Amanda Valiengo
A discussão acerca da alfabetização e formação de alfabetizadores luso-
-brasileiros norteia os debates neste livro. Ao lançar um olhar atento às
realidades dos programas de Formação Continuada e seus impactos para
os processos de alfabetização, esse estudo oferece argumentações e retratos
que nascem das narrativas dos atores principais dessas práxis: os professores
alfabetizadores.
O pano de fundo dessa obra é a história da formação docente, seus modos
de preparo, reexos e intersecções que marcaram a formação docente nes-
ses dois países. Tudo isso narrado por aqueles que vivenciaram, na prática,
duas das iniciativas governamentais voltadas a esse m: o Programa Letra
e Vida (São Paulo/Brasil) e do Programa Nacional de Ensino do Português
(Portugal).
A partir das situações de acolhimento e escuta das narrativas dos partici-
pantes do estudo, o livro propõe uma discussão madura sobre a projeção e
a real efetividade desses programas formativos de professoras e professores,
cujo objetivo se refere à “humanização” desses educadores, mediante uma
instrumentalização teórica e metodológica.
Nesses processos, o desao posto é a criação de condições favoráveis para
estudos e reexões sobre o papel da educação escolar, evidenciando a ati-
vidade docente e a das jovens gerações.
A leitura de “Tornar-se alfabetiza-
dora: narrativas de professoras portuguesas
e brasileiras” convida a leitora e o leitor
a pensar sobre possibilidades de tessitu-
ras de os e movimentos dedicados a um
olhar crítico e mobilizador, em diferentes
frentes. E, assim, traz à baila o debate so-
bre o cenário de potencialidades e desa-
os da escola, como lugar para abalo das
certezas catalizadora de corpos e mentes.
A obra apresenta uma breve histó-
ria da escolarização, da alfabetização e da
formação de professores. O que escutamos
nas narrativas das professoras e do profes-
sor nos mostra que os tempos quase sem-
pre foram difíceis. Ao largo dessas ques-
tões estão avanços inegáveis, mas também
retrocessos. Esse estudo e tudo o que vi-
vemos nesta segunda década dos anos dois
mil explicitam o quão voláteis são as po-
líticas públicas para a educação. Nas prá-
ticas alfabetizadoras perduram, em mui-
tos casos, métodos tradicionais de ensino
que pouco contribuem para a formação.
Este livro remonta uma pesquisa
que foi realizada há quase dez anos, (re)
visitar modos de se alfabetizar, de se tor-
nar alfabetizadora, de se fazer formações
e de se transformar as práticas pedagógi-
cas pode se converter em um dispositivo
potente para pensarmos o agora e plane-
jarmos o futuro. Um convite para a es-
perança e novas ações teóricas e práticas.
Amanda Valiengo possui Graduação em Pe-
dagogia pela Universidade Estadual Paulista
Júlio de Mesquita Filho - Campus de Marí-
lia (2005). Concluiu Mestrado em Educação
(2008) e Doutorado em Educação, com es-
tágio em Portugal (2012) pela mesma Uni-
versidade. Pós-doutora pela Universidade
Federal do Espírito Santo (2018). Atualmen-
te, é professora Adjunta da Universidade
Federal de São João Del Rei, MG, no De-
partamento de Ciências da Educação e no
Mestrado em Educação. É pesquisadora na
área de Educação Infantil, brincadeira e lei-
tura para a infância. Líder do Grupo de Es-
tudo e Pesquisa CRIA - Centro de respeito
às infâncias e suas aprendizagens. Membro
do grupo de pesquisa: Grupo de Estudos e
de Pesquisa em Especicidades da docência
na Educação Infantil (GEPEDEI, Unesp -
Marília). Coordenadora de área no PIBID
-Pedagogia. Desenvolve um projeto de ex-
tensão: CRIAÇÃO, envolvendo a educação
infantil e as artes. Foi professora na Univer-
sidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e
Mucuri, MG, nos Curso de Licenciatura em
Pedagogia e Bacharelado em Humanidades
(2013-2016). Atuou como Vice-coordena-
dora da Licenciatura em Pedagogia (2013-
2015). Coordenou o subprojeto PIBID In-
terdisciplinar Ler e Ser (UFVJM-Campus
JK), envolvendo três áreas de conhecimento:
Educação Física, Letras e Pedagogia (2014-
2016). Exerceu atividades de docência nas
séries iniciais do Ensino Fundamental na
Prefeitura de Mogi das Cruzes, SP, de Vera
Cruz, SP e na rede estadual de Ensino do es-
tado de São Paulo. Foi professora universitá-
ria na Faculdade UNISUZ (Suzano) (2008-
2013) e Universidade Brás Cubas (Mogi das
Cruzes) (2012-2013).
Programa PROEX/CAPES:
Auxílio Nº 0798/2018
Processo Nº 23038.000985/2018-89
TORNAR-SE ALFABETIZADORA
Amanda Valiengo
narrativas de professoras
portuguesas e brasileiras
TORNAR-SE
ALFABETIZADORA
TORNAR-SE ALFABETIZADORA
narrativas de professoras portuguesas e brasileiras
Amanda Valiengo
TORNAR-SE ALFABETIZADORA
narrativas de professoras portuguesas e brasileiras
Amanda Valiengo
Marília/Oficina Universitária
São Paulo/Cultura Acadêmica
2021
UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS FFC
UNESP - campus de Marília
Diretora
Dra. Claudia Regina Mosca Giroto
Vice-Diretora
Dra. Ana Claudia Vieira Cardoso
Conselho Editorial
Mariângela Spotti Lopes Fujita (Presidente)
Adrián Oscar Dongo Montoya
Célia Maria Giacheti
Cláudia Regina Mosca Giroto
Marcelo Fernandes de Oliveira
Marcos Antonio Alves
Neusa Maria Dal Ri
Renato Geraldi (Assessor Técnico)
Rosane Michelli de Castro
Conselho do Programa de Pós-Graduação em Educação -
UNESP/Marília
Graziela Zambão Abdian
Patrícia Unger Raphael Bataglia
Pedro Angelo Pagni
Rodrigo Pelloso Gelamo
Maria do Rosário Longo Mortatti
Jáima Pinheiro Oliveira
Eduardo José Manzini
Cláudia Regina Mosca Giroto
Auxílio Nº 0798/2018, Processo Nº 23038.000985/2018-89, Programa PROEX/CAPES
Imagem da capa: https://unsplash.com/s/photos/free
Ficha catalográfica
Serviço de Biblioteca e Documentação - FFC
Valiengo, Amanda.
V172t Tornar-se alfabetizadora: narrativas de professoras brasileiras e portuguesas / Amanda
Valiengo. – Marília : Oficina Universitária ; São Paulo : Cultura Acadêmica, 2021.
259 p.
Inclui bibliografia
ISBN 978-65-5954-111-9 (Digital)
ISBN 978-65-5954-110-2 (Impresso)
1. Educação. 2. Alfabetização. 3. Formação de professores - Brasil. 4. Formação de
professores - Portugal. I. Título.
CDD 370.71
Copyright © 2021, Faculdade de Filosofia e Cncias
Editora afiliada:
Cultura Acadêmica é selo editorial da Editora UNESP
Oficina Universitária é selo editorial da UNESP - campus de Marília
DOI: https://doi.org/10.36311/2021.978-65-5954-111-9
Às minhas queridas tias Nete e Mema. Aos meus pais.
A todas as Professoras (da escola e da vida) e às
crianças que foram e ainda serão alfabetizadas.
Agradecimentos
Se eu perdesse a vontade de agradecer,
me sentiria derrotado”.
(Valter Hugo Mãe)
Especialmente durante a feitura desta pesquisa até nos dias atuais,
talvez, o que eu mais tenho aprendido é a ser grata. Sou imensamente
grata a todo processo vivenciado durante esse trabalho e, agora, a essa
possibilidade de revisitá-lo, depois de quase dez anos, para elaborar, com
novos olhares, essa obra.
Agradeço:
A Deus, por estar em todos os lugares e situações, antes, durante e
depois da minha vida.
Aos meus pais, João e Arlene, pelo alicerce constate para tudo,
tudo.
À minha irmã, amiga e professora, Camila, por todos
compartilhamentos.
Ao Cassiano, à Lyra e ao Yuri, pelos sorrisos e desprendimento de
amor gratuito e sem hora marcada.
Ao meu Divino amor, pela família, pelas conversas, e pelas ajudas
específicas neste livro.
Ao Tuta, à Ruth, ao Calebe e à Dona Carmem, assim como a
todos mentores, pelos auxílios espirituais.
Aos meus queridos familiares e amigos, por me darem a
oportunidade dos cuidados.
A todos professores parceiros da pesquisa, direta e indiretamente,
aos gestores das escolas.
Ao Ministério da Educação de Portugal e à Secretaria de
Educação de Mogi das Cruzes, pela gentileza, disponibilidade e
paciência.
À Elieuza, minha amiga, parceira mais experiente e companheira
de escritas, por me instigar e apoiar no exercício de materialização de
grande parte de minhas produções acadêmicas.
À Edith e Dina, por serem o porto seguro onde me ancorei e me
permiti a leveza necessária para a concretização desse estudo apresentado,
dentre tantas relações para além da pesquisa.
À Doutora Raquel Lazzari Leite Barbosa, orientadora desse
estudo, por se tornar a “ponte” para muitas outras possibilidades de vida.
Ao Doutor Domingos Fernandes, coorientador dessa pesquisa,
por ratificar a necessidade da humildade nos processos da profissão.
À Capes, pela Bolsa concedida durante a realização do estágio no
exterior.
A todos que participaram e contribuíram para que esse momento
fosse melhor e mais produtivo.
Nunca estarei absolutamente derrotado na
convicção de que existir é um convite à
ternura, ao cuidado, ao outro”.
(Valter Hugo Mãe)
Lista de abreviaturas e siglas
BR Brasil
CEFAM Centro de Formação Profissional de Nível Médio
CENP Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas da Secretaria
da Educação do Estado de São Paulo
EAD Educação à distância
ECTS Eropean Credit Transfer and Accumulation System
FDE Fundação para o Desenvolvimento da Educação
INAF Indicador de Alfabetismo Funcional
LDB Segundo a Lei de Diretrizes e Bases
MEC Ministério da Educação
PEC Programa de Educação Continuada
PISA Programa Internacional de Avaliação de Alunos
PNEP _ Programa Nacional de Ensino do Português
PRODEP Programa de Desenvolvimento Educativo para Portugal
PUC/SP Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
PT Portugal
SESI Serviço Social da Instria
UNOPAR Universidade Norte do Paraná
USP Universidade de São Paulo
UNESP Universidade Estadual Paulista
SARESP Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de
São Paulo
TCC Trabalho de Conclusão de Curso
UFSJ/MG Universidade Federal de São João del Rei Minas Gerais
UFVJM/MG Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e
Mucuri Minas Gerais
UNESCO United Nations Educacional, Scientific and cultural
Organization
SP São Paulo
Surio
Prefácio..................................................................................
15
Apresentação do livro.............................................................
21
Introdução..............................................................................
23
Capítulo I Retomada histórico educacional: breve
panorama da escolarização e formação de professores
alfabetizadores em Portugal....................................................
35
Capítulo II - Sobre Cartilhas e a fortuna das palavras: as
narrativas de professores alfabetizadores portugueses............... 71
Capítulo III Retomada histórico educacional: breve
panorama da escolarização e formação de professores
alfabetizadores no Brasil.........................................................
131
Capítulo IV Sobre morosidade e amorosidades no aprender
a ler, escrever e ser: narrativas de professoras alfabetizadoras
brasileiras................................................................................
171
Um ponto final ou apenas reticências.....................................
225
Referências.............................................................................
237
15
Precio
Para bem criar passarinho é proveitoso ignorar as grades, as prisões, as
teias. É bom se desfazer das paredes, cercas, muros e soltar-se, deixar-se
vagar entre perfume e brisa. É melhor ainda não dispor de trilhas ou
veredas e ter o ar inteiro como um espaço pequeno para a ligeireza das
asas. (QUEIRÓS, 2009, página amarela).
A sensibilidade do poeta é inspiração para a tessitura deste texto
produzido em momento histórico tão catastrófico e intensificador das
desigualdades sociais e culturais. Estamos em contexto pandêmico
mais de um ano, período em que milhares de mortos compõem triste
estatística no Brasil e no mundo.
Especialmente em terras brasileiras, onde componho este
prefácio, vivemos palcos de lutas. Um deles se circunscreve no desafio
atual de manutenção da vida dos sobreviventes de uma doença
avassaladora provocada pelo SARS-CoV-2 (Coranavirus disease 2019,
conforme designação na língua inglesa). Outro, não menos letal e
sombrio, é desenhado e cultivado numa sociedade capitalista como a
nossa, onde milhares de famílias ultrapassam a linha da pobreza e
constituem lugares no cenário dos miseráveis lutadores pela subsistência,
palco ampliado pelos altos índices de desemprego e injustiças sociais.
Afetada pela dor das famílias que choram a perda de seus entes
queridos e das outras que vivem a morte lenta pela falta de condições
favoráveis para satisfação de necessidades básicas (alimentação, saúde e
DOI: https://doi.org/10.36311/2021.978-65-5954-111-9.p15-20
16
moradia), a riqueza poética de Queirós (2009) impulsiona exercícios de
reflexão e de ações políticas e sociais dirigidos à potencialização da
satisfação dessas necessidades vitais e da criação de novas necessidades
capazes de motivar o desenvolvimento de inteligências e personalidades
compositoras de uma sociedade com novos contornos e lugares, a partir
de seus voos plenos, como pessoas mais libertas e engajadas.
Um debate necessário nesse movimento de reflexões envolve o
papel social da escola e de seus agentes intelectuais (equipe, professoras e
professores e outros profissionais atuantes no ambiente escolar). Trata-se
do delineamento de discussões fundamentadas nos avanços científicos e
políticos sobre o valor desse espaço para a constituição humana em sua
inteireza e sua potencialidade para edificação de uma sociedade mais justa
e emancipada.
A escola contemporânea nos desafia, continuamente, a desfazer
suas cercas e muros revelados em suas constituições prediais, mas,
sobretudo, em proposições educativas pouco ou nada efetivas à
integralidade da educação da pessoa, conforme lindamente versa Queirós
(2009) no excerto logo acima.
Uma escola projetada para humanização rompe as grades e as
teias aprisionadoras dos corpos, constituindo-se ambiente com “ar
inteiro” para que seus atores principais (crianças, professores e demais
profissionais que ali atuam) possam cultivar a “ligeireza das asas”, em
encontros com elementos da cultura produzida pelas gerações que os
antecederam, cooperando para o alargamento das produções sociais por
meio de suas atividades. Além de se formarem como pessoas dirigentes e
conscientes de suas próprias histórias, eles podem contribuir ativamente
para guiarem revoluções vitais à criação de contextos de maior justiça
social e liberdade humana.
17
Queirós (2009) declara em tons poéticos uma escola
originalmente plural e aberta à atividade humana, para bem “criar”
crianças, jovens e adultos que aprendem a ser humanos em contextos
culturais, sociais e políticos propícios à harmonia do desenvolvimento de
suas inteligências e personalidades (VYGOTSKI, 1995; VIGOTSKI,
2010).
Ao encontro desses exercícios de consciência educacional, política
e social, as páginas do livro da professora e pesquisadora Amanda
Valiengo (com quem tenho o privilégio de conviver e aprender a ser mais
humana) convoca-nos a navegar “além mar”, com a responsabilidade e o
compromisso de (re)pensar o cultivo de cenários formativos de crianças e
dos profissionais que as educam, como possibilidades de mobilizão de
certezas e tradições que se perpetuam ao longo da história da
alfabetização no Brasil e em Portugal.
Em contextos luso-brasileiros são tecidas compreensões sobre
Programas de Formação Continuada com impactos para processos de
alfabetização, discutidas com rigor e profundidade pela autora. Os
estudos e argumentações científicas retratados por ela resultam de
vivências de pesquisa em dois países com histórias particulares e,
também, com pontos de intersecção. Trazem aspectos históricos e
pedagógicos referentes à formação docente e às repercussões do Programa
Letra e Vida (São Paulo/Brasil) e do Programa Nacional de Ensino do
Português (Portugal).
A partir das situações de acolhimento e escuta das narrativas
docentes, parceiras do estudo, o livro põe em debate a projeção e a
efetividade de programas formativos de professoras e professores, cujo
objetivo se direcione à humanização desses educadores, mediante sua
instrumentalização teórica e metodológica. Nesses processos, o desafio
18
posto é a criação de condições favoráveis para estudos e reflexões sobre o
papel da educação escolar, evidenciando a atividade docente e a das
jovens gerações.
Como argumentado ao longo das partes que compõem a obra, as
marcas de nossa humanidade são apropriadas mediante atividades nas
quais elas sejam necessárias, mobilizadas ao uso e façam sentido para
quem delas se apropria. Essencialmente essas capacidades tipicamente
culturais entram em movimento no seio de “práticas pedagógicas
humanizadoras” que “[...] [possam] ser caracterizadas como aquelas em
que os encaminhamentos teórico-metodológicos expressem a ideia de
capacidade plena das crianças no processo de ensino-aprendizagem”
(CHAVES, 2011, p. 98).
A experiência social é, desse ponto de vista, a fonte do
desenvolvimento psíquico da pessoa. No processo de apropriação dessa
experiência, a professora e o professor atuam como propositores de
situações educativas intencionalmente planejadas, vividas e avaliadas para
que a geração jovem se aproprie de bens culturais como base
fundamental para a constituição das qualidades psíquicas inerentes à sua
inteligência e personalidade.
Esse entendimento tem implicação pedagógica decisiva,
descaracterizando ações estéreis e esvaziadas de sentido, pouco capazes de
garantir aprendizados essenciais ao desenvolvimento amplo da criança e
tampouco de envol-la completa e inteiramente como pessoa ativa,
capaz de fazer, ser e se relacionar como protagonista das suas
aprendizagens.
A leitura da obra completa oferece à leitora e ao leitor
oportunidades de tessitura de fios e movimentos dedicados a
questionamentos, desconfianças e mobilizações em diferentes frentes, o
19
que inclui o cenário das potencialidades e desafios da escola, como lugar
para abalo de certezas muitas vezes mobilizadoras dos nossos corpos e
mentes:
Para bem criar passarinho é preciso ter ao alcance das mãos a linha do
horizonte para escrever poesia para passarinhos cantarem. E isso se torna
possível soltando o olhar para o bem depois das montanhas, dos mares,
deixando o carinho murmurar rascunho de poema (QUEIRÓS, 2009,
página lilás).
Elieuza Aparecida de Lima
Marília, SP.
(Em isolamento social, perspectivando encontros e diálogos)
Referências
CHAVES, Marta. Enlaces da Teoria Histórico-Cultural com a Literatura
Infantil. In: CHAVES, Marta (org.). Práticas Pedagógicas e Literatura
Infantil. Maringá: Eduem, 2011. p. 97-105.
QUEIS, Bartolomeu Campos de. Para criar passarinho. 2. ed. São
Paulo: Global, 2009.
VIGOTSKI, Lev Semionovitch. Quarta aula: a questão do meio na
pedologia. Tradução de Márcia Pileggi Vinha. Psicologia USP, São
Paulo, v. 21, n. 4, p. 681-701, 2010. Disponível em:
http://www.revistas.usp.br/psicousp/article/view/42022. Acesso em: 06
abr. 2021.
20
VYGOTSKI, Lev Semionovitch. Problemas del desarrollo de la psique.
Obras Escogidas. Vol. III. Madrid: Visor, 1995.
21
22
Apresentação do livro
Há uma felicidade para os tempos difíceis.
Sei que é importante seguir à procura.
(Valter Hugo Mãe)
A breve história da escolarização, da alfabetização e da formação
de professores apresentada neste livro, mostra que os tempos quase
sempre foram difíceis. Tivemos avanços inegáveis e também retrocessos.
As políticas públicas para a educação são voláteis e as práticas
alfabetizadoras mantém, em muitos casos,todos tradicionais de ensino
que pouco contribuem para a formação das pessoas que de fato usem a
leitura e a escrita para satisfazer usos sociais reais e às necessidades
humanas.
Os tempos atuais são difíceis, também pela experiência mundial
da Doença do Coronavírus, que, dentre tantas coisas, parece nos ajudar a
descortinar e atenuar a fome, a miséria, assim como os problemas da
escola. Dentre eles, o da alfabetização.
Apesar deste livro não tratar deste tempo, pois a pesquisa foi
realizada há quase dez anos, (re)visitar modos de se alfabetizar, de se
tornar alfabetizadora, de se fazer formações e de se transformar as práticas
pedagógicas pode, quiçá, ser incentivo para continuar a busca pela
felicidade, como diz Valter Hugo Mãe.
23
Intitulei este livro de “Tornar-se alfabetizadora: narrativas de
professoras portuguesas e brasileiras”. Usei as palavras no gênero
feminino, embora tenha um professor parceiro da pesquisa, porque a
grande maioria dos professores alfabetizadores, são mulheres, tanto em
Portugal, como no Brasil.
Espero que a leitura das páginas seguintes seja provocadora de
reflexões, de mudanças e de possibilidades reais para uma alfabetização
para além das letras, na esperança de termos dias e pessoas mais felizes.
24
Introdução
A força do pensamento haverá de criar coisas incríveis, científicas,
intuitivas, maravilhosas, profundas, necessárias, movedoras,
salvadoras, deslumbrantes ou amigas. Pensar é como fazer. Quem
só faz e não pensa só faz uma parte.
Para a beleza é imperioso acreditar. Quem não acredita não está
preparado para ser melhor do que já é. Até para ver a realidade é
importante acreditar. A minha mãe disse que eu virei um
sonhador. Para mudar o mundo, sei bem, é preciso sonhar
acordado. Apenas os que desistiram guardam o sonho para o
tempo de dormir.
(Valter Hugo Mãe)
Desde que estou enlaçada com a educação, há mais de 20 anos,
penso sobre a necessidade de se sonhar para promover mudanças no
mundo. Estudar, criar, fazer ciência e manter a intuição sempre atenta
são atributos que tento cultivar e viver com outras pessoas: desde as
vivências de alfabetização das crianças até no exercício de formação de
professores.
Este livro é parte da pesquisa Programas de Formação de
Alfabetizadores em Portugal e no Brasil: representações de professores
(VALIENGO, 2012), um marco em minha trajetória. O tema dessa
pesquisa realizada surgiu a partir de observações da minha própria prática
pedagógica, do meu olhar, enquanto professora de instituições de Ensino
Superior (das redes Pública e Privada), do Ensino Fundamental da Rede
25
Pública Estadual Paulista e de inúmeros Cursos de Formação, de
Professoras e de Professores, realizados em várias regiões do Brasil.
Após o rmino da pesquisa, ingressei como professora efetiva no
Ensino Superior, em 2013, na Universidade Federal dos Vales do
Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM/MG). Durante os quatro anos de
atuação nessa instituição, ministrei disciplinas relacionadas à Educação
Infantil e à alfabetização no Ensino Fundamental, o que me permitiu
articular ensino, pesquisa e extensão na formação de novos profissionais.
Em seguida, desde 2017, me tornei professora efetiva na Universidade
Federal de São João del Rei (UFSJ/MG). Nesses contextos, consegui
vivenciar mais intensamente as reflexões sobre as formações iniciais e
continuadas de professores.
Minha trajetória acadêmica como estudante tem início na Rede
Pública de Ensino, onde cursei a Educação Infantil e a primeira série.
Como muitas outras crianças brasileiras, fui alfabetizada mediante o uso
da cartilha e do exercício do treino motor para o aprendizado da língua
escrita e da decodificação da escrita, por meio da leitura. Nos anos
seguintes, nos ensinos Fundamental e Médio, meu percurso acadêmico
foi marcado por pontos negativos e positivos. Estes se referem,
especialmente, às artes, particularmente àquelas relacionadas ao teatro,
explico: embora as aulas de teatro fossem extracurriculares, elas me
estimulavam a frequentar as aulas diárias, onde o meu aprendizado era
cravado de conteúdos pouco motivadores. Mas, mesmo assim, ainda no
Ensino Fundamental, já sentia a necessidade, de ir além do Ensino
dio tradicional. Nascia em mim a semente do desejo de cursar o
Magistério.
A docência fazia parte do meu cotidiano. Muitos dos meus
familiares também eram e são professores. Tive o privilégio de fazer a
26
pré-escola e ser alfabetizada, na primeira série do Ensino Fundamental,
por minha tia, minha amada, dedicada e inquieta professora Nete. Dessa
forma, a docência ainda é e sempre será um motor que me impulsiona
rumo às muitas memórias afetivas de minha infância e primeira
juventude.
No Magistério, percebi o pragmatismo da formação docente:
faltavam-me subsídios teóricos para a formação e a posterior atuação
pedagógica. Aquela falha na minha formação era amenizada pelo diálogo
contínuo com minha irmã, Camila, que, na época, já cursava Pedagogia.
Daqueles estudos, emergiu a necessidade de ampliação das
referências teóricas em algum Curso de Graduação. Assim, no ano 2002,
ingressava no Curso de Pedagogia da Universidade Estadual de Paulista
(Unesp), em Marília/SP, onde fiz amizades para a vida toda. Antes disso,
porém, comecei a atuar como professora em uma Organização Não
Governamental dirigida ao trabalho com crianças de sete até quatorze
anos de idade, que, em período contrário, eram alunas da Rede Pública
de Ensino do Estado São Paulo.
Durante os anos da graduação, iniciei também a docência na
Prefeitura Municipal de Vera Cruz/SP. Nessa atuação, trabalhava com
crianças da quarta série, com aparentes dificuldades nos processos de
leitura e de escrita. Depois de dois anos nessa série, comecei um outro
trabalho com as crianças de primeira série. Agora, outras inquietações
começaram me tomar. Dentre elas, a questão de como essas crianças
eram e poderiam ser alfabetizadas.
No contato diário com crianças, eu percebia que,
independentemente da idade e/ou série, muitos alunos - mais da metade
- ao serem inseridos em situações provocadoras de produção e de leitura
27
de textos, revelaram dificuldades de comunicação na escrita. Isso, mesmo
sendo considerados alfabetizados pelos professores dos anos anteriores.
Ao mesmo tempo, como professora dos anos iniciais do Ensino
Fundamental e um curto tempo como coordenadora pedagógica,
conversava com muitas professoras alfabetizadoras. Nesses diálogos,
percebia, muitas vezes, uma falta de formação adequada (tanto vinda das
formações iniciais, como das continuadas) para ensinar as crianças a
aquisição da leitura e da escrita.
Como professora, cursei o Programa de Formação Continuada
Letra e Vida. Depois, como coordenadora pedagógica e professora,
vivenciei a formação e as propostas do Ler e Escrever, juntamente com as
professoras e crianças da escola onde atuava. E foi d que surgiu o
atravessamento das questões geradoras da pesquisa realizada: quais eram
as repercussões de um programa de formação continuada (mais
especificamente o Letra e Vida) na maneira de alfabetizar das professoras?
Existiam mudanças? Como as professoras alfabetizavam? Como foram
suas trajetórias de estudantes e de formação para atuação em turmas de
alfabetização? Em Portugal (país que auxiliou na oficialização da escola
no Brasil), as professoras alfabetizavam de maneira parecida com as
brasileiras? Utilizavam métodos? Cartilhas e/ou manuais? Tinham
formações continuadas? Que mudanças (ou não) tinham nas práticas
educativas depois que realizavam alguma formação continuada (mais
especificamente o Programa Nacional de Ensino do Português PNEP)?
Diante de todos esses enigmas, apresento aos leitores as narrativas
de dez professores alfabetizadores, portugueses e brasileiros, acerca de
suas trajetórias acadêmicas e profissionais, especialmente no que se refere
às formações continuadas Letra e Vida (BR) e Programa Nacional de
Ensino do Português (PT).
28
No desenrolar da pesquisa, o primeiro foco do estudo foi dirigido
à realidade brasileira, especificamente, na cidade de Mogi das Cruzes,
situada na região metropolitana de São Paulo. O Letra e Vida foi o
escolhido, estudado e apresentado na no estudo realizado, por ter sido a
última proposta de formação em nosso país, em níveis Federal e Estadual,
na época. Foram entrevistadas cinco professoras parceiras da pesquisa.
Por meio da pesquisa eletrônica, realizei as buscas por formações
análogas em Portugal. Neste intento, descobri um programa que tinha
sido realizado em nível nacional: o Programa Nacional de Ensino do
Português (PNEP). Fui conhecê-lo pessoalmente. Durante quatro meses,
tive a oportunidade de acessar todo o material do PNEP, conversei com
alguns de seus idealizadores e seus formadores e, da mesma maneira
como tinha feito no Brasil, entrevistei cinco professores portugueses.
O Programa Letra e Vida é uma formação continuada destinada
aos professores alfabetizadores. O material foi produzido no ano 2.000
pelo MEC (Ministério da Educação) e utilizado para a formação, a partir
de 2001. Ele foi adotado pelos Municípios, Estados e universidades, em
parceria com o MEC.
O Programa Nacional de Ensino do Português (PNEP) também
é um curso de formação continuada destinado aos professores
alfabetizadores do ensino público de Portugal. Foi criado pelo Ministério
da Educação daquele país, no ano letivo de 2006/2007, por meio do
despacho nº 546/2007.
O PNEP visa o aprimoramento do ensino e da aprendizagem da
leitura e da escrita, bem como a valorização das competências do
professor, pois os alunos apresentam baixa competência para ler e
29
escrever (PORTUGAL, 2007a). O principal objetivo do PNEP é a
melhoria dos níveis de compreensão de leitura e de expressão oral e
escrita nas escolas do 1º Ciclo, por intermédio da modificação das
práticas docentes do ensino da língua.
A formação dos professores para o aprimoramento da qualidade
da educação é uma das premissas dos Estados-nação. De maneira geral,
por meio da globalização, um dos objetivos desses é a educação das
pessoas como geradora de progresso, tanto individual como coletivo.
Assim, visam a formação de uma sociedade nacional desenvolvida e
integrada. Uma das consequências dessa política é que a educação fica
mundialmente
estandardizada”, pois, isso implica em dispositivos
comuns (MEYER, 2000).
Os sistemas educativos sofrem influências globais relativas à
expansão em massa do número de alunos. Há o princípio de escolaridade
obrigatória e a expansão do Ensino Universitário. No currículo, há
semelhanças e mudanças convergentes influenciadas por avaliações
internacionais de cunho comparativo e, embora existam diferentes
tradições de estrutura organizacional, a criação de configurações comuns
para a supervisão nacional provoca sua expansão de maneira isomórfica.
Uma de suas características é “[...] a configuração estandardizada da sala
de aulacom o
professor profissionalizado’” (MEYER, 2000, p. 19), com
ênfase no professor.
Os sistemas educativos têm algumas características em comum,
na contemporaneidade: a crescente influência das organizações
internacionais determinantes da educação, como é o caso da UNESCO
(United Nations Educacional, Scientific and cultural Organization) e do
30
Banco Mundial; o conhecimento, produzido com a ciência, com estatuto
de autoridade difundido por consultores espalhados pelo sistema
educativo, e as regras relativas aos direitos, ao desenvolvimento nacional
ou a aspectos da identidade (MAUÉS, 2009).
Os dois países pesquisados, Portugal e Brasil, apresentam as
características acima mencionadas, marcadas pela globalização, além de
outros pontos em comum, tais como: possuem a língua portuguesa como
idioma materno, pontos análogos na história da educação e a utilização
contínua de cartilhas na alfabetização (MORTATTI, 2000; MARCÍLIO,
2005).
A escolha metodológica para a pesquisa foi o método
denominado narrativo, ou história de vida, apresentado por Nóvoa
(1993), Catani; Bueno; Souza e Souza (1997), Josso (2006), Pineau
(2006a; 2006b) e Souza (2006). Tal decisão nos permite ouvir as vozes
do sujeito atuante/protagonista na alfabetização de crianças. Dessa
maneira, o indivíduo passa ao centro da discussão, como sujeito ativo,
criador e criatura de suas próprias representações, testemunha de um
momento histórico educacional e parte importante na engrenagem do
advento de uma educação. Sujeito que, assim, contribui para a
[...]
construção e re-construção de histórias pessoais, sociais, coletivas e
individuais dos atores que constroem o cotidiano, a cultura escolar”
(SOUZA, 2006, p. 136).
Segundo Josso (2006), o trabalho com as histórias de vida se
configura como uma revolução metodológica pautada em dois
paradigmas: a) no conhecimento com base na subjetividade explicitada
31
pelos sujeitos e b) no conhecimento experiencial valorizador da
reflexividade possível por meio da explicitação do sujeito.
Segundo Souza (2006), as histórias de vida adotam e comportam
várias fontes e procedimentos de recolha, tais como os diversos
documentos pessoais e as entrevistas biográficas. No caso da pesquisa
realizada (VALIENGO, 2012), a escolha recaiu sobre a entrevista. Esse
método nos permitiu a análise das representações dos professores sobre
processos educativos vivenciados por eles durante a formação e a atuação
dos mesmos.
Para a pesquisa, foram entrevistados cinco professores
alfabetizadores portugueses e cinco professoras brasileiras. Os critérios de
escolha dos dez sujeitos foram:
- Ser professor da Rede Pública, por esta atender à maioria da
população brasileira e portuguesa em idade escolar;
- Atuar preferencialmente como professor alfabetizador, desde a
metade da década de 1980;
- Ter feito o Magistério ou antigo Curso Normal;
- Ter realizado o Programa Letra e Vida (em São Paulo/Brasil) e o
Programa de Ensino de Português (em Portugal).
As cinco professoras brasileiras correspondem aos critérios
predeterminados, ou seja: atuam preferencialmente como professoras
alfabetizadoras na Rede Estadual de Ensino desde a década de 1980;
fizeram o Magistério e realizaram o Programa Letra e Vida. Além desses
critérios, todas foram alfabetizadas pela cartilha e realizaram a formação
para a docência em nível médio, sendo que quatro delas fizeram a
formação na mesma escola.
32
A escola em questão está situada em Mogi das Cruzes, SP. Na
época, em que as quatro professoras mais experientes estudaram, era a
única escola pública de formação para o Magistério, na cidade. Quando a
professora Rose cursou o Magistério, nessa mesma escola, já existiam
outras instituições blicas e particulares que ofereciam o curso, no
entanto, essa era tida como destaque. Atualmente, essa escola possui o
Ensino Fundamental e o dio, mas não realiza mais a formação do
professor, devido à extinção da mesma pelo Governo.
Todas as professoras agora possuem nível superior. Débora fez a
primeira graduação em Direito, em uma universidade particular, e,
depois, fez o PEC (Programa de Educação Continuada). Dora e a Maria
também fizeram o PEC. Paula fez UNOPAR (Universidade Norte do
Paraná), na modalidade virtual. Rose fez Pedagogia em uma universidade
particular chamada Universidade Braz Cubas.
Quatro delas fizeram a graduação depois do ano 2.000, por conta
da exigência da LDB-9394/96. E a fizeram à distância. Somente uma das
entrevistadas fez a graduação logo depois do Curso de Segundo Grau, em
uma universidade particular e de maneira presencial.
Os cinco professores portugueses tamm correspondem aos
critérios estabelecidos na pesquisa realizada. Somente um entrevistado é
do sexo masculino. Todos trabalham com alfabetização, no entanto, não
dedicaram a maior parte do trabalho ao primeiro ano, pois, em Portugal,
o professor deve acompanhar a mesma turma nos primeiros quatro anos.
A professora Joana trabalhou bastante tempo também no ensino
privado. Somente ela não cursou nível superior. O professor João se
formou em Sociologia. As outras três parceiras da pesquisa cursaram a
Licenciatura para Professores do Primeiro Ciclo, duas na Universidade de
Évora e outra em uma universidade privada, à distância.
33
Os professores foram envolvidos na pesquisa narrativa por meio
de entrevista, com roteiro previamente elaborado. As seguintes etapas
foram realizadas:
1. Escolha dos cinco participantes brasileiros. Essa escolha
ocorreu mediante os critérios estabelecidos e citados anteriormente.
A partir desses critérios, procurei professoras do meu
conhecimento ou apresentadas por outras pessoas conhecidas, pois,
segundo Bourdieu (1997, p. 697), A proximidade social e a
familiaridade asseguram efetivamente duas das condições principais de
uma comunicação
não violenta””.
2. A geração dos dados, no Brasil, das entrevistas se deu por
intermédio de um roteiro. As participantes responderam à entrevista, em
um ambiente escolhido por elas para que se sentissem mais confortáveis,
à vontade, e pudessem, dessa forma, narrar suas histórias com
tranquilidade.
Os lugares escolhidos foram diversos: a casa da entrevistadora, a
casa da entrevistada ou o local de trabalho da professora.
O roteiro foi elaborado de forma a suscitar a narrativa; por isso,
foram evitadas perguntas que previssem respostas exatas, objetivas e
pontuais. O objetivo das entrevistas foi a compreensão sobre: a formação
das professoras, suas trajetórias desde o início da escolarização até o nível
universitário, a concepção sobre educação, escola e alfabetização, seu
entendimento sobre o Programa de Formação Continuada e o impacto
desse programa no trabalho pedagógico realizado em sala de aula.
34
3. A escolha dos cinco participantes portugueses se deu a
partir dos mesmos critérios das brasileiras. A escolha foi possível graças à
mediação desta pesquisadora e do coorientador da pesquisa realizada,
Domingos Fernandes. Este que criou os elos entre alguns possíveis
parceiros portugueses e esta pesquisadora.
4. A geração de dados em Portugal ocorreu, como no Brasil,
com um roteiro adequado à realidade portuguesa, em local escolhido
pelos entrevistados. Todos escolheram a escola onde atuavam.
5. Sobre a transcrição dos dados, nos alinhamos ao que
preconiza Bourdieu (1997). Segundo ele, a transcrição dos dados está
submetida a dois conjuntos de obrigações difíceis de conciliar: por um
lado, as obrigações de fidelidade a tudo que se manifesta durante a
entrevista. Por outro, a legibilidade definida em relação ao possível leitor
impede a publicação de uma transcrição fonética acompanhada das notas
necessárias para restituir tudo o que foi perdido na passagem do oral para
o escrito.
Assim, transcrever é necessariamente escrever, no sentido de
reescrever” (BOURDIEU, 1997, p. 710).
Dessa forma, na transcrição tentei preservar ao máximo a ideia
narrada pelo sujeito pesquisado, as palavras e a ordem das perguntas e
respostas. No entanto, redundâncias verbais ou tiques de linguagem
foram excluídos, a fim de obter um texto mais fluido e compreensível.
Todas as transcrições foram devolvidas para os parceiros da pesquisa e
validadas para utilização na pesquisa realizada. Os nomes são todos
fictícios para preservar suas identidades.
As narrativas ofereceram a possibilidade de criar um diálogo
com o referencial teórico adotado. Especialmente sobre a formação
35
voltada para a alfabetização, a análise das narrativas parte de uma reflexão
inicial com os materiais oferecidos nos cursos de formação: PNEP
(BARBEIRO; PEREIRA, 2007; FREITAS; ALVES; COSTA, 2007;
DUARTE, 2008; SIM-SIM, 2007; 2009; VIANA, 2009) e Letra e Vida
(FERREIRO; TEBEROSKY, 1999; BRASIL, 2003a; 2003b; 3003c).
Depois dessa reflexão, a análise é embasada em autores que
consideram o sentido e uso social da escrita, o texto como unidade de
sentido da linguagem (GERALDI, 1993; SMOLKA, 2003; JOLIBERT,
1994a; 1994b; MELLO, 2005 FOUCAMBERT, 1997; SMITH, 1999)
contrapondo tanto as ideias tradicionais de alfabetização como algumas
propostas das formações continuadas.
Especificamente sobre o contexto histórico, ideias de alguns
autores auxiliam a tessitura sobre a escolarização atrelada à alfabetização,
e sobre a formação de professores, tanto em Portugal como no Brasil
(MORTATTI, 2000; 2006; BAPTISTA, 2004; BARROSO, 2003;
BOTO, 2004; MARCÍLIO, 2005; DURAN; ALVES; PALMA FILHO,
2005; NÓVOA, 2005; LOUREIRO, 2006; CANDEIAS, 2010;).
Este livro está dividido em: esta introdução e mais quatro
capítulos, sendo os dois primeiros relativos aos dados de Portugal e os
dois últimos referentes aos dados coletados no Brasil, seguindo a mesma
estrutura.
Optei por começar por Portugal, porque o país ditou os rumos
da educação no Brasil por mais de trezentos anos. Assim, o capítulo I é
destinado a uma breve retomada histórica do contexto educacional de
Portugal e apresentação do Programa Nacional de Ensino do Português.
No capítulo II, são apresentadas e discutidas as narrativas dos professores
36
sobre como foram alfabetizados, realizaram o Magistério, a formação em
nível superior e as formações continuadas, focando especialmente nas
repercussões das formações ofertadas pelo PNEP.
No capítulo III, há um breve hisrico da educação no Brasil,
especificamente em São Paulo, e apresento o Programa Letra e Vida. No
capítulo IV, as narrativas das professoras parceiras da pesquisa entram em
cena. E concluindo, nas considerações finais teço uma breve retomada
que serve à contextualização para a infencia para alguns paralelos entre
as duas realidades estudadas.
37
Capítulo I
Retomada histórico educacional:
breve panorama da escolarização e formação de professores
alfabetizadores em Portugal
Escutar também é um jeito de ver.
Quando nós escutamos,
imaginamos distâncias,
construímos histórias,
desvendamos novas paisagens
Bartolomeu Campos de Queirós
Para a discussão de temas tratados neste livro, principalmente a
alfabetização e a formação do professor, faz-se necessária uma breve
apresentação do panorama histórico educacional de Portugal na tentativa
de escutarmos” histórias para construir outras e, assim, trazer à luz novas
possibilidades.
Contexto educacional de Portugal: breve histórico
Segundo Candeias (2010), as sociedades ocidentais, com o
decorrer do tempo, passam de uma cultura baseada na oralidade a uma
fundamentada na escrita, desde o século XVI. Essa mudança ocorre
38
devido a alguns fatores: os ciclos econômicos, estes marcados pela
expansão europeia e a Revolução Industrial, os elos entre a Reforma
Protestante e a Cultura das Luzes e a consolidação do conceito de
Estado-nação, nos séculos XVIII e XIX.
Esses fatos evidenciam também a necessidade do
empreendimento de esforços para uma inclusão étnico-social que nos leve
à nacionalização. O que só é possível por intermédio de uma malha
complexa de dispositivos determinada pela racionalização e laicização e
uma ideia de responsabilidade e protagonismo individual. Dessa forma,
há a necessidade da escrita, da criação e aperfeiçoamento de dispositivos
que tenham as funções de: (1) inculcação de uma função cultural
unificadora e geradora de consensos e (2) a imposição de uma ordem e
eficiência. Dentre esses dispositivos, a escola se estabelece.
A mudança da sociedade, de um modo de organização oral para o
escrito, tem como cerne dois processos: a alfabetização e a escolarização.
Sobre o processo de alfabetização Candeias (2010, p. 32) afirma:
A alfabetização no sentido social, ou seja, enquanto processo, pode ser
caracterizada como sendo um movimento no sentido da obtenção de
uma cultura letrada, dependendo essencialmente de estratégias
internas e grupos familiares ou mesmo de indivíduos, encontrando-se
directamente relacionadas com percursos de mobilidade ascendente
ou de adaptação a mudanças de contexto laboral ou social em geral.
O processo de alfabetização é dependente do contexto histórico e
social. Embora a expansão europeia, a Reforma Protestante, a Revolução
Industrial e a consolidação do Estado tenham propiciado um impulso à
alfabetização da população, esse processo ainda se está implementando. A
39
título de exemplificação: em 1878, o analfabetismo era de 78%, em
1930, de 62%, em 1960, de 30% (NÓVOA, 2005).
O processo de alfabetização depende diretamente do processo de
escolarização. É na escola, por excelência, que se alfabetiza. Candeias
(2005) conceitua a escolarização como um processo definido e aplicado
rigidamente pelo Estado moderno. As estratégias individuais e familiares
são substituídas pelas coletivas, determinadas pelo Estado.
A escolaridade obrigatória em Portugal foi instituída, pela
primeira vez, em 1835 e impôs aos pais a obrigação de levar seus filhos,
com idade a partir dos sete anos, à escola. Como afirma Nóvoa (2005, p.
25)
O princípio da escolaridade obrigatória está na origem de um ciclo
histórico que, incorporando a herança revolucionária, vê no Estado-
nação e no impulso industrial os elementos de progresso da
sociedade. Precisa-se de instrução, porque uma nação polida e
civilizada é mais fácil de governar do que um povo bárbaro e feroz”.
Apesar da escolarização ter sido proposta desde 1835, ela só passa
a ser assegurada na segunda metade do século XX e, mesmo assim, de
forma ainda imperfeita. Como ressalta Nóvoa (2005, p. 25),
Portugal
foi um dos primeiros países da Europa a legislar sobre a obrigatoriedade
escolar. Foi um dos últimos a cumpri-la”.
O modelo de escola começa a ser definido no século XVIII com o
trabalho dos jesuítas. Esse método proporcionava uma educação
direcionada às crianças e aos jovens, em um espaço espefico, fora da
família e do trabalho, por intermédio de um mestre que ensinava
40
matérias previamente estabelecidas e que eram aplicadas de acordo com
uma série diretrizes didáticas também predeterminadas (NÓVOA,
2005).
Com a expulsão dos jesuítas em 1759, a história da educação
portuguesa tem um avanço sob as mãos do Estado, que passa agora a ter
de assumi-la. As reformas pombalinas substituem a tutela religiosa pela a
do Estado, criando as condições para o processo histórico de expansão de
uma sociedade de
base escolar’” (NÓVOA, 2005, p. 23).
Dois aspectos merecem atenção a partir da Reforma Pombalina: a
definição de uma rede de escolas, com um plano elaborado por
corógrafos peritos”, que dividia em três níveis o processo de educar: o
primário, o secundário e o superior. Outro ponto foi a decretação de
impostos em benefício das escolas régias e dos pagamentos aos professores
(NÓVOA, 2005).
Marcílio (2005) explica que o modelo de ensino do final do
século XVIII era o mútuo, que consistia em ensinar a muitos discípulos,
ao mesmo tempo. Alguns adolescentes (monitores) instruídos
diretamente pelo mestre, com variedade de tarefas, ensinavam outros
adolescentes” (MARCÍLIO, 2005, p. 37-38). Com a adoção desse
método, a intenção era mudar radicalmente a educação, visando uma
possível expansão da escola. Para Nóvoa, o ensino mútuo foi interpretado
como a primeira tentativa oficial de
reforma dos métodos” (NÓVOA,
2005).
Em meados do século XIX, de acordo com Boto (2004, p. 497),
persistia a predominância do uso dos abecedários e de manuscritos para
o ensino da leitura e da escrita, tal como ditava a tradição herdada do
século XVIII”. Por volta da segunda metade do século XIX, Portugal,
41
cada vez mais, preconizava o ensino da leitura e escrita, embora não
conseguisse efetivá-los nas escolas e o livro escolar passa, nesse período, a
reinar” na escola.
Com a realidade da não aplicação do ensino mútuo, na segunda
metade do século XIX, António Feliciano Castilho apresenta o Método
Português de Leitura Repentina. Ele critica o método mútuo e propõe
um método pragmático que passa a ser do interesse das pessoas, uma vez
que apontava soluções rápidas para os problemas de instrução. A cartilha
é consagrada oficialmente em 1853 e é fortemente disseminada nos
Cursos de Formação de Professores nas escolas normais.
Paralelamente à proposta de Castilho, Boto (2004) destaca,
também, outra iniciativa que considerava pioneira, quanto ao método: a
Cartilha Nacional elaborada pelo professor Caldas Aulete (1823-1878),
da escola Normal de Marvila.
[...] havia ali assinalada uma nova forma de se proceder ao ensino das
primeiras letras. Abolia-se a soletração; o aprendizado viria pelo
sentido expresso na relação entre significante, signo e significado.
Aprendia-se a palavra, para em seguida decompô-la em suas partes. O
aprendizado do som das letras vinha como efeito correlato ao
aprendizado do sentido da palavra lida. Além disso, propunha-se
com ousadia para a época o ensino paralelo da leitura e da escrita;
propiciando, de tal maneira, procedimentos e técnicas capazes de
habilitar o professor para o ensino simultâneo mediante o qual
todos os alunos aprenderiam, em princípio, ao mesmo tempo
(BOTO, 2004, p. 505).
Após as propostas de Castilho e de Aulete, em 1876, João de
Deus escreve a Cartilha Maternal. Ele repudia os métodos antigos e
42
anuncia uma revolução pedagógica baseada nas mesmas ideias
relacionadas à eficácia e rapidez de aprendizagem de Castilho. A partir
dessas ideias, a batalha feroz que se trava entre os adeptos de Castilho e
de João de Deus [...] revela bem a importância social e política que o
campo educativo
começa a adquirir” (NÓVOA, 2005, p. 31). Segundo
voa (2005), apesar das muitas comparações sobre os dois autores,
ambos se preocupam com um ensino atraente, que suscite o interesse do
aluno e promova uma aprendizagem intuitiva e racional.
Mesmo com o aumento das escolas e das discussões sobre a
escolha da melhor cartilha e do método mais eficaz, um ponto do debate
permanece: a formação do professor. Iniciativa esta oficialmente
instituída com a inauguração da Escola Normal de Lisboa, em 1862. Este
é um marco importante, porque, apesar de retrocessos e avanços
relacionados à formação do professor primário, nos mostra que a ideia da
necessidade de formação desse profissional permanece (NÓVOA, 2005).
A legislação portuguesa (1835-1836) estabelece as bases do
sistema de ensino do país, mas é a política regeneradora que torna a
educação importante. Segundo Nóvoa (2005), depois dela, a história
pode ser dividida em três grandes ciclos, o que veremos a seguir:
01 - O primeiro ciclo, Optimismo Reformador, se inicia nas
décadas de 1860-1870 e perdura até 1923. “É um tempo de crenças
desmesuradas, e algo ingênuas, na possibilidade de uma regeneração
social através da escola” (NÓVOA, 2005, p. 35).
Conforme assevera o autor, a Reforma de 1901 torna obrigatória
a frequência do ensino normal para se habilitar ao magisrio. Durante
esse período, há dois aspectos que, segundo Nóvoa (2005), merecem
43
destaque: a aceitação da necessidade profissional e a consolidação da
Pedagogia como disciplina central na formação do professor.
Na segunda metade do século XIX, há a necessidade de formação
de professores do ensino secundário. Com o passar do tempo, ela
aumenta cada vez mais e, em 1901, é lançado o Curso de Habilitação
para o Magistério Secundário. Esse Curso se organiza em três anos de
preparação científica e o quarto ano de preparação pedagógica (NÓVOA,
2005).
Em 1930, essas escolas são substituídas pelas ciências
pedagógicas” baseadas numa divisão entre a cultura e a prática
pedagógica (NÓVOA, 2005, p. 41). Para o autor, do período da Escola
Normal Superior restou apenas uma vantagem:
o reforço dos liceus
normais e o aparecimento de alguns notáveis professores-metodológicos”.
02 - O segundo ciclo é o do Pragmatismo Conservador (1930 -
1960) (NÓVOA, 2005). Neste período, há um rebaixamento da
educação, de forma a se oferecer o mínimo possível. Ao contrário do
primeiro ciclo, a educação, nesse momento, não nutre grandes ambições
de mobilidade social. Era o reflexo do período conservador e retrógrado
que Portugal começava a viver.
Em 1926, um golpe de Estado se instala no país e alça o
nacionalista António de Oliveira Salazar (1889 - 1970) ao posto de
Primeiro Ministro português. Assim, os tentáculos da ditadura de Salazar
alcançam também as escolas, imprimindo nas instituições escolares, de
forma incisiva, o conservadorismo e o autoritarismo, sob o manto de
disciplinarização, que marca toda a sociedade portuguesa por mais de 40
anos.
44
Benavente (1999) avalia que o movimento foi na contramão dos
direitos individuais, uma vez que a disciplina, a hierarquia e a obediência
são os valores e princípios de Salazar.
Após o golpe de Estado, algumas das medidas relativas às escolas
primárias e à formação de professores foram: dissolução das escolas
móveis (escolas idealizadas para o fim do analfabetismo); abolição da
coeducação; fechamento das escolas primárias, com menos de 40/50
crianças; expulsão das crianças que reprovassem mais de três vezes;
criação de
postos escolares”, onde se ensinavam as regentes escolares
(mulheres com quatro anos de estudo primário, que tinham que escrever
um certificado de bom comportamento moral e cívico); a escola passa a
ter um único livro, denominado O Livro da Primeira Classe; o Sindicato
dos professores foi fechado; as escolas de Magistério tiveram seus
currículos reduzidos gradativamente até que, entre os anos de 1936 e
1942, foram encerradas (BENAVENTE, 1999; LOUREIRO, 2006).
Conforme aponta Benavente (1999, p. 58), quando as Escolas
Normais reabriram, em 1942, tinham sido tão modificadas que estavam
irreconhecíveis: o corpo docente era adepto do salazarismo e o currículo
era uma mistura de doutrinas oficiais e de noções rudimentares sobre o
ensino das primeiras letras.
Enfim, ciclo do Pragmatismo Conservador, termo cunhado por
Nóvoa (2005), é marcado por essas e outras características vinculadas à
educação das primeiras décadas de Governo fascista.
03 - Ainda sob a sombra do fascismo, em 1960, nasce o ciclo da
Modernização Tecnocrática (NÓVOA, 2005). Esse período, juntamente
com o processo de democratização do ensino, irrompe o salazarismo e se
estende até os dias atuais. A sociedade portuguesa, então, passa viver um
45
período marcado pela valorização do humano, uma vez que este é
considerado fator essencial à industrialização.
Foi nesse contexto, das décadas de 1960 e 1970, que os
professores entrevistados neste livro foram alfabetizados e vivenciaram a
primeira formação, em nível Médio, para se tornarem docentes. Algumas
das características históricas apontadas aqui ganharão vida no relato
desses profissionais.
Sobre o terceiro ciclo, Benavente (1999) afirma ser nas décadas
entre 1950 e 1970, do século XX, que a industrialização e a emigração
determinam o essencial da evolução econômica portuguesa.
Principalmente a partir de 1960, esses determinantes conferem à
educação um novo papel: o preparo de uma mão de obra especializada.
Em 1968, com o afastamento de Salazar, por motivos de saúde,
Marcelo Caetano se torna o último presidente do Estado Novo
português. Começa então o período dito da libertação
, que tenta
ultrapassar a profunda crise da sociedade portuguesa envolvida numa
guerra colonial sem saída, isolada internacionalmente, a braços dados
com enormes problemas econômicos” (BENAVENTE, 1999, p. 60).
Com muitos problemas referentes à educação, principalmente
com alto número de analfabetos, no governo de Caetano, Veiga Simão
(Ministro que implantou a reforma) propõe uma reforma no ensino.
Segundo Benavente (1999), essa reforma previa a criação de Educação
Pré-escolar Oficial; diminuição da idade para ingressar no Ensino
Primário; alargamento da escolaridade obrigatória para oito anos;
aumento em um (01) ano de estudos no ensino secundário;
desaparecimento do exame de entrada no nível superior, e a criação de
um grau intermediário no ensino superior.
46
Conforme aponta Benavente (1999), essa reforma não se efetivou
cabalmente, uma vez que a Revolução de 1974 interrompeu o processo.
Segundo a autora, a principal efetivação da medida foi o alargamento da
escolaridade obrigatória. Assim, a reforma não mudou a situação do
ensino de maneira significativa. No entanto, marcou a vontade oficial de
investir na educação.
Nesse ínterim, apesar das mudanças entre os ciclos, Nóvoa (2005,
p. 35) aponta algumas marcas que permanecem:
Em primeiro lugar, a ilusão de uma reforma” desencadeada por
voluntarismo central (quase sempre legislativo”). Em segundo lugar,
a desatenção e o desfasamento em relação às práticas pedagógicas e às
realidades educativas concretas. Em terceiro lugar, a incapacidade de
romper com uma lógica burocrática, estimulando a emergência de
rotinas de inovação e de avaliação no dia a dia do trabalho escolar.
Em 25 de abril de 1974, a sociedade portuguesa está efervescente.
A Revolução dos Cravos decretou um fim para a ditadura de 48 anos e
trouxe consigo rupturas políticas, econômicas, sociais e culturais”
(BENAVENTE, 1999, p. 31). Após aquele Outono, com a democracia
reestabelecida, intensificam-se, ainda mais, as iniciativas para assegurar a
preparação cienfica relacionada à dimensão pedagógica e ptica e à
cultura do profissional docente. A democratização traz a afirmação dos
direitos individuais e a possibilidade de participação dos indivíduos na
definição dos destinos da sociedade.
Segundo Barroso (2003), a evolução das políticas educacionais
em Portugal, após o reestabelecimento do regime democrático, em 1974,
está marcada por ciclos de mudança:
A evolução recente do sistema
47
educativo portugs está indelevelmente marcada pela mudança do
regime político, em abril, de 1974, e pelas consequências que o
reestabelecimento da democracia e o processo histórico posterior
provocaram em todos os sectores da vida social” (BARROSO, 2003, p.
3).
O primeiro ciclo tem como marco inicial a revolução de 1974 e
vai até a posse do primeiro Governo Constitucional, em 1976. Nesse
período, há uma forte participação social empenhada na eliminação dos
vestígios do passado. Na área da Educação, o poder se desloca para as
escolas. As exigências do Ministério da Educação por mudanças
educacionais foi uma ação institucional no sentido de conceber e efetuar
mudanças efetivas que promovessem a ruptura total com a ideologia
fascista. Paralelamente, movimentos sociais diversificados realizavam
mudanças independentemente de qualquer alteração dos normativos
(BARROSO, 2003, p. 4).
Nesse cenário, com uma adequação à democracia socialista e a
oposição à situação política anterior, as opines dos estudiosos sobre o
assunto variam: de um lado, um balanço otimista apontador das
conquistas revolucionárias, de outro, um posicionamento pessimista,
com ênfase no caráter voluntarista, casuístico e pernicioso das mudanças.
Após 1974, até os finais da década de 1980, há uma ruptura com
a situação anterior. Nesse período, a formação do professor é voltada ao
seu preparo para uma intervenção social. A educação assume uma
dimensão transformadora, participativa, crítica e esclarecida. O
conhecimento é fator de emancipação social. Ocorrem mudanças no
recrutamento dos professores, dos alunos, nos planos de estudo e nos
processos de avaliação. A formação inicial tem um grande investimento:
48
o Ministério da Educação criou, em 1975, os Cursos de Magistério
Primário, com duração de três anos.
A mudança posterior inicia-se com a aprovação da Constituição
(1976) e a nomeação do primeiro Governo Constitucional e se estende
até 1986, com a aprovação da Lei de Bases do Sistema Educativo
(BARROSO, 2003).
A Constituão de 1976 estabelece o direito ao ensino e à
igualdade de oportunidade na formação escolar a todos os cidadãos.
Algumas medidas práticas voltadas à formação dos professores foram: a
revalorização do estatuto econômico, com o aumento do salário; a
revalorização do estatuto profissional; a participação do professor na
gestão escolar; um apoio profissional e pedagógico maior; a reciclagem de
atualizações pedagógicas, por meio de dispositivos escritos e audiovisuais;
o aprimoramento da formação inicial dos professores: as escolas de
Magistério tiveram novos diretores e sofreram reformas de diferentes
níveis como a alteração curricular, a introdução às atividades de contato e
às disciplinas optativas (BENAVENTE, 1999; BAPTISTA, 2004).
O período de normalização foi marcado pela acentuada crise
financeira e pela intervenção do Fundo Monetário Internacional e do
Banco Mundial. Na educação se destacam dois movimentos:
[...] um primeiro por meio de intervenções negativas” destinadas a
afastar do Ministério da Educação os quadros que personalizavam” o
conjunto das principais orientações e reformas encetadas durante o
período da crise revolucionária” e a eliminar, ou atenuar, os efeitos
das medidas entretanto tomadas; em segundo movimento, destinado
a criar condições para enfrentar o desafio europeu, por intermédio
de medidas de política educativa orientadas essencialmente para a
49
contenção do acesso ao ensino superior universitário [...]. Essa
política se integra no que alguns autores designam por novo
vocacionalismo”, associando a oferta de recursos humanos
qualificados, segundo as exigências do mercado de trabalho, à
modernização da economia e atribuindo ao Estado a função de
disponibilizar um sistema educativo adequado a este desígnio [...]
(BARROSO, 2003, p. 6).
Esse segundo momento é marcado pela recuperação do poder e
do controle do Estado e sua administração da Educação. O terceiro ciclo,
denominado Reforma, é iniciado pela aprovação da Lei de Bases do
Sistema Educativo, em 1986, e estendido até o final do século XX.
Com a aprovação da Lei de Bases do sistema educativo,
algumas mudanças: a unificação do ensino secundário geral, o
prolongamento do ensino secundário complementar e do ensino superior
politécnico e a criação das escolas superiores de educação e dos modelos
de gestão democrática das escolas. A maior novidade é a ampliação do
Ensino Fundamental para nove anos (BARROSO, 2003).
O ciclo da reforma é financiado substancialmente pelo Programa
de Desenvolvimento Educativo para Portugal (PRODEP) e tem o
objetivo de preparar o sistema educativo português para as exigências
europeias. Para esse preparo, a formação continuada dos professores era
uma das exigências e prioridades. Para Barroso, esse ciclo se divide em
dois períodos: o primeiro, entre 1987 e 1991, e o segundo, entre 1996 e
2000.
No primeiro momento, algumas medidas adotadas para a prática
da Lei de Bases do Sistema Educativo são: a abertura de instituições de
ensino superior privadas e a criação de sistemas de avaliação.
50
No segundo momento do ciclo da reforma, no período entre
1996 e 2000, o novo ministro da educação, Marçal Grilo, apresenta um
documento chamado Parceiros Educativos: um Pacto para o Futuro, que
contém objetivos e compromissos de pacificação e diretrizes sobre os
rumos da educação. Embora o referido documento não tenha repercutido
e não tenha se firmado, algumas medidas permanecem: a revisão
curricular, a gestão escolar, a formação de professores, a avaliação dos
alunos e das escolas, a expansão da p-escola e a internet na escola
(BARROSO, 2003).
O último ciclo é denominado
Descontentamento”. Com o
início do século XXI, há diversas manifestações descontentes com a
situação educacional de Portugal. Por um lado, há avanços
impressionantes no crescimento de oferta de estudos, nos critérios de
qualidade, na qualificação dos professores, no crescimento do ensino
superior. Por outro lado, nas avaliações padronizadas, tanto internas
como externas, os alunos não atingem os níveis desejados. Cada nível de
ensino acusa o nível anterior pelo não cumprimento do dever na
preparação dos alunos em nível adequado à programação, ao curriculum
e à competência então exigida. Conforme aponta Barroso (2003), o
descontentamento ocorre por causa da constatação de que, apesar do
alargamento do número de alunos nas escolas, a qualidade desejada ainda
não foi atingida.
Nesse contexto, algumas iniciativas são propostas:
- O Currículo Nacional do Ensino Básico. Vale destacar que o
Ensino Básico em Portugal compreende o 1º Ciclo (do 1º ao 4º ano)
para crianças a partir de 6 anos; 2º Ciclo (5º e 6º anos) e 3º Ciclo (7º, 8º
e 9º anos).
51
- Competências Essenciais (PORTUGAL, 2001), publicado em
2001, trata da definição das competências gerais e específicas para o nível
de escolaridade e para o ensino do português.
- O Plano Nacional de Leitura (PORTUGAL, 2006), proposto
pelo Despacho número 86 de 2006, com o objetivo de melhorar o
desenvolvimento de competências para a leitura e escrita, tem algumas
ações previstas, tais como a promoção da leitura diária nos Ciclos 1 e 2
nas salas de aula, assim como no contexto familiar e a leitura em
bibliotecas públicas e em outros contextos.
Os objetivos do Plano Nacional de Leitura são: intervenção,
valorização e promoção de práticas pedagógicas estimulantes à leitura; a
criação de um ambiente favorável e de instrumentos definidores de
metas, cada vez mais precisas, para o desenvolvimento da leitura; o
enriquecimento das competências dos professores e de mediadores da
leitura; consolidação e ampliação do papel da rede de bibliotecas públicas
e da rede de bibliotecas escolares e alcance de resultados favoráveis em
estudos nacionais e internacionais de avaliação da alfabetização.
- Outra proposta promulgada em 2008, por intermédio do
despacho de número 143, é o Plano Tecnológico da Educação, que tem
o objetivo de situar Portugal entre os cinco países europeus mais
avançados em matéria de inovações.
Também são criadas algumas formações continuadas como o
Programa Nacional de Ensino do Português (PNEP) foco principal das
narrativas dos parceiros da pesquisa que tratarei no próximo item.
52
Programa Nacional de Ensino do Português
O Programa Nacional de Ensino do Português (PNEP) é criado
pelo Ministério da Educação de Portugal no ano letivo de 2006/2007,
por meio do despacho nº 546/2007 (https://www.dge.mec.pt/ programa-
nacional-do-ensino-do-portugues-pnep). Foi finalizado no ano letivo de
2009/2010. Ao mesmo tempo em que é criado, são propostos outros dois
programas: Ensino Básico das Ciências e o Programa de formação de
professores do 1º Ciclo do Ensino Básico em Matemática.
Esses três Programas compuseram a formação continuada
oferecida pelo Ministério da Educação aos professores das séries iniciais
do Ensino Básico, mas cada um teve uma organização diferenciada. Essa
prática de formação é anunciada pela conferência
Desenvolvimento de
Professores para a Qualidade e para a Equidade da Aprendizagem a longo
da Vida” e determinada pelo novo Estatuto da Carreira Docente, por
meio do Decreto Lei nº. 15/2007 de 19 de janeiro (ALVES, 2009).
Segundo o Ministério da Educação, o Programa Nacional de
Ensino do Português se torna necessário para a melhoria do ensino e da
aprendizagem da leitura e da escrita, bem como à valorização das
competências do professor, estas que são prioridades do Governo, pois os
resultados de exames internacionais como o Pisa, por exemplo, bem
como as aferições realizadas no próprio país atestam a baixa competência
dos alunos para ler e escrever (PORTUGAL, 2007a). Assim, a formação
continuada dos professores foi estabelecida, como aponta o despacho nº
546/2007:
53
A necessidade de melhorar o ensino do Português na educação básica
está solidamente fundamentada nos resultados de todos os projectos
internacionais em que Portugal participou [...] O Ministério da
Educação decidiu, para tal, e em articulação com as escolas de 1º
ciclo e os agrupamentos escolares e com os estabelecimentos de
ensino superior com responsabilidades na formação inicial de
professores, desenvolver um programa nacional de ensino do
português destinado aos professores de 1º ciclo e educadores de
infância (PORTUGAL, 2007a, p. 899).
O Programa Nacional de Ensino do Português tem como
objetivos:
1. a melhoria dos níveis de compreeno de leitura e de expressão oral e
escrita nas escolas do 1º ciclo do Ensino Básico, por meio da modificação
das práticas docentes do ensino da língua;
2. a criação de uma dinâmica interna de formação continuada, nas
escolas do 1º Ciclo;
3. o envolvimento das instituições de ensino superior num projeto de
formação contínua;
4. o estímulo à produção de investigação no ensino da língua em
instituições de ensino superior, e;
5. disponibilização de materiais de formação, materiais didáticos e
materiais de avaliação no domínio da aprendizagem da leitura, da
expressão escrita e do conhecimento explícito da língua em nível nacional
(PORTUGAL, 2006).
Esses objetivos são baseados em três princípios (PORTUGAL,
2007a): a formação centrada nas escolas do 1º Ciclo; a formação com a
54
utilização de metodologias sistemáticas e estratégias explícitas de ensino
da língua na sala de aula, e a formação regulada por processos de
avaliação das aprendizagens dos alunos, individualmente, em grupo e na
classe e da escola.
A Comissão Nacional de Acompanhamento, responsável pela
idealização, implementação e avaliação do Programa, em decorrência dos
princípios acima, propõe como viabilização prática: a) a assistência de um
formador na escola, um docente do 1º Ciclo da escola, candidatado e
selecionado para a formação; b) a disponibilização de materiais
pedagógicos de formação e de avaliação.
Na escola, o papel do docente formador é o de dinamização
regular de oficinas temáticas e fóruns de discussão, de assistir o docente
em sala de aula na construção, divulgação e análise de materiais para a
avaliação da leitura, da escrita, do desenvolvimento da oralidade e do
conhecimento explícito da língua (PORTUGAL, 2006).
Os documentos propostos pelo Programa Nacional de Ensino do
Português para a formação são denominados Brochuras. São escritos, em
sua maioria, por alguns dos idealizadores do Programa. Foram criados
para responder a algumas temáticas ancoradas no Currículo Nacional do
Ensino Básico (PORTUGAL, 2001).
Inicialmente, a proposta era a produção de 12 brochuras, mas
não foi o que de fato aconteceu. Quando os dados da pesquisa foram
gerados, em 2011, tinham seis Brochuras editadas e disponibilizadas nas
formações, duas nunca foram editadas e quatro foram editadas em 2011
por isso, não são o foco da formação dos professores parceiros da
pesquisa.
55
Relaciono, agora, todas as brochuras que foram propostas
inicialmente e quais foram ou não publicadas. Aquelas publicadas em
2011 serão abaixo indicadas, sinalizando que não são o foco de
apresentação e análise desta pesquisa. Elas estão organizadas da seguinte
forma: a) apresentação de uma discussão teórica; b) propostas práticas a
serem realizadas em sala de aula; e c) sugestões de sites auxiliadores do
desenvolvimento de atividades práticas. Abaixo, relacionarei as temáticas
e as brochuras correspondentes. Elas são independentes, mas se
relacionam:
A. A temática sobre o desenvolvimento da linguagem oral prévia
como materiais de apoio: O conhecimento da língua: percursos de
desenvolvimento; O conhecimento da língua: desenvolver a consciência
fonológica; O conhecimento da língua: desenvolver a consciência
linguística, e O conhecimento da língua: desenvolver a consciência
lexical. A primeira e a última brochura foram editadas em 2011.
A temática abrange parâmetros e determinantes do
desenvolvimento da linguagem oral, a relação entre a parte oral e escrita,
importância do ensino explícito do vocabulário, reflexão orientada sobre
o conhecimento da língua e os efeitos da consciência linguística na
aprendizagem e na sistematização dos usos secundários da língua.
B. A temática sobre o ensino da leitura propôs inicialmente
como material de apoio: O ensino da leitura: a decifração; O ensino da
leitura: a compreensão de textos; O ensino da leitura: a avaliação; A
formação de leitores: contextos de desenvolvimento da literacia, e A
formação de leitores: literatura para crianças. As duas últimas brochuras
não foram editadas.
Essa temática trata do ensino da leitura: de sua emergência, assim
como da escrita na pré-escola; da decifração e desenvolvimento da
56
consciência fonogica; da aprendizagem de estratégias de compreensão e
de interpretação textuais; da leitura orientada, recreativa e informativa e
de estudo; da utilização dos suportes digitais e em papel, e da leitura em
sala de aula, da biblioteca e da avaliação da leitura.
C. A temática do ensino da expressão escrita sugere as seguintes
brochuras: O ensino da escrita: dimensões gráficas e ortográficas e O
ensino da escrita: a dimensão textual. A primeira foi editada em 2011
A temática engloba as seguintes dimenes: o início da
aprendizagem formal da escrita e sua articulação com a leitura; o processo
de escrita, e as competências envolvidas na produção textual e a
construção de diferentes gêneros.
D. A temática da utilização do computador como recurso de
aprendizagem da língua por adultos e por crianças propõe como material
de apoio: As implicações das TIC - Tecnologia de Informação e
Comunicação - no ensino da língua. Essa brochura foi publicada em
2011.
As dimensões dessa temática são: dispositivos tecnológicos e
comunicativos; uso dos suportes de linguagem; arquitetura do hipertexto;
exploração de recursos da rede, e produção de materiais em meio
eletrônico.
Portanto, das doze brochuras propostas, seis foram editadas e
usadas pelos formandos do PNEP, enquanto o Programa estava vigente
no País. Tratarei, mais adiante, das bases teóricas apresentadas nessas seis
brochuras.
Os formadores do Programa Nacional de Ensino do Português
são professores universitários que trabalham com formação inicial de
57
professores. Esses professores formarão professores do 1º Ciclo
candidatados e selecionados para serem formadores residentes.
O formador residente coordena o grupo de professores da sua
escola. Ao mesmo tempo, forma e é formado. Ou seja, há dois
formadores: os professores universitários e os docentes da própria
unidade escolar candidatada.
Esse professor do Ciclo 1, chamado formador residente, precisa
obrigatoriamente ter os seguintes pré-requisitos: ser professor do Ciclo 1
em exercício, com titulação da licenciatura equivalente, e ser titular de
um Curso de pós-graduação que se refira às áreas de leitura e escrita, de
supervisão ou orientação educativa ou psicologia educacional.
Além desses requisitos, outros critérios são levados em
consideração: a experiência como professor cooperante, a experiência na
formação inicial ou contínua de professores do 1º ciclo, a experiência na
dinamização de bibliotecas, e a participação em projetos de investigação
ou de inovação no ensino das línguas.
O Programa Nacional de Ensino do Português é destinado aos
professores de infância e do 1º Ciclo, agrupados por escolas. Cada
professor e agrupamento fazem uma adesão voluntária e, ao final do
Curso, recebem um diploma de frequência e aproveitamento emitido
pela escola superior de educação ou universidade. Esse diploma pode ser
viabilizado em unidades de créditos por meio do sistema de
reconhecimento de créditos (ECTS Eropean Credit Transfer and
Accumulation System) em Curso de pós-graduação (PORTUGAL,
2006).
O PNEP possui uma estrutura organizada num total não inferior
a 120 horas por ano, abrange sessões temáticas e sessões tutoriais.
58
As sessões temáticas incluem: sessões plenárias regionais,
realizadas no núcleo regional (Universidade), na maioria dos casos, nas
Escolas Superiores de Ensino (ESE), com duração de 30 horas, destinadas
à atualização e ao aprofundamento científico; sessões de formação em
grupo, orientadas pelo professor residente na escola, com duração de 60
horas, destinadas à análise, aos debates, à apresentação de materiais
didáticos e de avaliação e à reflexão sobre as atividades de língua
portuguesa.
As sessões tutoriais, com duração de 30 horas anuais, orientadas
pelo formador residente, visam ao apoio direto da atividade desenvolvida
em sala de aula.
A formação se baseia em três pilares: a) sessões presenciais
conjuntas, momento das brochuras; b) experimentação de materiais
pedagógicos e de avaliação nas escolas, local de trabalho dos formandos;
c) trabalho autônomo de reflexão e aprofundamento nos domínios
visados.
Durante a realização do Programa, foram disponibilizadas seis
brochuras distribuídas nos eixos temáticos: a) o desenvolvimento da
linguagem oral; b) o ensino da leitura; c) o ensino da expressão escrita. A
seguir, apresento as bases teóricas localizadas nas brochuras, dentro de
cada eixo temático.
Os materiais analisados sobre a temática
desenvolvimento da
linguagem oral” serão: O conhecimento da língua: desenvolver a
consciência fonológica e O conhecimento da língua: desenvolver a
consciência linguística.
59
01 - O conhecimento da língua: desenvolver a consciência fonológica
A brochura intitulada O conhecimento da língua: desenvolver a
consciência fonológica (FREITAS; ALVES; COSTA, 2007) está dividida
em três seções: introdução, a necessidade da consciência fonológica pelos
professores e o treino com os alunos: propostas de atividades.
Na primeira e na segunda seção, o conceito de consciência
fonológica é discutido. A terceira seção trata do modo de ensino dessa
competência à criança.
A consciência fonológica é a capacidade de identificação e
manipulação das unidades orais de maneira consciente. Segundo Freitas;
Alves e Costa (2007), o aprendizado da leitura e da escrita não é um
processo natural como o da fala. Para o aprendizado daquelas é necessária
a reflexão sobre a oralidade e o treino da capacidade de segmentação da
cadeia de fala. Segundo apontam os autores (FREITAS; ALVES;
COSTA, 2007, p. 7):
Para aprender a ler e a escrever em função de um código alfabético, é
necessário saber que a língua, no seu modo oral, é formada por
unidades linguísticas mínimas os sons da fala ou os segmentos e
que os caracteres do alfabeto representam, nas escritas, essas unidades
mínimas. Se pensarmos na sequência de fala transcrita em (1),
sabemos hoje que a maior parte dos meninos à entrada na escola é
capaz de a segmentar oralmente de acordo com as partições em (2),
mas não de acordo com as partições segmentais em (3):
1 Falo com os colegas por computador.
2 Fa.lo.com.os.co.le.gas.por.com.pu.ta.dor.
3 F.a.l.o.c.om.o.s.c.o.l.e.g.a.s.p.o.r.c.om.p.u.t.a.d.o.r.
60
Ao entrar na escola, normalmente, as crianças conseguem
segmentar oralmente as frases em sílabas, como está na separação (2), mas
não conseguem fazer a separação como está no exemplo (3).
A escola tem o papel de estimular a consciência fonológica. Ela
parte da consciência silábica, depois transita pela intrassilábica
(capacidade de manipular grupos de sons dentro da sílaba) e, finalmente,
alcança a consciência fonêmica.
O professor deve ensinar aos seus alunos a autonomia existente
nos dois sistemas, oral e escrito, e também mostrar a relação entre eles
(FREITAS; ALVES; COSTA, 2007). Para o desenvolvimento da
consciência fonológica, para a compreensão dos sons de suas
representações gráficas, a realização de exercícios diários é necessária.
Tal como referido anteriormente, a par do reforço da prática
sobre o oral, tanto na percepção da fala como na sua produção, é de
extrema importância a natureza dos exercícios desenvolvidos. A
sistematicidade e a consistência são as palavras-chave de uma
metodologia para a estimulação da oralidade e para o desenvolvimento da
consciência fonológica.
A realização diária de exercícios com estruturas similares, mas
com conteúdos distintos, consistentes e promotores de um determinado
resultado, ajudam à indução, à instalação, à consolidação e, finalmente, à
automatização do processamento (meta) fonológico (funcionamento
explícito da consciência fonológica) (FREITAS; ALVES; COSTA,
2007).
Para a concretização da ação em sala de aula, a seção três
apresenta vários exercícios a serem desenvolvidos com as crianças. As
61
atividades são organizadas em três blocos: a) treino e discriminação
auditiva; b) treino da consciência fonológica; c) cronograma e avaliação.
02 - O conhecimento da língua: desenvolver a consciência linguística
A brochura intitulada O conhecimento da língua: desenvolver a
consciência linguística (DUARTE, 2008) está estruturada em nove
capítulos, subdivididos respectivamente em: o conhecimento explícito
como um objetivo curricular; os conceitos fundamentais sobre a
concepção de ensino da gramática como desenvolvimento da consciência
linguística; o conceito sobre o desenvolvimento da consciência linguística
nas diferentes áreas de conhecimento, e algumas atividades para alcançar
o desenvolvimento e algumas atividades exemplificadoras.
O objetivo é a sensibilização dos professores para a inserção do
desenvolvimento da consciência linguística no currículo.
Segundo Duarte (2008), o bom desempenho da leitura e da
escrita depende de um conhecimento extenso da língua, da interpretação
das pistas estruturais contidas no texto, do conhecimento explícito e do
papel da escola na ampliação dos conhecimentos intuitivos da criança
sobre a língua, na aprendizagem da leitura e da escrita e no
desenvolvimento da consciência linguística.
A consciência linguística desempenha um papel transversal nas
seguintes competências instrumentais de uso da língua: donio do
português padrão, domínio de estruturas linguísticas de desenvolvimento
tardio, aperfeiçoamento e diversificação do uso da língua,
desenvolvimento de competências de estudo e aprendizagem de línguas
estrangeiras.
O desenvolvimento da consciência linguística pode promover
atitudes positivas nas crianças de autoconfiança e tolerância cultural e
62
linguística. Além disso, cumpre objetivos cognitivos: aprendizagem do
método científico, treino do pensamento analítico e aprofundamento e
sistematização do conhecimento da língua.
A linguística está atrelada ao ensino da gramática conceituada por
um
estudo do conhecimento intuitivo da língua que têm os falantes de
uma dada comunidade como os princípios e regras que regulam o uso
oral e escrito desse conhecimento” (DUARTE, 2008, p. 17).
O conceito da consciência fonológica é exposto novamente.
Conforme Duarte (2008), "
a desempenha um papel determinante no
sucesso da leitura em ciclos de escolaridade mais avançados”. Assim, ao
final do primeiro Ciclo, a criança deve ter aprendido: a classificação dos
sons distintivos, a identificação de ditongos, a distinção entre sílabas
tônicas e átonas, a classificação das palavras, quanto à posição da sílaba
tônica o alfabeto, os tipos de letra, a corresponncia entre som e letra,
acentos, sinais de pontuação, regras ortográficas e regras de acentuação
gráfica, para ter sucesso na leitura posteriormente.
Para o autor, a consciência morfológica é outro aspecto
determinante para o sucesso na leitura, pois os processos morfológicos
flexionais e de formação de palavras têm como efeito tornar mais
transparentes as palavras lidas.
Então, ao término do primeiro Ciclo, a criança deve ter
aprendido os seguintes conteúdos: a distinção entre palavras variáveis e
invariáveis, a flexão nominal, a flexão em pessoa dos pronomes pessoais, a
flexão verbal em número e pessoa, a distinção entre palavras simples e
complexas e a distinção entre radical e afixos, prefixos e sufixos.
A autora explica que há uma relação entre a consciência
fonológica e o desenvolvimento lexical. Sobre esse assunto há uma
63
brochura específica: O conhecimento da língua: desenvolver a
consciência linguística, no qual são propostos exercícios para o
desenvolvimento da consciência lexical.
Ao término do primeiro Ciclo, a criança deve, então, saber: o
conceito de família de palavras; a associação entre palavras a partir do
som, dos constituintes morfológicos e do significado, e a sensibilização
para o papel da extensão semântica e da relação semântica entre palavras.
Segundo Duarte (2008), vale o desenvolvimento do trabalho com
a consciência sintática, pois os aspectos estruturais de um texto
funcionam como pistas para a sua compreensão.
Ao final do primeiro Ciclo, as crianças devem ter aprendido os
seguintes conteúdos: as unidades estruturais da frase, funções sintáticas,
classes de palavras, processos de concordância, distinção entre frases
simples e complexas e a sensibilização à ordem de palavras (DUARTE,
2008).
O desenvolvimento da consciência textual também tem sua
relevância para a leitura, pois o paralelismo entre a estrutura superficial
do texto e a estrutura conceitual da informação facilita a compreensão, de
acordo com a autora.
Ao final do primeiro Ciclo, a criança deve saber os seguintes
conteúdos relativos a textos descritivo, narrativo e expositivo: formas de
coesão textual, os sinais de pontuação e o seu papel desempenhado no
texto.
O discurso se caracteriza por um conjunto de enunciados e na sua
relação com o contexto situacional em que é produzido. O
desenvolvimento da consciência discursiva pode levar a criança à
64
percepção da existência de enunciados adequados a certos objetivos ou
situações.
Ao final do primeiro Ciclo, a criança deve saber os seguintes
conteúdos: formas de tratamento, formas gráficas de representação do
discurso próprio e do outro, tipos ilocutórios e formas da sua realização
linguística.
A brochura em questão aponta os exercícios, que devem ser
realizados em sala de aula, referentes à gramática, consciência fonológica,
morfológica, lexical, sintática, textual e discursiva.
Os materiais analisados sobre a temática
o ensino da leitura”
seo: O ensino da leitura: a decifração; O ensino da leitura: a
compreensão de textos, e O ensino da leitura: a avaliação.
01 - O ensino da leitura: a decifração
A brochura O ensino da leitura: a decifração (SIM-SIM, 2009)
está dividida em três seções. A primeira é denominada O que os
professores precisam saber sobre o processo de decifração; a segunda, O
que é necessário a criança conhecer antes de aprender formalmente a
decifrar, e, a terceira, O ensino da decifração. A brochura tem o objetivo
de responder às seguintes questões:
A. O que faz algumas crianças aprenderem a decifrar mais
facilmente do que as outras?
B. Se que a aprendizagem da decifração exige pré-requisitos
especiais?
C. Existe um método ideal para o ensino da decifração?
65
Segundo Sim-Sim (2009), para a realização da leitura de maneira
autônoma, a aprendizagem da decifração é um pré-requisito
fundamental. O ensino da decifração tem como objetivo atingir a
capacidade para o reconhecimento automático das palavras escritas. Para
ela, decifrar significa identificar palavras e relacionar as sequências das
letras com as sequências dos sons correspondentes. Depois dessa
identificação, as palavras passam a ser conhecidas pelo leitor. Sim-Sim
explica:
Um leitor fluente identifica automática, rápida e eficientemente o
significado das palavras lidas.
No processo de identificação da palavra, o leitor parece utilizar
estratégias diferentes, consoante o respectivo conhecimento da
palavra. Assim, quando a palavra lhe é familiar, o leitor usa estratégias
de acesso directo e automático ao léxico (estratégias lexicais), sendo o
reconhecimento da palavra rápido e global. No caso de palavras
desconhecidas ou menos frequentes, o leitor serve-se de estratégias
sublexicais, que privilegiam uma via indirecta, perceptiva e
ortográfica, baseada na correspondência grafema/som (SIM-SIM,
2009, p. 12).
Portanto, para a aprendizagem da decifração é preciso percorrer
um caminho de apropriação de estratégias, por meio de um ensino
explícito, consistente e sistematizado.
De acordo com Sim-Sim (2009), para a efetivação desse ensino
explícito, é necessário superar o conceito que considera opostos os
métodos de ensino que se apoiam respectivamente: a) na estratégia de
correspondência som/grafema, metodologias fônicas, e b) em estratégias
de reconhecimento global da palavra.
66
Segundo Duarte (2008), as duas estratégias didáticas são
importantes e necessárias. A questão está na forma como elas o
apresentadas ao aprendiz, que passa por fases de leitura, a saber: fase de
leitura p-alfabética, fase de leitura parcialmente alfabética e, finalmente,
fase de leitura totalmente alfabética.
Para Sim-Sim (2009), durante essas fases, as crianças precisam
estar em contato com diversos escritos, porque, a partir desse contato,
descobrem precocemente algumas características da escrita. A leitura é
um processo contínuo, iniciado antes da decifração.
Quanto maior o conhecimento fornecido à criança, em relação à
consciência linguística e, principalmente, fonológica, melhor é a
decifração. Dessa forma, o ensino deve combinar as estratégias do
método fônico e do método global, sempre orientado pelas seguintes
características: o ensino da decifração deve ocorrer em contexto real,
como sustentação às experiências e aos conhecimentos da criança sobre a
linguagem escrita e com base na correspondência som/grafema de forma
clara, direta e transparente. E também deve visar e regular o
reconhecimento de padrões ortográficos frequentes, estimular a leitura de
palavras frequentes e estar intimamente ligado a práticas de expressão
escrita (SIM-SIM, 2009).
02 - O ensino da leitura: a compreensão de textos
A brochura O ensino da leitura: a compreensão de textos está
dividida em três partes. A primeira é intitulada O que os professores
precisam saber sobre o processo de compreensão da leitura. Na segunda,
O ensino da compreensão de textos, encontram-se subdivisões sobre
textos informativos, narrativos, de teatro, poesias e instrucionais. A
67
terceira parte é constituída pelos anexos, textos usados como exemplo
para a realização de algumas atividades.
O objetivo dessa brochura é responder a duas questões:
como levar os alunos da decifração de palavras à
compreensão do texto?
quais as estratégias a serem ensinadas, explicitamente,
para o desenvolvimento da fluência de leitura?
Na introdução, Sim-Sim (2007) afirma que o conhecimento da
leitura é condição indispensável para todas as pessoas e para o melhor
desempenho dos países. Por essas razões, nos países mais ricos, as pessoas
o mais letradas, conclui.
A linguagem escrita é indispensável para a vida cotidiana, pois a
utilizamos em vários contextos. Para conseguirmos a proficiência
necessária, a escola tem papel fundamental na sistematização e ensino da
leitura.
A decifração é o primeiro passo, mas a leitura é mais do que o
reconhecimento de uma sequência de palavras, "
ler é compreender, obter
informação, aceder ao significado do texto” (SIM-SIM, 2007, p. 7).
Segundo Sim-Sim (2007, p. 6), para termos eficácia na leitura,
alguns requisitos são necessários:
A investigação das últimas décadas mostrou-nos que a eficácia da
aprendizagem da leitura depende do ensino eficiente da decifração,
do ensino explícito de estratégias para a compreensão de textos e do
contato frequente com boa leitura. O ensino da decifração assenta no
treino da consciência fonológica e na aprendizagem da
correspondência som/grafema, que preside à escrita alfabética da
68
língua portuguesa. Por sua vez, o ensino da compreensão de textos
deve visar à apropriação pelas crianças, de estratégias de
monitorização da leitura tais como prever, sintetizar, clarificar e
questionar a informação obtida.
Essas ideias apresentadas por Sim-Sim são pautadas nos estudos
de José Morais. Segundo esse autor, [...] para aprender a ler uma escrita
alfabética, é necessário, em prinpio, construir representações
conscientes de fonemas. Entretanto, a atividade de leitura em si não
comporta análise fonêmica.
Comporta a ativação de representações de
fonemas pelos grafemas correspondentes e a sua fusão” (MORAIS, 1996,
p. 198).
De acordo com Sim-Sim (2007), a eficácia da leitura é afetada
pelo conhecimento linguístico, pela rapidez da pessoa na identificação da
palavra e sua capacidade para automonitorizar a compreensão, ou seja,
para relacionar seus conhecimentos sobre o mundo com outros textos
lidos.
Na primeira parte do texto, a autora define o ato de ler como
compreender e vai além. Para ela, o ato de compreender se caracteriza
pela atribuição de significado ao lido, porém, fatores como a falta de
conhecimento prévio sobre o assunto e o desconhecimento do campo
lexical, podem dificultar a compreensão de um texto.
Com a premissa da necessidade de conhecimento prévio sobre o
assunto, algumas regras no ensino precisam ser preservadas: conversa
antecipada, com a criança, sobre o tema e desenvolvimento do seu léxico
(SIM-SIM, 2007).
Para Sim-Sim (2007), o objetivo da compreensão da leitura é o
desenvolvimento da capacidade de ler um texto fluentemente. Para tanto,
69
quatro pilares são necessários. E as estratégias utilizadas pelo professor
deverão se basear neles. A saber: a) rapidez e precisão da identificação de
palavras; b) o conhecimento da língua de escolarização; c) a experiência
individual de leitura, e d) as experiências de mundo do leitor.
Segundo Sim-Sim (2007) apresenta na brochura, o primeiro pilar
é praticamente o alicerce da leitura. Esse reconhecimento se estende além
do conhecimento consciente dos sons da língua de escolarização e sua
relação com os grafemas correspondentes, pois depende, também, da
capacidade de identificação das palavras como unidades gráficas de
significado.
Para a autora, a consciência fonológica e o reconhecimento global
de palavras estão ligados ao conhecimento linguístico.
Existe uma
relação profunda entre o domínio da língua que usamos para comunicar
as experiências que vivenciamos e o conhecimento que temos sobre o
Mundo e sobre a vida” (SIM-SIM, 2007, p. 11).
A segunda parte da brochura sobre o ensino da leitura e a
compreensão de textos, possui uma conceitualização de estratégia e da
abordagem a ser usada por professores e alunos antes, durante e depois da
leitura. Em seguida, o texto se subdivide em cinco partes, sendo que cada
uma delas se detém sobre o ensino da compreensão de um tipo de texto,
na seguinte ordem: informativo, narrativo, teatral, poético e instrucional.
Cada um desses itens está organizado da seguinte forma: a)
explicação conceitual sobre o tipo de texto apresentado; b) sugestões de
estratégias específicas para esse tipo de texto; e c) exemplos de atividades
para o desenvolvimento de competências específicas para sua
compreensão (SIM-SIM, 2007).
Segundo Sim- Sim (2007, p. 15):
70
Ensinar a compreender é ensinar explicitamente estratégias para
abordar um texto. Estratégias de compreensão são ferramentas” de
que os alunos se servem deliberadamente para melhor compreender o
que leem, quer se trate de ficção ou de não ficção. Essas estratégias
ocorrem antes, da leitura de textos, durante a leitura de textos e após
a leitura de textos.
De acordo com Sim-Sim (2007), algumas estratégias apontadas
pelo professor, antes da leitura, são: explicitação do objetivo, ativação do
conhecimento prévio sobre o tema, antecipação de conteúdos com base
no título e imagens. Ela, também, afirma que as estratégias utilizadas pelo
professor durante a leitura devem ser: leitura seletiva, criação de um mapa
mental, sintetização das ideias apresentadas no texto, adivinhação de
palavras desconhecidas.
Depois da leitura, as estratégias são: formulação de questões,
confrontação sobre as previsões feitas, discussão, releitura.
Ao longo das estratégias propostas pelo professor, o aluno é
levado a fazer questões metacognitivas. Para tanto, o professor realiza
interferências orais e fornece fichas a serem respondidas pelos alunos.
Para cada tipo de texto, há a necessidade de escolha de estratégias
diferentes para a sua compreensão.
03 - O ensino da leitura: a avaliação
A brochura O ensino da leitura: a avaliação (VIANA, 2009) está
dividida em introdução e mais três partes. A primeira se chama O que os
professores precisam saber sobre a avaliação de leitura, e apresenta os
objetivos da leitura. A segunda parte, Dimensões da avaliação de leitura,
71
expõe os processos de decifração e compreensão e sua avaliação por
intermédio de algumas atividades propostas. Por último, a terceira parte é
dedicada às Técnicas de avaliação e apresenta alguns testes.
Segundo Viana (2009, p. 7), a avaliação é essencial ao processo de
ensino, pois ela norteia o trabalho docente. Como afirma a autora:
A avaliação é, por isso, uma componente essencial do processo de
ensino, e o seu objetivo primeiro é o de fornecer ao professor
informação que fundamenta decisões pedagógicas no sentido de
ajudar os alunos a progredir.
Os objetivos da brochura são: a) esclarecimento da avaliação da
leitura em torno dos instrumentos e processos de avaliação; b) análise das
potencialidades e limitações de diferentes modalidades, instrumentos e
estratégias de avaliação da leitura; c) promoção de reflexão sobre os textos
(VIANA, 2009).
Alguns princípios são orientadores dessa avaliação: a) seus
procedimentos devem ser adequados aos objetivos; b) seu caráter
formativo; c) a avaliação formativa deve ser complementada com a
avaliação cumulativa.
Para Viana (2009), a partir desses princípios, os professores
precisam:
a) conhecer as competências a serem desenvolvidas pelos
alunos até o final do 1º ciclo em termos de leitura;
b) saber os procedimentos para uma avaliação centrada em
cada aluno;
72
c) conhecer a posição dos alunos e da turma em relação ao
esperado para todos.
A brochura apresenta, como pressuposto para a realização da
avaliação, o conhecimento do professor sobre o processo de ensino e
aprendizagem da leitura, embasado na dimensão da decifração e
compreensão, assim como vários modos e processos de avaliação da
leitura (VIANA, 2009).
A autora ressalta que os objetivos devem estar pautados no
conteúdo e na razão da avaliação, que deve, por sua vez, ser sobre o
produto e o processo. Nessa brochura, a avaliação recai sobre o processo,
pelo fato de a avaliação, no primeiro Ciclo, ter um caráter formativo e
pouco utilizada no contexto escolar.
04 - O ensino da escrita: a dimensão textual
Para o desenvolvimento da temática do ensino da expressão
escrita será analisada a brochura O ensino da escrita: a dimensão textual
(BARBEIRO; PEREIRA, 2007), que está dividida em introdução e três
seções. A primeira seção é intitulada Modos de acção no ensino da
escrita; a segunda, Complexidade do processo de escrita, e a terceira,
Práticas integradoras. Na primeira e segunda são apresentados alguns
princípios e estratégias utilizados na produção textual. Na terceira, são
sugeridas atividades práticas.
De acordo com o texto analisado, na sociedade atual, cada vez
mais, é reforçada a necessidade de as pessoas demonstrarem a capacidade
de escrita de vários gêneros textuais. Para tanto, a escola deve preparar
para as crianças. Esse preparo incide em suas competências compositiva,
ortográfica e gráfica.
73
A competência compositiva consiste em formas de combinação
de expressões linguísticas para a formação de um texto; a competência
ortográfica, em normas estabelecedoras da representação escrita das
palavras da língua e competência gráfica, na capacidade de inscrição dos
sinais da representação gráfica em um suporte material.
Essa brochura está centrada na competência compositiva. Nela é
abordada a complexidade do processo para a produção textual, assim
como os diversos modos de ação que podem ser adotados pelo professor.
Para a efetivação do domínio da escrita, alguns princípios são
referências. A produção textual é um processo lento e longo. Ele deve ser
realizado, de maneira intensiva, desde a entrada da criança na escola, o
que implica um amplo conhecimento de planejamento, registro e revisão.
É necessário o ensino de gêneros diversificados, por meio de
sequência de atividades, para permitir a regulação externa e interna da
produção, em uma gradual complexificação.
Para a realização dos princípios básicos da produção textual,
algumas estratégias devem ser privilegiadas em relação à ação sobre o
processo e à ação sobre o contexto. No processo, as estratégias utilizadas
são a facilitação processual, a escrita colaborativa e a reflexão sobre a
escrita. No contexto, as estratégias privilegiadas são a integração de
saberes e a realização de funções (BARBEIRO; PEREIRA, 2007).
A escrita deve ser realizada mediante alguns elementos: seu autor,
seu público-alvo; seus objetivos e conteúdos; sua maneira de escrever,
seus suportes e respostas prováveis.
O ensino da escrita deve objetivar uma dimensão integradora
entre o processo de ação e de contexto. Para tanto, o ciclo de escrita e as
74
sequências didáticas sugeridos são passíveis de registro em um caderno de
escrita individual.
Neste item sobre o Programa Nacional de Ensino do Português,
apresentei a idealização, objetivos, destinatários, formadores, materiais e
concepções embasadores do Programa. No próximo capítulo, apresento
e analiso as narrativas dos cinco professores alfabetizadoras acerca das suas
trajetórias na educação escolar.
75
Capítulo II
Sobre cartilhas e a fortuna das palavras:
as narrativas de professores alfabetizadores portugueses
Aceitei ir à escola, porque aceitei ser torturado em
troca da ciência deslumbrante de aprender a guardar
a fortuna das palavras.
(Valter Hugo Mãe)
A história e as narrativas dos professores, muitas vezes, revelam a
rigidez do ensino sob a ótica daquelas crianças que um dia foram. Porém,
ao que parece, aprender a desvelar os enredos, "a fortuna das palavras”,
valia mais (MÃE, 2020). E valeu. À parte isso, romantizar uma educação
parcial nunca foi o ideal. É preciso vislumbrar uma educação que seja
integral para os indivíduos, pois os modos de alfabetizar podem
influenciar o modo de pensar e, consequentemente, de viver de gerações.
Os cinco professores entrevistados em Portugal narraram suas
histórias e suas atividades docentes em diferentes espaços geográficos do
país. No momento da pesquisa moravam em Lisboa ou Évora. Neste
livro, estão registrados alguns momentos que a memória de cada um
selecionou durante as entrevistas e que, de alguma forma exemplificam as
transformações e mudanças constantes no ensino do país. Ou, para além
disso, revelam os modos como os entrevistados parceiros vão se tornando
professores alfabetizadores, como a formação do Programa Nacional do
Ensino de Português (PNEP) influenciou a atuação de cada um deles
76
como alfabetizadores e como suas histórias são atravessadas pela história
da alfabetização em Portugal.
Alguns temas se destacam nas falas dos professores entrevistados:
o uso de manuais de alfabetização; a rigidez docente na alfabetização dos
entrevistados; os métodos de alfabetização; a influência positiva do
formador do PNEP na formação continuada; as mudanças em relação ao
ensino da leitura e da produção, e o trabalho com a consciência
fonológica.
Alfabetização dos professores portugueses
Os cinco professores portugueses entrevistados abordam algumas
questões relacionadas às experiências no primeiro ano de escolaridade.
Nenhum deles fez pré-escola. Naquele tempo, as crianças, normalmente,
ficavam com os avós e entravam na escola quando tivessem ou fossem
completar 7 anos. Esse período coincide com o peodo do governo de
Salazar, momento em que não havia escolas públicas para crianças
menores de 7 anos.
Segundo Nóvoa (2005), a preocupação com o Ensino Infantil
oficial deu-se com a República. Até por volta de 1930, houve legislações
para essa faixa etária; no entanto, em 1936, o ensino oficial infantil foi
extinto,
construindo uma ideologia maternalista que valorizava o papel
das mães e das famílias” (NÓVOA, 2005, p. 109). Paralelamente a isso,
aconteceu um reforço da persistência assistencial, por meio das amas e de
creches, que cuidavam das crianças, enquanto as mães trabalhavam. Na
década de 1960, começou-se a valorizar a lógica educativa e as iniciativas
privadas para esse nível do ensino. Somente com a Reforma outorgada
77
pelo ministro Veiga Simão, em 1973, legislou-se sobre a
institucionalização da educação pré-escolar facultativa, principalmente,
por causa da entrada da mulher no mercado de trabalho (NÓVOA,
2005).
As entrevistas demonstram que alguns professores foram
educados na escola em turmas separadas por sexo as meninas, dos
meninos. Informaram também sobre o manual único utilizado, sobre a
rigidez de algumas professoras em sala de aula, e sobre como foram
alfabetizados.
Especificamente sobre o manual, segundo Santo (2006), os
manuais de caráter escolar possuem uma intenção explícita concretizada
por intermédio de um título, da indicação de nível e do público, da
apresentação de uma organização sequencial de conteúdos e de
progressão relativa ao processo de ensino e de aprendizagem do aluno.
Além dos manuais para os alunos, existem manuais para os professores,
denominados Guia Pedagógico ou Livro do Professor, que estão a serviço
do manual do aluno.
Segundo Loureiro (2006), a educação escolar para o ensino das
primeiras letras, no período de Salazar o Estado Novo, de 1933 a 1974
foi marcada pelo autoritarismo, baseado na trilogia: Deus, Pátria e
Família. A professora era a responsável por inculcar nos alunos a ordem
proposta pelo Estado. Algumas características desse período foram
determinadas um pouco antes na ditadura militar, como é o caso da
divisão espacial estipulada pelo sexo dos estudantes: meninas e meninos
aprendendo em ambientes distintos (LOUREIRO, 2006). Alguns
professores entrevistados, ainda que essa prática já estivesse quase no
final, estudaram em turmas separadas.
78
A educação separada existiu desde 1926 e se estendeu quase até o
final do período salazarista (LOUREIRO, 2006). Como narram algumas
professoras:
Eram turmas de meninos e meninas. Essa escola, era do lado direito
feminino e do lado esquerdo masculino. O pátio de cima das meninas e o
de baixo dos rapazes. Portanto, nunca nos juntávamos, as meninas
entravam numa porta, os rapazes entravam por outra (Professora
Amália).
Eu sou duma aldeia, e naquela época, as escolas eram separadas, os
meninos e as meninas. Tinha uma escola masculina e uma escola
feminina. Só na terceira classe, chamava-se classe, é que passávamos a
conviver todos dentro de um mesmo espaço e da mesma sala. Eram
turmas muito grandes, e a maior parte das vezes, estavam misturadas as
várias classes, tendo em conta que havia dois professores ou duas
professoras, uma para rapazes e uma para raparigas. Portanto, na
maioria das aldeias, aqui em Portugal, era assim que se fazia há 50 anos!
Só posteriormente, já muito próximo de 25 de abril é que as turmas
começaram a ser mistas (Professora Joana).
A narrativa dessas duas professoras explicita a divisão de turmas e
de professores; as meninas deveriam ter aulas com uma professora e os
meninos com um professor. No início do regime (nos anos de 1930), não
somente os homens ainda eram a maioria como professores, mas os
meninos, também, constituíam a maior fatia no número total de
estudantes nas escolas. Com o passar do tempo, e já na década de 1960
(década em que os entrevistados foram para a escola), o número de
mulheres na profissão já tinha passado o total de homens, sendo
necessário, não raro, que elas assumissem o ensino dos garotos. Fica aqui
79
evidente a inversão na carreira docente, que passou da grande maioria de
homens para o domínio das mulheres (RAMOS, 1988).
Outro ponto destacado pelos professores é em relação ao manual,
que era o livro usado. Além de ser o único para todo o país, era também
o único livro a que tinham acesso na escola:
Eu fui para a escola em 68 e havia o mesmo manual para o país inteiro.
O país todo tinha o manual do primeiro, segundo, terceiro e quarto. E
aprendíamos todos pelo mesmo manual. Não me lembro qual era, mas
ainda há à venda, são muito giros [legais]. Era um texto tipo João de
Deus, eram longos textos, muito grandes. Havia textos longos, não era
como os manuais de agora que são muito infantis, não, era tudo mais
crescido. Aprendíamos, toda a gente sabia ler! (Professora Maria João).
A professora afirma que o manual tinha textos parecidos aos
propostos por João de Deus. Segundo Mortatti (2006), João de Deus foi
um poeta que escreveu uma cartilha intitulada Cartilha Maternal ou Arte
da Leitura, em 1876. Nas palavras de Mortatti (2006, p. 6):
Diferentemente dos métodos até então habituais, o método João de
Deus ou método da palavração
baseava-se nos princípios da moderna
linguística da época e consistia em iniciar o ensino da leitura pela palavra,
para depois analisá-la a partir dos valores foticos das letras”.
Outros professores contam sobre o manual utilizado:
Usávamos só os manuais. Era mesmo, não me lembro doutro tipo de
livro, geralmente, só aqueles, e ela não nos contava histórias.... Não! Não
tinha necessidade, com certeza, nenhuma de nos contar. Parte de nós
motivávamo-nos só pelo fato de termos um livro. Era o primeiro livro que
80
tinha. Não tinha tido acesso a outro tipo de livro. Era aquele livro, o
meu livro. E aquele meu livro era extraordinário! Chamava O Meu
Primeiro Livro”, não, não! O Livro da Primeira Classe”. Eram
manuais oficiais. Eram todos iguais, norte a sul do país. Tenho-os cá,
guardo carinhosamente, pois eram livros extraordinários! (Professor João).
Tínhamos um manual. Não lembro qual era, mas tinha umas crianças
vestidas da mocidade portuguesa na capa. Sei que a capa era rígida, de
papel grosso e tinha muitos textos lá dentro... Tinham coisas do regime
Salazar, era uma sociedade muito fechada, tudo de acordo com isso.
(Professora Amália).
A professora Amália destaca as características presentes nas
cartilhas sobre o regime salazarista. Segundo Loureiro (2006, p. 70):
Ao abrirmos um livro escolar do período em questão, estamos
simultaneamente a consultar um manual de como ser socialmente
correcto” durante o Estado Novo. Através deles, não só instruíam as
crianças, como informavam de forma perspicaz os seus pais, das leis
que comandavam o país e o modo como tinham que ser obedecidas
sem contrariedades.
Loureiro (2006) ressalta que, além de as crianças serem educadas
nos moldes esperados pelo Governo, os pais indiretamente também
aprendiam como ser obedientes. Nóvoa (2005, p. 115) afirma que, desde
o início do Estado Novo, as práticas de doutrinação se manifestam, sendo
uma delas a imposição de um livro único. Outra narrativa que trata dos
manuais é a da professora Rita:
81
Tinha manual, aliás, era o manual, o manual e o manual. E só se
víamos o manual, não havia mais nada a não ser o manual. O manual,
caderno, quadro e uma régua ao lado. (Professora Rita).
Nesse trecho, a professora Rita ratifica a ideia de que o único
livro utilizado para aprender a ler e a escrever foi o manual. E, no ensino,
a prática era sempre a mesma: uso do caderno, quadro negro e uma
régua. A régua servia também para castigar os alunos. Aliás, a rigidez no
ensino é também um ponto ressaltado pelas entrevistadas:
Ainda há pouco estava a falar com os meus alunos, a escola naquela
altura era muito diferente, os professores eram muito exigentes, usavam
alguma palmada, quando não nos portávamos bem. Eu não me portava
mal, mas era cheia de vida, então ficar parada para mim era muito mal,
então, eu levava umas pauladas, mas não foi nada de traumático.
(Professora Amália).
Era mais rígido. O professor era visto com outros olhos, era o professor,
hoje o professor é um colega, um amigo, não há aquela distância entre
professor e aluno. A gente estava na escola, tudo sentadinho, caladinho a
espera que o professor abrisse a boca. (Professora Rita).
Tenho muitas memórias de a professora bater nos alunos e, portanto,
muitas das situações de aula eram resolvidas com reguadas. Nunca
apanhei nenhuma! Tenho esta memória também! E isto, quando eu me
refiro a situações, tem muito mais a ver com dificuldade de aprendizagem
do que propriamente com problemas de comportamento. (Professora
Joana).
82
A rigidez explicitada pelos professores também representa o
contexto histórico e social vivido. O professor era controlado pelo Estado
e, ao ingressar na carreira docente, escrevia de próprio punho que estava
integrado na ordem social estabelecida, com repúdio ao comunismo e às
ideias subversivas (LOUREIRO, 2006, p. 70).
Segundo Fernandes (2006, p. 20),
em 1955 era posição oficial
considerar que o recurso à palmatória fazia parte de um processo
pedagógico que a escola transpunha do meio social envolvente”. Nessa
época, começou-se a questionar a validade ou não dos castigos físicos,
mas eles ainda eram aceitos oficialmente. Como os professores
entrevistados foram alfabetizados na década de 1960, eles ainda
vivenciaram essa rigidez dos professores, proposta em nível oficial.
Vale retomar aqui a questão dos métodos, já que os professores
vão se referir a eles. Segundo Mortatti (2008, p. 94):
Os métodos de alfabetização, como se sabe, podem ser
classificados em dois tipos básicos: sintético (da parte” para o
todo”) e analítico (do todo” para a parte”). Dependendo do
que foi considerada a unidade linguística a partir da qual se
devia iniciar o ensino da leitura e escrita e do que se considerou
todo” ou
parte" [...].
Quando os entrevistados foram questionados sobre como a
professora que os ensinou a ler e a escrever na escola, relatam aspectos
similares. Vejamos:
83
A professora ensinava, tínhamos um livro e ela no primeiro dia de aula,
eu acho, colocava todas as letras no quadro a b, c, d.... pronto, e depois
era ir juntando letras, pronto era assim. Ela usava o método analítico.
Aprendiam os que tinham que aprender e os outros iam ficando para
trás. (Professora Amália).
Amália denomina o método utilizado por sua professora como
analítico. Porém, Mortatti (2000), situa a técnica no campo oposto, o do
método sintético. Isso, porque se inicia o ensino da leitura e escrita a
partir das letras. A professora parece dizer que o ensino ocorria somente
dessa forma; assim, quem não aprendia
ficava para trás”.
A professora Rita também narra sobre o ensino recebido. Em
relação à Alfabetização, ela diz:
Aprendi a ler e a escrever com o alfabeto, a professora chegava e dizia:
isso é o "a", vamos escrever o a"”. Antigamente com o método analítico-
sintético. Tinham grandes manuais, logo com grandes textos, com muitas
perguntas de interpretação. Naquela época. Hoje já não é mais assim,
nem eu trabalho assim, eu acho que aquilo já era um exagero. Nós
aprendíamos porque havia mais respeito, havia mais, como eu hei de
dizer... não era medo, mas nós sabíamos que estávamos ali e tínhamos
que ficar caladinhos para aprender. (Professora Rita).
Ao mesmo tempo em que indica que a professora dela começava
a ensinar com o alfabeto, Rita diz também que os manuais tinham
grandes textos, caracterizando o método como analítico-sintético.
Segundo Barbosa (1992), o método analítico-sintético é
caracterizado pela mistura dos métodos analítico e sintético. Parte-se das
palavras-chave destacadas de uma frase ou texto, para, logo, realizar-se a
84
decomposição em sílabas e, com as sílabas, a composição de novas
palavras.
Outro aspecto apresentado era relacionado ao respeito que os
alunos tinham pela professora. Para ela, esse respeito possibilitava uma
aprendizagem, provavelmente, porque deveriam ficar em silêncio, e isto
pode parecer condição fundamental para aprender.
É.… como muita gente se calhar fazia, mas era assim: logo nos primeiros
dias, deu-nos o alfabeto completo. E a partir daí nós líamos um livro
único que era um livro de leitura, na altura, um livro único e
começávamos a fazer leitura a partir dali. Ela não fazia como eu faço
agora, naturalmente, tentando motivar, olhar, fazer... não! Ela abria o
livro, dizia que aquilo era o a”, aquilo era o e”, aquilo era o i” e nós
sabíamos que aquilo era o "a", "e", i", na realidade. E era a partir daí
que líamos, e praticamente, que eu me lembro... eu suponho que só três
ou quatro é que não passaram de classe. E naquela altura, tinha-se que
passar, tinha-se que fazer as provas de passagem de classe. E todos fomos
bem-sucedidos, penso eu, no primeiro ano. Mas o método dela, se é que eu
posso chamar de método, era exatamente isso: através do alfabeto e
através do manual, na altura, nós tínhamos lição a lição. E quem ia
mais adiantado, com certeza, ela adiantava. Ela ia com aqueles naquela
altura, ia com outros mais atrás, com outros mais atrás, mas nós íamos
seguindo cada um o seu percurso. (Professor João).
A narrativa do professor revela novamente o ensino da leitura e da
escrita começando pelas letras do Alfabeto, fato normal de ser repetido,
que, na época (anos de 1960), o manual era único. Provavelmente, a
professora ensinava lição por lição. Assim, <