
Monique Hulshof e Ubirajara Rancan de Azevedo Marques (Org.)
64 |
o que considerava ser desejável, não resta dúvida de que Kant – sem o ter
aprendido dos “Popularphilosophen”, ou por reação às críticas destes, mas,
antes, estando nisso em substancial acordo com eles, embora por outras bem
mais fundas razões – tentou seguir, na elaboração e exposição da sua própria
losoa, associada ao rigor escolástico do pensamento feito a fundo, aquela
via média – “sensibilização” dos conceitos, da “verdadeira popularidade”, da
“abordagem estética” – que recomendava aos outros. E creio poder dizer
que a mais eloquente prova disso é a complexa rede de metáforas e analogias
sobre a qual ele constrói e mediante a qual ele expõe a sua losoa, e que
noutra ocasião amplamente expus.
31
Também graças a isso, os seus escritos,
como bem o intuíram Friedrich Schlegel e Walter Benjamin, constituem
um incontornável documento, que, na História da Filosoa, assinala um
momento de decisiva transformação na prática da linguagem da losoa.
Longe, pois, de ser insensível ao problema da linguagem e ao da linguagem
da losoa, Kant convida-nos verdadeiramente para sermos testemunhas de
uma decisiva transformação da relação da losoa com a sua linguagem,
uma transformação que é realizada na e pela sua própria obra, não, porém,
tanto à superfície desta quanto, precisamente, ao nível da sua estrutura poéti-
co-semântica profunda. Ao mesmo tempo que o lósofo crítico revoluciona
o modo de encarar as questões metafísicas, revoluciona também a forma de o
discurso losóco as tratar e expor, encontrando uma peculiar via média en-
tre a forma escolástica e a vulgar forma popular, não comprometendo o rigor
e a profundidade dos conceitos, nem dispensando o trabalho da imaginação,
ou rejeitando a luz que possa provir até das imagens sensíveis.
referênCiaS
ASTER, Ernst von (ed.). Immanuel Kants populäre Schriften. Berlin: Deutsche
Bibliothek, 1914.
31
Veja-se: SANTOS, 1994b. E, mais recente, também: KAUARK-LEITE; CECCHINATO; FIGUEIREDO;
RUFFING; SERRA, 2015. Rera-se aqui, ainda, a conclusão de Friedrich Kaulbach, num de seus ensaios sobre
Kant, segundo a qual o lósofo crítico se situa entre a Schulphilosophie e a Popularphilosophie, tentando salvar as
virtudes de uma e de outra, mas fazendo isso também por um imperativo ético: «Para Kant, a questão do falar
e da comunicação tinha de assumir uma dimensão ética, na medida em que a comunicação requer a mesma
atitude que é exigida no imperativo categórico; a boa atitude exclui que nos isolemos, também linguisticamente,
da comunidade moral, o reino dos espíritos, e nos alheemos numa existência “privada” do agir, do pensar e do
falar. […] Kant viu-se, como autor, numa tensão entre, por um lado, o ethos da comunicação e, por outro, o
ethos da responsabilidade perante a pesada causa da Filosoa.» (KAULBACH, 1966, p.62). Sobre o aspeto ético
da linguagem em Kant, veja-se o meu ensaio «Kant e a ética da linguagem» (SANTOS, 2012).