Este livro é dirigido a todas as pessoas que acreditam na educação e em
seu potencial emancipador. Educadores, gestores escolares, estudantes,
pesquisadores das ciências humanas, da educação e, em especial, inte-
grantes de escolas e experiências educativas que buscam por alternativas,
encontrarão aqui subsídios para que possam reetir sobre o papel da
educação frente aos desaos contemporâneos e sobre as possibilidades
emancipatórias presentes em nossa civilização. Os argumentos são con-
duzidos pelo encontro dos principais conceitos da sociologia de Jürgen
Habermas e da epistemologia de Jean Piaget.
emancipação
encontros entre
Piaget e Habermas
Vinícius Bozzano Nunes é educador e
tem interesse na investigação de cami-
nhos para uma educação emancipadora.
Antes de escrever aqui sobre esse assun-
to, graduou-se em Educação Física e Pe-
dagogia, tornou-se especialista em Bio-
ética (UFLA), Mestre (UFMT) e Doutor
(UNESP) em Educação. Foi cofundador
do Espaço Mitã, espaço de educação in-
fantil em Dourados MS e, desde 2011,
é docente no Instituto Federal de Mato
Grosso do Sul.
Programa PROEX/CAPES:
Auxílio Nº 0798/2018
Processo Nº 23038.000985/2018-89
Ainda é possível sonhar com a
emancipação humana? E se for, a educa-
ção pode contribuir com a realização desse
sonho? O que é preciso saber para tornar
o modelo atual de educação capaz dessa
tarefa? Este livro busca responder a essas
perguntas promovendo o encontro entre
dois grandes pensadores, Jürgen Haber-
mas e Jean Piaget. Habermas mostra que
a instrumentalidade da razão contribui
para a crise que vivemos hoje. Superá-la
é resgatar o potencial presente na raciona-
lidade comunicativa. Piaget explica como
a inteligência das ações é gradativamente
superada pela inteligência conceitual. Ler
esse importante epistemólogo suíço, con-
siderando seu interesse nas questões socio-
lógicas, oferece pistas sobre como atingir
o paradigma da razão comunicativa. A
aproximação entre eles, proposta nesta
obra, pretende revigorar as esperanças na
educação e na humanidade.
Emancipação pela Educação: encontros entre Piaget e Habermas
Vinícius Bozzano Nunes
pela
educação
Vinícius Bozzano Nunes
EMANCIPAÇÃO PELA EDUCAÇÃO
ENCONTROS ENTRE PIAGET E HABERMAS
Vinícius Bozzano Nunes
EMANCIPAÇÃO PELA EDUCAÇÃO
ENCONTROS ENTRE PIAGET E HABERMAS
Vinícius Bozzano Nunes
Marília/Oficina Universitária
São Paulo/Cultura Acadêmica
2020
UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS FFC
UNESP - campus de Marília
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Vice-Diretor
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- UNESP/Marília
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Cláudia Regina Mosca Giroto
Arte da capa: Vinícius Bozzano Nunes
Auxílio Nº 0798/2018, Processo Nº 23038.000985/2018-89, Programa PROEX/CAPES
Ficha catalográfica
Serviço de Biblioteca e Documentação - FFC
Nunes, Vinícius Bozzano.
N972e Emancipação pela educação: encontros entre Piaget e Habermas / Vinícius Bozzano
Nunes. Marília : Oficina Universitária ; São Paulo : Cultura Acadêmica, 2020.
190 p. : il.
Inclui bibliografia
ISBN: 978-65-86546-82-8 (Impresso)
ISBN: 978-65-5954-010-5 (Digital)
1. Educação. 2. Construtivismo (Educação). 3. Teoria crítica. 4. Comunicação. 5. Piaget,
Jean. 6. Habermas, Jürgen. I. Título.
CDD 370.152
Copyright © 2020, Faculdade de Filosofia e Ciências
Editora afiliada:
Cultura Acadêmica é selo editorial da Editora UNESP
Oficina Universitária é selo editorial da UNESP - campus de Marília
DOI: https://doi.org/10.36311/2020.978-65-5954-010-5
Para meus filhos, Dante e Serena
e para minha companheira, Catarina.
Aos meus familiares.
Àqueles que, diante da escuridão,
abrem suas janelas em direção ao outro
e acendem em si a esperança por dias melhores.
Todas las voces, todas
Todas las manos, todas
Toda la sangre puede
Ser canción en el viento.
¡Canta conmigo, canta
Hermano americano
Libera tu esperanza
Con un grito en la voz!
(Canción Con Todos
Armando Tejada Gómez e César Isella)
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 - Interações sujeito objeto..............................................92
Figura 2 - Processo de abstração reflexionante...........................126
SUMÁRIO
Prefácio ...............................................................................................13
Introdução ...........................................................................................15
Habermas: da racionalidade instrumental à comunicativa .................21
Possibilidades e limites da abordagem teórica habermasiana..................22
O conceito de racionalidade de Marx a Weber......................................34
Mundo da vida e mundo sistêmico.......................................................43
Pressupostos da racionalidade comunicativa .........................................47
Dinâmica do agir comunicativo............................................................55
Piaget: sentido e dimensão sociológica ...............................................65
O sentido da obra de Jean Piaget..........................................................71
Interesse sociológico de Piaget: pontos e contrapontos..........................76
Da adaptação biológica à abstração reflexionante: a dimensão sociológica
como condutor.....................................................................................83
Dimensão subjetiva do pensamento sociológico: interação e socialização
.............................................................................................................91
Dimensão coletiva do pensamento sociológico: técnica, ideologia e
ciência................................................................................................100
Habermas e Piaget: aproximações ....................................................109
Piaget na obra de Habermas ..............................................................109
Operatoriedade e as condições para o agir comunicativo.....................116
Abstração reflexionante como mecanismo do desenvolvimento...........125
Relações entre pensamento e linguagem: uma abordagem construtivista
...........................................................................................................132
Da ação ao conceito: analogias com a Teoria do Agir Comunicativo
...........................................................................................................136
Considerações Finais...........................................................................165
Referências Bibliográficas ...................................................................179
13
PREFÁCIO
_______ ____________ ____________ ________________________ ____________ ____________ _______________ ____________ _______
Piaget e Habermas provocam no meio acadêmico,
independentemente da concordância ou não com suas ideias, uma
reação de respeito e consideração pela complexidade das teorias
construídas por eles. Teorias densas em textos que não se entregam
facilmente ao leitor, trazem contribuições imensas a diversas áreas de
conhecimento.
Jean Piaget, biólogo de formação, se debruça sobre a
construção da inteligência com o objetivo de esclarecer como é
possível O Conhecimento. Como é possível o pensamento lógico?
Como é possível a matemática? Desenvolve a Epistemologia
Genética, tendo, entretanto, refletido e pesquisado outras dimensões
da psique humana e da sociedade, produzindo textos de filosofia,
sociologia, psicologia moral, dentre outros temas.
Jürgen Habermas, filósofo e sociólogo de formação, pertence
ao quadro de estudiosos contemporâneos mais importantes. Seus
estudos sobre o agir comunicativo têm reflexos em várias áreas do
conhecimento, assim como seus escritos sobre a democracia e
emancipação.
A aproximação desses teóricos foi a tarefa assumida por
Vinícius Bozzano Nunes nesta obra. Com muita clareza e com muita
transparência, inclusive em relação ao seu percurso como estudioso
dos autores, Vinícius propõe que pensemos na homologia possível
14
entre a passagem da ação ao conceito teorizada por Piaget e da ação
instrumental à comunicativa pensada por Habermas.
Mas, o que já seria bastante trabalho é ainda ampliado por
uma reflexão final sobre a educação emancipatória. O autor fala
sobre a educação com propriedade teórica e prática e abre uma
estrada para pensarmos na constituição de uma educação
ressignificada que vence o paradigma tradicional. A escola
democrática é anunciada ao pensarmos nas ideias aqui tratadas. Uma
escola que promova o desenvolvimento do indivíduo, a construção
de conhecimentos, a crítica da realidade e proposição de novos
caminhos.
Por fim, afirmo ter sido uma enorme honra para mim, ter
acompanhado a construção do presente trabalho e apresen-lo
como uma leitura profícua que por certo contribuirá muito,
particularmente com estudiosos da educação.
Patricia Unger Raphael Bataglia
15
INTRODUÇÃO
_______ ____________ ____________ ____________ ____________ ____________ ____________ ____________ _______________ ____________ ___________ ____________ _
No momento em que este livro é publicado, o Brasil e o
mundo atravessam uma fase política bastante conturbada. O
acirramento desse estado de crise manifesta-se pela polarização de
distintos projetos de mundo, hoje postos em disputa. Os sinais que
permitem esse diagnóstico são nitidamente observáveis. A
democracia, por exemplo. Se há pouco debatiam-se modelos de
democracia, hoje é comum que sua validade seja radicalmente
questionada. E há outros desses indícios. O capitalismo neoliberal
maximiza a exploração de crises, fórmula de sua cruel continuidade.
Ressurgem no contexto social manifestações de caráter
assumidamente fascista, racista e intolerâncias dos mais diversos
tipos. A violência dos discursos se disfarça sob a alcunha de liberdade
de expressão. Revigoram-se argumentos religiosos de natureza
fundamentalista. Conservadorismos se contrapõem a conquistas no
campo dos Direitos Humanos. Enquanto isso, as desigualdades
sociais são gradativamente mais gritantes e a fome, silencioso
problema, persevera. Uma crise sanitária de escala global desnuda a
fragilidade da espécie, mesmo diante de todo desenvolvimento
científico e tecnológico já alcançado. O esmaecimento dos
horizontes utópicos baseados nos ideais da justiça, da liberdade e
da verdade , sugerem que a emancipação humana não é mais um
projeto tão desejado.
Essa leitura da conjuntura contemporânea desenha uma
paisagem civilizatória catastrófica. Ela muito se assemelha às
16
previsões do grupo de pensadores alemães pertencentes à Escola de
Frankfurt. Esse quadro foi por eles anunciado no seio de sua Teoria
Crítica, em seus estudos iniciais, já na primeira metade do século
XX. Para esses teóricos, o grande problema da humanidade é que a
razão está submetida a um processo histórico de crescente
esvaziamento e consequente instrumentalização. Seu valor é
atribuído, cada vez mais, segundo critérios de eficiência. Significa
que a razão é válida tão somente enquanto útil, mesmo lhe
escapando a ideia de humanidade como fim último. Isso explica a
razão pela qual, mesmo diante de tantos avanços científicos e
tecnológicos, fomos capazes de produzir o holocausto nazista. De
modo análogo, também explica a crise emergente na atualidade.
O fatalismo desse diagnóstico, no entanto, não representa o
esgotamento das possibilidades de reflexão sobre o tema. O debate
hoje acessível se constitui por esse posicionamento, sim, mas
também por perspectivas diversas. Boa parte delas se mostram um
tanto mais otimistas com relação ao futuro da humanidade. Algumas
descrevem um mundo além, anunciando alternativas para a
superação dos obstáculos da contemporaneidade. Seus esforços
descritivos se concentram em definir “o que” é esse lugar além do
hoje, ao qual podemos almejar chegar. Outras perspectivas teóricas,
por sua vez, detêm-se sobre a explicação de um ou outro aspecto
dessa transição paradigmática. Destinam-se à busca de respostas para
a pergunta “como?”. Este livro se situa dentro deste espectro. É com
o mesmo interesse em possibilidades emancipatórias que o leitor
identificará sua natureza.
Uma das alternativas aqui trazidas é a Teoria do Agir
Comunicativo, elaborada por Jürgen Habermas. Ele, pensador
17
também integrante da escola frankfurtiana, comunga algumas das
ideias desse círculo intelectual. No entanto, questiona a tese do
esgotamento das possibilidades da razão. A racionalidade
hegemônica, segundo ele, poderia dar origem a outra racionalidade,
esta sim, imbuída de potencial emancipatório.
Além dos estudos de Habermas, o trabalho de Jean Piaget é
outro pilar sobre o qual se sustentam os argumentos aqui
apresentados. O epistemólogo suíço investigou, dentre outros
assuntos, a formação da representação na criança, detalhando seus
processos evolutivos. Por analogia, as suas explicações nos permitem
enxergar melhor “como” pode ser possível a transição desde a
instrumentalidade até um paradigma da racionalidade
comunicativa. Esse paradigma é o “o que” descrito por Habermas.
Os estudos de um e outro autor não são novidade dentro de
seus respectivos campos científicos. As reflexões sobre as prováveis
aproximações entre as teorias de Habermas e Piaget também não são
inéditas. Este livro distingue-se de outros trabalhos, basicamente,
por duas coisas: sua abordagem e a conclusão a que se chega por
meio dela. A abordagem se sustenta na releitura crítica dos reais
interesses de Piaget com seu trabalho, considerando as guinadas em
sua obra e a apropriação dela feita por Habermas. A intersecção entre
os dois autores é conduzida a um lugar diferente do outrora tido por
convencional. Desse novo ponto de vista, defende-se a existência de
uma analogia funcional entre a) o movimento evolutivo desde a
inteligência das ações até a inteligência conceitual, conforme
explicado por Piaget; e b) a transição da racionalidade instrumental
para a comunicativa, conforme Habermas. Demonstrar a analogia
18
entre esses dois movimentos de transição implica a admissão da
existência de um caminho a ser trilhado até a emancipação.
Do modo como aqui é apresentada, a Teoria do Agir
Comunicativo possui uma interface com a educação. Por essa
interface, revela-se um grande potencial para que a educação se
reencontre com seu sentido emancipador. O resgate desse potencial,
no entanto, depende da explicação da gênese e da evolução da
racionalidade. Esse debate, por sua vez, traz implicações inevitáveis
ao campo das Ciências da Educação. A educação, do modo como a
concebemos tradicionalmente, está estreitamente vinculada à
racionalidade instrumental. Por mais que a ela sejam agregados
avanços tecnológicos, docentes progressistas, métodos inovadores,
não há educação emancipadora sem uma crítica do domínio da
instrumentalidade. Por outra via, a dimensão comunicativa do agir
oferece reais possibilidades de que o sentido da educação se converta
em compromisso ético com o fim da barbárie, com a emancipação
humana.
Essas ideias são desenvolvidas ao longo dos três capítulos do
livro. No primeiro, há uma reflexão sobre as potências e limitações
da escolha de Habermas como referência teórica e uma discussão
sobre os conceitos de racionalidade em suas faces instrumental e
comunicativa. A meio caminho, são definidas as ideias de mundo da
vida e mundo sistêmico, assim como são apresentados a teoria dos
atos de fala locucionário, ilocucionário e perlocucionário e os
sistemas de referência de mundo objetivo, subjetivo e social. Esses
tópicos integram um panorama geral do trabalho de Habermas,
necessário para que o leitor identifique seu viés interacionista,
âmbito em que é possível seu encontro com a obra piagetiana.
19
Jean Piaget é o eixo do segundo capítulo. Nessa parte, são
contadas as reais intenções do autor com sua obra e, também, os
objetivos por ele perseguidos ao longo de sua carreira científica. É
delimitada a origem de seu pensamento no campo da biologia,
discutindo-se os reflexos dessas raízes em seu pensamento sobre
epistemologia. Mais adiante, o debate focaliza a mudança de rumos
que marcou definitivamente a teoria de Piaget. Esse ponto é bastante
importante, pois, com base nele pode-se demonstrar que Habermas
importa para sua teoria um momento do pensamento piagetiano já
superado pelo próprio Piaget. A relação entre Habermas e a teoria
de Piaget, é reconstituída a partir de uma nova ordenação.
Feito isso, o terceiro capítulo aborda inicialmente o processo
de formação da representação segundo Piaget a partir da obra A
Formação do Símbolo na Criança: imitação, jogo e sonho, imagem e
representação (PIAGET, 1971a [1945]). Nesse momento, são
explicados os esquemas de ação, os esquemas verbais, os pré-
conceitos, primeiros raciocínios, transduções, até chegar ao
pensamento conceitual.
Essa apresentação preliminar resulta em um desenho mais
nítido do que se propõe aqui como aproximação entre as teorias de
Piaget e Habermas. Especialmente no que diz respeito às trajetórias
da inteligência da ação ao conceito e do agir instrumental ao agir
comunicativo. Essa analogia permite algumas reflexões, dentre as
quais, destacam-se as que miram as consequências dessa
aproximação para a democracia, para as aspirações emancipatórias e
para a educação, o que poderá ser lido nas considerações finais.
20
21
HABERMAS:
DA RACIONALIDADE INSTRUMENTAL À COMUNICATIVA
_______ ____________ ____________ ____________ ____________ ____________ ____________ ____________ _______________ ____________ ___________ ____________ ____________ _______________ ____________ ____________ ____________ ____________ ____________ ____________ ______________ ____________ ____________ ____________ _______________ ______
O que se deseja com este texto é mostrar a existência de uma
analogia funcional entre os movimentos evolutivos do agir
instrumental ao comunicativo e dos esquemas de ação ao conceito,
descrevendo a dinâmica desse desenvolvimento. Há uma trajetória a
ser percorrida para tanto. Este capítulo está especificamente
reservado à apresentação da contribuição habermasiana a essa
analogia. Antes de iniciar, porém, uma ressalva é importante: não é
possível abordar a obra deste autor em sua totalidade, por conta de
sua vasta extensão. Mesmo assim, é preciso assumir o risco da
subsistência de algumas lacunas de entendimento ao longo do
percurso. O leitor poderá supri-las realizando busca complementar
na obra habermasiana. Contudo, os conceitos capitais, necessários
para que se possa atender ao objetivo proposto serão aqui
apresentados.
Inicialmente, será justificada a adoção de Habermas como
base teórica. Para tanto será discutido o lugar de sua obra entre dois
extremos: da obsolescência até a representação de uma filosofia para
além de seu tempo. Adiante, chega-se a seu conceito de
racionalidade, que funda e sustenta sua Teoria do Agir
Comunicativo. São sublinhados seus contrapontos com relação à
concepção de racionalidade formulada por Max Weber, seu
principal interlocutor nesse assunto. Abre-se uma reflexão sobre o
contexto do agir comunicativo a partir dos conceitos de mundo da
22
vida e sistema. Desse momento, parte-se à distinção entre
racionalidade instrumental e comunicativa, delineando os aspectos
mais relevantes de cada uma dessas modalidades.
Possibilidades e limites da abordagem teórica habermasiana
Ao passo que Habermas é reconhecido como um pensador
enciclopédico, pela vasta gama de áreas do conhecimento, temas e
referências com as quais lida no processo de confecção de seu
pensamento, é também um pensador controverso. Quanto maior o
alcance das áreas com as quais trava seu debate, maior também é o
espectro das críticas que recebe. Elegê-lo uma das referências teóricas
deste estudo implica concordar com seu programa teórico sem deixar
de ter em consideração as ressalvas dirigidas à sua obra.
Dito isso, adiante serão apresentados o contexto histórico,
social e político que influenciaram a formulação de suas ideias, assim
como as transformações econômicas responsáveis por tornar essa
reflexão mais complexa. Serão ressaltadas as principais críticas
recebidas por Habermas. Desde as que têm como alvo seu
racionalismo, seu humanismo, sua ideia de entendimento mútuo,
passando pela crítica ao modelo deliberativo de democracia, até as
que se referem às questões de gênero e movimentos sociais.
Sua vasta produtividade acadêmica teve início precoce. Há
muito, dentro das Ciências Humanas e Sociais, vem se constituindo
leitor de seu próprio tempo histórico. Filho da Escola de Frankfurt,
ancorou seu olhar acadêmico no cenário das Guerras Mundiais e do
Holocausto, na primeira metade do século passado. Dessa raiz, nasce
sua crítica à racionalidade que, por sua vez, permitiu a elaboração da
23
Teoria do Agir Comunicativo. Resulta dessa biografia que sua
Teoria esteve e permanece vinculada a uma determinada leitura da
realidade.
A construção de sua crítica se apoiou em sua experiência
durante o período nazista. Este, um movimento político e cultural,
sim, contudo, também dotado de forte viés econômico. Isso
considerado, não se pode perder de vista que a dinâmica econômica
mundial já não se orienta mais pelos mesmos padrões que os da
Alemanha nazista. Os fins do capitalismo contemporâneo são
outros. As ferramentas e estratégias de que lança mão para sua
efetivação também são distintas. E isso exige um esforço um tanto
maior para compreender a proposição habermasiana.
O conjunto de diferenciações ocorridas ao longo da história
do capitalismo culmina na forma hodierna do neoliberalismo. O
neoliberalismo não é mera continuidade dentro de um macroprojeto
de natureza capitalista. Não se trata somente de “uma ideologia, um
tipo de política econômica. É um sistema normativo que estendeu
sua influência ao mundo inteiro, estendendo a lógica do capital a
todas as relações sociais e a todas as esferas da vida” (DARDOT;
LAVAL, 2016, p. 7). A grande esperança das esquerdas era de um
colapso no capitalismo e uma consequente tomada de consciência
global realocando a humanidade nos trilhos de sua emancipação.
Porém, a lógica engendrada pelo neoliberalismo tem caráter
autoimune. Ou seja, o capitalismo neoliberal se fortalece a cada crise
por ele mesmo disparada.
As táticas de enfrentamento desse estado de coisas
encontram muitos obstáculos. O sistema neoliberal possui alto nível
24
de complexidade, grande quantidade e diversidade de atores nas
áreas política, burocrática e financeira (despersonalizando as relações
e dificultando a identificação de “quem” ou “o que” deve ser
combatido), persuasiva presença que instiga alto índice de
competitividade entre os sujeitos. Aliado a isso, promove sequenciais
crises econômicas, força a readequação do papel do Estado (de
mantenedor das mínimas garantias sociais a sabotador de suas
próprias finalidades), atua pelo enfraquecimento da organização dos
interesses coletivos populares, levando, por fim, a uma conjuntura
obtusa que dissuade qualquer possibilidade de superação que tenha
origem comunicativa. Nesses termos, o neoliberalismo é
fundamentalmente antidemocrático.
Para além de prática econômica ou ideologia, o
neoliberalismo instaura nova racionalidade. Seu espírito é a
generalização da concorrência enquanto modo de ação e da empresa
como ideal de subjetivação. A primeira das generalizações põe o
outro no lugar de adversário. Na sociedade em que as conquistas
válidas são as individuais e, portanto, só adquirem relevo quando
comparadas ao fracasso alheio, o outro é um inimigo a ser vencido.
Isso se reflete em uma ética da concorrência, que coloca a centração
do eu como meta última da busca humana. O sucesso na perseguição
dos fins dessa ética depende de uma administração eficiente de si
mesmo realizada pelo sujeito.
É nesse ponto que passa a fazer sentido a segunda
generalização, da empresa como modelo de subjetivação. As
tecnologias de si, com vista ao sucesso entranham-se cada vez mais
profundamente no modo de ser dos sujeitos. Estes, buscam
resultados cada vez melhores pelo aprimoramento dessas
25
tecnologias. A história do capitalismo é também a história da
introjeção dos valores instrumentais até a dimensão subjetiva. Em
seu atual momento, atinge os meandros da formação da
subjetividade humana.
Esses dois aspectos, a concorrência nas relações e a vida como
empreendimento, instalam-se de forma análoga tanto na dimensão
subjetiva quanto nas dimensões sociológica e política. Seu caráter
desarticulador, que implica uma “desdemocratização”, acessa
finalmente o patamar da cultura e promove o surgimento de uma
nova razão. Diferentemente do que as leituras clássicas do
neoliberalismo disseram até o momento, para Dardot e Laval, não
necessariamente chegou-se a este ponto por uma articulação política
sistemática e bem pensada. Muito pelo contrário, eles defendem que
a virada do neoliberalismo tenha se estabelecido “ao longo do
próprio confronto, se imposto a forças muito diferentes em razão da
própria lógica do confronto e, a partir desse momento, feito o papel
de catalisador, oferecendo um ponto de encontro a forças até então
relativamente dispersas” (DARDOT; LAVAL, 2016, p. 189). Esse
ponto dá destaque a uma voz diferente e muito importante para a
discussão sobre a superação do caráter instrumental da razão, o
conflito.
Concordando ou não com a tese do surgimento de uma nova
racionalidade de bases fundadas na sociedade neoliberal, é razoável
considerar que os reflexos dessa transformação social toquem as
estruturas da razão. Ter em conta essa possibilidade implica a
elaboração de outra questão. Se o contexto econômico, político e
social contemporâneo instaurado pelo neoliberalismo sugere o
aparecimento de uma nova racionalidade, ainda tem validade o
26
modelo habermasiano sustentado no binômio racionalidade
instrumental/comunicativa? Seriam a crítica à racionalidade
instrumental da Teoria Crítica e a proposição da racionalidade
comunicativa enquanto sua antagonista, possibilidades aceitáveis de
resposta aos problemas que Habermas propõe resolver? Ou ainda, é
possível afirmar ser Habermas um pensador obsoleto frente aos
desafios contemporâneos? Essa é uma forma de colocar a questão da
adequação do autor alemão ao tempo presente.
Contudo, talvez Habermas não esteja estagnado em algum
lugar do passado, mas, de modo inverso, fixado em projeções
futuras. A proposição habermasiana da Teoria do Agir
Comunicativo pressupõe um sujeito capaz afetiva, moral e
cognitivamente de interagir com outrem tendo por meta comum o
entendimento mútuo. Para isso, haveriam de ser atributos desse
sujeito a capacidade de descentração de seu ponto de vista, a postura
empática, a capacidade de coordenar perspectivas com outros
sujeitos, de sustentar seus argumentos articulando sua correção
normativa, pretensões de verdade objetiva e de veracidade, a
capacidade de transitar entre as perspectivas de um falante nas
primeira, segunda e terceira pessoas. Esse sujeito é ideal e as
condições concretas para sua existência não são acessíveis a todas as
pessoas. Habermas postula um sujeito que ainda não existe e o
caminho para que chegue a se tornar concreto fica apenas implícito
em sua obra.
Se o sujeito habermasiano for compreendido como um
sujeito situado no futuro, é possível estender tal entendimento à sua
teoria, vendo-a como também ancorada no amanhã. A teoria do agir
comunicativo e seu sujeito são o esforço de seu autor não apenas de
27
realizar a leitura crítica de seu tempo, como também de propor um
paradigma alternativo para além do tempo presente. Nesse sentido,
é possível que Habermas seja interpretado por seus leitores como um
autor à frente de seu tempo, na melhor acepção, ou, por outra, como
um pensador desconectado dos contextos reais onde hoje se produz
a vida.
É necessário relativizar essas colocações sobre o ajuste
temporal da obra habermasiana, trazendo ponderações a uma e a
outra. Há potências que não se pode ignorar, mas também
limitações na obra do pensador alemão diante das quais não é
possível cerrar os olhos. De forma genérica, Habermas avança
bastante a tarefa de revelar as possibilidades ainda inexploradas da
racionalidade, no entanto, seu sistema teórico deixa a desejar em
outras dimensões. A seguir, algumas delas serão problematizadas.
Habermas é um pensador multidisciplinar e, como tal, traz
prismas distintos não apenas no que diz respeito aos conteúdos, mas
também quanto às formas de trabalhar os problemas. Assim,
enquanto cientista social, por exemplo, não poderia abster-se de
considerar o real a partir de elementos concretos. Tampouco,
filósofo, poderia prescindir do exercício especulativo que por vezes
demanda que o pensamento se liberte das amarras do tempo. Que
Habermas tenha proposto um sujeito do agir comunicativo que
supera o sujeito comum e o tenha feito a partir da leitura crítica de
seu próprio tempo e da história, então, demonstra o caráter
dinâmico de seu pensamento, que entretece as perspectivas
sincrônica e diacrônica.
28
Ele também conserva como característica o debate ativo com
seus interlocutores. Embora não o exima das acusações de
obsolescência, esse traço demonstra sua inclinação em não cristalizar
seu pensamento, buscando atribuir a ele um caráter dinâmico.
Tendo ou não sucesso em sua empreitada, Habermas parece
esforçar-se por manter sua obra como um sistema aberto, capaz de
atualizar-se em função das críticas recebidas. Isso o vincula ao
pensamento de sua época e também o desprende do teor categórico
de suas primeiras publicações. A mobilidade de seu pensamento é
por ele perseguida dialogicamente.
A percepção de obsolescência da obra de Habermas pode
entrar pela mesma porta da crítica filosófica à racionalidade. Essa
crítica se fortalece historicamente com as palavras de Friedrich
Nietzsche, que se contrapõem ao predomínio do Apolíneo em
detrimento do Dionisíaco. Esse posicionamento filosófico situa
“Nietzsche como ponto de inflexão” da entrada na pós-modernidade
(HABERMAS, 2000b, p. 121). No séc. XX, o método e o fazer
filosófico de Nietzsche ressonam em Michel Foucault. Ele é sucessor
da crítica à modernidade, “cientista cético, que deseja desvelar a
perversão da vontade de poder, a revolta das forças reativas e a
origem da razão centrada no sujeito com métodos antropológicos,
psicológicos e históricos” (HABERMAS, 2000b, p. 141),
juntamente com outros como Bataille e Lacan. Desde aí, em
diferentes escalas, circulam com crescente intensidade no âmbito
acadêmico interrogações sobre distintos aspectos da racionalidade.
As mais radicais delas advogam pela extinção da razão. Por essa ótica,
Habermas, que defende a tese de que o potencial da razão ainda não
se esgotou, está obsoleto.
29
Habermas defende sua linha de trabalho no debate que trava
com os sucessores de Nietzsche. Ele relembra que o diagnóstico
foucaultiano a respeito das aporias da filosofia da consciência já fora
outrora realizado por Schiller, Fichte, Schelling e Hegel. Mesmo
assim, a teoria do poder não foi capaz de demonstrar uma solução
plausível, senão que produzindo outras aporias. Ele aconselha
“repercorrer o caminho do discurso filosófico da modernidade até o
seu ponto de partida para reexaminar mais uma vez em suas
encruzilhadas a direção então adotada” (HABERMAS, 2000b, p.
412). Essa intenção está viva em suas lições, mas não pode ser
encontrada do mesmo modo na obra de Foucault, por exemplo.
Portanto, sua teoria não acompanha os propositores da
racionalidade moderna, tampouco seus críticos pós-nietzschianos.
Mas perscruta o discurso filosófico desde sua gênese na modernidade
para propor uma teoria da racionalidade, agora, sobre novas bases.
Torna-se compreensível, logo, que uma parcela dos pensadores da
pós-modernidade o perceba como circunscrito pelos limites da razão
moderna. Essa crítica ele próprio se incumbe de desmistificar,
justificando as razões para a adoção de seu programa.
Com sua defesa da racionalidade, Habermas propõe uma
alternativa à ideia de razão moderna, dispensando dela alguns
aspectos, mas mantendo e valorizando outros. Dos traços que
preserva, destacam-se os que conferem um caráter inegavelmente
humanista à sua proposta. Se humanismo pode ser entendido como
“a atitude filosófica que faz do homem o valor supremo e que vê nele
a medida de todas as coisas” (JAPIASSÚ; MARCONDES, 2001, p.
96), e esse homem é criador de si mesmo e gerador da natureza
humana por meio da história, então, de fato o autor da Teoria do
30
Agir Comunicativo não poderia ser mais humanista. A centralidade
do humano enquanto potência e horizonte é ponto forte em sua
teorização.
Sobre esse acentuado humanismo recai mais uma das
objeções a seu trabalho. Dentre as críticas já tecidas ao humanismo,
tem destaque a que realizou o filósofo Michel Foucault: “o homem
não é o mais velho problema nem o mais constante que se tenha
colocado ao saber humano [...] é uma invenção cuja recente data a
arqueologia de nosso pensamento mostra facilmente. E talvez o fim
próximo” (FOUCAULT, 1999, p. 536). A centralidade humana,
que na teoria habermasiana aparece como argumento inegável, é
relativizada pelo pensador francês. O lugar de Deus foi ocupado na
modernidade pelo conceito de homem. Foi trocada uma figura de
autoridade por outra, permanecendo sua sombra. Nietzsche apela
para que a sombra de Deus seja vencida (NIETZSCHE, 2005
[1882], p. 105). A sujeição do espírito à divindade suprema, que
obscurece o desenvolvimento máximo da potência humana, não se
encerra com a morte de Deus. Ela apenas é transferida para o homem
enquanto símbolo, um ideal de homem. A ciência assume o lugar da
teologia. A sombra, portanto, é projetada hoje na forma do
humanismo.
Os estudiosos da Teoria do Reconhecimento também têm
ressalvas com relação ao trabalho de Habermas. Um de seus
expoentes é Axel Honneth, diretor do Instituto de Pesquisa Social,
berço da Escola de Frankfurt, ex-assistente de Jürgen Habermas.
Com base na teoria do reconhecimento, do jovem Hegel, ele
estabelece um modelo teórico segundo o qual a ausência de
reconhecimento em três esferas distintas amor, direito e
31
solidariedade (HONNETH, 2009b) gera demandas individuais.
Essas demandas, quando atendidas, possibilitam aos indivíduos que
se refiram a si mesmos enquanto sujeitos. Quando não atendidas,
são os principais motores dos conflitos que movem as relações
sociais. Nesse sentido, Honneth desloca o centro do equilíbrio das
relações para a dimensão do conflito, diferentemente de Habermas,
que o coloca na busca por entendimento mútuo.
O advento da luta pelo reconhecimento como contraste à
Teoria do Agir Comunicativo abre um flanco de possibilidades, mas,
nem por isso subjuga esta como superada. Um exemplo disso é que
Habermas enfatiza em obras posteriores o papel do Direito enquanto
medium das relações entre sociedade e Estado, mundo da vida e
sistema. Sem o Direito, a democracia deliberativa não teria
condições de existência. Honneth aposta no conflito. Para ele, a
desobediência civil e outras formas de manifestação popular
contemporâneas são recusas a essa forma institucionalizada de
organização da vida. Contudo, “a proposta de Habermas de
compensar os déficits normativos da economia e do Estado pelo
direito parece mais efetiva e realista do que uma confiança tão grande
no amor e naquilo que é infenso à juridicização” (DUTRA, 2017,
p. 165). Ou seja, a depender do ponto de vista, a proposta do
programa habermasiano, em sua busca por suprir lacunas
sociológicas da comunidade ideal de comunicação pelo direito, pode
ser interpretado como mais consistente do que o sugerido por
Honneth, que deposita demasiada crença no poder das mobilizações
não racionais.
Outra crítica à limitação habermasiana se aproxima pela via
das ciências políticas, especialmente pelos estudos sobre a
32
democracia. A elaboração da Teoria do Agir Comunicativo enseja
um modelo de democracia deliberativo. As deliberações, por sua vez,
seguem o modelo instaurado pela racionalidade comunicativa, que
se orienta pelas seguintes características:
1) a participação na deliberação é regulada por normas de
igualdade e simetria; todos têm as mesmas chances de iniciar
atos de fala, questionar, interrogar e abrir o debate; 2) todos
têm o direito de questionar os tópicos fixados no diálogo; e (3)
todos têm o direito de introduzir argumentos reflexivos sobre
as regras do procedimento discursivo e o modo pelo qual são
aplicadas ou conduzidas (BENHABIB, 2007, p. 51).
Chantal Mouffe opõe-se à proposta deliberativa e desenha
um modelo agonístico de democracia. Segundo ela, a democracia
deliberativa classifica-se “em duas grandes escolas: a primeira
amplamente influenciada por Rawls, a segunda por Habermas”
(MOUFFE, 2005, p. 13). Ambas são suscetíveis à sua crítica e
podem ser suplantadas por seu modelo alternativo. Mouffe explica
que
De fato, a deliberação pública livre e desimpedida de todos
sobre matérias de interesse comum é uma impossibilidade
conceitual, dado que formas particulares de vida que são
apresentadas como seus “empecilhos” são sua própria condição
de possibilidade. Sem elas, a comunicação ou a deliberação
jamais adviriam. Não há justificação alguma para atribuir
privilégio ao chamado “ponto de vista moral” governado pela
racionalidade e pela imparcialidade e em que um consenso
racional universal poderia ser alcançado (MOUFFE, 2005, p.
19).
33
A tendência universalizante, segundo o ponto de vista da
autora, subjuga as formas particulares de vida, reduzindo as
possibilidades de efetivação de uma democracia pluralista. Em nome
do consenso, os processos deliberativos levam, em última instância,
à anulação do particular, do diferente, do minoritário. No entanto,
contraditoriamente, são esses mesmos elementos a razão de ser da
deliberação, pois, a partir deles, sujeitos buscarão entenderem-se
sobre algo no mundo. O modelo agonístico, por sua vez, almeja
integrar esses elementos retirando a racionalidade de seu lugar
privilegiado, sendo “muito mais receptivo do que o modelo
deliberativo à multiplicidade de vozes que as sociedades pluralistas
contemporâneas abarcam e à complexidade de sua estrutura de
poder” (MOUFFE, 2005, p. 22). Então, a ênfase racionalista da
proposta de Habermas é deficiente por não integrar a dimensão das
paixões e afetos, que ampliaria o horizonte teórico para a
contemplação de representatividades minoritárias.
Em linha semelhante estão as críticas feitas por Nancy
Fraser, que tematizam as questões de gênero. Procurando o
enquadramento de uma teoria feminista-socialista crítica em relação
ao capitalismo e ao estado-providência, olha para a Teoria Crítica de
Habermas apontando falhas no que diz respeito ao gênero. A
principal dessas lacunas é a oposição categórica que Habermas
aponta entre as instituições do mundo sistêmico e as instituições do
mundo da vida. Uma Teoria Crítica que não seja cega ao gênero,
como a habermasiana, não pode colocar “a família nuclear chefiada
pelo homem e a economia oficial regulada pelo Estado em dois lados
opostos da divisão conceitual principal” (FRASER, 2003, p. 88). A
tese da colonização do mundo da vida pelo sistema não leva em
34
consideração o fato da dominação das mulheres não ser restrita a
uma ou outra secção, não havendo garantias de que o deslocamento
da racionalidade em direção comunicativa venha suprir as demandas
de grupos sociais minoritários, excluídos da esfera pública social. Daí
conclui que Habermas afasta a Teoria Crítica dos movimentos
sociais, reduzindo seu caráter eminentemente político.
As críticas aqui listadas dão ideia de que a opção de
Habermas por determinados caminhos leva-o a implicações ora
defensáveis, ora não. Algumas dessas escolhas (como o viés
racionalista, por exemplo) trazem em seu bojo, juntamente com boas
soluções, algumas dificuldades insolúveis. Sopesados os efeitos
colaterais, Habermas ainda pode trazer respostas consistentes a
questões atuais. Se o potencial da razão não está ainda totalmente
explorado, em sua teorização ainda há muito por encontrar. Essa é
uma das razões que justificam sua escolha como referência teórica e
que, também, animou a escrita deste livro.
O conceito de racionalidade de Marx a Weber
Na contramão de algumas das correntes pós-modernas do
pensamento, que advogam a favor do fim da razão, Jürgen
Habermas aposta no contrário. Seu propósito é o resgate do
potencial emancipatório da racionalidade pela via da comunicação.
Com isso, conduz a trilha do pensamento filosófico em outra
direção. Essa guinada afeta a própria Teoria Crítica, movimento
filosófico do qual se reconhece como integrante. Por conta disso,
Habermas é associado à sua segunda geração, pois seu pensamento
se distingue em alguns aspectos importantes do trabalho dos
35
pioneiros da Escola de Frankfurt como Theodor Adorno, Max
Horkheimer, Herbert Marcuse e Walter Benjamin.
Ele sustenta que os radicais ataques à razão, desde Nietzsche
até parte do pensamento pós-moderno, apresentam um déficit
histórico, pois se negam a reconstrução crítica da história da
racionalidade. Eles repetem o erro que manteve a modernidade
aprisionada ao paradigma da racionalidade instrumental. Para
Habermas, a “hostilidade metodológica contra a razão pode ligar-se
à ingenuidade histórica com que as investigações desse tipo se
movem hoje na terra de ninguém, situada entre a argumentação, a
narrativa e a ficção” (HABERMAS, 2000b, p. 422). Se, por um
lado, a modernidade não foi capaz de enxergar na linguagem um
elemento de superação de sua própria lógica, também seus críticos
não conseguiram ver além e preferiram atacar a razão sem antes
examiná-la historicamente de modo suficiente. Esse é o argumento.
Na obra Para a Reconstrução do Materialismo Histórico
(HABERMAS, 1990), os leitores poderão encontrar integralmente
o ataque de Habermas aos críticos mais duros da racionalidade
moderna.
A bandeira que o trajeto teórico habermasiano levanta é a de
que foi apressada a despedida da modernidade, tal qual anunciada
por alguns pensadores da chamada pós-modernidade. Existe um
potencial ainda inexplorado na razão. Ela não chegou ao
esgotamento de suas possibilidades. Defender isso não faz de
Habermas baluarte da conservação da razão moderna. Sua raiz na
Teoria Crítica faz dele um inconformado com a racionalidade,
entretanto, em seu caráter instrumental. Tanto é assim que, para ele,
tampouco “na razão comunicativa ressurge o purismo da razão pura”
36
(HABERMAS, 2000b, p. 420). Portanto, ao negar o fim da razão
também não está propondo a ressurreição da conceituação clássica
de razão em seu lugar.
Feitas essas considerações, chega-se às seguintes questões: se
as ponderações a respeito da razão são pertinentes e, mesmo assim,
não são suficientes para que seja decretado seu fim, que aspectos da
racionalidade são rejeitáveis e quais permanecem no lugar? De que
forma o conceito de racionalidade habermasiano rompe com as
ideias modernas? De que modo esse conceito é por ele reconstruído
sobre outras bases? Afinal, de que nos fala Habermas quando fala em
razão?
Para ele, esse é o tema principal da filosofia. “Pode-se dizer,
até mesmo, que o pensamento filosófico tem sua origem no fato de
a razão corporificada no conhecer, no falar e no agir tornar-se
reflexiva” (HABERMAS, 2012b, p. 19). Quer dizer, filosofar é
pensar a racionalidade das ações, da linguagem e da busca pelo
desvendar do mundo. A função da filosofia, nesse caso, deixa de ser
a de indicadora de lugar e juiz das ciências, das artes, da moral
(HABERMAS, 2013), mas a de “assegurar uma abertura
permanente de todos os saberes na busca de fundamentos universais
capazes de justificar os conhecimentos e as ações diante de todos os
concernidos” (MÜHL, 2011a, p. 1049). Ou seja, guardadora de
lugar (guardiã da racionalidade) e intérprete.
Na modernidade, acreditava-se que o modelo de razão
vigente conduziria a humanidade ao esclarecimento. Kant (2005
[1784]) resume esclarecimento como a saída do estado de
minoridade, sendo esta o contrário da autonomia. Se nos
37
instruíssemos e avançássemos técnica e cientificamente,
caminharíamos naturalmente rumo ao esclarecimento. Porém, esse
projeto não se concretizou tal qual profetizara Kant. O
conhecimento não está desvinculado do interesse (HABERMAS,
2014) e é atravessado pelas crenças da tradição e pela dinâmica do
poder.
Por isso, em nossa civilização há uma disjunção entre o
avanço do conhecimento científico e o desenvolvimento no sentido
humano. E essa é a maior limitação da racionalidade moderna, que
se traduz em sua característica mais marcante, a instrumentalidade.
A saída dessa condição é objeto do interesse da Teoria Crítica e
também de algumas especulações teóricas pós-modernas. Habermas,
de sua parte, dedica-se à reconstrução hermenêutica da ideia de
razão, com interesse em compreender onde está o entrave que
impede trazer à tona sua dimensão comunicativa.
A busca de Habermas começa no marxismo. Assim como o
fizeram seus antecessores da Escola de Frankfurt.
Não é possível refazer o percurso da história da teoria crítica
sem compreender sua dívida com a obra de Marx. Qualquer
um dos nomes mais importantes que compõem esta tradição de
pensamento de Max Horkheimer até seus mais recentes
representantes mostraram que o confronto crítico com a
teoria de Marx acompanha necessariamente toda renovação de
seus diagnósticos de época bem como de seus conceitos
centrais. O jargão “com Marx contra Marx” continua presente
em praticamente todos os seus mais diversos representantes.
Mas este jargão guarda nuances decisivas para a compreensão
das muitas recepções de sua teoria. Tais recepções nunca são
desinteressadas. Elas são motivadas tanto por questões
38
históricas e políticas desafiadoras quanto por necessidade de
adequação teórica. O que se evidencia, no entanto, é o caráter
não dogmático do reconhecimento da força de sua teoria
(MELO, 2016, p. 41).
Habermas estabeleceu as bases da proposição de suas ideias
sobre a racionalidade comunicativa apoiado em leituras da obra
marxiana. A necessidade de reformulação do conceito de razão, em
íntima relação com a atualização do diagnóstico de época,
impulsionou-o a acompanhar seus predecessores com o jargão “com
Marx contra Marx”. Tendo compreendido a importância da adoção
da categoria “trabalho” para a análise das lutas por emancipação ele
adquire condições para contraditar a forma como Marx a concebe.
Para compreender a crítica de Habermas a Marx é preciso
lembrar que este põe o problema do desenvolvimento da sociedade
em duas esferas distintas e complementares: as forças produtivas e as
relações de produção. A primeira diz respeito à dimensão do
desenvolvimento tecnológico propriamente dito. A segunda, faz
menção às lutas de classe e aos processos emancipatórios. Ambas
estão contidas na categoria trabalho. A emancipação seria alcançada
pela tomada de consciência dos sujeitos explorados em relação às
contradições internas dessa lógica. Mas isso não ocorre, porque o
aprimoramento das relações de produção gera um contexto social
em que tais contradições são cada vez menos perceptíveis. Diante
dessa dificuldade, nem o sujeito do conhecimento, nem o sujeito da
ação, que Marx propõe, são capazes de executar a meta
revolucionária.
Marx não logra desvincular-se das categorias pertencentes ao
paradigma do sujeito (MÜHL, 2011b) e por isso as duas dimensões
39
forças produtivas e relações de produção permanecem habitadas
pela mesma lógica, da razão instrumental. Ele considera o trabalho
a matriz unitária de racionalidade, negligenciando a categoria
interação e, com isso, resta que “sem a mediação simbólica, não é
possível a emancipação” (MÜHL, 2011b, p. 20). A emancipação
está, pois, “em um outro nível, fora das relações imediatamente
orientadas pela racionalidade instrumental” (MACHADO, 1988, p.
39). Ela reside no agir comunicativo, que gera a racionalização de
conteúdos simbólicos, convertendo-se em oportunidades
emancipatórias. Se Marx olhasse para além do trabalho, percebendo
que ao seu lado existe a interação, superaria o paradigma da filosofia
do sujeito pelo da intersubjetividade, reoxigenando a luta por
emancipação.
As ideias de Habermas sobre a racionalidade tomam Marx
por base, contudo, nutrem-se também da filosofia da Escola de
Frankfurt. Partindo de argumentos com base psicanalítica, os
pensadores da Teoria Crítica previram que a trajetória da razão teria
um desfecho trágico. Para eles, o caráter instrumental da razão tendia
a se densificar gradativamente ao longo da história. E esse seria um
caminho sem volta. Um impedimento ao sonhado esclarecimento.
A racionalidade instrumental, de que se falou acima, é definida como
aquela estritamente relacionada com meios e fins (HORKHEIMER,
2002 [1947]), uma razão menor.
Esses teóricos desconfiaram da herança recebida do
iluminismo da ciência e técnica como exercício pleno do domínio
do homem sobre a natureza, gerando o sonho de glória da
humanidade por meio de seu esclarecimento. A crítica à razão feita
no seio desse movimento intelectual permitiu que olhassem para a
40
expectativa moderna de esclarecimento, chegando ao diagnóstico da
impossibilidade da redenção da humanidade por essa via
(ADORNO; HORKHEIMER, 1985 [1947]; HORKHEIMER,
2002 [1947]). Suas conclusões indicaram que a busca pela verdade
não traz consigo o desenvolvimento do senso de justiça. O alto nível
tecnológico pode dividir lugar com um baixo nível civilizatório, sem
que, por conta disso, suas contradições se tornem insustentáveis. Foi
isso que Adorno (1995) caracterizou como barbárie.
O desenvolvimento do conhecimento/técnica e a agudização
das injustiças sociais coexistem tranquilamente numa relação de
retroalimentação. Não basta, pois, superar o estado de minoridade;
é preciso tomar consciência dos entraves a essa superação e redefinir
as lutas sociais em função de sua remoção, ou seja, da retirada de si
das mãos que aprisionam, da emancipação. A questão central posta
a partir das análises da Teoria Crítica não é apenas a do
esclarecimento, mas, principalmente, a da emancipação.
Para forjar seu conceito de racionalidade, Habermas vai a
seus antecessores da Escola de Frankfurt e com eles compartilha a
mesma crítica feita à razão iluminista. Retorna também ao
marxismo, de onde infere que considerar a categoria trabalho, sem
ter em conta a interação, não gera emancipação. Essas duas
categorias estão circunscritas pelo paradigma da filosofia do sujeito,
o que torna as conclusões marxianas incompletas. Habermas explica:
Enquanto os conceitos básicos da filosofia da consciência
obrigarem a compreender o saber exclusivamente como um
saber sobre algo no mundo objetivo, a racionalidade é medida
pela maneira como o sujeito solitário se orienta pelos conteúdos
de suas representações e de seus enunciados. A razão centrada
41
no sujeito encontra sua medida nos critérios de verdade e êxito,
que regulam as relações do sujeito que conhece e age segundo
fins com o mundo de objetos ou estado de coisas possíveis
(HABERMAS, 2000b, p. 437).
Habermas entende que a racionalidade não é o próprio saber
e, também, “tem menos a ver com a posse do conhecimento”
(HABERMAS, 2012a, p. 31) que com a capacidade para adquiri-lo
e aplicá-lo. Ele define a racionalidade como sendo “a disposição dos
sujeitos capazes de falar e de agir para adquirir e aplicar um saber
falível” (HABERMAS, 2000b, p. 437). Então, para encontrar a
racionalidade é preciso procurá-la nas exteriorizações verbais ou não
verbais dos sujeitos aptos a falar e agir. No caso das exteriorizações
verbais “manifesta-se o saber de maneira explícita” (HABERMAS,
2012a, p. 31). Já quanto às ações, o saber está implícito. Porém, o
elemento mais forte dessa asserção é a falibilidade do saber. Isso
subverte o conceito tradicional de verdade, que passa a ser uma
pretensão a ser validada em um contexto intersubjetivo.
Na Teoria do Agir Comunicativo, analisa o uso da expressão
“racional” com o propósito de “aclarar as condições de
racionalidade, tanto de exteriorizações como de sujeitos capazes de
agir e de usar a linguagem” (HABERMAS, 2012a, p. 92). Avança
situando a racionalidade desde a compreensão mítica de mundo,
passando pela compreensão religiosa-metafísica, chegando à
compreensão moderna. Com isso, demonstra a existência de
processos de aprendizagem social, marcadores do desenvolvimento
da autocompreensão geral das imagens de mundo.
Nesse ponto, introduz seu debate com a “teoria da
racionalização de Max Weber” (HABERMAS, 2012a, p. 263), de
42
cuja análise extrai uma importante inconsistência. Weber entende “a
modernização como resultado de um processo histórico-universal de
racionalização” (HADDAD, 1996, p. 147) e explica como essa
racionalização pode se enveredar por três caminhos distintos: da
racionalidade cognitivo-instrumental, estético-prática e moral-
prática (HABERMAS, 2012a, p. 422). Essas três dimensões no
sistema teórico de Weber não se harmonizam na vida das sociedades
modernas. Do mesmo modo, não são determinantes da prática
comunicativa cotidiana nessas mesmas sociedades. Por qual motivo
isso se daria? Esse é o ponto trazido à luz na teoria weberiana por
Habermas.
Por haver vinculado suas premissas mais básicas à teoria da
ação, “Weber havia prejulgado de tal maneira essa pergunta, que os
processos de racionalização social só poderiam ser considerados sob
o ponto de vista de uma racionalidade finalista” (HABERMAS,
2012a, p. 475). A deficiência da teoria da ação de Weber é
compensada pela Teoria do Agir Comunicativo. Esta, tem por
característica “não se fixar na racionalidade teleológica como aspecto
único sob o qual se possam criticar ou corrigir as ações”
(HABERMAS, 2012a, p. 574). A teoria da ação é o ponto central
sobre o qual divergem os posicionamentos de Habermas e Weber e
exatamente sobre esse ponto repousa a esperança de Habermas na
racionalidade.
A análise weberiana é de que o processo de racionalização
moderna teria se dado em duas fases: a) desencantamento do
mundo, seguida de b) “processo de racionalização das estruturas e
das ações social, política e econômica, que caracterizaria a fase da
consolidação do capitalismo liberal na Europa e na América do
43
Norte” (BANNELL, 2013, p. 20). A leitura feita por Weber revelou
a existência de um processo histórico onde a primeira fase (a) é
sucedida pela segunda (b). Desse diagnóstico, concluiu que a
modernidade criara a própria “jaula de ferro” na qual se encarceraria,
pois o avanço no processo de racionalização produziu o afastamento
entre a dimensão moral e a dimensão da razão. Essa tese inspirou a
primeira geração da Teoria Crítica e a elaboração do conceito de
barbárie.
Habermas (2012a) contesta a existência da sequência entre
essas duas fases e aponta esse como sendo o erro de Weber. A
instrumentalização da institucionalização racional das esferas social,
política e econômica não foi consequência da ascendência de uma
ética vinculada ao protestantismo. Não houve nisso uma relação de
causalidade. Para Habermas, a “passagem das sociedades (europeias)
tradicionais às sociedades capitalistas tardias” (BANNELL, 2013, p.
23), é um único processo de racionalização da sociedade moderna,
constituído por dimensões distintas. Uma das dimensões abarca a
ética e a cultura, a outra, o Estado e a economia capitalista. Mundo
da vida e sistema.
Mundo da vida e mundo sismico
Mundo da vida e sistema são conceitos fundamentais para a
compreensão do modelo proposto por Habermas. Essas dimensões
dizem respeito, respectivamente, à reprodução simbólica e à
reprodução material da sociedade. Elas integram um único processo
de racionalização. A relação entre elas é importante porque
representa um modelo de compreensão dos processos de
racionalização do mundo mais alinhado com o diagnóstico de época.
44
Mundo da vida, Lebenswelt em língua alemã, é um termo
anterior à teoria habermasiana. Em Habermas, surge inicialmente
inspirado na definição dada por Husserl. Este, por estar certo de que
Kant deixara de examinar os pressupostos do conhecimento
objetivo, caracteriza mundo da vida como um precedente desse
conhecimento. Uma espécie de arcabouço esquecido e
inquestionável que confere sentido às ciências. Um horizonte dado
de antemão. Esse mundo, “configura uma espécie de saber holístico,
o qual envolve uma totalidade de convicções, de certezas que não
podem ser demonstradas objetivamente” (SIEBENEICHLER,
2018) e, por isso, apenas acessível a partir do próprio sujeito em
tempo e espaço presentes, no aqui e agora. Essa abordagem traz
fortemente impressos os traços da fenomenologia. Todavia, a
arqueologia do conceito de mudo da vida, executada por Habermas,
o torna mais amplo que o husserliano.
Goergen (2004, p. 125), sintetiza a ideia dizendo que “numa
palavra, o mundo da vida é o saber de fundo comunicativamente
estruturado, a partir do qual ordenamos nossos processos de
entendimento e justificamos nossas ações”, um pano de fundo
constituído por temas em princípio não problematizáveis, mas
pressupostos no contexto da ação comunicativa.
A essência dessa definição é mantida por Habermas ao longo
de sua obra, embora o papel que a ela é atribuído se transforme. Em
trabalhos mais recentes, confere outro status ao mundo da vida, não
mais o considerado ideológico e parcial, mas matéria prima
primordial no processo de construção de novas verdades e valores
universais.
45
Cabe destacar que, se em Conhecimento e interesse (CI) e em
outros textos da fase inicial da vida intelectual do autor, o
mundo da vida é refúgio de falsa consciência e de ideologias,
nas obras mais recentes ele passa a ser tratado como fonte
geradora das idealizações que tornam possível o surgimento das
verdades e dos valores de natureza universal (MÜHL, 2016, p.
101).
No mundo da vida estão guardadas as condições para a
manifestação do potencial emancipatório da humanidade,
concretizável por meio do agir comunicativo. Os participantes do
processo de entendimento destacam do mundo da vida assuntos
sobre os quais não são capazes de concordar a priori e transformam-
nos em objeto da negociação linguística. Satisfeitas as condições do
agir comunicativo, tendo sido algum grau de entendimento mútuo,
o tema (sobre o qual não mais se discorda igualmente) volta a ser
parte do universo do mundo da vida. “O agir comunicativo é o
mecanismo central da reprodução social no mundo da vida”
(BANNELL, 2013, p. 81), quer dizer, o gérmen emancipatório está
contido na própria dinâmica do mundo da vida.
Entendidos o conceito de mundo da vida e o lugar do agir
comunicativo enquanto seu motor social, pode-se compreender a
emancipação como algo acessível à humanidade. Por quais motivos
então ainda não foi possível atingi-la? A resposta dada por Habermas
é de que “há outros mecanismos especificamente, dinheiro e poder
que operam nos subsistemas da sociedade” (BANNELL, 2013, p.
81) e exercem força antagônica às da emancipação. Essa constatação
nos dirige ao conceito que complementa o de mundo da vida, o
sistema:
46
Com auxílio desse conceito é possível descrever aquelas
estruturas societárias que asseguram a reprodução
material e institucional da sociedade: a economia e o
Estado. Trata-se, neste caso, de dois subsistemas da
sociedade que desenvolveram certos mecanismos auto-
reguladores: o dinheiro e o poder que asseguram a
"integração sistêmica". No interior do sistema a
linguagem é secundária, predominando a ação
instrumental ou estratégica. O sistema é regido pela razão
instrumental (FREITAG, 1995, p. 141).
O sistema tende a se tornar cada vez mais complexo e,
gradativamente, menos sujeito à influência de qualquer
normatividade e mais alheio ao domínio comunicativo. O sistema
se distancia do mundo da vida ao negar suas estruturas simbólicas.
O sujeito do sistema, logo, não é, nem poderia ser o comunicativo.
Ele ocupa um lugar instrumental dentro de uma lógica que também
é ao mesmo tempo instrumental e instrumentalizante. “O sistema
representa um espaço de ações formalmente organizadas onde o ator
se engaja no papel de trabalhador ou cliente” (GOERGEN, 2004,
p. 126) e essa condição torna esse ator vulnerável a um processo que
o transforma em função da economia e da burocracia.
A sociedade pode ser “concebida, ao mesmo tempo, como
mundo da vida e como sistema” (HABERMAS, 2012b, p. 220),
então, compreendê-la depende da leitura da dinâmica simbiótica
entre as duas dimensões. Tal dinâmica engendra um jogo pelo qual
suas forças estão em maior ou menor grau de equilíbrio. Nesse jogo,
o mundo sistêmico, por meio de seus desdobramentos economia e
47
Estado, tende a desacoplar-se do mundo da vida e a colonizá-lo. Por
outro lado, o mundo da vida guarda em si um potencial
comunicativo emancipatório inacessível ao sistema, por mais que
haja sucesso no processo de colonização daquele por este. A
existência dessa reserva é a semente esperançosa do futuro da
humanidade.
Pressupostos da racionalidade comunicativa
A transposição da ideia da razão emancipadora, desde a
dimensão do sujeito até uma esfera própria à teoria da sociedade,
demandou que Habermas encontrasse uma forma distinta de olhar
para a filosofia. Isso já foi dito neste livro. O paradigma da filosofia
do sujeito até então vigente levara ao “beco sem saída” da razão
instrumental. Contudo, a valorização da intersubjetividade, presente
na filosofia da linguagem, pode apontar uma solução. Para
Habermas, essa solução é a racionalidade comunicativa.
Na racionalidade comunicativa que instaura o mundo da vida,
ele identifica um elemento de resistência contra a dominação
total da racionalidade sistêmica, instrumental. Essa resistência
não é irracional, mimética, mas racional, utópica; ela não
aponta para um retorno ao estado natural, mas para a
possibilidade da realização de uma situação menos opressora na
história, embora não possa definir a priori a forma de ser dessa
nova ordem social (MÜHL, 2011a, p. 1043).
A racionalidade comunicativa deriva da crítica à
insuficiência da razão moderna quanto à resolução dos problemas da
humanidade. Ela é uma proposta para a instauração de um novo
patamar na história da civilização. Resta saber de que maneira isso
48
pode acontecer, de que artifícios a Teoria do Agir Comunicativo
pode lançar mão para a efetivação desse esperançoso projeto. Esses
artifícios serão aqui tratados como pressupostos da racionalidade
comunicativa. São eles os conceitos de referências de mundo,
pretensão de validade, orientação da ação, atos de fala e modos de
agir.
A discussão sobre referências de mundo confere um passo a
mais à construção do conceito de racionalidade. Para além da ideia
de mundo da vida para Habermas, um apanhado geral dos conceitos
sociológicos da ação permite que sejam identificados três mundos
onde essa ação se manifesta: o objetivo, o subjetivo e o social. A partir
de cada modelo de ação, o sujeito refere-se a um ou mais desses
mundos de forma distinta.
No agir teleológico, que pode ser ampliado a estratégico a
depender da orientação maniqueísta de pelo menos um dos atores,
“o conceito central é o da decisão entre diversas alternativas, voltada
à realização de um propósito, derivada de máximas e apoiada em
uma interpretação da situão” (HABERMAS, 2012a, p. 163). Esse
modelo pressupõe apenas um mundo objetivo.
O agir regulado por normas não tem como foco a ideia do
sujeito isolado frente a um mundo objetivo e incorpora a percepção
de um sujeito integrado a um grupo social. A referência passa a ser
agora voltada a dois mundos, o objetivo e o social.
No agir dramatúrgico “o ator, ao apresentar uma visão de si
mesmo, tem de se relacionar com seu próprio mundo subjetivo”
(HABERMAS, 2012a, p. 176). O conceito de interação social, nesse
49
caso, é diferente. O outro é considerado pelos atores como parte de
um público diante do qual se apresentam.
Por fim, como último item na relação entre modelos de ação
e referências de mundo, está o agir comunicativo, “marcado por
tradições das ciências sociais filiadas ao interacionismo simbólico de
Mead, à concepção wittgensteiniana de jogo de linguagem, à teoria
dos atos da fala de Austin e à hermenêutica gadameriana”
(HABERMAS, 2012a, p. 184). Os modelos de ação teleológico,
segundo normas e dramatúrgico, fazem cada um deles, referência a
um dos mundos. O agir teleológico se difere deles por fazer tripla
referência, considerando os mundos subjetivo, objetivo e social.
Ao observar o movimento das imagens de mundo, de
padrões menos elaborados aos mais complexos, Habermas constrói
uma analogia. Com o apoio na teoria de Jean Piaget, identifica o
progresso estrutural da mente com o trajeto da racionalização das
imagens de mundo. Estas, caminham desde uma percepção
egocentricamente marcada até uma tomada de posição
descentralizada. Assim como no desenvolvimento da inteligência, a
forma instrumental da razão também não é a última instância no
processo de racionalização da modernidade. É possível ainda outro
estágio em que a coordenação de perspectivas, gerada pela inclusão
empática do “outro” aos pontos de vista individuais, proporciona a
abertura de novas portas para a emancipação, em um sentido que
está por ser construído.
A comunicação é o elemento central dessa inclusão da
perspectiva do outro, pois há uma demanda comunicativa que
emerge da necessidade de coordenar ações, inerente à vida em
50
sociedade. Essa demanda por entendimento linguístico é demanda
por um mecanismo da coordenação de ações. Por esse motivo, nas
teorias analíticas do significado, atentas em primeira instância à
“estrutura da expressão linguística” e não das “intenções dos
falantes” (HABERMAS, 2012a, p. 479), Habermas encontra-se
com a ideia de validade. Para além da verdade dos enunciados, são
importantes as condições em que determinada sentença pode ser
assumida como verdadeira. Nesse ponto, passamos a falar a respeito
das pretensões de validade.
[...] assim que concebemos o saber como algo mediado pela
comunicação, a racionalidade encontra sua medida na
capacidade de os participantes responsáveis da interação
orientarem-se pelas pretensões de validade que estão assentadas
no reconhecimento intersubjetivo. A razão comunicativa
encontra seus critérios nos procedimentos argumentativos de
desempenho diretos ou indiretos das pretensões de verdade
proposicional, justeza normativa, veracidade subjetiva e
adequação estética (HABERMAS, 2000b, p. 437).
A pretensão de validade impõe que uma argumentação, para
que mereça o status de racional, atenda simultaneamente a três
critérios: de autenticidade, correção e veracidade. “Portanto, o
conceito-chave da pragmática universal não é a verdade, mas a
validade, entendida num sentido epistêmico, ou seja, como
aceitabilidade racional” (DUTRA, 2003, p. 219). Com isso a ideia
de verdade deixa o prévio status de superioridade e equipara-se em
valor aos outros critérios. Essa guinada, que confere mais grave
acento às questões da estrutura das asserções em detrimento de seu
conteúdo, dirigindo a racionalidade no sentido do entendimento
51
mútuo, representa a virada pragmático-linguística na apropriação
habermasiana da Teoria Crítica.
Para que essa virada se efetive enquanto novo projeto de
racionalidade, é preciso o “desenvolvimento da crítica ao
reducionismo produzido pela visão positivista de racionalidade,
como a reconstrução de uma visão ampliada de racionalidade que a
teoria da interação comunicativa pode oferecer” (MÜHL, 2011a, p.
1043). Esse é um trabalho em duplo sentido. O primeiro sentido
implica o rompimento com o paradigma vigente. Por estar tão
fortemente instaurado, infiltra-se até mesmo nos mecanismos que
sustentam a elaboração das críticas que recebe. Porém, em seu
segundo sentido está a inovação de sua proposição. Após o
rompimento, é preciso a reconstrução de um novo patamar da
racionalidade, transpondo o atual e amplificando-o em um sentido
comunicativo.
Através de bloqueios intrapsíquicos e intrapessoais da
comunicação, as relações coercitivas penetram “imperceptivelmente
nas estruturas comunicativas, impedem que os conflitos sejam
afirmados conscientemente e regulamentados de modo consensual
(HABERMAS, 1990, p. 34). As relações de coerção distorcem a
comunicação a ponto de transformar os consensos, quanto às
pretensões de veracidade e correção, em meros simulacros. Ao serem
canceladas as relações coercitivas no contexto comunicativo, este,
assume um novo sentido. Racionalizar, então, representa a superação
desse tipo disforme de comunicação tendente ao êxito e não ao
entendimento.
52
A ação do agir comunicativo é uma ação que visa o
entendimento mútuo. Já a ação instrumental, distintamente, fixa-se
no êxito. Habermas trabalha com a distinção dessas duas orientações
básicas da ação para uma melhor compreensão do quadro do agir
comunicativo. “O êxito é definido como ocorrência de um estado
desejado no mundo, estado que pode se efetivar de maneira causal,
por feito ou omissão direcionados a um fim” (HABERMAS, 2012a,
p. 495). Uma ação orientada pelo êxito pode ser considerada
instrumental ou estratégica. Ela é instrumental quando vista “sob o
aspecto da observância de regras técnicas da ação e quando avaliamos
o grau de efetividade de uma intervenção segundo uma
concatenação entre estado e acontecimentos” (HABERMAS, 2012a,
p. 495). A ação é estratégica “quando a consideramos sob o aspecto
da observância de regras de escolha racional e quando avaliamos o
grau de efetividade da influência exercida sobre as decisões de um
oponente racional” (HABERMAS, 2012a, p. 495). Uma ação social.
A ação é denominada comunicativa “quando os planos de
ação dos atores envolvidos são coordenados não por meio de cálculos
egocêntricos do êxito que se quer obter, mas por meio de atos de
entendimento” (HABERMAS, 2012a, p. 496). Essa é a perspectiva
descentrada de um ponto de vista. Por ela, o êxito de si mesmo não
é a principal meta perseguida, os participantes buscam “seus fins
individuais sob a condição de que sejam capazes de conciliar seus
diversos planos de ação com base em definições comuns sobre a
situação vivida” (HABERMAS, 2012a, p. 496). Essas definições
“visam a um comum acordo que satisfaça as condições de um
assentimento racionalmente motivado quanto ao conteúdo de uma
exteriorização” (HABERMAS, 2012a, p. 498). Os entendimentos
53
assim assumidos são um tipo distinto de concordância e não
representam simples acordos fáticos externamente induzidos.
Nos processos de entendimento nota-se uma linha tênue
em algumas situações, imperceptível ao interlocutor entre ações
com intenções estratégicas ou comunicativas. Isso acontece porque
a orientação da ação em um contexto argumentativo se expressa
como sua intenção. Se a necessidade de ver atendidos os propósitos
particulares fizer um dos participantes utilizar-se de “recursos
linguísticos manipuladores da vontade alheia” (HABERMAS,
2012a, p. 500) para conduzir o comportamento do outro em favor
de si, então, essa passará a ser uma ação orientada pelo êxito. Ocorre
que por vezes se faz necessário alcançar determinada consequência
pela via linguística e isso acontece sem que seja abandonada a
orientação para o entendimento mútuo. Para saber qual é a
orientação das ações dos falantes é preciso, antes, reconhecer a
natureza de cada ato comunicativo.
Para explicar essa natureza, Habermas busca apoio na
diferenciação de Austin sobre atos locucionários, ilocucionários e
perlocucionários, que rendeu contributo para a pragmática
linguística. No primeiro desses atos, se expressam estados de coisas.
Pelo segundo, age-se ao dizer algo. Já em conformidade com o
terceiro, há uma intenção de desencadear em quem ouve alguma
reação ou efeito, ou seja, realiza-se algo por meio da ação de dizer
algo.
As perlocuções enquadram-se como um tipo especial, uma
categoria de interação estratégica. Diferentemente, o autor
denomina como sendo o agir comunicativo “o tipo de interações em
54
que todos os participantes buscam sintonizar entre si seus planos de
ação individuais e em que, portanto, almejam alcançar seus objetivos
ilocucionários de maneira irrestrita” (HABERMAS, 2012a, p. 509).
Este sim teria por efeito a coordenação de ações com efeito unitivo,
por meio de atos de fala com propósito ilocucionário, excluindo-se
dessa classificação os atos de fala com quaisquer fins que não tenham
somente tal propósito. Algo análogo ocorre no caso da conceituação
de agir estratégico. “Considero agir estratégico mediado pela
linguagem as interações em que ao menos um dos participantes
pretende ocasionar com suas ações de fala efeitos perlocucionários
em quem está diante dele” (HABERMAS, 2012a, p. 510). Com isso,
acrescenta-se ao conceito de agir comunicativo a ideia de que
somente o são aqueles processos de entendimento em que se buscam
irrestritamente fins ilocucionários.
Os diferentes fins apresentados estão vinculados aos distintos
tipos de atos de fala: teleológico, regulado por normas, dramatúrgico
e comunicativo. Do primeiro ao último, há pressupostos ontológicos
que se tornam gradativamente mais complexos. O último estágio
inclui “todas essas funções de linguagem, permitindo, assim, ao
falante estabelecer, simultaneamente, uma relação reflexiva com os
três mundos em processos de alcançar o entendimento”
(BANNELL, 2013, p. 40). Nesse momento do desenvolvimento,
quando se torna capaz do agir comunicativo, o sujeito busca o
entendimento mútuo pela comunicação e o faz apelando a um
“mecanismo que coordena a ação entre os indivíduos” (BANNELL,
2013, p. 40). A capacidade de coordenar ações implica o
reconhecimento do outro, o entendimento de que há diferenciação
entre o “eu” e o “outro” e entre o “outro” e o mundo objetivo. Tal
55
atitude representa uma descentração em relação a um ponto de vista
em princípio egocentrado.
Em oposição, o estágio teleológico se relaciona com a ação
orientada ao sucesso. Seus critérios de racionalidade são a efetividade
técnica e estratégica. Quer dizer, o que se considera para avaliar se a
ação alcança seus objetivos são a forma da execução e o cumprimento
de seus propósitos, sejam eles quais forem. Prevalecem os interesses
particulares que, na interação buscam se sobrepor aos do
interlocutor, denotando uma centração de ponto de vista.
Os modos do agir teleológico e comunicativo não são
excludentes entre si. Eles se manifestam nas interações sociais
concomitantemente, predominando um ou outro, de acordo com a
situação. “As interações sociais são mais ou menos cooperativas e
estáveis, mais ou menos conflituosas e instáveis” (HABERMAS,
2013, p. 164), o que quer dizer que a relação entre modos de agir
não se estabelece em uma lógica binária. Ela se estabelece de maneira
complexa e alinhada a uma perspectiva evolutiva, sustentada pelo
mecanismo de desenvolvimento. Um modo de agir não é
definitivamente suplantado por outro, por isso, no agir
comunicativo é sempre necessário o cumprimento de condições
elementares, de que será falado a seguir.
Dinâmica do agir comunicativo
Se a interação social adota a lógica da racionalidade
comunicativa, então é preciso que seus participantes coordenem seus
planos de ação para que “Alter possa anexar suas ações às ações de
Ego” (HABERMAS, 2013, p. 164). É necessário também que a
56
manutenção da interação seja garantida por uma gestão dos
conflitos. Um acordo preexistente ou a negociação mútua de
situações e consequências aguardadas, feita de modo claro, orienta a
persecução das metas individuais por indivíduos que buscam a
harmonia interna entre seus planos de ação.
De modo contrário, em uma interação inclinada
exclusivamente para o sucesso, os atores “tentam alcançar os
objetivos de sua ação influindo externamente por meio de armas ou
bens, ameaças ou seduções, sobre a definição da situação ou sobre as
decisões ou motivos de seus adversários” (HABERMAS, 2013, p.
165). A lógica comunicativa favorece a vinculação de planos de ação,
a coordenação de perspectivas, a troca pela via da interação,
enquanto a outra as limita. Neste subitem será tratada essa dinâmica
do agir comunicativo por seus principais elementos: coordenação de
perspectivas, ética do discurso, descentração e estruturas de interação
social.
O conceito central dessa dinâmica é a coordenação. Não
basta deslocar o eixo do sujeito para as interações. É preciso também
uma organização dessas interações como um sistema aberto, ao qual
o ponto de vista do outro possa ser incorporado e vice-versa. Essa
abertura é garantida por mecanismos formais da situação
argumentativa, como regras implícitas e explícitas. E também por
aspectos do desenvolvimento cognitivo dos sujeitos envolvidos.
Somente com a mobilidade dos esquemas mentais, que asseguram
uma atitude empática, ou seja, diante de uma manifestação da
capacidade representativa viabilizadora do exercício de colocar-se no
lugar do outro, é possível executar uma interação comunicativa onde
as perspectivas dos atores busquem coordenar-se entre si. O
57
empenho dos atores frente a uma situação argumentativa demanda
zelo pela manutenção dessa abertura do sistema. Com isso, tornam-
se viáveis as coordenações de perspectivas, mola propulsora dos
processos de desenvolvimento.
A motivação para o empenho coletivo em função desse zelo
é subsidiada por uma ética. A Ética do Discurso tal qual concebida
por Habermas é o que atribui uma base à racionalidade
comunicativa. Nela, assim como na Teoria do Agir Comunicativo
como um todo, está impresso o rompimento com o paradigma da
filosofia do sujeito. Ao considerá-lo como sendo aquele que está “[...]
inserido numa comunidade em que o conhecimento é
linguisticamente mediatizado e relacionado com o agir [filosofia da
linguagem], Habermas tenta destacar o nexo das práticas e da
própria comunicação cotidianas” (POLLI, 2013, p. 23).
Coerentemente alinhada à Teoria, essa ética de caráter intersubjetivo
está alicerçada basicamente sobre dois princípios, “U” e “D”.
O princípio “U” é o princípio de universalização. Segundo
ele, toda norma válida precisa satisfazer a seguinte condição:
[...] que as consequências e efeitos colaterais, que
(previsivelmente) resultarem para a satisfação dos interesses de
cada um dos indivíduos do fato de ser ela universalmente
seguida, possam ser aceitos por todos os concernidos (e
preferidos a todas as consequências das possibilidades
alternativas e conhecidas de regragem) (HABERMAS, 2013, p.
86).
Diferentemente do imperativo categórico kantiano, para se
efetivar o princípio “U” não basta que uma norma universalmente
58
válida possa ser seguida por todos. Ao inferir a validez universal de
uma norma, na Ética do Discurso, é preciso submetê-la ao crivo de
mais pessoas. Elas reconhecerão ou não aquela norma como
universal. Também é necessária a consciência de cada um dos
envolvidos sobre os previsíveis efeitos colaterais e possíveis
consequências resultantes de sua aceitação. Essa aceitação, por sua
vez, não assume a forma do acato, mas, diferentemente, espelha a
satisfação do interesse de cada sujeito em ver essa norma sendo
seguida. A satisfação se traduz na preferência dessa alternativa em
detrimento de outras assim como de suas consequências.
Outro dispositivo é o princípio “D”, princípio ético-
discursivo. Ele fundamenta a ideia da Ética do Discurso. Por ele,
estabelece-se que
[...] uma norma só deve pretender validez quando todos os que
possam ser concernidos por ela cheguem (ou possam chegar),
enquanto participantes de um discurso prático, a um acordo
quanto à validez dessa norma (HABERMAS, 2013, p. 86).
Os princípios “U” e “D” da Ética do Discurso integram o
rol de mecanismos formais que asseguram a efetivação das condições
objetivas para o agir comunicativo. Desde que essas condições
mínimas estejam garantidas por esse pano de fundo ético, abre-se o
terreno para a manifestação das competências dos sujeitos para o
engajamento no agir comunicativo.
Essas competências são aprimoradas pelo sujeito ao longo do
seu processo de desenvolvimento. Elas não são inatas, tampouco
acontecem naturalmente em qualquer situação comunicativa. É
59
preciso mobilizar habilidades para referir-se a algo no mundo com
outrem e coordenar o uso dessas habilidades com o desempenho de
habilidades relativas aos papéis comunicacionais.
Por um lado, os participantes da comunicação precisam ter a
competência para adotar, se necessário, em face de estados de
coisas existentes, uma atitude objetivante; em face de relações
interpessoais legitimamente reguladas, uma atitude conforme
normas; em face das próprias vivências, uma atitude expressiva
(e de variar, uma vez mais, essas atitudes em face de cada um
dos três mundos). Por outro lado, precisam também, a fim de
poder se entender uns com os outros sobre algo nos mundos
objetivo, social e subjetivo, poder adotar as atitudes ligadas aos
papéis comunicacionais da primeira, segunda e terceira pessoas
(HABERMAS, 2013, p. 169).
Esses dois tipos de perspectivas relativo ao sistema de
referências formal dos mundos e aos papéis comunicacionais em
situações de fala estão integrados em uma forma complexa,
característica da compreeno descentrada do mundo. Afirmar que
determinado sujeito age segundo uma compreensão descentrada de
mundo é afirmar seu domínio de uma capacidade complexa, quer
seja, a de manobrar de forma integrada, dentro de uma situação
comunicativa, duas dimensões: o a) sistema de referências formal dos
três mundos e a b) adoção de atitudes relativas a diferentes papéis
comunicacionais.
Contudo, “compreensão descentrada do mundo” é uma
expressão ainda bastante genérica em Habermas. Ele faz uso desse
termo para ilustrar uma característica do sujeito capaz de realizar tal
tarefa, mas não explica em detalhes os mecanismos dessa capacidade
60
complexa. Tampouco detalha o caminho percorrido pelo sujeito até
a aquisição de tal competência. Adentrar esse campo implicaria
dispensar maior atenção a esses mecanismos ou estruturas da
interação. Ele mesmo afirma sua convicção de que “a ontogênese das
perspectivas do falante e do mundo, que leva a uma compreeno
descentrada do mundo, só poderá ser esclarecida em conexão com o
desenvolvimento das correspondentes estruturas da interação”
(HABERMAS, 2013, p. 170). Habermas não completa essa tarefa e
concede os créditos dessa explicação a Piaget. Para ele, existe uma
relação natural entre a compreensão descentrada do mundo e as
estruturas da interação.
Se partimos, com Piaget, do agir, isto é, confronto ativo de um
sujeito que aprende construtivamente com seu mundo
ambiente, é natural supor, primeiro, que o complexo sistema de
perspectivas se desenvolve a partir de duas raízes: por um lado,
a partir da perspectiva do observador, que a criança adquire
através de um relacionamento perceptivo-manipulador com seu
mundo-ambiente físico, bem como, por outro lado, a partir das
perspectivas eu-tu relacionadas uma a outra reciprocamente,
que a criança exercita através do relacionamento
simbolicamente mediatizado com pessoas de referência (no
quadro da interação socializadora). A perspectiva do observador
consolida-se mais tarde numa atitude objetivante em face da
natureza externa (ou do modo dos estados de coisas existentes),
ao passo que as perspectivas eu-tu se perenizam naquelas
atitudes das, primeira e segunda, pessoas que estão associadas
aos papéis comunicacionais do falante e do ouvinte. Elas
conquistam essa estabilização graças a uma transformação e
diferenciação das perspectivas originais: a perspectiva do
observador é encaixada no sistema de perspectiva do mundo; e
as perspectivas eu-tu completam-se no sistema de perspectivas
61
do falante. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento das estruturas
de interação pode servir como fio condutor para a reconstrução
desses processos (HABERMAS, 2013, p. 170).
Primeiramente, Habermas acompanha a proposição
piagetiana de que o princípio da relação de conhecimento é o agir.
Sua origem não está então no pensamento, mas na ação. Essa ação
já contém, mesmo que embrionariamente, o caráter interativo. No
entanto, ela toma tais contornos gradativamente. O sujeito age sobre
o mundo e por essa ação diferencia-se dele. A percepção inicialmente
centrada em si mesma, ao assimilar os elementos objetivos do
mundo ambiente, desenvolve-se no sentido de uma perspectiva de
observador que, mais adiante, se configura em uma atitude
objetivante, uma atitude em terceira pessoa. Quando dessa ação
sobre o mundo se olha para as relações entre os sujeitos, as relações
eu-tu, o desenvolvimento caminha no sentido do aprimoramento
das perspectivas de primeira e segunda pessoas.
A reconstrução dos processos de que fala Habermas pode ser,
segundo ele, conduzida pelo desenvolvimento das estruturas de
interação. Para entender como são construídas as condições para a
atuação no contexto do agir comunicativo, é preciso compreender
como se desenvolvem as estruturas da interação. Para enfrentar esse
desafio, Habermas acredita apenas ser possível uma tese sobre “a
ontogênese das perspectivas do falante e do mundo, apoiando-nos
sobre as investigações empíricas existentes” (HABERMAS, 2013, p.
172). Por isso, apela à interpretação dos estádios da adoção de
perspectivas elaborados por Robert Selman.
62
A tomada de perspectiva social é uma forma social da
cognição. Ela está entre o pensamento lógico e o pensamento moral.
Habermas identifica “estágios distintos do desenvolvimento da
tomada de perspectiva a partir da proposição de uma extensão da
teoria do desenvolvimento cognitivo de Piaget e da teoria do
julgamento moral de Kohlberg” (FEITOSA et. al., 2016, p. 103) e
com isso leva além as ideias de Mead e do próprio Piaget. À
semelhança de Piaget e Kohlberg, arquiteta uma estrutura
organizada em uma sequência de estádios e níveis. O primeiro Nível
é o da adoção de perspectiva a) diferenciada e b) subjetiva (entre os
5 e 9 anos); o Nível 2 é o da adoção de perspectiva a)
autorreflexiva/na segunda pessoa e b) recíproca (entre os 7 e os 12
anos); o Nível 3 é o da adoção da perspectiva a) da terceira pessoa e
b) mútua. A cada passagem de um estádio para o outro, ocorrem
transformações na estrutura de perspectivas. Cada uma delas traz
novidades, sendo estas a base para a continuidade da progressão.
A passagem para o terceiro nível, ao final, traz ao domínio
da interação a perspectiva do observador e a vinculação dessa
perspectiva com aquelas do eu-tu. A partir dessa nova condição, “a
reciprocidade das orientações da ação, instaurada no estádio
precedente, pode ser objetualizada e trazida à consciência em seu
contexto sistêmico” (HABERMAS, 2013, p.180). A coordenação de
ações passa a atingir um novo nível em que o sistema de perspectivas
do falante pode ser considerado completo. Com isso, inaugura-se a
referência a um mundo social. Os participantes da situação
comunicativa podem escolher agir ou não conforme normas.
Também podem escolher entre um agir estratégico ou não-
63
estratégico. Com esse elemento a interação pode assumir sua forma
pós-convencional.
Evocando Kohlberg e Selman, Habermas busca explicar
como se constroem e progridem as condições para a participação no
agir comunicativo. Tanto um quanto outro, partem dos estudos de
Piaget para fundamentar suas pesquisas no campo do
desenvolvimento da moral e das interações sociais, respectivamente.
O princípio motriz que possibilita o avanço entre estágios, assim
como os pormenores de seu funcionamento em uma abordagem
mais elementar, são aspectos primordiais às explicações de seus
modelos teóricos. Os créditos da dinâmica do agir comunicativo,
logo, devem ser atribuídos aos estudos de Jean Piaget.
Neste capítulo foi apresentada a teoria da racionalidade
comunicativa habermasiana. Iniciou-se por questionar a atualidade
da proposta de Habermas situando-a em um lugar entre a
obsolescência e uma filosofia do futuro. Consideradas as distintas
perspectivas a partir das quais se pode examinar esse problema,
conclui-se que seu extenso trabalho ainda pode render contributos
ao campo das Ciências Humanas, pois seu potencial não foi
totalmente explorado. Solvida a questão, resgata-se seu conceito de
racionalidade a partir do diálogo com Max Weber. Esse conceito é
melhor compreendido através da definição de sociedade como
mundo da vida e sistema. A relação entre esses dois elementos,
distintos e complementares, é o terreno sobre o qual se erguem os
pressupostos do agir comunicativo. Adentrar a dinâmica do agir
comunicativo faz sobressaltar a questão das coordenações de
perspectivas. Ela é subsidiada pelas explicações de Selman sobre a
64
evolução das estruturas de interação social. A origem dessa
explicação é a pista que leva até Piaget.
65
PIAGET:
SENTIDO E DIMENSÃO SOCIOLÓGICA
_______ ____________ ____________ ____________ ____________ ____________ ____________ ____________ _______________ ____________ ___________ ____________ ____________ _______________ ____________ ____________ ____________ ____________ _______________ ____________ ___________ ____________ ________
Habermas colocou para si o desafio de redimensionar o
materialismo hisrico, fazendo uma crítica à atenção exclusiva dada
pelo marxismo à questão do trabalho. Para ele, essa ênfase não
explica suficientemente os fenômenos sociais tais quais se
desenovelaram nos séculos seguintes ao apogeu teórico da tradição
marxista. Frente a esse diagnóstico, rompeu parcialmente com o
mote principal do marxismo e passou a construir uma nova
possibilidade de leitura do social. Sem abandonar o progressismo da
esquerda teórica, pareou a interação à categoria trabalho, formando
o binômio a partir do qual acredita ser possível uma nova
compreensão da dinâmica social. Mais que uma compreensão, uma
base sobre a qual se torna possível refletir e reagir às previsões menos
otimistas sobre os caminhos da humanidade.
Fazendo isso, precisou buscar para sua Teoria do Agir
Comunicativo uma justificativa que superasse as dificuldades de
uma epistemologia focada nas relações sujeito-objeto, característica
aderida ao materialismo. O materialismo histórico preconizou a
superação de um estado de coisas socialmente injusto por meio da
revolução, que pode ser resumida como a virada dos explorados em
detrimento das classes dominantes. Essa virada é fruto do cúmulo
das contradições emergentes da dinâmica entre o aprimoramento
das forças produtivas e a consciência da natureza das respectivas e
injustas relações de produção. Esse sujeito ainda é o sujeito da
66
filosofia da consciência, que age exclusivamente sobre o mundo
objetivo. Quando postula um sujeito que reconhece o outro
enquanto sujeito também agente, Habermas procura reposicionar o
acento da verdade objetiva que até o momento residia fora rumo
ao interior das relações. As interações entre os sujeitos, mediadas
pelo ato comunicativo, passam a integrar o centro da questão
epistemológica.
O capítulo anterior encerrou com a seguinte conclusão:
Habermas se vale da leitura piagetiana para endossar sua tese de que
em situações argumentativas, onde há coordenão de um complexo
sistema de perspectivas, manifesta-se uma racionalidade
comunicativa. Essa racionalidade, por sua vez, se viabiliza nas
condições presumidas no contexto do agir comunicativo. Lá,
buscou-se imprimir a ideia de fundo de que o sociólogo valoriza em
Piaget o aspecto da descentração. Esse conceito, descentração,
entende-se como sendo um processo de desenvolvimento que
encaminha o sujeito desde um olhar egocentrado até uma
perspectiva deslocada do próprio sujeito.
Entretanto, este não é o único sentido da contribuição de
Piaget para a Teoria do Agir Comunicativo. Assumir a dimensão das
interações levou Habermas a considerar a existência de um sistema
mais complexo, do qual também passam a fazer parte as relações
sujeito-sujeito, de natureza distinta das que acontecem entre os
sujeitos e o mundo objetivo. Inserir a dimensão da interação
implicou também um novo olhar para a comunicação e, por
conseguinte, para a linguagem. Essa mudança paradigmática
reinventa um olhar e, a partir dele, a totalidade das coisas.
67
Mais do que um descortinar de uma possibilidade até então
escondida, o encontro com o paradigma da comunicação desaloja o
sujeito da sua posição diante da consciência para colocá-lo frente a
um mundo que está por ser conhecido e construído. Nesse mundo,
cada sujeito é também agente e, com isso, sua responsabilidade
individual é redimensionada. Esses componentes da reforma
proposta por Habermas trazem em si um grande potencial de
transformação.
Não seria possível, no entanto, que sua teoria apontasse
caminhos futuros para a humanidade sem se alicerçar no
conhecimento da gênese dos processos evolutivos do sujeito e da
sociedade. Por tal motivo, a Teoria do Agir Comunicativo
necessitou de um fundo explicativo que demonstrasse,
primeiramente, como nascem as interações entre sujeitos e, em
seguida, qual a dinâmica dessas interações. A epistemologia genética
piagetiana, por seu empenho em demonstrar como se dá a
psicogênese, ou a gênese psicológica do conhecimento, foi utilizada
por Habermas como substrato para essa tarefa em três dimensões:
cognitiva, moral (seus estudos de Kohlberg), e das interações sociais
(suas leituras de Selman).
A ideia de progressão em Piaget pode ser entendida de modo
abrangente como o movimento do desenvolvimento. Essa noção é
cara a Habermas. Ela traz embutidas a importância do conflito e de
sua superação, que explicam a dinâmica do aprimoramento das
imagens de mundo, que conduzem ao paradigma da racionalidade
comunicativa. Um estado de equilibração não permanente recebe
uma perturbação (conflito), responde a ela e produz uma resposta
em um novo patamar (superação). O novo patamar nega o anterior,
68
mas, em alguma medida, também o contém. Sem esse conceito
chave, que explica como se passa de um momento a outro, o resgate
do poder emancipatório da razão em Habermas se esvaziaria.
Piaget trata desse processo de descentração, mas basicamente
atém-se à dimensão do sujeito. Em algumas de suas ilações, chegou
a desenvolver melhor ideias a respeito da relação que tal dinâmica
tem com a dimensão sociológica. Habermas se preocupa com as
mesmas dimensões: “a evolução da sociedade moderna por um lado,
e o desenvolvimento do sujeito individual por outro”
(KESSELRING, 1997, p. 242). A tese habermasiana é a de que, em
essência, os processos que encaminham o desenvolvimento do
sujeito individual também mobilizam a evolução da sociedade
moderna. Ele não se dedica profundamente à investigação científica
na intenção de demonstrar como acontece esse desenvolvimento,
mas estabelece uma série de analogias para explicar o fenômeno,
referindo-se sempre a Piaget com relação ao conceito de
desenvolvimento.
Sem dúvidas, os pontos de intersecção entre o pensamento
de Piaget e Habermas são diversos e a ideia de evolução social a partir
do conceito de desenvolvimento é um dos seus elos mais fortes. O
diálogo a respeito desse encontro poderia avançar sem muitas
delongas, não fosse uma observação. A noção de desenvolvimento
ou descentração em Piaget passa por uma transformação profunda,
que muda suas questões e métodos de pesquisa daquele ponto em
diante. O fato deriva dos contínuos avanços de seus estudos, gerando
a necessidade de que se realizassem ajustes ao longo de sua trajetória
de pesquisas. Dentre esses ajustes, estão aqueles provocados pelas
69
mudanças ocorridas no campo da teoria biológica. Suas implicações
são apresentadas e discutidas a seguir.
Habermas se refere ao conceito de desenvolvimento de
Piaget utilizando ora o termo descentração, ora abstração reflexiva.
No trecho da Teoria do Agir Comunicativo em que trata da
evolução das compreensões de mundo mítica e moderna, adota a
descentração para explicar como a sociedade chega a um
desencantamento do pensamento mítico. Se esse termo se reserva
mais exclusivamente aos processos coletivos, “tão logo transpõe o
limiar do domínio da psicogênese, Habermas prefere como fio
condutor o conceito de ‘abstração reflexiva’ ou, mais corretamente,
a noção de reflexão” (KESSELRING, 1997, p. 248). Acontece que
houve uma transformação do conceito de descentração em Piaget.
Essa transformação acompanhou as mudanças pelas quais passou sua
ideia de adaptação. Habermas, no entanto, não notou ou talvez
não tenha considerado essa distinção entre um momento e outro,
permanecendo vinculado à primeira noção.
Segundo a primeira teoria, todo desenvolvimento psicogenético
é um processo contínuo de uma única descentração, um
processo que parte de um estado dito de ‘autismo’ que Piaget
pensava, na época, como típico da criança pequena e atinge o
pensamento lógico e racional no adulto. De acordo com a
segunda teoria, a noção de descentração refere-se à relativização
de algo tido como absoluto, e Piaget sublinha que esse processo
se repete em cada nível de desenvolvimento (KESSELRING,
1997, p. 251).
Como resultado, a Teoria do Agir Comunicativo ancorou-
se em subsídios teóricos de Piaget, contudo, sem incorporar os
70
elementos da nova etapa piagetiana que poderiam enrique-la.
Uma questão que parece urgente é saber por qual motivo Habermas
deixou de observar essa transição, sendo que ela já estava estabelecida
na época em que formulara a Teoria do Agir Comunicativo.
Segundo Kesselring (1997), a explicação é simples. Habermas nunca
se aproximou da explicação do desenvolvimento com base na
abstração reflexiva e isso aconteceu porque o alemão nunca esteve
preocupado em seguir a ontogênese intelectual.
Se de fato Habermas não se debruçou sobre os pormenores
do processo de abstração reflexiva, então, além de não haver
percebido a mudança de rumos que Piaget empreendeu, não pôde
justificar de que modo seria possível transportar um conceito de sua
aplicação subjetiva à sociológica. Para Piaget, a abstração reflexiva
não é coletiva, mas sim um processo individual. Diante disso, resta
a questão sobre “se, e eventualmente em que sentido, processos de
abstração em sentido coletivo como o sugerem, por exemplo, os
marxistas podem acontecer” (KESSELRING, 1997, p. 252).
Neste capítulo, serão apontadas algumas reflexões a partir da
primeira afirmação de Kesselring: a abstração reflexiva não é coletiva.
Serão evocadas as intenções originais do pensamento piagetiano,
demonstrando haver, desde lá, uma preocupação em fornecer
respostas no campo sociológico. Em um diálogo com a socióloga
Bárbara Freitag, vê-se que o modelo do desenvolvimento social não
se encontra acabado na teoria de Piaget, mesmo assim, ela nunca
desvinculou-se de uma perspectiva coletiva. Essa perspectiva conduz
suas conclusões desde um conceito de adaptação inspirado na
biologia clássica até a ideia de abstração reflexionante. Por fim, as
71
dimensões subjetiva e social de seu interesse sociológico serão
apresentadas.
O sentido da obra de Jean Piaget
Para conhecer o sentido da obra de Jean Piaget é preciso
contextualizá-la. Ele inicia sua carreira acadêmica prematuramente,
empenhando-se intensamente em sua produção até os últimos anos
de sua vida. Foi característica de sua organização para o trabalho a
capacidade para aglutinar outros pesquisadores em torno dos
objetivos científicos por ele perseguidos. Aliado a isso, a
contundência de suas ideias exponenciaram o alcance de seu
trabalho. Essa grande amplitude, no entanto, não foi atingida sem
que a acompanhassem alguns percalços. Dentre seus efeitos
colaterais, estão os equívocos na interpretação de seu trabalho.
Há quem pense, por exemplo, que Piaget tenha sido o
criador das “escolas construtivistas”. Há igualmente quem o defina
como um educador, no sentido estrito da palavra. Para outros, o
suíço teria se dedicado exclusivamente à psicologia do
desenvolvimento. Para outros, ainda, ele teria dedicado uma vida
inteira ao estudo das crianças. Entendimentos dessa natureza são
dissonantes em relação ao real trabalho desenvolvido por Piaget.
Contudo, eles não surgem gratuitamente. Aspectos inerentes à teoria
dão margem à sua manifestação. É no universo onde se constelam as
frentes de estudo componentes a teoria piagetiana que se navega
daqui em diante.
Permanentemente em busca das condições de todo
conhecimento possível, a rigor, não foi pedagogo, tampouco
72
psicólogo. Passeou, decerto, por diversas áreas do conhecimento.
Especialmente após sua formação em biologia e uma forte
aproximação com a filosofia. Mas a partir da análise do objeto de sua
busca é possível identificá-lo como um epistemólogo. Quer dizer,
aquele que se dedica ao “estudo crítico dos princípios, das hipóteses
e dos resultados das diversas ciências, destinado a determinar a sua
origem lógica (não psicológica), o seu valor e a sua importância
objetiva” (LALANDE, 1993, p. 15). O precoce interesse filosófico
o levou a enveredar por questões gradualmente mais profundas,
chegando àquelas sobre a origem do conhecimento, costa onde
aportou e à qual dedicou significativa parte de sua atividade laboral.
Até que se dedicasse especificamente à epistemologia,
percorreu outros caminhos. Dedicou-se à filosofia tão logo a
conheceu, aos 15 anos de idade, quando trabalhava já com pesquisas
na área da biologia. Na autobiografia registrada em Sabedoria e
Ilusões da Filosofia (PIAGET, 1983b [1965]), fica evidente que a
aproximação à filosofia impactará seus interesses de estudo até o fim
de sua vida. As intersecções entre filosofia e biologia o inspiram a
desenvolver uma teoria do conhecimento. Não uma teoria qualquer,
mas uma que conseguisse resgatar em suas explicações uma base
biológica. Esperava encontrar nos elementos da vida orgânica
explicações que possibilitassem “[...] determinar as condições de
todo conhecimento possível e de toda comunicação possível”
(RAMOZZI-CHIAROTTINO, 1994, p. 4). Diferentemente do
que circula no senso comum, os maiores interesses do trabalho
piagetiano não são propor uma nova pedagogia nem inaugurar uma
nova doutrina psicológica.
73
Para cumprir seu propósito teria que responder a um
enigma: como o ser humano se apropria do conhecimento lógico-
matemático? Seria impelido por categorias pré-existentes, categorias
a priori? Seria por um movimento implicado pela aprendizagem?
Essa problemática levantada por Piaget é continuidade daquela que
suscitara Kant. Sua solução reside na ideia de que o ser humano é
um animal simbólico.
A maior novidade no conjunto das reflexões e indagações a este
respeito é a presença do fator biológico. Na Grécia, Lógica,
linguagem e pensamento aparecem identificados como aspectos
da inteligência humana entendida como uma realidade
abstrata. Hoje em dia já não se pode ignorar a natureza orgânica
do ser humano, com suas possibilidades de realizar trocas com
o meio desde os níveis mais elementares até aquele das trocas
simbólicas. No centro das investigações contemporâneas
aparece o homem, entendido, como bem definiu Cassirer,
como animal e simbólico, ou: animal, ainda que simbólico...
(RAMOZZI-CHIAROTTINO, 1994, p. 26).
A biologia, no entanto, não bastava. Elaborar um completo
e complexo quadro que trouxesse as respostas procuradas, implicava
a sondagem de outras áreas do conhecimento. Nessas incursões,
encontra-se com a psicologia de seu tempo. Ao contrário do que se
pode imaginar, não opta por estudá-la em função de uma inclinação
vocacional, mas por uma necessidade metodológica. Apenas pela
psicologia conseguiria chegar à compreensão das relações evolutivas
que envolvem a lógica, a linguagem e o pensamento.
Por meio da psicologia elabora um modelo para a explicação
dessas relações evolutivas baseado em estruturas mentais. Percebe
74
que tais estruturas possuem uma gênese, depois, “que se constroem
no tempo, chegam a um estado de equilíbrio perfeito” (RAMOZZI-
CHIAROTTINO, 1972, p. 75). Seu percurso aponta uma
tendência em direção a características de universalidade e
necessidade, análogas às características das estruturas lógico-
matemáticas.
Suas primeiras investidas no campo da psicologia miraram
nas crianças, de forma específica, em sua manifestação verbal.
Olhando para ela, imaginara Piaget que seria capaz de desvendar a
origem do pensamento em sua forma adulta, quer dizer, em seu
caráter lógico-matemático. Mas as coisas não aconteceram
exatamente assim. Mais adiante, pelas leituras de Arnold Reymond
descobriu uma possível inteligência prática da criança. Isso fez com
que considerasse a existência de uma lógica das ações que fica
“implícita no comportamento da criança e que seria anterior a
qualquer lógica transmitida pela linguagem” (RAMOZZI-
CHIAROTTINO, 1972, p. 4). A lógica não seria introjetada na
criança desde o campo da cultura, por meio da linguagem. As ações
da criança manifestam uma lógica própria e a gênese da lógica reside
na ação. Essa compreensão representou um marco a partir do qual
foram redefinidas tanto as questões iniciais de Piaget, quanto o
desenvolvimento de seus métodos.
O desenvolvimento da inteligência é um fenômeno que só
se percebe por seus efeitos, logo, não é possível sua observação direta.
Foi então que Piaget passou a encarar definitivamente a
manifestação da inteligência como algo que só poderia ser explicado
a partir da criação de um modelo. Esse modelo, hipotético, seria útil
para demonstrar e explicar relações contidas pelas estruturas da
75
inteligência. Tal modelo não se parece “com a noção de ‘organismo’
nem com a de ‘mecanismo’, justamente por se colocar num plano
diferente do fenômeno, isto é, num plano abstrato, embora deva ser
confirmado pela experiência” (RAMOZZI-CHIAROTTINO,
1972, p. 4). O que Piaget realizou nesse sentido pode ser equiparado
à busca de boa parte dos filósofos: a criação de um modelo para a
razão. Sua aposta foi em um modelo interacionista unificado
(OLIVEIRA FILHO; MACEDO, 2014, p. 204), que representasse
que o mesmo processo de interação move os desenvolvimentos
cognitivo, orgânico e filogenético.
Uma das bases desse modelo é a existência de estruturas
mentais. As estruturas não são abstratas, mas biológicas e não devem
ser confundidas com o próprio pensamento. Elas ocupam o lugar de
“pano de fundo” do comportamento humano. As estruturas mentais
organizam-se à semelhança do modelo atômico na física. As leis e a
forma geral de seu funcionamento são apresentadas por uma
representação, que facilita sua explicação e compreensão.
Depois da descoberta e esquematização da existência desse
processo oculto, os esforços empregados por Piaget e sua equipe
dirigiram-se à formalização das estruturas mentais. Esse período da
trajetória científica piagetiana levantou uma série de problemas e,
junto deles, vieram algumas críticas. Boa parte delas foi acolhida por
Piaget, que as converteu em reformulações teóricas. No bojo dessas
reformulações, houve transformações significativas nos objetivos e
métodos piagetianos. De tal maneira, que é possível definir a obra
de Piaget como dividida em duas grandes fases.
76
Somente na segunda fase Piaget pôde dedicar maior atenção
à conciliação dos aspectos lógicos e dinâmicos da estrutura que
descobrira, harmonizando seu modelo explicativo. Para isso,
precisaria solucionar seu principal entrave: justificar a coexistência
de aspectos “duros”, imutáveis, universais da lógica matemática, com
a flexibilidade, espontaneidade e particularidade da manifestação
biológica da inteligência.
Retomando, Piaget parte de uma experiência precoce com o
trabalho na Biologia,-se profundamente encantado pelos temas
filosóficos e, a partir de então, persegue uma explicação para um
problema crucial do conhecimento. Em busca das condições para
todo conhecimento possível e toda comunicação possível, encontra
na psicologia recursos para sua investigação e, por ela, chega à
observação das manifestações da construção do conhecimento na
criança. Desse momento, principia a elaboração de um modelo
explicativo representativo da gênese e desenvolvimento das
estruturas mentais, ainda sujeito a contradições por não integrar a
lógica à dimensão orgânica. A coesão completa dessa explicação
surge mais adiante, na segunda fase de sua produção teórica. O que
exatamente diferencia o primeiro e o segundo momento da obra de
Piaget? O que motivou de fato essa mudança? A chave para a
compreensão da passagem de uma fase a outra na teoria piagetiana é
o entendimento da transformação do seu conceito de adaptação.
Interesse sociológico de Piaget: pontos e contrapontos
A hipótese da existência de duas fases no pensamento
piagetiano não está sendo inaugurada neste livro. Porém, não há
77
uma unanimidade entre comentadores da obra piagetiana quanto ao
início e ao fim exatos de cada fase. O consenso é que o jovem Piaget
dos anos 1920 é significativamente distinto daquele expresso nos
escritos da década de 1940 em diante. As concepções de Bárbara
Freitag e Adrián Oscar Dongo-Montoya representam, cada uma,
pontos de vista diferentes a respeito dessa classificação. Aqui elas
serão confrontadas para, ao final, concluir-se haver aspectos de
Piaget que Habermas não importou para sua teoria.
Para Freitag (1991), na primeira das fases dos estudos
piagetianos resiste ainda um olhar sociogico para os problemas
investigados. Aos poucos, esse olhar foi sendo perdido. Segundo a
autora, Piaget “sempre desdenhou a sociologia e seu objeto de
estudo: a sociedade” (FREITAG, 1991, p. 34). O percurso trilhado
pelo suíço foi o de seccionar os fatores sociológicos contidos em seus
escritos, reelaborando sua teoria psicogenética até “minimizar os
fatores sociais, sublinhando o caráter biológico, ativo e lógico das
estruturas do pensamento” (FREITAG, 1991, p. 34). O esforço
teórico empreendido por Jean Piaget teria promovido uma mudança
de foco de tal magnitude, que “a teoria do egocentrismo e da
moralidade infantil cedeu lugar à psicologia e à epistemologia
genéticas, mais próximas da biologia, da matemática e da cibernética
que da sociologia” (FREITAG, 1991, p. 34). Quer dizer, as faces de
sua teoria de melhor diálogo com explicações de cunho social foram
sendo deixadas em segundo plano, dando lugar à biologia.
Segundo o ponto de vista de Freitag, somente a primeira fase
do trabalho de Piaget poderia ser mais intimamente associada à
teoria habermasiana. Primeiramente, porque para uma específica
interpretação do conceito de sociologia, a conexão das ciências
78
sociais é mais nítida com a teoria do egocentrismo e da moralidade
infantil que com a que se aproxima da cibernética. Depois, porque
em seus contornos gerais, o movimento de descentração do sujeito
serve de sustentação para uma ideia evolutiva, alinhada com aquela
contida na Teoria do Agir Comunicativo. A própria autora esclarece
seu ponto de vista:
O modelo psicogenético do Piaget dos anos 20 e 30 [...] é mais
ambicioso, completo e rico em dimensões que o modelo
subsequente, dos anos 40 e 80, concentrado na reconstrução do
pensamento matemático científico. Enquanto a recepção da
obra de Piaget privilegiou a exploração deste último modelo,
discutido e reexaminado até a exaustão no mundo inteiro, o
primeiro teve um destino peculiar. Foi criticado pelos
contemporâneos, como Vygotsky e Wallon, questionado pelos
linguistas nas fileiras piagetianas (Sinclair, Ferreiro) e
parcialmente abandonado pelo próprio Piaget. Mas foi
justamente esse modelo, isto é, a teoria do egocentrismo infantil
e a sua descentração, que forneceu os fundamentos para uma
“Teoria da Gênese do Eu”, capaz de integrar correntes teóricas
tão fecundas como a psicanálise, o interacionismo simbólico e
o próprio estruturalismo genético, permitindo a mudança de
paradigma da teoria crítica para a teoria da ação comunicativa,
isto é, uma teoria global da sociedade que se propôs superar os
impasses da teoria crítica da antiga Escola de Frankfurt
(FREITAG, 1991, p. 75).
Bárbara Freitag defende que o primeiro programa de estudos
elaborado por Jean Piaget teve como mote a vinculação da
psicogênese à sociogênese do conhecimento. Uma marca dessa fase
da produção do epistemólogo é a ideia de que “a construção do
conhecimento do mundo e de si mesmo por parte da criança (no
79
decorrer da ontogênese) fornecia a chave para a explicação do
conhecimento produzido pela humanidade (no decorrer da
filogênese)” (FREITAG, 1991, p. 75). Por essa perspectiva, o
paradigma epistêmico avança em função “de uma reinterpretação
total dos fundamentos conceituais a partir de uma nova ótica
(descentração e perspectividade)” (FREITAG, 1991, p. 75). Essa
ideia difere da proposição de Thomas Kuhn (2006 [1962]), para
quem os principais promotores da mudança paradigmática seriam o
acúmulo de saber e as transformações histórico-sociais.
A superação da compreensão paradigmática vigente até
aquele momento é um dos grandes saltos executados por Habermas.
Esse avanço, contudo, é alcançado com apoio de ideias advindas do
primeiro momento da teoria de Piaget. Quando Piaget mudou de
objetivos e métodos, houve quem não visse esse momento como
uma superação teórica. Para Freitag, por exemplo, a virada de Piaget
tem a ver com a assunção de uma postura política antagônica em
relação àquela que tecera até o momento, um movimento da
esquerda para a direita em seu pensamento político. Para ela, Piaget
optou por uma leitura de mundo que privilegiou menos as questões
sociais e mais as individuais, abandonando a busca pelas
possibilidades de transformação social.
A educação, os fatores sociais, o papel do grupo na constituição
do pensamento, da fala e da consciência moral infantil perdem
seu peso explicativo na formação das estruturas cognitivas
infantis, na medida em que avançam os estudos no Centre
d’Espistémologie Génétique, privilegiando-se os fatores
‘naturais’ da hereditariedade, maturação biológica e da
equilibração cibernética que, associados à ‘ação’ (em lugar de
80
‘interação’), passam a explicar a construção do pensamento
lógico-matemático (FREITAG, 1991, p. 34).
Ver a questão por esse ângulo sugere que Piaget teria evitado
sistematicamente abordar o conceito de sociedade. E quando não foi
possível desviar-se dele, tratou-o sob três formas: “1) enquanto
‘meio’, no qual age e interage a criança; 2) enquanto ‘grupo social’,
no qual se movimenta a criança; 3) enquanto objeto de reflexão dos
sociólogos” (FREITAG, 1991, p. 35). Em outras palavras, ou a
sociedade não é da alçada de seu interesse investigativo
pertencendo a outra área do conhecimento ; ou é para ele
simplesmente um grupo, desprovido de distinções de natureza
socioeconômica, linguística, cognitiva ou hierárquica; ou ainda,
representa um meio, objetificado pelo sujeito, que refaz esse processo
dirigido aos objetos do mundo físico, transformando entes de
relações humanas em objetos sociais.
Dongo-Montoya (2006) tem um olhar diferente para a
mesma questão. O autor concorda com a tese de distinção entre um
período e outro da produção piagetiana, no entanto, a explicação
dada para isso é outra. Segundo ele, “nas pesquisas iniciadas por
Piaget na década do 1920, as conquistas conceituais realizadas pela
criança são explicadas por ele em função da socialização linguística e
de interações sociais” (DONGO-MONTOYA, 2006, p. 120). O
próprio Piaget (1971b) afirma haver enfatizado o aspecto
sociológico da linguagem em seus trabalhos iniciais A linguagem e o
Pensamento na Criança e O Juízo e o Raciocínio na Criança. Nesses
textos, reforça ser o pensamento da criança como uma discussão
interna, uma representação interiorizada da interação social. Assim,
na constituição do pensamento, “somente os hábitos de discussão e
81
de vida social levam à lógica, e o egocentrismo, precisamente, torna
impossíveis esses hábitos” (PIAGET, 1999 [1923], p. 276). Nesses
escritos, está fortemente presente a ideia de que a dinâmica externa
das relações sociais é copiada para a vida interior e adotada pelos
pensamentos.
Essa compreensão não ilustra claramente os processos pelos
quais os sujeitos se apropriam do conhecimento. Ela simplifica a
questão assim como o faz Vygotsky, “pois para ele o
desenvolvimento da lógica na criança é uma função direta de sua fala
socializada” (DONGO-MONTOYA, 2006, p. 121). Piaget
inicialmente também não havia conseguido identificar os fatores
endógenos responsáveis pelo desenvolvimento do pensamento e da
linguagem. Por esse motivo, aferrou-se em concepções reducionistas
que, durante algum tempo, explicaram o problema da seguinte
maneira:
[...] quando um comportamento novo vem enriquecer os
precedentes, no decurso do desenvolvimento, isso seria devido
menos a uma construção interna (endógena) do que a um
resultado das próprias interações da vida social. Por exemplo,
quando se explica o aparecimento da reflexão, invocando a
conduta social da deliberação assim como da sua
interiorização sobre a forma de discussão consigo mesmo,
uma construção de conduta nova, mas a partir do plano
interindividual ou coletivo. A novidade de tal conduta a
reflexão é reduzida, portanto, ao mecanismo exterior, e não
deriva de uma construção interna, a partir das condutas de
níveis anteriores (DONGO-MONTOYA, 2006, p. 122).
82
Seu modelo explicativo buscava, à época, justificar o
desenvolvimento cognitivo a partir de elementos externos ao sujeito.
Tinha, portanto, traços do empirismo. Já o modelo seguinte,
acrescenta ao sistema explicativo anterior uma noção de construção,
agregando a ele uma dimensão endógena. Ao contrapor o segundo
modelo, Piaget não situa sua proposta no polo diametralmente
oposto. Ou seja, não realiza um giro subjetivista. Ele inova ao
contrapor uma base nem inatista, nem preformista, mas
construtivista.
Apesar das distinções entre os escritos do jovem Piaget e os
posteriores, o que permanece é o cerne da ideia de adaptação. A
adaptação é comum a todos os processos da inteligência. A diferença
está na explicação sobre como ela acontece. No primeiro momento
da obra piagetiana, ela é simplificada e tende à negação dos aspectos
endógenos. Na fase seguinte, passa a considerar a cibernética, que
representa novas descobertas e avanços no campo das ciências
biológicas. Com isso, faz evoluir o conceito de adaptação biológica
pari passu ao de adaptação cognitiva.
Feitas as análises do sentido da obra de Piaget e das razões
para sua ressignificação, resulta que o conceito de sociedade em
Piaget pode ser lido de modo diferente daquele de Barbara Freitag.
Ao contrário do que deduz, a teoria de Piaget não desdenha dos
aspectos sociais, mas incorpora a si elementos novos, alcançando
rigor científico ainda mais profundo. Esse foi o elemento
característico de seus escritos da década de 1940 em diante. As
novidades desse sistema teórico mais amplo e abrangente que o de
1920 implicaram um olhar para as condições endógenas do
83
desenvolvimento da inteligência humana, sem negar os fatores
exógenos.
A maior atenção dada aos fatores engenos do
desenvolvimento da inteligência levou Piaget a redirecionar seu foco
de estudos para a criança, onde buscou as origens do pensamento e
da linguagem e de suas relações entre si. Com esse esforço encontrou,
no funcionamento dos esquemas sensório-motores dos bebês, um
universo ao qual não tivera acesso até o momento. A partir desse
encontro, colheu algumas das respostas para suas perguntas iniciais
e, mais esperançoso sobre a fertilidade desse caminho, passou a
investir seus esforços nesse campo.
Piaget manteve seu interesse sociológico ao longo de sua
carreira. Duas afirmações sustentam essa premissa. Primeiramente,
a busca por uma explicação alicerçada na biologia não surgiu depois
das décadas de 1920 e 1930, mas acompanha Piaget desde a infância,
no início precoce de sua carreira nas ciências. A segunda, é que não
há um abandono da dimensão social, mas uma mudança de foco,
apenas. O conhecimento biológico evoluiu quanto ao conceito de
adaptação e Piaget o acompanhou, distanciando-se da biologia
clássica e aproximando-se à cibernética. A seguir trata-se de como
seu interesse sociológico conduziu essa transição.
Da adaptação biológica à abstração reflexionante:
a dimensão sociológica como condutor
Na Europa do início do séc. XX, o movimento efervescente
de transformações políticas estabeleceu diálogo com diversas áreas,
inclusive com as ciências e, dentre elas, a Biologia. Essa aproximação
84
entre política e ciências biológicas foi responsável por promover, à
época, uma mudança na concepção de adaptação biológica,
assumindo elementos da cibernética. Essa evolução foi
acompanhada por Piaget e refletiu-se em sua teoria (RAMOZZI-
CHIAROTTINO, 1988). Primeiramente, adaptação para ele
representava um fluxo irreversível, de acordo com a concepção da
biologia clássica. Depois, ele a explicou como equilibração
majorante, dotada de um equilíbrio reversível. Em um último
momento, a denomina como abstração reflexionante, incorporando
o processo dialético.
Para compreender melhor a influência dessas transformações
políticas em relação à obra de Piaget, é preciso situar o debate na
história do conhecimento biológico. Até as décadas de 1920 e 1930,
duas correntes na biologia se opunham rigidamente, mecanicismo e
vitalismo. Nesse período, surge a chamada biologia organicista,
propondo a superação dessa oposição por outra, mais amena,
representada pelo uso consciente e complementar das metodologias
globalista e analítica. O organicismo compartilhou as mesmas
críticas do vitalismo às tendências mecanicistas, contudo, inserindo-
as “num programa que apontava alguns problemas abertos, a serem
investigados com metodologias controláveis, onde o vitalismo
propunha as bases definitivas de sua abordagem do mundo vivo”
(CERUTI, 1987, p. 364). Se vitalismo tratava alguns assuntos como
já dados a priori, o organicismo acrescentou a ele uma atitude
empírica, experimental.
Assim, a alternativa real ao mecanicismo biológico derivou da
fusão das exigências teóricas antirreducionistas, presentes no
pensamento vitalista, com uma atitude experimental que, ao
85
invés de se basear em entidades abstratas, propunha-se a
identificar passo a passo as relações circulares e complexas
presentes nas dinâmicas biológicas. O objeto central do debate
tornou-se, então, o conceito de organização, que deixou de ser
a instância inapreensível e não analisável postulada pelo
primeiro pensamento vitalista para denotar, ao contrário, o
conjunto de propriedades relacionais e sistêmicas expressas nos
vários níveis dos seres biológicos (CERUTI, 1987, p. 365)
Na década de 1930, “biólogos como John Burton Sanderson
Haldane e Joseph Needham, físicos como John Desmond Bernal e
Paul Langevin, psicólogos como Henri Wallon” (CERUTI, 1987,
p. 315) aderiram às ideias emergentes do materialismo dialético. Um
evento científico marcou o surgimento desse interesse. Entre 29 de
junho e 4 de julho de 1931, uma delegação de cientistas soviéticos
participou do II Congresso Internacional de História da Ciência e
da Tecnologia, em Londres. O encontro de cientistas da então URSS
com os pesquisadores ocidentais foi extremamente fecundo, de tal
modo que sua aproximação se acentuou pelo fato especial de haver
sido 1931 o ano, pós crise de 1929, que mais sugeria um verdadeiro
colapso do capitalismo (CERUTI, 1987). Resultou dessa visita um
movimento importante na ciência europeia, que trouxe o debate
político para o cerne da cena científica. Um dos epicentros dessa
discussão viria a se alojar na Revista Nature, relevante veículo de
comunicação científica desde essa época, que acolheu publicações
científicas afinadas com a esquerda política.
Dentre o rol de pesquisadores ingleses notadamente
influenciados pela visita soviética, estava o biólogo Conrad Hal
Waddington (1905 1975). No círculo de cientistas que
publicavam artigos na Revista Nature ele compunha a ala mais
86
“radical” quanto a apropriação do materialismo dialético.
Waddington manifestou o direcionamento político de suas ideias
em alguns desses escritos. Por exemplo, quando contrapôs teorias da
biologia clássica, passando a ver, no caso do genoma, “um sistema
ativo de ‘respostas’ e de reorganizações. Um sistema que não
somente sofre a influência do meio, mas que o enfrenta utilizando
suas informações” (RAMOZZI-CHIAROTTINO, 1972, p. 51). A
fisiologia, ou seja, o funcionamento geral desse sistema, reflete os
princípios da cibernética, trazendo aplicações possíveis às adaptações
no campo da inteligência, inclusive.
No momento inicial de seus estudos, tudo indica que Piaget
se defrontava com os mesmos dilemas da crítica do vitalismo ao
mecanicismo na biologia.
Já em suas primeiras obras explica a formação das estruturas
mentais por um processo de adaptação. Na explicação deste
processo a adaptação biológica desempenha um duplo e dúbio
papel: de um lado, Piaget estabelece uma analogia entre as
relações do organismo e o meio e as do sujeito e do objeto do
conhecimento (neste caso o equilíbrio biológico serve de
modelo ao equilíbrio das estruturações); de outro, considera a
adaptão mental como continuação, prolongamento da
biológica, justificando o mecanismo da formação das estruturas
pelo mecanismo da vida em geral, desviando-se assim, de um
verdadeiro modelo para um ‘mecanicismo’ que seria a negação
do primeiro. Posteriormente, supera essa posição conseguindo
alcançar um verdadeiro modelo. Contribuiu para isso a
mudança de posição em relação à própria biologia
(RAMOZZI-CHIAROTTINO, 1972, p. 43).
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Mesmo tendo sempre considerado a adaptação biológica na
explicação da formação das estruturas mentais, sua formulação se
defrontava com as incongruências de uma crítica ao mecanicismo
ainda não apropriada dos processos inerentes à gênese da
inteligência. Essas primeiras explicações sobre o conceito de
adaptação em Piaget marcam a fase em que a tônica adotada por ele
foi o equilíbrio biológico-mecânico.
A leitura do trabalho de Waddington foi extremamente
significativa para uma guinada na teoria piagetiana. O problema
enfrentado pelo inglês tinha raízes similares às das questões de
Piaget. A solução dialética explorada por Waddington, de inspiração
cibernética, coube também para a epistemologia genética. Sob a
influência das ideias do biólogo inglês, Piaget definiu a existência de
três modelos explicativos para a adaptação de tipo cognitivo ou de
qualquer outro tipo: “- produção aleatória com seleção posterior; -
predeterminação; e construção regulada. Esta última constitui um
tertium que supera simultaneamente os dois termos antitéticos [...]”
(RAMOZZI-CHIAROTTINO, 1972, p. 50). Disso, infere-se que
o primeiro modelo tem acento empirista, o segundo, preformista e
o terceiro modelo, síntese e superação dos anteriores, carrega em si
os gérmens do que futuramente seria o construtivismo.
O intercâmbio entre esses dois pesquisadores, Piaget e
Waddington, teve continuidade. Dentre a comunidade de biólogos
da época, pode-se dizer que foi em Waddington que as novas ideias
piagetianas encontraram eco. Diferentemente, não obtiveram igual
repercussão no cenário científico da época. Desse momento em
diante, Piaget deixa de entender a adaptação intelectual como um
processo de equilibração biológico-mecânica e passa a adotar um
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arcabouço explicativo que tem como chave a ideia de equilibração
majorante, futuramente substituída pelo termo abstração
reflexionante.
Embora o modelo explicativo seja diferente, a dinâmica do
processo é a mesma, tanto na equilibração majorante quanto na
abstração reflexionante. Nos dois casos há um elemento que
desempenha o papel “desequilibrador”. Esse desequilíbrio provoca
uma resposta no sentido da reequilibração, a caminho de uma
superação do problema inicialmente posto. A diferença entre os dois
termos é que no da abstração reflexionante, Piaget “[...] chega a uma
nova noção de estrutura que demonstra a não contradição entre os
modelos lógicos da inteligência por ele estabelecidos e seu aspecto
vivo de constante transformação” (RAMOZZI-CHIAROTTINO,
1972, p. 83). O modelo de inspiração cibernética bebe no mesmo
movimento político deflagrado na ciência europeia das décadas de
1920 e 1930. Ele se vê refletido nas obras piagetianas publicadas de
1940 em diante. Esse período coincide com aquele em que houve
mudança do foco na teoria da axiomatização de conceitos para a
busca da compreensão das condições de coexistência entre os
aspectos lógicos e vitais da inteligência.
De acordo com esse novo modelo, a estrutura concernente à
inteligência possui três aspectos fundamentais: a totalidade, a
transformação e a autorregulação. A totalidade da estrutura tem a
ver com o fato de ser ela composta por elementos organizados em
função de leis inerentes ao seu conjunto. Uma vez formado esse
conjunto, com suas leis próprias, ele adquire características próprias,
que o diferenciam de cada um de seus componentes. Tais leis regem
a forma como se dão as composições, logo, os elementos sofrem
89
modificações para adequarem-se às leis, implicando o conceito de
transformação. Por fim, se o conjunto conhecido por estrutura
possui leis de composição, significa ser ele ao mesmo tempo
estruturado e estruturante. Assim se revela sua última característica,
a capacidade de autorregulação.
Para Piaget, nessa nova fase de sua teorização, tanto a
adaptação biológica quanto a intelectual explicam-se mediante
mecanismos de autorregulação. Nas interações há sempre
transformações, mas estas mantêm sem alterações a forma do
conjunto e também algumas de suas relações. Essa característica,
para Piaget, é o que determina que mesmo gerando novidades,
construindo novos elementos, as leis da estrutura se mantêm
conservadas.
A vida é essencialmente autorregulação. A explicação dos
mecanismos evolutivos, encerrada por muito tempo na
alternativa sem saída entre o lamarckismo e o neodarwinismo
clássico, parece encontrar seu caminho na direção de um
tertium, que é cibernético e se orienta efetivamente no sentido
da teoria da autorregulação [...] Os processos cognoscitivos
aparecem então simultaneamente como a resultante da
autorregulação orgânica, da qual refletem os mecanismos
essenciais, e no âmbito das interações com o exterior, de tal
maneira que acabam, no homem, por estendê-las ao universo
inteiro (PIAGET, 2000 [1967], p. 38).
A abstração reflexionante é o processo pelo qual se explica a
construção do conhecimento na perspectiva da autorregulação. Sua
dinâmica tem como pilar dois elementos: o reflexionamento e a
reflexão. Reflexionamento é “a projeção sobre um patamar superior
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daquilo que foi tirado do patamar inferior, como acontece com a
passagem da ação sensório-motora à representação” (BECKER,
2012, p. 95). Com isso, presumimos a existência de um patamar
atual e outro anterior a ele. Na passagem de um patamar a outro, são
projetados elementos do anterior no atual, ou seja, são reflexionados.
Já a reflexão, é entendida “como ato mental de reconstrução e
reorganização sobre o patamar superior daquilo que foi assim
transferido do inferior” (PIAGET, 1977, p. 303 apud BECKER,
2012, p. 95). Os elementos reflexionados desde o patamar anterior
não se ajustam necessariamente, sem uma prévia adequação. Essa
ação mental para reconstruir e reorganizar esses elementos em sua
nova condição é que se chama reflexão. Esses dois subprocessos da
abstração reflexionante acontecem em sequência, o primeiro entre
patamares distintos e o segundo, “intra” patamar, já em um nível
mais atualizado.
O caminho percorrido pelo pensamento piagetiano para
explicar o processo de adaptação que integra aspectos lógicos e
biológicos vem desde a adaptação do tipo biológica, passando pela
concepção de equilibração majorante, aperfeiçoando-se com a
proposta cibernética, traduzida pela formulação da abstração
reflexionante. Essa passagem de um momento a outro não
representa um abandono da dimensão sociológica através da história
do pensamento piagetiano. Essa transformação acontece em um
contexto temporal e político específico em que o materialismo
dialético repercutiu na cena científica da época, o que permite inferir
que a dimensão sociológica foi fundamental para a chegada de Piaget
às suas elaborações com base na cibernética.
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Dimensão subjetiva do pensamento sociológico:
interação e socialização
A questão que se levanta agora é: como o pensamento
sociológico de Piaget avança na explicação sociológica em sua nova
fase? A resposta a essa questão somente é exequível à medida que são
perscrutados os aspectos sociológicos da teoria piagetiana. As ideias
que desenvolve sobre como acontece a evolução em nível
psicogenético se conectam de algum modo com a dimensão
sociológica. Por ter-se atido mais ao trabalho com a psicologia,
contudo, não são muitos os registros sobre esse tema. Do pouco que
se encontra, extrai-se que, ao tratar da questão sociológica, Piaget se
ocupa de dois problemas distintos: o da psicogênese e sociogênese ao
longo da socialização da criança e o da evolução histórica das noções
da ciência e filosofia. Aqui será abordado o problema da dimensão
subjetiva e, adiante, o da questão coletiva.
Em uma e em outra área, psicologia ou sociologia, é presente
a necessidade de explicação da relação entre parte e todo, ou melhor,
entre indivíduo e sociedade. Historicamente, desde a secularização
pela superação das concepções religiosas dogmáticas, fortemente
ligadas à igreja medieval, é possível acompanhar distintos tipos de
resposta ao problema posto. Foram basicamente três os principais
modelos explicativos vigentes desde então: o esquema atomístico (o
todo é a soma das partes); o esquema da emergência (implicação
mútua entre parte e todo); e o esquema do relativismo e da sociologia
concreta (todo é sistema de relações que promovem, cada uma delas,
a transformação dos termos por ela unidos). Piaget identifica o
prolongamento de sua teorização no campo sociológico como mais
próximo a este último esquema.