiu observar que as três interfaces foram contem-
pladas, ora entre duas perspectivas e em alguns casos nas três. No entan-
to, foram observadas também pesquisas que perpassam indiretamente por
uma das três interfaces e que mantêm relação com outras temáticas, entre
elas saúde, dignidade do trabalhador, comercialização, cultura, valorização
do campo, educação técnica e ensino e pesquisa na pós-graduação.
Vale destacar que as pesquisas que fazem interface entre gestão am-
biental, educação e comunicação decorrem de um espaço aberto para o
diálogo interdisciplinar. Espaço no qual, além da disposição para o diálo-
go, também há, de modo, inerente, o próprio programa que se localiza na
Câmara interdisciplinar da CAPES e que, portanto, desde a seleção, não
apenas permite, mas estimula o ingresso de prossionais das mais variadas
áreas do conhecimento. Ademais, a exigência dos comitês de orientação
também é estimulante para que tais interfaces sejam possíveis.
Por m, conclui-se que a interação entre o PGAD e o PGEA oferece
recursos e suporte necessários para a realização de pesquisas avançadas,
permitindo que os estudantes de pós-graduação aprofundem seu entendi-
mento em diversas áreas e contribuam para a expansão do corpo de conhe-
cimento, de forma verdadeiramente interdisciplinar. Por meio da colabo-
ração, discentes de origens acadêmicas diferentes criam um ambiente fértil
para a troca de ideias, perspectivas e abordagens. Desaam as fronteiras
tradicionais das disciplinas, fomentando a inovação e a resolução de pro-
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
368
blemas complexos que muitas vezes transcendem as barreiras convencio-
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Agricultura familiar, 21, 22, 23, 26, 33,
36, 37, 42, 43, 92, 129, 143, 145,
152, 155, 169, 176, 197, 204, 205,
210, 211, 212, 213, 214, 215, 216,
218, 283
Agroindústria, 54, 143, 147, 148, 203,
266, 271, 273, 277
Águas residuais, 7, 13, 54, 55, 57, 58, 59,
Alimentação, 9, 10, 19, 85, 86, 87, 88,
89, 90, 91, 92, 93, 94, 95, 96, 97, 98,
99, 100, 101, 103, 105, 106, 112,
119, 149, 150, 195, 196, 199, 201,
203, 206, 207, 208, 209, 210, 211,
212, 213, 214, 216, 217, 218, 219,
230, 249
Ambientes alimentares, 207, 208, 216,
229
Atividade extensionista, 242, 249, 250,
251, 253, 255
Bem-estar humano, 230, 238
Canal de distribuição, 131, 132, 134, 154
Comercialização, 7, 13, 18, 19, 42, 48,
72, 73, 78, 86, 131, 132, 133, 134,
135, 141, 144, 145, 146, 147, 151,
152, 155, 182, 201, 204, 267, 273,
275, 279
Comunicação, 8, 9, 10, 45, 156, 162,
173, 177, 178, 179, 183, 185, 186,
189, 190, 220, 231, 232, 234, 238,
262, 263, 265, 266, 267, 268, 269,
270, 272, 273, 274, 275, 276, 277,
278, 279
Contratos, 71, 77, 78, 80, 180, 181, 187,
213
Convenção de qualidade, 139, 149
Coordenação, 5, 9, 16, 70, 75, 78, 79, 80,
93, 123, 169, 236, 244, 262, 276, 284
Covid-19, 13, 101, 103, 173, 174, 179,
183, 187, 189, 191, 194, 197, 201,
202, 204, 205, 229, 230
Cultura organizacional, 51, 52
Demanda, 9, 29, 55, 60, 70, 71, 73, 74,
75, 77, 78, 119, 121, 137, 151, 180,
186, 249, 251, 253, 255, 256
Desenvolvimento sustentável, 13, 16, 17,
44, 49, 51, 52, 88, 89, 93, 98, 117,
118, 125, 174, 194, 197, 227, 228,
242, 245, 274, 278
Diferenciação, 133, 139, 143, 145, 146,
151, 166, 177
Diversicação agrícola, 13, 117, 119, 121,
122, 123, 124, 125
Drip Tea, 147
Dupla carga da má nutrição, 206, 215
Economia de escopo, 145
Educação Alimentar e Nutricional, 9, 85,
97, 100, 101
Educação ambiental, 8, 87, 94, 226, 261,
263, 264, 265, 266, 267, 268, 271,
272, 273, 274, 275, 277, 278
Ensino, 8, 14, 16, 23, 27, 86, 89, 91, 93,
95, 96, 142, 169, 211, 212, 226, 233,
240, 241, 242, 243, 244, 245, 246,
247, 249, 250, 253, 254, 255, 257,
258, 259, 262, 265, 272, 275, 277,
279
Entregas de caixa, 141
Escolar, 10, 13, 14, 19, 23, 85, 86, 87,
90, 91, 92, 93, 95, 96, 97, 98, 99,
100, 101, 195, 196, 198, 203, 206,
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
376
208, 210, 211, 212, 213, 214, 216,
217, 218, 229, 230, 231
Estresse em agricultores, 23
Estresse nanceiro, 13, 21, 22, 25, 31,
33, 36
Estressores nanceiros, 7, 22, 23, 26, 27,
28, 29, 30, 36
Extensão, 8, 9, 16, 19, 143, 175, 177,
180, 220, 226, 233, 234, 237, 240,
241, 242, 243, 244, 245, 246, 247,
249, 250, 251, 252, 253, 254, 258,
259, 260, 264, 265, 267, 273, 278
Feiras agropecuárias, 13, 173, 174, 175,
186, 187, 191
Feiras agropecuárias, 191
formas convencionais da agricultura, 136
Frutas, Legumes e Verduras, 9, 142
gestão ambiental, 94, 236, 262, 267, 268,
270, 271, 274, 275
gestão de pessoas, 7, 13, 18, 44, 45, 47,
52, 53
Gestão de Pessoas, 9, 44, 52
governança, 7, 18, 49, 51, 69, 70, 71, 73,
74, 75, 76, 77, 78, 79, 80, 81, 217,
273
Governança, 13, 50, 69, 73, 81
impacto, 8, 17, 22, 29, 30, 31, 33, 42,
49, 56, 63, 81, 85, 89, 106, 123, 196,
228, 230, 231, 243, 255, 256
Impacto, 121
indicação geográca, 76
Indicação Geográca, 137, 138
interdisciplinaridade, 16, 195, 262, 263,
265, 276, 277, 278
Interdisciplinaridade, 264, 266, 276, 277
intermediários, 49, 133, 134, 135, 137,
138, 244
macrobiológicos, 159, 163, 164, 168
mercado, 19, 21, 29, 36, 48, 49, 69, 70,
72, 73, 74, 75, 77, 78, 79, 110, 131,
133, 134, 138, 139, 146, 156, 157,
160, 173, 175, 179, 181, 183, 185,
187, 210, 211, 227, 245
Mercado, 110
mercado de produtores, 138
nutrição, 85, 86, 88, 89, 90, 91, 93, 95,
97, 104, 195, 198, 206, 208, 209,
216, 219
Nutrição, 99, 103, 204
Objetivos de Desenvolvimento
Sustentável (ODS), 17, 22, 44, 87,
133, 206, 245, 264
oferta, 29, 70, 73, 74, 75, 78, 88, 137,
140, 145, 148, 149, 150, 177, 178,
180, 212, 220, 225
pandemia, 8, 13, 41, 101, 103, 173, 174,
175, 176, 177, 178, 179, 181, 183,
187, 189, 190, 191, 194, 196, 197,
198, 200, 201, 202, 203, 228, 230,
231
Pandemia, 190, 192
pecuária leiteira, 243, 244, 249, 250, 254
percurso turístico, 142
perdas e desperdícios de alimentos, 102,
104, 106, 107, 112, 113, 115
Perdas e Desperdícios de Alimentos, 10,
108
pesquisa, 5, 8, 14, 16, 17, 19, 26, 29, 32,
33, 46, 51, 56, 69, 98, 99, 109, 141,
142, 143, 144, 146, 158, 159, 160,
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030: contribuições interdisciplinares
377
162, 164, 165, 167, 168, 169, 175,
178, 180, 182, 183, 187, 188, 189,
190, 197, 199, 202, 213, 221, 222,
225, 226, 227, 228, 229, 230, 231,
232, 233, 234, 237, 238, 240, 241,
242, 243, 244, 245, 246, 247, 249,
250, 253, 254, 255, 258, 259, 262,
263, 264, 265, 268, 270, 271, 272,
273, 275, 276, 277
Pesquisa, 9, 10, 14, 56, 103, 170, 180,
189, 190, 226, 233, 238, 240, 241,
243, 244, 247, 253, 258, 261, 262,
264, 265, 267, 274, 276, 278, 283
Pick-Your-Own, 138, 139, 140, 141, 146,
150
Poluição das águas, 61, 66
povos indígenas., 222, 236, 237
povos tradicionais, 14, 220, 221, 222,
224, 225, 226, 228, 233, 234
produção agrícola, 7, 78, 80, 119, 120,
121, 135, 157, 166
produção de amendoim, 156, 158, 159,
161, 163, 165, 168
Produção de amendoim, 170
Programa Nacional de Alimentação
Escolar (PNAE), 13, 14, 88, 92, 99,
100, 145, 194, 196, 204, 205, 206,
208
QR Code, 144
rede, 46, 47, 48, 49, 50, 51, 52, 56, 81,
88, 93, 109, 110, 111, 112, 196, 211,
250, 253, 255, 257
Rede, 7, 10, 47, 142, 226, 233, 264, 265
redes sociais, 45, 46, 50, 51, 52, 147, 179,
233, 246, 249, 251, 253, 255, 256,
267, 278, 279
Redes Sociais, 9, 250
resiliência, 13, 117, 119, 122, 124, 125
revolução verde, 135
satisfação no trabalho, 13, 18, 21, 34, 45
saúde, 22, 23, 24, 36, 62, 85, 86, 87, 88,
89, 90, 91, 92, 93, 95, 97, 99, 105,
106, 113, 121, 143, 145, 147, 194,
195, 197, 199, 201, 202, 203, 204,
206, 208, 209, 210, 215, 227, 228,
229, 275
Saúde, 9, 10, 39, 40, 87, 88, 89, 94, 97,
99, 100, 101, 103, 105, 189, 194,
199, 201, 202, 203, 204, 266
Segurança Alimentar e Nutricional (SAN),
92, 194, 205, 209
Short Food Supply Chain, 10, 132, 133,
151, 152, 153, 155, 267, 279
Sistema de Posicionamento Global (GPS),
9, 159
sistemas alimentares, 86, 87, 88, 98, 99,
100, 132, 136, 207, 208, 210, 215,
216
Sistemas alimentares, 206, 219
sustentabilidade, 7, 13, 16, 18, 69, 71, 76,
79, 80, 88, 89, 94, 96, 97, 98, 106,
108, 113, 117, 118, 120, 125, 158,
167, 196, 220, 221, 229, 267, 270,
272, 274, 277
Sustentabilidade, 69
transação, 7, 69, 71, 72, 73, 74, 75, 78,
81, 131
Transação, 69, 73, 78
tratamento, 31, 36, 54, 56, 59, 60, 61,
62, 64, 65, 67, 68, 89, 94, 195, 204
Tratamento, 67
vantagem competitiva, 45, 135
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales; Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto; Fabio Mosso Moreira; Luana Fernandes Melo (Org.)
378
variáveis qualitativas, 69, 159
Veículos Aéreos Não Tripulados (Drones),
159
venda direta, 135, 136, 196
venda na propriedade, 138
Construindo ciência em cooperação internacional acadêmico-cientíca
orgAnizAdores do livro
381
AnA elisA bressAn smith lourenzAni
Possui graduação em Agronomia pela Universidade Federal de Viçosa (1998), mestrado em
Engenharia de Produção pela Universidade Federal de São Carlos (2003), doutorado em
Engenharia de Produção pela Universidade Federal de São Carlos (2006) e Pós-doutorado
na Kansas State University. Livre docente em Análise de Sistemas Agroindustriais desde
2019, atualmente é Professora Associada da Universidade Estadual Paulista, Campus
de Tupã. Tem experiência na área de Gestão de Sistemas Agroindustriais, atuando
principalmente nos seguintes temas: agricultura familiar, acesso a mercados, compras
institucionais, certicação e indicações geográcas.
AngélicA gois morAles
Possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual Paulista Júlio de
Mesquita Filho (1998), mestrado em Educação Ambiental pela Fundação Universidade
Federal do Rio Grande (2001), doutorado em Meio Ambiente e Desenvolvimento pela
Universidade Federal do Paraná (2007), pós- doutorado na Universidad Nacional de
Córdoba/ Argentina (2016) e Livre-Docente em Gestão e Educação Ambiental pela
UNESP (2019). É professora associada da Universidade Estadual Paulista “Júlio de
Mesquita Filho” (UNESP), do Câmpus de Tupã, SP no curso de Administração e no
Programa de Pós-Graduação em Agronegócio e Desenvolvimento. Atuou como docente
adjunta da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG - 2008-2011) no Curso de
Licenciatura em Ciências Biológicas e no Mestrado em Educação em disciplinas de
ensino em ciências e metodologia da pesquisa. Tem experiência na área de ambiental,
com foco em educação ambiental, atuando principalmente nos seguintes temas: formação
em educação socioambiental, gestão ambiental, meio ambiente, sensibilização por meio
de metodologias alternativas, ambientalização curricular e formação de prossionais
educadores ambientais. Também tem atuação na área de metodologia cientíca e como
orientadora e coorientadora de trabalhos cientícos. Coordenadora da Sala Verde REAP,
que foi aprovada pelo Ministério do Meio Ambiente em meados de 2018. Participa
382
do Núcleo Local do Instituto de Educação e Pesquisa em Práticas Pedagógicas (IEP3)
da UNESP. É líder do Grupo de Pesquisa em Gestão e Educação Ambiental (PGEA).
Membro do grupo de Pesquisa em Democracia e Gestão Social (GEDGS/ UNESP)
e.Membro do Grupo Interdisciplinario de Estudios Socio Ambientales (GIESA/ UNC
- Argentina). E também é parceira com o Centro de Investigación y Vinculación em
Estudios Ambientales da Faculdade de Ciências Econômicas, Jurídicas e Sociais da
Universidade Nacional de San Luis (UNSL, Argentina), Moderadora da Rede de Educação
Ambiental da Alta Paulista (REAP). Membro da Rede de Educação Ambiental do Brasil
(REBEA/desde 2007), da Rede Sul Brasileira de Educação Ambiental (REASul), da Rede
Internacional de Pesquisadores sobre Comunidades Tradicionais (REDECT desde 2019)
e Rede Paulista de Educação Ambiental (REPEA, desde 2020). Também é membro do
Observatório de Educação Ambiental (OBSERVARE desde 2019)., membro Fundadora
da Rede Internacional de Educação Ambiental (Nerea-investiga) e Membro Titular da
Academia de Letras, Ciências e Artes de Tupã-SP (desde 2013).
eduArdo guilherme sAtolo
Professor Associado na Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho
(UNESP), Faculdade de Ciências e Engenharia (FCE), Câmpus de Tupã no curso de
Administração (09/2013 até o momento); Docente Permanente do Programa de Pós-
Graduação em Agronegócio e Desenvolvimento (Mestrado e Doutorado Acadêmico)
da FCE/Tupã. Líder e pesquisador do grupo de pesquisa Kamby (GPKamby) “Boas
Práticas na Pecuária Leiteira”. Pesquisador dos grupos de pesquisa CEPEAGRO
(Centro de Pesquisa em Administração e Agronegócio/UNESP), do Laboratório DGE
(Design inking, Gestão e Engenharia Industrial - UFF/Unesp) e do Núcleo de
Desenvolvimento e Otimização de Processos e Sistemas Produtivos (UNIMEP). É livre
docente em Administração da Produção pela Unesp (2019). Pós-Doutor pelo Programa
de Pós-Graduação em Engenharia de Produção e Sistemas Computacionais (MESC-
ICT) da Universidade Federal Fluminense - UFF (2018). Graduado, Mestre e Doutor
em Engenharia de Produção pela Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP). Pós-
graduado em Gestão e Produção de Álcool e Açúcar (MBA), pelo IAT/Fatep. Coordenou
e lecionou nos cursos de Engenharia de Produção em IES particulares (2008 -2013). Atua
em pesquisas na área de Gestão da Produção, Gestão da Qualidade; Gestão da Cadeia de
Suprimentos, Planejamento e Controle da Produção e Sustentabilidade organizacional.
383
gessuir pigAtto
Graduado em Economia pela UFPr (1997), mestre em Engenharia de Produção pela
UFSCar (2001), doutor em Engenharia de Produção pela UFSCar (2005), Livre Docente
em Análise de Sistemas Agroindustriais pela Universidade Estadual Paulista (2019) e Pós-
doutorado pela Università degli Studi di Firenze (2019). Atualmente é Professor Associado
da Faculdade de Ciências e Engenharia (FCE) da UNESP, Campus de Tupã. Docente
Permanente do Programa de Pós-Graduação em Agronegócio e Desenvolvimento (PGAD).
Tem experiência na área de Administração, com ênfase em Canais de Distribuição, Short
Food Supply Chain, Cadeias Produtivas do Agronegócio, Competitividade, Food Waste e
Food Loss, Serviços de Alimentação publicando principalmente os seguintes temas: SFSC,
canais de distribuição, food service. Pesquisador do Grupo de Pesquisa CEPEAGRO e do
All4Food
fábio mosso moreirA
Pós-Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Agronegócio e Desenvolvimento
- PGAD (UNESP/Tupã). Doutor e Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência
da Informação (UNESP/Marília). Bacharel Administração de Empresas (UNESP/Tupã).
Membro do Grupo de Pesquisa Tecnologia de Acesso a Dados (GPTAD e do Projeto
Competências Digitais para Agricultura Familiar (CoDAF). Editor de Conteúdo da
Revista Eletrônica Competências Digitais para Agricultura Familiar (RECoDAF).
384
luAnA fernAndes melo
Bacharela em Nutrição pela Faculdade Maurício de Nassau (Campus de Campina
Grande - Paraíba). Bacharela em Agroecologia pela Universidade Federal da Paraíba
(UFPB). Mestra em Ciências Agrárias (Agroecologia) pela UFPB. Doutora em
Extensão Rural pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM-CCR). Realizou
estágio no doutorado pela Universidad Autónoma del Estado de México (UAEMex) -
Instituto de Ciencias Agropecuarias y Rurales (ICAR) sobre Estudos Agroalimentares,
por meio do Programa de Doctorado en Ciencias Agropecuarias y Recursos Naturales
(PCARN). Docente colaboradora e Pós-doutoranda pelo Programa de Pós-graduação em
Agronegócio e Desenvolvimento (PGAD), pela Universidade Estadual Paulista Júlio de
Mesquita Filho (UNESP), na Faculdade de Ciências e Engenharia (FCE), por meio de
área Interdisciplinar, com ênfase nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)
2 (Fome Zero e Agricultura Sustentável) e 12 (Consumo e Produção Responsáveis), com
estágio pela Universidad de Oviedo (UNIOVI), na Espanha. Pesquisadora no ‘Grupo de
Estudos em Agricultura Familiar e Sustentabilidade’ (GEAFS) pela UNESP. Participante
do Grupo de Pesquisa e do Núcleo de Extensão ‘Sustentarea’ pela Faculdade de Saúde
Pública (FSP) - Universidade de São Paulo (USP), no grupo de Índices Alimentares
Sustentáveis e Recursos Humanos. Apresenta experiência em: Agroecologia, Nutrição,
Alimentação Saudável e Sustentável, Saúde Humana e Saúde Ambiental, Soberania e
Segurança Alimentar e Nutricional, Sistemas Agroalimentares, Agricultura Familiar,
Sustentabilidade/Desenvolvimento Sustentável e Juventudes Camponesas.
Apoio orgAnizAcionAl
Programa de Pós-Graduação em Agronegócio e Desenvolvimento – PGAD/UNESP
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES
institucionAl
Faculdade de Ciências e Engenharia-FCE, UNESP, Tupã
Faculdade de Filosoa e Ciências-FFC, UNESP-Marília
cAtAlogAção nA publicAção (cip)
Telma Jaqueline Dias Silveira
CRB 8/7867
normAlizAção
Maria Elisa Valentim Pickler Nicolino
CRB - 8/8292
cApA e diAgrAmAção
Gláucio Rogério de Morais
produção gráficA
Giancarlo Malheiro Silva
Gláucio Rogério de Morais
AssessoriA técnicA
Renato Geraldi
oficinA universitáriA
Laboratório Editorial
labeditorial.marilia@unesp.br
formAto
16 x 23cm
tipologiA
Adobe Garamond Pro
2024
sobre o livro
A obra que tenho o prazer de
prefaciar representa a consolidação
do esforço do grupo de Professores
e Pesquisadores do Programa de
Pós-Graduação em Agronegócio e
Desenvolvimento (PGAD) da Universidade
Estadual Paulista no Campus de Tupã.
Não se engane o leitor caso entenda que se
trata de obra hermética e voltada para um
público restrito ao meio acadêmico. Ao ler
o material eu compreendi a sua utilidade
para a definição de políticas públicas
voltadas para a agricultura, agroindústria
e desenvolvimento regional, bem como
para a formulação de estratégias privadas,
seja dos produtores rurais e agroindústrias
como também das entidades coletivas
como cooperativas e associações de
produtores. Em adição, considero que os
capítulos que compõem a obra podem
atrair o olhar do público geral interessado
em temas contemporâneos que envolvam
o meio ambiente, a organização social e a
governança de organizações complexas.
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani
Angélica Gois Morales
Eduardo Guilherme Satolo
Gessuir Pigatto
Fabio Mosso Moreira
Luana Fernandes Melo
(Organizadores)
Agronegócio, desenvolvimento e a agenda 2030:
contribuições interdisciplinares
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani; Angélica Gois Morales;
Eduardo Guilherme Satolo; Gessuir Pigatto;
Fabio Mosso Moreira e Luana Fernandes Melo (Org.)
Agronegócio,
desenvolvimento e a
agenda 2030
contribuições interdisciplinares
Processo CAPES: nº 88887.691405/2022-00
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