A LINGUAGEM EM KANT.
A LINGUAGEM DE KANT.
A LINGUAGEM EM KANT.
A LINGUAGEM DE KANT.
Marília/Ocina Universitária
São Paulo/Cultura Acadêmica
2018
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UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS - FFC
UNESP - campus de Marília
Diretor
Prof. Dr. Marcelo Tavella Navega
Vice-Diretor
Dr. Pedro Geraldo Aparecido Novelli
Conselho Editorial
Mariângela Spotti Lopes Fujita (Presidente)
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Andrey Ivanov
Célia Maria Giacheti
Claudia Regina Mosca Giroto
Marcelo Fernandes de Oliveira
Neusa Maria Dal Ri
Renato Geraldi
Rosane Michelli de Castro
Ficha catalográca
Serviço de Biblioteca e Documentação - FFC
Editora aliada:
Cultura Acadêmica é selo editorial da Editora UNESP
Ocina Universitária é selo editorial da UNESP - campus de Marília
Processo CNPq nº - 03451/2017-5
Copyright © 2018, Faculdade de Filosoa e Ciências
L755 A Linguagem em Kant, a linguagem de Kant / Monique Hulshof e Ubirajara Rancan de
Azevedo Marques, organizadores. – Marília : Ocina Universitária ; São Paulo :
Cultura Acadêmica, 2018.
310 p.
Textos em português, textos em inglês e textos em alemão.
Inclui bibliograa
Apoio: CNPq
ISBN 978-85-7249-009-2 (Impresso)
ISBN 978-85-7249-010-8 (Digital)
1. Kant, Immanuel, 1724-1804. 2. Linguagem - Filosoa. 3. Filosoa alemã. 4.
Criticismo (Filosoa). I. Hulshof, Monique. II. Marques, Ubirajara Rancan de Azevedo.
CDD 193.2
DOI https://doi.org/10.36311/2018.978-85-7249-010-8
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As obras de Kant serão citadas de acordo com a edição da Academia,
Akademie-Ausgabe [“AA”] (Kants gesammelte Schriften: herausgegeben von der
Deutschen Akademie der Wissenschaften, anteriormente Königlichen Preussischen
Akademie der Wissenschaften, 29 vols. Berlin, Walter de Gruyter, 1902– ), na
seguinte ordem: abreviatura da obra, número do tomo e número da página.
As obras estão disponíveis online até o volume 23 em https://korpora.zim.
uni-duisburg-essen.de/kant/verzeichnisse-gesamt.html
As abreviaturas das obras citadas seguem a referência dos seguin-
tes títulos em alemão:
Anth Anthropologie in pragmatischer HinsichtAntropologia de
um ponto de vista pragmático (1798)
Br Briefe (publicação póstuma)
KpV Kritik der praktischen Vernunft – Crítica da razão prática
(1788)
KrV Kritik der reinen Vernunft – Crítica da razão pura (A 1781,
B 1789)
Monique Hulshof e Ubirajara Rancan de Azevedo Marques (Org.)
6 |
KU Kritik der Urteilskraft – Crítica da faculdade de julgar
(1790)
Log Logik – Lógica (1800)
MS Die Metaphysik der Sitten – A metafísica dos Costumes
(1797)
MS-RL Metaphysische Anfangsgründe der Rechtslehre – Primeiros
princípios metafísicos da Doutrina do Direito
MSI De mundi sensibilis atque intelligibilis forma et principiis –
Forma e princípios do mundo sensível e do mundo inteligível
(1770)
NEV Nachricht von der Einrichtung seiner Vorlesungen in dem
Winterhalbenjahre von 1765-1766 – Anotações para a
preparação das Lições do Semestre de Inverno de 1765-1766
(publicação póstuma)
NTH Allgemeine Naturgeschichte und eorie des Himmels
História Geral da Natureza e Teoria do Céu (1755)
Prol Prolegomena zu einer jeden künftigen Metaphysik –
Prolegômenos a toda a metafísica futura (1783)
Re. Reexionen – Reexões (publicação póstuma)
TP Über den Gemeinspruch: Das mag in der eorie richtig sein,
taugt aber nicht für die Praxis – Sobre a expressão corrente:
Isto pode ser correcto na teoria, mas nada vale na prática
(1793)
UD Untersuchung über die Deutlichkeit der Grundsätze der
natürlichen eologie und der Moral - Investigação sobre
a evidência dos princípios da teologia natural e da moral
(1764)
ÜE Über eine Entdeckung, nach der alle neue Kritik der reinen
Vernunft durch eine ältere entbehrlich gemacht werden soll
– Sobre uma descoberta segundo a qual toda nova crítica
da razão pura deve tornar-se supérua através de uma mais
antiga (1790)
A linguagem em Kant. A linguagem de Kant.
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ÜGTP Über den Gebrauch teleologischer Principien in der
Philosophie – Sobre o uso de princípios teleológicos na
Filosoa (1788)
V-Anth/Mensch Vorlesungen Wintersemester 1781/1782 Menschenkunde
– Lições de Antropologia do semestre de inverno de
1781/1782
V-Anth/Mron Vorlesungen Wintersemester 1784/1785 Mrongovius – Lições
de Antropologia do semestre de inverno de 1784/1785
Mrongovius
V-Anth/Pillau Vorlesungen Wintersemester 1777/1778 Pillau – Lições de
Antropologia do semestre de inverno de 1777/1778 Pillau
V-Met/Dohna Vorlesungen Wintersemester 1792/1793 Metaphysik Dohna
– Lições de Antropologia do semestre de inverno de
1792/1793
VT Von einem neuerdings erhobenen vornehmen Ton in der
Philosophie - Sobre um recentemente enaltecido tom de
distinção na Filosoa (1796)
VUB Von der Unrechtmäßigkeit des Büchernachdrucks – Sobre a
ilegitimidade da reimpressão de livros (1785)
VvRM Von den verschiedenen Racen der Menschen – Das diferentes
raças humanas (1775)
WDO Was heißt: Sich im Denken orientiren? – O que signica
orientar-se no pensamento? (1786)
ZeF Zum ewigen Frieden – À Paz Perpétua (1795)
S
Apresentação ............................................. 11
Capítulo 1. Kant e a questão da popularidade e da linguagem da Filosoa
Leonel Ribeiro dos Santos .................................... 17
Capítulo 2. Sobre a primazia da poesia em relação às outras artes no
contexto da antropologia pragmática de Kant
Bernd Döringer .......................................... 71
Capítulo 3. “Exprimir o inefável, (...) e torná-lo universalmente
comunicável”. Sobre o conceito de linguagem poética em Kant
Fernando M. F. Silva ....................................... 87
Capítulo 4. Kant e o discurso teórico das ciências da vida
Isabel C. Fragelli........................................... 101
Capítulo 5. Comparações embriológicas no Architektonikkapitel:
dissonâncias passageiras ou desanações prolongadas?
Ubirajara Rancan de Azevedo Marques .......................... 105
Capítulo 6. Os diferentes aspectos da distinção entre fenômeno e
noumenon na Crítica da razão pura
Joel iago Klein .......................................... 127
Capítulo 7. A “novidade” da terminologia crítica? Sobre a “dedução
como termo jurídico na Crítica da Razão Pura
Diego Kosbiau Trevisan...................................... 165
Capítulo 8. A linguagem das mulheres no âmbito privado e a limitação
do uso público de sua razão: uma comparação entre Kant e Wollstonecraft
Monique Hulshof .......................................... 185
Capítulo 9. e Word ‘Democracy’ in Kant’s Political Writings
Luigi Caranti............................................. 199
Capítulo 10. Der Homer der reinen Vernunft: razão e linguagem na
Metacrítica de Hamann a Kant
Mario Spezzapria.......................................... 215
Capítulo 11. A questão do ganho de sentido na Crítica da Faculdade
do Juízo. Acerca de quase insuspeitadas convergências entre Hamann
e Kant a propósito do problema da linguagem
José Miranda Justo ......................................... 225
Capítulo 12. Kant in der Rechtsphilosophie Hegels
Pedro Geraldo Aparecido Novelli ............................... 237
Capítulo 13. Kant and Foucault’s philosophy of language and the use of
language in their work
Marita Rainsborough ....................................... 249
Capítulo 14. A Linguagem de Kant e a Autocrítica de Wundt:
O Papel da Filosoa Crítica no Desenvolvimento da Psicologia
Cientíca no Século XIX
Saulo de Freitas Araujo ...................................... 269
Capítulo 15. Kant, Piaget and Halliday: Towards a linguistic impure
synthetic a priori
Tristan Guillermo Torriani ................................... 281
Sobre oS autoreS ........................................ 303
| 11
A
Ainda que não seja abordado de maneira explícita em sua obra, o
problema da linguagem se faz presente em quase todos os escritos de Kant.
Sejam estes de caráter teórico ou prático, sobre lógica, moral, história ou
antropologia, são diversas e muito ricas as referências de Kant sobre a fala,
a comunicação dos pensamentos, o uso público da razão, as diferentes for-
mas de expressão e a variedade das línguas. Não são raras também suas re-
exões sobre a sua própria linguagem, que se manifestam em sua maneira
peculiar de compreender a losoa e na importância que atribui ao modo
de exposição de seus pensamentos.
Em outubro de 2017, o já tradicional Colóquio de Marília, que
tem reunido professores e pesquisadores para debater temas variados da
losoa kantiana, proporcionou mais uma vez um encontro entre diversos
pesquisadores, provenientes de diferentes instituições de pesquisa do Brasil
e do exterior, com o intuito de travar, desta vez, uma viva conversa em
torno da linguagem em Kant e da linguagem de Kant. A partir dos deba-
tes realizados durante o encontro, as comunicações foram posteriormente
desenvolvidas e ampliadas de modo a compor os capítulos do livro que o
leitor tem agora em mãos.
Este livro surgiu, assim, como um conjunto de pontos de vista
distintos e complementares em torno da presença da linguagem na lo-
soa kantiana. Essas diferentes perspectivas se entrelaçam em dois eixos
Monique Hulshof e Ubirajara Rancan de Azevedo Marques (Org.)
12 |
principais. No primeiro, são abordadas as reexões sobre a linguagem
feitas por Kant em diferentes momentos de sua obra: a linguagem da -
losoa, a linguagem poética, a linguagem do conhecimento e das ciências
naturais, a linguagem na política. No segundo eixo, são construídos diá-
logos, reais ou possíveis, entre Kant e outros pensadores, como Hamann,
Hegel, Foucault e Wundt.
Não haveria melhor ponto de partida para o livro do que a dis-
cussão sobre o signicado da linguagem da losoa kantiana. Assim, o
percurso do leitor inicia-se com Leonel Ribeiro dos Santos localizan-
do a linguagem da losoa crítica de Kant no interior do debate entre
a chamada “losoa popular” (Popularphilosophie) e a losoa escolar
(Schulphilosophie). De um lado, o autor procura dissolver os preconceitos
de que a losoa crítica seria inteiramente oposta à “losoa popular”. De
outro, desvela a complexidade da relação de Kant com a losoa escolás-
tica alemã, de matriz wolana. Ribeiro dos Santos ressalta, desse modo,
que a preocupação de Kant com a linguagem de sua losoa mostra-se não
apenas no cuidado que o lósofo tem com a exposição de seu pensamento
a partir da ideia de sistema, mas também na intenção de atribuir-lhe um
caráter popular. Por m, ao notar a importância da linguagem poética na
losoa de Kant, o autor como que antecipa a temática dos dois capítulos
seguintes do livro.
O leitor encontra uma primeira abordagem sobre a linguagem
poética na obra de Kant na leitura de Bernd Döringer sobre a primazia da
poesia em relação às belas artes. A defesa, feita por Kant, da poesia como
forma de expressão superior às demais artes é inicialmente tematizada a
partir de três aspectos da antropologia pragmática: a facticidade, ou o ca-
ráter de observação empírica; a potencialidade, isto é, o que o ser humano
pode fazer de si mesmo; e a normatividade, ou o que o ser humano “deve
fazer de si mesmo. Döringer utiliza, contudo, a relação entre a poesia e a
antropologia pragmática como ocasião para discutir de maneira mais am-
pla e complexa a primazia da poesia, na medida em que esta é apresentada
por Kant como a arte que permite a melhor expressão das ideias estéticas,
dada a excecional capacidade de representação artística que a linguagem
oferece. Essa compreensão de Kant sobre a linguagem poética é elucidada
A linguagem em Kant. A linguagem de Kant.
| 13
por Fernando Silva por outro viés, que ressalta uma tensão existente na
poesia, uma vez que esta deve encontrar imagens para exprimir representa-
ções inefáveis e ao mesmo tempo torna-las universalmente comunicáveis,
ou seja, compreensíveis, do mesmo modo, para o espírito de todos.
Inaugurando no livro a perspectiva teórica sobre a linguagem na
obra de Kant, Isabel Fragelli apresenta algumas reexões a respeito do dis-
curso teórico sobre o organismo na losoa crítica. A autora discute em
que medida a teoria do vivo, exposta na terceira Crítica, pode ser compre-
endida como aprofundamento do debate em torno dos problemas coloca-
dos no momento em que a siologia começava a constituir sua linguagem
própria e a adquirir assim autonomia enquanto ciência natural. Ubirajara
Rancan de Azevedo Marques continua a discussão acerca do discurso te-
órico de Kant sobre a siologia trilhando um caminho distinto. Ao expli-
citar o signicado dos termos relacionados à embriologia no capítulo da
Arquitetônica da Crítica da razão pura, o autor procura desfazer um apa-
rente conito presente no uso que Kant faz das metáforas da geração equí-
voca, da pré-formação e da epigênese dos conceitos e princípios da razão.
Ainda no contexto da losoa teórica de Kant, os dois capítulos
seguintes dedicam-se à linguagem de Kant na Crítica da razão pura. Joel
Klein levanta a hipótese de que as diferentes distinções entre fenômenos
e coisas em si mesmas têm sua origem nos diversos níveis argumentati-
vos da reexão transcendental proposta por Kant. Klein sugere que, longe
de excluir os demais, cada aspecto novo da distinção é inserido por Kant
de modo a pensar um novo problema teórico. Já Diego Kosbiau Trevisan
explora a nova terminologia trazida por Kant da jurisprudência e intro-
duzida em momentos decisivos da exposição da primeira Crítica. Trevisan
concentra suas reexões na particularidade do termo “dedução”, sugerindo
que o sentido do termo só pode ser devidamente compreendido à luz do
signicado que possuía na jurisprudência da época.
Nos dois capítulos seguintes o leitor encontra algumas consi-
derações sobre a linguagem no âmbito político do pensamento de Kant.
Monique Hulshof sugere que, apesar de caracterizar a linguagem das mu-
lheres como “eloquente”, Kant limita o uso dessa linguagem ao âmbito
doméstico, excluindo o sexo feminino do debate público e das decisões
Monique Hulshof e Ubirajara Rancan de Azevedo Marques (Org.)
14 |
políticas. A autora então contrasta a posição sexista de Kant com a reivin-
dicação dos direitos civis das mulheres feita na mesma época por Mary
Wollstonecraft, que exige o reconhecimento da capacidade intelectual das
mulheres para falar e pensar por si mesmas. De outro lado, Luigi Caranti
reete sobre o termo democracia no pensamento político kantiano, procu-
rando dissolver a aparente oposição entre a dura crítica que Kant faz sobre
o conceito de democracia e a defesa de que as leis só adquirem legitimidade
quando podem ser consentidas por todos. Ao afastar-se das interpretações
que defendem se tratar apenas de um mal-entendido gerado pelo uso do
termo, Caranti se propõe a explicar qual é precisamente o problema que
Kant encontra na democracia enquanto forma de governo.
Iniciando o segundo momento do livro que apresenta o
diálogo de Kant com outros lósofos acerca da linguagem, dois capítulos
dedicam-se Johann Georg Hamann, contemporâneo a Kant que marcou
denitivamente as leituras e objeções dos pós-kantianos à losoa crítica.
A partir de uma análise da Metacrítica sobre o purismo da razão, Mario
Spezzapria explicita o ponto central de discordância de Hamann com relação
ao projeto crítico: ao propor um uso purista de uma razão única, abstrata
e universal, Kant teria desconsiderado a anterioridade da linguagem que
se forma sempre a partir de línguas particulares, determinadas de modos
diversos e marcadas por contextos históricos precisos. A conversa entre
Kant e Hamann é apresentada a partir de um outro ponto de vista por
José Miranda Justo. Mesmo reconhecendo o abismo entre o “apriorismo
kantiano” e o “aposteriorismo hamanniano”, Justo propõe ao leitor
convergências inesperadas entre os dois lósofos sobre a questão do ganho
de sentido na linguagem. O autor aproxima, assim, a compreensão de
Hamann sobre a importância de pensar por si próprio e de “pensar mais
às considerações de Kant sobre o “modo de pensar alargado” e sobre as
“ideias estéticas” na Crítica da Faculdade de Julgar.
O leitor encontra em seguida dois outros diálogos possíveis: en-
tre Kant e Hegel e entre Kant e Foucault. Pedro Novelli procura tornar
explícita a presença textual de Kant no pensamento losóco de Hegel,
particularmente nos momentos em que Kant cita o lósofo nominalmente
em sua Filosoa do Direito. Marita Rainsborough explora as considerações
A linguagem em Kant. A linguagem de Kant.
| 15
sobre a linguagem latentes na losoa de Kant e explícitas na losoa de
Foucault, a m de interrogar qual seria a relação dessas considerações com
os temas e objetos de seus conceitos losócos, de um lado, e com a lin-
guística losóca presente em suas obras, de outro. Rainsbourough mostra
em que medida Foucault se propõe a dar continuidade ao projeto kantiano
de Esclarecimento (Aufklärung), reconhecendo a importância fundamen-
tal da linguagem para a losoa crítica.
Nos últimos capítulos do livro encontram-se duas perspecti-
vas distintas sobre o papel de Kant para as ciências empíricas. Saulo de
Freitas Araújo chama atenção para a inuência da linguagem de Kant para
o desenvolvimento histórico das ciências empíricas, iluminando particu-
larmente o caso de Wilhem Wundt. O autor explica como a recepção e
apropriação dos conceitos da Crítica da razão pura são fundamentais para
a mudança de perspectiva de Wundt acerca dos fundamentos conceituais
da psicologia empírica, na medida em que o leva a abandonar a noção de
inconsciente como consistindo em uma ilusão lógica. Já Tristan Guillermo
Torriani examina a noção kantiana de “a priori impuro” na Crítica da razão
pura, com o intuito de argumentar que este conceito deve ser preservado,
na medida em que pode nos fazer reconhecer o papel central da linguagem
no desenvolvimento do entendimento discursivo. O autor sugere, então,
uma conexão inusitada entre o pensamento de Kant e as compreensões da
linguagem oferecidas por autores como Piaget e Halliday.
Oferecendo esse conjunto de perspectivas sobre a linguagem de
Kant e a linguagem em Kant, os organizadores do livro pretendem convi-
dar o leitor a juntar-se à conversa entre os autores, para reetir sobre essa
temática que se abre em muitos caminhos ainda não explorados.
| 17
Capítulo 1.
K       
  F
Leonel Ribeiro dos SANTOS
“Em investigações que se elevam tão alto não se pode começar pela popularidade.
Immanuel Kant, Carta a Garve de 7 de agosto de 1783 (Br, AA 10:339)
1
“Mesmo agora, continua-se a tratar a “Popularphilosophie
alemã sem o contributo de Kant.
R. Brandt e W. Stark, „Einleitung“ às Vorl. ü. Anthropologie (AA 25.1:.XIV)
1. tema e propóSito deSte enSaio
Neste ensaio, proponho-me abordar a posição de Kant relativa-
mente ao problema da “popularidade” em Filosoa e, associado a isso, tam-
Os textos de Kant são citados pela Akademie Ausgabe (AA) dos Kants Gesammelte Schriften (Berlin: Walter de
Gruyter, 1900 ss), sendo as obras identicadas pelas siglas de abreviação em uso pela Kant Gesellschaft e pela
Sociedade Kant Brasileira, seguidas do volume e páginas.
Monique Hulshof e Ubirajara Rancan de Azevedo Marques (Org.)
18 |
bém o tema da relação da losoa kantiana e mesmo da “losoa crítica
com a chamada “losoa popular” (Popularphilosophie) alemã das últimas
quatro décadas do século XVIII, no respetivo confronto de uma e outra
com a chamada “losoa escolar” (Schulphilosophie) de matriz wolana.
2
Esse propósito leva-me, porém, a ter em consideração alguns tópicos com
ele diretamente relacionados e de que depende a sua adequada compre-
ensão, nomeadamente, o da linguagem da Filosoa, em geral, e, em espe-
cial, o da linguagem da losoa kantiana. Mas impõe-se, antes de mais,
desalojar alguns preconceitos estabelecidos na, aliás, relativamente escassa
literatura sobre estes assuntos. Tentarei contribuir para isso tendo em vista
os três objetivos seguintes:
1º- Mostrar a pertinência e a importância da “Popularphilosophie
na paisagem losóca alemã da segunda metade do séc. XVIII e reconhe-
cer o seu papel na transformação desse ambiente losóco, e isso expres-
samente contra o esquecimento ou a desqualicação de que ela é tradicio-
nalmente objeto.
3
2º- Mostrar que a “losoa popular” (Popularphilosophie) e a
“losoa crítica” (kritische Philosophie), na expressão que desta deu o seu
autor, longe de serem adversárias, como geralmente se dá por adquirido,
nomeadamente, no que concerne à questão do reconhecimento da impor-
tância da “popularidade” em losoa, são antes aliadas, mesmo se as res-
petivas razões ou pressupostos não são totalmente coincidentes e, por isso,
possam ter dado ocasião a alguma “controvérsia” ou incompreensão. Urge,
por conseguinte, contrariar a ideia estabelecida do antagonismo entre a
Popularphilosophie” e a “kritische Philosophie”, da primeira como “antípo-
Este ensaio é uma versão reelaborada de uma parte do Roteiro que serviu de base a uma sessão de seminário
do Projeto de Pesquisa Experimentation & Dissidence, coordenado pelo Prof. Doutor José Miranda Justo, no
âmbito do Centro de Filosoa da Universidade de Lisboa, a 13 de dezembro de 2017, sob o título «“Filosoa
popular” e “losoa críticaversus “losoa escolar”: A mudança de paradigma na losoa alemã da segunda
metade do século XVIII». A minha exposição teve, na ocasião, as qualicadas “Respostas” críticas de dois muito
prezados colegas, a Prof.ª Doutora Adriana Veríssimo Serrão e o Doutor Fernando Silva, as quais me deram
oportunidade para explicitar e esclarecer melhor aspetos do tema. Agradeço ao Prof. José Miranda Justo a gentil
anuência a que publique esta versão reduzida e refundida daquele muito prolixo Roteiro, neste volume dedicado
ao tema Linguagem em Kant / Linguagem de Kant. Por outro lado, agradeço ao Prof. Doutor Ubirajara Rancan
de Azevedo Marques o acolhimento deste ensaio num volume que recolhe os textos apresentados no X Colóquio
Kant “Clélia Martins”, no qual acabei por não poder participar.
A tradicional visão negativa da “Popularphilosophie” tem vindo a ser abandonada a favor de uma visão que dá
atenção ao seu valor intrínseco e ao seu signicado histórico-losóco. Veja-se: BÖHR, 2003.
A linguagem em Kant. A linguagem de Kant.
| 19
da” da segunda, ou vice-versa, uma ideia criada e difundida ainda em vida
de Kant e precisamente por alguns “kantianos” ou auto-constituídos advo-
gados do lósofo de Königsberg e intérpretes-expositores da sua losoa,
nisso muito mais zelosos da sobranceira dignidade da “losoa crítica” do
que o próprio autor desta.
4
Na verdade, se é certo que Kant criticava as po-
sições dos “lósofos populares”, nomeadamente em losoa moral, nunca,
porém, deixou de considerar e de reiteradamente armar que a popularida-
de – a “verdadeira popularidade” ou a “perfeita popularidade” – constitui
um importante desiderato do escritor-lósofo e uma justa exigência do
leitor de obras losócas e de admitir que até mesmo na losoa moral há
um lugar para a exposição “popular”. Para a refutação da ideia de que a -
losoa crítica é contra a popularidade bastará aduzir os muitos e sucessivos
textos de Kant que inequivocamente a desmentem. E a própria análise da
relação entre Christian Garve e Immanuel Kant, a partir dos documentos
textuais que dela dão testemunho, é também particularmente adequada
para mostrar isso mesmo. Na verdade, a controvérsia havida entre ambos,
resultante do equívoco que envolveu a primeira e anonimamente publicada
recensão da Crítica da Razão Pura, na qual aquele “lósofo popular” teve
participação, termina de fato numa exemplar reconciliação losóca, isto
é, no esclarecimento das respetivas posições, no mútuo respeito dos res-
petivos pontos de vista e num assumido acordo quanto ao fundamental.
5
3º - Mostrar, enm, que, em Kant, a questão da “popularidade
em Filosoa e até a da relação do lósofo crítico com a losoa escolástica
alemã de matriz wolana é de longe muito mais complexa e abordada
num contexto sistemático muito mais amplo do que ocorre, em geral, nos
Popularphilosophen” que não tinham preocupação sistemática. A saber:
é-o no contexto de uma revisão crítica das pretensões da razão especulati-
va no tocante à sua capacidade de decidir sobre os supremos assuntos ou
conhecer os supremos objetos da Metafísica (Deus, Alma, Mundo); é-o
A este respeito, o destaque vai para o professor de Jena, Karl Leonhard Reinhold, que, em várias páginas da sua
obra Ueber das Fundament des philosophischen Wissens (REINHOLD, 1791) emite um juízo muito depreciativo
a respeito da “losoa popular”, apontando os seus efeitos negativos sobre a cultura losóca alemã da época,
apresentando precisamente a losoa crítica como a vigorosa e adequada resposta a esse estado de coisas.
Sobre a controvérsia entre Kant e Garve a respeito do tópico, resumirei aqui apenas alguns aspetos mais
relevantes do que expus no ensaio «Popularidade e Moralidade. Nota sobre a relação entre Immanuel Kant e
Christian Garve» (SANTOS, 2018, p.251-277).
Monique Hulshof e Ubirajara Rancan de Azevedo Marques (Org.)
20 |
também no contexto da proposta de uma nova Lógica – a Lógica transcen-
dental (capaz de garantir ao conhecimento a objetividade, e não meramen-
te a correção formal, o que lhe impõe a necessária referência à experiência,
à sensibilidade, às intuições e imagens sensíveis); é-o, enm, no âmbito da
proposta do que se pode chamar uma Poética e uma Retórica da razão (que
bem podem designar-se como transcendentais!), nas quais se explicitam os
pressupostos da criação ou geração do pensamento a partir das fontes mes-
mas da razão e os da universal comunicabilidade das ideias, tópicos estes
que estão dispersos por diferentes obras e escritos de Kant. Cabe destacar
alguns desses lugares: na KU §§ 49 e 59, a teoria da ideia estética, da analo-
gia e do símbolo; na KrV, o penúltimo capítulo sobre a «Arquitetónica da
razão pura», a qual se expõe no ambiente e nos termos de uma metafórica
genético-biológica, o desenvolvimento orgânico de uma ideia ou de um
sistema losóco como um gérmen que cresce por dentro; e em muitos
outros lugares, seja nas obras publicadas ou nas reexões do espólio, numa
reiterada, embora nunca completamente sistematizada, reexão acerca dos
procedimentos postos em jogo pela razão na produção e exposição das suas
representações e ideias e da respetiva comunicação ou expressão.
6
Penso que, por m, se tornará claro que a questão da “populari-
dade” em Filosoa, com tudo o que ela de mais relevante implica, não é
de modo nenhum, para Kant, uma questão menor, e também não é – ao
contrário do que geralmente se pensa – uma questão induzida do exterior
para a losoa kantiana, nem mesmo para a losoa crítica, mas é sim
uma preocupação própria e conatural destas. Em suma, pretendo mos-
trar que Kant tem todo o direito a ser considerado um “lósofo popular”:
tem-no enquanto teorizador, e tem-no também enquanto escritor e expo-
Não poderei dar aqui suciente conta da ideia de uma Poética da Razão em Kant. O que por isso entendo
di-lo Kant em parte sob a expressão “Arquitetónica da razão”, a que dedica o penúltimo capítulo da sua Crítica
da Razão Pura, mas deixa abundantes apontamentos no mesmo sentido em muitos outros lugares da sua obra,
nomeadamente na Crítica do Juízo (§§ 49 e 59). Dediquei ao tópico a conferência que proferi no dia 10 de
fevereiro de 2014, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, por ocasião da homenagem que me foi
feita pelo Centro de Filosoa e Departamento de Filosoa dessa minha Universidade, e cujo texto ainda está
inédito. Mas veja-se o desenvolvimento que dessa ideia propus em Metáforas da Razão ou Economia Poética do
Pensar Kantiano, no 3º cap. da Primeira Parte - “Prolegómenos a uma Poética da Razão” (p.91-128) e no cap. 3
da Segunda Parte – “Da arquitetónica da razão à razão arquitetónica” (p.349-402) e em muitos outros lugares
da mesma obra (SANTOS, 1994b), e ainda no meu livro A razão sensível. Estudos Kantianos (SANTOS, 1994a),
sobretudo no primeiro capítulo - “O Estatuto da sensibilidade no pensamento kantiano: Lógica e Poética do
pensamento sensível” (p. 13-37).
A linguagem em Kant. A linguagem de Kant.
| 21
sitor das suas ideias. Mas espero mostrar também que Kant vai ainda além
das exigências da mera popularidade em Filosoa, apontando o modo ou
tratamento estético» (ästhetische Behandlung) como o verdadeiro deside-
rato da exposição losóca, do que a popularidade seria apenas um básico
requisito. Torna-se, assim, manifesto que a questão da popularidade da
losoa é apenas um dos aspetos do mais vasto problema da linguagem
da losoa, isto é, do problema da relação do pensamento com a lingua-
gem em que semanticamente se constitui, se exprime e se comunica, numa
palavra, se faz entender, e não apenas aos outros, mas, antes de mais, ao
próprio pensador.
2. o tema e Seu SignifiCado epoCal: uma filoSofiaao alCanCe de
toda a gente
Numa carta a Johann Heinrich Lambert, datada de 29 de Março
de 1767, Georg Jonathan Holland fazia a seguinte observação a respeito do
que estava a acontecer na losoa alemã da época:
A losoa teve um gradual crescimento desde os tempos mais antigos
até mais ou menos ao tempo de Wol. Depois deste, seguindo o exem-
plo dos franceses, começou-se a praticá-la à la portée de tout le monde.
A venerável matrona teve de vestir-se de acordo com a moda; ainda se
procura o seu convívio, mas não já para instrução e sim para passatem-
po. Com o traje ela mudou também os seus costumes e tornou-se uma
vazia tagarela. (LAMBERT, 1782, p. 179).
É sob a forma de lamento que se assinala uma mudança histó-
rica, tanto na forma como na natureza da losoa. E é fácil reconhecer
que neste lamento é visado aquele tipo de losoa que já era praticada na
época pelos que viriam a ser chamados “lósofos populares”. Holland vê
neste movimento a inuência do gosto francês, uma moda de ligeireza ou
de elegância, que, do convívio social, estava a passar também para o domí-
nio das ideias e do pensamento. Passadas duas décadas, a situação que deu
azo ao lamento de Holland viria a dar também motivo para o ainda mais
duro juízo do Professor de Jena, Karl Leonhard Reinhold, o qual denun-
cia o domínio dessa Popularphilosophie, importada de Inglaterra e França,
Monique Hulshof e Ubirajara Rancan de Azevedo Marques (Org.)
22 |
até nas Academias, que leva os professores das universidades a rejeitar a
sua própria tradição losóca (tutelada pelas guras de Leibniz e Wol),
trocando-a pelo empirismo de ingleses e franceses, a envergonhar-se do
sistema e do método argumentativo escolástico, trocando-os por um estilo
rapsodístico, abandonando as questões difíceis e dedicando-se a questões
ligeiras tomadas da experiência. Enm, a Popularphilosophie como uma
espécie de “doença do espírito”, que impede a fundamentação da ciência
propriamente dita e leva os seus cultores a confundir o espírito losóco
com o génio estético, a losofar mediante a própria imaginação produ-
tiva, a exaltar o sentimento e a considerar a originalidade como a marca
da verdade autenticamente losóca (REINHOLD, 1791, p.23-25,55,97;
REINHOLD, 1789, p.139).
De resto, uma década antes, no terceiro parágrafo do Prefácio
à primeira edição da Crítica da Razão Pura, é traçado um diagnóstico da
situação da losoa na época que revela alguma anidade, até nos termos,
com o de Holland, mesmo se o autor da Crítica não tivesse maneira de
conhecer aquela carta, que só viria a ser publicada no ano seguinte. Com
efeito, segundo Kant, a Metafísica, antiga rainha das ciências, vê-se presen-
temente degradada, destituída da sua grandeza e dignidade e, de acordo
com o tom da moda da época, ela, que fora outrora uma nobre matrona,
agora sem cultores, é desprezada e repudiada (itzt bringt es der Modeton
des Zeitalters so mit sich, ihr alle Verachtung zu beweisen), lamentando-se da
sua situação, como a Hécuba do verso das Metamorfoses de Ovídio (KrV,
A VIII-IX, AA 03:7-8). O lósofo propõe-se inverter essa situação, reabi-
litando criticamente a Metafísica, levando-a perante o tribunal da razão e
submetendo a um rigoroso escrutínio forense as teses e os argumentos dos
lósofos dogmáticos e dos lósofos céticos a respeito das supremas ques-
tões metafísicas. Ele pensava abrir assim, com a perspetiva crítica, uma via
ainda possível para salvar aquela ciência, neutralizando a um tempo tanto
a arrogância dos metafísicos dogmáticos como a pretensão dos céticos, que
são também sempre muito dogmáticos.
Ora, eu proponho-me mostrar que nessa moda da época, que se
propunha sob a forma de exigência de popularidade na Filosoa, não havia
só aspetos negativos, mas havia também um desao lançado aos lósofos,
A linguagem em Kant. A linguagem de Kant.
| 23
que os obrigava a repensar a relação da losofa com a vida, com o mundo e
com o público cada vez mais instruído, por conseguinte, a cuidar também
do modo da sua exposição. Por outro lado, tentarei igualmente mostrar
como, respondendo de motu proprio a esse desao, Kant não transformou
apenas radicalmente o modo de encarar as questões metafísicas, aprecian-
do-as a partir de uma nova maneira de pensar, mas transformou também
decisivamente o modo da relação da losoa com a linguagem em geral e
com a sua própria linguagem. Entendo que estas palavras possam ser lidas
com reserva e ceticismo. Pois o mais comum entre os comentadores e in-
térpretes do lósofo crítico, é apontar a sua insensibilidade para o proble-
ma da linguagem e até a deciente linguagem da sua losoa, que se tra-
duziria na rudeza e falta de qualidade literária ou estilística das suas obras.
Desde os dias de Kant esta acusação é repetida até décadas bem recentes
e por autores tão próximos de Kant − mas que se consideravam tão antí-
podas do lósofo crítico − como o foram Hamann e Herder
7
; e também
na primeira recensão, publicada anonimamente, da Crítica da Razão Pura,
que apontava na obra, entre outros erros e defeitos, também o de estar «em
conito com a comum linguagem losóca recebida» (gemein angenom-
mene Sprache) e em conito com «o modo de representação e a linguagem
da nossa natureza» (REZENSION, 1782, p.48; LANDAU, 1991,p.17);
portanto, o de ser uma losoa abstrusa e antinatural, acusação que viria
a ser reiterada por Garve, entretanto auto-revelado como um dos autores
daquela recensão anónima, já em nome próprio, na carta a Kant de 13 de
julho de 1783, declarando a extrema diculdade que tivera na leitura da
obra e mesmo a sua incapacidade de compreensão da mesma, e isso em
De J. G. Hamann tenha-se presente o ensaio Metakritik über den Purismus der Vernunft (1784), no qual
acusa Kant de ter construído o seu “purismo da razão” sobre a eliminação da experiência (e sensibilidade), da
tradição (e da história) e da linguagem (HAMANN, 1967, p.219-227). De J. G. Herder, rera-se a obra em
dois volumes, intitulada Verstand und Erfahrung. Vernunft und Sprache. Eine Metakritik der Kritik der reinen
Vernunft (HERDER, 1799). O segundo volume leva por título Vernunft und Sprache, mas não só por todo ele
como também no primeiro volume (ou seja, ao longo das 881 páginas da obra!) é omnipresente a crítica ao
impróprio e mau uso da linguagem losóca por parte de Kant. Por certo, não deixa de ser estranho um tal
processo sistemático aos fundamentos linguísticos do pensamento kantiano (acusando a sua inconsistência e
incongruência por ignorância ou arbitrariedade), feito por alguém que, na primeira metade da década de 1760,
fora aluno dos cursos do Professor Kant, e isso publicado precisamente num momento em que o velho Professor
já não estava em condições de replicar-lhe ou talvez mesmo nem de sequer o poder ler. Elementos para uma
refutação destas leituras dos “metacríticos” mais antigos ou mais recentes, podem ver-se no meu ensaio: «Kant
e a losoa como análise e reinvenção da linguagem metafísica».(in: NABAIS, 1991, p. 199-223, integrado in:
SANTOS,1994a, p. 39-67).
Monique Hulshof e Ubirajara Rancan de Azevedo Marques (Org.)
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resultado da linguagem nela usada, manifestando ao autor da Crítica a sua
convicção de que «todo o seu sistema, se deve realmente ser útil, poderia
ser expresso de modo mais popular» (Br, AA 10:333).
Houve, é certo, quem tivesse apreciado os escritos de Kant não
só pelo pensamento novo que traziam, mas também precisamente pelo seu
peculiar estilo e modo de sua escrita. Esses, porém, muito mais raros, não
tiveram muita audiência que os acolhesse. Entre todos destaco um leitor
de Kant da segunda geração (a da segunda metade dos anos 90, dos classi-
cistas e primeiros românticos), Friedrich Schlegel, que precisamente contra
certos “kantianos”, que, desprezando a “letra” da losoa crítica, invoca-
vam o “espírito” desta, de cujo entendimento se consideravam detentores,
propunha uma hermenêutica da obra kantiana que antes tentasse chegar
ao seu “espírito” precisamente pela mediação da sua “letra”, pela atenção ao
«modo de escrever» (Schreibart) do lósofo, que fosse realmente capaz de
advertir e apreciar o seu «estilo», a «forma», o «tom» e o «colorido» próprios
da losoa kantiana (SCHLEGEL, 1975, p.19,64,96,22,33,59,385). O
mesmo Schlegel, numa das peças do Athenaeum, chega a escrever:
Tenho tido frequentemente o pensamento se não devia ser possível
tornar compreensíveis os escritos do famoso Kant, que tão frequente-
mente se lamenta da imperfeição das suas exposições, sem prejudicar
a sua riqueza ou, como acontece nos resumos, sem lhe roubar o Witz
e a originalidade. Seria permitido ordenar melhor as suas obras, por
certo segundo as suas próprias ideias; especialmente na construção dos
períodos, e no que se refere aos episódios e repetições: desse modo
elas tornar-se-iam tão compreensíveis como são as de Lessing. Não se
consentiria para isso nenhuma maior liberdade do que mais ou menos
aquela que os antigos críticos tinham em relação aos poetas clássicos,
e eu penso que então se veria que Kant mesmo só considerado litera-
riamente deve ser contado entre os escritores clássicos da nossa nação.
(SCHLEGEL,1799, p. 30-31).
Mais comummente, porém, sucedem-se os juízos negativos: seja
o de Arthur Schopenhauer, segundo o qual o discurso de Kant é «frequen-
temente ambíguo, indeterminado, insuciente e por vezes obscuro, en-
volvido numa brilhante aridez» (SCHOPENHAUER, 1977, p.527); seja
o de Heinrich Heine, que considera o estilo de Kant «um estilo cinzento
A linguagem em Kant. A linguagem de Kant.
| 25
e seco de papel de embrulho, usando uma fria linguagem de chancelaria»
(HEINE,1970, p.140). Dentro desta tradição de receção, não é de admirar
que cerca de um século volvido sobre a morte do lósofo, houvesse quem
empreendesse reescrever a Crítica da Razão Pura, substituindo a “estranha
linguagem” de Kant por uma “linguagem normal” e o seu estilo abstruso
por um “novo estilo” baseado em corretos “fundamentos crítico-históricos
e psicolinguísticos” (FISCHER, 1907; 1920), projeto este de inspiração
por certo muito diversa da que fora sugerida por Schlegel, no fragmento
atrás citado.
Mas as sugestivas indicações de Schlegel acerca do valor estilís-
tico da escrita kantiana não cariam totalmente sem eco. De facto, nos
dois últimos decénios do século XIX e nos dois primeiros do século XX,
outros leitores de Kant viriam a descortinar aspetos de interesse na escrita
kantiana, descobrindo, não sem surpresa, um “Kant metafórico” e amante
de cções heurísticas inverosímil anunciador do Nietzsche amante mais da
vontade de aparência” do que da “vontade de verdade” (VAIHINGER,
1902, p.117;1911; SANTOS, 2015), criador e utilizador de luminosas
imagens e fecundas comparações (EUCKEN, 1983; UHL, 1904), escritor,
enm, cuja prosa esconde um irrecusável valor estético. Atenda-se ao que
escrevia Walter Benjamin, numa carta a seu amigo Gerhard Scholem, de
22 de outubro de 1917:
Estou persuadido de uma coisa: não sentir em Kant a luta do pensa-
mento que habita a própria doutrina é não apreendê-la na sua letra
como algo a transmitir, como um tradendum; com o máximo respei-
to, é ignorar o principal da losoa. […] É absolutamente verdadeiro
que em toda a criação de ciência é preciso incluir o valor estético (e
vice-versa), e por isso estou igualmente persuadido de que a prosa de
Kant representa um limiar da grande prosa de arte. Não fosse assim, e
a Crítica da Razão Pura não teria transtornado Kleist no íntimo de si
mesmo. (BENJAMIN, 1979, p.179).
E seja ainda um último testemunho, já bem mais próximo de
nós, o de Michèlle Cohen-Halimi, que, numa obra dedicada à interpreta-
ção da losoa prática de Kant, assim escreve:
Monique Hulshof e Ubirajara Rancan de Azevedo Marques (Org.)
26 |
Fomos de tal maneira acostumados aos conceitos da moralidade […]
que nos parece evidente que Kant recorre a signicações que usamos
correntemente, quando na verdade ele está permanentemente a criá-
-las. O nosso kantismo ‘cultural’ tornou sonolenta a nossa leitura de
Kant. […] Pretendendo passar por despercebida (face à consciência co-
mum) e sendo polémica (face à Schulmetaphysik), a invenção kantiana
foi esmagada por uma familiaridade cultural que fez desaparecer a sua
audácia. Recita-se a moral kantiana em vez de se ler o que ela reformula
a respeito da moral partilhada. (COHEN-HALIMI, 2004, p.28).
O excerto da carta de Benjamin põe em relevo a dimensão tam-
bém estética e até retórica da obra losóca kantiana, colhida já na sua
simples “letra”, na sua “prosa”. Por sua vez, o de Cohen-Halimi põe o acen-
to na dimensão inventiva da linguagem de Kant e das signicações por ela
expressas, ou seja, no reinvestimento semântico, nomeadamente, na lo-
soa prática, o que bem pode estender-se aos outros domínios da losoa
kantiana. Como o escrevi, num já longínquo ensaio, um dos aspetos carac-
terísticos da prática kantiana da linguagem consiste precisamente no facto
de que Kant desde cedo teve a evidência de que a Filosoa “nunca tem
mais do que palavras” − niemals etwas anders als Worte (UD, AA 02:278),
e é sobre palavras e com palavras que trabalha, analisando-as para chegar
ao respetivo signicado que lhes é dado (ou a ideia que é indicada) no seu
uso, e é assim que também chega a restaurar a sua pregnância semântica e,
por conseguinte, em certo sentido, a reinventar a linguagem losóca, e
não há que temer que esta expressão seja exagerada. Nesse aspeto, ele prova
com os seus escritos que não é muito diferente o modo como o poeta e o
lósofo trabalham a linguagem e com ela se relacionam para produzir ou
exprimir por meio dela signicações ou sentidos novos. Kant trabalha com
a linguagem e sobre a linguagem na mesma medida e no mesmo gesto
em que com o pensamento trabalha sobre o pensamento. Nessa operação,
linguagem e pensamento não são só solidários, mas são também verdadei-
ramente cúmplices (SANTOS, 1994a, p.39-67).
Os últimos testemunhos invocados, o de Benjamin e o de Cohen-
Halimi, ao porem em evidência o problema da linguagem na e da losoa
kantiana vão em sentido diametralmente oposto àquele que tem sido e
A linguagem em Kant. A linguagem de Kant.
| 27
continua a ser amplamente dominante nos estudos kantianos. Eles cha-
mam a atenção para a necessidade de tomar a sério, também e antes de mais
nada, a própria letra da losoa kantiana, a sua linguagem e os processos
poético-retóricos que a tecem, e garantem-nos que a eventual recuperação
do sentido ou signicado dessa losoa só pode vir-nos por esse meio. Ora
isso implica uma mudança de sentido na hermenêutica da losoa crítica.
Na verdade, desde a sua primeira receção, ela foi antes frequentemente
acusada de ser insensível ao problema losóco da linguagem e o seu autor
viu-se censurado por fazer um uso abstruso e impróprio dos termos losó-
cos e por praticar um estilo pouco recomendável mesmo para um lóso-
fo. Há, como vimos, exceções a esta apreciação negativa e é cada vez mais
difícil sustentá-la, mas ela ainda se encontra, por vezes, num ou noutro
intérprete. Nos tempos mais recentes. tem-se vindo a descobrir inesperadas
pertinências no próprio modo de escrever de Kant (GOETSCHEL, 1990;
NANCY, 1975) e nota-se uma maior atenção dada à linguagem na loso-
a kantiana e também à linguagem da losoa kantiana (SIMON, 2003,
p.30-38). Mas estamos ainda longe de ver completamente rejeitada seja a
ideia de uma completa insensibilidade do lósofo da razão pura relativa-
mente à linguagem e até ao problema losóco da linguagem em geral
8
,
seja a convicção de uma total ausência de preocupação de Kant face ao
problema da linguagem da losoa e da linguagem da sua própria losoa.
Ora, é esta ideia e esta convicção que eu quereria contrariar e se possível
refutar, fazendo falar o próprio Kant através dos seus textos, já que, estando
em causa a linguagem, também os argumentos ou as provas terão de ser
sobretudo linguísticos.
Poderiam considerar-se como objeções sérias ao intento de mostrar
que também Kant é a seu modo um “lósofo popular” algumas bem conhe-
cidas e contundentes declarações do próprio, que a seu tempo atenderemos,
como aquela do Prefácio à 2ª edição da Crítica (B xxxiv), segundo a qual a
Crítica da Razão Pura «nunca pode tornar-se popular e também não precisa
de o ser» (kann niemals popular werden, hat aber auch nicht nothig es zu sein);
Como aquela que foi expressa por Bruno Liebrucks em termos tão extremos que só revelam a dimensão da
sua míope leitura e grosseira interpretação dos escritos kantianos: «Se os homens tivessem sido kantianos no
momento em que inventaram a linguagem, não a teriam inventado» (LIEBRUCKS,1968, p.532). Juízos do
mesmo teor se encontram também, anos depois, em Dimitrios Markis (MARKIS, 1982, p.152-153).
Monique Hulshof e Ubirajara Rancan de Azevedo Marques (Org.)
28 |
ou ainda aqueloutra, segundo a qual «no fundo toda a losoa é prosaica»
(Im Grunde ist wohl alle Philosophie prosaisch VT, AA 08:406), proferida a
rematar um debate sobre a correta interpretação da losoa platónica com
o “neoplatónico” Georg Schlosser, praticante de um género de losoa po-
etizante feita de imagens, sustentada em vagas intuições e sentimentos, que
se dispensava do trabalho da reexão e da determinação e exposição clara
dos conceitos (SANTOS, 2015). Parece, assim, que Kant se revelaria um
péssimo candidato a participar num debate que tem por tema precisamen-
te a popularidade e a linguagem da Filosoa, a não ser para intervir como
adversário dessa causa. À primeira vista, Kant estaria nos antípodas da causa
da popularidade em losoa, e como tal foi de facto interpretado desde os
seus dias até à atualidade, com raríssimas exceções, que nos últimos decénios
se vêm tornando mais numerosas. Mas, na verdade, como espero mostrar,
a causa da popularidade é um problema autóctone e endógeno e uma causa
própria e não secundária da losoa kantiana e até mesmo do programa da
Crítica da Razão Pura. Não é, como geralmente se pensa e se dá por adqui-
rido, um problema assumido reactivamente ou corolário apendicial de que
o lósofo se viesse a ocupar para responder aos seus críticos ou por mera
condescendência com os seus leitores, mas por exigência orgânica da sua
própria conceção de Filosoa. Por outro lado, a abordagem que Kant dele faz
e o contexto em que o situa dá ao tema e à causa da popularidade uma den-
sidade especulativa e mesmo prática que até mesmo a maioria dos lósofos
ditos “populares” não logrou alcançar. Uma outra questão – que deixaremos
por ora em suspenso – é a de saber se a obra escrita de Kant dá efetivamente
prova daquilo que em teoria o seu autor propunha como desejável quanto ao
modo de exposição da Filosoa.
3. a popularidadeno Contexto do problema da linguagem da
filoSofia
O trecho citado da carta de Holland e também as críticas poste-
riores de Reinhold à “losoa popular”, como ainda, décadas depois, as
apreciações de Hegel, nas Lições sobre História da Filosoa, a respeito dessa
mesma losoa ou dos pensadores que a praticavam, poderiam induzir-nos
no erro de pensar que a questão da popularidade é tão-só uma singulari-
A linguagem em Kant. A linguagem de Kant.
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dade de uma certa losoa alemã da segunda metade do séc. XVIII, cono-
tada com a Aufklärung, mas de baixo valor especulativo e de muito pouco
signicado para a história do pensamento posterior, cuja relevância se es-
gotaria em ser uma moda supercial de época (HEGEL, 1955, p.401ss).
Na verdade, o mote da popularidade em losoa, que ganhou relevo e deu
azo a debates na segunda metade do século XVIII na Alemanha e a um ali-
nhamento dos pensadores em estratégias losócas diferentes (losoa es-
colar de matriz wolana, losoa popular, losoa crítica), se for visto no
tempo longo da história losóca, é apenas um episódio, por certo cheio
de interesse, de um problema e de um debate mais amplo, que aorou em
momentos marcados pela urgência de renovação losóca ou pela crise de
paradigmas losócos esgotados. Esse problema pode designar-se como o
da “linguagem da Filosoa”. Esse problema pode formular-se deste modo:
a linguagem cumpre para o pensamento apenas uma função instrumental
lógico-cognitiva de designação de conceitos ou de conteúdos objetivos e
de referências lógicas, ou cumpre também uma função poética – de criação
ou elaboração de signicações subjetivas ou objetivo-subjetivas – e uma
função retórica – de comunicação ecaz e intersubjetiva de signicações?
E isso, não a título de adorno ou de adereços dispensáveis, mas a título
de constituintes imprescindíveis do complexo processo comunicacional de
intencionalidades valorativas, de vivências, de signicações e conceções de
mundo entre humanos.
Tal problema, mesmo se não explicitamente nomeado enquanto
tal, esteve no centro do debate entre estratégias de racionalidade desde
os primeiros séculos da Filosoa. Desde logo, na diatribe travada entre
Sócrates e Platão e os Sostas. Estes cultivavam um logos retórico, mode-
lado pelo cultivo das potencialidades da linguagem natural, enquanto o
fundador da Academia lhes contrapunha um logos de inspiração geomé-
trica como paradigma da dialética losóca e como o método adequado
para garantir a qualidade epistémica ou a cienticidade da losoa; ao
que, por sua vez, Aristóteles contrapunha uma estratégia de teor apodíti-
co-demonstrativo. O tema ganhará muito mais tarde especial evidência no
contexto do humanismo dos séculos XV e XVI, sendo aí nomeado como
a questão «De genere dicendi philosophorum» (Acerca da maneira de dizer/
Monique Hulshof e Ubirajara Rancan de Azevedo Marques (Org.)
30 |
escrever dos lósofos, ou acerca do discurso dos lósofos), título este por
que caria conhecida uma célebre carta do jovem lósofo Giovanni Pico
della Mirandola ao seu amigo veneziano Ermolao Barbaro, em defesa do
modo escolástico de losofar e contra o modo retórico de losofar por este
último defendido, carta essa que daria ensejo a um debate que se prolonga-
ria desde as duas últimas décadas do século XV até à sexta década do século
seguinte, tendo tido como um dos seus atores principais o humanista, ló-
sofo e teólogo luterano Philipp Melanchthon (SANTOS, 2004, p.34-54).
E é nesta questão “do modo de escrever dos lósofos” – ou no
que nela se enuncia – que se inscrevem, sabendo-o ou não, os “lósofos
populares” alemães setecentistas e muitos outros, que, não sendo tidos por
tais, contribuíram para a mesma causa. É ela ainda que vai estar no cerne
do conito que, ainda em vida de Kant, opôs Schiller a Fichte, no verão de
1795, na sequência da recusa por parte daquele da publicação, nas páginas
da sua revista Die Horen, do ensaio “Sobre o espírito e a letra em Filosoa
do lósofo idealista, à época professor em Jena. Na decorrência desse con-
ito e da consequente rutura de relações pessoais, Schiller publica (em se-
tembro desse mesmo ano) o ensaio “Sobre os limites necessários no uso de
formas belas”, que me parece ser uma das mais conseguidas reexões sobre
o problema da linguagem do pensamento, o qual a contraposição entre o
discurso cientíco” e o “discurso popular” é transcendida no “discurso
estético” (ou belo). (SCHILLER, 1994, p.105ss)
9
A “popularidade” é, sem dúvida, um problema de época, do tem-
po da Aufklärung, cujo Zeitgeist exprime e cujas necessidades e aspirações
traduz. Mas, sendo isso, é muito mais do que isso. Enquanto tal, a “loso-
a popular” alemã setecentista - (na verdade, mais adequado seria dizer “as
losoas populares” ou os “lósofos populares”, pois que são vários) - ca-
racteriza-se, antes de mais, pelas críticas à “losoa escolar”, expressão esta
não menos ambígua e vária do que o é a expressão “losoa popular”. Essas
críticas, porém, não são tanto dirigidas ao conteúdo, mas mais à forma,
ao estilo e à falta de orientação do saber escolar em função da “vida” dos
homens e das realidades do “mundo”. Propriamente falando, a “losoa
9
Sobre o episódio da recusa de publicação do ensaio chteano e a rutura daí resultante entre Fichte e Schiller,
veja-se o meu ensaio: «O espírito da letra. Sobre o conito entre Schiller e Fichte a respeito da linguagem da
Filosoa e da natureza do estético» (SANTOS, 2007).
A linguagem em Kant. A linguagem de Kant.
| 31
popular” não cria nem tem conteúdos próprios: ela populariza e vulgariza
conteúdos, tornando-os acessíveis, mesmo os que lhe podem vir da loso-
a escolar. Mas há sim nela a abertura à inclusão, na meditação losóca,
de assuntos que, em geral, eram desatendidos ou marginais à abordagem
escolar e que podem caber no âmbito da Estética e da Antropologia, as
duas disciplinas losócas que não por acaso nascem e se desenvolvem na
época do orescimento das losoas “populares”: as análises dos sentimen-
tos (moral, estético), a observação e meditação sobre a variedade da vida
e do mundo, a reexão sobre os fenómenos e processos sociais e políticos
tendem a substituir-se à analítica concetual e às construções lógico-metafí-
sicas. Também não há nesses lósofos propriamente a intenção de proceder
a uma crítica radical dos fundamentos em que assentava o dogmatismo
losóco. Ora é precisamente a decisão de proceder a uma crítica dos fun-
damentos das representações humanas a respeito dos supremos objetos da
metafísica, associada a uma explícita intenção arquitetónica ou sistemática
do losofar, o que fará a substancial diferença de Kant em relação aos ló-
sofos “populares” e a vários outros pensadores da sua época.
Poderia dizer-se que, em geral, as losoas “populares” pretendem
transformar o que era essencialmente “uma losoa de professores para pro-
fessores de losoa” numa “losoa do mundo e para o mundo
10
, ou mes-
mo numa “losoa da vida”, expressões com que este novo tipo de lósofos
gosta de marcar a diferente intencionalidade do seu discurso e do seu propó-
sito. Na sua obra Early German Philosophy, Kant and His Predecessors, Lewis
White Beck apontou com pertinência um aspeto que determina a forma e
o desenvolvimento da losoa alemã na época moderna e que a distingue
da situação coetânea francesa ou inglesa: o facto de ela ter existência e de ser
desenvolvida sobretudo no contexto das universidades e para as universida-
des, o ser uma “losofa de professores”. Há exceções, sem dúvida, e notáveis,
mas estas não desmentem a tendência geral. Ora isso decide a feição medu-
10
“Die Philosophie für die Welt”, tal o título que Johann Jacob Engel deu à sua publicação, em cuja II Parte
(1777) colaborou Kant com o ensaio «Das diferentes raças humanas». “Philosophie nach dem Weltbegri” ou “in
sensu cosmico”, assim designa Kant a sua noção qualicada de Filosoa no sentido propriamente “cosmopolita”,
que contrapõe ao mero e instrumental “conceito escolar de Filosoa” (“Schulbegri der Philosophie”) de meros
artesões habilidosos no manejo de conceitos como meios para servir qualquer causa, mas que fazem economia
dos “ns essenciais da razão”; “Philosophie des Lebens”, assim caracteriza Christian Garve também a sua pessoal
maneira de entender e fazer losoa, que considera pouco apta “para as altas regiões da mais na especulação
(GARVE, 1798, p.184).
Monique Hulshof e Ubirajara Rancan de Azevedo Marques (Org.)
32 |
larmente escolástica da losoa alemã moderna, podendo dizer-se que nela,
à escolástica tardo-medieval sucedeu a escolástica luterana e a esta, no século
XVIII, a escolástica wolana (BECK, 1969, p.5 ss).
Aceite-se que a “Popularphilosophie” assume como sua principal
tarefa a crítica e a libertação dessa “losoa da escola” (Schulphilosophie).
Mas o que era realmente essa “losoa da escola”? Podemos aceitar que, na
Alemanha da época, ela era mais ou menos modelada pela conceção wolf-
ana de losoa. Uma súmula desta conceção encontramo-la exposta num
famoso Discurso que antecede a Lógica de Christian Wol – o Discursus pra-
eliminaris de philosophia in genere (Discurso preliminar da losoa em geral),
onde o lósofo esclarece o seu conceito de Filosoa e do respetivo método.
Já não é declaradamente uma losoa à maneira dos Geómetras, mas algo
disso ainda subsiste nela. Os Manuais de Wol levam, muitos deles, depois
do título da matéria de que tratam, uma caraterização do método segundo
o qual é tratada essa matéria, condensada nas expressões – methodo scienti-
ca pertractata … principia a priori demonstrata. Por exemplo: Philosophia
practica universalis methodo scientica pertractata (1744) pars I, theoriam
complectens, qua omnis actionum humanarum dierentiae, omnisque ju-
ris ac obligationum omnium, principia, a priori demonstrantur; pars II,
praxim complectens, qua omnis praxeos moralis principia inconcussa ex
ipsa animae humanae natura a priori demonstrantur. Que a Matemática
– o mos geometricus, a mathesis – ainda está sub-repticiamente subentendida
nas expressões “método cientíco e “demonstração a priori”, dizem-no alguns
parágrafos do referido Discurso: Por exemplo este, que traduzo:
As regras do método losóco são as mesmas do método matemáti-
co. Pois no método losóco não devem usar-se termos a não ser que
tenham sido explicados mediante uma cuidadosa denição, nem se
admite como verdadeiro a não ser aquilo que é sucientemente de-
monstrado, nas proposições determina-se cuidadosamente tanto o su-
jeito como o predicado e todas as coisas são de tal modo ordenadas que
se põem em primeiro lugar aquelas mediante as quais as subsequentes
se entendem e constroem. […] A Filosoa não tira o seu método da
Matese, mas também a Matese o extrai de uma Lógica mais verdadeira,
e nessa medida o reconhece como sendo-lhe conveniente, pois que só
mediante esse método ela alcança o conhecimento certo. (Discursus, §
139). (WOLFF, 1728, p.69).
A linguagem em Kant. A linguagem de Kant.
| 33
Mas uma tal «lógica mais verdadeira», de onde se diz que
tira o seu método a Filosoa, é muito devedora da Geometria ou da
Matemática. Com efeito, procede começando pela denição de concei-
tos, segue-se a dedução de propriedades a partir das denições dadas e
as demonstrações rigorosas, cujo objetivo é provar como o deduzido está
contido ou suposto nas denições inicialmente dadas; procedimento este
que permite construir edifícios ou castelos de conceitos bem arrematados
uns aos outros, mas sem a garantia de que correspondam a algo existente
ou objetivo com um conteúdo ou signicação real, para além da perti-
nência ou signicação lógico-formal.
Ora, deve dizer-se que nenhum dos chamados “lósofos popula-
res” foi tão contundente na rejeição justicada deste método escolástico da
losoa wolana quanto o foi Kant, e foi-o já nos escritos de juventude,
em especial, na Untersuchung über die Deutlichkeit der Grundsätze der na-
türlichen eologie und der Moral, redigida em 1763 e publicada em 1764
11
,
posição que virá a reiterar e a aprofundar também na sua Crítica da Razão
Pura, na primeira secção do capítulo primeiro da Teoria Transcendental
do Método (KrV, AA 03:468 ss). E, todavia, mesmo assim algo há que
ele faz questão de conservar do método da escola e do próprio Wol – o
espírito de profundeza” – Geist der Gründlichkeit (KrV B XLI, AA 03:25),
o ir ao fundo dos problemas, o rigoroso trabalho de análise e reexão, o
não se contentar com as descrições ou abordagens de superfície ou com a
aparências sofísticas de verdade, cedendo ao gosto da moda ou à lisonja do
público, o que faziam e disso eram acusados alguns dos considerados “-
11
A Investigação sobre a evidência dos princípios da Teologia natural e da Moral foi redigida como resposta à
questão proposta pela Academia das Ciências de Berlim: «Quer-se saber: se as verdades metafísicas em geral e em
especial os primeiros princípios da Teologia natural e da Moral são capazes da mesma prova evidente das verdades
geométricas e, se não o são, qual é a natureza própria da sua certeza e se o seu grau de evidência é suciente para
garantir uma completa convicção». A resposta de Kant foi inequívoca, recusando qualquer possibilidade de
transpor para a Metafísica e a Filosoa os métodos da Matemática, dada a diferente natureza e objeto das duas
disciplinas, que também lhes impõe diferentes métodos e procedimentos. Veja-se: SANTOS, 1994a, p. 39-67
(sobretudo p.43-54); ENGFER, 1982, cap. I: p.26 ss. Na Crítica da Razão Pura, Kant sustenta mesmo que a
pretensão dos lósofos de imitarem os matemáticos ou geómetras foi a verdadeira causa do vício do dogmatismo
em Filosoa, vício que precisamente a losoa crítica se propõe denunciar e erradicar. Este decisivo afastamento
da Filosoa e da Metafísica em relação à Geometria e Matemática constitui uma – bem pouco atendida nas
suas consequências – decisão estratégica fundamental na mudança de regime do pensamento losóco e seus
paradigmas de referência, tanto mais que ele vai acompanhado de uma progressiva aproximação da Filosoa
à Poesia (ou Arte) e da convicção de que o supremo ato da razão é um ato estético: como o apontei noutro
lugar, um e outro processos representam uma decisiva rutura com o paradigma platónico da Filosoa. Veja-se:
SANTOS, 2015, p. 349-375 (sobretudo p.355-363).
Monique Hulshof e Ubirajara Rancan de Azevedo Marques (Org.)
34 |
lósofos populares”. Em suma, o não fazer passar mercadoria falsicada por
verdadeira (ou com um rótulo que não correspondia ao conteúdo), enga-
nando assim o “público” e o “povo”, os cidadãos da república das letras e os
da república civil. É por isso que a esses que são levados “pelo tom da moda
de uma liberdade de pensar com foros de genial» (durch den Modeton einer
geniemässigen Freiheit im Denken), Kant se sente no direito de contrapor a
profundeza de visão” (Gründlichkeit der Einsicht) do “procedimento dog-
mático” como mais consentâneo para levar a cabo «a necessária preparação
para o estabelecimento de uma metafísica sólida fundada rigorosamente
como ciência, que há de desenvolver-se de maneira necessariamente dog-
mática e estritamente sistemática, por conseguinte, escolarmente correto (e
não popular)» (KrV B XXXVI, AA 03:21); e isso, mesmo que não aceite as
teses do dogmatismo metafísico wolano.
Mas há ainda um outro aspeto a considerar: o papel desempe-
nhado precisamente por alguns “lósofos da escola” na criação do am-
biente para a emergência da própria “losoa popular”. Destacarei dois:
Alexander G. Baumgarten (1714-1762) e Georg Friedrich Meier (1718-
1777). E isso porque eles foram, sem dúvida, os principais e primeiros res-
ponsáveis daquilo que foi chamado por Odo Marquard a “viragem para a
Estética” (Wende zur Ästhetik), ocorrida no pensamento alemão da segunda
metade do século XVIII (MARQUARD, 1981). No caso de Baumgarten,
não se trata apenas da constituição da Estética como uma nova disciplina
losóca e do reconhecimento de um novo território de problemas para
as ciências losócas, o que já não seria pouco. Trata-se também da deci-
siva inexão da Filosofa para o campo estético, ao mesmo tempo que se
demarca da Matemática como seu paradigma de referência (assumido e
cultivado que fora pelos Modernos durante mais de um século); trata-se do
explícito reconhecimento do parentesco entre a Filosoa e a Poética, que
se anuncia no projeto e desiderato de juntá-las “num amicíssimo conúbio
(BAUMGARTEN, 1983, p.4), o que representa, histórica e losocamen-
te falando, uma decisiva inversão do platonismo e do paradigma platónico
de Filosoa, que se armara sobre a condenação da poesia e a expulsão
dos poetas da cidade ideal da razão, ao mesmo tempo que assumia por seu
A linguagem em Kant. A linguagem de Kant.
| 35
paradigma de referência a Geometria.
12
Ora, se a Baumgarten cabe o mé-
rito de acionar a viragem da Filosoa para a Estética e com isso promover
até uma transformação estética da Filosoa, a Kant cabe o mérito de, com
mais determinação do que qualquer outro seu contemporâneo, romper o
casamento ou mesmo a ilusão de parentesco entre a Filosoa e a Geometria
ou Matemática, que os Modernos tinham recuperado do platonismo, e
isso já num ensaio do ano 1763.
Mas Baumgarten acrescenta a quanto se disse ainda o explíci-
to reconhecimento da componente e qualidade estética das losoas de
alguns lósofos modernos que o precederam e precisamente os tradicio-
nalmente reconhecidos com “racionalistas” (Descartes, Leibniz, Wol,
Bilnger).
13
Mais do que qualquer outro aspeto, este – da “viragem para
a Estética” – parece-me ser o responsável pelo extraordinário oresci-
mento intelectual (losóco, poético, literário) na Alemanha no último
quarto do século: as questões estéticas ganharam assim uma progressiva
densidade losóca e as questões losócas ganharam uma progressiva
e profunda determinação e feição estética.
14
Associado a isso, dá-se a
valorização da sensibilidade e da imaginação e o reconhecimento da sua
lógica peculiar, a maior atenção dada à psicologia e à antropologia e a
relevância concedida aos sentimentos, tanto ao sentimento moral como
aos sentimentos estéticos. O processo de abertura da “losoa da Escola
ao mundo e ao homem começou, por conseguinte, pelos próprios ló-
sofos da Escola, ou pelo menos deu-se com o importante contributo de
12
Na verdade, por um e por outro aspeto o que se consuma é a recusa e superação de um duplo preconceito
platónico, um e outro bem expostos na República: o de que entre a Poesia e a Filosoa existe um insuperável
e «antiquíssimo dissídio», e o de que a Filosoa ou a Dialética tem como seu paradigma, entre as ciências, a
Geometria ou a Matemática, que tratam de formas ou entidades ideais.
13
BAUMGARTEN, A.G. Kollegium über die Ästhetik (1750). Este Curso, lecionado no mesmo ano em que foi
publicado o I volume da Estética, viria a ser publicado postumamente, por B. Poppe na obra: Baumgarten: seine
Bedeutung und seine Stellung in der Leibniz-Wolschen Philosophie und seine Beziehungen zu Kant. Nebst
Veröentlichung einer bisher unbekannten Handschrift der Ästhetik Baumgartens. Bern/Leipzig: R. Noske,
1907, p. 65-258. Extratos desse Curso, em tradução de Jean-Yves Pranchère, são publicados em Apêndice a: A.
G. Baumgarten, Esthétique, précédée des Méditations Philosophiques sur quelques sujets se rapportant à l’essence du
Poème et de la Métaphysique (§§ 501 à 623), Paris : L’Herne,1988, p. 245-249.
14
Os principais críticos das losoas populares – de Holland a Reinhold e Hegel – todos apontaram nelas como
aspeto negativo precisamente essa preponderância dada aos assuntos estéticos e até a elevação das Belas-Artes ao
trono das ciências. Num ensaio já referido na nota 31, tentei mostrar os aspetos positivos dessa esteticização da
Filosoa, tomando como objeto de prova a própria losoa kantiana. Veja-se nele sobretudo o ponto 2: “From
Philosophy of Taste to Taste in Philosophy”.
Monique Hulshof e Ubirajara Rancan de Azevedo Marques (Org.)
36 |
alguns deles. Note-se que Kant dava os seus cursos de Metafísica e Ética
pelos manuais de Baumgarten e o de Lógica por um manual de Meier
(Auszug aus der Vernunftlehre) e é a propósito deste que diz, no Anúncio
dos seus Cursos do semestre de inverno de 1765/66, que, na respetiva lecio-
nação, aproveitará o ensejo para tratar também um pouco das questões
estéticas, dada a proximidade ou «parentesco que reconhece existir entre
as duas disciplinas – a Crítica da Razão e a Crítica do Gosto ou Estética»
(NEV, AA 02:311). Ou seja, muitas das reexões kantianas que condu-
zirão à Crítica do Juízo nasceram na preparação e lecionação das aulas de
Lógica do professor Kant, como o permitem constatar os apontamen-
tos desses Cursos registados em anos sucessivos pelos seus alunos. E eco
bem expressivo dessa contaminação pela estética da conceção kantiana de
Filosoa encontra-se ainda em várias secções da Introdução ao Curso de
Lógica, tardiamente editado por Jäsche, que adiante comentarei.
Aliás, também o próprio Kant é um bom exemplo de como a
“Escola” se foi abrindo ao vasto conteúdo do mundo físico e humano.
Logo no início da sua atividade de professor (1755/56), ele cria, na sua
Universidade, a disciplina de Geograa Física, cuja docência manterá
até ao nal da sua atividade académica. E, da mesma forma, a partir
de 1772, institui a disciplina de Antropologia, mais tarde batizada de
pragmática
15
, que igualmente lecionará até 1797. Não só pelo con-
teúdo como também pelo teor da exposição, esses novos cursos são
realmente de natureza “popular”, visando, não uma “ciência para a es-
cola” (Wissenschaft für die Schule) ou para os camaradas da corporação
escolar (für die Zunftgenossen der Schule), mas um “estudo para o
mundo” (Studium für die Welt), um “esclarecimento da vida comum
(Aufklärung fürs gemeine Leben), “para a utilidade universal” (zum all-
gemeinen Nutzen), expressões estas que serão recorrentes nos chamados
15
Assim o julgam os editores das Vorlesungen über Anthropologie (Berlin: Walter de Gruyter, 1997) - Reinhard
Brandt e Werner Stark - a respeito do caráter popular dessas Lições e da própria obra publicada em 1798,
lamentando a desatenção dos estudiosos (e até mesmo dos kantianos) a esse aspeto: «Mesmo se muitos dos
assim chamados “Popularphilosophen” permanecem na tradição wolana, os domínios temáticos continuam a
ser idênticos aos da Antropologia kantiana. Que esta deve ser considerada como “Popularphilosophie” era algo
desconhecido antes da sua publicação. Mesmo agora continua-se a tratar a “Popularphilosophie” alemã sem o
contributo de Kant.» (Vorlesungen über Anthropologie, AA 25.1:p.XIV; nota 1).
A linguagem em Kant. A linguagem de Kant.
| 37
“lósofos populares”.
16
A motivação que o levou a criar o primeiro
daqueles cursos foi a de colocar perante os seus alunos o mundo físi-
co em toda a sua diversidade e de assim desenhar o “grande mapa do
género humano”, pois acreditava que «ninguém que se pretenda sábio
ou instruído pode ser indiferente ao conhecimento das singularidades
da natureza que a esfera terrestre contém, mesmo nas regiões que estão
mais afastadas do seu horizonte» (AA 02:4). Atento leitor dos sinais
do tempo, o jovem professor apresenta isso como uma exigência do
«gosto racional dos nossos tempos ilustrados» (vernünftige Geschmack
unserer aufgeklärten Zeiten). Da mesma forma, pela sua matéria e pelo
seu estilo e género literário, os escritos pré-críticos de Kant (excetuadas
as dissertações académicas) todos cabem no género da “losoa popu-
lar”, mais do que no da losoa convencional da “Escola”. É assim que
temos um “ensaio” (Versuch) de Cosmologia (ou Cosmogonia), escri-
to como se fosse uma viagem de aventureira descoberta dos innitos
mundos no espaço innito com o intuito de desenhar a “cartograa – o
mapa – da innitude”, viagem essa para a qual são convidados os lei-
tores, que, por conseguinte, não são tomados como meros espetadores
passivos de uma aventura alheia; temos 3 ensaios de considerações físi-
co-geológicas e antropológico-morais sobre um singular acontecimento
telúrico que abalou os fundamentos geológicos do continente europeu
e também as certezas duma razão losóca que acreditava ter o segredo
da estabilidade e da perfeita harmonia e ordem do mundo; temos “con-
siderações” psico-antropológicas sobre os sentimentos estéticos; temos
uma singular peça de auto-ironia (Träume) que confronta os sonhos de
um visionário (do teósofo sueco Emanuel Swedenborg) com os sonhos
16
Veja-se: Re. 1482, AA 15:658. Particularmente signicativa é a consideração de abertura de um dos Cursos
de Antropologia (provavelmente o do semestre de inverno de 1781-82) - Menschenkunde oder philosophische
Anthropologie. Comentando essa peça, Christoph Böhr (ob.cit., p.183) considera que dicilmente se encontrará
“lósofo popular” que expresse melhor o programa de uma “losoa para o mundo” e “para a vida e uso
comum” do que o terá feito Kant, na abertura desse seu Curso. O passo explicita a Re. 1482, e diz o seguinte.
«Zwei arten des Studirens muss man unterscheiden: es giebt grüblerische Wissenschaften, die dem Menschen
nicht nutzen, und es gab ehemals Philosophen, deren ganze Wissenschaft darin bestand, einander an Scharfsinn
zu übertreen, diese heissen Scholastici: ihre Kunst war Wissenschaft für die schule, man konnte aber keine
Aufklärung fürs gemeine Leben daraus gewinnen. Es kann Einer ein grosser Mann seyn, aber nur für die Schule
und ohne dass die Welt Nutzen von seiner Kenntniss hat. Eine zweite Art des Studirens besteht darinnen, dass
man sich nicht bloss für die Zunftgenossen der Schule in Ansehen verschat, sondern dass sich auch das Wissen
über die Schule hinaus erstreckt und man seine Kenntnisse zum allgemeinen Nutzen auszubreiten sucht: dies
ist das Studium für die Welt.» (AA 25:853)
Monique Hulshof e Ubirajara Rancan de Azevedo Marques (Org.)
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de um metafísico, como o é ele próprio, professor e cultor dessa disci-
plina (a Metafísica), uma peça tão subtil na ironia que até escandalizou
alguns dos seus amigos lósofos. A “Escola”, pois, em alguns de seus
mais qualicados representantes, abandonava já os áridos e rígidos pa-
rágrafos dos tratados sistemáticos tradicionais e abria-se, em discurso
livre e imaginativo, ao amplo, diverso e contingente mundo físico e
humano, tentando compreender a peculiar lógica que lhes presidia.
Aspeto a ter em conta também, neste novo condicionamento
para a emergência das “losoas populares”, é a denitiva passagem do
Latim ao Alemão e a sequente consolidação deste como língua de expres-
são losóca. Só no século XVIII essa consolidação verdadeiramente se
consumou e a obra de Kant – ao lado da de Mendelssohn, de Sulzer, de
Herder, de Garve, de Reinhold e de tantos outros – pode considerar-se
como a mais expressiva conrmação da maturidade alcançada do Alemão
como língua da Filosoa. Com a nova língua, amplia-se extraordinaria-
mente o universo do público destinatário das obras a todos os letrados
ou instruídos, e não já apenas aos prossionais da Filosoa. Ganha-se
conança nas potencialidades semânticas, literárias e estéticas da própria
língua (o próprio Kant não deixará de as apontar mais do que uma vez)
17
e a exposição da Filosoa pode ensaiar também a sua expressão em géne-
ros literários não escolarmente caraterizados, como já há muito o faziam
muitos pensadores em França ou em Inglaterra: ensaios, cartas, observa-
ções e outras formas mais livres – romances até – e descomprometidas
de invenção ou exposição da verdade substituem os rígidos, sóbrios e
didáticos manuais que veiculavam saberes feitos ou instituídos. A expo-
sição de ideias deixa assim de estar refém do cumprimento do protocolo
ou das convenções de um determinado género literário. Os “lósofos
populares” vão preferir o ensaio curto, a nota, a observação de ocasião,
publicados nas Gazetas, que igualmente proliferam por essa época e são
seu privilegiado veículo de difusão atingindo um vasto e variado público
de leitores. Só mais tarde, esses ensaios, de geração mais ou menos avulsa,
seriam reunidos em volume antes de terem tido a sua ecácia no público
leitor. Mesmo como género de exposição de pensamento, o ensaio ou as
17
Veja-se : KpV, 05 :59; GSE, AA 02 :249; Re. 853, AA 15:377; Re. 5108, AA 18:90.
A linguagem em Kant. A linguagem de Kant.
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formas com ele aparentadas tendem a substituir o estilo didaticamente
árido e desinspirado dos manuais ou tratados.
Alguns lósofos da época têm o que se pode chamar uma espécie
de existência dupla: como professores, seguem o método escolar, mesmo se
não já os conteúdos e as teses escolares; mas como autores e investigadores
por conta própria permitem-se estilos e géneros mais livres. Ou então,
produzem obras de maior densidade e sistematicidade essencialmente des-
tinadas aos seus pares (assim é a KrV e em geral todas as obras do programa
crítico), e ensaios curtos de oportunidade sobre os acontecimentos da vida
cultural ou da vida política, ou mesmo os da história da Terra, que são de
tal ordem que “interessam a todos os homens” (assim se exprime Kant
no primeiro dos seus 3 ensaios sobre o terramoto de Lisboa, redigidos
nas semanas após o acontecimento e publicados nos primeiros meses do
ano seguinte). Alguns conseguem mesmo produzir, nesses ensaios, esboços
luminosos daquilo a que Foucault chamou uma “ontologia da atualidade”
(FOUCAULT, 1994, p.680). Tais lósofos podem assim ser ao mesmo
tempo escolares e populares, mas não em compartimentos fechados, dan-
do-se, antes, uma fecunda contaminação dos dois regimes um pelo outro
(o que é certamente o caso de Kant, entre o de vários outros seus contem-
porâneos). Assim, a Escola benecia da liberdade do professor enquanto
investigador e escritor das novas ideias que lhe ocorrem; e o investigador-
-ensaísta benecia do rigor que a Escola lhe impõe, mesmo na condução
das suas livres incursões por áreas desconhecidas ou ainda mal conhecidas.
Muitos intelectuais alemães desse século ganham consciência
- e exprimem-na amiúde - do atraso germânico em muitos aspetos,
relativamente a outros países europeus. Daí o procurarem-se referências
estrangeiras, como modelos, não só as francesas, mas sobretudo as inglesas:
elas trazem novos temas e novos enfoques de temas tradicionais. A partir
de meados do século, assiste-se a uma progressiva abertura dos intelectuais
alemães ao pensamento inglês e escocês: Newton, Locke, Hume, Burke,
Alexander Gerard, Shaftesbury, Hutcheson, os poetas-lósofos Alexander
Pope e Joseph Addison, Edmund Burke, Adam Ferguson, Adam Smith.
O pensamento germânico setecentista deve muito a essa apropriação
dessa literatura anglo-escocesa no que respeita aos sentimentos e temas
Monique Hulshof e Ubirajara Rancan de Azevedo Marques (Org.)
40 |
estéticos (imaginação, génio, gosto) e ao sentimento moral, e em geral
a temas morais, políticos e económicos. Progressivamente, o campo das
questões losócas alarga-se, à medida que também se apura uma matriz
mais livre e aberta para as apreciar ou tratar: as questões mundanas -
da vida, da antropologia e psicologia, da política, dos costumes e da
economia, dos sentimentos, os temas sociais, enm - tendem a ocupar a
reexão que antes era orientada para as questões metafísicas ou lógicas.
Há igualmente, mais ou menos explícito, na proposta de uma -
losoa popular, tanto um intuito pedagógico de ilustração o mais ampla
possível quanto o intuito moral e político de emancipação. Mas, ainda aqui,
talvez ninguém tenha traduzido melhor isso do que o faz Kant, precisamente
no seu ensaio de resposta à questão “Que é Aufklärung?”. Fala aí a vontade
de ecácia da razão: mudar o modo de pensar, mudar as instituições, mudar
a realidade fazendo-a corresponder à ideia ou ao ideal, vistos na razão como
o possível, o melhor, o que deve sere que pode ser. Esse «impulso para a
realização» (Trieb zur Verwirklichung) alcançará o seu máximo em Hegel e
em Marx - que as ideias sejam realidade e a mesma realidade, que a losoa
transforme o mundo conformando-o à consciência que dele tem o lósofo.
Mas também a ideia desenvolvida por Kant do “uso público da razão” por
parte do lósofo em nome próprio – para além do desempenho do seu ofício
como funcionário – corresponde a esse impulso de efetivação que move a
mais genuína “losoa popular”, pois apela à muito peculiar responsabilida-
de pública do autêntico lósofo na república da razão, o que, por outro lado,
nos remete para o kantiano “conceito mundano de losoa” – aquele que
está comprometido com os ns supremos da razão humana – em contraste
com o mero “conceito escolar de losoa”, ao qual corresponde o de um
simples prossional ou artíce habilidoso de conceitos, sem real compromis-
so com o mundo e com as exigências práticas da razão (Log, AA 09:24-25).
4. a popularidade diz-Se de muitaS maneiraS
Já percebemos que a “popularidade” se declina de muitas maneiras
e cada lósofo “popular” a entendia e cultivava a seu modo. Há a populari-
dade fácil e supercial e a que procura associar à mais fácil e mais ampla in-
A linguagem em Kant. A linguagem de Kant.
| 41
teligibilidade possível também a qualidade substantiva e a profundidade dos
conteúdos transmitidos. Há a “popularidade”, a “verdadeira popularidade” e
a “perfeita popularidade”. Estas últimas serão aquelas que sabem fazer chegar
ao mais vasto público verdades ou conhecimentos realmente profundos e ao
mesmo tempo úteis para a vida e “para o mundo”. Os mais exigentes dos
lósofos populares assim entenderam a sua causa. Christian Garve, no seu
ensaio «Sobre a popularidade do discurso», manifesta a convicção de que
o mais alto grau de perfeição e elaboração das ideias losócas só
pode ser alcançado se elas puderem ser comunicadas de uma maneira
fácil a todos os homens de entendimento cultivado […] de que uma
investigação profunda e fundamentada pode igualmente ser tornada
universalmente e até mesmo facilmente compreensível […] pelo
que se deve promover tanta popularidade quanta a que dependa
da perfeição e correção dos conceitos e do mais perfeito uso da
linguagem. (GARVE, 1796, p.350, 355-357).
Era essa convicção que ele já manifestara a Kant na primeira carta
que lhe escreveu, após o desao que o autor da Crítica da Razão Pura fez
ao autor anónimo da recensão da sua obra na Gazeta de Gotinga. E Kant
não rejeita, antes manifesta o seu acordo com essa máxima, salvaguardadas
algumas exceções, que o “lósofo popular” também acabara por acolher
naquele seu ensaio. Assim fecha Kant o que se tem tomado como sendo
uma insanável controvérsia entre ele e o “lósofo popular”:
Não posso achar melhor maneira de prevenir ou remediar a censura tão
frequente de obscuridade ou mesmo confusão deliberada nas preleções
losócas, ostentando a aparência de uma grande profundidade, do que
aceitar de bom grado aquilo que o Sr. Grave, um lósofo no sentido au-
têntico do termo, estabelece como dever para qualquer um, mas especial-
mente para o escritor e matérias losócas, limitando, pelo meu lado, tal
exigência à condição de a observar apenas na media em que o permita a
natureza da ciência que se trata de corrigir ou ampliar. Este homem cheio
de sabedoria exige com razão […] que toda a doutrina losóca – se
aquele que a professo não quiser aparecer como suspeito de obscuridade
nos seus conceitos – possa ser tornada popular (quer dizer, aproximar-se
à sensibilidade o suciente para poder comunicar-se universalmente).
Aceito isso de bom grado, exceção feita apenas para o sistema da crítica
da própria faculdade da razão e para tudo aquilo que não possa ser deter-
minado a não ser pela própria razão. (MS-RL, AA 06:206).
Monique Hulshof e Ubirajara Rancan de Azevedo Marques (Org.)
42 |
Comum aos lósofos populares é a insistência na praticidade e
utilidade dos conhecimentos a transmitir, na sua aptidão para o uso da
vida. Mas também esta dimensão pode ser entendida num sentido mais
estrito ou mais amplo, mais vago ou mais determinado. Em meados da
última década do século – num momento em que já estaria a passar de
moda – a “Popularphilosophie” encontra a sua expressão programática
mais ambiciosa e mesmo sistemática numa obra de Karl Heinrich Ludwig
Pölitz – Ideias para uma losoa popular em vista das necessidades do nosso
tempo.
18
Todos os ingredientes, prosseguidos, por vezes isoladamente ou
de modo disperso, pelos lósofos populares, são agora sistematizadas em 5
tarefas: Modernisierung, Konziliation, Orientierung, Aufklärung, Handlung
- Modernização, Conciliação, Orientação, Ilustração, Ação. Trata-se de um
programa conciliador e integrador, que expressamente não exclui, mas
antes inclui, a própria investigação crítica da losoa aos fundamentos e
limites do conhecimento humano levada a cabo por Kant. Assim expõe
Pölitz a sua conceção de “Popularphilosophie”:
Se a losoa deve iluminar o entendimento, aquecer o coração e in-
tervir na vida comum […] ela tem de ser exposta de forma luminosa,
compreensível universalmente, aplicável universalmente (por conse-
guinte, popularmente). A coisa mesma está fora de dúvida, mas até
agora esbarrou-se na expressão “Popularphilosophie”, porque alguns,
sem dúvida cheios de mérito e grandes homens no domínio da lo-
soa, não se sabe bem com que fundamento, recusaram esta expres-
são, a qual por certo em si é de nobre origem, e disseram muito mal
da “Popularphilosophie” tal como eles a pensaram e a caracterizaram.
(PÖLITZ, 1795, p.467).
Visando talvez as acima referidas críticas de Reinhold aos ló-
sofos populares, ou também a censura de Garve, no seu ensaio “Sobre a
popularidade do discurso”, aos lósofos da “escola kantiana” que insistiam
em mal-entender a noção e o propósito da “Popularphilosophie”, Pölitz
considera que o maior mal-entendido que se estabeleceu foi, de facto, o
de que a losoa “crítica” e a losoa “popular” são contrapostas entre
si. Pelo contrário, segundo ele, ambas se unem para destruir a dogmáti-
18
PÖLITZ, 1795, p.467-527. Já antes ele publicara uma obra pensada como „contributo para uma losoa
popular“ (PÖLITZ, 1794 [na verdade, 1793; 2. ed. 1795].
A linguagem em Kant. A linguagem de Kant.
| 43
ca da escola (PÖLITZ, 1795, p.468, 508). A losoa popular não pode
dispensar o trabalho feito pela losoa crítica de submeter os conheci-
mentos humanos a uma profunda investigação e exame. Assim, o Cânone
da Popularphilosophie deveria conter: os mais luminosos e sistematizados
resultados da psicologia empírica (da Antropologia), das leis do pensamen-
to (da Lógica) e a exposição das faculdades superiores de conhecimento
(da Crítica da Razão Pura), as consequentes ideias do mundo supra-sensí-
vel (da Metafísica) e o tratamento cientíco da religião moral (PÖLITZ,
1795, p.469-471). Tratar-se-á nisso de uma reabsorção pela losoa acadé-
mica de uma losoa que na sua origem era de intenção anti-académica?
Ou será que a “losoa escolar” aprendeu a lição dos “lósofos populares”?
Uma das características do Programa de Pölitz é a explícita inclusão nele
do essencial do legado da crítica kantiana dos fundamentos e limites do
conhecimento humano.
19
É este um Programa que promove a tolerância
em vez do conito, nomeadamente entre lósofos populares e escolares, e
entre estes e aqueles. No mero enunciado das tarefas se pode ver o decisivo
e amplo papel prático, de ação e de intervenção social e política, que se
exige desta “losoa popular”. E já que Pölitz insiste na união de propó-
sitos da “losoa crítica” com a “losoa popular”, não destoará aqui a
evocação de um passo do cap. III da Introdução à Lógica, no qual Kant
enuncia claramente a questão da função ou utilidade da Filosoa, entendi-
da esta, porém, segundo o seu “conceito mundano”, e não segundo o seu
conceito escolar”. Pergunta Kant: «Para que serve o losofar – a própria
Filosoa considerada como ciência segundo o conceito escolar [nach dem
Schulbegrie] – e qual o m último da mesma?»
A que responde:
Neste signicado escolástico da palavra [in dieser scholastischen
Bedeutung des Worts], a Filosoa trata apenas da habilidade
[Geschicklichkeit]; em relação ao conceito mundano [Weltbegri]), pelo
contrário, trata da utilidiade [Nützlichkeit]; na primeira consideração
ela é, portanto, uma doutrina da habilidade [Lehre der Geschicklichkeit],
na última, uma doutrina da sabedoria [Lehre der Weisheit]: - a legisladora
[Gesetzgeberin] da razão; e o lósofo, nessa medida é, não artista da
19
Já em pleno século XIX, Karl Pölitz seria editor das Vorlesungen über die philosophische Religionslehre (1817) e
das Vorlesungen über die Metaphysik (1821) de Kant, a partir de cadernos de apontamentos tomados pelos alunos
nas aulas do Professor Kant.
Monique Hulshof e Ubirajara Rancan de Azevedo Marques (Org.)
44 |
razão [Vernunftkünstler], mas legislador [Gesetzgeber] da razão. O artista
da razão ou, como Sócrates lhe chama, o lodoxo, aspira simplesmente
a um saber especulativo, sem olhar a quanto o saber contribui para
o m último da razão humana… O lósofo prático, o mestre da
sabedoria através da doutrina e do exemplo, é o verdadeiro lósofo.
Pois a Filosoa é a ideia de uma sabedoria perfeita que nos mostra os
ns últimos da razão humana. (Log, AA 09:24).
A perspetiva de Pölitz, ao propor um programa sistematizado de
conteúdos fundamentais da losoa popular, desperta-nos para uma di-
culdade e essencial fragilidade da causa desta losoa, quando entendida de
modo supercial, que é por certo o mais comum. A popularidade, por si só
considerada, tem um problema – uma espécie de contradição em si mesma:
o simples e absoluto afã de tornar facilmente acessível a todos um qualquer
conhecimento ou uma doutrina tem de ter por m sobre estes o efeito de
banalização, pelo que, à medida que o público leitor se torna mais instruído
e tem mais aguçado e exigente o seu sentido crítico, o que é fácil e óbvio
deixa de lhe interessar. A popularidade absolutizada como princípio tem em
si própria – e não no rigor e formalidades da Escola - o seu maior inimigo.
Entendida na forma mais vulgar e supercial, a sua estratégia prejudica o
que precisamente ela tem em vista: a elevação da cultura do maior núme-
ro possível de seres humanos, o esclarecimento dos cidadãos, a mobilização
destes para transformar a vida e a tornar mais rica de sentido. Ora, há que
ter ideias, há que possuir um saber fundamentado e saber porque é esse que
deve ser transmitido antes de poder transmiti-lo com clareza e acessibilidade.
Precisamente à custa de querer ser tão popular, o produto da “losofa popu-
lar” corre o risco de se transformar num extenuado e chato didatismo, que
não incita ao trabalho do entendimento do leitor, não desenvolve o seu sen-
tido crítico, não estimula a sua imaginação nem a capacidade de pensar por
si mesmo, não o torna cúmplice da graticante descoberta da verdade, não
o mobiliza, enm, para o que é ou pode ser verdadeiramente interessante.
Foi por isso, talvez, que reconhecendo embora a pertinência dos
três tipos de discurso – o cientíco, o popular e o estético – consoante o
interesse que se tem em vista, Schiller viu muito claramente, num seu ensaio
de 1795, que só quando todas as faculdades anímicas fundamentais (no-
A linguagem em Kant. A linguagem de Kant.
| 45
meadamente, o entendimento e a imaginação) são estimuladas e exercidas,
cada qual segundo seu interesse próprio, se transcende e subsume tanto o
modo “cientíco” como o modo “popular” no modo estético ou “belo” de
escrever, que é o único que realmente gratica o espírito fazendo saborear a
espontânea harmonia das suas faculdades espirituais e sensíveis. O lósofo
da “educação estética do ser humano” diz numa feliz síntese o que, em vários
lugares das suas obras, também o lósofo crítico se esforçou por dizer, e as-
sim também aquele pode e deve com razão ser arrolado para o número dos
lósofos da “verdadeira popularidade”.
5. SenSibilização, Clareza eStétiCa, verdadeira popularidade
Como tenho tentado mostrar, a questão da popularidade e a da
losoa popular na losoa alemã setecentista não pode ser desligada de
um conjunto de contextos ou circunstâncias histórico-culturais e tarefas
sociais e políticas que se esperava que a losoa pudesse e devesse também
cumprir: de esclarecimento e de emancipação, de participação esclarecida e
ativa nos processos da cada vez mais intensa vida pública burguesa, de mo-
dernização, de transformação, enm, da vida prática dos humanos. Mas,
por outro lado, igualmente, tenho sugerido que ela é apenas um sintoma,
talvez de superfície, de uma transformação mais funda que estava ocorren-
do no pensamento alemão – e, em especial, na Filosoa - na segunda me-
tade do século. Os lósofos geralmente tidos ou que se tinham a si mesmo
por “populares” zeram nisso a sua parte, e essa parte é muito relevante,
não podendo ser desprezada ou subavaliada como o tem sido comummen-
te na historiograa losóca, mas talvez eles não tenham levado a cabo o
seu propósito com toda a consequência.
Creio ter apontado com sucientes provas que Kant, pelos temas
e pelo teor da respetiva abordagem e até pela atitude losóca, pode e deve
ser considerado verdadeiramente também como um lósofo popular.
20
É
então o momento de tentar mostrar de forma mais direta o modo como a
20
Isto podia entender-se apenas naquele sentido em que Ernst von Aster considerava Kant um “lósofo popular”,
tendo em conta os pequenos escritos que o lósofo publicou em revistas nos seus últimos anos, e que nada
teriam que ver com os grandes escritos onde expusera o seu pensamento crítico (ASTER, 1914). Pela minha
parte considero que não há uma separação de natureza entre escritos “não populares” e escritos “populares”,
mas que mesmo os escritos mais “escolásticos”, como o são as três Críticas, revelam muitos aspetos pelos que se
Monique Hulshof e Ubirajara Rancan de Azevedo Marques (Org.)
46 |
questão da popularidade é enquadrada no programa da losoa crítica e o
que tem Kant a dizer sobre ela e sobre o que com ela se relaciona. Em que
medida está ele em consonância com a causa da popularidade dos “lóso-
fos populares” e em que medida introduz dissonâncias que obrigam aquela
a ser ainda mais congruente com o seu propósito?
Para a abordagem desta questão eu proponho-me, nos parágrafos
seguintes, relacionar entre si três tópicos recorrentes nos escritos kantianos:
a “sensibilização” (Versinnlichung) dos conceitos ou ideias, a “clareza estéti-
ca” (ästhetische Deutlichkeit) e a “popularidade” ou “verdadeira populari-
dade” (wahre Popularität).
21
Embora Kant tivesse – e frequentemente o declarasse – uma má
ideia de si próprio enquanto escritor, isso de modo nenhum signica que
defendesse e praticasse uma exposição seca e meramente escolástica da
Filosoa. Essa preocupação com o género de exposição do seu pensamento
era genuína e nascida do próprio desenvolvimento da com da ideia da lo-
soa crítica, e não meramente uma preocupação suscitada a posteriori pela
má receção imediata que a sua obra viria a ter ou pelas censuras recebidas
a respeito do seu estilo e linguagem.
A primeira coisa que a este respeito há que ter presente é que a
losoa kantiana e mesmo a losoa crítica – por muito pura e a priori
que sejam ou se concebam – não têm medo da sensibilidade e das intuições
sensíveis. Antes as requer e solicita, seja no plano cognoscitivo ou no plano
estético. A Versinnlichung – o tornar sensíveis os conceitos ou as ideias – é
parte essencial da Lógica transcendental enquanto lógica da objetividade
(ou da referência), que trata de garantir para os conceitos um referente em-
pírico e intuitivo, que lhes proporcione “sentido e signicação” (Sinn und
Bedeutung). Os leitores da 1ª Crítica e também os da 3ª Crítica conhecem
bem essa carência que tanto os conceitos puros do entendimento quanto
pode dizer que respondem também à exigência da popularidade ou da “clareza estética”, por exemplo, ao nível
das fecundas metáforas que os tecem e que criam o ambiente semântico de muitos dos temas maiores daquelas
obras. Também Paul Menzer havia publicado 3 anos antes uma seleção de escritos de Kant sob o título Kants
Populäre Schriften (MENZER, 1911). Enquanto todos os ensaios publicados por Von Aster são do período
crítico, os publicados por Menzer são quatro do período pré-crítico e oito do período crítico.
21
Nas considerações que seguem, retomo algumas ideias e até formulações próximas das que já tenho explicitado
noutros meus ensaios, nomeadamente, em: SANTOS, 2011.
A linguagem em Kant. A linguagem de Kant.
| 47
as ideias da razão têm de intuições que lhes garantam conteúdo (ou pelo
menos alguma signicação), seja de um modo direto, ou indireto por ana-
logia, seja como imagens e esquemas, ou com ideias estéticas e símbolos.
Sem um tal processo de «sensibilização» – sem de algum modo os “tornar
sensíveis” – não há pertinência alguma para os conceitos do entendimento
ou para as ideias da razão. E também não há exposição popular – ou co-
municação fácil, acessível – das ideias, pois que a linguagem é o repositório
vivo dessas signicações. Cito, a propósito, um passo bem conhecido de
um ensaio kantiano:
Por mais alto que consigamos elevar os nossos conceitos e desse
modo abstraí-los da sensibilidade, sempre lhes estão associadas
representações de imagens [bildliche], cuja função própria consiste
em torná-los -a eles que não são extraídos da experiência – aptos
para o uso da experiência. Pois como pretenderíamos nós dar aos
nossos conceitos sentido e signicação [Sinn und Bedeutung], se não
lhes puséssemos como fundamento qualquer intuição [Anschauung]
(a qual por m terá de ser sempre um exemplo de uma qualquer
experiência possível?) (WDO AA 08:133).
Quanto ao tópico da “claridade estética” da exposição losóca,
ele vai estar em Kant sempre associado ao da “popularidade”. Assim, no
Prefácio à primeira edição da Crítica, o autor dá conta da sua preocupação
de garantir para a obra duas exigências essenciais: a profundidade (ponto
de vista escolar) e a popularidade (“ponto de vista popular”), a “clarida-
de discursiva (lógica) por conceitos» e a «claridade intuitiva» ou estética,
«mediante intuições, isto é, mediante exemplos e outros esclarecimentos
(Erläuterungen) in concreto». Kant pensa tê-las garantido ambas, embora
em grau diferente. Mas, por isso mesmo, como que pede desculpa aos lei-
tores de não o ter conseguido melhor no que à segunda exigência respeita.
Invoca razões de economia redaccional para a não ter cumprido plena-
mente, como era seu propósito inicial. Como primeira declaração pública
sobre o assunto o passo deve ser citado extensamente, pois ele é revelador
também do quanto isso preocupou o lósofo no processo de confeção da
sua obra:
Monique Hulshof e Ubirajara Rancan de Azevedo Marques (Org.)
48 |
No que respeita à clareza, o leitor tem o direito de exigir, em
primeiro lugar, a clareza discursiva (lógica) por conceitos;
seguidamente, também a clareza intuitiva (estética) por intuições,
isto é, por exemplos e outros esclarecimentos in concreto. Cuidei
sucientemente da primeira, pois dizia respeito à essência do meu
projeto, mas foi também a causa acidental que me impediu de me
ocupar sucientemente da outra exigência, que é justa, embora o não
seja de uma maneira tão estrita como a primeira. No decurso do meu
trabalho encontrei-me quase sempre indeciso sobre o modo como a
esse respeito devia proceder. Os exemplos e as explicações pareciam-
se sempre necessários e no primeiro esboço apresentaram-se, de facto,
nos luares adequados. Contudo, bem depressa vi a grandeza da minha
tarefa e a multidão de objetos de que tinha de me ocupar e, dando
conta de que, expostos de uma forma seca e puramente escolástica,
esses objetos daria extensão suciente à minha obra, não me pareceu
conveniente torna-la ainda maior co exemplos e explicações apenas
necessários de um ponto de vista popular, tanto mais que esta obra
não podia acomodar-se ao grande público e aqueles que são cultores
da ciência não necessitam tato que se lhes facilite a leitura, coisa
sempre agradável, mas que, neste caso, poderá desviar-nos um pouco
do nosso m em vista. (KrV A XVII-XIX).
Certos passos do texto, nomeadamente a alegada hesitação quan-
to ao modo de proceder na elaboração da obra, são explicados por duas
cartas a Marcus Herz, uma, de janeiro do ano 1779, e a outra, de 11 de
maio de 1781, que nos falam de que Kant tinha em mente, e mesmo já
delineado, um plano ou método de exposição para garantir para a sua obra
nada menos do que a “popularidade”. Ou seja, surpreendêmo-lo, em ple-
no processo de redação da Crítica, preocupado e ocupado com o que hoje
chamaríamos a dimensão retórico-comunicativa daquela que seria a sua
principal obra. Eis o que revela Kant ao seu amigo:
Desde há algum tempo, nos momentos de ócio, medito acerca dos
princípios da popularidade nas ciências em geral (entenda-se, nas que
que disso são capazes, pois a Matemática não o é), em especial na Filo-
soa, e creio a partir deste ponto de vista determinar não só uma outra
seleção, mas também uma ordem completamente diferente da que é
exigida segundo o correto método escolar, o qual por certo permanece
sempre como fundamento. (Br AA 10:247).
A linguagem em Kant. A linguagem de Kant.
| 49
Por meados de maio de 1781, no momento em que estava a sair
do prelo a Crítica da Razão Pura, em nova carta a Herz, Kant volta a men-
cionar a revelação que lhe zera na carta anterior sobre o método segundo
princípios de popularidade que tencionava conferir à obra. Mas agora é
para lhe dizer que não conseguiu realizar esse desiderato e plano e justi-
car-se por isso, para o que invoca a natureza da matéria e, dada a extensão
da obra, a prioridade a dar ao tratamento escolar que consente maior eco-
nomia. Continua, porém, a dizer que tem “um plano em pensamentos se-
gundo o qual a obra também pode alcançar popularidade”.
22
Ouçamo-lo:
Esta espécie de investigação permanecerá sempre difícil, pois ela con-
tém a metafísica da metafísica e, não obstante, eu tenho um plano em
pensamentos segundo o qual ela também pode alcançar popularidade,
o qual, porém, porque o fundamento tinha de ser preparado, no co-
meço dicilmente poderia ter sido concretizado, até que o todo desta
espécie de conhecimento tivesse sido posto perante os olhos segundo
todas as suas articulações; pois, de outro modo, eu teria de ter come-
çado apenas por aquilo que expus sob o título da Antinomia da razão
pura, o qual poderia ter resultado num discurso muito orescente [in
sehr blühende Vortrag] que teria provocado no leitor o prazer de investi-
gar por detrás das fontes deste conito. Só que primeiramente a Escola
tem de ver satisfeitos s seus direitos e só depois se pode também atender
que ela viva para agradar ao Mundo. (Br AA 10:269-270).
O mesmo tópico ocorre na Introdução aos Prolegómenos, sem dú-
vida, já sob o efeito da recensão negativa da Crítica publicada das Notícias
Ilustradas de Gotinga. Na linha do que escrevera no Prefácio à primeira
edição da obra, o autor sublinha que, dada a extensão que ela tomou,
acabou por decidir privilegiar a exigência da ciência e a «precisão escolásti-
ca» relativamente à exigência da exposição, mesmo que isso tenha causado
uma «inevitável aridez» e afetado o fácil e imediato acolhimento público da
mesma. Mas não deixa de apontar exemplos – Hume e Mendelssohn – que
conseguiram com felicidade as duas coisas. Quanto a ele próprio, declara
que «teria, sem dúvida, podido fornecer popularidade à sua exposição […]
se apenas tencionasse fazer um plano e recomendar a outros a sua execu-
22
J.G. Hamann, em cartas a Herder e a Hartknoch, respetivamente, de 5 e 11 de agosto de 1781, refere que
«Kant fala de um resumo da sua crítica segundo o gosto popular (im populairen Geschmack), que promete vir a
editar para os leigos» (HAMANN, 1959, p. 323).
Monique Hulshof e Ubirajara Rancan de Azevedo Marques (Org.)
50 |
ção e se não tivesse a peito o bem da ciência, que o ocupou durante tanto
tempo.» (Prol AA 04:262) Desculpa-se, pois, pela dimensão da obra e pela
maior atenção dirigida ao que nela considera prioritário. Esta justicação
retoma os termos que Kant usara na citada carta a Herz de 11 de maio de
1781, e no próprio Prefácio da primeira edição da obra.
A partir daí, podemos seguir o rasto do tema e suas variações sub-
sequentes, antes de mais, no Prefácio à segunda edição da Crítica (1787).
Aí Kant acerta as suas distâncias e proximidades relativamente a Wol e
à “Escola” e não deixa de fazer um juízo esperançoso sobre a losoa da
sua própria época, revelado na capacidade que nela reconhece de chegar a
aliar-se o “espírito de profundidade e o rigor escolásticos” com a “exposição
luminosa” e a “verdadeira popularidade”. Mas agora, ao mesmo tempo que
declara que, no que se refere à nova edição da obra, «na exposição há ainda
muito a fazer», parece desacreditar da sua própria capacidade para levar a
termo essa última tarefa, conando noutros melhor dotados do que ele
para o fazerem. Cite-se o passo:
Observei com grata satisfação em diversas obras vindas a público […]
que o espírito de profundeza não se extinguiu na Alemanha, apenas
temporariamente foi abafado pela moda de uma liberdade de pensar
com foros de genial e que as espinhosas sendas da Crítica, que con-
duzem a uma ciência da razão pura, ciência escolástica, é certo, mas a
esse título perdurável e por isso altamente necessária, não impediram
inteligências corajosas e lúcidas de as trilhar. A esses homens de mereci-
mento, que à profundidade da visão aliam o talento de uma exposição
luminosa (que não presumo possuir), deixo o encargo de aperfeiçoar o
meu trabalho, no que ele possa ser ainda, de onde em onde, deciente.
(KrV B XLI-XLII).
O tema regressará em obra publicada dez anos depois, no Prefácio
à Metafísica dos Costumes, comentando o ensaio de Christian Garve –
Acerca da popularidade do discurso (Von der Popularität des Vortrages), que
cita pela publicação no volume dos Vermischte Aufsätze, publicado no ano
anterior
23
.
23
Na verdade, o ensaio tivera a 1ª publicação, sob anonimato, num periódico do ano 1793, Schlesische
Provinzialblätter, n. 17, p. 383 ss.
A linguagem em Kant. A linguagem de Kant.
| 51
Kant, que já respondera a esse tópico da popularidade, constan-
te da carta que o “lósofo popular” lhe dirigira em 13 de julho de 1783
– assumindo o desao que o autor dos Prolegómenos aí deixara num dos
Apêndices para que tivesse a coragem de revelar-se o anónimo autor da
recensão da Crítica publicada na Gazeta de Gotinga–, reitera agora o seu
fundamental acordo quanto à exigência expressa por Garve de que as dou-
trinas losócas devem poder tornar-se populares, usando-se para tal uma
linguagem próxima da sensibilidade, ainda que nesse mesmo lugar reco-
nheça que tal exigência não deve ser tomada como absoluta quando se trata
da crítica da razão ou dos assuntos que são próprios da razão, no que reitera
a ideia já expressa no Pref. à segunda edição da Crítica (B XXXIV), segun-
do a qual «a crítica da razão nunca se poderá tornar popular, nem tão-pouco
necessita de sê-lo», declaração contundente esta, que, para cúmulo, parece
contradizer muitas outras que vão em sentido contrário, o que certamente
se explica pela razão de que a Crítica da Razão Pura é concebida e exposta
pelo seu autor como se de um “experimento da razão consigo mesma” se
tratasse, ou como uma prova forense para a qual são concitados os pros-
sionais escolares da losoa e qualquer um que ascenda à especulação – os
lósofos ou metafísicos, portanto –, mas não propriamente o povo, a quem
as questões em discussão não interessam diretamente e para o que não tem
competência técnica, e que, só depois de resolvido o conito entre os ló-
sofos no plano metafísico da arena da razão, poderá beneciar de uma paz
pública entre lósofos, que garante que os contendores não mais perturba-
rão com suas pretensões especulativas os verdadeiros interesses práticos da
razão, que são também os do homem. O “experimento” levado a cabo na
Crítica visa neutralizar a Metafísica especulativa e seu pretenso saber. Daí
a lapidar declaração: “Tive, pois, de suprimir o saber para encontrar lugar
para crença, pois o dogmatismo da metafísica […] é a verdadeira fonte de
toda a incredulidade que está em conito com a moralidade e é sempre
muito dogmática”. E o prejuízo que em resultado desse processo possa ha-
ver, no dizer do crítico da razão, “afeta apenas o monopólio das escolas, mas
de modo nenhum afeta o interesse dos homens” (KrV, B XXX).
Deve ressaltar-se que no seu ensaio Sobre a popularidade do dis-
curso, Garve já incorporara aspetos da posição kantiana quanto à popu-
Monique Hulshof e Ubirajara Rancan de Azevedo Marques (Org.)
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laridade em losoa, nomeadamente, a ressalva de que há disciplinas
que não são suscetíveis pela sua natureza abstrata (as matemáticas) de
ser tratadas de modo popular e de que também o não podem ser aquelas
obras em que se expõem pela primeira vez conhecimentos de todo novos
(na matéria ou na forma), ou ideias e perspetivas acabadas de inventar,
devendo tais ideias passar algum tempo em estado de rudeza, ressalva
esta que podia abranger o caso da Crítica da Razão Pura, como Kant o
reivindicava e lho manifestara desde a primeira carta que lhe escreveu em
7 de agosto de 1783 (Br AA10:338-339).
O assunto e a mesmíssima preocupação com o modo de ex-
posição da losoa e da sua própria losoa são também amplamente
desenvolvidos pelo Professor Kant em alguns parágrafos da Introdução à
Lógica (texto resultante do seu magistério universitário regular dessa dis-
ciplina ao longo de várias décadas e publicado por seu discípulo Jäsche,
em 1800, o qual presumivelmente terá feito a organização dos mate-
riais). Aí, sob os tópicos recorrentes e ans da “arte da popularidade”,
da “claridade subjetiva”, da “evidência estética”, da “perfeição estética
ou “perfeição popular”, da “verdadeira popularidade” dos conhecimentos
losócos, sempre em contraste com a “perfeição lógica”, a “perfeição
escolástica do trabalho feito a fundo”, a “claridade objetiva”, a “evidência
lógica”, o rigor e “profundidade”. Em todos os casos, reiteradamente se
defende a ideia de compatibilidade possível desses pares aparentemente
antagónicos e até mesmo em real conito, e inequivocamente se pro-
põe a desejável união – «a máxima união possível» (grössten möglichen
Vereinbarung) de ambos: da ciência com o gosto, da claridade e exposição
luminosa do pensamento com a profundidade e o rigor escolásticos, em
linha com o que expusera e defendera nas obras por ele mesmo publica-
das. E vê isso como sendo uma vantagem para o próprio conhecimento,
pois permite corrigi-lo do pedantismo e do formalismo estéril, dos pre-
conceitos e da unilateralidade da Escola. Cito um trecho:
Quando nos empenhamos em proporcionar ao nosso conhecimento a
perfeição da profundidade escolástica [Vollkomenheit der scholastischen
Gründlichkeit] e, ao mesmo tempo, a perfeição da popularidade, sem
incorrer no erro da afetação do trabalho profundo ou da popularidade
afetada, é preciso ter em vista sobretudo a perfeição escolástica do nos-
A linguagem em Kant. A linguagem de Kant.
| 53
so conhecimento. […] E só então convém cuidar da maneira pela qual
tornaremos verdadeiramente popular o conhecimento aprendido me-
todicamente na Escola, isto é, comunicável aos outros de uma maneira
tão fácil e tão universal que a solidez do trabalho profundo não se veja
relegada pela popularidade. Pois não se deve, por causa da perfeição
popular, para agradar ao povo, sacricar a perfeição escolástica, sem a
qual toda a ciência nada mais seria do que brincadeira e passatempo.
(Log, AA 09:45-46).
E, de seguida, expõe as condições, na verdade muito exigentes,
para alcançar a “verdadeira popularidade”, as quais não se compadecem
com o vazio diletantismo, a fácil supercialidade, a leviandade, a ignorân-
cia, a incultura:
Para aprender, porém, a verdadeira popularidade é preciso ler os An-
tigos, por exemplo, os escritos losócos de Cícero, os poetas Horácio,
Virgílio etc; entre os modernos, Hume, Shaftesbury e outros mais, todos
eles homens que muito frequentaram o mundo renado, sem o que
não se consegue ser popular. Pois a verdadeira popularidade exige mui-
to conhecimento prático do mundo e dos homens, conhecimento dos
conceitos, do gosto e das inclinações dos homens, que é preciso cons-
tantemente levar em consideração na apresentação e mesmo na escolha
de expressões apropriadas, convenientes à popularidade. Semelhante
condescendência com a capacidade de apreensão do público e com
as expressões costumeiras, que não relega a perfeição escolástica, mas
cuida apenas de revestir os pensamentos de modo a não deixar ver o an-
daime, o que há de escolástico e de técnico nessa perfeição (assim como
traçamos linhas a lápis para escrever sobe elas e depois as apagamos) –
essa perfeição verdadeiramente popular do conhecimento é, de facto,
uma grande e rara perfeição, que demonstra um grande discernimento
do que é a ciência. Entre outros méritos, ela tem também o de poder
dar uma prova do completo discernimento de uma coisa. Pois o exame
meramente escolástico de um conhecimento ainda deixa a dúvida: será
que esse exame não teria sido unilateral, e o conhecimento ele pró-
prio, será que ele teria efetivamente um valor reconhecido por todos os
homens? A Escola tem os seus preconceitos, do mesmo modo que os
tem o senso comum. Aqui um corrige o outro. Por isso é importante
submeter um conhecimento ao exame de pessoas cujo entendimento
não esteja apegado a nenhuma escola. (Log AA 09:47-48).
Monique Hulshof e Ubirajara Rancan de Azevedo Marques (Org.)
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Seja ainda eSte remate:
É na união de ambas, da clareza [Deutlichkeit] estética ou popular
com a escolástica ou lógica, que reside a claridade [Helligkeit]. Pois
pela expressão mente clara [hellen Kopfe] entendemos o talento de
uma exposição luminosa de conhecimentos abstratos e profundos,
mas adequada ao poder de compreensão do entendimento comum
[gemeinen Verstandes]. (Log, AA 09: 61-62).
Ao lermos essas páginas da Introdução à Lógica, em que o tema
é sucessivamente retomado desde vários pontos de vista, acho que temos
de concluir que não houve lósofo alemão no último quartel do século
XVIII que tanto e tão profundamente tenha escrito sobre a popularidade
em losoa quanto o fez Kant, dando-lhe pleno acolhimento e justica-
ção na sua própria conceção de Filosoa. Nem mesmo os lósofos “po-
pulares” – nem mesmo Garve
24
– alcançaram o plano de abordagem em
que o lósofo crítico coloca e discute o problema. E o facto de apresentar
a exigência de popularidade sempre em contrapeso ou em contraposição
à Escola e seus procedimentos de rigor e profundidade e em aparente ou
real conito com ela, só aumenta a responsabilidade daquela e a tensão
produtiva que ela implica, mas não lhe diminui a pertinência, a conveni-
ência, e mesmo a necessidade.
Se recapitularmos em sequência as mais importantes declarações
explícitas de Kant a respeito da popularidade em Filosoa em geral e tam-
bém a respeito da popularidade da sua losoa crítica, teremos o seguinte:
1º) Cerca de dois anos antes de concluir a redação da Crítica, ele revela a
Herz, com aparente satisfação, ter descoberto um plano para apresentar o
conteúdo dessa sua obra de acordo com “princípios da popularidade”, sendo
garantida a “correção escolar” (carta de janeiro de 1779 – Br, AA 10:247); 2º)
No Prefácio da primeira edição da obra, vê-se na obrigação de justicar-se
pelo fato de não ter podido cumprir, como era seu intento, a satisfação dessa
exigência de popularidade, que considera um legítimo direito do leitor e,
por conseguinte, um dever do autor de obras losócas, mas garante que tal
24
Note-se, porém, que também este “lósofo popular” fazia uma aproximação da Filosoa à condição das Belas-
Artes, pois que também ela, ao nível da sua invenção, supõe o trabalho da imaginação e do génio e ao nível da
sua exposição supõe o gosto e o Witz (GARVE, [1769] 1779, p. 35 ss).
A linguagem em Kant. A linguagem de Kant.
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exigência há de vir a ser cumprida a seu tempo; 3º) No Prefácio da segunda
edição da obra, parece dar-se uma alteração da posição do autor em relação
a esse quesito, que se revela ferido de alguma ambiguidade: com efeito, por
um lado, ele declara perentoriamente que a Crítica «nunca se poderá tornar
popular nem tão-pouco necessita sê-lo», que «a ciência da razão pura é uma
ciência escolástica», «necessariamente dogmática e estritamente sistemática e,
por conseguinte, escolástica e não popular»; ao mesmo tempo, deixa insinu-
ada uma desqualicação da “popularidade” associando-a à “supercialidade
palavrosa” – “a supercialidade palavrosa que toma a despropósito o nome
de popularidade” –, que favorece o ceticismo; mas, por outro, manifestando
agora falta de conança no seu próprio talento para cumprir o que anos an-
tes se propunha cumprir e para ao qual dizia “ter o plano em pensamento
(carta a Herz de 11 de maio de 1781 – Br, AA 10:269; carta a Garve de 7
de agosto de 1783 – Br, AA 10:339) para conferir popularidade àquela sua
obra, convida e incentiva outros de maior talento que o seu a que o façam,
aliando a “profundidade da visão” à “exposição luminosa” (KrV B XL). Mas
como e para quê, se antes foi dito que a matéria não é disso suscetível e que
disso não precisa? 4º) Em todos os momentos, porém, permanecem alguns
pressupostos, a saber: que os conhecimentos losócos devem ser populares
tanto quanto o possam ser; que a correção segundo o método escolar deve
ser a primeira exigência a ser cumprida e só depois de satisfeita esta, há lugar
para a satisfação da exigência de exposição popular; que o desejável é a união
da exigência de profundidade e clareza lógica e rigor escolar com a exigência
de popularidade e clareza estética, mesmo se alcançá-lo seja difícil e não este-
ja ao alcance de todos, pois exige um talento especial.
Mas, se me é ainda consentido, eu gostaria de trazer aqui um ou-
tro texto notável de Kant que tem a ver sobremaneira com o tema que nos
ocupa, e este encontra-se na última obra que ele mesmo ainda preparou para
publicação – a Antropologia numa orientação pragmática (1798). Acusado,
como vimos, pelos “meta-críticos” de ontem e de hoje (antes de mais, por
Hamann e Herder) de mal-usar, de esquecer ou mesmo de reprimir, junta-
mente com a tradição (história) e a sensibilidade (experiência), também a
linguagem, o lósofo parece ter querido dar-lhes uma resposta em forma, e
como que por antecipação, na última obra que publicou, também ela resul-
Monique Hulshof e Ubirajara Rancan de Azevedo Marques (Org.)
56 |
tante do seu magistério académico, do que se infere que isso constituía ma-
téria regular do seu ensino no curso respetivo. Com efeito, na Antropologia,
encontra-se um conjunto de parágrafos que levam o título geral “Apologia
da sensibilidade”, nos quais expressamente o autor toma a seu cargo a “justi-
cação da sensibilidade”, refutando as acusações contra ela formuladas pelos
lógicos. Estas reduzem-se a três, a saber: 1ª que ela desorienta o entendi-
mento; 2ª que ela levanta a voz e quer ser dominadora indomável, quando
deveria ser apenas serva do entendimento; 3ª que ela é enganadora e a seu
respeito nunca podemos estar sucientemente seguros. Em contrapartida,
prossegue Kant, os poetas e as pessoas de gosto consideram que somente
através da sensibilização dos conceitos do entendimento - isto é, tornando-os
sensíveis, mediante imagens que lhes deem conteúdo e signicação -, se al-
cança a pregnância (das Prägnante) ou riqueza do pensamento, o enfático (das
Emphatische) ou a força da expressão e da linguagem e o poder iluminante
(das Einleuchtende) ou a claridade das representações, ao passo que a nudez
do entendimento (Nackheit des Verstandes) não passa de miséria (Dürftigkeit).
Kant declara que a perfeição íntima do homem consiste em que ele tenha
em seu poder o uso de todas as suas faculdades, para submete-lo à sua livre
vontade. Para isso, é necessário que o entendimento domine, mas sem debi-
litar a sensibilidade, pois sem esta nenhuma matéria seria dada que possa ser
elaborada para o uso do entendimento legislador. Neste conito entre lógi-
cos e pessoas de gosto, Kant constitui-se expressamente como «advogado da
sensibilidade» e refuta as críticas que lhe são feitas, colocando-se do lado dos
que lhe fazem justiça e reconhecem o seu valor. Por si mesmos, diz Kant, os
sentidos não perturbam nem governam o entendimento, nem tão-pouco são
enganadores. Por certo, as representações sensíveis antecipam-se às do enten-
dimento e expõem-se por vezes de forma amontoada. Mas o seu contributo
é tanto mais rico quanto mais o entendimento for capaz de dar-lhes ordem e
forma e, desse modo, «prover o espírito de expressões pregnantes (prägnante)
para o conceito (Begri), enfáticas (emphatische) para o sentimento (Gefühl) e
de representações interessantes (interessante) para a determinação da vontade».
E o defensor prossegue a sua arguição fazendo ver que a riqueza que as obras
do espírito na eloquência ou na poesia apresentam ao entendimento de um
só golpe pode, por vezes, estorvar, se ele tem de utilizá-la racionalmente e
o entendimento pode sentir-se perturbado quanto intenta tornar distintos
A linguagem em Kant. A linguagem de Kant.
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e separar todos os atos de reexão que aí estão realmente compreendidos,
ainda que de modo obscuro; mas nisso não tem culpa a sensibilidade. Pelo
contrário, é mérito seu o subministrar ao entendimento um rico material
frente ao qual os conceitos abstratos desta faculdade não passam frequente-
mente de reluzentes misérias. Em síntese: o auto-constituído advogado con-
clui que, se se acusa a sensibilidade de que o conhecimento que ela promove
tem um caráter de supercialidade (Seichtigkeit), por ser individual e limitado
ao singular, por outro lado, o entendimento, que se move exclusivamente
no universal, precisamente por isso entrega-se a meras abstrações e incor-
re na acusação de aridez (Trockenheit). E Kant indica uma via intermédia
que, no seu entender, permite evitar tanto um vício como o outro. Essa via
é o que ele chama a abordagem estética: «a abordagem estética (ästhetische
Behandlung), cuja primeira exigência é a popularidade (Popularität), segue
um caminho que permite evitar os dois defeitos», o da aridez e o da super-
cialidade. (Anth, AA 07:143-146).
Penso que esta notável peça – notável também pelo estilo e am-
biente de um processo forense em que está formulada está em linha com
muitos parágrafos da Introdução á Lógica, alguns dos quais atrás comentá-
mos, e ela permite enquadrar não só o que Kant pensava e escreveu sobre
a popularidade e a linguagem da losoa, como também o que ele desejou
que fosse a forma literária da sua própria losoa: inequivocamente uma
abordagem “estética”, dando a este adjetivo o sentido kantiano (o que con-
siste na “mera forma” e que por isso pode ser universalmente comunicável
e proporcionar um prazer universal) (Log, AA 09:36-39). Surpreendemos,
de facto, esse desiderato expresso num registo pessoal em vários lugares.
Por exemplo, numa carta de 7 de maio de 1793, a seu discípulo Friedrich
Bouterwek, nestes termos:
O que eu na realidade sempre desejei, mas não ousava esperar para
mim mesmo, era possuir uma mente poética [ein dichterischer Kopf],
dotada do poder de exposição adequada para os puros conceitos do
entendimento, para promover a comunicação destes princípios, pois
poder unir a exatidão escolástica [scholastische Genauigkeit] na deter-
minação dos conceitos com a popularidade de uma imaginação exube-
rante [mit der Popularität einer blühende Einbildungskraft] é um talento
demasiado raro para podermos contar encontrá-lo facilmente em al-
gum lugar. (Br, AA 11:432).
Monique Hulshof e Ubirajara Rancan de Azevedo Marques (Org.)
58 |
E numa Reexão do seu espólio, encontramos esta outra versão
do mesmo desiderato, temperada de modéstia:
Tratar de um modo genial [geniemässig] questões losócas profun-
damente complexas, é uma honra à qual não aspiro. Eu esforço-me
apenas por tratá-las de um modo escolar [schulmässig)] Se, nisto, o tra-
balho que requer contínua diligencia e atenção chega a ser bem suce-
dido, então compete ao verdadeiro génio (que não é aquele que pensa
poder fazer tudo a partir do anda) acrescentar-lhe o ímpeto do espírito
[Geistesschwung] e desse modo pôr em marcha o uso dos princípios
áridos. (Re. 990, AA 15:435).
Outras muitas passagens do mesmo teor poderiam ser aqui ci-
tadas. E quem as escreve é o mesmo lósofo, que, anos depois, em polé-
mica contra Georg Schlosser, põe a descoberto a fragilidade do “loso-
far poético” desse lósofo “neoplatónico” que considerava inspirar-se no
fundador da Academia e, contrapondo-lhe o exemplo de um “lósofo
prosaico” como era Aristóteles, declara que “no fundo talvez toda a -
losoa seja prosaica” (Im Grunde ist wohl alle Philosophie prosaisch] (AA
08:406); mas isto depois de ter mostrado, nesse mesmo ensaio, como
pode fazer-se uma abordagem “estética” da moralidade que não perturbe
a correta representação desta. Desde que as ideias tenham sido condu-
zidas à sua pureza na respetiva apresentação pela razão prática, consen-
te-se a sua tradução num “modo de representação estética” (ästhetische
Vorstellungsart), como recurso que é simultaneamente didático e retó-
rico, “para vivicar aquelas ideias mediante uma exposição sensível, se
bem que apenas analógica” [um durch sinnliche, obzwar nur analogische,
Darstellung jene Ideen zu beleben]. (AA 08:405)
25
No seu ensaio de 1795, Sobre os limites necessários no uso de formas
belas, escrito no rescaldo do conito com Fichte, após a recusa de publica-
ção, na revista Die Horen, do ensaio do lósofo idealista «Sobre o espírito
e a letra em Filosoa», Schiller traduz para a sua própria linguagem o que
também é o desiderato de Kant: o focus imaginarius ou ideal para onde
aponta a sua visão da exposição literária do pensamento é, sem sombra de
25
Veja-se também a réplica de Kant à crítica de Schiller sobre o caráter ascético e monástico da sua losoa
moral, em Die Religion (AA 06:23-24).
A linguagem em Kant. A linguagem de Kant.
| 59
dúvida, o “modo estético ou belo” (segundo a expressão de Schiller), como
aquela forma que, unindo o entendimento e a imaginação, supera tanto o
mero discurso “cientíco” como o mero discurso “popular” (SCHILLER,
1994, p.106ss), “modo estético” esse tal como tradicionalmente era conce-
bido no âmbito da Poética e Retórica, disciplinas sobreviventes das “artes
liberales” (ou dos “studia humanitatis”, que tornam o homem por assim
dizer mais humano naquele sentido que os humanistas dos séculos XV e
XVI lhe davam), as quais Baumgarten tinha acolhido no generoso âmbito
da sua Estética – por isso também dita theoria liberalium artium
26
em
suma, as Humaniora, que Kant igualmente acolhe na sua Crítica do juízo
estético, e até na sua conceção de Filosoa (Log, AA 09: 46), atribuindo-
-lhes a tarefa de promover a união da ciência com o gosto, de polir a rudeza
e favorecer a comunicabilidade e a urbanidade, em suma, a de desenvolver
o sentido de Humanidade [Humanität], a saber,
por um lado, o universal sentimento de participação [allgemeine
eilnehmungsgefühl] e, por outro, a faculdade de poder comunicar-se
íntima e universalmente; estas propriedades ligadas entre si constituem
a socialidade conveniente à condição humana [die der Menschheit
angemessene Geselligkeit] pela qual ela se distingue da limitação animal.
(KU, AA 05:355).
Na continuação, a reexão do lósofo continua por um viés que
tem tudo a ver com o nosso tema, fazendo pressupor uma estreita solida-
riedade ou íntima correlação entre a genuína condição política (o impul-
so para a socialidade legal), a condição estética (capacidade universal do
gosto) e a comunicação recíproca das ideias ou a linguagem – sempre em
processo de invenção –, como o meio que liga os homens entre si, mesmo
que possuam níveis de cultura diferentes:
A época e os povos, nos quais o ativo impulso para a socialidade legal
[Trieb zur gezetlichen Geselligkeit], mediante o qual um povo constitui
uma república duradoura [dauerndes gemeines Wesen ausmacht], lutou
26
Sobre este ponto, veja-se o ensaio de Maximiliano Hernández Marcos (MARCOS, 2003, p.108 ss). Num
momento em que já o tema da popularidade estava a car fora de moda, F. Schlegel ainda o faz rimar com
Humanidade, neste passo de uma sua reexão sobre a Filosoa: «Eu considero a popularidade como uma
aproximação da losoa à Humanidade [Humanität] no verdadeiro e grande sentido da palavra, no qual ela
lembra que o homem deve viver entre homens e tão longe quanto o seu espírito alcance, por m deve a isso
retornar (SCHLEGEL, 1799, p. 31).
Monique Hulshof e Ubirajara Rancan de Azevedo Marques (Org.)
60 |
com as grandes diculdades que envolvem a difícil tarefa de unir a
liberdade (e portanto também a igualdade) com a coerção (baseada mais
no respeito e submissão por dever do que por medo): uma tal época
e um tal povo tiveram que inventar primeiro a arte da comunicação
recíproca das ideias [Kunst der wechselseitigen Mittheilung der Ideen]
da parte mais culta com a mais rude, a sintonização [Abstimmung] do
desenvolvimento e do renamento da primeira com a simplicidade e
originalidade naturais da segunda, inventando assim entre a cultura
superior e a simples natureza aquele meio [Mittel] que constitui
também para o gosto, enquanto sentido humano universal, o padrão
de medida correto, que não pode ser indicado por nenhuma regra
universal. (KU, AA 05:355-356).
Se atentarmos bem, notaremos que, nos comentados parágrafos
da Antropologia, Kant parece propor ao lósofo, como via para a exposição
das suas ideias, não a noção lógico-metafísica de uma verdade árida, diri-
gida apenas ao entendimento, mesmo se em todo o rigor e profundidade,
para ensiná-lo, mas sim a noção retórica de verdade, dirigida por certo ao
entendimento, mas também dirigida à imaginação nas suas cores lumi-
nosas e até na sua graciosidade, para estimulá-la, dirigida ao sentimento,
para dar-lhe ânimo, dirigida à razão prática para interessá-la e à vontade
para movê-la, segundo o ideal pleno de verdade dos pensadores da grande
tradição da racionalidade retórica, expresso pelos três verbos latinos: docere,
delectare, movere. Era isso que Kant reconhecia naquele lósofo que tornou
popular a sua losoa, Karl Leonhard Reinhold, o autor das Cartas sobre
a Filosoa Kantiana, a respeito do qual deixa esta nota de agradecimento
num seu ensaio de 1788:
O talento de uma exposição luminosa e até mesmo graciosa [einer
lichtvollen, sogar anmüthigen Darstellung] de doutrinas áridas sem
perda da profundidade é tão rato e ao mesmo tempo tão útil, e
quero dizê-lo, não somente para recomendação, mas também para
a claridade da ideia, da compreensibilidade e da convicção que lhe
está associada, que eu me sinto no dever de manifestar publicamente
a minha gratidão ao homem que completou de tal modo os meus
trabalhos com esta facilitação que eu não era capaz de proporcionar-
lhes. (ÜGTP, AA 08:183).
A linguagem em Kant. A linguagem de Kant.
| 61
É, sem dúvida, na tradição do pensamento retórico que se ins-
creve esta nota, os comentados parágrafos da Introdução à Lógica, dos
Prefácios às 2 edições da Crítica, da Introdução aos Prolegómenos, do
Prefácio à Metafísica dos Costumes, de muitas passagens das Reexões e da
Correspondência e, sobretudo, dos citados parágrafos da Antropologia.
27
E no mesmo sentido vai a explícita adesão de Kant ao ideal ciceroniano
de eloquência – (não ao da oratória vulgar, enquanto arte de servir-se das
fraquezas dos humanos, para convencê-los de qualquer modo, ou levá-los
para os ns que não são os deles próprios, sejam eles, de resto, bons ou não)
–, que encontramos numa nota ao § 53 da Crítica do Juízo, nestes termos:
Aquele que tendo uma clara inteligência dos assuntos domina a
linguagem na sua riqueza e pureza e com uma imaginação fecunda
[einer fruchtbaren Einbildungskraft] e hábil para a exposição das suas
ideias toma partido de todo o coração pelo bem verdadeiro, esse é o vir
bonus dicendi peritus, o orador sem arte, mas cheio de energia expressiva
[Nachdruck], a que aspirava Cícero, sem ter ele próprio permanecido
sempre el a esse ideal. (KU, AA 05:328).
Na página anterior, Kant expusera as suas ideias sobre a Retórica
enquanto bela-arte, comparando-a com a Poesia e se, por um lado, mos-
tra a sua desconança em relação à ars oratoria (Beredsamkeit), entendida
como «arte de persuadir ardilosamente mediante a bela aparência», por
outro lado, contrapõe-lhe a “simples eloquência” (blosse Wohredenheit) na-
tural, ou seja:
a simples apresentação viva mediante exemplos, evitando violentar
as regras que asseguram a harmonia da linguagem [Wohllauts der
Sprache] e as que garantem a conveniência da expressão com as ideias
da razão [Wohlanständigkeit des Ausdrucks für Ideen der Vernunft], as
27
Testemunho disso é também um escrito em Latim do ano 1777 (Entwurf einer Opponenten-Rede, AA 15:903-
934), Esboço de um discurso de arguição de uma tese académica sobre as cções poéticas , no qual, contrariando a
tese vulgar dos lósofos e lógicos segundo a qual as imagens dos sentidos usadas pelos poetas nas suas cções são
enganadoras, Kant, estabelecendo uma criteriosa distinção entre engano e ilusão, assume explicitamente a defesa
dos poetas - e da veritas decorata (ou fucata) contra a veritas nuda -, nos seguintes termos: «Há, com efeito, certas
imagens das coisas, mediante as quais a mente joga [ludit], mas não é por elas iludida [ludicatur], através das
quais o artista não induz os incautos no erro, mas exibe aos olhos a verdade decorada, vestida com a veste da
aparência, a qual não ofusca a sua compleição interior, que não defrauda os ingénuos e crédulos com adorno
e enganos, mas, acrescentadas as luzes dos sentidos, leva à cena a árida e seca imagem da verdade coberta com
as cores dos sentidos.» (p.906-907) Veja-se a minha tradução completa desta peça, com Apresentação e Notas
(in: SANTOS, 2014).
Monique Hulshof e Ubirajara Rancan de Azevedo Marques (Org.)
62 |
quais juntas constituem a eloquência [Wohlredenheit], a qual por si
só tem já suciente inuência sobre os espíritos humanos, tornando
desnecessário submetê-los ainda mediante as máquinas de persuasão
[Machinen der Überredung], as quais, na medida em que são usadas
tanto para embelezar como para ocultar o vício e o erro, não podem
estar completamente isentas da suspeição de constituírem um artifício
ardiloso. (KU, AA 05: 327).
A literatura sobre Kant também não tem sido muito generosa
para reconhecer no lósofo uma explícita valorização da Retórica ou da
Eloquência, e isso porque geralmente se detém na mera superfície de al-
gumas declarações, mas não conhece ou faz por ignorar e despreza muitas
outras
28
. Mas, se melhor atenção a isso se desse, talvez chegasse a ver-se
que, longe de fazer coro contra os detratores da Retórica, Kant opera
uma pertinente distinção, que muitos outros lósofos antes dele também
zeram e praticaram, entre a verdadeira e natural eloquência, que acom-
panha naturalmente as ideias de quem realmente as tem para as propor a
outros, as digere e as sabe tornar claras e inteligíveis
29
, e a mera habilida-
de para convencer manipulando incautos com um conjunto de artifícios
ou de regras aprendidos na escola ou fora dela. Há muitas páginas de
Kant, tanto dos seus escritos “pré-críticos” como dos seus escritos “críti-
cos”, que bem poderiam gurar numa antologia de peças da eloquência
losóca. Para dar apenas alguns exemplos, seja, dos primeiros, todo o
inspirado capítulo VII da Segunda Parte da juvenil obra de Cosmogonia,
intitulado “Da Criação em toda a extensão da sua innidade tanto se-
gundo o espaço como segundo o tempo” (NTH, AA 01:306-322), no
28
Entre as raras exceções, rera-se Herman Parret, que destaca o signicado heurístico-estético da conceção e
prática da Retórica em Kant, associando-a ao símbolo, à analogia, à presentação <Darstellung> de conceitos ou
ideias em forma sensível, mediante uma hipotipose (PARRET, 1990) Veja-se também:Nuria Sánchez Madrid
(MADRID, 2013).
29
Seja exemplo (porque a analogia o consente) aquele lósofo moderno que também ganhou fama de ser
o proponente de uma “losoa sem retórica”, Descartes, que no seu Discours de la Méthode, assim escreve:
«Ceux qui ont le raisonnement le plus fort, & qui digerent le mieux leurs pensées, an de les rende claires
et intelligibles, peuuent tousiours le mieux persuader ce qu’ils proposent, encore qu’ils ne parlassent que bas
Breton, & qu’ils n’eussent iamais apris de Rhétorique.» (DESCARTES, 1996, VI, p.7). Veja-se a desconstrução
dessa interpretação, in: SANTOS, 2013, sobretudo p. 28 ss. Mas também o Platão autor do Fedro poderia servir
aqui de amostra de como a censura e crítica da retórica supercial (v. Górgias) pode ser a estratégia adequada
para levar à descoberta de uma mais autêntica e inspirada eloquência, que acompanha naturalmente o genuíno
pensamento de quem realmente o possui.
A linguagem em Kant. A linguagem de Kant.
| 63
qual a meditação do lósofo se entretece com a voz dos poetas-lósofos
da época − Alexander Pope, Albrecht von Haller e Joseph Addison (mas
muitas outras páginas dessa obra seriam a isso candidatas, em especial,
o Prefácio e a Conclusão); dos segundos, seja a verdadeira ode ao Dever,
que se lê no 3º capítulo do livro 1º da primeira parte da Crítica da Razão
Prática (KpV, AA 05: 86-87) e a Conclusão desta mesma obra (KpV,
AA 05:161-162). À face dos quais se entende bem o testemunho de seu
discípulo e biógrafo Reinhold Bernhard Jachmann, que assim descreve o
teor dos Cursos de Ética do Professor Kant:
Acima de tudo, deveríeis ter ouvido as suas aulas de Ética. Aqui era Kant
não apenas um lósofo especulativo, mas também um inspirado orador
que encantava o coração e o sentimento, da mesma forma que satisfazia
o entendimento. Na verdade, escutar a pura e sublime doutrina da
virtude da boca do seu criador em pessoa, exposta com tão poderosa
eloquência losóca, proporcionava um prazer celestial. Quantas vezes
ele nos movia às lágrimas, quão frequentemente ele comovia os nossos
corações, quantas vezes ele afastava os nossos espíritos e sentimento
dos laços do eudemonismo egoísta para a autoconsciência da pura
vontade livre, para a obediência incondicional à lei da razão, e para
o sentimento exaltado de um desinteressado cumprimento do dever!
O imortal lósofo aparecia-nos então como inspirado por um poder
celestial e também nos inspirava a nós que o escutávamos em completo
maravilhamento. Os seus ouvintes certamente nunca saíram de uma só
aula da sua Doutrina da Moral sem se terem tornado seres humanos
melhores! (JACHMANN, 1978, p.133-134).
30
Talvez também Kant, da mesma forma que Cícero, que era mestre
de oradores e exemplo de eloquência, não tenha conseguido manter-se sem-
pre el ao seu ideal e desiderato. Mas isso de modo nenhum nos autoriza a
desconsiderar esse aspeto da sua obra. Penso, assim, poder concluir-se que,
pese embora a severa autocrítica que por vezes faz do seu próprio estilo, la-
mentando-se de não ter o talento ou o génio que lhe permitissem alcançar
30
E, na mesma linha, nas p.165-166 da mesma obra, lê-se: «Kant não era simplesmente um teorético, mas tinha
também um desenvolvido sentido artístico. O seu maior gosto ia para a Poesia e a Retórica. [...] A Retórica
conhecia-a não apenas em teoria, mas também a tinha cultivado praticamente.» Cabe a propósito lembrar que
em 1764 foi oferecida a Kant a cátedra de Poética e Retórica da sua universidade, posição que ele não aceitou.
Que ele não era de todo destituído de competência nessas matérias prova-o o esboço para um discurso de
arguição de uma tese de Poética, sobre as cções poéticas, na qual critica as teses do candidato contrapondo-lhes
teses próprias. Veja-se acima a nota 28.
Monique Hulshof e Ubirajara Rancan de Azevedo Marques (Org.)
64 |
o que considerava ser desejável, não resta dúvida de que Kant – sem o ter
aprendido dos “Popularphilosophen”, ou por reação às críticas destes, mas,
antes, estando nisso em substancial acordo com eles, embora por outras bem
mais fundas razões – tentou seguir, na elaboração e exposição da sua própria
losoa, associada ao rigor escolástico do pensamento feito a fundo, aquela
via média – “sensibilização” dos conceitos, da “verdadeira popularidade”, da
abordagem estética” – que recomendava aos outros. E creio poder dizer
que a mais eloquente prova disso é a complexa rede de metáforas e analogias
sobre a qual ele constrói e mediante a qual ele expõe a sua losoa, e que
noutra ocasião amplamente expus.
31
Também graças a isso, os seus escritos,
como bem o intuíram Friedrich Schlegel e Walter Benjamin, constituem
um incontornável documento, que, na História da Filosoa, assinala um
momento de decisiva transformação na prática da linguagem da losoa.
Longe, pois, de ser insensível ao problema da linguagem e ao da linguagem
da losoa, Kant convida-nos verdadeiramente para sermos testemunhas de
uma decisiva transformação da relação da losoa com a sua linguagem,
uma transformação que é realizada na e pela sua própria obra, não, porém,
tanto à superfície desta quanto, precisamente, ao nível da sua estrutura poéti-
co-semântica profunda. Ao mesmo tempo que o lósofo crítico revoluciona
o modo de encarar as questões metafísicas, revoluciona também a forma de o
discurso losóco as tratar e expor, encontrando uma peculiar via média en-
tre a forma escolástica e a vulgar forma popular, não comprometendo o rigor
e a profundidade dos conceitos, nem dispensando o trabalho da imaginação,
ou rejeitando a luz que possa provir até das imagens sensíveis.
referênCiaS
ASTER, Ernst von (ed.). Immanuel Kants populäre Schriften. Berlin: Deutsche
Bibliothek, 1914.
31
Veja-se: SANTOS, 1994b. E, mais recente, também: KAUARK-LEITE; CECCHINATO; FIGUEIREDO;
RUFFING; SERRA, 2015. Rera-se aqui, ainda, a conclusão de Friedrich Kaulbach, num de seus ensaios sobre
Kant, segundo a qual o lósofo crítico se situa entre a Schulphilosophie e a Popularphilosophie, tentando salvar as
virtudes de uma e de outra, mas fazendo isso também por um imperativo ético: «Para Kant, a questão do falar
e da comunicação tinha de assumir uma dimensão ética, na medida em que a comunicação requer a mesma
atitude que é exigida no imperativo categórico; a boa atitude exclui que nos isolemos, também linguisticamente,
da comunidade moral, o reino dos espíritos, e nos alheemos numa existência “privada” do agir, do pensar e do
falar. […] Kant viu-se, como autor, numa tensão entre, por um lado, o ethos da comunicação e, por outro, o
ethos da responsabilidade perante a pesada causa da Filosoa.» (KAULBACH, 1966, p.62). Sobre o aspeto ético
da linguagem em Kant, veja-se o meu ensaio «Kant e a ética da linguagem» (SANTOS, 2012).
A linguagem em Kant. A linguagem de Kant.
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| 71
Capítulo 2.
S       
     
  K
*
Bernd DÖRFLINGER
A poesia obtém [...] a vitória [...] sobre qualquer outra das belas
artes” (Anth, AA 07: 247. 16-18). Esta é a sentença central do capítulo
sobre o gosto artístico na Antropologia de um Ponto de Vista Pragmático,
de Kant. Com isso é assinalada uma das artes cujo meio de expressão é a
linguagem, denominadas por Kant como “as artes da palavra” (Anth AA
07: 246.10). O veredito parece marcar o desfecho de uma competição
cujo edital, contudo, não está contido no capítulo que, de todo modo, está
apenas esboçado. Porém, ele contém alguns indícios sobre como recons-
truí-lo. Seria preciso conter o seguinte: qual é a arte, ou ainda, quais são
as artes que vivicam o ânimo da forma mais penetrante, despertando-o
imediatamente para a atividade? Pois a primeira característica é apresen-
* Tradução: Diego Kosbiau Trevisan1
Monique Hulshof e Ubirajara Rancan de Azevedo Marques (Org.)
72 |
tada como aquilo que distingue a boa poesia (cf. Anth, AA 07: 247) e a
segunda, como aquilo que distingue todas as artes da fala (cf. Anth, AA
07: 246). Além disso, encontra-se uma justicativa de Kant para de modo
geral considerar as artes da fala em sua Antropologia. Elas teriam “seu lugar
na antropologia pragmática pois esta “procura conhecer o ser humano se-
gundo aquilo que se pode fazer dele” (Anth AA 07: 246.13-15). Assim, o
imaginário edital poderia muito bem ter contido a seguinte pergunta: qual
é a arte, ou ainda, quais são as artes que fornecem as melhores informações
sobre as possibilidades de desenvolvimento que o ser humano possui?
Entretanto, o problema de uma hierarquia das artes seria ainda
protelado. A curta observação sobre a peculiaridade da antropologia prag-
mática daria antes ensejo para desenvolver mais detalhadamente a con-
cepção kantiana dessa ciência, podendo também assim situar as artes um
pouco mais precisamente em seu interior. Em uma passagem programati-
camente central do prefácio, Kant escreve primeiro sobre aquilo com que
se ocupa uma antropologia pragmática, a saber, não com “o que a natureza
faz do ser humano”; esse seria o objeto de uma “doutrina do conhecimento
do ser humano [...] do ponto de vista siológico” (Anth, AA 07: 119.9-12).
Pelo contrário, seu tema seria o ser humano como “ser que age livremente
e, decerto, sob três aspectos, o que ele, como esse ser que age livremente,
faz de si mesmo, ou pode e deve fazer” (Anth, AA 07: 119. 13ss).
O primeiro aspecto poderia ser denominado o aspecto da facti-
cidade. Sob esse aspecto, a antropologia pragmática é, segundo uma ex-
pressão de Kant, “doutrina da observação” (Br, AA 10: 146.05). O que
é observado são os atos efetivos dos seres humanos, inclusive todos os já
transcorridos. Descrita dessa forma, a antropologia pragmática é quase que
uma ciência empírica; apenas “quase” pois a atribuição dos atos observados
a seres que agem livremente se exime de toda observação. De uma série
de instrumentos dos quais lança mão a antropologia pragmática segundo
Kant, podem ser atribuídas a ela, como doutrina da observação, as “descri-
ções de viagem” (Anth, AA 07: 120.17), “biograas” e, por certo, toda a
“história mundial” legada (Anth, AA 07: 121.19).
O segundo aspecto da antropologia pragmática, sob o qual ela
tematiza o que o ser humano pode fazer de si mesmo, pode ser designado
A linguagem em Kant. A linguagem de Kant.
| 73
como o aspecto da potencialidade. De acordo com a já mencionada justi-
cativa sobre o tratamento das artes da palavra no âmbito da nova ciência
– justicativa segundo a qual esta é legitimada pelo fato de nelas tratar-se
daquilo quese pode fazer” do ser humano (Anth, AA 07: 246.14) –, será
particularmente com esse aspecto que essas artes poderão contribuir com
algo. Da lista de Kant dos meios de auxílio, podem ser atribuídos “peças
de teatro e romances” (Anth, AA 07: 121.19) ao aspecto da potencialida-
de. Embora sua lista certamente não seja completa e, portanto, não possa
ser excluída a possibilidade de que a arte musical e as artes visuais possam
encontrar aqui um lugar, chama a atenção que sejam mencionadas apenas
aquelas duas artes, de cuja essência faz parte o uso da linguagem. Já na pri-
meira menção a elas Kant se vê com efeito coagido a uma legitimação, pois
às peças de teatros e romances “não se atribui propriamente experiência e
verdade, mas só cção” (Anth, AA 07: 121.20ss). A justicação consiste,
portanto, em armar que os caracteres das cções “devem ter sido tirados,
em seus traços fundamentais, da observação do que os seres humanos re-
almente fazem ou deixam de fazer”; esses caracteres seriam “de fato exage-
rados em grau, mas, quanto à qualidade, precisam estar de acordo com a
natureza humana” (Anth, AA 07: 121.25-28).
Porém, essa última declaração sobre a peculiaridade de ambas as
artes, a saber, que elas consistiriam na intensicação e exagero imaginários
do fazer e deixar de fazer fáticos, não esgota, nem de longe, suas capacida-
des. Somente quando posteriormente se tornará mais claro que as artes da
palavra cumprem de forma especial e mesmo excepcional a tarefa funda-
mental de todas as belas artes, a saber, expor ideias estéticas, cará também
mais claro o motivo de elas serem atribuídas – de uma maneira que abre
novas possibilidades e, portanto, principalmente – ao aspecto de potencia-
lidade da antropologia pragmática.
Sobre o terceiro aspecto, de acordo com o qual, por m, a antro-
pologia pragmática se dirige àquilo que o ser humano que age livremente
deve fazer” de si mesmo (Anth, AA 07: 119.14), é natural denominá-lo
o aspecto da normatividade. Por seu vínculo com o dever-ser, o conheci-
mento concreto do ser humano e do mundo pretendido pela antropologia
pragmática não pretende ser um conhecimento pelo conhecimento mes-
Monique Hulshof e Ubirajara Rancan de Azevedo Marques (Org.)
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mo, mas, antes, um conhecimento que deve prestar uma útil contribui-
ção no contexto do problema da realização do dever moral já formulado
alhures – a saber, na Fundamentação, na segunda Crítica, na Metafísica
dos Costumes. Após a exposição da antropologia algo deve ser ganho sob a
perspectiva da aplicação da moral. Nas preleções “Mrongovius” do inverno
1784/85 lê-se: sem a antropologia pragmática “a moral seria escolástica e
não poderia de forma alguma ser aplicada ao mundo” (V-Anth/Mron, AA
25.2: 1211.31ss). Para a aplicação exige-se descer das alturas da escolástica,
ou ainda, da ética como “um sistema (que tem de proceder a priori a partir
de conceitos racionais)” (MS, AA 06: 469.09ss), até as relações humanas
especicadas empiricamente de forma ilimitada.
Segundo essa caracterização, a antropologia pragmática preenche
um lugar vazio da Metafísica dos Costumes. Nesta obra, na sequência de um
capítulo bem detalhado sobre os deveres de virtude a priori para com os
outros, há um segundo capítulo que, de acordo com a sistemática do texto,
possui o mesmo estatuto do anterior, mas que, em uma só página, apenas
esboça o projeto de uma ciência ainda a ser realizada. O capítulo largamen-
te desenvolvido tematizava os “deveres para com os outros, meramente
como seres humanos” (MS, AA 06: 448.5), isto é, meramente como seres
de determinada uma espécie, sem suas características e relações empíricas
especícas. Porém, como seu próprio título mostra, o capítulo meramente
esboçado que vem na sequência dá a conhecer o que ainda precisaria se-
guir-se, a saber, o tratamento dos “deveres éticos dos seres humanos entre
si, relativos a seu estado” (MS, AA 06: 468.15ss). Para tanto, seria ainda
preciso – e, decerto, para a própria aplicação daqueles princípios de virtu-
de a priori originados na razão – tematizar o ser humano especicamente
empírico e situado, ou ainda, conforme a formulação desse capítulo, a
aplicação do princípio de virtude [...] a casos apresentados na experiência,
segundo a variedade dos sujeitos” (MS, AA 06: 468.23ss). Nesse pequeno,
porém importante capítulo, entre os exemplos dados por Kant a respeito
dos aspectos sob os quais podem ser distinguidos os destinatários da rea-
lização de um dever, encontram-se os seguintes: o seu estado cultivado ou
não, sua posição social, idade, gênero, riquezas. Naturalmente uma lis-
tagem desse gênero não pode completa, uma vez que os pontos de vista
A linguagem em Kant. A linguagem de Kant.
| 75
são extraídos da abundância de relações empíricas. Em razão de mudanças
históricas, como, por exemplo, nos casos de transformações sociais ou tec-
nológicas radicais, alguns pontos de vista podem surgir ou deixar de existir.
Por exemplo, a “variedade de estamentos” ainda mencionada por Kant
(MS, AA 06: 469.03ss) pode tornar-se irrelevante.
Dessa caracterização deve depreender-se qual tipo especíco de
regras a ciência projetada, ou seja, a antropologia pragmática, poderá ge-
rar – e qual não. Em razão de sua dependência em relação à empiria, os
preceitos a serem alcançados não poderão reivindicar uma origem na razão.
Segundo Kant, portanto, eles não podem “constituir efetivamente uma
parte dos primeiros princípios metafísicos da doutrina da virtude” (MS, AA
06: 468.21ss). Com isso se explica a brevidade do capítulo que lhes é de-
dicado na Metafísica dos Costumes. A exigida atenção às relações empíricas
dos destinatários da realização de um dever, como, por exemplo, a atenção
à sua idade e gênero, não faz surgir, novamente segundo Kant, “outras
tantas espécies de obrigação ética” (MS, AA 06: 469.06ss). Através disso,
portanto, não se fornece nem um único dever ético. O que é fornecido,
contudo, são “tipos de aplicação” (MS, AA 06: 469.07) dos deveres éticos,
que são especicados por meio da variedade empírica dos estados dos su-
jeitos. O tipo buscado de regra é o da regra de aplicação. Dessa maneira,
o que pode ser esperado de uma antropologia pragmática é um enrique-
cimento da normatividade ética a priori – chamada por Kant ao menos
uma vez de “escolástica” – por meio de uma normatividade de aplicação
saturada de empiria.
Ora, o que a arte em geral e a poesia em particular podem con-
tribuir para uma antropologia pragmática, na medida em que elas per-
guntam por aquilo que o ser humano pode fazer de si e na medida em
que elas, em prol da aplicação de princípios de virtude, consideram os
seres humanos na multiplicidade das formas especícas em eles apare-
cem? As respostas serão formuladas a partir do conceito central para a
teoria artística de Kant: trata-se do conceito de ideia estética. Segundo
uma pequena denição da terceira Crítica, a arte e, com efeito, a bela arte
(será discutida ainda de uma outra arte, a saber, a arte agradável) é “ex-
pressão de ideias estéticas” (KU, AA 05: 320.11). Por sua vez, uma ideia
Monique Hulshof e Ubirajara Rancan de Azevedo Marques (Org.)
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estética é “uma representação da faculdade de imaginação associada a um
conceito dado” (KU, AA 05: 316.19ss).
Ressaltemos aqui primeiramente o conceito dado ao qual a fa-
culdade da imaginação acresce representações, justamente ideias estéticas.
Embora evidentemente não constitua o que há de especíco na represen-
tação artística, ele é sua condição necessária. Dito de outra forma, nas
palavras de Kant, a bela arte pressupõe no artista, no gênio, “um conceito
determinado do produto como m, por conseguinte entendimento” (KU,
AA 05: 317.24ss). Ao ter de colocar antes “como fundamento um conceito
daquilo que a coisa deva ser” (KU, AA 05: 311.23ss) e que ele se põe a re-
presentar, o artista está, segundo a denição kantiana da bela arte, atado a
um tema passível de ser nomeado. Essa não é uma condição necessária para
a arte segundo a atual compreensão mais comum de arte. Porém, antes de
querer atribuir a Kant uma visão obsoleta de arte, cumpre reconhecer que
também para ele representações artísticas são pensadas e discutidas sem um
determinado tema conceitual, como, por exemplo, sob a rubrica de jogos
de cores e sons. Mas essas artes recebem apenas o título de arte agradável,
na medida em que lhes corresponde apenas um jogo de sensações e não
um pensamento determinado. Será discutido, ao menos brevemente, por
qual motivo a música ainda pode, sob essas condições, ser considerada, na
terceira Crítica, uma das belas artes. Aqui ela consegue isso apenas com
muito esforço e diculdade, não tendo chance alguma de obter a “vitória
no concurso das artes.
Como já dito, o conceito determinado é meramente a conditio
sine qua non da bela arte, não o que é lhe especíco. O que lhe é espe-
cíco é a ideia estética, isto é, uma representação da faculdade livre de
imaginação que oferece, “além daquela concordância com o conceito [...],
uma matéria rica e não elaborada para o entendimento, a qual este não
considerou em seu conceito” (KU, AA 05: 317.01-03). Os atributos es-
téticos representados pelas ideias estéticas não constituem, segundo Kant,
a representação” do “conceito dado mesmo” (KU, AA 05: 315.09ss). Por
exemplo, no caso de um conceito empírico, essa representação do conceito
mesmo seria meramente a representação de suas notas características ana-
líticas, ou seja, contidas nele. Em outras palavras, ela seria meramente o
A linguagem em Kant. A linguagem de Kant.
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esquema empírico desse conceito, por meio do qual seus atributos lógicos
seriam representados em uma imagem, com efeito, em uma espécie de
imagem universal que, enquanto tal, seria intuitivamente subdeterminada.
Diferentemente de atributos analíticos, as ideias estéticas são – na
linguagem aqui empregada da teoria kantiana do juízo e dos conceitos –
atributos sintéticos. Em conformidade a isso, ele denomina a ideia estética
uma “representação da faculdade da imaginação associada a um conceito
dado” (KU, AA 05: 316.19ss), a qual “amplia esteticamente [...] o con-
ceito” (KU, AA 05: 315.03ss); ele a denomina “representação secundária
da faculdade da imaginação” (KU, AA 05: 315.10ss). Porém, essa última
caracterização não poderia de forma alguma ser compreendida como se se
tratasse de representações de segunda classe ou irrelevantes; para além do
conceito, isto é, fora do conceito, elas são como aqueles atributos estéticos
sintéticos. Pelo contrário, será possível até mesmo atribuir-lhes uma parti-
cular importância. Acabamos de discutir a relevância de seu conhecimen-
to, pois era expressamente o entendimento que poderia receber pelas ideias
estéticas a uma matéria rica.
A importância do conhecimento da arte, por conseguinte das
ideias estéticas, é também expressa quando Kant descreve a atuação artís-
tica da faculdade da imaginação e designa esta diretamente como “facul-
dade de conhecimento produtiva”: “A faculdade da imaginação (enquanto
faculdade de conhecimento produtiva) é [...] muito poderosa na criação
como que de uma outra natureza a partir da matéria que a natureza efetiva
lhe dá. Nós entretemo-nos com ela sempre que a experiência pareça-nos
demasiadamente trivial [...]” (KU, AA 05: 314.09-12). Quando atuamos
artisticamente, tomamos emprestado da natureza, Kant prossegue, “a ma-
téria, a qual porém pode ser reelaborada por nós para algo diverso, a saber,
para aquilo que ultrapassa a natureza” (KU, AA 05: 314.18ss).
Segundo essa caracterização, a faculdade artisticamente produtiva
da imaginação gera um aumento de signicância, e, decerto, em compara-
ção com o indiferentismo da experiência cotidiana. A esfera de uma outra
natureza por ela aberta não é a esfera de disparates originários ou de formas
fantasiosas delirantes, pois a ligação ao conceito dado ainda existe, assim
como a ligação à matéria da natureza efetiva. Ela parte da experiência coti-
Monique Hulshof e Ubirajara Rancan de Azevedo Marques (Org.)
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diana de uma determinada classe, portanto, de um conceito de experiência
dado, como, por exemplo, do conceito de uma relação amorosa entre os
sexos – um tema caro na arte. O imenso conjunto de casos pensado pelo
mero conceito, o conjunto no interior da esfera de seu conceito – como, por
exemplo, o conjunto de relações amorosas – tem uma grande indistinção
estética, na medida em que nenhum deles não pode ser colocado diante dos
olhos, fazendo-o assim surgir como algo intercambiável, portanto indiferen-
te. Na primeira natureza, da qual a faculdade da imaginação faz uma segun-
da, o conceito é especicado de várias maneiras. Dito de outro modo, por
meio de suas instanciações ele tem uma variedade de predicados sintéticos
que, tomado como um simples conceito abstrato, não o tematizam, sendo,
portanto, indiferentes. Ora, o papel da faculdade da imaginação produtiva
atuante artisticamente é obviamente o de superar essa indiferença e por meio
de suas cções colocar casos diante dos olhos. Como Kant arma em uma
preleção de antropologia, o objeto recebe “mais distinção, pois a perfeição
lógica pode ser sempre elevada pela perfeição estética” (V-Anth/Pillau, AA
25,2: 771.14ss). Após esse processo de tornar intuitivo, põe-se diante dos
olhos – para nos referirmos ao exemplo mencionado de um conceito dado –
Romeu e Julieta ou Hermann e Dorothea. Entre os predicados estéticos do
conceito de amor que a faculdade da imaginação retira da indiferença e aos
quais lança luz, mencionemos o amor no contexto de famílias inimigas, no
primeiro caso, e o fato de ser considerável a diferença de posição social dos
amantes, no segundo caso.
O papel da faculdade da imaginação produtiva atuante artistica-
mente é obviamente o de, do conjunto de predicados sintéticos, isto é, da
matéria da natureza primordial, destacar uma coisa como relevante e des-
cartar outra. A composição do que é relevante, que não está composto desta
forma na primeira natureza, faz obviamente surgir algo novo de maior im-
portância. De forma correspondente, a originalidade é a exigência funda-
mental que Kant faz ao artista (cf. KU, AA 05: 318). A isso corresponde a
exigência de que a obra de arte seja exemplar. Requer-se com isso muito mais
do que meramente um caso de subsunção do conceito dado. Ademais, o que
é exemplar requer a mencionada associação de atributos estéticos, ou seja, in-
tuitivos, que a faculdade da imaginação extrai como relevantes do conjunto
A linguagem em Kant. A linguagem de Kant.
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de predicados sintéticos, deixando de lado os irrelevantes. De resto, trata-se
aqui de modo geral da arte na ideia, isto é, da boa arte, não da ruim. Da ma-
neira esboçada aqui, a faculdade da imaginação utiliza apenas uma matéria
oferecida pela primeira natureza, produzindo por meio da sedimentação do
que é relevante <Relevanzverdichtung>, contudo, algo novo, isto é, algo que
é maior em sua signicância e que, por sua vez, oferece nova matéria para a
reexão do entendimento. A nova matéria vem se acrescer à abstração daqui-
lo que se denomina o conceito dado, sendo, entretanto, puricada de tudo
aquilo que é apenas marginalmente empírico.
A passagem mencionada no início, na qual Kant atesta às peças
teatrais e aos romances uma utilidade para a antropologia pragmática e, as-
sim, indica que elas criam algo da natureza e são ao mesmo tempo exagera-
das em grau (cf. Anth, AA 07: 121. 27ss), pode ser lida da seguinte forma:
sobretudo em razão desse exagero elas podem ser úteis, se por isso se enten-
da a denominada sedimentação do que é relevante. Novas possibilidades
de ação podem ser colocadas diante dos olhos pelas constelações intuitivas
produzidas experimentalmente por meio da faculdade poética da imagina-
ção a partir da matéria selecionada, portanto considerada signicativa, do
fazer e deixar de fazer efetivo do ser humano. Assim, uma tal arte seria útil
para a antropologia pragmática sob o aspecto de potencialidade, isto é, sob
o aspecto cujo tema é aquele sobre o que o ser humano pode fazer de si.
A arte pode servir como um instrumento também sob o tercei-
ro dos aspectos mencionados. Como já dito, a antropologia pragmática
tem de ser acrescida à moral pura para a aplicação desta. Segundo Kant, a
doutrina pura da moral é decididamente uma disciplina não-empírica que
extrai suas leis da razão prática pura e que tematiza o ser humano enquanto
ser humano, isto é, como o ser de uma determinada espécie. Porém, na
aplicação desta lei ao mundo é preciso ainda que ele seja tematizado em
relação a seu estado, isto é, como empiricamente especicado e situado.
Ademais, de acordo com a Metafísica dos Costumes, são exigidas regras de
aplicação. Essas precisam, por um lado, permanecer ligadas à regra a priori
e, por outro, levar em conta as especicações empíricas. Enquanto regras,
elas precisam, em conformidade com essa segunda exigência, apresentar
uma certa universalidade empiricamente comparativa. Para tanto, elas
Monique Hulshof e Ubirajara Rancan de Azevedo Marques (Org.)
80 |
não podem considerar como equivalentes todas as especicações empíri-
cas. Para além de tal equivalência, algumas especicações empíricas, sob o
ponto de vista da norma, precisam se destacar como signicantes e outras
precisam ser deixadas de lado como negligenciáveis. Exatamente aqui a
arte pode contribuir, ao retirar sua matéria da experiência, ao mesmo tem-
po, contudo, em que a liberta do contexto nivelador do que é cotidiano e
irrelevante, e, assim, alcança uma sedimentação do que é relevante, por-
tanto algo que – nas palavras de Kant – “ultrapassa a natureza” (KU, AA
05: 314.19). É plenamente possível denominá-lo exagero (cf. Anth, AA
07: 121.27). Consequentemente, é exigido do artista, do gênio, que ele
não ofereça uma mera imitação, mas, antes, demonstre a originalidade de
gerar seu produto como um produto exemplar (cf. KU, AA 05: 318). Com
a obra de arte exemplar, portanto, da mera matéria do mundo surge algo
de novo no mundo que oferece ao entendimento também nova matéria
para reexão, por exemplo, sobre a possibilidade de aplicação da moral sob
condições empíricas que se põem diante dos olhos como relevantes.
Com o que foi dito até aqui criam-se as condições para que fa-
lemos das diferentes capacidades, ou ainda, do diferente valor das belas
artes. Devemos falar aqui de suas manifestações puras, ou seja, não do
teatro musical, por exemplo, no qual entram elementos das artes visuais e
da arte da palavra, mas, antes, da música puramente tonal. Ora, essa deve
ser mencionada logo no início, pois ela, segundo Kant, está o mais distante
possível de obter a vitória e até mesmo corre o risco de sequer ser incluída
nas belas artes. Mas a justicação para rebaixar a música é de fato particu-
larmente interessante – mais interessante do que a justicação do motivo
de as artes visuais estarem numa posição intermediária –, na medida em
que ela, por contraste, prepara a justicativa para a prevalência da poesia.
Das esparsas passagens de Kant sobre a música – as quais na
Crítica da Faculdade de Julgar levam, no seu todo, a contá-la como perten-
cente às belas artes, ao passo que, na Antropologia, como não pertencente a
elas –, consideremos em primeiro lugar aquelas que apoiam a sua exclusão
das belas artes. A passagem central para tanto é a seguinte: a música fala
por puras sensações sem conceitos” e “ao contrário da poesia, não deixam
nada para a reexão” (Recl. S. 269, KdU). No manuscrito de uma prele-
A linguagem em Kant. A linguagem de Kant.
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ção (V-Anth/Mensch, AA 25,2: 999.29.31), é dito sobre os sons em geral
que eles não dão “nenhum conceito” e que não é possível “pensar algo em
nenhum deles”. Essa caracterização vai claramente de encontro à denição
kantiana da arte, pois por esta são exigidos um conceito dado, portanto
um tema passível de ser nomeado, e, ademais, as ideias estéticas associadas
da faculdade da imaginação, que, por sua vez, oferecem ao entendimento
uma nova matéria para a reexão.
De acordo com a descrição acima, a música pertence não às belas
artes, mas sim às artes agradáveis, que proporcionam um mero agrado,
mas que sob esse aspecto, a saber, “avaliadas segundo a sua agradabilida-
de”, merecem “talvez o posto mais alto” (KU, AA 05: 329.30). Como se
lê nas preleções mencionadas há pouco, por meio do “jogo harmônico de
sensações” realizado pela música “o sistema nervoso [...] se movimenta e se
vivica harmonicamente” (Anth/Mensch AA 25.2: 986. 10ss), e, de fato,
o “sentido vital [...] se fortalece” (Anth, AA 07: 155.28-30). Contudo, em-
bora mantenha “o ser humano vivicado e saudável” (V-Anth/Mensch, AA
25.2: 998.20ss), ela precisa, enquanto um jogo de sensações, ser atribuída
à sua parte passiva” (Anth, AA 07: 136.15). Sendo assim, ela não dispõe
o ser humano à atividade, o que, como devemos lembrar, é o ponto de
vista inicialmente mencionado sob o qual a poesia é merecedora de elogio
e de um particular interesse na antropologia pragmática. Pelo contrário,
como a Antropologia explicitamente o faz (cf. Anth, AA 07: 136), a música,
segundo a caracterização feita até aqui, deve ser atribuída à antropologia
siológica. Como também devemos lembrar, a antropologia siológica te-
matiza “o que a natureza faz do ser humano” (Anth, AA 07: 119.12), e não
aquilo que ele mesmo pode e deve fazer de si. E para mencionar mais uma
característica que minimiza o signicado da música para a antropologia
pragmática: segundo Kant, ela deixa atrás de si “uma sociedade sem pala-
vras”, não estabelecendo, portanto, “nenhuma conversação, a qual requer
comunicação recíproca dos pensamentos” (Anth, AA 07: 277.29-31). Mas
exatamente este – a exigência de troca de pensamentos – é um motivo que
se repete tão frequentemente nos escritos de Kant que nele podemos reco-
nhecer um importante benefício da ciência que pergunta por aquilo que,
na aplicação de princípios morais, favorece a realização destes.
Monique Hulshof e Ubirajara Rancan de Azevedo Marques (Org.)
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Coloca-se aqui a seguinte pergunta: o que na música motivou
Kant – ao menos até a terceira Crítica – a incluí-la nas belas artes? A pista
a ser encontrada é a seguinte: embora referido a um campo bem estreito,
a música pode ter um “tema” e através dele ultrapassar o nada signica-
tivo jogo reconfortante de sensações; ela pode designar algo, a saber, um
afeto, e torná-lo o “afeto dominante na peça” (KU, AA 05: 329.08ss). Ele
poderia ser, digamos, alegria ou tristeza. Kant coloca a arte do som nesse
contexto em analogia com o aspecto sonoro da linguagem. A “modulação
na linguagem seria “uma linguagem universal das sensações compreensível
a todo ser humano” (KU, AA 05: 328.19ss). A arte do som expressa essa
linguagem “por si só em toda a sua ênfase” (KU, AA 05: 328.20ss). Dessa
maneira, ela expressa, por exemplo, o afeto da felicidade, ainda que iso-
lado enquanto tal, ou seja, sem que se trate da alegria por qualquer coisa
determinada. Nesse contexto, Kant concede que a música possa expressar
uma ideia estética, ou seja, que ela possa satisfazer a condição essencial de
pertencimento às belas artes, o que dicilmente era de se esperar. Seria
possível entender isso da seguinte forma: o afeto por si só tematizado é
evocado pela música em toda a sua amplitude, com toda a sua intensidade
e nuances, com “toda a sua ênfase” (KU, AA 05: 328.21). Medido à luz
das inúmeras experiências internas que o destinatário tem desse afeto ou à
luz do padrão normal de seu surgimento, o afeto é evocado pela música de
forma intensicada, como arma Kant, com uma “indizível profusão de
pensamentos” (KU, AA 05: 329.08). Mas produzir algo que ultrapasse a
natureza e acrescer ao padrão normal uma grande quantidade de represen-
tações secundárias relevantes é justamente a marca de uma ideia estética.
Porém, apesar de tudo isso, Kant considera pequeno o ganho ob-
tido, quando “se avalia o valor das belas artes segundo a cultura que elas
proporcionam ao ânimo” (KU, A 05: 329.25ss). Dito de modo geral, a
razão dessa sua avaliação é a escassa intelectualidade da música. Ela pode
até causar um ganho na sensibilidade que, no entanto, pelo menos para
Kant, permanece decitário enquanto tal, a saber, sem conceito. Na me-
dida em que absolutamente não “ produz nenhum conceito” (V-Anth/
Mensch, AA 25,2: 986.03ss) e, portanto, “ao nal nada é pensado” (KU,
A linguagem em Kant. A linguagem de Kant.
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AA 05: 332.08), ela permanece sendo a menor das belas artes e até mesmo
corre o risco de ser rebaixada para a classe das artes agradáveis.
Para Kant, algo bem diferente ocorre com a poesia. Os “po-
etas” falam diferentemente dos “artistas do som”, como se lê em uma
passagem da Antropologia na qual os últimos surgem, por sua vez, uni-
camente como virtuoses do sentir, “também para o entendimento
(Anth, AA 07: 247.21ss). Como já fora armado na terceira Crítica,
a poesia se mantém no “interior das fronteiras de um conceito dado
(KU, AA 05: 326.25ss). Com efeito, ela amplia representações concei-
tuais até intuições produzidas a partir da faculdade livre da imaginação,
isto é, até ideias estéticas, o que, no entanto, não signica romper as
fronteiras do conceito, mas, sim, no decorrer de sua exposição, acrescer
atributos sintéticos aos seus atributos analíticos já expostos. O que se
ganha com esse acréscimo é a “novidade da exposição de um conceito
[...], ainda que o conceito mesmo não deva ser novo” (Anth, AA 07:
247.25-27, nota). Essa novidade é, segundo Kant, “uma exigência ca-
pital que a bela arte faz ao poeta” (Anth, AA 07: 247.25ss).
Em sua “apologia da sensibilidade” na Antropologia Kant repro-
duz – dando-lhe absoluta concordância – o elogio que as “pessoas de gos-
to” fazem à poesia, do qual faz parte a armação de que ela, na “sensibili-
zação dos conceitos do entendimento”, ultrapassa aquilo que seria possível
de encontrar por análise de conceito, exprimindo a “expressividade” com
abundância de pensamento” e mobilizando, para tanto, “a ênfase (reite-
ração) da linguagem” (Cf. Anth, AA 07: 143). Por meio disso, novamente
segundo a terceira Crítica, dá-se “vida aos conceitos por meio da faculdade
da imaginação” (KU, AA 05: 321.33ss). Ao realizar isso, a poesia “permite
sentir [uma] faculdade livre, espontânea e independente da determinação
da natureza”, “contemplando e ajuizando a natureza como fenômeno”, da
qual faz parte preferencialmente a natureza humana fenomênica, “ segun-
do pontos de vista que ela não oferece por si na experiência nem ao sentido
nem ao entendimento” (KU, AA 05: 326.31-34). Da ilimitada diversidade
das especicações de um conceito oferecidas na experiência, ou seja, sua
matéria, o poeta seleciona o que é exemplar e relevante e disso cria produ-
tos nos quais se sedimenta <verdichtet> o que há de essencial da natureza
Monique Hulshof e Ubirajara Rancan de Azevedo Marques (Org.)
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especíca do ser humano. Ela oferece por meio disso uma matéria nova e
concentrada à reexão, também e já sob os aspectos de uma antropologia
pragmática, que pergunta por aquilo que o ser humano, com vistas à sua
natureza humana especíca, pode e deve fazer de si. Em uma preleção de
antropologia Kant arma que a arte não apenas abre novas possibilidades
de pensamento, mas também visa modicações efetivas de estado, ou seja,
pretende atuar de forma contrafática. Kant dá aqui a seguinte resposta à
pergunta: “por que temos de fazer poesia?”: “Parece haver algo em nos-
sa natureza pelo qual nosso estado não nos agrada muito [...]” (V-Anth/
Mensch, AA 25,2.: 990.27-29).
Ora, a pergunta sobre por que a poesia obtém a vitória não ape-
nas em relação à música, mas também em relação a todas as outras artes,
por que somente nela, como Kant diz, “a faculdade de ideias estéticas se
mostra em toda a sua extensão”, pode ser respondida com uma referên-
cia a seu instrumento de expressão. São as excepcionais capacidades da
linguagem que lhe proporcionam tal distinção. Por meio da linguagem
são satisfeitas da melhor maneira as duas exigências cruciais formuladas
na denição de arte, a saber, por meio dela são designados conceitos, por
um lado, mas também as intuições acrescidas da faculdade da imaginação
sob o nome de ideias estéticas, por outro. Em conformidade com seu lado
discursivo, a linguagem dispõe da palavra, que, enquanto “sinal (character)
[,] acompanha o conceito apenas como guardião (custos) para reproduzi-lo
oportunamente” (Anth, AA 07: 191.16-18). Além disso, enquanto lin-
guagem gurativa, ela também pode ser atribuída ao modo simbólico de
representação: “a nossa linguagem está repleta de [...] apresentações indi-
retas segundo uma analogia, pela qual a expressão não contém o esquema
[...] para o conceito, mas [...] um símbolo para a reexão” (KU, AA 05:
352.25-28). Na designação por analogia mediante o lado simbólico da lin-
guagem pode-se muito bem lançar mão “também de intuições empíricas”
(KU, AA 05: 352.12).
A versatilidade da linguagem como instrumento de expressão não
é atingida por nenhum outro gênero artístico, tampouco pela arte visual
– aqui ainda pouco mencionada. Kant não duvida que a arte visual possa
expressar ideias estéticas. No entanto, ao qualicá-la como uma arte que,
A linguagem em Kant. A linguagem de Kant.
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pelos seus produtos, faz “a própria coisa como que falar mimicamente” na
intuição dos sentidos, Kant a rebaixa. Assim como a expressão por gestos,
a mímica é um mero sinal visível, o que equivale ao valor de sua com-
preensão. Sobre os gestos, Kant arma – novamente em uma preleção de
antropologia – que de fato é possível “elucidar” algo por meio deles, “ainda
que em um grau mais imperfeito do que por meio de palavras” (V-Anth/
Mensch, AA 25,2: 1027.02ss). Por m, o motivo de a poesia obter a vitória
repousa, pois, nas excepcionais possibilidades do meio de expressão que é a
linguagem: “toda linguagem é designação de pensamentos e, inversamen-
te, a forma mais primorosa de designar pensamentos é pela linguagem,
esse meio máximo de entender a si mesmo e aos outros” (Anth, AA 07:
192.29-31).
| 87
Capítulo 3.
«E  , (...)  -
 ».
S    
  K
Fernando M. F. SILVA
I.
Quando, no §49 da terceira Crítica, Kant se refere ao tópico da
poesia
1
, o lósofo fá-lo com sobejo destaque, reiterando o que sobre o tópi-
O tópico da poesia sempre foi um tópico pouco abordado em Kant; uma tendência que, felizmente, os
últimos anos vêm invertendo. De entre os mais recentes contributos, e excepções à anterior regra, salientamos:
MCLAUGHLIN, Kevin, Poetic Force. Poetry after Kant, Stanford: Stanford University Press, 2014; PENNY,
Laura, “e highest of all the arts: Kant and Poetry”, in Philosophy and Literature, 32, p. 373-384, 2008;
HLOBIL, Tomás, “Immanuel Kant on Language and Poetry: Poetry without Language”, in Kant-Studien, 89,
1, p. 35-43, 2009; PARK, Roy, “Coleridge and Kant: Poetic Imagination and Practical Reason, in e British
Journal of Aesthetics, Vol. 8, 4, p. 335-346, 1968. SILVA, Fernando M. F., “«e combined force of sensory
impressions»: Kant’s view on the benets of Poetry to Philosophy”, in Kant’s shorter writings: Critical paths
outside the Critiques. Kant shorter writings, ed. Robert Hanna, Robert Louden et. al., UK: Cambridge Scholars
Publishing, p. 68-82, 2016.
Monique Hulshof e Ubirajara Rancan de Azevedo Marques (Org.)
88 |
co dissera nas Lições de Antropologia e no “Opponenten-Rede” (AA XV.2:
903-935), e viria a rearmar na Antropologia de 1798. A poesia, arma
Kant, é a própria “faculdade da apresentação de ideias estéticas” (AA 5:
313-314)
2
–, e, enquanto tal, ela é “princípio vivicante do ânimo” (id.:
313): aquilo que, mediante o génio, ou o espírito, “põe em movimento as
faculdades do ânimo” (ibid.), e assim “vivica a alma” (ibid.).
Ao contrário das anteriores, e também posteriores ocasiões, po-
rém, Kant é aqui mais explícito sobre o porquê de tão merecido destaque
e tão nobre função da poesia no seio do espírito humano; e, diz a este
respeito o lósofo, este destaque e nobreza devem-se a factores diametral-
mente opostos, quase até auto-supressivos: a saber, por um lado, à neces-
sária inefabilidade – à impossível conceptualização, ao impossível trazer à
linguagem – do efeito das imagens da poesia; por outro, não obstante, à
não só possível, mas necessária e universal comunicabilidade do efeito des-
sas mesmas imagens.
Por outras palavras – Kant explica –, a poesia é constituída por
ideias estéticas; e porque a ideia estética “substitui a apresentação lógica
para aquela ideia da razão, no fundo porém para vivicar o ânimo, en-
quanto abre para este a perspectiva de um campo incalculável de repre-
sentações ans” (id.: 315), então as ideias estéticas são representações da
faculdade de imaginação que por certo “dão muito que pensar” (id.: 314);
pois elas, por assim dizer, ocasionam mais-pensar, e por isso precisamente
vivicam a alma” (id.: 313).
O problema, porém, é que nesta substituição do lógico pelo imagi-
nativo, neste diálogo entre antigo e novo, entre consciente e inconsciente,
racional e fantasioso – numa palavra, neste mais-pensar –, o fenómeno da
poesia aparenta ver-se cindido em duas tendências opostas, e porém depen-
der desta incongruência. A saber, por um lado, as criações ou novas imagens
da poesia são mola propulsora do espírito; mas, porque, justamente, elas
permitem pensar mais do que se pode expressar num conceito determina-
do por palavras” (id.: 315), então, diz Kant, “não há porém qualquer pen-
samento determinado, isto é, conceito, que lhes possa ser adequado” (id.:
Com respeito às citações de Kant, recorremos ao método: Abreviatura da obra, número de volume, número de
página. A tradução das mesmas para língua portuguesa é da minha autoria.
A linguagem em Kant. A linguagem de Kant.
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314). Pois para as criações da poesia “não se encontra nenhum exemplo na
natureza” (ibid.); e portanto, delas não só não pode ter o entendimento
nenhum conceito, como a elas, “nenhuma linguagem alcança inteiramente
nem pode tornar compreensível” (ibid.); e portanto, diz-se, as imagens da
poesia são inexprimíveis e inefáveis.
Por outro lado, porém – aduz Kant –, tais criações são, apesar
da sua indizibilidade, propriamente humanas, e não apenas subjectivas; de
outro modo, convenhamos, o tópico da poesia não seria por Kant incluído
na “Análise à Faculdade de Juízo Estética”. E por conseguinte, diz Kant,
poderá até ser que tais representações sejam na sua novidade, na sua sub-
jectividade própria, inefáveis; mas porque também elas não podem provir
do nada, e nelas, na disposição das faculdades do ânimo, na vivicação da
alma, tem de haver ulteriormente proporção e conformidade a um m (cf.
id.: 313), então as novas imagens da poesia, e seu efeito, têm de vir a ser,
apesar da sua inefabilidade, “universalmente comunicáveis” (id.: 317) – isto
é, elas têm de vir a tornar-se no espírito de todos, e para todos do mesmo
modo, inteiramente compreensíveis e dizíveis. Pois isso mesmo, diz Kant,
é o singular fenómeno do espírito, e isso mesmo é o por ora aparentemente
paradoxal efeito da poesia: que ela traga à alma humana, sob uma forma
universalmente compreensível, não apenas imagens, mas justamente criações
que em si são inefáveis, e nisso contrariam já o próprio motivo da comunicação
– e isso, vê-se-já, sem que assim se desvirtue tal inefabilidade, que é dela
própria, nem tão-pouco este seu propósito de comunicação, que no fundo
lhe é também essencial.
Até que isto seja alcançado; isto é, até que da poesia se possa ter
uma tal visão híbrida, o conceito kantiano de poesia permanece votado
ou à sua inefabilidade, ou à sua comunicabilidade universal; ou pior, no
entender de Kant, ele permanece votado à sua total dizibilidade, e conse-
quente total incomunicabilidade, o que para o lósofo mais não seria do
que desvirtuar esta tão singular e fértil linha que na poesia une e separa pa-
lavra e espírito, racional e imaginativo, individual e universal. E com isto,
falhar-se-ia por inteiro o que de ambos os planos, e todos os elementos que
os constituem, nos diz o conceito de poesia.