Ana Paula Talin Bissoli
Mariana Claudia Broens
Aprovado pelo EDITAL No. 01/2020 –
PPGFIL/UNESP - Publicações de livros
autorais e tradução de artigos científicos
aceitos para publicação
Hábitos motores e identidade pessoal
Ana Paula Talin Bissoli e Mariana Claudia Broens
Hábitos motores e
identidade pessoal
Esta obra foi publicada a partir de
edital interno de publicação de
trabalhos de docentes e egressos do
Programa de Pós-Graduação em
Filosofia (PPGFIL) da Unesp, como
parte das comemorações de seus 25
anos. Este e os demais livros
publicados por este edital podem ser
baixados gratuitamente no catálogo
da editora Oficina Universitária:
https://ebooks.marilia.unesp.br/index
.php/lab_editorial. São eles:
- Eichmann e a incapacidade de
pensar: alienação do mundo e do
pensamento em Hannah Arendt.
Renato de Oliveira Pereira
- Hábitos motores e identidade
pessoal. Ana Paula Talin Bissoli &
Mariana Claudia Broens
- O estatuto científico da ciência
cognitiva em sua fase inicial: uma
análise a partir da estrutura das
revoluções científicas de Thomas
Kuhn. Marcos Antonio Alves e
Alan Rafael Valente
- Semiótica e Pragmatismo. Inter-
faces teóricas. Vol. I. Ivo Assad Ibri
- Semiótica e Pragmatismo. Inter-
faces teóricas. Vol. II. Ivo Assad
Ibri
- Verdade e arte: a concepção
ontológica da obra de arte no
pensamento de Martin Heidegger.
Juliano Rabello.
Este livro foi publicado a partir de edital interno de publicação de trabalhos
de docentes e egressos do Programa de Pós-Graduação em Filosofia
(PPGFIL) da Unesp. Como parte das comemorações de seu jubileu de prata,
o PPGFIL vem realizando e promovendo uma série de atividades em diversos
segmentos. As obras aprovadas no edital foram publicadas em conjunto
pelas editoras Oficina Universitária e Cultura Acadêmica.
A Oficina Universitária é um selo editorial da Faculdade de Filosofia e
Ciências da Unesp, campus de Marília, apoiada pelo Laboratório Editorial da
FFC. Foi instituída com o objetivo de criar condições e oportunidades para a
difusão de pesquisas e tornar públicos os resultados dos trabalhos do corpo
docente da FFC. Já a Cultura Acadêmica, selo da Fundação Editora da
Unesp, visa auxiliar principalmente o atendimento às múltiplas demandas
editoriais da Unesp. Com a ampliação do número de títulos editados pelo
selo, são abertas novas oportunidades de publicação num momento em que
a pesquisa acadêmica e sua divulgação são cada vez mais necessárias.
O objetivo central desta obra
consiste em analisar, do ponto de
vista filosófico-interdisciplinar,
possíveis contribuições dos hábi-
tos motores na constituição da
identidade pessoal. Inicialmente,
as autoras problematizam a abor-
dagem das teorias mecanicistas
que consideram o corpo como
totalidade decomponível em suas
partes. Nessa abordagem, o
processo de habituação motora
seria apenas resultante de proces-
sos direcionados pela maturação
neuronal. Em contraste, a partir de
uma concepção de identidade
sistêmica da pessoa, baseada na
perspectiva dos sistemas dinâmi-
cos e da cognição incorporada e
situada, buscam mostrar que o
corpo da pessoa, enquanto uma
organização dinâmica complexa, e
as atividades motoras em geral,
são fundamentais para a instancia-
ção e desenvolvimento de hábitos
motores constituintes da sua iden-
tidade. O livro focaliza especial-
mente, a partir da concepção de
raciocínio abdutivo proposta por
Charles Sanders Peirce, o possível
papel de processos abdutivos
motores na constituição da identi-
dade motora da pessoa.
C
M
Y
CM
MY
CY
CMY
K
Hábitos motores e
identidade pessoal
H  
 
Marília/Ocina Universitária
São Paulo/Cultura Acadêmica
2021
A P T B
M C B
UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS - FFC
UNESP - campus de Marília
Diretora
Prof.ª Dr.ª Claudia Regina Mosca Giroto
Vice-Diretora
Prof.ª Dr.ª Ana Claudia Vieira Cardoso
Ficha catalográca
Serviço de Biblioteca e Documentação - FFC
Editora aliada:
Cultura Acadêmica é selo editorial da Editora UNESP
Ocina Universitária é selo editorial da UNESP - campus de Marília
Copyright © 2021, Faculdade de Filosoa e Ciências
Bissoli, Ana Paula Talin.
B623h Hábitos motores e identidade pessoal / Ana Paula Talin Bissoli, Mariana
Claudia Broens. – Marília : Ocina Universitária ; São Paulo : Cultura
Acadêmica, 2021
94 p. : il.
Inclui bibliograa
ISBN 978-65-5954-081-5 (Impresso)
ISBN 978-65-5954-082-2 (Digital)
DOI https://doi.org/10.36311/2021.978-65-5954-082-2
1. Atividade motora. 2. Hábito. 3. Comportamento humano. 4. Identidade
(Psicologia). 5. Sistemas auto-organizáveis. 6. Cognição. 7. Filosoa. I. Broens,
Mariana Claudia. II. Título.
CDD 128.2
Conselho Editorial
Mariângela Spotti Lopes Fujita (Presidente)
Adrián Oscar Dongo Montoya
Célia Maria Giacheti
Cláudia Regina Mosca Giroto
Marcelo Fernandes de Oliveira
Marcos Antonio Alves
Neusa Maria Dal Ri
Renato Geraldi (Assessor Técnico)
Rosane Michelli de Castro
Conselho do Programa de Pós-Graduação em
Filosoa da UNESP:
Marcos Antonio Alves (Coordenador); Ana
Maria Portich (Vice-Coordenadora); Hércules
de Araújo Feitosa; Reinaldo Sampaio Pereira
Aprovado pelo EDITAL No. 01/2020 –
PPGFIL/UNESP - Publicações de livros
autorais e tradução de artigos cientícos aceitos
para publicação
Pareceristas
Cassiano Terra Rodrigues e Willem Ferdinand Gerardus Haselager
S
Apresentação
Marcos Antonio Alves -------------------------------------------------------------- 7
Préfacio
Willem Ferdinand Gerardus Haselager ------------------------------------------ 11
Introdução ------------------------------------------------------------------------- 15
1. IdentIdade motora: novos horIzontes para o estudo da IdentIdade
pessoal --------------------------------------------------------------------------- 19
1. A concepção dualista de pessoa: breve retomada do problema da
identidade pessoal ---------------------------------------------------------- 19
1.2 Hábitos motores e identidade pessoal: investigação a partir da
perspectiva sistêmica ------------------------------------------------------ 26
1.3 Hábitos motores e identidade pessoal: investigação a partir da
perspectiva da auto-organização ----------------------------------------- 32
6 |
2. teorIas do desenvolvImento motor humano e IdentIdade motora
humana -------------------------------------------------------------------------- 41
2.1 A identidade motora: a habituação motora concebida na
perspectiva da cognição incorporada e situada (CIS) ---------------- 41
2.2 A constituição da identidade motora: a habituação motora
concebida a partir da perspectiva dos sistemas dinâmicos ----------- 47
3. hábItos motores e processos abdutIvos Incorporados -------------- 57
3.1 Processos abdutivos incorporados e hábitos motores ------------ 57
3.2 Impactos das tecnologias informacionais na identidade da pessoa:
exemplos de habituação e reabituação ---------------------------------- 66
consIderações FInaIs --------------------------------------------------------- 73
reFerêncIas --------------------------------------------------------------------- 79
anexos --------------------------------------------------------------------------- 83
sobre os autores --------------------------------------------------------------- 93
| 7
A
Esta obra foi publicada a partir de edital interno de publicação
de trabalhos de docentes e egressos do Programa de Pós-Graduação em
Filosoa (PPGFIL) da Unesp. Situado no campus de Marília, o PPGFIL
iniciou suas atividades em 1996. Trata-se de um programa consolidado
que apresenta bons resultados em diferentes âmbitos. São dignas de nota
a quantidade e a qualidade das publicações de seus docentes, discentes
e egressos. Atividades de ensino, pesquisa e extensão, inserção social,
internacionalização, bem como a formação de novos quadros para a
losoa também são marcantes. Já são tradicionais e de grande visibilidade,
por exemplo, alguns eventos promovidos e realizados pelo programa. Já
são mais de 250 egressos, muitos deles concursados nas redes estaduais de
ensino básico ou em instituições de ensino superior em todo o país. Boa
parte deles cursou doutorado, realizou estágio ou pesquisa em instituições
nacionais e estrangeiras de renome.
Como parte das comemorações de seu jubileu de prata, o
PPGFIL vem realizando e promovendo uma série de atividades em diversos
segmentos. Em uma frente, vem reestruturando suas linhas de pesquisa, seu
corpo docente, bem como seus projetos e grupos de pesquisa. Em relação
às linhas, em 2020 elas passaram a ser apenas duas, intituladas “Filosoa
da Informação, da Cognição e da Consciência” e “Conhecimento, Ética
e Política”. Tais modicações buscam manter e respeitar a liberdade, a
autonomia e a visão losóca dos grupos ou dos integrantes do programa.
https://doi.org/10.36311/2021.978-65-5954-082-2.p7-10
Ana Paula Talin Bissoli
&
Mariana Claudia Broens (Org.)
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Com as mudanças, resultado de seu processo de autoavaliação,
o programa reuniu docentes em torno de temas e pesquisas convergentes.
Com isso, visa a favorecer o desenvolvimento ainda mais substancial
e aprofundado de pesquisas, produzindo conhecimento qualicado,
ampliando a internacionalização, melhorando a formação de seus discentes,
a inserção social através da socialização do conhecimento, realização de
eventos, desenvolvimento de projetos de ensino, pesquisa e extensão.
O programa está solicitando, depois de um longo trabalho
coletivo, a abertura do seu doutorado. O curso pretende atender à demanda
de discentes formados na graduação e mestrado em losoa e em outros
cursos da própria Unesp, além de estudantes oriundos de diversas regiões
do país interessados em aprofundar suas pesquisas nos temas e problemas
abordados no PPGFIL. Com isso, favorecerá a formação continuada
de discentes na Unesp, da graduação ao doutorado, acolhendo também
candidatos de outras instituições interessados em desenvolver pesquisas
nas áreas de especialidade de seus docentes.
Em outra frente, o programa reformulou e intensicou sua
interação com a comunidade por meio das redes sociais. Por meio das
publicações em sua página no Facebook, no endereço https://www.
facebook.com/poslmarilia, deixa os seguidores informados das suas
atividades. Já a sua página ocial está hospedada no site da FFC/Unesp/
Campus de Marília, que pode ser acessada no endereço http://www.marilia.
unesp.br/posl. Além de publicações sobre sua atividade cotidiana, oferece
variadas informações referentes a seu histórico, missão, objetivos, processo
seletivo, bem como possui seções especicamente direcionadas a discentes,
docentes e egressos. Buscando melhor comunicação, acessibilidade e
transparência, a página, depois de reformulada, está mais leve, informativa
e acessível.
A socialização do conhecimento e contato com a comunidade
também é efetivada através das revistas cientícas vinculadas ao programa.
Dentre elas, estão a Kínesis: Revista dos Estudos dos Pós-Graduandos em
Filosoa, e a Trans/Form/Ação: revista de losoa da Unesp, já considerada
patrimônio do curso de losoa da Unesp e um dos mais conceituados
periódicos na área tanto no Brasil quanto no exterior. A Kínesis, como
diz o próprio sobrenome, é voltada principalmente, mas não somente, à
publicação de trabalhos de pós-graduandos. Já a Trans/Form/Ação publica
Hábitos motores e identidade pessoal
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textos de prossionais em losoa e áreas ans. Ambas são voltadas à
publicação de trabalhos de losoa ou de interesse losóco, difundindo o
conhecimento produzido na área tanto no Brasil quanto no exterior.
Ainda como parte da comemoração dos seus 25 anos, o PPGFIL
lançou o edital para publicação de livros de docentes e egressos, ao qual este
livro foi submetido e aprovado para publicação. As propostas submetidas
foram avaliadas na plataforma da revista Trans/Form/Ação, no caráter de
parecer duplo-cego. Tal acordo de cooperação foi pensado para garantir
transparência e conabilidade no processo seletivo das submissões. Ao
receber a solicitação de avaliação, os pareceristas também foram convidados
a produzir o prefácio do livro, caso deliberassem pela aprovação da obra.
Além de favorecer ainda mais o cuidado no trabalho avaliativo, com essa
atitude buscamos valorizar ainda mais a contribuição dos avaliadores.
As obras aprovadas no edital foram publicadas em conjunto
pelas editoras Ocina Universitária e Cultura Acadêmica. A Ocina
Universitária é um selo editorial da Faculdade de Filosoa e Ciências da
Unesp, campus de Marília, apoiada pelo Laboratório Editorial da FFC.
Foi instituída com o objetivo de criar condições e oportunidades para a
difusão de pesquisas e tornar públicos os resultados dos trabalhos do corpo
docente da FFC. Já a Cultura Acadêmica, selo da Fundação Editora da
Unesp, visa auxiliar principalmente o atendimento às múltiplas demandas
editoriais da Unesp. Com a ampliação do número de títulos editados pelo
selo, são abertas novas oportunidades de publicação num momento em
que a pesquisa acadêmica e sua divulgação são cada vez mais necessárias.
É com grande prazer e satisfação que publicamos este livro,
intitulado Eichmann e a incapacidade de pensar: alienação do mundo e do
pensamento em Hannah Arendt, de autoria de Renato de Oliveira Pereira e
prefaciado por Adriano Correa.
Conforme o próprio autor, o ponto de partida deste livro é o
caso Eichmann, tal como analisado por Hannah Arendt em Eichmann em
Jerusalém (1963), obra que resulta de sua participação no julgamento do
ex-tenente-coronel da SS responsável pela logística de transporte dos judeus
para os campos de concentração e extermínio durante o regime nazista na
Alemanha. Renato lembra que o descompasso entre a monstruosidade dos
crimes que Eichmann ajudou a perpetrar e a sua gura perante o tribunal
– que não pareceu monstruosa ou maléca a Arendt, mas completamente
Ana Paula Talin Bissoli
&
Mariana Claudia Broens (Org.)
10 |
normal e até medíocre –, levou-a a cunhar a expressão banalidade do
mal. Com tal noção, Arendt designa um novo tipo de mal, o qual não é
causado por motivos torpes, instintos corrompidos ou por uma vontade
maligna, e sim pela obediência ao dever de ofício ligada a uma recusa do
agente em pensar naquilo que faz. Com o objetivo de compreender quais
são as condições que propiciam essa incapacidade ou ausência de pensar
(thoughtlessness), o autor examina, dentro do arcabouço teórico da lósofa,
como não só os regimes totalitários, mas também a própria Era Moderna,
produzem a experiência da solidão (loneliness) no interior da sociedade de
massa. Tal experiência prejudica a instauração de um mundo comum no
qual possa se armar a pluralidade humana, condição para o exercício da
capacidade de agir, sentir e também de pensar.
Este e os demais livros publicados por este edital podem ser
baixados gratuitamente no catálogo da editora Ocina Universitária:
https://ebooks.marilia.unesp.br/index.php/lab_editorial. São eles:
Eichmann e a incapacidade de pensar: alienação do mundo e
do pensamento em Hannah Arendt. Renato de Oliveira Pereira
Hábitos motores e identidade pessoal. Ana Paula Talin Bissoli e
Mariana Claudia Broens
O estatuto cientíco da ciência cognitiva em sua fase inicial:
uma análise a partir da estrutura das revoluções cientícas de
omas Kuhn. Marcos Antonio Alves e Alan Rafael Valente
Semiótica e Pragmatismo. Interfaces teóricas. Vol. I. Ivo Assad Ibri
Semiótica e Pragmatismo. Interfaces teóricas. Vol. II. Ivo Assad Ibri
Verdade e arte: a concepção ontológica da obra de arte no
pensamento de Martin Heidegger. Juliano Rabello
Esperamos, com esta atividade, fazer cumprir um dos objetivos de
um programa de pós-graduação, o de produzir e socializar o conhecimento.
Desejamos aos leitores desta e das demais obras uma reexão profícua
oriunda de sua leitura.
Marcos Antonio Alves
Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Filosoa da Unesp
| 11
P
In philosophy and science,
the standard approach to
cognition can be characterized as
a combination of neurocentrism,
reductionism and mechanism.
It is in dire need of correction,
if not complete overhaul. e
attempt to understand cognition
and behavior on the basis of brain
processes alone does not do justice
to the myriad of interactions that
make up our lives.
Emotions, feelings,
thoughts, ideas, behaviors,
relations, and habits constitute
our identity, and they involve,
continuously and crucially, our
embodied interactions with the
world around us. Instead of
being reducible to our brains, we
express who we are in an enduring
embodied dance with our
A abordagem padrão para
a cognição pode ser caracterizada
como uma combinação de
neurocentrismo, reducionismo e
mecanicismo, tanto na losoa
quanto na ciência. Tal abordagem
precisa, urgentemente, ser corrigida,
senão completamente revisada,
pois a tentativa de compreender a
cognição e o comportamento apenas
com base nos processos cerebrais
não faz justiça à multiplicidade de
interações que constituem nossa
vida.
Emoções, sentimentos, pen-
samentos, ideias, comportamen-
tos, relações e hábitos constituem
nossa identidade e envolvem, de
modo contínuo e crucial, nossas
interações corporais com o mundo
ao nosso redor. Em vez de sermos
redutíveis aos nossos cérebros, ex-
https://doi.org/10.36311/2021.978-65-5954-082-2.p11-14
Ana Paula Talin Bissoli
&
Mariana Claudia Broens (Org.)
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environment. Sometimes we may
swirl in complete synchrony with
the complex rhythms surrounding
us, sometimes we may nd
ourselves out of step. But as long as
we are alive, this dance continues
and displays who we truly are.
e traditional approach to
cognition, behavior and personal
identity is missing so much of this
complexity and the importance
of bodily synchrony for being
ourselves, that it is high time that
its frame of reference gets replaced
by a more inclusive and diverse
conceptual framework.
It is for this reason that I
welcome this book so happily. It
provides a clear, systematic and
at times beautiful introduction
to the dynamic complexities that
each of us brings into this world. It
identies the centrality of habits to
who we are. It explains how motor
habits, our routine behavioral
patterns, help to identify us.
It demonstrates the incredible
intricacy of the way we self-
organize while engaging with the
world around us. It claries how
we can improve, expand or at the
very least change in creative ways
via the process of abduction. is
process, also known as inference
to the best explanation, is a source
pressamos quem somos em uma
duradoura dança incorporada com
o ambiente em que vivemos. Às
vezes, podemos girar em completa
sincronia com os ritmos complexos
que nos rodeiam. Outras vezes, po-
demos nos descobrir fora do ritmo.
Mas, enquanto estivermos vivos,
essa dança continua e revela quem
realmente somos.
A abordagem tradicional da
cognição, do comportamento e da
identidade pessoal desconsidera
a tal ponto essa complexidade e
a efetiva relevância da sincronia
de nosso corpo para sermos
nós mesmos que é hora de seu
referencial teórico ser substituído
por um quadro conceitual mais
abrangente e diverso.
É por essa razão que acolho
este livro com tanta alegria. Ele
apresenta uma introdução clara,
sistemática e, por vezes, bela, às
complexidades dinâmicas que cada
um de nós traz a este mundo. A
obra identica a centralidade dos
hábitos na explicação de quem
somos. Explica como hábitos
motores, nossos padrões de
comportamento rotineiros, ajudam
a construir nossa identidade.
O livro apresenta a incrível
complexidade da maneira como
nos auto-organizamos enquanto
interagimos com o mundo ao nosso
Hábitos motores e identidade pessoal
| 13
of continuous creativity and lies at
the basis of self-renewal.
e book is very clearly
written. Even with my rusty
Portuguese I had no problems
understanding it. It is serious in
its treatment of complex topics,
but manages to introduce the
important concepts in lucid
and well-illustrated ways. It
summarizes a wide range of
relevant literature in a light and
entertaining manner. It becomes
practical when it is discussing
the role of physiotherapy in
helping people to deal with motor
traumas to reestablish or renew
their personal habits. Finally,
by its consideration of the role
of technology in impoverishing
but also potentially extending
behavioral habits, it provides the
foundation for a connection with
the currently crucial debates about
eects of information technology
and articial intelligence on
ourselves and the ways we interact
with the world.
For several years, quite
some time ago, I have had the
opportunity to experience the
many contributions of Brazilian
philosophers and cognitive
scientists to the development of
the embodied embedded approach
to cognition and behavior. I
redor. Ele esclarece como podemos
melhorar, desenvolver-nos ou
mesmo mudar de modo criativo por
meio de processos de abdução. Esse
processo, também conhecido como
inferência da melhor explicação, é
uma fonte contínua de criatividade
e está na base da autorrenovação.
O livro foi escrito de forma
muito clara. Mesmo com o meu
português enferrujado, não tive
problemas para entendê-lo. É sério
no tratamento de tópicos complexos,
mas consegue introduzir conceitos
importantes de maneira lúcida e
bem ilustrada. Resume uma ampla
gama de literatura relevante de
forma leve e envolvente. Torna-se
prático quando discute o papel da
sioterapia para auxiliar as pessoas
a lidar com traumas motores
para restabelecer ou renovar seus
hábitos pessoais. Finalmente, ao
considerar o papel da tecnologia
no empobrecimento, mas também
na possível extensão dos hábitos
comportamentais, a obra fornece
a base para uma conexão com os
debates atualmente cruciais sobre os
efeitos da tecnologia da informação
e da inteligência articial sobre nós
mesmos e as diferentes maneiras de
interagirmos com o mundo.
Por vários anos, há algum
tempo, tive a oportunidade de
vivenciar as muitas contribuições
Ana Paula Talin Bissoli
&
Mariana Claudia Broens (Org.)
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can therefore safely say that this
book not only does that tradition
justice, but also stimulates taking
next steps.
Willem Ferdinand Gerardus
Haselager
Donders Institute for Brain,
Cognition and Behaviour, dpt. of
Articial Intelligence, Radboud
University, e Netherlands.
de lósofos e cientistas cognitivos
brasileiros para o desenvolvimento
da abordagem incorporada e situada
à cognição e ao comportamento.
Portanto, posso dizer, com
segurança, que este livro não
apenas faz justiça a essa tradição,
mas também estimula os próximos
passos na pesquisa na área.
Willem Ferdinand Gerardus
Haselager
Donders Institute for Brain,
Cognition and Behaviour,
Department of Articial Intelligence,
Universidade de Radboud, Holanda.
| 15
I
Este livro analisa os hábitos motores enquanto elementos
fundamentais para o processo de constituição dinâmica da identidade
pessoal em uma perspectiva sistêmica losóco-interdisciplinar. O estudo
aqui elaborado está fundamentado em pressupostos teóricos presentes
na abordagem dos sistemas complexos, no pragmatismo losóco e em
teorias do desenvolvimento motor. O problema central analisado neste
livro tem como o condutor a seguinte interrogação: hábitos motores da
pessoa constituídos ao longo da sua vida são uma característica relevante
para a constituição e preservação de sua identidade pessoal?
A motivação inicial para este trabalho, ora transformado em livro,
surgiu a partir de diculdades em se estabelecer um plano de tratamento
sioterápico relacionado a alterações de hábitos motores. Por diversos anos
trabalhando como sioterapeuta, pude ter contato com pessoas portadoras
de patologias motoras que alteravam drasticamente sua maneira de interagir
com o mundo e, como consequência, seus hábitos motores eram alterados
buscando a estabilização do corpo, mas nem sempre de modo adequado a
restabelecer sua funcionalidade motora de forma equilibrada.
Durante a atividade como sioterapeuta da primeira autora, ela
pôde observar que hábitos relacionados a processos motores da pessoa
eram parte constituinte de sua identidade e que, quando por algum motivo
sofriam algum tipo de alteração, acabavam por modicar a maneira como
essa pessoa se identicava. Mesmo quando a pessoa sofre uma lesão leve
Ana Paula Talin Bissoli
&
Mariana Claudia Broens (Org.)
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em um dos membros, mas que a impeça de realizar uma atividade habitual
relevante (como escrever ou andar, por exemplo), tal impedimento
parece afetar substantivamente seu sentido de identidade. Dito de outro
modo: alterações de hábitos motores (resultantes de danos motores de
qualquer natureza) implicam uma mudança na maneira como a pessoa se
autoidentica. Essas observações diárias na prática como sioterapeuta e o
contato com grupos interdisciplinares de pesquisa indicaram a importância
de traçar caminhos que possibilitassem a discussão entre as áreas de losoa
e a sioterapia no estudo da identidade pessoal.
Como em outras áreas da saúde, a sioterapia tem como
base protocolos desenvolvidos a partir de teorias maturacionistas do
desenvolvimento motor que acabam por privilegiar aspectos relacionados à
maturação do sistema nervoso central como norteadores da aprendizagem
e habituação motora. Tais teorias colocam em segundo plano a relevância
do corpo, em sua totalidade orgânica, inserida em um contexto ambiental,
para processos relacionados a aprendizagem e habituação motora. Um
exemplo típico dessa abordagem de tratamento reducionista é a elaboração
de um diagnóstico fragmentado em áreas de atuação, como, por exemplo,
respiratório e neuromotor, entre outras.
Práticas de reabilitação motora inspiradas em, ou em sintonia
com, a concepção cartesiana mecanicista de corpo acabam por não
levar em consideração (1) as relações integradas de codependência
entre os diferentes sistemas e subsistemas do organismo, (2) os padrões
de movimento que emergem a partir de novos contextos ambientais,
bem como (3) os processos sistêmicos que, entendemos, ocorrem para
propiciar a reabituação motora que propicia a atualização da identidade
motora da pessoa.
Para a realização deste estudo losóco-interdisciplinar,
utilizamos duas abordagens teóricas: a abordagem dos sistemas complexos
(em especial, as teorias da auto-organização e da cognição incorporada
e situada) e o pragmaticismo (em especial, os conceitos de hábito e de
processo abdutivo).
Sendo assim, conjecturamos que a dinâmica do processo de
habituação e reabituação do agente, ao longo de sua vida, resulta na
formação de uma identidade motora do agente, a qual é correlata ao
processo de formação e constituição da identidade pessoal do agente.
Hábitos motores e identidade pessoal
| 17
Para isso, no capítulo 1,Identidade e hábitos motores: novos
horizontes para o estudo do problema da identidade pessoal”, fazemos
uma breve retomada losóca do problema da identidade pessoal,
discutindo as questões relacionadas à investigação da natureza do corpo e
sua motricidade situadas em contextos ontológicos dualistas. Na primeira
parte, analisaremos algumas hipóteses losócas sobre o problema da relação
mente-corpo. Esta parte do livro procura elucidar algumas concepções de
corporeidade que inuenciaram áreas como a medicina e a sioterapia.
Na segunda parte, apresentamos uma nova perspectiva teórica para o
problema da identidade pessoal fundada na teoria dos sistemas complexos.
Analisaremos possíveis contribuições da perspectiva sistêmica relacionada
aos processos motores na constituição da identidade da pessoa. Na terceira
parte, por m, consideraremos possíveis contribuições da Teoria da Auto-
Organização no processo de emergência da identidade pessoal.
No capítulo 2, “Teorias do desenvolvimento e a identidade
motora”, analisamos criticamente teses das teorias de desenvolvimento
centradas na maturação do sistema nervoso central e possíveis contribuições
da perspectiva teórica sistêmica no desenvolvimento motor. Na primeira
parte, procuramos apontar algumas importantes contribuições que
a abordagem da cognição incorporada e situada (CIS) oferece para a
compreensão da relevância da corporeidade na constituição da identidade
da pessoa. Analisamos de que forma considerar a interação da pessoa
com o ambiente pode auxiliar na compreensão do desenvolvimento de
habilidades motoras e da dinâmica de constituição, ajuste ou mudança de
hábitos motores. Na segunda parte, por sua vez, apontamos de que forma
a perspectiva dos sistemas dinâmicos propicia o entendimento sobre como
os hábitos motores são continuamente atualizados de forma adaptativa em
respostas às mudanças ocorridas tanto na pessoa como no seu contexto.
Argumentamos que a perspectiva dos sistemas dinâmicos pode propiciar o
entendimento de como a identidade motora se altera ao longo do tempo.
Finalizamos no capítulo 3, “Hábitos motores e processos
abdutivos incorporados”, no qual investigamos a hipótese de que processos
abdutivos incorporados são fundamentais para a atualização e a busca
pelo equilíbrio dinâmico da identidade motora da pessoa. Para isso, na
primeira parte, procuramos mostrar que a dinâmica de geração e abandono
de hábitos envolve processos abdutivos de proposição e teste de novas
Ana Paula Talin Bissoli
&
Mariana Claudia Broens (Org.)
18 |
hipóteses motoras relacionadas. Procuramos evidenciar a importância do
processo abdutivo nas relações terapêuticas interpessoais, especialmente em
contextos que envolvem situações como a ruptura de hábitos motores e a
incorporação de novos hábitos. E, por m, na segunda parte, discutimos os
efeitos das tecnologias informacionais na mudança da identidade motora
da pessoa por promover hábitos que podem comprometer o equilíbrio
dinâmico do sistema motor humano.
Procuramos evidenciar neste livro que a dinâmica do processo de
habituação e reabituação motora da pessoa ao longo de sua vida, resultante
de processos de auto-organização secundária e formulação de hipóteses
motoras resultantes de processos abdutivos incorporados, é constituinte
fundamental de sua identidade pessoal..
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1
I : 
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Concepções clássicas de identidade pessoal de cunho racionalista
ou intelectualista privilegiam aspectos cognitivos e culturais da pessoalidade,
atribuindo, em geral, pouca relevância a aspectos corporais, especialmente a
propriedades corpóreas que envolvem processos relacionados a capacidades
motoras (consideradas puramente mecânicas). Neste capítulo analisaremos,
em especial, a concepção de pessoa na perspectiva do dualismo ontológico
e a contrastaremos com uma abordagem sistêmica, a partir da qual a
identidade motora da pessoa passa a desempenhar um papel relevante na
constituição de sua identidade.
1. a concepção dualIsta de pessoa: breve retomada do problema
da IdentIdade pessoal
A identidade pessoal pode ser entendida, em geral, como o
sentimento de continuidade, ou mesmidade, que a pessoa tem de si
mesma ao longo do tempo, embora ela passe por inúmeras transformações
de natureza biológica, social e cultural durante sua vida. Porém, esse
sentimento de mesmidade pode ser perdido, como quando a pessoa perde
alguma capacidade que considera essencial à preservação de sua identidade
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(por exemplo, a perda da memória, de uma habilidade especíca, da
capacidade de falar, de perceber, dentre outros). Por sua vez, a capacidade
de ser reconhecida por outros como a mesma pessoa pode também ser
comprometida por mudanças e transformações que ocorram na pessoa e
afetem profundamente o modo como ela se apresenta ou se coloca no
mundo. No entanto, mesmo que a pessoa perca traços identitários que
a caracterizam ou não seja possível reconhecê-la por alguma razão, ainda
assim pode ser considerada como a mesma pessoa sob vários aspectos
biológicos, sociais, morais e legais. A diculdade em se determinar em que
consiste efetivamente a identidade da pessoa, se há alguma característica ou
conjunto de características que a constituam, é denominado o problema
da identidade pessoal, o qual tem sido tratado por diferentes áreas, como
a Filosoa e a Psicologia.
Estudiosos como Hume (2001), Locke (1999), Part (1971,1982),
Gonzalez, Broens e Serzedello (2000), Arruda (2003), Santaella (2005),
Costa (2010) e Viana (2011) têm se voltado a investigar o problema
da identidade pessoal desde a modernidade, especialmente aqueles que
problematizam a abordagem dualista substancial da relação corpo-mente.
Tal problema pode ser assim formulado: uma pessoa permanece a mesma
ao longo do tempo a despeito de todas as mudanças biológicas, culturais
e sociais pelas quais passa? Esta indagação se coloca especialmente para
teorias naturalistas ou sicalistas da noção de pessoa, pois, uma vez que os
seres vivos estão passando constantemente por mudanças de todo tipo, é
difícil defender a tese de que as pessoas, enquanto seres vivos, permaneçam
as mesmas ao longo de suas vidas em algum sentido forte dos conceitos de
permanência e mesmidade.
Diferentemente, para as teorias dualistas substanciais da relação
mente-corpo, as quais consideram a mente e o corpo como duas substâncias
distintas, uma imaterial e outra material, o problema não aparece. Isso se
deve a que, para as abordagens dualistas, apenas o corpo passaria pelas
mudanças constantes próprias de todos as entidades físicas. Já a mente,
distinta do corpo, não estaria sujeita às leis físicas responsáveis pelas
transformações constantes dos corpos em geral, razão pela qual a identidade
da pessoa estaria relacionada à mente, algo considerado imaterial. A
mente, porque permaneceria ao longo do tempo, independentemente dos
Hábitos motores e identidade pessoal
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processos físicos de transformação ocorridos no corpo, conservaria, em um
sentido forte, a identidade da pessoa.
Como destaca Gilbert Ryle na obra e concept of mind, a
abordagem dualista substancial se tornou uma espécie de “doutrina
ocial” na losoa até muito recentemente, tendo norteado e servido
de suporte teórico a muitas pesquisas nas áreas de ciências humanas e
ciências da saúde, dentre outras. Nessa perspectiva, muito disseminada
na comunidade losóca e cientíca, o corpo desempenharia um papel
coadjuvante na pessoalidade.
Em suma, a abordagem dualista substancial parece ser uma postura
teórica bem-sucedida no que diz respeito ao problema da identidade pessoal
devido à suposta natureza perene da mente. No entanto, essa abordagem
dualista da pessoalidade não se sustenta porque há vários indícios muito
fortes de que características essenciais da pessoalidade, como a memória,
por exemplo, envolvem aspectos corpóreos.
Uma forte indicação de como processos corpóreos inuenciam
aspectos da pessoalidade é encontrada no funcionamento do sistema
hormonal humano: embora não se tenha ainda uma teoria das emoções
que permita compreender sua natureza, há indícios signicativos que
permitem correlacionar, por exemplo, a produção de certos hormônios e a
emergência de emoções e condutas especícas resultantes dessa produção.
Nesse sentido, o cortisol é um hormônio que é liberado na corrente
sanguínea em resposta ao estresse, aumentando o estado de medo e
levando ao comportamento de fuga, algo essencial para a sobrevivência do
indivíduo em situações-limite. Esses e outros indícios semelhantes levam
a acreditar ser mais apropriado adotar uma perspectiva não dualista da
pessoa, o que implica, como contrapartida, a emergência do problema da
identidade pessoal.
Para a losoa, um dos pontos-chave do problema da identidade
pessoal está na diculdade de estabelecer um conjunto de propriedades
que levem a denir alguma entidade como pessoa ou que façam a pessoa
ser como é. Como já descrito acima, uma abordagem do problema da
identidade pessoal sob uma perspectiva não dualista enfrenta a diculdade
de determinar claramente qual seria a característica ou o conjunto de
características que permitem que a pessoa permaneça a mesma ao longo do
tempo e possa ser identicada enquanto tal pelas demais pessoas.
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Robinson (2017) sintetiza essa diculdade ao ressaltar que os
seres humanos enquanto tais possuem características semelhantes a outras
entidades físicas (como massa, densidade, volume, por exemplo), mas
também parecem possuir características “mentais” (como a posse de uma
consciência ou “eu” instanciadora de crenças e desejos).
Em uma perspectiva não dualista, anti-intelectualista, externalista,
monista ou materialista de pessoa, o foco poderia ser dado à dimensão
corpórea, por ser a entidade física que instancia os processos cognitivos e
perceptuais. Mas, como já apontou John Searle em A redescoberta da mente
(2006), frequentemente as abordagens materialistas mantêm a concepção
de corpo defendida pelo dualismo ontológico, apenas dissociando-o da
substância pensante. Nesse sentido, a concepção de que o corpo humano
pode ser compreendido enquanto substância distinta da mente, ao
analisarmos e entendermos isoladamente as partes que o compõem, resulta
da aplicação do método analítico cartesiano em seu estudo, especialmente
a segunda regra do método.
Como aponta Descartes na obra Discurso do Método (1999 [1637]),
haveria quatro preceitos metodológicos fundamentais para a produção do
conhecimento, sendo a dúvida metódica o primeiro deles, a qual prescreve
a necessidade de suspender o juízo a respeito de proposições ou teses ainda
não demonstradas, e a regra da análise, o segundo preceito, de acordo
com o qual seria necessário “[...] dividir cada uma das diculdades que
eu examinasse em tantas parcelas quantas possíveis e quantas necessárias
fossem para melhor resolvê-las” (DESCARTES, 1999 [1637], p. 49-50).
Este preceito, fundamental para a produção do conhecimento matemático,
nem sempre é adequado para a modelagem de processos físico-químico-
biológicos, como concebidos pelas ciências contemporâneas.
O método proposto por Descartes, ainda que adequado à
produção do conhecimento cientíco, com contribuições inegáveis para a
ciência, foi aplicado apenas parcialmente. Isto porque a regra que promove
a decomposição analítica do objeto de estudo, como, por exemplo, o
corpo humano, acabou sendo privilegiada em detrimento do terceiro
preceito metodológico, o qual postula a necessidade de efetuar a síntese de
recomposição do objeto, em uma espécie de caminho de volta da análise,
factível quando se trata de resolver uma equação, mas não factível quando
se trata de recompor organismos vivos.
Hábitos motores e identidade pessoal
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Desse modo, a aplicação da regra analítica no estudo dos organismos
(por exemplo, por meio dos estudos anatômicos de dissecção sistemática
do corpo humano), embora tenha contribuído para o conhecimento do
corpo, acabou propiciando abordagens reducionistas do corpo na medida
em que sua decomposição desvia o foco do corpo como um todo orgânico,
cujas partes componentes estão inter-relacionadas e são funcionalmente
codependentes. A clássica obra de Rembrandt A lição de anatomia do Dr.
Tulp (1632) ilustra exemplarmente a abordagem analítica do corpo humano.
Na imagem, feita por Rembrandt ilustrando uma autópsia pública realizada
no dia 31 de janeiro de 1632 em Amsterdã, podemos ver sete cirurgiões
acompanhando a explicação do Dr. Tulp sobre a dissecção, ou separação
anatômica dos tendões da mão localizados no antebraço.
Como a gura 1 ilustra, o corpo humano era dividido em partes e
estudado separadamente, dicultando a compreensão das relações que ocorrem
entre os diversos sistemas pertencentes ao corpo. Cada parte ou sistema do
organismo foi sendo analisado individualmente, o que acabou gerando áreas
disciplinares de estudo e, especialmente na área da Medicina, uma hiper-
especialização em subáreas com objetos de estudo cada vez mais restritos.
Figura 1. A lição de anatomia do Dr. Tulp. Rembrandt, 1632. Acervo do Museu Mauritshuis.
1
REMBRANDT Harmenszoon van Rijn. A lição de anatomia do Dr. Tulp. 1632. 1. Óleo em tela, 169,5 x 216,5
cm. Acervo do Museu Mauritshuis, Haia, Países Baixos. In: Museum Het Rembrandthuis. Amsterdã, 2020.
Disponível em: https://www.rembrandthuis.nl/ontmoet-rembrandt/rembrandt-de-kunstenaar/belangrijkste-
werken/de-anatomische-les-van-dr-nicolaes-tulp/. Acesso em: 21 jan. 2021.
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Baseada em tal método e seguindo a correspondente análise
realizada na Medicina, várias áreas das Ciências da Saúde, dentre elas a
Fisioterapia, também se compartimentalizaram em diferentes especialidades,
cada qual procurando entender os mecanismos de funcionamento de partes
especícas do corpo humano.
Um exemplo do problema das abordagens reducionistas no âmbito
da Fisioterapia é o tratamento de doenças neuromusculares, como a artrite
reumatoide. Embora os sintomas dessa doença estejam correlacionados a
grupos musculares, muitas vezes a causa primária da desordem muscular
resulta de um desajuste no sistema imunológico. Por mais que se faça um
plano de tratamento aplicado a toda a estrutura muscular envolvida na
injúria, não se obterá sucesso se não for realizado concomitantemente o
ajuste imunológico.
Por esse motivo, muitos procedimentos sioterápicos têm se
mostrado inecientes quando estruturados ou aplicados a partir de uma visão
fragmentada, analítica, do corpo, em razão do fato de exigirem, por exemplo,
uma compreensão multidimensional dos fatores que promovem ou reduzem
uma eminente anomalia ou ruptura dos processos motores. Posteriormente
procuraremos explicar como a abordagem sistêmica da pessoalidade e da
identidade pessoal pode contribuir para superar a dicotomização corpo-
mente e a abordagem mecanicista/reducionista do corpo.
Em síntese, o dualismo substancial corpo-mente, preponderante
na Filosoa, na Medicina e em outras áreas até meados do século XX,
inicialmente postula uma abordagem que dicotomiza corpo e mente por
considerá-los substâncias distintas e, em seguida, acaba por promover
uma abordagem mecanicista e reducionista do corpo. No entanto, como
aponta Ryle (1949; 2000), as teses cartesianas que propõem uma distinção
substancial entre mente e corpo decorrem de um equívoco lógico de base
que as comprometem, o que se denomina erro categorial.
Ryle (1949) aponta que o erro categorial consiste em classicar
algo como pertencente a uma categoria lógica quando efetivamente
pertence a outra. No caso especíco do dualismo ontológico, o erro
cometido por Descartes foi considerar que tanto o corpo quanto a mente
são categorizáveis como “substâncias”. Para ilustrar sua crítica, Ryle
(1949) apresenta como exemplo a natureza do conceito “universidade”.
Suponhamos que um visitante pela primeira vez se dirige ao campus de
Hábitos motores e identidade pessoal
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uma universidade e lhe são mostrados os laboratórios, as salas de aulas,
bibliotecas, campos de esportes, as seções administrativas etc. Depois de
ter feito a visita ao campus, no entanto, o visitante pergunta: “onde está
a universidade?” O visitante questiona que viu onde são ministradas as
aulas e onde se fazem os experimentos cientícos, as salas de estudo e de
administração, mas não viu a universidade. Ryle observa que o visitante,
ao questionar onde está a universidade, espera receber uma resposta do
tipo “a Universidade está ao lado da sala de aula” e, ao ter essa expectativa,
revela que comete um erro categorial. A universidade é o todo que
engloba o conjunto das salas de aulas, bibliotecas, campos de esportes,
departamentos e administração. Ao considerar que “a universidade” se
refere a um membro adicional do conjunto de que fazem parte os outros
elementos constituintes do conceito “universidade”, o visitante se engana.
Erroneamente ele considerou a universidade como pertencente à mesma
categoria a que pertencem os outros elementos constituintes.
Nas palavras do lósofo:
Não é, meramente, um conjunto de erros particulares. É um grande
erro e um erro de tipo especial: um erro categorial. Apresenta os
fatos da vida mental como se pertencessem a um tipo de categoria
lógica (ou classes de tipos ou categorias) quando na realidade eles
pertencem a outra categoria (RYLE, 1949, p. 17).
Como evidenciado por Ryle (1949), o erro categorial subjaz em
abordagens dualistas e mecanicistas da relação corpo-mente. No caso das
abordagens mecanicistas, isso ocorre na medida em que tais abordagens
tendem a categorizar o corpo dos seres vivos como pertencendo à mesma
categoria de substância material dos corpos físicos em geral, sem levar
em conta sua natureza dinâmica, a complexidade das relações entre
suas partes, as propriedades emergentes que tais relações podem gerar e
o entorno ecológico em que os organismos em geral coevoluem e, mais
especicamente, no âmbito individual, as circunstâncias em que cada
pessoa se desenvolve e adquire progressivamente sua identidade.
Considerando a problemática apresentada, especialmente no que
tange ao papel da corporeidade na constituição da identidade da pessoa
focalizada a partir de uma abordagem não reducionista, as questões que
procuraremos investigar podem ser assim formuladas: hábitos motores
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da pessoa ao longo de sua vida constituem uma característica relevante
para a dinâmica de constituição e preservação de sua identidade ao longo
do tempo? Aspectos relacionados à motricidade do agente podem ser
integrantes relevantes de sua identidade pessoal?
Apesar de conhecermos razoavelmente aspectos importantes
do funcionamento dos sistemas e subsistemas do corpo quando realizam
suas funções vitais, há muito a se desvendar sobre como eles trabalham
coletivamente nos processos que aumentem ou diminuem a estabilidade
dinâmica do organismo.
Sem pretender resolver o problema da identidade pessoal,
analisaremos, na próxima seção, possíveis contribuições da perspectiva sistêmica
relacionada aos processos motores na constituição da identidade pessoal.
1.2 hábItos motores e IdentIdade pessoal: InvestIgação a partIr
da perspectIva sIstêmIca
A necessidade de superar o reducionismo no estudo do corpo
humano por meio de uma abordagem multidimensional e sistêmica
aparece em várias áreas da pesquisa cientíca desde meados do século XX.
Essa abordagem teórica levou em consideração a investigação de
fenômenos cuja compreensão requer uma visão geral da organização de
elementos ou agentes e suas relações mútuas. Graças a essa abordagem,
as interações entre os sistemas e subsistemas constituintes do organismo
passam a ser analisadas como organizações complexas compostas por várias
camadas integradas que propiciam a emergência de novas propriedades
e cujos elementos constituintes estabelecem relações de interdependência
(BERTALANFFY, 1977; MITCHELL, 2009).
Essa abordagem se contrapõe ao enfoque fragmentado de estudo
sob a perspectiva mecanicista clássica que, como vimos, aliada ao processo
analítico, acabou por desconsiderar aspectos relevantes para a compreensão
da natureza dinâmica do organismo situado em seu contexto ecológico.
Desse modo, procuraremos apontar algumas importantes
contribuições que a abordagem sistêmica propiciou à compreensão da
natureza dos organismos vivos e suas capacidades motoras. Entendemos que
Hábitos motores e identidade pessoal
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este estudo permitirá ressaltar a contribuição dos processos de habituação
motora para a constituição da identidade pessoal.
A caracterização de organismo como organização ou sistema foi
inicialmente proposta por Ludwig von Bertalany, biólogo de formação, em
sua obra Teoria geral dos sistemas (1977). Nessa obra, Bertalany (1977, p. 10)
denuncia os limites do mecanicismo clássico para a compreensão da dinâmica
biossocial de sistemas vivos, como os seres humanos em suas interações sociais
envolvendo tecnologias. Uma das características da perspectiva sistêmica
é a de que processos que ocorrem no organismo são considerados em sua
integralidade. Em Bertalany (1977), o conceito de sistema é aplicado para
estruturas físicas, biológicas e sociais. Bresciani Filho e d’Ottaviano (2000, p.
284-285), por sua vez, caracterizam um sistema como:
[...] uma entidade unitária, de natureza complexa e organizada,
constituída por um conjunto não vazio de elementos ativos que
mantêm relações com características de invariância no tempo que
lhe garantem sua própria identidade. Nesse sentido, um sistema
consiste num conjunto de elementos que formam uma estrutura, a
qual possui funcionalidade.
Uma característica fundamental da perspectiva sistêmica, segundo
Bertalany (1977), é o reconhecimento da relevância das relações entre os
elementos da organização ou sistema. As relações entre os elementos do
sistema podem ser manifestadas de diversas maneiras, tais como cooperação,
competição, ligação, articulação, comunicação, interação, dentre muitas
outras. Destaca Bertalany (1977) que, quando uma relação se estabelece
ao acaso, a partir de uma situação de não regularidade, pode-se estabelecer
uma dependência entre os elementos, propiciando, por vezes, a emergência
de um padrão de conectividade. Tem-se, portanto, o desencadeamento de
um processo considerado organizado, sendo que a organização resultante
do processo possui características dinâmicas emergente das interações de
seus elementos componentes entre si e com o meio com o qual interagem
(BERTALANFFY, 1977, p. 293).
Apesar dos esforços realizados, especialmente a partir dos trabalhos
de Von Bertalany, em se caracterizar o termo complexidade para tratarmos
dos sistemas complexos, o conceito ainda permanece polêmico tanto em
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termos qualitativos (em relação a suas propriedades fundamentais) quanto
em termos quantitativos (como medir a complexidade de um sistema).
Cilliers e Spurrett (1999) propõem uma abordagem do conceito
sistemas complexos” em termos das diferentes funções que exprimem
a descrição do sistema que está sendo considerado e distinguem os
conceitos de complexo e de simples. Um exemplo seria a complexidade
ou simplicidade de uma árvore. Sob o ponto de vista decorativo, ela pode
ser considerada simples, mas em termos de estrutura de vida e organização
(das relações existentes entre seus elementos), ela pode ser classicada
como complexa.
Cilliers e Spurrett (1999) consideram importante salientar
que, no âmbito do senso comum, muitos sistemas parecem ser simples,
mas mostram um alto grau de complexidade quando examinados
detalhadamente, e um sistema que aparentemente seria “complicado” não
possui as propriedades que efetivamente parecem caracterizar os sistemas
complexos. Conforme exposto, parece que a complexidade não está em
um ponto especíco, identicável em um sistema, mas sim nas relações
existentes entre os elementos que o compõem.
Com a evolução nos estudos da complexidade, Melanie Mitchell
(2009, p. 13) descreve os sistemas complexos destacando a não existência de
um elemento controlador central (no mesmo sentido indicado por Debrun,
1996, em seus estudos sobre auto-organização), cujo comportamento
adaptativo emergente do processamento de informação ambiental não
é facilmente previsível a partir do comportamento individual de seus
elementos constituintes.
Assim, que propriedades devem estar presentes para caracterizarmos
um sistema como complexo? Mitchell (2009), enfatiza que as propriedades de
um sistema complexo envolvem a interação em rede de indivíduos, pela qual
ocorre emergência de comportamentos coletivos de difícil previsibilidade,
adaptação, auto-organização e processamento de informação.
Bresciani Filho e d’Ottaviano (2004) apontam que, na
maioria das vezes, em razão da interdependência estabelecida entre os
elementos constituintes do sistema ser de alto grau (no sentido de estar
enraizado ao sistema), as relações nem sempre podem ser simplicadas
(“descomplexicadas” ou “analisadas”) de modo a gerar partes ou
Hábitos motores e identidade pessoal
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subsistemas mais simples. O entendimento do sistema como um todo não
dá para ser explicitado apenas em termos da análise de seus componentes,
mas requer a consideração das relações existentes entre seus constituintes e
o meio em que o sistema está inserido (no caso dos organismos, o meio será
o contexto ecológico especíco em que coevoluiu e com o qual interage
trocando matéria, energia e informação).
Tratando-se do corpo humano, não podemos caracterizá-lo
apenas como a união de determinados órgãos, sistemas, etc., mas devemos
considerar a integração dinâmica de todos os seus elementos constituintes
situados em um contexto ecológico. Partindo desse principio, um sistema
e seus subsistemas podem ser observados em diferentes planos de estudo.
Quando focalizamos, por exemplo, o sistema respiratório em um plano
microscópico, podemos classicá-lo como sistema, porém se alterarmos o
plano de análise para uma visão macroscópica, tal sistema será classicado
como um subsistema integrante do sistema corpo humano, o corpo
humano, por sua vez, pode ser focalizado como elemento do sistema social,
e assim por diante.
Quando um sistema exibe um comportamento de mudança no
nível macroscópico em razão da emergência de ações coletivas de seus muitos
componentes que estão interagindo no nível microscópico, permitindo uma
possível descrição e previsão do próprio sistema, dizemos que temos um
sistema do tipo dinâmico.
2
Assim, os sistemas são considerados dinâmicos
quando, de algum modo, mudam no decorrer do tempo considerado. No
entanto, uma integridade organizacional constitui sua identidade enquanto
sistema (ou subsistema) em relação a outras organizações.
Com base nas características apresentadas, ressaltam Bresciani
Filho e d’Ottaviano (2004) que a teoria geral dos sistemas os classica em
dois tipos: 1) sistemas fechados, na perspectiva das ciências da natureza, os
quais são sistemas que podem trocar energia (como calor ou trabalho) com
o ambiente, mas não trocam matéria; 2) sistemas abertos, que são sistemas
que trocam matéria, energia e informação com o ambiente, podendo tanto
ocorrer a “importação” de informações do ambiente como a “exportação
de informações para o ambiente. Podemos considerar como exemplo o
sistema de locomoção humana, elemento importante do desenvolvimento
motor humano: para que possam fortalecer as estruturas osteomusculares,
No capítulo 2 abordaremos detalhadamente a concepção de sistema dinâmico.