Não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem
ensino. Esses que fazeres se encontram um no
corpo do outro. Enquanto ensino continuo bus-
cando, reprocurando. Ensino porque busco, por-
que indaguei, porque indago e me indago. Pes-
quiso para constatar, constatando intervenho,
intervindo educo e me educo. Pesquiso para co-
nhecer o que ainda não conheço e comunicar ou
anunciar a novidade. (FREIRE, 2003, p. 30).
Este livro é parte dos esforços coletivos
empreendidos no âmbito do Grupo de Es-
tudos em Pesquisa Pedagógica e Cultura
Cientíca (GEPPECC) por professores
e alunos membros do grupo e vincula-
dos ao PPGE da FFC/Unesp, Campus de
Marília. Nesta obra, foi possível reunir,
20 autores em nove capítulos que trazem
diferentes olhares, relatos de experiências
e resultados de pesquisas que apontam
para os desaos e perspectivas no âmbito
da Educação Básica e do Ensino Superior
em tempos de pandemia e ensino remoto,
ocasionado em virtude da Covid 19. Es-
peramos socializar conhecimentos produ-
zidos por docentes e discentes vinculados
ao PPGE/ Unesp/ Marília e será destina-
da a alunos de licenciatura, pós-graduan-
dos e prossionais da educação em geral.
Com a publicação deste material, espera-
mos socializar conhecimentos produzidos
por docentes e discentes vinculados ao
Programa de Pós-Graduação em Educa-
ção da Faculdade de Filosoa e Ciências/
Unesp, Campus de Marília e será destina-
da a alunos de licenciatura, pós-graduan-
dos e prossionais da educação em geral.
EDUCAÇÃO E PANDEMIA: impactos e desaos
Programa PROEX/CAPES:
Auxílio Nº 396/2021
Processo Nº 23038.005686/2021-36
Araujo e Cordeiro (orgs)
EDUCAÇÃO E PANDEMIA:
IMPACTOS E DESAFIOS
Luciana Aparecida de Araujo
Ana Paula Cordeiro
(Organizadoras)
Luciana Aparecida de Araujo
Ana Paula Cordeiro
(Organizadoras)
EDUCAÇÃO E PANDEMIA:
IMPACTOS E DESAFIOS
Marília/Oficina Universitária
São Paulo/Cultura Acadêmica
2022
UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIASFFC
UNESP - campus de Marília
Diretora
Dra. Claudia Regina Mosca Giroto
Vice-Diretora
Dra. Ana Claudia Vieira Cardoso
Conselho Editorial
Mariângela Spotti Lopes Fujita (Presidente)
Adrián Oscar Dongo Montoya
Célia Maria Giacheti
Cláudia Regina Mosca Giroto
Marcelo Fernandes de Oliveira
Marcos Antonio Alves
Neusa Maria Dal Ri
Renato Geraldi (Assessor Técnico)
Rosane Michelli de Castro
Conselho do Programa de Pós-Graduação em Educação -
UNESP/Marília
Graziela Zambão Abdian
Patrícia Unger Raphael Bataglia
Pedro Angelo Pagni
Rodrigo Pelloso Gelamo
Maria do Rosário Longo Mortatti
Jáima Pinheiro Oliveira
Eduardo José Manzini
Cláudia Regina Mosca Giroto
Auxílio 0396/2021, Processo 23038,005686/2021-36, Programa PROEX/CAPES
Arte da capa: José Salustiano
Ficha catalográfica
Serviço de Biblioteca e Documentação - FFC
E24 Educação e pandemia: impactos e desafios / Luciana Aparecida de Araújo, Ana Paula
Cordeiro (org.). Marília : Oficina Universitária ; São Paulo : Cultura Acadêmica,
2022.
288 p. : il.
Inclui bibliografia
ISBN 978-65-5954-308-3 (Digital)
ISBN 978-65-5954-307-6 (Impresso)
DOI: https://doi.org/10.36311/2022.978-65-5954-308-3
1. Educação. 2. EscolasOrganização e administração. 3. Ensino à distância. I.
Araújo, Luciana Aparecida de. II. Cordeiro, Ana Paula. III. Título.
CDD 370.7
Catalogação: André Sávio Craveiro Bueno CRB 8/8211
Copyright © 2022, Faculdade de Filosofia e Ciências
Editora afiliada:
Cultura Acadêmica é selo editorial da Editora UNESP
Oficina Universitária é selo editorial da UNESP - campus de Marília
Sumário
Prefácio |
rcia Aparecida Gobbi
...............................................................07
Apresentação................................................................................................19
Capítulo 1 – Educação e Pandemia: Um Olhar Sobre as Produções
Acadêmicas (2020-2021)..............................................................................27
Luciana Aparecida de Araujo
Cleriston Izidro dos Anjos
Capítulo 2 A Cultura da Escola e a Sensibilidade em Tempos da Pandemia:
Condições e Desafios da Educação para Novos Tempos.................................65
Manuel João Mungulume
Alonso Bezerra de Carvalho
Capítulo 3 Gestão Escolar e Desafios no Contexto Pandêmico:
Ressignificando Papéis...................................................................................85
Juliana Xavier Moimàs
Patrick Pacheco Castilho Cardoso
Viviane Jaqueline Peron Ferreira
CAPÍTULO 4 As Fragilidades do Ensino Remoto para a Aprendizagem
Matemática no Ensino Fundamental Anos Iniciais......................................115
Camila Aparecida da Silva
Emerson da Silva dos Santos
José Carlos Miguel
Capítulo 5 Ensino Remoto: Avanços ou Retrocessos? Um Relato de
Experiências no Anos Iniciais do Ensino Fundamental.................................145
Maria Teresa Alvares de Paula
Manuela Cristina Tórcia
Capítulo 6 Considerações Sobre a Educação Especial em Tempo de Pandemia
na Perspectiva da Deficiência Visual nos Anos Iniciais da Educação Básica
...................................................................................................................171
José Salustiano Dos Santos
Débora Fabiana Vaz Dellamura
Claudia Regina Mosca Giroto
Capítulo 7 – Anos Finais do Ensino Fundamental: Os Desafios do Ensino da
Língua Portuguesa......................................................................................193
Fábio Vinicius Alves
Luiz Felipe Garcia de Senna
Capítulo 8– Trajetória da Educação à Distância (EaD) no Brasil e os Desafios
na Implementação do Ensino Remoto Emergencial na Educação Superior:
Breve Contextualização...............................................................................221
Gabriel Scoparo do Espírito Santo
Márcia Mendes de Lima
Capítulo 9 - As Dores e Delícias da Docência em um Tempo Desafiador:
Pandemia, Ensino Remoto e Algumas Disciplinas na Graduação em Pedagogia
da FFC-UNESP, Campus de Marília...........................................................255
Ana Paula Cordeiro
Luciana Aparecida de Araujo
Os/As Autores/as........................................................................................281
7
Prefácio
Diálogos Sobre uma Obra Pertinente
A obra Educação e pandemia: impactos e desafios, organizada por
Luciana Aparecida de Araújo e Ana Paula Cordeiro, tem, entre muitas,
uma característica que não pode ser desconsiderada. Ela foi tecida em
tempos da pandemia, ocasionada pelo rus Sars-Cov-2. Faz disso seu mote
e enfrenta o desafio de pensar, em meio ao turbilhão causado por esta
pandemia que parece não ter fim. Apresenta importantes reflexões
relacionando, como o próprio título nos informa, educação à pandemia
que é, inegavelmente, das maiores e mais acachapantes que temos
registrado em nossa história. A hipótese que parece irrefutável é que a
educação se viu profundamente transtornada nesses tempos, essa que
tem sido alvo de tantas formas de exclusão, empobrecimento pelas políticas
públicas, que sob a aparência de busca por torná-la mais acessível e justa
para todas/es/os, desde a creche, enverga-se em frente ao empresariado que
a suga nas entranhas.
Ao debruçarem-se sobre a educação e seus desdobramentos na
pandemia, os autores - que escrevem essa obra a muitas mãos
convocaram-me a pensar sobre as condições enfrentadas por profissionais
da educação no período abordado, o que me motivou a escrita.
Respeitando os limites de um prefácio, busquei me juntar às análises,
práticas e pensamentos produzidos. Destaco, inicialmente, a importância
de obras que recentemente m contribuído com diferentes produções
teóricas, ao registrar a história no moment o mesmo em que ela acontece.
https://doi.org/10.36311/2022.978-65-5954-308-3.p7-18
8
São registros que podem ser consultados posteriormente, permitindo
àquelas e àqueles que virão, ter um amplo panorama do triste período pelo
qual estamos passando e perceber suas transformações e permanências e o
quanto isso exige de nós.
Nos últimos dias de fevereiro de 2020, identificou-se, no Brasil, a
primeira contaminação pelo Coronavirus Sars-Cov-2. Na Europa,
centenas de casos tinham sido notificados, conferindo-nos um espaço
temporal entre os casos europeus e a chegada da doença no Brasil e sua
disseminação. Este tempo permitiria agir a partir do que se sabia sobre
o Covid, colocando-nos num lugar em que ações preventivas poderiam ter
acontecido. Contudo, não nos valemos desta experiência. Contrariando
essa possibilidade, nos deixamos levar ladeira abaixo, em estado de espera
pelo que seria trágico. Iniciava-se uma pandemia que, até o momento em
que escrevo esse prefácio, parece não ter fim, modificando-se ao bel prazer
das variantes do Sars-Cov-2 e, não , mas também fazendo valer a máxima
de que sem vacinas nos braços, nos acometemos da doença em suas formas
mais brutais.
O bairro do Leblon, na cidade do Rio de Janeiro, um dos metros
quadrados mais caros do mundo, compôs um triste e emblemático cenário,
projetando o que se alastraria pelo país como doença fatal, repito, até a
existência de vacinas
1
. Conhecemos lamentavelmente a primeira vítima da
Covid: uma empregada doméstica, que vivia na casa dos patrões, “para se
proteger do rus e da longa distância a ser percorrida entre sua casa na
periferia do Rio de Janeiro e a de seus empregadores. Era uma trabalhadora
que vivia no local onde trabalhava, reproduzindo relações de exploração,
que nos remetem imediatamente a textos clássicos como Casa Grande &
1
Vale lembrar que a primeira dose da vacina contra a Covid-19 foi ministrada no Brasil em
17/01/2021, em São Paulo.
9
Senzala, de Gilberto Freire, e ao período colonial no qual tanto se aprendeu
sobre tortura e os poderes espalhados no cotidiano das pessoas. O país das
históricas desigualdades de classe, de raça, gênero e etária mostrava, mais
uma vez, sua face hedionda. A morte da empregada doméstica contagiada
pelos patrões, recém-chegados da Itália, mostrava escancaradamente
elementos engendrados nessa pandemia que, à moda brasileira, produzia
ainda mais desigualdades, devido a inoperância, ao descaso e à política de
Jair Bolsonaro, inegavelmente produtora de mortes. Escrevo este texto
num momento em que continuamos a lutar pela vacinação,
comprovadamente eficaz e salvadora de vidas, com mais de 620 mil vidas
perdidas e em que temos no Sistema Único de Saúde (SUS) o serviço
fundamental para divulgação de políticas públicas de saúde que
mantiveram milhões de vidas salvas deste rus e de tantas outras doenças.
Neste contexto pandêmico e de frágeis políticas que dessem
sustento efetivo a maioria da população, importa referir-me também às
populações indígenas, as quais, em meio à pandemia, foram obrigadas a
manifestarem-se contra o Projeto de Emenda à Constituição (PEC) 215,
que se referia à Demarcação de Terras Indígenas. Trata-se de uma das
principais bandeiras da bancada ruralista, transferindo do governo federal
para o Congresso a atribuição de regularizar as Terras Indígenas,
Territórios Quilombolas e Unidades de Constituição. Prevê-se que nova
sistemática, se aprovada, deverá paralisar de vez o processo de oficialização
dessas áreas protegidas.
Moradoras e moradores de Ocupações de terrenos e edifícios, em
grandes centros urbanos e áreas rurais, foram submetidos a ameaças e
processos que removem casas e vidas, de modo concomitante, ao extirpar
direitos, organizações e relações estabelecidas entre todas/es/os. Com
batalhas que envolveram movimentos sociais de luta por moradia e
10
pesquisadores, foi possível obter a suspensão desses processos de remoção,
pelo menos até 31 de março de 2022, embora em recente notícia, se tenha
sabido do não cumprimento do que fora determinado pelo Superior
Tribunal Federal (STF), numa afronta às formulações legais
2
. As pessoas,
sem casa e sem emprego, passaram a ter nas ruas seu lugar de abrigo, único
para onde ir. Sem condições de se manter, famílias inteiras têm ocupado
avenidas e ruas. Estima-se que somente na cidade de São Paulo tenhamos
em torno de 66 mil pessoas em situação de rua, número que era
alarmante antes da pandemia e que aumentou muitíssimo nesses últimos
dois anos
3
.
O ex-ministro do Meio Ambiente, numa de suas falas, em reunião
com ministros, assessores e presidência da República, afirmou a
necessidade de “passar a boiada”. Não dúvidas de que a pandemia foi
usada para fins escusos, para passar toda sorte de projetos e acobertar ações
que inviabilizam as vidas da maior parte da população, em especial
mulheres, negros e negras, crianças. A olhos vistos, a “boiada” vem
passando de forma aviltante, retirando direitos de trabalhadores,
estudantes, indígenas e matando impiedosamente, de distintas maneiras.
Essa breve contextualização é importante para nos aproximarmos
da escrita da obra aqui prefaciada, que não mediu esforços para nos
apresentar práticas e reflexões oriundas de um campo específico: a
educação, que sofreu enormemente pelos descasos em larga escala, dos
quais foi vítima. O livro nos apresenta importantes contribuições a partir
2
Conforme notificou a Rede Brasil Atual (RBA). Disponível em:
https://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2021/12/familias-despejadas-sp-stf-remocoes/.
Acesso em: 09 jan. 2022.
3
Agência Brasil. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2021-10/sao-paulo-
tem-mais-de-66-mil-pessoas-que-vivem-em-situacao-de
rua#:~:text=Publicado%20em%2015%2F10%2F2021,sem%20teto%20na%20capital%20paulis
ta. Acesso em: 09 jan. 2022.
11
de questões aparentemente tão simples, cujos desdobramentos são
fundamentais para pensarmos sobre as diferentes maneiras de se produzir
a educação e a escola, esta última alvo de empresários, que tentam
privatizações direta e indiretamente e abandonam profissionais à sua
própria sorte, esvaziando de sentido o exercício do magistério, que,
aparentemente, pode ser cumprido por qualquer profissional, sem as
devidas formações e remunerações necessárias.
No Brasil, em 2020, 48 milhões de estudantes deixaram de
frequentar presencialmente as escolas em todos os níveis da educação
básica. No Estado de São Paulo, maior rede pública do país, 3,8 milhões
não puderam estar na escola. Vale sublinhar que entre as mulheres a
porcentagem é maior, pois o acúmulo de atividades, muitas vezes, as
impede de continuar os estudos, afinal, entre usar o celular para suas aulas
e dei-lo para seus filhos e suas filhas ou parentes de menos idade, a opção
é que fiquem com elas e eles. Os cuidados com parentes adoecidos também
tomaram o tempo que poderia ser destinado aos estudos. Isso implica
grandemente a Educação de Jovens e Adultos (EJA). Somente no Estado
de São Paulo, temos menos 60 mil estudantes adultos e adultas nas escolas,
e as mulheres estão majoritariamente entre eles
4
. Não podemos atribuir
esse fato à mera “desistência de ir à escola, em qualquer de suas etapas,
assim como não é possível responsabilizar apenas a pandemia. Ela foi, e
ainda é, um elemento fundamental para o recrudescimento da ausência de
condições para a vida estudantil enfrentada por estudantes de todas as
idades, mas não é o único fator, como sabemos, que a desigualdade
permeia e evidencia nossa história séculos.
4
Conforme dados apresentados no site https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2021/03/mais-
de-60-mil-adultos-deixaram-de-estudar-durante-a-pandemia-em-sp.shtml. Acesso em: 09 jan.
2022.
12
Educadores viveram momentos em que questões foram postas,
exigindo soluções urgentes: o que fazer com todas/todes/os estudantes,
desde a creche? Dentro de uma cultura escolar, que embora em constantes
mudanças, está bastante consolidada, como proceder à distância, com
práticas pedagógicas que exigem a presença das pessoas, cujas constantes
relações produzem vivamente culturas, conhecimentos variados, para bem
além dos conteúdos escolares e currículos previamente definidos? A
pandemia expôs problemas arrastados por décadas, mas criou outros
muito importantes, para dar continuidade às expectativas educacionais,
para manter e construir vínculos entre pessoas de todas as idades, para
produzir a vida em tempos de mortes. Ao considerarmos as pesquisas e
relatos de práticas contidos na obra aqui abordada, percebe-se que
profissionais da educação, em todas as etapas, incluindo a educação
especial, tão relegada, em esforços contínuos mantiveram a educação
continuamente viva, apesar de descasos.
Aspectos tão investigados por inúmeras/es/os pesquisadoras/es, tais
como, a importância do contato físico, das relações entre todas/es/os e que
produzem os espaços escolares e o conhecimento em distintas áreas foram
colocados em xeque. Corpos de crianças e jovens, suas vozes, anseios,
correrias e debates ricos foram silenciados. O que seria possível, agora num
momento em que se parecia engessar quaisquer dessas práticas, e, de fato,
as engessou, produzindo outras e até mesmo impedindo qualquer prática
escolar, diante de um cenário de miséria, presente em diferentes bairros de
pequenas e grandes cidades brasileiras, em que o acesso à internet era
impossível, bem como, a computadores pessoais, ainda escassos, devido ao
alto custo. Dados da Pesquisa por Amostra Domiciliar (PNAD) Contínua,
realizada em 2019, no Brasil, revelam que 4,3 milhões de estudantes não
tinham acesso à internet e destes 4,1 milhões são de escolas públicas. Isso
13
se deve especialmente a razões econômicas e à indisponibilidade de oferta
de redes de acesso em várias regiões do país. Esse quadro permite-nos
levantar várias hipóteses, sendo uma delas muito plausível, qual seja: as
crianças poderiam deixar suas escolas, pois estavam impossibilitadas de
acessá-las mesmo remotamente.
Seria possível tecer vínculos mediados por uma tela, ou por telinhas
tão pequenas como as de celulares, divididos com adultas e outras crianças
estudantes? O fato é que tais recursos tardaram muito a chegar às famílias,
que ficaram apartadas de conteúdos e interações escolares que começaram
a ser criadas. Tal formato e condições tão adversas levaram a muitas
problematizações; diria que algumas delas deveriam estar em curso
mesmo antes da pandemia. Ela apenas lhes conferiu maior visibilidade.
Muitos encontros ao vivo, que não exatamente - as chamadas lives -
deram tom às reflexões e foram delineando as condições em que estávamos;
cursos de extensão foram realizados e tiveram como intuito promover
reflexões sobre o que estava se passando e engessava, angustiava, adoecia
pessoas, não somente aquelas acometidas pela Covid-19.
Alertas para as abordagens remotas e as possibilidades de tratar as
disciplinas escolares, especialmente no ensino fundamental e a
manutenção ou reformulação das avaliações escolares, aprovações,
continuidade do ano escolar, somavam-se análises necessárias sobre a
urgência em divulgar dados sobre a pandemiaomitidos pelo Ministério
da Saúde –, manter o censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística (IBGE), divulgação científica fundamental para que a
população pudesse prevenir-se, vacinar-se posteriormente, conhecer o que
ocorria no país e no mundo. Enfim, as escolas e todas/es/os que a
compõem ficaram à deriva, deriva essa que resultava de um projeto bem
14
arquitetado e relacionado às formas ultra neoliberais de tratar populações
em especial vulneráveis e tão fragilizadas.
É nesse contexto que nos tira o fôlego e exige coragem que Luciana
Aparecida de Araujo e Ana Paula Cordeiro organizam a obra EDUCAÇÃO
E PANDEMIA: IMPACTOS E DESAFIOS. Ao ler os nove capítulos que
o compõem, escritos por muitas mãos, embora apontem criticamente para
a urgência de enfrentarmos a educação entre e após a pandemia, nos
deixam o gosto amargo, eu diria, de que não temos exatamente os novos
tempos, mas a urgência, recrudescida pela pandemia, de enfrentarmos a
terra arrasada, construída ao longo de 500 anos sobre pandemias, pobreza,
diferenças transformadas em tantas desigualdades e fomes.
Esta obra vai ao chão da escola com voos rasantes, apresentando
realidades em que pessoas fazem um esforço para forjar a educação, apesar
de tudo, forjando a própria vida que brota da crueza e das tantas
necessidades. É possível compreender, pelos relatos e reflexões presentes
neste livro, processos criativos ricos que nos remetem a pensar sobre os
sentidos da escola. Afirmo, com base na leitura dos capítulos, que os
mesmos se juntam ao que busco fortemente na tessitura de uma vida que
se faz na educação: a certeza de que a escola pode ser vista como local
produtor de vida e que na pandemia, com a urgência das aulas remotas, de
cuidar de familiares carecidos de comida, a escola se refez em sentidos que
a aproximaram das comunidades que estão em seu entorno. Se afetou a
cultura escolar, sabidamente carcomida por um cotidiano que precisa
ser revisto, embora também aprazível, a pandemia trouxe bons elementos
para pensarmos comunitariamente e outros tantos sobre o que fazer para
enfrentar as agruras diárias.
Enquanto muitos agentes da educação buscavam soluções,
especialmente, professoras e professores, outros davam cabo às mudanças
15
pelas quais o Ensino Médio estava passando e que terão início em 2022,
com ares de fim de pandemia e retorno ao normal, como ainda vários
grupos insistem em afirmar. Normal que deveria ser rechaçado,
questionado, alterado estruturalmente. Colocam-se em prática altas doses
do empreendedorismo travestido de empoderamento de jovens e
mulheres, em que o protagonismo de estudantes não passa de escolhas de
itinerários pedagógicos, projetos de vida e o desenvolvimento de
habilidades socioemocionais. O empresariado e o mercado ditam as regras
para essa mudança curricular do Ensino dio (CATINI, 2020) e deixam
a juventude com um futuro facilmente perceptível: ausente da
materialização de seus direitos, com empregos precários, universidades
privadas e de baixa qualidade, inexistência de pesquisas científicas.
Em relação aos bebês e as bebês, merece destaque a ausência de
relações entre eles e elas e destes com adultas que cuidam e educam. Ao
mesmo tempo em que essa preocupação era colocada em pauta, outras
movimentavam meios acadêmicos e fóruns de pesquisadoras e professoras
em organizações de caráter político. Afinal, que segurança teriam essas
crianças de tão pouca idade, sem vacinas, ao irem para as creches e pré-
escolas? Como se posicionar em meio a uma pandemia, diante da Lei de
Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) que afirma: “a educação
infantil, primeira etapa da educação básica, tem como finalidade o
desenvolvimento integral da criança de até cinco anos, em seus aspectos
físico, psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família
e da comunidade”, diz o artigo 29. o artigo das Diretrizes
Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (DCNEI) define que “a
Educação Infantil, primeira etapa da Educação Básica, é oferecida em
creches e p-escolas, as quais se caracterizam como espaços institucionais
não domésticos que constituem estabelecimentos educacionais públicos ou
16
privados que educam e cuidam de crianças de 0 a 5 anos de idade”. O
espaço doméstico tornou-se o local, não apenas de cuidados, como
também onde ocorriam as práticas educativas de caráter escolar. Repete-se
a indagação: de que lado ficar diante deste quadro? Bebês não podem ficar
diante de telas, por muito que tenhamos avançado, nada substitui mãos
que acarinham, colo em que é possível sentar-se para um aconchego, uma
brincadeira, um afago. Assim, essas urgências compuseram muitas
discussões sobre educação de crianças com pouca idade.
muito trabalho a ser feito como nos relata esta obra, mas como
debatido e exposto em seus capítulos, muito foi feito, ainda que
mergulhado em incertezas. Destacaram-se e tanto os profissionais da
educação, que em sua lida diária com estudantes da educação básica e
ensino superior, educação especial, criaram formas para enfrentar os
resultados, não de uma pandemia, mas fundamentalmente, dos
desgovernos existentes durante a mesma. Todas as autoras e autores desta
obra são também, como consta no título, aquelas e aqueles que
enfrentaram duramente o que estava ocorrendo, que, vale reforçar, o
ensino superior e a produção de suas pesquisas e reflexões não ficou à parte,
ao contrário, produziu ciência, artigos científicos e livros realizados
enquanto procuravam equilíbrio em meio ao mar revolto, um desafio,
inegavelmente. As publicações acadêmicas em artigos, como tratado em
um dos capítulos deste livro, assim como, livros e demais formas de
divulgação científica, demonstram os esforços feitos pela academia para se
manterem vivos e à verve que nos coloca em pé, em diversas ações.
O cenário tão desafiador da educação, em todas as suas etapas,
tornou-se ainda mais, ao longo da pandemia, exigindo muito de
todas/es/os nós. Ganhamos ao ler a obra e pensar nos enfrentamentos
presentes, o que demanda pensar sobre o lado em que estamos nessa guerra
17
que tem envolvido tão de perto a educação e aqueles que a fazem desde a
base, cotidianamente. Luciana e Ana Paula, bem como, Gabriel Scoparo
do Espírito Santo, Márcia Mendes de Lima, Fábio Vinicius Alves, Luiz
Felipe Garcia de Senna, Jo Salustiano dos Santos, Débora Fabiana Vaz
Dellamura, Claudia Regina Mosca Giroto, Maria Teresa Alvares de Paula,
Manuela Cristina Tórcia, Camila Aparecida da Silva, Emerson da Silva dos
Santos, José Carlos Miguel, Juliana Xavier Moimàs, Patrick Pacheco
Castilho Cardoso, Viviane Jaqueline Peron Ferreira, Manuel João
Mungulume, Alonso Bezerra de Carvalho e Cleriston Izidro dos Anjos,
nomes de todas, todes e todos autores, informados aqui de trás para frente,
enfrentam o desafio da escrita num tempo em que insistem em nos dizer
que não devemos produzir pensamentos e demais ações, que a ciência não
nos vale como forma explicativa da vida, que o estudo e a pesquisa são
colocados em segundo plano. Faço coro ao que fora escrito num dos
capítulos desta obra e convido à reflexão: em 2022 teremos um ano de
eleições. Está em jogo a fragilíssima democracia brasileira, a desigualdade
social adensada, as mais absurdas violências cometidas contra povos
negros, indígenas, mulheres e crianças. O cenário exige muito de nós e não
podemos nos silenciar ou nos contentarmos com algumas palavras de
ordem que mais apaziguam nossos egos do que comem lutas efetivas
contra a barbárie. Vamos ler, tomar dos acontecimentos e das recentes
e importantes reflexões.
Parabenizo a todas/es/os e que venham outros diálogos, pois
carecemos demais deles como forma de nos fortalecermos para enfrentar o
que está em curso e o que virá.
Márcia Aparecida Gobbi
18
Referências
CATINI, Carolina. Empreendedorismo, privatização e o trabalho sujo da
educação. Revista USP, [S. l.], n. 127, p. 53-68, 2020. DOI:
10.11606/issn.2316-9036.i127p53-68. Disponível em:
https://www.revistas.usp.br/revusp/article/view/180045. Acesso em: 11
jan. 2022.
19
Apresentão
Em 11 de março de 2020, a Organização Mundial da Saúde
(OMS) divulgou uma notícia que provocou o caos na economia, na
política, na saúde e na educação. O contexto de pandemia em virtude da
Covid 19, doença causada pelo vírus SARS-CoV2, se instalou em todo o
mundo e com ele vieram novas formas de se viver e agir na sociedade. As
condições impostas pelo isolamento e distanciamento social impuseram às
escolas da Educação Básica e de Ensino Superior um novo ritmo de
trabalho. Professores e alunos precisaram se “reinventar” (e não
consideramos o termo um exagero) nos processos de ensinar e de aprender.
Com esse novo contexto, novas formas de realização das atividades
didáticas precisaram ser pensadas e adequadas à realidade e condições
materiais e subjetivas de seus professores e alunos.
As aulas remotas tornaram-se possibilidade para o enfrentamento
e continuidade do ensino. As tecnologias digitais e plataformas virtuais
tornaram-se ferramentas necessárias, em tempos de pandemia. As escolas
de Educação Básica e as Instituições de Ensino Superior tiveram que pensar
em medidas de enfrentamento da situação, para um possível plano de
retomada das atividades, minimizando os riscos de propagação da doença
entre os profissionais da educação e alunos da Educação Básica e Ensino
Superior.
Como parte dos esforços coletivos empreendidos pelos
pesquisadores do Grupo de Estudos em Pesquisa Pedagógica e Cultura
https://doi.org/10.36311/2022.978-65-5954-308-3.p19-26
20
Científica (GEPPECC), professores e alunos do Programa de Pós-
Graduação em Educação da FFC/Unesp, Campus de Marília, foi possível
reunir nesta obra nove capítulos, com diferentes olhares e contribuições,
desde relatos de experiências a resultados de pesquisas, que apontam para
os desafios e perspectivas no âmbito da Educação em tempos de pandemia
e ensino remoto, ocasionado em virtude da Covid 19.
Com o intuito de compreender quais as possíveis temáticas,
desafios e perspectivas têm sido abordadas nas produções acadêmicas que
discutem sobre educação em tempos de pandemia, Luciana Aparecida de
Araujo e Cleriston Izidro dos Anjos, abrem as discussões com o capítulo 1
deste livro, intitulado “Educação e pandemia: um olhar sobre as produções
acadêmicas (2020-2021)”. A autora e o autor reuniram 20 artigos que
discutem a educação em tempos de pandemia, desde a Educação Infantil
primeira etapa da Educação Básica até o Ensino Superior,
sistematizados a partir de dois eixos: Implicações da pandemia causada pela
Covid-19 na educação brasileira e propostas de trabalho em tempos de
isolamento e Políticas públicas educacionais e pandemia: direitos e
exclusão.
Considerando que a pandemia impactou de forma negativa a
cultura da escola, que vinha enfrentando as suas complexidades, e, com
a chegada dela, os desafios da prática escolar se agravaram, Manuel João
Mungulume e Alonso Bezerra de Carvalho, no capítulo 2, intitulado “A
cultura da escola e a sensibilidade em tempos da pandemia: condições e
desafios da educação para novos tempos” trouxeram algumas reflexões em
torno dos impactos causados pela pandemia no contexto escolar, bem
como questionaram a qualidade da aprendizagem adquirida mediante
atividades remotas e suas implicações. O capítulo problematiza a atual crise
pandêmica para buscar alternativas que visam assegurar as condições para
21
o acesso e a permanência na escola após o desânimo instalado pela doença
na vida dos alunos, principalmente os de baixo suporte econômico e social.
Consideram que o contexto atual impõe aos fazedores da educação uma
nova postura ética e epistemológica para fazer face às complexidades
impostas pela crise, pois a pandemia afetou a cultura e a sensibilidade da
escola, o que requer uma nova postura de assumir o compromisso de apoiar
os estados emocionais dos alunos. O trabalho questiona as potencialidades
da formação por meio do ensino remoto e os seus limites, apontando
caminhos para a reorganização dos modos de aprendizagem que permitam
uma instrução sem a exclusão, uma vez que, a crise não pode impedir a
democratização do saber.
Refletindo sobre o papel do gestor, peça fundamental para a
mobilização de todo o contexto escolar em situações extremas e/ou como
elemento de articulação e coesão das instituições, em situações
desafiadoras, como é o contexto pandêmico, Juliana Xavier Moimàs,
Patrick Pacheco Castilho Cardoso e Viviane Jaqueline Peron Ferreira, no
capítulo 3 “Gestão escolar e desafios no contexto pandêmico:
ressignificando papéis” discutem os impactos da pandemia sobre a
educação, sob o viés específico dos profissionais da gestão escolar. Neste
capítulo, as autoras e o autor trazem relatos de experiência de duas
perspectivas gestoras diferenciadas, o de uma escola de educação infantil
(0 a 3 anos), e o de uma escola de grande porte, na zona urbana, que atende
à educação infantil, ensino fundamental e educação de jovens e adultos.
No capítulo 4, intitulado As fragilidades do ensino remoto para a
aprendizagem Matemática no Ensino Fundamental Anos Iniciais”, Camila
Aparecida da Silva, Emerson da Silva dos Santos e José Carlos Miguel
trazem uma reflexão sobre os desafios da aprendizagem Matemática no
pós-pandemia da Covid-19. Muitas dificuldades foram registradas nesse
22
período de ensino remoto, dificuldades em âmbitos tecnológicos,
funcionais e pedagógicos, isso porque muitas vezes a própria falta de acesso
à Internet gerava problemas que afetavam diretamente o processo de ensino
e aprendizagem da criança do Ensino Fundamental Anos Iniciais. Os
resultados desse estudo mostram que no pós-pandemia, os problemas de
aprendizagem Matemática se acentuaram ainda mais, e com o retorno
gradativo das aulas presencias, essas dificuldades estão sendo percebidas em
sala de aula. Com isso, concluem que a educação passa por um novo e
complexo desafio que é retomar o processo de aprendizagem da criança e
sanar as lacunas da aprendizagem na Matemática, decorrentes do período
de pandemia.
Maria Teresa Alvares de Paula e Manuela Cristina Tórcia
escreveram o capítulo 5, intitulado “Ensino remoto: avanços ou
retrocessos? Um relato de experiência nos anos iniciais do Ensino
Fundamental”, com o objetivo de relatar o trabalho realizado com uma
turma de ano do Ensino Fundamental, o auxílio das tecnologias, da
família, os avanços e as dificuldades encontradas tanto por alunos quanto
professoras. As aulas remotas possibilitaram o relato de situações nas quais
os alunos não demonstravam o reforço dos laços, nem mesmo progresso e
interesse no que diz respeito ao seu desenvolvimento, tanto emocional
quanto educacional, famílias angustiadas e situações excludentes. Também
foi possível observar que a maioria das famílias se mostraram engajadas na
educação de suas crianças e que as tecnologias podem ser utilizadas a favor
da educação. As autoras concluem que para uma proposta de trabalho com
crianças é imprescindível que seja claramente observado o objetivo da
mesma, bem como a importância do envolvimento de todas as pessoas que
fazem parte desse processo.
23
No âmbito da Educação Inclusiva, as preocupações também são
evidentes no capítulo 6, de José Salustiano dos Santos, Débora Fabiana
Vaz Dellamura e Claudia Regina Mosca Giroto, intitulado “Considerações
sobre a Educação Especial em tempo de pandemia na perspectiva da
deficiência visual nos anos iniciais da Educação Básica”. Nesse capítulo, o
autor e as autoras problematizam aspectos que circundam o período de
escolarização de crianças com deficiência visual nos anos iniciais da
Educação Básica, tais como: intervenção precoce; estimulação visual;
orientação e mobilidade e atividades de vida autônoma (AVA), foram
destacados, pois são necessários para a formação integral das crianças cegas
e com baixa visão. Tal problematização foi baseada em situações de rotina
de escolas de ensino municipal no período pandêmico, a partir dos
questionamentos sobre qual a contribuição desses fatores para o
atendimento dos alunos com deficiência visual dos anos iniciais em tempos
de pandemia e quais iniciativas contribuem para o melhor
desenvolvimento no processo de ensino e aprendizagem desses alunos.
Subsidiados pela literatura consultada, a discussão ora proposta enfatiza a
necessidade de novas abordagens e iniciativas que enriqueçam a prática
escolar no pós-pandemia.
O ensino remoto, no que diz respeito à Língua Portuguesa,
apresentou grandes dificuldades relativas ao ensino, à interpretação,
avaliação e resultados referentes a uma nova forma de ensinar nas escolas
públicas do estado de São Paulo. Com essa preocupação, Fábio Vinicius
Alves e Luiz Felipe Garcia de Senna, no Capítulo 7, Anos finais do Ensino
Fundamental: Os desafios do ensino da ngua Portuguesa”, trouxeram a
visão de dois professores residentes de uma cidade do interior paulista,
professores categoria “O” (contratados por 3 anos) do ensino fundamental:
Anos Finais - dois (EFII), da Secretaria de Educação do Estado de São
24
Paulo (SEDUC), que ministraram as suas aulas em escolas públicas da
periferia da cidade, de modo remoto, para turmas do ao ano do
Ensino Fundamental: Anos Finais. Os autores trazem experiências de dois
anos consecutivos em que a rede da educação paulista teve de se adaptar,
compreender e se reestruturar para que o ensino remoto pudesse ser
implementado e apresentasse, ao menos alguns resultados referentes ao
ensino de Língua Portuguesa, em meio à pandemia. Os autores chamam a
atenção para a importância do papel do professor e nas questões referentes
ao ensino da Língua Portuguesa, na elaboração de estratégias do ensino-
aprendizagem de alunos e sobre a avaliação em tempos de pandemia.
No Ensino Superior, os problemas decorrentes da pandemia não
foram diferentes. Gabriel Scoparo do Espírito Santo, Márcia Mendes de
Lima, trazem no capítulo 8 desta obra, “Trajetória da Educação à distância
(EaD) no Brasil e os desafios na implementação do ensino remoto
emergencial na Educação Superior: breve contextualização, dados oficiais
sobre a trajetória da EaD nos cursos de graduação, resgatando o conceito
de EaD e de Ensino Remoto Emergencial. No capítulo, o autor e autora
indicaram que os principais desafios encontrados pelos docentes do Ensino
Superior foram a implementação repentina do Ensino Remoto, a falta de
capacitação, a resistência ao ensino síncrono e assíncrono, o impacto
socioemocional do trabalho em Home Office, a dificuldade de acesso à
internet e a limitação da comunicação entre os docentes e estudantes.
Concluem que, mesmo nos cursos de EaD convencionais, existem
momentos presenciais fundamentais para a formação, como as atividades
práticas e estágios, elaborados na perspectiva da modalidade educacional.
Destacam também que as atividades remotas realizadas durante o
distanciamento social não podem ser confundidas com a modalidade EaD.
Além disso, a ausência de práticas durante o ensino na pandemia, e os
25
diversos desafios enfrentados favoreceram a defasagem na aprendizagem na
Educação Superior.
Em As dores e delícias da docência em um tempo desafiador:
pandemia, ensino remoto e algumas disciplinas da Graduação em
Pedagogia da FFC-Unesp, Campus de Marília”, capítulo 9 deste livro, Ana
Paula Cordeiro e Luciana Aparecida de Araujo finalizam com um relato
sobre os desafios enfrentados por duas docentes do Curso de Pedagogia da
FFC UNESP, Campus de Marília, em tempos de pandemia e ensino
remoto. Dúvidas, organização de disciplinas para um novo formato,
conciliar aulas síncronas remotas com atividades práticas e também
assíncronas, avaliações e possibilidades de ensino e aprendizagem são
algumas das questões apresentadas. As autoras consideraram alguns limites
e possibilidades de diálogo, interações e aprendizagem em tempos
históricos de pandemia da Sars-Cov2.
Com o intuito de fomentar o debate e as reflexões acerca dos
impactos e desafios enfrentados pela educação em tempos de pandemia,
convidamos o leitor a pensar sobre a temática, compreendendo que esta
reflexão é necessária e não se esgota na discussão desta obra. Ao contrário,
que possamos refletir, questionar, dialogar e superar as marcas desse
tempo.
Luciana Aparecida de Araujo
Ana Paula Cordeiro
26
27
Capítulo 1
Educação e pandemia:
um olhar sobre as prodões acadêmicas (2020-2021)
Luciana Aparecida de Araujo
Cleriston Izidro dos Anjos
Introdução
Apresentamos algumas reflexões tecidas a partir de um
mapeamento realizado com o objetivo de compreender quais possíveis
temáticas, desafios e perspectivas têm sido abordadas nas produções
acadêmicas que discutem sobre educação em tempos de pandemia no
período 2020-2021. As implicações da pandemia de Covid-19 para a
educação têm sido objeto de nossas preocupações desde o anúncio das
restrições sanitárias e medidas de isolamento físico anunciadas no Brasil,
em função do aparecimento dos primeiros casos no país. Atividades
educacionais presenciais foram suspensas e em todo o cenário educacional
brasileiro havia uma série de incertezas sobre a pandemia e seus impactos
na Educação Básica e no Ensino Superior.
O grupo de Estudos e Pesquisas em Pedagogias e Culturas Infantis
(GEPPECI), um dos grupos dos quais a autora e o autor deste capítulo
fazem parte, ao perceber que os primeiros quarenta dias de isolamento
seriam prorrogados e sem data prevista para retorno das atividades
https://doi.org/10.36311/2022.978-65-5954-308-3.p27-64
28
presenciais, promoveu uma série de ações e debates para pensar sobre os
efeitos da pandemia na educação e na vida das crianças, desde bebês, dentre
as quais destacamos as lives do Geppeci no perfil do grupo de pesquisa no
Instagram® (@geppeci), o Webnário “Infâncias e educação infantil em
tempos de pandemia”, transmitido e disponível no YouTube® (GEPPECI,
2020) e as produções escritas organizadas com a colaboração de
pesquisadores e pesquisadoras de rias instituições, cujas contribuições
foram organizadas em dois dossiês especiais: “As crianças e suas infâncias
em tempos de Pandemia (SANTOS; SARAIVA, 2020) e “Educação
Infantil em tempos de pandemia” (ANJOS; PEREIRA, 2021).
No Ensino Superior, as atividades de ensino, pesquisa, extensão e
gestão também foram significativamente afetadas. Pesquisas e projetos de
extensão com atividades presenciais de campo precisaram ser repensadas,
os cursos de graduação planejados e realizados na modalidade presencial
tiveram que lidar com desafios e problemas que envolvem as dificuldades
de acesso aos equipamentos tecnológicos e à internet pelos/as estudantes,
com a precarização do trabalho docente agravada pela escassez de suporte
para o trabalho em tempos pandêmicos equipamentos, formação para
lidar com as atividades emergenciais não-presenciais, saúde mental do/a
trabalhador/a da educação e outros auxílios materiais e imateriais – e com
uma sobrecarga imensa de trabalho, além daquilo que a Covid-19 causou
nos contextos familiares e pessoais de estudantes e professores/as.
No momento da finalização da escrita deste capítulo segunda
quinzena do mês de dezembro de 2021 e primeira quinzena de janeiro de
2022 –, ainda temos muito mais dúvidas do que certezas sobre o contexto
pandêmico: parcela significativa de adultos/as foi vacinada, mas avanços
no combate à pandemia ainda são necessários; o debate se volta para a
vacinação de crianças, surgem notícias de novas variantes de Covid-19 e
29
circulam nas mídias as notícias sobre a presença de outros vírus (H1N1,
H3N2...).
Em 28 de janeiro de 2022, foi publicado pela Associação Nacional
de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPED) o Manifesto pelo
direito de vacinação das crianças contra a Covid 19. A ANPED,
comprometida com os estudos e direitos da infância e da adolescência
posiciona-se a favor da vacinação de crianças, a partir dos cinco anos de
idade, que a vacinação para essa faixa etária foi aprovada após rigorosos
testes clínicos.
No campo educacional, os sistemas de educação pouco avançaram
naquilo que poderia ter sido feito no período de isolamento para garantir
um possível retorno seguro e com respeito aos direitos das crianças e de
suas famílias e de todos/as os/as profissionais da educação, tais como as
medidas indicadas pela Frente Nordeste Criança na obra “Caderno de
Direitos - Retorno à creche e à escola: Direitos das crianças, suas famílias
e suas/seus educadoras/es - gestoras/es, professoras/es e funcionárias/os”
organizada por Ana Maria Mello, Fauston Negreiros e Cleriston Izidro dos
Anjos (2020) com a participação de representantes dos estados da região
nordeste do Brasil.
Um clima de retorno às atividades presenciaisna educação e em
outros contextos ora parece estar mais próximo, ora parece estar distante
da realidade. O contexto brasileiro, de múltiplas desigualdades, que se
acentuam cada vez mais, causa um misto de sentimentos que envolvem
indignação, momentos de paralisia e outros de muito trabalho, produção
e ações solidárias, na tentativa de buscarmos algum sentido para tudo isso.
No Brasil, em 2022, teremos eleições para a presidência da
república, o que torna o cerio ainda mais tenso. No entanto, sabemos
30
que as coisas não podem continuar como estão, considerando que muitos
dos problemas que estamos vivendo poderiam ter sido amenizados ou
evitados se houvesse governantes comprometidos com o povo, com a
ciência e com a educação.
O discurso falacioso que nos ronda e que procura nos convencer
de que a pandemia atingiu brancos e negros, homens e mulheres, ricos e
pobres, adultos e crianças, procura mascarar as desigualdades que
envolvem essa realidade. Ao contrário do que dizem, nós não estamos “no
mesmo barco”. Podemos até estar “na mesma tempestade”, mas
alguns/mas enfrentam-na em iates de luxo, enquanto outros/as não
possuem sequer a madeira flutuante do tronco de uma árvore para se
apoiar.
Iniciamos desse modo, pois a pandemia tem afetado a vida de
todos/as nós e a nossa escrita também não passa incólume a isso. Não
podemos aceitar o discurso do “novo normal”, pois o cenário anterior à
pandemia não era normal para aqueles e aquelas que ainda ousam
indignar-se com tantas desigualdades. É preciso manter viva a chama da
indignação, de modo que possamos aprender com tudo isso e, quem sabe,
construir um outro mundo possível: com mais justiça social, humanidade
e solidariedade. Sigamos!
Com o intuito de localizar e sintetizar a literatura encontrada que
discute sobre educação em tempos de pandemia no período 2020-2021,
de modo a identificar as principais tendências das pesquisas encontradas,
suas lacunas e discussões relevantes e avaliá-las criticamente, optamos pela
revisão de literatura (MOREIRA; CALEFFE, 2008) e mapeamento das
produções acadêmicas sobre educação em tempos de pandemia, tendo o
período 2020-2021 como recorte temporal.
31
Para realização dos procedimentos de busca optamos pela
plataforma do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia
- Ibict oasisbr
5
, que permite a busca de produções científicas de autores/as
vinculados/as a universidades e institutos de pesquisa brasileiros e em
fontes portuguesas.
A busca foi realizada a partir dos descritores: “Educação”,
“Pandemia”, associadas pelo operador booleano AND, que resultou em
146 produções: 11 dissertações, 4 teses, 114 artigos científicos, 9 trabalhos
de conclusão de curso de graduação, 4 livros, 2 artigos de confencia, 1
relatório e 1 resumo expandido.
Para este estudo, optamos por selecionar apenas os artigos
científicos escritos em língua portuguesa, excluindo, portanto, as teses,
dissertações, livros, relatórios, resumo expandido, artigos de conferência,
trabalhos de conclusão de curso, artigos em duplicidade, artigos em outros
idiomas e as produções que não guardavam correlação com a temática ou
que não possível a leitura por motivos de falhas no link de acesso ou que
não permitiam a abertura do arquivo em formato PDF por falhas no
documento. Considerando tais critérios, foram selecionados 20 artigos que
discutem educação em tempos de pandemia desde a Educação Infantil
primeira etapa da Educação Básicaaté o Ensino Superior. Os conteúdos
extraídos foram reunidos a partir de dois eixos: a) Implicações da pandemia
causada pela Covid-19 na educação brasileira e propostas de trabalho em
tempos de isolamento e b) Políticas públicas educacionais e pandemia:
direitos e exclusão.
5
Portal brasileiro que reúne produção científica em acesso aberto. Disponível em:
https://oasisbr.ibict.br/vufind/. Acesso em: 14 jan. 2022.
32
Implicações da pandemia causada pela covid-19 na educação brasileira e
propostas de trabalho em tempos de isolamento
Reunimos no eixo Implicações da pandemia causada pela covid-
19 na educação brasileira e propostas de trabalho em tempos de
isolamento” doze artigos que discutem implicações causadas pela
pandemia de Covid-19 na educação brasileira, destacando-se trabalhos
voltados para os impactos na formação e atuação docente e o uso das
Tecnologias Digitais da Informação e da Comunicação (TDIC) na
educação em contexto pandêmico.
O artigo de Caroline Cavalcante Nascimento (2020, p. 25),
intitulado “Educação em tempos de pandemia”, trouxe como objetivo
“[...] refletir sobre o fazer educacional, mais especificamente a figura do
artista-docente, em meio à epidemia mundial que assola o globo desde
março de dois mil e vinte”. Para atingir esse objetivo, a autora aborda o
contexto educacional em tempos de pandemia e discute alguns métodos
que vêm sendo utilizados para manter as escolas em funcionamento de
modo não presencial. Apresenta também uma explanação a respeito da
produção artística durante a pandemia de Covid-19, considerando os
meios e reinvenções utilizadas pelos artistas, que são também professores
da Educação Básica. Além disso, foi realizada a análise de uma página
presente na rede social Instagram, em que se encontram obras artísticas
produzidas por professores de arte da Educação Básica de diversas regiões
do Brasil.
Kelly Cristina Brandão da Silva e Kelly Cristina Garcia de Macêdo
Alcantara (2020, p. 102) em “A (in)corporeidade do professor em tempos
de pandemia e educação à distância”, trouxeram como objetivo nesse
artigo “[...] analisar, à luz da interlocução entre Educação e Psicanálise, os
33
limites e impasses provocados pela educação à distância emergencial, a
partir da discussão de algumas nuances referentes ao corpo, à presença e à
temporalidade, os quais dão sustentação ao trabalho docente”. Nessa
perspectiva, apresentam alguns elementos que as autoras consideram como
tradicionais e ordinários utilizados no trabalho docente em sala de aula,
durante o ensino presencial, com o intuito de refletir sobre os efeitos da
educação não presencial e emergencial em tempos de pandemia,
ocasionada pelo Coronavírus (SARS-CoV-2), situação que fez com que as
escolas fossem fechadas de modo a atender às medidas sanitárias de
distanciamento e não interromper o ano letivo. Os resultados da
investigação indicaram alguns desdobramentos no que diz respeito a
erotização da educação, a função social da escola, a tradição e transmissão
de conteúdos por outros meios que podem indicar tempos de mudanças
no cenário educacional.
Galdino Rodrigues de Sousa, Eliane Medeiros Borges e Ricardo
Dulcatti Colpas, (2020, p. 146) no artigo intitulado “Em defesa das
tecnologias de informação e comunicação na educação básica: diálogos em
tempos de pandemia”, apresentaram como objetivo “[...] problematizar
algumas medidas emergenciais adotadas na educação básica durante a crise
global de COVID-19”. Discutem o uso das Tecnologias de Informação e
Comunicação (TIC) como ferramentas que podem favorecer o ensino a
distância e minimizar os impactos imediatos que podem levar ao
fechamento das escolas. Para eles e ela, a televisão, a mídia impressa e
digital, podem favorecer o acesso à educação para maior número de
estudantes, principalmente, os alunos que não possuem internet em suas
residências. Como caminho metodológico, utilizam-se “dos Episódios de
Aprendizagem” como alternativa “[...] capaz de propiciar processos
educativos relacionais entre ambientes formais e informais, com foco na
34
interação, no diálogo e na pesquisa, por meio da utilização crítica das TIC
no ensino e aprendizagem”. Esses episódios, são considerados pelos autores
e autora como potencialmente relevantes aos esforços de desenvolvimento
de uma “revolução digital inclusiva pós-pandemia nas escolas (SOUSA;
BORGES; COLPAS, 2020, p. 146). Como resultados, indicam que
potencialmente, a metodologia “dos Episódios de Aprendizagem” pode
favorecer os processos educativos relacionais em ambientes formais e
informais, considerando a interação, o diálogo e a pesquisa, mediante o
uso das TIC no ensino e na aprendizagem de forma crítica.
José Antônio Moreira, Susana Henriques e Daniela Melaré Vieira
Barros (2020, p. 351) publicaram o artigo “Transitando de um ensino
remoto emergencial para uma educação digital em rede, em tempos de
pandemia”, com o objetivo de “[...] apresentar, resumidamente, os
princípios básicos para o design de um ambiente online, relacionado à
organização, seleção de recursos, preparação e avaliação de atividades de
aprendizagem”. Segundo o autor e as autoras, o crescimento das
tecnologias e das redes de comunicação tem provocado mudanças
significativas na sociedade, levando ao surgimento de novos paradigmas,
novas formas de comunicação educacional e também novos contextos de
ensino e de aprendizagem. Concluem que a chegada abrupta do vírus
impulsionou instituições educativas e professores à novas práticas de
ensino, que envolvem atividades remotas de emergência, mas que isso não
se configura como práticas de uma educação digital em rede e de
qualidade.
No artigo “Autoformação docente em tempos de pandemia: da
(im)possibilidade da reinvenção sem cuidado de si”, Tacieli Feltrin e
Natália Lampert Batista (2020, p. 1017) buscaram responder ao seguinte
questionamento: “O que cabe aos educadores em tempos de
35
distanciamento social, reconfiguração das noções de normalidade,
presença e temporalidade? Nesse sentido, tiveram como objetivo “refletir
sobre o impacto da pandemia na docência com especial atenção à
autoformação docente e à noção de cuidado de si em Foucault (2006),
destacando a necessidade de um olhar cuidadoso e crítico para o contexto
escolar contemporâneo”. Para essas autoras, a educação, o ensino e os
processos que ocorrem no contexto da escolarização passam por
transformações importantes, provocando uma desconstrução dos
parâmetros educativos estabelecidos. O cuidado com o outro, com as
relações, inclusive as relações educativas e a (auto)formação se tornam
“eixo de (im)possibilidade”, caso seja pensada por um viés unicamente
tecnológico e mecanicista. As autoras concluem que
[...] as necessidades de reinvenção e fluência tecnológica estabelecidas
para educadores e estudantes em todo o território nacional têm
assumido um compromisso com a manutenção de códigos que não
cabem nesse novo tempo, exigindo o cumprimento de relações
puramente burocráticas em detrimento de uma abertura de
possibilidade ao novo, ao pensar uma educação que produza sujeitos
mais sensíveis ao sofrimento humano, cuidadosos com a ciência e com
a preservação do humano nas relações (FELTRIN; BATISTA, 2020,
p. 1017).
No artigo “Sustentar a Transferência no Ensino Remoto: docência
em tempos de pandemia”, Simone Bicca Charczuk (2020, p. 1), apresenta
as diferenças que marcam o ensino remoto e a educação a distância (EaD),
evidenciando que existem críticas sobre as dificuldades de interação,
muitas vezes compreendidas como inerentes a elas, em ambas as
modalidades. A autora ressalta a importância de se considerar que todo
36
modelo de ensino precisa apontar seus fundamentos teóricos conceituais
que os sustentam. O artigo traz as narrativas a respeito do ensino remoto,
com base no conceito de “transferência”. A autora acredita que “[...] o laço
transferencial entre professor, aluno e conhecimento pode ser estabelecido
no ensino remoto, considerando a escuta e a palavra como representantes
da presença e da corporeidade neste contexto”.
O artigo “Aulas on-line durante a pandemia: condições de acesso
asseguram a participação do aluno?”, de Flávia Catanante, Rogério
Cláudio de Campos e Iranéia Loiola (2020, p.977), é resultado de pesquisa
desenvolvida no município de Miracatu/ SP, a partir de um questionário
fechado que foi aplicado com os/as responsáveis pelos/as estudantes de
uma escola estadual de Ensino Fundamental II (Anos Finais) e de Ensino
Médio. Tiveram como objetivo “[...] aprofundar as reflexões acerca do
momento vivido no processo de escolarização frente à necessidade da
suspensão de aulas para atender o isolamento social, em virtude da Covid-
19”. Analisaram os motivos pelos quais ocorreram a baixa incidência de
acessos às atividades virtuais, mesmo com a declaração desses com relação
às condições de acesso à internet e a existência de equipamento compatível.
Tal afirmação pode justificar-se em função de um ambiente residencial
inadequado, pela ausência de apoio familiar adequada e de pressupostos
culturais. Concluem que o acesso às Tecnologias Digitais da Informação e
da Comunicação (TDIC) não garante o sucesso de estudantes na
participação em aulas virtuais ou até mesmo na realização de atividades
não presenciais.
Em “Aulas de artes em tempos de pandemia e atividades remotas:
como manter o vínculo do professor com os alunos, e dos alunos com a
disciplina?”, Rosana Fachel de Medeiros (2020) apresenta uma experiência
realizada com a disciplina de artes para alunos dos anos finais do Ensino
37
Fundamental a partir de atividades remotas propostas em função da
pandemia causada pelo Coronavírus, impossibilitando encontros
presenciais, o que fez com que o contato entre professores e alunos passasse
a ser virtual e por meio de propostas de atividades online. Segundo a
autora, na escola onde trabalha, não foi possível que todos os alunos
tivessem acesso aos materiais propostos, mas os/as que tiveram a
possibilidade de ter acesso e de realizá-las, fizeram-nas com dedicação e
qualidade, assim como avalia como positivas as trocas de experiências entre
estudantes e professores/as. Para a autora, existe potencialidade no ensino
híbrido na pandemia de modo a favorecer a personalização da
aprendizagem e o protagonismo dos/as estudantes.
No artigo “Pandemia, isolamento social e desigualdades: uma
complexa trilogia para educar”, Camila Carlachiani e Silvia Morelli (2020,
p. 1030) apresentam resultados de pesquisa desenvolvida junto ao projeto
"Sentidos, contradições e desafios da educação em tempos de isolamento
social" na Faculdade de Ciências da Educação e Psicopedagogia da
Universidade Aberta Interamericana, Rosário, Argentina. Trouxe como
objetivo o fornecimento de reflexões sobre as múltiplas implicações da
pandemia de Covid-19 na educação de crianças e jovens. A investigação
foi realizada com estudantes dos níveis primário, secundário e superior e
seus/suas professores/as, analisando os efeitos desse evento global em
contextos locais. As discussões foram realizadas a partir dos seguintes
tópicos de discussão: entre falta e falta de um contexto sem precedentes; o
que foi aprendido, o que resta e o que muda.
Luciane Magalhães Corte Real, Luciane Marilei Pereira Stepanski,
Jaqueline dos Santos Picetti e Luisa Guazzelli Sirangelo (2021, p. 72)
escreveram o artigo “Possibilidades de aprendizagens na pandemia de
Covid-19”, com o objetivo de investigar, mediante pesquisa exploratória e
38
qualitativa, as aprendizagens relatadas pelos/as participantes durante o
período de pandemia. As autoras utilizaram o questionário com perguntas
abertas e fechadas disponibilizado no Google Formulários como
instrumento de coleta de informações. Para as autoras, a vivência em
períodos pandêmicos modifica as relações interpessoais, como foi o caso
da gripe espanhola, em que as pessoas também tiveram que fazer
isolamento para não infectar outras pessoas, como aconteceu com a
pandemia de Covid-19. Os resultados revelam três categorias que se
relacionam: aprendizagens nas relações humanas, organização do tempo e
consumismo. Existe preocupação, por parte dos/as participantes, em
relação ao modo como empregar o tempo disponível no período
pandêmico e sobre o consumo de mercadorias sem a devida necessidade.
Nas relações interpessoais, destacam aprendizagens relacionadas à vida e
sua qualidade, para a saúde, para o aproveitamento do tempo, para a
família, amigos e para o lazer.
No artigo “Impactos da pandemia de Covid-19 na Educação
Infantil em São Gonçalo/RJ”, Maria Tereza Goudard Tavares, Fabiana
Nery de Lima Pessanha e Nayara Alves Macedo (2021) problematizam e
trazem reflexões sobre os impactos da pandemia de Covid-19 na Educação
Infantil, sobretudo no que diz respeito às crianças pequenas das classes
populares que vivem em periferias urbanas da cidade de São Gonçalo,
Região Metropolitana do Rio de Janeiro, RJ. Metodologicamente, as
autoras trabalharam com “a dúvida como método”, a partir das discussões
de Regina Leite Garcia (2009). Para elas, problematizar os impactos da
pandemia na vida de crianças pequenas nos leva a investigar a
(in)visibilidade dessas crianças, em decorrência da interrupção do
atendimento por ocasião do isolamento, e favorece reflexões e práticas que
podem contribuir com a educação e o cuidado dessas crianças,
39
especialmente quando se trata de acolhimento e de processos educativos
das crianças pequenas nas creches e p-escolas públicas municipais.
Eduarda Maria Schneider, Bruna Cristina Tomazini-Neto,
Bárbara Greice Tobaldini de Lima e Silvana Aguero Nunes (2020, p.
1071) no artigo intitulado “O uso das Tecnologias Digitais da Informação
e Comunicação (TDIC): possibilidades para o ensino (não) presencial
durante a pandemia covid-19” buscaram “[...] identificar, descrever e
problematizar quais e como as Tecnologias Digitais da Informação e
Comunicação (TDIC) são indicadas para o ensino remoto”. Para tanto, as
autoras pautaram-se na Análise de Conteúdo Categorial, selecionando 12
materiais entre Lives e Webinários. Foram identificadas 80 diferentes
tecnologias categorizadas em: para comunicação síncrona, para
comunicação assíncrona ou para ambas. Em seguida, foram elaboradas as
descrições de 14 TDIC que podem ser utilizadas de modo síncrono e
assíncrono, apontando suas finalidades e reflexões para o contexto
educacional. As autoras reforçam que as TDIC apresentam características
que podem auxiliar no trabalho interativo e participativo de estudantes,
mas requer uma responsabilidade sobre o modo de ser “aluno e professor”
no uso dessas tecnologias. Para elas, ainda que as tecnologias sejam
meios/recursos para viabilizar o desenvolvimento das atividades, é preciso
destacar que a qualidade deste ensino e desta aprendizagem tem estreita
relação com o planejamento didático, com os objetivos educacionais, com
metodologias e formas avaliativas adequadas, independentemente de serem
aulas presenciais ou à distância.
40
Políticas públicas educacionais e pandemia: direitos e exclusão
No eixo “políticas públicas educacionais e pandemia: direitos e
exclusão”, reunimos oito artigos que discutem direitos particularmente
o direito à educação, a preservação da vida e, ainda, possíveis políticas que
podem combater ou aprofundar as desigualdades e a exclusão das pessoas
que mais tem sofrido nessa pandemia: mulheres e crianças, a população
negra e as pessoas mais pobres.
Considerando o fato de que, em 2020 e em meio à pandemia, o
Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) completou 30 anos de
existência, Bianca Salazar Guizzo, Fabiana de Amorim Marcello e
Fernanda Muller (2020, p. 1), em “A reinvenção do cotidiano em tempos
de pandemia”, discutem as reinvenções do cotidiano ocasionadas pelo
cenário de isolamento. Do ponto de vista metodológico, apresenta seis
cenas da reinvenção do cotidiano:
[...] e que estão vinculadas, cada uma a seu modo, a três dimensões
específicas: a relação de famílias com as tecnologias; a relação das
famílias com a escola; e a relação das famílias com suas crianças. As
quatro cenas iniciais, exploradas a partir da configuração de estratégia,
indicam esforços para a conformação das formas de organização do
social (GUIZZO; MARCELLO; MULLER, 2020, p. 1).
Os resultados demonstram que esforços por parte dos/as
participantes das cenas para a aceitação das formas de organização social
em contexto de pandemia de forma resignada, tanto no que se refere à
relação das famílias com a tecnologias, como no caso da relação das famílias
com a escola, sugerindo práticas comprometidas com a manutenção de
41
jeitos de existir em contextos de excepcionalidade. Destacam ainda, as
práticas cotidianas das relações entre crianças e famílias, cujos relatos
indicam possibilidades de criação do novo (GUIZZO; MARCELLO;
MULLER, 2020).
Gabriela Sousa Rego Pimentel e Simone Leal Souza Coité (2021,
p. 267) no artigo “Política curricular e Educação do Campo: discussões e
práticas de gestão educacional em tempos de pandemia”, apresentam os
resultados de um estudo sobre o desenvolvimento de atividades de gestão
educacional, realizados em tempos de isolamento, trazendo a percepção
dos dirigentes municipais de educação de 14 municípios da região oeste da
Bahia. Foram sujeitos da investigação, os secretários municipais de
educação. A pesquisa, de abordagem qualitativa, foi exploratória e
documental. A coleta das informações foi realizada mediante questionários
com questões de ltipla escolha, aplicados de forma virtual. Como
resultado da investigação, as autoras demonstraram a necessidade de se
intensificar as ações no que diz respeito a efetividade na atuação da gestão
educacional, de modo a favorecer as práticas pedagógicas em tempos
pandêmicos. Concluem que é importante pensar em ações que garantam
o funcionamento adequado das escolas públicas a partir do contexto da
educação do/no campo e a superação das desigualdades existentes.
Magali Mendes de Menezes e Pedro de Almeida Costa (2021) no
artigo “O Ensino Superior: as Antígonas de nosso tempo pandêmico e o
agravo das desigualdades sociais”, discutem o contexto da pandemia que
alterou o ritmo de vida de todos e todas, agravando as desigualdades sociais
e históricas do país. O racismo, a violência de gênero e a exploração do
trabalho aliados com a profunda fragilidade sanitária, demonstram que
os/as que mais sofrem continuam sendo as pessoas mais pobres.
Considerando esse contexto, a autora e o autor apresentam reflexões sobre
42
a educação, particularmente sobre o ensino superior de uma universidade
pública, problematizando a permanência de processos de exclusão nesse
cenário. Para eles, a implementação de propostas de atividades remotas
pode aprofundar as desigualdades, uma vez que as condições de proposição
e realização são precárias, tendo em vista o fato de que as dificuldades do
público universitário nem sempre estão sendo consideradas, especialmente
dos/as que ingressaram por meio de políticas de ações afirmativas.
O artigo de Alessandra Sampaio Cunha, Joana d’Arc de
Vasconcelos Neves e via Maria Vieira Costa (2021, p. 23), intitulado
“A EJA em tempos de pandemia de covid-19: reflexões sobre os direitos e
políticas educacionais”, apresentou como objetivo “[...] analisar o alcance
do direito a educação de jovens e adultos diante das políticas educacionais
brasileiras e em tempos de pandemia na Amazônia bragantina”. Com base
na abordagem qualitativa e mediante pesquisa documental, as autoras
articularam informações encontradas em pareceres, legislações e estatísticas
da EJA do município de Bragança-PA, com o intuito de realizar um cotejo
com os dados e informações de modo a qualificar a análise. Os resultados
indicam preocupações antigas e novas sobre a Educação de Jovens e
Adultos, agravadas em decorrência da pandemia, dentre as quais: os
projetos de políticas compensatórias que envolvem a redução do tempo
(carga horária) e de conteúdos, o fechamento de turmas e a redução de
número de matrículas, bem como o baixo incentivo da gestão pública para
a realização de programas específicos para a EJA.
No artigo “A Educação Infantil no contexto da pandemia: os
possíveis enfrentamentos após a publicação do Parecer 05/2020”, Cassiana
Magalhães e Cristiane dos Santos Farias (2021, p. 1) tiveram como
objetivo “[...] discutir o Parecer 05/2020 do Conselho Nacional de
Educação (CNE) e os possíveis enfrentamentos no contexto da Educação
43
Infantil”. Para as autoras, a preocupação com a temática está centrada na
garantia dos direitos conquistados pelo campo da educação das crianças
pequenas, educadas em espaços coletivos, que agora vivenciam atividades
online e por meio do uso de Tecnologias Digitais da Informação e da
Comunicação (TDIC), mediante videoaulas e outros recursos virtuais que
podem acentuar as desigualdades sociais existentes em nossa sociedade.
Por meio da pesquisa de cunho bibliográfico, os resultados indicam a
necessidade de resistência em favor das crianças, de modo a se pensar e
criar formas mais adequadas para atendê-las.
Ester Maria de Figueiredo Souza e Lucia Garcia Ferreira (2021),
em “A matrícula como direito do estudante na pandemia da Covid-19”,
abordam a questão do direto à matrícula escolar em tempos de pandemia
do novo coronavírus. As autoras partem do pressuposto que
[...] a matrícula escolar é lastreada pelo direito à educação, conforme se
preconiza na Constituição da República Federativa do Brasil (1988),
simbolizando a validação da identidade estudantil. Para tanto,
referencia-se nas normativas e leis que regem o ordenamento jurídico
brasileiro para cotejar informações de domínio público e apresentam-
se o ensino emergencial e mapeamento da situação de oferta da
educação no país, expondo estratégias para validar o ano letivo, como
também alternativas para terminalidade de estudos (SOUZA;
FERREIRA, 2021, p. 1).
O artigo de Souza e Ferreira (2021) é resultado de pesquisa
qualitativa de cunho exploratório e documental, que reuniu dados para
contextualizar e problematizar os percursos dos/as estudantes. Os
resultados revelaram que, durante a pandemia, o direito de matrícula dos
alunos nas escolas foi assegurado, em maior escala, pelos estabelecimentos
44
públicos de ensino. Por circunstâncias impostas pela Covid-19, a tomada
de decisão para validar esse direito à matrícula, muitas vezes foi protelada
pelas famílias dos/as estudantes.
Preocupado com a “Atuação dos runs de defesa da educação
infantil em tempos de pandemia”, Fábio Hoffmann Pereira (2021)
apresenta o resultado de uma pesquisa exploratória e de levantamento das
ações realizadas pelos runs estaduais de defesa da Educação Infantil entre
os meses de março a junho de 2020. De acordo com o autor, o fechamento
das instituições de Educação Infantil em virtude da pandemia de Covid-
19 também impactou a atuação dos fóruns que precisaram buscar
alternativas de mobilização online de divulgação de suas ações. O
levantamento realizado apresenta informações das páginas e perfis dos
fóruns em blogs, sites oficiais, Facebook e Instagram. Em relação as ações
divulgadas nestas páginas e perfis, destacam-se a transmissão de debates a
partir de lives”, disponibilizadas no Instagram. Em relação as pautas dos
debates ligados à pandemia, destacam-se o trabalho docente exercido de
forma remota e as perspectivas e protocolos para reabertura das
instituições. Outras pautas destacas pelo autor se referem à luta contra as
propostas de inserção da Educação Infantil no PNLD por meio da
aquisição de livros didáticos para a pré-escola e as reivindicações dos
movimentos de Educação Infantil na elaboração e aprovação do "novo"
FUNDEB.
Preocupados com a discussão a respeito dos alunos e das alunas
com deficiência, Alessandra Andrade Cardoso, Gustavo Diniz de Mesquita
Taveira e Guilherme Pereira Stribel (2021, p. 1) elaboraram o artigo
“Educação Especial no contexto da pandemia: reflexões sobre políticas
educacionais”, com o objetivo de “[...] fomentar a discussão entre a
evolução histórica dos processos de inclusão de tais estudantes e as
45
consequências ocasionadas pela necessidade do isolamento em decorrência
da pandemia, a fim de evidenciar a relevância e urgência da consolidação
de políticas públicas educacionais de inclusão”. Para isso, a autora e os
autores realizaram uma análise documental, considerando o panorama
histórico das políticas públicas educacionais voltadas às pessoas com
deficiência no Brasil. Os resultados indicam que grupos que apresentam
diferentes graus de vulnerabilidade, como ocorre com estudantes com
algum tipo de deficiência, ficam ainda mais cerceados do direito à
educação.
Reflexões sobre as tendências dos estudos e pesquisas que discutem
sobre a Educação em tempos de pandemia
A partir dos resultados que retornaram da busca realizada na
plataforma Ibict oásisbr, foi possível reunir as informações a partir de dois
eixos: a) “Implicações da pandemia causada pela Covid-19 na educação
brasileira e propostas de trabalho em tempos de isolamento” e, b) Políticas
públicas educacionais e pandemia: direitos e exclusão”. A partir da
sistematização desses eixos, destacamos algumas das tendências
encontradas nos estudos sobre a educação em tempos de pandemia.
No que diz respeito às temáticas abordadas nas pesquisas, podemos
destacar no eixo a) “Implicações da pandemia causada pela Covid-19 na
educação brasileira e propostas de trabalho em tempos de isolamento”, o
artigo de Nascimento (2020) que buscou refletir sobre a atividade docente,
a questão da temporalidade na docência evidenciada na produção escrita
de Silva e Alcântara (2020), a “autoformação docente em tempos de
pandemia” destacada por Feltrin e Batista (2020) e o artigo de Charczuk,
46
(2020) que problematizou à docência no ensino remoto em tempos de
pandemia.
As Tecnologias Digitais da Informação e da Comunicação (TDIC)
foram objetos de discussão de Schneider, Tomazini-Neto, Lima e Nunes
(2021) e de Catanante, Campos e Loiola (2020) que analisaram os motivos
pelos quais houve baixa incidência de acessos às atividades virtuais, mesmo
com a declaração de acesso à internet e a existência de equipamentos
compatíveis com o trabalho online.
O ensino remoto foi destacado no artigo de Medeiros (2020), em
que a autora defende haver potencialidade na educação híbrida em tempos
pandêmicos, argumentando que o trabalho online e presencial pode
favorecer a personalização da aprendizagem e o protagonismo estudantil.
De modo geral, os artigos destacam o uso das Tecnologias Digitais
da Informação e da Comunicação (TDIC), como ferramentas que podem
favorecer o trabalho pedagógico online e minimizar os impactos imediatos
do fechamento temporário das escolas (SOUZA; BORGES; COLPAS,
2020). Moreira, Henriques e Barros (2020) concluem que o crescimento
das tecnologias e das redes de comunicação tem provocado mudanças
significativas na sociedade, levando ao surgimento de novos paradigmas de
comunicação educacional e também novos contextos de ensino e de
aprendizagem.
Todavia, Catanante, Campos e Loiola (2020) afirmam que às
Tecnologias Digitais da Informação e da Comunicação (TDIC) não
garantem o sucesso dos alunos e das alunas na participação das aulas
virtuais e atividades não presenciais, embora o artigo de Medeiros (2020)
defenda a potencialidade de uma educação híbrida em tempos pandêmicos
47
com o argumento de que isso pode favorecer o trabalho personalizado e
maior protagonismo dos/as estudantes.
Para Schneider, Tomazini-Neto, Lima e Nunes (2021), ainda que
as tecnologias sejam apenas meios/recursos para viabilizar o
desenvolvimento das atividades, o/a professor/a precisa refletir sobre suas
próprias concepções de “aluno e professor” presentes no uso dessas
tecnologias e ter um referencial teórico que sustente a metodologia adotada
por ele/a.
Os impactos e implicações causadas pela pandemia na educação de
crianças e de jovens foram discutidos nos artigos de Carlachiani e Morelli
(2020), de Corte Real, Stepanski, Picetti e Sirangelo (2021) e de Tavares,
Pessanha e Macedo (2020), evidenciando os desafios de investigar e realizar
práticas educativas em um contexto permeado pela Covid-19 e quais
aspectos permaneceram e/ou foram alterados nessas realidades
investigadas, tais como as questões relacionadas ao aproveitamento do
tempo em família, contato com relações de amizade, possibilidades e
limites de atividades de lazer, dentre outras questões. Discutem ainda,
aspectos relacionados aos processos de exclusão e o direito ao cuidado e ao
acolhimento das crianças e jovens, desde as creches, como dimensões dos
processos educativos.
Em relação ao eixo b) “Políticas públicas educacionais e pandemia:
direitos e exclusão”, no artigo de Guizzo, Marcello e Muller (2020) foi
discutido o marco dos 30 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente
(ECA) que ocorreu em meio a pandemia, problematizando a questão dos
direitos, especialmente o direito à vida e à liberdade.
A política curricular e a educação do campo no contexto da
educação básica foi discutida por Pimentel e Coité (2021), o Ensino
48
Superior e o agravo das desigualdades sociais no cenário pandêmico foi
abordado por Menezes e Costa (2021), a questão do direito e das políticas
educacionais de Jovens e Adultos - EJA em tempos de pandemia foi
abordada por Cunha, Neves e Costa (2021), o direto à matrícula escolar
em período pandêmico problematizado por Souza e Ferreira (2021) e
Cardoso, Taveira e Guilherme Stribel (2021) apresentaram o panorama
histórico das políticas públicas educacionais voltadas às pessoas com
deficiência no Brasil, relacionando-o com o contexto de pandemia.
Dois artigos desse eixo discutiram Educação Infantil, sendo que o
de Magalhaes e Farias (2021) abordou a discussão sobre o Parecer 05/2020
do Conselho Nacional de Educação (CNE) e os possíveis enfrentamentos
no contexto da Educação Infantil e a produção de Pereira (2021) discutiu
a atuação dos fóruns de defesa da Educação Infantil em tempos de
pandemia.
Para Menezes e Costa (2021), a implementação de propostas de
atividades emergenciais em formato remoto aprofunda desigualdades,
tendo em vista as condições precárias para o trabalho docente no Ensino
Superior e as dificuldades de estudantes universitários, principalmente
os/as que ingressam na universidade por meio de políticas afirmativas.
Cunha, Neves e Costa (2021) indicaram preocupações antigas e
novas sobre a Educação de Jovens e Adultos, modalidade tratada muitas
vezes como se fosse parte de políticas compensatórias que envolvem a
redução do tempo e de conteúdos, fechamento de turmas, redução de
número de matrículas e baixo incentivo para a criação de programas
específicos.
Souza e Ferreira (2021) que estudaram o direito do estudante à
matrícula, indicaram que o exercício desse direito ocorreu com mais
49
frequência nos estabelecimentos públicos de ensino, que as matrículas
muitas vezes foram proteladas pelas famílias por circunstâncias impostas
pela Covid-19.
Para não concluir...
O conjunto de artigos apresentados e discutidos, nos permite
ensaiar algumas reflexões sobre os desafios e perspectivas que a educação
tem vivenciado nesses tempos pandêmicos. Diante de um cenário em que
o isolamento físico se faz necessário e é preciso pensar em alternativas para
o campo educacional, os trabalhos que discutem o uso e a presença das
Tecnologias Digitais da Informação e da Comunicação (TDIC) na
educação parecem receber um impulso ainda maior do que o antes
existente. No entanto, antigos problemas, armadilhas e possibilidades
parecem continuar existindo e, aliados a eles, outras ciladas e desafios são
agregados.
No geral, nos parece que os artigos resultados das pesquisas
continuam a alimentar uma polarização entre os que defendem e os que
criticam o uso de TDIC na educação sem uma discussão mais crítica e
aprofundada sobre o tema e que considere o/a estudante e o/a professor/a
como protagonistas dos processos educativos. Em sua tese de doutorado,
Cleriston Izidro dos Anjos (2015) ao investigar as relações das crianças
pequenas com as TDIC destacou a escassez de trabalhos que consideram
as relações das crianças com os aparatos tecnológicos de modo a
compreender seus interesses, necessidades e usos. No entanto, ao olharmos
para o conjunto de trabalhos, nos parece que o problema acompanha
diversas etapas e modalidades educacionais: ou os trabalhos ressaltam o
50
possível caráter inovador do uso das TDIC ou criticam o seu uso,
desconsiderando seus usuários: crianças, jovens e adultos, estudantes e
professores/as.
A discussão sobre as TDIC na educação também precisa considerar
as especificidades da Educação Básica. Na área da Educação Infantil, por
exemplo, a preocupação com as atividades online e com o uso das TDIC
com crianças de 0 a 5 anos e 11 meses, tema abordado por Cassiana
Magalhães e Cristiane dos Santos Farias (2021), tamm foi anteriormente
discutido por Cleriston Izidro dos Anjos e Deise Juliana Francisco (2021)
no artigo “Educação Infantil e Tecnologias Digitais: reflexões em tempos
de pandemia”. Nele, o autor e a autora problematizam a recomendação
para o uso de tecnologias digitais na Educação Infantil considerando a
brincadeira e as interações, os princípios éticos, políticos e estéticos, a
relação família-escola e a legislação brasileirae propõem que tais aparatos
sejam utilizados como suporte de comunicação entre as famílias e as
instituições educacionais.
de considerar ainda que o uso de TDIC na educação, por si só,
não torna os processos educativos inovadores, pois um/a professor/a pode
se utilizar dessas TDIC e continuar trabalhando com práticas autoritárias
e centradas no/a adulto/a. Assim, é fundamental destacar que o que torna
a educação extraordinária e inovadora são os/as estudantes e os/as
educadores/as que, cotidianamente, convivem e se relacionam nos espaços
educativos. Além disso, é preciso investimento na formação de docentes
inicial e em serviço que contribua para uma reflexão crítica sobre as
contribuições e excessos dos usos das TDIC na educação.
Embora não seja o objetivo desse texto, é importante destacar que
essa formação que pode contribuir para uma educação emancipatória de
crianças e de educadores/as não é aquela que está proposta na Base
51
Nacional Comum Curricular (BNCC) e na proposta de Base Nacional da
Formação Docente (BNCFormação), pois elas foram pensadas na lógica
da padronização dos currículos que, em síntese, procura reduzir a formação
docente em cursos para ensinar a aplicar e gerenciar o conteúdo da BNCC.
O que está em jogo é que tais propostas desconsideram vasta produção de
conhecimento no campo da educação, cujas bases envolvem fundamentos
teóricos, áreas científicas e saberes e metodologias de trabalho com
crianças, jovens e adultos. A Associação Nacional pela Formação dos
Profissionais da Educação (ANFOPE
6
), além de outras instituições,
entidades e movimentos, tem produzido uma rie de atividades (lives,
documentos, manifestos...) sobre a formação docente em tempos de
padronização. É tempo de lutar e resistir em defesa da ciência, da saúde e
da educação pública, gratuita, laica e de qualidade para todos e todas, desde
bebês!
Cabe recuperar nessas discussões finais um aspecto apresentado no
início de nossas reflexões: o contexto de múltiplas desigualdades existentes
no Brasil. Esse é um ponto fundamental, pois a exclusão digital também é
uma das dimensões dessas múltiplas formas de exclusão social, ou seja, é
preciso considerar que parcela significativa da população brasileira ainda
não possui equipamentos tecnológicos adequados para participação em
atividades educativas em plataformas digitais, além dos problemas de
acesso à internet.
Nas discussões sobre trabalho e formação docente em tempos de
pandemia é possível depreender um movimento de aprofundamento da
precarização existente na medida em que docentes, das mais diversas
regiões do Brasil e que atuam em diferentes etapas e modalidades, tiveram
6
Para saber mais, acesse o site da ANFOPE (http://www.anfope.org.br/) e seu Canal no YouTube
(https://www.youtube.com/c/AnfopeNacional/featured).
52
pouco ou nenhum suporte formativo e, também, de apoio financeiro e
material para a realização de trabalho educacional em contexto
emergencial. Equipamentos tecnológicos, melhoria de velocidade de
internet residencial, aumento dos gastos com energia elétrica, dentre
outros aspectos, no geral, foram assumidos por docentes sem que houvesse
contrapartidas de suas instituições e governos (estaduais, municipais e
federal). Também é preciso considerar a ausência de suporte emocional,
afinal, professores e professoras também estão enfrentando diversos
problemas na pandemia, sejam pessoais ou gerados pelo exercício
profissional em tempos pandêmicos.
As crianças desde bebês, adolescentes e/ou jovens matriculados nas
instituições educacionais, da Educação Básica ao Ensino Superior, também
estão enfrentando diversos desafios e problemas que vão desde lidar com a
dor da perda de um ente querido até as dificuldades de acesso à internet e
aos equipamentos tecnológicos. São questões complexas e que nos levam a
afirmar que muito ainda precisa ser discutido, estudado e pesquisado,
afinal, a pandemia ainda não acabou e, mesmo que ela acabe em breve,
ainda teremos que lidar com seus efeitos durante algum tempo.
Na perspectiva de que teremos que lidar com os efeitos da
pandemia também após seu fim, embora tenhamos escolhido apenas o
gênero artigo científico e os descritores “Educação”, “Pandemia”
associados pelo operador booleano AND como critérios de inclusão no
mapeamento apresentado, nos chama a atenção o fato de não terem sido
localizados trabalhos que tratem de um possível planejamento de retorno
das atividades presenciais para todos e todas, com exceção das discussões
das áreas dos Estudos da Infância e da Educação Infantil, cujas produções
têm alimentado discussões sobre a pandemia e o pós-pandemia (ANJOS;
PEREIRA, 2021; GOBBI; PITO, 2021; GOBBI; ANJOS; VICENTE,
53
2021; SANTOS; SARAIVA, 2020; CAMPOS; ALMEIDA; BARRETO;
DUMONT; VIEIRA; BAPTISTA; FOCHI; COELHO; CRUZ;
VALVERDE, 2020; MELLO; NEGREIROS; ANJOS, 2020; SANTOS;
SILVA; FARIA, 2020; GOBBI; PITO; MELEÁN, 2020; dentre outras).
No geral, os trabalhos encontrados sinalizam que durante esse
tempo de pandemia, os problemas educacionais existentes foram
agravados e outros problemas surgiram na Educação Básica e no Ensino
Superior: a precarização do trabalho docente está mais evidente, novas
necessidades de formação inicial e em serviço, espaços físicos das
instituições ainda não estão preparados para o retorno presencial seguro,
vacinas demoraram a chegar e, nesse momento, ainda se discute a
vacinação de crianças e a ausência do poder público foi sentida em relação
ao suporte para o trabalho emergencial não presencial em tempos
pandêmicos, além do aumento das desigualdades sociais que têm afetado
toda a sociedade brasileira. Por outro lado, as alternativas de
enfrentamento dos efeitos da pandemia na educação, emergiram pela
atuação de movimentos em defesa da educação Campanha Nacional pelo
Direito à Educação, Frente Nordeste Criança, Fóruns de Educação
Infantil –, das instituições públicas Sistema Único de Saúde,
universidades públicas, grupos de pesquisas... –, de sindicatos e da
iniciativa de professores e professoras que, apesar de também estarem
sofrendo com os efeitos da pandemia em seu trabalho e nas suas vidas
procuram fazer o melhor possível na esperança da construção de uma
educação pública,
gratuita, laica e de qualidade para todos e todas, desde
bebês.
Os desafios estão postos e as alternativas precisam ser
coletivamente construídas por todos e todas que fazem a educação
brasileira estudantes e famílias, docentes e gestores/as, governos, etc e
54
pelas áreas com as quais a educação precisa estreitar os laços de colaboração
e vice-versa: saúde, assistência social, dentre outras. Como diria o poeta,
Carlos Drummond de Andrade, “vamos de mãos dadas”!
Mãos Dadas
Carlos Drummond de Andrade
Não serei o poeta de um mundo caduco
Também não cantarei o mundo futuro
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos, mas nutrem grandes esperanças
Entre eles, considero a enorme realidade
O presente é tão grande, não nos afastemos
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história
Não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida
Não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes
A vida presente
55
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56
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64
65
Capítulo 2
A cultura da escola e a sensibilidade em tempos da pandemia:
condições e desafios da educação para novos tempos
Manuel João Mungulume
Alonso Bezerra de Carvalho
Introdução
Com o advento da pandemia, a cultura da escola sofreu adaptações
inesperadas, e isso afetou de forma negativa a socialização e a integração da
escola. Assim, a cultura escolar foi obrigada, além de lidar com as
complexidades existentes, viu -se obrigada a reinventar novos desafios
impostos pela pandemia. A sensibilidade da prática educativa alargou as
suas complexidades e os desafios. É nesta ordem de ideia que esta discussão
se insere, e pretende ser discutida a partir das adaptações que possibilitam
manter as condições e as qualidades de uma educação que adequa aos
novos tempos. As condições e desafios da educação para novos tempos
trata-se de uma reflexão que busca alternativas e possibilidades que
mantenham a consolidação de uma educação democrática e sem perder o
teor da inovação e da integração social.
Tal esforço busca também delinear as possíveis configurações
pedagógicas pós pandemia, com o intuito de minimizar as desistências dos
https://doi.org/10.36311/2022.978-65-5954-308-3.p65-84
66
alunos, uma vez que, a falta de um apoio pedagógico especializado, pode
fazer com que essas crianças e adolescentes deixem a escola depois de pouco
tempo, ou permaneçam sem progredir para os níveis mais elevados de
ensino. Isso, de certa forma, acentua a desigualdade social. Diante disso, a
educação deve assumir uma nova postura ética e epistemológica para fazer
face às complexidades impostas pela crise. Portanto, a educação como
sendo um instrumento para a construção do humanismo; exige-se dela
uma restruturação e uma reorganização dos modelos da aprendizagem que
permitam uma instrução sem a exclusão, uma vez que, a crise não pode
impedir a democratização do saber.
O grande desafio da educação pós pandemia é de construir
alternativas que possibilitem um apoio dos estados emocionais dos alunos,
torná-los inclusivos, democráticos. Este compromisso se concretiza com a
implementação da cultura de sensibilidade e de empatia com as camadas
sociais mais desfavorecidas, devendo a educação se identificar e se pautar
com os direitos e com a diversidade.
Diante do exposto, o capítulo objetiva analisar o futuro da escola
dentro de um Plano de Educação mais inclusivo, que continue sendo a
marca da esperança social e que nos ajude a viver de forma harmônica e
sustentável. Assim, esta reflexão busca também analisar as implicações da
chamada cidadania digital, avaliar seus desafios e limites, de modo a
contribuir para o delineamento do projeto de uma prática educativa
democrática, emancipatória e sobretudo estabelecer uma articulação não
somente com os anseios tecnológicos, mas que atinja as dimensões de uma
aprendizagem significativa e afetiva dos adolescentes e jovens que, de certa
forma perderam a relação e integração que tinham no convívio escolar.
Por fim, o trabalho far-sepor uma revisão bibliográfica teórica e
prática para articular a cidadania digital dentro da educação inclusiva e
67
emancipatória. É nesta perspectiva que o capítulo se propõe a discutir, e
espera-se contribuir com novas estratégias pedagógicas para fazer face as
atuais mudanças sociais.
Covid-19 e o fracasso da cidadania digital?
Nesta discussão partimos do princípio de que o espo escolar deve
garantir as relações e a integração de todos, este princípio viu-se desafiado
pela Covid, pois a falta das máquinas digitais e internet deixou uma parte
da sociedade sem acesso ao processo educativo. Portanto, a práxis educativa
deve ser construída na base de uma educação que engloba a todos como
preza a declaração Mundial de Educação para todos. Vivemos num
contexto social em que a cidadania digital está longe de satisfazer a todos,
e possibilitar as condições de permanência de todos. Embora que se note a
importância da combinação de processos educativos com as tecnologias
digitais, ainda assim, precisamos refletir em torno da sua capacidade de
inclusão, e ao mesmo tempo reconhecermos a sua importância de uma
educação inovadora por meio da cidadania digital como uma estratégica
pedagógica.
As tecnologias ampliam as possibilidades de pesquisa, autoria,
comunicação e compartilhamento em rede, publicação, multiplicação
de espaços e tempos; monitoram cada etapa do processo, tornam os
resultados visíveis, os avanços e as dificuldades. As tecnologias digitais
diluem, ampliam e redefinem a troca entre os espaços formais e
informais por meio de redes sociais e ambientes abertos de
compartilhamento (MORAN, 2018, p. 53).
68
Numa era como a nossa em que a sala de aula passa a ser virtual,
podemos olhar a cidadania digital como uma alternativa plausível, porém,
devemos questionar as condições e os limites que ela traz para a camada
social desfavorecida, ou seja, a cidadania digital coopera com os
pressupostos da educação inclusiva?
De acordo com a declaração mundial sobre a educação para todos,
pressupõe-se que a educação deve satisfazer as necessidades básicas de
aprendizagem para todos, entretanto é nesta premissa que a cidadania
digital encontra o seu impasse ou limite, ou seja, pois ela não garante as
metas de uma educação emancipatória e democrática, isto é, as tecnologias
digitais impossibilitam a emancipação de educação que englobe e satisfaça
a todos, ou seja, o teor primordial da educação deve ser, seguir o que foi
plasmado pela declaração sobre a educação para todos; também as escolas,
na sua função social, devem orientar-se para a educação inclusiva, pois,
[...] constituem os meios mais capazes para combater as atitudes
discriminatórias, criando comunidades abertas e solidárias,
construindo uma sociedade inclusiva e atingindo a educação para
todos; além disso, proporcionam uma educação adequada à maioria
das crianças e promovem a eficiência, numa ótima relação custo-
qualidade, de todo o sistema educativo (UNESCO, 1994, p. 4).
Esta ideia é baseada no princípio da educação, enquanto direito
humano fundamental, e é a mais importante chave para a redução da
pobreza e para se alcançar um desenvolvimento social democrático e
harmônico. Portanto, a educação permite que cada indivíduo possa
assumir a responsabilidade pelo seu destino e contribuir para o progresso
da sociedade em que se insere, uma vez que lhe meios para participar
69
no processo do desenvolvimento de forma responsável, quer como
indivíduo, quer como elemento dessa comunidade (IPAD, 2008, p. 3).
Diante do exposto, queremos discutir, analisar e questionar o
futuro da escola dentro de um Plano de Educação mais inclusivo, de modo
que continue sendo a marca da esperança social e humana e que nos ajude
a viver de forma social e equilibrada. A pandemia trouxe mudanças no
cotidiano e na cultura escolar e tais mudanças afetaram de forma
significativa as vivências e os modelos de aprendizagem, e principalmente
quebrou-se a interação dos alunos, que é um dos fatores importantes que
contribui no processo que auxilia para o desenvolvimento do ensino-
aprendizagem. O processo da interação dos alunos no espaço escolar
favorece e fortalece o seu potencial de modo a construir a própria
consciência crítica e participativa, a partir do momento em que a interação
é um exercício para a inserção da argumentação.
Com o advento da covid-19, as escolas viram-se obrigadas a
recorrer às tecnologias digitais como mecanismo ou alternativa da
obtenção de ensino afetivo mas tal estratégia suscita implicações e
problemática da exclusão social através da utilização tecnologia digital e de
certa forma minimiza o esforço da promoção da inclusão educativa, e se
configurando desta forma como um ato de violência simbólica, que se
manifesta de forma suave, insensível, invisível a suas próprias vítimas, que
se exerce essencialmente pelas vias puramente simbólicas da comunicação
e do conhecimento (BOURDIEU, 2012, p. 7). Neste sentido, a prática
educativa precisa descobrir e reconhecer a instância afetiva da relação social
e cultural como ocasião única de apreender a lógica da dominação, como
aponta, Bourdieu:
70
[...] exercida em nome de um princípio simbólico conhecido e
reconhecido tanto pelo dominante quanto pelo dominado, de uma
língua (ou uma maneira de falar), de um estilo de vida (ou uma
maneira de pensar, de falar ou de agir) e, mais geralmente, de uma
propriedade distintiva, emblema ou estigma, dos quais o mais eficiente
simbolicamente é essa propriedade corporal inteiramente arbitrária e
não predicativa que é a cultura digital (BOURDIEU, 2012, p. 8).
A Covid-19 se configura como grande desafio para as políticas e
gestão educativas, mas isso não pode, de forma alguma, acentuar a
descriminação social, entre o acesso à cultura digital e à ausência dela. O
ato educativo deve assumir compromisso com os novos paradigmas
emergentes de modo a encontrar espaço para que, as tecnologias digitais
sejam uma prática acessível e abrangente.
Portanto, o processo de reflexão sobre a cidadania digital traz à
tona a realidade dos seus limites, uma vez que vivemos num país em que
uma parte da sociedade o tem acesso da comunicação digital e se tiver,
ainda não oferece as condições esperadas para gerar uma aprendizagem
digna e significativa. E dentro dessas limitações, espera-se que as escolas
reúnam um planejamento de ações para construir o desenvolvimento de
uma educação que mobilize conceitos, habilidades e práticas cognitivas
socioemocionais para o exercício pleno de uma cidadania ativa e
interventiva.
O conceito da cidadania digital além de conter limitações, também
está em evolução, enfrentando um conjunto de desafios que exigem a sua
redefinição. Problemáticas, apontadas como, a exclusão digital, ausência
dela e a falta da mão de obra qualificada, tudo isso geram o impacto
cultural da Sociedade de Informação, que são centrais para a compreensão
das mudanças estruturais em curso (ALVES; MOREIRA, 2004, p. 36).
71
Outro potencial desafio que envolve a cultura digital é o fato das
aprendizagens voltadas a uma participação mais consciente e democrática,
e que produza uma aprendizagem ativa por meio das tecnologias digitais.
A revolução digital e dos avanços do mundo digital na sociedade
contemporânea, não podem perder a construção de uma atitude crítica,
ética e responsável em relão à multiplicidade de ofertas digitais.
Apesar das limitações e os desafios que acompanham a cultura
digital, também é imperioso reconhecer a sua relevância, pois vivemos num
contexto em que a cultura juvenil está intrinsecamente relacionada com a
cultura digital, este fato torna imprescindível ampliar e aprofundar as
aprendizagens construídas na base das tecnologias digitais, como aponta a
BNCC:
[...] o foco passa a estar no reconhecimento das potencialidades das
tecnologias digitais para a realização de uma série de atividades
relacionadas a todas as áreas do conhecimento, a diversas práticas
sociais e ao mundo do trabalho. São definidas competências e
habilidades, nas diferentes áreas, que permitem aos estudantes buscar
dados e informações de forma crítica nas diferentes mídias, inclusive as
sociais, analisando as vantagens do uso e da evolução da tecnologia na
sociedade atual, como também seus riscos potenciais (BRASIL, 2017,
p. 474).
Desta forma, a cidadania digital é uma estratégia pedagógica que
está inserida na cultura digital, não somente como consumidores, mas se
engajando cada vez mais como dinâmica inovadora e educativa. Uma das
estratégias pedagógicas para novos tempos é de apropriar-se das linguagens
72
da cultura digital para contribuir e produzir conteúdo para o letramento
em diversas áreas do conhecimento
7
.
A qualidade da educação em tempos da pandemia: Desafios para o
desenvolvimento das competências de aprendizagem (de forma virtual)
Perrenoud (1999, p.16) parte do princípio de que desenvolver as
competências não é um papel exclusivo ou hegemônico da escola, pois, o
desenvolvimento das competências trata-se da capacidade de “[...]
mobilizar um conjunto de recursos cognitivos (saberes, capacidades,
informações etc.) para solucionar com pertinência ou eficácia, uma série
de situações”. E isso não acontece unicamente no espaço escolar, pois
segundo o autor, afirmar que cabe à escola desenvolver competências, seria
confiar-lhe monopólio.
O autor destaca as competências não como um caminho, mas
como um efeito adaptativo do homem às suas condições de existência.
Desse modo, cada pessoa, desenvolve as competências de maneira
diferente, desde que sejam suficientes ou necessárias para a realização de
suas tarefas, bem como para a resolução dos problemas cotidianos com
maior eficácia.
Diante disso, como garantir o desenvolvimento das competências
no ensino remoto? Como atingir as dimensões especificas de aprendizagem
de cada aluno, na era remota? Essas perguntas constituem mais um desafio
para responder aos indicadores de qualidade de ensino, que se encontra
7
A cidadania digital é uma forma de mobilizar práticas das tecnologias digitais de diferentes
linguagens, mídias e ferramentas digitais para expandir as formas de produzir sentidos (nos
processos de compreensão e produção), aprender e refletir sobre o mundo e realizar diferentes
projetos autorais (BRASIL, 2017, p. 87).
73
cada vez mais devassada. Discutir ou avaliar a qualidade de ensino em
tempos de pandemia, se torna assim, um dos objetivos para apontar
estratégias educacionais, para os novos tempos. Portanto, os Indicadores
de Qualidade na Educação foram criados para ajudar a comunidade escolar
de modo a avaliar e melhorar a qualidade da prática escolar (BRASIL,
2013).
Tal objetivo compreende atualmente examinar os pontos fortes e
fracos da escola, ou seja, a escola tem condições para oferecer um ensino
que ofereçam uma aprendizagem significativa voltadas para a resolução de
problemas relativos à superação de uma situação, como, por exemplo,
[...] saber guiar-se no caminho de volta para casa a partir de um ponto
de referência, o que mobiliza competências de reconhecimento ou
mapeamento espacial; saber lidar com as dificuldades infantis, o que
aciona competências pedagógicas; saber construir ferramentas, o que
estimula competências matemáticas e lógicas, entre outras
8
.
O ensino remoto traz novos desafios e novos questionamentos para
a teoria da aprendizagem significativa
9
, pois a exposição remota pode ser
ineficiente para atingir as dimensões especificas de cada aluno. Portanto,
estamos a caminho de um ofício novo, cuja meta é antes fazer aprender do
que ensinar. A abordagem por competências junta-se às exigências da
focalização sobre o aluno, e dos métodos da aprendizagem significativa.
8
Philippe Perrenoud (1999) e a Teoria das Competências. Disponível em:
http://www2.videolivraria.com.br. Acesso em: 22 out. 2021.
9
A aprendizagem significativa ocorre quando a nova informação se ancora com os novos conceitos
relevantes preexistentes na estrutura cognitiva de quem aprende. Portanto, a aquisição de conceitos
torna-se, então, largamente uma questão de assimilação (MOREIRA, 1982, p. 31).
74
[...] considerar os conhecimentos como recursos a serem mobilizados;
trabalhar regularmente por problemas; criar ou utilizar outros meios
de ensino; negociar e conduzir projetos com seus alunos; adotar um
planejamento flexível e indicativo e improvisar; implementar e
explicitar um novo contrato didático; praticar uma avaliação
formadora em situação de trabalho; dirigir-se para uma menor
compartimentação disciplinar (MEIRIEU apud PERRENOUD,
1990, p. 57).
Assim, as novas metodologias exigem saber comunicar, raciocinar,
argumentar, negociar, organizar, aprender, procurar informações,
conduzir uma observação, construir uma estratégia, tomar ou justificar
uma decisão (PERRENOUD, 1999). Esta ideia é de igual modo
compartilhado pela BNCC (2017), ao adotar o enfoque das decisões
pedagógicas que devem incidir para o desenvolvimento de competências.
Portanto, a BNCC, ao definir as competências, como mobilidade
cognitiva, reconhece que a “[...] educação deve afirmar valores e estimular
ações que contribuam para a transformação do aluno que deve tornar-se
sujeito socialmente ativo e interventivo. Por meio disso, a BNCC destaca
que o aluno ainda deve desenvolver,
[...] conhecimentos, habilidades, atitudes e valores e, sobretudo, do que
devem “saber fazer” (considerando a mobilização desses conheci-
mentos, habilidades, atitudes e valores para resolver demandas
complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do
mundo do trabalho), a explicitação das competências oferece
referências para o fortalecimento de ações que assegurem as
aprendizagens essenciais definidas na BNCC (BRASIL, 2017, p. 13).
75
Desta forma, cada comunidade escolar tem autonomia para
refletir, propor e agir na busca da qualidade da educação que desenvolva
tais competências esperadas. A educação para os novos tempos exige que
cada professor ou professora desenvolva dinâmicas e criatividades
necessárias para mobilizar pais, alunos, professores e funcionários para o
debate educativo.
É nesta perspectiva que a práxis educativa deve valorizar os papéis
sociais desempenhados pelos alunos, para além de sua condição de
estudante, e qualificar os processos de construção de sua personalidade
ética bem como seus projetos de vidas.
A missão da educação é de promover a aprendizagem colaborativa,
este é sem dúvida um dos maiores desafios da aprendizagem virtual que é
de desenvolver nos estudantes a capacidade de trabalharem em equipe e
aprenderem com seus pares as dimensões do saber ser, do saber-fazer, e do
saber viver juntos, pois, estes constituem segundo Delors (1998) os quatro
aspectos, intimamente ligados, de uma mesma realidade da condição
humana.
Experiência vivida no quotidiano, e assinalada por momentos de
intenso esforço de compreeno de dados e de fatos complexos, a
educação ao longo de toda a vida é o produto de uma dialética com
várias dimensões. Se, por um lado, implica a repetição ou imitação de
gestos e de práticas, por outro é, também, um processo de apropriação
singular e de criação pessoal. Junta o conhecimento não-formal ao
conhecimento formal, o desenvolvimento de aptidões inatas à
aquisição de novas competências (DELORS, 1998, p. 107).
76
Estes devem ser a meta e o esforço da práxis educativa, uma vez
que a educação também traz alegria da descoberta, experiências singulares
que impactam e complementam as relações sociais. Assim, a prática
educativa deve valorizar a diversidade e vivências culturais e apropriar-se
de conhecimentos que possibilitam entender as relações e interações
humanas.
O impacto da pandemia na educação inclusiva: Abordagem da
democracia inclusiva
Uma das áreas da educação que foi diretamente afetada pela
pandemia é a questão da educação inclusiva. Para fazer face o processo de
ensino e aprendizagem tornou-se cada vez mais decisivo e necessária o
exercício das tecnologias digitais. É neste contexto que surge a preocupação
com a designada “exclusão digital”, um ato que pode colocar em xeque a
democracia plena.
De acordo com Alves e Moreira (2004), o uso das tecnologias na
educação traz algumas limitações significativas para grupo específico a
diversos níveis: de motricidade; de visão; de audição; de expressão oral e
escrita; de memorização, de concentração e de percepção da realidade.
Portanto, segundo estes autores, as limitações digitais, incluem
ainda os cidadãos com condão física fortemente debilitada, seja por
motivos de idade, doença ou outros. Todas estas pessoas encontram
dificuldades específicas para este tipo de modalidade, e que na ótica deles
devem ser consideradas.
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No combate à exclusão digital, a literacia é um fator essencial, uma vez
que o mero acesso às TIC de nada servirá se as pessoas não possuírem
as qualificações necessárias para as utilizar de forma eficiente. Dada a
velocidade de evolução das TIC, a aprendizagem contínua ao longo da
vida torna-se também uma condição necessária para acompanhar a
evolução tecnológica (ALVES; MOREIRA, 2004, p. 46).
Estas obrigações devem garantir o domínio de uma
telecomunicação democrática sem prejudicar os interesses da educação
inclusiva, uma vez que, os marcos legais que embasam a educação para
todos, reconhecem a educação como direito fundamental compartilhado e
incentivado com a colaboração da sociedade, visando ao pleno
desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua
qualificação cultural e social.
A função social da educação democracia, deve pautar-se pela
inclusão social compreendendo a identidade humana em todas as suas
dimensões, pois, estes são princípios e valores assentados na democracia,
na igualdade e no bem-estar social.
É nesse contexto em que a BNCC afirma, de maneira explícita, o
seu compromisso com a educação, reconhecendo a formação humana em
todas as suas dimensões, intelectual (cognitiva) ou a dimensão afetiva. Isso
significa, ainda, assumir uma visão plural e singular da educação
considerando os aspectos de sujeitos na aprendizagem. Deve-se,
[...] promover uma educação voltada ao seu acolhimento,
reconhecimento e desenvolvimento pleno, nas suas singularidades e
diversidades. Além disso, a escola, como espaço de aprendizagem e de
democracia inclusiva, deve se fortalecer na prática coercitiva de não
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discriminação, não preconceito e respeito às diferenças e diversidades
(BRASIL, 2017, p. 14).
É este acolhimento que a educação virtual deve ter em consideração
para manter intacta as dinâmicas da educação inclusiva, pois o seu
desenvolvimento da educação por meio tecnológico, impõe desafios a
certas camadas sociais e limita o efeito da educação inclusão.
A escola que acolhe também emancipa, como processo da
construção de seu projeto de vida, promovendo a tolerância as
comunidades locais e globais. Portanto, a educação inclusiva além de
promover o saber democrático, também deve promover a cidadania ativa
como medidas concretas para facilitar o acesso dos cidadãos à informação,
à participação e desta forma fortalecer a educação. A concretização desse
princípio pode ser promovida por uma educação emancipatória, inclusiva
e democrática. Assim, a educação para novos tempos deve criar condições
para uma formação abrangente com ferramentas de informação e de
capacidade para avaliar o seu desempenho no fortalecimento das suas
relações com o tecido social.
O discurso de que o uso da tecnologia na educação limita os
pressupostos pedagógicos da educação inclusiva não se trata de uma
denúncia dos malefícios das novas tecnologias, mas sim, trata-se de um
alerta de que a cidadania digital deve englobar a participação de todos no
processo. Contudo, precisamos tomar cuidado para que,
Neste mundo globalizado pelo fenômeno digital e da democracia
electrónica, somos incentivados a transformar os avanços técnicos em
bem-estar humano, pelo sucesso de uma verdadeira cidadania virtual.
Uma cidadania virtual onde as tensões estão muito presentes. da
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Internet (redes, servidores e computadores) e nas capacidades
necessárias para usar a Internet que não têm feito aumentar ainda
mais o fosso entre as nações como provocado uma alegada exclusão
digital (ALVES; MOREIRA, 2004, p. 73).
Assim se explica que a Internet seja elogiada e amaldiçoada, e tida
como necessária e até inevitável, mas também vista como uma construção
demasiado dispendiosa para o desenvolvimento moderno e até como fonte
de novas desigualdades. Desigualdades no acesso à educação por falta
desses meios tecnológicos (ALVES; MOREIRA, 2004). São estes fatores
que podem minar o exercício democrático, pois, a democracia,
[...] é um processo dinâmico, ameaçado, constantemente, pelo menor
desequilíbrio social, ao mesmo tempo alimentado, constantemente,
pelos esforços, a imaginação e a inovação. Nesse ponto está sua
superioridade com relação a outras formas de governança: é o único
sistema político capaz de corrigir as suas próprias disfunções
(MATSUURA, 2002, p. 226).
O aprimoramento do uso das tecnologias deve sempre incidir com
os pressupostos de uma educação democrática e inclusiva. Portanto, a
educação inclusiva se configura como uma abordagem compreensiva e
holística, envolvendo todos as esferas sociais e educacionais e os vários
agentes de socialização, inclusive as organizações comunitárias, em um
processo de participação de uma democracia plena e efetiva
(MATSUURA, 2002).
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Considerações finais
A crise proporcionada em virtude da Covid-19 ocultou a cultura
da escola, e implantou o medo ao desconhecido abalando sobretudo a
sensibilidade estética do processo de ensino e aprendizagem. Este capítulo
procurou discutir alguns dos desafios e implicações da cultura digital,
demarcando as implicações da cidadania digital na educação inclusiva.
As incidências do mundo virtual influenciam o comportamento
social e limitam sobretudo a camada social mais desfavorecida, o que pode
ser um perigo eminente para uma educação democrática e abrangente.
Portanto, o progresso da cidadania digital contém duplo olhar, por um
lado benéfico para os que dominam e manuseiam bem e por outro lado,
tensões entre os que não dominam e falta de acesso facilitado dessas
tecnologias. Embora haja esse duplo olhar, isso não minimiza a
importância da utilização das tecnologias digitais, pois se configuram como
instrumentos e estratégias pedagógicas fundamentais para o
compartilhamento de informações.
O projeto educativo como prática democrática deve reforçar o
domínio da cultura e adotar os mecanismos da cultura digital sem perder
de vista os pressupostos pedagógicos de uma educação inclusiva e
emancipatória. Esta é a proposta que este trabalho se propôs em discutir
e enfatizar a ideia de que os novos tempos educativos devem trazer
equilíbrio para alcançar uma aprendizagem dignamente significativa.
Portanto, as ferramentas utilizadas na cidadania digital oferecem
possibilidades para a mobilização das práticas de linguagem comunicativa
e educacional.
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Constatamos nessa discussão que o grande desafio da cidadania
digital é de promover uma educação que demostre as dimensões técnicas,
críticas, criativas, éticas e sobretudo estéticas, ou seja, garantir no processo
de ensino-aprendizagem as competências básicas e específicas para que o
aluno consiga compreender e produzir sentidos, de maneira crítica, criativa
e interventiva.
Para tanto, é necessário não somente possibilitar aos estudantes
explorar interfaces técnicas, mas promover e construir a visão do mundo
baseado na cultura digital que reforça as novas formas de socialização e, até
mesmo, novas definições de identidade individual e coletiva. Assim, a
utilização de novas tecnologias digitais deve consolidar o aprimoramento
do conhecimento, capaz de flexibilizar o desenvolvimento da autonomia
moral e intelectual. Por fim, a práxis educativa deve sempre contribuir para
um saber democrático, ético, e harmônico e garantir um olhar de esperança
sem perder de vista as dimensões axiológicas, inclusivas e emancipatórias,
promovendo desse modo o valor social humano.
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